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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO CEARÁ


Comarca de Fortaleza
36ª Vara Cível (SEJUD 1º Grau)
Rua Desembargador Floriano Benevides Magalhaes, 220, Edson Queiroz - CEP 60811-690, Fone:
(85)3492-8427, Fortaleza-CE - E-mail: for.36civel@tjce.jus.br

SENTENÇA

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjce.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0907977-56.2012.8.06.0001 e código 946525F.
Processo nº: 0907977-56.2012.8.06.0001
Classe: Procedimento Comum Cível
Assunto: Indenização por Dano Moral
Requerente e Lucio Goncalo de Alcantara e outro
Requerido: Ciro Ferreira Gomes

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por ANTONIA DILCE RODRIGUES FEIJAO, liberado nos autos em 19/07/2021 às 11:50 .
I – RELATÓRIO

LÚCIO GONÇALO DE ALCÂNTARA, por meio de procurador judicial,


ingressou com a presente AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS em face de
CIRO FERREIRA GOMES, todos qualificados nos autos, narrando que o requerido
proferiu palavras ofensivas ao autor, quando concedia uma entrevista veiculada em programa
de televisão, no dia 24/03/2012, intitulado "Memória Viva".

Relata que na ocasião o réu ofendeu a honra do autor, ao afirmar que, durante a
campanha eleitoral de 2010, o promovente teria autorizado o envio de notícia inverídica para a
revista Veja contra a pessoa do requerido e do seu irmão, então governador do Estado do
Ceará, urdindo uma trama em conjunto com outros pessoas para prejudicá-lo.

Aduz que durante a entrevista o requerido teria afirmado que estaria


processando o autor e este estaria se escondendo da Justiça por que não teria como se
defender, teria comparecido a uma audiência perante a justiça somente por que foi ameaçado
de comparecer debaixo de vara, para aprender e "largar de ser sem vergonha", negando o autor
tal fato.

Sustenta que as palavras do réu atingiram a honra do promovente, pois foram


ouvidas por telespectadores da TV O Povo em todo o Estado do Ceará, dando margem a
diversos comentários, tratando-se de palavras pesadas e desacompanhadas de provas e
fundamentos que possam de fato embasar tais assertivas.

Requer a condenação do demandado em reparação por danos morais, em valor


a ser fixado pelo juízo.

Com a inicial juntou a documentação de fls. 26/31.

O demandado ofereceu contestação às fls. 38/50, acompanhado de documentos


de fls. 51/78, alegando que as palavras proferidas pelo requerido possuem animus narrandi,
não demonstram qualquer intenção de malferir a integridade moral do autor, não houve dano a
honra do promovente, não havendo prova desse fato, o que inviabiliza a persecução de
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compensação financeira através de danos morais; o autor se trata de pessoa pública e está
sujeito a críticas expostas em meio de comunicação de grande circulação; é razoável inferir

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que ao longo de décadas de atuação política tenha adquirido certa resistência a estas,
especialmente quando proferidas por adversário político, como é o caso em questão.

Réplica às fls. 83/93, onde o autor afirma que pelo teor da contestação a
matéria de fato restou incontroversa, ante a demonstração de que o requerido foi o responsável
pelas agressões sofridos, não logrando êxito em justificar os motivos para tal atitude.

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Processo remetido a esse juízo em novembro de 2017, em cumprimento ao
determinado na Portaria 849/2017 da Diretoria do Fórum Clóvis Beviláqua, fl. 106.

Tentativa de composição amigável inexitosa, conforme termo de audiência de


fl. 122 e manifestação do réu às fls. 123/128.

Instrução processual com a oitiva das pessoas qualificados no termo de


audiência de fl. 146; razões finais na forma de memoriais escritos às fls. 149/161 e 162/170.

II – FUNDAMENTAÇÃO

A questão sub examen traz à lume direitos de caráter fundamental expressos


nos incisos IV, V e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. A liberdade de manifestação do
pensamento, vedado o anonimato; o asseguramento do direito de resposta, proporcional ao
agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; a liberdade de expressão
da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura
ou licença, são direitos constitucionais que revelam uma natural interação.

A Constituição Federal assegurou, em igual patamar, a liberdade de


pensamento e o direito à honra. Nem poderia ser diferente, tendo em vista que a própria
Constituição, ao criar o Estado Democrático de Direito, tomou como princípio estruturante a
dignidade da pessoa humana.

Como cotejar, então, esses dois valores fundamentais quando há aparente


colisão. Para iluminar a questão, colaciono o ensinamento de Alberto Silva Franco e outros:

“É, por isso, que na linha desse entendimento torna-se necessário analisar
os limites que desenham as esferas de atuação tanto do princípio da
liberdade de expressão, quanto do direito à honra. Não é fácil, nem simples,
o estabelecimento dessa linha de demarcação, máxime porque ela trilha um
terreno de consistência movediça. (...) A liberdade de expressão e a honra
não devem ser analisadas sob a ótica de valores abstratos, distantes de lances
conjunturais porque, nesse caso, não seria possível compatibilizá-los e não se
encontraria, assim, nenhuma solução para os conflitos eventualmente
surgidos. Nenhum direito fundamental, calcado na Constituição Federal,
possuem, em verdade, valência absoluta frente a outros direitos também
fundamentais. Assim, só a situação concreta poderá ensejar uma equilibrada
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e correta tomada de posição."1

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O Superior Tribunal de Justiça estabeleceu, para situações de conflito entre
referidos direitos fundamentais, entre outros, os seguintes elementos de ponderação: o
compromisso ético com a informação verossímil; a preservação dos chamados direitos da
personalidade, entre os quais incluem-se os direitos à honra, à imagem, à privacidade e à
intimidade; e a vedação de veiculação de crítica com intuito de difamar, injuriar ou caluniar a
pessoa (animus injuriandi vel diffamandi). Nesse sentido:

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RECURSO ESPECIAL. RESPONSABILIDADE CIVIL. 1. NEGATIVA DE
PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. 2. EMBARGOS
INFRINGENTES. DESNECESSÁRIA A ADSTRIÇÃO AOS FUNDAMENTOS
DO ACÓRDÃO EMBARGADO. LIMITAÇÃO SOMENTE QUANTO AOS
PONTOS A SEREM IMPUGNADOS. 3. REPARAÇÃO POR DANOS
MORAIS. MATÉRIA JORNALÍSTICA. ABUSO DO DIREITO DE
INFORMAR. AFRONTA AOS DIREITOS DE PERSONALIDADE.
INEXISTÊNCIA. AMBIENTE POLÍTICO MARCADO PELOS EMBATES
ENTRE AS PARTES CONTRÁRIAS. INFORMAÇÃO VEROSSÍMIL.
AUSÊNCIA DE ANIMUS INJURIANDI VEL DIFFAMANDI. 4.
RECURSO ESPECIAL PARCIALMENTE PROVIDO; RECURSO
ADESIVO PREJUDICADO.
1. Verifica-se que o Tribunal de origem analisou todas as questões relevantes
para a solução da lide de forma fundamentada, não havendo que se falar em
negativa de prestação jurisdicional. 2. "O órgão julgador dos embargos
infringentes não fica adstrito aos fundamentos do voto minoritário, devendo
apenas ater-se à diferença havida entre a conclusão dos votos vencedores e do
vencido, no julgamento da apelação ou da ação rescisória, de forma que é
facultada ao recorrente a utilização de razões diversas das expostas no voto
vencido" (REsp 1095840/TO, Relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira
Turma, julgado em 25/08/2009, DJe 15/9/2009). 3. Liberdade de informação e
proteção aos direitos da personalidade. O Superior Tribunal de Justiça
estabeleceu, para situações de conflito entre tais direitos fundamentais, entre
outros, os seguintes elementos de ponderação: a) o compromisso ético com a
informação verossímil; b) a preservação dos chamados direitos da
personalidade, entre os quais incluem-se os direitos à honra, à imagem, à
privacidade e à intimidade; e c) a vedação de veiculação de crítica
jornalística com intuito de difamar, injuriar ou caluniar a pessoa (animus
injuriandi vel diffamandi). A assunção de cargos corporativos ou públicos,
como a presidência de uma seccional da OAB, torna o sujeito uma pessoa
pública, com atuação de interesse de todos advogados, estando seus atos
sujeitos a maior exposição e mais suscetíveis à mitigação dos direitos de
personalidade, principalmente por estar incurso em um cenário político, com
intenso debate corporativo. Dentro desta perspectiva, o entrevistado não
extrapolou os limites da liberdade de pensamento nem se verificou o intuito de
atingir a honra da antiga presidente da OAB/DF, já que as informações
relacionaram-se a questões de interesse do órgão de classe, limitando-se a
1.Alberto Silva Franco e outros, in Leis Penais Especiais e sua Interpretação Jurisprudencial, vol. 2, 6ª edição,
pág. 1530.
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criticar, com cunho político, a gestão anterior, sem nenhuma menção


específica à pessoa da antiga presidente ou imputando alguma conduta

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desonrosa capaz de ensejar o dever de indenizar. 4. Recurso especial
parcialmente provido. Recurso adesivo prejudicado2.

Debruçando-nos sobre o fato concreto, deve-se logo consignar que o


promovido não nega que concedeu a entrevista ao Programa Memória Viva, exibido por meio
televisivo no dia 24 de maio de 2012, ao entrevistador e jornalista Ruy Lima, como também
não nega o relato apresentado pelo autor nas fls. 06/07, no caso, a transcrição de parte da

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entrevista concedida.

Do teor da entrevista, o autor destaca dois pontos que seriam os caracterizados


do ato ilícito: a afirmação de que o promovente teria autorizado envio de notícia inverídica a
Revista "Veja" contra a pessoa do réu; o demandado estaria processando o autor e esse estaria
se escondendo, pois não teria como se defender, teria comparecido a uma audiência perante a
justiça somente por que foi ameaçado de comparecer debaixo de vara, "que era para ele
aprender de 'largar de ser sem vergonha', fl. 05.

Sustenta o demandado que não teve a intenção de denegrir a imagem do autor,


tratando-se de animus narrandi, ou seja, somente teve a intenção de narrar um fato.

O promovido refere-se a queixa-crime movida por este contra o autor, em


setembro de 2010, conforme os documentos de fls. 55/78. A leitura da peça criminal indica
que os supostos fatos delituosos de calúnia, difamação e injúria, foram a divulgação no
programa eleitoral do autor, dos dias 20 e 22 de agosto de 2009 da reportagem da revista
"Veja" de que o demandado e seu irmão, Cid Ferreira Gomes, estariam sendo investigados por
supostos crimes de desvio de dinheiro de municípios no Estado do Ceará.

Na verdade, a queixa-crime não trata de suposto envio de matéria inverídica


pelo autor à revista Veja, somente há menção ao nome do autor na fl. 65 de que em uma
notícia veiculada no Jornal "O Povo" o jornalista Fábio Campos teria indagado sobre a
atuação do advogado Paulo Goyaz, na defesa do empresário Raimundo Morais Filho, suposto
denunciante de Ciro Gomes a revista Veja, mas o mencionado advogado também atuava nas
causas eleitorais de Lúcio Alcântara, adversário político do réu.

Dessa forma, na entrevista objeto da demanda não houve a narrativa de fato


objeto de uma ação criminal, tendo em vista que o demandado não acusa o autor pelo fato de
ter enviado matéria a revista Veja.

O segundo ponto destacado diz respeito ao fato de que o autor somente teria
comparecido ao processo criminal para ser ouvido "debaixo de vara", para o autor aprender e
"largar de ser sem vergonha". A expressão "debaixo de vara" deve ser interpretada no seu
contexto, e nele é patente que o réu afirma que o autor estaria se escusando de responder a
ação criminal, pois não teria como se defender.

2
REsp 1624388/DF, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em
07/03/2017, DJe 21/03/2017
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Já a expressão "largar de ser sem vergonha" foi proferida claramente com o


ânimo de insultar o autor, pois não informa ou narra qualquer fato.

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Ressalte-se que nenhuma das partes informou o resultado do julgamento da
ação criminal em que o autor figura como réu; também o demandado não logrou êxito em
demonstrar ter sido o autor a pessoa que teria autorizado o envio de notícia falsa sobre sua
pessoa. O depoimento das testemunhas nada acrescenta de relevante para o deslinde da causa,
pois apenas confirmam que o réu proferiu as palavras destacadas por ocasião da entrevista.

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As expressões do demandado em muito excedem ao direito de informar e da
livre manifestação do pensamento, pois contêm expressões que evidenciam o propósito de
difamar o seu adversário político, ofendendo, destarte, a honra e imagem do autor,
configurando o dano moral, conforme assente na jurisprudência e expresso no julgado abaixo
transcrito:

DIREITO CIVIL. RECURSO ESPECIAL. PUBLICAÇÃO DE MATÉRIA


JORNALÍSTICA CONSIDERADA LESIVA À HONRA DO AUTOR.
ADVERSÁRIO POLÍTICO. DANO MORAL CONFIGURADO.
INDENIZAÇÃO DEVIDA. DECLARAÇÕES DO RÉU QUE
TRANSBORDAM OS LIMITES DO DIREITO DE CRÍTICA. ABUSO DO
DIREITO. DANO MORAL CONFIGURADO. OFENSA A DIREITO DA
PERSONALIDADE. INDENIZAÇÃO DEVIDA.
1. O litígio revela, em certa medida, colisão entre dois direitos fundamentais,
consagrados tanto na Constituição Federal de 1988 quanto na legislação
infraconstitucional, como o direito à livre manifestação do pensamento, de
um lado, e a tutela dos direitos da personalidade, como a imagem e a honra,
de outro. 2. Embora seja livre a manifestação do pensamento - mormente em
épocas eleitorais, em que as críticas e os debates relativos a programas
políticos e problemas sociais são de suma importância, especialmente para
formação da convicção do eleitorado -, tal direito não é absoluto. Ao
contrário, encontra rédeas tão necessárias para a consolidação do Estado
Democrático de Direito quanto o direito à livre manifestação do pensamento.
São os direitos à honra e à imagem, ambos condensados na máxima
constitucional da dignidade da pessoa humana. 3. A liberdade de se
expressar, reclamar, criticar, enfim, de se exprimir, esbarra numa
condicionante ética, qual seja, o respeito ao próximo. O manto do direito de
manifestação não tolera abuso no uso de expressões que ofendam à
dignidade do ser humano; o exercício do direito de forma anormal ou
irregular deve sofrer reprimenda do ordenamento jurídico. 4. No caso, o que
se extrai da leitura dos excertos é, em suma, que o réu teria realizado
diretamente condutas ligadas a atos de improbidade administrativa e mau uso
de dinheiro público, seja ao custear viagem de membros do Ministério Público
à Suíça na busca de contas bancárias do recorrido, seja por superfaturar obra
pública do Estado, inclusive cometendo atos tipificados como crime,
unicamente com o suposto fim de perseguir o demandado. Salta aos olhos,
portanto, que não se trata de "simples manifestação do seu pensamento e do
exercício de seu legítimo direito de crítica", como pretende demonstrar. Ao
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reverso, pelo que se depreende, houve deliberada intenção de ofender a


honra e imagem do Governador do Estado de São Paulo, declaradamente

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adversário político do reclamado, e que na época disputava as eleições para o
mais alto cargo do Poder Executivo bandeirante, imputando a ele a pecha de
pessoa afeta ao cometimento de ilícitos penais e administrativos. 5. Recurso
especial provido. 3

O egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, por sua 3ª Câmara de


Direito Privado, já teve oportunidade de julgar demanda semelhante em que pessoa ocupante

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cargo público foi ofendida por expressões veiculadas em uma rede social e que excederam a
garantia de liberdade de expressão:

DIREITO CONSTITUCIONAL E CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL EM AÇÃO


DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. PRELIMINARES DE
CARÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO E DE CERCEAMENTO DE
DEFESA REJEITADAS. PARTE AUTORA SECRETÁRIA MUNICIPAL
DE EDUCAÇÃO DE AQUIRAZ. COMENTÁRIOS DILVULGADOS EM
REDE SOCIAL. FACEBOOK. LIBERDADE DE EXPRESSÃO (ART. 5º,
IV, DA CF) X DIREITO À HONRA, IMAGEM INTIMIDADE E VIDA
PRIVADA (ART. 5°, V E X DA CF). PONDERAÇÃO NO CASO
CONCRETO. IMPUTADA À PARTE AUTORA ENVOLVIMENTO COM A
PRÁTICA DE DESVIO DE VERBAS PÚBLICAS. MENSAGENS
PUBLICADAS PELO REQUERIDO EXTRAPOLAM A MERA CRÍTICA
POLÍTICA E LIBERDADE DE EXPRESSÃO. EXCESSO VERIFICADO
NAS POSTAGENS. OFENSA À HONRA E IMAGEM DA APELADA. ATO
ILÍCITO CONFIGURADO. ARTIGOS 186, 187 E 927 DO CC.
EXISTÊNCIA DO DEVER DE INDENIZAR. DANO MORAL
CONSTATADO. QUANTUM REDUZIDO DE R$17.600,00 (DEZESSETE
MIL E SEISCENTOS REAIS) PARA R$ 5.000,00 (CINCO MIL REAIS).
RAZOABILIDADE E PROPORCIONALIDADE. SENTENÇA
PARCIALMENTE REFORMADA. RECURSO CONHECIDO E
PARCIALMENTE PROVIDO.
1. Preliminar de carência de fundamentação. O princípio da fundamentação
das decisões judiciais, previsto no art. 93, inciso IX da CF/88, e art. 489, §1º,
IV, do CPC, prevê que a decisão judicial somente será considerada não
fundamentada quando não enfrentar todos os argumentos deduzidos capazes
de infirmar a conclusão do julgador. Entretanto, não se confunde a ausência
de fundamentação com a fundamentação sucinta, mas que possui contornos
suficientes que justifiquem a decisão prolatada pelo magistrado, conforme
ocorreu no caso concreto 2. Preliminar de cerceamento de defesa por ausência
de intimação para apresentação de memoriais. No Processo Civil, os
memoriais não são peça obrigatória, constituindo a oportunidade para as
partes se manifestarem acerca da prova testemunhal produzida. In casu, na
audiência de instrução, o magistrado determinou a conclusão para julgamento
e a parte nada opôs, não podendo, neste momento, alegar a nulidade por
ausência de intimação para oferecer razões finais. 3. Cinge-se a controvérsia
3. STJ - REsp 1169337/SP - Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em
18/11/2014, DJe 18/12/2014.
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recursal em verificar se as manifestações realizadas pelo promovido, nas


redes sociais, extrapolaram os limites da liberdade de expressão a ponto de

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ferir a honra e imagem da pessoa da autora, e, por conseguinte, geraram
direito à reparação por danos morais. 4. Inicialmente, cumpre registrar que
o direito à liberdade de manifestação do pensamento está consagrado na
Constituição da República de 1988 (art. 5º, IV), encontrando-se protegida,
portanto, a livre manifestação da opinião, e proibida a censura. A Carta
Magna, por outro lado, contrapõe à liberdade de expressão, direitos de iguais
valores, consistentes na inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da

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honra e da imagem das pessoas, assegurando direito de indenização pelos
danos material e moral decorrentes da violação de tais direitos (artigo 5º, V e
X). 5. Para a configuração do dano extrapatrimonial suscitado pelo
requerente, a vítima deve provar dolo ou culpa stricto sensu do agente em
denegrir sua imagem ao publicar, nas redes sociais, manifestações negativas
a seu respeito, segundo a teoria subjetiva adotada em nosso diploma civil,
nos termos dos artigos 927, 186 e 187 do CC. 6. Sustenta a parte autora que
teve sua honra ofendida por diversas ofensas praticadas pelo réu em
postagens realizadas através de rede social (Facebook), por meio de
expressões e acusações caluniosas e injuriosas a seu respeito, ofendendo a
sua honra e a sua dignidade. 7. Compulsando aos autos, verifica-se que
existiu Comissão Parlamentar de Inquérito -CPI instaurada pela Câmara
Municipal do Município de Aquiraz para apurar denúncias de eventual
ilicitude praticada no procedimento de desapropriação de um terreno onde
seria construído uma escola municipal e, em razão do seu cargo público, a
parte autora figurou como denunciada na referida CPI. 8. Diante das
peculiaridades que envolvem o caso sub judice, ainda que considerando o
conteúdo pessoal e político dos comentários contidos nas redes sociais do
apelante, verifica-se que houve excesso à liberdade de manifestação em clara
violação à honra e imagem da autora. 9. No caso em tela, resta evidenciada a
conduta (dolosa) do réu, que, ao utilizar a sua rede social (Facebook) veicula
informações e comentários que visam disseminar informações de que a parte
autora está envolvida em desvios de verbas públicas, integrando uma
quadrilha especializada em pilhar os cofres públicos, sem, contudo, haver a
comprovação e consequente condenação da requerente atinente às aludidas
práticas. Ademais, as mensagens publicadas pelo requerido extrapolam a
mera crítica política, ainda que eventualmente mais rígida, a exemplo da
conotação pejorativa dos termos "veaca" e "mais suja que pau de
galinheiro", que são agravadas pelo fato de terem sido proferidas em rede
social (Facebook) em ambiente virtual, o qual tem amplo poder de
divulgação e disseminação, conforme se verifica da vasta documentação
acostada aos autos às fls. 22/27 e 123/147. 10. Conforme asseverou o juízo de
origem, "as provas testemunhais colhidas em audiência de instrução
corroboram indubitavelmente a repercussão e disseminação das informações
prestadas pelo promovido, bem como a potencialidade lesiva capaz de
provocar o abalo experimentado pela autora por contra da conduta do
promovido ao desqualificar a imagem e a honra da requerente" 11. Portanto,
o dano resta caracterizado, uma vez que tais publicações ocasionaram
prejuízo da honra do agente, configurando, portanto, ato ilícito, porquanto
fls. 182

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violou o patrimônio jurídico personalíssimo do indivíduo (Art. 5°, V e X, da


CF), restando igualmente presente o nexo de causalidade no presente caso,

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uma vez que a parte autora sofreu os aludidos danos em razão dos atos
praticados pela ré. Sobre o tema, veja-se o entendimento jurisprudencial,
inclusive desta Egrégia Corte de Justiça: 12. Diante das peculiaridades do
caso concreto, bem quanto em atenção ao teor das expressões proferidas, o
quantum fixado em R$ R$17.600,00 (dezessete mil e seiscentos reais) merece
reforma para R$ 5.000,00 (cinco mil reais), posto que razoável e
proporcional para compensar o dano sofrido sem, contudo, implicar em

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enriquecimento sem causa, bem como possui caráter igualmente pedagógico.
13. Recurso conhecido e parcialmente provido4.

Conforme os julgados colacionados, mesmo no cenário de disputas eleitorais


ou políticas, os candidatos e seus apoiadores não estão imunes a obrigação de observar os
limites da garantia fundamental da liberdade de expressão e as demais normas constitucionais
e infra constitucionais, uma vez que nesse período não há "suspensão" do ordenamento
jurídico, todas as normas continuam válidas para todos, inclusive para aqueles que disputam
cargos eletivos.

Dispõe o artigo 186 do Código Civil que: aquele que, por ação ou omissão
voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito. Acrescentando o artigo 927: "Aquele que, por ato
ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo".

As expressões do demandado, exacerbando o direito de livre expressão e


manifestação do pensamento, macularam a honra e a imagem do autor, causando-lhe danos
morais, fazendo nascer a obrigação de reparação do dano.

Para a fixação do quantum indenizatório não existe parâmetro legal,


posicionando-se a doutrina e a jurisprudência pela utilização do princípio da razoabilidade,
observados alguns critérios como a situação econômica do autor do dano, a repercussão do
fato, a posição política, econômica e social da vítima, visando ainda compensar a vítima e
afligir razoavelmente o autor do dano, contudo, evitando qualquer possibilidade de patrocinar
enriquecimento sem causa.

Apreciando os elementos supra em cotejo com a prova dos autos, verifica-se


que o autor é um político que já exerceu diversos cargos públicos, dentre os quais o de
Governador do Estado do Ceará; enquanto o demandado trata-se também de politico de
renome nacional, que também já ocupou o cargo de Governador do Estado do Ceará.

A notícia foi veiculada em todo o Estado do Ceará, em programa televisivo, a


despeito das palavras serem ofensivas, o teor das mesmas não justifica que o réu seja
condenado a pagar valor acima de R$ 20.000,00 (vinte mil reis), o que considero razoável
para compensar o dano sofrido pela vítima, uma vez que não há prova da extensão do dano.

4
Apelação Cível nº 0098216-27.2015.8.06.0034, Relator (a): LIRA RAMOS DE OLIVEIRA; Órgão julgador:
3ª Câmara de Direito Privado, Data do julgamento: 16/09/2020; Data de registro: 16/09/2020
fls. 183

PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO CEARÁ


Comarca de Fortaleza
36ª Vara Cível (SEJUD 1º Grau)
Rua Desembargador Floriano Benevides Magalhaes, 220, Edson Queiroz - CEP 60811-690, Fone:
(85)3492-8427, Fortaleza-CE - E-mail: for.36civel@tjce.jus.br

III – DISPOSITIVO

Para conferir o original, acesse o site https://esaj.tjce.jus.br/pastadigital/pg/abrirConferenciaDocumento.do, informe o processo 0907977-56.2012.8.06.0001 e código 946525F.
Pelo exposto, JULGO PROCEDENTE o pedido do autor, e condeno o
promovido a indenizá-lo a título de reparação por dano moral, no valor de R$ 20.000,00
(vinte mil reis), incidindo juros de mora de 1% ao mês, a partir da citação, e correção
monetária pelo INPC a partir do arbitramento, na forma da súmula 362 do STJ, o que faço
com fundamento nos artigos 186 e 927 do Código Civil.
Condeno o promovido em custas processuais e honorários advocatícios, estes

Este documento é cópia do original, assinado digitalmente por ANTONIA DILCE RODRIGUES FEIJAO, liberado nos autos em 19/07/2021 às 11:50 .
no montante de 15% (quinze por cento) sobre o valor da condenação, conforme determina o
artigo 85, § 2º, do CPC.
Transitada esta em julgado, arquivem-se os autos com baixa na distribuição.
P. R. I.

Fortaleza/CE, 16 de julho de 2021.

Antonia Dilce Rodrigues Feijão


Juíza de Direito

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