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Belo Horizonte
2002
Prefeito de Belo Horizonte
Fernando Damata Pimentel

Secretária Municipal da Coordenação de Política Social


Maria José Vieira Féres

Secretária Municipal de Educação


Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva

Edição
Assessoria de Comunicação Social da Secretaria Municipal de Educação

Supervisão Editorial
Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura de Belo Horizonte

Secretaria Municipal de Educação


Rua Carangola, 288 - 7º andar - Bairro Santo Antônio
CEP 30330-240 - Belo Horizonte/MG
E-mail: smed@pbh.gov.br
“Não se pode olhar para trás em direção à escola
ancorada no passado, que se limitava a ler,
escrever, contar e receber passivamente um
banho de cultura geral. A nova cidadania que é
preciso formar exige, desde os primeiros anos da
escolarização, outro tipo de conhecimento e uma
participação mais ativa dos alunos no processo
de aprendizagem. É preciso pensar na escola do
presente-futuro e não do presente-passado, como
fazem muitas pessoas que sentem tanto mais
nostalgia do passado quanto maior é a magnitude
da mudança que se propõe.” 1 (Carbonell, 2002, p.16.)

Esta publicação é uma reedição dos cadernos da Escola Plural,


publicados entre 1994 e 1996, registros importantes de um
processo que, como todo processo, não tem fim, está sempre
sendo construído, e esta construção acontece quando
pensamos nossas práticas, refletimos e avaliamos nosso
trabalho concreto, diário, real.

O II Congresso Político-Pedagógico da Rede Municipal


de Ensino/Escola Plural será um momento desse processo,
o momento de pensar e refletir sobre o que cada escola está
fazendo, se pode ser diferente, se pode melhorar, se deve mudar.
A leitura e o estudo desses textos na escola, junto com nossos
colegas educadores, poderá nos ajudar a reler nossas práticas,
esclarecer nossas dúvidas, mudar, confirmar ou mexer com as
nossas posições. Eu acredito em uma formação de professores
que se dá na prática, a partir das nossas dificuldades, vivências,
dilemas. Só assim podemos rever nossas rotinas, refletir sobre
nosso ofício de educadores e transformadores do mundo para
vivermos, de verdade, em um lugar melhor.

A Escola Plural é um projeto que colocou para as escolas da


Rede Municipal novas possibilidades de organizar o trabalho
dos educadores. Mas a Escola Plural não é um projeto teórico,
ela só acontece na prática, durante as nossas atividades
escolares cotidianas. Por isso, a importância deste Congresso
para criar momentos de discussão, debate, reflexão na nossa
prática formadora. !
Que este Congresso nos possibilite, cada vez mais, a construção
da escola, onde crianças e jovens possam conviver em
igualdade de condições, respeitados nas suas diferenças e tendo
assegurado o direito a, como diz Jaume Carbonell, “(...) uma
aprendizagem sólida que lhes permita enfrentar criticamente
as mudanças aceleradas da atual sociedade da informação e
do conhecimento. Que os ajude a transitar com autonomia
por essa realidade, sem deixar-se enganar por ela; a contribuir
para embelezá-la e dignificá-la; e a sonhar com outro futuro
no qual, a partir da igualdade de fato e de direito, cresçam e
se projetem as diversidades”.

Bom trabalho,

Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva


Secretária Municipal de Educação

"
1
CARBONELL, Jaume. A aventura de inovar – a mudança na escola. Porto Alegre, Artmed, 2002.
SUMÁRIO
Escola Plural
Proposta Político-Pedagógica
Rede Municipal de Educação
Belo Horizonte - Outubro/94 (Caderno 0)..................................................................................07

Construindo uma Referência Curricular para a Escola Plural:


uma Reflexão Preliminar (Caderno 1)............................................................................................41

Proposta Curricular da Escola Plural:


Referências Norteadoras (Caderno 2)...........................................................................................79

Uma Proposta Curricular


para o 1º e o 2º Ciclos de Formação (Caderno 3).................................................................101

3º Ciclo:
Um Olhar Sobre a Adolescência
como Tempo de Formação (Caderno 5)....................................................................................127

EJA:
A Construção de Diretrizes
Político-Pedagógicas para a RME/BH...................................................................................155

Avaliação
Dos Processos Formadores dos Educandos (Caderno 4)......................................................191

Avaliação na Escola Plural:


Um Debate em Processo (Caderno 6)........................................................................................223

#
$
Escola Plural
Proposta Político-Pedagógica
Rede Municipal de Educação
Belo Horizonte - Outubro/94 %
Caderno 0
1ª Edição / 1994

Prefeito
Patrus Ananias de Sousa

Vice-prefeito
Célio de Castro

Secretária Municipal de Educação


Glaura Vasques de Miranda

Secretário Municipal Adjunto de Educação


Miguel Gonzáles Arroyo

Equipe responsável pela redação final deste documento


Miguel G. Arroyo – Coordenador
Iria Luisa de Castro Melgado
Isabel Cristina Alves Frade
Lúcia Helena Alvares Leite
Matilde Osória Rodriques Costa
Samira Zaidan

3ª Edição / 2002

Prefeito de Belo Horizonte


Fernando Damata Pimentel

Secretária Municipal da Coordenação de Política Social


Maria José Vieira Féres

Secretária Municipal de Educação


Maria do Pilar Lacerda Almeida e Silva

&
SUMÁRIO

Assumindo a Escola Emergente

I – Eixos Norteadores da Escola Plural

1º - Uma intervenção coletiva mais radical


2º - Sensibilidade com a totalidade da formação humana
3º - A escola como tempo de vivência cultural
4º - Escola experiência de produção coletiva
5º - As virtualidades educativas da materialidade da escola
6º - A vivência de cada idade de formação sem interrupção
7º - Socialização adequada a cada Idade-Ciclo de Formação
8º - Nova identidade da escola, nova identidade do seu profissional

II – Reorganização dos Tempos Escolares

1 - Organização dos tempos escolares hoje


2 - Experiência de nova lógica na Rede Municipal
3 - Na nova lógica dos tempos na Escola Plural
4 - Ciclos de Formação básica
5 - A organização do ciclo de educação básica que pretendemos
6 - Implementação da organização por ciclos de formação
7 - Organização dos tempos dos profissionais

III – Os Processos de Formação Plural

1 - O processo de aprendizagem: um processo global


Processos corporais e manuais
Processos socializadores
2 - Temas Transversais x Disciplinas Curriculares: um novo conceito de conteúdo escolar
3 - Projetos de trabalho:
Uma nova proposta de renovação pedagógica
Intervenção globalizante
4 - A organização de projetos de trabalho
5 - Um modelo de planejamento de um projeto de trabalho
Projeto: propaganda de brinquedos

IV – Avaliação na Escola Plural

1 - A avaliação hoje
2 - Avaliação na nova lógica
'
ASSUMINDO A ESCOLA EMERGENTE
Estamos devolvendo aos profissionais da Rede do caráter “transgressor” ou não legal, ainda que
Municipal, aos pais e alunos o retrato da escola legítimo de muitas dessas ações. Grades estão
que conseguimos captar nos inúmeros contatos que presas na Delegacia por serem inovadoras; cada
mantivemos com a comunidade escolar. Diante da ano podem ser cortadas experiências significativas...
seriedade dos Projetos Político-Pedagógicos das Nas inúmeras reuniões realizadas, um profissional
escolas e diante da pluralidade de ações manifestava sua indignação diante desse quadro:
significativas que são realizadas em cada sala de “por que temos que provar a cada governo que
aula, cada série, turno e área, a primeira sensação entra, a cada delegado e inspetor que o que estamos
é de estarmos diante de algo extremamente inovador. fazendo é coisa séria?” A resposta poderia ser esta:
A Rede Municipal de Belo Horizonte avançou muito porque essa multiplicidade de experiências
nos últimos anos, podendo ser considerada hoje emergentes não foi assumida como proposta da
pioneira no movimento de renovação pedagógica Rede, como Proposta de Governo.
iniciado no Brasil, desde o final dos anos 70. O Recolher os ricos materiais existentes nas escolas
grau de consciência e organização dos seus e construir coletivamente uma Proposta da Rede
profissionais foi, sem dúvida, um fator determinante. Municipal, assumida e garantida pelo Governo,
A luta pela autonomia e pela gestão democrática implica algumas sensibilidades políticas.
contribuiu para que cada comunidade escolar Implica ter cuidado para fortalecer e não
tentasse equacionar com realismo seus problemas enfraquecer a autonomia das escolas e das
e suas possibilidades de intervenção. Os Projetos experiências emergentes. Como? Primeiro,
Político-Pedagógicos são a melhor expressão desse assumindo as ações emergentes como instituídas,
trabalho sério e pioneiro. ou como constitutivas do Sistema Escolar e não
Na multiplicidade de reuniões que acontecem como periféricas à sua rígida estrutura tradicional.
nas escolas, percebemos que, além das medidas A insegurança de muitas escolas e de seus
propostas nos Projetos Político-Pedagógicos, muitas profissionais se dá porque o melhor de seus intentos
outras acontecem na sala de aula, nas oficinas, nas só pode acontecer em tempos e espaços extra-
equipes de área e, sobretudo, na maturidade de sistema, extraturno, em adendados, em dobras etc.
cada profissional. Há muitas surpresas guardadas Segundo, construindo uma direção mais coletiva
nas gavetas. A Rede nem sempre conhece toda a que legitime essa pluralidade de experiências
riqueza de ações significativas nela existente. A assumidas como Proposta de Governo, defendida
autonomia da escola pode levar a uma auto- perante os órgãos normativos e incorporada
imagem parcializada. É necessário reconstruir o politicamente como permanente e, não, pontual no
retrato total da Rede Municipal na multiplicidade equacionamento dos recursos, dos tempos, nos
de experiências emergentes. Estas têm de ser estatutos e planos de carreira dos seus profissionais
captadas pelos profissionais como totalidade. Não etc.
são fatos isolados deste ou daquele profissional, Com freqüência, somos cobrados de falta de
desta ou daquela escola. São materiais diversificados direção. Temos medo de não conseguir equacionar
que apontam nas mesmas direções; que direções direção com autonomia, possivelmente porque nos
são essas? Apontam novas lógicas; que lógicas são formamos no mesmo movimento social que acredita
essas? Apontam nova concepção de escola; que na construção democrática da socieclade, do
escola é essa? Estado e das instituições como a escola. O medo
Nas reuniões afloram essas questões. Aflora a não será o melhor conselheiro. Ele não poderá
vontade coletiva de captar os Eixos Norteadores de intimidar-nos nas tentativas de construir
escola que estão emergindo. Tentamos destacar coletivamente uma direção para a Rede Municipal,
esses Eixos Norteadores e estamos devolvendo nosso que é reivindicada hoje como necessária.
intento, para que a Rede Municipal, e não apenas O trabalho que devolvemos aos profissionais,
cada escola, se assuma como uma proposta pais e alunos segue a seguinte lógica:
coletiva. • 1º - recolhe e destaca a pluralidade de
Se a primeira impressão que as escolas dão é experiências emergentes na Rede Municipal;
 de orgulho dos profissionais diante da rica • 2º - tenta captar a direção coletiva apontada
pluralidade de ações emergentes, um contato mais nessas experiências;
próximo produz a impressão de insegurança diante • 3º - concretiza essa direção-coletiva em
propostas de intervenção na estrutura do nosso • 3º) Os conteúdos e processos. Tentamos
Sistema Escolar. captar como reorientar o que se ensina e aprende,
A construção deste trabalho que devolvemos às as concepções e práticas do que é considerado
escolas teve a participação de coletivos muito como o fazer diário: o processo de ensino-
diversos: diretores de educação das Regionais e aprendizagem. Que nova concepção e que novas
suas equipes, equipes do CAPE e da SMED, coletivos práticas emergem de nossas escolas;
de diretores de escola, de coordenadores de áreas,
de professores e professoras, de pais e mães, alunos • 4º) A avaliação. Destacamos a avaliação,
e alunas. É necessário avançar nessa construção processo polêmico, onde se concentram inúmeras
coletiva, discutindo cada ponto, cada eixo e corajosas experiências na Rede, peça-chave para
norteador, cada proposta de ação, cada estratégia qualquer proposta escolar inovadora.
etc.
O trabalho que estamos desenvolvendo, neste Ainda neste mês, esperamos poder devolver aos
primeiro momento, está centrado em quatro profissionais partes centrais do trabalho realizado,
núcleos que julgamos vertebradores da totalidade das experiências levantadas e das ações necessárias
da Proposta: para a construção coletiva da Proposta Escola
Plural. São aspectos centrais no dia-a-dia de nossas
• 1º) Eixos Norteadores da Escola que escolas: qualificação plural e permanente dos
queremos. Tentamos sintetizar as direções ou nortes profissionais; relações escola movimento sócio-
apontados como mais determinantes nas cultural; materialidade da escola; construção da
experiências da Rede. Acreditamos ter acertado ao escola democrática; formação técnico-profissional;
destacar a busca de uma escola mais Plural, daí o educação infantil; educação de jovens e adultos
mote da PROPOSTA ESCOLA PLURAL. (suplência, noturno regular, alfabetização);
educação especial; educação de 5ª a 8ª e 2º grau.
• 2º) Organização do trabalho ou a nova O trabalho que ora devolvemos aponta os eixos
lógica de organização dos tempos dos professores, norteadores não apenas das quatro primeiras séries
dos alunos e dos processos cotidianos. As da educação básica, mas de toda a Escola Plural
experiências emergentes não ficam na periferia do ou da totalidade de idades-níveis ou Ciclos de
dia-a-dia da escola, apontam novas lógicas no Formação. Em anexo, acompanha um calendário
ordenamento temporal do trabalho escolar. de ações previstas para dar continuidade, durante
este semestre, à construção coletiva de nossa
Proposta.


I - EIXOS NORTEADORES DA ESCOLA PLURAL
A Rede Municipal de Belo Horizonte, através de são um fato isolado de nossa Rede. Apontam
seus profissionais, está inserida no movimento de respostas sérias dos profissionais sensíveis aos
renovação pedagógica iniciado no Brasil, no final avanços dos direitos sociais. Apontam novas
da década de 70. concepções de educação escolar construídas pelo
Com audácia e profissionalismo, foram movimento democrático e pelo movimento de
espalhando-se nas escolas experiências renovação pedagógica. Movimentos que exigem
significativas. Poderíamos lembrar o movimento de novas respostas das instituições educacionais para
gestão democrática - eleição de diretores, a garantia do avanço dos direitos sociais de todos
organização dos colegiados, revitalização dos os cidadãos.
grêmios livres, o movimento de elaboração e Comecemos por explicitar o significado desse
implementação do projeto político-pedagógico das conjunto de ações emergentes que acontecem nas
escolas e dos subprojetos por áreas e nossas escolas. Elas apontam os EIXOS
problemáticas; o movimento de renovação NORTEADORES da construção coletiva da
metodológica, sobretudo na área de alfabetização; Proposta Político-Pedagógica que pretendemos para
o movimento de capacitação permanente dos toda a Rede Municipal.
profissionais nos locais de trabalho, através do
reordenamento dos tempos de formação (horários 1º) Uma Intervenção Coletiva mais
de estudo, pesquisa, projetos, produção). Radical
Nossas escolas inovaram nas estratégias de
novo ordenamento do tempo, salas-ambiente - Quando analisamos os Projetos Político-
aulas geminadas... ; as estratégias de reorganização Pedagógicos das escolas, logo percebemos que, em
de turnos (turmas intermediárias, turmas de tempo todos eles, há um objetivo central: reduzir a evasão,
integral); nas estratégias de continuidade e de a reprovação e a repetência. Os profissionais da
promoção, de aumento do tempo de escola, de educação, na medida em que avançaram no
diversificação de áreas/atividades, de diversificação reconhecimento e defesa de seus direitos, tornaram-
dos processos de avaliação... se mais sensíveis às desigualdades e aos múltiplos
Percebe-se que muitas dessas mudanças são processos de exclusão ainda persistentes na nossa
tidas como “transgressões” ao ordenamento sociedade e, sobretudo, na instituição de que são
institucional vigente. Elas sobrevivem pelo empenho responsáveis: a escola.
das escolas ou de grupos de profissionais sensíveis Muito se fez nos últimos anos. Avançamos na
às tendências pedagógicas atuais e, sobretudo, à democratização do acesso e na qualificação dos
necessidade de garantir a permanência dos alunos profissionais, na renovação dos currículos, métodos
e alunas numa experiência mais rica de educação. e material didático. Mas continuamos com
Essas experiências emergentes na Rede altíssimos índices de evasão e, sobretudo, de
Municipal apontam uma concepção de educação reprovação. Os setores populares não conseguem
e uma proposta de escola diferente do modelo percorrer uma experiência formadora sem
culturalmente aceito (internalizado como o “ideal”). interrupções, repetências e desajustes entre idade-
Entretanto, a escola culturalmente aceita, aquela série.
que vivemos como alunos e profissionais, A Rede Municipal de Belo Horizonte não
transformou-se numa instituição “tão aceita” que pretende aderir a propostas fáceis de promoção
sua imagem nos impede de considerar e legitimar automática, rebaixamento das exigências,
outras formas de organização. empobrecimento dos conteúdos para barateamento
Há uma tensão entre a escola “aceita” e a escola dos custos da educação popular. Mas também não
“emergente”. A Rede Municipal se propõe a assumir pretende acomodar-se e esperar que medidas de
a escola emergente. É o que os profissionais, pais e intervenção pontual alterem em alguns percentuais
alunos esperam: que, a partir dessas práticas esses índices. Não há como conviver com os
renovadoras das escolas, seja construída elevados e injustos índices de reprovação-exclusão
coletivamente uma Proposta Político-Pedagógica da do povo, em seu direito legítimo à educação.
 Rede como um todo e que essa proposta seja O fracasso escolar dos setores populares rebate
assumida pelo Governo Municipal. em nossa sensibilidade social e profissional, como
Essas mudanças no cotidiano da escola não um desafio a ser enfrentado com maior
radicalidade do que foi no passado. A proposta de Sistema Escolar, impondo currículos orientados
ESCOLA PLURAL pretende sintonizar-se com as basicamente ao domínio de habilidades e saberes,
experiências emergentes na Rede que apontam para para a inserção no mercado de trabalho. Outras
um diagnóstico mais global dos problemas e para dimensões da formação humana foram
uma intervenção coletiva mais radical: intervir nas marginalizadas.
estruturas excludentes do sistema escolar e na Nossa escola foi perdendo progressivamente
cultura que legitima essas estruturas excludentes e sua função socializadora, ao mesmo tempo em que
seletivas. as identidades sócio-culturais dos cidadãos se
Partimos da hipótese de que a estrutura de nosso diversificavam. Os movimentos de renovação
sistema escolar e a cultura que o legitima são pedagógica tentaram encurtar esse descompasso.
seletivas e excludentes. A nossa escola enquanto A Escola Nova, por exemplo, pretendeu abrir a
instituição - para além da boa vontade de seus escola à vida, simulando situações da vida real. Na
mestres - mantém a mesma ossatura rígida e década de 80, os profissionais se tornaram mais
excludente, desde que foi constituída há mais de sensíveis à diversidade de culturas, identidades e
um século. saberes e buscaram mecanismos de abrir a escola
De lá para cá, a consciência da igualdade de à diversidade da cultura e dos saberes dos alunos.
direitos avançou, mas o Estado e as instituições Atualmente, as propostas vão mais longe.
sociais continuam apegadas à velha lógica da Pretendem construir uma escola mais plural, em
exclusão e seletividade. Nossa escola não é duplo sentido:
democrática e igualitária. Peneira, exclui em nome
da lógica das precedências das séries, das Primeiro, sintonizada com a pluralidade de
avaliações, das médias, da uniformidade que não espaços e tempos sócio-culturais de que participam
reconhece as diferenças de ritmos de aprendizagem, os alunos, onde se socializam e formam.
de classe, de gênero, de raça, de cultura.... Segundo, alargando suas funções e recuperando
Pretendemos intervir nessa lógica e nessa sua condição de espaço-tempo de socialização e
estrutura escolar. Sabemos que nossa pretensão é individualização, de cultura e de construção de
mais arriscada do que deixar intacta a máquina identidades diversas.
que produz a exclusão e os altos índices de fracasso O movimento social atual, que recoloca o direito
de mais da metade das crianças, adolescentes e de todos à realização plena como sujeitos sócio-
até jovens e adultos dos setores populares. Guia- culturais, encontra eco em nossas instituições
nos a convicção de que concentrar os esforços da educativas. Elas se redefinem como espaços e
Rede Municipal de Belo Horizonte apenas em tempos de vivência desses direitos.
minorar os estragos, os efeitos em algumas
porcentagens cada ano, sem ir à raiz do problema A onilateralidade versus a unilateralidade da
não é a melhor forma de garantir o direito popular formação humana.
à educação e à cultura. Propomos construir O tempo de escola é encarado cada vez mais
coletivamente um novo ordenamento para a como oportunidade de uma socialização-vivência
Educação Básica da Rede Municipal, que seja mais o mais plena possível dos profissionais e dos alunos.
democrático e igualitário do que o atual. Há novas dimensões da formação humana
recolocadas hoje nas lutas pelo direito à educação.
2º) Sensibilidade com a Totalidade da Nossas escolas estão sintonizadas com esse
Formação Humana movimento. A estreita concepção de educação está
sendo alargada dentro delas.
Os movimentos democráticos e de renovação Novas dimensões da formação dos profissionais
pedagógica criticam os sistemas escolares por e dos alunos tentam encontrar espaços legítimos
terem perdido a pluralidade de funções sócio- nos currículos das nossas escolas. Temos
culturais que a sociedade deles espera. experiências de trabalho que ultrapassam os limites
Podemos detectar um descompasso entre a dos conteúdos curriculares: trabalhos
escola e o movimento social. Este exigindo das interdisciplinares com temas comuns; projetos que
instituições educacionais uma formação mais plural. articulam arte e alfabetização, matemática e
Aquela fechando-se na educação de aspectos produção de textos; temos projetos - oficinas e
!
singulares. práticas que resgatam a história da comunidade, a
A Lei 5.692/71, ainda em vigor, estreitou nosso alegria na escola, a educação sexual, as identidades
étnicas, a cultura etc. projeto integrado de literatura infantil - educação
São inúmeras as práticas que tentam alargar a física - educação artística etc.
estreita concepção de educação ainda vigente. As escolas tentam alargar seus rígidos tempos
Novas dimensões da formação dos alunos, alunas para incorporar oficinas de teatro, aulas de
e profissionais pressionam para ter um lugar legítimo capoeira, educação corporal com alunos e mães,
nos Projetos Político-Pedagógicos das escolas. Cada semanas do folclore, da mulher, da violência, da
área e cada grupo de educadores poderá identificar questão social, festival de dança, recreios culturais,
inúmeras ações, que apontam essa sensibilidade celebrações, meninos no parque: “ciranda
crescente com a pluralidade das dimensões da mágica“,“pinta e borda“, “mãos à terra“, “resgate
formação humana das crianças e jovens e dos do recreio“, “coral“.
próprios profissionais. A escola se abre como espaço cultural da
comunidade: festas; jogos entre pais, alunos,
3º) A Escola como Tempo de Vivência professores; resgate da história e cultura da
Cultural comunidade; extensão da educação artística à
comunidade.
Estamos num momento histórico de grande São ações que apontam uma nova escola
sensibilidade perante a realização do ser humano articulada com a produção cultural da cidade, com
como sujeito cultural. As instituições escolares se os diversos grupos e com os organismos públicos,
distanciaram da cultura, de seus processos de suas programações e manifestações. Uma escola
produção e manifestação. Elas já foram espaços que multiplica seus tempos culturais. Que abre seus
mais fortes de cultura. Já estiveram mais abertas currículos às dimensões culturais que os
às vivências culturais da nação, das comunidades, transpassam. A cultura não é mais encerrada num
dos grupos sociais. horário da grade curricular nem nas habilitações
Ainda ficam, no cotidiano das escolas, de um profissional. A totalidade da experiência
sobretudo nas primeiras séries, tempos-rituais- escolar passa a ser cultural.
celebrações que abrem espaços para vivências
culturais, mas estão marginalizados. São 4º) Escola Experiência de Produção
considerados tempos perdidos, roubados ao Coletiva
escasso tempo de ensino-aprendizagem. São
considerados como coisa de crianças. Não são A experiência escolar tradicional, tanto para o
explorados como tempos fortes de formação- aluno como para o professor, tem-se concentrado
vivência cultural para todas as idades de formação. na transmissão-recepção de informações e saberes.
A escola está fechada em si mesma em seus Uma educação bancária. Entretanto as pessoas
rituais de transmissão, promoção - retenção, apenas se formam na medida em que participam
enquanto a cidade recria sua cultura, seus valores do processo de sua produção. Constroem-se
éticos e cria novos tempos-espaços, novos rituais participando na produção da própria existência e
públicos de vivências culturais. Uma das demandas na construção da cidade, do conhecimento, dos
mais atuais é por espaços públicos que permitam a valores, da cultura...
vivência coletiva, recriação e expressão da cultura. Nossas escolas avançaram bastante nessa
Nossas escolas vêm avançando na recuperação de direção: temos experiências de discussão e
sua função de espaço público privilegiado de cultura. produção coletiva das normas disciplinares;
Não apenas os professores das áreas de arte trabalhos em parceria entre disciplinas e áreas, entre
conseguiram maiores espaços. A maioria dos professores e alunos na produção de material
profissionais tenta vincular sua área do pedagógico, textos e livros, na gestão coletiva, na
conhecimento com as dimensões culturais. Temos troca de informações e estudos, nos projetos de
experiências que vinculam o cotidiano e o lúdico, suplência etc.
arte e biblioteca, criatividade e alegria, arte e A discussão, elaboração e aprovação dos
alfabetização, cultura e folclore, literatura, teatro e Projetos Político-Pedagógicos das escolas, as
expressão corporal, cultura e higiene bucal, oficinas, os grupos de estudo, os horários de projeto
aprendizagem e valores sociais da criança, são práticas, entre outras, que vão criando um novo
" identidade e percepção do espaço social, cultura e estilo e uma nova cultura de construção coletiva do
consciência negra, arte e reciclagem do lixo, oficinas cotidiano da escola.
de artes - textos - matemáticas - fantoches - jogos, As instituições escolares sabem que só serão
educativas na medida em que se constituírem como
centros de formação coletiva. É nessa tarefa que
elas adquirem sua identidade e sua autonomia mais
plena. É nessa formação coletiva que os profissionais
e alunos se afirmam como sujeitos plurais.
Uma análise dos Projetos Político-Pedagógicos
construídos e aprovados pelas escolas da Rede
Municipal mostra quanto se avançou nesta direção.
Foram eles um momento rico de construção coletiva.
E mais, todos se propõem a formação do cidadão
para a participação na sociedade. Todos esses
Projetos apontam que a escola formará esses
sujeitos coletivos na medida em que os torna
participes da construção de espaços escolares
humanizados. Na medida em que o tempo de
escola propicie vivências coletivas de valores, de
interações, de linguagens múltiplas, de
comunicação, de pesquisa - produção, de interação
com a cidade, com a multiplicidade de processos A escola foi se constituindo como uma instituição
de produção - reprodução da existência externa à estruturada de espaços, tempos, rituais, lógicas,
escola. precedências, séries, disciplinas e grades. A escola
A participação nos movimentos sociais dos pais, administra mecanismos regulados de transmissão,
comunidade, alunos, profissionais, auxiliares só avaliação, promoção e retenção. Administra o
adquire sentido pleno numa construção da escola trabalho de seus profissionais e o submete a uma
enquanto processo coletivo de formação. divisão rígida e hierárquica. A autonomia dos
profissionais, sua qualidade fica condicionada a essa
5º) As Virtualidades Educativas da materialidade.
Materialidade da Escola Cada escola faz parte de um Sistema de Ensino
articulado em níveis e graus. O percurso de
Todos os Projetos Político-Pedagógicos das formação escolar está colado à passagem por esses
escolas enfatizam o peso da materialidade como processos instituídos e ritualizados. Os profissionais
pré-condição para sua implementação. Enfatizam experimentam no seu dia-a-dia como esses
não apenas as condições físicas e as condições de processos instituídos e mais especificamente a
trabalho que ainda são bastante limitadoras das organização do trabalho são pesados, são
propostas, mas também a organização dos tempos, deformadores. Os próprios alunos e alunas são
espaços, processos; a organização do trabalho, as submetidos a esses processos rígidos e
grades, as serrações, o recorte de horários, as deformadores. A experiência tem mostrado que
hierarquias.... sonhar com uma educação diferente sem redefinir
A Rede Municipal tenta redefinir aspectos essas estruturas e essa organização do trabalho fica
significativos da estrutura e organização da escola: em sonhos.
experiências de salas-ambiente, aulas geminadas, As virtualidades educativas da escola dependem
módulos geminados, seriação mais flexível, provas em grande parte da capacidade de tornar essas
interdisciplinares, avaliação processual, novos estruturas mais formadoras. Uma escola de
critérios de enturmação e agrupamento dos alunos, qualidade não pode esquecer o peso dessa
organização por temas interdisciplinares, materialidade.
mecanismos de integração extraturno, flexibilização Os processos de socialização e formação dos
de horários para entrosamento das séries e educadores e dos educandos se constroem nessa
professores, projetos de jornada integrada etc. rede de estruturas e mecanismos reguladores. As
A centralidade dada a esses aspectos materiais virtualidades educativas não estão apenas na
e organizativos da escola mostra o avanço da
consciência dos profissionais, no sentido de captar
natureza dos conteúdos, nem apenas na boa
vontade e arte dos profissionais, nem no sentido
#
que a experiência escolar não se reduz a uma dado à relação educador-educando. As
relação interpessoal entre educadores e educandos. virtualidades formadoras ou deformadoras estão
sobretudo no caráter humanizador das estruturas são igualmente idades de formação e de vivências
escolares, no seu caráter democrático, igualitário de direitos plenos.
ou excludente. Conseqüentemente as escolas, sua
Conscientes desse peso educativo da organização, seus tempos e espaços estão sendo
materialidade, os profissionais criam mecanismos repensados para se redefinirem e adaptarem a esse
de intervenção na estrutura escolar, nos valores e avanço na consciência-vivência dos direitos da
na cultura que ela materializa. Os profissionais infância.
percebem que não é suficiente redefinir o sentido As instituições educacionais são repensadas
das relações interpessoais, os conteúdos como tempos e espaços da cidadania e dos direitos
transmitidos, nem os processos de sua apreensão no presente, para que o tempo de escola permita
ou avaliação. As velhas formas de institucionalização uma experiência o mais plena possível da infância
da educação escolar estão hoje em questão. Por aí e da adolescência, sem sacrificar auto-imagens,
caminham as propostas mais ousadas de identidades, ritmos, culturas, linguagens,
intervenção que já acontecem na Rede Municipal representações etc., em nome da preparação para
de maneira pontual. Falta assimilá-las em uma a vida adulta.
Proposta de Governo e reconhecer publicamente
sua legitimidade. 7º) Socialização Adequada a cada Idade-
Ciclo de Formação
6º) A Vivência de Cada Idade de
Formação sem Interrupção Encontramos na Rede Municipal experiências
significativas, que pretendem reduzir as rupturas nos
A separação entre tempo de formação e tempo processos de socialização provocadas pela
de ação, tempo de infância e tempo de adulto, fez reprovação e conseqüente repetência. Os
do tempo de escola uma etapa que só encontra profissionais da escola pública popular vêm reagindo
sentido enquanto PREPARAÇÃO para outros a essa realidade crônica, ora com medidas mais
tempos. A infância e a adolescência deixaram de tradicionais, ora mais radicais. Podemos lembrar
ter sentido em si como idades específicas de vivência as seguintes experiências de aceleração de alunos,
de direitos. A criança e o adolescente não são de criação de turmas intermediárias aprovadas de
reconhecidos como sujeitos de direitos no presente. forma especial e garantindo estratégias de
Daí que a escola só se pensa como tempo de continuidade; alternativas de trabalhos sem
preparação para vivência de direitos no futuro. seriação; implantação da “dependência”; tempo
Na década de 70, falava-se na escola como integral para diminuir a defasagem idade-série;
tempo de preparação para o trabalho futuro. Na manutenção das turmas homogêneas pelo critério
década de 80, enfatizava-se o tempo de escola de idade etc.
como preparação para a cidadania futura. A escola vem retomando a centralidade de sua
A maioria dos Projetos Político-Pedagógicos de função socializadora de valores, crenças, rituais;
nossas escolas reafirma essa visão da escola como vem se assumindo como espaço de construção de
preparo da criança para a vivência consciente dos identidades, de auto-imagens e de hábitos de
direitos no futuro, quando adulto. convívio na diversidade. Nesses avanços, a
Essa concepção do tempo da infância e do pedagogia redescobre a força socializadora e
tempo da escola está arraigada em nossa cultura formadora do convívio entre alunos e alunas da
pedagógica, na representação social e em nossa mesma idade ou ciclo de idades de formação.
formação e prática profissional. A escola sempre As iniciativas diversas, que tentam manter cada
sonhada como, garantia da futura república, da educando com seus pares de idade de socialização,
futura democracia, da futura cidadania, do futuro buscam ser fiéis a essa velha e renovada pedagogia
progresso, da futura vivência dos direitos, da futura que tinha sido marginalizada e sacrificada em nome
libertação, da futura igualdade... Os movimentos da fidelidade estreita à lógica das precedências, dos
sociais democráticos vêm lutando contra essa pré-requisitos, do vencimento de etapas de domínios
permanente negação dos direitos no presente e seu e habilidades; à lógica de avaliações de rendimentos
adiamento para tempos e idades futuras. O médios, de reprovações, repetências e interrupções
$ movimento social vem recolocando cada idade e rupturas de turmas e de quebras de percursos de
presente como tempo específico de construção da socialização próprios de cada idade-ciclo de
experiência histórica. A infância ou a vida adulta formação.
As experiências da Rede Municipal apontam área e por projetos interdisciplinares, o
lógicas novas que merecem ser assumidas como planejamento, a pesquisa e a produção coletiva
Proposta de Governo e reconhecidas como permitiram um processo rico de capacitação
legítimas. permanente no trabalho.
Pretendemos que toda a Rede Escolar assuma As lutas por tempos remunerados de estudo e
que o tempo de escola deverá ser um tempo de pesquisa, projetos e produção coletiva e pela criação
socialização-formação no convívio entre sujeitos na do CAPE, são a expressão mais concreta da nova
mesma idade-ciclo de formação-socialização. consciência dos profissionais da Rede Municipal
Rupturas ou interrupções desse processo não são sobre seu direito à formação permanente no
justificáveis por diferenças de raça, classe, gênero, trabalho. Além desses tempos e espaços de
ritmo de aprendizagem etc. formação, uma variedade de ações está
A escola e seus profissionais passam a redefinir acontecendo no cotidiano de nossas escolas:
a cultura, estrutura e organização escolar para encontros de professores por áreas e por séries para
permitir aos setores populares (os mais reprovados capacitação teórico-prática; trabalho coletivo com
na velha lógica excludente) uma vivência de cada equipes de suplência; produção coletiva de textos e
idade-ciclo de formação sem interrupção. livros; participação em cursos, seminários e
conferências pedagógicas, locais e nacionais etc.
8º) Nova Identidade da Escola, Nova Os profissionais da Rede Municipal alargaram
Identidade do seu Profissional não apenas a concepção da educação dos alunos,
mas sua própria concepção de capacitação
As modificações havidas na Rede Municipal têm profissional. A criação dos departamentos, a
como sujeitos centrais os trabalhadores em afirmação do domínio dos saberes por área de
educação. O movimento de renovação pedagógica ensino representou um avanço na qualificação,
que acontece nas escolas recebe sua inspiração no porém não caímos numa concepção fechada e
movimento social mais amplo pela democracia e “especializada”, restrita de qualificação por recortes
pela igualdade de direitos; essa mesma consciência do conhecimento. Os professores aprofundaram
inspirou nos últimos 15 anos a organização dos sua qualificação sem estreitá-la.
educadores e seu compromisso com a escola Dimensões mais amplas fazem parte do perfil
pública democrática. de profissional da educação. Ele se entende sujeito
Construindo essa nova escola, foi-se do projeto total da escola e reivindica sua
construindo um novo profissional, com nova participação qualificada na construção desse
identidade, novos valores, novos saberes e projeto total. Ele reivindica mais: ser reconhecido
habilidades. Construindo a nova Escola Plural, foi- como sujeito sócio-cultural, com direito a tempos,
se construindo um profissional mais plural, mais espaços e condições de participação na cultura.
politécnico. Os Eixos Norteadores da Escola Plural
A gestão democrática da escola, a elaboração explicitaram como esta Proposta pretende que o
dos Projetos Político-Pedagógicos, as oficinas por tempo de escola seja uma vivência rica para os
alunos e alunas como sujeitos sócio-culturais.
Considerar os profissionais da educação como os
agentes dessa construção é pouco. Seu tempo de
trabalho nas escolas terá de permitir-lhes também
uma vivência como sujeitos sócio-culturais.

%
II - REORGANIZAÇÃO DOS TEMPOS ESCOLARES
1 - Organização dos Tempos Escolares quanto do aluno, em torno dos ‘conteúdos’ a serem
Hoje transmitidos e aprendidos. Os conteúdos
constituem o eixo vertebrador da organização dos
Diretores, supervisares, professores, auxiliares e graus, séries, disciplinas, grades, avaliações,
alunos passam mais de vinte horas semanais juntos recuperações, aprovações ou reprovações.
na escola, durante mais de 180 dias do ano.
Como ocupamos esse tempo escolar? Que 2º) Essa lógica temporal dá prioridade ao
lógica norteia a organização temporal, a caráter “precedente” e “acumulativo” dos
organização dos espaços e a distribuição dos conteúdos, de sua transmissão e aprovação. O
conteúdos e das aprendizagens? Organizar e domínio do conteúdo A precede o domínio de B,
administrar o tempo é uma das tarefas mais que por sua vez precede a C etc. O primeiro
conflitivas no sistema escolar. Para ilustrar, bimestre precede ao segundo; a primeira série
lembremos a definição do calendário, a distribuição precede a segunda e assim por diante. Os avanços
das aulas, dos dias de prova, dos horários de cada das ciências na melhor compreensão da lógica da
área e matéria, do recreio, dos sábados letivos, dos construção do conhecimento superam essa
dias feriados etc. concepção linear. Sua linearidade justifica que,
Administrar o tempo de escola é tenso, porque enquanto os conteúdos e habilidades dos tempos
joga com interesses privados, joga com outros precedentes não sejam dominados, o aluno terá
tempos de nossas vidas em outros empregos, na de repetir o intento quantos anos sejam necessários.
família, no estudo... O tempo de escola é tempo de Se essa repetência quebrar a auto-imagem do
trabalho, tempo bem ou mal remunerado, tempo educando ou o distanciar do grupo de idade de
realizador ou alienante. Tempo em que estão em socialização etc., não importa. O decisivo é manter
jogo direitos dos profissionais e dos alunos. a lógica temporal precedente e acumulativa dos
O movimento dos trabalhadores em educação conteúdos. Esses se impõem como eixo vertebrador
vem lutando por maior controle do tempo de escola. de nossa escola.
Os movimentos sociais lutam também por alargar
o tempo de escola. Os jovens e adultos 3º) Essa lógica temporal se articula em torno
trabalhadores lutam por adequar o tempo rígido de supostos “ritmos médios” de aprendizagem.
do trabalho a um tempo mais flexível de educação. Independentemente da diversidade de ritmos
Porque o tempo de escola é tão conflitivo? culturais dos alunos e alunas, de suas condições
Porque é um tempo instituído, que foi durante mais sócio-culturais, da diversidade dos processos de
de um século se cristalizando em calendários, níveis, socialização, das diferenças de gênero, raça, classe
séries, semestres, bimestres, rituais de transmissão, social, toda criança e adolescente terá de dominar
avaliação, reprovação, repetência... no mesmo tempo as mesmas habilidades e saberes
O tempo escolar obedece a uma lógica (60% aprova, menos reprova).
institucionalizada que se impõe sobre os alunos e
sobre os profissionais da educação. Entender essa
lógica é fundamental para entender muitos dos
problemas crônicos da educação escolar. É
fundamental, sobretudo, para entender e corrigir
os problemas de evasão, reprovação e repetência,
o crônico fracasso escolar que exclui os setores
populares do seu direito à educação básica. É
fundamental, para entender parte das tensões dos
profissionais com o trabalho escolar.

Vejamos o que norteia a lógica temporal


instituída no nosso sistema escolar.
&
1º) É uma lógica “transmissiva”, que organiza
todos os tempos e os espaços tanto do professor
4º) Essa lógica temporal supõe a inviabiliza seu direito à educação. Ela entrava
“simultaneidade” das aprendizagens. Se o educando inúmeras medidas tomadas para diminuir os
conseguir aprender na média ou acima todas as persistentes índices de reprovação, evasão e
habilidades predefinidas para cada recorte dos repetência. Aí está enraizada a persistência desses
conteúdos das matérias ou disciplinas, mas não altos índices e do seu lento declínio, apesar dos
conseguir a média proposta tão somente em uma inúmeros esforços que vêm sendo feitos.
matéria, será obrigado a repetir todo o processo Os profissionais da Rede Municipal têm
até que em todas as disciplinas, simultaneamente, consciência do peso dessa lógica temporal e tentam
atinja a média requerida. ultrapassá-la e redefini-la. As experiências voltadas
para uma nova organização dos tempos são
5º) Essa lógica trabalha com tempos corajosas, projetos que buscam alongar o tempo
predefinidos para cada domínio e habilidade: de permanência do aluno, através de jornada
tempo para aquisição da escrita, cálculo etc. Os integrada e de tempo integral; projetos que buscam
Programas recortam esses tempos minuciosamente. garantir sua continuidade, flexibilizando a rigidez
A aprendizagem e socialização dos alunos e alunas das serrações, acabando com a seriação da 1ª para
é presa a essa seqüenciação e, sobretudo, os a 2ª série ou integrando mais as séries; projetos
mestres são forçados a ser fiéis cumpridores dessa que priorizam o tempo do aluno e sua idade como
seqüenciação pré-estabelecida. O para-casa e as critério de organização das turmas para a
provas têm de obedecer a essa seqüência rígida. manutenção de sua identidade e para diminuir as
Os professores e os alunos manifestam tensões e distorções idade-série; organização de horários
conflitos constantes entre esses tempos predefinidos mais coletivos de modo a possibilitar maior
e os tempos vividos e possíveis. entrosamento entre séries e professores;
organização do tempo pedagógico por projetos
6º) Essa lógica temporal vem sendo reduzida a pedagógicos, projetos por área ou tema etc.
tempos cada vez mais curtos. Atualmente a sorte Temos ainda na Rede Municipal projetos para
do aluno não é mais decidida como antigamente adaptar os tempos de aprendizado aos ritmos de
na prova final - ao final do percurso -, mas a sorte socialização do aluno; para implantar a
de 20% ou mais dos alunos pode estar selada na dependência, recursos de reforço e aceleração na
primeira prova bimestral. A cada volta do percurso, série seguinte em vez de clássica volta para trás ou
o educando pode “entrar no vermelho” entrar na repetência; projetos para abrir novos horários
categoria dos irrecuperáveis, ou “lentos”, dos pedagógicos de estudo acompanhado, novos
condenados à repetência. tempos de oficinas, de produção, de integração de
turmas extraturno (1ª - 4ª); para articular os tempos
7º) Essa lógica temporal é dicotômica. Separa antes separados das aulas especializadas em
o tempo de alfabetizar e matematizar do tempo de oficinas integradas; para trabalhar com horários
educação artística, física, de biblioteca, de mais flexíveis na educação de jovens e adultos, para
educação da sexualidade ... ; separa o tempo criar uma estrutura de módulos geminados de
administrativo do pedagógico, o tempo de ensinar aulas; projetos para redefinir a vinculação do tempo
e de recuperar, o tempo de capacitação e de do professor a uma turma e série, adotando formas
trabalho, o tempo cognitivo e o tempo cultural, o mais flexíveis, rotativas e coletivas etc.
tempo de transmitir e o tempo de avaliar. A Proposta Escola Plural pretende valorizar esse
conjunto de práticas emergentes e reverter a lógica
2 - Experiência de Nova Lógica na Rede temporal que serve de eixo vertebrador de nosso
Municipal Sistema Escolar excludente e seletivo. Pretende
organizar o tempo de escola, de ensino-
Os altos e persistentes índices de reprovação e aprendizagem e de socialização, a partir de uma
repetência não são algo acidental a essa lógica lógica temporal mais democrática.
temporal precedente, acumulativa e dicotômica que
exige para todos os mesmos ritmos, médias e 3 - Na Nova Lógica dos Tempos na Escola
domínios simultâneos e em tempos parcelados e Plural
curtos. Essa lógica é em si mesma excludente e
'
seletiva por ignorar as diferenças sócio-culturais. É Que lógica da organização escolar dará conta
uma lógica perversa para os setores populares. Ela da totalidade das dimensões formadoras que deve
trabalhar a Escola Plural? Podemos encontrar ações significativas na Rede
A estrutura que pretendemos se articula em uma Municipal nesses níveis que apontam na direção
nova concepção do tempo de educação. Não serão da Escola Plural por vezes até de maneira mais
os conteúdos o eixo vertebrador da organização ousada. Consideramos que a busca da pluralidade
dos graus, das séries, grades, avaliações, na formação e do novo ordenamento dos tempos
aprovações ou reprovações. Os educandos passam terá de nortear ações inovadoras nesses níveis de
a ser o eixo vertebrador. educação. Dada sua especificidade, propostas
Os conteúdos escolares, a distribuição dos concretas serão apresentadas em breve.
tempos e espaços se submetem a um objetivo central
mais plural: a formação e vivência sócio-cultural Vejamos como se organiza atualmente o tempo
própria de cada idade ou ciclo de formação dos de Educação Básica:
educandos. A lógica do ensino e aprendizado de
habilidades e saberes básicos não é esquecida, mas · é considerado como um ciclo único de 8 (oito)
é condicionada à lógica mais global e determinante: anos, dos 7 aos 14 anos de idade;
à lógica da formação de identidades equilibradas, · os conteúdos e habilidades a serem dominados
da vivência da cultura e da socialização apropriada por cada aluno são divididos em parcelas anuais,
a cada idade homogênea de formação. semestrais e bimestrais; em cada um desses
Conseqüentemente o tempo escolar é períodos curtos, todos os alunos têm de dominar a
organizado em fluxos mais flexíveis, mais longos e média (60%) dos conteúdos predefinidos;
mais atentos às múltiplas dimensões da formação · o aluno que não conseguir os domínios
dos sujeitos sócio-culturais. Redefinem-se critérios previstos em todas as matérias no percurso de um
do que seja precedente, do que seja aprovável- ano (série) terá de repetir todas as matérias, durante
reprovável, fracasso-sucesso no direito à educação mais um ou vários anos letivos.
e à cultura básicas. Redefine-se a estrutura seriada
que é superada na estrutura por ciclos de idades Há um tratamento diferenciado nas quatro
homogêneas de formação: CICLOS DE primeiras séries e nas quatro últimas, podendo ser
FORMAÇÃO. configurados dois ciclos de Educação Básica
A organização por ciclos de idade visa superpostos pela lei 5692/71: o antigo Ensino
“conceder” mais tempo para o aprendizado dos Primário (quatro primeiras séries), e o antigo Ginásio
alunos, construindo conceitos, valores etc. Assim, (quatro últimas séries).
há que se definir para cada Ciclo de Formação o Nas quatro primeiras séries, predominam a
que se deseja construir, quais os componentes diferenciação limitada dos conteúdos, o tratamento
cognitivos, afetivos, as vivências e convivências. O mais global da formação da criança em torno de
educando terá um tempo mais longo e flexível do um número reduzido de profissionais e uma
que a organização atual, respeitando-se assim os distribuição flexível do tempo.
ritmos diferenciados e diversos do desenvolvimento Nas quatro últimas séries, predomina um
dos seres humanos. tratamento parcelado dos conteúdos e da formação
do adolescente, a autonomia das áreas e a
4 - Ciclos de Formação Básica diversificação dos profissionais por saberes
especializados. A distribuição dos tempos é rígida,
Entendemos que a escolaridade básica definida parcelarizada e desconectada.
pela legislação como o 1º grau, de 7 a 14 anos, é
o ponto de partida para essas mudanças. Nesses 5 - A Organização do Ciclo de Educação
anos, o ser humano desenvolve a sua formação Básica que Pretendemos
básica, adquirindo conhecimentos escolares,
constituindo elementos que favoreçam sua O eixo vertebrador da organização do tempo
socialização, afetividade, desempenho corporal etc. de Educação Básica será o educando e seus ciclos
É o atual período da Educação Básica, garantido ou idades mais homogêneas de formação. A partir
como direito de todo cidadão na Constituição. O desse eixo, compreendemos como mais adequado
ensino de 2º grau, o ensino noturno regular e as do ponto de vista do desenvolvimento formativo dos
 diversas modalidades de suplência, apesar de serem alunos, a organização do atual período de
freqüentadas por jovens e adultos maiores de 14 Educação Básica (1º Grau) em 3 (três) CICLOS DE
anos, não estão fora de nossa preocupação. FORMAÇÃO:
PRIMEIRO CICLO BÁSICO (período
característico da infância) compreenderá os
alunos(as) que estiverem na faixa de idade 6-7; 7-
8; 8-9.

SEGUNDO CICLO BÁSICO (período


característico de pré-adolescência) compreenderá
os alunos(as) que estiverem na faixa de idade 9-
10; 10-11; 11-12.

TERCEIRO CICLO BÁSICO (período


característico da adolescência) compreenderá os
alunos(as) que estiverem na faixa de idade 12-13;
13-14; 14-15.

ORGANIZAÇÃO DOS CICLOS NA ESCOLA PLURAL

Ciclos Faixa de Idades de Agrupamento


Desenvolvimento Formação de Turmas
Primeiro Infância 6, 7 e 8/9 anos 6-7anos
7-8 anos
8-9 anos
Segundo Pré-adolescência 9,10 e 11/12 anos 9-10 anos
10-11 anos
11-12 anos
Terceiro Adolescência 12,13 e 14/15 anos 12-13 anos
13-14 anos
14-15 anos

Partimos do suposto, confirmado pelas ciências Conseqüentemente, abrangerá a aquisição de


humanas, de que dentro do grande período de conhecimentos e, também, não secundariamente,
Educação Básica (7-14) há ciclos menores mais a socialização de vivências e experiências, valores,
homogêneos de formação e socialização que têm representações, identidades de gênero, raça,
de ser respeitados e organizados pedagogicamente, classe... Contemplará todas as vias de que os seres
A organização que propomos - três ciclos humanos se valem para conhecer, experimentar,
homogêneos de três anos cada - parece-nos a mais construir e reconstruir a realidade, para se
adequada a nossa realidade sócio-cultural, onde comunicar, interrelacionar, para socializar seus
predominam diversidades e ritmos tão valores, manter a memória coletiva, etc.
diferenciados. Não pretendemos que cada ciclo de A multiplicidade dessas áreas e dessas vias de
três anos se constitua numa unidade curricular tão conhecimento e experiência serão articuladas de
completa que desvirtue sua condição de parte do forma flexível ao longo de cada ciclo de Idade de
período mais global de Educação Básica. Formação, prevendo ritmos e ênfases diferenciados
Dentro de cada Ciclo de Formação, deve se de conhecimentos, de habilidades e de vivências na
respeitar a organização dos grupos (turmas), por formação das múltiplas dimensões pretendidas.
idade, supondo que o aluno estará junto com os Essa estrutura flexível e plural facilita maior
seus pares de idade, facilitando as trocas aprofundamento no conhecimento e no
socializantes e a construção de auto-imagens e desenvolvimento de destrezas, atitudes e valores.
identidades mais equilibradas. Permanecendo no Facilita uma adequada construção de significados
mesmo grupo de idade terá maiores oportunidades culturais e, sobretudo, uma maior e equilibrada 
para sua formação-socialização equilibrada. integração-socialização entre alunos como sujeitos
A proposta pedagógica de cada ciclo obedecerá ativos e solidários da construção de suas
à lógica sugerida no item “Eixos Norteadores”. identidades.
Essa estrutura flexível e plural não dispensa, idade de formação mais de dois anos, sob pena de
antes exige a permanência das clássicas áreas quebrar suas possibilidades de um processo
curriculares: língua e literatura, matemática, equilibrado de vivência sócio-cultural e de
conhecimento do meio natural e social, educação aprendizado.
artística, educação física, mas devem ser articuladas
com tempos de experiências e vivências individuais 6. Implementação da Organização por
e coletivas. Ciclos de Formação
Essa estrutura flexível e plural e mais longa
facilita um maior respeito às identidades, às Como se processará a definição dos conteúdos
diferenças, às condições sócio-culturais superando e estratégias de formação desejado em cada Ciclo?
as velhas lógicas das precedências, dos ritmos e Para cada Ciclo de Formação, devem ser
domínios médios, dos tempos curtos de aprovação- definidos os conteúdos escolares básicos das
reprovação, supera as injustas interrupções do diversas disciplinas, abordados numa perspectiva
percurso normal de socialização dos educandos própria para cada idade, dando a eles um
com seus pares. tratamento pedagógico já na perspectiva plural. É
Os dois primeiros ciclos (de 6 a 11/12 anos) preciso dar significado aos conteúdos escolares.
constituem-se numa etapa fundamental do Deverão ser incluídos, em cada Ciclo, conteúdos
desenvolvimento sócio-cultural e de socialização, curriculares que ampliem e alarguem a informação
podendo solidificar uma formação básica que escolar, possibilitando o desenvolvimento das
possibilite um desenvolvimento mais complexo, o diversas potencialidades dos educandos.
que caracterizará a formação do Terceiro Ciclo (de Por exemplo, farão parte dos conteúdos
12 a 14 anos). escolares as artes plásticas (pintura, desenho,
O planejamento escolar terá como seu objeto e escultura, modelagem etc.), as danças, as artes
espaço cada Ciclo de Formação e incluirá um cênicas, culinária, fotografia, informática, as leis
processo de avaliação constante de forma que as trabalhistas, a ecologia, a horta, as questões da
dificuldades possam ser percebidas e trabalhadas afetividade-sexualidade, a família, a cidadania, o
pedagogicamente dentro do Ciclo. A nova trabalho etc.; dimensões que já são trabalhadas
organização dos tempos e do trabalho supõe que em nossas escolas.
o aluno continue com o mesmo grupo de idade, Esse processo deverá ter uma atuação do
sem rupturas ou repetências. coletivo da comunidade escolar, de forma que se
Ao final de cada Ciclo de Formação, pode detectem as suas “exigências” e de forma que se
acontecer que um aluno não consiga o socializem os processos pedagógicos e as vivências.
desenvolvimento equilibrado em todas as dimensões O processo de avaliação também deve ser
da formação apropriada ao Ciclo de idade. Essa coletivo e contínuo, compreendendo como
situação levará à conveniência ou não de sua participantes alunos e professores. A avaliação
permanência nesse Ciclo durante mais um ano, ou processual terá função primordial de diagnóstico
de prosseguir com seus pares para o Ciclo seguinte. do desenvolvimento já alcançado e das lacunas que
A permanência de alunos no Ciclo de idade, perdurarem em cada momento, possibilitando se
por mais um ano, deverá considerar-se como rever e replanejar novos processos e abordagens.
excepcional e de modo algum como prática escolar Será necessário ADEQUAR A ORGANIZAÇÃO
habitual, como acontece atualmente na passagem DAS TURMAS por faixas de idades. Dessa maneira,
de série. no ano de 1995 as atenções principais estarão
Esse aspecto deverá ser bem equacionado voltadas para os dois primeiros Ciclos (6 a 11/
coletivamente. Nunca será deixado a critério de um 12anos), onde se processarão necessariamente
professor. Será uma decisão ponderada pela equipe maiores mudanças. No 3º Ciclo, no 2º grau, na
de trabalho como um todo. Deve levar em educação de jovens e adultos, na educação infantil,
consideração a pluralidade de dimensões que estão na educação especial, as mudanças possíveis para
em jogo, os benefícios da manutenção do educando 1995 estão sendo consolidadas em propostas
com seus pares para a socialização e o específicas dada a peculiaridade de cada área.
desenvolvimento equilibrado de habilidades e Insistimos em que consideramos os Eixos
saberes, vivências e convivências. Como orientação, Norteadores da Escola Plural válidos para todas as
poderá ser aplicado o princípio de que um aluno áreas. A concentração das atenções, neste
não deve se distanciar de seus pares da mesma momento, nos dois primeiros Ciclos de Formação
Básica não é excludente de outros níveis e áreas e Escolas de pré a 4ª série:
dos profissionais e educandos que nelas trabalham. • implantação dos dois primeiros Ciclos de
Não pretendemos freiar ações corajosas já existentes Formação;
e possíveis, antes estimulá-las e apoiá-las. Pensemos • implantação do Projeto Educação lnfantil,
nos dois primeiros Ciclos. com os alunos menores de 6 anos;
Propomos abarcar nesses anos de escolarização • priorizar a matrícula (no pré-escolar) dos
básica as crianças que, tendo 6 anos, completam alunos que, tendo 6 anos, completam 7 anos até
7 anos no decorrer de todo o ano seguinte. Essa 31 de dezembro de 1995;
idéia se justifica no sentido de fazer cumprir, de fato, • criação do terceiro ano do 2º Ciclo em 1996.
o direito à escolarização de 7 a 14 anos pois, quem
completa 7 anos em maio, agosto ou novembro de Escolas de 1ª a 4ª séries:
cada ano, não tem hoje uma vaga garantida na • implementação dos dois primeiros Ciclos de
escola, quando ainda tem 6 anos. A nossa escola Formação;
atende, no cadastramento que faz anualmente, as • na medida do possível, matricular no Primeiro
crianças que completam 7 anos até 30 de abril do Ciclo os alunos que completam 7 anos até 31 de
ano seguinte. Pretendemos ir além. Assim sendo, a dezembro de 1995;
constituição de turmas de pré-escolar, já em 1995, • criação do terceiro ano do 2º Ciclo em 1996.
deve priorizar as crianças cadastradas que têm 6
anos e completam 7 anos até 31 de dezembro de Escolas de pré ou 1ª a 8ª séries:
1995. • implantação do Projeto Educação Infantil
Em 1995, portanto, alunos com 6 anos (e que com os alunos menores de 6 anos;
completam 7 em qualquer dia de 1995), 7 e 8-9 • implementação dos dois primeiros Ciclos de
anos deverão estar no 1º Ciclo. Naturalmente que, Formação (ficando a critério da escola incluir a 5ª
os alunos com 8 anos que já tiverem cursado a série no 2º Ciclo em 1995).
atual 2º série poderão estar no 2º Ciclo e nele • implantação opcional do Projeto Terceiro Ciclo
completarão os 9 anos. de Formação em 1995.
Os alunos que possuírem mais de 10 anos - e
todos os mais velhos que não tiverem concluído a Escolas de 5ª a 8ª séries:
atual 4ª série - serão incluídos no 2º Ciclo. Serão • fica a critério da escola iniciar em 1995 o 2º
agrupados em turmas que passarão por processos Ciclo de Formação.
específicos de formação e socialização, num • Elaborar Projeto que incorpore os
trabalho pedagógico adequado às suas idades. desdobramentos da Escola Plural no 3º Ciclo
Reafirmamos que o 3º Ciclo será objeto de (durante todo o ano de 1995).
maiores discussões em 1995, as mudanças que já • implantação do Projeto Educação de Jovens
estão acontecendo estão sendo articuladas num e Adultos a partir de 1995.
projeto relativo ao Terceiro Ciclo. Logo que for • implementação opcional do Projeto Terceiro
consolidado será objeto de debate e definição Ciclo de Formação (Anexo).
coletiva dos profissionais e alunos.

Estratégia de Implantação

Propomos a seguinte estratégia de


implementação da Proposta Escola Plural nas
escolas da Rede Municipal, a partir de 1995.

!
QUADRO DE IMPLANTAÇÃO

Especificações 1995 1996


Escolares
Pré a 4ª Série • Implantação do Projeto Educação Infantil • Criação do 3º ano do 2º
no Pré-escolar. Ciclo de Formação.
• Dar preferência aos alunos que
completaram 7 anos até 31/12/95.
• lmplementação do 1º e 2º Ciclos de
Formação.
1ª a 4ª Séries • Implementação do 1º e 2º Ciclos de • Incluir as crianças com 6
Formação. anos.
• Criação do 3º ano do 2º
Ciclo de Formação.
Pré ou 2ª a 8ª • Implantação do projeto Educação Infantil • Absorção da 5ª série no 2º
Séries no Pré-escolar. Ciclo de Formação.
• Dar preferência aos alunos que
completaram 7 anos até 31/12/95.
• lmplementação do 1º e 2º Ciclos de
formação sendo que a inclusão da 5ª série
será opcional.
• Elaborar projeto que incorpore os
desdobramentos relativos ao 3º Ciclo.
• Implantação do projeto de educação de
jovens e adultos.
5ª a 8ª Séries • lmplementação opcional dos Ciclos de • lmplementação do 3º Ciclo
Formação. de Formação.
• Elaborar projeto que incorpore os
desdobramentos relativos ao 3º Ciclo.
• Implantação do projeto de educação de
jovens e adultos.
2º Grau • Implantação opcional do 2º Grau. • Implantar o projeto 2º Grau
• Elaborar um projeto que incorpore os
desdobramentos da Escola Plural para o 2º
Grau.

7 - Organização dos Tempos dos a jornada de trabalho; tempos de direção, de


Profissionais gestão coletiva, de coordenação de áreas; tempos
de Assembléia Escolar, Colegiado, Conselho de
Reorganizar os tempos escolares implicará em Classe, de férias, de recesso escolar etc.
reorganizar o tempo do professor? Mexer com o
tempo de escola é um ponto extremamente 2º) Criar tempos de Coordenação Pedagógica.
delicado, mexe com os tempos dos alunos e
sobretudo dos profissionais. Mexe com outros A implementação da Proposta Escola Plural
tempos de suas vidas, outros empregos, família, exigirá a criação de uma equipe que se
estudo, qualificação etc. responsabilize por sua coordenação e pelas
Exatamente por se tratar de um ponto tão tenso articulações necessárias com as equipes das
e delicado será necessário um processo de definição Regionais, do CAPE e da SMED.
amadurecida coletivamente. Alguns marcos A composição da Coordenação Pedagógica
poderão orientar essa construção coletiva sobre os poderá ser:
" tempos dos profissionais na Proposta Escola Plural: · o diretor ou o vice;
· as supervisaras e/ou orientadoras do turno;
1º) Manter as conquistas da categoria quanto · um professor eleito por seus pares.
Nas escolas que não tiverem orientadora/ professor. São enormes as vantagens da relação
supervisora serão eleitos dois professores por turno. de um professor por turma e podemos aprender
Exceto o diretor e o vice, todos os membros da muito com elas. Na Escola Plural, a organização
Coordenação Pedagógica dedicarão das aulas e atividades com os alunos deve ser
obrigatoriamente um mínimo de 8 horas/semanais discutida e planejada nos marcos do Ciclo, tendo
em atividades com alunos. Isso nos parece sempre um conjunto de profissionais trabalhando
importante tanto no sentido de manter sempre vivo com grupos de alunos (uma turma ou mais). No
esse contato, quanto no sentido de permitir que o entanto, propomos que se estabeleça a figura do
coletivo de profissionais do turno se responsabilize professor acompanhante de cada turma, que será
pelas tarefas do turno. aquele que com ela fará maiores vínculos
(analisando mais de perto seus problemas, críticas,
3º) Vincular um coletivo de profissionais para sugestões; realizando atendimentos individuais;
cada Ciclo de Formação. Cada coletivo relacionando-se com seus pais; coordenando
administrará e dará conta da totalidade das atividades específicas etc).
dimensões a serem trabalhadas em cada Ciclo. Sabemos que a reorganização dos tempos dos
Essa vinculação profissional implicará em tempos profissionais é um dos pontos mais delicados. Há
de trabalho mais diversificados e conseqüentemente direitos já conquistados, insistimos que essa
formadores de um profissional mais polivalente. Proposta de Escola Plural deverá respeitá-los e
equacioná-los devidamente e sempre com a
Nos Ciclos de Formação, é importante que não participação dos próprios profissionais e de suas
se perca de vista a necessidade que os alunos entidades representativas.
possuem de um vínculo mais concreto com o

OS PROCESSOS DE FORMAÇÃO PLURAL

Na educação escolar, o processo de ensino/ Cria-se, dessa forma, uma concepção


aprendizagem é concebido como ponto transmissiva e acumulativa do processo ensino/
fundamental. Mas se a afirmação de que o processo aprendizagem e uma dicotomia entre o que se
ensino/aprendizagem é central não parece ser, a aprende na escola e seu uso social, pois as
princípio, polêmica, o mesmo não acontece quando aprendizagens escolares acabam não servindo para
vamos verificar o entendimento do que significa esse formar sujeitos autônomos, participantes de um
processo, ou seja, o que se entende por ensinar e mundo que está em constante mudança, exigindo,
aprender na educação básica. sempre, posicionamento e reflexão de quem nele
A concepção mais presente em nossa cultura atua.
escolar é a de que aprender é sinônimo de copiar, Essa concepção tem sido questionada a partir
memorizar um conhecimento já estabelecido. da construção de um novo conceito de educação,
Conseqüentemente, ensinar é transmiti-lo. O gestado em um processo mais amplo da sociedade.
conhecimento é visto, nessa perspectiva, como algo No campo social, a luta dos trabalhadores por seus
pronto, verdade absoluta que está fora do aprendiz, direitos, entre eles, o direito à educação, tem
e deve ser nele inculcado para, depois de assimilado, colocado em xeque essa visão de ensino/
ser utilizado. aprendizagem. No campo da epistemologia,
Os conteúdos são vistos como fins em si retomam-se as reflexões feitas por pesquisadores
mesmos, completamente descolados da realidade. que colocam o conhecimento como fruto de um
A eles se submetem educadores e educandos, que processo de interação entre sujeito e objeto. No
têm sua relação trespassada pelo crivo do campo da prática pedagógica, muitos educadores
conteúdo. O compromisso do professor passa a têm buscado um novo sentido para a relação
ser com o “programa” e não com a formação de ensino/aprendizagem, redescobrindo o vínculo
seus alunos. Estes, bem cedo, descobrem que, para entre a sala de aula e a realidade social.
serem “bem-aceitos” na escola, devem memorizar Em nossa Rede Municipal, várias experiências
#
o conteúdo de forma passiva, mesmo sem têm apontado nessa direção: propostas alternativas
compreendê-lo. de alfabetização que levam em conta a experiência
sócio-cultural das crianças; trabalho com tema 1. O Processo de Aprendizagem: um
gerador no ensino noturno; trabalhos diversos na Processo Global
perspectiva construtivista; aprendizagem centrada
na pesquisa e leitura da realidade; aprendizado A formação, em nossa cultura escolar, é vista
mais individualizado que leva em conta as apenas como uma atividade intelectual. Isso faz com
defasagens culturais dos alunos; práticas que se dê uma grande ênfase na aprendizagem de
diferenciadas tendo como centro as diferenças dos fatos, conceitos, princípios, enfim, na teoria. Não
alunos; ensino de língua a partir de textos se concebe o conhecimento enquanto ação,
diversificados; processo de ensino-aprendizagem considerando, como coisas opostas, o saber e o
organizado por oficinas de projetos; processos fazer, a teoria e a prática, o trabalho intelectual e o
flexíveis de educação de adultos com ênfase na trabalho manual, a ciência e a cultura. Isso faz com
perspectiva cultural; salas-ambiente e módulos que haja uma supervalorização dos processos
geminados; pedagogia de projetos por área ou cognitivos, em detrimento de outros. Muito se tem
tema; estudos sociais e história a partir do resgate avançado na pedagogia do discurso, da palavra,
da história da comunidade; projetos mas estamos muito distantes de uma pedagogia
interdisciplinares com temas comuns a todos os da ação, da intervenção. E quando essa está
professores. presente, acha-se suficiente que o aluno apenas
Nessa nova perspectiva, aprender deixa de ser conheça quais são as formas de atuar, sem se
um simples ato de memorização ou de acúmulo de preocupar com a sua capacidade de atuar, de
informações. E ensinar não significa mais repassar intervir na prática, ou, acreditando que é preciso
conteúdos prontos. O conceito de ensino e primeiro “saber sobre” para depois “colocar em
aprendizagem ganha um novo significado, deixando prática”, dissociando o processo de pensar do atuar.
de ser um fim em si mesmo, desvinculado do Compreendendo a aprendizagem a partir de
contexto em que está inserido. Nessa postura, todo uma visão globalizante, a escola plural inclui-se em
conhecimento é construído em estreita relação com um projeto de formação ativa, onde os processos
os contextos em que são utilizados, sendo, por isso de conhecer e intervir no real não se encontrem
mesmo, impossível separar os aspectos cognitivos, dissociados. Para isso, é preciso incluir, como direito
emocionais e sociais presentes nesse processo. Uma à educação, o direito a aprender de maneira
mudança cognitiva é, ao mesmo tempo, um ordenada e sistemática o conjunto de formas
processo individual e social. básicas e coletivas de agir, de enfrentar problemas
Dessa forma, o desafio posto, hoje, para a de construir a cidade, de reproduzir a existência,
escola plural é conjugar, com harmonia, o aprender de traduzir a ciência em tecnologia. O direito a saber
a aprender e o aprender a viver, como duas fazer, a saber conviver.
realidades que se encontram e se fundem Nessa perspectiva, alguns processos, até então
constantemente ao longo de todo processo marginalizados na rotina escolar, passam a ser
educativo. Isso porque o conhecimento é global, valorizados, entre eles:
tem muitas dimensões e não se aprende tendo como
referência uma única perspectiva. Daí ser Processos corporais e manuais
fundamental considerar-se em todo o processo, a
prática social dos sujeitos nele envolvidos, pois não Na rotina escolar há tempos escassos para a
é possível conceber o processo de ensino/ ação corporal e manual, desconsiderando que não
aprendizagem apenas como uma atividade apenas a educação física e artística, mas todas as
intelectual. Aprende-se participando, vivenciando disciplinas usam um conjunto de procedimentos
sentimentos, tomando atitudes diante de fatos, para o domínio de destrezas de motricidade, de
escolhendo procedimentos para atingir manipulação, de movimento, de ação, de produção.
determinados objetivos. Ensina-se não só pelas Esses tempos são mais escassos do que
respostas dadas, mas principalmente pelas deveriam ser. O ritmo de nossas escolas é
experiências proporcionadas, pelos problemas monótono, repetitivo, pouco ativo. Os alunos e
criados, pela ação desencadeada. alunas permanecem demasiado tempo inertes,
O processo ensino/aprendizagem continua parados olhando o quadro, copiando. Passam
$ sendo, assim, um dos pontos centrais para horas na mesma postura, nos mesmos espaços:
discutirmos a escola, mas visto, agora, numa na carteira, na sala de aula. Não há tempo de
perspectiva mais global e plural da forma humana. recreio ou por falta de espaços ou por excesso de
matéria a ser passada ou por falta de sensibilidade. então a escola tem sido organizada a partir da
Não há tempos de confecção de materiais de lógica das disciplinas - Português, Matemática,
criação, por falta de materiais, de tempo. Ciências... Essa organização vem de longa data.
A educação dos corpos - não seu adestramento Origina-se com os pensadores da Grécia e persiste
e controle - merece maior atenção nos processos até nossos dias. A escolha desses conteúdos tem
escolares. É uma das lacunas mais lamentáveis em origem histórica e determinada pelas preocupações
nossa pedagogia. Recolocar o corpo na dos intelectuais gregos. Apesar de todos os avanços
centralidade que ele tem na construção de nossa do mundo, até hoje essas disciplinas têm sido o eixo
identidade e da totalidade de nossa cultura exige de toda a organização do processo de ensino/
criatividade profissional de todos nós. aprendizagem na escola.
Mas se não é mais esse eixo, qual será?
Processos Socializadores Se temos como objetivo o desenvolvimento
integral dos alunos numa realidade plural, é
Ao concebermos a escola como um espaço de necessário que passemos a considerar as questões
socialização não estamos pensando apenas nas e problemas, enfrentados pelos homens e mulheres
relações interpessoais, tão importantes dentro desse de nosso tempo como objeto de conhecimento.
processo, mas não como eixo central. A escola é O aprendizado e vivência das diversidades de
uma instituição, ou seja, um conjunto instituído de raça, gênero, classe, a relação com o meio
práticas-símbolos, rituais, procedimentos, ambiente, a vivência equilibrada da afetividade e
hierarquias. A inserção nessa instituição é o sexualidade, o respeito à diversidade cultural, entre
mecanismo mais forte de socialização, de outros, são temas cruciais que, hoje, todos nós nos
construção de papéis, identidades, auto-imagens, deparamos e, como tal, não podem ser
representações, valores éticos. desconsiderados pela escola.
É freqüente considerarmos todos esses A incorporação desses temas exige, assim, um
processos como mero palco, cenário onde a repensar dos conteúdos escolares, estabelecendo
aprendizagem ocorre, sem compreendermos que a relação entre as disciplinas curriculares e os temas
eles são, também, processos formadores e como contemporâneos. Essa relação será diferenciada se
tal devem ser alvo de discussão e intervenção por o eixo passa a ser os novos temas de interesse social,
todos que buscam a construção da escola plural. as disciplinas curriculares ou a interação entre esses
As atividades grupais - os debates e assembléias - dois eixos.
sobre normas, regras, tempos, em que participam Se elegemos as disciplinas como eixo
ativamente os alunos, são exemplos de como esses vertebrador dos conteúdos, caímos numa
processos socializadores podem ser revitalizados no concepção autoritária de que existe um
cotidiano escolar. conhecimento absoluto e neutro que deve ser
Colocar esses processos como parte constitutiva apresentado aos alunos, independentemente do
do processo de aprendizagem, significa concebê- contexto em que o processo educativo acontece.
lo numa perspectiva plural, onde a construção de Por outro lado, se desprezarmos a importância
conceitos e habilidades não oculte a centralidade que os conhecimentos científicos têm para a
da construção de valores representações e atitudes transformação da realidade, corremos o risco de
perante a dignidade da vida, os direitos, as cair em um pragmatismo, uma visão espontaneísta
diferenças de gênero, raça, ritmos; perante o corpo, da realidade, desconsiderando sua dimensão
a sexualidade, as festas, a arte, o trabalho, ... na histórica.
formação integral dos alunos. Portanto, repensar os conteúdos escolares não
significa abandonar as disciplinas curriculares ou
2. Temas Transversais X Disciplinas apenas aglutinar a elas os temas atuais, mas sim
Curriculares: Um Novo Conceito de resignificá-los.
Conteúdo Escolar Pensando em um desenho curricular, o que se
busca é o rompimento com um modelo
Ao se romper com uma concepção de ensino- compartimentado em disciplinas isoladas, onde o
aprendizagem, acumulativa e transmissiva, vem à conhecimento se apresenta descontextualizado da
tona, para muitos professores, a seguinte questão: realidade. A proposta é que esse currículo seja
%
construído a partir da definição coletiva dos temas
O que, afinal, eu vou ensinar na escola? Até que representem os problemas colocados pela
atualidade, não de forma paralela às disciplinas
curriculares e sim transversais a elas, como nos
mostra o quadro a seguir:

meio ambiente

Sexualidade
Diversidade

Consumo
Relação

cultural
com o
PORTUGUÊS

MATEMÁTICA

HISTÓRIA
Curriculares

CIÊNCIAS
Disciplinas

EDUCAÇÃO PARA CIDADANIA


ARTES

ED. FÍSICA
TEMAS TRANSVERSAIS

Este esquema ilustra a integração entre alguns se insere em todas as disciplinas e impregna todos
dos possíveis temas transversais e as disciplinas os demais temas.
curriculares. O cruzamento resultante de ambos os A inserção dos temas transversais como
eixos é o suporte a partir do qual é possível construir conteúdos curriculares possibilitará que as
um projeto curricular e uma programação de disciplinas passem a se relacionar com a realidade
conteúdos coerentes e significativos. A educação contemporânea, dotando-as de valor social, como
para a cidadania é o tema transversal nuclear, que nos mostra o quadro abaixo:

REALIDADE
DISCIPLINAS TEMAS
CURRICULARES TRANSVERSAIS PROBLEMAS
CONTEMPORÂNEOS

Nessa perspectiva, o processo de ensino/ Nesse, não há mais espaço para atividades
aprendizagem não tem como finalidade a isoladas, descontextualizadas e o que se busca é
transmissão de conteúdos prontos, mas sim a uma proposta global de intervenção.
formação de sujeitos capazes de construir, de forma
autônoma, seus sistemas de valores e, a partir deles, INTERVENÇÃO GLOBALIZANTE
atuarem criticamente na realidade que os cerca.
A representação do que seja uma intervenção
3 - Projetos de Trabalho: Uma Nova globalizante tem sido concebida de formas variadas,
Proposta de Renovação Pedagógica podendo ser caracterizada por, pelo menos, três
versões diferentes:
Uma mudança de concepção, para se viabilizar,
tem que se traduzir em ações concretas. Nesse • A globalização como somatório de
& sentido, a discussão sobre uma proposta de disciplinas.
intervenção pedagógica ganha sentido e
importância, ao se pensar no projeto da escola É uma concepção que se encontra de forma
plural. generalizada, em nossa cultura escolar. A idéia é
da definição de um tema, a partir do interesse da • A globalização como um processo de
turma ou do programa oficial, que será trabalhado formação.
em todas as disciplinas. Por exemplo, escolhe-se,
como tema, as eleições. A partir desse tema, o A noção de globalização, nessa perspectiva, é
professor de História estuda a história das eleições vista tanto do ponto de vista do conteúdo a ser
no país; o de Geografia, trabalha legenda de mapas trabalhado como do aluno que irá aprendê-lo. A
a partir dos resultados das pesquisas nos vários preocupação centra-se, então, no processo de
estados; o de Português lê textos sobre eleição; o construção do conhecimento, de forma globalizada,
de Matemática elabora problemas com dados da pelo aprendiz, mais do que na forma global de
eleição e assim por diante. apresentar o conhecimento a ele.
Nessa perspectiva, a globalização acontece pelo Nessa perspectiva, essa concepção de
acúmulo de matérias que tratam do mesmo tema e globalização parte do princípio de que a
não pela interação entre elas. O tema tem a função aprendizagem não é fruto apenas de uma
de motivação, no sentido de facilitar o entendimento acumulação de novos conhecimentos aos
dos conteúdos disciplinares. O aluno participa esquemas de compreensão dos alunos e sim de uma
apenas no momento de escolher o tema (quando reestruturação desses esquemas, a partir do
participa). Cabe ao professor de cada disciplina estabelecimento de relações entre os conhecimentos
(mesmo que seja apenas uma pessoa que se coloca que já possuem e os novos, com os quais se
ora como professor de Matemática, ora como de defronta. Assim, o que se pretende é que os alunos
Português ou Ciências) planejar, organizar e consigam aprender a aprender e a viver, ou seja,
transmitir o seu conteúdo. Muitas práticas consigam ir aprendendo a organizar seus próprios
centradas em tema gerador ou centro de interesse conhecimentos, e estabelecer relações, utilizando-
sequem essa lógica. se dos novos conhecimentos para enfrentar novos
problemas e atuar no mundo. Dessa maneira, sua
• A globalização como um lugar de interseção aprendizagem vai adquirindo um valor relacionar e
de várias disciplinas. ativo. Esse processo exige que se ofereça aos alunos
experiências de aprendizagens ricas em situações
de participação. Não se forma um sujeito
A concepção de globalização ligada a um
participante e autônomo falando sobre autonomia
trabalho interdisciplinar tem ganhado espaço entre
e democracia e sim exercitando-as.
os educadores, nestes últimos tempos.
É nessa 3ª perspectiva que se insere a proposta
A idéia da interdisciplinariedade está centrada
dos projetos de trabalho, que tem como eixo a
na integração de várias disciplinas afins. Tem partido
participação dos alunos em seu processo de
do interesse de professores de várias disciplinas em
aprendizagem, produzindo algo que tenha
fazer um trabalho conjunto, mais global. Assim, um
significado e sentido para eles.
tema como a independência do Brasil é visto a partir
Os projetos - definidos, construídos e avaliados
de vários pontos de vista: histórico, geográfico,
coletivamente pelo grupo de alunos e professor - se
científico, literário. Há, nessa perspectiva um avanço
configuram como produto de uma negociação onde
em relação à concepção anterior, já que essa exige
se busca satisfazer os interesses individuais e
um trabalho conjunto dos professores, um trabalho
cumprir um fim social. Dá à atividade de aprender
de equipe. O que se questiona nessa visão é o fato
um sentido novo, onde as necessidades de
de se desconsiderar o ponto de vista do aluno,
aprendizagem afloram nas tentativas de se resolver
mantendo a concepção de que a apresentação de
situações problemáticas. Assim, os educandos
um tema sob vários pontos de vistas, por si só, já
sabem o que e para que estão aprendendo. Um
garante uma visão relacional do aluno. projeto gera situações de aprendizagem, ao mesmo
Na verdade, não há garantia de que o aluno tempo, reais e diversificadas. Possibilita também que
consiga construir as relações apresentadas. Para os educandos, ao decidirem, opinarem, debaterem,
eles, as informações podem ser vistas de formas construam sua autonomia e seu compromisso com
isoladas e fragmentadas, pois aprender a o social.
estabelecer relações exige um nível de compreensão Nessa perspectiva, o conhecimento escolar é
que precisa ser construído. Isto é, a visão
globalizadora tem que ser construída pelos alunos
construído a partir do reconhecimento das questões '
que são de interesse social e da sua reflexão, tendo
e não “dada” pelos professores. como referência o conhecimento cultural
acumulado, presente nas disciplinas.
CONHECIMENTO CURRICULAR PROBLEMAS CONTEMPORÂNEOS

CONHECIMENTO
ESCOLAR

CONCEPÇÕES DOS ALUNOS SOBRE INTERESSE DOS ALUNOS ESTUDO


O OBJETO EM ESTUDO

Para que essa alternativa interativa se concretize, partir das questões levantadas nessa etapa que o
é preciso distinguir adequadamente que aspectos projeto é organizado pelo grupo.
do conhecimento escolar dependem da formação
acadêmica dos professores e quais dependem da b) Desenvolvimento: é o momento em que se
experiência cultural dos alunos. Por exemplo, ao criam as estratégias para buscar respostas às
organizar um projeto, os professores devem levar questões e hipóteses levantadas na
em consideração o conteúdo das disciplinas, não problematização. Aqui, também, a ação do sujeito
para convertê-lo diretamente em conhecimento é fundamental. Por isso, é preciso que os alunos se
escolar a ser transmitido mecanicamente aos defrontem com situações que os obriguem a
alunos, mas para subsidiar sua intervenção confrontar pontos de vista, rever suas hipóteses,
pedagógica pautada nos problemas sociais colocar-se novas questões, confrontar-se com novos
contemporâneos e nas concepções dos alunos elementos postos pela Ciência. Para isso, é preciso
acerca desses problemas. É no ponto de encontro que se criem propostas de trabalho que exijam a
de todas essas variáveis que o conhecimento escolar saída do espaço escolar, a organização em
vai sendo gestado. pequenos e grandes grupos, o uso de biblioteca, a
Nessa perspectiva, a escola passa a ser espaço vinda de pessoas convidadas à escola, entre outras
significativo de aprendizagem, meio estruturado e ações. Nesse processo, as crianças têm que utilizar
estruturante lugar de experimentação, realização, todo o conhecimento que têm sobre o tema e se
confronto, conflito, êxito, aberta para o contexto defrontar com conflitos, inquietações que as levarão
social em que está inserida. ao desequilíbrio de suas hipóteses iniciais.

4 - A Organização de Projetos de c) Síntese: Em todo esse processo, as


Trabalho convicções iniciais vão sendo superadas e outras
mais complexas, vão sendo construídas. As novas
Ao pensar no desenvolvimento de um projeto, aprendizagens passam a fazer parte dos esquemas
três momentos podem ser explicitados: de conhecimento dos alunos e vão servir de
conhecimento prévio para outras situações de
a) Problematização: é o ponto de partida, o aprendizagem.
momento detonador do projeto. Nessa etapa inicial,
os alunos irão expressar suas idéias, crenças, Apesar de explicitarmos três momentos dentro
conhecimentos sobre o problema em questão. Esse do desenvolvimento de um projeto, é importante
passo é fundamental, pois dele depende todo o frisar que são momentos de um processo e não
desenvolvimento do projeto. Os alunos não entram etapas estanques. A compreensão da metodologia
na escola como uma folha em branco, já trazem, como técnica é comum em nossa cultura escolar e
em sua bagagem, hipóteses explicativas, dela vem a significação e redução da pedagogia
concepções sobre o mundo que o cerca. E é dessas de projeto enquanto uma técnica de ensino.
hipóteses que a intervenção pedagógica precisa Entendemos que a pedagogia de projetos não pode
partir, pois, dependendo do nível de compreensão ser uma técnica, sujeita a regras predeterminadas.
inicial dos alunos, é evidente que o processo toma Os projetos são processos contínuos que não
um ou outro caminho. podem ser reduzidos a uma lista de objetivos e
etapas. É uma postura que reflete uma concepção
! É na fase de problematização que o professor de conhecimento como produção coletiva, onde a
detecta o que os alunos já sabem e o que ainda experiência vivida e a produção cultural
não sabem sobre o tema em questão. É também a sistematizada se entrelaçam dando significado às
aprendizagens construídas. Aprendizagens essas relações e utilizar-se do conhecimento apreendido
que servem não só à resolução dos problemas sempre que necessário.
postos para aquele projeto específico, mas que são Nessa perspectiva, os projetos de trabalho não
utilizadas em outras situações, mostrando, assim, se inserem numa proposta de renovação de
que os educandos são capazes de estabelecer atividades e sim de mudança da postura
pedagógica.

PROBLEMATIZAÇÃO

Conhecimento prévio
Detonador do grupo
Expectativas/Objetivos

Organização do Projeto

DESENVOLVIMETO
Bibliográfica
Pesquisa
Estratégias para Campo
atingir os objetivos Entrevista
Debates

Realização do Projeto

SÍNTESE
Conceitos, valores, procedimentos construídos
Novas aprendizagens Informações adquiridas
ao longo do processo Questões esclarecedoras
Novos problemas a serem reolvidos

5 - Um Modelo de Planejamento de um população, criando necessidades e desejos. Diante


Projeto de Trabalho dessa realidade, o indivíduo se depara com dois
problemas: por um lado, é um indivíduo consumidor
A proposta de planejamento aqui apresentada e, por outro, é alguém imerso em um meio social
tem o objetivo de dar referência à discussão teórica de consumo, independentemente de ser ou não
anterior, buscando relacioná-la à prática consumidor.
pedagógica desenvolvida na sala de aula. Não deve Dentro dessa massa consumidora, a população
ser encarada como receituário e sim como modelo infantil ocupa um lugar significativo. O mercado
a ser analisado, discutido e resignificado. infantil é, atualmente, um grande negócio, já que,
por um lado, as crianças são induzidas a pedirem
PROJETO: PROPAGANDA DE BRINQUEDOS uma série de brinquedos e, por outro, induzem os
adultos a comprarem também.
Ciclo: A escola deve fornecer elementos às crianças
Início do 2º Ciclo de Formação Básica (crianças para que construam conhecimentos, procedimentos
de 9 anos). e atitudes que lhes permitam situar-se na sociedade
Justificativa:
de consumo de uma maneira consciente, crítica,
A sociedade na qual vivemos está caracterizada
responsável e solidária.
pelo consumo. A introdução de novas técnicas de
A publicidade é um fato, uma realidade. Daí a
comercialização (venda a prazo, cartões de crédito,
necessidade de conhecê-la, decodificá-la, aprender
cheques pré-datados) ampliam a capacidade de
a interpretar suas mensagens. É preciso não só ver !
compra dos consumidores. Os meios de
comunicação de massa (jornal, rádio, televisão ... ) a publicidade, mas, principalmente, ler a publicidade
levam a possibilidade de consumo a toda a de forma crítica, posicionando-se diante dela.
Esse projeto se insere em uma proposta de Abordamos esse tema transversal a partir da
reflexão sobre aspectos essenciais da propaganda área de Língua Portuguesa, sabendo, entretanto,
de brinquedos, buscando favorecer uma ação que outras áreas também estão presentes só que
critica que rompa com os estereótipos e falsos não de forma sistematizada.
valores presentes neste tipo de propaganda. Relação entre temas transversais e áreas
Objetivos a partir do tema transversal e área de disciplinares:
conhecimento.

Educação Igualdade
Educação Diversidade
Sexualidade do de Raça e
Ambiental Cultural
Consumidor Gênero

PROJETO

Língua
Geografia
Portuguesa Matemática Ciências Artes História Ed. Física

OBJETIVOS
Área Disciplinar Temas Transversais
Língua Portuguesa Educação do Consumidor
• Reconhecer textos publicitários, identificando • Estrutura e funcionamento da sociedade de
sua função social e características. consumo: identificar a estrutura e
funcionamento do sistema de publicidade.

• Combinar recursos lingüísticos e não- • A conduta do consumidor e as


linqüísticos para interpretar e conseqüências do consumo:
produzir textos persuasivos. analisar os mecanismos usados nas
propagandas para incentivar o consumo
e os problemas causados ao consumidor.

• Refletir sobre o uso da língua como veículo • Defesa do consumidor: identificar e utilizar
de inculcação de idéias, valores soluções alternativas para enfrentar as
comportamentos. propagandas de brinquedos.

! • Utilizar a língua oral para trocar idéias,


experiências ou sentimentos.
1 - Problematização Levantamento

Disparador Conhecimento prévio Objetivos do projeto

Apresentação do cartaz, explorando:


• tipo de texto
• assunto
• gravura
• título
Cartaz
Discussão sobre a situação comunicativa do
publicitário
texto:
de um para quem é dirigida a propaganda?
brinquedo
qual o objetivo do autor?

que recursos o autor usou para alcançar o


objetivo?

Registro das questões apontadas pelos alunos.

Debate sobre a função das propagandas de o que já sabemos?


brinquedos e o que elas causam às crianças e seus o que gostaríamos de saber?
pais.
2 - Desenvolvimento (proposta que pode e deve
Organização do projeto de trabalho com os ser reformulada, a partir da participação dos alunos)
alunos, a partir das questões levantadas na Construção de roteiro para
problematização:
Análise de Propagandas

Selecione 5 anúncios de brinquedos, escreva seu nome e marque um X nas casas que
correspondem aos truques utilizados:

Truques publicitários Propagandas de brinquedos

Para embelezar o produto:


O brinquedo aparece maior do que é.
Os ambientes que aparecem são sempre
bonitos.

Para que ele não seja esquecido:


A imagem se repete várias vezes.
O texto se repete e também a marca.
A música é fácil e repetitiva.

Para incentivar sua compra:


Não se indica o preço do brinquedo.
Aparecem acessórios não incluídos no !!
brinquedo.

Obs.: quadro construído com as crianças, a partir da análise da propaganda.


• Socialização das pesquisas e reflexão sobre a • Para isso é preciso:
função das propagandas e suas conseqüências
para as crianças que têm contato com ela. listar as brincadeiras e brinquedos inventados
que não precisam de gastar dinheiro;
• Entrevista com crianças para observar o registrá-los em um folheto (ou construí-los e
impacto das propagandas de brinquedos: fazer urna exposição);
elaborar cartazes publicitários para divulgar
Roteiro da entrevista o folheto.

Você tem muitos brinquedos? • Processo de produção


Existe algum brinquedo que você gostaria de
ter? Qual? • Análise de vários cartazes
Como você soube da existência desse
brinquedo? • Aspectos a serem observados no processo:
O que você acha das propagandas de
brinquedo? material usado;
Você tem vontade de ter os brinquedos que caracteres empregados;
aparecem na brincadeira? o recurso do desenho para seduzir;
Você pode sempre comprar os brinquedos que o slogan;
vê nas propagandas? o texto em relação à sua estrutura;
Se você não pode tê-los, como se sente?
Os brinquedos comprados são melhores que • Fixar os cartazes em lugares públicos e
os inventados? Por quê? divulgá-los às crianças entrevistadas

• Tabulação das entrevistas e construção de um


quadro com os dados coletados. Síntese

• Discussão sobre as condições de vida da • Durante todo o processo, foram criadas


maioria das pessoas e os efeitos da propaganda. situações de diálogo, de confronto de opiniões, de
Discutir a possibilidade de se pensar em alternativas construção de novos valores. Esses momentos
para incentivar a brincadeira inventada em devem servir como instrumento de avaliação.
substituição aos brinquedos comercializados.
• Alguns instrumentos devem ser construídos
• Deflagração de uma campanha publicitária para avaliar o processo:
em defesa das brincadeiras inventadas.

Instrumento de Avaliação do Processo de Produção


de um Cartaz Publicitário
Nome:
Data:
O meu cartaz tem: SIM NÃO
Formato grande
Letras grandes
Uma diversidade de cores
Um espaçamento característico, com escritos
sem linhas paralelas horizontais
Um slogan enxuto, que causa impacto
Em relação ao texto, há:
!" Frases curtas, sem verbos
Jogo de palavras
Frases de convencimento
Registro de Observação – Educação do Consumidor
Conteúdos da Aprendizagem Aspectos observados
Conceitos • Conhecimento dos mecanismos de
publicidade
• Influência do texto publicitário
• Mecanismos de defesa do consumidor
Procedimentos • Levantar problemas
• Recolher informações
• Realizar pesquisas
• Extrair conclusões
• Organizar campanhas educativas
Atitudes • Curiosidade
• lnteração com os outros
• Interesse por questões sociais
• Posicionamento diante de problemas sociais

IV - AVALIAÇÃO NA ESCOLA PLURAL

1º) A Avaliação hoje se ele deve ser aprovado ou não. Assim, avalia-se
para registrar um resultado numérico e com ele,
A avaliação é uma das dimensões a serem aprovar ou reprovar.
consideradas, ao se pensar um projeto de escola,
pois é ela que nos permite interpretar a realidade, Quando avaliar?
redefinindo metas e processos, a partir dessa A avaliação é feita no final do processo.
interpretação. A avaliação, assim, é peça chave Como tem o caráter de aprovar ou não, a época
para qualquer proposta escolar inovadora. própria para sua realização é quando já se acabou
Ao pensarmos sobre a avaliação, devemos o processo e tem-se um produto, que é, então,
ter em mente as respostas para as seguintes avaliado.
questões:
o que avaliar? Quem avalia?
para que avaliar? O poder de avaliar é do professor, que, no
quem avalia? papel de juiz, determina se o aluno é bom ou ruim.
quando avaliar? Se for bom, é aprovado; se for ruim, é reprovado.
como e com que avaliar? Ao aluno, resta ouvir sua sentença, sem direito à
apelação. Os pais apenas são comunicados dos
Se formos olhar para a visão de avaliação resultados, através de uma reunião ou, então, ao
existente, hoje, em nossa cultura escolar, essas receber o boletim do filho.
perguntas seriam assim respondidas:
Como e com que avaliar?
O que avaliar? A avaliação é feita através de provas em um
A avaliação está centrada em um aspecto momento estanque do processo. É a quantidade
do processo dos alunos, isto é, no seu desempenho de pontos na prova, e não o processo vivido, que
cognitivo dentro do processo de ensino/ determina o resultado do aluno, ou seja, seu
aprendizagem. Não se coloca como objeto de resultado é o sinônimo dos pontos que tira na prova.
avaliação o projeto da escola, o trabalho do Estas, por sua vez, devem ser “neutras”, “objetivas”,
professor, o processo do aluno de uma forma global. praticamente descontextualizadas do processo para
se tornarem “dignas de credibilidade”. !#
Para que avaliar?
Se o objeto da avaliação é o desempenho Há, assim, uma visão reduzida e equivocada
cognitivo do aluno, a avaliação serve para decidir do processo de avaliação. O que predomina é um
modelo quantitativo, centrado no aluno. Daí o fato Quem avalia?
dos resultados negativos, com uma alta taxa de Os agentes da avaliação são aqueles que
reprovação, não repercutirem num processo de são sujeitos do processo ou parceiros do mesmo,
reflexão de todo o projeto escolar: a nota, nessa ou seja:
visão, reflete apenas o desempenho cognitivo do
aluno e revela um problema que se concentra nele • o grupo de profissionais da escola
e não no processo educativo.
Essa visão já vem sendo questionada e • o grupo de alunos
muitas escolas da Rede Municipal já vêm buscando
formas alternativas de rompimento com esse • o conselho escolar
modelo: novos processos de avaliação
interdisciplinar por turma; eliminação das provas • os pais e mães dos alunos
bimestrais; avaliação processual com auto-
avaliação; eliminação do sistema de notas; • os agentes educativos de apoio (das
avaliação não para retenção dos alunos, mas para regionais/CAPE/SMED).
o projeto de aceleração; avaliação mais flexível para
equipamento dos alunos por critério de idade; Dependendo do que está sendo avaliado,
avaliação flexível na educação de jovens e adultos; um ou outro agente terá uma responsabilidade
avaliação vinculada ao projeto de “dependência”... maior no processo. Se, por exemplo, é o processo
Todas essas experiências apontam para a de ensino/aprendizagem e de socialização de um
necessidade de se repensar o sentido da avaliação determinado grupo de alunos que está sendo
em um projeto educativo que conceba a escola em avaliado, participarão como agentes centrais dessa
sua dimensão plural. avaliação, o professor acompanhante, os
professores do Ciclo de Formação, os alunos e seus
2º) Avaliação na Nova Lógica pais. Se o objeto de avaliação é o projeto
pedagógico da escola, esses agentes se ampliarão
Entendendo a educação como um direito, com a participação de representantes do corpo
no projeto da Escola Plural não cabe avaliar para docente, discente, pais, funcionários, membros das
classificar, excluir ou sentenciar, aprovar ou reprovar. Regionais, coordenados pela Direção e Conselho
Na perspectiva da Escola Plural, as questões Escolar.
referentes à avaliação são assim explicitadas:
Quando avaliar?
O que avaliar? Entendemos que a ação avaliativa é
A avaliação tem que incidir sobre aspectos contínua e não circunstancial, reveladora de todo
globais do processo, inserindo tanto as questões o processo e não apenas de seu produto. Dentro
ligadas ao processo ensino/aprendizagem como as desse processo de avaliação formativa, podemos
que se referem à intervenção do professor, ao projeto identificar três momentos chaves: o inicial, o
curricular da escola, à organização do trabalho contínuo e o final. Cada um desses momentos
escolar, à função socializadora e cultural, à possui uma especificidade, sendo que o momento
formação das identidades, dos valores, da ética etc., inicial tem uma função diagnóstica, o contínuo, a
enfim, ao seu Projeto Político-Pedagógico. Assim, de acompanhar o processo e o final, de identificar
não mais procede pensar que o único avaliado é o avanços alcançados e aspectos a serem
aluno e seu desempenho cognitivo. trabalhados em outro momento, constituindo-se,
assim, em um momento inicial de uma nova fase
Para que avaliar? do processo.
Avalia-se para identificar os problemas e É o que nos mostra este quadro,
avanços e redimensionar a ação educativa. Com a caracterizando os três momentos, ao se pensar a
avaliação, iremos diagnosticar os avanços e avaliação do processo de Formação Básica, em um
entraves do projeto em suas múltiplas dimensões, determinado projeto.
além de detectar suas causas e as ações mais Quadros semelhantes a esse podem ser
!$ adequadas para seu redimensionamento e construídos ao se avaliar, por exemplo, o projeto
continuidade. A avaliação, portanto, é um processo pedagógico da escola ou a prática do grupo de
formativo e contínuo. professores.
MOMENTOS DE AVALIAÇÃO
Avaliação Inicial Avaliação Contínua Avaliação Final
Para quê? • Conhecer e identificar • Perceber o grau de • Identificar os
conhecimentos, valores, avanço dos alunos em resultados finais do
atitudes prévias dos relação aos objetivos. processo de
alunos (diagnóstico). •Reorientar e melhorar aprendizagem-
a intervenção socialização.
pedagógica. • Levantar os objetivos
para novas
aprendizagens.

Quê? • Avaliam-se os • Avaliam-se os • Avaliam-se os graus


esquemas de progressos, bloqueios, de aprendizagens
conhecimentos, valores, impasses presentes no alcançados a partir dos
atitudes prévias processo de ensino- objetivos e conteúdos
pertinentes para a nova aprendizagem- fixados.
situação de socialização.
aprendizagem.

Quando? • Realiza-se no começo • Acontece durante o • Realiza-se ao fim de


de cada nova fase de processo de uma fase de
aprendizagem- aprendizagem. aprendizagem.
socialização.

Como? • A partir de situações • A partir de uma • Observação, registros


problematizadoras, observação sistemática e interpretação da
onde os alunos revelam do processo de produção dos alunos
o que valorizam e aprendizagem e do em que utilizam os
sabem e o que registro e interpretação conteúdos aprendidos e
gostariam de saber e dessas observações vivenciados.
vivenciar. • A partir da produção • Auto-avaliação.
dos alunos.

Como a organização da escola passa a ser por • Avaliação Contínua:


Ciclos de idade de Formação, de 3 anos e não Serve para ir constatando o que está sendo
apenas 1 ano, é importante pensarmos no processo construído pelas crianças e o que está em vias de
de avaliação para organização das turmas de construção. Cumpre o papel de, no processo, ir
referência, acompanhamento do processo e também identificando dificuldades e programando
passagem de um Ciclo para o outro. Pensando nos atividades diversificadas, de modo a não deixar
três momentos, a ação avaliativa assim se acumular dificuldades. É através dela que os
caracteriza. professores seqüenciam seus projetos e definem as
competências a serem priorizadas no mesmo.
• Avaliação Inicial:
Serve para organizar os alunos de um mesmo • Avaliação Final:
Ciclo de Formação em turmas de referência. Como Como a avaliação é contínua e processual, essa
critérios de enturmação serão observados a idade, avaliação não tem o caráter de definir aprovação e
a experiência escolar anterior, o universo e as reprovação. Ela serve para ter um diagnóstico
vivências culturais. É importante frisar que não há, global do processo vivido, diagnóstico esse que
aqui, uma tentativa de homogeneização e sim de servirá para a organização do próximo Ciclo de !%
organização de grupos que possam se interagir, que Formação. Pode acontecer, porém, que algum
tenham canais abertos para troca e confronto de aluno não consiga um desenvolvimento equilibrado
hipóteses. em todas as dimensões da formação apropriada
ao ciclo de idade, dificultando sua interação em Seminário para troca de experiência entre
seu grupo de referência. Essa situação levará à escolas de uma mesma regional, com o objetivo de
conveniência ou não de sua permanência nesse refletir e avaliar os projetos pedagógicos das
ciclo durante mais um ano ou de prosseguir com mesmas.
seus pares para o ciclo seguinte. Esse aspecto deverá
ser bem equacionado coletivamente. Nunca será b) Avaliação do processo educativo em cada
deixado a critério de um professor. Será urna decisão Ciclo de Formação:
ponderada pela equipe de trabalho como um todo.
Deve levar em consideração a pluralidade de Conselho do ciclo: reunião semestral com os
dimensões que estão em jogo, os benefícios da professores do ciclo e representantes de alunos, em
manutenção do educando com seus pares para a número equivalente ao de professores, além de um
socialização e o desenvolvimento equilibrado de membro da coordenação pedagógica, para discutir
habilidades e saberes, vivências e convivências. A e avaliar processo educativo da turma.
permanência de algum aluno no ciclo de idade por Conselho de pais: reunião bimestral com pais,
mais um ano deverá ser considerada como situação o professor acompanhante, representantes de
excepcional e, de modo algum, como prática alunos e um representante da coordenação
escolar habitual, como acontece atualmente na pedagógica para discutir e avaliar o processo
passagem de série. educativo da turma.

• Como e com que avaliar: c) Avaliação do processo de ensino/


O projeto da Escola Plural rompe com a lógica aprendizagem em cada Ciclo de Formação:
da avaliação somativa, onde o aluno precisa ter
um número X de pontos para passar para o próximo Para uma avaliação contínua do processo de
ano. Dessa forma, não podemos pensar na prova ensino/aprendizagem, é preciso criar instrumentos
como o único instrumento de avaliação. Outros que possibilitem aos alunos e professores
mais precisam ser construídos, sempre a partir de acompanharem o processo.
critérios não mais ligados ao número de pontos Em relação aos professores:
alcançados e sim aos objetivos definidos. A observação: observar permite ao
Assim, algumas formas devem ser professor obter informações sobre as habilidades
implementadas: cognitivas, as atitudes e procedimentos dos alunos,
em situações mais ou menos espontâneas. Mas
a) Avaliação do projeto pedagógico da escola: para ela ser eficaz, é preciso romper com as
aparências, que, muitas vezes, nos levam a construir
Assembléia Escolar com participação dos falsas relações. É o caso de crer que o aluno não
alunos, professores, funcionários e pais, com tem dificuldades de compreensão porque não falta
reunião regular semestral para discutir e definir à aula ou é quieto ou, o contrário, tem dificuldades
normas, calendário, eventos, entre outras questões porque conversa e faz bagunça na aula.
globais. Essa Assembléia deve ser precedida de
discussões com os vários segmentos participantes O processo de observação deve ser
que já levariam propostas para a Assembléia. Essa acompanhado de um cuidadoso registro, onde as
Assembléia elege um conselho que irá acompanhar observações são anotadas, a partir de critérios
os encaminhamentos para as decisões tomadas. definidos e objetivos propostos, como neste modelo:

OS TESTES, PROVAS E TRABALHOS


Nome: Grupo:
Projeto Observações sobre conteúdos:
Conteúdos Aspectos Fundamentais Secundários
Conceitos Incoerências
Dificuldades Avanços
Procedimentos Incoerências
!& Dificuldades Avanços
Atitudes Diante das explicações
Diante das experiências
Outras atitudes
Desvinculados de suas funções de sanção e juízo instrumentos, é preciso que o professor saiba
de valor, os testes são oportunidades de perceber interpretá-los, para que eles sejam realmente
os avanços ou dificuldades dos alunos em relação eficazes.
ao tema em questão. Para isso, sua formulação
deve se fundar em questões de compreensão e • Em relação aos alunos:
raciocínio e não em memorização mecânica. • Auto-avaliação:

• As entrevistas e conversas informais: Se estamos querendo construir sujeitos


autônomos, é necessário que o aluno exercite essa
É preciso que o professor instale canais de autonomia a partir de uma reflexão sobre seu
comunicação entre ele e os alunos para que possa processo de aprendizagem e socialização. Para isso,
ouvir o que os alunos estão percebendo, dizendo, é preciso que existam instrumentos que os auxiliem
manifestando sobre seu processo de aprendizagem. nesse processo.
Isso pode ser feito de forma individualizada, em Instrumentos que enfoquem as várias dimensões
pequenos grupos ou em conversas coletivas. de seu processo educativo, como nos exemplos
É importante frisar que além de construir os abaixo:

Auto-avaliação sobre um relatório de visita ao museu


Nome: Data:
Eu escrevi sobre:
Com:
A - A organização do relatório
SIM NÃO OBSERVAÇÕES
Coloquei um título
Coloquei os subtítulos
Coloquei números
Sublinhei
Fiz parágrafos
Escrevi sempre na linha
Fiz esquemas
Coloquei ilustrações
Meu trabalho está limpo e bem apresentado
B- O texto propriamente dito
Escrevi o que tinha visto
Escrevi consultando minhas anotações
Escrevi "coisas" que não tinha certeza
Disse se a visita me agradou ou não e por
quê
Fiz o relatório na ordem de visita

Obs.: Essa auto-avaliação deve ser construída


com os alunos, depois de terem discutido e estudado
sobre como se faz um relatório. A auto-avaliação
será feita confrontando esse quadro como relatório
elaborado. A partir dela, o aluno poderá revisar seu
texto, pedindo auxílio quando tiver dificuldades. !'
Do que gosto e não gosto na escola:
Gosto muito de ir à escola.
Gosto um pouco de ir à escola.
Eu não gosto de ir à escola.
Opinião da criança:
Opinião do professor:
Opinião dos pais:

Ficha avaliativa: seu processo no que se refere a aspectos afetivos,


de socialização etc.
Dois outros instrumentos precisam ser Para finalizar, é importante salientar que os
pensados: um que revele para a família o processo instrumentos de avaliação, por mais variados que
educativo de seu filho e outro que acompanhará o sejam, devem refletir a filosofia da Escola Plural,
aluno, no caso de sua transferência para outro sendo expressão de uma relação pedagógica
estabelecimento de ensino. O boletim, que era até baseada no diálogo e na busca coletiva de soluções.
agora usado, não mais atende aos objetivos da Dessa forma, o processo de avaliação deixa de
Escola Plural. Ele deve ser substituído por uma ficha ser um instrumento de sanção, passando a ser um
avaliativa do aluno, contendo informações sobre instrumento de construção de um processo
educativo mais plural.

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