Você está na página 1de 199

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

Adriano Corrêa da Silva, sjs

A ANENCEFALIA FETAL E O ABORTO NA EVANGELIUM VITAE


DO PAPA JOÃO PAULO II

MESTRADO EM TEOLOGIA

São Paulo-SP

2012
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

Adriano Corrêa da Silva, sjs

A ANENCEFALIA FETAL E O ABORTO NA EVANGELIUM VITAE


DO PAPA JOÃO PAULO II

MESTRADO EM TEOLOGIA

Dissertação apresentada como exigência


parcial para obtenção do título de mestre em
Teologia Moral à Banca Examinadora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
sob a orientação do Dr. Pe. Kuniharu Iwashita,
CSSp.

São Paulo-SP

2012
COMISSÃO EXAMINADORA

_______________________________________________
Prof. Dr. Pe. Kuniharu Iwashita, CSSp.

Prof. Dr.

Prof. Dr.
Sim! Pois tu formaste os meus rins, tu me teceste no seio materno. Eu te
celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas maravilhas!
Conhecias até o fundo do meu ser. Teus olhos viam o meu embrião

(Sl 139,13-14.16a).
DEDICATÓRIA

Dedico esta dissertação ao Instituto Missionário


Servos de Jesus Salvador, em forma de gratidão,
pela formação recebida para o sacerdócio e pelo
incentivo para este Mestrado.
Estendo os meus agradecimentos aos meus amigos e
benfeitores que me apoiaram, seja por meio de ajuda
financeira, seja por meio de ajuda moral.
Por fim, dedico tal trabalho aos meus familiares,
especialmente as pessoas de meus pais, Antônio
Pedro H. da Silva e Maria Aparecida Corrêa da
Silva; de meus irmãos, Andrêa Corrêa da Silva e
Alexandre Corrêa da Silva e de meus sobrinhos,
Stephany, Emanuele e Pedro Henrique.
AGRADECIMENTOS

Desejo que esta dissertação seja oferecida em ação de graças ao Deus da Vida, pois nEle
se encontra a origem de toda a criação, onde o ser humano se destaca como sua obra
mais excelente: Dele viemos, nEle nos movemos e para Ele retornaremos!

E se hoje, conquisto novos horizontes no campo acadêmico, foi porque muitos


acreditaram e apostaram em mim, especialmente a família religiosa em que fui formado
como sacerdote, a Fraternidade Jesus Salvador, na pessoa dos meus formadores,
superiores, de todos os irmãos e irmãs, que fazem parte do Louvor de Deus. Ao Pe.
Gilberto Maria Defina, sjs, fundador – homem sábio e santo – deixo registrada a minha
admiração e gratidão por tamanho exemplo de amor e dedicação à Igreja de Nosso
Senhor Jesus Cristo, e, que, neste mesmo amor, soube educar a nós, seus filhos.

Aos meus pais, Antônio Pedro H. da Silva e Maria Aparecida C. da Silva, que souberam
dizer “sim” ao dom da vida, não somente me permitindo que viesse à existência, mas
me educando nos valores fundamentais da pessoa humana a partir do próprio exemplo
de suas vidas. Aos meus irmãos, Andrêa e Alexandre, por terem aprendido o significado
do amor, que consiste em se abrir para o outro gerando novas vidas a partir da doação
de si mesmos. Às minhas sobrinhas Stephany (Teté) e Emanuele (Manuzinha) e ao mais
novo da família, Pedro Henrique (Pedrinho), sejam bem-vindos à vida!

Ao Sr. Bispo diocesano de Santo Amaro, D. Fernando Antônio Figueiredo, pelo apoio
nos estudos e oportunidade em lecionar no curso seminarístico de Teologia da própria
diocese.

Os meus agradecimentos se estendem aos amigos e benfeitores que investiram


financeiramente para que este curso de pós-graduação pudesse chegar à sua conclusão.

À Adveniat, pelas bolsas de estudo ao longo do curso.

E, finalmente, ao meu orientador, Dr. Pe. Kuniharu Iwashita, CSSp, pela sua atenção
tão próxima e pelo seu exemplo de amor ao conhecimento e de simplicidade ao
transmiti-lo. Da mesma forma, se estende a minha gratidão ao co-orientador, Dr. Fr.
Carlos Josaphat, OP, pela sua prontidão em todos os momentos em que eu precisei de
sua ajuda.
RESUMO

Em meio às diversas ameaças em que a vida humana se encontra, a Igreja Católica


arrefece ainda mais a sua missão herdada por Cristo de anunciar o Evangelho da Vida à
universalidade dos povos, pois ela crê firmemente, que a vida humana, mesmo quando
marcada por fragilidades, e até mesmo por deficiências físicas ou mentais, pré e pós-
natal, é sempre um dom esplêndido de Deus a ser protegido. É neste horizonte de defesa
da vida humana, e mais precisamente, dos casos de anencefalia fetal, que esta respectiva
dissertação se converge para evidenciar sob a luz da Revelação cristã, mas também por
meio da interdisciplinaridade, que a vida humana consiste em um princípio fundamental
e primário entre todos os valores existentes entre as diversas culturas. Portanto, o
primeiro capítulo fala sobre uma expressão muito usada por João Paulo II - “cultura da
vida” - que, por sua vez, deve ser cultivada e propagada em todo o mundo como centro
da mensagem anunciada por Cristo e delegada à sua Igreja como depositária deste
Evangelium Vitae no tempo e na história da humanidade, pois o homem vivo constitui o
primeiro e fundamental caminho eclesial. Para este objetivo, o respectivo capítulo
aborda o aspecto bíblico-teológico da concepção da vida humana e do ser humano. No
segundo capítulo, em contraposição ao primeiro, faz a explanação da terminologia -
“cultura de morte” – uma vez que existem inúmeros sinais que se levantam para
ameaçar a vida humana, e a vida humana nascente, recebida de Deus como dom. E uma
das ameaças contra a dignidade do homem ainda na sua fase uterina é a cultura de morte
do aborto, que tenta ampliar a legislação em todo o mundo, inclusive no atual
Congresso Brasileiro, para incluir os casos de anencefalia fetal. Por fim, o terceiro
capítulo, já como caráter de conclusão, reafirma a defesa da vida humana como tarefa e
responsabilidade, que deve ser assumida, não somente pela Igreja de Cristo, mas por
todas as pessoas de boa vontade como caminho a ser percorrido para uma questão de
sobrevivência da própria humanidade, que deve se despertar, cada vez mais, para o
amadurecimento ético frente ao princípio de defesa da vida humana, principalmente a
vida indefesa intra-uterina.

Palavras chaves: Evangelium Vitae, cultura da vida, cultura de morte, anencefalia fetal,
pré-natal, defesa da vida humana versus aborto, responsabilidade.
ABSTRACT

Amid the various threats that human life is, the Catholic Church cools further its
mission inherited by Christ to proclaim the Gospel of Life to the universality of the
people, for she firmly believes that human life, even when marked by weaknesses, and
even by physical or mental disabilities, pre-and postnatal, is always a splendid gift of
God to be protected. This is the horizon of the defense of human life, and more
precisely, the cases of fetal anencephaly, that their dissertation converges to evidence in
the light of Christian revelation, but also through interdisciplinarity, that human life is a
fundamental principle and primary among all values between different cultures.
Therefore, the first chapter is about an expression often used by John Paul II - "culture
of life" - which, in turn, must be cultivated and propagated throughout the world as the
center of the message proclaimed by Christ and his Church as delegated depository of
Evangelium Vitae and in time in the history of mankind, for man alive is the first and
fundamental way for the Church. For this purpose, the respective chapter discusses the
aspect of biblical-theological conception of human life and human being. In the second
chapter, in contrast to the first, is the explanation of the terminology - "culture of death"
- since there are numerous signs that arise to threaten human life, and nascent human
life, God-given as a gift. And one of the threats to human dignity still in its early uterine
culture is the death of abortion legislation that attempts to expand worldwide, including
in the current Brazilian Congress, to include cases of fetal anencephaly. Finally, the
third chapter, such as character conclusion reaffirms the defense of human life as a task
and responsibility that must be taken not only by the Church of Christ, but for all people
of good will as a way to go before a question of survival of humanity itself, which must
be awakened, increasingly, develop an ethical principle against the defense of human
life, especially the helpless intra-uterine life.

Keywords: Evangelium Vitae, culture of life, culture of death, fetal anencephaly,


prenatal care, defense of human life versus abortion, responsibility.
SIGLAS E ABREVIAÇÕES

CaIC Catecismo da Igreja Católica

CELAM Conferência Episcopal Latino Americana

CF Campanha da Fraternidade

CIC Codex Iuris Canonici

DAp Documento de Aparecida

DH Denzinger – Hünermann (DH). Compêndio dos Símbolos,


definições e declarações de fé e moral

DP Instrução Dignitas Persone

DsAP Declaração sobre o aborto provocado

DSI Compêndio da Doutrina Social da Igreja

DV Instrução sobre o respeito à vida humana nascente e a


dignidade da procriação. Respostas a algumas questões
atuais

EN Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi

EV Carta Encíclica Evangelium Vitae

FC Exortação Apostólica Familiaris Consortio

GS Constituição Pastoral Gaudium et Spes

HV Carta Encíclica Humanae Vitae

Lexicon Termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e questões


éticas

RH Carta Encíclica Redemptor Hominis

RN Carta Encíclica Rerum Novarum

PT Carta Encíclica Pacem in Terris

Didaqué O catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de


hoje
 
 
 
SUMÁRIO

Siglas e abreviações ...........................................................................................................10


Introdução geral ................................................................................................................11

Capítulo I
A vida humana como um princípio fundamental da missão da Igreja

Introdução ao capítulo ......................................................................................................15


1.1 Cultura da vida ............................................................................................................16
1.2 Concepção bíblica de vida humana............................................................................29
1.3 Concepção teológica da pessoa humana e sua aplicação ao embrião .....................36
1.3.1 Concepção ontológica de pessoa humana...............................................................44
1.3.2 Concepção moral de pessoa humana ......................................................................45
1.3.3 Concepção hermenêutico-fenomenológica .............................................................48
1.4 A infusão da alma espiritual: origem da pessoa humana ........................................53
1.5 A origem da vida humana à luz do dado científico ..................................................59
1.6 Defesa da vida humana versus aborto na Tradição e no Magistério eclesial .........63
Conclusão ...........................................................................................................................68

Capítulo II
A mentalidade abortista em oposição ao princípio de defesa da vida humana

Introdução ao capítulo ......................................................................................................70


2.1 Cultura de morte .........................................................................................................71
2.1.1 Alguns fatores apontados pela Igreja no Brasil que favorecem o aborto ...........76
2.1.2 Aspecto jurídico do aborto no Brasil .....................................................................81
2.2 O que é o aborto anencefálico?...................................................................................85
2.3 Raízes da mentalidade abortista ................................................................................92
2.4 Mentalidade em favor do aborto................................................................................97
2.5 Manipulação da linguagem:
Tentativa de aliviar a consciência em favor do aborto...................................................103
Conclusão ...........................................................................................................................110
Capítulo III
O Evangelho da Vida como centro da mensagem cristã

Introdução ao capítulo ......................................................................................................112


3.1 Visão geral da Evangelium Vitae ................................................................................113
3.2 O princípio de defesa da vida em caso de anencefalia fetal .....................................125
3.2.1 A defesa da vida humana e os Direitos Humanos..................................................127
3.2.2 A defesa da vida humana e a Lei Natural ..............................................................135
3.2.3 A defesa da vida humana e a jurisdição brasileira................................................144
3.2.4 A defesa da vida humana e a Igreja no Brasil frente ao aborto...........................149
3.3 Identidade e Estatuto do Nascituro............................................................................155
3.4 O princípio da responsabilidade em defesa da vida humana ..................................170
Conclusão ...........................................................................................................................180

Conclusão geral..................................................................................................................183

Bibliografia.........................................................................................................................188

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
11 

Introdução

O mandato missionário de Cristo aos seus apóstolos de proclamar o evangelho a toda


criatura, comporta num verdadeiro princípio de defesa da própria vida humana, visto que
Cristo perdeu a sua própria vida, para que a tivéssemos em abundância, pois nisto consiste a
glória de Deus, o homem vivente.
Diante desta dádiva recebida das mãos do Criador, a criatura humana tem uma tarefa a
realizar, que, por sua vez, comporta como sua magna responsabilidade: preservar tal dádiva já
desde o momento em que ela se inicia na sua fase embrionária e ao longo de todas as outras
etapas da existência humana.
Entretanto, no mundo hodierno em que se vive, a tarefa de defesa da vida não tem sido
fácil, quando nos deparamos numa cultura de morte, que se levanta numa verdadeira
contraposição de valores, para escolher quem pode viver e quem não, considerando a vida,
que é uma realidade sagrada, simplesmente uma coisa, que o homem reivindica como sua
exclusiva propriedade, que pode plenamente dominar e manipular.
No entanto, se verá que, tal reivindicação se torna uma verdadeira contradição diante
do patrimônio positivo, que a própria cultura humana já conquistou. E um exemplo salutar são
os próprios direitos humanos garantindo aquilo que já estava inscrito no coração humano: o
direito à vida, como valor fundamental ou primário no conjunto das diversas culturas.
É neste horizonte, que o primeiro capítulo desta dissertação, trata da construção de
uma cultura da vida como parte essencialmente integrante da missão assumida pela Igreja
enviada à catolicidade dos povos. Tratando-se de uma promoção da cultura da vida, que se
contrapõe às práticas abortivas, faz-se necessário por parte da Igreja, uma evangelização que
procure conscientizar os homens e as mulheres sobre a beleza da sexualidade caracterizada
por sua abertura para o outro, como também conscientizar sobre a beleza da procriação
norteada nos princípios da responsabilidade, do amor e da sinceridade, uma vez que muitos
abortos são provocados por causa da falta de responsabilidade diante do ato sexual.
A promoção da vida, também exige uma compreensão sobre a sacralidade, e, portanto,
sobre a inviolabilidade da vida humana recebida como dom de Deus desde a concepção. Neste
sentido, entende-se que o homem não é dono, mas administrador da vida, que deve ser
acolhida como uma realidade sagrada que é confiada para ser guardada com sentido de
responsabilidade.
12 

Outro elemento extremamente fundamental para a promoção da cultura da vida é uma


compreensão de quem é o homem assumido na sua totalidade corpórea e espiritual: o ser
humano como pessoa ou substância individual de natureza racional. Esta definição permite
afirmar que o ser humano é uma pessoa em virtude de sua própria natureza e não que se torna
pessoa em virtude do exercício específico de certas funções, como por exemplo, a capacidade
de relação, de sensibilidade e de racionalidade. O homem não pode ser reduzido a um feixe de
fenômenos, como diz o funcionalismo empirista, porque senão ele seria o seu próprio “fazer”
e não seria um “ser”.
Portanto, não se pode definir a pessoa humana pela sua inteligência, pela sua
consciência nem mesmo pela sua liberdade, pois, mesmo que estas faculdades faltem, o
homem não deixa de ser pessoa humana. Deste modo, verifica-se que é justamente o
contrário: a pessoa humana, enquanto ser subsistente, é que está na base dos atos de
inteligência, de consciência e de liberdade. Portanto, assumir a responsabilidade pela outra
pessoa, e nesse caso pelo anencéfalo fetal, só é possível a partir da compreensão e valorização
que se tem do mesmo como pessoa humana.
Ainda neste capítulo, se verá que a Igreja, frente às diversas posições sobre o momento
exato da infusão da alma, origem da pessoa humana, sempre se manifestou em defesa da vida,
seja qual fosse o estágio que se encontrasse, aplicando, até mesmo, sansões canônicas, a quem
tentasse contra este dom divino.
Se no primeiro capítulo afirma-se, que o mistério do homem só se torna claro
verdadeiramente no mistério do Verbo encarnado, também o contrário é verdadeiro: perdendo
o sentido de Deus, tende-se a perder também o sentido do homem, da sua dignidade e da sua
vida.
Portanto, no segundo capítulo em oposição ao princípio de defesa da vida assumido
pela Igreja, tratará sobre a mentalidade abortista e suas raízes, que, têm marcado a cultura
humana, chegando ao ponto de concebê-la em uma verdadeira cultura de morte ou em crise,
quando, até mesmo, o sentido do homem, dos seus direitos e deveres são colocados em
dúvidas por causa do assim chamado relativismo.
A expressão “cultura de morte”, usada pelo Papa João Paulo II, servia para caracterizar
não a totalidade de uma sociedade, mas a algumas realidades negativas do homem
compartilhadas por um grande número de pessoas. Tal termo refere-se a uma visão social que
considera a morte de certos seres humanos como sendo um favor para a humanidade.
E para favorecer tal mentalidade, que busca servir aos interesses egoístas do homem
concebido como medida de todas as coisas, tenta-se fazer uma manipulação da própria
13 

linguagem com o intuito de não causar tanto impacto na sociedade com os inúmeros casos de
aborto. E mesmo quando tal prática se torna parte da legislação de um país, tal lei não se torna
justa quanto à sua moralidade perante a perspectiva natural e sobrenatural do próprio homem,
visto que se trata de uma discriminação entre as pessoas: algumas dignas de ser defendidas e
outras não.
A cultura da vida defendida e propagada pelos homens de boa vontade, deve oferecer
ajuda e apoio às gestantes no sentido de aceitarem o filho, mesmo quando em situação de
malformação, sabendo reconhecer nele a dignidade que é comum a todos: a dignidade
humana.
Neste sentido, o aborto ocorrido em caso de anencefalia fetal pode ser distinguido em
dois casos específicos: o aborto involuntário terapêutico, que, por sua vez, é lícito, quando o
tratamento visa intencionalmente a prestação de assistência médico-hospitalar àquela
anomalia, mesmo que consequentemente resulte na perda do feto, caso este, conhecido de
duplo efeito. Já o aborto voluntário eugênico, ilícito, trata-se de selecionar os fetos sadios
menosprezando e impedindo que continue o processo de desenvolvimento fetal que possui tal
malformação cerebral.
A prática eticamente aceitável com relação ao feto é aquela que o reconhece, a partir
da fecundação, uma pessoa humana, como qualquer outra pessoa, e como tal, dotada de
direitos, sendo o primeiro, o direito inviolável de todo ser humano à vida.
No terceiro capítulo, se abordará a estrutura textual do documento base mencionado ao
longo de toda a dissertação, a saber, a Carta encíclica de João Paulo II - Evangelium Vitae -
que, por sua vez, trata da seguinte temática: o valor e a inviolabilidade da vida humana.
É com grande ênfase, que tal temática abordada neste referido documento pontifício e
trabalhado ao longo de todo este estudo, tem seu valor reconhecido como elemento
fundamental não só numa perspectiva ad intra ecclesiae, mas também na perspectiva ad
extra, como por exemplo, nos Direitos Humanos assinados em 1948, que exerceu grande
influência na elaboração ou reelaboração das constituições federativas dos diversos países,
inclusive a do Brasil, que traz no cerne de sua Constituição Federal as chamadas Cláusulas
Pétrias garantindo a inviolabilidade dos direitos básicos a todo cidadão: o direito à
alimentação, à moradia, a educação, a saúde... à vida como o primeiro entre os direitos
fundamentais.
Ver-se-á, que, na realidade específica vivida no Brasil, mesmo que uma gravidez seja
indesejada, quando ocorre o estupro, a prática do aborto não pode ser moralmente admitida
14 

como uma justificativa por parte da mãe, que em muitos casos, age como sendo direito seu,
decidir sobre a vida do novo ser, que está sendo gerado em seu corpo.
E mesmo quando o aborto é pensado como possibilidade em caso de anencefalia fetal,
projeto que está sendo apresentado e estudado atualmente no Congresso Nacional, tal
anomalia, seja ela mental, seja de caráter físico, não justifica a prática abortiva, visto que o ser
humano não pode ser definido pela sua capacidade intelectiva, pela sua consciência nem
mesmo pela sua liberdade, o que seria um reducionismo; pois, mesmo que estas faculdades
faltem, o homem não deixa de ser pessoa humana.
E para mostrar, que tal atentado não consiste somente contra a criança, que é vitimada,
os pronunciamentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, têm realizado um
admirável trabalho de defesa da vida humana, também no que diz respeito em relação à
própria figura da mãe, que sofre tanto com os efeitos físicos, quanto psíquicos provocados
pelo aborto.
A vida humana, assumida, defendida e promovida por Cristo, deve ser acolhida por
todos os homens como um dom de Deus, mas também como uma tarefa, que exige de cada
pessoa, uma responsabilidade em defendê-la na sua totalidade, isto é, desde a concepção e
durante todo o seu itinerário de desenvolvimento, intra e extra-uterina, visto que se trata de
uma lei natural já inerente ao coração humano e que consiste basicamente em fazer o bem e
evitar o mal.
É dentro deste tema do aborto e da anencefalia fetal na Carta encíclica Evangelium
Vitae, que esta respectiva dissertação se coloca a favor da vida humana reconhecida no seu
valor e na sua inviolabilidade desde o seu início até o seu final natural, pois a defesa da vida
se torna parte central da mensagem cristã e, portanto, da missão da Igreja como legado de
Cristo a toda humanidade.
15 

Capítulo I
A vida humana como um princípio fundamental na missão da Igreja

Introdução ao capítulo

Este respectivo capítulo tratará de abordar o tema - “vida humana” - como sendo a
principal missão da Igreja Católica presente nas mais diversas culturas, uma vez que já é
próprio do termo “cultura” evocar uma ideia carregada de positividade no que diz respeito ao
cultivo do conhecimento, das artes, das leis, dos costumes, entre outras coisas, de um povo.
Dentro deste contexto, falar de missão da Igreja como anúncio da mesma mensagem
revelada por Cristo, que sempre se colocou a favor da vida humana, significa falar de uma
mensagem que consiste em um Evangelho da Vida, que tem a promoção do ser humano como
sua prioridade e centralidade. Portanto, anunciar este Evangelho equivale em promover uma
“cultura da vida”, termo usado pelo Papa João Paulo II na Carta Encíclica Evangelium Vitae
para contrapor a uma infeliz “cultura de morte” propagada em todo o mundo e que tem se
levantado contra a dignidade humana, especialmente contra a indefesa vida intra-uterina.
Diante de tamanha responsabilidade que a Igreja assume em cultivar uma verdadeira
cultura da vida à universalidade dos povos, faz-se necessária a compreensão do que é a vida
humana e de quem é o ser humano na totalidade de sua unidade corpo-espírito. O ser humano,
ao lado das outras criaturas presentes na natureza, possui uma superioridade que consiste na
sua vocação sobrenatural enquanto ser criado à imagem e semelhança de Deus para gozar de
vida e vida plena.
Como se poderá ver, tanto no Antigo, quanto no Novo Testamento, a vida humana é
sempre um presente dado gratuitamente por Deus. Porém, ao mesmo tempo, que se constitui
em um dom, a vida humana também exige de todas as pessoas a tarefa de respeitá-la, defendê-
la e promovê-la, já que não se trata de apropriar-se dela arbitrariamente como um dono, que
faz o que bem deseja, mas de administrá-la responsavelmente.
A abordagem bíblico-teológica e, ainda, científica sobre a vida humana servirá para
confirmar que o ser humano é uma pessoa não por causa do conjunto fenomenológico de suas
funções, pois se isso fosse verdade, o deficiente feto anencéfalo, seria desconsiderado como
pessoa humana, mas o ser humano é uma pessoa por causa de sua natureza ontológica, que
consiste no “ser” e não no “fazer”.
16 

Portanto, este capítulo trata de mostrar a posição firme da Igreja Católica, por meio do
Sagrado Magistério, frente às ameaças que existem contra a vida humana, sobretudo contra a
vida humana nascente. Mesmo apesar da controvérsia vivida internamente na teologia antiga
sobre o momento exato da infusão da alma, o aborto sempre foi uma prática condenável pela
Igreja.

1.1. Cultura da vida

A promoção e a defesa da vida humana como um princípio da missão da Igreja


Católica nada mais é do que um cumprimento do legado deixado por Cristo aos seus
discípulos momento antes de sua ascensão: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda
criatura (Mc16,15a).” Nesse sentido, pode-se dizer, que, a missão iniciada por Cristo é a missão
continuada pelos seus seguidores. Os membros do corpo eclesial prolongam, no tempo e no
espaço da humanidade, o Evangelho revelado por Cristo-Cabeça: “Ora, vós sois o corpo de
Cristo e sois os seus membros (I Cor 12,27)”, portanto, cada membro deste corpo eclesial é
chamado a acolher e a transmitir o Evangelho da Vida a exemplo do apóstolo Paulo:
“Anunciar o evangelho não é titulo de glória para mim; é, antes, necessidade que se me impõe. Ai de
mim, se eu não anunciar o evangelho (I Cor 9,16)!”
O Papa Paulo VI dizia que “existe uma ligação profunda entre Cristo, a Igreja e a
evangelização. Durante este ‘tempo da Igreja’ é ela que tem a tarefa de evangelizar. E essa tarefa não
se realiza sem ela e, menos ainda, contra ela.”1
A Igreja crê firmemente que a vida humana, mesmo se débil e com
sofrimento, é sempre um esplêndido dom do Deus da bondade. Contra o
pessimismo e o egoísmo que obscurecem o mundo, a Igreja está do lado da
vida: e em cada vida humana sabe descobrir o esplendor daquele ‘Sim’,
daquele ‘Amém’ que é o próprio Cristo. Ao ‘não’ que invade e aflige o
mundo, contrapõe este ‘Sim’ vivente, defendendo deste modo o homem e o
mundo de quantos insidiam e mortificam a vida.2
No tocante à missionaridade da Igreja, a centralidade da mensagem cristã consiste no
anúncio do Evangelho da Vida:

                                                            
1
PAULO VI. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. Sobre a evangelização do mundo contemporâneo. In:
DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos de Paulo VI. São Paulo: Paulus, 1997, n. 16. Daqui em diante
segue-se EN.
2
PAULO II, João. Exortação Apostólica A missão da família cristã no mundo de hoje. São Paulo: Paulinas,
1982, n. 30. Daqui em diante segue-se FC [Familiaris Consortio].
17 

O Evangelho da Vida está no centro da mensagem de Jesus. Amorosamente


acolhido cada dia pela Igreja, há de ser fiel e corajosamente anunciado como
boa nova aos homens de todos os tempos e culturas.3 É por este motivo que
o homem, o homem vivo, constitui o primeiro e fundamental caminho da
Igreja.4
O Papa João Paulo II em sua Encíclica Redemptor hominis disse que o Evangelho,
como o próprio cristianismo, consiste naquela profunda admiração do valor e dignidade do
homem e que tal admiração determina a missão da Igreja no mundo, especialmente no mundo
contemporâneo.5
Sendo, portanto, o homem a via da Igreja, via da sua vida e experiência
cotidianas, da sua missão e atividade, a Igreja do nosso tempo tem de estar,
de maneira sempre renovada, bem ciente da ‘situação’ de tal homem. E mais
(...) ela tem de estar bem ciente, ao mesmo tempo ainda, das ameaças que se
apresentam contra o homem. Ela deve estar cônscia, além disso, de tudo
aquilo que parece ser contrário ao esforço para que a vida humana se torne
cada vez mais humana e para que tudo aquilo que compõe esta mesma vida
corresponda à verdadeira dignidade do homem.6
Neste respectivo subtítulo, o intuito é explanar o que se entende pelo termo “cultura da
vida”, que, por sua vez, seria uma redundância afirmar os elementos positivos, que tal termo
abarca em seu conteúdo, visto que o termo “cultura” já traz em si mesmo uma positividade em
favor do ser humano e da vida humana, conforme se pode ver logo abaixo a significação do
termo. No entanto, assiste-se atualmente novas situações que colocam em ameaça à vida das
pessoas e dos povos, sobretudo quando ela é frágil e indefesa, como por exemplo, a vida intra-
uterina:
O século XX ficará considerado uma época de ataques maciços contra a vida
(...). A verdade é que estamos perante uma objetiva ‘conjura contra a vida’
que vê também implicadas Instituições Internacionais, empenhadas a
encorajar e programar verdadeiras e próprias campanhas para difundir a
contracepção, a esterilização e o aborto.7

                                                            
3
Idem, Carta Encíclica Evangelium Vitae. Sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana. 6ª edição, São
Paulo: Paulinas, 2009, n. 1. Daqui em diante segue-se EV.
4
Idem, n. 2.
5
Cf. PAULO II, João. Carta Encíclica Redemptor Hominis. 6ª edição, São Paulo: Paulinas, 1990, n. 10. Daqui
em diante segue-se RH.
6
Idem, 14; cf. NASCENTES DOS SANTOS, Tarcisio. Introdução ao discurso antropológico do Papa João Paulo
II (GS 22 e GS 24 no Programa do seu Pontificado). Coletânea, Rio de Janeiro-RJ, v. 04, n. 08, pp. 149-298,
[jul./dez.] 2005, pp. 218-219.
7
EV 17.
18 

É neste sentido, que o Papa João Paulo II utilizou o termo “cultura da vida” para
contrapor a uma “cultura de morte” disseminada em todo o mundo e que tem violado o valor
da dignidade humana, pois “cada homem está confiado à solicitude materna da Igreja. Por isso,
qualquer ameaça à dignidade e à vida do homem não pode deixar de se repercutir no próprio coração
da Igreja.”8
A Igreja é chamada a manifestar novamente a todos, com uma firme e mais
clara convicção, a vontade de promover, com todos os meios, e de defender
contra todas as insídias a vida humana, em qualquer condição e estado de
desenvolvimento em que se encontre.9
Nos últimos anos o magistério da Igreja colocou uma ênfase toda especial no valor da
vida humana. Apostando numa “cultura da vida” se deixou interpelar pelo “Evangelho da
vida”. E dentre estes documentos, destacam-se dois: o número 27 da Constituição Pastoral
Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, e a Encíclíca Evangelium Vitae, do papa João
Paulo II.
Nota-se que o número 27 da Constituição Pastoral Gaudium et spes, do Concílio
Vaticano II, constitui uma corajosa e bem fundamentada formulação do valor da vida humana.
“Anúncio” e “denúncia” se articulam perfeitamente neste texto conciliar em que: 1) se
fundamenta o valor da vida humana na consideração de todo ser humano, sem exceção, como
um “próximo”, isto é, como “outro eu”; 2) se enquadra o valor da vida humana no serviço à
totalidade da pessoa e, singularmente, da pessoa em situações de risco; 3) se denunciam as
situações contrárias a este valor da vida humana, considerando-as como “opróbrios” que
corrompem a civilização humana e como “desonras” ao Criador.
Tudo o que atenta contra a própria vida, como qualquer espécie de
homicídios, o genocídio, o aborto, a eutanásia e o próprio suicídio
voluntário, tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as
mutilações, as torturas físicas ou morais e as tentativas de dominação
psicológicas; tudo o que ofende a dignidade humana, como as condições
infra-humanas de vida, os encarceramentos arbitrários, as deportações, a
escravidão, a prostituição, o mercado de mulheres e jovens e também as
condições degradantes de trabalho, que reduzem os operários a meros
instrumentos de lucro, sem respeitar-lhes a personalidade livre e

                                                            
8
Idem, 3.
9
FC 30.
19 

responsável: todas estas práticas e outras semelhantes são efetivamente


dignas de censura.10
Dentro do esforço em querer conceitualizar o termo “cultura”, pode-se dizer que,
desde o final do século XIX os antropólogos vêm elaborando vários conceitos numa tentativa
de definir o termo cultura. Esta tentativa tem ultrapassado 160 definições e ainda não
chegaram a um consenso mais preciso do termo. “Para alguns, cultura é comportamento
aprendido; para outros, não é comportamento, mas abstração do comportamento; e para um terceiro
grupo, a cultura consiste em idéias.”11
Pode-se ainda dizer, que, entre estes, existem aqueles que concebem como sendo
cultura apenas os objetos imateriais, enquanto outros, ao contrário, concebem os objetos
materiais, e aqueles que consideram como cultura tanto as coisas materiais quanto as não
materiais.12
O termo deriva do verbo latino colere, que significa cultivar ou instruir, e do
substantivo cultus, que é igual a cultivo ou instrução. Portanto, cultura, no sentido mais
amplo, é o comportamento cultivado, em outras palavras, pode-se dizer que é o conjunto da
experiência adquirida e acumulada pelo ser humano e transmitida socialmente, ou ainda, o
comportamento adquirido por aprendizado social.13
O primeiro antropólogo a procurar definir um conceito de cultura foi Edward B. Tylor
(1871), em sua obra Cultura primitiva, que dizia o seguinte:
Cultura (...) é aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a
arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões
adquiridos pelo homem como membro da sociedade.14
Como pode verificar, o conceito cultura engloba todas as coisas e acontecimentos que
estão ligados ao ser humano: conhecimentos, crenças, valores, normas e símbolos.15 Estes,
por sua vez, são os elementos constitutivos da cultura evidenciando o aspecto positivo de uma
sociedade em favor do ser humano, autor e objeto da própria cultura.
Dentro desta perspectiva, pode-se mencionar a grande quantidade de conhecimentos,
que todas as culturas possuem e que são passadas de uma geração para a outra, e como
exemplo de tal conhecimento, pode citar aquilo que os indivíduos aprendem do meio
                                                            
10
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et Spe. Sobre a Igreja no mundo de hoje. In:
COMPÊNDIO DO VATICANO II. 26ª edição, Petrópolis – RJ: Vozes, 1997, n. 27. Daqui em diante segue-se
GS.
11
DE ANDRADE MARCONI, Marina e MARIA NEVES PRESOTTO, Zelia. Antropologia. Uma introdução.
6ª edição, São Paulo: Editora Atlas, 2005, p. 22.
12
Cf. ibidem.
13
Cf. KEESING, Feliz. Antropologia Cultural. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1972, p. 49.
14
Ibidem.
15
Cf. DE ANDRADE MARCONI, Marina e MARIA NEVES PRESOTTO, Zelia. Op. cit., p. 27.
20 

ambiente para sua sobrevivência como a obtenção de alimentos, construção de moradias e de


meio de transportes etc.
Já no que diz respeito aos valores, como sendo outro elemento constitutivo do conceito
de cultura, tal termo “é empregado para indicar objetos e situações consideradas boas, desejáveis,
apropriadas, importantes (...). O valor incentiva e orienta o comportamento humano.”16 No que diz
respeito aos valores, existem aqueles que são chamados de dominantes, tais como a liberdade
de expressão, de religião, como o direito à vida; como aqueles secundários como servir café
às visitas, por exemplo.
Como pode ver, a vida humana está como valor fundamental ou primário no conjunto
das diversas culturas. É dentro deste horizonte de concepção do termo cultura, que visa
colocar o próprio ser humano como autor e fim último da cultura, é que o Concílio Vaticano
II, afirmou com estas seguintes palavras o termo “cultura”:
Em sentido geral, indicam-se todas as coisas com as quais o homem
aperfeiçoa e desenvolve as variadas qualidades da alma e do corpo; procura
submeter a seu poder pelo conhecimento e pelo trabalho o próprio orbe
terrestre; torna a vida social mais humana, tanto na família quanto na
comunidade civil, pelo progresso dos costumes e das instituições; enfim,
exprime, comunica e conserva, em suas obras, no decurso dos tempos as
grandes experiências espirituais e as aspirações, para que sirvam ao proveito
de muitos e ainda de todo o gênero humano.17
Esta mesma Constituição Pastoral ainda afirmou, que, são os homens e as mulheres
dos vários grupos e nações, os criadores e autores da própria cultura. O homem é chamado a
assumir responsabilidade diante dos seus irmãos e da história se colocando sempre a favor dos
próprios direitos humanos.
A Igreja, enviada por todo o mundo para dar testemunho da Vida transmitida por
Cristo - “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância (Jo 10,10b)” - mesmo não
estando ligada de maneira exclusiva a nenhuma raça ou nação, assume a missão universal de
entrar em comunhão com as diversas formas de cultura, a fim de restaurá-la, combatendo e
removendo os erros e os males decorrentes da ameaçadora sedução do pecado. Neste sentido,
a Constituição afirma a respeito da missão da Igreja perante as diversas culturas:
Purifica e eleva incessantemente os costumes dos povos. Com as riquezas
do alto ele fecunda, como que por dentro, as qualidades do espírito e os

                                                            
16
Idem, p. 28.
17
GS 53.
21 

dotes de cada povo e de cada idade, fortifica-os, aperfeiçoa-os e restaura-os


em Cristo.18
Todo cristão, que fez a experiência de acolher o Evangelho da Vida anunciado por
Cristo, é chamado a se tornar um apóstolo deste mesmo Evangelho na sociedade em que vive,
contribuindo deste modo, em promover uma verdadeira cultura em favor da vida humana e
não da morte.
A evangelização da Igreja, compreendida como participação da missão profética,
sacerdotal e real de Cristo, assume a incumbência de anunciar o Evangelho da Vida à
universalidade de todos os povos: “Somos enviados como povo. O compromisso de servir a vida
incumbe sobre todos e cada um. É uma responsabilidade tipicamente eclesial”19, fazendo próximos
cada ser humano, sobretudo os mais pobres e necessitados: “Cada vez que fizestes a um desses
meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes (Mt 25,40).”
Tratando-se de uma promoção da cultura da vida, que se contrapõe às práticas
abortivas, faz-se necessário por parte da Igreja, uma evangelização que procure conscientizar
os homens e as mulheres sobre a beleza da sexualidade e da procriação.
Uma sexualidade biológica, que não passa de biologia, tal como estão
programados os animais, é má sexualidade, que sequer funcionará como
sexualidade. No homem a sexualidade biológica, que nele nasce
automaticamente e sem lhe pedir licença, deve tornar-se humana,
expressando o amor interpessoal do casal e dando-lhe consistência.20
Neste sentido, necessita-se de uma humanização da sexualidade, evitando, portanto,
cair nos extremismos do hedonismo selvagem de um lado, ou no neopuritanismo anti-sexual,
de outro. Pois, a história da sexualidade na história da humanidade é marcada por aqueles que
a viveram e vivem unicamente movidos pela busca do prazer, e outros a concebiam e
concebem como um meio para poder ter filhos. A sexualidade deve ser expressão de amor
interpessoal e contribuir eventualmente para a procriação, de modo que, quanto mais amor
interpessoal expressar a sexualidade, mais humana e mais satisfatória será, inclusive no plano
biológico21: “É uma ilusão pensar que se pode construir uma verdadeira cultura da vida humana, se
não ajudam os jovens a compreender e a viver a sexualidade, o amor e a existência inteira no seu
significado verdadeiro e na sua íntima correlação.”22

                                                            
18
Idem, 58.
19
EV 79.
20
HORTELANO, Antonio. Moral Alternativa. Manual de Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 2000, p. 194.
21
Cf. idem, pp. 194-196.
22
EV 97.
22 

Para os cristãos, a procriação humana, é um dos fins principais do matrimônio e tem


como resultado o nascimento de uma nova pessoa humana. Este ato procriador assume um
significado ainda mais alto, uma vez que envolve uma especial intervenção de Deus criador.
Nesse sentido, observa-se um duplo movimento no ato fecundativo: um avanço humano para
dentro do poder criativo de Deus e um curvar-se de Deus, que põe sua criação na dependência
de um processo entregue às mãos da própria criatura. Portanto, faz-se jus o termo
“procriação” por parte dos cônjuges, partícipes do amor fecundo e unitivo do próprio Criador.
Quando, pois, pela contracepção, os esposos tiram do exercício de sua
sexualidade conjugal a sua potencial capacidade procriadora, eles se
atribuem um poder que pertence a Deus: o poder de decidir em última
instância a vinda à existência de uma pessoa humana. Atribuem-se a
qualificação de serem não cooperadores do poder criativo de Deus, mas os
depositários últimos da fonte da vida humana.23
Afirma-se que a sexualidade é sempre caracterizada por sua abertura para o outro,
numa posição contrária estão os métodos contraceptivos como fechamento intencional à
procriação frustrando uma das finalidades do ato conjugal.24 Desse modo, a promoção da
cultura da vida também implica em promover uma ética da procriação que esteja norteada nos
princípios da responsabilidade, da verdade, do amor e da sinceridade, visto que muitos
abortos são provocados por causa da falta de responsabilidade diante do ato sexual.
Reconhecendo o ensinamento da Igreja, que todo ato matrimonial deve permanecer,
por si, aberto à transmissão da vida, nasce, consequentemente, uma responsabilidade em
relação a si mesmo, do próprio parceiro, do nascituro e do Criador.
Se o cônjuge crente reconhece o valor de pessoa e de criatura presente no
outro, não pode deixar de concordar plenamente que é parceiro do próprio
Criador, participante de seu amor fecundo e unitivo. A pessoa reconhece em
si o dom de um amor transcendente e de uma responsabilidade procriadora,
reconhece que a vida do filho é dom do Criador, antes mesmo de ser fruto do
amor conjugal.25
Seguindo esse mesmo raciocínio, se a sexualidade, precisamente o amor conjugal, são
constitutivamente marcados pela capacidade de abertura ao outro, definindo, assim, as duas
finalidades do matrimônio, a procriação de uma pessoa deve ser o fruto e o termo do amor

                                                            
23
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e Ética Biomédica, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola,
2002, p. 316.
24
Cf. CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. 15ª Edição, São Paulo: Loyola, 2002, cân. 1055, 1. Daqui em diante
segue-se CIC - Codex Iuris Canonici.
25
SGRECCIA, Elio. Op. Cit., p. 319.
23 

esponsal, pois “se o sentimento de amor (...) é seu centro, não obstante este sentimento (...) é
encarnado e sexuado, tende à plena integração das pessoas por meio da profunda comunhão dos
corpos e, sobretudo, dos corações.”26
A partir de uma humanização da sexualidade, homem e mulher, precisam
compreender que o matrimônio não é fruto do acaso, mas, instituído por Deus, tem a missão
de realizar na humanidade o seu desígnio de amor mediante a doação mútua dos cônjuges
entre si e de ambos na geração e educação de novas vidas.27 É neste horizonte de
humanização da sexualidade, que as notas características do amor conjugal devem se revestir
de uma clareza exata, conforme se pode conferir na encíclica Humanae Vitae do Papa Paulo
VI.
O amor conjugal é, primeiramente, um amor plenamente humano, ou seja, ao mesmo
tempo espiritual e sensível. E não deve ser confundido como um simples ímpeto do
sentimento, mas, principalmente como um ato da vontade livre, de modo que, na alegria, mas
também na dor, este amor seja renovado e os esposos se tornem um só coração. O amor
conjugal é também um amor total em que os esposos compartilham todas as coisas não
somente por aquilo que possuem, mas por aquilo que são. Ainda, o amor é marcado pela
fidelidade e pela exclusividade até que a morte os separe. E por fim, o amor, não se esgotando
na comunhão entre os esposos, deve ser fecundo se abrindo para a procriação e educação dos
filhos.28
Quando pelo contrário falta o sentido e o significado do dom na sexualidade,
acontece uma civilização das ‘coisas’ e não das ‘pessoas’; uma civilização
onde as pessoas se usam como se usam as coisas. No contexto da civilização
do desfrutamento, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os
filhos um obstáculo para os pais.29
Diante do amor conjugal exige-se dos esposos uma consciência da sua missão de
paternidade e maternidade responsáveis considerados sob diversos aspectos: sob o aspecto
biológico de transmissão da vida, a inteligência reconhece leis biológicas que fazem parte da
pessoa humana; sob o aspecto das paixões, o domínio e a supremacia da razão e da vontade; e

                                                            
26
CAMPANINI, C. “Matrimônio”. In: COMPAGNONI, Francesco; PIANA, Giannino e PRIVITERA, Salvatore
(orgs.). Dicionário de Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 1997, p. 764.
27
PAULO II, João. Ele os criou Homem e Mulher. Reflexões de João Paulo II sobre a corporalidade e a
sexualidade humana à luz da Sagrada Escritura. São Paulo, Editora Cidade Nova, 1982, p. 74.
28
Cf. PAULO VI. Carta Encíclica Humanae Vitae. Sobre a regulação da natalidade. 5ª edição, São
Paulo: Paulinas, 1988, n. 9. Daqui em diante segue-se HV.
29
PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. Sexualidade Humana: Verdade e Significado. Orientações
educativas em família. São Paulo: Paulus, 1996, n. 11.
24 

com relação às condições físicas, econômicas, psicológicas e sociais, a paternidade


responsável consiste tanto no fazer crescer uma família numerosa, como na decisão tomada de
evitar temporariamente, ou mesmo por tempo indeterminado, um novo nascimento.30 “Tanto
se pode faltar à moral não tendo filhos como tendo-os de maneira irresponsável.”31
O exercício responsável da paternidade implica, portanto, que os cônjuges
reconheçam plenamente os próprios deveres, para com Deus, para consigo
próprios, para com a família e para com a sociedade, numa justa hierarquia
de valores.32
Tendo em vista que a procriação é um gesto que compete à decisão livre do casal,
pode-se elencar algumas qualidades necessárias, para que o ato procriativo seja
verdadeiramente responsável. E estas qualidades são: a unidade, a consciência, a liberdade, a
gratuidade e a providência. “O casal procria responsavelmente quando possui em si, de modo
analógico, as mesmas qualidades do Deus Criador e redentor.”33
O casal, chamado pela própria natureza do matrimônio, a ser um, mediante a
comunhão de amor, também deve refletir tal unidade na vida do filho. Neste sentido, não
bastam os elementos biológicos necessários para a procriação e nem mesmo basta o instinto
procriativo. Todos estes elementos precisam ser assumidos e amadurecidos no amor, que faz
do homem e da mulher uma só carne, mas também os interpela a comunicar esta unidade na
vida do filho.
Falar de paternidade responsável significa falar da consciência que o casal é chamado
a tomar diante da responsabilidade do que é um filho. Deus mesmo, antes de fazer que exista
a realidade no ser, ele a gera em seu conhecimento e em seu amor: “Antes mesmo de te modelar
no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei (Jr 1,5).”
Da potencial e, em seguida, efetiva paternidade e maternidade, ambos são
responsáveis. O homem não pode deixar de reconhecer ou não aceitar o
resultado de uma decisão que foi também sua. Não pode se esconder por
detrás de expressões como: ‘não sei’, ‘não queria’, ‘foste tu que quiseste’. A
união conjugal comporta em todo o caso a responsabilidade do homem e da
mulher, responsabilidade potencial que se torna efetiva quando as
circunstâncias o impuserem.34

                                                            
30
Cf. idem, 10.
31
HORTELANO, Antonio. Op. cit., p. 208.
32
HV 10.
33
MURARO, G. “Procriação responsável”. In: COMPAGNONI, Francesco; PIANA, Giannino e PRIVITERA,
Salvatore (orgs.). Op. cit., p. 1021.
34
PAULO II, João. Carta às Famílias. 6ª edição, São Paulo: Paulinas, 2005, n. 12.
25 

Outra qualidade para uma paternidade responsável é a capacidade de liberdade diante


da procriação. Sabe-se que em toda cultura existem fatores que acabam influenciando o casal
na decisão de procriar (como sinal de virilidade, meio de revalorização pessoal, meio para
multiplicar a mão de obra etc) ou de não procriar (egoísmo, medo, comodismo, desconfiança
do futuro). O casal precisa libertar-se desses persuasivos ocultos, sociais e familiares que
influem na decisão procriativa.
Os responsáveis nesse processo são marido e mulher e somente eles. Os
demais: médicos, psicólogos, sacerdotes e governantes podem formar e
informar a partir de seus respectivos pontos de vista, mas em nenhum caso
devem decidir. Somente marido e mulher, e sempre os dois, em clima de
diálogo conjugal amadurecido e respeitoso, têm a última palavra quanto aos
filhos que devam ter. Todos os demais não devem ultrapassar a fronteira da
penúltima palavra. Ultrapassar esse limite constitui grave imoralidade e falta
de respeito à liberdade dos interessados.35
Outra característica é a gratuidade do casal em se abrir e respeitar a alteridade do
procriado. Esta qualidade resume todas as outras, pois sendo fruto do amor conjugal, é
marcada pela doação de vida para geração de outras vidas, eliminando qualquer tipo de
subordinação ou instrumentalização no relacionamento pais e filhos.
Por fim, o casal é chamado a ser imitador de Deus também na qualidade de ser
providência para os seus filhos. O homem e a mulher se tornam prolongamentos no tempo da
obra da criação por meio da procriação e da educação. A educação, nesse sentido, não
consiste somente em trazer os filhos à existência, mas também em ajudá-los, através do
diálogo e da presença dos pais, a crescerem nas dimensões físicas, psíquicas, morais,
espirituais, sociais e religiosas, que a própria vivência em sociedade exige.36
Ninguém pode ignorar que o primeiro exemplo e a maior ajuda que os pais
podem dar em relação aos próprios filhos é a sua generosidade em acolher a
vida, sem esquecer que assim os ajudam a ter um estilo de vida mais simples
e, além disso, que é menor mal negar aos próprios filhos certas comodidades
e vantagens materiais do que privá-los da presença de irmãos e irmãs que os
poderiam ajudar a desenvolver a sua humanidade e a realizar a beleza da
vida em todas as suas fases e em toda a sua variedade.37

                                                            
35
HORTELANO, Antonio. Op. cit., p. 207.
36
Cf. MURARO, G. “Procriação responsável”. In: COMPAGNONI, Francesco; PIANA, Giannino e
PRIVITERA, Salvatore (orgs.). Op. cit., pp. 1022-1023.
37
PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. Sexualidade Humana: Verdade e Significado. Orientações
educativas em família, n. 61.
26 

Afirmar que a sexualidade deve ser entendida como capacidade de se relacionar e se


abrir para os outros, equivale dizer que ela tem como fim intrínseco o amor no sentido de
doação e acolhimento. A relação que deve existir entre um homem e uma mulher deve ser
uma relação de amor: “A sexualidade deve ser orientada, elevada e integrada pelo amor, que é o
único a torná-la verdadeiramente humana.”38 É no ambiente da família, quando marcada pelos
valores cristãos, sobretudo daquele amor a Deus, que as crianças estarão mais dispostas a
viver tais valores morais que veem praticar na vida dos seus pais.
A família é a primeira e fundamental escola de sociabilidade, enquanto comunidade de
amor, ela encontra no dom de si a lei que a guia e a faz crescer. O dom de si, que inspira o
amor mútuo dos cônjuges, deve pôr-se como modelo e norma daquele que deve ser atuado nas
relações entre irmãos e irmãs e entre as diversas gerações que convivem na família. E a
comunhão e a participação quotidianamente vividas na casa, nos momentos de alegria e de
dificuldade, representam a mais concreta e eficaz pedagogia para a inserção ativa, responsável
e fecunda dos filhos no mais amplo horizonte da sociedade.39
Portanto, a educação cristã deve “sublinhar que a educação para a castidade é inseparável
do empenho em cultivar todas as outras virtudes e, de modo particular, o amor cristão que se
caracteriza pelo respeito, o altruísmo e o serviço e que, em definitivo, se chama caridade.”40 E tal
educação para a castidade deve se passar pelo domínio de si mesmo, o que, por sua vez, exige
as virtudes do pudor, da temperança, o respeito de si e dos outros e a abertura ao próximo.41
Com relação ao princípio da sinceridade, este deve ajudar o casal no discernimento
dos motivos que impõem a aceitação ou o adiamento de uma fertilidade procriadora, mesmo
quando se utilizam dos métodos eticamente corretos lembrando de que, no campo ético, para
uma ação ser lícita, é preciso que também os meios e os métodos sejam lícitos.
O aborto em caso de anencefalia fetal pode representar uma concepção reducionista do
ser humano como também uma forma de eliminar um “incômodo” por parte dos próprios pais,
que não estão dispostos em assumir a responsabilidade diante de tal anomalia. Do ponto de
vista da ética, a constatação de uma malformação ou de uma deficiência no nascituro não
equivale uma diminuição em nada de sua dimensão ontológica, pelo contrário, requer ainda
mais da sociedade proteção e ajuda perante tal fragilidade.

                                                            
38
Idem, n. 11.
39
Cf. FC 18, 63-64.
40
PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. Sexualidade Humana: Verdade e Significado. Orientações
educativas em família, n. 55.
41
Ibidem.
27 

...do ponto de vista ético, nestes casos, e num plano geral, impõe-se a
obrigação de promover a pesquisa e o amparo para prevenir essas
malformações em suas causas, e de sustentar as famílias com meios
adequados onde acontecer o nascimento desses indivíduos, que trazem
indubitavelmente encargos humanos e econômicos às vezes difíceis. Uma
sociedade se qualifica por sua capacidade de ajudar os fracos e os doentes e
não por sua arrogância em provocar sua morte precoce.42
Dentro dessa perspectiva em promover uma cultura da vida, caberia ao Governo
Federal brasileiro implantar no SUS (Sistema Único de Saúde) o programa de prevenção da
anencefalia como também de outras malformações decorrentes do mau fechamento do tubo
neural. O sucesso no uso do ácido fólico químico43, ao lado da alimentação natural, tem
atingido a porcentagem de 50% ou mais de redução da doença. Tal programa de prevenção
aplicado nos sistemas públicos de saúde beneficiaria, principalmente, as mulheres e famílias
pobres, que não têm condições financeiras para um tratamento particular.44
É urgente promover não apenas políticas para a família, mas também
políticas sociais, que tenham como principal objetivo a própria família,
ajudando-a, mediante a atribuição de recursos adequados e de instrumentos
eficazes de apoio quer na educação dos filhos quer no cuidado dos anciãos,
evitando o seu afastamento do núcleo familiar e reforçando os laços entre as
gerações.45
Mais adiante se verá que o ser humano é uma pessoa em virtude de sua natureza e não
que se torna uma pessoa em virtude do exercício específico de certas funções, como por

                                                            
42
SGRECCIA, Elio. Op. cit., p. 376.
43
“Fórmula química: Ácido pteroil glutâmico. Cristais amarelados. Fontes de ácidos fólicos ou folatos:
concentrações elevadas de folatos existem nas folhas verdes (a denominação de ácido fólico vem de folhas),
órgãos parenquimatosos como fígado e rins. Os vegetais, as frutas, produtos derivados do leite são as fontes mais
importantes dessas substâncias na dieta diária de um adulto. O leite humano ou de vaca são também fontes do
ácido fólico mas o leite de cabra é muito pobre nele. O ácido fólico é termo-lábil e de 50 a 95% do conteúdo dos
alimentos pode ser destruído pelo calor, especialmente se houver fervura. A mínima quantidade de ácido fólico
necessária ao homem é de 50 microgramos, mas a dose média é de 3,6 micogramos por quilograma por dia. Para
as mulheres grávidas a dose é de 500 micogramos por dia. O ideal é de que esta dose seja usada previamente às
gestações e mantida durante todo o período. Este procedimento em experiências feitas em vários países reduz em
até 75% a ocorrência de defeitos de soldadura do tubo neural em fetos como a anencefalia, mielomeningocele e
encefalocele. Em vários países, sabedores disso, vários alimentos são enriquecidos com a adição de ácido
fólico”. Cf. SILVEIRA MARTINS LEÃO JUNIOR, Paulo. “A dignidade da vida humana e as biotecnologias,
questões e perspectivas a partir do Direito.” In: CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL.
Instituto Nacional de Pastoral (org.). A dignidade da vida humana e as biotecnologias. Brasília: edições CNBB,
2006, p. 65.
44
Idem, “A dignidade da vida humana e as biotecnologias, questões e perspectivas a partir do Direito.” In:
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Instituto Nacional de Pastoral (org.). A dignidade da
vida humana e as biotecnologias, p. 54.
45
PAULO II, João. Carta encíclica Centesimus annus. In: DOCUMENTOS DA IGREJA. Encíclicas de João
Paulo II, n. 49. Daqui em diante segue-se CA.
28 

exemplo, a capacidade relacional, sensibilidade e racionalidade. O homem não pode ser


reduzido a um feixe de fenômenos, como diz o funcionalismo empirista, porque senão ele
seria o seu próprio “fazer” e não seria um “ser”.46
A criança anencéfala não perde sua dignidade humana em razão da
malformação que padece, devendo ser adotadas, conforme disposto na
Constituição e na legislação, as cabíveis e possíveis medidas de prevenção
(vide art. 196, caput e art. 198, II, ambos da CRFB), de baixo custo,
mediante acompanhamento pré-natal adequado e em especial com reforço de
ácido fólico, para sua mãe, antes e durante a gravidez, o que é importante
não só para evitar, em 50% dos casos ou mais, a anencefalia, como também
outras doenças correlatas, especialmente a espinha bífida.47
No entanto, o assumir a responsabilidade pela outra pessoa, e nesse caso pelo
anencéfalo fetal, só é possível a partir da compreensão e valorização que se tem do mesmo
como pessoa humana. Por isso, que é extremamente relevante a abordagem do embrião ou do
feto também como pessoa humana como veremos mais adiante, a fim de que o aborto não seja
buscado como alternativa diante de uma deficiência do próprio desenvolvimento do nascituro.
Em busca incessante da promoção de uma cultura da vida, a Igreja, mesmo
enfrentando as dificuldades pertinentes nas democracias pluralistas marcadas por um
relativismo individualista, ela, movida pela certeza de que a verdade moral não pode deixar de
ecoar em cada consciência, encoraja os políticos, começando pelos que são cristãos, a não se
deixarem ser vencidos, mas lutarem por uma promoção em favor da vida humana, como por
exemplo, a não aprovação da prática livre do aborto. Para esta promoção da vida humana, é
imprescindível a compreensão, cada vez mais apropriada do que é a vida humana e de quem é
o ser humano na sua dimensão corpo-espírito.

                                                            
46
Cf. CORRÊA DA SILVA, Adriano. “A aplicabilidade de pessoalidade é adequada na embriologia, de modo a
considerar o embrião humano uma pessoa?” Revista de Cultura Teológica, São Paulo, ano XIX, n. 73, pp. 11-
27, [jan./mar.] 2011, p. 25.
47
Cf. Idem, “A dignidade da vida humana e as biotecnologias, questões e perspectivas a partir do Direito.” In:
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Instituto Nacional de Pastoral (org.). A dignidade da
vida humana e as biotecnologias, pp. 50-51. 
29 

1.2. Concepção bíblica de vida humana

Um modo de pensar, que por sua vez, é indiscutível, é a consciência que o ser humano,
de toda a parte e de todos os tempos, tem de sua incapacidade em dar-se a vida a si mesmo.
“Embora o ser humano seja chamado a ser dono da própria vida, a ser livre, no íntimo experimenta
que sua vida é um dom.”48
A vida lhe é sempre outorgada pelo criador. E no que diz respeito ao sentido religioso,
a vida é sempre um dom divino, seja em sentido mítico, seja em sentido histórico, concedida
ao homem através de um ato criador. No que diz respeito ao sentido filosófico, o mundo e o
homem participam na vida divina, presente em todas as coisas: “A vida que Deus oferece ao
homem, é um dom, pelo qual Deus participa algo de si mesmo à sua criatura.”49 Porém, a dimensão
de criaturalidade de todos os seres, inclusive o ser humano, não significa apenas uma
dependência total de Deus, que sustenta todo o mundo criado, antes ainda, trata-se em
destacar o homem na mais alta dignidade e superioridade, porque criado segundo a imagem e
semelhança de Deus.
A Sagrada Escritura ensina que o homem foi criado “à imagem de Deus”,
capaz de conhecer e amar o seu Criador, e por este constituído senhor de
todas as criaturas terrenas (Cf. 1,26; Sb 2,23), para as dominar e delas se
servir, dando glória a Deus (Cf. Eclo 17,3-10). “Que é um mortal, para dele
te lembrares, e um filho de Adão, que venhas visitá-lo? E o fizeste pouco
menos que um deus, coroando-o de glória e beleza. Para que domine as
obras de tuas mãos, sob os seus pés tudo colocaste” (Sl 8,5-7).50
O ser humano foi chamado por Deus a uma plenitude de vida que vai além das
dimensões da sua existência terrena já que consiste na participação da própria vida de Deus.
Neste sentido, a grandeza e a importância do homem diante de Deus e do mundo consistem
em sua vocação sobrenatural.51
Seguindo a linha de pensamento de muitos Padres da Igreja, ser ‘imagem’ (selem) de
Deus é uma condição inerente à essência do homem (Cf. Gn 1,27; 9,6), isto é, diz respeito à dimensão
natural do homem, enquanto a ‘semelhança’ (demut) designa a graça santificante, isto é, de qualidade

                                                            
48
ANTONIO JORGE, José. Dicionário Informativo Bíblico, Teológico e Litúrgico. Campinas- SP: Editora
Átomo, 1999, p. 531.
49
EV 34.
50
LOPES, Geraldo. Gaudium et Spes. Texto e comentário. São Paulo: Paulinas, 2011, p.60.
51
DE BARROS BARBOSA, Francisco. “Evangelium Vitae: uma luz da bioética católica.” Análise e Síntese,
Salvador-BA, v. 06, n. 11, pp. 11-217, [jan./jun.], 2007, p. 37.
30 

sobrenatural.52 De modo que, a compreensão da imagem de Deus não pode se dar na


exterioridade, mas na própria essência da criatura humana. Em outras palavras, “no fato de que
o homem é uma pessoa que pode ‘representar’ Deus no mundo criado,”53 visto que somente com o
ser humano, entre todas as criaturas vivas, é que Deus estabelece uma relação pessoal (Cf. Gn
1,28-30; 2,17).54 Em suma, na própria constituição ontológica do ser humano – corpo, alma e
espírito – pode-se verificar tal soberania. A semelhança do homem com Deus o coloca em
destaque sobre todas as outras criaturas deixando evidente sua centralidade em toda obra da
criação (Cf. Sl 8,7-9).
Para o homem da Bíblia, Deus é sempre a origem e a plenitude de toda a vida. E
partindo de sua própria fraqueza, que o homem faz a experiência do Deus vivo e eternamente
vivente (Cf. Dt 32,40; Jos 3,10; Dan 12,7; Eclo 18,1).
No relato javista sobre a criação, Deus é sempre a origem de toda a vida, porém a
respiração do homem vem dele de um modo especial e o seu sopro divino o transforma num
ser vivente: “Então o Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em sua narinas
um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gn 2,7). Aqui, faz-se referência à
constituição essencial do homem por dois elementos – um material ou terreno, que recebe o
nome de carne (basar), e um outro elemento sobrenatural, que, por sua vez, é princípio vital,
imediatamente originado de Deus chamado alma (nepes), porém mais frequentemente rûah
(espírito). “Em concreto, a semelhança do homem com Deus deveria traduzir-se em sua soberania
sobre as outras criaturas (Cf. Gn 1,26.28-30; 2,15) como, ainda é provado pelo fato de lhes dar Adão
um nome (Cf. Gn 2,19s).”55
Outro aspecto fundamental para a antropologia do A.T. é o coração (leb).
Ele é a sede das paixões e dos sentimentos como do conhecimento e do
esforço espiritual. Sem dúvida, este termo designa, sobretudo, a interioridade
do homem em oposição ao seu aspecto exterior e corpóreo (Cf. 1 Sm 16,7).
Em particular, refere-se ao comportamento ético (Cf. Gn 20,5) e religioso
(Jos 22,5; 1 Sm 12,20.24;Ez 11,19s). Do coração procedem os impulsos que

                                                            
52
I. STADELMANN, Luis. “A vida na bíblia.” Encontros Teológicos, Florianópolis-SC, v. 23, n. 01, pp. 01-
189, [jan./abr.], 2008, p. 48.
53
WARNACH, V. “Homem. Estudo bíblico.” In: FRIES, Heinrich (org). Dicionário de Teologia. Conceitos
fundamentais da Teologia atual, vol. II. 2ª Ed. São Paulo: Loyola,1983, p. 325.
54
Cf. DE GRAMONT, Jérôme. “Antropologia.” In: LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário Crítico de Teologia. São
Paulo: Loyola; São Paulo: Paulinas, 2004, p. 149.
55
WARNACH, V. “Homem. Estudo bíblico.” In: FRIES, Heinrich (org). Dicionário de Teologia. Conceitos
fundamentais da Teologia atual, vol. II, p. 326.
31 

determinam a ação e o comportamento (Cf. Gn 6,5;Êx 36,2). (...) Por isso o


coração forma um só todo com a consciência (1 Sam 25,31).56
Para Silvia Schroer e Thomas Staubli, autores do livro “Simbolismo do Corpo na
Bíblia”, a reflexão racional em vista de uma compreensão para uma tomada de decisão tem
supremacia no coração: “Na Bíblia, o coração é, acima de tudo, o lugar da razão e do entendimento,
dos planos secretos, da reflexão e da decisão.”57 E tal afirmação pode-se verificar em Dt 29,3:
“Contudo, até o dia de hoje Iahweh não vos tinha dado um coração para compreender, olhos para ver e
ouvidos para ouvir.” O coração, ao lado dos sentidos humanos, tem o poder de reelaborar e
reordenar as impressões que vêm de fora. Também no livro de I Rs 3,9, o coração possui esse
mesmo sentido, quando Salomão pede a Deus um coração sábio: “Dá, a teu servo um coração
cheio de julgamento para governar teu povo e para discernir entre o bem e o mal, pois quem poderia
governar teu povo, que é tão numeroso?”
“Em Israel, ausência de coração não significa frieza de sentimentos, mas irreflexão, insensatez
ou simples estultícia”58, conforme pode-se ver no livro do profeta Oséias 7,11, quando dirige
uma acusação a Efraim, o reino do Norte: “Efraim é como uma pomba ingênua, sem inteligência,
pedem auxílio ao Egito, vão à Assíria.” Israel perdeu o bom-senso e foi insensato.
Nesse sentido, para o A.T. é a figura do coração, como sede das paixões e das decisões
determinando as ações e os comportamentos do ser humano, o sujeito do pecado e da
concupiscência e não a carne. Todos estes termos – basar, nepes, rûah, leb – designam o
homem na sua totalidade.
Deus é o manancial da vida (Cf. 35,10; Jr 2,13; 17,13), de modo que se Deus retira o
sopro vital, o homem cai no pó (Cf. Sl 103,29s; Jó 34,14s). Deus é o Senhor sobre a vida e a
morte (Cf. Nm 27,16; Dt 32,39; Sl 103,28s; Jo 12,10). À obediência a Deus é prometida a
bênção, a felicidade e a vida; à desobediência, a maldição, a desgraça e a morte (Cf. Dt
30,15.19). A vida é tratada com grande estima por um israelita, pois ela significa saúde,
salvação e felicidade (Cf. Sl 55,14; Mal 2,5; Ecl 9,9).
Se a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos é garantia de vida longa e feliz (Cf. Lv
18,5; Dt 5,16; Pr 3,1), o pecado significa uma diminuição ou morte a vida! O homem, criado
como imortal na sua origem, perde, em consequência do pecado, a vida (Cf. Gn 2,17).
A própria Lei foi dada por Deus como caminho da vida: “Ela é o livro dos preceitos de
Deus, a Lei que subsiste para sempre: todos os que a ela se agarram destinam-se à vida; e os que a
abandonarem perecerão (Br 4,1).”
                                                            
56
Idem, p. 327.
57
SCHROER, Silvia e STAUBLI, Thomas. Simbolismo do corpo na Bíblia. São Paulo: Paulinas, 2003, p. 62.
58
Idem, p. 63.
32 

“Isto explica como é difícil manter-se fiel ao preceito ‘não matarás’, quando não são
observadas as demais palavras de vida, às quais ele está ligado.”59 Neste sentido, pode-se afirmar
que não somente o quinto mandamento deve assegurar a proteção da vida, mas toda a Lei do
Senhor em sua extensão está a serviço desta proteção.
Foi, sobretudo, nos acontecimentos do Êxodo, como ponto mais alto da experiência de
fé do Antigo Testamento, que o povo de Israel descobriu quão preciosa é aos olhos de Deus a
sua vida, apesar da escravidão que o marcava e da sentença de morte que ameaçava todos os
seus recém-nascidos do sexo masculino (Cf. Êx 1,15-22).
Sobre a concepção da vida como origem divina também há o testemunho dado pelos
escritos de Qumrân:
É de Deus que procede o caminho de toda a vida (1 QH 15, 22). O justo
agradece a Deus pelo fato de já agora ter libertado sua vida da fossa e tê-lo
feito sair do inferno da condenação para as alturas da divindade (1 QH 3,
19s). Já se operou a passagem da morte para a vida.60
Israel, mesmo passando pela experiência da morte descobre que, do próprio seio da
morte Deus continua a chamá-lo para a vida. Do fundo do exílio proclama Ezequiel que
“Deus não tem prazer na morte do malvado, mas o chama a converter-se e a viver” (Ez
33,11). Ele sabe que Israel é como um povo de cadáveres, mas anuncia que sobre esses ossos
ressequidos Deus fará soprar seu espírito e que eles reviverão (37,11-14).61
Do mesmo modo acontece a compreensão no Novo Testamento sobre a vida humana.
Para Jesus a vida assume uma relevância superior que o alimento (Mt 6,25), de modo que
salvar uma vida é até mais importante que o cumprimento de observar o dia de sábado (Mc
3,4), pois “ele não é Deus de mortos, mas sim de vivos” (Mc 12,27a.).62
Os evangelhos sinóticos realçam o valor original e decisivo da pessoa humana diante
das realidades anti-humanas disfarçadas nas práticas religiosas. No evangelho de Marcos
existe uma passagem (2,13-3,6), que também tem paralelos em Mateus (12,1-14) e em Lucas
(5,27-6,11) na qual Jesus é apresentado na sua atuação como dono das instituições humanas.

                                                            
59
EV 48.
60
HERMANN SCHELKLE, Karl. Teologia do Novo Testamento. Ethos Comportamento Moral do Homem, vol.
4. São Paulo: Loyola, 1978, p. 238.
61
Cf. VIARD, André-Alphonse e GUILLET, Jacques. “Vida.” In: LÉON-DUFOUR, Xavier, DUPLACY, Jean,
GEORGE, Augustin, GRELOT, Pierre, GUILLET, Jacques, LACAN, Marc-François (orgs.). Vocabulário de
Teologia Bíblica. Petrópolis-RJ: Vozes, 1972, p. 1070.
62
Cf. ibidem.
33 

Deste modo, o valor da pessoa está em ligação com o senhorio de Jesus expresso na sua
atuação livre perante estas instituições religiosas.63
O N.T., assim como nos mostra o A.T., afirma que o homem é imagem de Deus (Cf. I
Cor 11,7; Tg 3,9), e que esta imagem de Deus é sua estrutura essencial. Dentro desta
consideração da estrutura essencial do ser humano, aparecem, no N.T., os três fatores
fundamentais da constituição humana: o corpo, a alma e o espírito, concebidos não como
partes antagônicas ou justapostas, mas são realidades integradas na totalidade do homem.
Na perspectiva do N.T., ainda continua mostrando que o homem não é dono da vida
(Cf. Lc 12,20; II Cor 1,9) e que ela é passageira (Cf. Tg 4,14). O dom da vida não é um bem
absoluto, mas relativo, pois o poder do homem sobre a própria vida e a dos outros é limitado,
tratando-se de um poder ministerial, de administração e tutela.64
O próprio chamado sobrenatural sublinha a relatividade da vida terrena do
homem e da mulher. Na verdade, esta vida não é realidade última, mas
penúltima; trata-se, em todo o caso, de uma realidade sagrada que nos é
confiada para a guardarmos com sentido de responsabilidade e levarmos à
perfeição no amor pelo dom de nós mesmos a Deus e aos irmãos.65
Numa perspectiva cristã, existe uma relação estreita entre a vida biológica do ser
humano e a vida eterna conquistada e herdada por Cristo. Remetidos ao prólogo do evangelho
de São João, lê-se: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus (...) E
o Verbo se fez carne, e habitou entre nós (Jo 1,1.14).” A verdadeira vida ou vida eterna também o
Verbo de Deus quis assumi-la em nossa condição humana vivida no tempo e no espaço deste
mundo terreno. Portanto, a vida biológica é expressão ou desdobramento da verdadeira vida.66
Como bem relativo, a vida pode ser sacrificada por um bem superior (Cf. Mc 8,35),
conforme nos ensina a Evangelium Vitae:
Certamente, a vida do corpo na sua condição terrena não é um absoluto para
o crente, de tal modo que lhe pode ser pedido para a abandonar por um bem
superior; como diz Jesus, ‘quem quiser salvar a sua vida, perde-la-á, e quem
perder a sua vida por mim e pelo Evangelho, salva-la-á’ (Mc 8,35).67
E o próprio Jesus Cristo fez de sua vida terrena uma oferta ao Pai (Cf. Jo 10,17) e aos
seus amigos (Cf. Jo 10,15). E o critério aqui usado é a fidelidade à palavra do Senhor, ainda

                                                            
63
Cf. VIDAL, Marciano. Dicionário de Moral. Dicionário de Ética Teológica. Aparecida-SP: Santuário, s.d.,
p.33.
64
Cf. EV 52.
65
Idem, 2.
66
Cf. CHIAVACCI. Enrico. Breves lições de Bioética. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 27.
67
EV 47.
34 

que à custa da própria vida, como fizeram João Batista (Cf. Mc 6,17-29) e, depois, Estêvão
(Cf. At 7,59-60), abrindo caminho para todo um exército inumerável de mártires venerados
pela Igreja desde os princípios, porque, sem dúvida, “é preciso obedecer antes a Deus do que aos
homens (At 5,29).”
Somente “em sua mão está a alma de todo ser vivo e o espírito de todo homem carnal (Jó,
12,10).” Somente Deus é o único vivente e dele procede toda a vida (Cf. Mt 16,16; 26,63; Rm
9,26). Somente ele é Senhor sobre a vida e sobre a morte (Cf. Mt 10,28s).
Ninguém pode escolher arbitrariamente viver ou morrer; efetivamente,
senhor absoluto de tal decisão é apenas o Criador, aquele em quem vivemos,
nos movemos e existimos (At 17, 28).68
Nos evangelhos, pode-se verificar a valorização da dignidade humana, mas é nos
escritos paulinos que se encontram os elementos de uma verdadeira antropologia, que deve
ser considerada essencialmente cristológica: “Assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi
feito alma vivente; o último Adão tornou-se espírito que dá a vida (I Cor 15,45).” Assim, “ser a
‘imagem de Deus’ é, portanto, ser também à imagem de Cristo, que é, ele mesmo, a imagem de Deus
(Cf. II Cor 4,4; Cl 1,15).”69
A vida eterna tem a sua promessa e garantia pela morte e ressurreição de Cristo. É em
Cristo que está escondida a vida (Cf. Rm 8,2); pela sua vida é que todos serão salvos (Cf. Rm
8,2). Cristo como o autor da vida (Cf. At 3,15) fez com que resplandecesse a vida e a
imortalidade (Cf. II Tm 1,10). A vida futura penetra na vida presente possibilitando o cristão
viver em Cristo (Cf. Rm 6,11).
Deste modo, como pode-se ver, a vida eterna trata-se de “herança”, ou ainda, de dom
(Cf. Mc 10,17), e não de algo merecido por pessoa alguma. É dom de um mundo que há de vir
(Cf. Mc 10,30). Torna-se real na ressurreição dos mortos (Cf. Mc 12,26s). E a participação
nessa vida vindoura depende da obediência à vontade de Deus (Mt 25,46). O evangelista fala
de um paradoxo ao afirmar, que, quem agora entrega a sua vida, há de ganhar a eterna (Cf. Mt
16,25; Jo 12,25).
A terminologia bíblica se utiliza de termos próprios para definir a “vida”: em grego –
zoé – de natureza divina, distinguindo-se da vida orgânica em comum com as criaturas do
reino vegetal e animal, em grego – bios.70
É o evangelista João, especialmente, que abre esta perspectiva final da vida futura. O
texto grego de João não utiliza nunca o termo corrente para indicar vida (bios), como também,
                                                            
68
Ibidem.
69
DE GRAMONT, Jérôme. “Antropologia.” In: LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário Crítico de Teologia, p. 149.
70
I. STADELMANN, Luis. “A vida na bíblia.” Encontros Teológicos, p. 56.
35 

poucas vezes, se utiliza de psyché, entendido como princípio da vida corporal, fazendo o
corpo viver; mas cinquenta e cinco vezes utiliza o termo “zoé” ou o verbo correspondente que
indica aquela vida que a morte não pode atingir, conforme se pode verificar: “Quem ama sua
vida (psyché) a perde e quem odeia sua vida (psyché) neste mundo guardá-la-á para a vida (zoé) eterna
(Jo 12,25).”
A ‘zoé’ é o cumprimento, a perfeição da vida humana. É dom puro, sem
nenhum mérito humano. É por isso que, feitas as contas, o conceito ‘vida
humana’ não é mais que a realidade penúltima.71
O conceito da vida na teologia joanina é muito importante72: o Pai tem a vida em si
mesmo; comunica-a ao Filho (Cf. Jo 5,26; 6,5). O Cristo preexistente era e é vida eterna junto
de Deus e para os homens (Cf. Jo 1,4; I Jo 1,1s; 5,11). E do Pai, Cristo recebeu a tarefa de
transmitir a vida divina (Cf. Jo 12,50). Como o Pai dá a vida, assim também ele a dá (Cf. Jo
5,21). Suas palavras são espírito e vida (Cf. Jo 6,63 e 69). Ele é “a luz da vida (Jo 8,12)”, “o
caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6).” Ele é a ressurreição e a vida (Cf. Jo 11,25). É e dá o pão
da vida (Cf. Jo 6,35 e 58). Esta vida verdadeira é nascida de Deus (Cf. Jo 1,13; I Jo 2,29).
Como dom de Deus, ela é já agora passagem da morte para a vida (Cf. Jo 5,24 e 29). Quem
crê, tem a vida eterna como dom que procede do amor de Deus (Cf. Jo 3,16 e 36; 20,31; I Jo
5,12). A vida que procede de Deus traz em si um futuro eterno (Cf. Jo 4,14; 6,27).
Diante de toda relevância de fundamentação bíblica sobre a concepção da vida
humana, a postura que deve emergir por parte dos homens, é de protegê-la. Portanto, não só
se pode verificar nas páginas sagradas o valor e a inviolabilidade da vida humana, mas
também o legado divino de custódia à vida.
“Não matarás (Êx 20,13; Lv 24,17; Dt 17,8-13)”, é uma ordem do direito natural, mas que
também tem sua validade no Decálogo considerando o homicídio sempre como um ato
moralmente mal, ou seja, um crime. “O ethos bíblico recebe da fé, na criação uma fundamentação
especial mais profunda da proibição de matar”73: “Quem derrama o sangue do homem, pelo homem
terá seu sangue derramado. Pois à imagem de Deus o homem foi feito (Gn 9,6).”
O ato de levantar a mão contra o ser humano equivale a dizer que se está levantando
contra o próprio Deus, visto que o homem é uma obra sua, ou melhor dizendo, uma imagem
sua. O primeiro homicídio foi descrito como uma prática horrenda e sinistra (Cf. Gn 4,8-14).
O homicida se torna um homem sem sossego e sem lar.

                                                            
71
KRISTIAAN, Depoortere. “Vida.” In: CINÀ, Giuseppe, LOCCI, Efício, ROCCHETTA, Carlos e SANDRIN,
Luciano (orgs.). Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde. São Paulo: Paulus, 1999, pp. 1359-1360.
72
Cf. HERMANN SCHELKLE, Karl. Op. cit., p. 240.
73
Idem, p. 241.
36 

Para o ethos do Novo Testamento, a antiga proibição do homicídio é interpretada por


Cristo na expectativa do Reino: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás; aquele que
matar terá de responder no tribunal; aquele que chamar ao seu irmão ‘Cretino’ estará sujeito ao
julgamento do Sinédrio; aquele que lhe chamar ‘renegado’ terá de responder na Geena de fogo (Mt
5,21-22).”
Seguindo o mandamento divino, o apóstolo Paulo admoesta as comunidades a que
ninguém sofra como homicida um castigo diante do tribunal (Cf. I Pd 4,15).
Os pagãos estão
repletos de toda sorte de injustiça, perversidade, avidez e malícia; cheios de
inveja, assassínios, rixas, fraudes e malvadezas; detratores, caluniadores,
inimigos de Deus, insolentes, arrogantes, fanfarrões, engenhosos no mal,
rebeldes para com os pais, insensatos, desleais, sem coração nem piedade
(Rm 1,29).
Estas são obras da carne (Cf. Gl 5,19s). Portanto, tais pecados devem ficar longe da
comunidade cristã (Cf. Ef 4,31; Col 3,8).
A primeira carta de João liga ao episódio do primeiro homicídio: “não [façais] como
Caim, que, sendo do Maligno, matou o seu irmão (I Jo 3,12).” Homicídio e homicida procedem
“do maligno”. Como se pode verificar, o termo “maligno”, tanto em I Jo 2,13, quanto em 5,18
é usado no masculino, podendo ser entendido “do demônio”. Deste modo, o homicídio é uma
ação inumana. Tem origem satânica.74
A compreensão bíblica de vida humana é imprescindível para a compreensão teológica
do homem, que deve ser alcançado na sua totalidade, ou seja, como um ser subsistente em si
mesmo e, ao mesmo tempo, aberto para se elevar acima das coisas criadas em direção ao bem
absoluto.

1.3. Concepção teológica de pessoa humana e sua aplicação ao embrião

Dentro deste ponto da dissertação se abordará a confrontação do conceito de pessoa


humana entre a Igreja e os cientistas atuais. O esforço se concentrará em apresentar qual é o
conceito teológico de pessoa humana prescindindo paralelamente do conceito científico do
termo, donde serão vistas certas discrepâncias, e a aplicabilidade de tal conceito ao embrião,
de modo a considerar o embrião humano uma pessoa humana.

                                                            
74
Cf. idem, p. 243.
37 

Neste debate atual, a investigação reveste-se de aspectos jurídicos,


científico-biológicos e filosófico-teológicos. Segundo opinam os
especialistas, pertence à ciência analisar os elementos biológicos
fundamentais que caracterizam a vida do ser humano, à ciência jurídica fazer
observar os direitos gerais e específicos da dignidade humana quanto à
promoção e conservação da vida humana; e à reflexão filosófico-teológica
tirar as deduções sobre se a alma é criada por Deus do nada, ou se resulta da
evolução da matéria, bem como saber se a infusão da alma é sucessiva ou
simultânea.75
Diante de tantos questionamentos que se pode fazer no âmbito da bioética, levanta-se a
seguinte questão: qual o critério que se deve levar em conta para distinguir o lícito e o não-
lícito na área do tecnicamente possível de um tratamento terapêutico em caso de alguma
anomalia fetal? “Existe um fundamento para responder a esses questionamentos: a pessoa humana.”76
Um longo caminho foi percorrido ao longo da história para que o conceito de pessoa
fosse estendido a todos os seres humanos, independentemente de etnia, sexo, posses matérias,
condições físicas etc.
Na atualidade, alguns autores costumam distinguir dois tipos de conceito de pessoa: o
ontológico e o existencial.77
O primeiro conceito está fundamentado na idéia de “natureza humana”, de modo que,
todo ser vivo que tem essa natureza humana, definida, e, portanto, pertencente à espécie
humana, é pessoa. Sendo assim, os direitos da pessoa são universais e de forma incondicional,
isto é, valendo em qualquer condição em que o indivíduo se encontrar.
No caso do segundo, fundamenta-se no conceito de “existência humana”, afirmando
que um ser vivo, mesmo pertencendo à espécie humana, só pode ser considerado pessoa se
viver como se espera que uma pessoa humana viva. Neste caso em particular, tanto a
universalidade quanto a incondicionalidade do conceito de pessoa se perdem.
Como se pode verificar, o conceito existencial remete a uma visão de pessoa que é
circunstancial, ou seja, o ser humano é pessoa somente em certas circunstâncias e se satisfizer
algumas condições. “Perdida a universalidade e a incondicionalidade do conceito, está aberto o

                                                            
75
FAITANIN, Paulo. “Embriologia tomista: doutrina da animação e individuação do embrião humano em
Tomás de Aquino.” Coletânea, Rio de Janeiro-RJ, v. 03, n. 06, pp. 151-297, [jul./dez.] 2004, p. 170.
76
LUIZ DE PAULA RAMOS, Dalton. Bioética Pessoa e Vida. 1ª edição, São Caetano do Sul-SP: Ed. Difusão,
2009, p.42.
77
Cf. idem.
38 

caminho para que os detentores do poder político e econômico em um determinado contexto definam a
pessoa tal como lhes agradar.”78
Por este motivo, o conceito de pessoa a ser usado neste tópico deste respectivo
capítulo é sempre o ontológico não significando que as circunstâncias não devam ser levadas
em consideração, mas tais circunstâncias não mudam a condição de portador de dignidade e
direitos que todo ser humano tem.
Em seguida, se pode ver o apanhado histórico do conceito de pessoa e a posição
assumida pela Igreja para defender a vida intra-uterina, mesmo em caso de anencefalia fetal.
O conceito - pessoa humana - é o mais usado, correto ou incorretamente, no âmbito da
discussão da bioética e da biojurisprudência e, principalmente na polêmica que gira em torno
do estatuto do embrião humano: “o embrião humano é um ser humano, um indivíduo humano, uma
pessoa humana?”79
Sim! Pois tu formaste os meus rins, tu me teceste no seio materno. Eu te
celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas maravilhas!
Conhecias até o fundo do meu ser. Teus olhos viam o meu embrião (Sl
139,13-14.16a).
Embora caiba primeiramente à biologia a tarefa de buscar a identificação da presença
de um ser humano ou indivíduo humano já nos primeiros momentos de sua vida, o caráter
interdisciplinar da bioética acabou exigindo um envolvimento também por parte da filosofia.
Inclusive, o termo discutido não é de origem das ciências biológicas, mas da ciência
filosófica.
A biologia desconhece o que é pessoa; este termo não é de seu vocabulário
técnico, ela ignora critérios científicos para decidir se e quando existe uma
pessoa. Pessoa é um termo de valorização cultural com pressupostos sócio-
psicológicos e decorrência ética.80
Portanto, o conceito de pessoa humana no contexto de bioética está perfeitamente em
sintonia com a ética, mas não com a biologia.81 Todavia, faz-se mister a concepção biológica

                                                            
78
Idem, p. 43.
79
PALAZZANI, Laura. “Os significados do conceito filosófico de pessoa e suas implicações no debate atual
sobre o estatuto do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL CORREA, Juan e SGRECCIA, Elio (orgs).
Identidade e Estatuto do Embrião Humano. Atas da Terceira Assembleia da Pontifícia Academia para a Vida.
Bauru-SP: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 2007, p. 91.
80
PESSINI, Léo e DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Fundamentos da Bioética. 2ª edição, São
Paulo: Paulus, 1996, p. 97.
81
Cf. LEPARGNEUR, Hubert. Bioética, novo conceito. A caminho do consenso. 2ª edição, São Paulo: Loyola,
1996, p. 43.
39 

do ser humano, desde os primeiros momentos de vida intra-uterina, para uma reflexão
filosófica e teológica sobre a aplicabilidade do conceito de pessoa ao embrião humano.82
Seria inoportuno e sem utilidade para a própria fé negar a legitimidade e a
necessidade de uma reflexão racional e filosófica sobre a vida humana e, por
isso, também sobre a licitude das intervenções sobre o homem por parte do
médico e do biólogo: a vida humana é, em primeiro lugar, um valor natural,
racionalmente conhecido por todos aqueles que fazem uso da razão.83
É sempre partindo da intermediação da razão, enquanto exigência para uma reflexão
filosófico-moral no campo médico e biológico, que será possível um diálogo entre ciência e
fé, visto que ela é a referência comum tanto para uma quanto para outra.
Não há motivo para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica a
outra, e cada qual tem o seu espaço próprio de realização (...). Deus e o
homem estão colocados em seu respectivo mundo, numa relação única. Em
Deus reside a origem de tudo, nele se encerra a plenitude do mistério, e isso
constitui a sua glória; ao homem, pelo contrário, compete o dever de
investigar a verdade com a razão, e nisso está a sua nobreza.84
Este deve ser o papel da bioética: analisar racionalmente a licitude da intervenção do
homem sobre o próprio homem pressupondo uma reflexão ética, que tenha o seu centro na
pessoa humana, no seu valor transcendente e sua referência última em Deus.
Nesta linha, faz-se necessário e normal o confronto com a Revelação cristã e com as
concepções científicas e filosóficas correntes.
O atual debate em torno do conceito de pessoa humana está fortemente condicionado
pelo passado. Por isso, antes de investigar os motivos que provocaram um retorno do conceito
no contexto do debate bioético e o uso, próprio ou impróprio, desse conceito na discussão em
torno do estatuto do embrião humano, faz-se necessário retraçar as linhas principais de
desenvolvimento do conceito no âmbito da história da filosofia ocidental, que, por sua vez,
trouxe grande colaboração para uma compreensão teológica da pessoa humana.
Como já visto no item 1.2. sobre a concepção bíblica da vida humana, o fundamento
do caráter de pessoalidade do ser humano está na sua origem divina:
Portanto, por ser à imagem de Deus, o indivíduo humano tem a dignidade de
pessoa: ele não é apenas uma coisa, mas alguém. É capaz de conhecer-se, de
                                                            
82
Cf. idem, “Os significados do conceito filosófico de pessoa e suas implicações no debate atual sobre o estatuto
do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL CORREA, Juan e SGRECCIA, Elio (orgs). Identidade e Estatuto do
Embrião Humano, p. 91.
83
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola, 2002, pp. 47-48.
84
PAULO II, João. Carta encíclica Fides et Ratio. Aos bispos da Igreja Católica sobre as relações entre fé e
razão. 13ª ed., São Paulo: Paulinas, 2010, n. 17. Daqui em diante segue-se FR.
40 

possuir-se e de doar-se livremente e entrar em comunhão com outras


pessoas, e é chamado, por graça, a uma aliança com o seu Criador, a
oferecer-lhe uma resposta de fé e de amor, que ninguém mais pode dar em
seu lugar.85
Segundo a narração sacerdotal, a criação do homem à imagem e semelhança de Deus é
fruto da própria decisão divina, de maneira que, tal iniciativa não se verifica na história das
religiões, como também é declarado por Deus que o ser humano é homem e mulher. O ser
humano é o ápice e o centro da criação e por este motivo, recebe a dominação da terra.
Segundo a narração javista, o ser humano é feito de barro sublinhando seu lado terrestre e seu
parentesco com as demais criaturas, e ao mesmo tempo, ele é animado pelo sopro divino. É,
portanto, um ‘ser vivente’, chamado a uma relação eterna com Deus. A relação do ser humano
para com Deus é marcada por uma dependência, conforme se pode ver nos Salmos, por
exemplo, Sl 104, 29-30: “Escondes tua face e eles se apavoram, retiras sua respiração e eles
expiram, voltando ao seu pó. Envias teu sopro e eles são criados, e assim renovas a face da terra.” A
literatura sapiencial exprime a ideia nova de que o ser humano foi criado à imagem da
eternidade divina e para essa imortalidade é que foi criado: “Deus criou o homem para a
incorruptibilidade e o fez imagem de sua própria natureza (Sb 2,23).”86
Ser ‘à imagem de Deus’ é ser também à imagem de Cristo, pois, ele mesmo, é a
imagem de Deus: “Ele é a Imagem do Deus invisível, o Primogênito de toda criatura, porque nele
foram criadas todas as coisas, no céu e na terra, as visíveis e as invisíveis (Cl 1,15-16a).” Numa
perspectiva antropológica paulina, o corpo possui uma orientação escatológica, o que permite
diferenciar do gnosticismo, que concebia como sendo algo mal, o elemento material do corpo
em oposição ao elemento espiritual. O corpo (soma) é dimensão essencial da existência
humana, pois, o ser humano é compreendido enquanto corpo-alma-espírito (Cf. I Ts 5, 23). É
o corpo que garante a permanência e a identidade do ser humano, de sua criação original até
sua futura existência espiritual se distinguindo estritamente da carne (sarx), que é o estado de
endurecimento do homem afastado de Deus.87
A antropologia cristã busca na expressão “imagem de Deus” (do latim imago Dei), de
Gn 1,26-27, a descrição teológica do ser humano, da qual diversas correntes de interpretação
surgiram consequentemente: na tradição tomista-agostiniana, de tal semelhança da pessoa
humana com Deus, deriva sua capacidade para uma relação com seu criador; na tradição de

                                                            
85
PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. 6ª edição, São Paulo:
Paulinas, 2010, n. 108. Daqui em diante segue-se DSI.
86
DE GRAMONT, Jérôme. “Antropologia.” In: LACOSTE, Jean-Yves. Op. cit., p. 149.
87
Cf. idem, pp. 149-150.
41 

Gregório de Nissa, a liberdade co-criadora do ser humano é uma característica fundamental ao


seu caráter de imagem; na tradição retomada nos tempos modernos sob um aspecto
sociológico reanimado por Karl Marx, só concebe a pessoa humana como imagem de Deus,
quando consegue eliminar as relações de produção alienantes, de modo que, os trabalhadores
encontrem significado naquilo que produzem e possam usufruir do fruto de seu trabalho; e na
teologia atual, a interpretação do imago Dei, acentua a compreensão de que a imagem se
distingue por meio de sua diferença sexual e se concretiza somente no sucesso da relação
masculino-feminino num processo comunicativo.88
A própria etimologia - ‘pessoa’ - é controversa: derivada do latim pode significar
persona, que originalmente quer dizer “máscara cômica ou trágica”, depois “caráter” e
“papel”, que o autor representava num drama; mas também persone, que era a ressonância
acústica da voz do ator por trás da máscara. Outros autores acabaram remontando ao grego
pròsopon, que quer dizer “máscara” ou, mais exatamente, “face”, “rosto” ou “o que se
esconde por detrás dos olhos”. Ainda se pode mencionar os que utilizam o termo etrusco
phersu aplicado à imagem etrusca de um dançarino mascarado.
Entre os juristas romanos, o uso geral do termo “pessoa” era utilizado para indicar a
máscara, tanto ao papel teatral do ator num drama, quanto ao papel desempenhado fora do
teatro (“estado”, “posição”, “condição”) no que dizia respeito às relações familiares e à
atividade social.
É preciso dizer, que, esta concepção jurídica de persona não é includente, mas
excludente, pois sua abrangência não é de perspectiva universal, mas restrita: inclui os
romanos e exclui os estrangeiros. A redução do conceito de pessoa e seu significado jurídico
procuravam definir quem é e quem não é pessoa, como critério para discernir quem é e quem
não é detentor de direitos.89 Esta mesma compreensão excludente de pessoa é que existia entre
os gregos antigos, embora ainda não existisse cunhado tal conceito.
Em relação à filosofia grega, o conceito de pessoa é totalmente inexistente para
exprimir a personalidade, até porque, tal conceito acentua o singular, o indivíduo, o concreto,
enquanto a filosofia grega acentua somente ao universal, ao ideal, ao abstrato.90
A origem do conceito de pessoa está justamente no cristianismo, que, por sua vez, deu
uma contribuição extremamente decisiva para a sua criação: foi introduzido o significado

                                                            
88
Cf. SCHROER, Silvia e STAUBLI, Thomas. Simbolismo do Corpo na Bíblia. São Paulo: Paulinas, 2003, p.
10.
89
Cf. ROQUE JUNGES, José. Bioética – Hermenêutica e Casuística. São Paulo: Loyola, 2006, p.105.
90
Cf. MONDIN, Battista. O Homem quem é ele? Elementos de Antropologia Filosófica. 8ª edição, São Paulo:
Paulus, 1980, p. 291.
42 

ontológico para a compreensão de pessoa, que passou a ser extensivo a todos como criaturas
de Deus e não somente a um grupo específico. O valor absoluto do indivíduo é dado da
revelação cristã. Portanto, pessoa passava significar o indivíduo concreto singular e não a
personalidade jurídica no âmbito do cenário social.
A Antiguidade cristã aprofundou esse significado na discussão dos dogmas
trinitários e cristológicos definidos, respectivamente, pelos Concílios de
Nicéia (325 d.C.) e de Calcedônia (451 d.C.).91
A categoria de pessoa foi introduzida no cenário do pensamento ocidental pelos
teólogos cristãos latinos. O primeiro exame rigoroso deste conceito foi realizado por
Agostinho (354-430), que identificou a categoria de pessoa com o conceito grego de
hipóstasis, que designa a subsistência. Na Trindade, o termo pessoa indica a tríplice
individualidade concreta como princípio de diferenciação relacional entre o Pai, o Filho e o
Espírito Santo – um só Deus em três pessoas distintas. Em Cristo, o termo pessoa indica o
princípio de unidade e identidade do Sujeito-Cristo na natureza dual (humana e divina). É o
princípio que unifica duas naturezas – a divindade e a humanidade numa mesma pessoa.
De acordo com essa ambivalência do termo pessoa, que foi usado como princípio de
diferenciação na Trindade e princípio de unidade e identidade em Cristo, permaneceu pouco a
pouco a palavra hipóstasis sobre a palavra pròsopon, visto que a primeira designa o indivíduo
completo na unidade singular de seus componentes. E foi traduzido para o latim por
subsistência, pois designa quem subsiste em si mesmo e não em outro.92
A pessoa humana é uma unidade de alma e corpo. “Essa unidade substancial e essa
totalidade real conferem à pessoa o seu eu ou sujeito.”93
É neste horizonte, que tal unidade do ser humano dá abertura a duas considerações
relevantes no campo da bioética:
Uma consideração de natureza antropológica, pois “qualquer intervenção sobre o corpo
não alcança unicamente os tecidos, os órgãos com suas funções e suas células, mas afeta, em diversos
níveis a pessoa em si mesma.”94
É possível cientificamente, que o corpo humano seja estudado como se fosse o corpo
de um animal qualquer, no entanto, tal estudo deve ter a consciência que na pessoa existe um
grau de ser qualitativamente superior em comparação aos outros seres, o que, por sua vez, não

                                                            
91
Ibidem.
92
Cf. ROQUE JUNGES, José. Op. cit., pp. 105-106.
93
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Questões de Bioética. Estudos da CNBB, n. 98. 1ª
edição, Brasília-DF: Edições CNBB, 2010, p. 19.
94
Idem, pp. 19-20.
43 

se trata de considerar o corpo humano mais organizado do que o dos animais, mas se trata de
ser outro corpo.
E uma consideração de natureza ética, uma vez que a pessoa é portadora de uma
dignidade que lhe é inerente à própria natureza e não concedida convencionalmente pela
cultura ou por ideologias:
Jamais se deve valorizar o corpo e atuar sobre ele baseado apenas em
critérios e princípios científicos e técnicos, mas, sobretudo, em critérios e
princípios éticos, concordantes com esta excelência humana: um ser digno é
o ser pessoal!95
Há no ser humano atividades de caráter biológico e corpóreo explicáveis, como
também há nos animais, pela vitalidade vegetativo-sensorial, mas o mesmo sujeito exerce
também atividades de caráter imaterial, como por exemplo, a percepção das idéias universais,
a capacidade de reflexão e a liberdade, o amor em sentido espiritual e altruísta. Estas
atividades não se explicam por uma outra maneira, senão por um princípio de ordem superior,
que não depende da matéria, mas que está ligada a uma fonte imaterial e, por isso, espiritual.
Portanto, os princípios constitucionais do ser humano continuam sendo dois, de
origem e natureza profundamente diferentes: o soma e o espírito ou alma espiritual, o que
resulta na tese da criação direta da alma individual por parte de Deus.96
A filosofia numa tentativa empreendida de libertar-se da teologia e tornar-se autônoma
foi se apropriando do conceito de pessoa humana, à medida que a teologia ia pondo cada vez
mais à parte tal conceito, com o objetivo de racionalizar a realidade humana.
A antropologia, fundada na categoria de pessoa, e, por isso, antropologia personalista
ou relacional, sofreu um desenvolvimento na história do ocidente, de modo que podemos
considerar três concepções diferentes de pessoa humana: uma ontológica; outra moral e
finalmente a relacional.97

                                                            
95
Idem, p. 20.
96
Cf. SGRECCIA, Elio. Op. cit., pp. 115-118.
97
Cf. ROQUE JUNGES, José. Op. cit., p. 104.
44 

1.3.1. Concepção ontológica de pessoa humana

O primeiro uso filosófico do conceito de pessoa no ocidente foi por Severino Boécio
(480-524) e logo seguido por Tomás de Aquino (1225-1274) que usou o termo num contexto
especificamente humano: “Persona est naturae rationalis individua substantia – pessoa é uma
substância individual de natureza racional.”98
Boécio substitui a palavra substância por subsistência numa segunda definição:
naturae rationalis individua subsistentia – o que a pessoa é, enquanto natureza racional,
subsiste em si mesma. A pessoa é uma substância ou subsistência de natureza racional.
Para Boécio, as características fundamentais da pessoa unificada pela substância ou
subsistência são a individualidade, que corresponde ao aspecto singular, e a racionalidade, que
corresponde ao aspecto universal.
Continuando a tradição de Boécio pode-se verificar um conceito de pessoa de grande
relevância em São Tomás de Aquino:
Persona significat id quod est perfectissimun in tota natura, scilicet,
substantia in natura rationali – Pessoa significa aquilo que é o mais perfeito
na natureza, isto é, uma substância em natureza racional.99
Para Tomás de Aquino a pessoa é concebida do ponto de vista ontológico como a
realização mais plena do ser: a perfeição de todas as perfeições ocupando o grau mais alto na
escala dos seres, portanto, de uma dignidade infinita e de um valor absoluto.100

O lugar do homem na hierarquia dos seres aparece a Tomás essencialmente


determinado por sua natureza racional.101
Para Tomás os dois aspectos essenciais e indispensáveis para uma definição de pessoa
são o aspecto ontológico com o termo subsistens (subsistente) e o aspecto psicológico com o
termo racionalis vel intellectuallis (racional ou intelectual).
Pessoa é um ser individual que subsiste em si mesmo e não em outro, sendo
de natureza racional ou intelectual. Estas duas características, subsistência e
natureza espiritual, estão intimamente ligadas.102

                                                            
98
Idem, p. 106.
99
Tomás de Aquino, Summa Theologiae, I Pars, q. 29, a. 3. Apud. ROQUE JUNGES, José. Op. cit., p. 104.
100
Cf. RAMPAZZO, Lino e CESAR SILVA, Paulo. Pessoa, Justiça Social e Bioética. Campinas: Editora
Alínea, 2009, pp. 62-63.
101
CLÁUDIO LIMA VAZ, Henrique. Antropologia Filosófica I. 5ª edição, São Paulo: Loyola, 2000, p. 69.
102
ROQUE JUNGES, José. Op. cit. p. 107.
45 

Esta formulação procurou fazer um equilíbrio na temática ontológica-antropológica-


teológica, o que, por sua vez, nos tempos modernos, já existia a tendência a romper esse
equilíbrio partindo do conceito de substância.
Descarte (1596-1650) foi o primeiro a lançar uma semente de separação ontológica da
alma (res cogitans) e do corpo (res extensa), introduzindo uma fratura na unidade do ser
humano ao reconhecer que somente a alma, sede do pensamento e da autoconsciência, era
pessoal e autoconsciente, reduzindo, consequentemente, a corporeidade à maneira mecanista,
a simples matéria extensa e em movimento. O conceito de pessoa passou a ser definido não
com relação a autonomia no ser, mas em relação com a autoconsciência: “Cogito, ergo sum!”

1.3.2. Concepção moral de pessoa humana

A concepção moderna de pessoa humana foi sistematizada por Emanuel Kant (1724-
1804) em suas obras de moral. Para ele a moralidade depende da boa vontade (moral por
excelência) entendida como capacidade subjetiva em acolher a objetividade da norma.
Neste sentido, o sujeito moral é aquele que age por dever: o que eu devo fazer eu
quero fazer. Aqui está o gozo da autonomia e da verdadeira liberdade, a liberdade prática, eu
não somente me submeto às normas, como eu as imponho a mim mesmo.103
A experiência moral não pede nada mais que um sujeito capaz de imputação,
se entendemos por imputabilidade a capacidade de um sujeito de designar-se
como o autor verdadeiro de seus próprios atos.104
Deste modo, a ação praticada por dever depende da máxima que a determina e não do
interesse da ação, por exemplo a busca da felicidade. Portanto, agir moralmente é agir
segundo o princípio ou a máxima universal e não segundo o objetivo da ação. O agir
moralmente do sujeito moral está implicado no princípio de deontologia e não de
teleologia.105

                                                            
103
Cf. RICOEUR, Paul. “Ética.” In: CANTO-SPERBER, Monique (org). Dicionário de Ética e Filosofia Moral,
vol. 1. São Leopoldo–RS: Editora Unisinos, 2003, p. 591.
104
Idem, p. 593.
105
Cf. AMERIKS, Karl. “Immanuel Kant.” In: AUDI, Robert (org.). Dicionário de Filosofia de Cambridge. São
Paulo: Paulus, 2006, p. 538.
46 

Então, se tem a primeira formulação do imperativo categórico106: “Age como se a


máxima da tua ação se devesse tornar, pela tua vontade, em lei universal da natureza.”107
A vontade é concebida como a faculdade de se determinar a si mesmo a agir em
conformidade com a representação de certas leis, isto é, segundo as máximas. E tal faculdade
só se pode encontrar em seres racionais. E todo ser racional existe como fim em si mesmo e
não como meio para o uso arbitrário desta ou daquela vontade.
Os seres racionais são chamados pessoas porque a sua natureza os distingue
já como fins em si (...) e não somente como meio de que esta ou aquela
vontade pode servir-se ao bel-prazer.108
Deste modo, tem-se a segunda formulação do imperativo:
Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na
pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca
simplesmente como meio.109
Este princípio da humanidade como fim em si mesmo é tirado da sua universalidade e
não da experiência, pois se refere a todos; em segundo lugar porque a humanidade não é
representada como fim subjetivo a serviço da realização dos seres humanos, mas é um fim
objetivo para o sujeito que deve ser respeitado independentemente dos fins subjetivos. Aqui,
resulta a terceira formulação do princípio prático da vontade: no ser racional como fim em si
mesmo, “a vontade é concebida como vontade legisladora universal.”110 Neste sentido, a vontade
não está simplesmente submetida à lei, mas é sua legisladora universal. A vontade não se
funda em nenhum interesse, mas se reporta ao universal ético. É o que Kant chamou de
autonomia da vontade. A vontade como legisladora universal é autônoma diante da
heteronomia da lei, visto que torna sua autora.111

                                                            
106
“Os imperativos são princípios práticos objetivos, isto é, válidos para todos. São ‘mandamentos’ ou ‘deveres’,
ou seja, regras que expressam a necessidade objetiva da ação, o que significa que se a razão determinasse
completamente a vontade, a ação ocorreria inevitavelmente segundo tal regra, ao passo que, a intervenção de
fatores emocionais e empíricos pode desviar e, frequentemente desviam a vontade dessa regra. Portanto, os
imperativos podem ser de dois tipos: imperativo hipotético, quando determina a vontade só sob a condição de
que ela queira alcançar determinados objetivos: ‘se quiseres passar de ano, deves estudar’; e imperativo
categórico, quando determina a vontade não tendo em vista obter determinado efeito desejado, mas
simplesmente como vontade: ‘deves porque deves’ e não ‘se quiseres... deves’.” In: REALE, Giovanni e
ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Do Humanismo a Kant, vol. II. 2ª edição, São Paulo: Paulus, 1990, pp.
908-909.
107
Kant, 1968, v. IV, p. 421; id. 1974, p. 224. Apud. ROQUE JUNGES, José. Bioética – Hermenêutica e
casuística. São Paulo: Loyola, 2006, p. 108.
108
MONDIN, Battista. Op. cit., p. 293.
109
Kant, 1968, v. IV, p. 429; id., 1974, p. 229. Apud. ROQUE JUNGES, José. Op. cit., p. 109.
110
Kant, 1968, v. IV, p. 431; id., 1974, p. 231. Apud. ROQUE JUNGES, José. Op. cit., p. 108.
111
Cf. ROQUE JUNGES, José. Op. cit. p. 109.
47 

Kant afirma que o ser humano vive sobre uma dupla realidade: a realidade biológica e
a racional. O ser humano, enquanto realidade biológica participa de suas próprias inclinações;
e enquanto ser racional ele é a causa da lei moral, e seu ser implica inteligibilidade.
Na concepção kantiana existe uma diferença radical entre o mundo sensível e o mundo
inteligível, de modo que o primeiro é o mundo das coisas naturais, dos fenômenos, da
experiência e da sensibilidade humana, e esta instância é regida e determinada pela
causalidade das leis físicas e biológicas, não havendo espaço para o exercício da liberdade; o
outro é o mundo inteligível, no qual a razão humana tem a propriedade de determinar-se a
agir, independentemente das causas empíricas, isto é, o homem toma consciência de outra
causalidade que é a causalidade da liberdade. Em Kant não existe harmonia entre estes dois
mundos, ele encerra o agir moral no reino da razão prática livre e abandona a sensibilidade à
determinação de suas inclinações naturais. Em meio a tudo isso, a ética kantiana gira em torno
da vontade que submete sua liberdade ao império da razão. Neste sentido, a razão, a vontade e
a liberdade são os três elementos que fundamentam a ética kantiana. Neste contexto, o
edifício ético é construído na passagem do homem limitado às máximas morais subjetivas e
particulares, ao homem inteligível que cumpre a lei moral universal. É neste pano de fundo
que se desenvolve a ética do imperativo categórico.112
Este ser racional, entendido como legislador universal para todas as máximas da
vontade, leva a outro conceito: um reino de fins, isto é, todos os seres racionais sendo tratados
como fins em si mesmos e não como meios. O ser racional é considerado legislador num
reino de fins pela autonomia da vontade e neste sentido, está acima de qualquer preço, ou
melhor dizendo, não tem um valor relativo, mas absoluto, que é a sua dignidade.
Kant foi o primeiro na modernidade a elaborar a questão da dignidade em relação ao
ser humano, visto que este é portador de dignidade porque é um fim em si mesmo.
O ser humano é autônomo por ser autolegislador num reino de fins. Por isso,
é fim em si mesmo, e todo ser autofinalizado merece respeito por não poder
ser trocado por algo equivalente.113
Agir por dever e não por interesse só é possível num ser humano dotado de liberdade
interna – autonomia – já que só ele é capaz de obrigar-se a si mesmo, concebido como
legislador universal e partícipe de um reino em que todos os seres racionais são fins em si
mesmos, isto é, portadores de dignidade.
                                                            
112
OLIVEIRA FONSECA, Flaviano. “Ética da responsabilidade em Hans Jonas e limites das éticas tradicionais
(Antropocêntricas).” Revista Eclesiástica Brasileira (REB), Petrópolis-RJ, v. 68, n. 269, pp. 01-256, [jan.]
2008, pp 70-71.
113
Kant, 1968, v. IV, p. 436; id., 1979, p. 235. Apud. ROQUE JUNGES, José. Op. cit. p. 110.
48 

O conceito de pessoa em Kant é uma categoria a priori que se identifica com o Homo
noumenon, independente das características fenomenológicas, porque é sujeito de uma razão-
moral, ou seja, sujeito que impõe a própria razão o dever de colocar em prática a moralidade.

1.3.3. Concepção hermenêutico-fenomenológica

Esta é a concepção que aborda a pessoa humana como sujeito de relação, introduzindo
uma perspectiva intersubjetiva e tentando superar a concepção moderna que estava centrada
na autonomia individual. Neste horizonte, a linguagem se torna o elemento fundamental da
intersubjetividade correspondendo ao assim chamado giro lingüístico, que serve de novo
paradigma estruturador do pensamento, que compreende a pessoa como linguagem
determinando, portanto, o surgimento de uma concepção relacional de pessoa.
A abertura ao outro define o ser humano como pessoa. Nessa abertura, existe
o reconhecimento do outro, a reverência diante da alteridade. Qualquer ser
humano é, na medida em que os outros também são (...). O ser humano como
linguagem, é, essencialmente, comunicação e diálogo. Assim, o destino
pessoal é também sempre comunitário. A pessoa realiza-se na relação com
os outros.114
Fenomenologicamente, a pessoa humana pode ser interpretada sob o aspecto da
espiritualidade (liberdade), da reciprocidade (responsabilidade) e da singularidade
(historicidade).
Do ponto de vista da espiritualidade, a pessoa é liberdade. Por ser de natureza
espiritual ela se auto-realiza mediante decisões que dão sentido às suas realidades históricas.
Sob o ponto de vista da reciprocidade, a pessoa é um ser de relação que se autoconstitui na
intersubjetividade. E por ser reciprocidade, a pessoa inclui uma exigência de responsabilidade
pelo outro. E ainda, na perspectiva da singularidade, pessoa é o indivíduo em sua unidade
singular, original e irredutível. Designa a existência singular do sujeito, e não a universalidade
da natureza comum a todos os seres humanos.115 Estas são as características que determinam
o significado da dignidade da pessoa humana e justificam sua existência ética.
Como se pode ver até então existe um desenvolvimento histórico quanto ao conceito
de pessoa humana, que nem sempre expressou uma homogeneidade no sentido de sua
compreensão, mas certamente, pode-se falar de um conjunto de elementos que foram sendo

                                                            
114
Gobry, 1966; Maritain, 1983. Apud. ROQUE JUNGES, José. Op. cit. p. 112.
115
Cf. ROQUE JUNGES, José. Op. cit. pp. 112-114.
49 

acrescidos numa perspectiva geral de positividade dentro desta mesma compreensão. Em


seguida, a abordagem que será feita expressará algumas teorias discrepantes quanto à
concepção da pessoa humana.
A principal dúvida suscitada na discussão bioética e biojurídica em torno do conceito
de pessoa, encontra-se justamente na diversidade de concepção da pessoa em filosofia, com
teorias divergentes influenciando, de maneira inevitável, os âmbitos da aplicação e da prática.
Num contexto geral, pode-se distinguir duas tendências contrárias:
A tendência “reducionista” favorecendo a separação entre o conceito de pessoa, por
um lado, e o ser humano, por outro. Esta tendência restringe a aplicação do conceito de pessoa
aos homens. Semelhante ponto de vista também poderia ser definido como “evolucionário”,
segundo o qual o ser humano “torna-se” pessoa, que constitutivamente ainda não é, sob certas
condições ou quando certas condições externas se concretizam, como por exemplo, a
formação do sistema nervoso etc.
Num segundo momento, existe a tendência que faz uma identificação intrínseca entre
pessoa, ser humano e vida humana. É uma tendência que se mostra unitária em seus
pressupostos teóricos e práticos, pertencendo à ortodoxia da tradição especulativa
ocidental.116
Vê-se os limites das principais teorias reducionistas-evolucionárias ou separacionistas
da bioética e da biojurisprudência no tocante aos embriões humanos a quem estas teorias
negam o estatuto pessoal:
Um primeiro limite quanto ao momento em que surge a pessoa humana foi
identificado por alguns autores pela implantação do embrião nas paredes do útero materno,
momento no qual se estabelece um íntimo inter-relacionamento celular. Deste ponto de vista,
o embrião humano anterior à implantação seria considerado meramente massa de células, um
ser dotado apenas de órgãos vitais pertencente à espécie biológica humana. O início da pessoa
é considerado segundo uma perspectiva filosófica o que enfatiza o relacionamento na
definição de pessoa.
E aqui está a fragilidade deste argumento:
O relacionamento não constitui, original e estruturalmente, o sujeito; ao
contrário, o sujeito é que torna possível o relacionamento ou, mesmo,
propicia a condição para sua possibilidade. Não existe relacionamento, nem

                                                            
116
Cf. PALAZZANI, Laura. “Os significados do conceito filosófico de pessoa e suas implicações no debate
atual sobre o estatuto do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL CORREA, Juan e SGRECCIA, Elio (orgs).
Identidade e Estatuto do Embrião Humano. Atas da Terceira Assembleia da Pontifícia Academia para a Vida.
Bauru-SP: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 2007, pp. 100-101.
50 

físico nem, muito menos, psíquico e social, quando não existe um ser capaz
de relacionar-se com outro em si e por si.117
Esta tese da pessoa como relação acaba por excluir de seu reconhecimento pessoal
alguns seres humanos incapazes de relacionarem-se com os outros por motivos psíquicos e
sociais, como por exemplo, doentes terminais, deficientes mentais, os comatosos etc.
Um segundo limite quanto ao estatuto pessoal é identificado por alguns como o
momento da formação do sistema nervoso central, o que é imprescindível para a percepção da
dor e do prazer. Neste contexto, a posse de sensibilidade é que se torna o critério para o
aspecto mortal e jurídico do conceito de pessoa humana.
O limite desta teoria está na falta de distinção específica entre seres humanos e
animais, visto que estes também possuem a percepção de dor e de prazer.
É, portanto, a existência do sujeito que possibilita o exercício de certas
funções (bem como a manifestação das condições para semelhante
exercício), não o exercício das funções que constitui a existência do
sujeito.118
O terceiro limite da pessoa é identificado por outros autores com o momento da
formação do córtex cerebral como condição mínima da possibilidade da existência de
racionalidade. Esta é uma visão racionalista da pessoa humana que, considerando a razão seu
elemento constitutivo, sustenta ser indispensável detectar, no mínimo, a presença de
condições neurofisiológicas que permitam seu desenvolvimento orgânico.
Pode-se ainda citar aqueles que insistem na necessidade absoluta da razão como um
exercício no sentido máximo para definir a pessoa. Esta teoria acaba por identificar a pessoa
depois de seu nascimento com o momento da aquisição da autoconsciência ou com o
momento da manifestação da capacidade de intelecção e autodeterminação, por exemplo,
capacidade de compreender, querer e ajuizar. De fato, “a personalidade psicológica e social
começa a ser criada depois do nascimento, mas a dignidade de pessoa existe desde quando começa a
vida do ser humano.”119 “Portanto, é necessário o Estatuto Legal do Embrião Humano, que assegure
não somente o direito à vida desde a fecundação, como o respeito a sua dignidade como pessoa
humana desde a concepção.”120
A limitação desta teoria funcionalista é coincidir a existência da pessoa com a
presença de determinada capacidade, sendo que a presença de uma função não pode ser
                                                            
117
Idem, pp. 102-103.
118
Idem, p. 104.
119
MARCELO COELHO, Mário. O que a Igreja ensina sobre... 4ª Edição, São Paulo: Canção Nova, 2008, p.
296.
120
Ibidem.
51 

separada do sujeito ontológico, que é a condição de sua existência. A função se torna uma
consequência da existência ontológica de uma pessoa humana. Além disso, se a coincidência
entre pessoa e função (autoconsciência, racionalidade e vontade) fosse verdadeira, um ser
humano, quando dormindo ou embriagado, não seria considerado pessoa.121
O critério próprio da dignidade pessoal – isto é, o do respeito, do altruísmo e
do serviço – é substituído pelo critério da eficiência, do funcional e da
utilidade: o outro é apreciado não por aquilo que é, mas por aquilo que tem,
faz e rende. É a supremacia do mais forte sobre o mais fraco.122
Para combater essa ambiguidade do conceito de pessoa humana, é indispensável que
se volte para a redefinição do sujeito no âmbito de uma filosofia da pessoa e do humano que
seja capaz de justificar a identidade e a coincidência entre ser humano e pessoa.
De acordo com a embriologia pode-se verificar uma documentação sobre o
desenvolvimento do embrião, que já se encontra definido e orientado na direção de uma
progressiva diferenciação e aquisição de complexidade:
As conclusões da ciência acerca do embrião humano fornecem uma
indicação valiosa para discernir racionalmente uma presença pessoal desde
esta primeira aparição de uma vida humana: como um indivíduo humano não
seria pessoa humana?123
Neste sentido, podemos afirmar que o embrião humano na fase do pré-
implante é: a) um ser da espécie humana; b) um ser individual; c) um ser que
possui em si mesmo a finalidade de se desenvolver como pessoa humana e,
ao mesmo tempo, a capacidade intrínseca de realizar tal desenvolvimento.
Podemos afirmar que o embrião humano já na sua fase de pré-implante,
constitui-se verdadeiramente uma pessoa.124
Partindo destas evidências que a própria ciência biológica fornece, pode e deve-se
fazer a seguinte reivindicação em prol do próprio ser humano:
O ser humano deve ser respeitado e tratado como uma pessoa desde a sua
concepção e, por isso, desde esse mesmo momento, devem-lhe ser
reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e primeiro de todos, o
direito inviolável de cada ser humano inocente à vida.125

                                                            
121
Cf. idem, pp.104-107.
122
EV 23.
123
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre o respeito à vida humana
nascente e a dignidade da procriação. Respostas a algumas questões atuais. 5ª Edição, São Paulo: Paulinas,
2005, n. I, 1. Daqui em diante segue-se DV.
124
MARCELO COELHO, Mário. Op. cit., p. 294.
125
EV 60.
52 

Ao afirmar um estatuto do embrião como pessoa, equivale dizer que há um ser da


espécie humana independentemente de sua maturidade biológica ou dos graus de
desenvolvimento físico, psíquico e social, ou ainda, do reconhecimento como tal por parte de
outras pessoas ou de legislações civis.
Ser pessoa é condição inerente a cada indivíduo da espécie humana, pois o
eu ontológico não deve ser confundido com o eu psicológico nem com o eu
socialmente reconhecido útil.126
Dentro de um contexto de conclusão, depois de uma prévia análise diacrônica do
conceito de pessoa, tão necessária para uma verificação de sua aplicabilidade ao embrião
humano, pode-se pontuar uma característica a respeito da concepção cristã do ser humano
criado à imagem e semelhança de Deus: a de subsistência.
Conforme está no Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde, com relação a
subsistência, “o homem existe em si como ser único e irrepetível, existe como eu, isto é, capaz de
voltar-se para si mesmo, de compreender a si mesmo, de possuir a si mesmo, de ter
127
autodeterminação.”
Não se pode definir a pessoa humana pela sua inteligência, pela sua consciência nem
mesmo pela sua liberdade, pois, mesmo que estas faculdades faltem, o homem não deixa de
ser pessoa humana. Então, verifica-se que é justamente o contrário: a pessoa humana,
enquanto ser subsistente, é que está na base dos atos de inteligência, de consciência e de
liberdade.
A referência à teoria hilemórfica: o ser humano como pessoa ou substância individual
de natureza racional por ser composto de corpo e alma intelectiva, funcionando esta como a
forma substancial do corpo humano, permite justificar a presença no ser humano de um
princípio ontológico específico de unificação das propriedades, bem como a permanência das
funções e atos, presentes independentemente de sua manifestação exterior concreta. Isso
basta, no plano filosófico, para dar expressão à identificação ontológica da pessoa com o ser
humano.
A definição filosófica que melhor possibilita repensar o conceito de pessoa no sentido
amplo, identificando-a com o ser humano real, é a definição tradicional, formulada primeiro
por Boécio e completada por São Tomás de Aquino: a pessoa é a substância individual de
natureza racional, o que permite afirmar que o ser humano é uma pessoa em virtude de sua
                                                            
126
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Questões de Bioética. Estudos da CNBB, N. 98,
p. 26.
127
IGNAZIO, Sanna. “Pessoa. Abordagem histórico-teológica.” In: CINÀ, Giuseppe, LOCCI, Efício,
ROCCHETTA, Carlos e SANDRIN, Luciano (orgs). Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde. São
Paulo: Paulus, 1999, p. 986.
53 

natureza e não que se torna uma pessoa em virtude do exercício específico de certas funções,
como por exemplo, a capacidade relacional, sensibilidade e racionalidade. O homem não pode
ser reduzido a um feixe de fenômenos, como diz o funcionalismo empirista, porque senão ele
seria o seu próprio “fazer” e não seria um “ser”.
A presença de um princípio substancial torna possível reconhecer o estatuto
concreto da pessoa no ser humano mesmo em condições de potencialidade,
privação ou não-atuação, momentânea ou permanente, de certas funções,
devido à situação incompleta do desenvolvimento (no caso do embrião) ou à
presença de fatores, internos e externos, que impedem essa manifestação.128
Mesmo que exista uma confusão entre ontologia e fenomenologia, o embrião e mesmo
o deficiente físico ou mental, que estejam privados de certas propriedades, tal manifestação
incompleta destas propriedades não modifica o estatuto ontológico, visto que a possibilidade
intrínseca de sua natureza continua a existir.
No entanto, se verá em seguida, que, mesmo a Igreja tendo esta vasta compreensão
sobre o valor da vida humana, nem sempre a sua compreensão foi unânime em todos os
tempos sobre quando começa a vida humana. No entanto, mesmo apesar desta controvérsia
vivida a nível dos debates teológicos a respeito do momento em que se dá a infusão da alma
espiritual, a Igreja sempre foi contra a prática do aborto.

1.4. A infusão da alma espiritual: origem da pessoa humana

O objetivo deste tópico é mostrar o amadurecimento da Igreja Católica ao longo da


história sobre o momento em que a alma espiritual é infusa, permitindo, deste modo, o
surgimento da pessoa humana. E para isto, tal estudo perpassa por renomados teólogos
católicos que faziam uma distinção entre o sexo masculino e o feminino quanto ao momento
da infusão da alma. Porém, mesmo apesar destas discrepâncias quanto ao momento exato da
animação, discussão interna à teologia, tal estudo possibilitará perceber que a posição
histórica da Igreja Católica sempre foi de estar ao lado da vida, defendendo-a em todas as
circunstâncias.

                                                            
128
PALAZZANI, Laura. “Os significados do conceito filosófico de pessoa e suas implicações no debate atual
sobre o estatuto do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL CORREA, Juan e SGRECCIA, Elio (orgs).
Identidade e Estatuto do Embrião Humano, p. 113-114.
54 

Não é de se estranhar, que o Magistério da Igreja Católica nem sempre foi unânime na
sua posição ao longo da história quanto ao momento da infusão da alma ou animação129. Os
Padres da Igreja dividiram-se em duas correntes de opinião: os que defendiam a animação
imediata, desde o momento da fecundação e os que eram partidários da animação mediata ou
retardada, isto é, depois de certo tempo.
Os primeiros explicavam a origem da alma humana por uma pré-existência
anterior a sua união com o corpo (platonismo cristão) ou por uma
derivação da alma dos pais (traducianismo), eram partidários da animação
imediata. Em troca, os segundos, que seguiam a tese de que as almas são
criadas por Deus (criacionismo), apoiavam a opinião da animação
retardada.130
Tanto que, Santo Agostinho no século V, dizia que somente depois de 40 dias após a
fecundação é que se podia falar em pessoa humana, ou seja, que correspondesse a uma
unidade de corpo e alma ou ainda, hominização. Isso no caso do feto masculino. Ao passo que
para o feto feminino exigia-se o dobro, ou seja, 80 dias para se considerar uma pessoa.131
Esta controversa teológica teve a sua origem na divergência de tradução do texto
bíblico de Êxodo 21,22-25. Trata-se de uma divergência textual entre o hebraico e o grego,
que, por sua vez, provocou uma repercussão histórica no âmbito da moral cristã.132
O texto bíblico no original hebraico foca a atenção em proteger as mulheres grávidas,
prescrevendo ao juiz que devia aplicar penalidades pecuniárias ou recorrer à lei de talião
(“vida por vida, olho por olho”), segundo a gravidade dos danos causados à mulher.
O texto grego, ou melhor dizendo, a tradução dos LXX, evidencia uma novidade: os
tradutores assimilaram dados da embriologia helênica, especialmente da filosofia aristotélica,
que afirmava a necessidade primordial do surgimento ou preparação da matéria, para que
somente depois pudesse surgir a forma, ou a infusão da alma racional. Seguindo este
raciocínio, os tradutores dos LXX distinguiram e introduziram no texto uma dupla hipótese: a
do feto ‘formado’ ou ‘informe’, de modo a considerar que no caso do feto “formado”,
aplicava a lei de talião, ou seja, reconhecendo o feto já formado no ventre da mulher e que

                                                            
129
“Os medievais denominaram animação o efeito da ação da alma enquanto dá vida e a ordena na matéria
embrionária.” In: FAITANIN, Paulo. “Embriologia tomista: doutrina da animação e individuação do embrião
humano em Tomás de Aquino.” Coletânea, Rio de Janeiro-RJ, v. 03, n. 06, pp. 151-297, [jul./dez.] 2004, p. 170.
130
VIDAL, Marciano. Moral cristã em tempos de relativismos e fundamentalismos. Aparecida: Santuário-SP,
2007, p. 89.
131
Cf. DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Bioética e início da vida. Alguns desafios. São Paulo:
Ideias e Letras, 2004, p.111.
132
JOSAPHAT, Carlos. Ética Mundial. Esperança da humanidade globalizada. Petrópolis: Vozes, 2010, pp.
407-409.
55 

teve a sua gestação interrompida por causa de um agressor, este devia pagar com a sua própria
vida por aquela vida humana intra-uterina que foi prejudicada. E no segundo caso, isto é, a do
feto “informe”, não se trata do agressor pagar com a sua própria vida, uma vez que o feto
ainda não está formado, mas tal agressor sofria as penalidades pertinentes diante deste
atentado.
Porém, é extremamente importante deixar bem claro, que mesmo havendo esta
distinção de caráter cultural na tradução dos LXX, a Igreja sempre foi contra a interrupção
voluntária da gravidez considerando, inclusive, pecado grave o aborto voluntário. Não se tem
dúvida alguma quanto ao empenho do povo de Deus, tanto na Bíblia, quanto na Igreja de
sempre proteger a vida antes mesmo do nascimento.
Outro dado relevante a considerar neste momento é o seguinte: somente o aborto
praticado no caso do feto já “formado” é que o agressor era condenado por homicídio e objeto
de excomunhão pela Igreja.
A tese da animação progressiva ou retardada foi a que permaneceu de forma
generalizada durante a Idade Média. A tese criacionista foi a que se impôs e a que passou a
ser aceita pela Igreja, de tal maneira que se pode verificar o Papa Pio XII (1876-1958)
afirmando, que a fé católica obriga a sustentar que as almas são criadas imediatamente por
Deus.133
Santo Tomás de Aquino no século XIII também se utilizou de mesma posição
assumida anteriormente por Santo Agostinho, quando então a partir de 40 dias pudesse
reconhecer como humano o embrião com a infusão da alma racional. Para combater o
traducianismo que defendia a tese da animação imediata como derivação dos próprios pais,
Santo Tomás de Aquino defendia a tese da criação progressiva da alma espiritual que é infusa
não pelos pais, mas por Deus.134
Tal doutrina foi assumida oficialmente pela Igreja Católica a partir do Concílio de
Trento encerrado em 1563, de modo que, era partindo de tal consideração que a Igreja
avaliava ética e canonicamente as ações abortivas. Porém, mesmo assim, sempre foi
contestada por outros teólogos que, buscando embasamento na autoridade de Tertuliano,
século III e de Santo Alberto Magno, século XIII, defendiam a hominização imediata, ou seja,
desde a fecundação já tratar de um ser humano em processo.135

                                                            
133
Cf. VIDAL, Marciano. Op. cit., p. 89.
134
Cf. DE AQUINO, Tomás. Suma Teológica, parte I, q. 118, a. 1-2.
135
Cf. CAMARGO, Marculino. Ética, Vida e Saúde. 3ª edição, Petrópolis – RJ: Vozes, 1976, p. 17.
56 

Como se pode constatar, “na Idade Média há a coexistência das duas teorias, isto é, a
animação imediata e a sucessiva.”136
O Magistério da Igreja não interveio decisoriamente na disputa; condenou
somente as duas proposições extremas: que a alma se infunde no momento
do nascimento (Inocêncio XI, em 1679) e que a infusão da alma tem lugar
no primeiro ato da inteligência da criança (Leão XIII, em 1887 contra
Rosmini).137
No século XVIII, Santo Afonso Maria de Ligório, falecido em 1787, admitia o aborto
terapêutico, caso corresse risco imediato à vida da mãe.
Contudo, essa discussão sobre o feto “inanimado” – que ainda não teria alma – teve
por encerrada oficialmente com a divulgação da “Apostolica Sedia” em 1869, quando o Papa
Pio IX condenou toda e qualquer interrupção voluntária da gravidez.138
Neste mesmo século XIX, discutia-se sobre o aborto direto e indireto.
E Roma passou a admitir o aborto indireto, em caso de gravidez tubária ou
de câncer no útero. Matar diretamente o feto é sempre proibido. A
extirpação de um câncer do útero ou a preservação da vida da mãe exigem,
por vezes, medidas que não matam diretamente o embrião, mas têm por
consequência ‘indireta’, porque não queria por si a expulsão do mesmo, não
viável.139
Enquadra-se perfeitamente neste caso o conceito ético do duplo efeito140, que, por ato
voluntário de conservação da vida da mãe, pode resultar, consequentemente, um ato
involuntário de interrupção da vida do feto.
A defesa da vida humana no seu início, assumida pela Igreja como um princípio de sua
missão, foi adquirindo um amadurecimento ainda maior com as novas descobertas da
biologia, de modo especial da embriologia, o que leva a pensar, que, se os cientistas, filósofos
                                                            
136
Ibidem.
137
VIDAL, Marciano. Op. cit., p. 90.
138
Cf. DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Op. cit., p. 111.
139
Ibidem.
140
“Visa a dar conta do fato de que um ato que é, em si mesmo, obrigatório ou permitido pode, apesar disso, ter
conseqüências ruins. Critérios necessários: 1) o objetivo do ato e o ato em sim mesmo precisam ser bons; 2) as
conseqüências ruins do ato não são visadas como um objetivo do ato, nem como fins em si, nem como meios
visando a um outro fim; 3) o bem visado e associado ao próprio ato, é proporcional ao mal que suas
conseqüências comportam, ou seja, que o primeiro leve vantagem sobre o segundo. Dentro deste princípio,
podemos citar as reflexões de São Tomás de Aquino sobre o valor moral das ações humanas e em sua tese em
defesa do direito de matar em situação de legítima defesa (Suma teológica), defendido pela teologia católica a
partir do século XVI. É o caso de guerra, desde que seja pacifista em legítima defesa. Basta que o mal não seja
visado intencionalmente, que ele não faça parte do objetivo buscado. Partindo do princípio do duplo efeito, uma
gestante, que está com câncer no útero, por exemplo, pode se submeter aos tratamentos da doença, mesmo que
tal tratamento venha resultar na perda do feto.” In: BYRNE, Peter. “O princípio do duplo efeito.” In: CANTO-
SPERBER, Monique (org). Dicionário de Ética e Filosofia Moral, pp. 488-489.
57 

e teólogos, que sustentaram a teoria da animação retardada, conhecessem as atuais


descobertas científicas na área da biogenética, não teriam sustentado tal teoria.141
E mesmo havendo esta disparidade, quanto ao momento em que acontece a infusão da
alma, teoria da animação imediata e teoria da animação retardada ou sucessiva, a Igreja
sempre foi a favor da vida humana em qualquer de sua etapa tomando posição
veementemente contra o aborto.142
Ao longo da história, os Padres da Igreja, bem como os seus Pastores e os seus
Doutores, ensinaram a mesma doutrina contra o aborto partindo do princípio: “vida provável,
vida certa”143, “sem que as diferentes opiniões acerca do momento da infusão da alma espiritual
tenham introduzido uma dúvida sobre a ilegitimidade do aborto.”144
A posição magisterial da Igreja sobre o momento em que começa a existir o ser
humano e quando se dá a infusão da alma não é outra senão o momento da fecundação, visto
que a partir deste momento se dão nesse novo ser, três propriedades fundamentais que
sinalizam que há um indivíduo autônomo, mesmo que ainda não tenha desenvolvido todas as
suas virtualidades. E sobre estas três propriedades fundamentais do embrião será explanado a
seguir no próximo tópico justificando a origem da vida humana já no instante da fecundação à
luz do dado científico:
As conclusões da ciência acerca do embrião humano fornecem uma
indicação valiosa para discernir racionalmente uma presença pessoal desde
esta primeira aparição de uma vida humana.145
Do ponto de vista da ética, faz-se necessário levar em consideração os pressupostos
ontológicos e antropológicos sobre o valor da vida humana.
Numa perspectiva clássica ou tradicional da ética, pode-se afirmar que o ser humano
não é meramente um ser da natureza, mas um ser composto de corpo e princípio vital ou alma,
que, sendo espiritual, tem destinação transcendente, ou seja, capacidade de abertura para Deus
e para os outros. Portanto, a vida é um dom sagrado, que, por consequência deve ser
inviolável.146 Esta é a base sobre a qual está assentada a ética tradicional no ocidente.

                                                            
141
Cf. ÁNGEL FUENTES, Miguel. As Verdades Roubadas. 1ª edição em português, São Paulo: IVEPRESS,
2007, p. 169.
142
Cf. idem, p. 168.
143
Idem, p. 169.
144
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre o Aborto Provocado. In:
DOCUMENTA. Documentos publicados desde o Concílio Vaticano II até nossos dias (1965-2010). 1ª edição,
Brasília: Edições CNBB, 2011, n. I, 7. Daqui em diante segue-se DsAP.
145
DV I, 1.
146
Cf. NEDEL, José. Ética Aplicada. Pontos e contrapontos. São Leopoldo-RS: Ed. Unisinos, 2004, p. 31.
58 

Todavia, a partir dos anos 1970, surge um novo momento histórico de discussões em
torno da questão sobre o aborto em vista dos problemas de malformações decorrentes de
drogas, como é o caso da talidomida, instaurando um novo modo de avaliar as coisas:
Defende-se que ambas as perspectivas são complementares, não de exclusão
mútua. Como os princípios são prima facie, ora prevalecerá um, ora outro,
de acordo com as circunstâncias, porém com este limite: jamais eliminar a
vida de uma pessoa ou infligir-lhe dano injusto, em contradição com o
princípio da beneficência e não-maleficência. Com efeito, o mal intrínseco
não se justifica por nenhuma circunstância.147
Mesmo diante de uma situação de malformação fetal, seja qual for a sua origem, “o
homem é chamado a viver a mesma entrega ao Senhor e a renovar a sua confiança fundamental
naquele que cura todas as enfermidades.”148 A família deste novo ser, especialmente a mãe, é
chamada a abandonar-se totalmente à vontade do Altíssimo, ao seu desígnio de amor, mesmo
quando toda esperança de saúde parece não ser possível para o feto, que está sendo gestado
em seu ventre materno, mas
o crente está animado pela fé inabalável no poder vivificador de Deus. A
doença não o leva ao desespero nem ao desejo da morte, mas a uma
invocação cheia de esperança: Confiei mesmo quando disse: ‘Sou um
homem de todo infeliz’.149
Por isso, a sua opção é sempre em favor e defesa da vida humana, visto que ele não é
senhor nem da vida nem da morte, mas o seu administrador e tutor. O ser humano é ministro
do desígnio de Deus.
O homem do mundo grego compreende a vida em sua realidade e riqueza natural.
“Causa e sujeito da vida é uma energia vital, muitas vezes denominada psyché = alma. O princípio
vital é mais tarde diferenciado em vida segundo a natureza e faculdade racional (nous ou lógos).”150
A faculdade racional, sobretudo na filosofia platônica, foi sempre entendida como
elemento divino no homem, indestrutível e imortal. A vida divina, da qual participa o homem
pela sua imortalidade, compreendida como sendo a verdadeira vida, foi sempre o centro de
atenção de toda a religiosidade antiga: “A Gnose quer ensinar e abrir o caminho através do qual a
151
alma alcança à vida eterna, donde provém.”

                                                            
147
Idem, p. 32.
148
EV 46.
149
Ibidem.
150
HERMANN SCHELKLE, Karl. Teologia do Novo Testamento. Ethos Comportamento Moral do Homem,
vol. 4. São Paulo: Loyola, 1978, p. 237.
151
Idem, p. 238.
59 

É sempre partindo da concepção que se faz do ser humano, que são deduzidas as
normas de ação sobre o mesmo, pois “de acordo com o velho adágio do agere sequitur esse – agir
segue o ser, as normas do agir devem ser adequadas à natureza de quem as deva cumprir.”152
Portanto, conceber o ser humano meramente como uma espécie de gorila ou mamífero
vertical, também significa conceber normas de ação diferentes daquelas decorrentes da
concepção tradicional do homem como “a única criatura na terra que Deus quis por si mesma”153,
criado segundo a imagem e semelhança do divina (Cf. Gn 1,26).
Assim afirma o Sagrado Magistério:
desde o momento da concepção, a vida de todo ser humano deve ser
respeitada de modo absoluto, porque o homem é, na terra, a única criatura
que Deus quis por si mesma, e a alma espiritual de cada um dos homens é
imediatamente criada por Deus; todo o seu ser traz a imagem do Criador. A
vida humana é sagrada porque desde o seu início comporta a ação criadora
de Deus e permanece para sempre em uma relação especial com o Criador,
seu único fim.154
Certamente, os avanços da medicina, em especial da biologia (embriologia), trouxe
para a reflexão teológica melhores condições para que a Igreja pudesse se fundamentar
cientificamente a respeito de sua missão em defender a vida humana já a partir da fecundação.
Portanto, em seguida se verá a posição da Igreja Católica sobre a origem da vida humana à luz
da ciência. Em outras palavras, o esforço se concentrará em evidenciar o contributo da
biologia em suas pesquisas, descobrindo, que, tais dados científicos não têm se levantado
contra o posicionamento da Igreja Católica, mas corroborado a sua missão de defender e de
promover a vida humana desde o momento da sua concepção.

1.5. A origem da vida humana à luz do dado científico

Em qualquer discussão que se pode fazer em torno do debate sobre a vida nascente,
existe sempre uma pergunta fundamental e responsável que ilumina a reflexão sobre a
eticidade da interrupção da gestação: “quando começa a vida humana no desenvolvimento
embrionário ou a partir de que momento existe um ser humano ou uma vida humana?”155

                                                            
152
NEDEL, José. Op. cit., p. 33.
153
GS 24.
154
DV Introdução 5.
155
GAFO FERNÁNDEZ, Javier. 10 palavras-chaves em bioética. São Paulo: Paulinas, 2000, p. 47.
60 

Levando em consideração o ponto de vista científico, a vida é uma particular


organização da matéria. A biologia molecular demonstrou que existe uma diferença muito
mais complexa de estruturação entre a substância vivente e a não-vivente. A constituição
estrutural da substância não-vivente ou inorgânica é demasiada simples, por exemplo, a
molécula da água é formada de um átomo de oxigênio e dois de hidrogênio; ao passo que a
constituição da substância vivente ou orgânica é extremamente organizada e complexa.156
No que diz respeito à vida humana, seria impossível produzi-la em laboratório, visto
que entram em questão dois elementos substanciais, o biológico e o espiritual: o corpo e a
alma. Na Sagrada Escritura esta união é ilustrada pelo alento divino que o Criador sopra nas
narinas da figura de barro representando o protótipo de um ser humano, conforme se pode
verificar em Gn 2,7157: “Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em
suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente.”
O Sagrado Magistério da Igreja Católica considera como sendo mais seguro, que a
vida humana tenha o seu início desde a fecundação, momento em que se dá a infusão da alma
espiritual.
No momento da fecundação, no momento em que o espermatozóide entra
no óvulo, cria-se um outro ser humano, com um patrimônio genético
diferente daquele do pai e da mãe, que contém toda a força necessária para
seu desenvolvimento sucessivo: todas as características corporais, o poder
de construir as células de que precisa para seu desenvolvimento, o projeto
segundo o qual poderá deslocar essas células e construir os órgãos etc (...) É
sempre o mesmo sujeito, o mesmo patrimônio genético e individualizado,
desde a concepção até o nascimento.158
Para a genética, o primeiro dado incontestável é que, no momento da fertilização em
que acontece a fusão de duas células, o oócito159 e o espermatozóide, dá-se a formação de
uma nova entidade biológica, ou seja, um novo genoma160, que, já traz em si mesma uma
nova vida individual. Por meio deste processo de fertilização, as duas células, que constituem

                                                            
156
MONDIN, Battista. O Homem quem é ele? Elementos de antropologia filosófica. 8ª edição, São Paulo:
Paulus, 1980, p. 47.
157
I. STADELMANN, Luis. “A vida na bíblia.” Encontros Teológicos, Florianópolis-SC, v. 23, n. 01, pp. 01-
189, [jan./abr.], 2008, p. 47.
158
MARCELO COELHO, Mário. Op. cit., p. 294.
159
“Sinônimo de ovócito. Célula derivada da oogónia (célula primordial do ovário do feto, que se transforma no
oócito) e que constitui uma das fases da evolução do óvulo.” Cf. In: CÉU COUTINHO, A. (org.). Dicionário
Enciclopédio de Medicina. 3ª edição, Lisboa-Portugal: Argo Editora, s. d, p. 1646
160
“O conjunto dos elementos contidos nos genes de um indivíduo humano e que formam o seu patrimônio
biológico. O genoma é o código de que promana todo o futuro biológico de um indivíduo; as potencialidades de
desenvolvimento de uma individualidade biológica completamente estruturada.” Cf. In: RUSSO, Giovanni.
Bioética em diálogo com os jovens, p. 62:
61 

dois sistemas independentes, mas ordenados um para o outro, dá origem a um novo sistema
que começa a operar como uma unidade. Deste modo, já não são dois sistemas que estão
agindo independentemente um do outro, mas um único sistema, chamado zigoto161 ou
embrião unicelular.
Este novo genoma, responsável por identificar o embrião unicelular como
biologicamente humano e especificar sua individualidade, não está numa posição de inércia
no sentido de ser executado por órgãos fisiológicos da mãe adquirindo um esquema de
passividade, mas é um novo projeto que se constrói a si mesmo assumindo o papel de ator
principal de si.
Estas afirmações científicas sobre o embrião humano levou a compilação de um
documento pelo Centro de bioética da Universidade Católica, “Identidade e estatuto do
embrião humano”, em que a Igreja se serve para defender a vida humana já na sua fase
embrionária.
A Comissão Warnock da Inglaterra afirma que não é possível distinguir entre o
momento da fecundação e toda a vida procriada, mas, no entanto, propõe uma distinção entre
o embrião até o 14º dia, chamado de pré-embrião e de valor inferior, e o embrião com mais de
14 dias.
E pode-se apontar três motivos para assinalar a discriminação dos primeiros 14 dias,
mas, que por sua vez, não se sustentam do ponto de vista da lógica racional162:
Primeiro grupo: afirma que enquanto o embrião não estiver implantado no útero da
mãe não há nenhuma garantia certa de que possa prosseguir em seu desenvolvimento, porque
não está sendo ainda alimentado pela mãe. No entanto, não é a alimentação que produz a
criança. Como também não é a implantação do embrião no útero que o faz um ser humano! É
claro que o embrião se alimenta nos seus primeiros dias daquilo que encontra no óvulo
fecundado e depois de implantado é alimentado pelo corpo da mulher, mas não é a
implantação que faz do embrião um ser humano. O embrião já era uma realidade ativa e viva,
que só dependia do ambiente uterino para poder se desenvolver.
A embriologia fornece uma documentação sobre o desenvolvimento do embrião, que
já se encontra definido e orientado na direção de uma progressiva diferenciação e aquisição de
complexidade e que não pode regredir para estágios já percorridos.

                                                            
161
“[gr. zygotós atrelado] – célula resultante da união dos dois gametas masculino e feminino, o ovo fertilizado.”
In: CÉU COUTINHO, A. (org.). Op. cit., p. 2473.
162
Cf. MARCELO COELHO, Mário. Op. cit., pp. 295-296.
62 

Neste sentido, podemos afirmar que o embrião humano na fase do pré-


implante é: a) um ser da espécie humana; b) um ser individual; c) um ser
que possui em si mesmo a finalidade de se desenvolver como pessoa
humana e, ao mesmo tempo, a capacidade intrínseca de realizar tal
desenvolvimento. Podemos afirmar que o embrião humano já na sua fase de
pré-implante, constitui-se verdadeiramente uma pessoa.163
Segundo grupo: afirma “que até ao 14º dia ainda não se formaram os sinais do que será o
164
cérebro” , mas o desenvolvimento do cérebro depende do embrião, que o faz desenvolver-se!
“O cérebro do feto não se desenvolve graças ao cérebro da mãe, mas a partir dos genes que estão
dentro do embrião, desde o primeiro momento da fecundação.”165
Terceiro grupo: afirma que o embrião, logo após a sua implantação, incorre na
possibilidade de vir a ser dividido em dois provocando a ocorrência de gêmeos.
No entanto, mesmo na ocorrência de gêmeos, a divisão do embrião não
destrói o primeiro embrião; separando-se, algumas células se tornam um
outro embrião. O primeiro embrião continua o mesmo e o segundo embrião
segue em seu desenvolvimento. Temos, então, o dobro de motivos para
defendê-los, pois são dois embriões.166
De acordo com o documento supracitado da Universidade Católica sobre o estatuto do
embrião humano, esse processo de desenvolvimento tem três propriedades biológicas:
1) Coordenação: “Em todo o processo da formação a partir do zigoto, há uma sucessão de
atividades moleculares e celulares sob a guia da informação contida no genoma.”167
2) Continuidade:
O processo em si mesmo da formação do organismo é contínuo. É sempre o
mesmo indivíduo que vai adquirindo sua forma definitiva. Se esse processo
fosse interrompido, a qualquer momento, teríamos a morte do indivíduo.168
Neste processo se dá, por exemplo, a definição dos tecidos e a formação dos órgãos.
3) Graduação: verifica-se a passagem de formas mais simples a formas cada vez mais
complexas:
O embrião humano mantém permanentemente a sua própria identidade,
individualidade e unicidade, permanecendo ininterruptamente o mesmo e

                                                            
163
Idem, p. 294.
164
Idem, p. 295.
165
Ibidem.
166
Idem, p. 296.
167
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola, 2002, p. 344.
168
Idem, pp. 344-345.
63 

idêntico indivíduo durante todo o processo do desenvolvimento, (...) apesar


da crescente complexidade da sua totalidade.169
No final da oitava semana, o desenvolvimento e a organização é tal que o embrião
possui, ainda que em miniatura, todas as características do homem, com um sexo bem
definido, como são reconhecidas no final da gravidez.
Esses dados científicos sobre o embrião humano trouxeram para a Igreja uma
confirmação sobre a sua missão de defesa da vida já a partir dos primeiros instantes da
concepção. A Igreja, portanto, no seu Sagrado Magistério e na sua Sagrada Tradição, arrefece
ainda mais suas forças se colocando na direção da vida e contra o aborto, conforme se pode
ver no próximo ítem.

1.6. Defesa da vida humana versus aborto na Tradição e no Magistério eclesial

A “Declaração sobre o aborto provocado” da Sagrada Congregação para a Doutrina da


Fé do ano de 1974 durante o pontificado de Paulo VI, na sua segunda parte, faz um apanhado
histórico da trajetória da Tradição da Igreja no concernente à doutrina sobre a defesa da vida
do nascituro.
Esta respectiva Declaração começa fazendo uma afirmação bíblica, de que Deus não
fez a morte, nem se alegra que os vivos morram, conforme está no livro de Sabedoria (Cf. Sb
1,13). E que tudo que foi criado só tem sentido por causa da existência humana, que é imagem
de Deus e coroamento do mundo.
A morte, que entrou no mundo por meio do pecado, será vencida definitivamente pela
ressurreição em Cristo Jesus: “Assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a
vida (I Cor 15,22).”
Pode-se constatar que, mesmo a Igreja não tendo uma posição unânime a respeito do
momento em que a alma espiritual é infundida, o ensinamento moral da Igreja sempre foi
constante no que diz respeito ao aborto. “A Tradição da Igreja sempre considerou a vida humana
como algo que deve ser protegido e favorecido, desde o seu início e durante as diversas fases do seu
desenvolvimento.”170

                                                            
169
PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. Lexicon.Termos ambíguos e discutidos sobre família, vida e
questões éticas. 2ª edição, Brasília: Edições CNBB, 2007, p. 196. Daqui em diante segue-se Lexicon.
170
DsAP, 6.
64 

A denúncia cristã mais antiga sobre o aborto se encontra naquele documento


catequético das comunidades cristãs primitivas, chamada de Didaqué: “Tu não matarás com o
aborto o fruto do seio e não farás perecer a criança já nascida.”171
Alguns concílios introduziram sansões canônicas contra os praticantes do aborto.
Desde o século IV são excomungados os que provocam o aborto, conforme se pode conferir
nos Concílio de Elvira do ano 303, cânon 63 e do Concílio de Ancira do ano 314, cânon 21.
Atenágoras, filósofo apologista cristão grego do século II, considerava homicidas
aquelas mulheres, que usavam medicamentos para a prática do aborto. A mesma postura,
também Tertuliano assumiu, quando afirmou: “É um homicídio antecipado impedir alguém de
nascer; pouco importa que se arranque a alma já nascida, ou que se faça desaparecer aquela que está
ainda para nascer. É já um homem aquele que o virá a ser.”172
O período patrístico foi marcado por opiniões diferentes sobre o momento da infusão
da alma. São Gregório Nisseno, São Basílio e Tertuliano eram a favor da animação imediata,
isto é, a substância da alma e a do corpo são criadas simultaneamente. Ao passo que, Santo
Agostinho introduziu uma distinção entre feto perfeitamente formado e feto ainda não
formado perfeitamente, sendo, portanto, a favor da teoria da animação posterior. Todavia, o
ensinamento doutrinário dos Pastores e Doutores não foi abalado por dúvidas quanto a
ilegitimidade do aborto.
No período da Escolástica prevalece a hipótese de Santo Tomás de Aquino, que
seguindo Aristóteles, pensa que a alma racional seja criada depois que a matéria corporal
esteja capacitada para recebê-la. Aristóteles chegava calcular este tempo em 40 dias depois
para os de sexo masculino e 60 dias depois para as de sexo feminino. Porém, jamais se negou,
que o aborto provocado, mesmo nos primeiros dias da concepção fosse objetivamente falta
grave. São Tomás dizia que o aborto é um pecado grave contrário à lei natural. Dentro deste
período, é adequado mencionar o Concílio de Worms (868 d.C.), que ainda reunido para tratar
de questões ligadas à Trindade, também se ocupou do aborto: “As mulheres que se fazem abortar
hão de ser castigadas como infanticidas. As que, por inadvertência, sufocam seus filhos durante o
sono, serão tratadas com menos rigor.”173 Ainda pode-se fazer menção ao primeiro Concílio de
Mogúncia em 887-888:

                                                            
171
Didaqué. O catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje. 6ª edição, São Paulo: Paulus,
1989, n. II, 2. Daqui em diante segue-se Didaqué.
172
DsAP, 6.
173
CARLOS SANTINI, Antônio. “O embrião aos olhos da Igreja.” Atualização, Belo Horizonte-MG, ano
XXXVII, n. 329, pp. 483-575, [nov./dez.] 2007, p. 555.
65 

Se é homicida quem destruiu com aborto o que foi concebido no útero,


quanto mais será impossível desculpar-se de ser homicida aquele que matou
uma criancinha que tinha ao menos um dia?174
Ainda neste período pode-se citar o Decreto de Graciano, que reúne de modo ordenado
e completo as normas vigentes no primeiro milênio (1140-1917 d.C.): “É homicida aquele que
fizer perecer, mediante o aborto, o que tinha sido concebido.”175
O papa Inocêncio XI no ano de 1679 condenou uma série de proposições de cunho
dogmáticas e morais, entre elas aquela que aceitava a hipótese da animação tardia, a saber,
após o nascimento, o que, por sua vez, tornava lícita a supressão do feto não animado nos
casos de perigo de vida ou de desonra da moça.
A síntese de tudo o que o Magistério Pontifício ensinou no nosso século sobre o aborto
pode ser encontrada nesta “Declaração sobre o aborto provocado” da Congregação para a
Doutrina da Fé. Deste modo, pode-se apontar quatro conclusões sobre o ensinamento da
Igreja no que diz respeito à defesa da vida humana:
a) A Igreja afirma clara e unanimemente de que a vida é inviolável desde o
momento da sua concepção:
A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir
do momento da concepção. Desde o primeiro momento de sua existência, o
ser humano deve ser reconhecido os seus direitos de pessoa, entre os quais o
direito inviolável de todo ser inocente à vida.176
b) A afirmação deste direito à vida do concepto tem a sua fundamentação numa
reflexão sobre os dados científicos acerca do valor humano do novo ser: seu caráter biológico
humano, a continuidade do processo de desenvolvimento embrionário, é um ser chamado à
vida em um contexto humano:
A partir do momento em que o óvulo é fecundado, inaugura-se uma nova
vida que não é aquela do pai ou da mãe e sim de um novo ser humano que
se desenvolve por conta própria. Nunca tornar-se-á humano se já não o é
desde então. A esta evidência de sempre a ciência genética moderna fornece
preciosas confirmações. Esta demonstração que desde o primeiro instante
encontra-se fixado o programa daquilo que será este vivente: um homem,
este homem-indivíduo com as suas notas características já bem

                                                            
174
DENZINGER, Heinrich – HÜNERMANN, Peter (DH). Compêndio dos Símbolos, definições e
declarações de fé e moral. São Paulo: Edições Loyola e Paulinas, 2007, p. 1467.
175
DsAP II, 7.
176
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edição Popular, 8ª Edição, Petrópolis – RJ: Vozes, 1998, n. 2270.
Daqui em diante segue-se CaIC; cf. DV I, 1.
66 

determinadas. Desde a fecundação tem início a aventura de uma vida


humana, cujas grandes capacidades exigem, cada uma, tempo para
organizar-se e para encontrar-se prontas a agir. Esta doutrina permanece
válida e, além disso, é confirmada, se isso fosse necessária, pelas recentes
aquisições da biologia humana, que reconhece que no zigoto derivante da
fecundação já está constituída a identidade biológica de um novo indivíduo
humano.177
c) Partindo do pressuposto de que o embrião possui uma individualidade
geneticamente distinta e diferenciada de seus pais, intrinsecamente orientada à constituição de
uma pessoa humana, que origina um direito fundamental à vida, a Igreja fala sobre a recepção
da alma já no momento da fecundação:
Desde o momento da concepção, a vida de todo ser humano deve ser
respeitada de modo absoluto, porque o homem é, na terra, a única criatura
que Deus quis por si mesma, e a alma espiritual de cada um dos homens é
imediatamente criada por Deus; todo o seu ser traz a imagem do Criador.178
d) A Igreja também parte da fundamentação das Escrituras Sagradas a respeito do
valor da vida humana tão defendida por Cristo, a ponto de entregar livremente a sua própria
vida em favor do homem. “A vida que Deus dá ao homem (...) é, no mundo, manifestação de
Deus, sinal da sua presença, vestígio da sua glória”179, conforme podemos verificar no texto
bíblico:
Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e
que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais
domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra.
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem
e mulher ele os criou (Gn 1,24-27).
Para a reflexão da Igreja, o aborto constitui sempre um ato violento ao lado do
infanticídio e a pessoa, que o pratica voluntariamente comete uma falta grave.
Deus, com efeito, que é o Senhor da vida, confiou aos homens o nobre
encargo de preservar a vida para ser exercido de maneira condigna do
homem. Por isso a vida deve ser protegida com o máximo cuidado dede a
concepção. O aborto como o infanticídio são crimes nefandos.180

                                                            
177
DV I, 1.
178
Idem, Introdução, n. 5.
179
EV 34.
180
GS 51.
67 

O Código de Direito Canônico declara claramente, que, quem provoca o aborto,


incorre em excomunhão latae sententiae.181
No entanto, a mulher não incorrerá na excomunhão se estiver dentro das
circunstâncias de fundo psicológico e coercitivo:
Por quem só parcialmente possuía o uso da razão; por forte ímpeto de
paixão, que não tenha precedido ou totalmente impedido a deliberação da
mente e o consentimento da vontade; contanto que a paixão não tenha sido
voluntariamente exercitada ou alimentada e por alguém que foi coagido por
medo grave.182
O Código de Direito Canônico manda batizar os fetos abortivos que estiverem vivos,
enquanto possível.183
Contudo, a sacralidade da vida como dom outorgado pelo Criador ao homem, e, que,
por isso deve ser respeitada e inviolada “desde a sua concepção até a morte natural”184, não está
necessariamente ou exclusivamente vinculada a uma perspectiva religiosa, e neste sentido,
segue-se o magistério de João Paulo II:
O Evangelho da vida não é exclusivamente para os crentes: destina-se a
todos (...). Trata-se, com efeito, de um valor que todo ser humano pode
enxergar, mesmo com a luz da razão, e, por isso, diz necessariamente
respeito a todos.185
A respeito da sacralidade da vida também pode ser abordada do ponto de vista ético:
“Pode-se falar de uma sacralidade da vida sem referir-se ao contexto religioso-sacral antigo (...).
Existe uma sacralidade leiga que aparece, por exemplo, no movimento ecológico”186, como por
exemplo, o interesse superior da continuação da espécie e o respeito ao próprio corpo
humano.
Neste mesmo horizonte, pode-se citar ainda a ética de Immanuel Kant em uma das
fórmulas do imperativo categórico:
Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na
pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca
simplesmente como meio.187

                                                            
181
Cf. CIC cân. 1398.
182
Idem, cân. 1324, 1, 3 e 5.
183
Cf. idem, cân. 871.
184
EV 93.
185
Idem, 101.
186
NEDEL, José. Op. cit., p. 35.
187
Ibidem.
68 

Do mesmo modo, pode-se citar Ronald Dworkin, segundo o qual a concepção da


sacralidade da vida humana emerge não só da experiência religiosa, mas também da ideia de
valor intrínseco do ser humano, valor este, não-instrumental e, pois, independente do fato de
satisfazer ou não as pessoas envolvidas.
Pode-se dizer, que, da sacralidade, seja ela de uma concepção religiosa ou leiga,
decorre que a vida humano é inviolável em cada momento da sua existência, inclusive na fase
inicial que precede o nascimento.188
Numa perspectiva filosófica sobre a defesa da vida humana, pode-se considerar a
natureza humana com seus finalismos intrínsecos a serem respeitados como norma da
moralidade. É própria da natureza humana a busca natural para se manter na existência
individual e coletiva e se opor a qualquer força que se apresente a ela como uma ameaça. O
princípio de sacralidade da vida pressupõe o caráter teleológico intrínseco ou imanente à
pessoa humana, o que induz o dever absoluto de respeitar os finalismos próprios do
organismo humano, que são essencialmente os de autopreservação e reprodução.189
A Igreja, portadora do Evangelho da Vida, sempre assumiu o princípio de defesa da
vida como continuação da mesmíssima missão iniciada por Cristo. E tal missão se torna ainda
mais urgente, ao deparar com uma contextualização hodierna de modernidade, marcada por
uma espécie de cultura de morte, onde a figura do homem é absolutizada e feita medida de
todas as coisas. Uma cultura marcada por este subjetivismo relativista, só pode fazer
repercutir efeitos desastrosos sobre a própria pessoa humana.

Conclusão

A promoção da dignidade humana em qualquer condição e estado de desenvolvimento


em que se encontra, torna-se a condição fundamental e determinante de toda a missão da
Igreja presente no mundo. Por este motivo, mesmo aquela vida humana marcada por
debilidades, e no caso específico da anencefalia, que consiste em uma deficiência cerebral
que, certamente, levará a óbito o recém-nascido, a Igreja reconhece a vida humana como
sendo um valioso dom de Deus e, que por sua vez, exige de todo ser humano a
responsabilidade em protegê-la.
A explanação do termo “cultura da vida” como objeto de propagação do Evangelho da
Vida anunciado por Cristo e assumido pela Igreja como sendo sua missão, infelizmente, evoca
                                                            
188
Cf. EV 61.
189
Cf. NEDEL, José. Op. cit., p. 36-37.
69 

a presença de outra cultura: ou melhor dizendo, a presença de uma anti-cultura caracterizada


por sinais de morte. Ao fazer uso de tal termo - “cultura de morte” - o Papa João Paulo II não
estava se referindo a totalidade de uma sociedade, como se toda a cultura de um povo
estivesse marcada por estes sinais negativos que atentam contra a dignidade humana. O termo
cultura de morte faz menção a certas realidades do homem compartilhadas por um grande
número de pessoas.
Durante o século XX pode-se constatar inúmeros ataques maciços contra a vida
humana: genocídio, guerras, torturas físicas ou morais, mutilações, encarceramentos
arbitrários, deportações, escravidão, exploração de mulheres e jovens submetidos a condições
degradantes de trabalho por ocasião da Revolução Industrial, Instituições Internacionais
empenhadas a promover a contracepção, a esterilização e o aborto, entre outros.
No entanto, mesmo apesar da presença de tais sinais de morte, que consiste em uma
verdadeira conjura contra a vida e a dignidade humana, a Igreja procura evangelizar
despertando a sensibilidade e a consciência da sociedade difundindo uma verdadeira cultura
da vida, se contrapondo especialmente às práticas abortivas. E neste sentido, a Igreja vê como
sendo urgente uma humanização da sexualidade contrapondo a irresponsabilidade diante da
procriação.
Portanto, a promoção da cultura da vida também consiste em promover uma ética da
procriação que esteja permeada pelos princípios da responsabilidade, da verdade do amor e da
sinceridade, uma vez que muitos abortos são cometidos em decorrência de uma falta de
responsabilidade diante do ato sexual praticado simplesmente como fonte de prazer.
Sendo a sexualidade a capacidade de abertura para o outro, a procriação de uma
pessoa deve ser fruto do amor, e do amor esponsal, isto é, realizado dentro do matrimônio
como sendo uma de suas finalidades, e não como fruto do acaso. E mesmo se tratando dos
casos de anencefalia fetal, a constatação de uma malformação não significa em uma
diminuição de seu valor ontológico, mas, pelo contrário, exige ainda mais da sociedade
proteção e ajuda perante tal fragilidade; por exemplo, a assistência às mulheres e as famílias
pobres por meio de uma implantação no SUS, por parte do Governo Federal, de programas
preventivos da anencefalia, como também colocando à disposição destas mulheres o ácido
fólico químico, que, por sua vez, tem contribuído com 50% ou mais de redução da doença,
prolongando tal assistência na vida do recém-nascido oferecendo condições necessárias para
acolher o dom da vida, que deve prosseguir com o seu percurso natural.
70 

Capítulo II
A mentalidade abortista em oposição ao princípio de defesa da vida

Introdução ao capítulo

Contrapondo ao primeiro capítulo que aborda a vida humana como um princípio


fundamental na missão da Igreja, este segundo capítulo tratará de apontar os sinais negativos
presentes nas diversas culturas contra a vida do homem.
Procurando explicar o sentido do termo – “cultura de morte” – também usado pelo
Papa na Carta Encíclica Evangelium Vitae, tal expressão deve ser entendida em uma visão de
cunho social que considera a morte de certos seres humanos como um favor para a sociedade
como se tratasse de um controle de qualidade de vida. Como já foi falada no primeiro
capítulo, uma cultura deve estar voltada para promover o bem do ser humano e não para
violar os seus direitos. No entanto, infelizmente, existem estilos de ser e de viver que são
contrários à natureza e à dignidade do homem. O termo cultura de morte não é usado para
caracterizar a totalidade de uma sociedade, mas para denunciar algumas realidades negativas
assumidas por um grande número de pessoas e que têm sido uma afronta ou ameaça à vida
humana. Por exemplo, a prática do aborto e, principalmente, em casos de deficiência física ou
cerebral apresentada durante a gestação. Neste sentido, o diagnóstico pré-natal, que deveria
ser utilizado para conhecer as condições do embrião e do feto possibilitando assistências
médicas em vista de alcançar sua cura física, em muitos casos se torna um verdadeiro
atentado contra à vida quando usado para propor o aborto como forma de solucionar o
problema da malformação, como é o caso da anencefalia fetal.
Esta mesma contradição ocorre com relação à legislação brasileira: tendo a função de
assegurar a proteção e a promoção do ser humano em todas as etapas de seu desenvolvimento,
torna legal a prática do aborto em alguns casos, e, ainda, se vive hoje no Congresso Nacional
o debate que procura ampliar tal legislação para os casos de anencefalia fetal, uma vez que
esta anomalia consiste em uma condição fatal por causa da ausência ou atrofia do cérebro
impossibilitando o desenvolvimento normal do nascituro.
Ainda dentro da explanação do termo “cultura de morte”, a Igreja no Brasil apontará
alguns fatores que têm contribuído para alimentar estes atentados contra a vida humana -
fatores econômicos, sociais, políticos, culturais, psicológicos e religiosos - no intuito de
71 

mostrar que o aborto não tem consequências negativas somente para o feto, mas também para
a própria gestante significando uma profunda agressão física e psicológica.
Neste mesmo capítulo, o esforço também será para evidenciar as raízes da mentalidade
abortista, cujo foco está numa concepção errada da liberdade quando entendida como uma
absolutização da própria autonomia da mulher em detrimento do concepto. Em outras
palavras, trata-se da concepção individualista da liberdade dos mais fortes sobre os mais
fracos. Portanto, se verificará que a prática do aborto voluntário tem sua raiz em três correntes
de pensamentos: o individualismo, o hedonismo e o utilitarismo.
O que se vive em todo mundo, é uma tentativa de apresentar o aborto como sendo uma
questão de liberdade, em que a mulher tem o direito de livre escolha sobre prosseguir com a
gestação ou interrompê-la. Neste sentido, verifica-se uma tendência progressiva em querer
mudar o sentido das palavras ou de termos no intuito de justificar certos procedimentos como
é o caso em relação ao aborto. O que se verifica é uma verdadeira manipulação da linguagem,
que visa dar uma aparência de dignidade a procedimentos que são verdadeiros atentados à
vida humana.

2.1. Cultura de morte

O termo “cultura da morte”, que se refere a sinais negativos presentes na própria


sociedade, precisa ser bem compreendido, visto que também na sociedade existem muitos
outros sinais positivos a serem elencados conforme se pode ler nos parágrafos 26 e 27 da
Evangelium Vitae.
Muitos são os esposos, que se abrem para acolher com responsabilidade os próprios
filhos como o maior dom do matrimônio. Ao lado desses exemplos, também se pode
mencionar aquelas famílias que se abrem para o acolhimento de crianças abandonadas, de
adolescentes e jovens em dificuldade, de pessoas inválidas, de idosos que vivem na solidão.
Ainda, a assistência moral, e até mesmo, material, de centros ou instituições às mães que
vivem dificuldades na gravidez, e, por esse motivo, se sentem tentadas a recorrer ao aborto.
A dedicação de investigadores e profissionais na área da medicina contribuindo com
resultados cada vez mais eficazes revertidos em favor da vida nascente, das pessoas que
sofrem e dos doentes em fase grave ou terminal, como também associações nacionais e
internacionais comprometidas em levar os avanços da medicina aos países atingidos pela
miséria, calamidades naturais, epidemias e guerras.
72 

Paralelamente, diante das legislações que aprovaram práticas de ameaças à vida


humana, como por exemplo, o aborto e a eutanásia, também surgiram no mundo inteiro
iniciativas com o objetivo de despertar a sensibilidade da sociedade para a defesa da vida.
Os gestos diários de acolhimento, de sacrifício, de cuidado desinteressado de muitos
filhos e filhas da Igreja, que, seguindo o exemplo de Cristo, bom samaritano (cf. Lc 10,29-
37), especialmente religiosos e religiosas, se fazem presentes nos hospitais, nos orfanatos,
asilos etc dando suas vidas por amor dos mais necessitados.
Entre os sinais positivos da sociedade humana, incluiu-se a crescente sensibilidade
contra a guerra como instrumento de solução dos conflitos entre os povos, como também a
aversão à pena de morte, mesmo quando vista somente como instrumento de legítima defesa
social, uma maior atenção à qualidade da vida e aos problemas da ecologia e o despertar da
reflexão ética acerca da vida entre cristãos e não cristãos com o advento da nova disciplina da
bioética.
Porém, essas realidades de esperança em favor da vida humana não podem ser
confundidas como um otimismo ingênuo, visto que também existem aquelas que se levantam
contra a vida humana e o reconhecimento de sua dignidade. De fato, o termo cultura exprime
uma ideia positiva conforme a definição supracitada no primeiro capítulo, no entanto, “a
cultura atual tende a propor estilos de ser e viver contrários à natureza e dignidade do ser humano”190
colocando o poder, a riqueza e o prazer acima da pessoa humana.
Opções, outrora consideradas unanimemente criminosas e rejeitadas pelo
senso moral comum, tornam-se pouco a pouco socialmente respeitáveis. A
própria medicina que, por vocação, se orienta para a defesa e cuidado da
vida humana, em alguns dos seus setores vai-se prestando em escala cada
vez maior a realizar tais atos contra a pessoa.191
O Papa João Paulo II quando se referia ao termo “cultura da morte” não estava
caracterizando a totalidade de uma sociedade, mas a algumas realidades do homem
compartilhadas por um grande número de pessoas. Era muito comum o referido Papa se
utilizar de expressões como “cultura do amor e da esperança”, “cultura do desprezo”, “cultura
do ódio”, “cultura da violência”, “cultura da legalidade”, “cultura da máfia”, “cultura da
vocação” e “cultura do desejo de Deus”. Na própria encíclica Evangelium Vitae encontramos
locuções como “cultura dos direitos do homem” (Cf. EV 18); “cultura do amor e da
solidariedade” (Cf. EV 101); e outras formas equivalentes que usam no lugar da preposição de
                                                            
190
V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Documento de
Aparecida. 6ª edição, São Paulo: Paulus, 2008, n. 387. Daqui em diante segue-se DAp.
191
EV 4.
73 

uma forma adjetivada: “cultura abortista” (Cf. EV 13) ou “cultura democrática” (Cf. 69).
Estas expressões não querem manifestar um aspecto compartilhado por toda a sociedade, mas
por um grupo dentro da mesma sociedade.192
A expressão “cultura de morte” consiste em uma visão social que considera a morte de
certos seres humanos como um favor para a sociedade. E tal expressão se traduz com uma
série de comportamentos, instituições e leis que a favorecem e a provocam. Desse modo, as
expressões tais como “cultura abortista”, “cultura democrática” e “cultura divorcista” indicam
uma visão favorável em relação ao aborto, à democracia e ao divórcio como algo
compartilhado por um grupo dentro da sociedade e não por toda a sociedade.193
Neste sentido, pode-se falar de uma crise profunda da cultura, quando esta “gera
ceticismo sobre os próprios fundamentos do conhecimento e da ética e torna cada vez mais difícil
compreender claramente o sentido do homem, dos seus direitos e dos seus deveres.”194
Esta cultura, quando marcada por um eclipse, que nega o valor sagrado e intocável da
vida humana, toma uma configuração de verdadeira “cultura de morte”, ou melhor se
exprimindo, assume uma configuração de contra-cultura de morte, ou ainda, anti-cultura de
morte, pois “a vida que requereria mais acolhimento, amor e cuidado, é reputada inútil ou
considerada como um peso insuportável, e, conseqüentemente, rejeitada sob múltiplas formas.”195
Conforme se pode verificar nos parágrafos de 12 a 15 da encíclica Evangelium Vitae,
tal cultura de morte tem contribuído para uma difusão alarmante do aborto, apoiando
investimentos destinados à criação de medicamentos que possibilitam a morte de feto no
ventre materno, sem mesmo precisar recorrer à ajuda do médico.
Os remédios caseiros, como por exemplo, os chás, combinados ou não com outras
substâncias, são os meios mais utilizados para a prática do aborto, pois são muito facilmente
difundidos nas comunidades mais carentes durante as conversas informais.196
Verifica-se uma preocupação quase que exclusiva por parte da investigação científica
para obter produtos cada vez mais simples e eficazes contra a vida. Nota-se como prática
segura e acessível a todos, os métodos contraceptivos, quando uma vida não é desejada. E
ainda acusa-se a Igreja Católica de favorecer o aborto, porque continua ensinando como ilícito
tais práticas contraceptivas. Para muitos ainda, a vida humana que há de nascer se torna um
                                                            
192
Cf. MIRANDA, Gonzalo. “Cultura della morte: analisi di un concetto e di un dramma.” In: PONTIFICIA
ACCADEMIA PER LA VITA. Commento Interdisciplinare Alla Evangelium Vitae. Vaticano: Libreria Editrice
vaticana, 1997, p. 230.
193
Cf. idem, p. 231.
194
EV 11.
195
Idem, 12.
196
LÖW, Lilly e HOGA, Luiza Akiko Komura. “Anticoncepção e aborto provocado na gravidez não planejada.”
O Mundo da Saúde, São Paulo, ano 23, v. 23, n. 2, pp. 86-92, [mar./abr.]1999, p. 90.
74 

inimigo a ser combatido, pois veem na procriação um empecilho para o desenvolvimento da


própria personalidade. Para esses, o aborto se torna a única solução possível diante de uma
contracepção falhada. Portanto, como se faz urgente uma evangelização da sexualidade para
fazer frente a uma mentalidade hedonista e desresponsabilizadora da sexualidade, que tem
suas raízes fincadas no conceito egoísta da liberdade humana.
Infelizmente, emerge cada vez mais a estreita conexão que existe, a nível de
mentalidade, entre as práticas da contracepção e do aborto, como o
demonstra, de modo alarmante, a produção de medicamentos, dispositivos
intra-uterinos e preservativos, os quais, distribuídos com a mesma facilidade
dos contraceptivos, atuam na prática como abortivos nos primeiros dias de
desenvolvimento da vida do novo ser humano.197
As diversas técnicas de reprodução artificial também têm sido uma ameaça à vida
humana, pois grande número de embriões tem sido produzido (embriões supranumerários) e
não implantados no útero da mulher, sendo, consequentemente descartados ou usados como
material biológico em pesquisas científicas ou médicas: “Cada ser humano deve ser respeitado
em si mesmo e não pode ser reduzido a mero e simples valor instrumental em proveito de outrem. Por
isso não é conforme à moral expor deliberadamente à morte embriões humanos obtidos in vitro.”198
O diagnóstico pré-natal é moralmente lícito, quando se busca conhecer as condições
do embrião e do feto ainda no seio materno possibilitando intervenções terapêuticas, médicas
ou até mesmo cirúrgicas no intuito de obter sua cura física; mas tal diagnóstico se torna
moralmente ilícito e um atentado à vida quando utilizado para propor ou solicitar o aborto
diante de alguma malformação, por exemplo, os casos de anencefalia fetal, o que seria
enquadrado como aborto eugênico caracterizado por acolher a vida apenas sob certas
condições e recusando a limitação, a deficiência e a enfermidade:
Um diagnóstico que ateste a existência de uma deformação ou de uma
doença hereditária não deve equivaler a uma sentença de morte. Por
conseguinte, a mulher que solicitasse o diagnóstico com a determinada
intenção de realizar o aborto caso o seu resultado confirmasse a existência de
uma deformação ou anomalia, cometeria uma ação gravemente ilícita.199
As ameaças contra a vida também podem ser identificadas contra os doentes
incuráveis e os doentes terminais recorrendo a eutanásia como antecipação da morte e
eliminação do estado de angústia e de desespero provocados pela prolongada experiência de

                                                            
197
EV 14.
198
DV I, 5.
199
Idem I, 2.
75 

dor. A dificuldade de enfrentar e suportar a dor serve ainda mais para aumentar a tentação de
resolver o antigo problema do sofrimento humano eliminando-o pela raiz: “Tudo isto fica
agravado por uma atmosfera cultural que não vê qualquer significado nem valor no sofrimento, antes
considera-o como o mal por excelência, que se há de eliminar a todo custo.”200 Ainda, pode-se
conferir que o recurso à eutanásia é justificado também por motivos utilitaristas no sentido de
evitar despesas materiais e financeiras para a sociedade diante do quadro de improdutividade
destes inválidos. Nesta lista de inválidos, inclui os recém-nascidos defeituosos, dos
deficientes graves, dos idosos, especialmente quando não são auto-suficientes, e dos doentes
terminais.
Nesta perspectiva de tentar definir a cultura de morte também está incluído o
fenômeno demográfico como ameaça à vida humana em que se verifica uma preocupante
diminuição da natalidade nos países ricos e desenvolvidos e uma elevada taxa de aumento da
população nos países pobres. E o grande atentado que se faz à vida diante de uma explosão
demográfica é tentar resolver tal problemática por meio da contracepção, da esterilização e do
aborto, “em vez de procurarem enfrentar e resolver estes graves problemas dentro do respeito da
dignidade das pessoas e das famílias e do inviolável direito de cada homem à vida.”201
Um veículo de grande repercussão dentro de uma sociedade e que também pode ser
usado para favorecer a cultura da morte são os meios de comunicação. Estes podem manipular
as consciências e formar uma opinião pública em favor da contracepção, da esterilização, do
aborto e da própria eutanásia como sinal do progresso e da conquista da liberdade, enquanto
que as posições em favor da vida humana podem ser apresentadas como inimigas da liberdade
e do progresso.202
O século XX foi considerado uma época de grandes investimentos contra o valor da
vida, uma série infindável de guerras e um massacre permanente de vidas humanas inocentes.
A verdade é que estamos perante uma objetiva conjura contra a vida que vê
também implicadas Instituições Internacionais, empenhadas a encorajar e
programar verdadeiras e próprias campanhas para difundir a contracepção, a
esterilização e o aborto.203
Vive-se numa época que parece prevalecer largamente a “cultura da morte”.
“Evidentemente, a crescente referência ao tema [cultura da morte] se deve a uma progressiva tomada
de consciência da gravidade do problema, mas também ao progresso do próprio problema na

                                                            
200
EV 15.
201
Idem, 16.
202
Cf. idem, 17.
203
Ibidem.
76 

sociedade dos nossos dias.”204 Quando o Papa João Paulo II falava de uma “cultura da morte”
ele estava se referindo a uma mentalidade difundida, que, mesmo não se estendendo por toda
a parte, previa o perigo de uma tendência crescente que poderia chegar ao ponto de ser
aprovado por todos os homens de todos os lugares. E ainda continua dizendo, que “a missão da
Igreja é tanto mais necessária quanto mais dominante se faz a ‘cultura de morte’.”205 Por este motivo,
instituiu a Pontifícia Academia para a Vida consciente que o acolhimento da vida é um dever
particularmente urgente em nosso tempo na intenção de fazer frente às ameaças já existentes e
aquelas que surgem a cada momento.
Uma das ameaças que se levanta contra a dignidade do homem ainda na sua fase
uteriana é a cultura de morte do aborto. Portanto, se poderá ver em seguida alguns aspectos
identificados pela Igreja no Brasil que favorecem tal prática abortista.

2.1.1. Alguns fatores apontados pela Igreja no Brasil que favorecem o aborto

A Conferência dos Bispos do Brasil tem representado uma forte tomada de posição da
Igreja Católica em defesa da vida humana frente as mais diversas ameaças, como por
exemplo, o aborto. Em seus muitos pronunciamentos, verifica-se tamanho empreendimento
para levar a termo a missão de Cristo, que sempre foi em favor da vida humana: “É missão da
Igreja anunciar Jesus Cristo, que venceu a morte para conquistar-nos a vida.”206
A defesa da vida tornou-se um princípio sempre assumido pela Igreja católica do
Brasil, e isto se pode verificar na Conferência dos Bispos reunidos constantemente em
Assembleia Geral, que tem sido verdadeiramente uma bandeira levantada em prol da vida
humana em todas as suas etapas, inclusive desde a concepção. A Igreja do Brasil tem,
frequentemente, se dirigido aos fiéis cristãos e a toda a sociedade, no intuito de conscientizá-
los sobre a prática largamente difundida do aborto. “Estimam em milhões os abortos provocados
por ano no Brasil. Multiplicam-se as clínicas da prática do aborto. Isso constitui forte interpelação à
nossa sensibilidade humana e consciência cristã.”207
Os bispos fazem um levantamento sobre as causas, que acabam levando as mulheres à
opção do aborto, que dentre estas causas, apontam os fatores de natureza socioeconômica, isto

                                                            
204
MIRANDA, Gonzalo. “Cultura della morte: analisi di un concetto e di un dramma.” In: PONTIFICIA
ACCADEMIA PER LA VITA. Commento Interdisciplinare Alla Evangelium Vitae, p. 233.
205
Idem, p. 234.
206
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Pronunciamentos de 1988 a 1989 da 27ª
Assembleia Geral (1989). “Um novo sim à vida.” Itaici, São Paulo, 14 de abril de 1989, p. 1. Disponível em:
www.cnbb.org.br. Acesso em: 14 de março de 2010, 14:25.
207
Ibidem.
77 

é, colocando o fator econômico acima do fator social, considerando a política de produção, de


exportação e lucrativa muito mais importante do que o ser humano na sua dignidade. É o caso
das indústrias, que estão por detrás incentivando o uso dos métodos anticoncepcionais, e, que,
por sua vez, são abortivos.
Outro fator é o crescente êxodo do meio rural para o meio urbano por falta de reforma
agrária mediante a concentração fundiária. Este êxodo descontrolado contribui para a miséria
urbana impossibilitando condições aptas a uma vida familiar digna. Neste sentido, favorece o
aborto quando mães desempregadas não podem dar a devida assistência aos seus filhos, como
também a não aceitação de mulheres gestantes empregadas.
Ainda sobre os fatores, que agem como causa do aborto, pode-se citar os fatores sócio-
culturais, sobretudo a grande crise de valores, que tem marcado a sociedade; a falsa ideia,
propagada por parte de um feminismo exacerbado, que defende o direito da mulher sobre o
próprio corpo; o forte crescimento da imoralidade e da permissividade estimulada pelo mau
uso dos meios de comunicação social, especialmente a televisão, acessível para quase todos os
brasileiros.
No que diz respeito aos fatores sócio-religiosos, pode-se apontar a falta de fé que seja
assumida e vivida de uma maneira coerente por aqueles, que dizem professar tal fé. Fé, esta,
que está sempre a favor da vida. Como também pode-se assinalar a perda do sentido ético e
moral já presente no coração humano desde o seu nascimento, que chama-se de lei natural –
faça o bem e evite o mal. E a ausência de um ambiente familiar, que seja marcado pelos
valores cristãos para o nascituro.
A cultura da morte nos desafia. Com tristeza humana e preocupação cristã,
somos testemunhas das campanhas antivida, que se difundem na América
Latina e no Caribe, perturbando a mentalidade do nosso povo com uma
cultura da morte. O egoísmo, o medo ao sacrifício e à cruz unidos às
dificuldades da vida moderna geram rejeição do filho que não é responsável
e alegremente acolhido na família, mas considerado como agressor.
Atemorizam-se as pessoas com um verdadeiro ‘terrorismo demográfico’ que
exagera o perigo que pode representar o crescimento da população frente à
qualidade de vida.208
A falta de maturidade psíquica e espiritual no casal que se deu em prática sexual sem
levar em consideração as consequências que tal ato poderia resultar para ambos, os leva, em
muitos casos, a optar pelo aborto. A escolha pelo aborto é ainda mais reforçada quando a
                                                            
208
CONFERÊNCIA EPISCOPAL LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Santo Domingo, n. 219. In:
DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos do CELAM.
78 

gestante é abandonada pelo seu parceiro e que se encontra em meio a dificuldades econômicas
para assumir aquela gestação e, posteriormente, o bebê.
Nesse sentido, ao lado de tantos fatores que acabam levando à prática do aborto,
verifica-se ainda uma crise do amor como consequência de uma crise da própria sexualidade,
quando aquele é reduzido somente ao sexo.209 O amor entre um homem e uma mulher não
pode consistir somente na prática sexual, pois, seguindo esta linha de raciocínio, o amor estará
sendo anulado em proveito do prazer carnal. O amor deve ser caracterizado pelo dom
recíproco e por uma pertença recíproca das pessoas. “O amor faz com que o homem se realize
através do dom sincero de si: amar significa dar e receber aquilo que não se pode comprar nem vender,
mas apenas livre e reciprocamente oferecer.”210 E o fruto desta união é a sua recíproca pertença
nas relações sexuais, que o Magistério Católico chama de relações conjugais.
Contrariamente às opiniões que consideram o problema sexual dum modo
superficial e vêem a ação do amor apenas no abandono carnal da mulher ao
homem, é preciso pelo contrário, ver aí o dom recíproco e a mútua pertença
de duas pessoas. Não um prazer sexual recíproco em que um abandona o seu
corpo ao outro para que ambos experimentem o máximo de voluptuosidade
sensual, mas precisamente um dom recíproco e uma pertença recíproca das
pessoas.211
A relação que deve existir entre o casal, que assume a responsabilidade mútua e pela
procriação como fruto do amor autêntico de doar-se e receber, é sustentada pela plena
consciência que um tem do outro como pessoa humana. Até mesmo, em se tratando de uma
relação estável entre o casal, a escolha da pessoa amada deve ser feita não somente embasada
nos valores sexuais, mas acima de tudo nos valores da pessoa, uma vez que os valores sexuais
podem sofrer mudanças e até desaparecer, ao passo que o valor essencial, isto é, o da pessoa,
permanece sempre.212
Subjetivamente, o amor é sempre uma situação psicológica, um estado
psíquico provocado por valores sexuais e que gira à volta deles no sujeito ou
nos sujeitos que o experimentam. Objetivamente, o amor é um fato
interpessoal, é reciprocidade e amizade fundadas numa comunhão no bem, é

                                                            
209
Cf. RUSSO, Giovanni. Bioética em diálogo com os jovens. Lisboa: Paulus, 2010, p. 20.
210
DSI 221.
211
WOJTYLA, Karol. Amor e Responsabilidade. Moral sexual e vida interpessoal. Braga-Portugal: Editora
A.O., 1979, p.116.
212
Cf. idem, p. 122.
79 

portanto sempre uma união de pessoas que pode tornar-se pertença


recíproca.213
Falar de valores sexuais dentro de um relacionamento interpessoal como motivo único
ou mesmo principal, não se poderia falar de escolha da pessoa entendida segundo o que ela é
em si mesma, mas somente da escolha do sexo oposto representado meramente por um corpo
concebido como objeto de gozo.
A Igreja do Brasil, quando se pronuncia a favor da vida, e neste caso especificamente
contra o aborto, é imprescindível falar que, ela não está fazendo uma apologia somente em
defesa do embrião ou do feto humano, que está sendo gerado no útero materno, mas a Igreja
também está voltada para a própria dignidade da gestante, “tantas vezes marginalizada e
instrumentalizada, que se torna, no caso do aborto, não apenas sujeito, mas também objeto de
profunda agressão física e psicológica, gerando-se nela forte sentimento de culpa.”214
O Dr. Edgar Hernández Gálvez, médico cirurgião e especialista em Psiquiatria e
Psicologia pela Faculdade de Medicna da Universadade de Navarra na Espanha comenta que,
nos casos de aborto provocado, surgirão, frequentemente, efeitos psicológicos nas mulheres.
No entanto, o tempo em que esses efeitos surgirão dependerá do tipo de conflito vivenciado
pela mulher, de modo que, se tal conflito for consciente, as consequências surgirão
imediatamente após o aborto, e se for inconsciente, surgirão meses ou até anos depois. Esse
conjunto de sintomas é chamado de “síndrome pós-parto” e que pode ser vivenciado pela
mãe, pelo pai e pela equipe de saúde que o realizou. Entre esse conjunto de sintomas, verifica-
se a depressão, o isolamento, a angústia, a ansiedade, um grande sentimento de culpa,
somatizações de caráter autopunitivas em que a mulher transfere para o próprio corpo a
angústia e a culpa que sente, adoecendo, por exemplo, de gastrite, falta de ar, taquicardia,
câncer no útero etc, insônia e pesadelos noturnos, raiva e agressividade em relação à equipe
de saúde, irritabilidade e explosões de ira, dificuldade para se concentrar, perda de interesse
pela relação sexual, como também frigidez (relação sexual de prazer e sem alcançar o
orgasmo), a dispaurenia (relação sexual com dor), o vaginismo (a vagina se fecha e não é
possível a penetração), a depressão de aniversário na época do aborto, perda de confiança em
si mesmas e em sua capacidade de tomar decisões, auto-estima baixa, dependência de

                                                            
213
Idem, p.116.
214
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Pronunciamentos de 1988 a 1989 da 27ª
Assembleia Geral (1989). “Um novo sim à vida.” Itaici, São Paulo, 14 de abril de 1989, p. 2. Disponível em:
www.cnbb.org.br. Acessado em: 14 de março de 2010, 14:25.
80 

tranquilizantes, consumo de drogas, uso excessivo de álcool, distúrbios alimentares como a


anorexia e a bulimia215, obesidade, alergia a crianças e creches.216
A ausência de algum sintoma na mulher pós-aborto pode ser devido a três fatores: 1. A
consciência mal formada, sobretudo, nas mulheres que se consideram donas do próprio corpo
e que acham que podem fazer o que quiserem com ele não levando em consideração que
aquela vida que está sendo desenvolvida em seu útero não é sua, mas de um outro ser
humano, que dela depende das condições elementares para sobreviver; 2. Pessoas que não
possuem consciência suficiente de seus atos - certo grau de oligofrenia - não somente no que
se refere ao aborto, mas em relação a qualquer decisão de sua vida; 3. Pessoas que sofrem de
transtorno de personalidade do tipo sociopata, ou socialmente conhecidas como psicopatas.
Estas são caracterizadas por ações violentas e até criminosas sem terem sentimento de culpa
diante daquilo que cometeram.
Uma sensação positiva que as mulheres dizem sentir pós-aborto é um sentimento de
alívio, o que é enormemente compreensível, quando levada em consideração a situação de
pressão na qual se encontravam diante da família, dos amigos, da sociedade, da situação
econômica etc. Esse sentimento de alívio, que se sucede ao aborto voluntário, é chamado por
psicólogos e psiquiatras de ‘paralisia emocional’. Trata-se de um mecanismo de defesa
utilizado pela mãe na tentativa de racionalizar tal ato dizendo que foi o melhor que poderia ter
feito, ou que não havia outra saída.217
Portanto, quando a Igreja se encontra diante de uma mentalidade de morte, como foi o
caso da legalização do aborto no Brasil de acordo com o artigo 128 do Código Penal
Brasileiro, a sua participação política e social em defesa da vida humana se faz sentir
fortemente, visto que a sua missão não é outra, senão a mesma iniciada e delegada por Cristo.
E tal manifestação política e social da Igreja tem o intuito de atingir as consciências sob a luz
do Evangelho da Vida, para que o máximo possível de brasileiros sejam despertados em suas
consciências e participem nesta luta em favor do homem na sua totalidade.
Uma legislação a favor do aborto está traindo a sua função de assegurar o direito
inviolável à vida. A própria Constituição Brasileira no seu artigo 5 declara que todos têm o
direito à vida. Portanto, falar de direitos que garantem a vida humana e ao mesmo tempo
                                                            
215
Pode ser que elas procurem negar seus sentimentos de dor e angústia, concentrando-se em sua estética
corporal: deixam de comer, no intuito de alcançar o corpo de ‘uma modelo’, excessivamente magra. Isto pode
gerar um transtorno psicológico chamado anorexia, que pode levar à morte. Porém, pode ser que, por não
alcançarem a imagem corporal desejada, venham a comer compulsivamente, provocando o vômito logo depois
de se alimentarem. Esse transtorno é denominado bulimia.
216
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Setor Família e Vida. Primeiro Fórum de
Questões de Bioética, 02/10/1999, em Brasília: O valor, a beleza e a dignidade da vida humana, pp. 56-60.
217
Cf. idem, p. 54-55.
81 

autorizar práticas abortivas, equivale a dizer que se trata de uma contradição ou traição em
função da própria lei. No entanto, se verá em seguida os dois casos permitidos pela legislação
brasileira para a prática do aborto.

2.1.2. Aspecto jurídico do aborto no Brasil

Neste item, serão apresentados quais os casos em que a prática do aborto é autorizada
perante a Lei brasileira. E no caso que toca ao feto desprovido de cérebro, será apresentado o
projeto de Lei que visa ampliar a legislação, pois, até que não seja incluída a anencefalia no
Código Penal, necessária é a autorização judicial.
Numa tentativa de definição o que é o aborto do ponto de vista legal, pode-se dizer
que é a interrupção da gravidez com o objetivo de provocar a morte do concepto, não fazendo
alusão à idade gestacional. Todavia, a grande maioria das legislações mundiais apontam 12
semanas.218
Segundo o Código Penal Brasileiro219, pode-se verificar o seguinte:
O aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento incorre no artigo 124.
Provocar aborto em si mesmo ou consentir que outrem lhe provoque, sofre a pena de detenção
de 1 (um) a 3 (três) anos.
No caso de aborto provocado por terceiro, incorre no artigo 125. Provocar aborto, sem
o consentimento da gestante: sofre a pena de reclusão de 3 (três) a 10 (dez) anos.
O que prescreve o artigo 126 diz, que, provocar aborto com o consentimento da
gestante, incorre a pena de reclusão de 1 (um) a 4 (quatro) anos.
No parágrafo único do Código Penal, diz, que, aplica-se pena do artigo anterior, se a
gestante não é maior de 14 anos, ou é alienada ou débil mental, ou se o consentimento é
obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência.
No artigo 127 diz que, as penas aplicadas nos dois artigos anteriores são aumentadas
de um terço se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a
gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas
causas, lhe sobrevém a morte.
No artigo 128 diz, que, não se pune o aborto praticado por médico, em dois casos
específicos: se não há outro meio de salvar a vida da gestante e no caso de gravidez resultante
                                                            
218
Cf. DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Bioética e Início da Vida: alguns desafios. São Paulo:
Ideias e Letras, 2004, p. 108.
219
Cf. CÓDIGO PENAL BRASILEIRO. 35ª edição, São Paulo: Saraiva, 1997, Decreto-lei n. 2848, de 7 de
dezembro de 1940, Artigos 124 a 128.
82 

de estupro. Se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da


gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal.220
Partindo desses artigos do Código Penal Brasileiro, conclui-se, que o aborto no caso
de anencefalia fetal é claramente proibido pela lei, uma vez que, a gravidez de um nascituro
anencéfalo não seja resultado de estupro tampouco incorra em uma ameaça para a vida da
mãe.
No entanto, mesmo que não haja na legislação brasileira e, precisamente falando, no
Código Penal, a aprovação do aborto para os casos de anencefalia fetal, existe atualmente um
projeto de Lei que está tramitando no Congresso Nacional Brasileiro de autoria da deputada
Sra. Luciana Genro e do deputado Sr. Dr. Pinotti com o intuito de ampliar a legislação que diz
respeito ao aborto também para a questão dos fetos anencéfalos.221
O referido projeto de Lei acrescenta um inciso ao artigo 12 Decreto-lei n.º 2.848, de 7
de dezembro de 1940. O Congresso Nacional decreta: Art. 1º O art. 128 do Decreto-lei n.º
2.848, de 7 de dezembro de 1940, passa a vigorar acrescido do inciso III: se o feto é portador
de anencefalia, comprovada por laudos independentes de dois médicos (NR). O Art. 2º diz
que esta Lei entra em vigor na data da sua publicação.222
O primeiro projeto de Lei (PL 632/1972) a ser apresentado no Congresso Nacional
sobre interrupção da gestação por má-formação foi em 1972 pelo deputado federal Araújo
Jorge do MDB-RJ. Em contrapartida, no ano de 2003, o deputado Severino Cavalcanti do
PPB-PE propõe um projeto de Lei criminalizando a interrupção da gestação de fetos
inviáveis, qualificando como aborto eugênico. Nos últimos quinze anos não foi realizado
nenhum projeto de Lei nos termos do PL 632/1972, sendo este período de maior concentração
da discussão no legislativo e no jurídico em torno da questão da má-formação do feto.223

                                                            
220
Cf. DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Op. cit., pp. 109-110.
221
Além desses projetos outros vão surgindo no intuito de ampliar a legislação brasileira no que diz respeito à
anencefalia fetal, tais como, o Projeto de Lei Nº 227/04, do Senador Mozarildo Cavalcanti, que prevê a
possibilidade de aborto se o feto apresentar anencefalia e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou,
quando incapaz, de seu representante legal. Também tramita o Projeto de Lei Nº 312/04, do Senador Marcelo
Crivella, que assegura o aborto quando, mediante consentimento da gestante ou, se incapaz, de seu representante
legal, for atestada a ausência de vida no gestado, diagnosticada na forma do art. 3º da Lei Nº 9.434, de 04 de
fevereiro de 1997. A referida Lei autoriza o transplante de órgãos e estabelece que a comprovação da morte se dá
perante o diagnóstico de morte encefálica. Ou seja, a ausência de vida no gestado seria decorrente da anencefalia
do feto, comparada com a morte encefálica. In: J. ARNS, Flávio. “Questões e perspectivas a partir do Direito.”
In: CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Instituto Nacional de Pastoral. A dignidade da
Vida Humana e as Biotecnologias, p. 83.
222
Cf. TELMO DE TONI, Antonio. “Anencefalia: uma visão jurídica.” In: CARLOS HOCH, Lothar e H. K.
WONDRACEK, Karin. Bioética. Avanços e dilemas numa ótica interdisciplinar. Do início ao crepúsculo da
vida: esperanças e temores. Leopoldo-RS: Sinodal; EST; Fapergs, 2006, p. 52.
223
Cf. DINIZ, Debora. “Aborto e inviabilidade fetal: o debate brasileiro.” In: ANDRÉA LOYOLA, Maria (org.).
Bioética. Reprodução e gênero na sociedade contemporânea. Rio de Janeiro/Brasília: Letras Livres, 2005, p. 84.
83 

Numa retrospectiva histórica sobre a interrupção da gestação por má-formação fetal no


Brasil, o debate assumiu três espaços: o legislativo, o Judiciário e o Ministério Público e o
Supremo Tribunal Federal.
O primeiro foi o Legislativo, considerando que, do ano de 1972 a 2004 foram
apresentados 12 projetos de lei sobre o tema de má-formação fetal grave. No segundo
semestre deste mesmo ano, seis projetos foram apresentados após a tramitação da ação sobre
anencefalia no Supremo Tribunal Federal (STF). A forte participação do Senado Federal tem
sido uma característica do debate legislativo mais recente com a proposição de três projetos,
uma vez que, o tema do aborto foi discutido, tradicionalmente, na Câmara dos Deputados.
O segundo espaço de negociação foi o poder Judiciário e o Ministério Público, onde,
inclusive, os primeiros casos de interrupção foram autorizados. Foi o Ministério Público do
Distrito Federal e Territórios a instituir, no ano de 1997, o primeiro programa de atendimento
a mulheres grávidas de fetos com anomalia fetal considerada incompatível com a vida. Neste
sentido, as mulheres que desejassem interromper a gestação eram encaminhadas do serviço
público a uma promotoria especializada, que fazia a autorização em 24 horas.
O terceiro espaço de discussão pública foi o Supremo Tribunal Federal (STF) com um
projeto apresentado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde (CNTS) em
2004, que possuía o objetivo de garantir o direito à interrupção da gestação em casos de
anencefalia e proteger os profissionais de saúde que socorressem as mulheres. A partir deste
momento, o governo brasileiro se comprometeu em revisar o caráter punitivo da legislação de
aborto.224
Atualmente, a realização do aborto no Brasil é ilegal em gestante cujo feto apresenta
anencefalia. Nesse sentido, até que tal anomalia não seja inclusa no Código Penal, se faz
necessária a autorização do poder judiciário: “Em razão da demora no julgamento pelo STF, os
juízes e tribunais dos Estados se valem de saídas jurídicas diferenciadas para superar o impasse no
STF e liberar as cirurgias em 80% a 90% dos casos.”225 Neste sentido, se percebe que a
interrupção da gravidez nos casos de anencefalia fetal se tornou praticamente uma regra no
Judiciário enquanto o Brasil aguarda uma palavra final do STF, que cerca de oito anos vem
discutindo tal questão.
Assim, de ordem prática, uma vez verificada a anencefalia e resolvida a
interrupção do estado gravídico, os interessados deverão procurar um

                                                            
224
Cf. idem, pp. 85-86.
225
RECONDO, Felipe. “Após sete anos, STF retoma processo que autoriza aborto de anencéfalo.” Disponível
em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso%2capos-sete-anos-stf-retoma-processo-que-autoriza-aborto-
de-anencefalo%2c681622%2c0.htm. Acesso em: 13/03/2012, 14:08.
84 

profissional do direito, já providenciando os documentos imprescindíveis e


necessários que são: 1. Relatório médico, que informe ao Juiz da Vara,
objetivando o suprimento judicial, a constatação de que a patologia é letal
em 100% dos casos; 2. Exames de ultra-som morfológico com avaliação de
idade gestacional e descrição da patologia; 3. Avaliação psicológica e 4.
Assinatura do casal.226
Em Brasília, esses casos já nem passam pela análise de um juiz. A mulher grávida de
um feto anencéfalo pode procurar o Ministério Público tendo em mãos um laudo médico de
algum hospital de referência. O Ministério Público analisa essa documentação e, confirmando
a anencefalia, encaminha a mulher para um médico com a determinação de que a interrupção
da gravidez seja feita. Nesta situação, o caso não passa, portanto, pelo Judiciário. Tendo em
vista a simplicidade desse trâmite, mulheres de outros Estados, como Piauí, Minas Gerais e
Bahia, têm recorrido ao Ministério Publico do Distrito Federal.
Embora, a aprovação da interrupção da gravidez em caso de anencefalia fetal tenha
sido uma regra no Judiciário como se pode notar até então, a decisão do STF ainda é apontada
como importante pelos defensores do aborto anencefálico, pois sem ela, juízes podem se
negar, por questões de consciência, a autorizar o tratamento médico. Portanto, se por um lado
os defensores da interrupção da gravidez no caso de anencefalia esperam uma manifestação
definitiva do STF, por outro lado, temem que uma decisão contrária impeça que juízes e
tribunais dos diversos Estados brasileiros continuem a autorizar, caso a caso, o aborto.227
No dia 11 de março de 2012, a Comissão de juristas nomeada pelo Senado que elabora
o anteprojeto de lei de um novo Código Penal aprovou um texto que propõe o aumento das
possibilidades para que uma mulher possa realizar abortos sem que a prática seja considerada
crime. O anteprojeto garante às mulheres que possam interromper uma gestação até os dois
meses de um anencéfalo ou de um feto que tenha graves e incuráveis anomalias para viver.228
Qualquer atentado contra a vida humana, seja qual for o estágio em que ela se
encontra, mesmo que tal gesto esteja amparado pela legislação civil de seu país, jamais será
considerado como sendo moralmente lícito, pois o desrespeito a dignidade humana se torna
sempre uma afronta à consciência, quando norteada pelo reto uso da razão. Esta posição da
Igreja Católica também se justifica com relação aos fetos anencefálicos, pois o direito à vida é

                                                            
226
CARLOS HOCH, Lothar e H. K. WONDRACEK, Karin. Op. Cit., p. 54.
227
RECONDO, Felipe. “Após sete anos, STF retoma processo que autoriza aborto de anencéfalo.” Disponível
em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso%2capos-sete-anos-stf-retoma-processo-que-autoriza-aborto-
de-anencefalo%2c681622%2c0.htm. Acesso em: 13/03/2012, 14:08.
228
BRITO, Ricardo. “Comissão do novo Código Penal amplia regras para aborto legal e eutanásia.” In: O Estado
de São Paulo, 10 de março de 2012, A24.
85 

um direito decorrente da própria natureza ontológica do ser humano e não se ele tem ou não
uma de suas partes.

2.2. O que é o aborto anencefálico?

Este respectivo subtítulo tem o objetivo de fazer uma explanação sobre o conceito
aborto, como também os diversos casos de aborto definindo a sua moralidade. E ainda, tratará
de conceituar o que se deve entender sobre anencefalia.
Etimologicamente, aborto tem a sua origem no latim – abortus – que significa
privação de nascimento conforme o seu prefixo ab, que quer dizer privação, e ortus, que
significa nascimento.
Alguns autores preferem o termo abortamento para designar a interrupção
dolosa da gravidez, antes do sexto mês, com o argumento de que aborto
seria o produto desta intervenção, e porque a palavra abortamento guardaria
maior significação técnica. Entretanto, o termo, na forma contrária, é o mais
comumente utilizado, seja popularmente, seja na linguagem erudita e ambos
possuem o mesmo sentido. Ademais, aborto, pela sua sinonímia revela, por
si só, o caráter de abortar.229
Procurando uma conceitualização para a maioria das correntes filosóficas, médicas e
religiosas pode-se dizer:
Seria a expulsão ou extração de toda ou qualquer parte da placenta ou das
membranas, sem um feto identificável, ou de um recém-nascido vivo ou
morto, que pese menos de quinhentos gramas. Na ausência do
conhecimento do peso, uma estimativa da duração da gestação de menos de
vinte semanas completas, contando desde o primeiro dia do último período
menstrual normal, pode ser utilizada. Ou do ponto de vista médico, aborto é
a interrupção da gravidez até a 20ª ou 22ª semana, ou quando o feto mede
até 16, 5 cm. Este conceito é mundialmente aceito pela literatura médica.
Na visão estritamente médica, obstétrica de aborto, a palavra é reservada
para a interrupção de gestação até 24 semanas de gravidez, ou seja, até a
ocasião em que o feto passa a se tornar capaz de vida, independentemente
do útero materno; daí em diante o fato passaria a se chamar parto
prematuro. Para se denominar algo como aborto, é indispensável que tenha

                                                            
229
DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Op. cit., p. 105.
86 

ocorrido a morte do nascituro, a vida do qual é o valor a ser juridicamente


preservado.230
Pode-se destacar diversos casos de aborto numa classificação, que define a sua
moralidade, conforme elencados logo abaixo:
a) Aborto involuntário-espontâneo, quando acontece sem nenhuma participação, nem
imediata, nem mediata da vontade;
b) Aborto involuntário-culposo, quando acontece por uma ação perigosa à gestação,
sem previsão de aborto, feita por uma imprudência;
c) Aborto direto-voluntário ou provocado, quando se faz uma ação direta no ovo
fecundado com a intenção de tirar-lhe a vida;
d) Aborto indireto-voluntário é o que acontece previsto, mas não desejado, por
concomitância inevitável, por uma ação lícita, que tende por uma natureza a um
efeito bom.231
No caso do aborto provocado ou ainda induzido é aquele que incorre pela intervenção
especial do homem, sobretudo sob a indicação médica ou terapêutica no intuito de
salvaguardar a vida ou a saúde da mãe.
Neste último caso, pode-se relacionar os abortos provocados pelas seguintes
indicações:
O aborto eugênico, provocado para se livrar de um nascituro com anomalias, defeitos
ou doença fetal já identificados em exames no pré-natal.
O aborto por indicação sócio-econômica, quando é provocado por falta de condições
necessárias para criar uma família, tais como, espaço insuficiente para uma moradia
adequada, insegurança de emprego, baixo salário, doenças na família, responsabilidade com
os idosos, sensibilidade à defesa da qualidade de vida acima de sua quantidade numérica, falta
de proteção à mãe solteira e aos filhos excepcionais.
O aborto provocado por indicação psicossocial, por exemplo, o medo da discriminação
da mãe solteira, complicação de filho sem pai, desonra da família, incapacidade de tomar
conta do filho, medo da gravidez e de seus riscos, falta de vontade de ter filhos ou este filho,
para não perder seu emprego, seu sustento ou forma física, gravidez indesejada causada pelo
fracasso dos meios anticoncepcionais, as exigências da educação dos filhos entre outros.

                                                            
230
Idem, p. 106.
231
Cf. CAMARGO, Marculino. Ética, Vida e Saúde. 3ª edição, Petrópolis–RJ: Vozes, 1976, pp. 20-21.
87 

O aborto provocado por indicação ética, ou seja, provocado por razões chamadas
morais, como por exemplo, a gravidez resultante de estupro, incesto, adultério, relação fora do
matrimônio.
O aborto provocado por indicação cultural, em que a gravidez e, consequentemente a
maternidade, vai gerar uma mudança do papel da mulher e da família na sociedade, por
exemplo, exigências, compromissos e responsabilidades perante a nova realidade.
O aborto provocado por indicação política, por exemplo, por causa da política de
salários, de seguridade social, do serviço de maternidade que reprimem a taxa de natalidade,
medo de uma explosão demográfica e de superpopulação, mentalidade antivida.232
O tratamento genético de um feto, que apresente anomalias é eticamente indicado
quando se tem por objetivo corrigir, curar ou eliminar alguma deficiência da natureza
humana, mas nunca com o objetivo primeiro de eliminar um processo de vida que vai
desabrochar em uma pessoa.
Um diagnóstico que ateste a existência de uma deformação ou de uma
doença hereditária não deve equivaler a uma sentença de morte. Por
conseguinte, a mulher que solicitasse o diagnóstico com a determinada
intenção de realizar o aborto caso o seu resultado confirmasse a existência de
uma deformação ou anomalia, cometeria uma ação gravemente ilícita.233
No entanto, caso aconteça a perda do feto mediante a aplicação de tal tratamento
terapêutico, este caso incorre no conceito ético de duplo efeito, em que a intenção primeira
não foi eliminar o feto, mas curar alguma anomalia, mesmo que tal tratamento acabe
provocando a interrupção da vida do nascituro.
Diante deste quadro, é aconselhável que se tenha uma prevenção e uma orientação,
que vise buscar a assistência médico-curativa ao feto com deficiências, mas o que causa
indignação é
a atitude seletiva de acolher somente quem é ‘perfeito’ segundo nossos
padrões morais e descartar os considerados ‘imperfeitos’ como não dignos
de viver, baseados em um conceito de controle de qualidade de vida que não
deixa de ser uma forma refinada de eugenia.234
Buscando uma definição do conceito de anencefalia fetal, pode-se dizer que “consiste
na ausência ou grave atrofia do cérebro, órgão que integra normalmente o ser humano em devir,

                                                            
232
Cf. PESSINI, Leo e DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Problemas atuais de Bioética. 9ª
edição, São Paulo: Loyola, 2010, p. 338-339.
233
DV I, 2.
234
PESSINI, Léo. Bioética – Um grito por dignidade de viver. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 39.
88 

anomalia que impede o desenvolvimento vital e normal do concepto.”235 A anencefalia provoca a


morte do feto logo após o nascimento. Ou ainda, em palavras curtas, a “anencefalia,
literalmente, significa ausência congênita de encéfalo.”236
A protologia do termo deriva do grega: an significa privação de, kephalé significa
cabeça; enckephalos (encéfalo), significa aquilo que está dentro da cabeça, neste caso
específico, o cérebro. Portanto, anenkephalé (anencefalia), significa literalmente sem cérebro;
anenképhalos (anencéfalo) significa quem é portador de anencefalia.237
A anencefalia é a anomalia fetal mais frequente. Consiste em malformação
congênita caracterizada pela ausência total ou parcial do encéfalo e da calota
craniana, proveniente defeito de fechamento do tubo neural durante a
formação embrionária, entre os dias 23 e 28 da gestação. Ocorre com maior
freqüência em fetos femininos, pois parece estar ligada ao cromossomo X.238
Hoje em dia a medicina pode descrever com precisão a formação da anencefalia, que
provém geralmente da genética da mãe. Na quarta semana da vida do embrião, o tubo neural
não consegue se fechar completamente ocasionando uma deficiência total ou parcial da
constituição do encéfalo. Consequentemente, o epicrânio também sofre defeito não
conseguindo se desenvolver e para tal reversão não existe remédio até então conhecido. Para a
descoberta e confirmação da anencefalia fetal existe o diagnóstico por ultrassonografia ou por
um outro tratamento de imagem intracorporal. No caso do Brasil, anualmente são registradas
cerca de 2,7 e 3,0 milhões de crianças vivas e cerca de um caso de anencefalia fetal a cada
1.600 crianças nascidas vivas, o que acaba gerando uma discussão sempre mais frequente em
torno de tal anomalia, tanto no meio científico, quanto na esfera do direito.239
A gestação de feto anencefálico pode gerar graves riscos à saúde da gestante afetando-
a gravemente tanto em sua integridade física quanto psíquica, tais como, a possibilidade de
ocorrência de polidrâmnio, que é a concentração excessiva de líquido amniótico, causando
maior distensão do útero e hemorragia. Outro risco que corre a gestante nesta condição é a
hipertensão, além dos sofrimentos que lhe são infligidos por saber de que seu feto não
sobreviverá.240

                                                            
235
PESSINI, Léo e DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Op. cit., p. 354.
236
CIPRIANI, Giovanni. O embrião humano. Na fecundação o marco da vida. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 64.
237
Cf. AUGUSTO BARALDI, Ivan e MARIA DINIZ, Nilza. “Reflexões sobre a interrupção da gestação de feto
anencéfalo.” Revista Brasileira de Bioética, Brasília, v.3, n. 2, pp. 170-190, 2007, p. 173.
238
CARLOS HOCH, Lothar e H. K. WONDRACEK, Karin. Op. cit., p. 50.
239
Cf. ibidem.
240
Cf. idem, “Reflexões sobre a interrupção da gestação de feto anencéfalo.” Revista Brasileira de Bioética, p.
174.-175.
89 

A anencefalia não é facilmente definível pelos especialistas e sem solução de


continuidade, esta má-formação passa de quadros menos graves a quadros de indubitável
anencefalia. No plano neurológico, o feto anencéfalo, é gravemente deficiente, visto que lhe
faltam as funções que dependem do córtex, ou seja, os fenômenos da vida psíquica, tais como
a sensibilidade, a mobilidade, a integração de quase todas as funções corpóreas, porém,
permanecem as que dependem do tronco encefálico, como por exemplo, os batimentos
cardíacos, a função respiratória e a circulatória.
No entanto, mesmo apesar destas deficiências a nível do encéfalo, é necessário dizer
que a anencefalia não equivale à morte cerebral, uma vez que não há dúvidas, tanto no âmbito
científico, quanto na moral, que alguém está realmente morto quando ocorre a cessação
completa e irreversível de todas as funções do encéfalo em sua totalidade, incluindo, portanto,
as do tronco cerebral. Neste momento, é fundamental dizer que o encéfalo, contido na caixa
craniana, é formado pelo cérebro, o cerebelo e o tronco encefálico. O cérebro constitui a parte
mais volumosa do encéfalo e a mais nobre e é responsável, no sistema nervoso central, pelas
funções sensoriais, motoras, sensitivas, psíquicas ou intelectuais do homem. O cerebelo fica
na parte posterior do crânio e regula o tônus muscular, o equilíbrio e a coordenação dos
movimentos voluntários. O tronco encefálico é a sede dos centros automáticos da vida
orgânica, por exemplo, a auto-regulação do ritmo cardíaco, a pressão arterial, a respiração.
As atividades reguladas pelo tronco encefálico são as mais primitivas e constituem o
último reduto da vida. Quando cessam até mesmo essas funções automáticas, de modo que o
encéfalo não dá mais nenhum sinal de reação a qualquer estímulo e a respiração e a circulação
do sangue não se realizam mais autonomamente, e só se obtêm mediante meios artificiais,
sem que haja sinais de reversão do quadro, isto quer dizer que o organismo está
completamente morto.
A anencefalia é uma malformação congênita que consiste na ausência parcial ou total
do encéfalo. A anencefalia total torna impossível qualquer função vital, ao passo que a
anencefalia parcial é compatível com algumas expressões de vida orgânica do sujeito. Quando
a anencefalia é total, dificilmente a gravidez é levada adiante, concluindo, portanto com um
aborto espontâneo, dentro de alguns meses. Mas quando é só parcial, a gravidez pode ser
levada a termo e, no concepto podem estar presentes algumas funções vitais, dependentes de
forças residuais do tronco encefálico, como a respiração espontânea, o batimento cardíaco,
funções renais.241 Portanto, “se existir uma parte cerebral suficiente para sustentar uma vida
                                                            
241
Cf. RANGEL, Paschoal. “Uma polêmica inevitável: anencefalia e aborto.” Atualização, Belo Horizonte-MG,
v. XL, n.343 e 344, pp. 105-277, [mar./jun.] 2010, p. 257-258.
90 

fisiológica do corpo inteiro, a antropologia eclesial pede o respeito desta vida individual, ainda que
precária.”242
No que se trata sobre a sobrevivência do anencéfalo, as porcentagens de nascidos
vivos é muito reduzida, isto é, cerca de 40% e 60%, sendo que após o nascimento, somente
8% sobrevivem mais de uma semana e apenas 1% entre um e três meses.
Como se pode observar, mesmo com dados de sobrevivência variáveis, a anencefalia é
uma condição fatal e, normalmente, nenhum recém-nascido sobrevive além de três dias. A
morte ocorre, principalmente, por insuficiência respiratória causada pela insuficiência das
estruturas nervosas de controle ou pela displacia pulmonar.243
Pesquisas, hoje em dia, mostram que em caso de anencefalia, o diagnóstico de tal
anomalia pode ser feito a partir de 12 semanas de gestação. Com o uso de aparelhos de ultra-
som ou ecográficos, é possível verificar a anencefalia, que é evidente devido à ausência dos
hemisférios cerebrais e que 80% dos casos ocorre a interrupção involuntária da gravidez.
Após ser diagnosticada não há como curá-la evidenciando total fatalidade dos casos.244
Portanto, embasando-se nesses dados de aborto espontâneo e também sobre o fato de que o
anencéfalo teria poucos dias de sobrevivência, há quem proponha a legalidade do aborto
provocado de fetos anencéfalos.
Para essas propostas pode-se apontar dois argumentos que vão nos ajudar na reflexão
de que a vida, mesmo em tal caso de anomalia, deve ser defendida:
Primeiro, os próprios cientistas afirmam que não há uma garantia de cem por cento de
certeza de que o feto humano sofrerá de anencefalia. E em segundo lugar, pode-se fazer a
seguinte pergunta: qual é o motivo, verdadeiramente, que está por detrás desta proposta do
aborto em caso de anencefalia fetal? Por acaso, é para que a mãe seja privada de correr algum
risco durante a gestação? Neste caso, a mãe não corre maiores riscos que correria uma mãe se
seu filho fosse perfeito. Será que para poupar o sofrimento do filho depois de seu nascimento
ou por que os pais não querem ser incomodados diante de tal deficiência que apresenta o
filho?245
O aborto de um feto anencéfalo, o homicídio de um adulto portador de
deficiência e a eutanásia de um doente na fase terminal constituem, sempre,
diversas facetas de uma mesma tendência: eliminar pessoas não desejadas.

                                                            
242
LEPARGNEUR, Hubert. “Disputa acerca da anencefalia.” Atualização, Belo Horizonte-MG, v. 35, n. 312,
pp. 01-96, [jan./fev.] 2005, p. 42.
243
Cf. CIPRIANI, Giovanni. Op. cit., pp. 65-66.
244
AUGUSTO BARALDI, Ivan e MARIA DINIZ, Nilza. “Reflexões sobre a interrupção da gestação de feto
anencéfalo.” Revista Brasileira de Bioética, p. 74.
245
Cf. CIPRIANI, Giovanni. Op. cit., p. 72.
91 

E, nisso, não estamos muito longe do que acontecia em Esparta e na


Alemanha nazista de Hitler!246
O aborto ocorrido em caso de anencefalia fetal pode ser distinguido em dois casos
específicos: o aborto involuntário terapêutico, que, por sua vez, é lícito, quando o tratamento
visa intencionalmente a prestação de assistência médico-hospitalar àquela anomalia, mesmo
que consequentemente resulte na perda do feto. Neste caso, fica-se conhecido o caso de duplo
efeito; já o aborto voluntário eugênico, ilícito, trata-se de selecionar os fetos sadios
menosprezando e impedindo que continue o processo de desenvolvimento fetal que possui tal
malformação cerebral.
Com relação ao feto, a prática eticamente aceitável é aquela que o reconhece, a partir
da fecundação, uma pessoa humana, como qualquer outra pessoa, e como tal, dotada de
direitos, sendo o primeiro, o direito inviolável de todo ser humano à vida.
Todas as Cartas internacionais relativas ao reconhecimento dos direitos dos
deficientes afirmam a total dignidade do sujeito humano portador de
deficiência em relação ao que é sadio e talvez estabeleçam até a necessidade
de dar mais socorro a quem é menos autônomo na própria vida física. A
seleção dos fetos representa uma orientação e uma prática de dominação por
parte dos sadios sobre os que não o são a ponto de se revestir da gravidade
do racismo, embora se inspire no hedonismo.247
Nesse momento, entra em questão o dilema ético que gira em torno do diagnóstico
pré-natal: “aceitar o nascituro com seu déficit, ou recorrer à interrupção da gravidez,”248 uma vez
que, “entende-se por diagnóstico pré-natal (DPN), o diagnóstico efetuado no embrião ou no feto, com
o objetivo de detectar nele eventuais patologias, as mais das vezes de natureza genética e/ou
malformativa ...”249 Desse modo, trata-se de saber, de fato, se essa forma de diagnóstico se
torna ou não uma colaboração com o aborto seletivo.
A posição do Sagrado Magistério, como se verá ao longo desta dissertação, é
claramente em favor da vida humana, mesmo em caso de malformação cerebral, pois o
embrião ou o feto, por ser sujeito humano deve ser respeitado e defendido no seu direito à
vida, como qualquer outra pessoa humana.
Esse diagnóstico é lícito se os métodos empregados, com a autorização dos
pais devidamente informados, preservam a vida e a integridade do embrião e

                                                            
246
Idem, p. 73.
247
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola, 2002, p. 271.
248
Idem, p. 256.
249
FASANELLA, G.; SILVESTRI, N. e SGRECCIA, E. “Diagnóstico Pré-Natal.” In: LEONE, Salvino;
PRIVITERA, Salvatore e TEIXEIRA DA CUNHA, Jorge. Dicionário de Bioética, p. 267.
92 

de sua mãe, sem os fazer correr riscos excessivos. Mas ele é gravemente
contrário à lei moral quando contempla a eventualidade, em dependência dos
resultados, de provocar um aborto: um diagnóstico que ateste a existência de
uma malformação ou de uma doença hereditária não deve equivaler a uma
sentença de morte.250
Em princípio, não é possível conhecer com certeza qual decisão que a mulher irá
tomar, depois do diagnóstico pré-natal, mas a cultura da vida defendida e propagada pelos
homens de boa vontade, deve oferecer ajuda e apoio às mulheres a aceitarem o filho
malformado reconhecendo nele a dignidade que é comum a todos: a dignidade humana.
Todavia, mesmo que o aborto seja aprovado, livre ou restritamente por diversos
países, como é o caso do Brasil nas suas especificações mencionadas logo abaixo, jamais será
considerada como uma prática moralmente boa e justa, visto que já se trata de uma violação
daqueles Direitos Humanos, que asseguram a vida, a liberdade e a segurança. E no que diz
respeito aos casos de anencefalia fetal, “a vida humana não está apenas num órgão, como o
cérebro, por mais importante que ele seja, mas no conjunto das funções do organismo.”251 Definir um
ser da espécie humano se tem ou não cérebro, mesmo que ainda esteja em formação intra-
uterina, seria um reducionismo do mesmo.
A corrida pela legalidade do aborto em diversos países, tem invertido o direito à vida
pelo direito em escolher a morte dos mais fracos e indefesos. Nesta inversão de valores, se
pode identificar algumas raízes responsáveis por sustentar a mentalidade em favor de uma
cultura de morte-abortista.

2.3. Raízes da mentalidade abortista

Procurando detectar as causas, que estão nas raízes da mentalidade abortista, não se
pode deixar de falar de uma concepção de liberdade, que, ao invés de significar solidariedade,
responsabilidade, acolhimento e serviço ao outro, tem sido um verdadeiro enaltecimento ou
absolutização do indivíduo. Liberdade esta totalmente individualista, que, em vez de
proporcionar a defesa das liberdades individuais, o mais forte se sobrepõe aos fracos.
As grandes questões relacionadas à Bioética, como por exemplo, a temática referida
nesta dissertação – o aborto em caso de anencefalia fetal – são vistas com maior ou menor
nitidez sob a influência de correntes de pensamento mais ou menos hegemônicas. Dentre estas

                                                            
250
DV I, 2.
251
PESSINI, Léo e DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Problemas atuais de Bioética, p. 356.
93 

destacam-se três correntes de pensamento: o individualismo, o hedonismo e o utilitarismo,


verdadeiras ideologias que exercem fortemente influência também na reflexão ética sobre
estas questões.
O termo ‘ideologia’ foi utilizado no sentido de expressar uma redução inteligente da
realidade:
Em uma ideologia, o aspecto que existe da verdade é absolutizado: ‘uma
parte’ da verdade assume a conotação de ‘toda’ a verdade. É por existir esse
componente de verdade nesta ou naquela ideologia que muitas pessoas
desatentas se convencem da sua adequação.252
Dentro da abordagem sobre o individualismo, típico do que se denomina ética liberal,
toda a discussão é resumida à reivindicação da liberdade, de modo a considerar como
violência qualquer debate contrário à defesa irrestrita da liberdade.
No que diz respeito da ética liberal, a expressão que é defendida com maior destaque é
a autonomia, que, por sua vez, “passa a ser entendida como a livre escolha do sujeito que não
aceita nem obrigação nem limites à própria liberdade a não ser o respeito, difícil e utópico, da
liberdade alheia. E, assim, depara-se mais uma vez com a distorção da realidade.”253
A própria liberdade de escolha é enfraquecida mediante o fortalecimento exacerbado
da autonomia, visto que a liberdade do indivíduo fica condicionada ao poder exercido pelo
outro sobre a escolha, que quase sempre não é livre, mas dependente do contexto e de visões
da sociedade em que se vive. Tudo dependerá do poder do primeiro em conquistar o espaço
no confronto, em prejuízo aos interesses do outro. Deste modo, aquele que tiver mais força
será o vencedor em detrimento do mais fraco.
A inviolável dignidade da pessoa, especialmente o direito à vida, fica sujeito à vontade
do mais forte, que se disfarça por detrás de uma aparência de legalidade, porque tal votação
foi obtida pelas assim chamadas “regras democráticas”. Porém,“em nome de qual justiça se
realiza a mais injusta das discriminações entre as pessoas, declarando algumas dignas de ser
defendidas, enquanto a outras esta dignidade é negada?”254
A liberdade entendida como um dom de Deus, quando absolutizada para interesses
individualistas, perde o sentido da sua própria vocação, pois não está direcionada a serviço da
pessoa e de sua realização mediante o dom de si e o acolhimento da outra pessoa. Desse
modo, o atual momento histórico em que se encontra a humanidade tem sido de uma estranha

                                                            
252
LUIZ DE PAULA RAMOS, Dalton. Bioética Pessoa e Vida. 1ª edição, São Caetano do Sul-SP: Ed. Difusão,
2009, p. 40.
253
Ibidem.
254
Ibidem.
94 

contradição: depois de ter descoberto o conceito de direitos humanos como algo intrínseco a
cada pessoa e anteriores a qualquer Constituição e legislação dos Estados, o próprio direito à
vida tem sido praticamente negado, especialmente no seu começo e no seu fim diante da
prática do aborto e da eutanásia. “Estes atentados encaminham-se exatamente na direção contrária à
255
do respeito pela vida e representam uma ameaça frontal a toda a cultura dos direitos do homem.”
A raiz dessa estranha contradição em que os direitos do homem é solene e
publicamente afirmado, porém negado na prática, está numa concepção errada da própria
liberdade, quando “exalta o individuo de modo absoluto e não o predispõe para a solidariedade, o
pleno acolhimento e serviço do outro.”256 Pensa-se em estar fazendo um bem em suprimir certas
vidas, tanto no seu início como no seu fim, em nome de um falso altruísmo e de uma falsa
compaixão, o que, por sua vez, não passa de uma concepção individualista de liberdade, que
acaba sendo a liberdade dos mais fortes sobre os fracos.
Outro aspecto ainda necessário a ser considerado, é quando a liberdade “deixa de
reconhecer e respeitar a sua ligação constitutiva com a verdade.”257 Se o ser humano se divorcia
de toda e qualquer tradição e autoridade, não se apoiando em evidências primárias de uma
verdade objetiva e comum, ele acaba se fechando em suas próprias opiniões subjetivas muitas
vezes marcadas por interesses egoístas.
Neste mesmo horizonte de raciocínio de uma concepção deficiente de liberdade, se
pode afirmar consequentemente, uma convivência social profundamente deformada, em que a
busca pela autonomia absoluta do próprio eu é afirmada independentemente do outro, visto
como um inimigo de quem defender-se. É neste embalo, que “a vida social aventura-se pelas
areias removediças de um relativismo total. Então, tudo é convencional, tudo é negociável: inclusive o
primeiro dos direitos fundamentais, o da vida.”258
Este relativismo se nota muito presente nos diversos setores da sociedade, sobretudo
no ambiente da política e do Estado, quando se verifica, que, o direito à vida fica a mercê dos
votos dos parlamentares ou da vontade de uma parte da população considerada em sua
maioria. O Estado, chamado a proteger a dignidade da pessoa humana na sua totalidade,
quando aprova a prática do aborto, deixa de ser democrático para se tornar num tirano,
sucumbindo dos mais fracos e indefesos em nome de um serviço de utilidade pública, que na
verdade, não passa de interesses de alguns. Este clima cultural de relativismo, no qual não se
reconhece nada como definitivo transfere para o ser humano a medida de todas as coisas.
                                                            
255
EV 18.
256
Idem, 19.
257
Ibidem.
258
Idem, 20.
95 

Outra corrente ideológica que se pode mencionar é o hedonismo como busca da


supressão da dor e da extensão do prazer. Assim, essa apologia do prazer físico coloca a
pessoa num horizonte terreno e utópico ao mesmo tempo. Ela é terrena, porque é materialista
e imediatista; e também utópica, porque assegurar a ausência de dor e o prolongamento do
prazer físico não são suficientes para garantir a felicidade.259
A corrente hedonista é responsável em provocar, na reflexão ética, a redução do
sentido da vida humana, porque esta passa a ser compreendida somente como capacidade de
sentir dor ou prazer e a natureza humana deseja muito mais do que isso.
Tratando-se de averiguar as raízes mais profundas geradoras de uma mentalidade de
morte-abortista, verifica-se “o eclipse do sentido de Deus e do homem, típico de um contexto social
e cultural dominado pelo secularismo.”260
Tem sido, a globalização, um poderoso veículo de difusão imediata desta cultura de
morte em todo o mundo, onde se verifica, não somente a propagação do secularismo, mas de
outros fenômenos, que estão radicados nesta cultura necrófila, visto que,
A cultura globalizada e secularizada está centralizada no consumismo e no
prazer, no hedonismo, na lógica do individualismo pragmático e narcisista,
no relativismo, no materialismo e em torno de interesses egoístas, que
acabam de destruir o que de verdadeiramente há nos processos de
construção cultural. Trata-se (...) de uma cultura sem Deus ou contra
Deus.261
“Esta cultura se caracteriza pela auto-referência do indivíduo, que conduz à indiferença pelo
outro, de quem não necessita e por quem não se sente responsável.”262 Por este motivo, como em
tudo aquilo, que envolve a pessoa humana, a globalização, “como um conjunto de relações no
âmbito mundial (...) e sinal de uma profunda aspiração à unidade”263, deve ser regida também pela
ética, pondo tudo a serviço do homem, criado à imagem e semelhança de Deus.
Contudo, a perda do sentido de Deus significa automaticamente também na perda de
sentido do próprio homem, da sua dignidade e da sua vida: “Na verdade, sem o Criador, a
criatura esvai-se (...) E pelo esquecimento de Deus, a própria criatura torna-se obscura”264, porque
perde de foco a dimensão transcendente da sua existência fechando-se na sua limitada e
temporária dimensão física. Neste sentido, a vida humana já não é vista como uma dádiva
                                                            
259
Cf. LUIZ DE PAULA RAMOS, Dalton. Op. cit., p. 41.
260
EV 21.
261
SUESS, Paulo. Dicionário de Aparecida. 40 palavras-chave para uma leitura pastoral do Documento de
Aparecida. São Paulo: Paulus, 2007, p. 30.
262
DAp 46.
263
Palavras do Papa Bento XVI no Brasil. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 106.
264
GS 36.
96 

divina, que deve ser protegida com responsabilidade, mas como uma propriedade vulnerável a
manipulações.
A revelação, ao mesmo tempo que nos dá a conhecer o desígnio de Deus
sobre o universo, leva-nos também a denunciar os comportamentos errados
do homem, quando não reconhece todas as coisas como reflexo do Criador,
mas mera matéria que se pode manipular sem escrúpulos. Deste modo, falta
ao homem aquela humildade essencial que lhe permite reconhecer a criação
como dom de Deus que se deve acolher e usar segundo o seu desígnio. Ao
contrário, a arrogância do homem que vive como se Deus não existisse, leva
a explorar e deturpar a natureza, não a reconhecendo como uma obra da
Palavra criadora.265
Para a corrente utilitarista, a correlação que é feita entre custos e benefícios justifica a
ação moral que passa a ser o que dá lucro ou o que não dá grande prejuízo. Em outras
palavras, o que se busca é um equilíbrio financeiro entre os interesses que estão em jogo. A
linha do utilitarismo é estabelecida mediante o consenso que existe entre a maioria das
pessoas ou entre os grupos sociais mais bem organizados e mais fortes em detrimento dos
mais fracos. Aqui, na linha do utilitarismo, o que está no centro da questão é o resultado, a
produtividade, o lucro e não a pessoa humana e a sua dignidade. Neste caso, o fundamento da
ética passa a ser o que aquela pessoa pode realizar ou produzir ao longo de sua vida e não
mais a valorização da pessoa humana em si mesma.
O surgimento do materialismo, que tem resultado numa proliferação do
individualismo, do utilitarismo e no hedonismo, é um exemplo desta perda de sentido de Deus
e do homem, que confunde a sua identidade de ser em ter, pois o fim último que conta é a
busca do próprio bem-estar material em detrimento dos valores mais profundos da existência,
como por exemplo, valores interpessoais, espirituais e religiosos.
Portanto, “a aceitação do aborto na mentalidade, nos costumes e na própria lei, é sinal
eloquente de uma perigosíssima crise do sentido moral que se torna cada vez mais incapaz de
distinguir o bem do mal, mesmo quando está em jogo o direito fundamental à vida.”266 Diante de tal
gravidade moral do aborto, faz-se necessário resgatar o sentido da verdade e chamar as coisas
pelo seu devido nome, pois “diante da norma moral que proíbe a eliminação direta de um ser
humano inocente, não existem privilégios, nem exceções para ninguém. Ser o dono do mundo ou o

                                                            
265
BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini. Sobre a Palavra de Deus na vida e na
missão da Igreja. 6ª edição, São Paulo: Paulinas, 2011, n. 108.
266
EV 58.
97 

último miserável sobre a face da terra, não faz diferença alguma: perante as exigências morais, todos
somos absolutamente iguais.”267
Estes diversos elementos mencionados acima, e que estão radicados na mentalidade
pró-aborto, têm contribuído para corroborar ainda mais tal mentalidade em todo o mundo,
tirando de foco o interesse em defender a criança concebida para considerar como direito da
mulher de dispor do próprio corpo e do corpo da criança.

2.4. Mentalidade em fator do aborto

Hoje em dia tornou-se comum assistir, em várias partes do mundo, movimentos


portadores de uma mentalidade em favor do aborto. Fala-se até mesmo em Direito ao aborto,
onde a mulher teria total liberdade para decidir sobre o destino da criança, que está sendo
gerada em seu corpo. Aqui está exatamente o epicentro da questão em debate sobre o direito
ao aborto: “o direito à vida da criança não nascida ou o da mulher a dispor do próprio corpo e
também do corpo da criança, como se fosse propriedade da mãe?”268
A primeira vez que o direito ao aborto foi definido e reconhecido foi na sentença da
Corte Suprema dos Estados Unidos no ano de 1972, em que era afirmado o direito da mulher
de escolher como parte fundamental do direito à privacidade: tornava-se um direito pessoal da
mulher a decisão quanto à gravidez.
Este momento de reconhecimento do direito ao aborto na sentença americana
significou uma mudança de foco no que diz respeito às partes que envolvem uma gravidez: “a
lei que até então se interessava pela vítima, isto é, pela criança concebida, eliminada pelo aborto,
redirecionou seu interesse para a mãe.”269Tornava-se um direito aprovado pelo Estado
Americano a possibilidade da mãe em pedir a morte do próprio filho concebido em seu corpo.
Da data de aprovação do aborto pelo Estado Americano até o ano de 2000, calcula-se
mais de quarenta milhões de vítimas humanas somente neste Estado; e numa escala mundial,
calculam cerca de cinqüenta milhões de crianças não nascidas por ano, o que em trinta anos
significa cerca de um bilhão e meio de vítimas humanas.

                                                            
267
Idem, 57.
268
Lexicon, p. 199.
269
Ibidem.
98 

E um forte movimento, que está por detrás desta mentalidade de morte, é o assim
chamado pro choice270, que consiste em promover e sustentar uma ideologia da livre escolha
em favor do aborto.
Para uma boa compreensão de tal mentalidade, precisa-se remontar à sua história no
fim dos anos sessenta e no início da década de setenta, quando líderes americanos, no esforço
de legalizar o aborto, começaram a criar organizações como, por exemplo, a “Associação
Nacional para a Revogação da Lei do Aborto” 271. E mesmo depois da legalização do aborto
pela Corte Suprema dos Estados Unidos, os líderes da campanha pró-aborto continuaram a
trabalhar criando a expressão pro choice “para apresentar-se de forma completamente positiva e
aparecer como o mais recente exemplo de tantas admiráveis formas de liberação humana.”272
Pode-se dizer que, uma das distorções mais características deste movimento pro
choice, é justamente a concepção da liberdade humana, exaltando de forma absoluta o
indivíduo, de modo que este não esteja predisposto para a solidariedade, para o acolhimento e
para o serviço do outro.
Percebe-se nestas ideologias, que se levantam em favor do aborto, uma manipulação
da linguagem, como por exemplo, o supracitado pro choice – a livre escolha – em que se
apóia em “valores” humanos, como a liberdade, para promover a ideologia da morte. Neste
273
sentido, “seria melhor chamar esta posição de pró-morte ou anti-vida” , uma vez que, em
qualquer Estado não tirânico, os seus cidadãos são livres para escolher até que a sua liberdade
não fira os direitos alheios.
Portanto, o que está em jogo para um legislador dentro de um Estado democrático não
é tanto os valores éticos, é claro que ele não deve prescindir deles, mas o seu alvo é o bem
comum. Esse bem comum pode levá-lo a não sancionar penalmente certas infrações éticas,
que seriam aceitas como mal menor, mesmo que a Igreja Católica, por meio dos seus
pronunciamentos, ajude com a reflexão ética sobre o valor social elementar da vida humana,
que deve ser sempre protegida, inclusive juridicamente.
Pode-se verificar, em nível mundial, um contrastante fenômeno demográfico, quando
se observa nos países ricos e desenvolvidos uma diminuição da natalidade, enquanto que nos
países pobres, contrariamente, nota-se um aumento populacional, dificilmente suportável num

                                                            
270
“Uma forma de humanismo secular que usa a propaganda, a tecnologia, a coação e a lei para garantir a
escolha ilimitada de preservar ou destruir vidas humanas inocentes, especialmente nos seus estágios iniciais e
finais, considerando a busca de dinheiro, prazer e poder como maneira de exercer a liberdade.” In: Lexicon, pp.
931-932.
271
National Association for the Repeal of Abortion Laws
272
Lexicon, p. 923.
273
Ibidem.
99 

contexto de menor progresso econômico e social. Frente a este superpovoamento dos países
pobres, apela-se para uma política anti-natalista – contracepção, esterilização e o aborto -
decorrente da falta de intervenções globais, sérias políticas familiares e sociais, programas de
crescimento cultural e de justa produção e distribuição dos recursos.274 É o que corajosamente
denuncia o Papa João Paulo II na EV:
O antigo Faraó, sentindo como um íncubo a presença e a multiplicação dos
filhos de Israel, sujeitou-os a todo tipo de opressão e ordenou que fossem
mortas todas as crianças do sexo masculino (cf. Ex 1,7-22). Do mesmo modo
se comportam hoje muitos poderosos da terra.275
É verdadeiramente uma cultura contra a vida: nos países pobres e superpovoados,
trata-se de programas faraônicos de contracepção, esterilização e aborto; e nos países ricos, há
uma ingerência por parte do Estado e de poderosas instituições internacionais, onde o
planejamento familiar (quantos filhos se quer ter?), que, por sua vez, é fruto da paternidade
responsável e da livre decisão do casal, é substituído pelo controle de natalidade determinante
(quantos filhos vocês devem ter).
Até o século XIX a preocupação pela questão demográfica não era quantitativa, mas
qualitativa. A preocupação é agravada pelo inglês Thomas Robert Malthus (malthusianismo)
com a publicação do seu livro Ensaio sobre o princípio da população de 1798. Segundo sua
teoria, a população mundial cresce em progressão geométrica, ou seja, por multiplicação, ao
passo a produção de alimentos se expande apenas em progressão aritmética, ou seja, por
adição. Concluindo, Malthus tinha a certeza de que a população mundial, no futuro, seria
marcada por uma multidão de homens famintos. Portanto, se fazia urgente o controle da
natalidade. Inclusive, dizia que as guerras e as pestes se encarregavam de contribuir para o
justo equilíbrio das coisas.276
O malthusianismo acabou sendo superado com o passar do tempo por outra ideologia
– neomalthusianismo – que consiste em afirmar a necessidade de se conter a natalidade por
todos os métodos possíveis. No entanto, as previsões de Malthus e do neomalthusianismo dos
nossos tempos acabaram caindo em contradição, quando se verificou um aumento em maior
proporção dos alimentos e não da população. Portanto, o aumento da população não é causa
da fome e da miséria. Embasado nesta constatação, o Papa Paulo VI se colocava a favor da
vida em sua alocução na Assembleia das Nações Unidas, em 1965: “é preciso fazer abundar o

                                                            
274
Cf. EV 16.
275
Ibidem.
276
Cf. ANTONIO LOPES RICCI, Luiz. “As políticas demográficas, planejamento familiar e questões bioéticas
conexas.” Atualização, Belo Horizonte-MG, ano XL, n. 347, pp. 547-574, [nov./dez.] 2010, pp. 145-150.
100 

pão na mesa da humanidade; e não ao contrário, favorecer o controle artificial dos nascimentos – o que
é irracional – para diminuir o número de comensais ao banquete da vida.”277
A seguir, alguns argumentos assumidos por uma mentalidade em favor da legalização
do aborto278:
O pluralismo social. Num primeiro instante podem-se até ser surpreendidos pelo
aspecto positivo de uma legislação sobre o aborto, pelo fato de ela abarcar a pluralidade de
opiniões existente numa mesma sociedade, respeitando desse modo as liberdades do maior
número possível de seus cidadãos como se isso fosse democracia. Assim, no debate sobre o
aborto, há muitas pessoas, que representam a chamada opção pro choice, para quem o direito
de a mulher controlar sua natalidade se sobrepõe ao direito do embrião, que não é percebido
como ser humano. “Não deverá, então, essa opção ser respeitada, tanto quanto a dos pro life, que
consideram o aborto eticamente inaceitável, sem os obrigar a praticá-lo?”
A não-discriminação social. Se o aborto não for legalmente permitido, aquelas
mulheres que se dispõem de melhores condições financeiras poderão se valer do serviço
abortivo, ao passo que aquelas que se dispõem de nível econômico inferior, não poderão arcar
com tais custos tendo de se submeter a todos os riscos inerentes ao aborto clandestino.
Os riscos do aborto não-clínico. Se as contra-indicações médicas e psicológicas são
possíveis em clínicas as consequências para a vida e a saúde da mulher podem ser muito
sérias quando o aborto é realizado em condições não-clínicas. Neste sentido, os que se
colocam a favor do aborto dizem que a legalização de tal prática seria uma forma de prevenir
tanto as consequências negativas do aborto praticado em situações clandestinas, quanto à
discriminação das mulheres de camadas sociais mais baixa.
Uma questão de saúde pública. Partindo da consideração que o aborto é uma realidade
social inevitável em todo mundo, seria mais prudente buscar a legalização de tal prática, pois
se estaria evitando as consequências negativas do aborto nas clínicas clandestinas e a
discriminação das mulheres de camadas sociais mais baixas.
Buscando uma reflexão ética sobre o aborto, a primeira referência que se pode fazer é
a percepção do corpo humano do recém-nascido, que por sua vez, remete ao mesmo corpo do
nascituro: “o ser que nasce é o mesmo que se desenvolveu previamente. É a mesma identidade
humana.”279 Não se pode fundamentar a existência de fronteiras no desenvolvimento, de modo

                                                            
277
Paulo VI, Discurso na Assembleia da ONU, 4 de outubro de 1965. Apud. ANTONIO LOPES RICCI, Luiz.
“As políticas demográficas, planejamento familiar e questões bioéticas conexas.” Atualização, p. 150.
278
Cf. GAFO FERNÁNDEZ, Javier. 10 Palavras-Chave em Bioética. São Paulo: Paulinas, 2000, pp. 76-77.
279
Idem, p. 67.
101 

a justificar com certeza uma fase subumana, diferente de outra autenticamente humana. Eis
um processo contínuo, em que não há saltos qualitativos!
A visão de uma corporeidade similar à do adulto ou da criança mais velha
– com as evidentes diferenças de tamanho, peso e maturidade – suscita em
nós a convicção de que se trata de um ser similar ao de mais idade e de
que, consequentemente, seu direito à vida é equiparável.280
Constatar que a qualidade fundamentalmente humana do recém-nascido não é
diferente da do adulto leva a reflexão, tanto ética quanto jurídica, a conceder ao recém-
nascido uma categoria idêntica à que se confere ao ser humano nas diferentes etapas de seu
desenvolvimento pessoal. “A continuidade do processo deflagrado com a continuação do novo ser
leva-nos a afirmar que o direito à vida, que atribuímos ao recém-nascido, deve se estender às etapas
prévias de formação do indivíduo humano.”281
Já foi mostrado anteriormente o quanto que o conceito filosófico de pessoa humana é
complexo e não goza de unanimidade no modo de ser compreendido. “Normalmente,
consideramos como atributos característicos da pessoa humana a capacidade de pensar, de sentir, de
decidir livremente, de ter autoconsciência, de amar e de estabelecer relações interpessoais.”282
Entretanto, todos esses atributos ainda não se verificam no recém-nascido. Inclusive, no caso
do anencéfalo, a deficiência ou até mesmo a ausência do cérebro, não pode constituir a base
biológica de suas futuras qualidades pessoais. No entanto, mesmo apesar disso, ele tem a
capacidade de tornar-se pessoa ou de “personalizar-se”, visto que o recém-nascido possui uma
“vida com destino humano”, que desperta um sentimento de transcendência e de mistério. Por
exemplo, seja qual for a etapa de desenvolvimento em que se encontre um chimpanzé, ele não
será jamais capaz de se tornar uma pessoa humana, ao passo que o embrião humano passará
por um rápido processo de desenvolvimento e até por algumas modificações na sua base
genética, mas sua identidade humana não deixará de subsistir através das diferentes etapas de
seu destino humano.
Os contemporâneos de João Batista se perguntavam, no evangelho de São
Lucas: ‘Que será desse menino?’ É uma pergunta que nos ocorre, ainda
que implicitamente, quando contemplamos um recém-nascido: Como se
desenvolverá o mistério da vida, já iniciado nesse ser indefeso, mas que
possui um indiscutível ‘destino humano’?283

                                                            
280
Idem, p.63.
281
Idem, p. 67.
282
Idem, p. 64.
283
Ibidem.
102 

Por outro lado, a própria característica de fragilidade do recém-nascido, e, portanto, de


dependência em relação aos pais contribui ainda mais para atribuir à vida humana do recém-
nascido uma configuração defensável, inclusive de caráter jurídico.
Essas considerações dirigidas ao recém-nascido servem para serem aplicadas também
ao nascituro: “a percepção de seu corpo como verdadeiramente humano, a convicção de que lhe
compete um legítimo ‘destino humano’ e, por fim, sua fragilidade e sua falta de autonomia, que não
lhe diminuem o significado humano, mas até reforçam a exigência de proteção.”284
Viu-se logo acima alguns argumentos que defendem a legalização do aborto. Vê-se
agora algumas posições contrárias à sua legalização285:
A proliferação dos casos de abortos. De um lado, se escuta muito que é conveniente
regulamentar a inevitável prática do aborto, mas, do outro lado, adverte-se que a experiência
de outros países parece indicar que a pretendida regulamentação contribui para um
significativo aumento das estatísticas, como revela o caso dos Estados Unidos. Também um
fenômeno parecido foi observado no que diz respeito às indicações para a permissão legal do
aborto: com a admissão de certos tipos de aborto, desencadeia-se um processo pelo qual as
indicações e os prazos vão sendo ampliados até se chegar a uma situação em que o aborto se
torna uma prática que só depende da vontade da mulher, o que tende a ser considerado um
legítimos direito.
O valor proclamatório da lei. Um dos objetivos da lei é proclamar os valores e
princípios éticos nos quais a sociedade acredita e não visar apenas enquadrar os
comportamentos humanos. Por isso, a passagem do legal para o ética é relativamente fácil,
pois o cidadão tende a considerar que o que é legalmente permitido é também
automaticamente ético. Pense, por exemplo, no caso do aborto por indicação fetal:
atualmente, dissemina-se a idéia de que a vida dos deficientes é um erro que deveria ter sido
evitado. Diante dessa concepção, como estarão se sentindo os inúmeros deficientes que hoje
existem e que continuarão a existir futuramente?
O valor da vida humana. É indiscutível que o respeito à vida humana constitui um
valor básico de todo ordenamento jurídico e de toda convivência inter-humana. É, justamente
o direito à vida que se constitui em um direito fundamental e fundante de todos os outros
direitos humanos, segundo a Constituição de todos os Estados. Nesse contexto, a admissão da
legitimidade do aborto pressupõe a ruptura de um valor ético básico e, ao mesmo tempo,
representa uma inclinação perigosa de que podem surgir graves consequências: se a vida
                                                            
284
Idem, p. 65.
285
Idem, pp. 77-79.
103 

humana pode ser eliminada no seu nascedouro, que repercussão poderá ter isso nos estágios
finais dessa mesma existência humana?
No próximo subtítulo se verá que a cultura de morte em favor da legalização do aborto
tem se utilizado de inúmeros termos com a finalidade de suavizar ou mascarar o impacto
agressivo, que a prática abortiva ainda causa nas consciências humanas. Trata-se de um
verdadeiro eufemismo, onde se troca um termo por outro para se tratar de uma mesma coisa.
Ou ainda, trata-se de uma manipulação da linguagem visando alcançar uma maior aceitação
por parte da população nacional e mundial

2.5. Manipulação da linguagem: tentativa de aliviar a consciência em favor do


aborto

Numa busca de compreender o que significa - manipulação da linguagem - e a partir


de tal compreensão situá-la neste contexto de anestesiar a consciência frente a criminalidade
da prática abortiva, faz-se relevante, primeiramente, definir conceitualmente cada um dos
termos referidos: O que é manipulação? O que é linguagem?
Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa o termo “manipulação” significa:
1. ato de tocar, segurar ou transportar com as mãos; 2. manejo, utilização; 3.
em espetáculo de mágica, série de movimentos das mãos, feitos com
destreza 4. manobra oculta ou suspeita que visa à falsificação da realidade;
5. manobra pela qual se influencia um indivíduo, uma coletividade, contra a
vontade destes [de modo geral, recorrendo a meios de pressão, tais como a
mídia] etc.286
Partindo da definição supracitada necessário também se faz buscar uma conceituação
do termo “linguagem”: “Qualquer sistema de signos (não só vocais ou escritos, como também
visuais, fisionômicos, sonoros, gestuais etc) capaz de servir à comunicação entre os indivíduos.”287
Ou ainda,
Sistema estruturado de signos usados para a expressão de ideias ou
sentimentos. Sistema de sons, gestos ou escritas capaz de materializar um
pensamento pelo domínio de um repertório. A linguagem indica coisas,

                                                            
286
DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA. 1ª Edição, Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p.1235.
287
ALBERTO RABAÇA, Carlos e GUIMARÃES BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. 8ª edição,
Rio de Janeiro: Elsevier, 2001, p. 430.
104 

expressa valores e possibilita a comunicação. É um elemento estruturador da


relação do homem com a realidade.288
Se a definição de linguagem consiste em tudo aquilo que facilita a comunicação, então
a manipulação da linguagem é toda ação realizada a partir da e na linguagem tendo o objetivo
de alcançar determinado resultado comunicativo. A manipulação da linguagem se torna tudo
aquilo que diz respeito ao uso, ao emprego, ao controle, à realização, ao manuseio e ao
domínio do comunicador sobre qualquer elemento que constrói a linguagem. É o fazer uso de
todas as possibilidades da própria comunicação. Por exemplo, numa comunicação de
pensamento pode-se utilizar de elementos da linguagem escrita, construções gramaticais e
sintáticas, para obter o objetivo almejado. Neste sentido, faz-se a manipulação da linguagem
com o intuito de comunicar.289
Do mesmo modo, quando se trata de Revelação divina, também a linguagem é usada
como instrumento da autocomunicação de Deus aos seres humanos, pois revelação é
autodoação: “por possuir a mim mesmo, posso abrir-me em comunicação com outra pessoa,
revelando-me em doação livre.”290 Pela revelação pessoal, convida-se a pessoa do outro para
participar da própria posse e, de maneira mútua, compartilhar a sua posse.
O Pai possui a plenitude de Deus, que é possuir-se a si mesmo; mas ele não
reserva exclusivamente para si essa posse, comunicando numa Palavra,
misteriosa e total, a sua plenitude divina à pessoa do Filho, que, dessa
maneira, possui a divindade integral, a mesma do Pai; o Filho é a imagem, a
Palavra do Pai. A plenitude de divindade, que o Pai e o Filho possuem de
forma compartilhada, é comunicada por eles em nome do amor ao Espírito
Santo, de tal sorte que a terceira pessoa também possui a plenitude da
divindade.291
Se sabe-se algo sobre a vida de Deus é porque se realizou uma revelação externa de
Deus que, de algum modo, permite penetrar em sua própria vida. “Tudo o que Deus realiza fora
de si mesmo o manifesta, sendo, em sentido amplo, uma espécie de língua.”292 Portanto, neste
sentido, nota-se três caminhos de autocomunicação de Deus: pela criação, pela história e pela

                                                            
288
BENETTI, Marcia. “Linguagem.” In: MARCONDES FILHO, Ciro (org.). Dicionário da Comunicação. São
Paulo: Paulus, 2009, p. 228.
289
Cf. JAIR LOPES, Claudinei. Manipulação da Linguagem e Linguagem da Manipulação. São Paulo: Paulinas,
2008, p. 42.
290
ALONSO SCHÖKEL, L. A Palavra Inspirada. A Bíblia à luz da ciência da linguagem. Belo Horizonte:
Loyola,1992, p. 21.
291
Idem, p. 21-22.
292
Idem, p. 23.
105 

palavra: “A palavra é a forma plena de comunicação humana, e Deus escolheu também, e sobretudo,
essa forma de comunicar-se, de revelar-se.”293
Porém, “o problema ético surge quando alguns agentes usam a manipulação como meio de
dominar a comunidade de comunicação, isto é, de tornar sua visão de mundo, seus valores e
contravalores como os únicos válidos.”294
Dentro desta concepção de manipulação da linguagem um dos exemplos mais remotos
é a retórica295, em que o agente da comunicação produzia um discurso, sonoro ou visual,
objetivando persuadir os receptores a aceitarem os valores ou a visão de mundo ou ainda a
ideologia deste agente do discurso.
Inclusive, a eticidade da manipulação da linguagem é avaliada a partir da ideologia296
do agente produtor do discurso, pois, num sentido amplo da palavra, ideologia “é o conjunto de
doutrinas e ideias ou o conjunto de conhecimentos destinados a orientar a ação.”297 A manipulação
da linguagem, inclusive foi uma forma de controlar o pensamento e, portanto, o
comportamento nas sociedades totalitárias do comunismo e do nazismo, o que, por sua vez
não causa nenhuma surpresa, uma vez que tais sociedades não pouparam métodos que
violaram enormemente a dignidade da pessoa humana; o que causa perplexidade é se deparar
com essas formas de comportamento nas sociedades democráticas, que deveriam promover e
proteger a liberdade humana unida aos princípios éticos e morais.
Atualmente, verifica-se uma tendência progressiva em querer mudar o sentido das
palavras ou de termos no intuito de justificar certos procedimentos como é o caso em relação
ao aborto. No caso de uma clínica onde se pratica o aborto a expressão utilizada para suavizar
o impacto negativo da prática abortista é frequentemente descrita como ‘centro de saúde
reprodutiva’. Um outro exemplo, que pode ser citado é o caso de gravidez múltipla em que
alguns médicos orientam a mãe a fazer ‘uma redução embrionária’ para assegurar aos
embriões maior probabilidade de sobrevivência. Todavia, tal aconselhamento pode ser

                                                            
293
Idem, 31.
294
JAIR LOPES, Claudinei. Op. cit., p. 42
295
Cf. ibidem.
296
Conceituação de ideologia dada pela professora Marilena Chaui: “A ideologia é um conjunto lógico,
sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e
prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como
devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer (...). É
interessante observar que a ideologia não é concebida como uma mentira que os indivíduos da classe dominante
inventam para subjugar a classe dominada. Também os que se beneficiam dos privilégios sofrem a influência da
ideologia, o que lhes permite exercer como natural sua dominação, aceitando como universais os valores
específicos de sua classe (...). Outra característica da ideologia é a universalização, pela qual os valores da classe
dominante são estendidos à classe dominada.” In: LÚCIA DE ARRUDA ARANHA, Maria e HELENA PIRES
MARTINS, Maria. Filosofando. Introdução à Filosofia. 2ª edição, São Paulo: Moderna, 1993, p. 37.
297
Idem, p. 379.
106 

traduzido em outras palavras: qual criança, que ainda está sendo gestada no ventre de sua
mãe, será abortada.
Também pode-se verificar uma manipulação da linguagem em outros ambientes, como
por exemplo, nos diversos âmbitos da moralidade sexual visando dar uma aparência de
dignidade a procedimentos que são imorais. É o caso das prostitutas quando são chamadas de
‘profissionais do sexo’ ou ‘operados do sexo’. O chamado ‘monogamia em série’ para se
referir a um estilo de vida permissivo e promíscuo. Ainda, o chamado ‘amor
intergeneracional’ substituindo a gravidade da pedofilia. O ‘amor entre espécies’ para o caso
de bestialidade, de modo que a concepção que se tem de perversão sexual tende hoje em dia
ser concebido como um ‘estilo de vida alternativo’. O ‘material para adultos’ ou ‘material
sexualmente explícito’ ocupa lugar daquilo que se chama pornografia. A eutanásia é chamada
de ‘morte digna’. Aquilo que é concebido como autodisciplina pessoal passou a ser chamado
de ‘insana repressão’.298
Trata-se de uma questão de eufemismo299, pois a intenção é de suavizar a expressão
duma idéia substituindo a palavra própria por outra mais polida no intuito de obter a
aprovação ou o acolhimento pela maioria da população da sociedade.
Sendo assim, fala-se, por exemplo, de ‘interrupção voluntária da gravidez’,
em vez de aborto, ‘eliminação de embriões’ ou ‘redução embrionária’, em
vez de morte provocada (nos ciclos de reprodução assistida), aborto
‘terapêutico’ (quando a ‘terapia’ consiste, na realidade, em eliminar o feto ou
os fetos ‘anormais’ do ventre de uma mãe de boa saúde), desvirtuando-se
assim o sentido das coisas.300
O direito ao aborto foi definido e reconhecido pela primeira vez na sentença da Corte
Suprema dos Estados Unidos no ano de 1972 para indicar a livre escolha de interromper a
gravidez, afirmando que tal escolha constitui um direito da mulher. Essa sentença contribuiu
para consolidar a convicção de que a decisão pessoal da mulher quanto à gravidez deve ser
tratada como um direito pessoal seu.301 “À mulher lhe foi reconhecida a possibilidade de pedir a
morte do próprio filho concebido, porque a interrupção da gravidez tornou-se um direito.”302

                                                            
298
Cf. Lexicon, pp. 582-583.
299
“Palavra, locução ou acepção mais agradável, de que se lança mão para suavizar ou minimizar o peso
conotador de outra palavra, locução ou acepção menos agradável, mais grosseira ou mesmo tabuística.” In:
DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA, p. 849.
300
D. BOLZAN, Alejandro. Para uma ética da vida por nascer. Ética e manipulação da vida humana por
nascer no começo do século XXI. 1ª edição, São Paulo: Paulus, 2000, p. 23.
301
Cf. Lexicon, p. 199.
302
Ibidem.
107 

Verifica-se em alguns sistemas jurídicos o direito da mulher ao aborto. E com este


direito procura-se esconder ou camuflar a dolorosa realidade sobre a morte da criança
concebida se utilizando de novos conceitos linguísticos, tais como:
Direito à livre escolha, direito à livre escolha da gravidez, direito à livre
decisão sobre a interrupção da gravidez, direito à interrupção da gravidez,
direito à livre escolha da interrupção da gravidez, direito à livre escolha da
gravidez, direito à livre decisão sobre a interrupção da gravidez, direito à
interrupção da gravidez, direito à livre escolha da interrupção da gravidez,
direito à escolha de pôr fim à gravidez.303
Ou ainda, pode-se encontrar nos diversos documentos internacionais, outras
expressões linguísticas em sentido mais genéricos, como por exemplo:
Direito às próprias decisões pessoais, à integridade pessoal, que inclui o
tempo da gravidez, direito à própria decisão e integridade física, direito a
dispor do próprio corpo, direito à liberdade da maternidade.304
Trata-se de uma manipulação da linguagem como forma de tentar amenizar a própria
consciência e habituar a sociedade quanto ao aborto. “Precisamente no caso do aborto, verifica-
se a difusão de uma terminologia ambígua, como ‘interrupção da gravidez’, que tende a esconder a
verdadeira natureza dele e a atenuar a sua gravidade na opinião pública.”305 Sendo que, nenhum
termo utilizado pode, todavia, mudar a realidade e a verdade sobre o direito ao aborto e sobre
o próprio aborto, que é a morte deliberada e direta de um ser humano na fase inicial de sua
existência, compreendida entre a concepção e o nascimento. “Tantos nomes para uma mesma
realidade estão a indicar como os defensores de tal direito desejam esconder a verdade sobre sua
essência.”306
De outro lado, aqueles que são a favor do aborto, dizem que também se aproveita da
linguagem a postura que se refere ao aborto como sendo um infanticídio. Para eles, o aborto
não se enquadra em tal linguagem, visto que a criança concebida não pode ser considerada
ainda uma criança, e por isso, não é um homem, mas somente um feto. E neste sentido
insistem na legalização do direito ao aborto.307
Esta banalização da linguagem serve de descargo da consciência daqueles
que manipulam a vida por nascer, sendo o objetivo final muito simples: se as
pessoas podem ser convencidas de que uma ‘interrupção voluntária da

                                                            
303
Idem, p. 200.
304
Ibidem.
305
EV 58.
306
Lexicon, p. 200.
307
Cf. D. BOLZAN, Alejandro. Op. cit., p. 16-17.
108 

gravidez’ ou de uma ‘eliminação de embriões’ não é um assassínio, ou de


que, no desenvolvimento pré-natal humano existe um estádio de ‘pré-zigoto
ou pré-embrião’, durante o qual o ser humano não é pessoa e, portanto, a sua
manipulação e posterior eliminação não comportariam uma objeção moral,
então a opinião pública não verá com desagrado a utilização de embriões
humanos para experiências em laboratório ou o seu congelamento e/ou
eliminação através de procedimentos de reprodução assistida.308
O direito ao aborto reconhecido como parte do direito à privacidade da mulher pela
sentença americana, significou mais tarde uma evolução de tal direito a querer colocá-lo entre
os direitos humanos fundamentais, o que seria um verdadeiro paradoxo, pois, “não pode ser
reconhecido como um direito humano algo que inclui fazer mal a um outro ser humano”309, visto que
a finalidade da lei consiste no bem do homem e de todo o homem servindo de tutela sobre a
dignidade humana, que tem o direito à vida como o mais importante dentre os direitos
humanos. Portanto, aprovar o direito ao aborto no sistema legal significa contradizer a
essência dos direitos humanos. “Se na lei faltar a afirmação do homem e de seus direitos naturais,
o direito cessa de ser direito e se torna corruptio legis.”310
Aceitando o direito ao aborto, constata-se uma verdadeira inversão do próprio direito:
“faz-se uma exceção no direito natural à vida de cada ser humano e se aceita que existam categorias
de seres humanos aos quais o Estado pode negar tal direito”311, ganhando proteção não aquele que
é morto, mas aquele que mata. Matar, que sempre foi um crime no consenso comum perde o
caráter de delito com a aprovação do direito ao aborto. “Não pode ser reconhecido como um
direito humano algo que inclui fazer mal a um outro ser humano. O consentimento da mãe não muda
a avaliação moral negativa do aborto.”312
Uma questão de hipocrisia são as ações aparentemente humanitárias em favor do bem
do homem na sua dignidade, quando se propõe uma ampliação nos pedidos ligados à
intervenção da gravidez propondo a realização do aborto em condições adequadas garantidas
pelo Estado. Formular tal pedido de segurança à prática do aborto, de modo que isso não
cause nenhum dano à mulher, é pedir que antes seja aprovado o direito ao aborto.313
Além disso, os defensores do aborto começam a buscar formas de matar a criança sem
fazê-la sofre ou buscar formas de interromper a gravidez sem causar a morte no seio materno,
mas fazendo sair a criança ainda viva, eliminando, consequentemente, o sentimento negativo
                                                            
308
Idem, p. 23-24.
309
Lexicon, p. 205.
310
Ibidem.
311
Idem, p. 201.
312
Idem, p. 205.
313
Cf. idem, p. 202.
109 

de ódio pelo ato imoral da morte do próprio filho. Neste sentido, a morte da criança não
recairia sobre a mãe e o aborto seria o ato artificial de pôr fim ao processo da gravidez, como
se fosse possível separar gravidez e criança. Isto é o que podemos chamar de intervenções
pseudo-humanitárias.314
Ainda se pode dizer que a opção de abortar se reveste para a mulher de um caráter
dramático e doloroso, quando a decisão de se desfazer do concepto não é baseada
simplesmente em razões egoístas ou de comodidade por parte da mãe, mas porque se
quereriam salvaguardar alguns bens importantes como a própria saúde ou um nível de vida
digno para os outros membros da família. Em muitos casos temem-se para o nascituro
condições precárias de existência que levam a pensar que seria melhor que ele não viesse a
nascer: “mas estas e outras razões semelhantes, por mais graves e dramáticas que sejam, nunca
podem justificar a supressão deliberada de um ser humano inocente.”315
O aborto muitas vezes é apresentado como se existisse um absoluto conflito entre o
direito à vida da criança concebida e os direitos das mulheres. Busca-se uma redefinição da
relação existente entre a mãe e a criança concebida, isto é, uma relação social e não uma
relação pessoal, sendo que a maternidade não é uma relação unilateral, mas uma
reciprocidade, que une duas pessoas na sua dimensão física e afetiva. Busca-se o direito ao
aborto como elemento necessário para a igualdade entre homens e mulheres, principalmente
no que diz respeito ao campo da reprodução. Segundo este modo de pensar, os homens têm
liberdade para escolher na procriação, ao passo que as mulheres não, delineando a
discriminação em relação ao sexo feminino. Então, o direito à liberdade de escolha da
maternidade é a única forma de garantir a democracia e a igualdade entre homens e
mulheres.316
Conceber tal raciocínio é uma falácia, pois a democracia está baseada sobre a ordem
moral e sobre o respeito à dignidade e aos direitos do homem, entre eles, o direito à vida
humana, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. Neste caso, não se
pode falar em democracia quando os direitos humanos não tutelam o homem no que constitui
a essência do seu ser, ou seja, o seu direito à vida. Portanto, o Estado que organiza tal
atentado contra a vida, não pode ser considerado democrático.317
É diante desta cultura em crise, que tem fermentado sinais de morte em todo o mundo,
que a Igreja Católica, por meio de seu testemunho profético em anunciar o Evangelho da
                                                            
314
Cf. ibidem.
315
EV 58.
316
Cf. Lexicon, p. 202-203.
317
Cf. idem, p. 205.
110 

Vida, tem sido uma grande força, a representar significativamente uma cultura pró-vida, que
se oponha a cultura de morte, especialmente em favor da prática livre do aborto, que mesmo
apesar dos diversos fatores, que a favorecem, não justificam tal prática.
E na tentativa de conscientizar a população brasileira sobre a responsabilidade na luta
pela defesa da vida, se verá no próximo capítulo, um exemplo da significativa participação
política e social da Igreja, sobretudo, através da Campanha da Fraternidade vivida anualmente
durante a quaresma e que tornou-se símbolo mais expressivo da Igreja Católica no Brasil de
uma repercussão nacional em favor da vida humana.

Conclusão

A Igreja Católica reconhece que são inúmeros os sinais de morte espalhados em todo o
mundo entre as mais diversas culturas ou anti-culturas, que ameaçam a vida humana do seu
início ao fim. Foi por causa destes sinais negativos presentes na sociedade, que o Papa João
Paulo II usou o termo “cultura de morte”.
A morte de certos seres humanos, especialmente dos casos de anencefalia fetal, não
pode ser vista como uma questão de qualidade de vida em se tratando de poupar o sofrimento
para quem está para nascer com uma deficiência cerebral, como também de poupar o
sofrimento da própria família que vive tal drama.
Tirar a vida de outro ser humano, seja qual for a condição física ou mental em que ele
se encontra, não pode ser uma alternativa de solução diante de um problema. O Estado, como
toda a sociedade precisam se abrir, cada vez mais, para acolher a vida humana, mesmo e
principalmente, quando marcada por debilidades. Todos, sem exceção, são responsáveis uns
pelos outros, sobretudo, quando se trata de promover a vida humana do início ao fim.
Um programa médico-hospitalar de iniciativa política precisa estar disponível nos
hospitais públicos, para que as gestantes e os recém-nascidos possam receber assistências
necessárias em meio a este quadro de anencefalia. Portanto, o diagnóstico pré-natal não pode
ser utilizado para propor o aborto como solução diante de alguma malformação, pois tal
atitude estaria configurada como aborto eugênico determinando quem deve viver e quem não.
O diagnóstico pré-natal é moralmente lícito, quando objetiva tomar conhecimento sobre as
condições do embrião e do feto ainda no seio materno possibilitando intervenções terapêuticas
com a única intenção de alcançar a cura. É claro, que tal intervenção médica, pode,
secundariamente, gerar a morte do feto, mas a intenção primeira foi buscar salvaguardar a
saúde e a vida do nascituro.
111 

Em se tratando de licitude, no caso de qualquer legislação, seja de repercussão


nacional, seja internacional, jamais será moralmente boa ou lícita, quando se trata de violar a
vida de um ser humano. Portanto, mesmo apesar dos casos legais de aborto existentes no
Brasil e nos outros países, tal legislação pode significar uma verdadeira contradição, quando
não garante o direito à vida como sendo um princípio fundamental dos direitos humanos.
Como se pode constatar no próximo capítulo, a função de uma legislação é assegurar o direito
à igualdade entre todos os habitantes de um país, de modo que uns não sejam favorecidos em
detrimentos do prejuízo de outros.
No caso do aborto, jamais a lei civil pode substituir a consciência, pois esta, quando
educada, pede para fazer o bem e evitar o mal, como manifestação de uma lei natural inerente
a todo ser humano. É direito de todo ser humano a objeção de consciência diante dos sinais de
morte que o ameaçam. O direito civil deve respeitar alguns direitos fundamentais pertencentes
à natureza humana e entre estes direitos está o inviolável direito à vida de todo ser humano
inocente.
112 

Capítulo III
O Evangelho da Vida como centro da mensagem cristã

Introdução ao capítulo

O esforço neste último capítulo consiste em reafirmar o princípio de defesa da vida


humana como missão de Cristo e de sua Igreja. A Carta Encíclica de João Paulo II –
Evangelium Vitae – diz que anunciar, promover e defender a vida humana nas diversas
culturas espalhadas por todo o mundo, se torna o núcleo constitutivo da mensagem cristã.
Imbuído neste espírito de promoção e de defesa da vida, que, este respectivo capítulo
tenta buscar, na interdisciplinaridade, um suporte, não somente na Revelação cristã, mas
também na própria racionalidade como duas colunas que se levantam para sustentar a
responsabilidade de todos perante o princípio de defesa da vida.
Quando se verifica a estrutura argumentativa da Evangelium Vitae, se nota os dois
elementos fundamentais da fé e da razão. É necessário dizer, que, a força destes tais
argumentos não derivam da autoridade moral do Papa, mas do próprio valor dos argumentos
fundados sobre a natureza humana. Neste sentido, o direito à vida e a sua inviolabilidade se
constitui o primeiro e principal direito de todo o ser humano sem levar em conta o seu credo
religioso. Estes direitos humanos derivam do próprio fato de ser homem e de pertencer à
espécie humana.
Ao lado do caráter ético da dignidade humana, pode-se ainda acrescentar outros
princípios, como o da responsabilidade e o da solidariedade. Estes funcionam como base dos
Direitos Humanos como forma de proteger a pessoa humana como centro de toda reflexão
ética. O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, possui uma superioridade
ontológica com relação às outras criaturas. Trata-se de uma responsabilidade moral o
acolhimento da vida humana, uma vez que a solidariedade interpela na participação da
realização do bem dos próprios semelhantes.
A defesa da vida humana está presente em todas as pessoas como algo inerente à
própria natureza. Trata-se de uma lei universal ou comum a todos os seres humanos escrita na
própria consciência: faça o bem e evite o mal. Neste sentido a consciência é a sede da
moralidade funcionando como uma espécie de instrumento que guia para o agir correto. Deus
criou a todos capazes de desejar e conhecer o que é bom e verdadeiro, porém, a consciência
pode errar, se não tiver uma formação orientada para o bem e para a verdade. E a defesa da
113 

vida e da sua promoção social, se torna o princípio fundamental presente naturalmente na


consciência viva do ser humano.
Promover o bem comum entre as pessoas é de grande responsabilidade do Estado, que
deve garantir o direito inviolável à vida para os seus cidadãos. Neste sentido, as leis que
legitimam a eliminação de seres humanos não estão cumprindo com a sua finalidade, que é
promover o bem sempre em conformidade com a lei eterna.
Como o aborto é uma realidade em quase todo o mundo, a Igreja universal como a
Igreja no Brasil tem dado um autêntico testemunho profético no seu duplo aspecto de
denúncia da cultura de morte e de anúncio da cultura da vida. Basta conferir as diversas
Campanhas da Fraternidade, que têm servido para despertar as consciências para a reflexão da
relevância da vida humana.
Diante dos inúmeros dados interdisciplinares reunidos nesta pesquisa, pode-se falar
em caráter de conclusão desta respectiva dissertação, sobre a identidade e o estatuto do
embrião humano fazendo frente às manipulações arbitrárias em nome de um capricho estético,
social, econômico.
Esta pesquisa termina chamando a atenção de que o princípio de defesa da vida
humana não é tarefa que deva ser assumida somente por alguns ou somente pelo Estado, mas
todos são chamados a assumir responsabilidade perante a própria vida e a vida do outro
compreendendo que ela é, ao mesmo tempo um dom dado gratuitamente por Deus, mas
também se constitui em uma tarefa que exige de todos os seres humanos a responsabilidade
em reconhecê-la, promovê-la e defendê-la desde a sua concepção até a sua morte natural.

3.1. Visão geral da Evangelium Vitae

Este subtítulo objetiva oferecer uma visão panorâmica da Carta encíclica Evangelium
Vitae no que tange ao seu conteúdo temático, uma vez que esta se constitui o principal
documento eclesial abordado nesta respectiva dissertação.
Nas últimas décadas, a Igreja Católica tem dado grande atenção para as questões de
bioética. Já o Concílio Vaticano II (1962-66), mais precisamente na constituição pastoral
Gaudium et Spes 27, condena claramente o aborto e a eutanásia, em meio a uma série de
outras ações que ameaçam à vida humana, como por exemplo, torturas, escravidão,
prostituição, comercialização de mulheres e jovens etc. O tema da bioética foi retomado por
Paulo VI na encíclica Humanae Vitae (1968), mas foi o Papa João Paulo II, em sua encíclica
Evangelium Vitae (1995), que tratou de tal questão de maneira mais sistemática. Para ele, com
114 

o avanço da mentalidade individualista e utilitarista, e com o desenvolvimento da ciência e da


técnica, o aborto, a eutanásia e outras violações à vida não só continuam a ser praticados, mas
vão deixando de ser considerados ilícitos para se tornar legitimamente legalizados pelo
próprio Estado.318
O cristianismo defende a tese da vida como algo que pertence somente a Deus: Jesus é
o Deus da vida que oferece sua própria vida na morte de cruz para dar vida em plenitude com
sua ressurreição. E a tese fundamental da Evangelium Vitae consiste, portanto, na defesa da
vida humana em todos os seus aspectos: religioso, antropológico, biológico, jurídico etc. E a
primeira grande reclamação da Revelação, emergida da encíclica, é enfatizar que ninguém
tem o direito de tirar a vida do outro, mas somente Deus, porque foi Ele quem a deu
gratuitamente para que o ser humano cuidasse:319
A vida humana é sagrada porque desde o seu início comporta a ação criadora
de Deus e permanece para sempre em uma relação especial com o Criador,
seu único fim. Somente Deus é o Senhor da vida, desde o seu início até o seu
fim: ninguém, em nenhuma circunstância, pode reivindicar para si o direito
de destruir diretamente um ser humano inocente.320
Esta defesa da vida se volta, especialmente, para aquela que se encontra mais
fragilizada e indefesa: a vida nascente e terminal. E mesmo oferecendo uma visão panorâmica
de várias situações que ameaçam a vida humana no tempo hodierno em que se vive, como por
exemplo - os contraceptivos, o homicídio, o suicídio, a pena de morte - tal encíclica traz o
aborto e a eutanásia numa posição de grande destaque no que diz respeito ao seu quadro
temático.321
Numa linha de continuidade à “Declaração sobre o aborto provocado” datado de 1974
da Congregação para a Doutrina da Fé, verifica-se na EV, precisamente nos parágrafos de 58 a
63, a condenação mais forte e mais desenvolvida sobre o aborto: “A vida humana é sagrada e
inviolável em cada momento da sua existência, inclusive na fase inicial que precede o nascimento.”322
E para justificar sua missão de defesa da vida humana em todas as suas etapas, a Igreja se
fundamenta nos textos da Sagrada Escritura, da Sagrada Tradição cristã e do Sagrado

                                                            
318
BORBA RIBEIRO NETO, Francisco e PIROZELLI N. SILVA, Marli. “Bioética, Igreja e Documento de
Aparecida.” In: LUIZ DE PAULA RAMOS, Dalton (org.). Um diálogo latino-americano. Bioética e Documento
de Aparecida. 1ª edição, São Caetano do Sul-SP: Ed. Difusão, 2009, pp. 53-54.
319
DE BARROS BARBOSA, Francisco. “Evangelium Vitae: uma luz da bioética católica.” Análise e Síntese,
Salvador-BA, v. 06, n. 11, pp. 11-217, [jan./jun.], 2007, p. 37.
320
DV Introdução, 5; CaIC 2258.
321
Cf. VIDAL, Marciano. O Evangelho da Vida. Para uma leitura da Evangelium Vitae. São Paulo: Paulinas,
1998, p. 106.
322
EV 61.
115 

Magistério como também evoca a disciplina canônica para mostrar que desde os primeiros
séculos, puniu com sanções penais aqueles que se manchavam com a prática do aborto.323
Nesta perspectiva, numa tentativa de estruturar tal temática no referido documento
pode-se fazer o seguinte apontamento no que diz respeito às bases condenatórias ao aborto: as
bases bíblicas, as referências da Tradição cristã e as condenações do magistério pontifício
recente, assim como a disciplina penal canônica.
...declaro que o aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio,
constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de
um ser humano inocente. Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e
sobre a Palavra de Deus escrita, é transmitida pela Tradição da Igreja e
ensinada pelo Magistério ordinário e universal.324
Numa tentativa em buscar uma estruturação textual da EV, pode-se dividir a encíclica
em cinco partes principais:325
A primeira, faz uma análise dos problemas filosóficos que giram em torno da violência
contra a vida e que são indispensáveis para estabelecer uma compreensão sobre o todo da
obra. Começando por uma descrição sobre a cultura de morte a encíclica enumera seis causas
fundamentais ou raízes da violência contra a vida: o subjetivismo da liberdade, a objetivação
da corporeidade, o laicismo, o materialismo, o relativismo ético e a absolutização da
democracia. A segunda parte consiste numa definição do conceito e do conteúdo da vida
humana e dos valores dogmáticos e declarações do Magistério passando pela Sagrada
Escritura sobre a vida humana e considerando os dados da antropologia teológica. A terceira
parte da encíclica trata de buscar uma validação moral refletindo sobre o valor absoluto e
relativo da vida humana a partir dos temas sobre legítima defesa, pena de morte,
contracepção, aborto, eutanásia, comparticipação em ações moralmente más. A quarta parte
faz uma análise jurídica e social desses mesmos problemas citando o frágil relacionamento
entre lei civil e moral; destacando penas canônicas no que se refere ao aborto provocado. E,
finalmente, a quinta parte faz uma análise pastoral fazendo referências à família, à educação, à
sexualidade, a centros de acolhida e de ajuda à vida humana e ao sentido do sofrimento
humano.
A defesa da vida inocente e de qualquer outro estágio biológico da mesma está
fortemente presente na Sagrada Escritura. Embasada nestes testemunhos escriturísticos, a

                                                            
323
Cf. idem, nn. 61-62.
324
Idem, n. 62; Cf. LG 25.
325
Cf. PONTIFICIA ACCADEMIA PER LA VITA. Commento Interdisciplinare Alla Evangelium Vitae.
Vaticano: Libreria Editrice vaticana, 1997, Introduzione, p. 23.
116 

Igreja não tem dúvida quanto a sua missão de continuar difundindo o Evangelho da Vida por
todo mundo. E para narrar o quadro emblemático da Revelação das origens sobre a vida e a
morte, o capítulo primeiro da EV se utiliza do episódio de Abel e Caim (Cf. Gn 4,8-12).326 A
figura de Abel representa a vida e sua fidelidade a Deus, que é o autor e o doador da vida
humana, ao passo que a figura de Caim representa a violência à vida e, portanto, a própria
morte. O objetivo central do Papa João Paulo II com esta carta encíclica é denunciar os
perigos atuais característicos da cultura de morte que ameaçam a vida humana em todos os
estágios da mesma, e ao mesmo tempo, chamar a atenção de que o anúncio do Evangelho da
Vida, entendida como promotora da cultura pró-vida, é de responsabilidade de toda a
humanidade, e não somente dos cristãos, mediante o reto exercício da consciência.327
O grande Evangelho da Vida, ou seja, a boa notícia de toda a Revelação bíblica
testemunha que Deus não criou a morte como também não se alegra com a ruína dos viventes,
pois ele criou todas as coisas para a existência. Mas o livro da Sabedoria mostra que a morte
entrou no mundo por inveja do demônio (Cf. Sb 1,13s; 2,23s), mas também devido o pecado
dos primeiros pais (Cf. Gn 2,17; 3,17-19). Portanto, a narrativa de Caim e Abel representa os
sinais de morte que estão presentes na história das sociedades humanas, de modo a considerar
a morte fratricida algo que acontece sempre, pois todos os homens são irmãos entre si e, neste
sentido, quem provoca o homicídio de uma pessoa, pratica a morte violenta da parentela
humana já que, segundo a teologia antropológica da criação, os homens e mulheres fazem
parte de uma única e grande família.328
Partindo desta ênfase que a própria encíclica faz sobre a narrativa de Caim e Abel,
pode-se fazer alguns apontamentos, uns de caráter positivo e outros negativo, de elementos
relevantes presentes na Evangelium Vitae, a saber329:
O primeiro elemento de reflexão é o eclipse do valor da vida330: “A voz do sangue
derramado pelos homens não cessa de clamar, de geração em geração, assumindo tons e acenos
sempre novos e diversos.”331 A vida tem se tornado inútil por causa da facilidade do aborto, da
contracepção, quando uma vida não é desejada, e ainda, das várias técnicas de reprodução artificial e
até mesmo do diagnóstico pré-natal, quando utilizado para propor o aborto diante de uma
malformação fetal.

                                                            
326
Cf. EV 7-28.
327
DE BARROS BARBOSA, Francisco. “Evangelium Vitae: uma luz da bioética católica.” Análise e Síntese,
Salvador-BA, v. 06, n. 11, pp. 11-217, [jan./jun.], 2007, p. 42.
328
Cf. EV 8; CaIC 2259.
329
DE BARROS BARBOSA, Francisco. Op. cit., pp. 43-53.
330
Cf. EV 10-17.
331
Idem, n. 10.
117 

O segundo elemento é a ideia perversa da vida e da liberdade332: “... interpretar os


mencionados crimes contra a vida como legítimas expressões da liberdade individual, que hão de ser
reconhecidas e protegidas como verdadeiros e próprios direitos.”333 Hoje em dia, tem se assistido
uma verdadeira contradição, quando de um lado se afirma os direitos invioláveis da pessoa e
se afirma publicamente o valor da vida, e ao mesmo tempo, o próprio direito à vida é
praticamente negado, principalmente nos momentos mais frágeis da existência humana, como
são o nascer e o morrer.
O terceiro apontamento reflexivo é o eclipse do sentido de Deus e do homem334:
“perdendo o sentido de Deus, tende-se a perder também o sentido do homem, da sua dignidade e da
sua vida.”335Aqui está a raiz da cultura de morte presente no seio da humanidade, pois faltando
a referência de Deus, todas as coisas vão se perdendo no vazio por falta de sentido336. “Eis a
compreensão que leva o homem ao materialismo prático proliferando o individualismo, o utilitarismo
e o hedonismo.”337
A quarta citação, de caráter positivo, consiste num vislumbramento com os sinais de
esperança e numa exortação quanto ao compromisso no acolhimento da vida, pois depois do
sangue de Abel derramado pelo delito de Caim, seu irmão, o sangue de cada ser humano se
tornou a voz que se eleva até Deus338:
Muitos são ainda os esposos que, com generosa responsabilidade, sabem
acolher os filhos como o maior dom do matrimônio. E não faltam famílias
que, para além do seu serviço cotidiano à vida, sabem também abrir-se ao
acolhimento de crianças abandonadas, de adolescentes e jovens em
dificuldade, de pessoas inválidas, de idosos que vivem na solidão.
Numerosos são os centros de ajuda à vida ou instituições análogas,
dinamizadas por pessoas e grupos que, com admirável dedicação e sacrifício,
oferecem apoio moral e material às mães em dificuldade, tentadas a recorrer
ao aborto. Surgem e multiplicam-se ainda os grupos de voluntários,
empenhados em dar hospitalidade a quem não tem família, encontra-se em
condições de particular dificuldade ou precisa de reencontrar um ambiente

                                                            
332
Cf. idem, nn. 18-20.
333
Idem, n. 18.
334
Cf. EV 21-24.
335
Idem, n. 21.
336
Cf. GS 36.
337
DE BARROS BARBOSA, Francisco. “Evangelium Vitae: uma luz da bioética católica.” Análise e Síntese,
p. 45.
338
Cf. EV 25-28.
118 

educativo que o ajude a superar hábitos destrutivos e recuperar o sentido da


vida.339
O quinto elemento deste apontamento da EV é o olhar voltado para Cristo, o Verbo da
vida340: “O Evangelho da vida não é uma simples reflexão, mesmo se original e profunda, sobre a
vida humana (...). O Evangelho da vida é uma realidade concreta e pessoal, porque consiste no
anúncio da própria pessoa de Jesus.”341 É em Cristo que se encontra a possibilidade de conhecer a
verdade plena sobre o valor da vida humana e desta “fonte” que brota a capacidade de colocar
em prática tal verdade, ou seja, a capacidade de assumir e realizar a responsabilidade de amar
e servir, de oferecer e promover a vida humana, que deve ser defendida como um bem, pois o
homem vivo é, no mundo, manifestação de Deus, sinal de sua presença, vestígio da sua glória
(cf. Gn 1,26-27; Sl 8,6). Ao longo de toda a vida de Jesus, do seu início ao fim, se observa a
dialética entre a precariedade da vida humana e a afirmação de seu valor. É exatamente por
causa deste contraste que resplandece com maior força a glória de Deus que é salvação para a
humanidade inteira. Deste modo, chega-se ao ápice a verdade cristã a respeito da vida: “Ora, a
vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus
Cristo (Jo 17,3).” Neste sentido, o Papa João Paulo II afirma dizendo que “a dignidade desta
[vida] não está ligada apenas às suas origens, à sua proveniência de Deus, mas também ao seu fim, ao
seu destino de comunhão com Deus no conhecimento e no amor dele.”342
O sexto momento da encíclica chama a atenção para a lei de Deus - “não matarás” –
como condição para quem quiser entrar na vida por excelência: “Se queres entrar para a Vida,
guarda os mandamentos (Mt 19,17).”343 Se de um lado o mandamento “não matarás” traz um
forte conteúdo negativo, porque estabelece um limite que nunca poderá ser ultrapassado;
doutro lado indica uma atitude positiva de respeito absoluto pela vida humana344: “Nada e
ninguém pode autorizar que se dê a morte a um ser humano inocente seja ele feto ou embrião, criança
ou adulto, velho, doente incurável ou agonizante.”345 Portanto, seguindo esta linha de reflexão, a
carta encíclica condena como crime, tanto o aborto, quanto a eutanásia:
Assim, as leis que legitimam a eliminação direta de seres humanos
inocentes, por meio do aborto e da eutanásia, estão em contradição total e

                                                            
339
Idem, n. 26.
340
Cf. idem, nn. 29-51.
341
Idem, n. 29.
342
Idem, n. 38.
343
Cf. idem, nn. 52-77.
344
PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. Bíblia e Moral. Raízes bíblicas do agir cristão. São Paulo: Paulinas,
2009, n. 96.
345
EV 57.
119 

insanável com o direito inviolável à vida, próprio de todos os homens, e


negam a igualdade de todos perante a lei.346
O sétimo e último momento da Evangelium Vitae consiste em fazer algumas
considerações breves, porém relevantes acerca da nova cultura da vida humana frente às
diversas ameaças de uma cultura de morte347: “Todos juntos sentimos o dever de anunciar o
Evangelho da vida, de o celebrar na liturgia e na existência inteira, de o servir com as diversas
iniciativas e estruturas de apoio e promoção.”348 A comunidade cristã é o povo da vida e pela
vida. Portanto, o compromisso de servir a vida é de responsabilidade de todos e de cada um,
de modo que, mesmo sendo uma responsabilidade tipicamente eclesial, não subtrai nem
diminui a responsabilidade de cada pessoa.
A Igreja acredita que tal mensagem cristã, difundida à catolicidade das diversas
culturas, tem a missão de iluminar as consciências na reflexão sobre o valor e a dignidade da
vida humana. É por este motivo, que hoje, mais do que antes, emerge em vários ambientes o
tema da mística, entendida, não como motivação somente religiosa, uma vez que a fé cristã
interpela para a boa ação, mas como realidade que emerge da escuta pessoal da própria
profundidade humana, de onde a pessoa arranca os motivos para a prática do bem e da
solidariedade concreta349. É nesta perspectiva de pensamento, que a mística se faz urgente
para a bioética nos tempos de hoje: “esta mística seria, sem dúvida, testemunho no sentido de não
deixar que interesses individuais egoístas se sobreponham e calem a voz dos outros (excluídos) e
escondam suas necessidades.”350
A bioética iluminada e movida pela mística faria coincidir o tecnicamente
possível com o eticamente admissível. Essa mística proclamaria, diante de
todas as conquistas das ciências da vida e do cuidado da saúde, que o
imperativo tecnocientífico posso fazer passa obrigatoriamente pelo
discernimento do outro imperativo ético: logo, devo fazer?351
A mística seria um ponto de convergência entre as pessoas, os grupos dos mais
diversos contextos sociopolítico-econômico-culturais a se unirem nesta empreitada de garantir

                                                            
346
Idem, n. 72.
347
Cf. idem, nn. 78-101.
348
Idem, n. 79.
349
ANTONIO LOPES RICCI, Luiz. “Uma proposta de articulação e aproximação entre bioética, mística e
teologia moral.” Atualização, Belo Horizonte-MG, ano XL, n. 347, pp. 547-574, [nov./dez.] 2010, p. 556.
350
PESSINI, Léo e DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Problemas atuais de bioética. Apud.
ANTONIO LOPES RICCI, Luiz. “Uma proposta de articulação e aproximação entre bioética, mística e teologia
moral.” Atualização, p. 548.
351
Idem, “Uma proposta de articulação e aproximação entre bioética, mística e teologia moral.” Atualização, p.
548.
120 

vida digna para todos construindo um novo paradigma econômico e tecnocientífico iluminado
pelas exigências da solidariedade humana.
Ainda fazendo referências às bases bíblicas que condenam a violação da vida humana,
pode-se fazer algumas citações, como por exemplo, entre os profetas: “A palavra de Iahweh me
foi dirigida nos seguintes termos: antes mesmo de te modelar no ventre materno, eu te conheci; antes
que saísses do seio, eu te consagrei (Jr 1,4-5).” Também nos salmos: “Desde o seio tu és o meu
apoio, tu és minha parte desde as entranhas maternas, em ti está continuamente o meu louvor (Sl
71,6).” E ainda mais:
Sim! Pois tu formaste os meus rins, tu me teceste no seio materno. Eu te
celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas maravilhas!
Conhecias até o fundo do meu ser; meus ossos não te foram escondidos
quando eu era modelado, em segredo, tecido na terra mais profunda. Teus
olhos viam o meu embrião (Sl 138,13-16a).
Dentro da Tradição cristã e ainda obedecendo a uma linha de continuidade à
“Declaração sobre o aborto provocado”, conforme já mencionado acima, a EV cita a Didaqué,
que é um documento extremamente relevante para se conhecer as origens do cristianismo e
averiguar a oposição radical dos primeiros cristãos frente à prática generalizada do aborto no
mundo greco-romano: “Não mate a criança no seio de sua mãe, nem depois que ela tenha
nascido.”352
A EV ainda cita dois escritores da patrística, um de língua grega e outro de língua
latina. Atenágoras, filósofo apologista cristão grego do século II, está entre os escritores
eclesiásticos gregos: “...recorda que os cristãos consideram homicidas as mulheres que recorrem a
produtos abortivos, porque os filhos, apesar de estarem ainda no seio da mãe, são já objetos dos
cuidados da Providência divina.”353 E Tertuliano de língua latina: “É um homicídio premeditado
impedir de nascer; pouco importa que se suprima a alma já nascida ou que se faça desaparecer durante
o tempo até ao nascer. É já um homem aquele que o será.”354
A referida Carta Encíclica Evangelium Vitae, como também já foi tratado no primeiro
capítulo, ítem 1.4. desta dissertação, a Igreja sempre assumiu a posição de condenação ao
aborto, mesmo apesar das discussões de caráter científico e filosófico acerca do momento
exato da infusão da alma espiritual.355
E, finalmente, a EV cita as condenações do Magistério pontifício recente, como
também faz citação da disciplina penal do Código de Direito Canônico.
                                                            
352
Didaqué II,2.
353
EV 61.
354
Ibidem.
355
Cf. ibidem.
121 

Deus, com efeito, que é o Senhor da vida, confiou aos homens o nobre
encargo de preservar a vida para ser exercido de maneira condigna do
homem. Por isso a vida deve ser protegida com o máximo cuidado desde a
concepção. O aborto como o infanticídio são crimes nefandos.356
Desde os primeiros séculos da Igreja, a disciplina canônica puniu com sanções penais
aqueles que praticavam o aborto e tal disciplina continuou nos períodos históricos sucessivos.
O Código de Direito Canônico prescreve, inclusive, a pena de excomunhão para o aborto:
“Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.”357 A
excomunhão se refere tanto aqueles que cometem este crime com conhecimento da pena,
como também sobre os cúmplices sem cuja contribuição o aborto não se teria realizado.358
O Papa Paulo VI disse que tal ensinamento não teve mudanças:
É absolutamente de excluir, como via legítima para a regulação dos
nascimentos, a interrupção direta do processo generativo já iniciado, e,
sobretudo, o aborto querido diretamente e procurado, mesmo por razões
359
terapêuticas.
Procurando detectar os argumentos em que a EV se encontra embasada, verifica-se
que, além dos seus motivos inspirados na Sagrada Escritura e no Sagrado Magistério, tal
encíclica também se apóia em outros argumentos racionais que fundamentam o escopo de sua
mensagem para o tempo hodierno em que se vive tão ameaçado por estruturas de morte que se
voltam contra a própria dignidade do ser humano, que deve ser protegido desde a sua
concepção até a sua morte.
Nesse horizonte, pode-se elencar três fundamentos sobre os quais se apóiam
constantemente os motivos racionais da referida encíclica: 1. Existe uma relação inseparável
entre vida e liberdade, que também pode ser caracterizada pelo vínculo constitutivo entre a
liberdade e a verdade. Não existe verdadeira liberdade quando a vida não é acolhida,
protegida e promovida, como também não existe vida plena quando a liberdade não é
assegurada. Dentro desse dinamismo relacional, separar a liberdade da verdade objetiva
significa tornar impossível a fundação dos direitos da pessoa sobre um sólido fundamento
racional o que, por sua vez, acaba gerando margens para premissas de comportamentos
arbitrários e totalitários; 2. O segundo argumento racional da encíclica trata de reconhecer a
finalidade natural, primária e principal, tanto da medicina, quanto do progresso técnico-

                                                            
356
GS 51.
357
CIC 1398.
358
Cf. idem 1329.
359
HV 14.
122 

científico, que é a defesa e a proteção da vida e não a sua manipulação e, até mesmo, sua
eliminação, como é o caso do aborto e da eutanásia; 3. Diz respeito à legislação dos Estados,
que consiste em sua natureza salvaguardar o bem (e a vida é o primeiro e principal bem do
Estado) das pessoas e a defesa dos mais fracos e dos inocentes das agressões injustas, de
modo que, a violação desse bem ou direito fundamental da pessoa equivale numa perda de sua
validade jurídica, deixando de ser lei para se tornar uma corrupção da lei:360 “Transformar o
delito em direito é a corrupção da norma moral, a perversão da pessoa e destruição da convivência
social justa.”361
Diante de todos os argumentos em que a EV se apoia para promover a defesa da vida
humana, tais argumentações podem ser condensados em dois elementos fundamentais: a razão
e a fé362, ou ainda, conforme a expressão usada pelo Concílio Vaticano II – “à luz do evangelho
e da experiência humana”363
A doutrina católica sempre ensinou que Deus fala mediante a palavra revelada, mas
também mediante a criação364. Nesse sentido, o “Evangelho da Vida” está inscrito já no
coração de cada pessoa humana e pode ser conhecido pela razão humana.
E neste modo, a força da argumentação racional da encíclica não nasce da
autoridade espiritual ou moral do Papa, mas do valor próprio dos argumentos
fundados sobre a natureza das coisas. Isto quer dizer que o direito à vida e a
sua inviolabilidade absoluta é o primeiro e principal direito de todo o homem
independentemente do seu credo religioso ou da sua situação; ele o possui
pelo próprio fato de ser homem, indivíduo da espécie humana, e como tal
deve ser respeitado. Neste sentido, não se trata de impor a ninguém o
respeito da vida humana em base a uma norma moral que nasce a partir de
uma visão de fé em Deus. A rejeição das violações contra a vida e a sua

                                                            
360
Cf. PONTIFICIA ACCADEMIA PER LA VITA. Commento Interdisciplinare Alla Evangelium Vitae.
Introduzione, p. 24.
361
Idem, p. 21
362
Cf. idem, p. 23.
363
GS 46.
364
“A vida humana é, em primeiro lugar, um valor natural, racionalmente conhecido por todos aqueles que
fazem uso da razão. O valor da pessoa humana torna-se precioso pela graça e pelo dom do Espírito Santo, mas
não cessa de ser para todos, crentes ou não, um valor intangível. É contrário à tradição da Igreja negar o valor da
razão e a legitimidade da ética racional, também chamada de natural. A Igreja defendeu, mais que tudo, o
princípio de harmonia entre ciência e fé entre razão e revelação: uma harmonia nem sempre fácil e imediata,
quer pela fraqueza da mente humana, quer pelas pressões ideológicas, eu pela dificuldade intrínseca dos
problemas. É este um ponto delicado e essencial que implica a relação homem-Deus, natural-sobrenatural,
filosofia-teologia. Razão e Revelação têm o mesmo autor, que é Deus, merecendo, assim igual respeito, exigindo
apoio mútuo.” In: SOUZA, Waldir. “O Princípio responsabilidade em Hans Jonas.” Um desafio para a bioética
numa contínua transcendência. Atualidade Teológica, p. 185.
123 

defesa se fundam sobre a natureza própria das coisas e sobre a experiência


humana.365
Se por um lado, se afirma que Deus fala por meio da criação e por isso se pode
conhecê-lo por meio da razão, por um outro lado, não se pode esquecer que tal razão foi ferida
pelo pecado, e, portanto, pode desviar-se e errar. Por esse motivo, a fé ou a Revelação se torna
uma espécie de proteção em relação à retidão do pensamento, o que, por sua vez, não significa
uma substituição da razão pela fé, mas uma apoio desta em relação àquela.
Isso nos leva a pensar que a estrutura da encíclica se baseia em primeiro
lugar sob uma visão de fé: anunciar o valor da vida humana a partir de Deus;
e isso se deduz que a vida do homem, mesmo se com a morte termina seu
curso terreno, numa visão mais ampla e completa, transcende a morte e
continua na eternidade (...). O recurso da encíclica à Sagrada Escritura, à
Tradição e ao Magistério é constante neste nível de argumentação. O
‘Evangelho da Vida’ consiste em anunciar a própria pessoa de Cristo, que é
a vida (...). Mantendo o olhar voltado para Deus, criador da vida humana, se
evita todo antropocentrismo fechado à transcendência e se descobre o
autêntico sentido teocêntrico do homem. As violações à vida humana são tão
mais graves quando se considera que é Deus o criador e senhor da vida (...).
Assassinar um inocente é uma ofensa ao homem, mas, sobretudo, uma
ofensa a Deus, que criou o homem à sua imagem e semelhança.366
Dentro desta abordagem textual e estrutural da referida encíclica pode-se pontuar a
análise crítica dos comportamentos e mentalidades marcados pelo egoísmo, pelo hedonismo e
pelo individualismo, constituindo uma cultura de morte que se opõe à cultura da vida.
A encíclica chega a propor atitudes sociopolíticas diante da generalização do aborto,
como por exemplo, a objeção de consciência, que deve ser compreendida como “a recusa de
obedecer a uma lei ou uma norma que o indivíduo objetante julga iníqua, baseado em princípios
religiosos, morais ou filosóficos”367, uma vez que “a consciência jamais poderá ser constrangida pela
lei.”368 Tratando-se deste assunto, a objeção de consciência desobriga os agentes da saúde das
atividades ligadas à interrupção da gravidez, mas não de dar assistência antes e depois à
intervenção; assim como também não desobriga quando a sua intervenção pessoal for

                                                            
365
PONTIFICIA ACCADEMIA PER LA VITA. Op. cit., p. 23.
366
Idem, p. 26-27.
367
BETTENCOURT, Estêvão. “Objeção de Consciência: que é?” Pergunte e Responderemos, Rio de Janeiro,
ano XLII, n. 527, pp. 224-227, [maio] 2006, p. 224.
368
NATALE, N. “Objecção de Consciência do Pessoal de Saúde.” In: LEONE, Salvino; PRIVITERA, Salvatore
e TEIXEIRA DA CUNHA, Jorge. Dicionário de Bioética. Aparecida-SP: Editora Santuário, 2001, p. 766.
124 

necessária para salvar a vida da gestante, que se encontra em perigo de morte.369 “A liberdade
de consciência é entendida como direito fundamental da pessoa não ser forçada a agir contra a sua
consciência nem impedida de se comportar em conformidade com ela.”370
No entanto, o que se quer dizer quando se afirma agir segundo a consciência? Antes de
responder a essa pergunta, faz-se necessário entender a dinâmica interior da consciência. Esta
deve ser distinguida entre consciência psicológica e consciência moral. Aquela consiste no
conhecimento da ação humana colocada em prática, ao passo que esta consiste no
conhecimento do valor moral de tal ação emitindo um juízo antes e depois ao fato realizado.
Neste nosso caso, ou seja, no juízo sobre a licitude do aborto, a verdade
objetiva é representada pelo valor-homem, que é o máximo em termos de
valores temporais e transcende até a própria temporalidade. O juízo da razão,
se é reto e sincero, e se, além disso, é certo (ou seja, sem elementos de
dubiedade subjetiva), cria a exigência ética do ‘não matar’ uma vida
inocente.371
A referida encíclica descreve os comportamentos, as mentalidades e as tendências
marcados pelo egoísmo, pelo hedonismo, pelo individualismo responsáveis pelo surgimento
de uma cultura de morte em que o Papa João Paulo II contrapõe, veementemente com a
cultura da vida.
Todavia, tomando uma posição crítica frente à referida encíclica, pode-se dizer, que
esta carece de um instrumento de análise social ou de análise das estruturas, de modo que as
doutrinas morais mais bem elaboradas vão sempre permanecer ineficazes, se não analisarem
os sistemas complexos da saúde, da economia, da política oferecendo meios ou instrumentos
operacionais que contribuam para transformar a sociedade marcada pelos sinais de morte.372
O momento doutrinal age em interação contínua com as análises sociais e a
experiência derivada das ações concretas. (...) A função magisterial integra
a tarefa mais ampla do ministério pastoral: e esta não se reduz a pronunciar
um veredicto doutrinal sobre os problemas sociais, mas é, além do mais,
uma voz que anima a comunidade a comprometer-se na resolução desses
problemas.373

                                                            
369
Cf. idem, p. 765.
370
PAULO II, João, 28 de dezembro de 1978. Apud. NATALE, N. “Objecção de Consciência do Pessoal de
Saúde.” In: LEONE, Salvino; PRIVITERA, Salvatore e TEIXEIRA DA CUNHA, Jorge. Dicionário de Bioética,
p. 766.
371
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioéitca. Fundamentos e Ética Biomédica, vol I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola,
2002, p. 377-378.
372
Cf. JOSAPHAT, Carlos. Ética Mundial. Esperança da Humanidade Globalizada. Petrópolis: Vozes, 2010, p.
413-414.
373
CAMACHO, Ildefonso. Doutrina Social da Igreja. Abordagem Histórica. São Paulo: Loyola, 1995, p. 19.
125 

Segundo o Profº. Dr. Carlos Josaphat, em seu livro “Ética Mundial”, tal encíclica
como também nenhuma outra intervenção do magistério, com exceção de certos documentos
ligados à doutrina social da Igreja, em que se trata dos assim chamados pecados “estruturais”,
falam sobre o problema da análise das estruturas.
A denúncia isolada das falhas, a generalidade dos bons conselhos e até
mesmo as doutrinas morais bem elaboradas permanecem
absolutamente ineficazes, se não analisam os sistemas complexos da
saúde, da pesquisa, da economia, da política e não se buscam meios e
instrumentos operacionais para influenciar e retificar esses sistemas
dominantes.374
Nesse sentido, o referido autor faz uma distinção muito relevante entre os princípios
fundadores (metaéticos) e os princípios fundamentais (propriamente éticos). E a primeira das
convicções intelectuais de base a presidir os princípios fundadores é a própria compreensão da
vida, que deve ser respeitada e protegida em si mesma: “Será indispensável, pelos caminhos da
educação e da persuasão, colocar no centro da civilização e da cultura o conceito ético da vida
humana.”375
A partir desse princípio fundante de reconhecimento e promoção da vida humana,
nascem os princípios fundamentais éticos do ser humano, conforme se pode conferir a seguir,
tais princípios condensados numa trilogia de valores, que permitem à bioética assegurar o seu
critério primordial, a valorização da vida humana como valor primeiro e universal.

3.2. O princípio de defesa da vida humana em caso de anencefalia fetal

É necessário dizer que o princípio de defesa da vida humana é condição fundamental e


determinante de toda a missão da Igreja presente no mundo. E tal defesa da vida deve ser bem
entendida não como um exclusivismo da Igreja com relação à vida nascente, precisamente
com relação ao embrião ou ao feto humano, mas esta defesa abrange a vida do ser humano em
todas as suas etapas, isto é, da concepção à sua morte natural.
Tudo o que atenta contra a própria vida, como qualquer espécie de
homicídios, o genocídio, o aborto, a eutanásia e o próprio suicídio
voluntário, tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as
mutilações, as torturas físicas ou morais e as tentativas de dominação

                                                            
374
JOSAPHAT, Carlos. Op. cit., 414.
375
Idem, 415.
126 

psicológicas; tudo o que ofende a dignidade humana, como as condições


infra-humanas de vida, os encarceramentos arbitrários, as deportações, a
escravidão, a prostituição, o mercado de mulheres e jovens e também as
condições degradantes de trabalho, que reduzem os operários a meros
instrumentos de lucro, sem respeitar-lhes a personalidade livre e
responsável: todas estas práticas e outras semelhantes são efetivamente
dignas de censura.376
Todavia, faz-se necessário justificar a concentração de atenção por parte da Igreja em
defesa da vida nascente no seguinte motivo abordado na Evangelium Vitae: a Igreja tem
assumido, de maneira especial, a defesa daqueles que se encontram “em situações de máxima
fragilidade, quando se acha privada de qualquer capacidade de defesa,”377 uma vez que tem
acontecido, a nível internacional, a mudança paradoxal do que antes era considerado “crime”
para se tornar “direito”, “a ponto de se pretender um verdadeiro e próprio reconhecimento legal da
parte do Estado e a consequente execução gratuita por intermédio dos profissionais da saúde.”378
A Igreja Católica, como promotora do Evangelho da Vida, se coloca em oposição a
todas as realidades que se levantam para ameaçar e comprometer a dignidade do ser humano:
Como não pensar na violência causada à vida de milhões de seres humanos,
especialmente crianças, constrangidos à miséria, à subnutrição e à fome, por
causa da iníqua distribuição das riquezas entre os povos e entre as classes
sociais? Ou na violência inerente às guerras, e ainda antes delas, ao
escandaloso comércio de armas, que favorece o torvelinho de tantos
conflitos armados que ensaguentam o mundo? Ou então na sementeira de
morte que se provoca com a imprudente alteração dos equilíbrios ecológicos,
com a criminosa difusão da droga, ou com a promoção do uso da
sexualidade segundo modelos que, além de serem moralmente inaceitáveis,
acarretam ainda graves riscos para a vida? É impossível registrar de modo
completo a vasta gama das ameaças à vida humana, tantas são as formas,
abertas ou camufladas, de que se revestem no nosso tempo!379
Levando em consideração de que a defesa da vida humana deve ser justificada
partindo da própria natureza do ser humano como uma lei já intrínseca nele e não por uma
questão fenomenológica, tal princípio se arrefece ainda mais quando reconhecido em forma

                                                            
376
GS 27.
377
EV 11.
378
Ibidem.
379
Idem, n. 10.
127 

de legislação, garantindo, desta forma, os direitos fundamentais do ser humano, sobretudo o


direito à vida.

3.2.1. Defesa da vida humana e os Direitos Humanos

Numa tentativa de buscar uma definição do que são os direitos humanos ou direitos do
homem, pode-se dizer, que na compreensão moderna são aqueles direitos fundamentais que o
próprio ser humano traz inerente em si mesmo pelo fato de ser homem, ou ainda, por causa de
sua própria natureza humana e pela dignidade decorrente a ela. Neste sentido, estes direitos
não são resultados de uma concessão da maioria da sociedade política, mas muito pelo
contrário, são direitos que a própria sociedade política tem o dever de promover e proteger.380
São aqueles direitos considerados fundamentais a todos os seres humanos,
sem distinção de sexo, nacionalidade, etnia, cor da pele, faixa etária, classe
social, profissão, condição de saúde física e mental, opinião política,
religião, nível de instrução e julgamento moral.381
Não existe uma unanimidade entre as diversas culturas no que diz respeito ao conceito
de direitos humanos, pois, tal termo ora é usado como “direitos humanos”, ora como “direitos
do homem”, uma vez que para alguns a designação “direitos humanos” deixa claro que os
destinatários dos direitos são os seres humanos em geral, ao passo que “direitos do homem”
estabelece, na denominação, a preferência pelo gênero masculino. No entanto, apesar desta
questão semântica, tal conceito é resultado de uma evolução do pensamento filosófico,
jurídico e político de toda a humanidade. É por este motivo, que os direitos humanos são
históricos e dinâmicos, isto é, a sua elaboração continua em constante construção e
reconstrução. Porém, apesar de haver uma percepção diferenciada dos direitos humanos por
parte dos diversos povos e culturas, existe no seu núcleo central a ideia que alcança uma real
universalidade no mundo contemporâneo, que consiste na promoção da justiça, da liberdade,
da dignidade humana, da solidariedade 382
Diante deste reconhecimento da relevância dos direitos humanos como exigência para
a sobrevivência da própria humanidade, faz-se urgente a educação para os direitos humanos
nas escolas, por meio da imprensa, das igrejas optando sempre pelo caminho do diálogo,
possibilitando o intercâmbio de ideias, a discussão franca, procurando entender a opinião que

                                                            
380
BAPTISTA HERKENHOFF, João. Gênese dos Direitos Humanos. 2ª edição, Aparecida-SP: 2002, p. 19-20.
381
Idem, Curso de Direitos Humanos. Aparecida-SP: Santuário, 2011, p 13.
382
Cf. idem, pp. 14-15; 33; 35.
128 

pareça absurda. “É preciso estar atento à pregação de uma cultura anti-humana, ao lado da cultura
humana pela qual lutamos.”383
No que diz respeito à busca por esta universalidade dos direitos humanos, verifica-se
sua presença na Declaração dos Direitos do Homem de 1789 por ocasião da Revolução
Francesa. No entanto, é preciso fazer o seguinte esclarecimento: a Revolução Francesa foi
marcada por duas etapas, isto é, a proclamação dos “direitos do homem e do cidadão” tinham
um conteúdo bastante individualista, consagrando, deste modo a chamada democracia
burguesa. Somente na segunda etapa da Revolução Francesa, sob a ação de Robespierre
(1758-1794) e pela força do pensamento de Rousseau (1712-1778), que foram proclamados os
direitos sociais do homem, a saber, os direitos relativos ao trabalho e a meios de existência,
direito de proteção contra a indigência, direito à instrução, conforme se pode verificar na
Constituição de 1793.384
Até então, o direito público não fixara senão os direitos dos governantes, ou
os privilégios de certas classes sociais ou corporações. Foi a Declaração de
direitos da Revolução francesa que afirmou pela primeira vez, em forma
positiva, e não apenas nas invocações ineficazes ao direito natural, um
elenco de prerrogativas que o indivíduo possui em relação ao Estado, e
mesmo, eventualmente, contra ele.385
A posição da Igreja não foi tão favorável assim quanto a esta declaração, uma vez que
ela invocava os Direitos de Deus para defender o monopólio religioso que possuía. A
Revolução Francesa, à medida que teve como objetivo a derrocada do absolutismo
monárquico feudal, assumiu necessariamente um caráter anticlerical, uma vez que os clérigos
ocupavam a posição mais privilegiada no antigo regime, de modo que, se a nobreza era o
Segundo Estado, o clero era o Primeiro Estado. A Igreja estava profundamente comprometida
com o regime feudal, e por este motivo, também se sentiu ameaçada em meio a este contexto.
A posição da Igreja oficial, animada pelo velho espírito da cristandade e
chocada pelo anticristianismo, e mais ainda, pelo anticlericalismo da
revolução rejeitou e estigmatizou, do roldão com os erros e violências dos
revolucionários, todas as suas doutrinas, aí incluindo os direitos humanos e
as chamadas liberdades modernas. O reconhecimento dos valores e dos

                                                            
383
Cf. idem, p. 35.
384
Cf. idem, p. 45.
385
LEPARGNEUR, Hubert. “A Igreja e o Reconhecimento dos Direitos Humanos na História (I).” Revista
Eclesiástica Brasileira, Petrópolis-RJ, v. 37, n. 145, pp. 159-184, [março] 1977, p. 173.
129 

direitos, que vinham de mistura com os chamados erros modernos, tardou a


alcançar a acolhida da autoridade central da Igreja.386
A Declaração de 1789 havia passado por uma longa discussão se poria ou não o nome
de Deus no preâmbulo. E foi citada a presença do Ser supremo, explicitamente deísta, que por
sua vez, não era o Deus da tradição cristão e da Igreja, que teria sido teísta. Neste mesmo
horizonte, as cátedras universitárias de Direito natural eram direcionadas com o intuito de
separar a fundamentação teorética do poder do Estado, da doutrina canônico-teológica e,
portanto, da tradição e da hierarquia católica. Este duelo fazia parte da luta da razão contra o
obscurantismo romano.387
Como reação a tantas ameaças, a Igreja se justificava nos Direitos de Deus para fazer
barreira frente aos Direitos do Homem. Tanto que, quando Luís XVIII concedeu liberdade de
consciência e a liberdade de imprensa, o papa Pio VII (1800-1823) protestou através da Carta
Apostólica Post tam Diuturnas, de 1814. O papa Gregório XVI (1831-1846), na sua Encíclica
Mirari vos, de 1832, considerava “delírio” a reivindicação de liberdade de consciência e
considerava a liberdade de imprensa a liberdade mais funesta, liberdade execrável para a qual
nunca se terá horror suficiente. Pio IX, (1846-1878) na Encíclica Nosciti et Nobiscum, de
1849, e sobretudo na Quanta Cura e no Syllabus, de 1864, igualmente condena as novas
liberdades.388
No século XIX, um esforço de reconciliação por parte da Igreja oficial com o mundo
moderno se dá por meio do papa Leão XIII (1878-1903). Mesmo havendo reservas quanto às
liberdades, o papa chama a atenção para o valor da dignidade humana389, sobretudo, insistindo
no direito do trabalhador a um salário que lhe garanta a subsistência390. Por meio de sua
notável encíclica de cunho social, de 1891 – a Rerum Novarum, afirma o direito a uma
alimentação adequada, ao vestuário e à moradia391. Também Pio XI (1922-1939), na sua
Encíclica Mit Brennender Sorge, chamou grande atenção para a questão da dignidade
humana, quando os totalitarismos se levantaram contra a pessoa humana no continente
europeu, precisamente na Itália com o fascismo e na Alemanha com o nazismo. Insiste, ainda,
em afirmar alguns direitos do ser humano na Divini Redemptoris: à vida, à integridade física,

                                                            
386
JOSAPHAT, Carlos. Op. cit., p. 551.
387
COMPAGNONI, F. “Direitos Humanos.” In: COMPAGNONI, Francesco; PIANA, Giannino e PRIVITERA,
Salvatore. Dicionário de Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 1997, p. 225.
388
LESBAUPIN, Ivo. As Classes Populares e os Direitos Humanos. Petrópolis-RJ: Vozes, 1984, pp. 78-79.
389
Cf. LEÃO XIII. Carta Encíclica Rerum Novarum. 12ª edição, São Paulo: Paulinas, 2000, n. 15. Daqui em
diante segue-se RN.
390
Cf. idem, 29.
391
Cf. idem, 20.
130 

aos meios necessários de existência, o direito de posse e de uso da propriedade, o direito de


associação.
O papa Pio XII (1939-1958) também se pronuncia com grande veemência na
mensagem do Natal de 1942, quando fazia menção aos direitos fundamentais da pessoa
humana: o direito de manter e desenvolver a vida corporal, intelectual e moral,
particularmente o direito a uma formação e a uma educação religiosa; o direito ao culto a
Deus, privado e público, inclusive a ação de caridade religiosa; o direito ao casamento; o
direito à sociedade conjugal e doméstica; o direito ao trabalho como meio indispensável à
manutenção da vida familiar; o direito à livre escolha de um estado de vida; o direito ao uso
dos bens materiais na consciência dos próprios deveres e dos limites sociais.
Verifica-se, que uma tomada de posição mais positiva por parte da Igreja Católica com
relação aos direitos humanos se deu, notadamente, com Leão XIII, se acentuando com Pio XI
e, sobretudo, com o papa Pio XII. Todavia, é de se perceber, que durante todo este tempo não
há nenhuma alusão à Declaração Universal de Direitos Humanos.392
No que diz respeito à doutrina social da Igreja Católica o Papa João XXIII (1958-
1963), em sua carta Encíclica de 1963 - Pacem in Terris - foi o primeiro pontífice a enumerar
uma listagem dos direitos, de uma maneira tão sistemática, completa e solene, que toda a
sociedade deveria garantir a seus cidadãos. Observa-se, que, enquanto o papa Pio XII, ao falar
sobre os direitos humanos, dirigia-se para dentro da própria Igreja, ou seja, somente aos
cristãos, permanecendo numa perspectiva eclesiocentrista, na Pacem in Terris, o papa João
XXIII adota uma perspectiva universalista. Além disso, a Declaração Universal é
explicitamente citada na quarta parte da Encíclica.
O referido papa diz que cada ser humano possui em si mesmo direitos e deveres, que
emanam direta e simultaneamente de sua própria natureza. Dentre estes, os direitos
fundamentais são:
Direito à existência, à integridade física, aos recursos correspondentes a um
digno padrão de vida: tais são especialmente o alimento, o vestuário, a
moradia, o repouso, a assistência sanitária, os serviços sociais
indispensáveis. Segue-se daí que a pessoa tem também o direito de ser
amparada em caso de doença, de invalidez, de viuvez, de velhice, de

                                                            
392
Cf. idem, p. 80.
131 

desemprego forçado, e em qualquer outro caso de privação dos meios de


sustento por circunstâncias independentes de sua vontade.393
Cerca de quinze anos depois o Papa João Paulo II (1978-2005), num discurso às
Nações Unidas, ampliou a lista dos direitos que a Igreja considera como fundamentais ao
desenvolvimento humano:
O direito à vida, à liberdade e à segurança da pessoa; o direito ao alimento,
a vestimentas, habitação, atendimento suficiente em saúde, repouso e lazer;
o direito à liberdade de expressão, à educação e à cultura; o direito à
liberdade de pensamento, consciência e religião; o direito de manifestar a
própria religião, individualmente ou como parte de uma comunidade, seja
em público ou em particular; o direito de escolher uma condição de vida,
de criar uma família e de desfrutar de todas as condições necessárias à vida
familiar; o direito à propriedade e ao trabalho, a condições trabalhistas
adequadas e salários justos; o direito à assembleia e à reunião; o direito à
liberdade de movimento e à migração interna externa; o direito a uma
nacionalidade e à residência; o direito à participação política e à
participação na livre escolha do sistema político para o povo ao qual se
pertence.394
O papa João Paulo II, já na sua primeira Encíclica - Redemptor Hominis, de 1979 –
insistia na importância do respeito aos direitos do homem: “Em última análise, a paz reduz-se ao
respeito dos direitos invioláveis do homem.”395
A Igreja não está falando em seu nome ou no de seus adeptos. Está
defendendo o direito fundamental do ser humano de viver. Direito que é de
todos os seres humanos, mesmo os doentes, os defeituosos, os ignorantes, os
mais fracos. A Igreja está defendendo os indefesos, e, no caso, os mais
indefesos de todos. Não ignoramos que o nascituro anencefálico não terá
chances de longa vida. Mas quem pode dizer que alguns dias, ou mesmo
algumas horas de vida não valem nada?396
Não se pode negar que os direitos humanos são uma conquista da Europa e das
Américas e que só alcançaram uma abrangência internacional após a tragédia dos campos de
                                                            
393
JOÃO XXIII. Carta encíclica Pacem in Terris. A paz de todos os povos na base da verdade, justiça, caridade
e liberdade, n 11. In: DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos de João XXIII. São Paulo: Paulus, 1998.
Daqui em diante segue-se: PT.
394
PAULO II, João. Discurso à 34ª Assembleia Geral das Nações Unidas, 2 de outubro de 1979, n. 13. Apud. J.
O’NEIL, Kevin e BLACK, Peter. Manual prático de Moral. Guia para a vida do católico. Aparecida-SP:
Santuário, 2007, p. 253.
395
RH 17.
396
RANGEL, Paschoal. “Uma polêmica inevitável: anencefalia e aborto.” Atualização, Belo Horizonte-MG, v.
XL, n.343 e 344, pp. 105-277, [mar./jun.] 2010, p. 252.
132 

concentração contra os judeus e o Holocausto da Segunda Guerra Mundial e o surgimento da


Organização das Nações Unidas (ONU) com a famosa Declaração Universal dos Direitos
Humanos. Os horrores da guerra, não somente pelos conflitos sangrentos, mas principalmente
pelas atrocidades dos regimes totalitários nazista e fascista mostraram um verdadeiro descaso
pela dignidade da pessoa humana, o que acabou provocando o surgimento de uma opinião
pública internacional decidida a impedir que tais episódios se repetissem.
Portanto, em 10 de dezembro de 1948 em Paris, a Assembleia Geral da ONU,
proclamou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que consiste em um documento
moral de princípios ético-políticos como fundamento dos direitos humanos, que aos poucos
foram sendo acolhidos pelo direito internacional em forma de tratados, pactos, convenções e
pelas constituições nacionais refletindo os esforços dos diversos povos por paz e cooperação
social e econômica, o que, por sua vez, provocou no continente africano a explosão da
independência de novos Estados nacionais.397
O artigo 3 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 diz que todo
homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. E a sua compreensão consiste no
direito de nascer; de permanecer vivo; de alcançar uma duração de vida compatível com as
possibilidades e potencialidades das ciências e técnicas humanas, num determinado momento
histórico e o direito de não ser privado da vida através da pena de morte. Neste sentido,
constata-se que o direito à vida parece estar na raiz como princípio fundamental do direito
humano.398 É seguindo este mesmo horizonte de raciocínio, que a Evangelium Vitae afirma
que o direito à vida é o primeiro entre os direitos fundamentais, condição indispensável de
todos os outros.399 Sobre ele se fundamentam e desenvolvem todos os restantes direitos
inalienáveis do ser humano400, inclusive a convivência humana e a própria comunidade
política.401 “ela [vida humana] é entendida como um dom de Deus e um direito da pessoa. É dom e
direito fundamentais. A fé consagra o valor natural da vida.”402
Entre todos os direitos fundamentais que cada ser humano possui desde o
momento da sua concepção, o direito à vida representa sem dúvida o
primário, porque constitui a condição de possibilidade para a subsistência de
todos os outros direitos. Com base nele, cada ser humano, sobretudo se é
                                                            
397
Cf. KROHLING, Aloísio. Direitos Humanos Fundamentais. Diálogo intercultural e democracia. São Paulo:
Paulus, 2009, pp. 50 e 53.
398
BAPTISTA HERKNHOFF, João. Curso de Direitos Humanos, p. 161.
399
Cf. EV 71.
400
Cf. idem, n. 101.
401
Cf. idem, n. 7.
402
TERESA DE FREITAS CARDOSO, Maria. “No sentido da vida. Em diálogo sobre a prevenção do suicídio.”
Atualidade Teológica, Rio de Janeiro, ano XV, n. 38, pp. 315-334, [maio/ago.] 2011, p. 322.
133 

fraco ou não é auto-suficiente, deve receber uma adequada tutela social de


qualquer forma de ofensa ou violação substancial da sua integridade físico-
psíquica.403
Procurando esboçar as linhas capazes de assegurar um paradigma humano e
evangélico da bioética no dia de hoje, que, por sua vez, abrange a vida nascente, pode-se
condensar alguns princípios de base, de caráter propriamente ético, na seguinte trilogia:
dignidade, responsabilidade e solidariedade. “Esses princípios exprimem simplesmente para a
consciência individual e social a primeira concepção ética do ser humano.”404 Certamente, tais
princípios devem estar presentes na base dos Direitos Humanos como forma de proteger a
pessoa humana como centro de toda reflexão ética.
O princípio da dignidade se tornou o valor fundamental e mesmo fundador de toda a
ética pessoal e social do Concílio Vaticano II. “Na constituição Gaudium et Spes, ela se define e
explica como a versão ética da teologia do ser humano, criado à imagem de Deus.”405 O Concílio
fala da dignidade da inteligência406, da consciência407, da liberdade408, da dignidade do
matrimônio e da família409. O princípio da dignidade está na base da eticidade.
Notável é a dignidade de seu entendimento, que faz o ser humano participar
da luz da inteligência divina e atingir um progresso cada vez mais amplo e
profundo (cf. GS 15). Diferentemente de todos os demais seres criados, a
pessoa humana é digna por sua consciência, onde “descobre uma lei que não
se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está
a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na
intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo” (cf. GS 16). A grandeza
do ser humano encontra o ápice em sua liberdade. Com efeito, a liberdade
verdadeira é a marca de Deus na criatura humana, senhora do próprio
destino. Movida pela força da graça, a pessoa humana, libertada da
escravidão do pecado, move-se para Deus, preparando-se para prestar contas
do que tiver feito no final de sua existência (cf. GS 17).410
                                                            
403
PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA. Comunicado final da X Assembleia Geral da Pontifícia
Academia para a Vida. “A dignidade da procriação humana e as tecnologias reprodutivas. Aspectos
antropológicos e éticos.” Disponível em:
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_academies/acdlife/documents/rc_pont-acd_life_doc_20040316_x-
gen-assembly-final_po.html. Acesso em: 19 de fevereiro de 2012, 12:30.
404
JOSAPHAT, Carlos. Ética Mundial. Esperança da Humanidade Globalizada. Petrópolis: Vozes, 2010, p.
417.
405
Idem, p. 418.
406
Cf. GS 15.
407
Cf. idem, n. 16.
408
Cf. idem, n. 17.
409
Cf. idem, n. 47ss.
410
LOPES, Geraldo. Gaudium et Spes. Texto e comentário. São Paulo: Paulinas, 2011, pp. 61-65.
134 

Ao lado do princípio da dignidade, surge o da responsabilidade, compondo dois


princípios fundadores dos valores que formam a base da eticidade. No campo da bioética, a
partir do momento em que a vida humana é biologicamente certa, a responsabilidade moral
em acolhê-la, defendê-la e promovê-la, se torna uma questão de opção fundamental
incondicional.411
É evidente que a responsabilidade moral perante a vida tem uma dimensão
pessoal irrecusável. É a consciência do valor absoluto da própria vida, como
Dom, que deve ser tida em conta e administrada com aquela sabedoria que
fará que seja respeitada, defendida, tratada e promovida e que conduzirá a
uma atitude de serviço, de solidariedade e de amor pela vida dos outros.412
Abordando o princípio da solidariedade, verifica-se que ela “confere particular relevo à
intrínseca sociabilidade da pessoa humana, à igualdade de todos em dignidade e direitos, ao caminho
comum dos homens e dos povos para uma unidade cada vez mais convicta.”413 Trata-se de
reconhecer e viver a solidariedade como um verdadeiro sinal dos tempos414, uma tomada de
consciência sobre a necessidade da interdependência entre os homens e os povos415. Trata-se
de afirmar a importância da consciência social das comunidades e grupos em vista de alcançar
objetivos comuns de caráter social, econômico, político e religioso.416
O princípio da solidariedade obriga cada pessoa em particular a se
realizar na participação da realização do bem dos próprios
semelhantes. No caso da promoção da vida e da saúde, isso importa
em que cada cidadão se obrigue a considerar a própria vida e a do
outro como um bem não apenas pessoal, mas também social e obriga a
comunidade a promover a vida e a saúde de cada um, a promover o
bem comum pela promoção do bem de cada um.417
No que diz respeito ao campo da bioética, a melhoria da vida humana, da saúde e da
medicina, certamente pode ter grande impulso qualitativo a partir da solidariedade, pois além
de beneficiar o relacionamento entre o médico e o paciente, ela pode produzir benefícios a

                                                            
411
DI VINCENZO, A. “Responsabilidade Moral.” In: LEONE, Salvino; PRIVITERA, Salvatore; TEIXEIRA
DA CUNHA, Jorge. Dicionário de Bioética. Aparecida-SP: Editora Santuário, 2001, pp. 999-1000.
412
Idem, p. 1000.
413
DSI 192.
414
Cf. GOFFI, T. “Solidariedade.” In: COMPAGNONI, Francesco; PIANA, Giannino e PRIVITERA, Salvatore.
Dicionário de Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 1997, p. 1179.
415
DSI 192.
416
Cf. idem, “Solidariedade.” In: COMPAGNONI, Francesco; PIANA, Giannino e PRIVITERA, Salvatore. Op.
cit., p. 1179.
417
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e Ética Biomédica, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola,
2002, p. 164.
135 

outros níveis: em primeiro lugar, no que diz respeito ao nível social, especialmente no que
tange a uma ação de apoio, tanto às famílias dos portadores de alguma doença, quanto aos
próprios portadores, procurando, dentro do possível, a inserção dos deficientes físicos e
mentais no mundo do trabalho e na socialização. Em segundo lugar, no que diz respeito ao
nível de uma política de saúde, buscando uma justiça equitativa, especialmente para os mais
fracos e marginalizados. E por último, ao nível legislativo, procurando assegurar o
reconhecimento e a proteção da vida humana, antes e depois do nascimento, tendo sempre
como referência ética a própria figura do ser humano.418
Reconhecer e promover os princípios da dignidade, da responsabilidade e da
solidariedade como basilares dos direitos humanos significa reconhecer uma lei já presente no
ser humano desde o seu nascimento, que o chama para a prática do que é bom e verdadeiro,
mas que para tal empreendimento, se faz necessária a formação da consciência que assume a
defesa da vida como o primeiro dentre os valores sociais fundamentais como se pode ver a
seguir.

3.2.2. A defesa da vida humana e a lei natural

A compreensão hodierna que se tem da palavra “lei” está, de certa maneira, carregada
de representações negativas, pois nos traz a ideia de coerção, de obrigação, de sanção, de
submissão. Seguindo essa perspectiva, a ideia de “lei” pode gerar uma sensação de
desconforto! Nesse sentido, pode-se dizer que tal palavra conota primeiramente a ideia de
dever e não de direito.
Quando se fala de lei natural está se fazendo referência, primeiramente ao dever que
não vem do exterior, mas de dentro de cada sujeito que age. Trata-se da lei do ser, ou ainda,
daquilo que tem sentido para o ser humano. Desse modo, não se refere a uma submissão ou a
uma obediência cega, mas de uma adesão consciente, de uma vontade do ser em busca de sua
própria perfeição.
Portanto, na busca de um primeiro sentido da palavra “natureza”, pode-se dizer que
existe uma relação estreita com o conceito de liberdade. A moral verificada aqui é
personalista, pois deve ser entendida como a expressão da pessoa livre que gera de maneira
autônoma sua vida e sua sobrevivência.

                                                            
418
DI VINCENZO, A. “Responsabilidade Moral.” In: LEONE, Salvino; PRIVITERA, Salvatore e TEIXEIRA
DA CUNHA, Jorge. Op. cit., p. 1000.
136 

Exige, portanto, a dignidade do homem que ele proceda segundo a própria


consciência e por livre decisão, ou seja, movido e determinado
pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou
por mera coação externa.419
Todos os seres humanos são chamados por Deus à liberdade. E tal vocação já é algo
intrínseco à natureza humana, de modo que ser livre e ser homem, trata-se de uma mesma
coisa:
A liberdade da pessoa é como que naturalmente orientada para a realização
da pessoa (...). Liberdade e natureza fundam a pessoa, que se situa
eticamente na dialética desses dois termos. Nesse sentido, a lei natural
equivale à lei interior do ser humano, fixando para a liberdade o programa
que ela terá de realizar com criatividade.420
A ideia de natureza ainda introduz no sujeito que age a dimensão de similitude com
outra pessoa, ou ainda, a ideia de igualdade fundamental de todos os seres humanos nos
conduzindo à universalidade do valor da pessoa. A lei natural está em plena coerência com o
sentido da dignidade da pessoa.
O conceito de lei natural faz ver esse nexo da semelhança e da igualdade
dos seres humanos, e está a serviço da plena humanidade de toda pessoa
humana. A lei natural exprime a ordem fundamental das relações humanas
sem a qual a comunidade dos seres humanos não pode sobreviver.421
A lei natural exprime uma ordem, que visa o próprio bem do ser humano e essa ordem
é objetiva precedendo a subjetividade humana em que se situa sua liberdade. Não se trata de
inventar uma nova lei natural, mas de descobri-la, mediante a reta razão, presente
intrinsecamente em cada pessoa. Portanto, “é a lei da natureza humana conhecida racionalmente
pelo homem, independentemente de qualquer revelação sobrenatural.”422
O fundamento da moralidade do ato está no agir segundo a lei natural e agir segundo a
lei natural é agir segundo a reta razão. “A reta razão é o instrumento da moralidade e da
normatividade ética.”423 E para que o ser humano exerça seu discernimento com sua razão é
preciso discipliná-lo. Deste modo, faz-se necessário a busca pelo bem e pela verdade como
também a prática das virtudes como formas de educar a consciência para um apurado

                                                            
419
GS 17.
420
DESCLOS, Jean. O resplendor da verdadeira liberdade. Anotações sobre a Veritatis splendor. São Paulo:
Paulinas,1998, p. 95.
421
Idem, p. 96.
422
FRANCO MONTORO, André. Introdução à Ciência do Direito. 27ª edição, São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2008, p. 307.
423
DESCLOS, Jean. Op. cit., p. 98.
137 

discernimento: “Só a virtude pode nos garantir que nossa consciência não queira justificar nossos
comportamentos defeituosos ou nossos pecados.”424
No entanto, a origem e o desenvolvimento da consciência requerem processos
educativos que vão atuar na base da formação da personalidade humana, tais como, o
processo de prenomia (0-6 anos de idade), de heteronomia (7-8 anos), socionomia (9-12 anos)
e de autonomia (13 anos em diante).425
A etapa de prenomia constitui-se tão relevante na vida da criança, visto que é decisiva
na configuração do sujeito moral. Não se trata de uma ausência de moralidade (como sugere o
termo “anomia”), mas trata-se de uma etapa “pré-moral” caracterizada a partir da
instintividade, mas também pelos controles ou disciplinas e sanções do comportamento, tais
como prazer ou dor. A etapa seguinte é a da heteronomia em que consiste a forma de moral
imposta pela família, pela escola e pela sociedade ao sujeito de fora para dentro. A etapa
socionomia é aquela em que o comportamento é delineado a partir do grupo no qual o sujeito
também faz parte. Portanto, neste momento, os critérios éticos se configuram através das
relações com os outros na sociedade. É, ao mesmo tempo, uma ética “externa” e “interna”,
visto que provém do grupo, no qual também está o sujeito como fator de decisão. Finalmente,
a etapa da autonomia, caracterizada pela “moral interna”, é aquela em que as normas que
governam o comportamento moral procedem do interior do sujeito. Nesta etapa tem
consolidada ou interiorizada as etapas anteriores.
Portanto, partindo desses processos formativos da personalidade humana, pode-se
definir a consciência moral como “a norma interiorizada da moralidade.”426
Como se pode ver, a primeira conotação da lei natural é positiva: fazer o bem.
Portanto, é preciso evitar apresentá-la só na perspectiva das proibições, conforme a segunda
vertente da mesma: evitar o mal.
A lei natural ainda pode ser compreendida como um apelo à razão. O ser humano é
chamado a refletir e a questionar seriamente no sentido de sua conduta, na validade racional
de suas decisões, na sua conformidade ao verdadeiro bem de todo ser humano. É colocado
diante de um dever de inteligência. Falar, portanto, de lei natural é falar de uma reconciliação
entre a fé e a razão, visto que, seja a lei natural, seja a lei sobrenatural ou divina, ambas têm
sua origem em Deus.427

                                                            
424
ÁNGEL FUENTES, Miguel. As Verdades Roubadas. 1ª edição em português, São Paulo: IVEPRESS, 2007,
p. 259.
425
VIDAL, Marciano. Para conhecer a Ética Cristã. São Paulo: Paulinas, 1993, pp. 79 e 96-99.
426
Idem, p. 83.
427
FR 9.
138 

A razão à procura do bem, eis o instrumento que é preciso utilizar,


disciplinar, aperfeiçoar, de maneira que os sujeitos éticos que somos nós
descubram juntos, os caminhos da plena humanidade.428
É dentro desta perspectiva que se pode falar da lei natural numa relação de sintonia
com a reta consciência no sentido de que esta é ponto de referência para aquela. É no interior
da consciência de todos os homens de boa vontade, isto é, de consciência sã, que ressoa a lei
do amor: “Eles mostram a obra da lei gravada em seus corações, dando disto testemunho sua
consciência e seus pensamentos que alternadamente se acusam ou defendem (Rm 2,15).”
O Apóstolo Paulo quem escreveu a carta aos Romanos tinha a intenção de anunciar a todos,
pagãos e judeus, o evangelho que conduz à verdadeira vida:
A vós todos que estais em Roma, amados de Deus e chamados à santidade,
graça e paz da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo. Em
primeiro lugar, dou graças ao meu Deus mediante Jesus Cristo, por todos
vós, porque vossa fé é celebrada em todo o mundo.429
Deste modo, Paulo compreendia que, se quisesse fazer chegar esse evangelho da vida
aos mais diferentes lugares do mundo, não podia se apoiar no sistema hebraico de tantas leis
impostas para promover uma reconciliação entre judeus e pagãos. Portanto, o Apóstolo não
pensa na multidão das leis, mas no seu conteúdo essencial resumindo-a no amor a Deus e ao
próximo: “Pois toda a Lei está contida numa só palavra: Amarás a teu próximo como a ti mesmo (Gl
5,14).” Paulo pensa naquela lei que é comum a todos os seres humanos e que já está
intrinsecamente gravada nas consciências: a lei do genuíno amor.
Porque não são os que ouvem a lei que são justos perante Deus, mas os que
cumprem a Lei é que serão justificados. Quanto então os gentios, não tendo
lei, fazem naturalmente o que é prescrito pela Lei, eles, não tendo lei, para
si mesmos são Lei (Rm 2,13-14).
A mesma ideia central presente no texto de Rm 2,15 - “a lei gravada em seus
corações” - também se encontra expressamente na Constituição Pastoral do Concílio Vaticano
II - Gaudim et spes – Sobre a Igreja no mundo contemporâneo:
No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se
impôs a sim mesmo mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está
a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na
intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no
coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em

                                                            
428
DESCLOS, Jean. Op. cit., p. 98.
429
Idem 1,7-8.
139 

obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o núcleo mais


secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja
voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Graças à consciência, revela-se
de modo admirável aquela lei que se realiza no amor de Deus e do
próximo. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos
demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos
problemas morais que surgem na vida individual e social. Quanto mais,
portanto, prevalecer a reta consciência, tanto mais as pessoas e os grupos
estarão longe da arbitrariedade cega e procurarão conformar-se com as
normas objetivas da moralidade.430
Essa citação está em perfeita concordância com os evangelhos como se pode conferir
em algumas citações:
Ele respondeu: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda
a tua alma e de todo o teu espírito. Esse é o maior e o primeiro
mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo com a
ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas
(Mt 22,37-40).
E ainda: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15,12).”
A pregação de Jesus sobre o Reino de Deus como manifestação do amor misericordioso do
Pai também implica em uma consequência ética entendida na maneira de construir o mundo e
as relações humanas, pois em seu ensinamento, sobretudo o sermão da montanha, síntese de
seu ensinamento moral, Jesus retoma a regra de outro: “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os
homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas (Mt 7,12.”
Tanto os hebreus quanto todos os outros povos estão debaixo da mesma lei, sob o
mesmo juízo, segundo a escuta autêntica de suas consciências, todos são chamados a
promover e defender a vida, sobretudo a dos mais indefesos como é o caso dos nascituros, na
atenção à lei do amor que ressoa na própria consciência.431
A íntima relação que existe entre lei natural e consciência nos leva à afirmação,
segundo o Catecismo da Igreja Católica:
A consciência moral é um julgamento da razão pelo qual a pessoa humana
reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar, está a
ponto de executar ou que já praticou. Em tudo o que diz e faz, o homem é
obrigado a seguir fielmente o que sabe ser justo e correto. É pelo

                                                            
430
GS 16.
431
Cf. HÄRING, Bernhard. Teologia Moral para o Terceiro Milênio. São Paulo: Paulinas, 1991, pp. 103-107.
140 

julgamento de sua consciência que o homem percebe e reconhece as


prescrições da lei divina.432
A consciência inclui a capacidade humana de desejar e saber o que é bom e verdadeiro
como também a de fazer um julgamento acerca de quais ações poderá alcançar esse objetivo.
A consciência é a sede da moralidade, porque é o lugar de apelo moral. A
maior dignidade da consciência moral consiste em definir a bondade ou a
maldade do sujeito que age responsavelmente. Agir segundo a consciência
é o selo moral definitivo que a pessoa imprime em sua própria práxis.433
Portanto, a consciência funciona como uma espécie de ferramenta que guia para a ação
correta. Por esse motivo, o Concílio Vaticano II diz que a consciência sempre está nos
chamando para fazer o bem e evitar o mal, enquanto nos instiga a fazer julgamentos a respeito
de determinadas ações: “faça isto, evite aquilo”. Segundo este referido documento magisterial
a dignidade humana consiste na observação dessa lei e que cada pessoa será julgada por
ela434, pois “a consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós
com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser.”435
Nesse sentido, a consciência pode ser descrita em três dimensões fundamentais: a
primeira é a convicção interior de que se deve fazer o bem e evitar o mal. O fato de haver a
discussão entre os seres humanos sobre o que é certo e o que é errado reflete o desejo de
escolher e de fazer a coisa certa. A segunda dimensão da consciência é o esforço em descobrir
o caminho certo para a prática do que é correto. É a etapa da necessidade de se buscar uma
sadia formação da consciência. E por fim, após buscar a verdade, chega-se a um ponto em que
deve ser tomada uma decisão específica. Nesse caso, é importante a consideração de que
seguir a própria consciência não significa fazer o que se quer fazer, mas fazer ou tomar uma
decisão perante o problema que se encontra, após ter feito o possível para se buscar a verdade
discernindo o que é certo e o que é errado.436
A Pontifícia Academia para a Vida, nos dias 23 e 24 de fevereiro de 2007, organizou
um congresso internacional no Vaticano, para refletir sobre o seguinte tema – “A consciência
cristã em favor do direito à vida.” Tal tema “subentende a convicção de que a primeira e a mais
sólida defesa da vida humana e da sua promoção social está depositada na consciência viva do seu

                                                            
432
CaIC 1778.
433
VIDAL, Marciano. Op. cit., p. 83.
434
Cf. R. OVERBERG, Kenneth. Consciência em conflito. Como fazer escolhas morais. São Paulo: Paulus,
1999, p. 72.
435
GS 16.
436
Cf. R. OVERBERG, Kenneth. Op. cit., pp. 73-74.
141 

valor.”437 A intenção deste estudo é desenvolver uma reflexão sobre a formação da consciência
e sobre as responsabilidades que derivam dela destacando que o primeiro dentre os valores
sociais fundamentais é o de defesa da vida e, portanto, o dever em garantir esse direito para
cada ser humano, durante a sua existência terrena, desde o momento da concepção até à morte
natural.
Para que o homem possa orientar-se segundo os juízos da sua consciência
moral, para agir sempre em vista de realizar o bem na verdade, é necessário
que ele cuide da sua formação permanente com toda a determinação,
alimentando esta formação com os valores que correspondem à dignidade da
pessoa humana, à justiça e ao bem comum, como o Santo Padre recordou no
discurso que dirigiu à Pontifícia Academia para a Vida: “A formação de uma
consciência autêntica (...) constitui hoje em dia um empreendimento difícil e
delicado, mas imprescindível”.438
O homem pode se deparar diante de situações que o dificulta no exercício de seu juízo
moral, “mas deverá sempre procurar o que é justo e bom e discernir a vontade de Deus expressa na lei
divina.”439 A consciência, para o exercício correto da razão, deve ser educada a buscar o
conhecimento e a prática da lei interior, pois se ela estiver na ignorância correrá o risco de
fazer juízos errôneos sobre atos a praticar ou já praticados. Portanto, “chamamos de prudente o
homem que faz suas opções de acordo com este juízo.”440
Um princípio moral fundamental da consciência é o desejo e o conhecimento do bem
que todos os seres humanos procuram como uma necessidade natural. Deus fez o homem
capaz de desejar o que é bom e verdadeiro. Mas se pode perguntar: se todos têm a capacidade
de desejar o bem e praticá-lo como uma lei naturalmente presente no coração humano, como é
que tantas pessoas, inclusive os cristãos, que também possuem a revelação da lei divina,
podem fazer más escolhas como também más obras, como por exemplo, se posicionar contra
a vida humana e, sobretudo, contra a vida humana de um inocente que ainda não nasceu?
Tentando responder a esta indagação pode-se dizer que, algumas pessoas, mesmo
sabendo qual é o bem, preferem escolher a prática do mal. Ou ainda, porque essa capacidade
de desejar e conhecer o bem não foi cultivada desde os primeiros anos, seja por aqueles que
foram responsáveis pela educação, enquanto crianças, seja por causa de si mesmos, pois “a

                                                            
437
PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA. “A Consciência cristã em favor do direito à vida.” Disponível
em: http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_academies/acdlife/documents/rc_pont-
acd_life_doc_20070212_diritto-vita_po.html. Acesso em: 09/11/2011, 11:17.
438
Ibidem.
439
CaIC 1787.
440
Idem 1780.
142 

consciência deve ser educada e o juízo moral esclarecido. Uma consciência bem formada é reta e
441
verídica.”
O próprio ambiente sociocultural pode se tornar o principal fator que afeta a
capacidade de desejar o que é certo.442 Por este motivo, “a educação da consciência é
indispensável aos seres humanos submetidos a influências negativas e tentados pelo pecado a preferir
seu julgamento próprio e a recusar os ensinamentos autorizados.” Isto só evidencia a necessidade
de que “a educação da consciência é uma tarefa de toda a vida.”443
Neste mesmo horizonte de reflexão sobre a consciência como capaz de fazer
julgamento entre o bem e o mal, porque possui em si mesma a presença de uma lei natural
inscrita por Deus em seu próprio coração, pode-se dizer que ela cumpre um tríplice ofício no
interior de cada ser humano:
1º É a testemunha do que estamos fazendo ou temos feito, da bondade ou
malícia do que obramos. Neste sentido diz São Paulo em Rm 9,1: A minha
consciência me dá testemunho pelo Espírito Santo.
2º É o juiz de nossos atos: ela nos aprova quando o que obramos é bom, e
nos condena (remorsos de consciência) quando obramos ou estamos
obrando o mal. A isto faz referência São Paulo ao escrever em 2 Cor 1,12:
A razão de nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência.
3º É nosso pedagogo, como a chamava Orígenes: descobrindo-nos e
indicando-nos o caminho do bom obrar. Deste modo pode dizer o Apóstolo
em Rm 14,5: Cada um proceda segundo sua convicção.444
Fazendo uma espécie de leitura na própria natureza humana descobre-se que a
primeira inclinação humana é a de preservação da vida.445 A vida tem para o ser humano o
seu valor máximo, e por este motivo, compreende-se grandes esforços investidos nela, tais
como a busca por felicidade, a realização como pessoa, a vivência em família, em
comunidade, sociedade etc. Portanto, pode-se elencar quatro pilares sobre as quais a vida do
homem deve ser preservada: o cuidado de si mesmo, o respeito dos outros, o equilíbrio da
natureza e o cultivo da transcendência. Estas dimensões do ser humano são como fios que

                                                            
441
Idem 1783.
442
Cf. J. O’NEIL, Kevin e BLACK, Peter. Manual prático de Moral. Guia para a vida do católico. Aparecida-
SP: Santuário, 2007, p. 76.
443
CaIC 1784.
444
ÁNGEL FUENTES, Miguel. As Verdades Roubadas, p. 246.
445
Cf. Idem, pp. 188-189.
143 

servem de sustentação da própria vida do homem: uma espécie de fios que vão tecer uma rede
sobre a qual se assenta a vida.446
Segundo o estudo feito sobre a lei natural pela Comissão Teológica Internacional,
existem três conjuntos de dinamismos naturais, que são inerentes à pessoa humana:
O primeiro, que é comum a todo ser substancial, compreende essencialmente
a inclinação a conservar e a desenvolver a sua existência. O segundo, que é
comum a todos os seres vivos, abrange a inclinação a se reproduzir para
perpetuar a espécie. O terceiro, que é próprio como ser racional, comporta a
inclinação a conhecer a verdade sobre Deus assim como para viver em
sociedade.447
A partir desses dinamismos naturais, brota o preceito de proteger e desenvolver a vida
humana, como primeira inclinação compartilhada com todos os outros seres humanos, uma
vez que se trata de uma reação muito espontânea de fuga, de defesa da integridade da vida, de
lutar pela sobrevivência, quando a pessoa humana se sente ameaçada em sua existência.448
Assim, a Igreja no desempenho de sua missão nesse mundo, reconhece que o
“Evangelho da Vida, recebido do seu Senhor, encontra um eco profundo e persuasivo no coração de
cada pessoa, crente e até não-crente.”449
... todo homem sinceramente aberto à verdade e ao bem pode, pela luz da
razão e com o secreto influxo da graça, chegar a reconhecer, na lei natural
inscrita no coração (cf. Rm 2,14-15), o valor sagrado da vida humana desde
o seu início até ao seu termo, e afirmar o direito que todo ser humano tem de
ver plenamente respeitado este seu bem primário.450
A formação da consciência de que a partir da concepção já existe uma vida humana,
levará a uma prática de respeito e de proteção ao nascituro. Portanto, é necessário e urgente o
reconhecimento de que é natural ao ser humano a preservação da vida como uma lei inscrita
em sua consciência chamada a fazer o bem e evitar o mal. E tal proteção da vida humana
desde a concepção deve ser garantida pela legislação civil como seu valor fundamental.
A morte direta e voluntária de um ser humano inocente é sempre gravemente
imoral. Esta doutrina, fundada naquela lei não-escrita que todo homem, pela
luz da razão, encontra no próprio coração (cf. Rm 2,14-15), e confirmada

                                                            
446
Cf. AGOSTINI, Nilo. “Ética: raiz do humano, coração da sociedade.” Atualidade Teológica, Rio de Janeiro,
ano XI, n. 26, pp. 217-234, [maio/ago.] 2007, p. 218.
447
COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL. Em busca de uma ética universal. Novo olhar sobre a lei
natural. São Paulo: Paulinas, 2008, n. 46.
448
Cf. idem, n. 48.
449
EV 2.
450
Ibidem.
144 

pela Sagrada Escritura, transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo


Magistério ordinário e universal.451

3.2.3. A defesa da vida humana e a jurisdição brasileira

A legislação mais antiga a respeito do aborto provocado é a babilônica, que chegou


aos tempos atuais por meio do famoso código de Hamurábi, do século II a.C.: “Se alguém ferir
a filha de um nobre e fazê-la abortar, pagará 10 siclos de prata pelo feto perdido. Se esta mulher
morrer, seja morta a filha do culpado.”452
Procurando partir do próprio documento pontifício em que este estudo está alicerçado,
a Evangelium Vitae diz o seguinte sobre a função da lei civil:
Deve assegurar a todos os membros da sociedade o respeito de alguns
direitos fundamentais, que pertencem por natureza à pessoa e que qualquer
lei positiva tem de reconhecer e garantir. Primeiro e fundamental entre eles é
o inviolável direito à vida de todo ser humano inocente.453
Esse mesmo ensinamento aparece claramente em São Tomás de Aquino quando diz
que a lei humana só tem legitimidade enquanto está em conformidade com a reta razão como
fruto, portanto, da lei eterna. Caso tal lei contrarie a razão humana ela é considerada lei
iníqua, e nesse sentido, não tem valor nenhum, pois se torna um ato de violência contra o
próprio ser humano: “A lei divina e a razão natural excluem, portanto, todo o direito de matar
diretamente um homem inocente.”454 A autenticidade da lei civil consiste na medida em que
deriva da lei natural, caso contrário, a lei civil não pode ser considerada lei, mas corrupção da
lei455, uma vez que, “as leis que legitimam a eliminação direta de seres humanos inocentes, por meio
do aborto e da eutanásia, estão em contradição total e insanável com o direito inviolável à vida,
próprio de todos os homens, e negam a igualdade de todos perante a lei.”456
A Igreja sempre orientou os seus fiéis católicos à obediência com relação às
autoridades públicas legitimamente constituídas (cf. Rm 13,1-7; 1 Pd 2,13-14), no entanto, a
obediência deve consistir em primeiro lugar a Deus do que aos homens (cf. At 5,29).
Os cristãos, como todos os homens de boa vontade, são chamados, sob grave
dever de consciência, a não prestar a sua colaboração formal em ações que,
                                                            
451
Idem, 57.
452
SPINSANTI, Sandro. Ética Biomédica. São Paulo: Paulinas, 1990, p. 64.
453
EV 71.
454
Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre o aborto provocado, n. 14. In:
DOCUMENTA. Documentos publicados desde o Concílio Vaticano II até nossos dias (1965-2010). 1ª edição,
Brasília: Edições CNBB, 2011.
455
Idem, n. 21.
456
EV 71.
145 

apesar de admitidas pela legislação civil, estão em contraste com a lei de


Deus. Na verdade, do ponto de vista moral, nunca é lícito cooperar
formalmente no mal.457
Dentro dessa busca por uma definição de lei civil, faz parte de sua função assegurar o
bem comum de seus cidadãos. No entanto, a compreensão de “bem comum” não consiste no
bem da maioria de uma população, mas em procurar as condições necessárias, para que todas
as pessoas possam realizar o próprio ser e a própria vida. Nesse sentido, a lei não constitui a
ética nem impõe uma ética própria, mas deve ser capaz de criar as condições para a realização
do ser humano. Portanto, a lei não coincide com a ética, de modo a impedir sempre o mal uso
das liberdades pessoais, mas deve proporcionar condições objetivas para a ética de cada um
visando a realização de cada uma das pessoas.458
Ora, entre as condições essenciais e objetivas que a lei deve garantir para o
bem das pessoas e para o bem comum (garantia de constitucionalidade e de
legitimidade), sem dúvida devem ser consideradas estas duas condições
objetivas: 1. A lei deve defender a vida de todos, especialmente dos mais
indefesos e dos inocentes. Se não cria essa condição, a de viver, não é mais
lei se torna iníqua: deve ser combatida com todos os meios legítimos por
parte de todos e em nome de quem não pode se defender; 2. A lei não pode
impor a ninguém tirar a vida de outras pessoas, exceto por legítima defesa
contra o injusto agressor; e muito menos pode pedir ao médico que ofereça
seus serviços para matar; o médico, por profissão, não é chamado a fazer
isso.459
O Estado precisa assumir, cada vez mais conscientemente, a sua função de
salvaguardar os direitos de cada cidadão, especialmente a de proteger os mais fracos. Para
isso, faz-se necessário procurar realizar uma reforma da sociedade, bem como das condições
de vida em todos os ambientes no intuito de oferecer ajuda às famílias, às mães solteiras, às
crianças recém-nascidas como também de buscar uma regulamentação mais conveniente da
adoção como uma alternativa positiva ao invés de facilitar o aborto como solução diante de

                                                            
457
“Em todo caso, deve ficar claro que um cristão não pode jamais submeter-se a uma lei intrinsecamente
imoral; e esse é o caso daquela que admitisse, em princípio, a licitude do aborto. Ele não pode participar numa
campanha de opinião em favor de uma lei de tal gênero, nem dar-lhe a própria adesão, dar-lhe seu voto ou
colaborar em sua aplicação. É inadmissível, por exemplo, que médicos ou enfermeiros se vejam obrigados a
cooperar, de maneira próxima, em abortos e de ter que escolher entre lei cristã e a sua situação profissional.” EV
74. Também se pode verificar no documento Declaração sobre o aborto provocado, n. 22.
458
Cf. SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e ética biomédica, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola,
2002, p. 379.
459
Ibidem.
146 

uma gravidez indesejada. Não compete à sociedade tampouco à autoridade pública reconhecer
o direito à vida para alguns e para outros não, o que seria qualificado como discriminação.460
Uma discriminação fundada sobre os diversos períodos da vida não se
justifica mais do que qualquer outra. O direito à vida permanece íntegro em
um ancião, mesmo que este se ache muito debilitado; um doente incurável
não o perdeu. Não é menos legítimo numa criança que acaba de nascer do
que um homem maduro. Na realidade, o respeito pela vida humana impõe-se
desde o momento em que começou o progresso da geração. Desde a
fecundação do óvulo, encontra-se inaugurada uma vida, que não é nem a do
pai, nem a da mãe, mas a de um novo ser humano, que se desenvolve por si
mesmo. Ele não virá jamais a tornar-se humano, se o não for desde já
então.461
A Constituição Federal Brasileira, precisamente no artigo 1º, inciso III, diz que a
República Federativa do Brasil é um Estado democrático de direito, e que, “a dignidade do ser
humano”, está entre os seus fundamentos principais. Nesse sentido, o valor da dignidade da
pessoa humana, como algo integrado a própria natureza do homem, se estende a todos
igualmente. É necessário salientar, que, esse respeito à dignidade da pessoa, além de ser um
dos fundamentos da Constituição Federal, também está presente nos objetivos fundamentais
da República, que consiste em construir uma sociedade livre, justa e solidária e promover o
bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação.462
Não há como se considerar solidária uma sociedade que, ao invés de amparar
a família e a gestante, apresenta como pseudo-solução para os problemas
sociais e pessoais o assassinato ‘seguro’ de meninas e meninos no seio de
suas mães. Isso, custeado com o dinheiro resultante do trabalho e esforço de
toda a sociedade, que é o dinheiro público, ou então mediante financiamento
internacional (...). E, além disso, também o expresso Texto Constitucional,
que não admite preconceito de idade (o nascituro, ou seja, aquele que já foi
concebido e tem existência atual e concreta e uma idade própria, anterior ao
nascimento e terá outra, após o nascimento – esta última não pode existir

                                                            
460
Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre o aborto provocado, nn. 11, 21 e
23. In: DOCUMENTA. Documentos publicados desde o Concílio Vaticano II até nossos dias (1965-2010).
461
Idem, n. 12.
462
Cf. CONSTITUIÇÃO FEDERAL BRASILEIRA. Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, art. 3º, inciso I
e inciso IV.
147 

sem aquela primeira), nem quaisquer outras formas de discriminação (vide


artigo 3º, inciso IV, da Constituição).463
Em se tratando dos casos de anencefalia fetal, atualmente a legislação brasileira não
permite o abortamento para tal anomalia, no entanto, a discussão se faz latente no meio dos
profissionais da saúde se a interrupção é ou não um ato benéfico para a gestante que se
encontra nessa situação. Essa mesma discussão também se faz presente no judiciário, para que
as possibilidades legais sejam garantidas caso seja admitido o aborto.
O ponto crucial em que a humanidade vive atualmente, precisamente o Estado
brasileiro sobre a questão do embrião humano tem a sua origem também na reflexão ética das
técnicas de fecundação artificial in vitro: “Do ponto de vista técnico, com efeito, essa técnica torna
possível uma produção largamente discriminatória de embriões.”464 E tal produção discriminatória
levou à reflexão jurídica acerca do estatuto do embrião humano, visto que, esta técnica
provocou uma situação totalmente nova, ou seja, o não-desenvolvimento e, portanto, a morte
de embriões controlados pelo próprio ser humano.
Em torno desta reflexão, é imprescindível buscar apoio interdisciplinar na
embriologia, na filosofia, na teologia, na ética e na jurisdição, pois “são as ciências humanas que
dirão qual é a dignidade do embrião e os seus conseqüentes direitos.”465
Como já se viu no segundo capítulo dessa dissertação - 2.1.2. “Aspectos jurídicos do
aborto no Brasil – de acordo com o Código Penal de 1940, art. 128, incorre em caso de
impunibilidade o aborto apenas quando praticado por médico no intuito de salvar a vida da
gestante e no caso de estupro. Porém, tal legislação poderá ampliar os casos de aborto
incluindo os de anencefalia fetal, visto que existem projetos, como também já vimos
anteriormente, tramitando atualmente no Congresso Nacional visando tal aprovação. No
entanto, não se pode perder de foco, que um dos fundamentos da República é a promoção e a
defesa da dignidade da pessoa humana, conforme se verifica na Constituição Federal
Brasileira de 1988, conforme supracitada.
No art. 5º a inviolabilidade do direito à vida é o primeiro de todos os direitos, sobre o
qual todos os outros direitos são construídos: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade
                                                            
463
LUIZ DE PAULA RAMOS, Dalton. Bioética Pessoa e Vida. 1ª edição, São Caetano do Sul-SP: Ed. Difusão,
2009, p. 224.
464
EUSEBI, Luciano. “Proteção ao embrião humano: perfis jurídicos.” In: DE DIOS VIAL CORREA, Juan e
SGRECCIA, Elio. Identidade e Estatuto do Embrião Humano. Atas da Terceira Assembleia da Pontifícia
Academia para a Vida. Bauru-SP: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 2007, p. 350.
465
LUISA DI PIETRO, Maria. “Estatuto ontológico do embrião humano.” In: CINÀ, Giuseppe; LOCCI, Efísio;
ROCHETTA, Carlo; SANDRIN, Luciano. Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde. São Paulo: Paulus,
1999, p. 427.
148 

do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.”466 É neste sentido, que a


Evangelium Vitae insiste em defender a vida humana desde o momento da concepção: “O ser
humano deve ser respeitado e tratado como uma pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse
mesmo momento, devem-lhe ser reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e primeiro de
todos, o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida.”467
O aborto provocado em caso de estupro, a mãe, além de sofrer o mal do estupro,
estaria se submetendo a um outro mal ou trauma: praticar injustiça contra o filho que também
é seu e não somente do estuprador. Testemunhos de mães que foram violentadas e que
resolveram continuar com a gestação e assumir seus filhos mostram que a violência sofrida
não as impede de amá-los e estes se mostraram profundamente agradecidos a elas pelo amor
demonstrado. No que diz respeito aos riscos de morte para a mãe durante a gestação, o que,
por sua vez, é muito raro neste início do século XXI para a medicina devido ao grande
avanço, resultando em recursos revertidos para tentar salvar, tanto a vida da mãe, quanto a do
bebê, mesmo quando o parto tem que ser realizado precocemente. A morte do nascituro pode
acontecer na tentativa de salvar a vida da mãe, mas não se deve admitir a intervenção
intencional da vida de alguém para salvar outrem.468 “A admissão do aborto, é a própria quebra
do princípio da igualdade entre os seres humanos, que assim ficam divididos em duas ‘castas’: os não-
nascidos e os já nascidos que passam a ter total poder de vida ou de morte sobre os primeiros.”469
Buscando resgatar na história a perspectiva jurídico-filosófica vale à pena citar no
Título V, do Livro I, do Digesto470, “De statu hominum” (a condição dos homens), pode-se
encontrar testemunhos que salvaguardavam o concebido “quo in útero est” (aquele que esta
no útero), bem como princípios a respeito de sua proteção, o que só comprova que as
malformações graves são conhecidas há milênios, e, no entanto, a estes eram assegurados a
proteção jurídica devida a seres humanos.471
O respeitadíssimo jurista italiano Mássimo Vari, Vice-Presidente Emérito da Corte
Constitucional Italiana, dizia em um artigo intitulado, “O Direito de Nascer”, publicado na

                                                            
466
BAPTISTA HERKENHOFF, João. Curso de Direitos Humanos. Aparecida-SP: Santuário, 2011, p. 121.
467
EV 60; DV 78-79.
468
Cf. LUIZ DE PAULA RAMOS, Dalton. Bioética Pessoa e Vida, p. 214.
469
Idem, p. 215.
470
“O Digesto, contendo sentenças dos jurisconsultos romanos, constitui um dos livros mandados compilar por
Justiniano (482-565), imperador bizantino (527-565), e, juntamente com os dois Códigos, as Institutas e as
Novelas, constitui o que veio a ser posteriormente denominado Corpus Iuris Civilis.” In: CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Instituto Nacional de Pastoral (org). A dignidade da Vida Humana e
as Biotecnologias. Brasília: edições CNBB, 2006, p. 61.
471
SILVEIRA MARTINS LEÃO JUNIOR, Paulo. “A dignidade da vida humana e as biotecnologias, questões e
perspectivas a partir do Direito.” In: CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Instituto
Nacional de Pastoral (org). A dignidade da Vida Humana e as Biotecnologias, pp. 48-49.
149 

Revista Ibero-Americana de Direito Público, editora América Jurídica, do ano de 2005, pp.
215-216:
O direito à esperada vida, portanto, tem sua base na concepção. Atacar este
princípio traz conseqüências muito negativas para o conjunto da sociedade.
Isto já sabiam os romanos, tanto é verdade que há mais de 20 séculos o
concebido (conceptus o qui in utero est) ou o embrião, gozavam de uma
ampla proteção por parte dos juristas romanos (prudentes), os quais anteviam
o direito baseando-se em princípios (além das técnicas), enquanto hoje os
‘legisladores’ e juízes inserem sufocadamente as questões tecnológicas, e,
muitas vezes, perdem de vista os princípios e o sistema.472
O direito à vida e a sua inviolabilidade desde o momento da concepção tem sido cada
vez mais ameaçado por diversas situações em todo o mundo. E diante destas ameaças, a Igreja
entende como sendo ainda mais urgente a sua missão de serviço à vida, que não deve ser
apropriada arbitrariamente, mas acolhida por todos como dom a ser protegido e cuidado. Este
é o caminho percorrido pela Igreja em todo o mundo e no Brasil: chamar as consciências para
a reflexão ética e moral sobre os perigos que se levantam contra o ser humano e sua vida.

3.2.4. A defesa da vida humana e a Igreja no Brasil frente ao aborto

A CNBB tem dado à Igreja, e, sobretudo à Igreja no Brasil, um autêntico testemunho


profético no seu duplo aspecto de denúncia da cultura de morte e de anúncio da cultura da
vida, promovida pelo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Para tanto, pode-se citar como exemplo a 27ª Assembleia Geral dos Bispos, que tem
sido sinal de uma reflexão e de uma acusação sobre comportamentos sociais de caráter
paradoxal: “Se a sociedade se aflige diante de milhões de menores abandonados, não deveria
também escutar o clamor silencioso de milhões de nascituros eliminados pela prática do aborto?”473
E ainda mais:
A verdadeira atitude ecológica (...) não pode conviver com a degradação
física e moral do ser humano. Dessa forma, limitada é a ecologia que se
preocupa com os animais em extinção, enquanto promove ou aprova a

                                                            
472
Idem, 48.
473
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Pronunciamentos de 1988 a 1989 da 27ª
Assembleia Geral (1989). “Um novo sim à vida.” Itaici, São Paulo, 14 de abril de 1989, p. 2. Disponível em:
www.cnbb.org.br. Acesso em: 27 de outubro de 2011, 14:45.
150 

esterilização das pessoas, o estancamento da fonte de transmissão da vida, a


morte dos que estão para nascer.474
Que esta Declaração seja um apelo para a observância do mandamento do Senhor:
‘Não matarás!’ (Ex 20, 13), e uma conclamação para que todos possam dar ‘um novo sim à
vida’.475
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, tendo como presidente Dom Luciano
Mendes de Almeida, reunidos em Assembleia Ordinária no dia 06 de maio de 1988, cobraram
um posicionamento das autoridades políticas em defesa da vida, emitindo reflexões, que vão
servir de luzes para ajudá-los na elaboração da nova Carta Constitucional da República
Federativa do Brasil na pessoa do Excelentíssimo Sr. Dr Ulysses Guimarães, presidente da
Assembleia Nacional Constituinte, já em fase de aprovação, para que esta esteja, de fato,
comprometida com o valor da vida humana, tomando como base a encíclica Humanae Vitae
do Papa Paulo VI, que nesta ocasião comemorava o seu vigésimo ano. Pois, a própria
Constituição proclama como sendo fundamental a inviolabilidade do direito à vida: “Todos
são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida...”476
Os bispos consideram atual o apelo que o Papa Paulo VI em sua encíclica supracitado
dirige aos governantes:
Não permitais que se degrade a moralidade das vossas populações; não
admitais que se introduzam legalmente naquela célula fundamental, que é a
família, práticas contrárias à lei natural e divina. Existe outra via, pela qual
os poderes públicos podem e devem contribuir para a solução do problema
demográfico: é a via de uma política providente, de uma sábia educação das
populações, que respeite a lei moral e a liberdade dos cidadãos.477
Tal Assembleia Ordinária dirigiu uma série de apelos à sociedade na tentativa de
sensibilizar e conscientizar os brasileiros sobre o dever de todos quanto à promoção da vida
em todos os seus aspectos:
Queremos ajudar os casais, sobretudo os das classes humildes, nas suas
reais angústias e situações aflitivas, através da orientação para a
maternidade e paternidade responsáveis nos moldes de métodos naturais,

                                                            
474
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Orientação da Presidência e da Comissão
Episcopal de Pastoral (CEP) da CNBB aos Católicos do Brasil. Documento da Presidência. “Ouvir o eco da
vida.” Itaici – SP, 07 de maio de 1992, p. 39. Disponível em: www.cnbb.org.br. Acesso em: 27 de outubro de
2011, 15:25.
475
Cf. idem, p. 2.
476
CONSTITUIÇÃO FEDERAL BRASILEIRA, artigo 5, caput.
477
HV 23.
151 

cuja validade e eficácia são reconhecidas pela própria Organização Mundial


da Saúde; apelamos para os médicos e enfermeiros no sentido de respeito e
amor à vida, conforme seu juramento; apelamos para os meios de
comunicação social para que não se orientem pelo lucro e pelas pesquisas
de audiência, mas pela autocrítica, segundo os ditames da ética
profissional.478
A defesa da vida exige políticas sociais mais amplas, tornando, portanto, a população
capaz de enfrentar também outras formas de agressão à vida:
Seja no campo da saúde valorizando a luta contra a mortalidade infantil,
promovendo a medicina preventiva, o saneamento básico e o uso de
remédios naturais e caseiros; seja no campo da ecologia, protegendo as
populações contra todas as formas de poluição; seja combatendo a violência
urbana e rural; seja esclarecendo a opinião pública; seja esclarecendo a
opinião pública sobre os males trazidos pelas drogas, pelo alcoolismo e pelo
tabagismo.479
É neste mesmo horizonte, que se faz necessário deixar bem claro que a missão da
Igreja de defesa da vida humana não está direcionada somente para o embrião ou para o feto
humano. A atenção da Igreja é sensível para a vida nascente devido ao seu caráter de grande
fragilidade e de indefesa, ainda mais quando se verifica uma mudança paradoxal do que era
considerado “crime” para assumir legitimidade perante a legislação nacional como é o caso do
aborto. Mas a Igreja se opõe rigorosamente contra todas as realidades que ameaçam a vida
humana:
Assistimos hoje a novos desafios que nos pedem ser voz dos que não têm
voz. A criança que está crescendo no seio materno e as pessoas que se
encontram no ocaso de suas vidas, são exigências de vida digna que grita ao
céu e que não pode deixar de nos estremecer. A liberalização e banalização
das práticas abortivas são crimes abomináveis, como também a eutanásia, a
manipulação genética e embrionária, ensaios médicos contrários à ética,
pena de morte e tantas outras maneiras de atentar contra a dignidade e a vida
do ser humano. Se quisermos sustentar um fundamento sólido e inviolável
para os direitos humanos é indispensável reconhecer que a vida humana deve
ser defendida sempre, desde o momento da fecundação. De outra maneira, as

                                                            
478
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Orientação da Presidência e da Comissão
Episcopal de Pastoral (CEP) da CNBB aos Católicos do Brasil. Documento da Presidência. “Ouvir o eco da
vida.” Itaici – SP, 07 de maio de 1992, p. 5. Disponível em: www.cnbb.org.br. Acesso em: 27 de outubro de
2011, 15:25.
479
Ibidem.
152 

circunstâncias e conveniências dos poderosos sempre encontrarão desculpas


para maltratar as pessoas.480
Um dos meios mais eficientes usados pela Igreja do Brasil, chamada a dar testemunho
profético de denúncia à cultura de morte e de anúncio à cultura da vida, é a Campanha da
Fraternidade, que tem significado um verdadeiro empreendimento em escala nacional, da
força evangelizadora da Igreja no intuito de despertar as consciências para uma discussão
ética cada vez mais humana e planetária, o que por sua vez, se torna um grande desafio, não
somente para a Igreja, mas para todos os homens de boa vontade: “...a urgência de constituir e
de fazer aceitar essa ética, profundamente humana e deveras planetária (...), brotando da convicção
das consciências e se estendendo às diferentes camadas da cultura.”481
Neste sentido, alguns temas da CF são citados para ilustrar o quanto que a Igreja
também se preocupa com as outras formas de ameaça à vida humana482: CF-85, tema:
Fraternidade e Fome; CF-86, tema: Fraternidade e Terra; CF-87, A Fraternidade e o Menor;
CF-88, tema: A Fraternidade e o Negro; CF-89, tema: A Fraternidade e a Comunicação; CF-
90, tema: A Fraternidade e a Mulher; CF-91, tema: A Fraternidade e o Mundo do Trabalho;
CF-92, tema: Fraternidade e Juventude; CF-93, tema: Fraternidade e Moradia; CF-94, tema:
A Fraternidade e a Família; CF-95, tema: A Fraternidade e os Excluídos; CF-96, tema: A
Fraternidade e a Política; CF-97, tema: A Fraternidade e os Encarcerados; CF-98, tema:
Fraternidade e Educação; CF-99, tema: Fraternidade e os Desempregados; CF-2000
Ecumênica, tema: Novo Milênio sem exclusões; CF-2001, lema: Vida Sim, Drogas não; CF-
2002, tema: Fraternidade e Povos Indígenas; CF-2003, tema: Fraternidade e Pessoas Idosas;
CF-2004: Fraternidade e Água; CF-2005 Ecumênica, lema: Felizes os que promovem a paz;
CF-2006, tema: Fraternidade e Pessoas com deficiência; CF-2007, tema: Fraternidade e
Amazônia; CF-2008, tema: Fraternidade e Defesa da Vida Humana; CF-2009, tema:
Fraternidade e Segurança Pública; CF-2010 Ecumênica, tema: Economia e Vida; CF-2011,
tema: Fraternidade e a Vida no Planeta; CF-2012, tema: Fraternidade e Saúde Pública.
A vida humana é sempre compreendida pela Igreja como maior dom do amor criador
de Deus e, que, por este motivo, deve ser acolhida, defendida e valorizada, a fim de que possa
desabrochar e crescer, até atingir maturidade e plenitude. “Em nome do Deus da Vida, somos

                                                            
480
DAp 467.
481
JOSAPHAT, Carlos. Op. cit., p. 398.
482
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. “Histórico das CFs [1964-1988] e [1989-2012].”
Disponível em: www.cnbb.org.br. Acesso em: 14 de março de 2012, 14:30.
153 

radicalmente contrários ao projeto de liberação do aborto”483, visto que, trilhar os caminhos da


morte significa negar o próprio Deus e colocar em risco o futuro da humanidade. O aborto não
pode ser admitido para justificar como solução para gravidez indesejada.
Sinal de grande empreendimento dos Bispos do Brasil em defesa da vida humana foi a
45ª Campanha da Fraternidade realizada no ano de 2008, que teve como tema a “Fraternidade
e Defesa da Vida Humana”, sob o lema: “Escolhe, pois, a vida”.
Esta campanha, fortemente embasada no Documento Conclusivo da V Conferência
Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Aparecida, assume uma
posição muito clara em defesa da vida, desde a sua concepção até a sua morte natural, no que
diz respeito à tríade: aborto-contracepção, células tronco e eutanásia.
Discípulos de Jesus, temos que levar o Evangelho ao grande cenário
[das ciências], promover o diálogo entre ciência e fé e, nesse contexto,
apresentar a defesa da vida. Esse diálogo deve ser realizado pela ética
e em casos especiais por uma bioética bem fundamentada.484
Já no discurso do Papa Bento XVI na sessão inaugural da V CELAM, pode-se
verificar tal argumentação em favor da vida humana:
Os povos latino-americanos e caribenhos têm direito a uma vida plena,
próprias dos filhos de Deus, com condições mais humanas (...) Para estes
povos, seus Pastores devem fomentar uma cultura da vida (...) Com esta
vida se desenvolve também em plenitude a existência humana, em sua
dimensão pessoal, familiar, social e cultural.485
Embora todo o Texto-Base da CF de 2008 esteja elaborado nesta perspectiva de defesa
da vida humana, pode-se assinalar a Seção III, quando trata especificamente da questão do
aborto.
Na medicina, considera-se como aborto espontâneo, a interrupção
involuntária da gestação até a 20ª ou a 22ª semana. Como a partir desse
tempo gestacional, há 40% de possibilidade daquele novo ser humano
sobreviver fora do útero, a interrupção da gestação é chamada de parto
prematuro.486

                                                            
483
CONFERÊNIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Pronunciamentos de 1990 a 1991 da 29ª
Assembleia Geral (1991). “Vida para todos”, p. 19. Disponível em: www.cnbb.org.br. Acesso em: 27 de outubro
de 2011, 16:05.
484
DAp 465.
485
Palavras do Papa Bento XVI. São Paulo: Paulinas, 2007, p. 114.
486
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2008. Texto-Base.
São Paulo: Editora Salesiana, 2008, n. 75.
154 

Infelizmente, alguns países, preferem chamar de aborto provocado – o que na verdade


deveria ser considerado de infanticídio, visto que pela própria medicina não se enquadra como
aborto - quando ocorre a interrupção forçada da gravidez com a intenção de matar o feto,
mesmo quando se trata de uma gravidez de nove meses.
Tem se obtido no Brasil algumas autorizações judiciais para a realização do aborto de
fetos que se encontram com malformações, embora tal autorização seja ilegal. Trata-se neste
caso do aborto eugênico ou eugenético. Estes casos de aborto eugênico são muitas vezes
usados para diminuir a rejeição da opinião pública com relação ao aborto, uma vez que todos
reconhecem o grande sofrimento dos pais.
Neste caso, pode-se verificar uma grande desvalorização da mãe e da criança, quando
profissionais da saúde e até a mídia se referem a ela de “caixão ambulante” e a grave violação
ética de negar o direito à vida a uma criança doente ou deficiente.
Verifica-se hoje em dia, com o intuito de buscar legitimar a prática do aborto aliviando
a consciência frente ao infanticídio, uma discussão sobre o momento em que começa a vida
humana. Um ponto a destacar no Texto-Base é a definição de início da vida humana, que se
dá na fecundação:
É impossível negar que, com a união dos 23 cromossomos do pai com os 23
cromossomos da mãe, surge um novo indivíduo da espécie humana (...) É
um novo indivíduo que apresenta um padrão genético e molecular distinto,
pertencente à espécie humana e que contém em si próprio todo o futuro de
seu crescimento.487
A Igreja reconhece o estado emocional da mãe por ter sofrido um trauma tão doloroso
no caso de estupro, no entanto, o aborto não é uma solução, visto que também “constitui mais
uma violência sobre a mãe, além de que um crime não apaga a lembrança de outro crime.”488 O
aborto provocado fere profundamente a mulher que a pratica.
Há trabalhos bem fundamentados que mostram aumento de 100% em
quadros de ansiedade, depressão e idéias de suicídio entre as adolescentes
submetidas ao aborto provocado, em relação às que haviam levado a
gravidez até o final.489

                                                            
487
Idem, n. 74.
488
Idem, n. 78.
489
Idem, n. 86.
155 

3.3. Identidade e Estatuto do Nascituro

Em qualquer discussão que se pode fazer em torno do debate sobre o aborto existe
sempre uma pergunta fundamental responsável em iluminar a reflexão sobre a eticidade da
interrupção da gestação: “Quando começa a vida humana no desenvolvimento embrionário ou a
partir de que momento existe um ser humano ou uma vida humana?”490
No intuito de introduzir essa nossa temática sobre a identidade do embrião humano
gostaria de citar o Prof. Jean Bernard, um dos grandes cientistas e conhecedor da bioética, que
em uma conferência contou e analisou um caso.
Um casal de americanos viaja para a Austrália com a intenção de realizarem a
fecundação in vitro, já que este país se apresentava então mais avançado nesta área. Sendo a
mulher de um grande milionário estéril, o casal se prepara para a reimplantação do embrião
no útero materno; porém, antes mesmo dessa implantação, se vê diante de uma situação que o
obriga, inesperadamente, a regressar ao país de origem. E uma surpresa acontece: o avião cai
no oceano Pacífico provocando a morte de todos os passageiros.
O sobrinho herdeiro desse casal sem filhos logo se apressa em entrar em contato com
o responsável australiano de fazer a reimplantação do embrião com estas seguintes ordens:
“Destruí esses embriões. Eles são os verdadeiros herdeiros”.
Analisemos o imperativo: “destruí os embriões”! Esses são tratados como coisas ou
objetos que podem ser descartados e atirados ao lixo, desde que não se quer implantá-los.
Todavia, nos chama a atenção dentro da reflexão, o sentido da segunda frase, que por sua vez,
justifica a razão do imperativo e, consequentemente, define o sentido e a identidade dos
embriões: “eles são os verdadeiros herdeiros”! Então, esses embriões, que num primeiro
momento foram tratados como coisas e objetos quaisquer, agora, num segundo momento, são
considerados sujeitos de direito, que possuem uma identidade e um código único, dispondo
em si mesmos de uma autonomia para se desenvolver, desde que esse itinerário seja
respeitado.491
Assim, tendo em vista o objetivo de procurar definir a identidade e o estatuto do
embrião humano, para que também suas conclusões éticas sejam reconhecidas e respeitadas,
faz-se necessário, primeiramente, levar em consideração os conhecimentos fornecidos pelos

                                                            
490
GAFO FERNÁNDEZ, Javier. 10 Palavras-Chave em Bioética. São Paulo: Paulinas, 2000, p. 47.
491
Cf. JOSAPHAT, Carlos. Ética Mundial. Esperança da Humanidade Globalizada. Petrópolis: Vozes, 2010,
pp. 395-396.
156 

dados científicos, expondo as diversas fases do começo do desenvolvimento embrionário e o


que ocorre desde o momento da fecundação, a partir da formação do zigoto.
O primeiro dado incontestável, esclarecido pela genética, é o seguinte: no
momento da fertilização, ou seja, da penetração do espermatozóide no
óvulo, os dois gametas dos genitores formam uma nova entidade biológica,
o zigoto, que carrega em si um novo projeto-programa individualizado,
uma nova vida individual.492
Partindo desse dado fornecido pela própria ciência, pode-se afirmar, que existe uma
relação de dependência entre o conhecimento que as ciências biológicas, sobretudo a genética
e a embriologia fornecem e as conotações éticas ou os juízos morais que se pode emitir sobre
o embrião humano, que, por sua vez, terão influências na formulação do status jurídico sobre
o mesmo.
Quanto à pergunta sobre quando começa uma vida humana, nenhum
cientista duvidaria em responder: no momento da fecundação, isto é,
quando de duas realidades distintas, o óvulo e o espermatozóide, surge uma
nova realidade, diferente, o zigoto, com uma informação genética própria e
um poder gerador capaz de desenvolver um ser humano, contando com as
condições meio-ambientais maternas adequadas.493
Portanto, neste momento da dissertação, serão desenvolvidas em primeiro lugar os
aspectos biomédicos do desenvolvimento embrionário inicial, que por sua vez permitirão
examinar a natureza ou a identidade própria do embrião humano, aquilo que também se pode
chamar de estatuto do embrião, para que, num segundo momento, se possa fazer uma
abordagem ético-teológica do mesmo: “A necessidade do estatuto ético do embrião humano
baseia-se no ‘estatuto biológico’ e no ‘estatuto ontológico’.”494
Na realidade, porém, a partir do momento em que o óvulo é fecundado,
inaugura-se uma nova vida que não é a do pai nem a da mãe, mas sim a de
um novo ser humano que se desenvolve por conta própria. Nunca mais se
tornaria humana, se não o fosse já desde então. A esta evidência de sempre
(...) a ciência genética moderna fornece preciosas confirmações.495
A partir do momento em que o óvulo é fecundado imediatamente os dois subsistemas
– os gametas, masculino e feminino – se integram iniciando um novo sistema, que tem duas

                                                            
492
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e ética biomédica, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola,
2002, p. 342.
493
VIDAL, Marciano. Ética Teológica: conceitos fundamentais. Petrópolis-RJ: Vozes, 1999, p. 402.
494
CIPRIANI, Giovanni. O Embrião Humano. Na fecundação, o marco da vida. São Paulo: Paulinas, 2007, p.
61.
495
EV 60.
157 

características fundamentais: primeira, o novo sistema “começa a operar como uma nova
unidade, intrinsecamente determinada a atingir sua forma específica terminal, se for postas todas as
condições necessárias. Daí a clássica e ainda corrente terminologia de embrião unicelular.”496 A
segunda característica, “é que o centro biológico ou estrutura coordenadora dessa nova unidade é o
genoma de que está dotado o embrião unicelular (...). É esse genoma que identifica o embrião
unicelular como biologicamente humano e especifica sua individualidade.”497
São quatro pontos essenciais desta análise que a própria ciência genética oferece:
3.3.1. O primeiro apontamento refere-se ao zigoto: “o encontro de duas células
especializadas, chamadas gametas, uma de origem materna (óvulo) e outra de origem paterna
(espermatozóide)”498, que sofrendo o processo de singamia, ou seja, de fusão das duas células,
dá origem a uma nova célula - o zigoto - origem de uma nova vida humana.
Este embrião unicelular inicia uma atividade como um novo sistema, como um ser
vivente ontologicamente uno. E entre as muitas atividades coordenadas desta nova célula,
durante um período de cerca de 20 a 25 horas, pode-se citar as mais importantes:
1) a organização do novo genoma, que representa o principal centro
informativo e coordenador para o desenvolvimento do ser humano e de
todas as suas ulteriores atividades; 2) o início do primeiro processo
mitótico, que leva o embrião a duas células.499
Ainda falando sobre o zigoto, deve-se sublinhar dois aspectos principais:
primeiramente, não é um ser anônimo, pois tem sua identidade determinada; e em segundo,
esta nova célula é intrinsecamente orientada a um bem definido, formar um sujeito humano,
com uma precisa forma corpórea, de modo que, tanto a identidade como a orientação, são
essencialmente dependentes do genoma, que leva em si toda a informação genética do novo
indivíduo. É exatamente esta informação, substancialmente invariável, que porta o embrião,
que estabelece sua pertença à espécie humana.
As ciências biológicas fornecem dados que permitem afirmar que o zigoto é o ponto
exato no qual um indivíduo humano inicia seu próprio ciclo vital.
3.3.2. O segundo ponto desta análise vai do zigoto ao blastocisto – a primeira etapa
do desenvolvimento do zigoto:
Durante um período de mais ou menos cinco dias acontece uma rápida
multiplicação celular, sob o controle de um grande número de genes
implicados nos muitos eventos do ciclo mitótico e na produção de
                                                            
496
SGRECCIA, Elio. Op. cit., p. 343.
497
Ibidem.
498
VIDAL, Marciano. Op. cit., p. 402.
499
Lexicon, p. 192.
158 

proteínas necessárias para a estrutura e as funções do crescente número de


células.500
E dentro desse primeiro estágio de desenvolvimento do embrião é o novo genoma, já
constituído no zigoto, quem assume o controle tornando-se a base e o suporte da unidade
estrutural e funcional do mesmo.
Com justiça L. Wolpert, conhecido embriologista, notava que a verdadeira
chave para compreender o desenvolvimento está na biologia celular, no
processo de transferência dos sinais e no controle da expressão dos genes,
que leva a modificações do estado da célula, movimento e crescimento.501
3.3.3. O terceiro ponto essencial desta análise segue-se do blastocisto ao disco
embrionário – é a segunda etapa do desenvolvimento do embrião. É o estágio em que ocorre a
expansão dos blastocistos e seu implante no útero, durante o qual mãe e embrião fazem de
tudo para estabelecer uma harmonia.
Entre o décimo primeiro e o décimo terceiro dia da fecundação o disco embrionário
atinge o diâmetro de aproximadamente dois décimos de milímetros e mais ou menos no
décimo quarto dia, na região caudal aparece um grupo de células chamado estria primitiva
indicando a formação de um terceiro estrato de células, o mesoderma dando início à
morfogênese.502
3.3.4. O quarto apontamento da análise é a fase chamada de fetal levando em
consideração o plano geral do corpo, em que ocorre a modelagem dos diferentes órgãos e
tecidos, tendo como sequência a organogênese e a histogênese:
Na quinta semana de gestação, no embrião, com cerca de 1 cm de
comprimento, já se esboça o cérebro primitivo, coração, pulmões, os tratos
gastro-entérico e genito-urinário; na sexta semana já são claramente visíveis
os esboços dos membros e, ao fim da sétima semana, a forma corpórea está
completa.503
O grande embriologista C.H. Waddington chegou a uma reflexão não somente do
ponto de vista descritivo, mas desenvolvida por meio de um aprofundamento lógico do
processo biológico em que ele a definiu de “epigênese” ou “a contínua emergência de uma
forma de etapas precedentes”, coloca em evidência três propriedades extremamente
importantes: a coordenação, a continuidade e a graduação.504

                                                            
500
Idem, 193.
501
Ibidem.
502
Cf. idem, p. 194.
503
Lexicon, p.194.
504
Cf. idem, p. 195.
159 

A primeira propriedade é a coordenação: “Em todo o processo da formação a partir do


zigoto, há uma sucessão de atividades moleculares e celulares sob a guia da informação contida no
genoma.”505 A presença do genoma no embrião humano, garantindo e exigindo uma rigorosa
unidade do ser em desenvolvimento, leva a uma conclusão que tal embrião, mesmo nos
primeiros catorze dias não pode ser tratado como um acúmulo de células, visto que já é um
indivíduo real a cada etapa num processo dinâmico e autônomo criando o seu próprio espaço
como organismo.
O zigoto, a célula fundada, já tem em si todo o ser humano adulto
programado. Ele não tem celebro, não pode pensar ou ter idéias. Mas pode
criar um cérebro, seguindo leis e normas que estão no código vivo que é
essa celulazinha menor que a cabeça de um alfinete.506
A segunda propriedade é a continuidade: “O zigoto é o primórdio do novo organismo, que
está no verdadeiro início do seu próprio ciclo vital. Se considerarmos o perfil dinâmico desde ciclo no
tempo, aparece claramente que isso procede sem interrupções.”507 Neste processo de
desenvolvimento não há nenhuma etapa mis importante que outra; todas são parte de um
processo contínuo, de modo que, se cada etapa não se realiza normalmente no tempo e numa
sequência, o desenvolvimento seguinte não será possível.
A terceira e a mais importante propriedade é a graduação508: “É uma lei intrínseca do
processo de formação de um organismo pluricelular o fato de ele adquirir a sua forma final através da
passagem de formas mais simples a formas cada vez mais complexas.”509 É justamente a existência
dessa lei da gradualidade que manterá permanentemente a identidade e a individualidade do
embrião humano através de todo o processo de desenvolvimento.
É precisamente por causa desta lei epigenética intrínseca, que está inscrita
no genoma e começa a atuar desde o momento da fusão dos dois gametas,
que cada embrião e, portanto, também o embrião humano, mantém
permanentemente a própria identidade, individualidade e unicidade,
permanecendo sem interrupção o mesmo indivíduo idêntico durante todo o
processo de desenvolvimento, desde a singamia em diante, apesar da
sempre crescente complexidade de sua totalidade.510

                                                            
505
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e ética biomédica, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola,
2002, p. 344.
506
JOSAPHAT, Carlos. Op. cit., p. 397.
507
Lexicon, p. 195.
508
Cf. idem, p. 196.
509
SGRECCIA, Elio. Op. cit., p. 344.
510
ÁNGEL FUENTES, Miguel. As Verdades Roubadas. 1ª edição em português, São Paulo: IVEPRESS, 2007,
p. 173-174.
160 

Em síntese, apoiados nesses dados científicos, pode-se dizer:


A rapidez do desenvolvimento e da organização é tal que no final da 8ª
semana (...) a organização está terminada e o embrião possui, ainda que em
miniatura, todas as estruturas características do homem, com um sexo bem
definido, como são reconhecidos no final da gravidez.511
Recentemente foi introduzido uma nova nomenclatura embriológica, que depois foi se
generalizando. A embriologista Ana McLaren e outros autores deram a sugestão de
diferenciar o termo “pré-embrião” do de “embrião” propriamente dito. O “pré-embrião” ou
embrião pré-implantatório consiste no período que vai da constituição do zigoto até o 14º dia
da fecundação do óvulo coincidindo com a culminação da implantação na mucosa uterina.
Tem a responsabilidade em definir as etapas sucessivas de divisão e organização celular do
óvulo fecundado, até que ocorra a nidação no útero.
O termo “embrião” ou “embrião pós-implantatório” indica a fase que se desenvolve
com a implantação estável na parede uterina iniciando por volta do 14º dia e culminando
umas 8 ou 10 semanas depois, aproximadamente pelo terceiro mês, quando começa a fase
fetal caracterizado por um progressivo amadurecimento dos órgãos e suas funções.512
Todavia, esta posição que faz distinção entre os termos citados acima, alguns chegam
a considerá-la arbitrária e até mesmo uma estratégia jurídica com o intuito de manipular as
palavras para polarizar a discussão ética e justificar uma possível legalização do aborto no
período “pré-implante”: “Alguns tentam justificar o aborto, defendendo que o fruto da concepção,
pelo menos até um certo número de dias, não pode ainda ser considerado uma vida humana
pessoal.”513
Todavia, quais são as razões dessa discriminação dos primeiros 14 dias? Serão
apontadas logo em seguida três razões, mas nenhuma delas se sustenta do ponto de vista
racional:
Para alguns, não existe certeza de que o embrião humano possa prosseguir em seu
desenvolvimento enquanto não tenha sido implantado no útero da mulher, visto que não está
ainda sendo alimentado por ela. Mas assim como não é a alimentação que produz a criança,
também não é a implantação no útero da mãe que faz do embrião um ser humano.
A implantação faz com que o embrião cresça e se desenvolva. Nos
primeiros dias, o embrião se alimenta daquilo que encontra no óvulo

                                                            
511
Idem, p. 345.
512
Cf. VIDAL, Marciano. VIDAL, Marciano. Ética Teológica: conceitos fundamentais. Petrópolis-RJ: Vozes,
1999, p. 404.
513
EV 60.
161 

fecundado, e depois de implantado é alimentado pelo corpo da mulher.


Mas já está ativo, já existe.514
Para outros, até o 14º dia não se formaram os sinais do que será o cérebro, ou seja, não
existem ainda os fios neurológicos. O cérebro do embrião se desenvolve não por causa do
cérebro da mãe, mas por causa dos genes inerentes ao embrião desde o primeiro momento da
fecundação. Neste sentido, o cérebro se desenvolve porque o embrião o faz desenvolver-se.
“Essa é uma visão racionalista da pessoa que, considerando a razão seu elemento constitutivo, sustenta
ser indispensável detectar, no mínimo, a presença de condições neurofisiológicas que permitam seu
desenvolvimento orgânico.”515
Outros ainda se apóiam no argumento de que o embrião pode se dividir em dois,
depois da implantação no útero da mãe gerando a incerteza sobre sua identidade.
Mas, na ocorrência de gêmeos, a divisão do embrião não destrói o primeiro
embrião; separando-se, algumas células se tornam um outro embrião. O
primeiro embrião continua o mesmo e o segundo embrião segue em seu
desenvolvimento. Temos, então, o dobro de motivos para defendê-los, pois
são dois embriões.516
Alguns, ainda, chegaram a negar o valor de filho ao “neo-concebido”. À nova vida,
recém-surgida na fusão dos gametas, era negado o nome de “filho” até o décimo quarto dia
depois da concepção, visto que, antes desta data, devia ser considerado um acúmulo de células
e não um ser humano.517
Os termos zigoto, pré-embrião, embrião e feto podem indicar, no vocabulário da
biologia, estágios sucessivos do desenvolvimento de um ser humano. Entretanto, o
ensinamento da Igreja atribui a eles uma relevância ética idêntica desde o primeiro momento
de sua existência até o instante de seu nascimento.
O fruto da geração humana, desde o primeiro momento da sua existência,
isto é, a partir da constituição do zigoto, exige o respeito incondicional que é
moralmente devido ao ser humano na sua totalidade corporal e espiritual. O
ser humano deve ser respeitado e tratado como pessoa desde a sua
concepção e, por isso, desde esse mesmo momento devem lhe ser

                                                            
514
MARCELO COELHO, Mário. O que a Igreja ensina sobre ... 4ª Edição, São Paulo: Canção Nova, 2008, p.
295.
515
PALAZZANI, Laura. “Os significados do conceito filosófico de pessoa e suas implicações no debate atual
sobre o estatuto do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL CORREA, Juan e SGRECCIA, Elio. Identidade e
Estatuto do Embrião Humano. Atas da Terceira Assembleia da Pontifícia Academia para a Vida. Bauru-SP:
Editora da Universidade do Sagrado Coração, 2007, pp. 104-105.
516
MARCELO COELHO, Mário, Op. cit., p. 296.
517
Cf. Lexicon, p. 191.
162 

reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e antes de tudo, o direito


inviolável de cada ser humano inocente à vida.518
No intuito de elucidar o estatuto do embrião humano, a corporeidade é o ponto de
partida para se afirmar que “o que é biológico no homem não pode ser separado do que é
humano.”519 É verdade que não se pode ver a forma desenvolvida da corporeidade humana no
zigoto, mas ele já traz em si o nascimento do corpo humano contendo todos os elementos
essenciais que mais tarde aparecerão no corpo adulto. Desde o momento da concepção o
corpo que pertence à espécie humana evolui por meio de um princípio intrínseco sem que o
sujeito unitário desse desenvolvimento deixe de ser o mesmo.
O embrião humano não está certamente em condições de exercer as
atividades tipicamente humanas, nem o feto ou o recém-nascido são
capazes de se exprimir por meio das faculdades mentais; não se pode
negar, contudo, que desde o momento da fecundação está constituída a
capacidade real de ativar essas atividades superiores.520
J. Watson, que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina, fez um cálculo afirmando que as
células do corpo humano se renovam num ritmo de 0,5% ao dia. Como um corpo humano na
sua fase adulta possui cerca de 60 bilhões de células, calcula-se que cerca de 300 milhões
destas células se renovam diariamente. Neste sentido, pode-se concluir que o organismo é
renovado quase inteiramente a cada sete meses. Seguindo este mesmo raciocínio, pode-se
dizer com toda certeza, que, o corpo de hoje não é o mesmo de cinco anos atrás e que difere
do corpo como criança, feto e embrião, porém era e sempre continuará a ser o mesmo “eu”.521
A corporeidade não pertence à esfera do ter, mas à do ser, de modo que o corpo não
deve ser concebido como algo que se possui, mas se é o corpo. Ele não é apenas um modo de
entrar numa relação com o mundo, mas é a condição indispensável da capacidade de habitar o
mundo e viver a vida nele. Portanto, o corpo humano participa plenamente da realização do
eu. Assim, a frase “o seu corpo é seu” esconde em si uma ideia equivocada: é exatamente
porque “o seu corpo é você”, que ele não pode ser seu!
A corporeidade é a expressão de um ser humano uno e indiviso, de modo que a pessoa
é constituída ao mesmo tempo de espírito e de corpo que se desenvolvem juntos, sem saltos

                                                            
518
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução Dignitas Persone. Sobre algumas questões de
Bioética, n. 4. In: DOCUMENTA. Documentos publicados desde o Concílio Vaticano II até nossos dias (1965-
2010). 1ª edição, Brasília: Edições CNBB, 2011. Daqui em diante segue-se DP; cf. DV I, 1.
519
LUCAS LUCAS, Ramón. “O estatuto antropológico do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL CORREA,
Juan e SGRECCIA, Elio. Identidade e Estatuto do Embrião Humano, p. 212.
520
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e ética biomédica, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola,
2002, p. 124.
521
Cf. idem, p. 213.
163 

qualitativos. O corpo não é a prisão ou o receptáculo da alma, conforme uma concepção


antiga que remonta ao dualismo antropológico de Platão (427-347).
A existência humana, tomada no homem concretamente existente e
realizado, apresenta-se como corporeidade e espiritualidade ou como
simples corporeidade? Essa é a primeira pergunta à qual deve responder o
filósofo, especialmente o filósofo da biologia e da medicina.522
Para Aristóteles o embrião humano possui desde a concepção a alma própria da
espécie humana, isto é, a alma intelectiva. Deste modo vale a pena fazer uma recapitulação do
ensinamento aristotélico em Metafísica IX sobre o conceito de homem em potência para
desmistificar alguns equívocos usados em nome do filósofo, quando alguns chegam a dizer
que não se pode afirmar que há um indivíduo humano no sentido ontológico até o décimo
quinto dia após a concepção, pois o que existe até aí é um homem potencial e não um
verdadeiro indivíduo humano.
A extensão na qual uma coisa tem em si mesma o princípio de sua geração
determina a medida, se não for impedida exteriormente, do que ela será em
potência através de si mesma. O espermatozóide, por exemplo, ainda não é
um homem em potência nesse sentido, porque deve ser depositado em
outro ser e transformado. Todavia, quando já ultrapassou essa fase, devido
ao princípio que ele tem em si mesmo, dizemos então que ele é um homem
em potência.523
Aqui se pode ver claramente a diferença que existe entre o espermatozóide, que, por
sua vez, ainda não é um homem em potência porque não pode por si só tornar-se um homem,
e o embrião, ou seja, aquele espermatozóide que foi depositado no útero e transformado em
embrião. Este embrião já é considerado um homem em potência porque possui uma
capacidade inerente de tornar-se homem por si mesmo, caso não intervenham impedimentos
externos. Para Aristóteles o embrião humano já é um indivíduo humano real e não apenas um
homem em potencial.524
Para se compreender melhor essa tese aristotélica supracitada pode-se utilizar, para
este caso do embrião, a distinção entre potência ativa e potência passiva.
A potência ativa está relacionada ao embrião e a potência passiva aos gametas. Neste
horizonte, a potência ativa faz referência ao ato, ou seja, possui a capacidade de amadurecer

                                                            
522
SGRECCIA, Elio. Op. cit., p. 114.
523
Aristotle, Metaphysics, IX, 7, 1049ª 13-17. Apud. LUCAS LUCAS, Ramón. “O estatuto antropológico do
embrião humano”. In: DE DIOS VIAL CORREA, Juan e SGRECCIA, Elio. Identidade e Estatuto do Embrião
Humano, p. 216.
524
Cf. idem, p. 217.
164 

porque já participa do ser. Portanto, mesmo que o embrião humano não tenha alcançado
plenamente a maturação de seu dinamismo intrínseco, ele já está destinado a desenvolver e a
amadurecer todas as indicações ontológicas da sua natureza. O desenvolvimento entendido
necessariamente como uma sucessão de formas não nega a realidade subsistente de um só e
mesmo sujeito ontológico em todas essas etapas. O embrião no estado de desenvolvimento já
é ele próprio. Ao passo que, os gametas como potência passiva, só possuem apenas
possibilidade e abertura para passar por transformações por parte de alguma coisa externa a
eles.
É preciso evitar a confusão que muitas vezes se faz entre “potência ativa” e “ser em
potência”. O primeiro tem uma relação real com o ato e o segundo significa aquilo que ainda
não está no ser e se opõe a ser em ato. Por exemplo, com respeito ao exercício da
racionalidade, o embrião é em potência, ou seja, existe uma possibilidade de se chegar ao
exercício racional no futuro. Contudo, isso não significa, que estamos diante de um homem
em potência no mesmo sentido de um homem possível. Pelo contrário, trata-se de um homem
efetivo e real e não possivelmente. O embrião humano é um ser de potência ativa destinado
desde a concepção a amadurecer aquilo que ele já é.525 Ele não é um ser provável ou possível,
mas um ser real. “Nunca se tornará humano se já não o é desde então.”526
Na constituição ontológica do ser humano a unidade existente entre espírito e corpo é
tão real que não pode haver atos humanos apenas no corpo ou apenas no espírito. É
exatamente por causa dessa união substancial com o espírito, que o corpo humano é
“humano” e não um simples complexo de órgãos, o que desautoriza a tratá-lo como mero
objeto ou coisa.
Foi visto anteriormente que o ser humano é ser individual de natureza racional
(espiritual). E é essa espiritualidade que o constitui como homem devendo ser respeitado em
sua dignidade e ter salvaguardada sua identidade como corpo e espírito unidos
simultaneamente no momento da concepção.
No que diz respeito a valorização do corpo, este não depende do estado físico em que
é encontrado, mas sim do fato de ser um corpo humano no qual o espírito está presente
animando-o. Neste sentido, pode-se dizer que um corpo humano que se encontra enfermo ou
deficiente, mesmo os casos de anencefalia fetal, deve gozar do mesmo valor, respeito,
dignidade e direitos que o corpo sadio. Esta maneira de pensar e analisar segue uma

                                                            
525
Cf. LUCAS LUCAS, Ramón. “O estatuto antropológico do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL
CORREA, Juan e SGRECCIA, Elio. Identidade e Estatuto do Embrião Humano, p. 218-220.
526
DV I,1.
165 

antropologia unitária que vê na corporeidade um elemento constituinte da humanidade e não


simplesmente um momento secundário de um processo de composição matéria e espírito, pois
do contrário seria uma antropologia de traços de dualismo dividindo o ser humano em duas
partes, uma vez que para esta o corpo é algo extrínseco à alma, ou ainda, a união entre o corpo
e a alma é meramente acidental.
Somente seguindo a sua verdadeira natureza é que a pessoa humana pode
realizar-se como “totalidade unificada”: ora, esta natureza é simultaneamente
corporal e espiritual. Por força da sua união substancial com uma alma
espiritual, o corpo humano não pode ser considerado apenas como um
conjunto de tecidos, órgãos e funções, nem pode ser avaliado com o mesmo
critério do corpo dos animais. Ele é parte constitutiva da pessoa que através
dele se manifesta e se exprime.527
A análise do ser humano constituído de corporeidade leva à conclusão de que o
embrião é um indivíduo da espécie humana, em outras palavras, um ser de natureza humana e
não de natureza canina ou felina ou outra qualquer: “Como um indivíduo humano não seria
pessoa humana?”528
Procurando resgatar o significado de natureza humana tal termo tem sua origem no
latim - natura – que, por sua vez, é a tradução da palavra grega physis. Em Aristóteles physis
tem dois sentidos fundamentais: o primeiro faz referência à totalidade do mundo físico
material, ao passo que o segundo indica a própria essência de alguma coisa: “todo ser tem uma
natureza que determina o seu lugar entre os seres e especifica o seu modo típico de agir. Aqui o termo
natureza não se limita ao ser material físico.”529 Então, o cachorro age como cachorro, o gato
como gato, o homem como homem.
Deste modo, pode-se afirmar que o termo natureza assume um significado todo
singular quando se refere ao ser humano. Sendo este de uma unidade substancial de
racionalidade e corporeidade, sua natureza não pode limitar-se à dimensão biológica, mas tem
como parte integrante e constitutivo do ser a dimensão espiritual – a racionalidade, de modo
que este diferencial o distingue de todos os outros seres. Assim, o homem sendo de uma
natureza humana, não é um gato nem uma árvore, mas um espírito encarnado de natureza
racional, na qual tanto sua corporeidade biológica como sua alma se acham essencialmente
presentes nesta unidade substancial.

                                                            
527
Idem, Introdução, 3.
528
DP 5.
529
LUCAS LUCAS, Ramón. “O estatuto antropológico do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL CORREA,
Juan e SGRECCIA, Elio. Identidade e Estatuto do Embrião Humano, p. 226.
166 

Há no homem atividades de caráter biológico e corpóreo explicáveis, como


nos animais, pela vitalidade vegetativo-sensorial; mas o mesmo sujeito, o
mesmo “eu” exerce também atividades de caráter imaterial, ou seja, de tal
gênero que, ainda que provocadas pela sensibilidade, são exercidas num
nível superior, imaterial: são a percepção das idéias universais, a
capacidade de reflexão e a liberdade (e, portanto, o amor em sentido
espiritual e altruísta). Tais atividades não se explicam senão por um
princípio, uma fonte de energia de ordem superior, não ligada à matéria,
uma fonte imaterial e, por isso, espiritual.530
Procurando estreitar a relação que existe entre “natureza humana” e “pessoa humana”,
a fim de justificar coerentemente a aplicabilidade do termo de pessoalidade ao embrião
humano, será feita uma recapitulação do significado do termo pessoa.
O termo pessoa, pouco usado até os primeiros séculos, passou a ser a palavra-chave
para o cristianismo dos primeiros séculos expressar o dogma do Deus uno que subsiste em
três Pessoas e o da Pessoa divina uma que subiste em duas naturezas. A partir do momento
em que a palavra pessoa foi escolhida para indicar aquilo que em Deus “é Três” e aquilo que
em Cristo “é Um”, foi necessário especificar o seu sentido.
Pessoa humana “é um sinônimo de ser humano individual. Por pessoa humana se busca
indicar tudo quanto é específico do homem, aquele eu o diferencia de outros seres, que é o fundamento
de sua dignidade e de seus direitos e que existe num indivíduo concreto.”531
A definição de Boécio – substância individual de natureza racional – foi utilizada por
São Tomás de Aquino, que a reformulou – indivíduo que subsiste numa natureza racional.
Essas definições identificam o termo pessoa humana com um indivíduo de natureza humana.
No intuito de entendermos melhor tal relação que existe entre os termos “natureza” e “pessoa
humana”, serão elucidadas brevemente os elementos dessa definição.
O primeiro elemento é o termo substância. Esse termo é a primeira categoria de
Aristóteles fazendo referência àquilo que está sendo em si mesmo, que pertence a si mesmo e
não a outro. No caso dos acidentes, estes pertencem à substância. Ainda falando sobre a
substância, esta é apenas um individual que não é o universal. Afinal, o universal não existe
na realidade; só existe o indivíduo.
O segundo elemento é o termo indivíduo. Quando se resgata a definição dada por
Boécio verifica-se como os conceitos de “indivíduo” e “pessoa” estão estreitamente

                                                            
530
SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e ética biomédica, vol. I. 2ª Ed., São Paulo: Loyola,
2002, p. 115.
531
Idem, p.229.
167 

relacionados. O caráter da individualidade é inerente ao conceito de pessoa. Neste horizonte, a


pessoa é a substância individual que sustenta-se por si mesma. Na definição de Tomás de
Aquino, tais termos estão inseridos no termo subsistens. “O que subsiste (subsistens) é uma
substância individual que forma um todo completo; portanto, o indivíduo é o sujeito que existe em si
mesmo como um todo.”532
Finalmente, o terceiro elemento é a natureza racional. Pode-se dizer que existem
muitos indivíduos subsistentes ou seres substanciais individuais, mas o que diferencia o ser
humano de qualquer outro ser substancial e o que autoriza a usar o termo pessoa é a posse da
razão, como elemento constitucional da natureza humana. A racionalidade, ao lado dos três
elementos citados em Boécio (substância, individualidade, natureza), é a característica
distintiva da pessoa com relação aos outros indivíduos substanciais.
Não é necessário que essa racionalidade esteja presente numa operação em
ato; basta que esteja presente como capacidade: assim, os que estão
dormindo, os deficientes e o feto são também pessoas. Esses dois aspectos,
subsistência e natureza racional, são indispensáveis para que se possa falar
da pessoa.533
Alguns autores, atualmente, preferem distinguir dois tipos de conceito de pessoa: o
conceito ontológico e o existencial. O primeiro está baseado na idéia de “natureza humana”,
de modo que, todo ser vivo que tenha essa natureza humana, pertence à espécie humana,
portanto, é pessoa. Nesse sentido, os direitos da pessoa humana são universais, isto é,
aplicáveis a todos sem exceção, e incondicionais, ou seja, valendo em qualquer condição em
que o indivíduo se encontra. No segundo conceito – “de existência humana” – diz que um ser
vivo pertencente à espécie humana só pode ser considerado pessoa se viver como se espera
que uma pessoa humana viva. Nesse segundo momento, tanto a universalidade quanto a
incondicionalidade do conceito de pessoa se esvaem, pois um feto que apresenta uma
deformação encefálica não é considerado pessoa humana, uma vez que a sua deficiência não
lhe permitirá ter uma vida humana normal. E mesmo que este nascituro venha nascer,
segundo a medicina é certo o falecimento deste momentos depois.534

                                                            
532
LUCAS LUCAS, Ramón. “O estatuto antropológico do embrião humano.” In: DE DIOS VIAL CORREA,
Juan e SGRECCIA, Elio. Identidade e Estatuto do Embrião Humano, p. 232.
533
Idem, p. 233.
534
Cf. LUIZ DE PAULA RAMOS, Dalton; M. PEREIRA DA SILVA, Mônica e COELHO FERNANDES
CALDATO, Milena. “A pessoa e a vida humana: um fundamento para a bioética.” In: LUIZ DE PAULA
RAMOS, Dalton (org.). Bioética Pessoa e Vida, pp. 42-43.
168 

A pessoa humana não pode ser definida pelas suas manifestações de racionalidade,
mas pelo contrário, a racionalidade ou a capacidade para a racionalidade se manifesta porque
tal indivíduo é uma pessoa, pois o agir segue o ser – agere sequitur esse.
Afirmar que o embrião humano anencéfalo não seria pessoa por ausência
de funções superiores (tais quais consciência e autoconsciência) significa
também afirmar que os doentes que perderam o uso das funções
intelectuais nãos seriam pessoas, mesmo exercendo as demais funções. Isso
contradiz a experiência comum e ofende a sensibilidade humana de tanta
gente que está ao lado de pessoas com deficiência grave, como, por
exemplo, os portadores de lesões cerebrais.535
Dentro deste mesmo horizonte, não é justificável a supressão do anencéfalo visando a
doação de seus órgãos, mesmo quando proposta para salvar outros seres de uma morte certa,
pois a sua reduzida expectativa de vida não limita os seus direitos e a sua dignidade de pessoa
humana. Fazer do anencéfalo um doador de órgãos simplesmente por considerar sua morte
como sendo iminente e inevitável equivale dizer que também numerosos outros casos
semelhantes, tais como, doentes terminais, doentes em estado vegetativo persistentes etc,
podem ser usados para transplantes de órgãos.536
Como já foi visto no item 1.4 sobre o amadurecimento da Igreja Católica ao longo da
história quanto ao momento em que começa a vida humana, a reflexão teológico-moral, na
etapa pré-científica, utilizou de duas categorias para discutir a questão da origem da pessoa
humana, a saber: a animação e a formação.
A caráter de conclusão e de recapitulação, a animação é compreendida como infusão
da alma criada diretamente por Deus no corpo humano formado pelos progenitores. O
desconhecimento científico do desenvolvimento inicial da vida humana levou a afirmações de
caráter ideológico. A tese de Aristóteles de que precisaria, primeiramente, da formação
suficiente da matéria ou do feto para receber a animação foi aceita. Segundo essa tese, o que
ocorria era uma sucessão progressiva das almas - sensitiva, animal e racional – para que desse
origem ao ser humano. Portanto, “considerou-se como começo da vida propriamente humana o
momento da infusão da alma racional no corpo humano.”537
No que diz respeito à etapa de formação, consistia no momento em que o feto se
encontrava preparado materialmente para receber a infusão da alma, ou seja, a animação.
                                                            
535
CIPRIANI, Giovanni. O embrião humano. Na fecundação o marco da vida. São Paulo: Paulinas, 2007, p.69.
536
Cf. idem, p. 71.
537
VIDAL, Marciano. Moral Cristã em tempos de relativismo e fundamentalismo. Aparecida: Santuário-SP,
2007, p. 87.
169 

Embasado em tal teoria aristotélica fazia-se uma distinção de quarenta dias para a formação
do feto masculino e oitenta dias para a formação do feto feminino.538
Nesta mesma época prevaleceu a interpretação da bíblia dos LXX mostrando que os
tradutores estavam informados das novidades da embriologia helênica ao traduzir para o
grego o seguinte texto de Êxodo:
Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa de aborto,
sem maior dano, o culpado será obrigado a indenizar o que lhe exigir o
marido da mulher; e pagará o que os árbitros determinarem. Mas se houver
dano grave, então darás vida por vida (Êx 21,22-23).
Tal interpretação fornecia uma dupla hipótese: a distinção entre o feto formado
(animado) e não formado (não animado), de modo que, o atentado contra o feto formado era
considerado eticamente um homicídio estando sujeito às penas canônicas, precisamente à
excomunhão, enquanto que o atentado contra o feto não formado não incorria em homicídio
estando livre das penas canônicas.539 Todavia, essa distinção, com consequências canônicas,
desapareceu com a Constituição Apostolica Sedia de Pio IX em 1869, como já foi
mencionado anteriormente no primeiro capítulo. A partir dessa data a Igreja lança a
penalidade de excomunhão sobre todo aborto provocado diretamente.
Mesmo que o Magistério oficial da Igreja não tenha se desprendido totalmente das
terminologias de “animação” e “formação” para referir-se ao momento em que começa a vida
humana, pode-se dizer, que a teologia católica atual já não fala de “animação” ou “infusão de
alma”, mas prefere usar o termo de hominização.
Essa razão teológica e a incorporação ao pensamento da antropologia
aristotélica (compreensão teológica hilemórfica e concepção peculiar da
embriologia humana) fizeram com que a tese da animação retardada fosse
a opinião mantida de forma generalizada durante a Idade Média.540
Com esses testemunhos pode-se verificar a certeza de dois pontos relevantes: em
primeiro lugar, que o povo de Deus, tanto na Bíblia quanto na Igreja sempre se comprometeu
a proteger a vida humana antes mesmo do seu nascimento; e em segundo lugar, procurando
discernir dos recursos da ciência da época qual a verdadeira situação do feto e que estatuto
ético e jurídico ele merece. Esta é a certeza que permanece em todos os tempos: na Bíblia e na
atitude da Igreja, a prática do aborto jamais foi autorizada.

                                                            
538
Cf. ibidem.
539
Cf. JOSAPHAT, Carlos. Ética Mundial. Esperança da Humanidade Globalizada. Petrópolis: Vozes, 2010, p.
408.
540
Idem, p. 89.
170 

Portanto, todos os homens de boa vontade, principalmente os cristãos marcados pelo


Evangelho da Vida anunciado por Cristo, são chamados a assumir a responsabilidade em
defender e promover a vida humana, do seu início ao fim.

3.4. O princípio da responsabilidade em defesa da vida humana

Diante das novas pesquisas e descobertas da biologia, o homem parece ter entrado em
uma nova época da sua história, quando se verifica que a manipulação do mundo nos seus
mais variados elementos naturais, caminha, paralelamente, sempre mais na manipulação do
homem ou da parte do homem, chegando ao ponto de uma manipulação descida ao nível da
própria vida humana nascente. Frente a esse quadro, faz-se urgente a responsabilidade do
homem no tocante ao resguardo da vida humana, sobretudo, daquela vida indefesa que ainda
está para nascer. Porém, o assumir tal responsabilidade pela vida humana se faz na busca e na
reflexão sincera dos valores e dos princípios morais como norteadores de cada ser humano.
Na Carta Encíclica Evangelium vitae Sua Santidade, o Papa João Paulo II, termina sua
introdução no último parágrafo definindo a Igreja como “povo da vida e pela a vida”:
A todos os membros da Igreja, povo da vida e pela vida, dirijo o mais
premente convite para que, juntos, possamos dar novos sinais de esperança
a este nosso mundo, esforçando-nos por que cresçam a justiça e a
solidariedade e se afirme uma nova cultura da vida humana, para a
edificação de uma autêntica civilização da verdade e do amor.541
Também no último capítulo deste referido documento, a saber, o capítulo IV, que trata
de apresentar a ação pastoral da Igreja em favor da vida humana, o pontífice usa a mesma
definição:
Somos o povo da vida, porque Deus, no seu amor generoso, deu-nos o
Evangelho da vida e, por este mesmo Evangelho, fomos transformados e
salvos (...). Interiormente renovados pela graça do Espírito, Senhor que dá
a vida, tornamo-nos um povo pela vida, e como tal somos chamados a
comportar-nos.542
Como já dizia o Papa Paulo VI: “Evangelizar constitui, de fato, a graça e a vocação própria
da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar.”543 E tal evangelização
também implica em anunciar o Evangelho da vida como parte integrante do Evangelho que é

                                                            
541
EV 6.
542
Idem, n. 79.
543
EN 14.
171 

Jesus Cristo. É deste evangelho que toda a Igreja está a serviço! “Estar a serviço da vida não é
para nós um título de glória, mas um dever que nasce da consciência de sermos o povo adquirido por
Deus para proclamar as suas obras maravilhosas.”544
Deste modo, este último capítulo da EV expõe a atuação eclesial da Igreja a favor da
vida humana fazendo menção à tríplice missão eclesial: profética, sacerdotal e real.
A evangelização é uma ação global e dinâmica que envolve a Igreja na sua
participação da missão profética, sacerdotal e real do Senhor Jesus. Por
isso, a evangelização compreende indivisivelmente as dimensões do
anúncio, da celebração e do serviço da caridade. É um ato profundamente
eclesial, que compreende todos os operários do Evangelho, cada um
segundo os seus carismas e o próprio ministério.545
A defesa e a promoção da vida humana, mesmo sendo um ato profundamente eclesial,
devem ser compreendidas e acolhidas como tarefa a ser desempenhada por todos os homens
independentemente de sua crença religiosa.546 Portanto, “são muitos os agentes, os meios e as
formas para realizar esta tríplice missão em favor do bem da vida.”547 “Todos juntos sentimos o dever
de anunciar o Evangelho da vida, de o celebrar na liturgia e na existência inteira, de o servir com as
diversas iniciativas e estruturas de apoio e promoção.”548
A saber, pode-se considerar a defesa da vida humana como responsabilidade dos
educadores, professores, catequistas, teólogos549, bem como a todo o pessoal da saúde:
médicos, farmacêuticos, enfermeiros, capelães, religiosos e religiosas, administradores e
voluntários, pois a sua profissão pede-lhes que sejam guardiães e servidores da vida
humana550.
Nos últimos tempos, com nossa responsabilidade de bispos, temos
frequentemente lembrado ao legislador e à opinião pública a sua obrigação
de proteger a vida humana, inclusive a vida pré-natal indefesa. E, apesar das
suspeitas públicas, não deixamos de falar de maneira clara e sem mal-
entendidos, chamando a atenção dos responsáveis políticos para essa
obrigação.551

                                                            
544
EV 79.
545
Idem, n. 78.
546
TEIXEIRA CUNHA, Jorge. Bioética breve. São Paulo: Paulus, 2002, p. 46.
547
VIDAL, Marciano. O Evangelho da vida. Para uma leitura da Evangelium vitae. São Paulo: Paulinas, 1998,
p. 131.
548
EV 79.
549
Cf. VIDAL, Marciano. Op. cit., p. 133.
550
Cf. idem, p. 136.
551
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Declarações de Conferências Episcopais. A
Igreja e o Aborto. Declaração da Conferência dos Bispos Alemães. Petrópolis-RJ: Vozes, 1972, p. 80.
172 

Todavia, a Evangelium Vitae destaca, de modo todo especial, a importância da família


na defesa da vida humana:552 “O amor conjugal fecundo exprime-se num serviço à vida em variadas
formas, sendo a geração e a educação as mais imediatas, próprias e insubstituíveis.”553
A família, dentro do projeto de Deus, é chamada a descobrir não somente a sua
identidade, mas também a sua missão: cuidar, revelar e comunicar o amor e a vida, através de
quatro atos fundamentais: 1. A formação de uma comunidade de pessoas; 2. O serviço à vida;
3. A participação no desenvolvimento da sociedade e 4. A participação na vida e na missão da
Igreja.554 “Ser como o santuário da vida, serva da vida, já que o direito à vida é a base de todos os
direitos humanos. Este serviço não se reduz só à procriação, é antes auxílio eficaz para transmitir e
educar em valores autenticamente humanos e cristãos.”555
Este é o objetivo deste último capítulo da EV: fazer uma exposição das práticas
pastorais da comunidade cristã a favor da vida humana nos diversos setores da própria
sociedade, como no meio educacional, da saúde, da política e da família.
Estas estruturas e lugares de serviço à vida, e todas as demais iniciativas de
apoio e solidariedade, que as diversas situações poderão sugerir em cada
ocasião, precisam ser animados por pessoas generosamente disponíveis e
profundamente conscientes de quão decisivo seja o Evangelho da vida para
o bem do indivíduo humano e da sociedade.556
Nesse sentido, a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe,
apresentou em seu texto conclusivo, algumas propostas de ações em defesa da vida humana,
que devem ser assumidas pelos discípulos-missionários de Jesus Cristo nos mais diversos
âmbitos:557
1. Os cursos que tratem a respeito da família e das questões éticas, devem continuar
sendo promovidos, tanto nas Conferências Episcopais, quanto nas dioceses, de modo que os
bispos e os agentes de pastorais tenham fundamentos para provocar e sustentar diálogos
sólidos a respeito dos inúmeros problemas que giram em torno da vida humana; 2. Investir na
formação dos presbíteros, diáconos, religiosos e leigos por meio de estudos universitários de
moral familiar, questões éticas e, na medida do possível, formações específicas de bioética; 3.
Procurar refletir, por meio de fóruns, painéis, seminários e congressos, sobre as diversas
temáticas atuais sobre a vida, e sobretudo a vida humana, especialmente no que se refere à
                                                            
552
Cf. idem, p. 131.
553
FC 41.
554
Cf. idem, n. 17.
555
CONFERÊNCIA EPISCOPAL LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Santo Domingo, n. 214.
DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos do CELAM.
556
EV 89.
557
Cf. DAp 469.
173 

defesa pela vida na sua origem e no seu término; 4. Promover no âmbito das universidades
católicas programas de bioética acessíveis a todos; 5. Criação de um comitê de ética e bioética
nas Conferências Episcopais a fim de estudar, discutir e atualizar a sociedade no debate
público; 6. Dispor aos casais programas de formação em paternidade responsável e como
fazer uso adequado dos métodos naturais de regulação da natalidade; 7. Oferecer assistência
pastoral, tanto àquelas mulheres que decidiram não abortar, como àquelas que praticaram o
aborto, no intuito de ajudá-las na cura de seus traumas, uma vez que a prática abortiva possui
duas vítimas, ou seja, a criança e a mãe; 8. Preparar leigos competentes que defendem a vida e
a família, de modo que sejam animados a participar em organismos nacionais e
internacionais; 9. Assegurar a incorporação da objeção de consciência nas legislações, de
modo que esta seja respeitada pelas administrações públicas.
No entanto, como as pessoas vivem em meio a uma sociedade pluralista no que diz
respeito ao modo de conceber a temática do aborto, sobretudo neste tempo presente em que se
vive, quando o próprio Congresso Brasileiro discute a possibilidade de ampliar o aborto para
os casos de fetos anencéfalos, a Igreja entende e assume a sua missão de promover uma
cultura da vida frente à cultura de morte, que tenta se expandir.
Existe distribuição massiva de anticoncepcionais, em sua grande maioria
abortivos. Imensos setores de mulheres são vítimas de programas de
esterilizações massivas. Também os homens sucumbem ante estas ameaças.
Nosso continente sofre as causas do imperialismo contraceptivo, que
consiste em impor a povos e culturas toda forma de contracepção,
esterilização e aborto, que se considera efetiva sem respeito às tradições
religiosas, étnicas e familiares de um povo ou cultura.558
Viu-se que no item 3.6 que a Igreja no Brasil tem realizado um admirável trabalho de
conscientização sobre a relevância de se discutir sobre tal questão. Muito tem se falado sobre
a possibilidade de ampliar a legalização do aborto no Brasil, mas como fazer tal reflexão
sobre o assunto? Aqui está o contributo da Igreja: lançar luzes em meio às sombras, que
muitas vezes tentam ofuscar as consciências, seja cristão ou não, pois existe um caminho
convergente neste debate, isto é, o caminho da ética filosófica ou aquilo que a própria Igreja
chama de lei natural como já comentado no item 3.3.
O respeito absoluto de cada vida humana inocente exige inclusive o
exercício da objeção de consciência frente ao aborto provocado e à
eutanásia. O “fazer morrer” nunca pode ser considerado um cuidado
                                                            
558
CONFERÊNCIA EPISCOPAL LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Santo Domingo, n. 219.
DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos do CELAM.
174 

médico, nem mesmo quando a intenção fosse apenas a de secundar um


pedido do paciente: pelo contrário, é a própria negação da profissão
médica, que se define como um apaixonado e vigoroso “sim” à vida.559
A pergunta fundamental para as questões de bioética, especialmente neste contexto
sobre o aborto em caso de anencefalia fetal é: o que é a vida humana?
Neste contexto, a vida não deve ser entendida no sentido amplo da palavra, ou seja,
das plantas, dos animais etc, mas no sentido especificamente humana, esta vida que é própria
e característica do homem como tal.560
Em termos sintéticos e elementares, pode-se afirmar que à luz da experiência universal
e da reta reflexão racional, a vida humana é um bem, um valor. À luz também da fé, a vida
humana se revela como um grande dom que vem de Deus criador: “Então Iahweh Deus modelou
o homem com a argila do solo, insulflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um
ser vivente (Gn 2,7).”
Os homens de toda parte são chamados pelas suas próprias consciências como eco da
voz divina, que aí ecoa561, a reconhecerem o quanto a vida humana sobre esta terra é preciosa,
e por este motivo, precisa ser protegida e promovida. “Trata-se, com efeito, de um valor que todo
se humano pode enxergar, mesmo com a luz da razão, e, por isso, diz necessariamente respeito a
todos.”562
O respeito à vida humana corre tanto perigo, que não é suficiente o senso de
responsabilidade do legislador. Não somente os cristãos fiéis, mas todos os
que contam a vida humana entre os maiores valores da sociedade, são
conclamados a não olharem calados e inativos as horríveis formas do
desrespeito a ela.563
A vida humana está sob a proteção de Deus (cf. Gn 4,10) e dela, Deus pedirá contas ao
homem: “Pedirei contas, porém, do sangue de cada um de vós. Pedirei contas a todos os animais e ao
homem, aos homens entre si, eu pedirei contas da alma do homem” (Gn 9,5-6). O mandamento de
Deus é categórico quanto ao assassínio: “não matarás” (Ex 20,13).
Nesse sentido, se de um lado, afirma-se que a vida é um dom que vem gratuitamente
de Deus, por um outro lado, trata-se de uma responsabilidade a ser desempenhada por parte de
todo ser humano. Recebida como um talento precioso (Cf. Mt 25,14-30), deve ser valorizada.

                                                            
559
Ibidem.
560
Cf. TETTAMANZI, Dionigi. Bioética. Nuove Frontiere Per L’Uomo. 2ª edição, Casale Monferrato-Italia,
Edizione Piemme, 1990, p. 55.
561
Cf. GS 16.
562
EV 101.
563
CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Declarações de Conferências Episcopais. A
Igreja e o Aborto. Declaração da Conferência dos Bispos Alemães, p. 80.
175 

O ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, também possui


altíssima dignidade que não podemos pisotear e que somos convocados a
respeitar e promover. A vida é presente gratuito de Deus, dom e tarefa que
devemos cuidar desde a concepção, em todas as suas etapas, até a morte
natural, sem relativismos.564
Também com relação à vida biológica deve-se fazer menção. A vida do corpo humano
é parte constitutiva e integrante do ser humano e que constitui uma parte fundante, no sentido
de ser o ponto de partida para a subsistência e para o desenvolvimento de todos os outros
valores e aspectos da pessoa: “A vida temporal é um bem fundamental, condição para todos os
demais bens.”565
Por outro lado, a vida humana não se reduz toda e somente a vida biológica: o homem,
enquanto ser espiritual, possui também uma vida psíquica e espiritual; e mais ainda, o homem
é chamado a viver uma relação transcendente com Deus e com sua vida divina.566
O homem na verdade não se engana quando se reconhece superior aos
elementos materiais e não se considera somente uma partícula da natureza ou
um elemento anônimo da cidade humana. Com efeito, por sua vida interior,
o homem excede a universalidade das coisas.567
É certamente legítimo, senão um dever, empenhar-se não por uma vida humana
“qualquer”, mas por uma vida humana que possui qualidade. No entanto, o que não pode ser
moralmente aceito, é que, em nome de uma falsa e ambígua concepção da qualidade de vida,
se termine por atentar ou por eliminar a vida humana como tal por ser considerada “vida sem
valor” para alguns casos. Esta vida estará sempre correndo riscos diante de interpretações
redutivas e unilaterais, sustentadas pelos defensores de um certo eugenismo que privilegia, em
termos mais ou menos exclusivos, os fatores físicos da vida humana, ou também algumas
qualidades psíquicas ou intelectuais, descuidando de outros valores não menos importantes e
significativos da pessoa. Na realidade, a vida humana não precisa de outras justificações para
ser respeitada, e logo defendida e promovida, a não ser a de ser “vida humana”.568
Os avanços científicos da biologia do desenvolvimento oferecem uma contribuição
inestimável no que diz respeito ao conceito de ‘individualidade somática, única e irrepetível’
do embrião humano em cada fase do estado de desenvolvimento intra-uterino e no conceito de
uma história individual, guiada por um preciso plano codificado no patrimônio genético
                                                            
564
DAp 464.
565
DsAP 9.
566
RH 15.
567
GS 14.
568
TETTAMANZI, Dionigi. Op. cit., p. 56.
176 

individual, adquirido no próprio momento da concepção. Além disso, a biologia do


desenvolvimento oferece a demonstração que não se verifica saltos quantitativos e
qualitativos de desenvolvimento, e que não há necessidade de nenhuma intervenção do
exterior que modifique o estado primitivo.569
A própria ciência genética atualmente tem demonstrado, que desde o primeiro instante
já se encontra traçado o programa daquilo que virá a ser o nascituro. Este novo indivíduo
possui em si mesmo as características já bem determinadas de um ser humano, de modo que,
o tempo se encarregará de concluir o que já começou a partir da fecundação.570 Portanto, “a
ciência atual, no seu estado mais evoluído, não dá apoio algum substancial aos defensores do aborto
(...), é já um homem aquele que o virá a ser.”571
A vida humana é dom e responsabilidade para o homem, mas qual é o fundamento e o
conteúdo da responsabilidade do homem no resguardo da vida?
O fundamento se situa no próprio homem assim como Deus o criou: criando-o a sua
imagem e semelhança, Deus o pôs no mundo da criação como “senhor”. O Concílio Vaticano
II escreve o seguinte: “As Sagradas Escrituras ensinam que o homem foi criado ‘a imagem de
Deus’, capaz de conhecer e amar seu Criador, que o constituiu senhor de todas as coisas terrenas para
que as dominasse e usasse, glorificando a Deus.”572
O senhorio do homem não é somente sobre as coisas terrenas (cf. Gn 1,28-30), mas é
também sobre a própria vida humana, como aparece na bênção do casal para a fecundidade:
“Deus os abençoou e lhes disse: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,
28b).
Além disso, o senhorio divino participado pelo homem toca o seu vértice no mundo da
liberdade e da responsabilidade que o homem recebe de Deus: “Desde o princípio ele criou o
homem e o abandonou nas mãos de sua própria decisão” (Eclo 15,14), e ainda, conforme disse o
Concílio Vaticano II:
O homem, porém, não pode voltar-se para o bem a não ser livremente (...). A
verdadeira liberdade, porém, é um sinal eminente da imagem de Deus no
homem. Pois Deus quis deixar ao homem o poder de decidir, para que assim
procure espontaneamente o seu Criador, a Ele adira livremente e chegue à
perfeição plena e feliz.573

                                                            
569
Ibidem.
570
DsAP 13
571
Ibidem.
572
GS 12.
573
Idem, 17.
177 

Porém, é profundamente e qualitativamente diferente o senhorio do homem sobre o


mundo das coisas terrenas e o senhorio sobre a sua própria vida. Sobre o primeiro o homem
tem um domínio assim dito “pleno”, enquanto todo o mundo material foi posto por Deus a
serviço do homem: por isso o mundo das coisas é sempre e só um mundo de “meios” que,
como tais, têm a razão de seu ser no serviço ao homem enquanto “fim”. Ao passo que, sobre o
mundo da vida humana, enquanto parte constitutiva do próprio homem, o domínio não é
pleno e ilimitado: o homem, segundo a tradicional terminologia moral, é aquele que usufrui
da vida humana, porque esta se põe na própria linha do “ser” do homem, e não simplesmente
na linha do “ter”.574
Neste sentido o homem pode assumir a sua vida unicamente na linha de uma crescente
“humanização”, e não como uma manipulação que a considere e a trate como uma “coisa”
possuída, como um “meio” ou um “objeto” do qual pode servir-se: “Nunca se pode tratar um
homem como simples meio de que se dispõe para alcançar um fim mais elevado.”575 Utilizar-se do
próprio ser humano como meio para satisfazer um benefício próprio ou comum dentro de uma
sociedade é sempre motivo de contradição no que diz respeito ao modo de conceber tal
senhorio e tal responsabilidade do ser humano sobre a vida humana.
Pela força desse senhorio, que o habilita e o empenha à responsabilidade sobre si
mesmo, sobre sua vida e o mundo, o homem é “pessoa”, possui nativamente e
inalienavelmente a dignidade de ser “fim” para si mesmo, estando subordinado somente a
Deus (cf. GS 24). Neste sentido, o ser humano assume a sua vocação de colaborador da
providência divina, provendo a si mesmo e aos outros:576
E o homem só é verdadeiro homem, na medida em que, senhor das suas
ações e juiz do valor destas, é autor do seu progresso, em conformidade com
a natureza que lhe deu o Criador, cujas possibilidades e exigências ele aceita
livremente.577
Em meio a tantas situações que ameaçam o ser humano e a sua vida neste mundo578, o
dominicano, doutor em Teologia, Frei Carlos Josaphat em seu livro - Ética Mundial.
Esperança da humanidade globalizada – menciona a responsabilidade e os valores que dela
derivam, como por exemplo, a participação e a solidariedade na vida social, como um valor

                                                            
574
TETTAMANZI, Dionigi. Bioetica. Nuove Frontiere Per L’Uomo. 2ª edição, Casale Monferrato-Italia,
Edizione Piemme, 1990, p. 59-60.
575
DsAP 9.
576
TETTAMANZI, Dionigi. Op. cit., p. 63.
577
PAULO VI. Carta Encíclica Populorum Progressio. Sobre o desenvolvimento dos povos. In:
DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos de Paulo VI. São Paulo: Paulus, 1997, 34.
578
RH 14.
178 

fundamental em direção a uma moral humana universal, sobretudo, no que diz respeito à
bioética e à ecologia.
Pode-se definir a responsabilidade como a realização plena e adulta da
liberdade, superando a alienação dos caprichos, das ambições e dos
interesses e abraçando com lucidez e amor o compromisso com os outros e
com a sociedade (...) Ela confirma e qualifica a aspiração à liberdade,
tornando-a um valor ético de base, dando-lhe o lugar de uma virtude
universal (...) No plano social, a responsabilidade será levada a se desdobrar
nas atitudes de participação e de partilha, inspirando-se no respeito da
dignidade da pessoa e na promoção do bem comum.579
Do mesmo modo, o filósofo alemão Hans Jonas (1903-1993) em seu livro mais
conhecido – O princípio responsabilidade de 1979 – diz: “Exprimindo-nos de forma extremada,
poderíamos dizer que a primeira de todas as responsabilidades é garantir a possibilidade de que haja
responsabilidade.”580 A sua reflexão é chamar a atenção de toda humanidade para a conscientização de
que a responsabilidade pela pessoa do outro é a última oportunidade para a sobrevivência da própria
humanidade: “O arquétipo de toda responsabilidade é aquela do homem pelo homem (...). A
reciprocidade está sempre presente, na medida em que, vivemos entre seres humanos, sou responsável
por alguém e também sou responsabilidade de outros.”581 E partindo desta relação primordial de
responsabilidade recíproca entre os próprios seres humanos, Jonas também chama a atenção
para a responsabilidade da natureza extra-humana, de modo que os interesses humanos devem
caminhar harmonicamente com o resto da vida no planeta, que é a sua pátria terrestre no
sentido mais sublime da expressão. Portanto, quando ele fala de que todos os seres humanos
são responsáveis pelo futuro da humanidade, simultaneamente está chamando a atenção para a
responsabilidade perante a natureza, que precisa ser preservada: ser responsável pelo ser
humano também equivale ser responsável por toda biosfera.582 Neste sentido, fazendo uma
alusão ao imperativo kantiano que dizia:
Age de tal maneira que o princípio de tua ação se transforme numa lei
universal, Jonas propõe um novo imperativo: Age de tal maneira que os
efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida

                                                            
579
JOSAPHAT, Carlos. Ética Mundial. Esperança da Humanidade Globalizada. Petrópolis: Vozes, 2010, p.
421-22.
580
JONAS, Hans. O princípio responsabilidade. Ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de
Janeiro: Contraponto: PUC-Rio, 2006, p. 177.
581
Idem, p. 175
582
Cf. idem, p. 229.
179 

humana autêntica ou formulado negativamente não ponhas em perigo a


continuidade indefinida da humanidade na terra.583
A proposta de responsabilidade trazida por Jonas representa o máximo de consciência possível
e uma concepção de ciência comprometida com a defesa de uma autêntica humanidade. Ele nos chama
a atenção para uma ética que sirva de orientação diante das capacidades extremas que hoje o ser
humano possui e que deve partir do princípio de responsabilidade levando em consideração os efeitos
de nossas ações, tanto sobre os outros seres humanos, quanto sobre a natureza tendo em vista a
preservação da própria humanidade.584
Citando ainda outro autor dentro de uma abordagem mais filosófica - Emmanuel
Lévinas (1906-1995) - suscita a reflexão sobre a necessidade e os caminhos de superação das
liberdades individuais, através da descoberta e do reconhecimento do outro.
Ao mostrar que o eu se determina na responsabilidade em interlocução com
os outros, Lévinas mostra que é ao responder ao apelo do outro que eu me
constituo enquanto sujeito (...). Usa a expressão ‘perseguição do outro’ do
qual eu me torno refém, já que ninguém pode se substituir a mim nessa
responsabilidade por ele (...). Diante da fragilidade do outro, ele é expulso do
ser, ele se “sente mal em sua pele” e questionado em sua “perseverança no
ser”, é impedido de repousar em si e “constrangido a se desprender de si”, “a
se despossuir até se perder.585
Em 2005, a UNESCO aprovou um importante documento de bioética, que trata sobre
as questões éticas relacionadas à medicina, às ciências da vida e às tecnologias associadas
quando aplicadas aos seres humanos, levando em conta suas dimensões sociais, legais e
ambientais. O documento - Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos – chama
a atenção para alguns pontos importantes como se pode verificar:
A capacidade exclusiva dos seres humanos de refletir sobre sua própria
existência e sobre o seu meio ambiente; de perceber a injustiça, de evitar o
perigo; de assumir responsabilidade; de buscar cooperação e de demonstrar o
sentido moral que dá expressão a princípios éticos.586
A responsabilidade de cada ser humano consigo mesmo é indissociável da
responsabilidade que se tem para com todos os homens. “O ser humano existe no mundo através
do cuidado. O cuidado inclui uma dimensão ontológica – é um modo de ser. Sem ele, deixa-se de ser
                                                            
583
EDUARDO DE SIQUEIRA, José. Ética e Tecnologia. Uma abordagem segundo o princípio da
responsabilidade de Hans Jonas. Londrina: Ed. UEL, 1998, p. 6.
584
SOUZA, Waldir. “O Princípio responsabilidade em Hans Jonas. Um desafio para a bioética numa contínua
transcendência.” Atualidade Teológica, Rio de Janeiro, ano XIV, n. 35, pp. 172-194, [maio/ago.] 2010, p. 176.
585
VICENTE CARRARA, Ozanan. Lévinas: Do sujeito ético ao sujeito político. Elementos para pensar a
política outramente. Aparecida-SP: Ideias e Letras, 2010, pp. 72-73.
586
PESSINI, Léo. Bioética. Um grito por dignidade de viver. São Paulo: Paulinas, 2006, pp. 29-30.
180 

humano. O ser humano é um ser que deve cuidar de si e dos outros.”587 Trata-se de uma
solidariedade que liga a todos, os homens e a natureza que nos cerca. Esta responsabilidade
que é imposta pede que se preserve a condição de existência da humanidade, mostra a
vulnerabilidade que o agir humano suscita a partir do momento em que ele se apresenta frente
à fragilidade natural da vida. A obrigação torna-se ainda maior por causa do poder de
transformação e da consciência que o ser humano tem de todos os possíveis prejuízos
decorrentes de suas ações. Portanto, é urgente a necessidade de um estatuto de
responsabilidade que vise a manutenção da vida humana e da extra-humana.588
Se a preservação da natureza significa preservar a vida humana, então, que esta
preservação da vida seja em todas as suas etapas, ou seja, de sua concepção até a sua morte
natural. É neste mesmo horizonte, que a Evangelium Vitae fala a respeito da questão
ecológica como sendo urgente a preservação do habitat natural das diversas espécies animais
e das várias formas de vida, como também nos fala da “ecologia humana”589, uma vez que,
“também o homem possui uma natureza, que deve respeitar e não pode manipular como lhe
apetece.”590

Conclusão

Não se pode deixar de considerar que a defesa da vida humana não se trata de um
princípio resultante da opinião de uma maioria, mas é algo inerente à própria natureza
humana. Neste sentido, não se trata de democracia aprovar uma lei que ameace, e até mesmo,
que viole a dignidade humana. Um dos fundamentos da República é a promoção e a defesa da
dignidade da pessoa, conforme se pode verificar na própria Constituição Federal Brasileira de
1988 no artigo 5, quando aponta o direito à vida como o primeiro de todos os direitos, sobre o
qual todos os outros direitos são construídos. A função da lei é defender a vida de todos,
especialmente dos mais indefesos e dos inocentes.
A legislação deve proteger a vida humana desde o seu início, porque, quando se olha
para o ser humano e se verifica em sua natureza uma constituição de corpo e espírito, se

                                                            
587
MOSER, Antônio. “Cuidado da terra. Ética do cuidado no contexto da criação.” Revista Eclesiástica
Brasileira, Petrópolis, v. 69, n. 273, pp. 01-256, [jan.] 2009, p. 138.
588
EDUARDO SIQUEIRA, José. “Bioética, Meio Ambiente e Vida Humana.” Revista Brasileira de Bioética,
Brasília, v.1, n. 3, pp. 248-256, 2005, p. 252.
589
EV 42; cf. PAULO II, João. Carta encíclica Centesimus annus, n. 38.
590
PAPA BENTO XVI. “Discurso no Parlamento alemão [Palácio Reichstag de Berlim, 22 de Setembro de
2011].” Disponível em:
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2011/september/documents/hf_ben-
xvi_spe_20110922_reichstag-berlin_po.html. Acesso em: 16 de fevereiro de 2012, 23:05.
181 

conclui que este possui uma superioridade entre todas as criaturas. A própria definição do
filósofo Boécio de pessoa humana, substância individual de natureza racional, demonstra a
realidade de dois aspectos integrados entre si: a corporeidade e a racionalidade. O ser humano
deve ser respeitado em sua dignidade e ter salvaguardada sua identidade como corpo e
espírito unidos simultaneamente no momento da concepção.
A corporeidade é o ponto de partida para se afirmar que o que é biológico no homem
não pode ser separado do que é humano, de modo que, o corpo que pertence à espécie humana
desde o momento da sua concepção se desenvolve sem deixar de ser o mesmo sujeito unitário
desse desenvolvimento. A corporeidade humana no zigoto traz em si o nascimento do corpo
humano contendo todos os elementos essenciais que mais tarde aparecerão no corpo adulto.
Um outro ponto a considerar é que a corporeidade não pertence à esfera do ter, mas à do ser,
ou seja, o corpo não deve ser concebido como algo que eu possuo, mas eu sou o meu corpo.
Portanto, a frase que muitas vezes se escuta por parte das gestantes, “o meu corpo é meu”,
deve ser corrigido para o seu verdadeiro sentido, “o meu corpo sou eu”. E a valorização do
corpo não pode depender do estado físico em que é encontrado, mas sim do fato de ser um
corpo humano no qual o espírito está presente animando-o. Neste sentido, se pode dizer que
um corpo humano que se encontra enfermo ou deficiente, mesmo os casos de anencefalia
fetal, deve gozar do mesmo valor, respeito, dignidade e direitos que o corpo sadio.
Sendo o ser humano de uma unidade substancial de racionalidade e corporeidade, sua
natureza não pode limitar-se à dimensão biológica, mas tem como parte integrante e
constitutivo do ser a dimensão espiritual, ou seja, a racionalidade, de modo que este
diferencial o distingue de todos os outros seres.
A consideração que se faz do embrião humano como pessoa humana, se justifica a
partir de uma distinção entre o conceito existencial do conceito ontológico. O conceito
existencial está embasado no aspecto fenomenológico: diz que um ser humano só pode ser
considerado pessoa se viver como se espera que uma pessoa humana viva. Portanto, se um
feto apresenta uma deformação encefálica, não é considerado pessoa humano, uma vez que a
sua deficiência não lhe permitirá ter uma vida humana normal. O conceito ontológico está
baseado na ideia de natureza humana, de modo que todo ser vivo que tenha essa natureza
humana, pertence à espécie humana, portanto, é pessoa.
A pessoa humana não pode ser definida pelas suas manifestações de racionalidades,
mas pelo contrário, a racionalidade ou a capacidade para a racionalidade se manifesta porque
tal indivíduo é uma pessoa.
182 

A melhor definição que possibilita repensar o conceito de pessoa no sentido amplo,


identificando-a com o ser humano real, é a definição tradicional, formulada, primeiro por
Boécio e completada por São Tomás de Aquino: a pessoa é a substância individual de
natureza racional, o que permite afirmar que o ser humano é uma pessoa em virtude de sua
natureza e não que se torna uma pessoa em virtude do exercício específico de certas funções,
como por exemplo, a capacidade relacional, sensibilidade e racionalidade. O homem não pode
ser reduzido a um feixe de fenômenos, como diz o funcionalismo empírico, porque senão ele
seria o seu próprio “fazer” e não seria um “ser”.
Mesmo que exista uma confusão entre ontologia e fenomenologia, o embrião e mesmo
o deficiente físico ou mental, que estejam privados de certas propriedades, tal manifestação
incompleta destas propriedades não modifica o estatuto ontológico, visto que a possibilidade
intrínseca de sua natureza continua a existir.
183 

Conclusão geral

A Igreja enviada por Cristo às nações para ser o sacramento universal da salvação,
esforça-se por anunciar o Evangelho a todos os homens chamados a uma plenitude de vida
que se estende para além das dimensões da sua existência terrena, porque consiste na
participação da própria vida de Deus. Por isso, nesta perspectiva de conclusão, reafirma-se a
sacralidade e a inviolabilidade da vida humana, especialmente a vida humana nascente,
entendida como dom de Deus, que deve ser assumida com responsabilidade.
A antropologia cristã busca na expressão “imago Dei” a fundamentação bíblico-
teológica do ser humano. E ser imagem de Deus é também ser imagem de Cristo, que é ele
mesmo, a própria imagem de Deus. Portanto, a conclusão que se objetiva alcançar com esta
respectiva dissertação, é que a justificativa do caráter de pessoalidade do ser humano, e por
este motivo, dotado de direitos, dentre os quais, o direito à vida, está na sua origem divina. De
modo que, todo ser humano vivo que pertence à espécie humana, e, consequentemente, é de
natureza humana, é pessoa, merecedora de proteção e respeito por parte de todos.
O princípio fundamental de defesa da vida humana radicado no próprio homem como
lei natural tem sido clarificado cada vez mais pela ciência, precisamente pela embriologia,
quando fez vir à tona, a compreensão ainda mais exata sobre a estrutura do embrião humano,
que no momento da fecundação, dá-se a formação de uma nova entidade biológica, ou seja,
com um novo genoma, dotado de uma vitalidade própria, orientado na direção de uma
progressiva aquisição de complexidade e que não pode mais regredir para estágios já
percorridos. Neste sentido, pode-se afirmar que o embrião é um ser da espécie humana; um
ser individual, um ser que possui em si mesmo a finalidade de se desenvolver como pessoa
humana e, ao mesmo tempo, a capacidade intrínseca de realizar tal desenvolvimento.
Tais afirmações, só fizeram com que a Igreja, que sempre tomou posição em defesa da
vida humana em todas as suas etapas, arrefecesse ainda mais a sua missão neste tempo
hodierno. Missão esta, que se faz, cada vez mais urgente, quando assistimos uma acelerada
evolução da ciência, e, consequentemente, das pesquisas no campo da biomedicina, que em
muitos casos, têm significado pesquisas sem critérios e sem limites, comprometendo a própria
dignidade da pessoa humana.
Partindo destas evidências que a própria ciência biológica fornece, pode-se fazer a
seguinte reivindicação em prol do próprio ser humano: deve ser respeitado e tratado como
uma pessoa desde a sua concepção e, por isso, desde esse mesmo momento, devem-lhe ser
184 

reconhecidos os direitos da pessoa, entre os quais e primeiro de todos, o direito inviolável de


cada ser humano inocente à vida.
Ao afirmar um estatuto do embrião como pessoa equivale dizer que há um ser da
espécie humana independentemente de sua maturidade biológica ou dos graus de
desenvolvimento físico, psíquico e social, ou ainda, do reconhecimento como tal por parte de
outras pessoas ou de legislações civis. Ser pessoa é uma condição ontológica inerente a cada
indivíduo da espécie humana e não uma condição psicológica ou sociológica.
Portanto, a afirmação que se faz a respeito da concepção cristã do ser humano criado à
imagem e semelhança de Deus é a de subsistência: o homem existe em si como ser único e
irrepetível. Sendo a pessoa uma substância individual de natureza racional, permite afirmar
que o ser humano é em virtude de sua própria natureza e não que se torna uma pessoa em
virtude do exercício específico de certas funções, o que, por sua vez, seria um reducionismo.
Com relação aos princípios constitucionais do ser humano, afirmam-se dois, de origem
e natureza completamente diferentes: uma constituição de ordem natural (o corpo) e uma
constituição de ordem sobrenatural (o espírito). É esta unidade substancial que confere à
pessoa o seu eu ontológico. De modo que, tal unidade do ser humano dá abertura a duas
considerações importantes: uma consideração de natureza antropológica, uma vez que,
qualquer intervenção sobre o corpo não alcança unicamente os tecidos, os órgãos com suas
funções e suas células, mas afeta, em diversos níveis a pessoa em si mesma; e uma
consideração de natureza ética, já que a pessoa é portadora de uma dignidade que lhe é
inerente à própria natureza e não concedida convencionalmente pela cultura ou por ideologias.
Neste sentido, pode-se afirmar, que jamais se deve valorizar o corpo e atuar sobre ele baseado
somente em critérios científicos e técnicos, mas, sobretudo, em critérios e princípios éticos
que estejam de acordo com a excelência da dignidade humana.
Uma situação paradoxal é a posição em favor da cultura de morte, especialmente o
aborto, em todo o mundo. O Estado, chamado a proteger a dignidade da pessoa humana na
sua totalidade, quando aprova a prática do aborto, deixa de ser democrático para se tornar
num verdadeiro tirano, sucumbindo dos mais fracos e indefesos em nome de um serviço de
utilidade pública, que na verdade não passa de interesses de alguns.
No Brasil, além dos dois casos de aborto autorizados pela justiça, se discute hoje em
dia no Congresso Nacional pela legalização do aborto direto de fetos anencéfalos, chegando
ao ponto de reduzir o ser humano se tem ou não cérebro em detrimento daquela realidade
espiritual, que é alma infusa por Deus no momento da concepção, momento este, que já
define a origem da vida humana. O direito à vida reconhecido pela própria sociedade, agora se
185 

torna substituído por outro “direito”, o de escolher pela morte de uma criança não nascida
segundo uma decisão da mãe.
Este subjetivismo narcisista, que tem exaltado a figura do homem como um ser
absoluto, tem gerado consequências desastrosas, e que acabam sendo revertidas contra a
própria figura humana, a começar pela sua autodestruição, uma vez que a vida constitui-se um
princípio fundamental da própria pessoa humana.
Tem se falado muito em liberdade de opinião no que se refere à livre legalização do
aborto, todavia, nunca se pode invocar tal liberdade para lesar os direitos dos outros,
especialmente o seu direito à vida. Esta concepção errônea de liberdade é absolutizada numa
perspectiva individualista do homem contrariando a sua dimensão relacional essencial. A
liberdade trata de um grande dom do Criador, quando colocada como deve ser a serviço da
pessoa e de sua realização mediante o dom de si e o acolhimento do outro.
Neste sentido, a liberdade jamais pode ser concebida desvinculada de uma verdade
objetiva e comum, que seja fundamento da vida pessoal e social, porque, caso contrário, a
convivência em sociedade fica profundamente deformada, pois a pessoa acaba por assumir
como única e indiscutível referência para as próprias decisões apenas a sua subjetiva opinião
ou, simplesmente, o seu interesse egoísta.
Colocar-se em defesa da vida contra o aborto, não significa que a Igreja está pensando
somente no nascituro, mas também está pensando na própria pessoa da mãe, que o traz no
ventre, uma vez que a prática do aborto não consiste num atentado somente contra o feto, mas
também num atentado contra a vida da mulher na sua dimensão corpórea e psíquica. São
muitos os efeitos desastrosos subsequentes a tal prática. Portanto, a defesa da vida assumida
pela Igreja não é uma apologia sem fundamentos, pelo contrário, se apoia no Evangelho da
Vida revelado por Cristo e transmitido nos séculos e nos recursos da ciência humana, para
que, nesta missionaridade, tudo seja revertido para o bem da própria humanidade, cuja Igreja
de Cristo é perita.
É relevante falar que, quanto se trata de pesquisas em termos de bioética, a Igreja não
está fechada a tais estudos e nem fazendo obstáculos ao progresso científico, como muitos
acabam pensando, mas a Igreja se torna grande incentivadora da bioética, desde que promova,
defenda e respeite a vida humana, pois a promoção do ser humano precisa ser o critério para a
vida do próprio homem na sua unidade substancial de corpo e alma. Portanto, não é
moralmente lícito utilizar, como meio, a pessoa humana para satisfazer os caprichos de
outros, por mais que se trate de uma vida que está sendo gerada no ventre de uma mãe, que,
186 

por sua vez, em muitos casos se acha no direito de escolher se deve ou não prosseguir com a
gravidez, sobretudo, quando a vida intra-uterina se encontra em situações de malformação.
Na Evangelium Vitae é latente a perspectiva de uma cultura em favor da vida humana,
mas também não poderia ser diferente, quando se pode verificar, que na mensagem
fundamental de Jesus, está visível, por gestos e palavras, esta mesma defesa da pessoa
humana. Ele chega ao ponto de entregar sua vida para que todos tenham vida nEle. E nesta
mesma dinâmica Ele também inseriu a sua Igreja: dar a vida pelos outros.
É partindo da consciência do valor absoluto da própria vida, que os homens serão
capazes de acolhê-la como dom, e que, por sua vez, exige ser administrado, respeitado,
defendido sempre numa atitude de serviço, de solidariedade e de amor também pela vida dos
outros. Neste sentido, ao mesmo tempo, que se tem um aspecto negativo do mandamento
“não matarás”, visto que coloca um limite a não ser ultrapassado no que tange a violação da
vida do outro, também possui um aspecto positivo de valorização e respeito da própria vida
humana. O imperativo “não matarás” também se torna para os membros do Corpo de Cristo,
que é a sua Igreja, o mandamento de promoção da vida humana em todas as suas etapas, do
início ao fim natural, mesmo quando marcada por precariedades e sofrimentos.
A defesa da vida humana não pode ser de responsabilidade somente da Igreja
entendida enquanto comunidade de cristãos, mas tal empreendimento precisa ser assumido
por todos os homens de boa vontade espalhados por todo o mundo, uma vez que tal
responsabilidade diz respeito a uma ética universal presente nas mais variadas culturas
humanas. No campo da bioética, a partir do momento em que a vida humana é biologicamente
certa, a responsabilidade moral em acolhê-la, defendê-la e promovê-la, se torna uma questão
de opção fundamental incondicional. E esta proteção da vida humana precisa ser garantida
pelas diversas legislações, quando se entende que a sua finalidade é proteger o ser humano de
todas as realidades que o ameaçam.
Portanto, apelar para o aborto não deve ser uma tentativa de solucionar uma
problemática apresentada pelo nascituro, neste caso, quando se trata de anencefalia fetal, mas
se trata de uma agressão ao princípio de igualdade entre os seres humanos, que assim ficam
divididos em duas “castas”, os “não-nascidos” e os já nascidos. Da mesma forma, expressa
uma forma terrível de preconceito a qual consiste em não aceitar que o outro seja diferente de
si próprio, sendo que não há diferença mais radical em um confronto interpessoal do que entre
um já nascido e um ser humano que ainda está em seu desenvolvimento físico intra-uterino.
Neste sentido, é de responsabilidade do governo oferecer assistência médico-hospitalar
187 

adequada às gestantes e aos recém-nascidos, especialmente aqueles que apresentam alguma


deficiência, seja de caráter físico, seja mental como é o caso dos anencéfalos.
188 

Bibliografia
SAGRADAS ESCRITURAS

1. Documentos do Magistério Universal da Igreja

1.1 Documento Conciliar

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et Spes. Sobre a Igreja no


mundo de hoje. In: COMPÊNDIO DO VATICANO II. 26ª edição, Petrópolis – RJ: Vozes,
1997.

1.2 Magistério Pontifício

LEÃO XIII. Carta Encíclica Rerum Novarum. 12ª edição, São Paulo: Paulinas, 2000.

JOÃO XXIII. Carta encíclica Pacem in Terris. A paz de todos os povos na base da verdade,
justiça, caridade e liberdade. In: DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos de João XXIII.
São Paulo: Paulus, 1998.

PAULO VI, Carta Apostólica Evangelii Nuntiandi. Sobre a evangelização do mundo


contemporâneo. In: DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos de Paulo VI. São Paulo:
Paulus, 1997.

_____ Carta encíclica Humanae Vitae. Sobre a regulação da natalidade. 5ª edição, São
Paulo: Paulinas, 1988.

_____ Carta Encíclica Populorum Progressio. Sobre o desenvolvimento dos povos. In:
DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos de Paulo VI. São Paulo: Paulus, 1997.

PAULO II, JOÃO. Carta encíclica Centesimus annus. In: DOCUMENTOS DA IGREJA.
Encíclicas de João Paulo II. São Paulo: Paulus, 1997.

_____ Carta encíclicaca Evangelium Vitae. Sobre o valor e a inviolabilidade da vida


humana. 6ª edição, São Paulo: Paulinas, 2009.

_____ Carta às Famílias. 6ª edição, São Paulo: Paulinas, 2005.

_____ Carta encíclica Fides et Ratio. Aos bispos da Igreja Católica sobre as relações entre fé
e razão. 13ª ed., São Paulo: Paulinas, 2010.

_____ Carta encíclica Redemptor Hominis. 6ª edição, São Paulo: Paulinas, 1990.

_____ Exortação apostólica A missão da família cristã no mundo de hoje. São Paulo:
Paulinas, 1982.

 
189 

BENTO XVI. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini. Sobre a Palavra de Deus
na vida e na missão da Igreja. 6ª edição, São Paulo: Paulinas, 2011.

1.3 Outros documentos eclesiásticos:

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Edição Popular, 8ª Edição, Petrópolis – RJ: Vozes,


1998.

CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. 15ª Edição, São Paulo: Loyola, 2002.

COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL. Em busca de uma ética universal. Novo


olhar sobre a lei natural. São Paulo: Paulinas, 2008.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre o respeito à vida humana


nascente e a dignidade da procriação. 5ª Edição, São Paulo: Paulinas, 2005.

_____ Declaração sobre o aborto provocado. In: DOCUMENTA. Documentos publicados


desde o Concílio Vaticano II até nossos dias (1965-2010). 1ª edição, Brasília: Edições CNBB,
2011.

_____ Esclarecimento da Congregação para a Doutrina da Fé sobre o aborto provocado. In:


DOCUMENTA. Documentos publicados desde o Concílio Vaticano II até nossos dias (1965-
2010). 1ª edição, Brasília: Edições CNBB, 2011.

_____ Instrução Dignitas Persone sobre algumas questões de bioética. In: DOCUMENTA.
Documentos publicados desde o Concílio Vaticano II até nossos dias (1965-2010). 1ª edição,
Brasília: Edições CNBB, 2011.

PONTIFICA ACCADEMIA PER LA VITA. Commento Interdisciplinare Allá Evangelium


Vitae. Vaticano: Libreria Editrice vaticana, 1997.

PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. Bíblia e Moral. Raízes bíblicas do agir cristão. São
Paulo: Paulinas, 2009.

PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da Doutrina Social da Igreja. 6ª


edição, São Paulo: Paulinas, 2010.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. Lexicon: Termos ambíguos e discutidos


sobre família, vida e questões éticas. 2ª edição, Brasília: Edições CNBB, 2007.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA. Sexualidade Humana: verdade e


significado. Orientações educativas em família. São Paulo: Paulus, 1996.

 
190 

1.4 Conferências Episcopais

CONFERÊNCIA EPISCOPAL LATINO-AMERICANO E DO CARIBE. Documentos da


Igreja. Documentos do CELAM. Conclusões das Conferências do Rio de Janeiro, Medellín,
Puebla e Santo Domingo. São Paulo: Paulus, 2004.

V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO AMERICANO E DO CARIBE.


Documento de Aparecida. 6ª edição, São Paulo: Paulus, 2008.

1.5 Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Declarações de Conferências


Episcopais. A Igreja e o Aborto. Petrópolis-RJ: Vozes, 1972.

_____ Instituto Nacional de Pastoral (org). A dignidade da vida humana e as biotecnologias.


Brasília: edições CNBB, 2006.

_____ Questões de Bioética. Estudos da CNBB, N. 98. 1ª edição, Brasília-DF: Edições


CNBB, 2010.

_____ Setor Família e Vida da CNBB (org). Questões de bioética: o valor, a beleza e a
dignidade da vida humana.

_____ Campanha da Fraternidade 2008. Texto-Base. São Paulo: Editora Salesiana, 2008.

2. Dicionários

ALBERTO RABAÇA, Carlos; GUIMARÃES BARBOSA, Gustavo. Dicionário de


Comunicação. 8ª edição, Rio de Janeiro: Elsevier, 2001.

ANTONIO JORGE, José. Dicionário Informativo Bíblico, Teológico e Litúrgico. Campinas-


SP: Editora Átomo, 1999.

AUDI, Robert (org.). Dicionário de Filosofia de Cambridge. São Paulo: Paulus, 2006.

CANTO-SPERBER, Monique (org). Dicionário de Ética e Filosofia Moral, vol. 1. São


Leopoldo–RS: Editora Unisinos, 2003.

CÉU COUTINHO, A. Dicionário Enciclopédico de Medicina. 3ª edição, Lisboa-Portugal:


Argo Editora, s. d.

CINÀ, Giuseppe, LOCCI, Efício, ROCCHETTA, Carlos e SANDRIN, Luciano (orgs.).


Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da
Saúde. São Paulo: Paulus, 1999.

 
191 

COMPAGNONI, Francesco; PIANA, Giannino; PRIVITERA, Salvatore. Dicionário de


Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 1997.

DICIONÁRIO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA. 1ª Edição, Rio de Janeiro:


Objetiva, 2009.

FRIES, Heinrich (org). Dicionário de Teologia. Conceitos Fundamentais da Teologia Atual,


vol. II. 2ª Ed. São Paulo: Loyola,1983.

LACOSTES, Jean-Yves. Dicionário Crítico de Teologia. São Paulo: Loyola; São Paulo:
Paulinas, 2004.

LEONE, Salvino; PRIVITERA, Salvatore e TEIXEIRA DA CUNHA, Jorge (org). Dicionário


de Bioética. Aparecida-SP: Editora Santuário, 2001.

MARCONDES FILHO, Ciro (org). Dicionário da Comunicação. São Paulo: Paulus, 2009.

VIDAL, Marciano. Dicionário de Moral. Dicionário de Ética Teológica. Aparecida-SP:


Santuário, s.d.

3. Livros

ANDRÉA LOYOLA, Maria (org.). Bioética. Reprodução e gênero na sociedade


contemporânea. Rio de Janeiro/Brasília: Letras Livres, 2005.

ÁNGEL FUENTES, Miguel. As Verdades Roubadas. 1ª edição em português, São Paulo:


IVEPRESS, 2007.

_____ Manual de Bioética. Roma: Ediciones Del Verbo Encarnado, 2006.

ALONSO SCHÖKEL, L. A Palavra Inspirada. A Bíblia à luz da ciência da linguagem. Belo


Horizonte: Loyola,1992.

BAPTISTA HERKENHOFF, João. Curso de Direitos Humanos. Aparecida-SP: Santuário,


2011.

_____ Gênese dos Direitos Humanos. 2ª edição, Aparecida-SP: 2002.

BARBERI, Piero. Aborto: Ponto de vista cristão. Petrópolis-RJ: Vozes, 1995.

BOURGUET, Vincent. O ser em gestação. Reflexões bioéticas sobre o embrião humano. São
Paulo: Loyola, 2002.

CAMACHO, Ildefonso. Doutrina Social da Igreja. Abordagem Histórica. São Paulo: Loyola,
1995.

 
192 

CAMARGO, Marculino. Ética, Vida e Saúde. 3ª edição, Petrópolis – RJ: Vozes, 1976.

CARLOS HOCH, Lothar e H. K. WONDRACEK, Karin (org.). Bioética. Avanços e dilemas


numa ótica interdisciplinar. Do início ao crepúsculo da vida: esperanças e temores.
Leopoldo-RS: Sinodal; EST; Fapergs, 2006.

CIPRIANI, Giovanni. O embrião humano. Na fecundação o marco da vida. São Paulo:


Paulinas, 2007.

CÓDIGO PENAL BRASILEIRO. 35ª edição, São Paulo: Saraiva, 1997.

CONSTITUIÇÃO de 1988. República Federativa do Brasil. Brasília: Centro Gráfico do


Senado Federal.

CHIAVACCI, Enrico. Breves lições de Bioética. São Paulo: Paulinas, 2004.

CLÁUDIO DE LIMA VAZ, Henrique. Antropologia Filosófica I. 5ª edição, São Paulo:


Loyola, 2000.

DE ANDRADE MARCONI, Marina e MARIA NEVES PRESOTTO, Zelia. Antropologia.


Uma Introdução. 6ª edição, São Paulo: Editora Atlas, 2005.

DE AQUINO, Tomás. Suma Teológica, parte I, questões 44-119. 2ª edição, São Paulo:
Loyola, 2002.

DE DIOS VIAL CORREA, Juan e SGRECCIA, Elio (orgs). Identidade e Estatuto do


Embrião Humano. Atas da Terceira Assembleia da Pontifícia Academia para a Vida. Bauru-
SP: Editora da Universidade do Sagrado Coração, 2007.

DENZINGER, Heinrich; Hünerman, Peter (DH). Compêndio dos Símbolos, Definições e


Declarações de Fé e Moral. São Paulo: Edições Loyola e Paulinas, 2007.

DESCLOS. Jean. O Resplendor da Verdadeira Liberdade. Anotações sobre a Veritatis


splendor. São Paulo: Paulinas,1998.

D. BOLZAN, Alejandro. Para uma ética da vida por nascer. Ética e manipulação da vida
humana por nascer no começo do século XXI. 1ª edição, São Paulo: Paulus, 2000.

DE PAULO DE BARCHIFONTAINE, Christian. Bioética e Início da Vida: alguns desafios.


São Paulo: Ideias e Letras, 2004.

DIDAQUÉ. O catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje. 6ª edição, São
Paulo: Paulus, 1989.

DURAND, Guy. Introdução geral à Bioética – História, Conceitos e Instrumentos. São


Paulo: Ed. Loyola, 2003.
 

 
193 

EDUARDO DE SIQUEIRA, José. Ética e Tecnologia. Uma abordagem segundo o princípio


da responsabilidade de Hans Jonas. Londrina: Ed. UEL, 1998.

FISCHER WOLLPERT, Rudolf. Os papas e o papado. De Pedro a Bento XVI. Petrópolis-RJ:


Vozes, 1985.

FRANCO MONTORO, André. Introdução à Ciência do Direito. 27ª edição, São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2008.

GAFO FERNÁNDEZ, Javier. 10 Palavras-Chave em Bioética. São Paulo: Paulinas, 2000.

HÄRING, Bernhard. Teologia Moral para o Terceiro Milênio. São Paulo: Paulinas, 1991.

HERMANN SCHELKLE, Karl. Teologia do Novo Testamento. Ethos Comportamento Moral


do Homem, vol. 4. São Paulo: Loyola, 1978.

HORTELANO, Antonio. Moral Alternativa. Manual de Teologia Moral. São Paulo: Paulus,
2000.

J. O’N EIL, Kevin e BLACK, Peter. Manual prático de moral. Guia para a vida do católico.
Aparecida-SP: Santuário, 2007.

JAIR LOPES, Claudinei. Manipulação da linguagem e linguagem da manipulação. São


Paulo: Paulinas, 2008.

JONAS, Hans. O princípio responsabilidade. Ensaio de uma ética para a civilização


tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-Rio, 2006.

JOSAPHAT, Carlos. Ética Mundial. Esperança da Humanidade Globalizada. Petrópolis:


Vozes, 2010.

JÚLIA KOVÁCS, Maria e ESSLINGER, Ingrid. Dilemas Éticos. São Paulo: Loyola, 2008.

KEESING, Feliz. Antropologia Cultural. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1972.

KROHLING, Aloísio. Direitos Humanos Fundamentais. Diálogo intercultural e democracia.


São Paulo: Paulus, 2009.

LÉON-DUFOUR, Xavier, DUPLACY, Jean, GEORGE, Augustin, GRELOT, Pierre,


GUILLET, Jacques, LACAN, Marc-François (orgs.). Vocabulário de Teologia Bíblica.
Petrópolis-RJ: Ed. Vozes, 1972.

LEPARGNEUR. Hubert. Bioética, novo conceito. A caminho do consenso. 2ª edição, São


Paulo: Loyola, 1996.

 
194 

LESBAUPIN, Ivo. As Classes Populares e os Direitos Humanos. Petrópolis-RJ: Vozes, 1984.

LOPES, Geraldo. Gaudium et Spes. Texto e comentário. São Paulo: Paulinas, 2011.

LÚCIA DE ARRUDA ARANHA, Maria e HELENA PIRES MARTINS, Maria. Filosofando.


Introdução à Filosofia. 2ª edição, São Paulo: Moderna, 1993.

LUIZ DE PAULA RAMOS, Dalton. Bioética Pessoa e Vida. 1ª edição, São Caetano do Sul-
SP: Ed. Difusão, 2009.

_____ (org). Um diálogo latino-americano. Bioética e Documento de Aparecida. 1ª edição,


São Caetano do Sul-SP: Ed. Difusão, 2009.

M. BASSO, Domingo e O. M. OBIGLIO, Hugo. Princípios de Bioética en el Catecismo de la


Iglesia Católica. Centro de Investigaciones en Ética Biomédica. Buenos Aires, 1993.

MARCELO COELHO, Mário. O que a Igreja ensina sobre... 4ª Edição, São Paulo: Canção
Nova, 2008.

MESQUITA GALVÃO, Antônio. Bioética. A Ética a serviço da Vida. Uma abordagem


multidisciplinar. Aparecida-SP: Santuário, 2004.

MONDIN, Battista. O Homem, quem é ele? Elementos de antropologia filosófica. 8ª edição,


São Paulo: Paulus, 1980.

NEDEL, José. Ética Aplicada. Pontos e contrapontos. São Leopoldo-RS: Ed. Unisinos, 2004.

P. MCBRIEN, Richard. Os papas. Os pontífices: de São Pedro a João Paulo II. 2ª edição,
São Paulo: Loyola, 2004.

PALAVRAS DO PAPA BENTO XVI NO BRASIL. São Paulo: Paulinas, 2007.

PESSINI, Léo. Bioética – Um grito por dignidade de viver. São Paulo: Paulinas, 2006.

PESSINI, Léo e DE PAUL DE BARCHIFONTAINE, Christian. Fundamentos da Bioética. 2ª


edição, São Paulo: Paulus, 1996.

_____ Problemas atuais de Bioética. 9ª edição, São Paulo: Loyola, 2010.

RAMPAZZO, Lino e CESAR DA SILVA, Paulo (orgs). Pessoa, Justiça Social e Bioética.
Campinas: Editora Alínea, 2009.

REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Antigüidade e Idade Média,


vol. I. 6ª edição, São Paulo: Paulus, 1990.

_____ Do Humanismo a Kant, vol. II. 2ª edição, São Paulo: Paulus, 1990.
 

 
195 

R. OVERBERG, Kenneth. Consciência em conflito. Como fazer escolhas morais. São Paulo:
Paulus, 1999.

ROQUE JUNGES, José. Bioética – Hermenêutica e casuística. São Paulo: Loyola, 2006.

RUSSO, Giovanni. Bioética em diálogo com os jovens. Lisboa: Paulus, 2010.

SCHROER, Silvia e STAUBLI, Thomas. Simbolismo do Corpo na Bíblia. São Paulo:


Paulinas, 2003.

SGRECCIA, Elio. Manual de Bioética. Fundamentos e ética biomédica, vol. I. 2ª Ed., São
Paulo: Loyola, 2002.

SPINSANTI, Sandro. Ética Biomédica. São Paulo: Paulinas, 1990.

SUESS, Paulo. Dicionário de Aparecida. 40 palavras-chave para uma leitura pastoral do


Documento de Aparecida. São Paulo: Paulus, 2007.

TEIXEIRA CUNHA, Jorge. Bioética breve. São Paulo: Paulus, 2002.

TETTAMANZI, Dionigi. Bioetica. Nuove Frontiere Per L’Uomo. 2ª edição, Casale


Monferrato-Italia, Edizione Piemme, 1990.

Vade Mecum, Constituição Federal Brasileira. 4ª Edição, São Paulo, Rideel, 2007.

VICENTE CARRARA, Ozanan. Lévinas: Do sujeito ético ao sujeito político. Elementos para
pensar a política outramente. Aparecida-SP: Ideias e Letras, 2010.

VIDAL, Marciano. Ética Teológica. Conceitos fundamentais. Petrópolis-RJ: Vozes, 1999.

_____ Moral Cristã em tempos de relativismos e fundamentalismos. Aparecida: Santuário-SP,


2007.

_____ Nova Moral Fundamental. O lar teológico da Ética. Aparecida-SP: Santuário e


Paulinas, 2003.

_____ Novos Caminhos da Moral. Da “Crise Moral” à “Moral Crítica”. São Paulo:
Paulinas, 1978.

_____ O Evangelho da vida. Para uma leitura da Evangelium Vitae. São Paulo: Paulinas,
1998.

_____ Para conhecer a Ética Cristã. São Paulo: Paulinas, 1993.

 
196 

WOJTYLA, Karol. Amor e Responsabilidade. Moral sexual e vida interpessoal. Braga-


Portugal: Editora A.O., 1979.

_____ Ele os criou Homem e Mulher. Reflexões de João Paulo II sobre a corporalidade e a
sexualidade humana à luz da Sagrada Escritura. São Paulo, Editora Cidade Nova, 1982.

4. Periódicos

AGOSTINI, Nilo. Ética: raiz do humano, coração da sociedade. Atualidade Teológica, Rio
de Janeiro, ano XI, n. 26, pp. 217-234, [maio/ago.] 2007.

ANTONIO LOPES RICCI, Luiz. Uma proposta de articulação e aproximação entre bioética,
mística e teologia moral. Atualização, Belo Horizonte-MG, ano XL, n. 347, pp. 547-574,
[nov./dez.] 2010.

_____ As políticas demográficas, planejamento familiar e questões bioéticas conexas.


Atualização, Belo Horizonte-MG, v. 38, n. 330-331, pp. 01-192, [jan./abr.] 2008.

AUGUSTO BARALDI, Ivan e MARIA DINIZ, Nilza. Reflexões sobre a interrupção da


gestação de feto anencéfalo. Revista Brasileira de Bioética, Brasília, v.3, n. 2, pp. 170-190,
2007.

BETTENCOURT, Estêvão. Objeção de Consciência: que é? Pergunte e Responderemos,


Rio de Janeiro, ano XLII, n. 527, pp. 224-227, [maio] 2006.

BRITO, Ricardo. Comissão do novo Código Penal amplia regras para aborto legal e
eutanásia. In: O Estado de São Paulo, 10 de março de 2012, A24.

CARLOS SANTINI, Antônio. O embrião aos olhos da Igreja. Atualização, Belo Horizonte-
MG, ano XXXVII, n. 329, pp. 483-575, [nov./dez.] 2007.

CORRÊA DA SILVA, Adriano. A aplicabilidade de pessoalidade é adequada na embriologia,


de modo a considerar o embrião humano uma pessoa? Revista de Cultura Teológica, São
Paulo, ano XIX, n. 73, pp. 11-27, [jan./mar.] 2011.

_____ O Magistério Católico e a defesa da vida humana na sua origem à luz do dado
científico. Revista de Cultura Teológica, São Paulo, ano XIX, n. 76, pp. 63-81, [out./dez.]
2011.

DE BARROS BARBOSA, Francisco. Evangelium Vitae: uma luz da bioética católica.


Análise e Síntese, Salvador-BA, v. 06, n. 11, pp. 11-217, [jan./jun.], 2007.

EDUARDO DE SIQUEIRA, José. Bioética, Meio Ambiente e Vida Humana. Revista


Brasileira de Bioética, Brasília, v.1, n. 3, pp. 248-256, 2005.

 
197 

FAITANIN, Paulo. Embriologia tomista: doutrina da animação e individuação do embrião


humano em Tomás de Aquino. Coletânea, Rio de Janeiro-RJ, v. 03, n. 06, pp. 151-297,
[jul./dez.] 2004.

I. STADELMANN, Luis. A vida na bíblia. Encontros Teológicos, Florianópolis-SC, v. 23, n.


01, pp. 01-189, [jan./abr.], 2008.

LEPARGNEUR, Hubert. A Igreja e o Reconhecimento dos Direitos Humanos na História (I).


Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis-RJ, v. 37, n. 145, pp. 159-184, [março] 1977.

_____ Disputa acerca da anencefalia. Atualização, Belo Horizonte-MG, v. 35, n. 312, pp. 01-
96, [jan./fev.] 2005.

LÖW, Lilly e AKIKO KOMURA HOGA, Luiza. Anticoncepção e aborto provocado na


gravidez não planejada. O Mundo da Saúde, São Paulo, ano 23, v. 23, n. 2, pp. 86-92,
[mar./abr.]1999.

MOSER, Antonio. Cuidado da Terra. Ética do cuidado no contexto da criação. Revista


Eclesiástica Brasileira, Petrópolis, v. 69, n. 273, pp. 01-256, [jan.] 2009.

NASCENTES DOS SANTOS, Tarcisio. Introdução ao discurso antropológico do Papa João


Paulo II (GS 22 e GS 24 no Programa do seu Pontificado). Coletânea, Rio de Janeiro-RJ, v.
04, n. 08, pp. 149-298, [jul./dez.] 2005.

OLIVEIRA FONSECA, Flaviano. Ética da responsabilidade em Hans Jonas e limites das


éticas tradicionais (Antropocêntricas). Revista Eclesiástica Brasileira, Petrópolis-RJ, v. 68,
n. 269, pp. 01-256, [jan.] 2008.

RANGEL, Paschoal. Uma polêmica inevitável: anencefalia e aborto. Atualização, Belo


Horizonte-MG, v. XL, n.343 e 344, pp. 105-277, [mar./jun.] 2010.

SOUZA, Waldir. O Princípio responsabilidade em Hans Jonas. Um desafio para a bioética


numa contínua transcendência. Atualidade Teológica, Rio de Janeiro, ano XIV, n. 35, pp.
172-194, [maio/ago.] 2010.

TERESA DE FREITAS CARDOSO. Maria. No sentido da vida. Em diálogo sobre a


prevenção do suicídio. Atualidade Teológica, Rio de Janeiro, ano XV, n. 38, pp. 315-334,
[maio/ago.] 2011.

 
198 

5. Artigos publicados por meio eletrônico

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. “Histórico das CFs [1964-1988]


e [1989-2012].” Disponível em: www.cnbb.org.br. Acesso em: 14 de março de 2012, 14:30.

_____ Pronunciamentos de 1988 a 1989 da 27ª Assembleia Geral (1989). “Um novo sim à
vida.” Itaici, São Paulo, 14 de abril de 1989. Disponível em: www.cnbb.org.br. Acesso em: 14
de março de 2010, 14:25.

_____ Pronunciamentos de 1990 a 1991 da 29ª Assembleia Geral (1991). “Vida para todos.”
Disponível em: www. cnbb.org.br. Acesso em: 14 de março de 2010, 16:15.

_____ Orientação da Presidência e da Comissão Episcopal de Pastoral (CEP) da CNBB aos


Católicos do Brasil. Documento da Presidência. “Ouvir o eco da vida.” Itaici – SP, 07 de maio
de 1992. Disponível em: www.cnbb.org.br. Acesso em: 14 de março de 2010, 13:45.

PAPA BENTO XVI. “Discurso no Parlamento alemão [Palácio Reichstag de Berlim, 22 de


Setembro de 2011].” Disponível em:
http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2011/september/documents/hf_ben-
xvi_spe_20110922_reichstag-berlin_po.html. Acesso em: 16 de fevereiro de 2012, 23:05.

PONTIFÍCIA ACADEMIA PARA A VIDA. Comunicado Geral da X Assembleia Geral da


Pontifícia Academia para a vida. “A dignidade da procriação humana e as tecnologias
reprodutivas. Aspectos antropológicos e éticos.” Disponível em:
http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_academies/acdlife/documents/rc_pont-
acd_life_doc_20040316_x-gen-assembly-final_po.html. Acesso em: 19 de fevereiro de 2012,
10:25.

RECONDO, Felipe. “Após sete anos, STF retoma processo que autoriza aborto de
anencéfalo.” Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso%2capos-sete-anos-
stf-retoma-processo-que-autoriza-aborto-de-anencefalo%2c681622%2c0.htm. Acesso em:
13/03/2012, 14:08.

SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração sobre o aborto


provocado. Disponível em:
www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/.../rc_con_cfaith_doc_19741118_declarati
on-abortion_po.ht... Acesso em: 10 de março de 2010, 10:30.

Você também pode gostar