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09/07/2021 A República como déficit

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Anotações

A República como déficit


15 DE NOVEMBRO DE 2014

Até o fim da ditadura militar, uma história digamos oficial se esmerava


numa autocongratulação do Brasil. A Independência e a Proclamação da
República eram algumas das datas marcantes. Tanto que, um dia em 1972, o
ditador Médici convoca uma cadeia de televisão para uma declaração
importante - e muitos esperaram, ansiosamente, que fosse uma anistia ou o
fim de pelo menos parte das sanções odiosas que o governo impunha à
sociedade. Não. A solenidade era para informar que Portugal aceita dar ao
Brasil o corpo de Dom Pedro I, até então sepultado no Porto.

Datas, solenidades, desfiles, são vazios se não removidos um conteúdo forte a


preenche-los.

Um pouco depois, quando fui bolsista na França, lembro de ter contado a


um amigo estrangeiro como era a ditadura no Brasil. Ele, candidamente, me
perguntou: “Mas seu País é uma república?”. Eu me escandalizei, “claro que
sim!”, E só depois percebi que república não é só uma palavra, é um
conjunto de significados. De fato, há vários anos que opero uma distinção
entre democracia e república, que aqui resumo.

República é uma expressão romana (res publica, coisa pública) que designa a
finalidade, o propósito de uma organização política. Seu cerne não é como o
poder é atribuído no Estado, mas sim para o que ele - ele Estado, ele poder -
existe. Já democracia é uma palavra grega que se traduz como “poder do
povo” e se refere, sim, ao modo como o poder é atribuído. Só pode ser pelo
voto de todos, o que implica que haja sempre uma maioria de pobres. Daí
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que toda democracia tenha um forte componente social. Não existe, ao


contrário do que quis Hannah Arendt, política democrática sem o fator
social. Toda democracia conhece a forte demanda dos pobres, da multidão,
por uma distribuição melhor da riqueza. Por isso, democracia é mais radical,
ou de esquerda, que república. Essa última pode até ser aristocrática. Na
verdade, em linhas gerais, a república se aproxima do que chamamos Estado
de Direito, enquanto a democracia exige hoje o Estado Democrático de
Direito.

São dois conceitos diferentes, mas indispensáveis para o que chamo a boa
política de nosso tempo. Ela exige a separação do público e do privado. Por
isso, seu inimigo não é a monarquia (uma forma de atribuição do poder,
apenas), mas a corrupção e seu sobrinho latino-americano, o
patrimonialismo. O governante republicano deve ser austero, honesto,
incorruptível. A república também exige a valorização da dimensão pública,
e por isso mesmo não cabe numa privatização generalizada, thatcheriana, do
âmbito político.

A democracia atual é fecunda. Ela se expande o tempo todo.


Constantemente a ONU gera declarações de novos direitos. Aos direitos
humanos habituais se somaram outros, específicos para um gênero
(mulheres), faixas etárias (jovens e idosos), condições de vida (habitação,
saúde) - e isso continua. Em nosso tempo, pela primeira vez na História, a
miséria se tornou algo a abolir, e a pobreza também, ainda que numa etapa
posterior. Raros são os que defendem, de público, que existam pobres.
Mesmo quem aceita a desigualdade social quer que a base da pirâmide tenha
um nível de vida acima da pobreza.

Fiquemos na República, que ora se comemora. O regime introduzido em


1889 pode ser chamado de republicano? Representou ele um avanço sobre o

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Segundo Reinado? No Império, na verdade com Pedro II, tivemos um


regime parlamentarista, com partidos nacionais e uma certa liberdade de
imprensa. Já a Primeira República, entre 1891 e 1930, foi o reinado
incontido das oligarquias estaduais. Provavelmente nunca tivemos regime
mais podre no Brasil, tanto pela corrupção dos dinheiros públicos quanto,
sobretudo, a corrupção dos costumes. Não havia limites aos desmandos dos
oligarcas, federais, estaduais, locais. Talvez esse fato tenha desmoralizado por
muito tempo a ideia de república em nosso país. Busca do bem público?
Moralidade dos governantes? Um espaço comum acima dos partidos? Não.

Na comparação com o Segundo Reinado, a Primeira República parece até


pior. E olhem que as eleições parlamentares do Império eram fraudadas. A
monarquia conviveu com a escravatura e acabou junto com ela. Então,
quando começa o espirito republicano no Brasil? Terá sido com as
conspirações da década de 1920, culminando na Revolução de 1930? Mas os
“tenentes” da época, se defendiam a honestidade e, além disso, o voto
secreto, eram autoritários. E o governo instituído em 1930 foi ditatorial.

Para resumir, temos pouca experiência histórica tanto de república (a busca


do bem comum) quanto de democracia (o povo, os pobres, tomando a
palavra). Nossa sociedade não tem tanto respeito pelo direito (o mundo da
república) ou pelos direitos sociais (o mundo da democracia). Não é fortuito
que, das três grandes profissões tradicionais - advocacia, medicina e
engenharia - estejamos vivendo, nestes anos, uma grande decepção com as
duas primeiras. Um dia um juiz consegue condenar uma agente de trânsito
porque ela lhe disse “o senhor não é Deus”, outro dia um médico, por sinal
crítico acerbo do programa Mais Médicos, só assina o ponto na repartição e
vai embora em seguida. A grande maioria dessas profissões é honesta, mas
qual é a crítica exata a esses profissionais? Qual crítica está sempre presente
na indignação com juízes e médicos? É que não visam à coisa pública. É que
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se apropriam do bem público para uso privado - a carteirada num caso, o


dinheiro sem trabalho no outro.

Vamos aqui discutir o que nos falta de república, em seu sentido preciso, o
de um Estado que tenha por fim a coisa pública, o bem comum. Seu maior
inimigo é a corrupção, mas essa palavra perdeu alcance desde os romanos.
Para eles, a corrupção era a dos costumes, em especial, a autocomplacência, a
busca dos prazeres, a preferência dada a interesses ou desejos privados.
Mulheres, seres dos sentimentos, não seriam capazes de autocontenção,
portanto seus gostos - por exemplo, pelo luxo - eram incompatíveis com a
austeridade republicana. Isso mudou. O que eles chamavam de corrupção
dos costumes, coisa péssima, para nós é liberdade individual (próxima à
“liberdade dos modernos”, de que fala Benjamin Constant), coisa ótima.
Descartar as mulheres virou preconceito ridículo. Uma peça publicitária,
anos atrás, tratou disso com humor: víamos uma mulher enfrentando as
dores do parto enquanto uma voz masculina dizia que elas são fracas, não
suportam dor, outras bobagens. A república deixou de ser viril. E com isso
mudou a coisa pública: não é mais algo transcendente, uma pátria acima de
seus componentes, à qual eles se sacrificam, mas o tesouro público, o
dinheiro do Estado. Vemos hoje o Estado não como um valor, um ideal, mas
só como a caixa do condomínio. Por isso fica difícil, desde meados do século
20, o ideal de morrer pela pátria. Praticamente não faz mais sentido, tanto
que os exércitos dos países ricos, os que realmente entram em guerra, são
compostos em boa parte de soldados pagos, mercenários. Também por isso,
para nós corrupção é só furto. O corrupto é um ladrão. Insisto há anos, com
vários outros, que o furto do dinheiro público é mais do que o furto do
dinheiro privado, porque mata gente por falta de hospitais, escolas e tudo o
mais. Mas essa tese persuade poucos. Talvez por isso a corrupção acabe
sendo impossível de extirpar. Existe aqui, mas também nos Estados Unidos,
França, Reino Unido, as três pátrias da democracia moderna.
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Mas pode ser que o conceito de coisa pública esteja se ampliando numa nova
direção - que seria a república se democratizar. Estão se introduzindo na
coisa pública, ao longo dos últimos séculos, valores como liberdade,
igualdade, fraternidade. Muitos dos que estudaram a República Romana
pensam que ela desabou porque não conseguiu resolver a questão social, isto
é, a exclusão dos pobres. Quando os senadores assassinaram os irmãos
Graco, defensores da reforma agrária, prepararam o caminho para décadas
de guerra civil, finalmente levando ao advento do império populista, com
Júlio César e Otávio Augusto. As repúblicas modernas passaram ou passam
por esse desafio. Estados Unidos e França talvez tenham sofrido mais dores
no processo de inclusão social dos deserdados do que no advento de uma
república inicialmente patrícia. É a inclusão social que dá sustentabilidade à
república. Sem isso, ela pertence só a uma pequena minoria. O Brasil passa
hoje por essa crise. Há quem queira manter a república em mãos de poucos,
e há os que a querem ampliar. Se a inclusão prosperar, teremos um país
desenvolvido, sem miseráveis e mesmo pobres; se não, nada disso.

Há uma série de demandas inicialmente democráticas, como saúde,


educação, transporte e segurança, mal atendidas pelo setor público. Quem
tem dinheiro paga esses serviços no mercado privado. Quem não tem
depende de um Estado que não os fornece em qualidade suficiente. A
exigência de qualidade é popular. Nós da classe média e os mais ricos não
precisamos do Estado para tanto, mesmo que reclamemos de pagar impostos
e ter pouco em troca. Mas essa demanda do povo, dos pobres, do demos
grego, se torna condição para a república não morrer. Deixa de ser uma
exigência só democrática para se tornar necessidade republicana. É nesse
sentido que a corrupção deixa de ser mero furto para se tornar assassinato, à
medida que faltam escolas, hospitais, etc. A república falha em sua meta, a
coisa pública, porque essa não é apenas o erário, é aquilo para que serve o
erário.
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A ampliação da coisa pública vem com um fato pouco notado. Até alguns
anos atrás, a assistência aos mais pobres era caridade, palavra essa que perdeu
valor, ficando associada a uma condescendência de cima para baixo, a algo
não sustentável. Os programas de inclusão social iniciados com Itamar
Franco, desenvolvidos por FHC e fortemente incrementados nas gestões
petistas acabaram com a cesta básica, dada aos mais pobres como uma
esmola, que servia aos caciques políticos, sendo substituídos por informação
trabalhada em redes. O Bolsa Família é atribuído pelo cruzamento de várias
informações, de modo a ser mais justo e, sobretudo, atender a todo o
público visado. Narro uma história. Na República Velha, Humberto de
Campos, senador e escritor, se impressiona com um leprosário no Maranhão
e procura o presidente para pedir-lhe cem contos. Washington Luiz nega:
“Nem cinco! Se der para um, todos os Estados hão de querer igual”. Pano
rápido. Nas décadas seguintes os governos porão, sim, dinheiro em hospitais
e todo o resto, mas muitas vezes a escolha é de sofia: financia-se um ou
outro, até por pressões políticas, mas o cobertor não dá para todos. Ora,
desde que temos um sistema fortemente informatizado, a meta passa a ser a
de atender a todos. Por um lado, há uma focalização da ajuda nos mais
necessitados, mas, por outro, nenhum desses deve ficar fora. Essa é a
novidade. É o fator técnico que permite que atender a necessidades dos mais
carentes, tema tipicamente democrático, se torne um tema republicano.
Uma sociedade sem pobres se torna um novo e decisivo conteúdo da res
publica.

Renato Janine Ribeiro, professor titular de Ética e Filosofia Política da USP, é


autor de A Sociedade Contra o Social: o Alto Custo da Vida Pública no Brasil
(Companhia das Letras)

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