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AS BASES BÍBLICAS DO PASTORADO FEMININO

Uma Breve Introdução ao Igualitarismo Evangélico.


Everton Edvaldo, Recife (2020)
As Bases Bíblicas do Pastorado Feminino: Uma Introdução ao
Igualitarismo Evangélico

Copyright © 2020
Edição e Revisão: Everton Edvaldo.
Capa: Menezes Neto.
Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de
19/02/1998. É expressamente proibida a reprodução oral parcial
deste livro, por quaisquer meios (eletrônicos, mecânicos,
fotográficos, gravação e outros), sem prévia autorização, por escrito
do autor.

SANTOS, Everton Edvaldo Fonseca dos. As


Bases Bíblicas do Pastorado Feminino. 1 Ed.
2020, Recife.

Índice para Catálogo Sistemático:


1. Vida cristã. 2. Bíblia 3. Ofícios Eclesiásticos
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
SUMÁRIO

Prefácio
Introdução:
Cap. 01: A liderança feminina na Criação
Cap. 02: A liderança feminina no Antigo Testamento.
Cap. 03: A liderança feminina no Novo Testamento.
Cap. 04: Dúvidas mais frequentes sobre o Tema
Cap. 05: Colocando os complementaristas em ‘maus
lençóis’.
Cap. 06: Uma reflexão sobre a Carta Magna da
Humanidade
Conclusão:
Referências
Prefácio
Um labor que holisticamente tem como proposta defender
efusivamente a liderança feminina, inclusive pastoral, sem
ideologias indevidas, mas com uma preocupação teológica
primacial, tem que ser lido por quem concorda ou não com tal
perspectiva que estar a ser tratado nele, ou até por quem tem uma
percepção “híbrida”. Sendo assim, temos aqui um livro que fortalece
quem concorda com o que o autor tenta provar, um excelente
contraponto interessante para quem “discorda”, e uma provocação
aos quem ainda não tem uma definição.
Endossar um trabalho assim não é pelo fato então de aceitar
diretivamente e imperativamente tudo o que é desenvolvido pelo
autor, mas sem dúvidas admitir seu saudável desejo, e que
podemos então concordar que suas perspectivas não existem do
“nada”. Temos assim neste livro um “multiverso” de possibilidades
necessárias, para que este assunto não seja trabalhado por
ideações feministas e modinhas, nem por machismos e
engessamentos tolos. Somente a Bíblia é “canônica”. Somente as
Escrituras Sagradas é sim, infalível e inerrante. Sendo assim, tenho
a alegria de saber que neste material desenvolvido pelo autor, não
há uma proposta de uma “palavra final” sobre o assunto, mas de
vanguarda no pensar sobre o assunto. E em um mundo “líquido”, a
“solidez” de devidas conversas é urgente, justa e necessária.
Penso também que em um mundo dominado pelo
“politicamente correto”, onde assuntos como este é tratado sem
pesquisa, conhecimento bíblico indutivo, uma sensata teologia
analítica, conexões teológicas amplificadas e por uma espécie de
ilações convenientes de uma ideação do tipo “Ctrl C”, “Ctrl V”
(copiando e colando), temos neste material, bons conceitos
estabelecidos e não “fórmulas prontas”. A liderança é uma grande
responsabilidade. Liderar não é meramente “mandar” nos outros.
Liderar é também guiar, orientar, exortar, ensinar e preparar as
pessoas. Sendo assim as mulheres exercem isto em muitos níveis,
até mesmo invisivelmente, sem credenciais eclesiásticas por vezes
e “ordenações”.
Particularmente entendo que a liderança feminina, de modo
geral, pode ser exercida, com algumas ponderações em relação a
um possível pastorado. Por exemplo, há bases para entendermos
que há “camadas e níveis de pastorado” nas Escrituras. Isto fica
claro quando fazemos uma macro análise hermenêutica Contextual
e Cultural, Léxica e Sintática, e até mesmo teológica. Isto posto, o
que temos proposto pelo autor é uma reflexão que é concordante
com a necessária temperança que temos de ter em tudo,
principalmente neste atual “modus vivendis” que não sabe lidar com
o contraditório. E assim, desejo que cada leitor compreenda a
seguinte verdade bíblica: “Lembrem-se dos seus líderes, que
transmitiram a palavra de Deus a vocês. Observem bem o resultado
da vida que tiveram e imitem a sua fé” (Hebreus 13:7).
Linaldo Junior (Pastor, Professor, Teólogo)
Introdução:
Geralmente, quando digo que sou a favor do pastorado
feminino, as pessoas que me conhecem como um estudioso sério
das Escrituras, me olham com certa desconfiança. A primeira
pergunta que me fazem é: qual é a base bíblica para o pastorado
feminino? Uma coisa que tenho percebido costumeiramente é que
essa pergunta não vem desacompanhada de pressupostos
pessoais. Como assim desacompanhada? O que quero dizer é que
dependendo de quem está fazendo a pergunta, podem existir várias
motivações, como: desejo sincero de aprendizado, ignorância,
preconceito, curiosidade, ironia, etc. Isto também significa dizer que
nem todas as pessoas estão preparadas para conversar sobre esse
assunto. Por isso, é um grande desafio falar desse tema![1], pois há
pessoas que são contra o pastorado feminino, por diversos fatores
que não são necessariamente motivações bíblico-doutrinárias.[2]
Levando em consideração as motivações desse público tão
diversificado, pretendemos abordar a questão estritamente sob o
prisma das Escrituras para que somente ela seja de fato suficiente.
Então vamos analisar esse assunto à luz de passagens
emblemáticas da Bíblia, tanto do Antigo, como do Novo Testamento.
Falaremos sobre algumas personagens que exerceram liderança e
trataremos de alguns princípios bíblicos que devem nortear nosso
pensamento. Além disso, daremos ênfase em responder as
principais objeções contrárias à liderança feminina na igreja. Boa
leitura!
Capítulo 01
A Liderança Feminina na Criação

Indo direto ao ponto.


Em primeiro lugar, todas as discussões sobre o pastorado
feminino seriam mais fáceis de serem abordadas, se nós déssemos
atenção à “receita e aos ingredientes” e não ao “bolo já pronto.”
Analogia difícil? Vou explicar: as conclusões sobre a base
doutrinária do pastorado feminino depende exclusivamente do papel
que a Bíblia atribui às mulheres[3] . Se conseguirmos discernir isso,
será muito mais fácil chegar a uma conclusão, pois se de acordo
com a Bíblia, a mulher também pode liderar assim como o homem,
então ela pode ser pastora, mesmo que não haja uma referência
direta na Bíblia chamando mulheres de pastoras.
Em segundo lugar, iremos focar nas passagens ou blocos de
passagens que tratam de forma categórica sobre este ponto. Por
exemplo, muitas vezes, acontece de pessoas que são contra o
pastorado feminino, negligenciar esse fato e acabar baseando sua
argumentação em passagens que não falam do papel das mulheres
na igreja, ou passagens que falam do papel das mulheres na igreja
em determinadas regiões ou épocas (e não algo taxativo e de
prescrição universal) ou então passagens onde o assunto é como
os homens devem fazer o que Deus lhes pede e não sobre a
exclusividade da atuação deles no que Deus lhes pede.
Em terceiro lugar, faremos isso, usufruindo de ferramentas
hermenêuticas que dialoguem com a cultura da época, a nossa
cultura, o espírito do N.T, e a própria história de modo geral.
Entendemos que é necessário fazer isso, pois, a Bíblia possui seu
próprio contexto de produção que quando não é discernido, muito
menos reconstruído, acaba nos dando condições turvas de
fazermos nossas conclusões e interpretações. É o que chamo de
visualização histórico-cultural.
Por último e não menos importante: nós precisamos
visualizar que a base doutrinária de algo na Bíblia, não se resume a
referências bíblicas (texto-prova). Esse é o erro de muitos
estudantes das Escrituras, pois, confundem referência bíblica, com
base bíblica. Sobre esse ponto, preciso dizer algumas coisas:
Naturalmente, tudo que tem base bíblica, precisa vir
acompanhado de referências bíblicas, mas a forma como esta se
sistematiza, é apresentada ou se compreende, deve partir desse
ponto, mas não se limitar a ele, do contrário será um culto à letra e
não uma genuína interpretação. Preste bem atenção nisto, pois se
não entender esse dado, não irá compreender todo o resto.
Vou mastigar para vocês: o princípio da liderança feminina na
igreja é algo claramente presente e ensinado nas Escrituras, mas
uma clara e objetiva passagem que falem da ordenação de
mulheres com o título de pastora na Bíblia é inexistente (por
diversos fatores). Nesse caso, a ausência de referências bíblicas
diretas para mulheres sendo chamadas de pastoras no N.T, não
compromete a base de que mulheres podem liderar na igreja, pois
esse princípio é ensinado claramente na Bíblia. Por outro lado, a
ausência de mulheres com títulos de pastoras no N.T e a presença
dessa titulação nos dias de hoje, é explicada pelo processo de
contextualização (que veremos mais adiante) e tendo em vista que
esse processo tem suas raízes já nas Escrituras (a partir dela), a
titulação atual de mulheres como pastoras pode ser vista como algo
extra bíblico, mas jamais antibíblico. Dito isto, vamos à nossa
fundamentação:
A fundamentação bíblica para a liderança feminina
na Criação (Gn 1-3)
Como a nossa intenção (nesse primeiro momento) é
descobrir quais papéis a mulher recebe na Bíblia, precisamos
começar pela criação, onde a mulher aparece pela primeira vez. Na
criação original, homem e mulher são biologicamente distintos, mas
um em essência. Esse era o padrão pré-queda. No entanto, como
que o homem e a mulher aparecem no relato da criação? Bem,
ambos são criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26,27),
ambos são chamados de humanos (Gn 1.26) e ambos são um (Gn
2.23). Portanto, é de se esperar que tanto um quanto o outro,
possam atuar na liderança da criação.
É justamente isso que o autor de Gênesis ensina! No relato
da criação, é dito que Deus ordenou que Adão dominasse sobre
tudo (Gn 1.26). Essa mesma ordem também foi dada a Eva em
Gênesis 1.28. Deus disse para ambos:
“Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra!
Dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos
os animais que se movem pela terra.” (Gn 1.28)
Moisés usou o termo ָ‫שׁה‬ ֑ ֻ ‫( וְכִ ְב‬kabash) que de acordo com o
dicionário Strong significa: sujeitar, subjugar, forçar, manter-se baixo
ou pôr em cativeiro.[4] Ele também usou o termo ‫( ְוּר ֞דוּ‬radah) que
significa: ter domínio, governar, subjugar.[5] Perceba que não há
nenhuma ordem de submissão de Eva à Adão, mas antes, uma
ordem a ambos de submeterem a terra sob o governo do casal. É a
criação quem tem que se submeter a eles. Nada é dito sobre
submissão humana, muito menos feminina...[6]
Isto fica ainda mais claro no capítulo 2 de Gênesis, onde
Moisés relatou com mais detalhes como ocorreu a criação da
mulher. O SENHOR havia colocado Adão no jardim no Éden para
cuidar dele e cultivá-lo. Logo depois, Deus diz: “Não é bom que o
homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe
corresponda.” (Gn 2.18).
Perceba que depois de Deus ter colocado o homem para
liderar e cuidar do jardim, Ele deixa claro que o homem estava só. O
homem não somente vivia só, ele liderava só! Não havia nenhuma
ajuda ou auxílio para Adão. Imagina ter que cuidar daquele imenso
jardim sozinho? Ter alguém que auxiliasse Adão equivalentemente
foi uma necessidade que Deus levou em consideração. Adão nesse
momento, é alguém que precisa de ajuda! A palavra que é traduzida
nas nossas Bíblias por ajudadora ou auxiliadora[7], vem do termo
hebraico ezer cuja conotação aponta para a ideia de alguém que o
socorre. Ao ter como ajudadora Eva, Adão poderia viver, governar e
cuidar do jardim com plena satisfação, pois essa seria uma tarefa e
um papel de ambos. Ao final da criação de Eva, Adão exclama:
“Esta é finalmente o osso dos meus ossos e a carne da minha
carne; ela será chamada mulher ('ishah), pois foi tirada do homem
('ish)” (Gn 2:23). [8]
Ao dizer isso, Adão está na verdade fazendo um contraste
entre os animais e Eva (cf. Gn 2.20). Os animais são diferentes de
Adão tanto biologicamente quanto na execução de papéis. Os
animais não poderiam ajudar Adão a governar a criação, pois
nenhum fazia parte da natureza dele. É por isso que o texto diz que
ao nomear os animais, não foi achado alguém que lhe auxiliasse de
forma correspondente. Já Eva, apesar de ser distinta biologicamente
de Adão, é carne da sua carne[9]. Por isso que ela pode lhe auxiliar
na liderança adequadamente[10]. Simples, não?
Alguém pode exclamar: o próprio fato de Eva ter sido criada
depois de Adão e ter sido feita a partir da sua costela, por si só, já
implica que ela era subordinada ao homem. Esse argumento é
falacioso, pois se aplicado no próprio escopo literário de outras
seções de Gênesis 1, nos levará a uma conclusão errada de que
Adão era subordinado à terra simplesmente por ter sido criado
depois de todas as coisas e feito do pó da terra.[11] Isto significa
dizer que não podemos confundir derivação com subordinação.
Nenhum cristão está disposto a aceitar que por ser criado depois
dos animais, Adão era subordinado a eles. Desta forma, assim
como Adão ao derivar da terra, não era subordinado a ela, o fato de
Eva ter sido derivada de Adão, não pode ser tomado como
evidência de que ela era subordinada a ele[12]. Sobre este ponto, o
reformador João Calvino afirma:
“[O] argumento de que a mulher está sujeita porque foi criada em
segundo lugar, não parece muito forte porque João Batista foi antes de
Cristo no tempo e ainda assim era muito inferior a ele”. (CALVIN 1964,
p. 217)
Pois bem, depois de criada, Eva passou a saber da ordem de
não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 3.3),
uma ordem que foi dada primeiramente a Adão quando Deus o
colocou para cuidar do jardim no Éden e cultivá-lo. Então é claro
que Eva também cuidava do jardim do Éden, juntamente com Adão.
Não faria sentido algum Adão comentar com sua esposa sobre a
ordem de não comer, se Eva não pudesse transitar com autoridade
por todo o jardim. Adão entendeu logo cedo que a missão de cuidar
do jardim não era apenas dele, mas também da esposa, por isso,
seria bom alertá-la para que ficasse bem longe da árvore do
conhecimento do bem e do mal.
Já que ambos tinham autoridade para dominar a criação,
ambos são responsáveis por suas ações no exercício desse
domínio. Essa certamente, não era uma tarefa fácil, pois, ter poderio
sobre a criação exigiria coragem, premeditação, vigilância,
habilidade e muita atenção/observação. O texto é claro em dizer que
Eva tinha liberdade para não somente observar, mas também para
até mesmo chegar perto da árvore do conhecimento do bem e do
mal e é justamente isso que ela faz. Perceba que ambos possuem
protagonismo no Éden. Adão poderia ter impedido sua esposa de se
aproximar da árvore, mas não o fez, pois tinha consciência de que
Eva tinha sua própria autonomia naquele espaço.
Há uma outra informação que não sustenta a ideia de que Eva
era subordinada a Adão: quando Eva come do fruto e também o dá
ao seu marido... Perceba que Adão não oferece nenhuma
resistência quando ela lhe entrega o fruto. Isso não fortalece o
argumento de que Adão era o líder e Eva a liderada, pois o relato
mostra Adão justamente obedecendo sua esposa[13], o que nos leva
a concluir que eles obedeciam mutuamente uns aos outros (cf. Gn
3.6). O problema de Adão não foi em si o fato de dar ouvidos à Eva,
mas de ter dado lugar para a desobediência (Gn 3.17).
Outros detalhes importantes da narrativa bíblica é que quando
Eva e Adão comem da árvore do conhecimento do bem e do mal,
Deus se faz presente no jardim do Éden e ambos se escondem.
Também é dito que Adão joga a culpa em Eva e que Deus chama
ambos para prestar conta (Gn 3.8-13,[14]). Se somente Adão fosse
o responsável por cuidar do jardim, Eva não teria sido chamada à
responsabilidade[15]. Então certamente ela também se destaca
como governante no Éden até o momento em que Deus lhe impõe
uma consequência por conta da desobediência:
“Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento
você dará à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a
dominará.” (Gn 3.16) [16]
Se Eva passou a ser subordinada depois da queda, então é
óbvio que na pré-queda, ela não era subordinada à Adão[17]. O
termo que Moisés usa é Mashal que significa dominar, obter
controle, governar, ter autoridade, etc. Perceba que a mulher perdeu
o status que ela tinha antes da queda.
A Subordinação feminina e o ato de dar à luz com muito
sofrimento é um castigo pós-queda, não um mandamento da parte
do SENHOR[18] e mesmo essa consequência é aplicada apenas nas
relações dentro do lar (o texto fala de Eva como mãe e como
esposa), não nas relações da sociedade ou da igreja, conforme
corrobora o teólogo reformado Roger Nicole (NICOLE 2006). Eva foi
intensamente castigada por ter fugido do seu propósito original.
Aquela que era para dominar sobre a criação, acaba sendo
enganada e abandonando o papel que Deus lhe atribuiu. Portanto,
Deus ratifica sua queda, lhe subordinando ao seu esposo, Adão.
Além disso, em vez de cumprir a intenção de Deus de completar a
criação da humanidade, libertando o homem de sua solidão, a
fêmea realmente se tornou o agente do resultado oposto. Por conta
dela, a humanidade alcança uma solidão maior: a solidão de Deus,
pois o pecado separa todas as pessoas do SENHOR.[19]
Vale lembrar que esse não era o padrão pré-queda e, portanto,
não pode ser tomado como modelo ideal para as discussões sobre
o papel da mulher na sociedade e na igreja nos dias de hoje. Como
bem disse Philip Barton Payne “A hierarquia masculina sobre as
mulheres não está no desígnio original de Deus.” (PAYNE, The Bible
Teaches the Equal Standing of Man and Woman 2015). O que a
Bíblia ensina claramente é que o homem passou a ser o governante
da mulher depois da queda, antes disso, seu domínio se estendia
apenas ao restante da Criação.
O comentário de Moisés nos fornece evidências suficientes
para entendermos que o ideal de Deus para o casal é um no Éden e
foi totalmente corrompido depois da queda. Ele diz: “Por essa razão,
o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se
tornarão uma só carne.” (Gn 2.24) Como bem pontuou o teólogo
Stanley Grenz:
“Esse comentário é o inverso do que anteciparíamos em um contexto
patriarcal, em que a mulher abandona a casa dos pais para se juntar ao
marido.” (GRENZ 1995, p. 162)
Cirúrgico! Enquanto que depois da queda, é a mulher quem
abandona a casa dos pais, o ideal do Éden é que o homem devia
deixar pai e mãe para juntar-se à sua esposa. Antes da queda,
vemos um padrão de casamento igualitário, indissolúvel,
heterossexual e monogâmico. Após a queda, esse padrão nem
sempre é seguido à risca. Por isso que há poligamia, subordinação
feminina (como castigo), divórcio e até homossexualidade.
Me recordo de que quando estava conversando com um
amigo sobre isso, ele ficou surpreso e espantado. Talvez ele tenha
pensado: “Eu nunca tinha percebido isso, mas está lá.” Sim, a
maioria dos que são contra a liderança feminina na igreja mal
percebem que não estão lendo Gênesis 1-3 em seus próprios
termos.
Fechando esse ponto: a mulher de Gênesis 1-2 é revelada
como sendo indispensável, fundamental e igualmente chamada para
a tarefa de governar e estender o governo divino por toda a criação,
juntamente com Adão! Nessa passagem, seria uma ótima
oportunidade para Deus designar o homem como o único líder e
governante da criação, inclusive sobre sua esposa, se essa fosse a
vontade de Deus, mas não é isto que acontece[20]. Nada é dito
sobre a exclusividade do homem na liderança (nem social, nem
matrimonial) dentro desses textos, isto ocorreu somente depois da
queda. Pelo contrário, o governo pré-queda é mútuo e sem
concorrência. Logo, a ideia de que Eva estava debaixo da liderança
de Adão antes da queda é algo que não pode ser sustentado no
relato da Criação. Sendo assim, no primeiro livro da Bíblia, não
encontramos a gênese somente do céu e da terra, mas também de
toda igualdade bíblica.[21] O ideal de Gênesis 1-2 é que homem e
mulher são igualmente vocacionados para serem
governadores/líderes e assim como o homem sem a mulher não
pode frutificar, nem multiplicar, não há como liderar e governar
efetivamente sem a mulher. Infelizmente na queda, a mulher é
submetida ao governo do homem como castigo divino.
Até agora vimos que (1) homem e mulher foram criados iguais
em valor, sendo ambos criados à imagem de Deus (Gênesis
1:27); (2) o homem e a mulher receberam a mesma vocação para o
domínio sobre a terra e suas criaturas (Gênesis 1: 26-30); e (3) não
havia hierarquia nos relacionamentos masculino / feminino na
criação original, mas isso ocorreu como resultado do pecado
(Gênesis 3:16).
Fechar os olhos para esta verdade, revela um compromisso
mais com a nossa agenda de crenças pessoais e não com o que a
Bíblia ensina. Muitos daqueles que não veem liderança feminina em
Gênesis 1-2, o fazem mais por questões pessoais do que
doutrinárias. Por exemplo, e se Eva tivesse sido criada primeiro?
Qual seria o “comportamento hermenêutico” dessas pessoas? Um
texto interessante de Anne Atkins responde essa pergunta:
“Suponha que Deus tenha feito a mulher primeiro e o homem fora
dela... Agora, quem aparece como o indefeso, dependente, o parceiro
mais fraco e inferior? Ora, a mulher de novo, é claro! Ela não conseguia
lidar sozinha; o homem tinha que ser feito para salvá-la. Parte do corpo
dela foi levada embora para fazê-lo; ela nunca mais poderá ser
completa sozinha. O homem foi feito por último, depois das plantas,
depois dos animais e certamente depois da mulher; ele é a coroa da
criação de Deus. Ele foi feito de carne humana; ela não é nada além de
poeira. Até o nome dela ("mulher" agora, é claro) é uma versão diminuta
dele ("homem"). Ela deve “se apegar” a ele (e, por acaso, essa palavra
é “usada quase universalmente para um apego de um mais fraco a um
mais forte”; sem dúvida, muito seria feito disso se a mulher se apegasse
ao homem!). O mais importante de tudo é que ela deixa seus pais e seu
modo de vida para se juntar e se adaptar a ele; ela foi claramente
considerada inadequada por conta própria.” (GROOTHUIS 1997, p. 137)
Viu só como as nossas crenças pessoais podem influenciar
na forma como enxergamos alguns assuntos na Bíblia? Porque é
tão comum ver pessoas acreditando que na Criação, Deus colocou
a mulher debaixo da liderança do homem? Primeiro, porque os
cristãos foram ensinados por muito tempo a pensarem que um
ajudador está numa posição inferior com relação a quem está sendo
ajudado. Segundo, fomos influenciados pela construção Ocidental
de que quem vem primeiro é melhor do que quem vem depois, e
terceiro, pela dicotomia que é imposta sobre o texto, isto é, as
pessoas já chegam no texto com o pressuposto de que no Éden,
existe um líder e um liderado, mas todas essas coisas não estão
presentes no texto, portanto, não devem ser levadas a sério, pois a
ordem em que ambos foram criados, não estabelece a prioridade do
homem sobre a mulher, muito menos seu papel como ajudadora, a
coloca como subordinada diante de Adão.[22]
Finalmente, o prólogo do Evangelho já se encontra elencado
no Gênesis: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua
descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você
lhe ferirá o calcanhar” (Gn 3.15). Mesmo em sua condição de
subordinada, a mulher seria o veículo pelo qual o Salvador viria, isto
é, Jesus Cristo, aquele que iria resgatar a dignidade da mulher
novamente.
Esta é a primeira base do pastorado feminino, pois se a
mulher é vocacionada para a liderança em conjunto com o homem e
este é o ideal de Deus para o primeiro casal, então é certo que a
igreja, na condição de povo escolhido do SENHOR, deve resgatar e
praticar os elementos que foram perdidos ou danificados com a
queda. Isto é, se Eva podia administrar, cuidar e liderar a criação, as
mulheres cristãs também podem pastorear a igreja do SENHOR.
Capítulo 02
A liderança Feminina no Antigo Testamento.
Uma vez que a mulher passa a ser subordinada depois da
queda, naturalmente é de se esperar que os papéis que ela
desenvolva nesse período sejam de subordinação e desigualdade.
E isso nos mostra que embora não fizesse parte do ideal de Deus,
Ele tolerou tal coisa até que o curso da História atingisse seus
propósitos. Por outro lado, ao longo do Antigo Testamento, Deus
tratou desse tema e de outros de forma bem elementar, de modo
que uma compreensão mais precisa desse assunto deve levar em
consideração toda a Escritura (revelação completa) e não somente
uma porção dela. Uma boa maneira de entender isso, é fazendo a
devida distinção entre algo que fazia parte originalmente do ideal de
Deus e aquilo que não fazia parte do seu ideal original, mas que Ele
permitiu que acontecesse por diversos motivos.
Por exemplo: não fazia parte do ideal de Deus que existissem
guerras, mas Ele usou das guerras para glorificar Seu nome, não
era da vontade de Deus que houvesse rei em Israel, mas Ele se
apropriou de algo que o povo queria para trazer o Salvador à terra.
Não era da vontade de Deus que ocorressem divórcios e
poligamias, todavia Ele as tolerou (mas sem ser complacente) por
um período de tempo no Antigo Testamento. O mesmo pode ser dito
acerca da ausência da mulher na liderança de muitos eventos da
Bíblia. Essa ausência não ratifica a ideia de que não é da vontade
de Deus que as mulheres liderem, apenas mostra que a Bíblia usa
uma linguagem acomodativa para exemplificar como Deus se
relacionou num primeiro momento com a cultura e com a
consciência do Seu povo. Apesar disso, Deus vocacionou mulheres
pontualmente no Antigo Testamento para o exercício da liderança
entre o Seu povo, deixando fluir o princípio de que mesmo numa
cultura desfavorável ao protagonismo feminino, Ele era capaz e
soberano para levantar mulheres líderes para Sua própria glória.
Isto significa dizer que mesmo no A.T, o princípio da liderança
feminina já estava presente.
Outra coisa que precisa ser dita é que se quisermos
compreender o A.T de maneira mais efetiva, devemos entender que
a menos que haja indicação contrária, os escritores do A.T
registraram os eventos da História como eles aconteceram, não
como idealmente deveriam ter acontecido. Sendo assim, nem tudo
que é descrito, é prescrito. E até mesmo aquilo que é prescrito,
pode não ser universalmente prescrito.
Nos dias dos Patriarcas.
Primeiramente, precisamos abordar essa época, pois grandes
personagens do passado viveram nela. Inclusive, os
complementaristas costumam recorrer a esse período para
fundamentar suas visões.
Pois bem... Após a queda do casal, conforme o tempo foi se
passando, desenvolveu-se um modelo de protagonismo e governo
humano cada vez mais centralizado na figura do homem, tanto nas
relações sociais quanto familiares. O homem passou a ser visto
como o chefe do clã, da tribo e da família. O poder era mantido e
transferido através dos homens. É justamente nesse contexto
cultural que encontramos narrativas como a de Abraão, Isaque,
Jacó, José e seus irmãos (Gn 12-50). Os patriarcas exerciam
grande poder, possuíam muitos escravos (Gn 12.5; 24.2; 26.14) e
geralmente eram polígamos (Gn 16.1-3; 25.1-6; 26.34-35; 28.9;
29.21-35).
Os complementaristas então dizem: “não encontramos nesse
período nenhuma mulher como líder ou chefe de uma tribo” e usam
isso como argumento contrário à liderança feminina.” [23]
No entanto, entendemos que Deus permitiu e tolerou esse
modelo patriarcal, mesmo que não fizesse parte do seu modelo
original antes da queda[24]. Desta forma, ao usar uma linguagem
acomodativa, Deus não está validando o patriarcado, nem a
escravatura, muito menos a poligamia. Se não compreendermos
que a revelação de Deus é progressiva e que Ele naturalmente se
relacionou com cada estágio da humanidade[25] da melhor forma
que lhe convinha ficará mais fácil visualizar que o patriarcado não
era o ideal de Deus para o Seu povo santo, mas parte integrante da
queda. Sendo assim, existem três motivos pelos quais o Patriarcado
não deve servir como modelo para esta dispensação em que
vivemos:
1- O Patriarcado é resultante da queda, não do modelo original e
ideal de Deus.
2- O Patriarcado é irremediavelmente hegemônico[26], enquanto
que no N.T, Jesus ensina que não deve ser assim e que aquele
que lidera, deve ser servo dos outros. (Lucas 22: 25-26).[27]
3- O Patriarcado se torna obsoleto em Cristo, portanto, não serve
como referência para as discussões sobre o papel das
mulheres nos dias de hoje. Muitos complementaristas veem o
Patriarcado como um padrão divino estabelecido no Antigo
Testamento por conta dessas narrativas históricas, no entanto,
entendemos que nem tudo que a Bíblia descreve, ela
prescreve. O patriarcado é culturalmente tolerável no Antigo
Testamento, mas foi abolido definitivamente na plenitude da
redenção em Cristo. Não existe uma doutrina do Patriarcado
no Novo Testamento.[28]
Alguém pode levantar o seguinte questionamento: se o
patriarcado não fosse da vontade de Deus, Ele teria se oposto a
Ele no Antigo Testamento. Todavia, esse argumento é falho, pois
deduz inconscientemente que tudo que acontece no mundo é da
vontade de Deus. O mesmo pode ser dito acerca da escravidão.
[29] Não é porque Deus não reprovou claramente a escravidão na
Bíblia, que nós devemos subentender que ela integra a vontade
de Deus para a humanidade. Desta forma, o simples fato do
Patriarcado estar presente na narrativa bíblica, não quer dizer
que Deus o aprovou, simplesmente por Ele não se opor
diretamente a ele.[30] Outro detalhe importante que muitas vezes
passa desapercebido: embora a narrativa bíblica frequentemente
descreva Deus com caracteres masculinos, isso certamente não
quer dizer que Ele seja homem[31], pois Ele não tem sexo, não é
mesmo? É perfeitamente normal que numa cultura patriarcal,
Deus[32] seja descrito frequentemente (embora não
exaustivamente) na narrativa bíblica com caracteres masculinos.
[33] No entanto, grandes teólogos do passado como Clemente de
Alexandria, Gregório de Nissa e Agostinho concluíram: Deus é
tanto mãe quanto pai.[34] Muito embora chamemos a trindade de
Pai, Filho e Espírito Santo e Jesus tenha se referido a Deus como
Pai, isso não quer dizer que Deus seja masculino. Da mesma
forma, quando alguém se refere a Deus como mãe ou mulher[35]
(mesmo sendo uma linguagem incomum no popular), não quer
dizer que Deus seja feminino. O Deus da Bíblia, o Criador Infinito-
Pessoal, transcende completamente todas essas categorias
sexuais.[36]
Outra objeção frequentemente usada por alguns
complemementaristas é que o Patriarcado teria sido endossado
nas cartas paulinas. Um dos textos mais usados é Colossenses
3: 7-17, no entanto, entendemos que esses textos precisam ser
entendidos à luz do seu contexto e não de forma isolada. Neles,
Paulo ensinou como as mulheres deveriam se comportar nesse
sistema em que elas estavam inseridas, convocando-as a
submeterem aos seus maridos, porém, baseado num princípio
geral e abrangente de Efésios 5.21. Todos os cristãos devem se
submeter uns aos outros, inclusive a mulher ao seu esposo. A
submissão é mútua e apropriadamente entrelaçada com o amor e
relacionamento de Cristo com Sua igreja, algo muito diferente do
patriarcado. Quando Paulo convocou os escravos para se
submeter aos seus senhores, ele não estava validando a
escravatura (Ef 6.5; 1 Pe 2.18; Gl 5.28). E igualmente, da mesma
forma, quando ele convocou as mulheres para se submeter aos
seus esposos, ele não estava validando o patriarcado, mas o
princípio do relacionamento mútuo.
De Moisés até o período dos Profetas.
Não resta dúvidas que Moisés foi o grande legislador de Israel.
Através dele, Deus entregou 613 leis que ficaram conhecidas como
a Torá. A Lei tinha por objetivo servir como uma grande
tutora/professora (Gl 3.24,25) do que estaria por vir. Portanto, o fim
último da Lei é Cristo e não a Lei em si mesma. Sendo assim, se
quisermos compreender melhor como os papéis entre mulheres e
homens se relacionavam na Lei, não podemos desprezar essa
questão.
A Lei muitas vezes, é usada como fundamento contrário para o
pastorado feminino, pois presume-se que por Deus não ter
escolhido nenhuma mulher como sacerdotisa em Israel (e o
sacerdócio é um ofício de liderança no Antigo Testamento), não é da
vontade dEle que haja mulheres exercendo funções de liderança na
Sua igreja. Outro argumento usado é de que Moisés não escolheu
nenhuma mulher entre os 70 anciãos separados para julgar as
causas do povo. Como lidar com essas questões?
Em primeiro lugar, a vontade e o propósito de Deus original para
Israel era que eles fossem para Ele um reino de sacerdotes e uma
nação santa (Ex 19.6).[37] Todo o povo e não somente os homens
deveriam cumprir este propósito. Todavia, o povo tinha medo e
queria que Moisés fosse seu mediador: “Fale conosco e
ouviremos. Mas Deus não fale conosco ou nós morreremos” (Êx
20:19). Levando em consideração esta deficiência, Deus resolveu
progressivamente “domesticar” e alfabetizar o povo através de
figuras e símbolos como o tabernáculo, o sacerdócio e os
sacrifícios. Deus escolheu então uma tribo para tirar dali pessoas
que pudessem intermediar esses serviços. A tribo de Levi foi eleita
por Deus e esse trabalho então deveria ser feito por homens.
Que Deus escolheu os homens para executar esse trabalho é
inegável. Porém, quais seriam as implicações disto para as
discussões sobre as mulheres na liderança da igreja? A partir de
agora, explicaremos a seguinte objeção: "Não acredito que Deus
seja a favor da liderança feminina na igreja, pois Ele instituiu apenas
homens na liderança sacerdotal de Israel."
Pois bem, quando se defende que a mulher pode assumir
posições de liderança na igreja, geralmente se levanta a objeção de
que no A.T, os líderes religiosos de Israel (sacerdotes) eram todos
homens. Isto é, não existiam sacerdotisas na lei. Esse tipo de
argumento se torna falacioso e circular quando analisado à fundo
(analiticamente e biblicamente) por vários motivos.
O primeiro deles é quando se confunde Israel com a Igreja. São
duas instituições distintas, cada uma com suas peculiaridades e
singularidades. Misturar essas duas entidades causa problemas
seríssimos. Até porque no N.T, o ofício sacerdotal arônico se
encerra em Cristo, o Sumo-Sacerdote por Excelência segundo a
ordem de Melquisedeque (Hb 5.6,10; 6.20; 7.21) e a Bíblia ensina a
doutrina do Sacerdócio Universal de todos os salvos (mas não como
ofício, apenas como instrumentalização).[38] Ou seja, na Nova
Aliança todos os salvos (homens e mulheres) são sacerdotes (1 Pe
2.5,9; Ap 1.5,6; 5.9,10). Outro erro cometido aqui é o de pegar um
texto que tem uma prescrição para um público específico (Israel) e
transferi-lo para outro público (Igreja) sem uma devida conexão
Neotestamentária. Isso é chamado de descontextualização. Assim
como no caso do sábado (que foi para Israel, não para a Igreja), a
questão do sexo exclusivamente masculino para o exercício
sacerdotal no A.T, não é algo prescrito no N.T, quando o assunto é
sobre o Ministério da Igreja. Percebeu a diferença?
O segundo é a consideração de que a liderança religiosa de
Israel era composta apenas de sacerdotes. Quem afirma isso,
ignora que em Israel, profetas também eram autoridades espirituais
e religiosas (exemplo Moisés e Samuel), e se tratando de profetas,
existiam tanto homens quanto mulheres (Miriã, Débora, Hulda, a
esposa de Isaías, etc).
O terceiro erro consiste em colocar como paradigmático a
questão do sexo e ignorar outros requisitos exigidos no ministério
sacerdotal. Há pelo menos 12 deles, dos mais diversos tipos, aos
quais destaco dois: ser da tribo de Levi (Nm 3.6,7) e ter a idade
mínima de 30 anos (Nm 4.1-3). Então se é verdade que os líderes
da igreja de hoje devem ser homens porque no A.T só haviam
sacerdotes (masculinos), também é verdade que eles devem
preencher todas as outras regras. Porque apenas o sexo masculino
é levado em consideração? Seria isso uma manipulação
Hermenêutica? Parcialidade e seletividade?
Seja lá o que for, uma coisa é certa: esse argumento não é
suficiente para ser contra o Ministério Feminino Ordenado, pois o
A.T demonstra invariavelmente que apesar de majoritariamente e
naturalmente a liderança de Israel ser composta por homens, Deus
também contava com as mulheres para liderar de acordo com Sua
soberana vontade.
É fato que Deus escolheu homens para serem Sacerdotes em
Israel, mas a liderança religiosa desse povo, nunca se resumiu ao
Sacerdócio, muito menos apenas ao sexo masculino.
Isso se aplica a todas as outras narrativas sobre os Reis,
Profetas, Sacerdotes e Juízes. É extremamente natural que num
ambiente cultural onde a figura masculina era predominante, que os
homens aparecessem mais vezes na liderança cívica, social, política
e religiosa de Israel. Naturalmente, os homens vão aparecer mais
vezes na liderança, mas nunca exclusivamente. Isto nos levará ao
nosso próximo ponto.
As Profetisas em Israel
Mesmo diante da dominação masculina, Deus levantou
esporadicamente, mulheres que exerciam funções de liderança em
Israel tanto na religião, quanto na política. Isto quebra a
argumentação em torno da exclusividade do homem na liderança e
demonstra que o princípio da liderança feminina está presente de
modo incipiente, (embora de forma muito elementar) já no Antigo
Testamento, mesmo num ambiente pós-queda. Normalmente, os
complementaristas desconsideram essas informações, mas levando
em conta que os profetas constituem uma parte importante da
liderança religiosa de Israel, então iremos abordá-los a partir de
agora.
O profeta do Antigo Testamento era alguém vocacionado por
Deus a fim de comunicar a vontade divina ao povo. O profeta era o
porta-voz de Deus aqui na terra. O termo aparece no A.T com uma
fluidez de significados bastante diversa. Entre as atividades
proféticas realizadas por um profeta estavam: oração intercessora
(Jr 42: 4); louvor (1 Cr 25: 1-3); interpretação das leis (2 Rs 22: 15–
17); indagação de YHWH (Jr 37:7); entrega dos oráculos de YHWH
(Is 10:24); unção de reis (1 Rs 1:34); resolução de disputas (2 Cr 28:
9–15); operação de maravilhas (1 Rs 17); agrupamento de tropas
(Juízes 4); liderança nas batalhas (Juízes 5); arquivamento de
oráculos por escrito (2 Cr 13:22); e recebimento de visões (Is 1). A
tradição rabínica afirma que havia quarenta e oito profetas hebreus,
sete profetas gentios e sete profetisas. As profetisas foram Miriã,
Débora, Hulda, Sara, Ana, Abigail e Ester (Megilloth 14a).
(RABINOWITZ 1996, p. 1176. )
Miriã. Em Êx 15: 20–21, Miriã, a profetisa conduziu as mulheres
na música e na dança após a travessia do Mar de Juncos. Embora a
tradição judaica tenha Sara como a primeira profetisa, este título é
atribuído pela primeira vez na Bíblia à Miriã. Ela desempenhou um
papel de liderança tão importante que o profeta Miquéias a colocou
ao lado de Moisés e Arão (Mq 6.4). O SENHOR tirou Israel do Egito
pelas mãos desses três irmãos e Ele os enviou para conduzir/liderar
o Seu povo. Miquéias usa um substantivo hebraico ‫( םי ם‬panim ou
paneh) que literalmente quer dizer “face” e tem uma conotação de à
frente, na liderança, acima, na linha de frente, na direção, etc. Ela
teve um ministério crucial na vida do seu irmão mais novo, Moisés e
desde cedo, já demonstrava protagonismo, coragem e espírito de
liderança. Foi ela quem garantiu a segurança física do bebê Moisés
no rio Nilo e abriu os caminhos para que sua mãe fosse a pessoa
escolhida pela filha de Faraó para cuidar do menino. Já grande e
depois da travessia do Mar, ela conduziu as mulheres na adoração
com tamborins e danças. Esse evento foi tão marcante que Moisés,
o escritor do Êxodo, registrou seu breve cântico: “Cantem ao
SENHOR, pois triunfou gloriosamente. Lançou ao mar o cavalo e o
seu cavaleiro.” (Ex 15.20,21). Além de Miriã, outras mulheres como
as parteiras tementes a Deus Sifrá e Puá (Ex 1.15) exerceram
papéis decisivos na preservação do povo de Israel no Egito,
inclusive, a tradição judaica identifica Miriã com uma dessas
parteiras.[39] “Segundo os rabinos, sua recompensa por não atender
ao faraó era ter descendentes que seriam sábios e reis. Um de seus
descendentes era Bezalel, que estava cheio de sabedoria, como
Ex. 31: 3 atesta: “Eu o dotei com um espírito divino de habilidade [ou
sabedoria].” O midrash atribui a mera sabedoria da tribo de Judá ao
mérito de Miriã (Ex. Rabá 48: 4; pela tradição que Miriã era casada
com Calebe). Outra tradição atribui-lhe a realeza pelo mérito de sua
conduta, pois o rei Davi era descendente dela (Sifrei on Numbers
loc. Cit; BT Sotah11b). Essas tradições são expansões exegéticas
da descrição no Ex. 1:21 da recompensa que Deus deu às parteiras:
“Ele estabeleceu casas para elas.” (MEIR 2009)
Apesar de Moisés exercer a maior parte do protagonismo na
narrativa, o fato é que a liderança de Israel era composta por três
pessoas: Moisés, Arão e Miriã. Na tradição judaica, “Miriã é
retratada como um membro integrante do triunvirato de liderança de
Moisés-Arão-Miriã. Na interpretação alegórica do Midrash do sonho
do copeiro (Gênesis 40), Moisés, Arão e Miriã são os três ramos da
videira da qual o povo de Israel emergiu e floresceu. De acordo com
outra visão, os três ramos são o maná, o pilar das nuvens e o poço
(BT Hullin 92a), que são os três presentes que Israel recebeu por
mérito de seus três líderes. (...) O Midrash relata que os
acampamentos israelitas partiram com apenas Miriã na liderança
(Sifrei on Deuteronomy, p. 275). Esta exposição expressa a
liderança de Miriã no deserto, à vista de todas as tribos.” (MEIR
2009)
O povo de Israel tinha tanta consideração por ela que quando
ficou leprosa, eles não partiram enquanto ela não fosse trazida de
volta ao acampamento (Nm 12.15). Logo após sua morte em
Números 20.2, a liderança de Moisés e Arão começou a oscilar e
por conta de uma má reação de ambos, Deus os repreendeu e disse
que eles não iriam mais conduzir Israel para a terra prometida. A
dupla de irmãos morreu sem tomar posse da terra prometida.
Débora (Jz 2:16,18; 5:1–31). Ela desempenhou um papel
fundamental como profetisa no período pré-monarcal de Israel. Ela
também foi juíza (a única no livro de juízes que na verdade foi
retratada como julgadora), e era estrategista militar que disse ao seu
comandante de guerra, Baraque[40], quando e onde entrar na
batalha. Débora é um protótipo de que Deus também conta com as
mulheres para a liderança. Assim como ela foi líder religiosa e
política, as mulheres de hoje também podem desempenhar essas
funções, inclusive como pastoras.
Alguns tentam minimizar a liderança de Débora, mas o texto
bíblico é claro: ela liderava o povo de Deus naquela época (Jz 4.4) e
julgava as causas das pessoas (Jz 4.5), uma função de autoridade
desempenhada a princípio por Moisés (Ex 18.13-16) e depois pelos
juízes estabelecidos por ele (Ex 18.17-26). Ela também comandava
pessoas, inclusive dando ordens a Baraque (Jz 4.6); o próprio
Baraque confessou que sua presença era indispensável na batalha
(Jz 4.8), tanto é que ela o acompanhou (Jz 4.10). Ela também o
encorajou e profetizou sua vitória (Jz 4.14) e assim aconteceu. Sua
liderança carismática e profética foi confirmada pela vitória de
Baraque sobre Sísera. Conjuntamente com Baraque, ela entoou um
cântico e nele, é dito que ela se levantou como uma mãe em Israel
(Jz 5.7) e a terra teve paz durante 40 anos (Jz 5.31).
Débora foi Juíza e Profetisa ao mesmo tempo. Além dela, o
único juiz que acumulou mais de um ofício foi Samuel (Profeta,
Sacerdote e Juiz). Seria este paralelo intencional? Não sabemos, no
entanto, em 1 Samuel 7.15,16; 8.4 é dito que Samuel liderou Israel
nas regiões onde Débora também liderou, a saber Ramá e Betel (Jz
4.4). Seu cântico também tem paralelos importantes com a liderança
de Moisés.[41] Não somente o cântico, mas a própria narrativa
textual demonstra uma similaridade, como garante o professor
Victor P. Hamilton:
“A história de Débora e Baraque aparece duas vezes em Juízes,
primeiramente num relato em prosa (4.1-24) e depois numa versão
poética (5.1-31). O capítulo 4 conta a história e o cap. 5 a entoa. A
narração abre alas para a celebração. O único paralelo a isto no Antigo
Testamento é o relato do Êxodo do Egito, contado em prosa (Êx 12.37-
42; 13.17-14.31), depois em poesia (Êx 15.1-21).” (HAMILTON 2018, p.
110)
Como profetisa, ela trouxe oficialmente a Palavra de Deus ao
Seu povo. “Enquanto outros juízes falam com Deus e sobre Deus,
Débora é a única juíza que fala por Deus. Ela é a sua porta-voz.”
(HAMILTON 2018, p. 111)
Por meio da sua instrução, Baraque venceu a batalha e mais
tarde foi lembrado pelo profeta Samuel (1 Sm 12.11) e pelo escritor
de Hebreus (Hb 11.32). O general Baraque era temente a Deus e
reconhecia a liderança carismática de Débora. Ele estava disposto a
obedecer a mensageira de Deus, mesmo sabendo que não teria
honra (Jz 4.9). É importante enfatizar isso, pois, alguns
complementaristas alegam que Débora só exerceu protagonismo
por conta da omissão ou covardia de Baraque, mas essa não é a
motivação real do texto que afirma justamente o contrário: ele
estava disposto a ir, mas só iria batalhar se Débora fosse.[42] Ele
não teve problema algum em estar na companhia da autoridade
política e religiosa de uma mulher:
“Muitos consideram o pedido de Baraque que a presença de Débora na
batalha seja um sinal de sua fraqueza - se escondendo atrás de uma
mulher em vez de confiar em Deus. (...) Nada no texto indica que
Baraque esteja demonstrando fraqueza, muito pelo contrário. Desta
forma, entrar numa batalha com a líder e profetisa designada por Deus
não era covardia, mas provavelmente um sinal de fé. Em Êxodo 17: 8-
31, lembramos que Moisés agiu como representante de Deus na batalha
e pode ser que Baraque estivesse solicitando algo semelhante. Até
Moisés disse a Deus "se a sua presença não for conosco, não nos envie
daqui" (Êx 33:15). O pedido de Baraque é semelhante: “Se você for
comigo, eu irei; mas se você não for comigo, eu não irei” (Juízes 4: 8). O
Cântico de Débora louva Baraque (Juízes 5:12, 15) e Hebreus 11:32 o
chama de um grande homem de fé. Se Baraque estava agindo como um
grande homem de fé, então ele não estava agindo covardemente e
certamente era um "homem bom" naquele momento.” (QUIENT 2013)
Hamilton acredita que as palavras de Baraque, “soam mais
como as palavras de Moisés a Deus: ‘Se a tua presença não vai
comigo, não nos faça subir deste lugar. Pois como se há de saber
que achamos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? (Êx 33.15,16).
Por ser uma profetisa com acesso a Deus sem qualquer mediação,
a presença de Débora é tanto bem-vinda quanto salutar.
Novamente, uma vez que Baraque não ouviu esta palavra do
próprio Yahweh, pede-se que ‘ele arrisque a sua vida assim como
as vidas de dez mil homens pela força das palavras inverificáveis
desta mulher. A proposta condicional de Baraque é como um teste:
se Débora estiver disposta a arriscar a sua própria vida por esta
palavra, então ele acreditará e obedecerá.” (HAMILTON 2018, p.
113)
Outro ponto: o texto deixa claro que Débora também tinha
um profundo conhecimento dos eventos que Deus fez no passado
em prol de Israel. Sua teologia é manifestada no seu cântico de
vitória e foi registrada meticulosamente pelo autor de Juízes.
Inclusive, esse cântico é maior que a Epístola a Filemon, 2 e 3
Epístola de João e Epístola de Judas (meio irmão de Jesus). Sobre
seu cântico, Hamilton comenta:
“Embora a tradução para o inglês ‘Débora e Baraque... cantaram
naquele dia’ dê a impressão de serem dois os cantores, o verbo ‘cantar’
aqui não está no plural. É singular e feminino (...) É impressionante
quanto Deus faz por seu povo muitas e muitas vezes no decorrer dos
livros de Josué e Juízes (e 1 Sm). Um ato de livramento após outro.
Igualmente incrível é o pequeno número de expressões de louvor e
gratidão por essas intervenções divinas. Elas estão limitadas a este
cântico de Débora (o único louvor em Juízes) e o cântico de Ana (1 Sm
2.1-11), levando assim Balentine (1993:22) a afirmar: ‘Somente com Ana
e Débora há algum louvor na apresentação canônica da história de
Israel entre a ocupação e o reinado.” (HAMILTON 2018, p. 114)
Como juíza, estendeu sua liderança e influência por quase
todas as tribos de Israel como Zebulom e Naftali (Jz 4: 6, 10, cf.
5:14, 18), Efraim, Benjamim, Manassés (5:14), Issacar, Rúben (5:
15-16), Dã e Aser (5:17). O juiz era alguém que exercia autoridade
civil e espiritual. Sob o governo deles, Israel viveu numa verdadeira
teocracia. Sendo assim, não se pode menosprezar ou minimizar
esse dado. O povo de Israel claramente reconheceu a liderança de
Débora. Eles confiavam seus problemas a ela e tinham fé em sua
capacidade de resolvê-los de maneira justa. Homens e mulheres
buscaram seus sábios conselhos, indicando que ela não era apenas
uma juíza, mas uma figura respeitada e célebre na comunidade
israelita. Os juízes estavam debaixo do governo teocrático de Deus,
sendo, portanto, escolhidos por Ele, logo, Débora também está
enquadrada nessa categoria. Débora é líder por mérito divino: “Ela é
a libertadora levantada pela ação divina” (HAMILTON 2018, p. 117).
Inclusive, no texto há pistas significativas de que Débora foi uma
juíza cujo mandato foi excelente e eficaz. Segundo Hamilton:
“Débora é a única juíza maior cuja morte nunca é mencionada (veja
3.11b; 4.1b; 8.32a; 12.7b; 16.30 para os outros). Levando em conta a
informação de 2.19a, (“Sucedia, porém, que, falecendo o juiz,
reincidiam”, a ausência de um anúncio de morte para Débora pode ser a
forma usada por Juízes para enfatizar a eficácia do seu mandato. (...) A
história de Débora/Baraque conclui: ‘E a terra ficou em paz quarenta
anos’ (v. 31c). Observe rapidamente três pontos aqui. Primeiro, Débora
é a única juíza cuja morte não está registrada. Segundo, a palavra
‘tornaram’ não é usada na fórmula que introduz a história de Gideão: ‘os
israelitas fizeram o que era mau’ (6.1). Terceiro, assim como aconteceu
com os juízes depois de Débora, os anos de paz na terra são em maior
número do que os anos de sujeição a um opressor, mas este padrão
quebra-se um pouco mais adiante em Juízes. Não há paz na terra
durante os dias de Jefté e Sansão.” (HAMILTON 2018, p. 111, 118)
Vale lembrar que Deus entregou Sísera (o inimigo de Israel)
nas mãos de outra mulher: Jael (Jz 4.21). A vitória veio por meio de
uma mulher. Interessante, não? Inclusive, no cântico de Débora, ela
é chamada de “bem-dita entre as mulheres”, uma expressão mais
tarde usada para designar Maria, a mãe de Jesus (Lc 1.28).
“Finalmente, esta porção de Juízes começa com os holofotes
voltados para uma mulher, Débora, e termina com outra mulher, Jael
(v. 17-22). Os nomes de seus cônjuges são conhecidos. Débora é
‘mulher de Lapidote’ (v. 4). Jael é ‘mulher de Héber’ (v. 17). Mas
nenhum dos maridos diz ou faz qualquer coisa. Ambos ficam à
sombra de suas esposas.” (HAMILTON 2018, p. 111)
Hulda (2 Reis 22-23; 2 Cr 34: 22–32). Hulda viveu no tempo
do reinado de Josias em Jerusalém. Foi durante esse tempo que o
Espírito de profecia veio a ela que passou a ser conhecida como
profetisa. Este também foi o tempo dos destacados
profetas Jeremias e Sofonias. Segundo o Midrash[43], Hulda tinha
uma escola para mulheres em Jerusalém, a quem ela ensinou a
Palavra de Deus na medida em que pertencia a mulheres, mães e
filhas judias.
Ela foi uma profetisa escolhida pelo Sumo Sacerdote Hilquias
para interpretar o significado do pergaminho encontrado no templo:
“O relato de 2 Rs 22–23 implica que as reformas de Josias foram uma
consequência direta do oráculo de Hulda. A versão do cronista, no
entanto, indica que Josias começou as reformas por conta própria, antes
da descoberta do pergaminho, que tende a diminuir o papel de
Hulda. Embora o objetivo principal desses relatos seja estabelecer
Josias como um seguidor “observador e zeloso” de YHWH, o relato dos
Reis também prova que Hulda era igualmente importante no
estabelecimento “do culto monoteísta de YHWH como a única
expressão legítima da antiga religião israelita...” (MARCHETTI 2018)
Existe uma tentativa por parte dos complementaristas de
minimizar o ministério desta mulher, alegando inclusive que o seu
ministério era privado, não público. Isso é usado para defender o
argumento de que o ministério dessas mulheres era diferente dos
profetas masculinos. No entanto, como garante um teólogo
igualitarista: “O ministério de Hulda (...) não era diferente do
ministério dos profetas do sexo masculino. Como profetas do sexo
masculino, como Natã, Hulda atuou como conselheira de um rei.
Como os profetas do sexo masculino, como Miquéias, Hulda deu
advertências de julgamento e punição divina. Apenas alguns
profetas homens são registrados como falando para uma multidão e,
embora a Bíblia não registre que Hulda falou diante de um grande
grupo de pessoas, não podemos descartar que ela nunca fez isso.
Hulda era uma profetisa altamente respeitada, como demonstrado
pelo fato de ser procurada pelos homens do rei - ela não foi
convocada, e é isso que um governante faria a um
subordinado. Então ela deve ter profetizado em muitas outras
ocasiões que não estão registradas na Bíblia. E, diferentemente do
que Schreiner afirma, Hulda realmente proclamou a Palavra de
Deus, mesmo que sua audiência, no único relato bíblico de seu
ministério, consistisse em cinco homens.” (M. MOWCZKO 2018)
Débora, Hulda e Ana são profetisas que “ouviram de Deus e
falaram por Deus e deram orientação aos homens. Elas são
claramente identificadas como profetisas nas Escrituras. Além disso,
havia um lugar reconhecido e respeitado para profetas homens e
mulheres em Israel; eles normalmente não ministravam nas
sombras. Débora ministrava regularmente em um local público
(Juízes 4: 5), assim como Ana ( Lucas 2:37 ), e talvez Hulda
também. Hulda pode até mesmo ter sido a profetisa oficial da corte
de Josias.” (M. MOWCZKO 2018)
Por fim, a tradição judaica atribui a Hulda muitas
características interessantes. “No relato rabínico, três profetas foram
ativos no tempo de Josias: Jeremias, Sofonias e Hulda. Jeremias
profetizava nos mercados, Sofonias nas sinagogas, e a audiência de
Hulda era composta por mulheres. Os israelitas ignoraram toda essa
atividade profética e fizeram o que era desagradável ao Senhor
(Yalkut Shimoni, Sofonias, parágrafo 566; R. David Kimhi, em II Reis
22:14, em nome dos rabinos). Em outra tradição, Hulda viveu
durante o tempo de Jeremias e profetizou simultaneamente com
ele. Por serem parentes, ele não se ofendeu por ela profetizar junto
com ele, mesmo sendo um profeta mais importante. Quando o rei
Josias encontrou o rolo da Torá na Casa do Senhor, enviou
mensageiros à profetisa Hulda, e não a Jeremias, alegando que as
mulheres são misericordiosas (BT Megillah 14b). Josias
aparentemente esperava que Hulda fosse mais moderada em suas
revelações, ou que sua compaixão conseguiria cancelar as futuras
tribulações previstas. No entanto, ao contrário de suas expectativas,
Hulda proferiu duras profecias ao rei. II Reis 22:14 descreve Hulda
"morando em Jerusalém no Mishneh", que o
aramaico Targum traduz como "sala de estudos", isto é, academia,
um lugar da Torá. Outra visão é que ela ensinou a Lei Oral (=
a Mishnah) aos anciãos da sua geração. Segundo outra tradição,
ela pregava em público e expunha todos os assuntos mencionados
duas vezes na Torá, e revelava os castigos para aqueles que agem
contra as alusões e coisas ocultas na Torá.” (MEIR 2009)
Algumas mulheres que realizaram alguma atividade
profética no A.T: Rebeca perguntou a YHWH e recebeu uma
resposta direta (Gn 25: 21–23). As mulheres em Êx 38: 8 que
“serviram” ou “se reuniram” à porta do tabernáculo podem ter sido
guerreiras profetas que guardavam o santuário. Em Josué 2: 9–11,
Raabe fez um oráculo profético prevendo a vitória de Israel. A mãe
de Sansão (conhecida apenas como a esposa de Manoá, Jz 13: 1–
23) recebeu uma mensagem divina a respeito de sua gravidez; ela
sozinha (não o marido) conseguiu interpretá-la. Em 1 Sm 25: 28–
31, Abigail predisse corretamente o destino de Davi em uma
profecia tríplice que mais tarde foi repetida por Natã (2 Sm 7: 8, 9,
16). A rainha Mãe de Lemuel realizou um característico ato profético
de proclamação oracular em Pv 31: 1–31. Incontáveis mulheres
israelitas eram membras de guildas musicais e funerárias proféticas
de sexo misto e exclusivamente femininas. Em numerosos textos
como Oséias 6: 5, o uso do plural masculino nebiim, quando se
refere a todos os profetas anteriores que YHWH enviou, inclui
mulheres profetas, como as discutidas acima... Além destas, a
esposa de Isaías também é chamada de profetisa em Is 8.3.
Profetizas do futuro: Joel 2:28 prevê um tempo futuro em
que todo Israel receberá o Espírito de Deus: rapazes e moças
profetizarão, anciãos sonharão e jovens terão visões. Considero
esse texto como a realização da esperança de Moisés de que todo o
povo de YHWH - homens e mulheres, jovens e idosos - fosse
profeta (Nm 11:29). Como é sabido, Simão Pedro, através da caneta
de Lucas, reivindicou o cumprimento desta profecia no dia de
Pentecostes em Atos 2.
Moisés e o seu desejo que todo o povo fosse profeta.
Em Números 11, temos um relato interessante. Deus
convocou Moisés para que reunisse 70 autoridades para que lhe
auxiliasse na importante tarefa de liderar o povo. Moisés escolheu
então 70 homens. A narrativa descreve que o SENHOR transferiu o
Espírito de Moisés para eles de modo que começaram a profetizar.
Então Josué vendo essa cena pediu que Moisés os proibisse, porém
Moisés exclamou: “Você está com ciúmes de mim? Quem dera todo
o povo do SENHOR fosse profeta e que o SENHOR pusesse o seu
Espírito sobre eles! (Números 11.29). Perceba que o desejo de
Moisés era que todo o povo de Israel (homens e mulheres) fosse
profeta e recebesse o Espírito de Deus. Tendo em vista que as
mulheres também estão incluídas nesse desejo, é certo que Moisés
era a favor de mulheres profetizas. Ou seja, mesmo escolhendo
homens para a liderança do povo, Moisés já tem uma cosmovisão
inclusiva, onde há espaço para homens e mulheres na liderança
espiritual de Israel. Esse desejo é reafirmado e profetizado em Joel
2 e atendido em Atos 2 na Nova Aliança com a Igreja. E em 1 Pe 2.9
é dito que o povo participante dessa Nova Aliança é sacerdócio real,
nação santa. Ou seja, em certo sentido, todos os salvos (homens e
mulheres) são sacerdotes e profetas. Se essas pessoas são
recebidas no céu de tal maneira, o que impediria que as mulheres
aqui na terra fossem ordenadas ou reconhecidas em funções de
liderança? Nada, não é mesmo?
No Antigo Testamento, o protagonismo feminino é gritante e
várias mulheres desempenharam papéis cruciais para a história da
Redenção. Temos Eva (a mãe de todos os viventes), Sara (a mãe
do filho da promessa), Miriã (a profetisa líder de Israel juntamente
com Moisés e Arão), a prostituta Raabe (que salvou os espias de
Israel), Débora (profetisa e juíza), Jael (que matou Sísera) Rute
(Avó de Davi), Ana (mãe do profeta Samuel) e Ester (que salvou a
nação de Israel de um extermínio em massa). Vale lembrar que
também existiram líderes e profetisas ímpias em Israel como as
duas rainhas Jezabel (1 Reis 18:4) e Atalia (2 Crônicas 22:10) e a
profetisa Noadias (Neemias 6.14). Estas, são criticadas por suas
iniquidades, mas nunca por serem mulheres na liderança.
Sendo assim, nem mesmo no Antigo Testamento
encontramos exemplos de liderança exclusivamente masculina. É
certo que os homens majoritariamente ocuparam esses papéis, mas
eles não foram os únicos. Então a segunda base para o pastorado
feminino se fundamenta no princípio extraordinário de liderança
feminina tanto religiosa quanto política já presente no Antigo
Testamento, numa época onde o Patriarcado estava em alta. Isto é,
tendo em vista que a estrutura Patriarcal foi o principal obstáculo
para a liderança feminina no mundo antigo, uma vez que o Antigo
Testamento não prescreve o Patriarcado e chega inclusive a
registrar episódios onde Deus levantou as mulheres como líderes,
fica claro que Deus já contava com elas para essas funções.
Desta forma, nos dias de hoje, Deus também conta com
mulheres fortes, corajosas e cheias do Espírito para liderar e
assumir grandes responsabilidades, inclusive na igreja como
pastoras, diaconisas, bispas, etc. Homens como Baraque, a
delegação de Josias, Mardoqueu, o rei Lemuel e Apolo, pareciam
não ter tido problemas em receber instruções e orientações[44] de
mulheres piedosas, então porque isso causa tanto espanto e
escândalo nos dias de hoje?
Capítulo 03
A liderança Feminina no Novo Testamento.

Nos dias de Jesus


Antes de tudo, precisamos ter uma visão panorâmica
dos contextos culturais, históricos, sociológicos, religiosos e
geográficos dos quais o Novo Testamento emergiu, para a partir de
então entendermos melhor como os papéis das mulheres são vistos
no Novo Testamento. Partindo desse ponto de vista, como que a
mulher era vista nos dias de Jesus?
Graças aos estudos nas áreas de antropologia, sociologia e
arqueologia, conseguimos reconstruir o cenário do universo
feminino nos dias de Jesus. Em razão das recentes pesquisas, o
papel das mulheres tanto no judaísmo como no mundo romano do
primeiro século tem sido bem documentado e estabelecido.
O fato é que nos dias de Jesus as mulheres eram
consideradas inferiores aos homens e cidadãs de segunda classe.
Isso era extremamente natural, pois a cultura judaica do I século era
decididamente patriarcal:
“Pensava-se que o lugar de uma mulher estivesse em casa. As
mulheres eram responsáveis por ter os filhos, criá-los e manter um lar
hospitaleiro. Os homens não deveriam cumprimentar mulheres em
público. Alguns escritores judeus da época de Jesus, como Filo,
ensinaram que as mulheres nunca deveriam sair de casa, exceto para ir
à sinagoga. Geralmente, casando-se com jovens, uma mulher quase
sempre estava sob a proteção e a autoridade de um homem: seu pai,
seu marido ou um parente do marido, se ela fosse viúva. Isso deixou as
mulheres em uma posição muito vulnerável dentro do judaísmo. Elas
tinham pouco acesso à propriedade ou herança, exceto através de um
parente masculino. Qualquer dinheiro ganho por uma mulher pertencia
ao marido. Os homens podiam legalmente se divorciar de uma mulher
por quase qualquer motivo, simplesmente entregando a ela um pedido
de divórcio. Uma mulher, no entanto, não podia se divorciar do marido.
Na área da prática religiosa, as mulheres eram sob muitos aspectos
negligenciadas. Os homens eram obrigados a fazer certas orações
diariamente, mas as mulheres não. Embora o estudo das Escrituras
fosse considerado extremamente importante para os homens, as
mulheres não tinham permissão para estudar os textos sagrados. O
rabino Eliezer, um professor do primeiro século, é conhecido por dizer:
"Antes, a palavra da Torá deve ser queimada do que confiada a uma
mulher". No templo em Jerusalém, as mulheres eram restritas a uma
quadra externa. Nas sinagogas, elas eram separadas dos homens e não
podiam ler em voz alta. Elas não eram autorizadas a testemunhar em
um tribunal religioso.” (LEONHARD s.d.)
Acontece que a abordagem de Jesus ao mundo feminino é
um evento bastante revolucionário para a época.[45]
Em primeiro lugar, Jesus falava com mulheres em público,
algo completamente contra a cultura da época.[46]
Em segundo lugar, Jesus tratou as mulheres com respeito e
compaixão. “Jesus se recusou a ver as mulheres como impuras ou
especialmente merecedoras de punição. Mulheres menstruadas ou
pessoas com algum fluxo sanguíneo eram consideradas ritualmente
impuras. Nessa condição, as mulheres não tinham permissão para
participar da maioria dos rituais religiosos. Qualquer coisa ou
alguém que ela tocasse era considerado impuro. A história mais
dramática a respeito de uma mulher nesse estado é o relato da
mulher que teve um fluxo de sangue por 12 anos (Lucas 8: 43-
48). Lucas enfatiza a compaixão de Jesus pela mulher pela maneira
como ele situa a história. O capítulo 8 apresenta Jairo, um
funcionário da sinagoga, vindo a Jesus para implorar para que ele
curasse sua filha. Enquanto estão a caminho, essa mulher
assustada e sofrida, que está doente e, consequentemente, isolada
há anos, toca sua orla. Jesus volta sua atenção do oficial da
sinagoga para a mulher. Ele quer saber quem tocou sua
roupa. Pelas normas religiosas, o toque da mulher - mesmo de sua
orla - tornava Jesus imundo. Se a mulher espera que ele fique bravo
com ela por se aproximar, ela ficará muito surpresa. Ele não diz
nada sobre sua impureza ritual, mas a chama de "filha", diz que sua
fé a salvou e lhe diz para ir em paz (8:48). Jesus reconheceu a
dignidade da mulher em situações que, por lei ritual, exigiam
julgamento, por exemplo, a mulher pecadora que ungiu Jesus
(Lucas 7: 36-50) e a da mulher apanhada em adultério (João 8: 3-
11).” (LEONHARD s.d.)
Em terceiro lugar, Jesus aceitou e formou discípulas.[47]
Em quarto lugar, Jesus confiou às mulheres grandes
verdades eternas e teológicas. Por exemplo, ele disse à mulher
samaritana que era o Messias e revelou a Marta que era a
“ressurreição e a vida” (Jo 11.25). Em Mt 28: 1-10, ele confiou às
mulheres o anúncio da ressurreição.
É claro que Jesus quebrou vários paradigmas sociais e
culturais de sua época, mas não todos. Apesar disso, ele foi
inclusivo em incluir as mulheres no seu ministério, colocando-as
num lugar tão importante quanto o ocupado pelos seus discípulos
(homens). Sem dúvida, Jesus devolveu dignidade à mulher[48] e
recuperou seu status diante da sociedade. Levando todas essas
informações em consideração, fica mais claro que a forma como
Jesus se relacionava com as mulheres se distanciava em muito do
patriarcado. Obviamente, durante seu ministério terreno, Jesus
nunca foi perguntado sobre liderança feminina, talvez tenha sido por
esse motivo que ele nunca tenha abordado essa questão de
maneira direta.[49] Por outro lado, dá para entender qual a visão de
Jesus graças à forma como ele lidava e se relacionava com as
mulheres.[50]
E a escolha dos 12? A maioria dos complementaristas
reconhecem que as mulheres ganharam um espaço importante na
narrativa Neotestamentária, no entanto, uma incógnita ainda
persiste: Porque Jesus não escolheu nenhuma mulher entre os 12
apóstolos?
Normalmente, esse é um dos principais argumentos daqueles
que são contra mulheres na liderança da igreja. Segundo estas
pessoas, os apóstolos foram os líderes mais importantes da igreja
primitiva, então se Jesus fosse a favor de mulheres na liderança
(dizem eles), ele teria colocado pelo menos uma mulher entre os
apóstolos. Pois bem, como responder essa questão?
Em primeiro lugar, esse argumento é insustentável, pois
recorre à falácia da inferência negativa, isto é, porque "Deus
escolheu esses para liderar, ele não quis/queria outros/outras."
Em segundo lugar, a liderança da Igreja não estava restrita
aos apóstolos, portanto a escolha de 12 homens, não pode ser
taxativa nessa discussão até porque os doze apóstolos, além de
serem homens, eram todos judeus. Isso também quer dizer que
Jesus só quer na liderança da igreja homens judeus? Além disso,
ele escolheu apenas 12 homens como apóstolos. Será que Jesus só
queria 12 homens liderando a Igreja? Certamente não, não é? Da
mesma forma que Jesus não quer somente judeus na liderança da
igreja, muito menos apenas 12 pessoas, esse fato não pode ser
usado para negar que Jesus queria mulheres na liderança. Sem
falar que quando Jesus escolheu os apóstolos, a Nova Aliança
ainda não tinha sido inaugurada, muito menos a Igreja. Isto significa
dizer que os apóstolos atuaram num primeiro momento, não como
líderes (pastores de igrejas), mas como missionários/evangelísticas
itinerantes, algo que Jesus vai ampliar em Marcos 16.14-20, texto
usado pelos cristãos para fundamentar a grande comissão de
homens e mulheres para a evangelização do mundo inteiro.
Em terceiro lugar, a escolha de 12 pessoas do sexo
masculino e que ainda eram judeus tinha toda uma significância
representativa e escatológica, pois ao mesmo tempo que representa
e sintetiza as 12 tribos de Israel (Mt 19:28 ; Lc 22: 29-30 ; cf. Ap
21:12, 14), aponta para o futuro, quando eles irão sentar para julgar.
Além disso, o número doze indica que Jesus veio para trazer
Salvação para todo o povo de Israel. Mas isso de forma alguma
quer dizer que ele não queira mulheres na liderança.
Em quarto lugar, o ministério de Jesus foi dirigido
principalmente ao povo judeu dentro de Israel (Mateus 15:24), e
para que Jesus fosse reconhecido como um rabino, ele precisava
ter pelo menos dez discípulos do sexo masculino. Com doze
discípulos judeus, o status de rabino de Jesus nunca foi
questionado, mesmo por seus críticos.[51]
Em quinto lugar, nos dias de Jesus, as mulheres eram
impedidas de aprender, conversar a sós com homens e ensinar.
Durante seu ministério, Jesus rompeu algumas dessas barreiras,
mas não todas. De forma incipiente, progressiva e muitas vezes
indireta, Jesus tratou dessas questões, ora de forma prática, ora de
maneira discursiva, tolerando, mas não se conformando com sua
conjuntura cultural. Porém, apesar de não ter incluído nenhuma
mulher no colégio apostólico, Jesus ensinou, treinou e fez discípulos
entre as mulheres e vale lembrar que naquela época, um discípulo,
era um mestre em treinamento...
Por último, esse episódio é descritivo, não
prescritivo/normativo. Isso é notado nas próprias passagens em que
Jesus faz a escolha dos apóstolos e posteriormente, quando após a
morte de Tiago, os apóstolos não veem mais a necessidade de
substituir aqueles que morriam, levando o fim do colégio apostólico
na medida em que todos eles morreriam. O problema é que quem
faz esse tipo de objeção, geralmente faz uma dicotomia entre o que
seria descritivo (o número 12 e o fato de serem judeus) e o sexo
(que no caso colocam como prescritivo), demostrando uma
manipulação Hermenêutica e Exegética da passagem, apenas para
fortalecer uma suposta fundamentação bíblica contra as mulheres
na liderança da igreja.
Viu só como esse tipo de construção argumentativa é
perigosa? Quem faz esse tipo de associação, certamente:
Não entendeu a correlação Neotestamentária sobre
liderança, ministério e Reino.

Não conseguiu assimilar que na escolha de doze homens


judeus, há todo um simbolismo e significância
apropriada.

Não compreendeu a relação entre Jesus, as mulheres e a


Cultura.
O certo é que Jesus começou a quebrar o antigo sistema
patriarcal fortemente presente em seus dias! Em Mateus, as
mulheres aparecem como modelo para serviço, fé e amor por suas
ações. Em Marcos, homens e mulheres são retratados como
discípulos e discípulas que possuem fracassos e sucessos. Em
Lucas, as mulheres aparecem como receptoras de grandes
manifestações da graça e do Espírito sobre suas vidas. E finalmente
em João, a mulher é o arquétipo de muitas coisas. Por exemplo,
Maria Madalena é o arquétipo do discipulado feminino. Já Maria (a
mãe de Jesus) representa a comunidade de crentes que vivem
contra a cultura opressora.[52]
Por fim, as mulheres tiveram participação ativa no ministério de
Jesus (Lc 23.27,49,55) e mesmo não tendo lugar no colégio
apostólico, desempenharam papéis importantes nas narrativas dos
Evangelhos. Por exemplo, quando ressuscitou, ele confiou às
mulheres a responsabilidade de contar aos apóstolos que estava
vivo. Elas são as primeiras evangelistas vocacionadas por Cristo
para anunciar as boas novas.
Em Mc 16.7, o anjo diz às mulheres: Vão e digam aos discípulos
dele e a Pedro: Ele está indo adiante de vocês para a Galiléia...” O
verbo grego usado aqui traduzido por “vão” é hypágō e significa:
“liderar, trazer sob, retirar-se, ir embora, partir”[53] Liddell-Scott-
Jones também diz que um dos significados desse termo é “colocar
sob o poder de alguém.”[54] Em Jo 20.17, Jesus pessoalmente
dissse a Maria Madalena: “Vá, porém, a meus irmãos e diga-lhes:
estou voltando para o meu Pai...” O verbo que aparece em grego
aqui é poreúomai e significa: para liderar, transportar, transferir,
seguir a jornada em que alguém entrou, continuar sua jornada, etc.
[55] Neste momento, como bem colocou o teólogo N.T. Wright: “Maria
Madalena e as outras [mulheres] são apóstolas para os apóstolos.
Não deveria ser surpresa para nós o fato de Paulo se referir a uma
mulher chamada Júnia como apóstola em Romanos 16.7. Se
Apóstolo é uma testemunha da ressurreição, havia mulheres que
mereciam esse título antes de qualquer um dos homens” (N. T.
WRIGHT 2015, pp. 75,76)
Sobre a pecadora que ungiu Jesus em Lucas 7.36-38, Wright
comenta:
“Penso particularmente na mulher que ungiu Jesus (sem discutir
aqui quem ela era e quantas vezes o episódio aconteceu). Como
ressaltaram alguns, essa foi uma ação sacerdotal, aceita por
Jesus como tal.” (N. T. WRIGHT 2015, p. 76)
E sobre Marta e Maria, ele diz:
“Penso também na notável história de Maria e Marta, em Lucas
10. A maioria de nós cresceu com a ideia de que Marta era do
tipo ativo, e Maria, do tipo passivo ou contemplativo, e de que
Jesus está simplesmente afirmando a importância das duas e até
mesmo a prioridade da devoção a ele. Isso é, sem dúvida, parte
importante da história. Contudo, muito mais evidente para
qualquer leitor do primeiro século e para inúmeros leitores na
Turquia, no Oriente Médio e em muitas outras partes do mundo
hoje, é o fato de que Maria estava sentada aos pés de Jesus, na
parte da casa que era para os homens, em vez de ficar nos
cômodos dos fundos com as outras mulheres. Tenho certeza de
que foi isso o que realmente incomodou Marta. Sem dúvida, ela
estava irritada por ter sido deixada com todo o trabalho, mas o
verdadeiro problema por trás disso era que Maria havia quebrado
uma das convenções sociais mais básicas. É como se, hoje, você
me convidasse para ficar em sua casa e, quando chegasse a
hora de dormir, eu arrumasse uma cama em seu quarto. Temos
nossas próprias e clara, mas não ditas, regras sobre qual espaço
é de quem. Era assim com elas, e Maria simplesmente as
ignorou. E Jesus declara que ela está certa em fazer isso. Maria
‘sentou-se aos pés do Mestre’ (Lc 10.39), uma expressão que
não significa o que significaria hoje- uma aluna afetuosa
contemplando, com admiração e amor, o professor maravilhoso.
Como está claro no uso da expressão em outras partes do Novo
Testamento (por exemplo, Paulo com Gamaliel), sentar-se aos
pés do mestre é uma maneira de dizer que você está sendo um
aluno e adquirindo sabedoria e aprendizado do professor.
Naquele mundo muito prático, você faria isso não só para instruir
a si próprio, mas para tornar-se um mestre, um rabino.” (N. T.
WRIGHT 2015, pp. 76,77)
Nos dias da Igreja
Fazendo uma retrospectiva do que já vimos e do quadro geral da
história: no princípio Deus criou o homem e a mulher. O modelo
ideal de Deus era que tanto Adão quanto Eva fossem
líderes/governantes da criação, no entanto, após a queda, a
submissão ao homem é atribuída a Eva como punição do seu
pecado. A partir de então vimos que toda a narrativa bíblica
veterotestamentária é construída sobre essa realidade, incluindo as
eras dos Patriarcas, Juízes e Reis de Israel. Apesar disso, Deus
levantou ocasionalmente mulheres para liderança do Seu povo
(religiosa e política), demonstrando com isso que mesmo em meio a
uma cultura patriarcal, Ele contava com as mulheres para cuidar do
Seu povo. É nos dias de Jesus que isso começou (mas não
totalmente) a ser mudado. Jesus confrontou as velhas categorias de
governo e tratamento das mulheres. É nesse pano de fundo que
surge então a Igreja.
A Igreja nasce no espaço-tempo em Atos 2. A princípio, os
apóstolos ganharam proeminência no ensino e liderança da igreja,
mas já em Atos o apóstolo Pedro reafirmou a promessa de Joel 2
que fala que o Espírito Santo seria derramado com abundância
sobre homens e mulheres de forma indiscriminada, sendo
habilitados para servirem à igreja e ao mundo. A Igreja foi
vocacionada desde cedo para ser agente de mudança da
sociedade, portanto, gradualmente, as velhas categorias de papéis
ora são respeitadas, ora confrontadas e isso é feito com muita
sabedoria pelos apóstolos. Por exemplo, em algumas regiões onde
a igreja primitiva se estabelecia, as velhas categorias de liderança
são aproveitadas e toleradas, mas jamais canonizadas.[56] Elas são
simplesmente usadas num ambiente onde os apóstolos discerniam
que seria mais efetivo para o crescimento da igreja ter paz com as
estruturas sociais de sua época, para que não fossem considerados
subversivos. Já em outros momentos, veremos que em
determinados lugares e cartas, os apóstolos avançaram em suas
resoluções, estabelecendo princípios gerais e aplicando aos poucos
os ideais de Deus para o homem e a mulher.
Depois de levar em consideração todas essas coisas, quais
seriam então as bases Neotestamentárias para a ordenação de
mulheres ao pastorado? Veremos algumas como:
Há indícios históricos na Bíblia e na Igreja Primitiva de
Mulheres em posição de liderança (nos mais diversos
graus).[57] Ver Romanos 16.

Há fundamentação bíblica para acreditar que Deus também


concede dons ministeriais às mulheres.

A questão da ordenação/titulação faz parte simplesmente da


contextualização e se trata de um reconhecimento da
vocação de alguém por parte de Deus para determinado
ministério. Ou seja, não é o título que faz de alguém um
pastor/pastora, mas a chamada e o serviço. A ordenação
(ou não) é consequência. Desta forma, ainda que a titulação
“pastora” seja extra-bíblica, não é algo que traz problemas
para o debate, pois não é antibíblica.[58]

Sigamos nossa pauta então:


Mulheres na liderança da Igreja Primitiva.
É verdade que não existe nenhuma mulher sendo chamada de
pastora no Novo Testamento (assim como também nenhum homem
é chamado), mas isto de modo algo conta ponto contra o pastorado
feminino, pois a Bíblia está repleta de relatos de mulheres em
posições de liderança[59] ou proeminência tanto na Igreja como fora
dela. Como bem colocou a professora Karen L. King:
"As cartas de Paulo também oferecem alguns vislumbres importantes
sobre o funcionamento interno das antigas igrejas cristãs. Esses grupos
não possuíam edifícios de igrejas, mas se encontravam em residências,
sem dúvida em parte devido ao fato de que o cristianismo não era legal no
mundo romano de seus dias e em parte por causa do enorme custo para
essas sociedades incipientes. Tais casas eram um domínio em que as
mulheres desempenhavam papéis-chave. Não é de surpreender ver
mulheres assumindo papéis de liderança nas igrejas domésticas. Paulo
fala de mulheres que eram líderes de tais igrejas domésticas (Afia
em Filemon 2; Prisca em I Coríntios 16:19). Essa prática é confirmada por
outros textos que também mencionam mulheres que dirigiam igrejas em
suas casas, como Lidia de Tiatira (At 16:15) e Ninfa de Laodicéia
(Colossenses 4:15). As mulheres ocupavam cargos e desempenhavam
papéis significativos no culto em grupo. Paulo, por exemplo, cumprimenta
uma diaconisa chamada Febe (Romanos 16: 1) e assume que as mulheres
estão orando e profetizando durante o culto (1 Coríntios 11). Como
profetisas, o papel das mulheres incluiria não apenas discursos públicos
extáticos, mas pregação, ensino, liderança na oração e talvez até a
realização da refeição eucarística. (Uma obra posterior ao primeiro século,
chamada Didaquê supõe que esse dever recaísse regularmente aos
profetas cristãos)." (KING s.d.)
Vejamos com mais detalhes o ministério de algumas delas:
As profetisas nos dias de Maria, mãe de Jesus.
Isabel (Lc 1.5), a própria Maria (Lc 1.27-28) e Ana (Lc 2.36)
foram as últimas mulheres da Antiga Aliança que foram envolvidas
com as atividades proféticas.
Sobre Ana, Joe Lunceford explica:
“Ela é descrita como perpetuamente presente no templo, servindo a Deus
noite e dia com jejuns e orações. Diz-se que ela era da tribo de Aser, que,
segundo a tradição judaica, era conhecida por suas mulheres bonitas e
talentosas que, por causa dessas qualidades, eram qualificadas para o
casamento real e do sumo sacerdote. Mal podemos considerar sua
colocação ao lado de Simeão, o pai idoso que recebeu o menino Jesus,
como acidental. Este é um padrão típico em Lucas. NM Flanagan
identificou nada menos que treze histórias paralelas homem-mulher no
Evangelho de Lucas. Como aponta Aida Besançon Spencer, esses dois
reconheceram sozinhos o menino Jesus, o Salvador dos judeus e
gentios. Como uma análise cuidadosa do texto mostrará, seus papéis eram
paralelos, não verticais. Uma das pistas mais fortes que apoiam esse
status paralelo é simplesmente a palavra profetisa
(profetas). Anteriormente, vimos esse termo aplicado a Débora e a Hulda
no Antigo Testamento. Quando Ana viu o menino Jesus, ela “continuou
falando dele a todos [não apenas às mulheres!] aqueles que procuravam a
redenção de Jerusalém” (Lucas 2: 38b). Nas palavras de Dwight M. Pratt,
“ela se tornou uma testemunha agradecida e incessante 'de todos os que
procuravam a redenção de Jerusalém' de que chegara o dia de sua
libertação espiritual.” Nas palavras de Edith Deen, ela “se destaca entre
profetisas do Novo Testamento.” Muitos intérpretes limitariam o serviço de
Ana no templo a orar e jejuar - isto é, o serviço de adoração. O verbo
grego para o serviço de Ana é latreuo. Dos seus vinte usos no Novo
Testamento fora da passagem atual, é usado seis vezes para o serviço
total de Deus. Em seis outros casos, não está claro, mas parece incluir
também o culto e outros serviços. Quatro vezes se refere ao serviço
sacerdotal. Apenas quatro vezes é inequivocamente limitado ao serviço de
adoração. Como 80% dos usos do latreuo fora de Lucas 2:37, vão além do
serviço de adoração, limitar seu significado à adoração nesta passagem é
uma exegese altamente questionável.” (LUNCEFORD 2000)
A liderança feminina no livro de Atos (Atos 1-28)
O teólogo reformado Derek Tidball, ensina que o livro de Atos
sugere que não se via a igreja "como uma instituição estabelecida
com um padrão estruturado de liderança hierárquica." (p. 96).
Citando James Dunn, ele acredita que no começo, o "ministério era
muito mais espontâneo e carismático em natureza, e a liderança
assumiu várias formas diferentes antes de estabelecer para refletir o
modelo de liderança encontrado na sinagoga judaica." (p. 97) Já
sobre as mulheres em Atos, o autor destaca o papel de muitas delas
como grandes líderes carismáticas. Ele fala de Maria, mãe de
Marcos que hospedava uma igreja-casa em Jerusalém (...); Priscila,
que com seu marido Áquila, é reconhecida como a hospedeira e
mestra de Apolo (...), Dorcas tem sido descrita como a líder no
trabalho de socorro e tem sido sugerido que o seu exemplo pode ter
sido instrumental no desenvolvimento de ofícios da igreja que
centram no serviço..." (p. 103)
Sobre Maria, mãe de Marcos, ele fala que ela "teria naturalmente
desempenhado alguma coisa de um papel de liderança no grupo,
mesmo que não fosse o papel de ensino..." (p. 103) Já Lídia, "tem
um papel similar no ministério de Paulo em Filipos. Ela é,
claramente, uma mulher de negócios que é a cabeça de sua casa."
(p. 103,104) Sobre a menção paulina de Priscila antes do marido
Áquila, ele comenta que isso "também implica que Priscila assumiu
um papel de liderança na instrução de Apolo..." (p. 104)
Sobre a objeção de que o ensino do casal era particular e não
público, ele alega que "Lucas não dá nenhuma dica de que este
fosse um problema e Paulo chama a atenção para ambos os
ensinos públicos e privado em seu discurso em Mileto, sem sugerir
que um era superior ao outro." (p.103) E finaliza este tópico dizendo:
"Atos não mostra nenhuma inibição em relatar a contribuição das
mulheres para a liderança da igreja primitiva. Embora o peso dos
relatórios seja fortemente a favor dos homens, a quantidade de
importância dada às mulheres é notável, dado o contexto Patriarcal
do qual a igreja primitiva estava emergindo." (p. 103).[60]
Febe, a Diaconisa de Cencreia (Rm 16.1,2)
Seu nome significa “radiante”, “brilhante” ou “pura.” É
mencionada em Romanos 16.1,2 como sendo a diaconisa da Igreja
em Cencreia. Infelizmente, muitas traduções atrapalham mais do
que ajudam durante as discussões acadêmicas, e nesse caso, a
discussão se concentra em identificar se Febe era simplesmente
uma serva ou uma oficial/ordenada da igreja.
O termo grego que Paulo usa para ela é diakonos, o mesmo que
aparece em Filipenses 1: 1, 1 Timóteo 3: 8 e 1 Timóteo 3:12. Porque
será que nessas três últimas passagens, ele é traduzido como
“diáconos” e na passagem de Febe simplesmente como “serva”?[61]
Baseado na suposição de que as mulheres não podem ser
diaconisas. Nada mais que isso. No entanto, uma análise mais
cuidadosa do texto nos leva a crer que Febe era uma diaconisa e
uma influente líder da igreja.[62]
Nas palavras de Mimi Haddad, está claro que Febe era uma líder
oficial da igreja:
“Paulo não apenas se refere a Febe como diácono, mas também a
considera uma prostatis (um substantivo grego) que, de acordo com
o léxico grego-inglês de Thayer, significa "aquele que preside" ou "uma
mulher que se impõe sobre os outros". A forma verbal de prostatis é
encontrada em 1 Tessalonicenses 5:12, onde Paulo se refere àqueles que
“trabalham por cima” e têm “carga por cima” (1 Ts 5:12, NVI). Em Romanos
12: 8, vemos a forma participativa dessa palavra, novamente, para implicar
liderança. Veja o valioso artigo de Lynn Cohick no Comentário Bíblico para
Mulheres da IVP para obter mais informações. O termo diakonos (diácono)
é usado para identificar líderes como Paulo, Cristo, Timóteo, Febe, Apolo e
Tíquico. E líderes como diáconos e superintendentes foram selecionados
por causa de seu excelente caráter moral - estavam acima das críticas. De
fato, as qualidades de um diácono (1 Tim. 3: 8) são quase idênticas às de
um superintendente (1 Tim. 3: 1). Tanto os diáconos quanto os
superintendentes deveriam administrar suas famílias. Eles deveriam ser
caridosos e autocontrolados.” (HADDAD, May Women Serve as Deacons?
2009)
Como diaconisa, qual papel ela desempenhou em Cencreia?
Craig Keener traz possibilidades bem interessantes para o papel de
Febe como diaconisa. Segundo ele, numa inscrição síria, o termo
"diácono" é aplicado ao equivalente a um líder da sinagoga, e Paulo
costuma aplicar o termo a um ministro do Evangelho. Keener
também chama nossa atenção para o fato de que os tradutores
frequentemente interpretam a palavra "diácono" como "ministro"
para homens e "serva" para mulheres, revelando um preconceito
contra mulheres que ocuparam posições mais altas na igreja
primitiva. (KEENER 1998, p. 239)
Vários teólogos também garantem que ela foi a portadora da
carta aos Romanos. Uma das cartas mais admiradas pelos cristãos
foi transportada por uma mulher! E existe a possibilidade de Febe
ter sido a pessoa que leu Romanos para os irmãos e até mesmo
forneceu explicações sobre o texto! Patrick Gray explica:
“Os companheiros de trabalho de Paulo que entregaram suas cartas não
os deixaram cair na caixa de correio e seguiram seu caminho, mas
provavelmente os leram em voz alta para os destinatários e estavam
disponíveis para explicar o significado das referências que elas
continham.”[63]
O mais antigo comentário de Romanos (sobrevivente) escrito por
Orígenes garante:
“Esta passagem ensina por autoridade apostólica que as mulheres também
foram nomeadas (constitiu) no ministério da igreja (em ministerio
ecclesiae), em que o ofício de Febe foi colocado na igreja em Cencréia... E,
portanto, esta passagem ensina duas coisas igualmente e deve ser
interpretada... significando que as mulheres devem ser consideradas
ministras (haberi ... feminas minstras ) na igreja” (Comentário de Orígenes
em Romanos 16: 1-2 )
Em sua 31ª homilia sobre Romanos, Crisóstomo se refere a
Febe e escreve que Paulo se dirigiu a ela “por seu título, pois ele
não a chama de serva da igreja de uma maneira indefinida... mas...
como tendo o ofício de diaconisa.”[64]
Até mesmo complementaristas como Craig L. Blomberg
confessam: “Dado que Paulo chama Febe de um diakonos 'da
igreja em Cencreia' (Rm 16: 1), é provável que ela seja um de seus
diáconos.” E completa: “Mais e mais eruditos complementaristas
estão reconhecendo [que Febe era um diácono], embora às vezes
tenha tido pouco efeito sobre a política da denominação a que
pertencem.” (BECK 2005, p. 249.). [65] Outro complementarista que
admite isso é o Leon Morris: “Febe é certamente chamada de
diácono...” (MORRIS 1988, p. 529) E Schreiner conclui: “Vimos em
traduções de Romanos 16.1 que Febe era ou “diaconisa” ou “serva”
da igreja em Cencreia. Com tão pouco como base, a decisão
poderia ir de qualquer forma, pois a palavra diakonos em grego
pode se referir a um servo sem ter a ideia de um cargo específico.
No entanto, a adição das palavras “da igreja em Cencreia” sugere
uma capacidade oficial. O versículo 2 apóia este significado, já que
Febe é designada como “protetora” (ARA) ou “de grande auxílio”
(NVI), o que significa que ela ajudava regularmente, talvez
financeiramente, os necessitados.” (SCHREINER 2019)
Concluo este tópico com um breve texto do presbiteriano
Kenneth E. Bailey:
"Em Rm 16: 1-2, Paulo escreve: ‘Recomendo a você nossa
irmã Febe, diácono da igreja em Cencreia.' Febe é chamada de
diácono (diakonos) e não de diaconisa. A evidência para o uso
feminino dessa forma masculina é pequena. Muito
provavelmente, esse final masculino é usado porque Febe estava
ordenada para um ministério claramente definido, o de diácono
(diakonos). Assim, o título formal aparece. Outra razão é que no
aramaico, a palavra é shammash, usada para descrever o Sumo
Sacerdote oficial do templo no dia da expiação (M., Yoma 7: 5;
B.T. Yoma 47a). Porém, "shammasha" (feminino) significava
'prostituta'. A necessidade de um título honorário ditaria o uso do
masculino em uma igreja onde um número significativo tinha o
aramaico como parte de sua herança linguística. De qualquer
forma, durante séculos os estudiosos observaram a natureza da
posição de Febe. Sobre esse versículo, João Calvino escreveu:
"Ele começa elogiando Febe... primeiro por causa dela, pois
exercia um ministério muito honrado e santo na Igreja." Na visão
contemporânea, Cranfield conclui: "Consideramos virtualmente
certo que Febe está sendo descrita como ou possivelmente o
'diácono' da igreja em questão, e que esta ocorrência de diakonos
deve ser classificada com suas ocorrências em Filipenses 1.1 e 1
Timóteo 3.8,12." Acrescentaríamos a isso 1 Tim 4:6 onde
Diakonos é aplicado ao próprio Timóteo, e que geralmente é
traduzido como 'ministro'. Reconhecendo que Romanos é escrito
quando o ministério da igreja estava num estágio inicial e mais
indefinido, Dunn sente que [traduzir como] "servo" é inadequado.
Ele escreve: "Diakonos juntamente com ousa aponta mais para
um ministério reconhecido... ou uma posição de responsabilidade
dentro da congregação." Paulo se refere a si mesmo e a Apolo
como diakonoi em 1 Cor 3: 5. Além disso, Febe é chamada de
prostatis para muitos. Esta palavra foi aplicada ao líder do culto
no templo greco-romano bem como a um governador, um chefe e
o líder de uma democracia. Dunn defende [a tradução]
patrono/protetor ou líder/governante. Uma versão árabe do século
nono traduziu esta frase, 'qa'ima' ala katherin wa 'alayya', como:
autoridade sobre muitos e também sobre mim." (BAILEY, p.
27,28)
Além disso, muitos comentaristas acreditam que Febe levou
pessoalmente a carta de Romanos até a igreja romana, o que faria
com uma posição diaconal.
O ofício das diaconisas também é tratado em 1 Tm 3.11.
Geralmente, os complementaristas interpretam essa passagem
como se referindo às mulheres em geral ou às esposas dos
diáconos. No entanto, a interpretação de que ele estava se referindo
ao ministério diaconal do sexo feminino é a mais precisa e segura
pelos seguintes motivos:
O contexto indica que Paulo está falando dos oficiais da
igreja, logo as mulheres mencionadas podem tratar-se muito
bem das ministras oficiais da igreja. Desta forma, interpretar
esse versículo como falando das mulheres em geral ou
esposas dos diáconos, não está em harmonia com o
contexto.

No contexto remoto, Paulo não menciona as mulheres dos


Bispos, porque se referiria às esposas dos diáconos no
versículo 11? Nas palavras do teólogo reformado Thomas
Scheiner: “um outro argumento em apoio a mulheres
diaconisas vem do silêncio, mas é importante. O argumento
é o seguinte: Se a referência fosse às esposas de diáconos,
por que razão Paulo omitiria uma referência às esposas de
presbíteros, particularmente uma vez que eles exercem
supervisão pastoral e liderança na igreja? Parece que o
caráter das esposas de presbíteros seria
ainda mais importante do que das esposas de diáconos —
e, portanto, concentrar-se nas esposas dos diáconos, mas
não nas esposas dos presbíteros, é estranho. No entanto, se
a referência é às mulheres diaconisas, temos uma
explicação elegante de por que as esposas dos presbíteros
não são mencionadas — por que as esposas dos diáconos
também não estão incluídas. Em outras palavras, Paulo não
está se referindo a esposas, mas a mulheres diaconisas.”
(SCHREINER 2019)

Se Paulo estivesse se referindo às esposas dos diáconos,


ele poderia ter usado a expressão: “As suas mulheres
igualmente...”, mas não o fez.

A expressão “igualmente” ou “de igual modo” coloca as


mulheres nas mesmas condições que os homens
mencionados anteriormente, isto é, Paulo está falando do
mesmo ministério, sendo que dando diretrizes para pessoas
do sexo distinto.
Paulo não usa a expressão “diaconisa” porque esse termo
não existia no grego vernacular dos seus dias. É por isso
que ele chama Febe de diácono (masculino) da Igreja em
Cencreia.
Nessa perícope, Paulo está tratando de como deve ser o
caráter dos oficiais da igreja. Seria estranho Paulo incluir as
mulheres em geral ou as esposas dos diáconos nesse
contexto. Segundo Schreiner: “As qualidades de caráter
requeridas para as mulheres em 1 Timóteo 3.11 também são
obrigatórias para os presbíteros e diáconos, o que faz
sentido se se referir a uma qualificação oficial. Assim como
os diáconos devem “ser dignos de respeito” (1Tm 3.8),
também as mulheres diaconisas devem “ser dignas de
respeito” (1Tm 3.11). Os presbíteros devem ser “sóbrios”
(1Tm 3.2), e as mulheres diaconisas também devem ser
“sóbrias” (1Tm 3.11). Outras duas qualidades de caráter são
exigidas das mulheres diaconisas: Elas não devem ser
“maldizentes” e devem ser “fiéis” (1Tm 3.11). Tais
qualificações apontam para uma responsabilidade oficial.”
(SCHREINER 2019)

A maioria dos comentaristas antigos também defenderam


que aqui Paulo está falando do ministério das diaconisas.
Sendo assim, muitas outras mulheres devem ter exercido o ofício
do diaconato, muito embora não sejam mencionadas pelo nome nas
Escrituras. Mimi Haddad também ensina que o diaconato feminino
não foi exercido somente por Febe na Igreja Primiva. Ela nomeia
outras quatro como:
“Apolônia era uma diaconisa na igreja de Alexandria. Seu destaque como
diaconisa é notado pela multidão que a apreendeu, torturou e martirizou
em 249 d.C. Seu serviço como diaconisa incluía educar novos convertidos,
cuidar dos doentes e supervisionar o rito do batismo. Sofia era uma
diaconisa do século V na igreja de Jerusalém. Sua lápide, localizada no
Monte das Oliveiras, foi descoberta em 1903, e a inscrição traduzida do
grego diz: “Aqui jaz o ministro e a noiva de Cristo, Sofia, o diácono, a
segunda Febe ...” O trabalho de Sofia como diaconisa foi documentado por
Egeria, uma peregrina cristã que visitou Jerusalém (em 400-417) e
registrou cuidadosamente seus encontros com líderes cristãos como Sofia
e Marthana - duas diaconisas na igreja de Jerusalém. As notas de viagem
da Egeria são consistentes com as evidências arqueológicas que também
identificaram Sofia como uma diaconisa em Jerusalém. Domnika era uma
mulher do século IV de Alexandria, que foi comissionada (ou ordenada)
como diaconisa por Nektarios, o Patriarca de Constantinopla. Como
diaconisa, Domnika estabeleceu uma comunidade de mulheres cristãs e foi
professora nessa comunidade.” (HADDAD, A Great Host of Women 2009)
Júnia, a apóstola que se destacou entre os outros apóstolos
(Rm 16.7)
Durante vários séculos da Era cristã, era normal acreditar
(Patrística e os Medievais) que havia existido uma mulher notável
entre os apóstolos na Igreja Primitiva. Seu nome? Júnia! Contudo,
isso não duraria muito tempo, pois, no século XIII, Júnia (feminino)
se transformaria em Júnias (masculino) pelo católico e filósofo
medieval Aegidius de Roma (1245-1316). Até então, grandes
pensadores como João Crisóstomo (347-407 d. C), Orígenes (185-
254 d. C), Jerônimo (340-419 d. C), Atto de Vercelli (924-961),
Teofilato (1050-1108) e Pedro Abelardo (1079-1142) acreditavam
que Júnia era mulher. Depois disso, a figura feminina de Júnia caiu
no esquecimento e foi praticamente apagada da mente de qualquer
leitor, mesmo existindo cerca de 250 manuscritos antigos indicando
que o nome Júnia era feminino e nenhum comprovando que era um
nome masculino. Tudo isso motivado pela resistência à ideia de
Paulo ter falado de uma mulher notável entre os apóstolos.

No início do século XX, a figura de Júnia voltou ao debate.


Depois de décadas, três autores foram cruciais para resgatar a
história e recontar quem foi a mulher que é chamada de apóstola
por Paulo em Romanos 16.7. São eles: Rena Perderson (The Lost
Apostle: Searching for the Truth About Junia), David Williams (Junia
a Woman an apostle) e Eldon Jay Epp (Junia the first Woman
Apostle). Essas três obras não apenas comprovam definitivamente
que Júnia era uma mulher contada entre o grupo dos apóstolos,
como também mostram que ela era uma figura proeminente e
conhecidíssima na igreja primitiva. Os autores analisam fatos
históricos, documentos antigos, o léxico, a sintaxe e a semântica do
texto. Além dessa troca Exegética-Hermenêutica, esses autores
analisaram as mais recentes objeções (de Wayne Grudem/John
Piper, por exemplo) à crença de que Júnia era uma apóstola.
Quem foi Júnia? De acordo com as informações de Paulo
(Romanos 16.7), era uma apóstola, alguém notável (destaque) entre
os apóstolos, uma companheira de prisão, era uma judia e
provavelmente esposa ou irmã de Andrônico. Paulo também disse
que ela estava em Cristo antes dele. Esse detalhamento tão
meticuloso mostra que ela era uma pessoa importante e certamente
influente.

Comentando sobre Rm 16.7, Kenneth Bailey explica:


“Duas pessoas neste texto são chamadas de 'notáveis entre os
apóstolos'. O foco de interesse se concentra no nome Jounian, que é o
singular acusativo de um substantivo grego da primeira declinação.
Infelizmente esse singular acusativo pode ser masculino ou feminino. A
questão passa a ser: Qual é o nominativo desse nome Jounian? A
primeira declinação permite duas opções. Pode ser Jounia, caso em que
esta pessoa é uma mulher. Esta opção significaria que Paulo estava
enviando cumprimentos para um homem e uma mulher, ambos
apóstolos, provavelmente marido e mulher como Priscilla e Áquila, a
quem ele acabou de mencionar. Por outro lado, se a forma nominativa
for Jounias, uma contração de Junianus, então o texto se refere a dois
homens. Qual dessas opções é mais provável? Inicialmente
observamos que o testemunho dos pais é consistente. Pregando sobre
este texto, Crisóstomo disse: ‘Cumprimente Andrônico e Júnia... que se
destacam entre os apóstolos. Ser apóstolo é algo grande. Mas ser
notável entre os apóstolos, é um grande louvor! De fato, quão grande
era a devoção dessa mulher que foi considerada digna do título de
apóstola.” Jounian também foi lido como feminino por Orígenes de
Alexandria, Jerônimo, Pedro Abelardo e outros. A estudiosa católica
Bernadette Brooten, citada acima, não conseguiu encontrar nenhum
comentário em latim sobre romanos que tinha esse nome como
masculino antes do final do século XIII. O nome aparece como feminino
(Junia) na Peshitta Siríaca e em todas as numerosas versões MSS e
árabe publicadas disponíveis para mim, estendendo-me do nono ao
século dezenove. O nome masculino Junias apareceu pela primeira vez
no Oriente Médio em 1860! No idioma inglês da famosa Versão
Autorizada lê-se ‘Salute Andronicus e Junia... que são notáveis entre os
apóstolos. 'A primeira mudança notável de Júnia para Junias foi
aparentemente feita por Faber Stapulensis, escrevendo em Paris em
1512. Seu trabalho posteriormente influenciou o comentário de Lutero
sobre Romanos. Lutero então incorporou a Junias masculina em sua
tradução alemã da Bíblia que com o tempo influenciou outras versões.
No entanto, o nome masculino teórico Junias nunca foi encontrado em
qualquer texto latino ou grego. O nome Júnia, no entanto, apareceu
mais de duzentas e cinquenta vezes. Assim, insistir que este é um nome
masculino, é como encontrar um texto com o nome Maria nele e
argumentar que se refere a um homem! Tal argumento é teoricamente
possível, mas certamente dependeria de encontrar pelo menos um texto
em que Maria é claramente um nome masculino. Parece que durante os
séculos XIII a XVI, um nome conhecido pela igreja no leste e oeste,
como sendo de mulher, gradualmente tornou-se o nome de um homem
no Ocidente. No Oriente Médio, essa mudança de gênero não ocorreu
até o século XIX. A mudança nos dois casos foi feita sem referência a
qualquer evidência. Agora devemos perguntar: o título 'apóstolo' é
significativo? No N.T este título foi aplicado principalmente aos doze,
Paulo, Tiago, Barnabé e as duas pessoas neste texto também foram
chamadas de apóstolos. Pela brevidade da lista e pelo destaque dos
três primeiros nomes, é claro que eles eram um grupo altamente seleto.
Em 1 Coríntios os apóstolos encabeçam a lista de dons da igreja
(12:29). Como observado, a Igreja é constituída neles (Ef 2:20). O título
é melhor entendido como tendo mantido seu significado original, que era
uma testemunha ocular de Jesus que tinha recebido uma comunicação
direta dele. Assim, o título de apóstolo (como aplicado a Júnia) não pode
ser visto como uma referência casual a uma testemunha cristã
insignificante do início. Com Crisóstomo, os Primeiros Pais, os
tradutores de árabe e siríaco, a cristandade e a versão autorizada,
podemos afirmar com plena confiança que Júnia (feminina) era
apóstola.” (BAILEY, pp. 28,29)
Sobre as mulheres realizando trabalhos apostólicos, o
Reverendo Carlos A. Fernandes afirma:
“Paulo conhecia apóstolas, como é o caso de Júnia (Rm. 16:7). Tal fato
revela que o conceito de “apóstolo” não só era superior ao grupo dos doze,
mas que mulheres exerciam este ministério eclesial, que foi temporal e
específico, delimitado àqueles que viram o Senhor Ressuscitado. Mesmo a
referência a uma Maria “que muito trabalhou por vós” (Rm. 16:16) – o
verbo aqui traduzido por “trabalhar” é o mesmo que Paulo usa para referir-
se à atividade apostólica), revela que outras mulheres, que não as
referidas na cena do Sepulcro Vazio, foram testemunhas do Cristo
Ressurreto, como lembra o apóstolo Paulo (I Co. 15: 3 – 7), repetindo o
que recebera da Igreja como tradição.” (FERNANDES, p. 4)

Júnia foi uma apóstola notável da Igreja Primitiva e embora o


ofício apostólico não exista mais nos dias de hoje, seu exemplo de
liderança ilustra e reacende a verdade de que Deus conta também
com as mulheres para os ofícios de liderança. Se Paulo não teve
problema em chamar uma mulher de apóstola, porque existem
pessoas que se escandalizam com mulheres sendo chamadas de
pastoras?

Bem, há quem diga que Júnia era uma apóstola apenas no


sentido de uma missionária ou mensageira. No entanto, as
atividades dos apóstolos Barnabé e Paulo no livro de Atos,
demonstram que os apóstolos do Novo Testamento (os 12 e os
gerais) não se limitavam apenas à tarefa do mensageiro e do
missionário, mas também serviam como pastores-mestres e
supervisores (Episkopos). Logo, a nova tentativa dos
complementaristas de negar papéis pastorais à Júnia, é
problemática por diversas razões, entre elas, a de minimizar ou
limitar o papel dos apóstolos apenas para adequar a crença de que
Júnia era somente uma pregadora, nada mais que isso. Essa nova
argumentação ainda encontra outro problema: Júnia não é somente
apóstola, ela é apóstola notável, ou seja, entre os apóstolos, ela é
um destaque. Se Paulo quisesse dizer que ela era uma boa
pregadora, poderia tê-la chamado simplesmente de evangelista,
mas não o fez. Este dado somado ao fato de que o contexto mais
amplo de Romanos 16 envolve personagens que desempenham
papéis ministeriais de liderança e ofício, sugere que Júnia foi uma
líder por excelência.

Outra tática moderna dos complementaristas é reconhecer que


existiram diaconisas na Bíblia e na Igreja Primitiva. Todavia, eles
procuram redefinir como era a diaconia no Novo Testamento.
Alguns, chegam ao extremo que defender que não era um ofício. Na
ânsia de resolver um problema, acabam criando dois, pois se o
ofício de diácono não existia no Novo Testamento, então as igrejas
que ordenam diáconos estão em discordância com as Escrituras. É
um verdadeiro tiro no pé. A verdade é que os debates em torno de
figuras do Novo Testamento continuam. Júnia por exemplo, já foi
homem, já foi notada pelos apóstolos e agora é uma simples
missionária. Febe já foi serva, e hoje não passa de uma diaconisa
sem autonomia eclesiástica genuína. A pergunta que fica é: até
quando os complementaristas vão resistir ao que a própria Escritura
garante? Reconheço que esse assunto não é fácil, mas por outro
lado, enfatizo que se torna ainda mais difícil quando encontramos
pessoas que são comprometidas mais com suas crenças pessoais
ou dogmas institucionais.

Priscila, a líder e mestra por excelência (Rm 16.3)


Indiscutivelmente, Priscila foi uma das mais notáveis e influentes
líderes da igreja primitiva. Ela tinha um profundo conhecimento das
Escrituras e sem dúvida, exerceu com majestade o ministério de
mestra em seu tempo. Nas palavras de Joe Lunceford:
“Três vezes ela é chamada de Prisca e três vezes pela forma diminuta
Priscila. Nós a encontramos pela primeira vez em Corinto (Atos 18: 2),
tendo vindo recentemente de Roma por causa da expulsão de judeus de
Roma pelo imperador Cláudio. Prisca e seu marido, Áquila, eram
fabricantes de tendas, e isso parece ter sido o que os uniu a Paulo, que era
do mesmo ramo. Quando Paulo deixou Corinto para Éfeso, Prisca e Áquila
vieram com ele para Éfeso, onde Paulo os deixou (a cargo da igreja?). De
qualquer forma, quando um judeu alexandrino chamado Apolo, que era um
orador poderoso, mas que nada sabia sobre o cristianismo, exceto o
batismo de João (Atos 18:25), Prisca e Áquila o afastaram e “explicaram-
lhe o caminho de Deus com mais precisão” (Atos 18:26). O que chama
atenção nesse relato é o fato de que, desafiando todas as convenções do
primeiro século, Prisca precedeu o nome de seu marido, Áquila. Não só
aqui, mas em quatro das seis menções deste casal, o nome dela aparece
primeiro. Frank Louis Mauldin acha que isso indica que “provavelmente...
ela era mais importante para a comunidade cristã - seja em virtude da
nobreza, personalidade ou espiritualidade.” De maneira semelhante,
James Dunn escreve: “A dedução mais óbvia é que Prisca era a mais
dominante entre os dois ou de maior status social...” Jacob W. Kapp se
refere a uma série de conjecturas baseadas na ordem dos nomes e
conclui: “A melhor explicação parece ser que ela era a personagem mais
forte”. Colocar Prisca no papel de ensinar Apolo (mesmo junto com o
marido) é uma questão de grande importância. O verbo usado para o
ensino dela é usado em outros lugares da proclamação pública do
Evangelho por Pedro (Atos 11: 4) e Paulo (Atos 28:23). Tudo isso
acrescenta um argumento bastante forte de que Prisca era uma professora
e líder cristã em pé de igualdade com o marido, se não superior a ele. Que
o próprio Paulo lhe concedeu esse status é demonstrado por sua
referência a Prisca e Áquila como companheiros de trabalho em Cristo (Rm
16: 3). O termo traduzido como "companheiro de trabalho" é usado na
literatura paulina doze vezes e apenas uma vez no restante do Novo
Testamento. A lista daqueles que Paulo designou como companheiros de
trabalho inclui, além de Prisca e Áquila, Urbano, Apolo, a congregação em
Corinto, Tito, Epafrodito, Evódia, Síntique, Clemente, Aristarco, Marcos,
Jesus Justus, Timóteo, Filemon, Demas e Lucas. É notável que Prisca
conceda qualquer lugar que seja nesta companhia distinta - e que ela seja
colocada em um papel dominante, beirando o milagroso.” (LUNCEFORD
2000)
Sobre o fato dela ter ensinado Apolo, os complementaristas
criam diversas objeções como:
“Priscila e Áquila não exerceram ensino autoritativo sobre
Apolo.” Como assim não ensinaram com autoridade? Afinal, a
autoridade não lhes veio de Deus? O conteúdo do que eles
disseram não era autoritativo para Apolo? Ninguém minimiza o
ensino de Filipe ao eunuco de Candace em Atos 8.26-40, então
porque fazem isso com Priscila? Por acaso, Filipe está debaixo
da autoridade do Espírito e Priscila não?
“Priscila e Áquila não ensinaram Apolo em público, mas em
privado.” Essa distinção entre privado e público, não parece ser
tão saudável pois Jesus disse que onde estiverem dois ou três
reunidos em seu nome, ali ele estaria presente e isto nos leva
para outro ponto: havia uma igreja na casa de Priscila e Áquila,
portanto, ao levá-los para casa, eles lhes ensinaram na igreja.
“Priscila e Áquila não ensinaram Apolo, mas explicaram,
portanto, não podem ser chamados de mestres da Igreja.” Essa
distinção é meramente funcional. Se cria um não-problema afim
de negar o óbvio: Priscila e Áquila foram mestres da igreja
primitiva! Quem explica, ensina (At 11.4; 28.23). De acordo com
Marg:
“Algumas pessoas discutem sobre o significado da palavra "explicar"
(ektithēmi) usada em Atos 18:26 . Eles afirmam que isso não significa
"ensinar". Didaskō é a palavra grega geralmente traduzida como
"ensinar" ou "instruir". BDAG (p. 241) define didaskō como “(1) para
dizer a alguém o que fazer, dizer, instruir... e (2) para fornecer instruções
em um ambiente formal ou informal, ensinar.” O próprio Apolo é descrito
como alguém que estava“ falando (laleō) e ensinando (didaskō) ”sobre
Jesus ( Atos 18:25 ). No capítulo 19 de Atos (o capítulo imediatamente
após a passagem sobre a “explicação” de Priscila e Áquila), Lucas
escreve sobre o ministério de três meses de Paulo na sinagoga de
Éfeso. Lucas usa os cognatos de três verbos diferentes em referência
ao discurso de Paulo sobre o Reino de Deus: (1) parrēsiazomai - falar
com ousadia ou livremente, (2) dialegomai - discutir ou raciocinar e
(3) peithō - persuadir ( Atos 19: 8 -9 ). Lucas não usa a palavra "ensinar"
(didaskō) aqui, e ainda assim não há dúvida de que, durante esses três
meses em Éfeso, Paulo de fato ensinou. Ele ensinou com ousadia,
raciocínio e persuasão. Não é razoável sugerir que o ministério de Paulo
em Atos 19: 8-9 não incluísse ensino simplesmente porque Lucas não
usou a palavra didaskō. É igualmente irracional sugerir que a explicação
de Priscilla e Áquila para Apolo não incluísse ensino apenas porque
Lucas não usou a palavra didaskō. É certo que Priscila e Áquila
ensinaram Apolo. Isso fica mais claro quando olhamos para o
significado de "explicar" (ektithēmi) e para as circunstâncias em que
Lucas usa a palavra em outro lugar em Atos.” (M. MOWCZKO, Margaret
Mowczko 2010)
Sem dúvida, esta e outras mulheres se destacaram no ensino e
na propagação do Cristianismo!
As profetizas, filhas de Filipe (Atos 21.9)
O livro de Atos registra que as quatro filhas de Filipe
profetizavam. Pelo contexto geral, podemos presumir que elas
faziam parte da liderança carismática da Igreja Primitiva, muito
embora o texto bíblico não nos forneça muitas informações sobre o
que elas faziam, além de profetizar. Há algumas pistas disso como:
essas mulheres podem ter escolhido permanecer solteiras para se
dedicar ao Senhor e ao ministério (cf. 1 Cor. 7: 8 , 34 ). Outro ponto:
de modo geral, o profeta do Novo Testamento fornecia orientação,
instrução, fortalecimento, encorajamento e conforto (Atos 13: 3-
4 ; 16: 6 ; 1 Cor. 14: 3 , 31). Lembremo-nos de que profetizar no
Novo Testamento é tão importante quanto pregar ou ensinar.[66] Ao
longo da história da igreja, elas são lembradas em várias ocasiões.
Eusébio de Cesaréia, por exemplo, “citou Papias, líder da igreja vivo
na época das filhas de Filipe, que disse que as pessoas viajavam
grandes distâncias para visitar essas profetisas e ouvir seus relatos
das primeiras décadas da igreja. Algumas das histórias que Lucas
incluiu em seu Evangelho e em Atos podem muito bem ter vindo das
filhas de Filipe.”[67] Em Atos, os líderes mais proeminentes e
difundidos são chamados de 'profetas'. A igreja de Antioquia, por
exemplo, era liderada por profetas (mencionados primeiro) e
Mestres (Atos 13: 1- 3). Sendo assim, existe uma grande
probabilidade dessas mulheres, assim como seu pai, estarem
envolvidas no ministério e liderança na Igreja Primitiva.
As profetizas coríntias (1 Co 11)
As mulheres coríntias podiam profetizar e orar, portanto, o
ministério feminino carismático estava presente nesta Igreja. É
verdade que este caso não pode ser usado para fundamentar a
ordenação feminina, mas tomei como exemplo apenas para ilustrar
como as mulheres estavam engajadas na obra de Deus na igreja,
inclusive sendo usadas em dons ministeriais e espirituais.
A Senhora Eleita (2 Jo 1.1)
A carta de 2 João é endereçada à senhora eleita e seus filhos.
Quem seria esta senhora eleita? Seria uma mulher literal? Uma
líder? Ou uma igreja? Você sabia que Kuria era um termo que
costumava ser usado para uma mulher de alto status nos dias de
João?
Alguns estudiosos sugerem que esta carta foi escrita para uma
líder da igreja primitiva. “A palavra traduzida como "Senhora" não
ocorre em nenhum lugar do Novo Testamento fora de 2 João. A
palavra é kuria, a forma feminina de kurios, uma palavra comum do
Novo Testamento traduzida como "Senhor" ou "mestre". A forma
masculina kurios é usada para denotar o chefe de uma família ou o
mestre de um escravo. Paulo o usa nesse sentido em Efésios 6. Em
Gálatas 4: 1, Paulo usa kurios para falar de alguém que não está
sob a autoridade de um guardião ou administrador. Em última
análise, no Novo Testamento, as funções de “o Senhor” como o
equivalente da palavra hebraica Adoniah, como uma designação
para Jesus Cristo. O significado básico da palavra é "autoridade" ou
"mestre". É muito improvável que kuria (forma feminina) é um nome
próprio. No contexto de 2 João, a palavra provavelmente denota
uma mulher que estava em um lugar de autoridade ou
liderança. Talvez ela fosse esposa ou filha de uma autoridade
romana (compare Filipenses 4:22, onde Paulo envia saudações dos
santos que são da casa de César). A maré respeitosa
de kuria indica, no mínimo, a alta consideração que João e a
comunidade cristã lhe deram.” (WADSWORTH 1996)
Ela era eleita. O que quer dizer isto? De acordo com Lamar
Wadsworth:
“A palavra traduzida como "escolhida" é uma palavra comum do Novo
Testamento - nossa palavra em inglês "eleito" vem dela. Paulo usou a
mesma palavra em Romanos 16 para descrever Rufo como um “homem
escolhido no Senhor”. Jesus usou essa palavra quando disse: “Muitos
são chamados, mas poucos são escolhidos.” Em Colossenses 3:12,
essa palavra é usada para descrever os crentes como “aqueles que
foram escolhidos por Deus”. Pode ser usado no sentido de “respeitado”
ou “honrado”. Aqui em 2 João, a palavra provavelmente deve ser
tomada no sentido de “eleito” ou “escolhido. Certamente, ela foi
escolhida no sentido de Efésios 1 de ser “escolhida em Cristo antes da
fundação do mundo”, mas também foi escolhida no sentido de ter sido
designada pelo apóstolo João ou escolhida pela igreja para um lugar de
liderança. Aida Besancon Spencer, em seu livro Beyond the Curse, cita
Clemente de Alexandria, no século II d. C, que claramente usou a
palavra para designar pessoas ordenadas para locais de ministério
público.” (WADSWORTH 1996)
Porém, será que existem algumas evidências na carta disto?
Sim, segundo Greenley, há pistas:
A autoridade desta mulher vem de Deus; ela é a “senhora
eleita” (KJV), ou a “senhora escolhida por Deus” (NVI)
(versículo 1).
Esta mulher tem ensinado aos cristãos como andar em amor,
verdade e obediência aos mandamentos de Deus; João a
elogia por isso, mesmo dizendo que "se alegra" (versículo 4).
Esta mulher é homenageada por João, que “a implora” para
que ela continue ensinando os cristãos a andar em amor
(versículo 5, KJV). A palavra aqui traduzida "suplicar" está no
grego erotao. Outras traduções dessa palavra no Novo
Testamento incluem "pedir", "orar", "desejar" e "suplicar".
Longe de ser um comando masculino arrogante, é uma
súplica.
Ela tem autoridade para rejeitar falsos mestres (versículos 8-
10).
Ela e seus filhos geralmente moram ou se encontram em sua
casa (versículo 10).
Observe que a palavra "filhos" é usada em 1 João e 2 João. Se
quisermos ler consistentemente, pensaríamos que João está
usando a mesma palavra "filhos" para descrever o mesmo
relacionamento. O apóstolo João é um pai espiritual para os
cristãos em 1 João. Da mesma forma, a “senhora eleita” é uma
mãe espiritual para os cristãos em 2 João.
Além disso, esse relacionamento semelhante coloca João em
pé de igualdade com a mulher de 2 João. Tanto João quanto a
“mulher escolhida por Deus” têm filhos por cujas almas são
responsáveis. (GREENLEY 2018)
Para aqueles que defendem que a senhora eleita desta
passagem na verdade se trata de uma metáfora para a igreja,
Lamar Wadsworth rebate:
Vejo pelo menos sete razões que sustentam a posição de que
a “senhora escolhida” deve ser entendida como uma designação
para uma mulher real que era líder na igreja, e não como uma
metáfora para a igreja.
1. Como uma carta geral a uma igreja, 2 João é
redundante. Acredito que essa seja a objeção mais forte à visão
metafórica. Por que João escreveria essa carta para uma
igreja? Tudo em 2 João é encontrado de forma mais completa em
1 João. O conteúdo doutrinário é tão breve que parece assumir a
familiaridade do leitor com 1 João. Não faz sentido que João
tenha escrito essa carta para uma igreja que já havia lido 1
João. No entanto, faz muito sentido que João escreva “algo para
a igreja” (3 João 9, provavelmente uma referência à carta que
conhecemos como 1 João) e depois envie ao mesmo tempo ou
pouco tempo depois duas notas pessoais (2 e 3 João) para
incentivar os líderes da igreja em apuros que estavam guiando a
igreja através das águas tempestuosas da confusão doutrinária.
2. Nada no texto de 2 João exige que substituamos um
significado literal claro das palavras de João por um significado
simbólico. Não temos exemplo conhecido no Novo Testamento ou
na literatura cristã primitiva do termo kuria sendo usado em um
sentido claramente metafórico. Uma metáfora não funciona, a
menos que outros entendam o sentido em que ela é
usada. Quem insiste que a senhora é uma metáfora deve
demonstrar que ela teria sido entendida pelos leitores
originais. Nenhuma evidência sugere que os destinatários de 2
João teriam entendido o termo metaforicamente. Não sabemos a
identidade do “companheiro amado” que Paulo discursa em
Filipenses 4:3, mas ninguém sugere que ele seja uma metáfora
para uma igreja! Não há mais razão para transformar a “senhora
escolhida” em uma igreja do que há para transformar o
“companheiro amado” em uma igreja. O estudioso grego Henry
Dana costumava prescrever uma boa regra para seus alunos:
"Quando o sentido claro do texto faz sentido, não procure outro
sentido".
3. Há evidências claras dentro do Novo Testamento e
evidências crescentes de outras fontes de que as mulheres
serviam ao lado de homens em importantes locais de liderança
na igreja primitiva. Paulo chama Evódia e Síntique de seus
“companheiros de trabalho” - o mesmo termo que ele aplica a
Timóteo em outros lugares - e diz que eles “compartilharam sua
luta no Evangelho”. Karen Jo Torjesen cita evidências de que
temos desde a era pós-apostólica: Mosaico na Basílica de
Santos. Prudentiana e Praexedis em Roma homenageiam quatro
mulheres, uma delas identificada como Theodora Episcopa
- Episcopa é a forma feminina de episkopos, a palavra traduzida
como "bispo" ou "superintendente". Embora as mãos dos antigos
misóginos tentassem riscar os finais femininos de "Theodora" e
"Episcopa", a inscrição antiga permanece uma testemunha legível
de que era uma mulher e bispa. Além disso, uma inscrição do
século III ou IV na ilha grega de Thera marca o túmulo de outra
mulher, Epictus Presbutis, Epictus (a presbítera).
4. Para tomar a "senhora escolhida" como um nome simbólico
para uma igreja, teríamos que ignorar os vv. 9-11 de 2 João. João
diz à senhora escolhida e a seus filhos para julgarem a
verdadeira e a falsa doutrina e excluir aqueles que tentam
introduzir falso ensino. João certamente queria que toda a igreja
praticasse discernimento, mas a igreja provavelmente incluiu
alguns novos cristãos que não sabiam o suficiente para discernir
entre o verdadeiro e o falso ensino. Eles tinham o dever de
aprender, mas alguém tinha que ensiná-los. Essa
responsabilidade recaiu pesadamente sobre os ombros de uma
pessoa, a senhora escolhida para quem esta carta foi escrita. Se
a igreja se encontrasse em sua casa, teria sido ela quem diria
quem foi ou não foi bem-vindo lá. A responsabilidade da igreja de
excluir mestres falsos era principalmente sua responsabilidade
pessoal. A responsabilidade de todos acaba sendo
responsabilidade de ninguém.
5. Em 1 e 3 João, temos bons antecedentes para um líder da
igreja abordar os que estão sob seus cuidados como seus
filhos. Outros exemplos abundam nos primeiros escritos
cristãos. Certamente, alguns dos filhos da senhora eleita podem
ter sido seus filhos naturais. Burdick adota essa visão. Quando
minha esposa e eu adotamos nossas filhas, alguém nos deu uma
lista de definições para famílias adotivas - “filhos naturais” são
definidos como “filhos que não foram criados em laboratório por
um cientista louco (ou até um pouco infeliz)”. Nossas meninas
são nossas “filhas naturais”. Mas, além disso, alguns dos filhos da
senhora eleita provavelmente eram seus filhos espirituais,
pessoas que ela pessoalmente levou à fé em Jesus
Cristo. (Minha avó Bailey teve um monte deles! Seus filhos
espirituais superaram em muito os nove filhos biológicos.) Alguns
dos filhos da senhora eleita podem ter sido filhos e filhas e / ou
pessoas que ela pessoalmente levou ao Senhor. Enquanto ela
liderava a igreja, todas essas pessoas estavam sob seus
cuidados.
A identidade dos "filhos" em 1 João e 3 João é óbvia. Por que
o termo seria usado de maneira diferente em 2 João? João
chamou aqueles a quem ele liderou de seus filhos. Faz sentido
que ele se refira aos filhos de seus companheiros (a senhora
escolhida e a irmã escolhida).
6. Uma igreja teria que ser chamada de “senhora escolhida”
ou “filhos”, não ambos. Spencer levanta essa objeção. Ela
argumenta que é inconsistente com o uso da terminologia por
João os dois termos se referirem a uma igreja. João não usaria
metáforas concorrentes em uma carta com apenas meia página!
7. A brevidade da carta argumenta ser contra, principalmente
uma carta para uma igreja. Todas as cartas existentes para as
igrejas são muito mais longas. Judas, a menor carta que foi
claramente escrita para uma igreja, tem o dobro de 2 ou 3 João. 2
João é pequeno o suficiente para caber em um lado de uma folha
de pergaminho - típico do tamanho de muitas cartas pessoais
gregas que existem no período do Novo Testamento. Embora eu
não tenha construído todo o meu argumento com base na
brevidade da carta, isso, juntamente com os outros fatores
considerados, fortalece o argumento de ver 2 João como uma
carta pessoal de um ministro do Evangelho para outro.
(WADSWORTH 1996)
Ninfa (Cl 4: 15-16)
Ninfa foi uma das dezesseis mulheres que Paulo mencionou
pelo nome em suas cartas. Era uma mulher de grande
importância na comunidade cristã de Laodicéia. Ela parece ser
uma das mulheres que abriu sua casa como um local para os
cristãos se encontrarem para adoração e comunhão. De acordo
com Margaret MacDonald:
“A liderança no cristianismo paulino tem sido associada à capacidade de
prestar serviços. Talvez o serviço mais importante que um crente do
primeiro século pudesse prestar a um grupo da igreja fosse oferecer
uma casa para reuniões. Assim, Ninfa, sem dúvida, desempenhou um
papel de liderança nas igrejas do vale de Lycus.”[68]
Os líderes das igrejas domésticas cuidavam do bem-estar
material e físico dos membros da igreja e provavelmente
apoiavam e hospedavam missionários como Paulo. Macdonald
escreve sobre Ninfa: “Paulo a conhece e a escolhe dentre as
igrejas domésticas em Laodiceia para cumprimentar, o que
sugere que ela era uma líder da igreja bem conhecida...”[69]
Além destas, muitas outras mulheres se destacaram na liderança
da Igreja Primitiva, seja ela carismática ou ordenada. Nas palavras
de King:
“Outras mulheres também aparecem na literatura posterior. Uma das
apóstolas mais famosas foi Tecla, uma virgem-mártir convertida por
Paulo. Cortou os cabelos, vestiu roupas masculinas e assumiu os deveres
de apóstolo missionário. Ameaçada de estupro, prostituição e colocada
duas vezes no ringue como mártir, ela perseverou na fé e na
castidade. Sua história animada e um tanto fabulosa é registrada no
segundo século nos Atos de Tecla . Desde muito cedo, uma ordem de
mulheres viúvas exerceu papéis formais de ministério em algumas igrejas
(1 Timóteo 5: 9-10). Os mais numerosos casos claros de liderança
feminina, no entanto, são oferecidos pelas profetisas: Maria Madalena, as
coríntias, as filhas de Filipe, Ammia da Filadélfia, Filumene, a mártir
visionária Perpétua, Maximilla, Priscila (Prisca) e Quintilla. Havia muitas
outras cujos nomes estão perdidos para nós. O pai da igreja africana
Tertuliano, por exemplo, descreve uma profetisa anônima em sua
congregação que não apenas teve visões de êxtase durante os cultos da
igreja, mas também serviu como conselheira e curadora (On the Soul
9.4). Uma coleção notável de oráculos de outra profetisa anônima foi
descoberta no Egito em 1945. Ela fala em primeira pessoa como a voz
feminina de Deus: Trovão, Mente Perfeita. As profetisas Prisca e Quintilla
inspiraram um movimento cristão na Ásia Menor do segundo século
(chamado de Nova Profecia ou Montanismo) que se espalhou pelo
Mediterrâneo e durou pelo menos quatro séculos. Seus oráculos foram
coletados e publicados, incluindo o relato de uma visão na qual Cristo
apareceu a uma profetisa na forma de uma mulher e "pôs sabedoria" nela
(Epiphanius, Panarion 49.1). Os cristãos montanistas ordenavam mulheres
como presbíteras e bispas, e as mulheres detinham o título de profetisas. O
bispo africano do século III, Cipriano, também fala de uma profetisa em
êxtase da Ásia Menor que celebrou a eucaristia e realizou batismos
(Epístola 74.10). No início do segundo século, o governador romano Plínio
fala de duas escravas que ele torturou que eram diaconisas (Carta a Trajan
10.96. Outras mulheres foram ordenadas sacerdotisas na Itália e na Sicília
do século V (Gelasius, Epístola 14.26 ).” (KING s.d.)
O historiador cristão Justo González comentando sobre
Romanos 16.7 também assevera e alimenta este ponto que
estamos defendendo aqui:
"O lugar das mulheres na hierarquia eclesiástica tem sido mal interpretado.
Posto que no século segundo todos os oficiais dessa hierarquia eram
varões, pensou-se que assim foi na igreja primitiva. Mas o Novo
Testamento nos dá a entender outra coisa. Felipe tinha quatro filhas que
‘’profetizaram’’, isto é, que pregavam. Febe era diaconisa em Cencréia. E
Júnias é contada entre os apóstolos. O que sucedeu é que durante o
século segundo, em seus esforços por evitar toda doutrina falsa, a igreja
centralizou sua autoridade, e as mulheres ficaram excluídas do ministério
da pregação. Mas ainda nos princípios do século segundo, Plínio diz a
Trajano que foram torturadas duas ‘’ministras’’ da Igreja Cristã. Ao estudar
o lugar das mulheres na igreja antiga, não devemos deixar de mencionar o
papel importantíssimo das viúvas. Já no livro de Atos encontramos que a
igreja primitiva se ocupava sustentando as viúvas que havia no seu seio.
Se assim não fizesse, tais viúvas ficariam desamparadas, e seus únicos
recursos seriam viver com algum de seus filhos ou casar-se de novo. (...).
Logo foram dadas às viúvas responsabilidades dentro da igreja. Já
mencionamos a viúva Felicidade, cujo labor despertou aversão dos pagãos
e que a levou ao martírio. Outras se dedicaram à instrução dos
catecúmenos. Como resultado de tudo isto, o título ‘’viúva’’ chegou a se
referir, não tanto ao estado civil da mulher em questão, como a sua função
dentro da comunidade cristã. Antes de terminar o século primeiro, já havia
mulheres solteiras que decidiam dedicar-se integralmente a estas funções,
e não se casar." (GONZALEZ 2001, p. 155-156.)
Além disso, conforme diz o Rev. Prof. Carlos A. Fernandes:
“O Novo Testamento não diz: “somente homens podem e devem ser
ordenados”, ou, ainda, “mulheres não podem ser ordenadas para qualquer
ofício dentro da Igreja” ou ideia semelhante a estas.” (FERNANDES s.d.)
Muitos podem alegar que tais exemplos não fundamentam a
ordenação de mulheres ao ministério, pois em muitos casos o
ofício não está claramente posto. Mas lembremo-nos de que se
este dado for tomado de forma rígida, nem mesmo muitos
homens que conhecêssemos como grandes líderes da igreja
escapam, pois o oficialato também não está presente na maioria
das vezes. Isto é, esse dado, não depõe somente contra as
mulheres, mas contra os homens também, contudo, isto tem um
motivo: é que os apóstolos estavam menos preocupados com
cargos e títulos e mais com o serviço/função. Embora alguns
exemplos citados não falem de ordenação, o princípio da
liderança feminina está presente, sendo suficiente portanto, para
a fundamentação de que as mulheres também podem liderar
igrejas nas mais diversas funções.
A terceira base então do pastorado feminino seria a junção de
duas grandes verdades: (01) Jesus resgatou o status e a
dignidade da mulher, promovendo um igualitarismo social e
religioso e (02) Consequentemente, várias mulheres ocuparam
funções de liderança durante o período da Igreja Primitiva, sendo
algumas delas tituladas, outras não.
Deus concede dons ministeriais às mulheres?
Tendo em vista que as discussões levam muito em consideração
o que o apóstolo Paulo escreveu sobre o assunto, resolvi trazer
esse tópico afim de avaliarmos a perspectiva paulina acerca desta
pergunta.

A visão que defenderei nesse tópico é que as mulheres podem


exercer cargos de liderança na igreja, e que a ordenação na
verdade, é um reconhecimento humano de uma
separação/vocação-dom para o serviço do Reino. Partindo desse
ponto de vista, o tom das discussões ficaria menos inflexível, pois
uma vez que o dom e a ética é realmente o que caracteriza ou dá
sentido à ordenação, resta-nos saber se há no N.T, evidências de
que Deus derrama esses dons para as mulheres e boa parte do
debate já estaria encaminhado.
Pois bem, quando lemos as cartas Paulinas, a impressão rápida
que se tem é de que Paulo é contra as mulheres no ministério
ordenado. Porém, um olhar mais cuidadoso e minucioso dos seus
escritos revelará que o abrandamento do papel da mulher nas
igrejas reflete situações e configurações específicas que se
estudadas pormenorizadamente em seu contexto, na verdade nos
levará para outra direção e não a de que Paulo era contra as
mulheres no ministério.

Uma das ideias que favorece a visão de que Paulo não era
contra, é a estruturação que ele faz em Efésios 4.11, onde ele diz
que Deus concedeu dons aos homens. Que dons são esses?

Ele deixa claro: Apóstolos, Profetas, Evangelistas, Pastores e


Mestres (pastores-mestres). Todos são dádivas de Deus para Sua
igreja.

O interessante é que Paulo usa a expressão grega anthropois


que nesse contexto, é um termo genérico para
designar homem/mulher ou simplesmente humanidade. Isto é, Paulo
não está ensinando aqui que Deus concede esses dons somente a
pessoas do sexo masculino.

Todavia, esses dons ou dádivas de Efésios 4.11, não são


explicados ou desenvolvidos nessa Epístola, é em 1 Coríntios que
teremos por escrito um minidiscurso sobre alguns desses dons.

Pois bem, será que em 1 Coríntios encontramos base para


afirmar que Deus concede esses dons às mulheres? Veremos que
sim.

Pano de fundo geral

Mas antes, precisamos desmitificar algumas ideias que


impedem o leitor de compreender melhor os escritos de Paulo e sua
intenção autoral.
Por exemplo, é comum no estudo sobre os dons, dividirmos
sistematicamente em dons ministeriais e espirituais. Porém, essa
distinção não é originalmente paulina, mas simplesmente
pedagógica e metódica (1 Co 12.4), feita para facilitar o estudo
pormenorizado do assunto.

Na Bíblia, vemos que todo dom é em certo sentido ministerial


porque está a serviço da igreja e espiritual porque procede do
Espírito. Então todo dom "espiritual" também é ministerial e todo
dom "ministerial" é espiritual.

Outra coisa comum, é tentar enxergar as listas que Paulo faz


dos dons, como sendo exaustivas, algo que nunca passou pela
mente do escritor. Elas são apenas ilustrativas. O que não são:
restritivas, exaustivas e nem estão em ordem hierárquica.

A inclusividade dos dons do Espírito

No capítulo 12 em diante da Epístola aos Coríntios, Paulo se


dirige a toda congregação. Ele começa a construir o argumento de
que "todos foram batizados no corpo pelo Espírito Santo", dando
uma dimensão pneumatológica relacionada à entrada do convertido
ao corpo de Cristo e em seguida explicando como funciona esse
processo.

Uma coisa interessante é que ele se dirige a todos da


congregação sem impor limites de sexo, cor ou condição social para
o recebimento de dons do Espírito. Isto é, o Espírito não leva em
conta essas coisas na atividade do corpo. Então após levantar a
pauta da inclusividade, Paulo agora faz uma digressão para falar da
diversidade do trabalhar do Espírito em cada uma das pessoas
mencionadas anteriormente, ou seja, todos (homens e mulheres) e
deixa claro algumas coisas, como por exemplo:

Há diferentes formas de atuação e diversidade dos dons que


são ministrados pelo Espírito. E ele efetua tudo isso em todos
(12. 5,6).
Eles são concedidos visando o bem comum (12.7).

Ele distribui a cada um (homem ou mulher) como quer


(vontade soberana), cf 12.11, pois todos foram batizados pelo
Espírito Santo, logo, todos beberam de um único Espírito
Santo (mensagem inclusiva), cf. 12.12.

Tendo em vista que não há distinção bíblico-conceitual para


dons espirituais/ministeriais e que Paulo não é exclusivo quanto à
distribuição de dons apenas sobre os homens, mas pelo contrário,
ensina que podem ser concedidos a todos e cada um dos
integrantes conforme a vontade do Espírito, é óbvio então que Paulo
não exclui a mulher de receber qualquer dom, incluindo até mesmo
os ditos "dons ministeriais".

Isto é, para Paulo, Deus pode e concede "dons ministeriais e


espirituais" a homens e mulheres.

Rejeitar isso, é negar que 1 Co 12-14 é uma mensagem para


homens e mulheres que compõem a igreja.

Talvez alguém ofereça resistência ao pensamento de que no


ensinamento Paulino, a distinção entre dons espirituais e
ministeriais não é introduzida.

Porém, o maior argumento a favor disso, se encontra em 1


Co 12.27. Nesta passagem, não há distinção teológica ou de sexo
algum. Todos são colocados debaixo do “mesmo pacote”. Separar
aquilo que Paulo não separou ou excluir as mulheres dessa
mensagem é mutilar a própria natureza e contexto da perícope. Ou
você vai dizer que quando Paulo diz: "Sigam o caminho do amor, e
busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom
de profecia" (14.1), ele estava se referindo apenas a homens? Claro
que não!
Então está claro que de acordo com o pano de fundo dessa
passagem, todos (homens e mulheres) podem receber dons da
parte de Deus (ministeriais, espirituais ou de qualquer outra ordem).

Outra evidência incisiva de que Paulo ensinou que mulheres


podem receber “dons ministeriais”, é a passagem que fala da mulher
como profetisa (11.5).

Alguém pode argumentar que essas mulheres podiam


profetizar (exercer os dons de profecia), mas que de forma alguma
isso tinha uma ligação com o dom de profeta de Efésios 4.11, por
isso não podem ser chamadas de profetisas e, portanto, não
recebem dons ministeriais.

Bem, essa objeção não se sustenta à luz da própria Epístola


aos Coríntios que deixa claro que profeta é aquele que profetiza
(14.29). É talvez o único dom de Efésios 4.11 que é explicado
conceitualmente nessa epístola.

Sendo assim, o profeta de Efésios 4.11, seria alguém que é


usado com certa frequência no dom de profecia e tendo em vista
que Paulo diz que as mulheres podiam profetizar, é óbvio então que
elas eram profetisas. Todas as que tivessem o dom, podiam
profetizar (14.31), mas nem todas as mulheres e homens da igreja
eram agraciados com esse dom (12.29).

Essa dinâmica se aplica aos demais dons (em Rm 16.7,


temos uma apóstola chamada Júnia) embora Paulo tenha focado na
questão do ministério profético. Concluo este tópico com um breve
texto de F.F. Bruce:

“Um apelo aos primeiros princípios em nossa aplicação do


Novo Testamento pode exigir o reconhecimento de que,
quando o Espírito, em sua soberana boa vontade, concede
variados dons aos crentes individuais, esses dons se destinam
a ser exercidos para o bem-estar de todo o povo da Igreja. Se
ele manifestamente reteve os dons de ensino ou liderança das
mulheres cristãs, então devemos aceitar isso como prova de
sua vontade (1 Co 12:11). Porém, a experiência mostra que
ele concede esses e outros dons, com "consideração distinta",
tanto a homens quanto a mulheres - não a todas as mulheres,
é claro, nem a todos os homens. Sendo assim, não é
satisfatório repousar num lugar intermediário nesta questão do
ministério de mulheres, onde elas podem orar e profetizar, mas
não ensinar ou liderar.”[70]
Porque Paulo proibiu as mulheres de falar na igreja no final do
capítulo 14?

Pois bem, muitas pessoas costumam me fazer essa pergunta


quando trato desse assunto. Após o término da exposição de 1 Co
12-14, alguém pode dizer: Se Deus concede dons ministeriais às
mulheres, porque ele proibiu a mulher da falar na igreja no final do
capítulo 14?

Os estudiosos discutem bastante o que esse texto significava


para Paulo e o que ele significa para nós hoje. Porém, uma coisa é
fato: há uma distância abissal entre nosso pensamento, cultura e
sociedade, da de Paulo. Então temos diante de nós um desafio:
montar um quebra cabeça com apenas poucas peças.

Alguns estudiosos sugerem que essa passagem é na


verdade, um aplicativo circunstancial para corrigir um problema que
existia na igreja dos coríntios. E que problema era esse?
Provavelmente, as mulheres (alguns vão dizer que eram novas
convertidas mal instruídas) atrapalhavam o culto, fazendo
perguntas. Na ânsia de aprender, acabavam perturbando a ordem
do culto. Digo provavelmente, porque ninguém sabe precisamente
qual foi o motivo. Paulo não deixa claro. Ele simplesmente aplica
uma resolução sem dizer especificamente o porquê! E nem
precisava! Pelo menos não aos Coríntios, uma vez que eles sabiam
do que se tratava. Por outro lado, não há dúvidas que esse
problema com as mulheres estava ligado à questão da ordem e da
decência, por conta do contexto imediato da passagem.
Uma vez que esse problema não existe nos dias de hoje
(pelo menos não dessa forma), não se faz mais necessário a
aplicação dessa específica resolução. O que fica é o princípio da
ordem e da decência.

Apesar das dificuldades de interpretação, é nítido que uma


coisa é o que Paulo escreveu, outra coisa é o que ele quis dizer e
outra é o que eu entendo. Contudo, o que eu entendo não pode
estar à mercê dos meus apetrechos teológicos.

Por exemplo: algumas pessoas que acreditam que essa


passagem de Paulo é contra a participação da mulher na liderança,
costumam usar passagens paulinas que aparentemente são contra
a liderança feminina na Igreja. Interessante que essas mesmas
passagens, se forem aplicadas literalmente e radicalmente (sem a
devida contextualização, exegese e exposição) nos dias de hoje,
impedem a mulher não somente de ser pastora, mas também de ser
professora de EBD, pregar na igreja, dirigir círculo de oração, etc.

Nessas mesmas passagens é dito que a mulher deve


profetizar com a cabeça coberta (1 Co 11.5), que não pode ensinar
na igreja (1 Tm 2.12), exceto a outras mulheres (Tt 2.3-5) e que não
pode nem mesmo cantar, visto que o canto congregacional é ensino
conforme (Cl 3.16). Se quisermos ser consistentes com essas
passagens, devemos proibir as mulheres de ensinar até mesmo as
crianças e mais: que as mulheres só podem profetizar usando véu.
Além disso, elas não podem cantar publicamente na igreja, pois o
canto também é ensino.

O mais interessante é que essas passagens são


interpretadas como sendo aplicativos circunstanciais quando o
assunto não é sobre o ministério feminino ordenado. Chamo isso de
desonestidade ou ignorância?

Por fim, o final de 1 Co 14, não oferece nenhuma resistência,


muito menos está em conflito com a ideia de que Deus concede
dons ministeriais às mulheres.
Desta forma, assim como nem todos que estão na liderança da
igreja, possuem a vocação para o ministério, o mesmo pode ser dito
no caminho inverso. Sim, há pessoas que possuem dons
ministeriais, mas que nunca serão ordenadas na vida. Talvez esteja
na hora da igreja atentar melhor para essa questão, pois, se Deus
dotou também as mulheres com “poder”, então é nítido que elas
também podem subir ao “poder”. Sim, existem milhares de mulheres
"apóstolas", "pastoras", "profetisas", "evangelistas" e “mestras” pelo
mundo, que mesmo sem a ordenação, não deixam de exercer o seu
chamado! A História está repleta de evidências disso! Sim, as
mulheres nunca dependeram de titulação para trabalhar, mas penso
que o Cristianismo seria muito mais abençoado se as mulheres
tivessem tanta liberdade ministerial quanto os homens. Se Deus as
dota de dons "espirituais" e "ministeriais", porque não reconhecer
isso, como se faz com os homens? Esse tópico é apenas uma
reflexão-provocativa com o intuito de fazer com que os leitores
pensem melhor sobre esse tema.

A titulação da mulher como “pastora” faz parte da


contextualização eclesiástica.
Sou contra a secularização e o avanço do secularismo e
aculturação da igreja, mas não sou contra a contextualização.
Contextualização eclesiástica é o processo pelo qual cada igreja,
instalada num povo, país e local, se relaciona com o meio em que
ela existe. Em outras palavras, é a forma como cada instituição se
relaciona com os costumes, a cultura, tradição e o avanço da
História da humanidade. A contextualização tem sido confundida
muitas vezes, com o secularismo e a secularização, todavia, são
coisas distintas. A contextualização acontece o tempo todo, a todo
momento nas instituições, sejam elas religiosas ou não. É natural
que assim ocorra na igreja, como de fato tem ocorrido desde o início
da mesma no espaço-tempo de Atos 2.

Por exemplo, Jesus nunca nos ensinou que devíamos


construir igrejas (prédios/templos) para cultuá-lo. Pelo contrário, ele
disse que os verdadeiros adoradores, adorarão em espírito e em
verdade (Jo 4.23), contrapondo o questionamento da Samaritana
sobre em qual lugar específico, o SENHOR devia ser adorado.
Jesus não falou nada sobre templos, construções, ou qualquer coisa
desta natureza aos seus discípulos, mas simplesmente disse: onde
estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali eu estarei no
meio deles (Mt 18.20). Jesus também poderia ter dito algo sobre
construir templos, no seu minidiscurso sobre a edificação da igreja,
mas se contentou em simplesmente dizer: edificarei a minha igreja e
as portas do hades não prevalecerão contra ela (Mt 16.18). E
quando falou do templo de Jerusalém, disse que dele não ficaria
pedra sobre pedra (Lc 21.6). Tudo se resume a isso (veja ainda At
17.24; 1 Co 3.16; 2 Co 6.16).

Isto significa dizer que a construção de templos físicos para


adorar a Deus no Cristianismo é algo completamente extra-bíblico,
porém isso não quer dizer que seja algo antibíblico, pois faz parte da
contextualização da igreja, já que desde cedo notou-se essa
necessidade de reunir-se em espaços públicos (At 5.42).

Outra coisa que deve ser observado é que Jesus, no período


em que esteve encarnado aqui na terra, não ordenou nenhum
Pastor, Bispo ou Presbítero. Ele só escolheu 12 apóstolos dentre
dezenas de discípulos. O próprio clero da igreja é resultado da
contextualização posterior à ressurreição de Jesus.

Essa contextualização se inicia já no N.T e segue até os dias


de hoje. Desde que essa contextualização não seja antibíblica, não
há problema algum se ela não tem referências diretamente bíblicas,
como é o caso do título de pastora ou diaconisa. O problema é que
as pessoas confundem base bíblica com referências bíblicas (texto-
prova). São duas coisas distintas. Eu posso encontrar referências
bíblicas para várias coisas na Bíblia, mas a base (fundamentação,
ensino e defesa) é algo muito além disso.

Mas voltando ao assunto da contextualização, a igreja


nasceu no Pentecostes como uma entidade sobrenatural, composta
por pessoas. Nos primeiros capítulos de Atos, a Igreja era composta
em sua maior parte por judeus que continuaram com algumas
antigas práticas judaicas, entre elas, a de se reunir no templo em
Jerusalém ou de ir às sinagogas. Mas logo, logo, os cristãos iriam
contextualizar o local onde Deus devia ser adorado. Dentro de
poucos anos, a igreja massivamente passou a se reunir nas casas
(At 8.3; 1 Co 16.19; Cl 4.15) em face da perseguição dos líderes
judeus e posteriormente depois da destruição do templo de
Herodes em 70 d. C, sem falar que o Evangelho havia prosperado
bastante entre os gentios. Então até o final do século I, os cristãos
se reuniam em casas, cemitérios, catacumbas, etc. E isso durou
alguns poucos séculos.

Depois da suposta conversão do Imperador Constantino, o


Cristianismo ganhou liberdade para construir locais para se reunir e
adorar a Deus. É a partir daí que passou a existir as igrejas como
instituições formais até os dias de hoje. Inclusive, o modelo
arquitetônico das Basílicas romanas inspirou as famosas e antigas
catedrais da Igreja Católica (ICAR).

De lá, para cá, muitas outras contextualizações aconteceram,


seja no governo da igreja, ou até mesmo na liturgia do culto. Por
exemplo, há igrejas que usam instrumentos musicais no culto como
bateria, guitarra e outros, e há igrejas que não usam. Qual deles
está errado? Nenhum, pois a Bíblia não padroniza nenhum tipo de
liturgia específica[71]. Qual igreja está certa: aquela que os cristãos
batem palma, ou aquela em que não há palmas? Todas as duas
estão corretas. Mas qual seria a referência bíblica Neotestamentária
para isso? Nenhuma! E qual seria o motivo bíblico para ser contra?
O silêncio ou a falácia da inferência negativa? Também não...

A mesma coisa aconteceu com a forma de governo da Igreja.


Embora hoje, nós tenhamos modelos como o congregacional, o
episcopal e o presbiteriano, nenhum deles é endossado
exclusivamente pelas Escrituras. Mas isso não quer dizer que todos
os três são antibíblicos não é mesmo? Porque? Porque eles fazem
parte da contextualização da igreja que com o tempo passou a
preencher lacunas, atender demandas/necessidades e sanar/dar
resoluções a multiversos problemas.

Porém, a verdade é que não há um padrão uniforme de


modelo de governo eclesiástico no N.T. No entanto, isso não quer
dizer que não existiu uma estrutura de liderança que é o que vamos
ver a partir de agora.

No princípio da condução de liderança das igrejas, estavam


atuando apenas os apóstolos. Para ser mais preciso, o colégio
apostólico, o único que foi de fato estabelecido por Jesus antes da
morte-ressurreição. Eles tentavam atender a todas as demandas
das comunidades evangélicas, no entanto, notaram que deviam
compartilhar algumas tarefas com outras pessoas, afim de
dedicarem-se às coisas mais urgentes como a pregação do
Evangelho (evangelização) e o ensino (doutrina). É aí que surge o
diaconato. Sete homens cheios do Espírito Santo são escolhidos
pelos apóstolos para servir aos que necessitavam (At 6.1-7).

Essa foi uma das primeiras contextualizações no livro de


Atos, mas não parou por aí. Como a maior parte deles estava
ocupado no ministério itinerante da pregação evangélica, também
enxergaram a necessidade de deixar pessoas maduras na fé
liderando e supervisionando as novas comunidades que estavam
surgindo (At 11.30; 14.23; 15.6,23; 20.28; 21.17; Tt 1.5; 1 Pe 5.1-4;
Tg 5.14-16). Então o corpo eclesiástico começou a ganhar um novo
rosto. Agora, as igrejas possuíam Bispos, Presbíteros e Anciãos na
liderança local (São três nomes distintos para a mesma função, o
termo ancião e presbítero eram utilizados mais nas comunidades
judias, já existiam nas sinagogas e foram tomados emprestados
pelos cristãos). Até então, o termo "Pastor" não era usado como
título popular para um líder/dirigente[72] local de uma igreja. Esse
termo só se popularizou a partir da Reforma Protestante que
preferiu chamar os líderes ordenados de Pastor, em contraste com
os Bispos da Igreja Católica Apostólica Romana. Aliás, o termo
Pastor nunca aparece no N.T como designação titular de um
líder/dirigente em específico de uma igreja[73]. Ele aparece em
Efésios 4.11, não como cargo/ofício, mas como dom-serviço e em 1
Pedro 5.2, os presbíteros são vocacionados para pastorear o
rebanho do SENHOR. No entanto, apesar do termo "Pastor" não
aparecer como ofício/cargo religioso[74], a função/tarefa de pastorear
já estava presente nas suas variadas manifestações.[75]

Mas voltando à nossa abordagem sobre a contextualização


do governo da igreja... No próprio livro de Atos já aparece o termo
'mestre' associado a pessoas que tinham a tarefa de ensino na
igreja. Perceba que até mesmo o monopólio do ensino, a princípio
restrito aos 12 apóstolos, agora havia sido quebrado, pois já há
mestres na igreja ensinando (At 13.1) que não faziam parte do
colégio apostólico.

Nesse ínterim de tempo, multiplicam-se também os


cooperadores/auxiliares que trabalhavam para o reino de Deus
juntamente com os apóstolos. Muitos desses cooperadores foram
líderes por excelência e sequer ganharam uma designação titular
eclesiástica).

Então o governo (ou pelo menos funções de liderança) da


Igreja Primitiva do século I parece ter ficado mais ou menos assim
(numa ordem lógica, não hierárquica)

1. Apóstolos
2. Bispos/Presbíteros e Anciãos
3. Diáconos
4. Auxiliares/Cooperadores

Vale lembrar que nessa nova formatação de governo,


nenhum ministério estava acima do outro, pois[76] todos partilhavam
da autoridade e supervisão de Cristo, o líder da Igreja. Nesse
sentindo, e talvez somente nesse sentido, é patente que nos
primórdios do Cristianismo não houve uma hierarquia eclesiástica
definida e se houve, ela foi muito diferente das que existem hoje
(existe a possibilidade dos apóstolos (os doze) em questão de
autoridade terrena, ser mais proeminentes que qualquer outro
ministro, pois foram as pessoas mais próximas de Jesus, então em
certo sentido, em matéria de fé e doutrina, eles estavam num nível
acima dos outros). Naquela época, todos eles exerciam funções
diversas no corpo, sem se preocupar com a questão: quem é mais
importante? Os braços ou as pernas? (parece que essa é a
construção do apóstolo Paulo em 1 Coríntios).

Mas nada disso é engessado. Não existe um manual de


administração eclesiástica uniformizado e nem parece ser a
intenção dos apóstolos que tal coisa existisse. O que existe é uma
pluralidade de estruturas de governo e de serviços em cada região
onde as igrejas eram estabelecidas e estas estruturas surgiram para
preencher as respectivas demandas locais.

Estas instalações locais simplesmente acontecem em razão


das contextualizações. Todas as recomendações do N.T (em
especial do apóstolo Paulo) são feitas em cima dessa plataforma.
Somado a isso, temos também algumas recomendações apostólicas
que são locais, específicas e aplicativos circunstanciais e que,
portanto, não valem para os dias de hoje (como a questão do uso do
véu pelas mulheres em Corinto, a mulher calada na igreja, etc).
Outras, são gerais (universais/atemporais) e aplicáveis até os dias
de hoje (como a questão do caráter dos ministros e ministras em 1
Tm 3, que é algo inegociável).

A partir do século II, as contextualizações aconteceram com


mais frequência ainda. Por exemplo, nas igrejas gentias, o termo
''Bispo'' ganhou proeminência, fazendo com que alguns
entendessem que o Bispo, era uma figura que estava acima dos
presbíteros e de todas as outras formas de liderança.

É aí que começam as hierarquizações do clero


(propriamente dita) e o conceito de liderança servil instituído por
Jesus, pouco a pouco, vai sumindo dessas comunidades. Com o
tempo, o termo ancião caiu em desuso e a liderança da igreja é
mencionada pelos documentos dos Pais apostólicos como sendo
composta por Bispos, Presbíteros e diáconos.[77]
Nesse mesmo período, mais contextualizações acontecem
em razão da crença na sucessão apostólica. Por motivações
políticas, sociais e de confiabilidade doutrinária, o Bispo de Roma
começou a ganhar proeminência entre os Bispos de outras cidades,
dando origem mais na frente à figura do Papa, ou Pai dos Pais da
Igreja Católica Apostólica Romana.

Mil anos se passam, e a contextualização do governo da


Igreja continuou a avançar. Dessa vez, na Reforma Protestante,
onde as estruturas de governo, mais uma vez foram abaladas e
reformuladas. O Bispo, agora é chamado de Pastor e graças a
Lutero, a doutrina do Sacerdócio Universal de todos os crentes
começou a ganhar força e ímpeto.

O monopólio episcopal da Igreja Católica finalmente foi


rompido e outras formas de governo começaram a surgir de acordo
com as demandas. Esta mudança também ocorreu com os títulos.

A verdade é que até os dias de hoje, as contextualizações


continuam acontecendo. Há igrejas que o líder/dirigente é chamado
de Reverendo, Padre, Presbítero, Bispo, Pastor, Ancião, etc.

Seria esse então o caso do ministério feminino ordenado.


Mais uma etapa de uma contextualização que vem acontecendo
tardiamente, porém, sem deixar de acompanhar o avanço e as
mudanças de paradigmas da sociedade. E numa época onde as
mulheres cada vez ascendem, rompem preconceitos, ganham voz e
espaço na sociedade, é extremamente natural que o título de
pastora, seja cada vez mais usado para descrever ou nomear a
posição de liderança feminina na igreja, sem ser, portanto, algo
antibíblico, pois embora o termo pastora ou diaconisa não exista no
Novo Testamento, o princípio de liderança feminina está.

Em últimas palavras, não existe problema algum com a


titulação/ordenação de mulheres para o pastorado feminino, pois
essa não é uma questão essencialmente antibíblica e se somada a
outras questões, pode ser vista como fazendo parte do processo de
contextualização da igreja.

Sendo assim, a quarta base do pastorado feminino está


fundamentada na verdade de que as mulheres também recebem
dons ministeriais, o que as torna aptas para a ordenação que é
apenas o reconhecimento dessa capacitação divina, não tendo
nenhum problema em ser chamada de pastora, já que essa titulação
faz parte da contextualização eclesiástica.
Capítulo 04
Dúvidas mais frequentes sobre o Tema

Os apóstolos Pedro e Paulo ensinaram que a mulher


deve ser submissa ao marido. Isto não seria uma prova de que
é da vontade de Deus que as distinções de papéis da sociedade
sejam mantidas na Nova Aliança? Neste caso, como fica a
mulher casada que é pastora? Não estaria ela sendo a cabeça
do seu esposo?
Essa é uma das dúvidas mais comuns que recebo quando
falo desse assunto. Esse tipo de conclusão é natural sem uma
leitura atenta de ambas as passagens. Falo de 1 Pedro 3.1-6 e
Efésios 5.15-6.9. Estou convicto que essas passagens não
oferecem nenhuma objeção ao que defendemos.
Em primeiro lugar, Paulo e Pedro precisam ser lidos em seus
próprios termos e não é porque estão falando de um assunto em
comum e com termos parecidos que precisam necessariamente ter
seus textos cruzados de forma direta.
Segundo, o apóstolo Pedro não está falando de todas as
mulheres (ímpias e salvas), todas as esposas (ímpias e salvas) ou a
todas as esposas salvas. A que tipo de mulher Pedro está se
dirigindo nesse texto então? O contexto deixa claro: às esposas que
não possuem seus conjugues salvos. A obediência (sujeição) que
Pedro propõe aqui não é ontológica, mas estratégica. Pedro deseja
que elas ganhem seus esposos para o Reino pela conduta delas.
Para isso, recorreu ao exemplo de mulheres da antiguidade (Sara)
para ilustrar sua proposta. Isto significa dizer que Pedro aqui não
está tratando de sujeição para todas as situações de casamento
(quer dentro ou fora da igreja) como alguns presumem. O alvo aqui
são os esposos não salvos que podem ser ganhos para Cristo
através da conduta da serva de Deus.[78] O tipo de
relacionamento/casamento que Pedro tem em mente aqui é o misto
(esposas salvas cujos esposos não são). Já no versículo 7 desse
mesmo capítulo, Pedro se dirige aos esposos salvos e resgata a
dignidade da mulher ao dizer:
“Igualmente vós, maridos, coabitai com elas com entendimento, dando
honra à mulher, como vaso mais fraco; como sendo vós os seus co-
herdeiros da graça da vida; para que não sejam impedidas as vossas
orações.”
Já Paulo quando escreveu o seu texto, não tinha em mente a
mesma coisa que Pedro, isto é, ele não está se dirigindo às esposas
salvas que devem ganhar os esposos não regenerados pela
procedência. O que o apóstolo faz na perícope de Efésios 5.15-6.9
está longe de assumir uma interpretação hierárquica entre homem e
mulher. Pelo contrário, Paulo está propondo que os relacionamentos
entre homem/mulher devem espelhar o relacionamento de Cristo
com Sua igreja. Como fica então a questão da submissão feminina
dos versículos 22-24? É simples, ela é uma faceta e/ou ilustração de
um princípio maior que se encontra no versículo anterior: a
submissão mútua dos cristãos uns aos outros (v. 21).[79] Isto
mesmo, Paulo está propondo que a hierarquia não é o que importa
no relacionamento entre homens e mulheres, mas a forma como
ambos se amam e estão ligados uns aos outros. Isto significa que
no Senhor, o homem também deve se submeter à esposa.[80] Que
coisa, não? Existe submissão maior do que esta: que Cristo amou
tanto Sua igreja a ponto de entregar-se por ela? (Cf. Marcos 10: 43–
45; Filipenses 2.5-8). Certamente, aqueles que usam esse texto
para validar a velha forma Patriarcalismo descrita no Antigo
Testamento, não compreendeu que as recomendações que Paulo
dá aos esposos quebram os principais pilares do Patriarcado. [81] A
defesa de que em Cristo, maridos também devem se submeter às
suas esposas, encontra respaldo escriturístico tanto em Paulo,
quanto em Pedro (ver 1 Pedro 5.5-6), sendo que cada um na sua
própria linguagem. Os que objetam que o marido não deve se
submeter por conta da ausência da ordem aos homens devem
considerar que o mesmo texto de Paulo também afirma que os
homens devem amar as mulheres. Essa ordem não é dada às
mulheres. Isto significa que só eles devem amar? Não, não é
mesmo? Todavia, esse tipo de conclusão é inevitável se seguirmos
às últimas consequências essa lógica complementarista.
A submissão ensinada por Paulo em Efésios 5 nem de longe
se aproxima com aquela que passou a existir depois de Gênesis
3.16. Ela é, antes de tudo, em amor, envolve todos os cristãos
(homens e mulheres)[82], deve espelhar o relacionamento de Cristo
com Sua Igreja e exige uma práxis de ambos (envolvimento,
comprometimento e deveres)[83]. E como era a relação
matrimonial/familiar nos dias de Paulo? Segundo Fee, a família era
um local de produção, dirigido por um homem, onde escravos,
mulheres e crianças existiam em relacionamentos hierárquicos que
beneficiavam os negócios domésticos dominados por homens. O
casamento não se baseava no amor, mas existia com o objetivo de
gerar filhos e manter a estrutura familiar. Homens e mulheres não
eram considerados iguais e não existiam em relacionamentos
amorosos de casamento, como os entendemos. (FEE 2002)
E como fica a questão de que o homem é o cabeça da
mulher? Isto não implica hierarquia? Os complementaristas falam
que ao colocar o homem como cabeça da esposa, Paulo está
mostrando que existe uma hierarquia entre o homem e a mulher e
que este exerce governo/autoridade sobre ela. O termo em grego,
no entanto, kephalē, nesse contexto, é adequadamente entendido
como transmitindo a ideia de dependência e unidade e pode ser
traduzido como fonte, ponto de partida ou começo.[84] Neste caso, o
texto indica que cronologicamente, a mulher veio do homem e não
que Paulo está reforçando uma subordinação exclusivamente da
mulher ou a desigualdade de papéis.[85] O que Paulo está
ensinando aqui é que assim como o corpo depende da cabeça e à
ela está interligada, a mulher também deve assim proceder[86]. E
isso remonta a outro texto paulino! Vejamos:
“No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem nem o
homem é independente da mulher. Porque, assim como a mulher veio
do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo provém
de Deus!” (1 Co 11.11,12)[87]
Viu só? No Senhor, ambos são dependentes uns dos outros!
Esse tipo de interpretação é a que melhor se harmoniza com o
versículo 21 do capítulo 5 de Efésios. Isto é, Paulo se esforçou em
sua carta aos efésios para ensinar seus leitores a ver a submissão
mútua como um princípio abrangente que afetava a todos na
igreja. Interpretar a submissão como aplicável apenas às mulheres e
não aos homens é contraditório à própria estrutura gramatical de
Paulo, pois o contexto sugere que todo cristão esteja sujeito um ao
outro e que a submissão mútua[88] certamente faça parte do
casamento. Desta forma, assim como todos devem ser "cheios do
Espírito", todos devem se sujeitar uns aos outros e um exemplo
disso é que as esposas sejam sujeitas a seus próprios maridos, os
filhos aos pais e os escravos aos seus senhores (cap. 6). Os dois
últimos, através da obediência. Perceba que não é o esposo quem
deve sujeitar a esposa a si mesmo (como no sistema Patriarcal),
mas as esposas (livremente)[89] devem se sujeitar ao marido, assim
como os cristãos uns aos outros.
Obviamente, Paulo e Pedro escreveram sob inspiração do
mesmo Espírito, mas nenhum deles escreveu com propósito de
ratificar, estabelecer ou promover a desigualdade de papéis entre o
homem e a mulher ou o Patriarcado, todavia contextualizaram[90] o
Cristianismo (levando em consideração as necessidades de cada
região), numa sociedade Patriarcal e desigual, onde as esposas
geralmente eram dez anos mais novas que seus esposos, menos
instruídas e vistas em grande parte como propriedade pelos pais e
esposos.
Uma das maiores evidências disso, pode ser extraída de
outro tema que já foi alvo de muitas polemicas no passado: a
escravidão.[91] Tanto Paulo como Pedro ensinaram que os escravos
devem ser submissos e obedecer aos seus senhores[92], mas
ninguém ousaria acreditar nos dias de hoje que ambos estão
concordando com a desigualdade social ou com a escravidão.[93]
Então porque essa lógica é completamente descartada quando se
trata de discutir os papéis das mulheres no lar, na igreja e na
sociedade? Suspeito, não?
Levando isso em consideração, vamos partir para o próximo
tópico: quais seriam as implicações da mulher como pastora? Como
ficaria seu relacionamento com seu esposo? Bem, se estivermos
certos e eu estou convicto que estou, então não há problema algum.
Mas vamos supor que o significado do termo “cabeça” em Ef
5.23 tenha implicações hierárquicas (o que eu não acredito) no
relacionamento entre esposo e esposa. Isso seria um motivo
suficiente para a mulher não ser ordenada como pastora na igreja?
Veremos que também não!
Basta entendermos que família/casamento e a igreja são
duas instituições distintas. O apóstolo Paulo usou recorrentemente a
linguagem "biológica-metafórica" em suas epístolas com vários
sentidos. Para entendê-la corretamente, devemos estudar cada
passagem bíblica pormenorizadamente e à luz do seu contexto.
Fazendo isso, descobrimos que Paulo ensina que no lar, o homem é
o cabeça da mulher (Ef 5.23), enquanto que na igreja, Cristo é o
cabeça! Todos os outros são membros do corpo, até mesmo os que
lideram. Sendo assim, não existe nenhuma incompatibilidade lógica
e bíblica se uma mulher casada for líder da igreja.
Nesse raciocínio, no lar, o homem é o cabeça e a mulher
edificadora (Provérbios 14.1). O conflito só existe se misturarmos as
duas instituições. Em síntese: o homem é o cabeça do lar, não da
igreja. O cabeça da Igreja é Cristo, e nós fazemos parte do corpo.
Essa é a analogia de Paulo. Neste caso, o sacerdócio do marido no
lar não anula o sacerdócio universal de todos os crentes, do qual a
Igreja (homens e mulheres) fazem parte (1 Pe 2.5-9). Na Bíblia, o
líder humano de uma igreja nunca é chamado de cabeça, todas as
passagens colocam Cristo como tal. Por outro lado, aqueles que
fazem parte da igreja são nomeados como "membros do corpo de
Cristo." (Romanos 12.5).
Então afirmar que é incoerente uma mulher ser líder na igreja
e submissa em casa, é tão infeliz quanto afirmar que um empregado
não pode ser Presbítero do seu patrão. Essa mistura não pode
acontecer no campo argumentativo.
Assim, ao ser líder na igreja, a mulher tem Cristo como cabeça! No
lar, ela pode ser edificadora e ter seu esposo como cabeça[94]. Não
há conflito algum... Confira: 1 Coríntios 11.3; 12.27; Efésios 1.22;
4.15; 5.25; Colossenses 1.18.
No entanto, se mesmo depois dessas evidências, alguém
insistir neste argumento, devemos atentar para a seguinte reflexão:
Se a mulher não pode ser pastora, pelo simples motivo de que isso
infligiria a liderança do esposo no lar, isso não seria um problema
somente para a mulher casada? Neste caso, as mulheres solteiras e
viúvas estariam livres e aptas para pastorear? [95] Reflita...
Por fim, embora fiquemos com a primeira interpretação,
independente do significado do termo cabeça em Efésios 5, não
existe nenhum problema com o fato da mulher ser pastora na igreja,
inclusive do seu esposo, ainda mais nos dias de hoje, numa cultura
ocidental mais aberta à participação da mulher na sociedade e na
religião.
Todos os escritores da Bíblia foram homens. Tendo em
vista que eles foram inspirados por Deus, isto não sugere que
Ele quer que apenas homens ensinem publicamente na Igreja?
De forma alguma! Em primeiro lugar, tendo em vista que há
livros na Bíblia cuja autoria é anônima, não há como saber
concretamente se apenas homens foram os únicos a participarem
do seu processo de escrita.
Mas é verdade que naqueles livros cujos autores são
identificados ou pela tradição ou pelo próprio livro, há homens
envolvidos. Ou seja, a maioria dos escritores reconhecidos são
homens. Isso é inegável, mas ao mesmo tempo explicável por todas
as circunstancias (sociais, religiosas e culturais) que já vimos
anteriormente. Numa época de dominação masculina, onde as
mulheres não podiam sequer aprender, este fato é naturalmente
esperado.
Isso não faz da Bíblia um livro machista, apenas um livro que
reflete muitas circunstâncias do seu tempo. Vale lembrar que
mesmo nesse cenário, houve poucas mulheres que fugiam à regra
da época e se tornaram grandes mestras da igreja como Priscila.
No entanto, no período do Novo Testamento, a literatura
escrita era uma das formas usadas para ensinar ao povo, mas não a
única. Haviam pregações e ensinamentos que eram transmitidos de
forma oral, e nesta tarefa há homens e mulheres envolvidos, quer
de maneira oral ou até mesmo pela conduta. Levando em
consideração que as mulheres ocuparam posições de destaque nas
narrativas bíblicas, é certo que as mulheres também ensinaram por
meio da sua conduta, caráter e virtude (Pv 31). Além disso, há
teologia feminina na Bíblia. O que dizer por exemplo, do Magnificat
de Maria que por muitos anos fez parte do hinário da Igreja
Primitiva?
Levando em consideração todas essas informações, fica
mais claro que apesar dos homens estarem majoritariamente
presentes na composição da literatura bíblica, tal dado não é
suficiente para excluí-las do ensinamento público.
Seria Priscila a autora do livro de Hebreus?
Dentre os livros da Bíblia cujo autores são anônimos,
Hebreus é um deles. Este livro, sem dúvida, é um dos mais
sofisticados de toda a Escritura. Acontece que a autoria desse livro
sempre foi alvo de curiosidade e especulação. Alguns dizem que foi
escrito por Paulo, outros por Lucas, Clemente ou Apolo, etc. São
vários os candidatos para preencher esta lacuna. Porém, em 1993,
a Doutora e presidente da CBE International, Mimi Haddad, sugeriu
que Priscila é uma forte candidata para a autoria de Hebreus. Em
um artigo para o Priscila Papers, ela começa defendendo que
Priscila foi uma líder muito conhecida da igreja primitiva. Nas
palavras dela:
“Pesquisas arqueológicas sugerem que alguém chamado Priscila ocupou
uma posição de tremenda honra na igreja primitiva. Seu nome foi
encontrado inscrito em monumentos romanos, igrejas e em um antigo
cemitério romano chamado Coemeterium Priscillae. Uma das igrejas mais
antigas de Roma era conhecida como o "Titulus de St. Priscilla". Além
disso, uma mulher chamada Priscila teria sido queimada até a morte no
Caminho da Ostia e foi enterrada no que mais tarde foi descoberto como a
Igreja de St. Prisca. Esta história foi compilada em uma obra do século 10,
conhecida como Atos de Santa Prisca. Essas lembranças antigas indicam
que alguém chamado Priscila teve um impacto impressionante na igreja
primitiva.” (HADDAD 1993)
A doutora Haddad discorre sobre o ministério de Priscila em
Corinto, Éfeso e Roma e depois de comentar sobre os vários
candidatos da autoria de Hebreus, parte para a tese de que há
indícios neste livro de autoria feminina. Um deles, seria o uso de
imagens e ilustrações femininas que fortalecem a ideia de que quem
escreveu, era alguém que tinha empatia pela luta de outras
mulheres como em Hebreus 11.11,31,35. Assumir Priscila como
autora de Hebreus, explica o porquê ela teria incluído mulheres
(como Sara e Raabe) e homens na galeria de heróis da fé, pois
muitos desses personagens passaram por exílio em terra estranha.
Desta forma, tendo em vista que Priscila também passou por esse
processo, ao usar tais pessoas como exemplo, ela teria se
identificado com essas narrativas e as usado para encorajar seus
leitores. Haddad também afirma que passagens como Hb 13.9 faz
mais sentido para um romano, pois estes viam tais alimentos
cerimoniais como culturalmente estranhos e árduos e vale lembrar
que Priscila era romana. Além destas, Haddad oferece várias outras
pistas de que o autor de Hebreus não era judeu e muito menos um
homem e conclui:
“Das muitas tentativas de identificar o autor de Hebreus, Priscila pode
ser ignorada, e ainda assim ela é uma candidata óbvia: Priscila, uma
cristã romana, uma companheira de trabalho de Paulo e Timóteo, uma
mulher que não tinha visto o Senhor Jesus, mas tinha recebido
confirmação da salvação por aqueles que a tinham; Priscila, piedosa e
sábia, plantadora de igrejas, familiarizada com as lutas de gentios,
exilados e mulheres; Priscila, professora de professores, cujo nome era
feminino o suficiente para representar uma ameaça a um interpolador
posterior antipático com a autoridade e aprovação de uma mulher como
ela havia gostado. “Enquanto nosso Senhor cavalgava triunfantemente
em Jerusalém, e a multidão louvava a Deus com alegria, os fariseus
insistiam que Jesus os silenciasse. Jesus respondeu: “Digo-lhes que, se
eles se calarem, as pedras clamarão.” De alguma maneira, as pedras
clamaram em nome de Priscila. Monumentos, igrejas, cemitérios e os
'Atos de Prisca' são ecos fracos, mas persistentes, de uma mulher fiel.
Se nem Lucas nem Paulo estavam dispostos a silenciar o trabalho de
uma mulher como Prisca, porque ousamos?”[96]
Outros estudiosos como Taylor Holmes também estão
convencidos disso. Dentre as pistas que ele oferece, vou
reproduzir uma delas aqui:
“O autor de Hebreus também fez algo que confundiu muitos
estudiosos. Em vez de usar constantemente o pronome "eu", ele usava
regularmente o pronome "nós". Hummm. Havia apenas alguns
pronomes no livro de Hebreus e quase metade deles é o pronome
"nós". Por que um autor do Novo Testamento teria feito isso? Bem, foi
porque o autor de Hebreus nunca se separou do marido e falou com ele
em todas as coisas. Todas as seis referências de Priscila por Paulo
também mencionaram o marido. Paulo nunca se referiu a ela sozinha. E
ela própria não teria se esquivado de seu amor e devoção ao marido e
teria usado o pronome "nós" como uma indicação adicional de seu
trabalho conjunto.” (HOLMES 2012)

Ray Hermann também deixa sua contribuição:


“Vários estudiosos modernos estão se inclinando para Priscila como
autora. Ela era professora de Apolo e era casada com Áquila e foi
tradicionalmente listada entre os Setenta Discípulos (ver Lucas 10: 1), e
também pensava ter sido o primeiro exemplo de uma pregadora. O
casal viveu, trabalhou e viajou com o apóstolo Paulo (ver Romanos 16:
3). AJ Gordon, um dos fundadores do Seminário Teológico Gordon-
Conwell, atribuiu a Priscila a autoria de Hebreus e disse: “É evidente
que o Espírito Santo fez dessa mulher Priscila uma professora de
professores”. Ter uma mulher com tanta honra e autoridade, neste
momento da história, não era apenas extremamente raro, mas às vezes
prejudicial à causa. Assim, sugere Ruth Hoppin, autora da Priscilla's
Letter: Finding the Author of the Epistle to the Hebrews: “seu nome foi
omitido para suprimir sua autoria feminina ou para proteger a própria
carta da supressão. (...) As evidências apresentadas são fortemente
direcionadas a uma autora feminina da Epístola aos Hebreus e a
alguém com um alto grau de conhecimento da língua grega, habilidade
de liderança especializada, além de amplo conhecimento da vida e do
ensino de Jesus. A pessoa que melhor se encaixa nessas capacidades
foi Priscila, a esposa de Áquila. (HERMANN 2019)

Fazendo uma síntese de um livro que defende Priscila como


autora de Hebreus, Robin Cohn afirma:
“Por vários anos, estou ciente da hipótese de que uma mulher escreveu
um dos livros do Novo Testamento, a Epístola aos Hebreus. Sendo tudo
sobre mulheres da Bíblia, adoraria descobrir que uma mulher escreveu
pelo menos um dos livros da coleção. Mas também sou bastante
exigente no que constitui um argumento convincente. Examinei várias
teorias promissoras sobre o poder e a influência das mulheres ao longo
dos séculos, mas muitas teorias promissoras acabam sendo estudos
decepcionantes. Usando meu chapéu cético enquanto conduzia minha
pesquisa sobre mulheres na Bíblia cristã, fiquei surpreso ao encontrar a
análise de Ruth Hoppin sobre a autoria de Hebreus, citada
repetidamente por alguns dos mais respeitados estudiosos da
área. Finalmente, sucumbi e comprei seu livro, Priscilla's Letter:
Finding the Author of the Epistle to the Hebrews. O título da
Priscila de Hoppin é mencionado seis vezes no Novo
Testamento. Ela é uma figura intrigante, pois seu nome
geralmente aparece primeiro quando é mencionada junto com
o marido, Áquila. A maioria dos estudiosos concorda que a
ordem incomum dos nomes do casal indica que ela era mais
proeminente que o marido. Além disso, ela é descrita como
ensinando Apolo, um proeminente pregador em Corinto. Ela
também trabalhou ao lado de Áquila no negócio de fabricação
de tendas e tornou-se uma companheira de viagem de
Paulo. Hoppin, assim como outros, também acredita que
Priscila foi a autora de Hebreus. A seguir estão seus
argumentos mais destacados em favor da autoria de Priscila.
Hebreus é único entre as 14.000 cartas existentes do período:
não há introdução ou saudação que mencione o nome do
autor. Além disso, não há evidências de que essa parte do
manuscrito tenha sido perdida. Todas as cópias conhecidas
de Hebreus têm o mesmo começo (Hoppin, pp.3-4). Se o nome
do autor foi perdido, aconteceu pouco depois de ter sido escrito
já que Clemente de Roma citou extensivamente
os Hebreus em sua carta aos Coríntios em 95-96 d. C,
Clemente não especificou quem ele estava citando, uma
prática incomum para o escritor da igreja primitiva. Em
contraste, ele mencionou Paulo pelo nome ao usar as palavras
do apóstolo. Já que Hebreus foi escrito entre 65 e 85 d. C, era
altamente provável que Clemente conhecesse o autor
diretamente ou de boca em boca. A igreja incipiente não era
tão grande e a correspondência circulava livremente pelo
Mediterrâneo. Hoppin especula que a autoria feminina teria
sido uma vergonha para os Pais da Igreja que queriam
remover posições de liderança das mulheres à medida que o
movimento de Jesus amadurecia. Portanto, parece que o nome
do autor foi deliberadamente mantido em segredo. Em uma
análise do uso de palavras e frases em hebraicos, Hoppin
encontra uma voz feminina se desculpando. Por exemplo, a
obra começa: “Apelo a vocês, irmãos, respeitem minha palavra
de exortação, porque lhes escrevi brevemente.” No entanto,
Hebreus é uma das cartas mais longas do Novo Testamento. O
autor poderia estar tentando dizer que “não sou digno, com as
palavras que tenho, de fazer justiça a esse importante
assunto”? Aparentemente, o texto grego também pode ser
traduzido como "apenas em certa medida eu lhes dei ordens",
um comentário submisso, como se uma mulher estivesse se
dirigindo a homens. Uma investigação mais aprofundada
comparando a linguagem usada por mulheres e homens no
primeiro século, principalmente ao escrever sobre temas
teológicos, ajudaria a esclarecer o argumento de que o autor
de Hebreus escreveu do ponto de vista feminino. Hebreus usa
a linguagem da paternidade, uma alusão que se esperaria de
uma autora. O escritor entendeu que a filha de Faraó pensava
em Moisés como seu próprio filho, descreveu o esconderijo de
Moisés de maneira delicada ("porque eles viam que ele era um
filho lindo") e descreveu Deus levando o povo de Israel para
fora do Egito como um pai segurando a mão de seu filho
pequeno (Heb. 8: 9). Hebreus se refere à infância, educação e
disciplina dos pais durante toda a exposição. Além disso, a
carta não usa nenhuma linguagem que mostre que as
mulheres são inferiores aos homens. Uma variedade de
mulheres é mencionada ou citada, incluindo Sara , Raabe , a
viúva de Zarefate, a mulher sunamita, nos Apócrifos e
Ester. (...) Hoppin observa que todas as mulheres mencionadas
em Hebreus são vistas como exemplos de fé com mais ênfase
do que a Bíblia Hebraica retratava essas heroínas na versão
inicial de suas histórias. Por exemplo, Heb 11:11 – “Pela fé
também a mesma Sara recebeu a virtude de conceber, e deu à
luz já fora da idade; porquanto teve por fiel aquele que lho tinha
prometido.”

“Talvez seja isso que devemos acrescentar ao perfil


psicológico do autor: generosidade na avaliação do papel
espiritual de Sara na história de sua nação - ver sua fidelidade
intrínseca em vez de sua momentânea confusão e descrença”
(Hoppin, pp.42-43).
Desde a antiguidade tardia até o Renascimento, a maioria
dos comentaristas supunha que Paulo fosse o autor da carta
devido à semelhança entre os conceitos explorados pelo autor
de Hebreus e os escritos do apóstolo. Os estudos
contemporâneos mostraram que há uma diferença
considerável em estilo e vocabulário do que a usada nas cartas
autenticadas de Paulo. Hoppin sugere que o autor
de Hebreus compreendeu intimamente a teologia de Paulo e
"estava intimamente associada a Paulo, engajando-se em
muitas horas de conversa com ele" (Hoppin, p.57). Portanto,
Hoppin sugere que o autor de Hebreus pode ser encontrado
entre os companheiros mais próximos de Paulo. Priscila se
mudou com Paulo de Corinto para Éfeso e depois viajou com
ele para a Síria (Atos 18:18). Priscila também viajou com o
companheiro de Paulo, Timóteo (Heb. 13:23). O Novo
Testamento certamente retratou Priscila como uma conhecida
próxima e companheira de casa de Paulo. Ela teve muitas
oportunidades de se familiarizar com as ideias teológicas do
apóstolo e, portanto, poderia ter transmitido esses conceitos
com suas próprias palavras, em um estilo próprio.” (COHN
2015)
Apesar de todas essas informações, nunca saberemos de fato
quem foi o autor de Hebreus, mas esses textos não deixam de ser
intrigantes e deixo eles aqui apenas a título de reflexão e de
informação. Particularmente, não estou convencido de que a autoria
de Hebreus foi de Priscila, porém, não acredito que a ausência de
mulheres como escritoras da Bíblia seja problemática para a
questão do ensino feminino, pois mesmo que não haja mulheres por
trás da composição escrita direta da Bíblia, certamente estão
presentes na formação espiritual e doutrinária de Israel e da Igreja.
1 Timóteo 2.11 proíbe que as mulheres ensinem na Igreja.
Tendo em vista que essa é uma das funções dos pastores,
como pode a mulher ser pastora?
Eu confesso que esse texto é de difícil interpretação,
principalmente pela falta de dados claros suficientemente para
responder todas as nossas dúvidas. A pergunta que devemos fazer
é: porque Paulo restringiu a participação da mulher nesta Epístola?
Bem, já vimos que Paulo não é contra mulheres no diaconato,
inclusive forneceu diretrizes para as diaconisas em 1 Timóteo 3.11,
portanto, mesmo a restrição de Paulo aqui não pode ser aplicada
sobre todos os tipos de ministério e parece estar ligada somente à
direção e liderança direta da congregação. Se este for o caso,
temos outra tarefa que é a de mostrar que este texto é um aplicativo
circunstancial e não algo atemporal. Para esclarecer melhor a
questão, precisamos tentar reconstruir o cenário original desta
epístola.
Pois bem, ela foi escrita para Timóteo, um pastor que apesar de
ser jovem, assumiu a liderança da igreja de Éfeso sob a mentoria e
cuidados de Paulo. Como toda comunidade eclesiástica emergente
do N.T, a igreja de Éfeso tinha seus próprios desafios e demandas.
Que desafios eram estes? Um deles, seria a conversão em massa
de mulheres efésias ao Cristianismo. E isto nos leva para outra
questão: como Paulo lida com isso? Bem, geralmente, quem é
contra o pastorado feminino, costuma usar justamente essa
passagem para argumentar que se Paulo fosse a favor de mulheres
como pastoras, este seria um excelente momento para ele deixar
isso claro, pois, naquela época, as mulheres efésias tinham
bastante espaço na religião, atuando inclusive como sacerdotisas do
templo de Diana. O raciocínio é o seguinte: “se não existe uma clara
e intensa defesa do ministério feminino ordenado por conta da
cultura Patriarcal, porque nem mesmo em Éfeso, onde existe uma
‘cultura mais feminina’ por assim dizer, Paulo faz isso? Muito pelo
contrário... acaba restringindo até...”
Na verdade, existe uma série de fatores que fizeram com que
Paulo deixasse as mulheres efésias de fora do ensino e da
“autoridade sobre o homem”. Dentre tantos, citarei rapidamente aqui
alguns. Por exemplo, a mulher mesmo na cultura efésia, ainda
estava debaixo do sistema patriarcal. Não é porque existiam
sacerdotisas em Éfeso que todas as mulheres eram bem-vindas e
bem quistas em todos os setores da sociedade. A mulher (com
algumas exceções, claro) ainda continuava longe da educação, da
liderança de ambientes políticos, cívicos e públicos, ainda era vista
como propriedade e objeto sexual (reprodução e prazer). Na mente
paulina, tê-las ocupando funções sacerdotais em Éfeso não é
positivo para o Cristianismo, não porque o problema seja no
exercício da liderança em si, mas pela correlação direta com o
paganismo. Naquela época, havia uma discrepância abissal entre o
sacerdócio efesiano e o levítico. O primeiro, não era visto com bons
olhos por um judeu do I século, mas o segundo sim. Tendo em vista
que a moralidade não estava presente nos cultos efesianos, ter
mulheres como sacerdotisas traz sérios problemas e não pode ser
considerado como um processo que a dignifica. Inclusive, nestes
espaços, haviam momentos de prostituição cultual com tais
mulheres, abalizando ainda mais a objetificação da mulher como um
veículo de acesso a experiências místicas, imorais e sexuais. Além
destas coisas, a sacerdotisa efesiana desempenhava outras
atividades como adornar o templo, realizar sacrifícios públicos,
reorganizar os cultos, e administrar as finanças do templo.”
(BREMMER s.d.)
Sendo assim, é bem provável que Paulo restringiu a atuação da
mulher, não porque fosse contra a liderança feminina em si, mas
porque o contexto assim o pedia[97]. Paulo não queria que o
Cristianismo fosse associado com esse tipo de proto-feminismo
religioso[98], ou seja, ao escrever isso a Timóteo, ele está na
verdade preservando a imagem, a integridade e o status da mulher.
Veja que coisa gloriosa! O que ele faz na verdade, é colocar em
prática seu cuidado pastoral (1 Tm 1.5). Numa época onde as
mulheres não tinham boa educação e possuíam um conceito
distorcido (pela sociedade) do que é ministério religioso, qualquer
pessoa com um pouco de bom senso, faria o que Paulo fez. Imagina
só se a fama em Éfeso se espalhasse que os cristãos deixavam as
mulheres ensinar aos homens, dirigir cultos e tinham participação
ativa na liderança da igreja. Ali, certamente o Cristianismo correria o
risco de ser confundido com a religião local dos efésios (Lembre-se
que Paulo tem uma preocupação muito grande com a postura dos
cristãos (1 Tm 2.9,10; 3.15; 4.15,16) e também de como devem
buscar estar em paz com o Estado (1 Tm 2.1). Se caísse nesse
costume, a Igreja de Éfeso seria vista apenas como uma extensão
da religião pagã daquela cidade. Portanto, este foi o aplicativo de
Paulo que recorreu à criação, para justificar sua postura rígida
naquele ambiente hostil (1 Tm 2.11-14). O Engano de Eva[99],
deveria servir como um exemplo para que as mulheres não caíssem
em transgressão. Todavia, quando não permitiu que a mulheres
ensinassem, ele deu tempo para que elas aprendessem. O cuidado
de Paulo é com a instrução delas para que não caíssem no engano.
Outra pista de que a restrição de Paulo está intimamente ligada
com as influências danosas das mulheres efésias é quando ele
recorre ao argumento de que Adão foi formado primeiro que Eva.
Naquela época, acreditava-se que a deusa Diana (a Ártemis de Atos
19: 28-37) teria vindo primeiro que seu consorte masculino.
Portanto, ao recorrer à narrativa de Gênesis, Paulo está
desmitificando essas crenças populares.[100] E quando diz que ela
será salva (ou mantida em segurança) dando luz à filhos se
permanecessem na fé, no amor e na santidade, com bom senso?
Bem, em Éfeso, Diana era conhecida como a protetora das
mulheres e aquelas que engravidavam, recorriam à sua proteção
quando viajavam. Os romanos acreditavam que a divindade
feminina ajudava as grávidas no momento do parto. Como um
símbolo de maternidade, fertilidade e abundância, as populares
imagens e retratações de Diana podiam levar as mulheres cristãs ao
engano, assim como aconteceu com Eva[101]. Contudo, Paulo as
redireciona ao dizer que serão salvas (aqui tem mais a conotação
de proteção/livramento) se tiverem uma conduta irrepreensível.
Mas qual o significado do termo authenteō (autoridade) nesta
passagem? Ao longo dos anos, os estudiosos discutem
intensamente qual seria a tradução mais precisa desse termo em
conjunto o restante do versículo.[102] Isto é uma tarefa bastante
difícil, pois ele aparece apenas uma vez nos escritos paulinos e
poucas vezes na literatura extra-bíblica. Todavia, levando em
consideração todo esse escopo contextual, parece forçada a
argumentação que esse texto nega às mulheres o exercício
ordinário e apropriado de autoridade. Parece mais que provável que
a proibição se refira a um uso negativo e prejudicial de autoridade.
Ou seja, além de estarem ensinando (o que já é algo problemático
para aquele contexto), estavam fazendo isso de forma
abusiva/incorreta. [103] Então Paulo se vê diante de dois problemas
que estão intimamente ligados: um externo (as influências da
religião efesiana) e um interno (o mal comportamento das mulheres
cristãs naquela igreja).
Isto significa que é bem provável que as mulheres estavam
inclusas naquele grupo de pessoas que ensinavam doutrinas falsas
(1 Tm 1.3,4), se desviando da fé sincera (1 Tm 1.6,7; cf 1 Tm 5.15).
Então quando não permitiu que elas ensinassem, Paulo matou “dois
coelhos numa cajadada só.” Além de colocar ordem na igreja, abriu
espaço para que as mulheres aprendessem mais sobre Deus e o
Evangelho e elas deveriam fazer isso em silencio[104] e sujeição[105],
ou seja, com ordem e quietude.
Só um detalhe que muitas vezes passa desapercebido é que
Paulo pede para que Timóteo ensine estas coisas (1 Tm 4.6; 11,13).
Interessante que as mulheres também seriam alvo dessa instrução.
Isso demonstra o quanto Paulo tinha uma mente avançada. Ele
queria que todos fossem instruídos[106]. Isto era algo impensável na
sociedade dos seus dias. Mas uma coisa é certa, em Éfeso, há mais
homens maduros na fé, portanto, mais aptos para ensinar, enquanto
que para as mulheres, é reservado um tempo para aprender, não a
exclusão total e definitiva do ministério ordenado. Não é isto que
Paulo tem em mente aqui... Até porque o ensino no período do Novo
Testamento era uma atividade, não um ofício (Mt 28: 19-20), e era
um dom (Rm 12: 7; 1 Cor. 12:28; 14: 26; Ef 4:1). Muito embora esta
seja uma atividade desempenhada pelo líder da congregação, não
existe o ofício de Mestre no Novo Testamento. A tarefa de fazer
discípulos, assim como a de evangelizar é igualmente de todos os
cristãos, incluindo homens e mulheres! Este princípio é universal e
obviamente não impediu Paulo de fazer aplicações locais restritivas
quando as necessidades assim exigissem, como é o caso desta
passagem.
Agora, como descobrirmos que isto é um aplicativo circunstancial
e não prescritivo para todos os cristãos em geral? Por conta das
passagens que já tivemos oportunidade de ver, que mostram que as
mulheres, eram ativas na liderança e no ensino[107] de algumas
igrejas apostólicas[108]. Desta forma, entendemos que essa
passagem está culturalmente condicionada, não oferecendo,
portanto, nenhum problema ao pastorado feminino, muito embora
seja um texto de difícil interpretação.
1 Timóteo 3.2 diz que o Bispo deve ser marido de uma só
mulher. Isto não implica que somente homens podem ser
líderes da igreja? Do contrário, como uma mulher pode ser
marido de uma só mulher?
Não há problema algum com esse texto, pois ele não diz que
somente os homens podem exercer o Bispado. O que Paulo faz
nesse texto é dar diretrizes para os homens que aspiram ao
Bispado. O homem que aspira o Episkopado deve ser
irrepreensível, marido de uma só mulher, moderado, sensato,
respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar, não deve ser apegado
ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao
dinheiro. Deve governar bem a sua casa, tendo os filhos sujeitos a
ele, com toda dignidade (1 Tm 3.2-4). Aqui são colocadas as
condições para os homens que desejam desempenhar esta nobre
função. A passagem de modo algum está colocando como condição
a masculinidade do candidato. Orientações masculinas não tem
nada a ver com exclusividade masculina. Isto é depreendido do
contexto geral que revela que Paulo distribui as orientações para os
Bispos, diáconos e diaconisas. Estas, são de acordo com as
necessidades de cada serviço. Paulo se dirige a homens, não
porque é contra mulheres no ministério ordenado, mas porque a
igreja em Éfeso é dirigida especificamente por homens[109] (vale
lembrar que isso não implica nenhum problema para a nossa
argumentação, tendo em vista que cada igreja ou congregação do
N.T tem uma formatação de governo própria/peculiar). Se houvesse
mulheres naquele local exercendo esse ofício, certamente as
orientações seriam: a mulher seja esposa de um só homem e que
edifique bem o seu lar.
Embora não haja pastoras em Éfeso, há a presença de
diaconisas por lá (conforme já vimos em 1 Tm 3.11). O ministro,
segundo Paulo, deve ser exemplo para os fiéis, portanto, deve ter
apenas um conjugue! Existem basicamente três interpretações
sobre esse texto:
a) Paulo está ensinando que só pode ser Bispo quem for casado.
Neste caso, o casamento é uma condição necessária para exercer o
Bispado. Esta é uma interpretação forçada e limitada, pois se levada
a sério, também exigirá que somente homens com filhos podem ser
Bispos (v. 4). Neste caso, entraria outras questões como: quem é
estéril não pode ser Bispo? Quem tem filhos adotados pode ser
Bispo? Etc.
b) Paulo está ensinando que o Bispo deve casar apenas uma
vez, isto é, se ficar viúvo, não pode casar novamente. Essa visão é
igualmente problemática pois o texto diz “marido de uma só mulher”
e não “que seja casado uma única vez”. Paulo não está interessado
em quantas vezes a pessoa casou, mas em quantas mulheres o
candidato tinha. Esta interpretação é minoritária e tem sido
amplamente rejeitada pela maioria dos teólogos sérios.
c) Paulo está ensinando a monogamia e a fidelidade. Ou seja,
aqueles que tiverem mais de uma mulher, não podem ser Bispos.
Esta é uma posição majoritária entre os exegetas.
Cremos nesta última! É somente isso que o texto diz. Qualquer
conclusão para além disso, é suspeita e beira ao contorcionismo! É
como alguém acreditar que uma mulher não pode ser jogadora de
futebol, só porque a indústria futebolística registra por escrito em
quais condições os atletas masculinos devem estar para jogar. Em
última instância, a perícope dessa passagem ensina como os
homens que desejam o episcopado devem proceder e não que
somente eles podem exercer tais funções. Desta forma, assim como
não é necessário ser casado para ser bispo, não é verdade que
somente homens podem ser bispos. Quem defende isso, está
impondo no texto a ideia de que somente homens podem ser
bispos, quando na verdade, o texto ensina que aqueles homens que
possuem mais de uma mulher, não podem ser bispos.
Outro ponto: o apóstolo elenca várias características para aquele
que deseja ser bispo, mas ninguém conclui a partir disso que
somente eles devem ter essas características e que outros homens
que não são bispos não precisam viver dessa forma. Isto é, a gente
entende que outros homens também devem praticar tais coisas e
não somente isso, as mulheres também (de acordo com seu sexo,
claro).[110] Então porque as excluímos do rol dos candidatos ao
pastorado? Se somente homens podem ser pastores, somente
homens devem ser hospitaleiros? Óbvio que não, não é mesmo?
Pois bem, assim como as características desse texto não exclui os
outros cristãos de assim proceder, a ausência de diretrizes direta
para as mulheres (de acordo com a natureza) não é suficiente para
excluí-las da ordenação, pois o texto apesar de ser dirigido aos
homens que aspiram o Bispado, tem aplicações e princípios
também para os outros cristãos em geral, sendo que naquela época,
isto devia começar pelo Bispo. Ele devia ser o primeiro exemplo![111]
Além do mais, se a questão da linguagem masculina é um
problema para o pastorado feminino, ela também é para a doutrina
da expiação, pois nesta mesma Epístola Paulo revela que Deus
deseja a Salvação de todos os homens (cap. 2.3) e que ele é
salvador de todos os homens (cap. 4.9), especialmente dos que
creem. Estaria Paulo ensinando que Deus só deseja a salvação de
homens e não de mulheres? E que ele não é Salvador das
mulheres? Claro que não! Contudo, é justamente essa lógica (bem
ilógica) que os complementaristas trilham quando usam essa
passagem que vimos para ser contra o Pastorado feminino.
Isaías 3.12 fala de mulheres dominando o povo de Deus,
exatamente num contexto de juízo contra Israel. Sendo assim,
ter mulheres na liderança da igreja não seria algo ruim?
Antes de entrarmos no mérito da questão, precisamos analisar
as possíveis interpretações deste texto. Existem pelo menos, três
maneiras de entendê-lo.
1- Literalmente. Ou seja, Judá seria governado literalmente por
jovens inexperientes e mulheres. Os que defendem esta visão,
alegam que Acaz é um bom exemplo disso: um rei fraco e
perverso. Ele governou dos 16 aos 20 anos (2 Reis 16.2). No
caso das mulheres dominando, a figura da rainha-mãe talvez
representaria bem essa questão (cf. 2 Reis 11.1-16) ou as
mulheres altivas de Sião (Is 3.16-25), que provavelmente eram
ricas e influentes.

2- Esse texto não consta nos originais. De acordo com alguns


estudiosos da crítica textual, o termo “mulheres” (nashim) não
fazia parte do versículo original de Isaías, mas sim “credores”
(noshim). A Septuaginta, por exemplo, traduziu esse texto da
seguinte forma: “Ó meu povo, seus extratores o despojam e os
que extorquem, dominam sobre você.”

3- Metaforicamente. De acordo com essa interpretação,


“crianças” e “mulheres” são metáforas usadas para descrever
líderes infantis (inexperientes, caprichosos e tolos) e
efeminados (Is 3.4). Chamar um homem nos tempos antigos
de criança e de mulher, era um insulto. Ou seja, Deus queria
atingir a consciência desses governantes perversos. Heródoto
chegou a registrar as palavras de Xerxes, rei da Pérsia,
dizendo “Meus homens se tornaram mulheres e minhas
mulheres homens.” (Histórias 8.88.3).
Cremos que a última interpretação seja a menos problemática
e, portanto, a mais precisa. O contexto imediato parece sugerir
que Deus está falando metaforicamente contra os líderes do Seu
povo. Alguns estudiosos e Bíblias de Estudo estão alinhados com
essa visão, como por exemplo:
Comentário Benson: “Governantes fracos e efeminados. Ou
talvez ele fale das esposas e concubinas de seus reis e grandes
homens, que, pelas suas artes, ganhando ascendência sobre
seus maridos, os induziram a agir como desejassem, embora
frequentemente existisse o preconceito das pessoas e fosse algo
contrário a todas as leis. Assim foi no reinado de Jeorão, rei de
Judá, cuja esposa Atalia, uma mulher cruel e fraca, ocasionou
grandes desordens no estado...” [112]
Notas de Barnes: “Isso não deve ser tomado literalmente, mas
significa que os governantes estavam sob a influência do harém
ou das mulheres da corte; ou que eram efeminados e destituídos
de vigor e masculinidade em seus conselhos.”[113]
Comentário da Bíblia de Jamieson Fausset-Brown: “Aqueles
que deveriam ser protetores são exigentes, tão desqualificados
para o governo, quanto crianças, tão efeminados quanto
mulheres. Talvez esteja implícito que eles estavam sob a
influência de seu harém, as mulheres de sua corte.” [114]
Comentário de Matthew Poole: “Governantes fracos e
efeminados, eram chamados de mulheres em escritos sagrados e
profanos.” [115]
Bíblia de Estudo Genebra: “Como o povo ímpio era mais
viciado em seus príncipes do que nos mandamentos de Deus, Ele
mostra que lhes daria tais príncipes, pelos quais eles não teriam
ajuda, mas que seriam sinais manifestos da sua ira, porque eles
seriam tolos e efeminados.”[116]
Comentário do Púlpito: “Os governantes eram femininos, isto
é, fracos, vacilantes, tímidos, impulsivos, apaixonados e,
portanto, são chamados de mulheres reais. Não há alusão às
soberanas do sexo feminino.”[117]
Notas explicativas de John Wesley: “Mulheres- governantes
fracos e afeminados.”
Por fim, uma questão que deve ser levantada para nossa
reflexão é que se esse texto está defendendo que mulheres no
governo é um sinal claro do juízo e ira de Deus, então a
conclusão inevitável é de que as mulheres que são presidentas
de um país, rainhas, governadoras, prefeitas, senadoras,
deputadas, vereadoras, e até aquelas que são gerentes de
empresas são sinais da ira de Deus também. Isto é algo absurdo!
Desta forma, cremos que o texto não está colocando a liderança
feminina de forma pejorativa, mas sim criticando um
comportamento inadequado dos líderes políticos (masculinos)
daquela época.
Ao falar do tema “Queda e Redenção”, Paulo usou
recorrentemente a analogia do primeiro Adão e do segundo
(Cristo). O Novo Testamento também colocou Adão como o
grande responsável pela Queda no Éden. Isto não sugeriria que
a liderança no Éden era exclusivamente masculina e que a
distinção de papéis já existia antes da queda?
Esta conclusão fica por conta do intérprete. Paulo não dá muitos
detalhes sobre o uso dessa analogia. Ele simplesmente a usa, sem
explicar meticulosamente suas particularidades. As passagens
principais que são frequentemente usadas para sustentar esta visão
são: 1 Co 15.22 e Rm 5.12-21. Na verdade, nenhuma delas falam
do relacionamento (papéis) entre Adão e Eva (onde ela sequer é
mencionada). Os que pensam isso o fazem por meio de uma
dedução que é imposta no texto. Não é algo que está lá. Somente
essa informação já seria suficiente para nos convencer que Paulo
não tem em mente a submissão de Eva à Adão antes da Queda.
Então porque Paulo toma Adão como exemplo negativo e não Eva?
A resposta para essa pergunta não está nessas passagens, como já
disse no início do parágrafo, pois Paulo não dá muitos detalhes
sobre isso. Apesar disso, existe outro texto paulino que nos deixa
uma pista do porque isto acontece. Se encontra em 1 Tm 2.13,14.
Lá, é dito duas coisas: que Adão foi formado primeiro e que ele não
foi enganado, mas Eva. Muitos interpretam a primazia de Adão
como sendo um indício de que ele era o líder de Eva. No entanto,
conforme já vimos no começo desse estudo, no livro de Gênesis, a
primazia de Adão não aponta para essa direção e aqui Paulo usa
essa expressão para nos mostrar que Eva (a segunda a ser criada),
foi a primeira pecar. E Eva faz isso por ter sido enganada (cf. 2 Co
11.3) enquanto que Adão não o foi. Esse dado lança mais luz sobre
os demais textos. Adão recebeu em primeira mão a ordem de não
comer do fruto proibido, contudo, foi o último a pecar. Ou seja, ele
fez isso plenamente consciente e livre do engano.[118] Eva ainda
passou pelo processo de tentação, enquanto que Adão
desobedeceu livremente e sem mostrar nenhuma resistência
(enquanto que Eva ainda oferece uma resposta no discurso com a
serpente) e pecou contra o SENHOR[119]. Isto é, Adão é duplamente
responsável. Talvez seja por isso que Paulo o use como exemplo
nessa analogia[120], chegando a colocá-lo como um tipo imperfeito
daquele que viria (Jesus). Adão pecou sem nenhuma resistência e
trouxe morte sobre todos. Enquanto que Jesus, mesmo sendo
tentado durante vários dias, não cedeu e em tudo foi triunfante.
Sendo assim, esses textos parecem favorecer esta segunda
interpretação, mais do que a primeira. Seja lá o que Paulo queira
dizer ao usar esta metáfora, certamente não tem nada a ver com a
submissão feminina pré-queda.
Em Apocalipse 2.20, Jesus falou negativamente de uma
mulher chamada “Jezabel”. Ela se dizia profetisa e através dos
seus ensinos, conduzia os membros da igreja a uma vida de
pecado. Isto não seria mais uma evidencia de que Deus não
quer mulheres no ensino público e muito menos na liderança
da Igreja?
Para responder essa pergunta, precisamos entender a
identidade dessa tal de Jezabel. Quem era ela? Uma pessoa que
viveu no passado? A esposa do líder daquela igreja? Ou um
símbolo de iniquidade? Pois bem, de acordo com o teólogo
assembleiano Esdras Costa Bentho, a figura de Jezabel divide os
estudantes da Bíblia. Em um artigo intitulado “As identidades de
Jezabel de Apocalipse 2.20” (Bentho 2010) ele mostra quatro
opiniões sobre ela. Por exemplo, há aqueles que acreditam que ela
era a esposa do pastor de Tiatira, pois alguns manuscritos em vez
de dizer “a mulher Jezabel”, dizem “a tua mulher Jezabel”. Outros,
acreditam que era de fato a Jezabel do Antigo Testamento revivida
(o que Esdras vê como um falso conceito) e há aqueles que creem
se tratar de uma profetisa carismática da comunidade de Tiatira. Ele
vê esta posição como sendo melhor que a primeira. E por último,
“Jezabel” se trata de uma referência simbólica aos falsos ensinos
pagãos que adentravam na igreja. Nas suas palavras, “... o nome
Jezabel seria um pseudônimo para referir-se às práticas e
misticismos pagãos das religiões de mistérios que, à semelhança do
paganismo jezabelita introduzido no culto a Javé no Antigo
Testamento, estavam adentrando na comunidade cristã de Tiatira.
Assim, teríamos na igreja de Pérgamo, os balaamitas e nicolaítas e,
na igreja de Tiatira, os jezabelitas.”
Esta última visão parece ser a mais provável, pois Apocalipse
está carregado de figuras emblemáticas e simbólicas. A nação de
Israel mesmo é mencionada e descrita no capítulo 12 deste livro
como sendo uma mulher grávida. Os próprios pastores das 07
igrejas da Ásia menor são mencionados simbolicamente como
sendo “anjos.” De qualquer forma, seja qual for a interpretação
correta, esse texto não pode ser usado como prova contra a
liderança feminina. Aliás, mesmo que seja uma mulher literalmente,
o problema de Jezabel não é sua feminilidade, nem sua suposta
liderança, mas sua conduta ímpia e dissimulada. Assim como o
falso não tira o valor do verdadeiro, este exemplo não é suficiente
para não incluir mulheres na liderança. Até mesmo porque no
contexto mais próximo desse texto também fala negativamente de
Balaão (Ap 2.14) e dos Nicolaítas (Ap 2.6) e nem por isso, usamos
esses maus exemplos para minimizar ou deixar de reconhecer a
liderança masculina. Não é porque Judas (o traidor) teve uma má
conduta perante o SENHOR, que a liderança dos outros 11
apóstolos é falsa. No final das contas, o que existe são bons e maus
líderes! No Antigo Testamento, por exemplo, a rainha Ester teve
influência suficiente para salvar seu povo do genocídio iminente e
provocar a eliminação da casa de Hamã. Ela, junto com Mordecai,
“escreveu com plena autoridade” e “o decreto de Ester confirmou
esses regulamentos” (Est 9: 29–32). A Bíblia louva a rainha de Sabá
(1 Reis 10: 1–13; 2 Crô 9: 1–12) e a rainha da Caldéia (Dan 5: 10–
12). Embora as rainhas Jezabel e Atalia tenham sido iníquas (1 Reis
18: 4), como a maioria dos reis de Israel, o quadro geral do A.T é de
líderes bons e maus.
Se nem mesmo podiam falar na igreja como afirma 1 Co
14.34,35; como poderia uma mulher ser pastora? Isto não seria
uma contradição com a Bíblia?
Embora já tenhamos tratado desse capítulo de forma ligeira,
gostaria de destrinchar com mais detalhes sobre ele. Mais uma vez:
o contexto pode nos ajudar a reconstruir o cenário daquela época e
nos esclarecer melhor o que Paulo disse, porque disse e se é válido
para os dias de hoje. O contexto mostra que Paulo está escrevendo
para corrigir alguns excessos da igreja em Corinto. No capítulo 12-
14, ele está instruindo sobre o princípio da ordem e da decência no
culto. Ele destaca dois aspectos: o uso dos dons e o comportamento
das mulheres casadas na igreja. Isto já nos esclarece muita coisa,
não é mesmo? Por exemplo, Paulo aqui não está tratando dos
ofícios das mulheres na igreja. Isto é, o assunto aqui não é sobre o
pastorado, nem diaconato. Segundo, a mensagem de Paulo é para
as mulheres casadas, portanto, o alvo dele não são todas e cada
uma das mulheres. Terceiro, esta é uma palavra para todas as
mulheres casadas que não se comportam bem no culto. Lembremo-
nos que Paulo escreve para atender demandas. Isto significa dizer
que a referência do apóstolo aqui não é ontológica, mas estratégica.
Afim de manter a ordem no culto, Paulo corrige-as dizendo que
precisam ficar em silencio na igreja,[121] ou seja, quietas! Outra coisa
que precisa ser dita é que Paulo não tem em mente aqui um silencio
absoluto. Até porque ele já disse no capítulo 11 que as mulheres
podiam profetizar e orar; e no capítulo 14 elas têm espaço no culto
público para trazer um salmo, palavra de instrução[122], revelação,
uma palavra em línguas e interpretação. As mulheres podem fazer
tudo isso. Sendo assim, esse texto não representa nenhuma
ameaça ao pastorado feminino, mas vamos apresentar algumas
visões sobre este capítulo:
a) Esta passagem é uma adição posterior e não provém da
pena paulina.

Vários teólogos como Gordon Fee[123] e Philip B. Payne[124]


defendem que esta passagem não se encontrava no manuscrito
original escrito por Paulo. Além dessa questão, haveria outras
pistas disso. Por exemplo:
Alguns termos utilizados aqui são estranhos ao corpo
escriturístico paulino.

Esta passagem entra em conflito com o objetivo da instrução


da igreja.

Não existe uma lei no Antigo Testamento proibindo as


mulheres de falar nos cultos.
Payne chega ao ponto de argumentar que Clemente de
Alexandria (c. 150–215 d. C) possuía um manuscrito que faltava 1
Cor 14: 34–35, pois quando Clemente discute o comportamento das
mulheres na igreja (Paedagogus 3:11), ele cita 1 Cor 11: 5, 13, mas
não 1 Cor 14: 34–35, embora em outra parte da mesma obra ele cite
1 Cor 14: 6, 9, 10, 11, 13, 20. Se isto estiver correto, esta passagem
não tem origem apostólica e, portanto, não é válida canonicamente
para as nossas discussões.
b) 1 Coríntios 14: 33b-38 é um dispositivo paulino de citação-
refutação
Esta visão é apresentada por Kirk MacGregor. Em rápidas
palavras, ele defende que Paulo está aqui na verdade citando a
posição dos coríntios para depois refutá-la. Neste caso, a posição
dos coríntios era de que as mulheres deviam ficar caladas nas
assembleias. Esta crença teria se originado na facção judaizante
da igreja. Ou seja, esta passagem teria sido escrita sim pelo
apóstolo Paulo, mas não refletia a visão paulina. Isto é, 33b-35
compreendem a citação de Paulo da carta dos Coríntios enviada
a ele, enquanto os versículos 36–38 constituem a refutação
decisiva dessa citação. Nas suas próprias palavras:
“Longe de tentar silenciar as mulheres, portanto, Paulo está
repreendendo os homens de Corinto por proibirem as mulheres de falar
nas assembleias, pois ele considera tal restrição equivalente a alegar
que a palavra de Deus pertence adequadamente aos homens e
meramente derivada de qualquer mulher casada com um deles. (...)
Obviamente, a palavra de Deus não se originou nos homens, nem
chegou apenas aos homens; portanto, é ridículo, e ao contrário do
caráter do Evangelho, agir como se a palavra pertencesse
adequadamente aos homens, impedindo as mulheres de discursar
sobre isso ou fazer perguntas sobre ela na igreja. Por essas razões, a
unidade de pensamento anterior é mostrada como não pertencendo a
Paulo, mas é antes a citação de Paulo da posição dos coríntios da carta
que eles haviam anteriormente enviado a ele, cuja resposta à qual a
carta constitui em grande parte, o propósito de 1 Coríntios.”
(MACGREGOR 2018)

O autor também mostra como Paulo usou esse dispositivo outras


vezes em 1 Coríntios [125] e depois afirma que há evidências
contextuais de que sua posição reflete melhor o conteúdo desta
passagem:
“Igualmente forte como a evidência gramatical em descartar decisivamente
a origem paulina de 14: 33b-35 é a evidência contextual. Em 11: 3-16,
Paulo argumenta que as mulheres deveriam ter suas “cabeças cobertas”
quando oravam ou profetizavam na igreja, cuja cobertura ele identifica
como “cabelos compridos” (v. 15). Aqui Paulo declara explicitamente sua
visão de que as mulheres devem orar e profetizar na igreja. Essa defesa
aberta por Paulo do discurso religioso de mulheres na igreja ilustra a
impossibilidade de Paulo expressar sua própria perspectiva em 14: 33b-35,
pois isso tornaria Paulo como culpado de autocontradição. Além disso, 14:
33b-35 contradiz o ponto central de Paulo em 1 Cor 14, de que na igreja,
todos, independentemente do sexo, devem ser instruídos por todos os
outros: “Qual é o resultado então, irmãos e irmãs? Quando vocês se
reúnem, cada um tem um hino, um ensinamento, uma revelação, uma
língua ou uma interpretação. Que tudo isso seja feito para edificação...Pois
todos vocês podem profetizar um por um, para que todos sejam instruídos
e encorajados” (14:26, 31).”[126]

Além disso, a lei a qual Paulo se refere não pode ser a Torá
escrita por Moisés, pois “nenhum texto do A.T impede as mulheres
de falar ou exige sua submissão em assembleias.” Neste ponto,
Payne e MacGregor estão em concordância. MacGregor ainda
garante:
“...os dois mandatos (silêncio e submissão) são explícitos na Torá oral. A
Mishnah (M. Ketub. 7: 6) declara que é pecaminoso para uma mulher "falar
com qualquer homem" em assembleias, e o historiador Josefo do século I
d. C (Ag. Ap. 200–1) relata a seguinte instrução da Torá oral: “A mulher, diz
a lei, é em todas as coisas inferior ao homem. Que ela seja submissa.”
Como Payne observa, “embora 1 Coríntios 14:34 não esteja em harmonia
com o uso da 'lei' por Paulo, ela se encaixa perfeitamente aos apelos
judaicos à lei oral.” O mesmo vale para 14.35: “Mas se elas desejam
aprender alguma coisa, pergunte a seus próprios maridos em casa”, o que
é diretamente paralelo ao filósofo judeu helenístico do primeiro século d. C,
Filo de Alexandria, em um comentário sobre a Torá oral: “O marido parece
competente para transmitir o conhecimento das leis à sua esposa”
(Hipotética 8.7.14).[127]

E conclui: “À luz da ênfase de Paulo na libertação da Torá oral (e


até da escrita), juntamente com o aviso de que a observação da
Torá oral só poderia ser necessária sob pena de alienação de Cristo,
é impensável que Paulo exigisse o silêncio eclesiástico das
mulheres em virtude da obediência à Torá oral. Entre os coríntios,
parece claro que 1 Cor 14: 33b-35 se originou na facção judaizadora
de sua igreja, que enfatizava a obediência à Torá oral como
necessária para a salvação e à qual Paulo se opunha
veementemente. Em relação a esses judaizantes que se
identificaram como “pertencentes a Cefas” (1 Cor 1:12) e disputaram
o apostolado de Paulo (1 Cor 4: 1–5, 9: 1–18), Paulo os invocou
como “falsos apóstolos e obreiros enganosos que se disfarçam de
apóstolos de Cristo” (2 Cor 11:3-4).[128]
Tanto esta visão quanto a primeira não atribuem o silenciamento
das mulheres à Paulo. No entanto, fico com a visão tradicional de
que esta passagem foi escrita pelo apóstolo e proponho uma
terceira via:
c) Paulo recorreu ao silenciamento das mulheres casadas
como uma resolução local (mas não atemporal) para
alguns problemas litúrgicos de seu tempo.

O silêncio[129] é a alternativa que Paulo propõe para a desordem


no culto. Ao que parece, as mulheres casadas eram responsáveis
por uma grande parcela deste problema na igreja em Corinto. E
quanto à sujeição? Embora alguns vejam aqui um indicativo de
sujeição ao homem/marido, também não é isto que o apóstolo tem
em mente aqui. Não há objeto correspondente em nenhum lugar do
texto. Então, que tipo de sujeição Paulo tem em mente? A sujeição
a si mesma, ou o autocontrole. As mulheres deviam se controlar no
culto, a fim manter a ordem e a decência. Essa interpretação se
alinha melhor com o contexto imediato desta passagem (v. 32).[130]
Como se dava essa desordem? Não sabemos com certeza quais
foram todos os elementos femininos que atrapalhavam o culto, mas
se especula alguns como: tagarelice, fofoca, perguntas desordeiras,
conversações, etc. N.T. Wright por exemplo, ilustra o cenário da
época:
“Durante o sermão em particular, as mulheres, sem entender o que
estava acontecendo, começavam a se cansar e conversavam entre si.
Segundo a descrição feita por Bailey da cena em tal igreja, o volume da
conversa do lado das mulheres aumentava constantemente até levar o
ministro a dizer em voz alta: ‘Será que as mulheres, por favor, poderiam
ficar quietas!’ Então, a conversa diminuía, mas só por alguns minutos.
Em algum momento, o ministro tinha de pedir novamente às mulheres
para ficarem quietas e, muitas vezes, ele ainda dizia que, se elas
quisessem saber o que estava sendo dito, deveriam pedir aos maridos
que lhes explicassem quando chegassem em casa. Sei que outras
explicações são dadas para esta passagem, sendo algumas muito
plausíveis; mas esta é a única que me impressionou durante muitos
anos como tendo a alegação mais forte que contextualize a
compreensão do que Paulo está dizendo. Afinal, sua preocupação
central em 1 Coríntios 14 é com a ordem e a decência na adoração da
igreja. Portanto, essa explicação se encaixaria muito bem.” (N. WRIGHT
2015)

Porque elas deviam perguntar aos seus maridos? Simplesmente


porque naquela época, a maioria das mulheres eram privadas de
educação formal e religiosa. Neste caso, Paulo queria que elas
aprendessem com seus maridos e que estes as ensinassem.
Semelhantemente à passagem de 1 Tm 2.12, Paulo quer que as
mulheres aprendam. Este é o momento de aprender. Talvez esta
seja mais uma das principais razões pelas quais há poucas
mulheres (comparadas aos homens) ensinando no Novo
Testamento. Naturalmente, haviam mulheres educadas como
Priscila e para estas, tais restrições não se aplicavam. Tendo em
vista que os esposos tinham mais educação, ficava sob sua
responsabilidade a tarefa de ensiná-las. Isto era algo revolucionário
para uma sociedade Patriarcal. Obviamente, Paulo está respeitando
os limites e estágios do conhecimento humano de sua época e ao
mesmo tempo quebrando alguns paradigmas. Levando em
consideração tudo isto, é perfeitamente compreensível quando
Paulo diz que num contexto de desordem desta natureza, é
vergonhoso para a mulher casada falar na congregação. As
mulheres casadas provavelmente conversavam e faziam perguntas
quando deveriam ouvir. Isto era um tipo de interrupção não
edificante e, portanto, vergonhosa.
E quanto à lei? Como já vimos, alguns complementaristas veem-
na como sendo uma menção da lei judaica escrita, isto é, a Torá, no
entanto, não existe esta lei no Antigo Testamento. Isto fez com que
alguns igualitaristas concluíssem que Paulo está fazendo uma
referência à lei judaica oral. No entanto, acredito que a lei greco-
romana e, portanto, gentílica, seja o ponto de Paulo aqui. Segundo
Catherine e Richard Kroeger:
“Como o comportamento das mulheres tendia a ser bem mais
descontrolado que o dos homens, essa legislação foi decretada tanto na
sociedade grega quanto na romana. De acordo com Vidas, de Plutarco,
Sólon, justamente com Epimênides (especialista em religião extática),
estabeleceu leis para refrear os excessos das mulheres nos cultos [...]
Apesar de os estudiosos bíblicos buscarem em vão essa lei na tradição
judaica, há evidências consideráveis de que toda tentativa legal visava
controlar o comportamento extático feminino na sociedade greco-romana
[...] Era importante para a igreja primitiva que o comportamento das
mulheres fosse irrepreensível e dentro da lei.” (MALCOM 2003, p. 77-78)

Assumindo esta interpretação, fica mais claro que Paulo não


está engessando as tradições judaicas ou querendo agradar os
judeus recém-convertidos, mas preservando a imagem feminina
para que não fossem consideradas como rebeldes no que diz
respeito à lei greco-romana em vigência. O apóstolo aprendeu com
Jesus que deveria quebrar alguns paradigmas sociais, mas não
todos, visto que o próprio tempo e a História humana se
encarregariam disso. Essa formatação estratégica coloca Paulo
como uma das mentes mais brilhantes do século I. Era o
autocontrole que Paulo desejava no culto coríntio. Desta forma, ele
era contra os excessos religiosos.
Outra possível motivação paulina é trazida por Kari Torjesen em
seu livro: A identidade feminina segundo Jesus. De acordo com ela,
Paulo queria estreitar os laços e afinidades conjugais dos casais
cristãos:
“Para nós, é difícil imaginar a relação superficial entre marido e mulher na
sociedade grega da época. A mulher raramente pensaria em falar sobre
religião com o marido. Para garantir que os filhos da mulher fossem do
marido, ela geralmente era confinada na ala feminina da casa. Era
considerada propriedade do marido e levá-la para sair em público era
julgado impróprio. (...) É possível que Paulo estivesse tentando incentivar
mais comunicação entre os cônjuges ao dizer às mulheres que fizessem
perguntas em casa. Infelizmente, Paulo não deixa suas razões explícitas.
Só podemos conjecturar que o apóstolo que escreveu 1 Coríntios 13
gostaria de ver comunicação amorosa entre marido e mulher,
principalmente quando as mulheres estavam ansiosas por aprender sobre
Jesus.” (MALCOM 2003, p. 78-79)

Neste caso, podemos aprender com esta passagem que nada


pode perturbar a ordem do culto. Se não for para edificação,
consolação e exortação, não deve ser encorajado. Sendo assim,
esse texto não é suficiente contra o ensino, a oração, a profecia, a
pregação e o pastorado feminino. O que fica é o princípio da ordem
e da decência.
Pois bem, depois de responder as principais objeções ao
pastorado feminino, chegamos à conclusão de que nenhuma delas
é de fato suficiente para ser contra. Desta forma, a última base para
o pastorado feminino seria o fato de que não existe nenhuma
passagem bíblica que proíba a mulher de pastorear.
Capítulo 05
Colocando os complementaristas em ‘maus
lençóis’.

Reservei esse espaço do nosso estudo para fazer uma pequena


provocação teológica à forma como os complementaristas
interpretam algumas passagens da Bíblia. Por exemplo,
normalmente se usa o argumento que Deus não quer mulheres na
liderança da igreja, pois passagens cujo assunto são instruções
para aqueles que aspiram o ministério, foram entregues numa
linguagem masculina ou aos homens. E além disso, (pensam eles)
as passagens bíblicas sempre se referem aos homens no ministério
de liderança da igreja, nunca às mulheres.
Pois bem, primeiro não é verdade que todas as instruções são
dadas a homens, nós temos o caso de 1 Tm 3.11 que fala de como
deve ser o perfil das diaconisas. Também não é verdade que não há
mulheres líderes na igreja primitiva. Como já vimos, nós temos Febe
(a diaconisa de Cencreia) e Júnia, a apóstola que se destacou entre
os apóstolos.
Segundo, o fato de a maioria das instruções estarem no
masculino ou serem dadas a homens, não indica que as mulheres
estão excluídas do ministério. É típico dos complementaristas
usarem passagens como a escolha dos 12 apóstolos (Mt 10; Lc 6) e
as recomendações dadas a homens de 1 Tm 3.1-3 para fortalecer
esse argumento. Eu gostaria sinceramente que essa manobra
hermenêutica também fosse aplicada a outras passagens da Bíblia.
Por exemplo, a grande comissão é dada a homens em Mt 28.16 e
em Mc 16. 15. Interessante que usamos esses textos para
vocacionar tanto homens quanto mulheres para a tarefa da
evangelização, mas esquecemo-nos que esses textos também
mencionam que os apóstolos deviam pregar o Evangelho, fazer
discípulos do mundo todo e batizá-los em águas. Certamente, o
complementarista jamais vai usar esse texto para excluir as
mulheres da evangelização, mas esse mesmo texto inclui outras
funções como a de discipular e batizar em águas (funções
pastorais). Então o complementarista precisa se decidir: ou permite
que a mulher não somente evangelize, mas também ensine e
realize ordenanças (batismo em águas e santa ceia), ou as exclui de
todos esses papéis. Tentar criar uma interpretação meio-termo,
onde as mulheres podem evangelizar, mas não pode realizar
trabalhos pastorais, é um tremendo de um tiro no pé e revela um
compromisso não com a hermenêutica séria, mas com suas
próprias crenças pessoais.
Por fim, negar papéis de liderança às mulheres simplesmente
por ter passagens direcionadas a homens é um erro lógico
conhecido como falácia da inferência negativa. Na prática funciona
assim: Já que Deus escolheu homens para a liderança da igreja,
isto significa dizer que ele não quer mulheres ocupando esse papel.
Outro exemplo de falácia da inferência negativa é cometido pelos
calvinistas que usam textos bíblicos para validar a doutrina da
expiação limitada. Pegam versículos que falam que Jesus morreu
por muitos Is 53: 11; Mt 26: 28; Mc 14: 24 e com isso dizem que
Jesus não morreu por todos e cada uma das pessoas. Um outro
exemplo seria o de cessacionistas que usam o texto de Hebreus 1.2
para afirmar que Deus não fala mais através de revelações do
Espírito Santo.
Os completamentaristas também dizem que a mulher não pode
ser pastora, porque uma das funções do Pastorado, é a de exercer
autoridade e trazer ensinamento para a Igreja (homens e mulheres)
e isso, é algo claramente proibido pelo apóstolo Paulo. Por outro
lado, eles afirmam que a mulher pode ensinar a outras mulheres e
às crianças.
No entanto, até mesmo o conceito de autoridade do apóstolo
Paulo, proposto por tais, põe em xeque também algumas funções
que as mulheres geralmente desempenham em igrejas de viés
confessional complementarista, como professoras de EBD e
dirigentes de adolescentes/jovens (mocidade).[131] Se é verdade que
a mulher não pode ensinar e exercer autoridade sobre o homem,
não seria incoerente colocá-las para ensinar e liderar adolescentes
e jovens do sexo masculino acima dos 12 anos? Claro que sim!
Para o judeu, o menino se tornava homem (atingia sua maturidade)
quando completava 12 anos. Isto significa dizer que se os
igualitaristas estão errados, os completamentaristas também estão.
A diferença é apenas de títulos! Os textos de Paulo se seguido à
risca da interpretação deles, coloca em xeque várias funções das
mulheres nessas igrejas.
Por último, geralmente, quem discorda de mulheres no ministério
ordenado, alega que embora haja no Novo Testamento várias
mulheres exercendo funções apostólicas, pastorais e diaconais, não
é o serviço que configura ou confere o título de um ministro, mas a
ordenação. O problema com esse tipo de interpretação, é que ela
mutila sem dó, algumas crenças dessas pessoas e revela que elas
mesmas usam desse tipo de argumentação apenas para objetar
mulheres no ministério, no entanto, não aplicam tal rigidez
dogmática quando se trata de analisar os ofícios masculinos na
Bíblia. Por exemplo, é comum tais pessoas acreditarem que o ofício
religioso de pastor é bíblico, mas na verdade, nenhum homem em
específico no Novo Testamento é chamado de pastor. O termo
grego “poimen” aparece no N.T relacionado a Cristo (1 Pedro 5.4,
Hb 13.20), como um dom em Efésios 4.11 e até mesmo como uma
função e tarefa dos presbíteros (1 Pedro 5.2), mas não como um
ofício eclesiástico. Então para aqueles que negam um ofício pastoral
feminino, mas aceitam sem dificuldade um masculino, isto se
constitui um problema de duplicidade de intepretação. É por isso
que quando dizem: “Não existe nenhuma mulher sendo chamada de
pastora no Novo Testamento”, eu respondo (ironizando): “Também
não há nenhum homem em específico sendo chamado de pastor...”
Como não estou preso a essa rigidez hermenêutica, posso afirmar
que homens como Timóteo era um pastor (mesmo nunca tendo sido
chamado de pastor, mas de cooperador/colaborador por Paulo (1
Tess 3.2; Rm 16.21), pois o título é consequência apenas do
trabalho que determinada pessoa (seja homem ou mulher
desenvolve). Mas quem discorda das mulheres no ministério
ordenado por conta desse fator que estamos abordando, não
deveria ensinar que o diaconato surgiu em Atos 6. 1-8, pois ali
sequer aparece o termo diácono como um ofício. Os sete varões
simplesmente receberam a missão de cuidar da distribuição diária
de comida e são apresentados aos apóstolos. Mas nada de titulação
está presente no texto. Por outro lado, embora o ofício de diácono
seja regulamentado em 1 Timóteo 3.8-12, umas das pessoas que é
titulada exercendo esse ofício é justamente uma mulher: Febe (Rm
16.2). Estas pessoas também deveriam deixar de chamar Lucas e
Marcos de Evangelistas só porque eles eram envolvidos com
missões. Tudo bem que eles pregavam o Evangelho, mas se o
raciocínio destas pessoas estiver correto, não posso chamá-los de
Evangelistas, pois o título não está presente no texto bíblico, mesmo
que eles exerçam essa função! Eu sinceramente gostaria de ver os
complementaristas criticando com a mesma veemência, outras
coisas como a ordenação de Evangelistas (neste caso, aquelas
igrejas que ordenam), a eleição de Pastores-Presidentes e a
construção de templos.[132] As referências bíblicas para a prática
dessas três coisas são estritamente escassas na Bíblia, no entanto,
tais pessoas estão conformadas e não se incomodam com elas.
Curioso, não?
Em outras igrejas, as mulheres não podem ser pastoras, mas
podem ser missionárias e fazem tudo que um pastor faz, a propósito
com muita eficácia. Elas pregam, discipulam, supervisionam, cuidam
da integridade dos seus membros e dentro de pouco tempo vêm um
homem e é ordenado no lugar dela. Isto é, elas fazem trabalhos
pastorais, mas não podem ser ordenadas. Isso não seria uma
inconsistência? Pois se o pastorado feminino é algo antibíblico,
porque permitir que mulheres façam trabalhos pastorais? Alguns
argumentam que estas mulheres estão debaixo da autoridade de
um homem e neste caso, não há problema algum. Mas por acaso, a
autoridade[133] de Deus sobre elas não lhes é suficiente?
Por último, se querem ser consistentes com a visão que
acreditam, precisam ser honestos consigo mesmo, com Deus, com
a Bíblia e com os outros!
Capítulo 06
Uma reflexão sobre a Carta Magna da
Humanidade

“Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher;
pois todos são um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28)
Paulo escreveu essa frase numa época onde mais da metade
da população era composta por escravos. Naqueles dias, os status
e os papéis das pessoas eram definidos pela etnia, sexo e classe
social. No entanto, neste texto, ele ensina que não é o nosso status
natural que nos define, mas o nosso renascimento espiritual em
Cristo. Isto significa dizer que estar em Cristo redefine não somente
o nosso status perante Deus, mais também redefine o nosso
relacionamento um com o outro. Essa Cristologia dá cor, sentido e
direção à nossa eclesiologia e ortopraxia. Ou seja, é algo que afeta
nossos relacionamentos a partir do momento que nos tornamos
novas criaturas. Eis aí o versículo de ouro do igualitarismo
evangélico! Nas palavras de Tim Peck:
“O pecado estragou a unidade, a igualdade e a afinidade entre homens
e mulheres, resultando em desunião e uma hierarquia de gênero em
que as mulheres eram unilateralmente subordinadas aos homens
(Gênesis 3:16). Por causa do ato redentor de Jesus, contudo, há
novamente a possibilidade real de igualdade, afinidade e harmonia entre
os sexos. Em Gálatas 3:28, e passagens semelhantes, recebemos “uma
visão redentora da vida comunitária”. [134]
Alguns teólogos complementaristas negam que esse texto
ensine igualdade e afirmam que o texto trata na verdade de
unidade. Bem, muito embora esteja ausente nesta declaração o
termo isotes (igualdade), está claro que o texto ensina isso. Paulo
não tem em mente a ideia de que em Cristo, as diferenças físicas
são obliteradas, mas sim as diferenças socialmente impostas. Isto é,
nossas diferenças materiais ou corporais permanecem como parte
da rica diversidade que Deus pretendia para a humanidade e são o
fundamento de uma igreja forte e vital, no entanto, a condição social
a qual os homens e as mulheres foram sujeitos desde a antiguidade
não são relevantes para Deus. Isto livra o igualitarismo da falsa
acusação de ensinar androginia.[135] Quando se trata de entrada,
filiação e relacionamento dentro da família de Deus, as distinções de
sexo são "irrelevantes". Elas não contam. Isso não quer dizer que as
pessoas que compõem a família de Deus sejam "sem sexo" (nem
hermafrodita ou andrógina).
Por outro lado, aqueles que negam que a igualdade bíblica
ensinada por Paulo tenha implicações e aplicações sociais, estão
desconsiderando o próprio contexto geral da carta aos Gálatas que
foi escrita justamente para corrigir um problema social: os cristãos
judeus x os cristãos gentios.[136] De acordo com Faith Martin,
algumas observações precisam ser feitas com relação à Epístola
aos Gálatas:
“1. Paulo está falando sobre mudança, mudança radical. Antes da vinda
de Cristo, os crentes estavam sujeitos à Lei; escravizado é a descrição
de Paulo de estar sob a lei. Agora, os crentes são adotados por
Deus. Nós somos Seus filhos e não somos mais escravos.
2. Esta passagem não está falando sobre um tempo futuro em que os
erros serão corrigidos, mas está pedindo ação no presente. “Mas agora
que a fé chegou, não estamos mais sujeitos a um disciplinador, pois em
Cristo Jesus todos vocês são filhos de Deus pela fé” (3: 25-26).
3. Paulo está exigindo mudanças no comportamento deles. Seu modo
de adoração deve corresponder à sua teologia. Os judeus e gentios
deveriam adorar juntos - como pessoas libertadas da lei. Tanto os
judeus quanto os gentios precisavam começar a "agir consistentemente
com a verdade do Evangelho". Os judeus deveriam adorar com os
gentios, e os gentios deveriam resistir à circuncisão. Paulo não está
pedindo um sínodo para encontrar e assinar uma declaração de
igualdade "espiritual". Ele não quer palavras; ele quer ação.
4. Paulo diz aos gentios que defendam sua própria liberdade em Cristo
e se recusem a ser circuncidados; embora tenham nascido como
gentios, eles têm direitos iguais aos cristãos judeus. "Se você pertence a
Cristo, então você é descendente de Abraão, herdeiro de acordo com a
promessa."
5. São os cristãos gentios - o grupo que está sendo discriminado - quem
Paulo repreende. Eles deveriam ter se mantido firmes em sua
liberdade. “Pela liberdade, Cristo nos libertou. Permaneça firme,
portanto, e não se submeta novamente a um jugo de escravidão” (5: 1).”
(MARTIN 1995)
Sem dúvida, Gálatas 3.28 deve nortear e clarear todas as
eventuais restrições de Paulo em seus escritos e não vice-versa.
Este é um argumento, inclusive do renomado F.F Bruce:
“Se forem encontradas restrições em outras partes do corpus paulino ...
elas devem ser entendidas em relação a Gal. 3:28, e não vice-
versa (Gálatas, p.190).”
Payne diz: “Este versículo não está apenas dizendo que
gentios, escravos e mulheres podem ser salvos. Todo mundo
aceitou isso. Paulo claramente pretendia através de 3:28 proibir a
exclusão de gentios como um grupo de qualquer privilégio ou
posição na igreja. Os judeus não apenas devem aceitar os gentios
crentes como membros da comunidade de fé, mas devem recebê-
los na mesa da comunhão. Eles devem tratá-los como iguais e não
devem cometer discriminação contra eles.”[137]
Os escritos de Paulo não separam a teologia da ética, sendo
assim, é presumivelmente certo que não devemos interpretar essa
passagem somente como um indicativo de nossa iniciação à
dimensão de Cristo, mas também como um paradigma para todos e
cada um dos salvos. Nas palavras de Margaret Mowczko:
“Gálatas 3:28 é mais do que apenas uma maravilhosa declaração
teológica. É também uma poderosa declaração sociológica. A igualdade
e a unidade de Gálatas 3:28 é o que a igreja deve aspirar. É isso que
aspiro.”[138]
Eu também! Por isso creio que as mulheres podem ser
ministras ordenadas porque creio que o Evangelho não as exclui
desta benção e dádiva. Negar que esta é uma implicação e
aplicação direta desse texto é querer limitar a meta-ética paulina.
Não nos esqueçamos que esse texto foi o carro-chefe usado
por grandes teólogos do passado como John Wesley para a luta
contra a escravidão!
Em última instância, assim como John Wesley, me sinto
convocado para ser agente de mudança na consciência das
pessoas e na sociedade, promovendo um espaço onde todos
(igualmente) possam usufruir dos mesmos espaços e oportunidades
na igreja, na medida em que são chamados pelo próprio Cristo!
Conclusão:

Depois de todas essas evidências bíblicas, não resta dúvidas de


que não existe nenhum motivo escriturístico claro e objetivo para a
não ordenação das mulheres ao pastorado, assim como a vários
outros cargos femininos na igreja. Porém, esse não é o único ponto:
além disso, a Bíblia está repleta de fundamentação segura de que
homens e mulheres são iguais perante Deus, e que as mulheres
estão aptas para o exercício da liderança em papéis sociais e
religiosos. Ela também está recheada de referências
Veterotestamentárias e Neotestamentárias que dão voz e vez às
mulheres na liderança do povo de Deus (o pastorado é parte desse
detalhe). Espero que este pequeno trabalho introdutório tenha
esclarecido uma grande gama das questões referentes ao tema, e
caso no futuro seja identificado algum erro ou aperfeiçoamento da
posição, sem dúvida, farei questão de expô-la nas próximas
edições. Afinal, a Bíblia é inerrante, este livro não! Que Deus
abençoe a todos!
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[1] Há vários desafios ao se falar sobre esse assunto. O primeiro e o mais


difícil deles, é o de desconstruir alguns espantalhos acerca do tema. Um
segundo, seria conseguir um pouco de atenção de quem discorda, a fim de
iniciar um diálogo. É muito difícil ser ouvido por uma pessoa que já tem uma
opinião formada. Porém, o mais triste disso, é quando essa opinião não se
permite ser questionada. Uma vez conquistada a atenção da pessoa, os
desafios são outros, como: mostrar a necessidade de falar sobre o tema ou
tratar a “coisa” como um não-modismo. Além das dificuldades
Bíblicas/hermenêuticas, há também as históricas e teológicas. Isto porque, há
uma gama de teólogos Pentecostais e Reformados que também defendem
essa visão, sendo que são desconhecidas.

[2] Uma parcela é contra, por razões aparentemente bíblicas. As demais


podem esconder questões institucionais (a igreja ao qual ela pertence não
ordena), machismo (não aceitaria jamais ser liderado por uma mulher),
ignorância (nunca estudou o assunto à fundo), experiência (se baseia em
argumentos históricos ou circunstanciais para não ser a favor do pastorado
feminino).
[3] Isto significa dizer que se quisermos entender se a mulher pode ou não ser
pastora, temos primeiro que compreender uma questão muito maior: ela pode
ser líder assim como o homem?
[4] https://biblehub.com/parallel/genesis/1-28.htm. Acesso: 26/10/19
[5] https://biblehub.com/parallel/genesis/1-28.htm. Acesso: 26/10/19
[6] Segundo o anglicano Kevin Giles: “Exatamente o que se quer dizer com a
afirmação de que o homem e a mulher são feitos à “imagem (tselem) e
semelhança (demute) de Deus” despertaram muitos debates. É uma
afirmação especialmente ousada à luz da proibição do AT de criar
imagens. As imagens foram banidas porque, para fazer uma imagem de
Deus, identificamos o Criador com a criação (Êx 20: 1–4). A visão mais
amplamente apoiada é que dizer que homem e mulher são feitos à imagem e
semelhança de Deus indica que eles receberam domínio ou senhorio sobre o
mundo. Juntos, eles foram criados para exercer o governo de Deus como
seus vice regentes. Essa interpretação é sugerida não apenas pelos antigos
paralelos do Oriente Médio, nos quais uma imagem do rei representa seu
domínio ,mas também porque imediatamente após afirmar que o homem e a
mulher são feitos à imagem e semelhança de Deus, Deus lhes dá domínio
(radah) sobre todas as criaturas vivas (1:26), ordenando que eles governem
(kabash) sobre toda a terra (1 : 28). Observe que, em vez de se diferenciar
em autoridade, o Criador concede ao homem e à mulher a mesma
autoridade. Um não domina sobre o outro. Eles governam conjuntamente.”
(GILES 2014)

[7] A ideia ou o conceito de que um ajudante é necessariamente alguém


subordinado é puramente pós-moderna. Se pararmos para refletir, um
ajudante pode ser alguém superior, igual ou até mesmo subordinado. O que
vai determinar o significado mais apropriado deve ser o contexto. No caso de
Gênesis, o que fica claro é que Adão precisava de um ajudante que lhe fosse
equivalente (lhe correspondesse/lhe fosse adequado). Para você ter ideia, o
termo “Ezer” também é aplicado a Deus como nosso ajudador em outras
partes das Escrituras e nem por isso, dizemos que ele é inferior ou
subordinado ao homem (cf. (Sal. 10:14, 30:10, 54: 4, 70: 5, 72:12, 121: 2).
Então no lugar de apoiar o argumento que Eva era alguém inferior ou
subordinada à Adão, o texto na verdade aponta para a ideia de que Eva tinha
força e poder e foi colocada face a face diante de Adão para liderar
conjuntamente com ele.

[8] “As palavras ‘carne da minha carne’ refletem ideias bíblicas de parentesco,
status compartilhado.” (GILES 2014)

[9] Ou seja, ambos estão entrelaçados e são dependentes um ao outro.


[10] À esta altura do campeonato, vale lembrar que ambos receberam a
incumbência de governar a criação, não uns aos outros, nem o homem
governar sobre a mulher, como sugerem os complementaristas.

[11] Lembremo-nos de que muitos personagens nas Escrituras, exercem a


liderança e autoridade mesmo não tendo sido os primeiros a nascerem (cf.
Isaque sobre Ismael (Gen. 21), Jacó sobre Esaú (Gen. 27), Raquel sobre
Léia (Gênesis 29), Efraim sobre Manassés (Gênesis 48), José sobre seus
irmãos (Gênesis 37) e Davi sobre seus irmãos (1 Sam. 17).

[12] “Não há nada no texto que sugira que o homem, por ter sido criado
primeiro, seja o líder. Se seguirmos essa lógica, teríamos que dizer que as
plantas e os animais devem ter autoridade sobre os seres humanos, ou que o
pó da terra deve ser uma autoridade sobre Adão. A derivação não requer
subordinação, nem a existência anterior implica autoridade.” (YONG
2009)

[13] Lembre-se que Adão não foi enganado por Eva (1 Tm 2.13,14), o que nos
ensina que ele obedeceu de prontidão, de livre e espontânea vontade. A
relação do casal era mútua, não hierárquica.
[14]
[15] “... Nada no relato da criação em Gênesis concede ao homem prioridade
em status ou autoridade sobre a mulher, mas por toda parte enfatiza sua
igualdade. Deus faz a mulher da costela do homem, e o homem reconhece:
“Agora ela é osso dos meus ossos e carne da minha carne” (2:23), porque
eles compartilham a mesma substância (2: 21–23). “Pai e mãe” são
identificados sem distinção hierárquica (2:24). No casamento, eles são
"unidos" e "uma só carne" (2:24). Ambos estão nus e não sentem
vergonha; eles compartilham inocência moral (2:25). Juntos, eles enfrentam
tentações e desobedecem à ordem de Deus (3: 6). Ambos percebem que
estão nus e costuram coberturas (3: 7). Ambos se escondem de Deus (3: 8),
mostrando que ambos tinham vergonha de terem desobedecido a
Deus. Ambos são culpados (3: 12–13). Deus fala diretamente a ambos,
anunciando consequências específicas de seus pecados (3: 9–13, 16–
19). Ambos são responsáveis por seus próprios atos. Assim, Gen 2–3 retrata
a igualdade de gênero, não uma “ordem de criação” que concede aos homens
autoridade sobre as mulheres.” (PAYNE, The Bible Teaches the Equal
Standing of Man and Woman 2015)
[16] “Observe com atenção: esta é a primeira e única vez em Gênesis 1–3 em
que a subordinação das mulheres é mencionada e apresentada como uma
consequência do pecado. Isso não é bom; não é a criação ideal.” (GILES
2014)

[17] “Visto que o domínio do homem sobre a mulher é em si um resultado da


queda, o homem não deve ter governado a mulher antes da queda.” (PAYNE,
The Bible Teaches the Equal Standing of Man and Woman 2015)

[18] Gênesis 3:16 diz: “com dor, você dará à luz.” Não diz: “com dor,
você deve ter filhos.” A distinção também existe no hebraico. Esta é
uma afirmação imperfeita, não um imperativo. Isso significa que Deus está
falando do que vai acontecer ou está acontecendo, não do que idealmente
deveria acontecer. Assim como essa clausura não é um imperativo, as demais
no versículo também não são.

[19] Segundo Stanley Grenz: “Ela o levou ao cativeiro que trouxe uma solidão
mais profunda - alienação de Deus, um ao outro e criação. (...) A hierarquia
entre os sexos é um resultado da Queda, na qual Eva caiu primeiro no
pecado. A última criação de Deus é a primeira a transgredir e, portanto, agora
será governada por quem a seguiu em pecado. Mas somente com a
transgressão de Adão é que a Queda da humanidade está completa” (GRENZ
1995, p. 169)

[20] “Em nenhum momento do relato da criação Deus concede ao homem


autoridade ou um papel de liderança especial sobre a mulher. Não seria este
o momento perfeito para dar tais mandamentos? Deus disse diretamente ao
homem e à mulher que eles teriam uma participação no domínio sobre a terra
e suas criaturas (Gênesis 1: 26–30). Se Deus pretendia que o homem fosse a
autoridade sobre a mulher, Deus não teria declarado isso diretamente da
mesma maneira? A primeira menção de um cônjuge governando sobre outro
só ocorre como consequência do pecado em Gênesis 3:16. Mas, no começo,
o foco do casamento é a união e o relacionamento unilateral dos dois.”
(YONG 2009)

[21] A única diferença entre ambos é no que diz respeito ao sexo (fator
biológico). O igualitarismo bíblico preserva a identidade biológica tanto do
homem quanto da mulher, de modo que macho continua sendo macho. O
mesmo ocorre com a fêmea. A diferenciação sexual não é um papel aberto à
mudança. A igualdade é uma realidade somente nos relacionamentos
interpessoais, sociais, religiosos e matrimoniais.
[22] Lembrando que a expressão: ‘ajudadora/auxiliadora adequada’ ganha a
conotação de alguém que é "uma força à sua frente", ou seja, "uma força
correspondente a ele".
[23] Como diz o teólogo reformado Pratt: “Um grande número de
características da cultura do Antigo Testamento foi resultado de diversidade
cultural. Os crentes do Antigo Testamento muitas vezes respondiam a Deus
de formas que eram costumeiras para sua época, consequentemente, não
havia a intenção de que suas práticas fossem consideradas normativas para
todos os crentes.” (PRATT 2004, p. 401)

[24] O patriarcado é o resultado de restrições experimentadas


pelas famílias após a expulsão da humanidade do Jardim do Éden.

[25] Quando Deus comunicou Sua revelação aos povos específicos em suas
situações históricas, ele se acomodou divinamente a eles através dos gêneros
da literatura e nas várias situações culturais em que Sua palavra foi dada.
Portanto, para entender a verdade de Deus para o nosso tempo, precisamos
investigar toda a Bíblia e não somente uma parte dela. Essa tarefa é chamada
de hermenêutica de desenvolvimento das Escrituras.

[26] "Hegemonia" (hegeomai) é usada no Antigo Testamento (LXX) e no grego


clássico, e ocasionalmente no Novo Testamento. O significado da palavra
centra-se na ideia de liderar ou orientar com uma atitude de dominação ou
preponderância de alguma coisa sobre outra.

[27] Segundo Vaun Swanson: “Jesus nos ensinou que a estrutura de poder do
reino de Deus é o inverso do que é encontrado no mundo. Quando
perguntado por seus discípulos quem seria o maior no reino dos céus, ele
apontou para uma criança (Mt 18). Quando os professores de direito religioso
perguntaram a Jesus qual era o mandamento mais importante, ele respondeu:
"O Senhor nosso Deus é o único Senhor" (Marcos 12:29, NLT). Quando os
discípulos começaram a discutir sobre quem seria o maior dentre eles, Jesus
respondeu: "Neste mundo, os reis e os grandes homens dominam o povo
sobre o seu povo ... mas entre vocês será diferente. Aqueles que são os
melhores entre vocês, deve ocupar a posição mais baixa, e o líder deve ser
como um servo "(Lucas 22: 25-26, NLT). O patriarcado e a liderança servil são
mutuamente exclusivos. O patriarcado é um sistema construído sobre
dominação e subordinação e sempre tem um impacto negativo nas mulheres,
crianças e homens marginalizados.” (SWANSON 2011)
[28] Os vários versículos do Novo Testamento sobre os patriarcas citados no
início remetem ao antigo patriarcado religioso hebraico que foi acomodado
com o patriarcado cultural / social das nações pagãs.

[29] O mesmo pode ser dito sobre o divórcio que inclusive é legislado na Torá,
mas que, todavia, não fazia parte do ideal divino para o matrimônio (veja Mt
19; Mc 10)

[30] De acordo com o autor reformado Richard L. Pratt, Jr: “Não devemos
jamais confundir os costumes do Antigo Testamento com indicações da
vontade de Deus, mas sim, perguntar sempre se os mesmos tinham
aprovação divina (...) Muitos costumes que aparecem no Antigo Testamento
não estavam de acordo com a vontade de Deus. (...) As histórias do Antigo
Testamento relatam várias dimensões culturais dos tempos de Israel, algumas
delas conformes à vontade de Deus e outras contrárias a ela.” (PRATT 2004,
p. 398-399)

[31] Já vi pessoas argumentando da seguinte forma: “Deus é a representação


mais perfeita da liderança. Ele também é descrito nas Escrituras com
caracteres masculinos, portanto, a liderança humana deve seguir esse
padrão. Somente homens podem liderar.” No entanto, esse tipo de argumento
é falacioso. De acordo com a Doutora Haddad: “Embora Jesus chamasse
Deus de “Pai”, era entendido nos dias de Jesus que eram os pais que
transmitiam herança, proteção e identidade aos filhos (...) Cristo também
chamou Deus Abba, ou "Papai", como uma maneira de expressar não apenas
intimidade e confiança, mas também direitos de primogenitura. Como toda
linguagem usada para Deus, "Pai" e Abba nos ajudam a entender um
princípio espiritual ou eterno: que, assim como Cristo é filho de Deus, em
Cristo também somos herdeiros do reino de Deus, um ponto que Paulo
enfatiza em Gálatas 3: 27- 29. As Escrituras falam de Deus não apenas
através da linguagem paterna, mas também através de uma variedade de
metáforas, algumas masculinas, outras femininas e outras sem gênero. Deus
é chamado de "rocha, fortaleza e escudo" (Dt. 32:18; Sl. 18: 2); como "Luz" (Sl
27: 1); "Traça" e "podridão" (Os 5:12); “Leão, leopardo e urso” (Os 13: 6-
8); "Sombra" (Sl 121: 5); e "pastor" (Isaías 40:11). Cada metáfora tem
qualidades distintas de "é" e "não é". Por exemplo, o amor de Deus é
ferozmente protetor como uma mãe ursa (Os. 13: 8). No entanto, Deus não é
como uma mãe ursa em todos os aspectos. Deus não é um mamífero. Da
mesma forma, as Escrituras descrevem Deus como um “pássaro-mãe” (Rute
2:12, Sal. 17: 8, Mat. 23:37), protegendo e abrigando seus filhotes. Claro,
Deus não é um pássaro mãe. Pelo contrário, a natureza de Deus é maternal,
educadora e ferozmente protetora. Deus também é imaginado como uma mãe
humana (Jó 38:29, Isa. 46: 3-4, Os. 11: 3-4) e como parteira (Sl 22: 9), porque
nós, como cristãos, nascemos de Deus, e Deus continua a amar e a instruir-
nos com uma proteção materna por toda a vida. Jesus também descreveu
Deus em imagens femininas - como uma mulher assando pão (Lucas 13: 20–
21) ou como uma mulher varrendo o chão (Lucas 15: 8-9) - mas isso não foi
para transmitir o gênero como um atributo do ser de Deus ou sugerir que as
fêmeas são mais parecidas com Deus do que os machos. Antes, essas
metáforas ilustram o momento do reino de Deus e também a tenacidade de
Deus em nosso favor. Cada uma dessas metáforas também possui
qualidades de "é" e "não é". Curiosamente, no entanto, em hebraico, o
Espírito Santo é um substantivo feminino e é frequentemente associado ao
processo de nascimento (João 3: 5; cf. João 1:13, 1 João 4: 7, 5: 1, 5:18). Por
esse motivo, a igreja siríaca se refere ao Espírito Santo como “mãe”. Além
disso, a raiz do nome El Shaddai (Gên. 17: 1; 28: 3; 35:11; 43:14; 48: 3; 49:25)
também pode significar “peito”, que enfatiza a nutrição e o sustento de
Deus. Significativamente, a auto nomeação de Deus nas Escrituras é “EU
SOU QUEM EU SOU” (Ex. 3:14) - um nome sem gênero. Não podemos
atribuir gênero a Deus porque o gênero faz parte do mundo criado. Embora
Deus seja auto revelado em termos que possamos entender por meio de
nossas próprias experiências, não devemos tornar essas metáforas - essas
comparações implícitas - como absolutas. Quando o fazemos, estamos
criando Deus à nossa imagem, seja homem ou mulher. As Escrituras
advertem contra a criação de Deus em imagens terrenas (Êx 20: 4). Oséias
11: 9 diz: “Eu sou Deus, e não um ser humano.” “Portanto, observe-se com
muito cuidado, para que você não se torne corrupto e faça para si um ídolo,
uma imagem de qualquer forma, formada como homem ou uma mulher, ou
como qualquer animal na terra ou qualquer pássaro que voe no ar ...” (Dt 4:
15–17). Deus não é mulher nem homem, e é idolatria sugerir o
contrário. Deus não é limitado por gênero, porque Deus é espírito (João
4:24).” (HADDAD, President's Message: Is God Male? 2012)

[32] Não somente Deus, mas também os seres celestiais como os anjos que
são descritos majoritariamente com características masculinas.

[33] Mesmo numa cultura Patriarcal, de forma incomum e menos frequente,


encontramos Deus sendo também retratado com caracteres femininos.
Exemplos de imagens femininas para Deus seriam Deuteronômio 32:11,
Salmo 90: 2 (Deus "dá à luz" ao mundo - o verbo hebraico é usado para
mulheres em trabalho de parto), Isaías 66: 10-13, Mateus 23:37, e Lucas 15:
8-10. No paganismo havia divindades femininas, embora as masculinas
tenham sido mais recorrentes.

[34] Clement of Alexandria, “Who Is the Rich Person Who Is Being Saved?,”
pag. 37; in Clement of Alexandria, Loeb Classical Library, ed. G. W.
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[35] Em um artigo intitulado “O Lado Feminino de Deus”, o Doutor, Professor e


Pastor Carlos Augusto Vailatti explica: “Uma das mais belas palavras da Bíblia
é a palavra "misericórdia". Essa palavra, em hebraico, é derivada do
substantivo rahamim, "misericórdia, compaixão". Acontece que a
palavra rahamim é derivada de outra palavra, réhem, que significa "útero". E a
palavra réhem, por sua vez, vem de uma raiz hebraica que significa "proteger
do perigo". Então, quando a Bíblia fala sobre a "misericórdia" divina (por
exemplo, em: Gn 43:14; Êx 33:19; Dt 13:17; 1 Rs 8:50; Jr 42:12 etc), ela está
retratando a Deus como se Ele fosse uma mulher! É isso mesmo! Assim como
uma mulher, quando está grávida, age com compaixão e amor para com o
seu filho e o protege de todos os perigos externos através do maravilhoso
abrigo do seu útero, da mesma forma a Bíblia emprega essa linguagem
uterina-feminina-maternal para descrever o sentimento de misericórdia e de
verdadeiro amor que Deus tem por cada um de nós, seres humanos. Sendo
assim, embora Deus seja um Ser espiritual e, portanto, assexuado (João
4:24), contudo, não há como não ficar maravilhado diante desse Seu
magnífico "lado feminino"! Belíssima metáfora essa, não?!” (VAILATTI 2013)
Veja também Isaías 42:14 e Isaías 66: 12–13.

[36] Deixo aqui um trecho de uma postagem do Pastor e teólogo assembleiano


César Moisés Carvalho: “Jesus é bem claro ao dizer que “Deus é Espírito” (Jo
4.24). No excelente Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento,
publicado pela CPAD há 16 anos, comentando o texto de Tiago 1.17, 18,
Timothy B. Cargal, diz o seguinte: ‘Tendo em vista que, nos últimos anos,
muito mais ‘calor’ do que ‘luz’ tem sido lançado sobre a questão dos nomes
específicos dos gêneros e das metáforas de Deus, seria importante parar por
um momento e analisar as imagens que Tiago emprega nos versos 17 e 18.
Começa referindo-se a Deus como ‘O Pai das luzes’ usando a imagem
masculina do pai que se tornou o nome cristão para a primeira pessoa da
Trindade, Deus ‘o Pai’. Sem muito esforço, Tiago se transporta para uma
imagem feminina de Deus, quando fala da escolha de Deus de ‘nos gerar’
usando uma palavra grega (apokueo) tipicamente empregada ao descrever o
processo do parto e do nascimento (cf. 1.18). Assim sendo, nesses versos a
linguagem de Tiago representa Deus metaforicamente, tanto como pai quanto
como mãe. “A conclusão a ser tirada dessa passagem não é que a natureza
de Deus seja uma espécie de mistura andrógena de homem e mulher, mas
que ambas as imagens masculinas e femininas de Deus nas Escrituras (e
existem inúmeras de ambas) representam metáforas que descrevem a
pessoa de Deus de maneira que os homens sejam capazes de entendê-lo. A
distinção dos gêneros tende a ser fundamental ao nosso conceito de ‘pessoa’,
pelo menos nas culturas ocidentais. Observe que, por exemplo no idioma
inglês (no português isto não ocorre), a discussão a respeito de se poder fazer
referência ao Espírito Santo utilizando o gênero neutro, como se Ele não
fosse uma pessoa, é recusada por muitos porque o pronome neutro tem uma
nuança fortemente ‘impessoal’ e, definitivamente, o Espírito Santo é uma
pessoa. Porém, nem a ‘masculinidade’, nem a ‘feminilidade’, são propriedades
de Deus, e as Escrituras nos lembram que Ele transcende essas qualidades
da existência humana, empregando imagens masculinas e femininas para
revelar-se a nós” [p. 1667]
[37] Isaías prevê um tempo em que isso finalmente será cumprido (cf Is 61.6)

[38] O sumo sacerdócio de Cristo e o sacerdócio geral de todos os crentes


substituíram claramente o sacerdócio arônico exclusivo do Antigo
Testamento. Assim, a exclusão de mulheres de servir como sacerdotisas sob
a Antiga Aliança não é mais relevante na era mais abrangente da Nova
Aliança.
[39] “Os rabinos identificam Miriã com Puá, uma das duas
parteiras hebreias (Sifrá e Puá) que serviram aos israelitas durante a
escravidão egípcia. Por que ela foi chamada de "Puá"? Porque ela apareceu
(hofi'a) com boas ações para Israel. (...) Outra explicação do nome dela diz
respeito ao seu comportamento em relação ao faraó. Quando ouviu o decreto
real, ficou insolente (hofi'ah panim) em relação ao faraó e olhou para ele. Ela
lhe disse: “Ai de você no dia do julgamento, quando Deus exigirá punição de
você.” O faraó imediatamente ficou furioso com ela e queria matá-la. Ela foi
salva graças à mãe, que o aplacou e lhe disse: “Você a observa? Ela é um
bebê e nada sabe” (Ex. Rabbah, loc. Cit.). Outra explicação do nome dela
está relacionada ao nascimento de Moisés. Puah (= Miriam) clamava (poá)
com inspiração divina e dizia: “Minha mãe dará à luz um filho que salvará
Israel” (BT Sotah11b). Em outro relato exegético, ela foi chamada de Puá por
causa de sua insolência, que - nesta representação - foi dirigida contra seu
pai Arão, em protesto contra a abstinência de sua esposa quando o faraó
ordenou que os meninos israelitas fossem lançados no Nilo (Êx. Rabbah loc.
Cit.). Outra tradição etimológica explica que ela recebeu esse nome porque
gritou (poá) e chorou por seu irmão Moisés quando ele foi lançado no rio
(Sifrei, Números, 78). (MEIR 2009)

[40] Baraque era o general do exército hebreu. “Baraque foi escolhido para
liderar as tropas de Israel na batalha contra a coalizão cananéia que
ameaçava seriamente sua região. Então, por que escolher Baraque? Talvez
fosse porque sua reputação local lhe permitisse reunir um exército de 10.000
guerreiros em pouco tempo. Ou pode ter sido porque ele conhecia bem a
região da Galiléia, onde a batalha ocorreria e poderia planejar a estratégia
militar específica a partir do ponto de vista local, no alto do
Monte Tabor. Débora ministrou na região central da colina e provavelmente
não estaria familiarizada com o terreno da Galiléia. Certamente, a força física
de Baraque como homem o tornaria mais adequado para o combate corpo a
corpo exigido contra o general cananeu Sísera e seus 900 carros de ferro.”
(PIERCE, Barak: A Faith Hall-of-Famer who Followed a Women's Lead 2006)

[41] “Em Jz 5: 3–5, Débora implicitamente lembra o grande evento redentor de


Israel quando o Senhor os livrou da escravidão egípcia por meio de Moisés
(Êx 1–18). O padrão de Juízes 4-5 de uma história de conflito militar anterior
a uma canção de louvor da vitória, reflete a história do Êxodo (Êx 14) anterior
à canção da vitória de Moisés acompanhada por Israel (Êx 15). Além disso, as
imagens de Javé saindo de Seir e marchando de Edom (Jz 5: 4) lembram o
fim das peregrinações no deserto de Israel após o Êxodo (Dt 33:
2). Finalmente, a terra e as montanhas tremendo (Juízes 5: 4) - especialmente
a menção explícita ao abalo do Monte Sinai na presença de Yahweh com
Moisés (Jz 5: 5) - lembre o leitor do primeiro encontro de Moisés com Deus
depois de chegar ao Monte Sinai (Êx 19:18, cf. Ag 2:21, Hb 12:26). Ao
vincular seu cântico ao de Moisés, Débora se identifica conscientemente com
o primeiro e maior juiz de Israel, que deu as instruções iniciais para nomear
outros juízes (Êx 18: 13–23, Dt 16: 18–20, 34:10). Essa alusão, juntamente
com a localização de Débora entre Ramá e Betel (Juízes 4: 5, cf. 1 Sm 7: 15-
16, 8: 4), coloca-a estrategicamente entre Moisés e Samuel - dois profetas e
juízes de importância crítica que serviram bem a Israel nas suas respectivas
épocas.” (PIERCE 2018)

[42] “Por que esse homem de fé insiste em ter Débora junto com sua
missão? O texto nos dá a pista: ela é uma profetisa de Deus que pode
fornecer conselhos militares de inspiração divina se for necessária uma
decisão de campo no calor da batalha (compare com o rei Josafá e o profeta
Micaías em 1 Reis 22: 1–28; 2 Crô. 18: 4-27).” (PIERCE 2006)
[43] Pesikta Rabbati, cap. 26
[44] Muitos homens no Antigo Testamento seguiram conselhos e orientações
das mulheres, e não consideraram isso uma afronta humilhante ou um
castigo. Dois espiões israelitas seguiram as instruções que Raabe lhes deu,
por carta, e eles escaparam de serem pegos pelos homens do rei de Jericó
(Josué 2:16, 22). Baraque, um general do exército, tomou instruções de
Débora (Juízes 4: 6,8). Davi acatou e elogiou os conselhos e as palavras
proféticas diplomaticamente e corajosamente dadas por Abigail (1 Sam 25:
23-31). Joabe, general de Davi, concordou com as negociações oferecidas
pela Mulher Sábia de Bete-Maaca em nome de sua cidade (2 Sam. 20: 15-
22). Salomão curvou-se para sua mãe Bate - Seba e deu-lhe um trono à sua
mão direita, tornando-a uma mulher poderosa, embora não tão poderosa
quanto ele (1 Reis 2:19). O rei Lemuel respeitou os oráculos ensinados a ele
por sua mãe e os registrou. Suas palavras ainda instruem (Pv 31: 1-9). O rei
Josias procurou o conselho e seguiu as instruções da profetisa Hulda (2 Reis
22: 8-20; 23: 1-25; 2 Crônicas 34: 19-33). Mardoqueu e outros cumpriram
todas as instruções de sua sobrinha Ester, a rainha de Xerxes (Est. 4:17).
[45] Jesus se dirigia regularmente às mulheres diretamente em público. Isso
era incomum para um homem judeu fazer (João 4:27). Os discípulos ficaram
surpresos ao ver Jesus conversando com a mulher samaritana no poço de
Sicar (João 4: 7-26). Ele também falou livremente com a mulher apanhada em
adultério (João 8: 10-11). Lucas, que dá ampla atenção às mulheres em seu
Evangelho, observa que Jesus falou publicamente com a viúva de Naim
(Lucas 7: 12–13), a mulher com distúrbio hemorrágico (Lucas 8:48; cf. Mt 9:
22; Marcos 5:34) e uma mulher que o chamou de uma multidão (Lucas 11:
27–28). Da mesma forma, Jesus dirigiu-se a uma mulher encurvada por
dezoito anos (Lucas 13:12) e a um grupo de mulheres na trajetória para a cruz
(Lucas 23: 27-31; João 4:27).

[46] “Jesus se recusou a tratar as mulheres como inferiores. Dada a visão


cultural decididamente negativa das mulheres no tempo de Jesus, os
escritores do Evangelho atestam que Jesus tratou as mulheres com respeito,
frequentemente respondendo de maneiras que rejeitam as normas
culturais. Ele reconheceu sua dignidade, seus desejos e seus dons. Jesus,
por exemplo, falou com as mulheres em público. Ele dá um passo à frente na
multidão de enlutados para falar com a viúva de Naim e chamar o seu filho de
volta à vida (Lucas 7: 11-17). Ele curou uma mulher aleijada por 18 anos,
colocando as mãos nela no templo e dizendo: “Mulher, você está liberta de
sua enfermidade” (Lucas 13:12). Quando o líder da sinagoga ficou indignado
por Jesus ter curado uma mulher no sábado, Jesus usou um título de
dignidade particular para ela, “filha de Abraão” (Lucas 13:16). Enquanto a
expressão “filho de Abraão” era frequentemente usada para indicar que um
judeu era reconhecido como vinculado à aliança com Deus, as mulheres
nunca haviam sido chamadas de “filhas de Abraão”. Com esse título, Jesus
reconhece essa mulher como tendo valor igual. Em João 4: 4-42, Jesus
ignorou dois códigos de comportamento. Ele iniciou uma conversa com um
estrangeiro, um samaritano. Além disso, esse estrangeiro também é uma
mulher. Sua surpresa está incluída na narrativa: “Como você, judeu, pode me
pedir, uma mulher samaritana, para tomar uma bebida?” (João 4: 9). Jesus
não apenas falou com ela, mas também entrou em um diálogo prolongado,
um diálogo que reconhece e honra sua sede de verdade religiosa. Por fim, ele
revelou sua identidade como o Messias. Quando seus discípulos retornam,
ficam claramente inquietos com o comportamento de Jesus. João inclui as
perguntas que eles têm medo de verbalizar: “O que você está
procurando? Por que você está falando com ela?” (João 4:27). O escritor do
Evangelho não hesita em concluir a história com um comentário que, embora
no pensamento judeu o testemunho de uma mulher não fosse digno de
confiança, aqui as palavras entusiasmadas da mulher samaritana são ouvidas
e postas em prática. “Muitos samaritanos daquela cidade começaram a
acreditar nele por causa da palavra da mulher que testemunhou em seu nome
(João 4:39).” (LEONHARD s.d.)
[47] “Jesus ultrapassou os limites esperados entre homens e mulheres ao
aceitar as mulheres como discípulas. Ao contrário dos rabinos de seus dias,
Jesus ensinou as mulheres sobre as Escrituras e seu modo de amar. Mateus
fala da mãe e dos irmãos de Jesus pedindo para falar com ele. “Ele
respondeu: 'Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos? E estendendo a
mão para os discípulos, ele disse: 'Aqui estão minha mãe e meus irmãos'”
(Mateus 12: 46-50). Seu uso de palavras masculinas e femininas indica
claramente que alguns de seus discípulos eram mulheres. A história familiar
de Marta e Maria em Lucas 10: 38-42 destaca a aceitação e a bênção de
Jesus do desejo de Maria de aprender. Ela é descrita como alguém que
“sentou-se ao lado do Senhor aos seus pés, ouvindo-o falar” (Lucas
10:39). Esta é a posição típica do discípulo masculino. Sentar-se aos pés de
um rabino significava que uma pessoa era um de seus discípulos. Marta, por
outro lado, assume o papel esperado da mulher de oferecer
hospitalidade. Talvez ela própria ache impróprio que Maria aja como
discípula. Independentemente disso, Jesus não privará Maria de sua
oportunidade. “Maria escolheu a melhor parte e não lhe será tirada” (Lucas
10:42). De particular interesse é o fato de que Jesus não apenas ensinou
mulheres, mas algumas mulheres viajaram com ele e ministraram a ele. Em
Lucas 8: 1-3, Jesus é descrito como alguém que fazia jornada de vila em vila,
pregando e proclamando o Reino de Deus. "Os Doze" estavam com ele e
várias mulheres: "Maria, chamada Madalena, de quem vários demônios
haviam saído, Joana, esposa do mordomo de Herodes, Cuza, Susana, e
muitas outras que os sustentavam com seus recursos". Marcos também diz
das mulheres presentes na crucificação de Jesus: “Essas mulheres o
seguiram quando ele estava na Galiléia e ministraram a ele” (15:41). Esta
imagem de mulheres discípulas é surpreendente, dado que as mulheres
judias da época não deviam aprender as Escrituras nem mesmo deixar suas
casas. Jesus estava fazendo algo surpreendentemente novo.” (LEONHARD
s.d.)

[48] Podemos constatar isso até no discurso de Jesus sobre o divórcio, onde
ele ensina que apesar do divórcio ser legislado no A.T, não fazia parte do
ideal divino no Éden (Mt 19; Mc 10)

[49] Outro dado interessante, é que como o nascimento da igreja se dá em


Atos 2, não faz sentido Jesus tratar do assunto que estamos abordando. Seria
um anacronismo.

[50] Jesus não forneceu ensino explícito com relação aos papéis (proibitivos
ou não) das mulheres no ministério, sua posição sobre o tema pode ser
melhor avaliada observando suas ações e ouvindo suas palavras enquanto
ele interage com as mulheres em seu mundo.
[51] https://margmowczko.com/portugues/doze-apostolos-homens/
[52] “Jesus ensinou as mulheres e permitiu que elas participassem de
discussões teológicas. Jesus permitiu que as mulheres viajassem com ele e
participassem plenamente de seu ministério como discípulas, comissionando-
as como testemunhas de sua ressurreição. As mulheres foram reconhecidas
por Jesus por seus exemplos de servidão, e Jesus afirmou seu lugar no reino
como participantes iguais. Além disso, sem ser humilhante ou crítico, ele
ministrou com compaixão às necessidades das mulheres. Ele tratou homens e
mulheres da mesma forma em relação às deficiências e os encorajou
igualmente em sua fé. Simplificando, Jesus conversou e fez amizade com
mulheres.” (ANDERSON 2014)

[53] https://www.studylight.org/lexicons/greek/5217.html. Acesso: 18/12/2019


[54] Ibid
[55] https://www.studylight.org/lexicons/greek/4198.html. Acesso: 18/12/2019

[56] Isto significa dizer que os textos bíblicos que falam acerca do ministério
usando termos masculinos estão apenas seguindo o curso natural do sexo da
época, não padronizando ele.
[57] Embora eu seja favorável à liderança feminina, isso não quer dizer que eu
reconheça que todas as mulheres que se dizem pastoras, de fato o são.

[58] Um dos argumentos mais usados contra o pastorado feminino, é que o


título de pastora (como um título para mulheres líderes de congregações) não
é bíblico. Mas esse não pode e não deve ser o carro chefe da discussão,
porque o problema não é se ele é bíblico, mas se ele é antibíblico. Isto é, há
coisas extrabíblicas que não são antibíblicas. Portanto, a discussão deve
acontecer para além disso.

[59] Precisamos fazer distinção entre liderança feminina e a titulação destas


líderes como pastoras. A discussão dos dias atuais repousa em teoria, na
titulação e no credenciamento, pois na prática, a liderança feminina está
presente em praticamente todas as igrejas. Mesmo aquelas igrejas em que
não há o cargo de pastora, a liderança e ministério feminino está
massivamente ativo. Por exemplo, nós temos dirigentes de círculo de oração,
professoras de EBD, discipulado, missionárias e até esposas de pastores que
mesmo não sendo nomeadas como pastoras, desenvolvem trabalhos
pastorais com mulheres, adolescentes, etc. Sem falar naquelas que são
conselheiras, coordenadoras, etc. Isto é, desde o início da Igreja Primitiva,
nós temos mulheres na liderança cristã.
[60] (TIDBALL 2011)
[61] “No Novo Testamento, é usado como um termo geral para servo oito
vezes (Mt 20:26, 22:10, 23:11; Marcos 9:35, 10:43; João 2: 5, 9; 12:26). É
usado vinte e duas vezes no sentido mais especializado de um “ofício” na
igreja (Rom. 13: 4 [duas vezes], 15: 8; 16: 1; 1 Cor. 3: 5, 2 Cor. 3: 6, 6: 4;
11:15 [duas vezes], 23; Gálatas 2:17; Ef 3: 7, 6:21; Fp 1: 1, Col 1: 7, 23, 25; 4:
7 ; 1 Tes. 3: 2; 1 Tim. 3: 8, 12; 4: 6). Desses 22 usos, a KJV
traduz diaconos como “ministro” dezoito vezes, como “diácono” três vezes, e
somente em Romanos 16: 1 como ‘serva’. A palavra é inequivocamente
aplicada a uma mulher apenas na última passagem.” (LUNCEFORD 2000)

[62] “Uma indicação ainda mais forte da função de Febe como líder vem de
Romanos 16: 2. Lá, ela é referida como prostatis de muitos e do próprio
Paulo. Essa palavra não aparece em nenhum outro lugar do Novo
Testamento, por isso não temos o luxo de examinar seu uso em outros
contextos do Novo Testamento. No entanto, temos cinco ocorrências
da próstata ligeiramente variante na versão grega do Antigo Testamento. Em
um desses usos, refere-se aos superintendentes da propriedade do rei Davi (1
Cr. 27:31). Em outro, é usado pelos supervisores das obras do rei (1 Cr.
8:10). Em ainda outro, é usado pelos chefes de Salomão (2 Cr. 8:10). Ainda
em outro, é usado pelos oficiais do rei Joás (2 Cr. 24:11). Seu uso final
designa os oficiais do sacerdote principal (2 Cr. 24:11). Estes não eram
ajudantes comuns, mas em todos os casos pessoas altamente autorizadas.”
(LUNCEFORD 2000)

[63] Patrick Gray, Opening Paul's Letters (Grand Rapids: Baker Academic,
2012), 136. Michael Bird sugere que Febe foi a primeira pessoa a ler e ensinar
a carta de Paulo em Roma, em Bourgeois Babes, Bossy Wives, and Bobby
Haircuts (Zondervan, 2012-12-25) Kindle Location 210. Robert Jewett observa
que “Dada a diversidade das várias igrejas domésticas mencionadas
em Rom. 16 , [fornecer comentários à carta de Paulo] exigiria formidáveis
habilidades políticas da parte de Febe. Em vista da complexidade do
argumento da carta, também exigiria habilidades interpretativas.” Jewett,“
Paul, Phoebe, and the Spanish Mission ”, 152.

[64] Crisóstomo " Homilia 31 de Romanos ", trad. J. Walker, J. Sheppard e H.


Browne, e revisados por George B. Stevens. From Parents Nicene and Post-
Nicene, First Grade, vol. 11. Ed. de Philip Schaff. (Buffalo, NY: Christian
Literature Publishing Co., 1889) Revisado e editado para o Novo Advento por
Kevin Knight.
< http://www.newadvent.org/fathers/210231.htm >

[65] Craig Blomberg tem sido considerado por muitos estudiosos como um
complementarista brando. Outros, o classificam como alguém que flerta entre
o Igualitarismo e Complementarismo, mas na verdade, Blomberg adota as
interpretações ditas tradicionais e complementares em passagens como
Efésios 5; 1 Co 11; 1 Co 14. e 1 Tm 2 (mesmo que aqui ele leve em conta
também a interpretação igualitária). Nas suas próprias palavras, ele se define
como alguém que tem uma abordagem mais conciliatória. No entanto,
Blomberg tem algumas explicações que incomodam muitos
complementaristas mais radicais e fundamentalistas. Por exemplo, ele crê que
"mulheres apóstolas, como Júnia, teriam por definição, ensinado grupos de
ambos os sexos e é óbvio que mulheres diaconisas como Febe, exerceram
sob a liderança dos presbíteros, autoridade delegada sobre o restante da
igreja." (p. 480). Comentando sobre Febe, ele diz que ela é "descrita como
Diakonos da igreja em Cencreia e como uma prostatis de muitos, incluindo
Paulo. Embora as versões geralmente traduzam o primeiro desses termos
simplesmente como 'serva', essa era a palavra-padrão para 'diácono' e uma
forma marcadamente feminina do substantivo ainda não havia se
desenvolvido em grego. Considerando que Febe é chamada Diakonos de
uma igreja específica, é mais provável que nesse contexto o termo seja o
título de um cargo." (p. 360) Ele faz um comentário pertinente sobre as
diaconisas da igreja primitiva quando comenta 1 Tm 3.11: "Quem são as
gunaikas do versículo 11? Alguns as interpretam como esposas dos
diáconos. Mas por que então as esposas dos supervisores (ofício superior)
deveriam ficar totalmente sem menção e sem regulamentação? O mais
provável é que essas mulheres sejam diaconisas. Até que o catolicismo
desenvolvesse suas ordens monásticas, que vieram a funcionar como uma
espécie de substituto, as diaconisas serviam praticamente de modo universal
em toda a igreja Primitiva." (p. 485, 486) Já sobre Júnia, Blomberg faz uma
crítica e chama de problemático o argumento de que Júnia era notável aos
olhos dos apóstolos, "quando, na verdade, ela [a passagem de Rm 16.7]
atribui sim apostolado a essas duas pessoas." (p. 360) Os mais recentes
complementaristas estão convictos de que Júnia foi uma mulher e apóstola,
no entanto, compreendem seu apostolado no sentido geral e mais
abrangente. Blomberg faz parte desse grupo, alegando que ela era uma
apóstola no sentido de missionária ou plantadora de igreja (p. 361). Embora
ele acredite que esteja "claro que essa mulher exercia autoridade sobre
igualmente homens e mulheres, ela não parece ter desempenhado o mesmo
papel que os presbíteros de uma igreja local." (p. 361) Todas estas citações
foram tiradas da obra: BLOMBERG, Craig L. Introdução de Atos a Apocalipse
(Vida Nova).
[66] ". . . não se pode argumentar que profetizar - seja por mulheres ou por
homens - é menos importante, menos duradouro ou menos oficial do que
ensinar ou pregar.” (WITHERINGTON, p. 225)
[67] (M. MOWCZKO 2013) Marg cita uma frase de F.F. Bruce que diz: “As
filhas, ou pelo menos algumas delas, viveram uma longa idade e foram
altamente estimadas como informantes de pessoas e eventos pertencentes
aos primeiros anos do Cristianismo judaico. Supondo-se isso... informações
que Filipe e suas filhas poderiam fornecer foram muito apreciadas por Lucas,
que as utilizou na composição de sua dupla história - não apenas durante os
poucos dias que passou em Cesaréia, mas também durante os dois anos de
prisão de Paulo ali. (cf. 24:27).” F.F Bruce, The Book of the
Acts, NICNT (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1988), p. 400.

[68] Margaret Y. MacDonald, Colossians and Ephesians (Sacra Pagina;


Collegeville: Liturgical Press, 2008), p. 188.

[69] MacDonald, Colossians and Ephesians, p. 205.


[70] F.F. Bruce, “Women in the Church: A Biblical Survey,” Christian Brethren
Review 33 (1982), 7-14, 11-12.

[71] Por exemplo, boa parte da Igreja antiga passou quase 1000 anos sem
usar instrumentos musicais no culto.
[72] Encontramos uma ligeira e incomum referência do termo sendo aplicado
aos que cuidam, instruem e guiam o rebanho de Deus em Hebreus 13.7,17,
onde parece que o autor está fazendo uma analogia com os pastores de
ovelhas (cf. Hb 13.20).
[73] Ou seja, exceto Jesus, nenhum líder em específico no Novo Testamento é
chamado de pastor.

[74] Na época da igreja apostólica, o pastorado era um ofício e uma profissão


rural (bucólica), mas não um ofício religioso em si. No entanto, atividades
pastorais são análogas às atividades dos líderes das igrejas, por isso, a figura
do “pastor” no protestantismo se tornou comum para designar o ofício
episcopal nas igrejas.

[75] Para uma abordagem mais ampla e profunda, veja o que J. B. Lightfoot
escreveu sobre o ministério na obra “2Coríntios e 1Pedro - Série O Legado de
Lightfoot - volume 3” da Editora Cultura Cristã.
[76] Inclusive, no Novo Testamento, encontramos alguns apóstolos se
apresentando como presbíteros, diáconos (ministros) e até mesmo como
cooperadores.
[77] Para mais informações, leia a obra “Pais Apostólicos” (Mundo Cristão), em
especial as Cartas de Inácio.
[78] Levando em consideração a própria teologia petrina, ao fazer isso, a
mulher cumpre sua função como sacerdotisa (1 Pedro 2.9).
[79] Os cristãos devem se submeter uns aos outros. É por isso que as
mulheres devem se submeter aos esposos, os filhos aos pais (Ef 6.1) e os
escravos aos seus senhores (Ef 6.5).

[80] Que tipo de sujeição Paulo tem em mente para os maridos? Amando as
esposas "como também Cristo amou a igreja e se entregou por ela". (v. 24)

[81] Em vez de prescrever relacionamentos patriarcais no casamento, Paulo


estava desafiando o patriarcado de seus dias chamando toda a igreja -
homens, mulheres, escravos e livres - a ser preenchida com o poder
transformador de uma vida cheia do Espírito Santo e, assim, submetendo-se
uns aos outros.

[82] A submissão é, portanto, apresentada aqui como uma característica de


nossa nova humanidade em Cristo, não apenas um ideal a ser seguido pelas
mulheres. Portanto, ela deve ser mútua.

[83] Sobre os deveres dos homens, I. Howard Marshall observa: “Essa


instrução para os maridos não é apenas incomum e não convencional no
mundo do Novo Testamento, mas a intensidade do amor exigido é
extraordinária”. Marshall, “Mutual Love,” p. 199.

[84] No Ocidente, se referir a alguém como cabeça assume uma conotação de


líder, chefe ou governante. Porém, não é o caso desse texto em questão. Aqui
Paulo não usa a expressão "cabeça" em Efésios 5:23 como uma imagem para
o tomador de decisão da família. Se Paulo quisesse especificar que o marido
é o governante da família, ele teria usado arche ou "governante" (como em
Lucas 12:11). Antes, no contexto mais amplo de Efésios, Paulo claramente
usa "cabeça" como uma metáfora da fonte da vida (cf. Efésios 1.22,23). Essa
linguagem foi semelhantemente usada em 1 Co 11.1-11, onde Paulo ensina
que as mulheres coríntias deviam honrar seus esposos. Nas sete passagens
no Novo Testamento, onde Paulo usa Kephale, o contexto (1 Coríntios 11.3;
Colossenses 1:18, 2:10; 2:19; Efésios 1: 20-23; 4:15; 5.23) não significa líder
ou governante, mas aponta claramente para o significado comum de fonte ou
originador.

[85] Paulo está dizendo que, assim como Cristo é a fonte da igreja, o marido
também se tornou a fonte da existência de sua esposa quando Deus usou a
costela de Adão para criar Eva em Gênesis.

[86] Nessa metáfora, a cabeça e o corpo, que constituem a carne do


casamento, não podem sobreviver separados ou independentes. De acordo
com o impulso temático desta passagem, Paulo declara que, pelo poder do
Espírito Santo, os maridos devem ser a cabeça de suas esposas, existindo
como parte de uma carne unificada e mutuamente dependente.

[87] Veja também 1 Coríntios 7: 4.

[88] Ao longo dos anos, os complementaristas ofereceram algumas contra


respostas sobre essa questão, uma delas alega que o que Paulo propõe aqui
é um relacionamento hierárquico. Eles chegaram a essa conclusão a partir de
outros textos bíblicos. Mas embora seja verdade que essa interpretação seja
possível, é pouco provável que seja a mais precisa aqui. Um texto de
Clemente de Roma parece corroborar com nossa ideia. Ele ensinou: “Vamos
tomar o corpo como exemplo. A cabeça sem os pés não é nada; da mesma
forma, os pés sem a cabeça não são nada. Mesmo as partes mais pequenas
do nosso corpo são necessárias e úteis para todo o corpo, mas todos os
membros se fundem harmoniosamente e se unem em sujeição mútua, para
que todo o corpo possa ser salvo. Portanto, no nosso caso, que todo o corpo
seja salvo em Cristo Jesus, e que cada um de nós se submeta mutuamente
ao próximo, na proporção do dom espiritual de cada um. ”1 Clemente 37: 5-
38: 1. Anteriormente, em sua carta, Clemente elogiou os coríntios dizendo:
“Além disso, todos vocês eram humildes e livres de arrogância, submetendo
ao invés de exigir submissão, mais felizes em dar do que em receber...” (1 Cl
2: 1). Algumas décadas depois, na primeira metade do século II, Inácio
escreveu uma frase que incluía uma instrução para submissão a alguém com
autoridade, bem como uma instrução para submissão mútua: “Submeta-se ao
bispo e uns aos outros” (Magnesians 13 : 2) “Um para o outro” ( allēlois ) em
Magnésio 13: 2 é idêntico à palavra em Efésios 5:21 . Policarpo escreveu aos
filipenses: “Todos vocês estejam sujeitos um ao outro...” (10: 2) Enquanto
Inácio (bispo da igreja em Antioquia) e Policarpo (bispo da igreja em Esmirna)
escreviam no segundo século e não no primeiro, eles claramente não
consideravam a submissão mútua um mito. Em vez disso, como Paulo e
Clemente, eles viam a submissão mútua como sendo vital para a harmonia e
a unidade na igreja. Desta forma, a submissão proposta por Paulo é numa
linha horizontal (entre iguais) e é voluntária, diferente de um relacionamento
hierárquico, onde quem tem autoridade é quem submete aquele ou aquela
que está debaixo do seu comando.

[89] Isto deve ser feito no temor do Senhor, com respeito e apreciação.

[90] Pedro trabalhou seus escritos dentro dos costumes de casamento da


época, a fim de promover o Evangelho. De forma semelhante, quando Paulo
escreveu a Tito, ele explicou que as esposas devem ser submissas aos
maridos para que a palavra de Deus não seja desacreditada (Tito 2: 5). Pedro
também ordena que cristãos, escravos, esposas e maridos "sejam sujeitos,
pelo amor de Deus, a toda instituição humana" (1 Pedro 2: 13: 13-37). O
casamento não é uma instituição humana, mas os costumes do casamento
são. Eles variam em todas as sociedades. Pedro explica que a submissão de
uma esposa ao marido (que não é crente) pode conquistá-lo para o
Senhor. Ao fazer isso, não estão ratificando ou ensinando que esse é o ideal
de Deus para o Matrimonio, mas se utilizando de algo que já estava
culturalmente estabelecido para uma causa maior: promover o Evangelho e a
glória de Deus. Nesses casos, a contextualização assume duas
características principais: num primeiro momento não há um rompimento total
com a cultura, costumes e estruturas sociais da época (mas um
aproveitamento) e por outro lado, um condicionamento ou abrandamento
progressivo dessas estruturas que devem ser contrastas e transformadas
pelos valores do Evangelho. Uma vez que essa estrutura social e secular não
tem mais a mesma força no Ocidente, cabe a nós nos rendermos ao princípio
da mútua submissão no temor do Senhor, ao invés de tentar resgatar os
velhos padrões sociais (Patriarcado).

[91] “Uma autoridade estimou que no Império Romano dos dias de Paulo havia
60 milhões de escravos, 20 milhões somente na Itália e 650.000 em
Roma. Quase todo trabalho foi realizado por escravos, pois o trabalho estava
abaixo da dignidade de um cidadão romano. O escravo não era uma pessoa,
mas uma coisa. Aristóteles ensinou que escravo e mestre nunca poderiam ser
amigos, pois os dois não tinham nada em comum, "pois um escravo é uma
ferramenta viva, assim como uma ferramenta é uma escrava
inanimada". (TRULL 2000)
[92] “Escravos, obedeçam em tudo a seus senhores terrenos, não somente
para agradá-los quando eles estão observando, mas com sinceridade de
coração, pelo fato de vocês temerem o Senhor” (Colossenses 3:22). “Todos
os que estão sob o jugo da escravidão devem considerar seus senhores como
dignos de todo o respeito, para que o nome de Deus e o nosso ensino não
sejam blasfemados” (1ª Timóteo 6:1) “Ensine os escravos a se submeterem
em tudo a seus senhores, a procurarem agradá-los, a não serem respondões
e a não roubá-los, mas a mostrarem que são inteiramente dignos de
confiança, para que assim tornem atraente, em tudo, o ensino de Deus, nosso
Salvador” (Tito 2:9-10) “Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com
respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo. Obedeçam-lhes,
não apenas para agradá-los quando eles os observam, mas como escravos
de Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus. Sirvam aos seus senhores
de boa vontade, como ao Senhor, e não aos homens, porque vocês sabem
que o Senhor recompensará a cada um pelo bem que praticar, seja escravo,
seja livre. Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma. Não os
ameacem, uma vez que vocês sabem que o Senhor deles e de vocês está
nos céus, e ele não faz diferença entre as pessoas” (Efésios 6:5-9) “Escravos,
sujeitem-se a seus senhores com todo o respeito, não apenas aos bons e
amáveis, mas também aos maus” (1ª Pedro 2:18)

[93] As advertências a respeito dos escravos em Efésios 6 são reconhecidas


de maneira adequada e quase universal como intransferíveis ao nosso
contexto atual no mundo ocidental.
[94] O mesmo vale para aquela igreja-doméstica que funciona dentro do lar. O
lar enquanto igreja abriria espaço para a atuação da esposa na liderança, mas
somente nas relações intra-eclesiais ou que dizem respeito à igreja que ali
funciona, não anulando dessa forma a liderança do homem sobre a mulher no
aspecto matrimonial.

[95] Alguns teólogos creem que um dos requisitos para o Episkopado é ser
casado por conta de 1 Tm 3.2 e Tt 1.6. No entanto, uma interpretação mais
segura e plausível desses textos é a de que Paulo está defendendo a
monogamia entre os líderes. Isto significa dizer que solteiros também podem
pastorear.
[96] Leia o artigo completo em (HADDAD, Priscilla, Author of the Epistle to the
Hebrews? 1993)
[97] Ter mulheres como sacerdotisas não era o único problema suficiente para
a restrição de Paulo, até porque também haviam homens no sacerdócio
efesiano. Há outros agravantes como o mal comportamento das mulheres que
ao que parece foram mais influenciadas pela religião efesiana do que os
homens. Todos esses agravantes somados foram levados em consideração
por Paulo naquela época.

[98] “Em termos de vida cúltica em Éfeso, é claro que as mulheres tiveram um
papel significativo e ocuparam cargos importantes em muitos cultos. A
mitologia de Éfeso [incluindo o mito de que Éfeso foi fundado por mulheres
guerreiras conhecidas como Amazonas reforçou seu status no culto de
Ártemis. Segundo Pausanias, desde muito cedo, se não originalmente, as
mulheres amazônicas residiam no local sagrado e realizavam rituais para
Ártemis (7.2.4). A atividade cúltica para as mulheres era mais proeminente na
Ásia Menor do que em outros lugares (Ramsay 1900: 67). Kearsley observa
que as quinze mulheres que eram archiereiai (“Sumos sacerdotes” ou “sumos
sacerdotes”) em Éfeso é o maior grupo conhecido em qualquer cidade (1986:
186). Pelo menos algumas detinham o título por direito próprio e não
dependiam do título de seus maridos. As mulheres eram proeminentes nos
cultos de Ártemis como sacerdotisas; e no culto a Hestia Boulaia, no centro
cívico de Éfeso, sabe-se que a posição influente de prytanis foi ocupada por
mulheres (por exemplo, Claudia Trophime I.Eph IV.1012). Favonia Flacilla
era prytanis e gymnasiarchos (I.Eph IV.1060).” Rick Streland, Paul, Artemis
and the Jews in Ephesus (Berlin/New York: Walter de Gruyter & Co., 1996),
120

[99] Eva não estava presente quando Deus instruiu Adão sobre não comer da
árvore do conhecimento do bem e do mal. Provavelmente, ela foi instruída por
Adão. Eva faz um acréscimo na resposta à serpente, afirmando que Deus
disse que eles não deveriam nem tocar na fruta, mas Deus não disse isso à
Adão. Sendo assim, parece que Eva não foi devidamente instruída e,
portanto, estava mais sujeita a ser enganada. Semelhantemente, é
exatamente isso que está acontecendo em Éfeso. As cristãs, por não estarem
sendo adequadamente instruídas, tinham uma maior propensão ao engano.

[100] Linda Labelle traz outro dado interessante: se olharmos atentamente


para o contexto imediato, a linguagem "primeiro-depois" (protos ... eita) nada
mais faz do que definir uma sequência de eventos ou ideias. Dez versículos
depois, Paulo declara: “Os diáconos devem ser testados primeiro (próton) e
depois (eita) deixá-los servir” (tradução do autor, 1 Tim. 3:10). De fato, esse é
o caso das cartas de Paulo (e do NT, nesse caso). "Primeiro-depois" define
uma sequência temporal, sem implicar prioridade ontológica ou funcional. Os
mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Então nós, que estamos vivos, e que
ficaremos, seremos arrebatados nas nuvens junto com eles para encontrar o
Senhor no ar” é um exemplo disso (1 Ts 4: 16-17). “Os mortos em Cristo” não
obtêm vantagem pessoal nem funcional sobre os vivos como resultado de
serem ressuscitados “primeiro” (cf. Marcos 4:28, 1 Cor. 15:46; Tiago 3:17).”
(Belleville 2003)

[101] Para aqueles que dizem que o pecado de Eva foi querer liderar sobre
Adão, Linda Labelle esclarece: “Eva não foi enganada pela serpente para
assumir a liderança no relacionamento homem-mulher. Ela foi enganada ao
desobedecer um mandamento de Deus, a saber, não comer o fruto da árvore
do conhecimento do bem e do mal. Ela ouviu a voz do falso ensino e foi
enganada por ele. A advertência de Paulo à congregação de Corinto confirma
o seguinte: “Receio que, assim como Eva foi enganada pela astúcia da
serpente, suas mentes possam de algum modo ser desviadas de sua sincera
e pura devoção a Cristo” (2 Cor. 11: 3).” Ibid

[102] A discussão acirrada girando em torno da tradução mais precisa para


esse texto/termo pode ser devidamente denominada de “batalha dos Léxicos.”

[103] Observe que nenhuma tradução tenta apresentar uma tradução positiva
(por exemplo: “Não permito que as mulheres ensinem o Evangelho com
autoridade”; “Não permito que as mulheres ensinem com autoridade as
verdades na igreja”; “Não permito que as mulheres ensinem a Bíblia ou
exerçam autoridade apropriadamente ";" Não permito que as mulheres
ensinem, nem exerçam autoridade adequadamente"). Isto parece indicar que
o comportamento delas ao ensinarem não era visto com bons olhos por
Paulo.

[104] A palavra grega h ē suchia, que é traduzida na NIV (1984) como


"silêncio" realmente significa "calma" ou "quietude", com a implicação de
"manter o assento".

[105] A sujeição aqui não tem nenhuma relação com a submissão patriarcal,
mas com aquela que já explicamos anteriormente. E provavelmente é usada
aqui como um contraste para rebelião. Ou seja, a mulher devia aprender de
maneira tranquila e respeitável - a conduta usual de um bom aluno - e não
devia ser barulhenta, ofensiva ou rebelde.

[106] Inclusive, no versículo 11 é dito que as mulheres devem aprender... Este


é o único imperativo presente no texto. É mandamento! Enquanto que no
restante do versículo é dito simplesmente que ele não permite... Se esta
passagem fosse uma doutrina universal sobre os papéis dos homens e
mulheres em todas as igrejas, Paulo também teria usado a forma imperativa.
Paulo não usa nenhum dos tempos gregos de comando neste versículo. Em
vez disso, ele usa o presente epitrepo indicativo ativo com o ouk negativo: “Eu
não estou permitindo...” A tradução “eu não permito” é duvidosa porque o
verbo que Paulo escolheu normalmente se refere a algo limitado no tempo,
não permanente. Além disso, sua forma gramatical raramente é usada para
uma proibição permanente, mas geralmente se concentra em uma permissão
ou proibição em andamento, portanto, é melhor traduzida como "Não estou
permitindo".

[107] As mulheres participaram ativamente e intensamente na arte do ensino,


seja público ou privado. Em 1 Co 14.26 e Cl 3.16, elas e os demais irmãos
são convocados e encorajados por Paulo para várias atividades, como a do
ensino público (homens e mulheres). Em Tito 2.3, Paulo ordena às mulheres
fiéis para ensinar as mais jovens. Outro exemplo é Priscila ensinando Apolo
em Atos 18:26!

[108] Isto significa que se esta passagem fosse aplicável para todas as igrejas,
em todos tempos, que Paulo estava entrando em contradição com o restante
do Novo Testamento, o que é algo absurdo e impossível.
[109] Em Creta, a liderança eclesiástica também era masculina. Por isso,
Paulo escreve à Tito dando instruções bastante semelhantes a essas. Tendo
em vista que os presbíteros aqui são homens, é de se esperar que as
orientações estejam no masculino (Tt 1.5-7). Sendo assim, esta passagem
também não pode ser usada contra o pastorado feminino.
[110] A interpretação de Jesus de Deuteronômio 24 em Marcos 10:12
confirma, é comum em toda a Bíblia proibições dirigidas aos homens também
se aplicarem às mulheres. Por exemplo, “Não cobice a esposa do seu vizinho”
também proíbe implicitamente cobiçar o marido da sua vizinha.

[111] Em última instância, o princípio gritante dessa passagem é que a pessoa


que supervisiona a igreja, deve ter um relacionamento monogâmico, seja ele
homem ou mulher. Assim sendo, a expressão “marido de uma só mulher” é
uma frase idiomática para um relacionamento monogâmico. O argumento de
Paulo aqui também não é que todos os superintendentes devem ser
necessariamente casados.
[112] https://biblehub.com/commentaries/isaiah/3-12.htm. Acesso: 26/01/2020.
[113] Ibid
[114] Ibid
[115] Ibid
[116] Ibid

[117] Ibid

[118] Segundo Jane McNally: “A mulher e o homem transgrediram, ambos


pecaram. Mas Deus não lidou com os dois da mesma maneira. Havia
premeditação na ação do homem, que tinha mais experiência com Deus e
ouvira a proibição em primeira mão. Sem hesitar ou objetar, Adão aceitou a
fruta e a comeu. (...) O silêncio do homem por toda parte significa
consentimento. Não há sugestão de que a mulher o tenha convencido, ou que
a persuasão seria necessária. Por que ele era tão complacente? Por que ele
não interveio, repreendeu o tentador e ordenou que ele saísse do jardim?
Adão esteve no jardim por mais tempo, teve experiências ricas com Deus,
mas ele deve ter se perguntado sobre aquela única árvore e, portanto, já
estava aberto à dúvida e tentação. A árvore proibida era tentadora. Bilizekian
diz que Adão deixou sua esposa representar sua própria fantasia de
autonomia, autodeterminação - escondendo-se atrás das saias dela, por
assim dizer. Ele sabia que sua jovem esposa tinha circunstâncias atenuantes -
mas ele não tinha nenhuma. Além disso, era evidente que ela não havia
morrido por comer a fruta. No entanto, inconsciente, ambos haviam morrido
espiritualmente. Eles agora sentiam vergonha da nudez e fizeram aventais de
folhas de figueira para se cobrirem. Ouvindo a aproximação de Deus no frio
da tarde, eles se esconderam entre as árvores. Deus chamou o homem e o
questionou, usando o pronome singular tu (3: 9). Adão respondeu: “Eu ouvi...
Eu estava com medo, porque estava nu ... me escondi.” Deus perguntou:
“Quem lhe disse que você estava nu? Você comeu da árvore da qual eu te
ordenei que não comesse?” O homem sabia que havia desobedecido, mas
fez uma confissão tortuosa: “A mulher que você deu para ficar comigo, ela me
deu frutos da árvore e eu comi” (v. 12; grifo do autor). O homem se atreveu a
envolver Deus, e ele não fez referência ao enganador que estava por trás de
tudo, que havia passado por ele no Jardim e que pode ter permanecido por
perto, exultando. Intencionalmente ou não, Adão protegeu o tentador. Então
Deus disse à mulher: “O que é isso que você fez?” Ela não respondeu
abertamente: “A serpente que você criou me enganou, e meu marido não me
parou.” ou, “o diabo me fez fazer isso.” Ela apenas deu os fatos: “A serpente
me enganou e eu comi” (v. 12). Ela transgrediu, tendo conhecido a proibição,
mas não foi deliberadamente desobediente. Ela acreditou no
enganador. Agora reconhecendo a mentira, ela denunciou e se opôs a ele.”
(MCNALLY 2001). Alguns tentam empurrar a ideia de que o pecado de Eva foi
usurpar a autoridade de Adão, no entanto, não é isso que ensina a passagem
bíblica. Outros vão dizer que o fato de Adão ter sido chamado primeiro para
prestar contas, implica governo e dominação sobre Eva. Contudo, ao que tudo
indica, o real motivo dele ter sido chamado primeiro pode apontar para a ideia
de que ele pecou deliberadamente, enquanto que Eva foi seduzida e
enganada.

[119] Gn 3.2

[120] Alguns estudiosos entendem que Paulo usa o termo “Adão” (Adam)
como genérico para o primeiro casal ou de modo geral, para a própria
humanidade.
[121] Paulo também diz que os que falam em línguas devem ficar em silêncio,
se não tiver intérprete (v. 28) e que um profeta deve se calar se alguém tiver
uma revelação (v. 30). O silencio aqui não tem a ver com o sexo ou a função
da pessoa, mas com a preservação de algo muito maior: a ordem e a
decência.

[122] “Quando Paulo escreveu 1 Coríntios 14.34,35, as mulheres da época não


deixaram de profetizar nas reuniões públicas. Parece que Paulo lhes estava
ensinando a se comportar enquanto os outros falavam; ele não as estava
proibindo de compartilhar.” (MALCOM 2003, p. 76)

[123] A visão mais detalhada de Fee pode ser consultada no seu comentário
sobre 1 Coríntios, lançado no Brasil pela Vida Nova, páginas 890-905.

[124] Em seu livro Man and Woman, One in Christ, ele identifica sete
evidências de manuscritos reais, além de nove características internas do
texto que apóiam a compreensão dessa passagem como uma adição
posterior.
[125] “A precisão de nossa conclusão é garantida pela presença indiscutível
desse dispositivo outras cinco vezes em 1 Cor 6: 12–13; 7: 1–2; 8: 1, 8; 10:23,
na qual Paulo cita uma posição da carta dos Coríntios com a qual ele discorda
e depois a refuta.” (MACGREGOR 2018)

[126] Ibid
[127] Ibid
[128] Ibid
[129] “A palavra grega sigao, traduzida por ‘em silêncio’ (v. 34) também é
usada em Atos 12.17; 15.12 e 21.40. Nessas situações, as pessoas deviam
ficar quietas e dar atenção à pessoa que pregava. A palavra grega laleo (v.
34) é traduzida por ‘falar’. Embora o Novo Testamento em geral use laleo para
referir-se à fala comum, inclusive a pregação do Evangelho, na literatura
grega da época a palavra às vezes era empregada para designar fofoca ou
falatório. Laleo é usada para os que conversam muito e não ouvem.”
(MALCOM 2003, p. 76)

[130] “Embora as traduções raramente sejam iguais, o mesmo verbo grego é


usado nos versículos 32 e 34. Hupotasso, que significa organizar ou colocar-
se debaixo, está na voz média, indicando que o sujeito pratica a ação em si
mesmo. O conceito de autocontrole é expresso na maioria das traduções do
versículo 32 [...] Se o assunto é claramente autocontrole, como pode o
mesmo verbo ser traduzido de outra maneira na mesma passagem quando se
aplica às mulheres? Literalmente, o versículo 34 diz: ‘antes controlem-se [as
mulheres], como diz a Lei.” (MALCOM 2003, p.77)
[131] Uma observação sobre o comportamento daqueles que são contra o
pastorado feminino ordenado: Geralmente, as pessoas que são contra a
ordenação feminina, pedem textos claros nas Escrituras que validem essa
questão. A falta de clareza e objetividade dos textos bíblicos é um problema, é
verdade, para quem defende o Pastorado feminino. No entanto, aqueles que
são contra, também não estão livres desse problema. Isto é, também não
existe nenhum texto bíblico claro que afirme que somente homens podem ser
pastores ou diáconos. Isto é plenamente natural, pois esse assunto é
secundário e periférico quando comparado com outras questões doutrinárias.
Sendo assim, a falta de clareza nesse assunto, é algo próprio da Escritura e
não de uma única interpretação em si. Por outro lado, curiosamente, essas
pessoas são a favor da mulher ser professora da Escola Bíblica Dominical,
Dirigente de Círculo de Oração (adulto e infantil), Dirigente de campanha,
Dirigente de cultos de avivamento e consagração, Secretárias, etc. O
problema é: também não existe referência bíblica clara para a fundamentação
de cargos femininos no Novo Testamento, independente da questão da
ordenação ou não. Isto significa dizer que muitos daqueles que são contra o
Pastorado Feminino, estão sendo parciais e seletivos dentro do debate acerca
do ministério Feminino, uma vez que aceitam sem problema algum que as
mulheres exerçam cargos nas igrejas que fazem parte. Neste caso, eu
proponho duas alternativas:

• Ou a pessoa reconhece honestamente que também não existe referências


bíblicas claras para cargos femininos no Novo Testamento e com isso,
assume que é contra.

• Ou então reconhece que esse argumento que envolve a questão da clareza


bíblica é fraco, limitado e problemático.
[132] 01) Acredito que biblicamente, o Evangelista é um dom (Ef 4.11) e um
serviço/atividade (2 Tm 4.5), não um ofício. Alguns teólogos supõem que seja
um ofício extraordinário em contraste com os ordinários (Bispos e Diáconos).
Curiosamente, a maioria igrejas que ordenam homens ao cargo de
Evangelista, não ordenam mulheres, mas possuem missionárias. Sendo que à
luz da Bíblia, o Evangelista é um missionário itinerante. Neste caso, se todo
missionário (a) é um Evangelista, e estas igrejas consideram isto um ofício,
porque não ordenam mulheres? Alguém pode argumentar que o Evangelista é
um ofício usando com referência o caso de Filipe (At 21.8), no entanto, este
título pode ter lhe sido dado para distinguir do Filipe, o apóstolo (Jo 1.44).
Todavia, o que poderia ter dado a Filipe o título de Evangelista? Certamente o
seu trabalho como ganhador de almas. Se este for caso, temos aqui a
confirmação de uma antiga frase de um teólogo assembleiano: “Não é o título
que faz o ministro, mas o ministro quem faz o título.” Se é o ministro quem faz
o título, não estaria na hora das mulheres que fazem o trabalho de um
evangelista, serem reconhecidas como tal, tal qual os homens? 02) A figura
do Pastor-Presidente é um resquício e herança das velhas formas de
estrutura de governo da Igreja Católica Romana (no caso dela, o Papa). Não
existe nenhum indício bíblico de que as instituições eclesiásticas devem estar
na supervisão de um só homem. 03) Nem Jesus, nem os apóstolos
prescreveram que os cristãos deviam construir templos para adorar a Deus.
Eles adoravam em casas e em catacumbas até o período da suposta
conversão do Imperador Constantino (288-337 d. C), quando as primeiras
catedrais começaram a ser construídas, inclusive, inspiradas nas Basílicas
romanas. Mesmo em Atos 5.42, era um templo judaico que já existia,
frequentado por cristãos judeus (não gentios). Por conta dessa ausência de
textos bíblicos, um movimento conhecido como desigrejados ou destemplados
(conforme preferem ser chamados), ganha força em várias partes do país.
Obs: eu particularmente não sou contra nenhum desses tópicos, pois entendo
como um processo integrante da contextualização, mas eles não deixam de
ser um problema para a lógica embaçada dos complementaristas que fecham
os olhos para essas questões, mas não hesitam em militar contra o pastorado
feminino.

[133] Juntamente com os aspectos éticos e carismáticos.


[134] Citado em (M. MOWCZKO, Galatians 3:28: Our Identity in Christ and in
the Church 2014)

[135] Androginia refere-se a dois conceitos: a mistura de características


femininas e masculinas em um único ser, ou uma forma de descrever algo
que não é nem masculino e nem feminino.

[136] Como ensina Philip B. Payne: “O livro inteiro de Gálatas é um ataque


frontal contra status ou privilégios favorecidos e concedidos aos judeus sobre
os gentios. “ (PAYNE, Practical Implications 2010)

[137] Ibid
[138] ibid

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