Você está na página 1de 218

ÍNDICE

Agradecimentos ...................................................................... ..................... 5


Introdução: Em Busca da Grande Sociedade ................................................. 11
Parte I: Os Cavaleiros Templários
Capítulo 1: Desejo de Matar .................................................................... 21
Capítulo 2: "Pois Agora é Tempo de Guerra" ........................................... 33
Capítulo 3: "Fosse Justa ou Odiosamente" ............................................... 51
Capítulo 4: "Primeiro, e Acima de Tudo...
a Destruição dos Hospitalários" ............................................................... 59
Capítulo 5: Os Cavaleiros do Templo ...................................................... 73
Capítulo 6:0 Ultimo Grão-Mestre ............................................................ 87
Capítulo 7: "O Martelo dos Escoceses" .................................................. 103
Capítulo 8: Quatro Vigários de Cristo ................................................... 117
Capítulo 9: "Não Poupem Meios Conhecidos de Tortura" ...................... 127
Capítulo 10: "Sem Efusões Violentas de Sangue" .................................. 141
Capítulo 11: Homens em Fuga ............................................................... 153
Parte 2: Os Maçons
Prólogo ................................................................................................. 165
Capítulo 12: O Nascimento da Grande Loja ........................................... 167
Capítulo 13: Em Busca das Guildas Medievais ...................................... 179
Capítulo 14: "Ter Minha Garganta Cortada" .......................................... 191
Capítulo 15: "Meu Peito Aberto, Meu Coração Arrancado" .................... 199
Capítulo 16: O Mestre Maçom ............................................................... 203
Capítulo 17: Mistério na Linguagem ...................................................... 211
Capítulo 18: Mistério na Alegoria e nos Símbolos ................................. 221
Capítulo 19: Mistério nos Juramentos Sangrentos .................................. 231
Capítulo 20: Mistério nas Convicções Religiosas ................................... 239
Capítulo 21: Evidências na Lenda de Hiram Abiff ................................. 251
Capítulo 22: De Monges a Maçons ........................................................ 257
Capítulo 23: O Pêndulo Protestante ....................................................... 269
Capítulo 24: Os Mistérios Fabricados ...................................................... 281
Capítulo 25: O Templo Inacabado de Salomão ......................................... 299
Apêndice: Humanum Genus .......................................................................... 315
índice Remissivo .......................................................................................... 331
Bibliografia .................................................................................................. 341
INTRODUÇÃO
Em Busca da Grande Sociedade

A pesquisa por todo este livro não tinha, originalmente, a intenção de revelar coisa alguma
sobre a Maçonaria ou os Cavaleiros Templários. Seu objetivo era satisfazer minha própria
curiosidade sobre certos aspectos inexplicados da Revolta Camponesa na Inglaterra em 1381, um
levante selvagem em que uma centena de milhares de ingleses marchou sobre Londres. Eles se
moveram com uma raiva incontrolável, incendiando propriedades, abrindo prisões e derrubando
quem quer que estivesse no caminho.
Um mistério não resolvido daquela revolta era a organização por trás dela. Por muitos anos, um
grupo de padres descontentes do baixo clero viajou pelas cidades, pregando contra os ricos e a
corrupção da Igreja. Durante os meses que antecederam a revolta, houve encontros secretos em toda
a Inglaterra central, tecendo uma rede de comunicações. Após a derrubada da rebelião, os líderes
rebeldes confessaram ser agentes de uma Grande Sociedade, que supostamente teria sua base em
Londres. Tão pouco se sabe sobre essa pretensa sociedade que diversos estudiosos resolve ram o
mistério simplesmente decidindo que tal sociedade secreta nunca
existira.
Outro mistério eram os ataques concentrados e especialmente malévolos sobre a Ordem
religiosa dos Cavaleiros Hospitalários de São João, atualmente conhecidos como Cavaleiros de
Malta. Não apenas os rebeldes foram atrás de suas propriedades para vandalizá -las e incendiá-las,
como seu prior foi arrancado da Torre de Londres para ser decapitado e sua cabeça, pendurada na
Ponte de Londres, para deleite da
multidão.
Não havia dúvidas de que a ferocidade desencadeada sobre os Hospitalários cruzados tinha um
propósito. Um dos líderes rebeldes capturados declarou, quando lhe perguntaram as razões da
revolta: "Primeiro e acima de tudo... a destruição dos Hospitalários." Que tipo de
sociedade secreta poderia ter um ódio tão particular como um de seus propósitos principais?
O desejo de vingança contra os Hospitalàrios era fácil de identificar na ordem cruzada rival dos
Cavaleiros do Templo de Salomão, em Jerusalém. O problema é que esses Cavaleiros Templários haviam
sido completamente suprimidos quase setenta anos antes da Revolta Camponesa, depois de diversos anos
durante os quais os Templários haviam sido reprimidos, torturados e queimados na fogueira. Após lançar
o decreto que deu fim ã Ordem Templária, o Papa Clemente V ordenara que todas as propriedades dos
Templários deveriam ser entregues aos Hospitalàrios. Será que um desejo de vingança poderia realmente
ter sobrevivido ocultamente por três gerações?
Não havia prova indiscutível; além disso, os únicos indícios existentes sugerem que havia apenas uma
sociedade secreta na Inglaterra do século XIV, a sociedade que era, ou se tornaria, a Ordem dos Maçons
Livres e Aceitos. N3o parecia haver ligação, todavia, entre a revolta e a Maçonaria, exceto pelo nome ou
título de seu líder. Ele ocupou o palco central da história inglesa por apenas oito dias e nada se sabe sobre
ele, exceto que era o supremo comandante da rebelião. Era chamado Walter 'fyler1 e, no início, pareceu ser
apenas coincidência que trouxesse um título de oficial da Loja Maçônica. Na Maçonaria, o Guarda do
Templo, que deve ser um Mestre Maçom, é o sentinela, o sargento de armas e o oficial que verifica as
credenciais dos visitantes que querem entrar na Loja. Em alusão a uma época anterior e mais perigosa, ele
se posiciona do lado de fora da porta da Loja, onde fica com uma espada desembainhada na mão.
Eu sabia que, no passado, houve muitas tentativas de ligar os maçons aos Cavaleiros Templários, mas
nunca com sucesso. Os frágeis indícios trazidos pelos proponentes dessa conexão nunca foram
apresentados, por serem baseados em simples especulação e, ao menos uma vez, por terem sido
deliberadamente forjados. Todavia, apesar das falhas em estabelecer essa ligação, ela simplesmente não
desaparecia, e a crença, reforçada pelo tempo, em alguma relação entre as duas Ordens permanece como
uma das lendas mais duradouras da Maçonaria. Isso é inteiramente apropriado, pois todas as diversas
teorias sobre as origens da Maçonaria são legendárias. Nenhuma delas é sustentada por indícios
universalmente aceitos. Eu não estava disposto a seguir esse caminho demasiado longo e decidi concentrar
meus esforços em cavar mais fundo na história dos Cavaleiros Templários, para ver se havia alguma
ligação entre a Ordem suprimida e a sociedade secreta por trás da Revolta Camponesa. Ao fazê-lo, pensei
que estava deixando a Maçonaria muito para trás mas logo vi o quanto me enganava.
Como qualquer pessoa interessada em história medieval, desenvolvi interesse pelas Cru/adas, e talvez
mais do que simples interesse. Essas guerras sagradas tem um apelo que, freqüentemente, é tflo romântico
quanto histórico; em minhas viagens, tentei beber a atmosfera dos estreitos desfilado iros nas montanhas
do Líbano pelos quais os exércitos cruzados passaram, e sentei-me a contemplar as ruínas do castelo em
torno de Sidônia e Tiro, tentando ouvir os sons violentos do ataque e da defesa. Maravilhei-me com os
muros de Constantinopla e vaguei pelo Arsenal de Veneza, onde se reuniram as frotas cruzadas. Sentei-me
na igreja redonda dos Cavaleiros Templá- rios em Londres, tentando imaginar a cerimônia de sua
consagração pelo Patriarca cie Jerusalém em 1185, mais de trezentos anos antes de Colombo partir cm
busca das índias. '
A Ordem Templária loi fundada em Jerusalém em 1118, logo após a Primeira Cruzada. O nome veio
da localização de seu primeiro quartel- general, no lugar do antigo Templo de Salomão. Ao ajudar a
preencher uma necessidade desesperada de um exército residente na Terra Santa, os Cavaleiros do
Templo logo cresceram em número, riqueza e poder político. Também cresceram cm arrogância; seu
(Irão-Mestre de Ridfort representou um papel fundamental nos enganos que levaram queda de Jerusalém
em 1187. Os cristãos latinos conseguiram ficar com unia estreita faixa de terra ao longo da costa, na qual
os Templários estavam entre os maiores proprietários de terras e forti li cações.
Finalmente, o entusiasmo em mandar homens e dinheiro para a Terra Santa enfraqueceu-se entre os
reinos europeus, mais preocupados em guerrear entre si. Por volta de 12%, o sultão do Egito conseguiu
expulsar os cruzados residentes, junto com as ordens militares, para o mar. A Terra Santa estava perdida
e os Cavaleiros Templários derrotados moveram sua base para a ilha de Chipre, sonhando com uma nova
Cruzada que restaurasse sua glória passada.
Enquanto os Templários planejavam uma nova Cruzada contra os infiéis, o rei l;elipe IV da França
planejava sua própria Cruzada particular contra os Templários. pie ansiava por se livrar das imensas
dívidas para com a Ordem Templária, que aproveitara sua riqueza para estabelecer uma grande rede
bancária. Felipe queria o tesouro templário para financiar suas guerras continentais contra Eduardo I da
Inglaterra,
Após duas décadas de luta. tendo a Inglaterra de um lado e a Santa Igreja Romana de outro, dois
acontecimentos nao relacionados deram a Felipe da França a oportunidade que ele queria. Eduardo I
morreu e seu filho, lastimosamente fraco, assumiu o trono da Inglaterra como Eduardo 1. Na outra frente,
Felipe conseguiu colocar seu próprio homem no Trono
de Pedro; o Papa Clemente V.
1 N. T.; cm inglês, Tylcr é o equivalente ao guarda do Templo.
Quando se anunciou em Chipre que o novo papa organizaria uma Cruzada, os Cavaleiros Templários
pensaram que havia chegado a hora da restauraçáo de sua glória. Chamado h França, seu idoso
Grao-Mestre,
Jacqucs de Molay, chegou cheio de planos elaborados para o resgate de Jerusalém. Em Paris, esteve
bem-humorado c recebeu honrarias até o dia fatal. No crepúsculo de sexta-feira, 13 de outubro de 1307,
todos os Templários da França foram presos e acorrentados por ordem de Felipe. A medonha tortura em
busca de confissões de heresia começou imediatamente.
Quando as ordens do papa para prender os Templários chegaram à corte inglesa, o rei Eduardo II não
tomou nenhuma atitude. Protestou para o pontífice que os Templários eram inocentes. Apenas depois de o
papa publicar uma bula formal, o rei inglês foi forçado a agir. Em janeiro de 1308, Eduardo, finalmente,
deu ordens para a prisão dos Cavaleiros Templários da Inglaterra, mas os três meses de advertência
haviam sido bem aproveitados. Muitos dos Templários estavam escondidos, e alguns dos que haviam sido
presos conseguiram escapar. Seu tesouro, seus relicários preciosos c mesmo seus registros haviam
desaparecido. Na Escócia, a ordem papal nem mesmo foi publicada. Sob tais condições, a Inglaterra e,
especialmente, a Escócia tornavam-se portos seguros para os Templários fugitivos da Europa continental
e a eficiência de seu ocultamento revela alguma assistência externa ou de um ao outro.
O trono inglês passou de Eduardo II para Eduardo III, que entregou a coroa a seu neto de dez anos, o
qual, como Ricardo II, assistiu da Torre enquanto a Revolta Camponesa explodia pela cidade de Londres.
Muitas coisas se haviam passado com o povo inglês nesse meio tempo. Guerras incessantes haviam
secado a maior parte do tesouro do rei c a corrupção levara o resto. Um terço da população perecera
durante a Peste Negra e a fome levara outro tanto. A mão-de-obra reduzida de agricultores e artesãos
descobriu que poderia receber mais por seu trabalho, mas seu aumento veio à custa dos bispos e barões
proprietários de terra, que não estavam dispostos a tolerar tal estado de coisas. Fizeram-se leis para
reduzir salários e preços aos níveis anteriores à peste; construíram-se genealogias para voltar a impor as
cadeias da servidão e da vilania em homens que se julgavam livres. A necessidade real de dinheiro para a
guerra contra os franceses inspirou a cobrança de novos e engenhosos impostos. A opressão vinha de
todos os lados; o caldeirão da rebelião começava a ferver.
A religião também não ajudava. A Igreja, como proprietária de terras, era uma mestra tão impiedosa
quanto a nobreza proprietária. A religião teria sido também fonte de embaraço para os Templários
fugitivos. Eles eram um corpo religioso de monges guerreiros que não deviam satisfação a nenhum
homem na Terra, exceto ao Santo Padre. Quando seu papa voltou- se contra eles, os acorrentou e surrou,
quebrou o pacto deles com Deus. Na Europa do século XIV, não havia caminho para chegar a Deus exceto
por intermédio dos representantes de Cristo na Terra. Se o papa rejeitava os Templários e estes
opunham-se ao papa, eles tinham de encontrar um novo modo de adorar seu Deus, nurna época em que
qualquer variação dos ensinamentos da Igreja estabelecida era considerada heresia.
Esse dilema relembra o princípio central da Maçonaria, que requer apenas que um homem acredite
em um Ser Supremo, sem fazer exigências quanto à forma de adorar a divindade de sua escolha. Na
Grã-Bretanha católica, tal crença teria sido um crime, mas teria acolhido os Templários fugitivos,
rejeitados pela Igreja universal. Considerando-se a punição extrema para a heresia, essa crença
independente também explicaria uma das mais misteriosas e antigas Obrigações da Maçonaria, as Regras
que ainda governam o comportamento da fraternidade. A Obrigação diz que nenhum Maçom deve
revelar os segredos de um Irmão que possam privá-lo de sua vida e propriedade.
Essa ligação me fez mudar o modo de encarar as Antigas Obrigações maçônicas. Elas tomam nova
direção e significado quando vistas como um conjunto de instruções para uma sociedade secreta criada
para proteger e ajudar Irmãos fraternos a fugir e se esconder da Igreja. A caracterização não fazia sentido
no contexto de uma guilda medieval de pedreiros, a explicação usual para as raízes da Maçonaria; fazia,
porém, grande sentido para homens como os Templários fugitivos, cujas vidas dependiam de seu
oeultamento. Não haveria também problemas para encontrar novos recrutas nos anos seguintes: haveria
muitos queixosos e dissidentes da Igreja entre as futuras gerações. Os rebeldes da Revolta Camponesa o
provaram ao atacar abadias e monastérios e cortar a cabeça do arcebispo de Canter- bury, o principal
prelado católico na Inglaterra.
Os Templários fugitivos precisariam de um código tal como as Antigas Obrigações da Maçonaria,
mas os pedreiros, certamente não. Tornara-se óbvio que eu precisava saber mais sobre a Antiga Ordem de
Maçons Livres e Aceitos. A quantidade de material maçônico disponível ao grande público me
surpreendeu, assim como o fato de que ele ficava na seção de educação e religião. Não contente com apenas
aquilo que estava disponível ao público em geral, pedi para utilizar a biblioteca do Templo maçônico em
Cincin- nati, Ohio. Disse ao cavalheiro que me atendeu que eu não era Maçom, mas queria utilizar a
biblioteca como parte de minha pesquisa para um livro que provavelmente incluiria uma nova visão da
Ordem Maçônica. Sua única questão foi: "Ele será honesto?" Assegurei-lhe de que eu não tinha nenhum
desejo ou intenção de não ser honesto, ao que ele replicou: "Muito bem." Fui deixado sozinho com o
catálogo e as centenas de livros maçôni- cos que enchiam as paredes. Aproveitei também as publicações da
Mcisonic Service Association em Silver Spring, Maryland.
Mais tarde, quando meu conhecimento crescente sobre Maçonaria me capacitou a manter uma
conversa sobre o assunto, comecei a falar com maçons. No início, não sabia como conseguiria encontrar
quinze ou vinte maçons e, se pudesse encontrá-los, será que gostariam de falar comigo? O primeiro
problema foi resolvido logo que comecei a perguntar a amigos c colegas se eles eram maçons. Havia quatro
em um grupo que eu conhecera por cerca de cinco anos e muitos mais entre homens que eu conhecia havia
mais de vinte anos, sem nem mesmo perceber que tinham qualquer ligação com a Maçonaria. Quanto à
segunda parte cie minha preocupação, encontrei-os com boa vontade para falar, não a respeito das
palavras de passe "secretas" e cumprimentos (que, por meio deles, eu já conhecia), mas sobre o que
haviam aprendido sobre as origens da Maçonaria e suas Antigas Obrigações.
Eles ficaram tão intrigados quanto eu sobre as possibilidades de descobrir o significado secreto de
palavras, símbolos e rituais para os quais não se dispunha de nenhuma explicação lógica; por exemplo,
por que, no rito de
iniciação do Mestre Maçom, se diz: "Este grau o tornara Irmão de piratas c corsários." Concordamos que
revelar os segredos desses mistérios maçô- nicos contribuiria muito para desenterrar o passado, uma vez
que a perda de seus verdadeiros significados fez com que antigos termos e símbolos fossem preservados
intatos, menos sujeitos a mudanças ao longo dos séculos ou a adaptações a novas condições.
Entre esses segredos perdidos, estava o significado de palavras usadas nos rituais maçônicos, palavras
como tyler (Guarda do Templo), cowan (profano, não-iniciado), due-guard (saudação ao Guarda do Templo ao
entrar e sair da Loja) e Juwes (assassinos de Miram Abiff). Escritores maçônicos discutiram por séculos,
sem sucesso, para fazer com que tais palavras se encaixassem em sua convicção preconcebida de que a
Maçonaria nascera nas guildas inglesas de pedreiros medievais.
Agora, experimento a possibilidade de que havia realmente uma ligação entre a Maçonaria e a
Ordem Tcmplária francesa ao verificar o significado perdido desses termos, não em inglês, mas em
francês medieval. As respostas começaram a fluir; logo um significado sensato para cada um dos
misteriosos termos maçônicos foi estabelecido na linguagem francesa. Chegamos mesmo ao primeiro
significado provável para o nome de I liram Abiff,
0 arquiteto assassinado no Templo de Salomão, figura central do ritual maçônico. O exame estabeleceu
ainda outra coisa. Sabe-se bem que, em 1362, as cortes inglesas, oficialmente, mudaram a linguagem
usada em seus procedimentos do francês para o inglês, de forma que as raízes francesas de
todos os misteriosos termos da Maçonaria confirmam a existêiicia dessa sociedade secreta no século XIV,
época da supressão templária e da Revolta Camponesa.
Com esse encorajamento, busquei outros segredos perdidos da Maçonaria: o círculo e pavimento
mosaico do chão da Loja, luvas e aventais de pele de cordeiro, o símbolo do compasso e do esquadro e
mesmo a misteriosa lenda do assassinato de I liram Abiff. As regras, costumes e tradições dos Templários
deram respostas para todos esses mistérios. A seguir, veio uma análise mais profunda das Antigas
Obrigações da antiga Maçonaria, as quais definem uma sociedade secreta de proteção mútua. A função da
Loja era dar assistência aos Irmãos que se escondiam do ódio da Igreja e
do Estado, fornecendo o dinheiro, respondendo por eles diante das autoridades e mesmo oferecendo
"alojamento", o que trouxe à Maçonaria esse termo (Loja) para seus capítulos c salas de encontro. Não
restou nenhuma dúvida razoável em minha mente de que o conceito original da sociedade secreta que veio
a se chamar Maçonaria nascera como uma sociedade de proteção mútua entre templários fugitivos e seus
associados na Grã-Bretanha, homens que haviam se escondido para escapar do aprisionamcnto e da
tortura ordenada contra eles pelo papa Clemente V. Seu antagonismo para com a Igreja tornou-se mais
poderoso por seu total segredo. A supressão da Ordem Templária apareceu como um dos maiores enganos
que a Santa Sé já cometeu.
Em troca, a Maçonaria foi alvo de mais bulas c encíclicas papais odientas do que qualquer outra
organização secular na história cristã. Essas condenações começaram apenas poucos anos depois que a
Maçonaria se revelou, em 1717, e cresceram cm intensidade, culminando com a bula Humanam Ganas
promulgada pelo papa Leão X I I I em 1884. Nela, os maçons são acusados de promover a liberdade
religiosa, a separação entre Igreja e listado, a educação de crianças por seculares e o extraordinário
crime de acreditar que as pessoas tem o direito de fazer suas próprias leis
e de eleger seu próprio governo, "de acordo com os novos princípios de liberdade". Tais conceitos são
identificados, junto aos maçons, como parte do Reino de Satã. O documento não apenas define as
preocupações da Igreja Católica com a Maçonaria daquele tempo, como também define, claramente, em
que os maçons acreditam. Por isso decidi incluir o texto completo dessa bula papal como apêndice deste
livro.
Finalmente, deve-se acrescentar que os acontecimentos aqui descritos foram parte de uma grande
linha divisória da História ocidental. A era feudal chegava a um fim. A terra e o trabalho camponês
perderam seu papel como única fonte de riqueza. Famílias mercadoras reuniram-se em guildas e
assumiram a autoridade em muitas cidades munidas de alvarás, como corporações municipais. O
comércio levou à abertura de bancos e ao investimento; cidades tornaram-se centros poderosos, rivais da
nobreza em
riqueza e influência. '
A Igreja universal, que buscara posição de supremacia em um contexto feudal, foi demasiadamente
lenta em aceitar as mudanças que poderiam afetar essa supremacia. Quaisquer diseordáncias materiais
para com a Igreja eram chamadas de heresia, o crime mais odioso sob o céu. O herético não apenas
merecia a morte, como também a mais dolorosa morte
imaginável. ||
Alguns dissidentes correram para os bosques e se esconderam, enquanto outros se organizavam. No
caso dos Cavaleiros Templários fugitivos, a organização já existia. Eles possuíam uma rica tradição de
operações secretas que haviam sido elevadas a seu mais alto nível por sua associação com a intricada
política bizantina, o ritual secreto dos Assassinos e as intrigas
das cortes muçulmanas, que encontravam no campo de batalha ou na mesa de conferências. A Igreja, em
sua rejeição sangrenta à dissensão e à mudança, forneceu a eles enorme quantidade de recrutas, que
abundaram por séculos.
Mais de seiscentos anos se passaram desde a supressão dos Cavaleiros Templários, mas sua herança
vive na maior organização fraternal que já se conheceu. Assim, a história desses cavaleiros cruzados
torturados, da selvageria da Revolta Camponesa e dos segredos perdidos da Maçonaria torna-se o relato
da mais bem-sucedida sociedade secreta na história do mundo.
Os CAVALEIROS TEMPLÁRIOS
Capitulo 1

DESEJO DE MATAR

E m 1347, a mais de mil milhas de Londres, os mongôis kipchak sitia- vam um centro genovês de
comercio cercado de muralhas, na cos-
ta da Criméia, Os atacantes kipchnk morriam aos punhados de
uma estranha doença que parecia ser altamente infecciosa. Naquilo que pode ser considerada a
primeira guerra biológica registrada, os kipchaks começavam a catapultav os cadáveres infectados
por sobre os muros.
Alguns meses depois, galeras genovesas da cidade sitiada atracavam em Messina, na Sictlia,
com homens moribundos nos remos e histórias de mortos ativados ao mar por todo o caminho* Os
marinheiros ignoraram os esforços das autoridades para evitar seu desembarque e a Peste Negra
entrou na Europa, Trazida por ratos de navio, moveu-se para dentro do continente pelos portos de
Nápoles e Marselha. Da Itália, passou à Suíça e Europa Oriental: passou pela França e chegou à
Alemanha, A praga chegou à Inglaterra cm navios que atracaram nos portos de Dorset e se espalhou
a partir de la. Em dois anos, estima-se que tenha matado de 35% a 40% da população da Europa c da
Grã Bretanha,
Como em todas as épocas e lugares, a fome, a desnutrição e a baixa imunidade resultante
forneceram o melhor ambiente possível epidemia.
Uma mudança no clima trouxera invernos mais longos o ver&es mais frescos e úmidos, que haviam
encurtado c atrapalhado a estação do crescimento via plantação. De 1315 a 1318 chuvas de ver&o
torrenciais an ninaram as colheitas, trazendo uma onda de tome. As safras posteriores foram espora
dicas, mas ao menos bastavam para a sobrevivência. Em 1340, entretanto, sobreveio um declínio
universal nas colheitas c milhares de pessoas pereceram na pior escasso/, do século,
Mesmo sob condições consideradas ideais, a população em geral era subnutrida. Sua dieta era
composta principalmente de trigo e centeio, com poucos vegetais c um mínimo de carne o leite em
pane porque, mesmo se tivesse os recursos para compra los, não havia refrigeração nem outros meios
de conservação, Deficiências de vitaminas c minerais durante o inverno faziam parte da vida. A caça
podia fornecer carne fresca, mas os direitos de caça pertenciam aos senhores das terras arrendadas. Uma
surra significava uma punição leve e não era incomum a pena de morte por apanhar um cervo, ou mesmo
um coelho, nas florestas do senhor feudal. Muitos corriam o risco, o que nos diz muito sobre a intensidade
da ânsia
biológica por comida fresca.
A doença geralmente encontra suas vítimas mais fáceis entre as crianças, por não desenvolverem um
sistema imunológico maduro até aproximadamente a idade de dez ou onze anos, e entre os mais velhos,
cujo sistema imunológico declina com a idade. Foi assim com a Peste Negra. Embora pessoas de todas as
idades e todos os lugares morressem às dezenas de milhares, os mais jovens e os mais velhos dominavam
as estatísticas. Foi a situação oposta a uma "explosão de natalidade", deixando poucos jovens ingressarem
na população economicamente ativa durante a geração seguinte.
A Peste Negra não era uma só doença, mas três; a fonte de todas era a pulga. Um bacilo no sangue
bloqueia o estômago da pulga. Quando a pulga introduz sua sonda na pele do hospedeiro, de preferência o
rato preto, o bacilo sai do estômago da pulga e entra no hospedeiro, introduzindo a infecção. Conforme os
ratos morriam, as pulgas passavam para outros animais e humanos.
Em uma das formas, os bacilos se instalavam nas glândulas linfáticas. Grandes inchaços e
carbúnculos, chamados bubões, aparecem nas virilhas e axilas, o que dá a essa forma de doença o nome
"peste bubônica". O termo "Peste Negra" vem do fato de o corpo da vítima ficar coberto de manchas
negras e sua língua ficar negra. A morte vinha normalmente em
três dias.
Em outra forma — a septicêmica —, o sangue é infectado e a morte pode levar uma semana ou mais.
A morte mais rápida vem da forma mais infecciosa, a pneumônica, que causa inflamação na garganta e
nos pulmões, sangue no escarro e no vômito, mau cheiro insuportável e dor intensa.
Na época, não se identificaram cientificamente quais eram as doenças da praga nem se sabia nada
sobre o método de transmissão. Isso permitiu que todo tipo de teoria maluca fosse divulgado, entre as
quais a mais comum dizia que a Peste Negra era uma punição vinda de Deus. Alguns chegavam a
amaldiçoar Deus pela grande calamidade. Felipe VI da França tomou medidas para impedir que Deus
ficasse com mais raiva do que aparentemente já estava. Promulgaram-se leis especiais contra a blasfêmia,
com punições bastante específicas. Para a primeira ofensa, o lábio inferior do blasfemo era cortado. Para
a segunda ofensa, o lábio superior e, na terceira ofensa, a língua do ofensor era arrancada.
Surgiram grupos de pessoas que faziam, publicamente, penitência por pecados que não podiam
identificar positivamente, mas que eram obviamente sérios o bastante para enraivecer Deus a ponto de
destruir a raça humana. Apenas as penitências mais severas expiariam tão horrível pecado.
A autoflagelação se transformou em flagelação em grupo; enquanto os penitentes andavam pelas ruas,
freqüentemente encabeçados por um padre, batiam uns nos outros com cordas cheias de nós e flagelos
com pontas de metal para lacerar a carne. Alguns carregavam pesadas cruzes ou usavam coroas de
espinhos. ;
Outros encontraram suas próprias respostas em ritos desinibidos e orgias sexuais. Alguns agiam de
acordo com a teoria de que, uma vez que o mundo terminaria logo, qualquer possível prazer seria
tolerado; outros acreditavam que um apelo a Satã era a única alternativa, já que haviam sido aban-
donados por Deus.
Como sempre na Idade Média, algumas comunidades culpavam os únicos não-cristãos que viviam
entre eles, os judeus. Apesar de morrerem os próprios judeus da Peste Negra, eram acusados de
envenenar poços e causar a praga com ritos secretos e encantamentos, com a intenção de acabar com a
cristandade. Pogroms sangrentos foram organizados na França, Áustria e especialmente — como ocorreu
durante as Cruzadas — na Alemanha. Em Estrasburgo, mais de duzentos judeus foram queimados vivos.
Em uma cidade na margem do Reno, os judeus foram esquartejados e seus restos enfiados em barris de
vinho e lançados ao rio. Os judeus em Esslingen que sobreviveram à primeira onda de perseguições,
pensaram que seu mundo chegava ao fim e se reuniram em sua sinagoga, atearam fogo ao edifício e
morreram queimados. Os judeus que não eram mortos eram expulsos, deixando seus lares para espalhar
sua cultura e, freqüentemente, a praga em outras regiões. A Polônia teve suas próprias perseguições em
áreas dispersas, mas o país era, no geral, muito mais seguro que a Alemanha, e assim os judeus alemães
confluíram para o território polonês. Essa foi a origem das comunidades de judeus asquenazes na Polônia.
Ali mantiveram sua língua alemã, que, gradativamente, desenvolveu-se em um vernáculo chamado
iídiche.
Por causa de sua superpopulação e da quase total falta de saneamento, as vilas e cidades foram as
mais duramente atingidas no início, mas à medida que os homens da cidade se dispersavam para evitar a
praga, leva- vam-na consigo para a zona rural. Os agricultores morriam, os campos ficavam à mercê das
ervas daninhas e animais abandonados vagavam, até morrerem da mesma forma que seus donos. Henry
Knighton, cônego da Abadia de Santa Maria em Leicester, relatou quinhentas ovelhas mortas e
apodrecendo em um único pasto. Estimou-se que a população da Inglaterra, quando a praga cruzou pela
primeira vez o canal, fosse de 4 milhões de pessoas. Na época
1
em que ela se apaziguou, restavam menos de
2,5 milhões.
Notícias das devastações da praga na Inglaterra chegaram aos escoceses, que concluíram que tal
dizimação de seu antigo inimigo só podia ter como responsável um Deus vingativo. Decidiram então
ajudar o Todo-Po- deroso em Seu plano divino e atacar os ingleses enfraquecidos. Os clãs
foram chamados para um encontro na floresta de Selkirk, mas, antes que pudessem marchar para o sul, a
praga atingiu o acampamento, matando um número esümado de cinco mil escoceses em alguns dias.
Nada havia a fazer além de abandonar o plano de invasão, para que os que ainda estivessem saudáveis,
com os doentes e moribundos, levantassem acampamento e voltassem a seus lares. A notícia da reunião
chegara aos ingleses, que se deslocaram para o norte a fim de impedir a invasão. Chegaram a tempo de
interceptar e massacrar o exército escocês dispersado.
Incrivelmente, enquanto a maior das perdas com mortes jamais conhecida estava em andamento, a
guerra entre Inglaterra e França continuava; cada lado enfraquecido esperava que o outro estivesse
ainda mais fraco. Os exércitos necessitavam de suprimentos, produtos dos artesãos e fazendeiros, dos
quais um terço morrera. Os soldados precisavam de dinheiro; a população e as mercadorias
normalmente taxadas para esse fim estavam em declínio. Quando a praga arrefeceu, após alguns anos, o
mundo estava completamente diferente do que sempre fora. Nunca mais seria o mesmo, porque as classes
mais baixas da sociedade, repentinamente,
experimentavam um novo poder.
Acontece que a única lei que nunca pôde ser quebrada sem conseqüências, a lei da oferta e demanda,
estava em plena força e efeito — dessa vez em benefício do agricultor, do trabalhador comum e do
artesão. Na lembrança da classe proprietária, nunca existira um tempo em que o lavrador ou os produtos
do arrendatário da terra não excediam a demanda por eles. Agora os alicerces de um modo de vida que
funcionara por séculos começavam a rachar. Na era negra da anarquia, o indivíduo esti- vera
desamparado, a preservação da própria vida era da maior importância e os homens livremente juravam
servidão a outro mais poderoso que lhes desse proteção. Esses poderosos também juravam servidão a
homens ainda mais influentes e o resultado foi o sistema feudal. Homens de todos os níveis ofereciam
serviço militar, freqüentemente para uma campanha específica ou por prazo determinado, como
quarenta dias por ano. A classe guerreira se tornou nobre; precisavam de riqueza para ter cavalos de
batalha, armas e armaduras. Precisavam de ainda mais riqueza, parcialmente em forma de trabalho,
para construir lugares fortificados onde seus partidários pudessem vir em busca de proteção. Gradati
vãmente, paliçadas com fossos e casas fortificadas cresceram, tornando-se imponentes estruturas de
pedra que demandavam um exército de cortadores de pedra, pedreiros, carpinteiros e ferreiros. Tudo
isso tinha de ser pago e, embora algum lucro fosse gerado com o saque de guerra ou o resgate de
prisioneiros ricos, a fonte principal dessa riqueza era a terra e o trabalho das pessoas que a cultivavam.
0
Quando o cavaleiro de armadura dominou o campo de batalha, surgia uma "raça armada" de cavaleiros.
O compromisso de um barão local para
com seu conde poderia agora incluir a obrigação de responder a um chamado às armas, trazendo um
contingente que ia de um único cavaleiro até dúzias deles, dependendo do tamanho de seus haveres.
Custava caro equipar e manter um cavaleiro, pois ele precisava de, ao menos, um cavalo de batalha
treinado, outro comum para viagens cotidianas e mais animais para sua escolta, servos e bagagem.
Precisava de armadura pessoal, o que era muito caro, assim como para seu cavalo. Para ajudá-lo a ter
tudo isso, em troca de seus serviços ele recebia terras e as pessoas que lá viviam.
A condição de servos mudara ao longo dos séculos. Alguns deles, gradativamente, conseguiram se
tornar agricultores arrendatários, cultivando a terra que lhes atribuíam em lotes e realizando, ainda,
pagamentos ao senhor feudal em termos fixos de serviço nos campos do feudo. Os costumes variavam de
uma propriedade a outra mas, em geral, o arrendatário pagava de muitos modos pela renda. Quando
morria, seu melhor animal passava ao senhor como taxa (o "tributo") e seu segundo melhor animal, ao
padre da paróquia. Nem ele nem nenhum outro membro da família podiam se casar sem permissão, o que
normalmente demandava um pagamento. Além dos dias obrigatórios de trabalho para o senhor
(freqüentemente dois ou três dias por semana), ele poderia ser chamado para executar serviços extras sem
pagamento, exigência que recebeu o improvável nome de "amável favor". Era sujeito a restrições para
apanhar lenha, extrair madeira para consertar sua casa e mesmo para recolher o precioso esterco que
houvesse nas estradas e trilhas.
Se o senhor possuísse um moinho, o arrendatário tinha de utilizá-lo e pagar pelo privilégio. O mesmo
se aplicava aos fornos senhoriais, criando freqüentemente um monopólio na confecção de pães. Em vista
de seus direitos e obrigações, o arrendatário não era um servo, que era um homem preso por uma espécie
de escravidão, mas também não era totalmente livre. O maior obstáculo era a antiga lei que tolhia sua
liberdade de movimento; eles eram obrigados a ficar na propriedade à qual estavam ligados pelo
nascimento, onde viviam em um amontoado de casas chamado "vila". Por essa razão, o arrendatário era
chamado vilão, sendo que, por vezes, o senhor o chamava, depreciativamente, apenas de "vil".
O que mudou mais dramaticamente a posição de muitos vilões foi a necessidade do senhor feudal por
dinheiro, mais do que por parte de uma colheita que não poderia ser transportada facilmente ao mercado.
Quase não havia estradas para carroças e o transporte das colheitas de grãos não seria economicamente
viável a cavalo, como se fazia com a lã. O rei precisava de dinheiro para as guerras francesas e os nobres
para pagar os mercenários e financiar transporte e suprimentos no continente. Os vilões começaram a
fazer negócios em que meio penny ou um penny seriam pagos por um dia de trabalho e uma soma fixa de
dinheiro seria dada por uma parte da safra. Sua atitude mudou ao se verem "alugando" a terra, em vez
de trocar seu tempo e seus músculos por ela. Eles se sentiam livres na ausência ou redução dos antigos
costumes de servidão humilde.
Na época da Peste Negra, grande parte das propriedades inglesas pertencia à Igreja. Algumas haviam
sido compradas e muitas, doadas. As numerosas propriedades dos Cavaleiros Templários haviam sido
entregues aos Cavaleiros do Hospital de São João de Jerusalém (os Hospitalàrios) depois de os Templários
terem sido suprimidos pelo papa Clemente V em 1312. Todas as ordens monásticas tinham propriedades
senhoriais com milhares de servos e vilões ligados a elas. Mesmo a substituição dos serviços dos vilões por
dinheiro, muitas vezes, não bastava às necessidades do senhor ou do bispo; um arrendatário próspero
teria a permissão de comprar sua liberdade com uma grande soma. Infelizmente, esses homens,
normalmente, não anteviam a necessidade de documentação apresentável a uma corte e registravam a
emancipação de maneira imprópria — ou sequer o faziam. A atitude da Igreja era simples: nenhuma
emancipação era válida a menos que fosse parte registrada de uma transação de negócios. Quaisquer
outros atos de libertar um vilão eram tratados como fraude de propriedade valiosa da Igreja.
A Peste Negra ceifara um terço ou mais da força de trabalho. Com a diminuição da mão-de-obra, os
preços subiram, especialmente para os produtos de artesãos, cujo número se reduzira ainda mais. Havia
muito menos sapateiros, tecelões, carpinteiros, pedreiros e ferreiros. Gerava-se menos dinheiro e este
comprava menos em decorrência dos preços crescentes.
Era uma época de ouro para os vilões, outrora oprimidos. As propriedades estavam incultas e seus
proprietários precisavam da renda. Pela primeira vez na vida, havia pouca oferta de serviço de
arrendatários e eles podiam barganhar, e conseguir, um quinhão melhor da colheita e melhores condições
de vida e de trabalho. Podiam chegar a ganhar duas ou três vezes mais pelo trabalho que fariam em seu
tempo livre. Os arrendatários começaram a deixar suas vilas para buscar melhores oportunidades, para
grande ira de seus senhores.
Para pôr fim nessa situação e restaurar as coisas à confortável normalidade, o Parlamento inglês
publicou um Estatuto dos Trabalhadores em 1351. Em primeiro lugar, o estatuto tentava fixar os preços
do trabalho nos níveis anteriores à praga, mas continha diversas cláusulas extraordinárias. As taxas para
trabalhadores agrícolas eram não apenas explicadas nos mínimos detalhes (dois pence e meio para
debulhar uma quarta de cevada, cinco pence por acre a ser segado e assim por diante), mas, para reforçar a
norma, trabalhadores agrícolas tinham de aparecer em cidades mercantis com ferramentas em mãos
para que os contratos de trabalho fossem feitos em público, não em segredo. O estatuto proibia quaisquer
incentivos extras, como refeições. Contratos agrícolas eram feitos por ano, não por dia. Agricultores
tinham de prestar um juramento duas vezes por ano diante do administrador ou condestável de sua vila,
dizendo que seriam fiéis aos regulamentos. Eram proibidos de deixar suas vilas se houvesse trabalho ali
para eles pelos preços definidos. Se algum homem se recusasse a fazer o juramento ou violasse o estatuto,
deveria ser posto no pelourinho por três dias ou até que concordasse em se submeter à nova lei. Para isso, o
estatuto ordenava que se construíssem pelourinhos em todas as aldeias da Inglaterra.
Os artesãos não foram esquecidos. O estatuto estabelecia pagamentos de três pence por dia para um
mestre carpinteiro, quatro pence para um mestre pedreiro, três pence para assentadores de telhas ou de
telhados de olmo. Todos os produtores — seleiros, ourives, curtidores, alfaiates, sapateiros, etc. — não
podiam cobrar mais do que seu preço médio durante os quatro anos que antecederam a praga, e todos
tinham de prestar juramento de obediência à lei. A quebra do juramento e da lei incorreria numa punição
incomum. Para uma primeira ofensa, aquele que cobrasse a mais seria aprisionado por 40 dias — sendo o
termo da prisão dobrado a cada ofensa subseqüente. Assim, uma terceira ofensa significaria prisão por
160 dias (40,80,160). Segundo esse dispositivo, se um sapateiro fosse acusado por nove vezes de vender
sapatos por preço demasiadamente alto, a nona ofensa lhe daria 10.240 dias na prisão.
Houve tentativas para reforçar o Estatuto dos Trabalhadores, algumas delas vigorosas, mas, em
essência, simplesmente não deu certo. Precisava superar um mercado negro popular cheio de
compradores ansiosos e vendedores ávidos. Na verdade, a situação piorou. À medida que os agricultores e
os artesãos saíam do mercado por morte ou velhice, uma quantidade menor de novos trabalhadores
tomava seus lugares em razão do índice desproporci- onado de mortes de bebês e crianças durante a Peste
Negra. A inflação continuava a subir. Vilãos e servos, sem pretensão à liberdade ou que eram vigiados
muito de perto para conseguir se mudar, podiam apenas cumprir suas tarefas diárias, em circunstâncias
cada vez mais miseráveis, por conta dos altos preços de tudo o que compravam. Também foram vítimas,
por não terem poder de compra, as ordens menores do clero. Os bispos, para se manterem em um estado
apropriado de luxo e para atenderem às demandas de uma corte papal, cuja renda fora dividida por um
rival que reclamava o Trono de Pedro, recusavam-se a aumentar os estipêndios de seu clero ordinário, o
que deixou os padres de aldeias em situação de quase inanição num tempo de inflação constante,
deixando-os num terreno comum, com seus paroquianos, contra os grandes senhores, fossem eles tem-
porais ou espirituais.
Aumentando a demanda por bens e serviços, a Guerra dos Cem Anos começara em 1337. Essa guerra
viu desde grandes multidões lutando em combate de corpo a corpo, apunhalando, cortando e esfaqueando
uns aos outros, até o uso de mísseis desenvolvidos — meios pelos quais os homens podiam matar uns aos
outros a certa distância. Arcos e flechas sempre estiveram presentes, mas eram comparativamente fracos e
não
ameaçavam os guerreiros de armadura nem sua posição como "tanque" invencível do campo de batalha
medieval. Antes dos mísseis aperfeiçoados, a arma mais efetiva no campo não era o cavaleiro, mas seu
cavalo. O que se acreditava ser apenas um cavalo de carga mais forte era obrigado a carregar um homem
e seu peso em armas e armadura, assim como o peso de sua própria armadura e suas ferraduras maciças,
que eram armas terríveis por si próprias. Nenhuma multidão ou infantaria podia segurar aquele volume
maciço irrompendo sobre ela. Para a luta que se seguia ao ataque, o cavalo era ensinado a morder e
escoicear.
Surgiu então a besta, apresentando a primeira ameaça material para a superioridade do cavaleiro
armado no campo de batalha. Seu arco curto, feito de camadas de madeira, osso e chifre, podia atirar uma
seta grossa e curta (ou "quadrelo") em uma velocidade que permitia penetrar armaduras finas. Assim, o
guerreiro de armadura, o aristocrata em guerra ou paz, podia ser morto por um oponente no qual ele não
podia pôr as mãos — e pior, um oponente das classes mais baixas. Não era justo, e se não era justo para os
senhores feudais, provavelmente não estava de acordo com a vontade de Deus. Logo veio um papa proibir
o uso da besta pelos cristãos, mas o banimento não teve nenhum efeito perceptível. Proibições de armas
nunca funcionam porque são sempre acompanhadas pela observação tácita: "Não vamos utilizar isso, a
menos que tenhamos absoluta necessidade de vencer."
A besta não era a arma ideal porque tinha duas falhas. Primeiro, o alcance era curto. Mais
importante, era muito difícil de manejar. Algumas tinham um estribo para o pé do besteiro, para manter
o arco preso ao chão, enquanto a corda do arco era presa a um gancho, atado a uma tira em torno da
cintura ou dos ombros do arqueiro. Ele se ajoelhava, enganchava a corda e usava toda a força de suas
pernas e costas para trazer o arco à posição de tiro. Esse procedimento não apenas era lento, como
requeria força. Demandava treinamento para retesar e mirar. Além disso, a besta era relativamente cara
de fabricar: um camponês sujeito ao serviço militar não poderia ter uma em casa. O besteiro tornou-se
um mercenário.
Para empregar os serviços do besteiro, era preciso dinheiro, não obrigações feudais. Na Batalha de
Crécy, em 1346, os besteiros do exército francês eram um bando de mercenários genoveses. Do outro lado,
os ingleses estavam prestes a demonstrar uma arma que imediatamente superou a besta, o chamado arco
inglês ("chamado" assim porque era, na verdade, produto da engenhosidade galesa). A demonstração,
naquele dia, da superioridade do arco abalou toda a Europa. Esqueça o total de baixas; o importante é
saber que mais de mil e quinhentos duques, condes e cavaleiros franceses, inteiramente armados, caíram
em uma batalha. Esse único fato mudou o curso da sociedade européia. Anteriormente, os cavaleiros espe-
ravam ser mortos, se o fossem, um pelo outro. Tinham o monopólio da guerra e, assim, do poder. Agora,
centenas de aristocratas invencíveis haviam sido
derrotados por um punhado de pessoas comuns do mais baixo nível com pedaços de madeira e corda nas
mãos. Isso mudou para sempre o modo como as duas classes viam uma à outra. Não era mais a
arrecadação medieval que chamava um grupo de camponeses destreinados para a guerra por qualquer
motivo. Arqueiros viraram soldados profissionais, bem treinados, bem pagos e bem tratados.
Tornaram-se os heróis do momento e heróis dos camponeses. Pode nos ser impossível avaliar as distinções
de classe que existiram antes daquela época. Os cavaleiros de armadura eram, para o camponês,
invencíveis, e estavam em um plano tão elevado que eram como criaturas superiores, semelhantes a deuses
de outro planeta. Ninguém poderia nem mesmo pensar em enfrentá-los: e agora, os deuses haviam perdido
um tento. O cavaleiro tinha razão em se sentar em sua sala e contemplar o fogo com as sobrancelhas
franzidas e o camponês tinha um sentimento inteiramente novo de seu próprio valor e orgulho. Ainda
tinha de compartilhar esse novo valor com seus companheiros aos sussurros, mas o pensamento, uma vez
plantado, continuou a crescer.
Com as mudanças no rumo da guerra, o rei, mais do que nunca, necessitava das obrigações feudais
para conseguir dinheiro, em vez de serviço. O novo soldado profissional trabalhava por salário e
demandava comida, equipamentos e animais de transporte de bagagem, assim como transporte pelo
continente. Apesar da diminuição da mão-de-obra, inflação e doença, a monarquia não deixou de
continuar com a Guerra dos Cem Anos, que se iniciara em 1337. A única resposta era — quase
literalmente — impostos, impostos e mais impostos.
Desse estado de coisas surgiu uma situação que, certamente, causaria problemas: os proprietários de
terra exigiam, por lei e defendidos por advogados, que apenas eles podiam pagar para contratar seus
antigos direitos de tolher a liberdade de um homem e dc todos os seus descendentes. Homens que se diziam
livres receberam ordens de prová-lo. Buscaram genealogias e registros de paróquia para demonstrar que
a mãe ou a avó dc um homem fora vilã ou serva e que ele havia, irrevogavelmente, herdado a posição. Era
o único modo de usar a lei para conseguir mão-de-obra barata c fiel, que não pudesse partir em busca de
melhores condições. Os únicos beneficiários eram os proprietários de terras. Quanto maior o proprietário,
maior o benefício da coação ao vilanato, e a Igreja era a maior de todas as proprietárias. Tinha o maior
número de servos c vilãos a ser mantidos ou forçados a voltar de sua liberdade temporária. A má-vontade
contra a Igreja cresceu entre as pessoas do povo e as chamas de seu ressentimento eram freqüentemente
atiçadas pelo baixo clero descontente.
Um sacerdote e estudioso de Oxford chamado John Wycliffe talvez tenha movimentado as coisas mais
do que pretendia quando começou a pregar a reforma da Igreja. Enraivecia-o, principalmente, a
corrupção da Igreja e aquilo que via como sua constante luta por mais poder e ornamentos temporais, f
custa da tradicional missão pastoral. Ele via uma linha direta
de contato entre os homens e Deus que não demandava os serviços de um padre. Dizia ele que ninguém, a
não ser Deus, tem controle sobre as almas humanas. Argumentava que o rei podia responder direto a
Deus, sem a necessidade de um intermediário papal. Uma de suas asserções mais chocantes, em seu tempo,
era que os sacramentos ministrados por padres que eram, eles próprios, pecadores, e não em estado de
graça, não faziam nenhum efeito, e isso incluía o papa. Chegou mesmo a traduzir a Vulgatci para o inglês
para que todos os homens e mulheres cristãos pudessem ter acesso direto às Escrituras sagradas, pois nas
Escrituras ele via a perfeição e não questionava nem uma só palavra delas. Porém, apontava ele, não há
nelas
menção a um papa.
Tais ataques à Igreja não poderiam passar sem resposta; Wycliffe foi chamado a juízo por heresia em
St. Paul. Podemos, provavelmente, atribuir o fato de ele não ter sido sentenciado à morte à multidão
londrina, que se reuniu em protesto. Wycliffe foi apenas afastado de seu posto e enviado à paróquia de
Lutterworth. Não reduziu suas críticas à Igreja, mas as redirecionou, da audiência de seus colegas clérigos
ao povo, que tinha boa vontade para ouvir. Seus seguidores se tornaram sacerdotes pregadores
ambulantes e levaram a mensagem de Wycliffe às vilas e aldeias.
De eficácia mais direta na frente doméstica foi John Bali, que o cronista francês Jean Froissart chamou
"um padre louco de Kent". Bali pregava contra classes e privilégios, incluindo a Igreja. Também exigia a
reforma agrária, insistindo para que as propriedades dos grandes barões e da Igreja fossem tomadas deles
e distribuídas para o povo. Desde 1360, Bali e seu séqüito de padres perambulavam pelo centro e sudeste
da Inglaterra, pregando doutrinas de igualdade de direitos e a redistribuição ou a propriedade comum de
bens. Foi preso por autoridades da Igreja diversas vezes e, finalmente, excomungado. Em 1381, quando
irrompeu a Rebelião Camponesa, ele estava na prisão do arcebispado, em Maidstone, Kent.
Havia esperanças de que a influência francesa no papado terminasse quando o papa Gregório XI
voltou com a Santa Sé a Roma, em 1377. Infelizmente, um grande segmento da hierarquia da Igreja não
concordava com a mudança. Naquela época, muitos dos cardeais eram franceses e preferiam a base
francesa em Avignon. Quando Gregório XI morreu, no ano seguinte, o povo de Roma se amotinou para
garantir que o novo papa fosse italiano, e assim foi; ele tomou o nome de Urbano VI. Os cardeais france-
ses declararam a eleição inválida. Elegeram seu próprio papa francês, que regeria como Clemente VII, e
voltaram para Avignon. Foi o Grande Cisma da Igreja, que não foi desfeito por muito anos. Tornou-se
também um cisma político, sendo o anti-romano Clemente VII, de Avignon, apoiado pela França,
Escócia, Portugal, Espanha e grande parte dos principados alemães, enquanto o papa romano Urbano VI
era apoiado pelos inimigos da França: Inglaterra, Hungria, Polônia e o Sacro Império
Romano-Germânico.
Cada papa excomungou todos os partidários de seu rival, impedindo-os de receber sacramentos, de forma
que em toda a Europa cada alma cristã daquele tempo havia sido desgraçada e posta fora da proteção de
Deus por um papa ou outro. Essa não era uma circunstância a se considerar frivola- mente. Em certa
ocasião, forças pró-inglesas, partidárias do papa romano, capturaram um convento francês cujas internas
reconheciam o papa de Avignon. Os soldados e seus clérigos não tiveram problema em concordar que
essas pobres irmãs mal orientadas estavam totalmente isentas da proteção de qualquer lei civil ou
eclesiástica. Dessa maneira, não viram nenhum empecilho em saquear todas as posses do convento e
violentar todas as freiras. Segundo as regras daquele tempo, não teriam nem mesmo de mencionar o fato
em sua próxima confissão.
E, por todo o tempo, a guerra entre Inglaterra e França continuava, com ambos os lados
depauperados pelos altos impostos necessários para financiar o conflito. I.
Em 1377, um tributo obrigatório de quatro pence por cabeça foi imposto a todas as pessoas da
Inglaterra. Em 1379, o Parlamento lançou uma taxa gradativa, baseada na posição social. Ambas as taxas
fracassaram e algumas das jóias da Coroa tiveram de ser vendidas para manter a guerra com a França.
Em novembro de 1380, o imposto foi estabelecido a um shilling por cabeça, com a disposição extraordinária
de que os ricos deveriam ajudar os pobres a pagá-lo. Claro, eles não o fizeram, e o imposto fracassou.
O Parlamento inglês de 1376 ficou conhecido pelo povo como Bom Parlamento, principalmente
porque condenava a corrupção no governo do rei. Sobre o suborno, ele dizia que os conselheiros do rei não
deveriam aceitar nada que qualquer partido pudesse lhes oferecer, exceto presentes de pouco valor, como
pequenos itens de comida e bebida. Sobre o assunto da taxação, os membros afirmavam que, se o rei
tivesse oficiais leais e bons conselheiros, estaria com o tesouro abarrotado, sem nenhuma necessidade de
taxação, especialmente considerando os "resgates de rei" pagos pelo rei Davi II da Escócia após sua
captura na Batalha de Neville's Cross em 1346 e do rei João II da França, capturado na Batalha de
Poitiers em 1356. Sugeriram que os homens que haviam esgotado essas fortunas deveriam ser acusados e
punidos.
O Bom Parlamento também acusara um mercador de Londres chamado Richard Lyons,
considerando-o culpado por diversos crimes de extorsão e corrupção. Alegou-se que, por ser ele coletor
real de impostos, generosamente ajudara a si mesmo com fundos destinados ao tesouro real. Decidiu-se
que todas as suas terras, bens e haveres fossem confiscados pela Coroa e que ele fosse aprisionado para o
resto da vida. Porém, a riqueza de Lyons e seus amigos conseguiram-lhe um perdão real.
O nome "Bom Parlamento" seria descritivo, mas igualmente poderia ter recebido o título de
"Parlamento Ignorado".
Assim, temos uma Inglaterra em estado constante de guerra, com uma inflação galopante, tentativas
de trazer os homens livres de volta aos grilhões, um grande cisma na Igreja que fez o papa de Avignon
excomungar todos os homens na Inglaterra, um segmento crescente de sacerdotes declaradamente
descontentes e o peso do mais alto imposto obrigatório já aplicado sobre o povo. O barril de pólvora estava
cheio até a borda. Na primavera de 1381, o governo acelerou seus esforços para coletar os impostos e o
pavio foi aceso. A explosão da rebelião estava a poucos dias.

"Pois AGORA É TEMPO


DE GUERRA"

A a chama de uma rebelião "curiosamente espontânea".


Enciclopédia Britânica
Barbara Tuchman, em sua história do século XIV, A Distant Mi/éror, disse que a rebelião se espalhou
"com alguns indícios de planejamento".
Winston Churchill foi mais longe. Em seu Birth ofBritain, escreveu: "Durante o verão de 1381, houve uma
agitação geral. Por trás dela havia a organização. Agentes moviam-se pelas aldeias da Inglaterra central,
em contato com uma 'Grande Sociedade' que supostamente se reunia em Londres." ;
A fagulha da rebelião estava sendo atiçada vigorosamente e, por fim, foi dado o sinal. Mesmo tendo
sido preso, excomungado e ainda sendo prisioneiro na prisão eclesiástica de Maidstone, em Kent, eram
enviadas cartas do padre John Bali e de outros que o seguiam. Os clérigos eram então a única classe
alfabetizada, de forma que as cartas deviam ser recebidas por padres locais e obviamente tinham a
intenção de ser compartilhadas ou lidas em voz alta para outras pessoas. Todas elas continham um sinal
para agir imediatamente, o que poderia pôr abaixo o conceito de que a rebelião foi simplesmente uma
convulsão espontânea de frustração que por acaso afetou cem mil ingleses ao mesmo tempo. Eis um trecho
de uma carta de John Bali: "John Baile gretyth yovv wele alie and doth yowe to understande, he hath
rungen youre belle. Nowe ryght and myght, wylle and skylle. God spede every ydele [ideal]. Now is tyme(John
Bali saúda a todos e quer que compreendam que ele tocou vosso sino. Agora é o momento certo e mais
forte, é o momento para a astúcia e a habilidade. Que Deus propicie todos os ideais. Chegou o momento.) Do
padre Jakke Carter: "You have gret nede to take God vvith yowe in alie your dedes. For now is tyme to be war."
(Vocês têm grande necessidade de levar Deus consigo
em todas as suas ações. Pois agora é momento de guerra). Do padre Jakke Trewman: "Jakke Trewman doth you to
understande that falsnes and gyle have reigned too long, and trewthe hat bene sette under
vocês
a lokke, and
er
falsnes regneth in everylk flokke... God do bote, for now is tyme." (Jakke Trewman qu ü| compreendam que a
falsidade e a fraude reinaram por tempo demasiado e a verdade foi trancafiada, e a falsidade reina em
todo rebanho. Deus está chamando, pois agora é o momento.)
Uma das cartas de John Bali, "Sacerdote de Santa Maria", merece ser citada em sua totalidade.
Mesmo com a ortografia medieval, o significado é claro. A luxúria e a glutonaria eram pontos freqüentes
em suas acusações aos grandes líderes da igreja. "John Baile seynte Marye prist oretes wele alie maner
men byddes hem in the name of the Trinite, Fadur, and Sone and Holy Gost stonde manlyche togedyr in
trewthe, and helpez trewthe, and trewthe schal helpe yowe. Now regneth pride in pris [prize] and covetys
in hold wys, and leccherye withouten shame and glotonye withouten blame. Envye regnith with tresone,
and slouthe is take in grete sesone. God do bote,/cr nowe is tyme amen." (John Bali, padre de Santa Maria,
saúda a todos e lhes pede em nome da Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, que permaneçam unidos na
verdade, e ajudem a verdade, e que possa a verdade ajudá-los. A soberba agora reina como prêmio, a
cobiça toma a frente, a luxúria desavergonhada, a glutonaria sem culpa, a inveja reina sem razão e a
preguiça é poderosa. Deus está chamando, pois agora é o momento amém.)
Em todas as cartas citadas, acrescentamos uma ênfase para identificar o sinal em comum "agora é o
momento". Há ainda mais indícios de planejamento e organização.
A violência irrompeu em Essex, impelida por novos e mais severos esforços para coletar um terceiro
imposto especial. A idéia de ter comissários especiais para reforçar a coleta de impostos fora do sargento
de armas do rei, um frade franciscano chamado John Legge. A idéia lhe custaria a cabeça algumas
semanas depois.
Os comissários, em alguns casos, foram extremamente zelosos no cumprimento de seu dever.
Conta-se que alguns examinaram garotinhas para ver se elas haviam tido relação sexual, com o fim de
determinar mais facilmente se elas tinham ou não mais de 15 anos de idade, sendo assim passíveis de ser
taxadas. Um homem, John de Deptford, foi preso depois de bater no coletor de impostos que levantara o
vestido de sua filha para ver se ela tinha pêlos púbicos, indício de idade taxável.
Em alguns lugares, os coletores de impostos eram simplesmente ignorados ou espancados pelos
aldeões. Um grande senhor local, John de Bamptoun, instalou-se na cidade de Brentwood, em Essex, e
pediu que os homens da cidade vizinha viessem a ele com listas completas de nomes e o dinheiro de seus
impostos. Mais de uma centena de homens respondeu a
suas ordens — não para pagar os impostos, mas para informá-lo de que não tinham a intenção de fazê-lo.
Otimista, De Bamptoun ordenou a seus dois sargentos de armas que capturassem os cem aldeões e os
pusessem na prisão. A multidão raivosa atacou os oficiais reais e De Bamptoun teve sorte em conseguir
permissão para fugir de volta para Londres.
Em resposta, o governo enviou Sir Robert Bealknap, presidente do tribunal de direito civil. Sir Robert
chegou armado com acusações e declarações específicas assinadas por jurados (naquele tempo, jurados
eram tudo, exceto independentes. Eram testemunhas, literalmente aqueles que tinham "posse do
conhecimento" sobre o assunto tratado, e freqüentemente eram também os acusadores). Apesar da
pomposa autoridade de Bealknap, sua recepção não foi melhor do que a anteriormente concedida a De
Bamptoun. Os habitantes locais capturaram o destacamento real e forçaram Bealknap a revelar os nomes
dos jurados que deram os nomes e juraram contra os atacantes de John de Bamptoun. De posse dessa
informação, formaram- se destacamentos para caçá-los. Os jurados apanhados foram decapitados e suas
cabeças penduradas em varas, como exemplo para os outros, ao passo que aqueles que não puderam ser
encontrados tiveram suas casas queimadas ou derrubadas. Quanto ao presidente do tribunal, foi severa-
mente repreendido como traidor do rei e do reino, mas no fim teve permissão de voltar para Londres. Seus
três secretários não tiveram permissão de ir com ele, pois foram reconhecidos como os mesmos que
serviram De Bamptoun e, por isso, foram decapitados.
Nesse meio tempo, em Kent, condado a sul de Essex, do outro lado do Tâmisa, um cavaleiro
aparentado com o rei, Sir Simon Burley, fora a Gravesend e acusara um homem livre chamado Robert
Belling, de ser seu servo. Determinou uma multa de 300 libras de prata como preço pela sua liberdade. Os
homens de Gravesend ficaram indignados tanto com a acusação quanto com a multa, soma que eles
declararam que arruinaria Belling completamente. O oficial real respondeu amarrando e atirando Belling
no calabouço do castelo de Rochester, próximo dali. Ao mesmo tempo, uma comissão cobradora de
impostos chegara a Kent com uma missão semelhante à de S ir Robert Bealknap em Essex; o sargento de
armas franciscano John Legge chegou armado com acusações específicas contra diversas pessoas na
região. Eles haviam planejado estabelecer a sede da averiguação de Kent em Canterbury, mas foram
expulsos pelos cidadãos locais.
Conforme a notícia desses acontecimentos se espalhava, os homens de Kent começaram a se reunir na
cidade de Dartford. Um grupo de Essex cruzou o Tâmisa em botes para se juntar a eles. Mostrando não
apenas organização, mas até mesmo disciplina, os líderes decretaram que nenhum homem que vivesse
dentro de doze léguas (cerca de 36 milhas) do mar teria permissão de se juntar à sua marcha, já que eles
poderiam ser
necessários em casa para ajudar a rechaçar qualquer ataque surpresa dos
franceses na costa inglesa.
A multidão de Kent se moveu, não em direção a Londres, mas no
sentido oposto, para o leste, fazendo um cerco ao castelo de Rochester, onde exigiram a libertação de
Robert Belling. Apenas meio-dia depois, sem registro de defesa, o condestável do castelo abriu os portões
aos rebeldes. Eles soltaram Belling e todos os outros prisioneiros, voltando-se então em direção a
Maidstone, no sul, onde chegaram a 7 de junho. Ali, mais homens se juntaram a eles, incluindo um
conhecido Walter Tyler (Walter, o Guardião). De maneira notável, ele foi imediatamente reconhecido por
milhares de homens como seu supremo comandante e deram seu nome à revolta: "Revolta de Wat
Tyler". Nada se sabe sobre a vida anterior de Wat Tyler, nem porque meios uma mobilização
supostamente desorganizada reconheceu sua liderança no mesmo dia em que ele chegou.
Um dos primeiros atos de Tyler foi libertar John Bali, o "sacerdote de Santa Maria" de York, da
prisão da igreja em Maidstone. Bali se tornou o capelão não oficial da expedição a partir daquele
momento.
Ainda se afastando de Londres, Tyler levou suas forças em direção leste, para Canterbury, a sede dos
principais clérigos na Inglaterra. O primeiro ato dos rebeldes, quando de sua chegada a Canterbury na
segunda- feira. 10 de junho, indicava os planos de Tyler de marchar sobre Londres. Milhares de rebeldes
entraram na igreja durante a missa solene. Após se ajoelharem, ordenaram que os monges elegessem um
dos seus para ser o novo arcebispo de Canterbury, porque o atual arcebispo (que estava em Londres com
o rei, que recentemente o nomeara chanceler do reino) "é um traidor e será decapitado por sua
iniqüidade" — e realmente isso aconteceu antes que a semana terminasse. Os líderes rebeldes pediram
então os nomes de quaisquer "traidores" na cidade. Três nomes foram indicados e os três homens
caçados e decapitados. Em seguida, os rebeldes deixaram a cidade, permitindo que apenas quinhentos
homens de Canterbury se juntassem a eles, porque a cidade era próxima da costa e seria necessário um
bom número de homens disponíveis no caso de um ataque dos franceses.
No mesmo dia (10 de junho) em que Tyler chegou a Canterbury, em Kent, a multidão reunida em
Essex saqueou e incendiou uma importante sede dos Cavaleiros Hospitalàrios chamada Templo de
Cressing. Essa rica propriedade fora doada aos Cavaleiros Templários em 1138 por Matilda, esposa do
rei Estevão. Quando os Templários foram suprimidos pelo papa Clemente V, todas as suas propriedades
na Grã-Bretanha, incluindo Cressing, foram dadas aos Hospitalàrios. A Igreja possuía um terço da
Inglaterra naquela época e sofreu grarídes perdas nas mãos dos rebeldes, mas nenhum grupo em
particular sofreu prejuízos comparáveis aos dirigidos nos próximos dias aos Cavaleiros Hospitalàrios,
que pareciam estar em uma lista especialmente agressiva dos líderes rebeldes.
No dia seguinte, 11 de junho, os rebeldes, tanto em Essex como em Kent, voltaram-se em direção a
Londres. Mesmo com todos os incêndios, decapitações e destruição de registros pelo caminho, seu
propósito e disciplina eram tais que ambos os grupos, mais de cem mil homens, fizeram a jornada de 70
milhas em dois dias, chegando à cidade quase ao mesmo tempo.
Prevenido da aproximação dos rebeldes, o rei Ricardo II, de 14 anos, mudou-se de Windsor para a
Torre de Londres, a fortaleza mais segura do reino. A ele se reuniu um séqüito que incluía 5/rSimon
Sudbury, arcebispo de Canterbury e chanceler; Sir Robert Hales, tesoureiro do rei e prior da Ordem dos
Cavaleiros do Hospital de São João de Jerusalém (os Hospitalàrios); Henrique Bolingbroke, que um dia
deporia Ricardo e tomaria o trono como Henrique IV; os condes de Oxford, Kent, Arundel, Warwick,
Suffolk e Salisbury; e outros pares e oficiais menores, incluindo o presidente do tribunal, Sir Robert
Bealknap, o malsucedido coletor de impostos John de Bamp- toun e o odiado sargento de armas
franciscano, John Legge. Eles tinham razão para temer pela vida nas mãos da horda rebelde que avançava
sobre a
cidade.
A 12 de junho, os homens de Essex começaram a chegar em Mile
End, próximo a Aldgate. Do outro lado do rio, os rebeldes de Kent se reuniam em Southwark, no extremo
sul da ponte de Londres. Confederados e simpatizantes saíram de Londres para se juntar a eles. Um grupo
de homens de Kent veio dos arredores de Lambeth, do lado sul do Tâmisa, e saqueou o palácio do
arcebispo, incendiando o mobiliário e todos os registros que puderam encontrar (naquele mesmo dia, do
outro lado do rio, na Torre, de onde se podia ver a fumaça subindo de seu palácio, o arcebispo devolveu o
Grande Selo ao rei e pediu para ser dispensado de seus deveres públicos como chanceler). Outros grupos
rebeldes irromperam nas prisões do lado sul do rio, incluindo a prisão eclesiástica dos bispos de
Winchester na Rua Clink, lugar que deu o nome de "clink" (cadeia) a todas as prisões. Ao abrir a prisão
de Marshalsea em Southwark, a multidão procurou seu comandante, Richard Imworth, famoso por sua
crueldade. Incapaz de localizá-lo, eles se contentaram, naquele momento, em destruir sua casa.
O rei enviou mensageiros aos rebeldes, perguntando a razão para essa perturbação da paz na terra. A
resposta foi que a revolta era dedicada a salvar o rei e a destruir seus traidores. A réplica do rei foi pedir
aos rebeldes que cessassem suas depreciações e esperassem até que ele pudesse encontrar-se com eles para
resolver todas as injustiças. Os rebelados concordaram e pediram ao rei que se encontrasse com eles na
manha seguinte, 13 de junho, em Blackheath, à beira do Tâmisa, a poucas milhas de Londres. Os homens
de Kent reuniram-se no local combinado na margem sul do rio e os de Essex, ao norte. O rei e seu séqüito
deixaram a Torre em quatro barcaças, mas foram apenas até a propriedade real de Rotherhithe,
perto de Greenwich, onde o arcebispo Sudbury e Sr Robert Hales persuad.nun o séqüito a não chegar
mais perto dos rebeldes. Ao saber que o rei não vinha a eles como prometido, os líderes de Kent enviaram
uma petição ao rei exigindo a cabeça de quinze homens. Sua lista incluía o arcebispo de Canterbury, o
prior dos Hospitalários, o presidente do tribunal Bealknap e os coletores de impostos John Legge e John
de Bamptoun. Obviamente, o conselho real não concordou com esses pedidos e as barcaças retornaram à
Torre De ambos os lados do rio, os homens de Essex foram na direção de Aldgate e a facção de Kent
marchou para trás, na direção de Southwark e da Ponte de Londres. Por razões que provavelmente
nunca conheceremos Aldgate estava indefesa e os rebeldes de Essex simplesmente entraram'na cidade.
Outro mistério refere-se à aproximação da multidão de Kent à ponte de Londres. Não foi feita nenhuma
tentativa para guarnecer a entrada fortificada; a ponte levadiça foi abaixada para que eles entrassem.
Os rebeldes não tocaram em nada na cidade até chegarem à Rua Fleet. Ali, atacaram a prisão de
Fleet e libertaram todos os internos. Destruíram duas foijas que os Hospitalários haviam tomado dos
Templários. Alguns se juntaram a uma multidão londrina e foram para o palácio Savoy do odiado tio
real, John de Gaunt, parando no caminho apenas para destruir quaisquer edifícios que identificassem
como pertencentes aos Hospitalários. O próprio palácio Savoy foi destruído em uma onda de raiva.
Mobiliário e objetos de arte foram esmagados e tecidos finos e tapeçarias, queimados. Jóias foram
reduzidas a pó. Finalmente, a construção foi incendiada,
com a adição de muitos barris de pólvora.
Do Savoy, os rebeldes retornaram à propriedade hospitalária entre a Rua Fleet e o Tâmisa, para edifícios
alugados por aquela Ordem a advogados que praticavam diante da corte do rei na cidade real vizinha de
West- minster. Destruíram e incendiaram os edifícios dos advogados, queimaram seus registros e
mataram qualquer um que fizesse alguma objeção. Destruíram as outras construções hospitalárias da
propriedade, com apenas uma exceção. Em vez de queimar os pergaminhos e registros guardados na
igreja em que os encontraram, tiveram o trabalho de carregá-los para a estrada principal para
incendiá-los, evitando causar danos à própria igreja. Certo historiador chegou a dizer que alguns
membros da multidão "protegeram" a igreja dos danos. Essa atitude era anômala em meio a uma orgia
de destruição de propriedades c líderes da Igreja. Também essa propriedade fora tomada dos Templários
e dada aos Hospitalários; mesmo hoje, essa parte da cidade de Londres é conhecida simplesmente como
"O Templo". A igreja deixada intata pelos rebeldes fora a principal igreja dos Cavaleiros Templários na
Inglaterra. Essa atitude para com a antiga igreja Templária forma um contraste marcante com o
sentimento da multidão pelo Grande Priorado dos Hospitalários em Clerkenwell, para onde foram a
seguir. Ainda em busca de propriedades dos Hospitalários para destruir pelo caminho, chegaram a
Clerkenwell e iniciaram um esforço de destruição total. Enquanto a igreja templária está de pé até hoje,
tudo o que resta da principal igreja hospitalária em Clerkenwell é a cripta subterrânea.
Parte da multidão foi de Londres até a cidade de Westminster, onde libertou todos os prisioneiros da
prisão local. Voltando a Londres, fez o mesmo na famosa prisão de Newgate, carregando correntes e
algemas para colocar no altar de uma igreja próxima.
Um grupo foi à Torre tentar uma audiência com o rei. Como não conseguiu, fez um cerco ao local.
Enviou uma mensagem aos líderes dos bandos que ainda arrasavam a cidade dizendo que cada membro
da Corte de Justiça e do Tesouro Público, cada advogado e qualquer um que pudesse escrever um decreto
ou uma carta devia ser decapitado. Dedos manchados de tinta eram o bastante para condenar um homem
a morrer na hora. A Igreja, naquela época, praticamente monopolizava a alfabetização, de forma que as
vítimas mais prováveis eram clérigos administrativos, que também tinham quase o monopólio do que
atualmente chamaremos "o serviço
civil" do governo do rei. "
Até ali, o conselho do rei parecera mergulhado em inatividade, mas alguma coisa tinha de ser feita, e
finalmente foi concebido um plano. Não podiam contar com a força, porque não a tinham. As armas que
possuíam eram a trapaça e a fraude. Proclamou-se em cada canto da cidade que, na manhã seguinte,
sexta-feira, 14 de junho, o rei e seu conselho encontrariam os rebeldes e todas as suas exigências seriam
satisfeitas. A promessa era feita com facilidade, já que não havia a intenção de cumpri-la. O lugar esco-
lhido foram os campos abertos em Mile End, fora da cidade, depois de Aldgate. Esperava-se que esse
movimento bastasse ao objetivo inicial de levar os rebeldes para fora da cidade. De fato, a maioria deles
foi, mas Wat Tyler e seu principal tenente, Jack Strawe, ficaram para trás com muitas centenas de
homens. Seu "capelão", o padre John Bali, ficou com eles. A liderança rebelde tinha algo mais importante
a fazer do que encontrar um rei para discutir a
emancipação da vilanagem e da servidão.
Naqueles dias, o Tâmisa passava por dentro da muralha sul da Torre, de forma que havia acesso
direto a ele por meio de uma comporta. Enquanto o séqüito do rei se preparava para ir a Mile End na
manhã de sexta-feira, o arcebispo de Canterbury tentou escapar de barco. Foi reconhecido e a gritaria e o
escândalo fizeram com que a tripulação remasse de volta pela
comporta para a segurança da Torre.
Como prometido, o séqüito do rei saiu da Torre para encontrar os
rebeldes em Mile End. Os cronistas nos contam que ele estava acompanhado por dignitários tais como os
condes de Kent, Warwick e Oxford, assim como o prefeito de Londres e "muitos cavaleiros e nobres".
Não se conta, porém, por que ele não estava acompanhado por dois de seus mais altos oficiais, Sir Simon
Sudbury, que era arcebispo de Canterbury e chanceler do reino, e Sir Robert Hales, prior da Ordem dos
Cavaleiros Hospitalàrios e tesoureiro do rei. Nunca saberemos se eles preferiram ficar para trás ou se
receberam ordens para fazê-lo. Também não há registro de quem falou pelos rebeldes em Mile End
enquanto Tyler, Strawe e Bali estavam em uma
missão mais importante em Londres.
No encontro, tudo pareceu correr bem. Os rebeldes fizeram duas exigências: primeiro, o direito de
caçar e executar todos os traidores do rei e do povo; em segundo lugar, que nenhum homem deveria ser
sujeito ao outro em servidão ou vilanagem. Todo inglês deveria ser um homem livre. Quanto ao primeiro
pedido, o rei concordou que todos os "traidores" deveriam ser mortos, desde que sua culpa fosse provada
pela lei. Pediu que esses acusados fossem trazidos diante dele para julgamento. Quanto ao pedido de
liberdade universal, ele trouxera cerca de trinta secretários consigo, que começaram rapidamente a
rabiscar ordens de emancipação.
Depois que o rei estava em segurança, fora da cidade, Tyler, Strawe e Bali entraram em ação.
Incrivelmente, seu plano era tomar a Torre de Londres com algumas centenas de homens mal armados. A
Torre fora construída para ser uma fortaleza na Grã-Bretanha, tão segura que abrigava a casa da moeda
real. Era equipada com um portão pesado, uma porta e uma fonte levadiças. No momento da tentativa de
Tyler, a Torre era guar- necida de soldados profissionais, incluindo centenas de arqueiros experientes.
Contava com a autoridade e a liderança do arcebispo Sudbury e, mais ainda, de Sir Robert Hales,
comandante de uma Ordem militar.
Novamente, deve ter havido alguma conspiração e amigos do lado de dentro da Torre, pois Tyler e
seu pequeno bando encontraram a ponte leva- diça baixada, a porta levadiça erguida e o portão aberto.
Simplesmente entraram andando na Torre. Nenhum escritor contemporâneo faz referência a qualquer
luta.
Lá dentro, o arcebispo rezara uma missa e confessara o prior dos Hospitalários e outras pessoas. Os
rebeldes o encontraram rezando na capela da Torre. Um padre tentou afastá-los, segurando a hóstia
consagrada na frente deles — prática usada para afastar todos os tipos de demônios e maus espíritos —
mas os rebeldes simplesmente o empurraram para longe. O arcebispo foi atirado ao chão e arrastado
para fora da capela e da Torre pelos braços e pelo cabelo. Outros arrastaram o prior dos Hospitalários,
enquanto outro grupo procurava nos cômodos por suas vítimas condenadas. Entre elas, estava o sargento
de armas franciscano e coletor de impostos John Legge e outro frade franciscano, William Appleton,
médico e conselheiro de John de Gaunt. Os homens capturados foram levados a Tower Hill, onde uma
grande multidão se reunira. Com berros de aprovação da multidão, os rebeldes arrancaram a cabeça de
seus prisioneiros especiais, que foram colocadas sobre estacas e levadas para ser penduradas na Ponte de
Londres. Para ajudar a identificar o arcebispo de Canterbury, pregaram a mitra em sua cabeça.
Após a execução, os rebeldes e a multidão londrina irromperam pela cidade, buscando outras
vítimas. Um homem foi decapitado simplesmente
porque falou bem do frade William Appleton, que os rebeldes haviam executado em Tower Hill. Quando
sua fúria se acalmou, os rebeldes haviam decapitado cerca de 160 inimigos. Um alvo especialmente digno
de nota foi Richard Lyons, o próspero burguês de Londres que fora acusado e julgado culpado de muitos
atos de corrupção pelo Parlamento de 1376. Fora sentenciado à prisão perpétua, mas sua influência era tal
que seus amigos fizeram apelo ao rei, que devolveu sua liberdade. Não houve apelo no julgamento da
multidão rebelde, que o arrancou de sua casa e sumariamente cortou sua cabeça.
Enquanto os rebeldes varriam a cidade com sua lista de vítimas, a liderança organizava outro projeto
inexplicado. Um grupo, organizado por Wat Tyler, foi mandado a Londres, comandado por seu tenente
Jack Strawe e aparentemente guiado pelo londrino Thomas Farndon. Marcharam cerca de seis milhas
com o único propósito de destruir a propriedade dos Hospitalários em Highbury, que, segundo um
cronista contemporâneo, foi "habilidosamente reconstruída, há pouco tempo, como um outro paraíso".
A notícia da violência rebelde na Torre e na cidade chegou a Mile End e a comitiva real voltou a
Londres. Não voltaram à fortaleza da Torre, mas foram diretamente ao guarda-roupa do rei, próximo a
Castle Baynard, onde seus secretários continuaram a executar decretos de emancipação. Muitos dos
rebeldes tomaram para si esses decretos ou suas aldeias e se dirigiram de volta a suas casas.
A história nada nos diz sobre como e por que se conseguiu isso, mas, de alguma forma, combinou-se
que o rei voltaria a se encontrar com os rebeldes em Smithfield no dia seguinte, sábado, 15 de junho. Nas
primeiras horas da manhã daquele dia, ao rei e seu séqüito reuniram-se o prior e os cônegos da Abadia de
Westminster, todos descalços, que os levaram à catedral da abadia para os serviços, acompanhados por
uma porção de rebeldes curiosos. O rei ouviu a missa no altar principal e deixou uma doação para a
abadia. Os rebeldes por trás do altar reconheceram Richard Imvvorth, o odiado tortura- dor e marechal
da prisão de Marshalsea, escondido no santuário de Santo Eduardo, o Confessor. Quando Imvvorth
percebeu que havia sido notado, abraçou uma das colunas de mármore do santuário e gritou por piedade.
Os rebeldes, impassíveis, soltaram seus braços da coluna e o carregaram a Cheapside, onde foi
publicamente decapitado.
Gradativamente, os rebeldes se reuniram para aguardar o rei em Smithfield. Alinharam-se em um
lado do grande campo aberto, enquanto o séqüito do rei e sua escolta se enfileiravam no lado oposto, em
frente ao
Hospital São Bartolomeu. . .^
O que aconteceu a seguir é normalmente citado como o resultado de um comportamento insultuoso de
Wat Tyler, mas foi, provavelmente, resultado de um plano. Qualquer força que esteja em menor número
tem mais probabilidade de pensar em vitória com a morte do líder do lado oposto. Em
qualquer dos casos, o prefeito William Walworlh loi mandado ao lado dos rebeldes H convidar Wat feto 1
se encontrar com o «e. ryler estaria afastado de seus homens e reconheceu o perigo. Como medida de
segurança, combinou um gesto dc mflo. segundo o qual os rebeldes deveriam atacar e matar todos, exceto
o rei. Acompanhado por apenas um homem carregando um estandarte. Tyler atravessou o largo campo.
Todos os relatos do ocorrido durante os minutos seguintes toram escritos d0 ponto ile vista do
governo, mio dos rebeldes, e a maioria desses relatos foi registrada por pessoas que nflo estavam ali.
Aparentemente. Tyler recitou uma lista de exigências ao rei que incluía o abandono rins leis ria serviriflo
e dos regulamentos de caça. que os homens nflo fossem mais declarados Ibra-ria-lei (nflo alcançados pela
proteçflo riu lei). 0 conlisco ria proprieriarie ria Igreja e sua riivisflo entre as pessoas que trabalhavam
nela e a uomeaçflo de apenas um bispo ria Igreja para toda a Inglaterrn.
Deixando de lado todas as versões rio caso, o que realmente aconteceu foi que. eiu dado momenlo, o
prefeito Walworlh sacou rie seu bascUml (uma adaga rie dois gumcs) e atacou Tyler. corianrio seu pescoço.
Ralph Siandish, que fazia parte ria escolta rio rei. puxou sua espada e golpeou 'IVler duas vezes. O líder
tentou dirigir seu cavalo de volta ao lario rie seus homens, mas caiu no chüo, mortalmente ferido..
A inultiriflo confusa rio outro lario rio campo nflo via claramente O que acontecera. Conta-se que o
jovem rei galopou para o lario rebelrie, nflo sabemos se sozinho ou com escolta, e ergueu a inflo. Disse a
eles que seria pessoalmente seu "ehele e capitão" e que poiliam contar com ele para o cumprimento de
todos os seus objetivos. Disse-lhes para que o encontrassem nos campos de Clerkenwell, onde aiiula
arriia o priorario rios 1 lospitalfl- rios. Em seguiria, voltou a se juntar ao seu próprio grupo, que
rapidamente se deslocou para Clerkenwell. deixando os confusos rebeldes riiseutinrio sobre o
que deveriam fazer cm seguida. Alguns avançaram para apanhar seu líder moribundo e levá-lo ao
Hospital de Sflo üartolomeu.
Os rebeldes levaram cerca rie uma hora para chegar a uma riecisflo comum e ilirigir-se para
Clerkenwell. Durante esse tempo, e provavelmente até antes, Sir Robert Knollcs, começando com cerca de
duzentos de seus próprios criados, reunia forças cm Londres para se opor aos rebeldes, com a coragem
redobraria pela queria rie Wat 'tyler. Também O prefeito Walworlh manriou orriens para que torios os
homens fisicamente capacitados pegassem as armas que tivessem e fossem a toda pressa para
Clerkenwell apoiar o rei.
No local deterininario, os rebeldes pediram a cabeça riaqucles que haviam atingido Wat 'tyler.
Enquanto discutiam 1 exigiam, os londrinos armados se reuniram em volta c por trás deles. Finalmente,
Sir Robert Knollcs informou ao rei que seis mil homens haviam se juntado para protegê-lo. Os rebeldes
em Clerkenwell loram superados cm número. O rei pediu então que eles se dispersassem para não serem
punidos por suas açòes. Vendo que estava
em maus lençóis, o haiulo rebelde começou a se desla/.er. O único grupo organizado era formado por homens de
Kent» liderados por Jaek Strawe e John Bali, Foram levados para fora da cidade, de volta à Ponte de Londres,
que haviam cruzado em triunfo três dias antes.
Depois do colapso dos rebeldes, William Walworth saiu à procura de Wat 'tyler, Encontrou-o no
Hospital de São Bartolomeu. sendo tratado das profundas feridas. Ordenou que o arrastassem para fora,
onde sua cabeça foi cortada. Em uma estaca, foi enviada para se juntar às cabeças do arcebispo Sudhury e
de Sir Robert Hales na Ponte de Londres.
No campo, o rei Ricardo sagrou cavaleiros William Walworth, Ralph Standish e outros burgueses da
cidade. Eit) Londres, a rebelião terminara, mas não era assim do lado de fora da cidade, onde a rebelião
continuava em dezenas de cidades, palácios e priorados em lugares separados por centenas de milhas.
Embora a revolta de Londres tenha recebido a maior parte da atenção da história, nossa busca por
indícios de organização exige que demos uma olhadela nos acontecimentos no resto cia Inglaterra, onde a
rebelião continuou após a morte de tyler.
Na quarta-feira, 12 de junho, quando os rebeldes estavam reunidos fora das muralhas de Londres,
saqueando o Palácio Lambe th e abrindo a prisão de Marshalsea, um padre chamado John Wrawe
apareceu em 1 .iston, Suflblk, com um bando de rebeldes, enviando mensagens de recrutamento às cidades
vizinhas. Seu primeiro movimento foi destruir o palácio de Liston, pertencente àquele mesmo Richard
l.yons que fora acusado de fraude e corrupção pelo Bom Parlamento em 1376 e perdoado pela C oroa (o
próprio l.yons foi arrancado de sua casa e decapitado pelos rebeldes em Londres. O ataque à propriedade
dele certamente não foi mera coincidência).
O alvo seguinte de Wrawe foi Bury St. Edmunds, a maior cidade de Suffolk. Era totalmente controlada pelo monastério local, que
sempre se recusara a conceder quaisquer direitos municipais aos artesãos e comerciantes da cidade. Os rebeldes tiveram permissão de entrar,
após ameaçar matar qualquer um que se opusesse a eles. I lomens da cidade estavam prontos para guiar a multidão na pilhagem imediata das
casas dos oficiais da Ordem, incluindo a do prior, que fugiu para o monastêrio de Mildenhall, a cerca de doze milhas. No dia seguinte, O
prior decidiu se afastar mais de barco, mas encontrou rebeldes nu margem bloqueando a rota de fuga. Conseguiu enganar seus perseguidores
e dirigiu-se à floresta, acompanhado por um guia local. O guia foi ter com os rebeldes e informou que o prior estava na floresta, de forma que
eles cercaram | área, fecharam graduti- vãmente o cerco e encontraram o prior. Levaram o prisioneiro ao romper da aurora para Mildenhall,
cortaram sua cabeça e a espetaram numa estaca. Ela foi seu estandarte enquanto murchavam de volto para Bury, onde a
colocaram no pelourinho público.
Em seguida, chegaram informações sobre a rota de fuga de Sir John Cavendish, presidente do
tribunal do reino e chanceler da Universidade de Cambridge. Sua fuga foi frustrada na balsa de
Brandon, perto de Mildenhall, onde uma mulher cortou as amarras e empurrou para longe o único barco
disponível antes que Cavendish pudesse alcançâ-lo. Foi apanhado e decapitado na mesma hora e sua
cabeça foi enviada a Bury para se juntar a do prior, já no pelourinho. A multidão divertiu-se encostando
os lábios de Cavendish ao ouvido do prior, como se estivesse se confessando, e juntando seus lábios em um
beijo.
Wrawe ficou uma semana em Bury, forçando os monges a entregar
registros e confiscando prataria e jóias como penhor por um estatuto de liberdade escrito para a cidade.
Durante aquela semana, expediu mensageiros e enviados para espalhar a rebelião, que em alguns casos
pediram ouro e prata como resgate para poupar propriedades privadas e da Igreja da destruição. Além
disso, despachou uma força de cerca de quinhentos homens para tomar o Castelo de Nottingham,
próximo dali. Embora fosse bem fortificado, com altas muralhas e uma série de fossos com pontes
levadiças, não parece ter havido resistência aos rebeldes, que esvaziaram o
castelo de seus bens portáteis.
A norte dc Suffolk, na região de Norfolk, o principal líder era Geoffrey Litster, não um "camponês",
mas um próspero tingidor de lã. Seu ajudante era Sir Roger Bacon de Baconthorpe.
Seu primeiro objetivo foi a captura de Norwich, onde Litster fizera do castelo seu quartel-general.
Diversas casas de cidadãos eminentes foram saqueadas e um juiz de paz chamado Reginald Eccles foi
arrastado ao pelourinho público, onde foi atingido no estômago e decapitado em seguida. Sir Roger Bacon
levou um contingente de Norwich à cidade portuária de Great Yarmouth e irritou seus vizinhos com um
estatuto que exigia que todos os que vivessem num raio de sete milhas de Great Yarmouth fizessem todo o
seu comércio na cidade, sem considerar as oportunidades de comprar mais barato ou vender a um preço
melhor em outro lugar. Esse deve ter sido um alvo muito específico, porque Bacon não queimou o esta-
tuto. Em vez disso, cortou-o em dois e mandou uma metade para Litster e a outra para Wrawe.
A oeste, um bando de rebeldes atacou a propriedade dos Hospitalàrios na cidade mercantil de
Watton. Extraíram do preceptor o perdão de todos os devedores da Ordem, além da promessa de um
subseqüente pagamento em dinheiro, em compensação pelas transgressões passadas.
Enquanto tudo isso acontecia, chegavam mensageiros de Londres e dc John Wrawe, em Suffolk, a
Cambridgeshire. relatando altos níveis de sucesso e instigando os habitantes locais a se revoltar. A 14 de
junho, o primeiro ataque rebelde em Cambridgeshire ocorreu no palácio dos Cavaleiros Hospitalàrios
em Chippcnham. No dia seguinte, a revolta explodiu em
uma dúzia de lugares por toda a região. Homens atravessavam o condado anunciando que a servidão
terminara. Um homem. Adam Clymme, ordenou que ninguém, fosse livre ou não, deveria obedecer a
nenhum senhor nem realizar serviços para ele, sob pena de decapitação, a menos que a Grande Sociedade
(magna societas) determinasse de outra forma. A raiva foi totalmente dirigida aos coletores de impostos, juizes
de paz e proprietários dc terra religiosos. Atacaram ordens religiosas em Icklington, Ely e Thorney e na
propriedade dos Hospitalàrios em Duxford.
No sábado, 15 de junho, dia em que Wat Tyler foi derrubado em Londres, certos cidadãos
proeminentes da cidade de Cambridge, burgueses e comendadores entre eles, cavalgaram, com a plena
aprovação de seu prefeito, para encontrar os rebeldes c planejar seu ataque comum à Universidade.
Encontraram os rebeldes em dois grupos, o primeiro a cerca de 15 milhas da cidade, atacando a
propriedade dos Cavaleiros Hospitalàrios em Shingay, e o outro algumas milhas mais longe, destruindo a
casa de Thomas Haseldon, inspetor do duque de Lancaster.
As forças combinadas retornaram à cidade, onde foi dado um sinal para a revolta com o toque dos
sinos da Grande Igreja de Santa Maria. O primeiro alvo religioso foi a Universidade, onde a multidão foi à
casa do chanceler, Sir John Cavendish. Eles ainda não haviam recebido a notícia de sua execução pelos
rebeldes em Bury St. Edmunds e, não o encontrando em casa, destruíram o mobiliário e tudo o que
puderam quebrar.
O próximo da lista era o próspero colégio Corpus Christi, para o qual um dentre seis cidadãos pagava
renda. Todos haviam saído com medo dos rebeldes, que se entregaram a um frenesi noturno de destruição,
incêndio e roubo.
O dia seguinte era domingo e algumas igrejas funcionaram como sempre. Uma multidão irrompeu na
Grande Igreja de Santa Maria durante a missa e carregou registros e tudo o que pôde encontrar em jóias e
prataria. Entraram na casa dos Carmelitas (no lugar posteriormente ocupado pelo Queen's College) e
carregaram registros e livros, que queimaram na praça
do mercado.
Um grupo cie cerca de mil rebeldes deixou a cidade para atacar o priorado na vizinha Barnvvell. Ali
derrubaram paredes e vandalizaram os edifícios. Dando asas a inimizades, cortaram árvores que estavam
proibidas de serem usadas como lenha ou tábuas e secaram tanques nos quais não tinham permissão para
pescar.
A revolta em Yorkshire demanda consideração especial, não apenas porque ocorreu tão longe de
Londres, mas por causa do envolvimento primordial de artesãos e outros habitantes das cidades. A
ausência de qualquer participação material da população rural chegou a levar alguns historiadores à
conclusão de que a revolta em Yorkshire na verdade não fez parte da
Rebelião Camponesa, apesar de ter ocorrido ao mesmo tempo. Se nao havia camponeses, como poderia
ter sido parte de uma rebelião camponesa'' A verdade é que os principais impactos da revolta vieram da
coopera- cão substancial entre moradores da cidade e do campo, como vimos em Cambridge, Bury St.
Edmunds, St. Albans e na própria Londres. Se foi esse o caso, parece bobagem dizer que apenas os
acontecimentos que envolviam agricultores fizeram parte da rebelião, mas os que tinham moradores da
cidade, não. Certamente, havia comunicação com os outros rebeldes e é ainda mais certo que havia um
alto grau de organização nas revoltas de
York, Scarborough e Beverly.
Essas três cidades de Yorkshire situam-se como pontos de um triângulo eqüilátero a cerca de 40 ou
50 milhas, uma grande distância naquela época Scarborough fica à beira-mar e ünha a fama de ser o
único porto seguro entre o Humber e o Tyne. Beverly, ao sul de Scarborough, possuía uma ativa indústria
de fios de lã e produtos têxteis. York, a oeste, lateralmente no meio do caminho entre Scarborough e
Beverly, era a maior cidade do norte e a segunda maior da Inglaterra.
A 22 de junho de 1381, uma semana após a morte de Wat Tyler, apenas cinco cidades no norte
receberam patentes reais. Essas cartas pediam a lamentação pública pelas mortes do arcebispo Sudbury,
Sir Robert Hales e do presidente do tribunal, Sir John Cavendish. Mais importante ainda, decretavam que
as autoridades locais não poderiam permitir reuniões ilegais de modo algum. Três das cinco cartas foram
a York, Scarborough e Beverly. Os temores da Corte Real eram totalmente justificados, mas as cartas
chegaram tarde demais para representar quaisquer medidas preventivas — os tumultos haviam
começado cinco dias antes de elas serem escritas. Na segunda-feira, 17 de junho, os rebeldes em York
souberam da revolta em Londres, que começara apenas quatro dias antes, em 13 de junho. Naquele dia
17 de junho de 1381, a multidão em York atacou os quartéis-generais da Ordem Dominicana, o mosteiro
dos Franciscanos, o Hospital de São Leonardo e a Capela de São Jorge.
Poucos dias depois, o antigo prefeito de York, John de Gisburne, apareceu em Bootham Bar, um dos
portões da cidade, com uma companhia armada a cavalo. Abriram caminho e se juntaram aos outros
rebeldes. E bem interessante notar que os homens de John de Gisburne vestiam "libré" (um item de
decoração do uniforme ou traje comum a um grupo). Nesse caso, conta-se que era uma touca de lã
branca. Librés similares apareceram em Beverly e Scarborough, onde os registros nos deixaram uma
descrição melhor. Ali, a libré foi descrita como um capuz branco com uma palatina vermelha. O capuz
era um item comum na vestimenta medieval, uma touca presa a tecidos suficientes para cobrir os ombros
como um xale. A parte de trás da touca era freqüentemente alongada em uma exagerada ponta fina,
assim como as pontas dos sapatos eram exageradas. Essa ponta
longa era a palatina, que também podia terminar em uma decoração com borlas. A libré, então, era uma
touca branca com uma cauda ou ponta vermelha.
Seriam necessários cerca de 6 pés quadrados de tecido de lã para fazer uma touca com xale. Em todas
as três cidades, sabemos que cerca de 1.500 dessas librés foram usadas pelos rebeldes. Isso demandaria
cerca de 1.000 jardas quadradas de tecido de lã branca, mais as caudas vermelhas decorativas. Tal
material envolvia um grande custo e muito trabalho, mais trabalho do que poderia ter sido executado em
poucos dias em total segredo. John de Gisburne trouxera um suprimento de librés para distribuir aos
rebeldes da cidade de York, e, provavelmente, eles tenham vindo de Beverly, onde a principal indústria era
a manufatura de produtos têxteis de lã. Não temos idéia de como elas chegaram a Scarborough, onde mais
de quinhentos homens, segundo se conta, as vestiram. A presença desse uniforme comum não apenas
demonstra a preparação, mas o envolvimento das três cidades em algum tipo de esforço comum.
Também comum às três cidades eram os juramentos do tipo "um por todos e todos por um", usados
para selar um laço fraternal.
Outra característica distintiva nas revoltas de Yorkshire é o alvo principal da violência. Embora a
propriedade da Igreja fosse atacada, as atividades anti-religiosas eram um complemento aos ataques às
famílias poderosas, aos mercadores ricos que mantinham oligarquias em todas as cidades para a exclusão
dos comerciantes e artesãos menores. Lemos, em acusações posteriores, que os líderes de Scarborough
incluíam William de la Marche, vendedor de tecidos; John Cant, sapateiro; Thomas Symson, cesteiro. Em
Beverly, encontramos os líderes rebeldes Thomas White, telhador, e Thomas Preston, vendedor de peles.
Em York, Robert de Harom, vendedor de tecidos, foi acusado de repassar "librés de uma cor a diversos
membros de sua confederação".
Em seu autoritário Oriental Despotism, Karl A. Wittfogel escreveu: "A ascensão da propriedade privada,
da empresa artesanal e do comércio criou condições que resultaram em conflitos sociais de muitos tipos
entre habitantes urbanos. Na Europa medieval, tais conflitos tinham muito vigor. Não era raro que os
movimentos sociais assumissem as proporções de uma luta de massas (e de classes) que em algumas
cidades compelia os mercadores a compartilhar a liderança política com os artesãos."
Wittfogel parece ter entendido exatamente do que tratavam os rebeldes de York, Beverly e
Scarborough. Se o conceito de uma oligarquia governante de certas famílias parece confuso, é possível
descobrir um pouco mais sobre isso estudando a estrutura do poder do governo atual em grande parte do
sudoeste americano.
Embora houvesse dezenas de outros incidentes na Inglaterra, vamos olhar apenas para mais um, a
revolta contra os Beneditinos de St. Albans, os maiores proprietários de terra em Hertfordshire.
De volta a 14 cie junho, o dia cm que os rebeldes irromperam na Iorre de Londres, chegaram soldados
em St. Álbuns dizendo que tinham ordens de reunir todos os homens capazes daquela cidade e da cidade
de Barnet. Esses homens tinham de se armar e seguir os mensageiros a Londres, e eles foram reunidos
rapidamente porque o abade local aprovou a luta como forma de afastar a multidão de seus próprios
domínios. Ao se aproximarem de Londres, passaram por Jack Strawe e seu bando, que estavam destruin-
do a propriedade dos Hospitalários em Highbury. Entusiasticamente, junta- ram-sc a essa "diversão" e
depois seguiram Strawe a Londres. Na cidade, seus líderes se encontraram com Wat Tyler para discutir
seu desejo de levar a rebelião a St. Albans; ele os instruiu sobre a maneira como deveriam buscar se
libertar da abadia. Eles juraram obedecer a seus comandos c Tyler, em troca, disse-lhes que, se tivessem
qualquer problema com o abade, o prior ou os monges, ele marcharia sobre St. Albans com vinte mil
homens para "barbeá-los" (cortar suas cabeças).
Os Beneditinos de St. Albans mantinham o domínio autocrático sobre
a cidade por mais de 200 anos. Eram bem conhecidos por guardar cscrupu- losamente cada prerrogativa
da abadia e por coletar cuidadosamente cada taxa e cada serviço devidos a eles pelos antigos contratos
senhoriais. Não se podia esperar que eles, voluntariamente, cedessem a liberdade cm um único ponto da
obrigação scnhorial a cidadãos ou arrendatários, especialmente com o abade atual, Thomas de la Mare.
A multidflo de St. Albans voltou de Londres para grande júbilo, espalhando a notícia de que o rei
libertara todos os servos e vilões. Mensageiros correram para todas as direções, levando ordens do líder rebelde,
William Cirindcobbc, de que todos os homens deveriam se armar e se reunir no dia seguinte, sábado, 15
de junho. Aqueles que se recusassem sofreriam a
morte e a destruição de suas casas.
No sábado, uma multidão de milhares de homens se juntou e jurou fidelidade I sinceridade I seus
irmãos de armas. Marchando sobre a abadia, eles pediram para entrar e entraram. A seguir, exigiram a
libertação de todos os prisioneiros da igreja. Ao libertá-los, concordaram que um deles era culpado e não
merecia a liberdade, de forma que o levaram para fora, diante dos portões da abadia, onde foi
decapitado.
Por volta das 1 da manhã, um cavaleiro se aproximou dos rebeldes. Era Richard de Wallingford, um
agricultor arrendatário de boa parte da terra da abadia. Ele ficara para trás, em Londres, para
conseguir urna carta
do rei que atendesse aos antigos pedidos dos camponeses pelos direitos cie utilização de pasto, caça, pesca
e outras liberdades.
Armados com | carta do rei, escrita naquela mesma manhã, os líderes pediram para se encontrar com o
abade. Ao lê-la, o abade respondeu
que os direitos de que ela tratava eram muito antigos e haviam terminado
gerações an t es . Habilidosamente, manobrou os líderes em uma postura de negociação, en q u an t o do lado de fora
os rebeldes impacientes quebravam
cercas c portões, dcrruhavam paredes c vandalizavam de modo geral a propriedade monástica. Secaram
os tanques de peixes e enforcaram um coelho morto em uma estaca, como um estandarte, para proclamar
o fim das estritas leis de caça. O debate durou horas, até que chegou a notícia da morte de Wat Tyler. A
atitude dos rebeldes mudou instantaneamente, assim como a do abade. Ele pressentiu sua vantagem e, com
a certeza dc que o exército de apoio dc Tyler nflo chegaria, mas as tropas reais certa mente sim, os rebeldes
cederam, havendo mesmo concordado em pagar 200 libras para compensar os danos à propriedade.
Os rebeldes estavam certos. As tropas reais estavam a caminho, acompanhadas por um novo
presidente do tribunal, Robert Tresilian, que estava sedento por sangue. Anunciou-se que todos os
decretos emitidos leio rei aos rebeldes eram nulos e inválidos. A 18 de junho, chegaram cartas reais
ordenando que todos os delegados derrubassem os rebeldes em seus distritos e encarregando todos os
cavaleiros e nobres de ajudar nessa tarefa. Como o torpor e o choque do governo aparentemente
diminuíram, as forças anti-rebeldes, muito melhor armadas para a batalha do que seus adversários,
empenharam-se na tarefa de dispersar os rebeldes e prender seus líderes. Chegara o tempo da vingança
judicial.
"FOSSE JUSTA OU ODIOSAMENTE"

hegou a hora de o rei punir os delinqüentes", escreveu o monge Henry Knighton. "Lorde Robert

C Tresilian, juiz [que havia sido no- meado para substituir o presidente assassinado do tribunal, Sir
John Cavendish], foi então enviado, por ordem do rei, a investigar e punir aqueles que haviam se
erguido contra a paz. Ele estava ativo em toda a parte e não poupou ninguém, causando um grande
massacre. E. como os malfeitores haviam atacado e assassinado todos os juizes que puderam
encontrar, incluindo John Cavendish, e não tinham poupado a vida de nenhum dos advogados do reino
que puderam apanhar, da mesma forma Tresilian não poupou ninguém, mas devolveu na mesma moeda.
Quem quer que fosse acusado diante dele por causa da rebelião, fosse justa ou odiosamente,
imediatamente sofria a sentença de morte. Ele condenou (de acordo com seus crimes) alguns à
decapitação, outros ao enforcamento, outros a serem arrastados pelas ruas e pendurados pela cidade e
alguns ao arrancamento de suas entranhas, que eram atiradas à fogueira diante deles enquanto ainda
viviam, e, então, sua execução e a divisão do cadáver em quatro partes, que eram penduradas em
quatro locais da cidade."
O padre John Bali foi capturado em Coventry e trazido a St. Albans em 12 de julho, para ser julgado
diante do presidente do tribunal, Tresilian. O julgamento ocorreu no dia seguinte. Bali não fez nenhuma
tentativa de retratação, não expressou arrependimento e admitiu a autoria das cartas que haviam sido
distribuídas com seu nome. Tresilian utilizou o catálogo completo de técnicas de execução e sentenciou
Bali a ser enforcado, arrastado, desentranhado, decapitado e esquartejado.
William Grindcobbe, o principal líder rebelde em St. Albans, foi libertado sob fiança, com a condição de
que utilizasse sua influência para acalmar o povo. Ele fez o oposto. Uma das frases a ele atribuídas é:
"Amigos, que após tão longa era de repressão conseguiram conquistar por fim um pequeno fôlego de
liberdade, fiquem firmes enquanto podem, e não pensem em mim ou em meu sofrimento, pois, se eu
morrer pela causa da liberdade que conquistamos, ficarei feliz cm terminar minha vida como mártir." Foi
exatamente o que ele fez, pois foi sumariamente recapturado e executado.
Homens de St. Albans cujos corpos haviam sido deixados intatos, incluindo Grindcobbe, foram
tirados dos patíbulos e enterrados por seus amigos. Algumas semanas depois, uma ordem raivosa veio da
Corte Real, exigindo que os corpos fossem desenterrados e pendurados à vista do povo até que se
decompusessem.
Em Norwich, o líder rebelde Geoffrcy Litster soube da morte de Wat Tyler e do colapso da revolta em
Londres. Em resposta, decidiu enviar uma delegação ao rei, requerendo um decreto de emancipação e o
perdão para toda Norfolk. A missão foi ostensivamente chefiada por dois cavaleiros reféns, Sir William de
Morley e Sir John de Brewe, mas com eles foram três dos mais próximos seguidores de Litster, para se
certificar de que seguiriam suas ordens. Como um incentivo extra para que o rei agraciasse seus pedidos,
os membros da missão levaram, como presente real, todo o dinheiro que haviam coletado em multas sobre
os cidadãos de Norwich. No caminho, perto da cidade de Newmarket, a delegação teve um grande in-
fortúnio ao cruzar o caminho do belicoso lorde Henry le Dcspenser, bispo de Norwich. O jovem bispo Le
Despenser estava em sua propriedade em Burleigh. próxima a Stamford, quando soube da revolta em
Norfolk. Decidiu voltar à sua diocese de Norwich, levando oito cavaleiros montados e uma pequena
companhia de arqueiros. Como indício de algum respaldo militar, ele utilizava um elmo de metal, uma
cota e uma espada de luta. Recrutou soldados entre os locais, aumentando suas forças conforme avançava.
Em Peterborough, os rebeldes haviam pedido estatutos e decretos de emancipação e começavam a saquear
o monastério quando Le Despenser fez um ataque-surpresa. Ordenou que matassem diversos rebeldes
imediatamente e aprisionou o restante. Em Ramsey, Huntingdonshire, as forças do bispo facilmente
derrotaram um pequeno grupo de rebeldes no monastério. Eles foram levados prisioneiros e entregues ao
abade, enquanto o bispo se dirigia a Cambridgc. Nesse momento, seu grupo já era um pequeno exército,
incluindo muitos militares experientes, e os rebeldes de Cainbrid- ge foram rapidamente controlados.
Diferentemente das represálias seculares da lei, o bispo agiu como acusador, juiz e júri. Designou os
rebeldes a serem executados e os que seriam aprisionados.
Ao deixar Cambridgc, Le Despenser continuou em direção à sua própria diocese, ern Norwich. Nesse
ponto de sua jornada, encontrou a missão para o rei despachada pelo líder rebelde Geoffrcy Litster. Os
dois cavaleiros reféns lhe contaram de sua missão forçada sob o controle dos três líderes rebeldes, dois dos
quais estavam no acampamento, enquanto o terceiro fora roubar algo para o jantar. O bispo ordenou a
imediata decapitação dos dois líderes rebeldes presentes e enviou um destacamento para encontrar o
terceiro. Uma vez que as três cabeças foram penduradas no pelourinho da vizinha Newmarket, Le
Dcspcnscr seguiu caminho, aumentando o exército com novos recrutas.
Em Norwich, o bispo soube que Litster fugira. Le Despenser saiu atrás dele; o bando de Litster fez
uma parada perto de North Walsham. Foram facilmente dominados pelo exército do bispo; entre os
prisioneiros, estava o próprio Geoffrey Litster. O bispo imediatamente ordenou que ele fosse executado
com enforcamento, arrastamento e decapitaçao, então ouviu pessoalmente a confissão dc Litster e o
absolveu. O bispo assim ganhou os elogios de seus companheiros eclesiásticos por sua piedade e bondade
enquanto andava atrás do prisioneiro, que era arrastado pelos pés até o patí- bulo, segurando na mão a
cabeça do líder rebelde para que ela não batesse nas pedras do caminho (o próprio Litster, em vista do que
ainda o esperava, teria achado mais piedoso ter a permissão de bater a cabeça nas pedras e ficar
inconsciente).
A rebelião em Norfolk fora derrubada suave e totalmente, embora sem piedade, pelos esforços de um
homem raivoso, um serviço que deveria merecer a gratidão da corte real mesmo se a lei da terra tivesse
sido ignorada por alguns dias. Pelo contrário, alguém — porque o rei ainda não tinha idade — fez com que
o bispo Le Despenser fosse acusado, dois anos mais tarde, em 1383, por sua conduta ao derrubar a
rebelião em Norfolk, desobedecendo à lei. Em 16 de julho, baixaram-se decretos exigindo a reunião de um
Parlamento cm 16 de setembro, mas o encontro foi adiado até 4 dc novembro de 1381. Sc o Parlamento de
1376 merece ser lembrado como o "Bom Parlamento", a sessão de 1381 poderia muito bem ser lembrada
como "O Parlamento do Eu-Bem-Que-Disse".
O Parlamento de 1376 citara corrupção na corte do rei, suborno, desvio do dinheiro dos impostos e
governo incapaz. Os membros haviam prevenido o conselho real dc que essas coisas deveriam ser
corrigidas. Haviam acusado o mercador e financista londrino Richard Lyons por uma porção de crimes de
corrupção, mas a sentença de prisão perpétua fora descartada. Todos os seus temores, conselhos e ações
haviam sido ignorados, mas agora a rebelião provara que estavam certos.
Os membros do Parlamento de novembro de 1381 só podem ter experimentado um profundo
sentimento de satisfação presunçosa ao saber da tarefa incumbida a eles pelo rei e seu conselho, quando foi
lida pelo orador,
Sir Hugh Seagrave:
"Nosso senhor, o rei, aqui presente, que Deus o conserve, ordenou a mim que lhes fizesse a
seguinte declaração. Em primeiro lugar, nosso senhor, o rei, desejando acima de tudo que a
liberdade da Santa Igreja seja inteiramente preservada sem mácula e que a propriedade, a paz e
o bom governo de seu reino sejam mantidos e preservados da melhor forma, como era no tempo
de qualquer um de seus nobres progenito- res. Os reis da Inglaterra desejam que, se algum erro
for encontrado em qualquer lugar, que seja corrigido pelo conselho dos prelados e lordes deste
Parlamento." (Podemos até ouvir um murmúrio na assistência: "Se vocês tivessem aberto suas
malditas orelhas há cinco anos, já saberiam as respostas".)
O pergaminho parlamentar não deixa dúvidas sobre onde o Parlamento encontrava os culpados pela
revolta (a palavra comuns refere-se às pessoas comuns, não a uma casa do Parlamento que ainda não
existia):
"Se o governo do reino não for rapidamente corrigido, o próprio reino estará completamente
perdido e destruído para todo o sempre e, como resultado, o senhor nosso rei e todos os lordes e
comuns, que Deus, em sua piedade, castigará. Pois é verdade que há muitos erros no dito governo,
sobre a pessoa do rei, seu séqüito e por causa do ultrajante número de servos neste último, assim
como nas cortes reais, ou seja, na Corte de Justiça, no Tribunal Real, no Tribunal Comum e no
Tesouro Público. E há opressões atrozes em todo o país em razão da ultrajante multidão de
simpatizantes de querelas e mantenedores que agem como reis na região, de forma que a justiça e
a lei são dificilmente administradas a qualquer um. E os pobres comuns são cada vez mais
despojados e destruídos dessas maneiras, seja pelos fornecedores do citado séqüito real e outros
que nada pagam aos comuns pelos manti- mentos e carruagens deles tiradas e pelos subsídios e
talhas [literalmente, cortes, taxas] aplicados sobre eles para seu grande prejuízo, e por outras
opressões atrozes e ultrajantes feitas a eles por diversos servos de nosso senhor, o rei, e outros
lordes do reino — especialmente pelos pretensos mantenedores. Por essas razões, os citados co-
muns são levados a grande desgraça e miséria, mais do que nunca."
Havendo terminado sua fala a respeito das abusivas taxas e da corrupção na Corte Real e no sistema
legal, o Parlamento passou à defesa nacional, uma das principais razões dadas para essa taxação:
"Poderíamos acrescentar que, embora se consiga arrecadar grande tesouro dos comuns para a
defesa do reino, eles não são por isso melhor defendidos e socorridos contra os inimigos do rei, até
onde eles sabem. Pois, de ano a ano, os citados inimigos queimam, roubam e pilham por terra e
mar com suas barcaças, galés e outras naves; para o que nenhuma solução foi, até agora, dada.
Reveses esses que os citados pobres comuns, que outrora viviam em toda a honra e prosperidade,
não podem mais suportar de forma alguma."
E isso tudo, na opinião do Parlamento, era a causa clara da rebelião: "E, para falar a verdade, os ditos
ultrajes, assim como outros que ultimamente têm sido feitos aos pobres comuns, mais amiúde do que
nunca, fizeram com que os citados pobres comuns se sentissem tão duramente oprimidos que fizeram com
que os citados maus comuns se revoltassem e cometessem o dano que fizeram no citado distúrbio." Segue
uma advertência ao rei e seu conselho: "E maiores danos devem ser temidos se uma solução boa e própria
não for providenciada a tempo para a opressão e os danos ultrajantes acima mencionados."
O Parlamento sugeria uma solução, é claro, que refletia seu principal objetivo em todos aqueles anos:
uma voz mais forte do governo central e maior influência na seleção de homens para servir a esse governo:
"Sugeria que os comuns podiam ser devolvidos à quietude e à paz removendo-se, onde quer que
fossem conhecidos, maus oficiais e conselheiros e colocando-se outros mais virtuosos e mais
suficientes em seu lugar, assim como removendo todas as más circunstâncias pelas quais a recente
perturbação e os outros prejuízos recaíram sobre o reino, como dito acima. De outra maneira, todos os
homens pensam que este reino não pode sobreviver por muito tempo sem maiores prejuízos do que
todos os que já o atingiram, que Deus o proíba."
Dessa vez, o Parlamento foi ouvido e fizeram-se mudanças em pos- tos-chave. O imposto obrigatório
foi abandonado e não houve mais tentativas de criar novos impostos engenhosos. Não podemos achar
registros de ataque sobre a pessoa ou propriedade de um membro comum do Parlamento; de forma que
parece que, para aquele grupo, ao menos, a rebelião foi um sucesso sem precedentes. Eles conseguiram o
que queriam. De fato, é difícil resistir à tentação de concluir que a sombria Grande Sociedade que incitou
e dirigiu facetas da revolta incluía membros do Parlamento.
Tendo seus próprios objetivos atendidos pela revolta, o Parlamento não agiu de forma a satisfazer os
desejos de outrem. Quando o conselho do rei perguntou se queriam abolir a vilanagem e a servidão, a
resposta foi um veemente não. A mesma resposta negativa foi dada a William Courtenay, o novo arcebispo
de Canterbury, que pediu ao Parlamento leis mais severas para a definição e a punição da heresia.
O que o Parlamento fez pelos rebeldes em geral foi recomendar a anistia para todos, exceto para aqueles
de uma lista especial de moradores das cidades de Canterbury, Bury St. Edmunds, Bridgewater,
Cambridge, Beverly e Scarborough. Essa exclusão de cidades logo foi reduzida apenas a Bury St.
Edmunds, cujos cidadãos levaram cinco anos para pagar a multa de 2.000 marcos aplicada contra eles.
Quanto aos indivíduos, houve uma exclusão geral da anistia para aqueles diretamente envolvidos nas
mortes do arcebispo de Canterbury, do prior dos Hospitalários e do presidente do tribunal Cavendish.
Uma exclusão muito interessante foi a de todos aqueles que haviam escapado da prisão, dos quais não se
registra nenhum que tenha sido recapturado. A lista de nomes de rebeldes específicos não incluídos no
perdão geral totalizava 287, dos quais 151 eram cidadãos de Londres. Aqueles que já não estavam na
prisão simplesmente desapareceram.
A anistia geral pôs um fim à vingança judicial, de forma que, mesmo com os "julgamentos
sangrentos" do presidente do tribunal Tresilian, menos de 120 rebeldes foram realmente executados —
um número menor do que as decapitações feitas pelos rebeldes em Londres em um único dia. Exceto por
alguns rebeldes que foram sumariamente executados por espadas vingativas, como o bispo Le Despenser,
todos receberam alguma espécie de julgamento e defesa.
Agora, os líderes rebeldes apanhados, já na prisão, não iam automaticamente ao cepo ou ao patíbulo
se tivessem amigos para interceder por eles. O principal deputado de Litster, Sir Roger Bacon, estava na
lista dos excluídos da anistia, mas recebeu o perdão, dizem, por pedidos da futura rainha de Ricardo, Ana
da Boêmia. Thomas Sampson, líder rebelde em Ipswich, foi mantido na prisão por dezoito meses e então
perdoado. O líder de Somerset, Thomas Engilby, foi apanhado e acorrentado, mas perdoado poucos meses
depois. Thomas Farndon, cuja culpa era inquestionável, agira como líder e guia dos rebeldes em Londres e
os dirigira para o palácio dos Hospitalàrios em Highbury. Embora estivesse na lista, Farndon foi perdoa-
do em março de 1382.
Um dos casos mais interessantes foi o de John Awedyn de Essex. Ele foi indiciado e julgado culpado
por ser "um dos rebeldes contra o senhor rei na cidade de Londres" e "capitão dos citados malfeitores
rebelados". Ele também estava na lista dos excluídos da anistia geral, mas, em 16 de março de 1383,
recebeu pleno perdão do rei a pedido do conde de Oxford. Nossa compreensão da rebelião e da organização por
trás dela seria muito auxiliada se alguém houvesse registrado, nem que fosse infimamente, sobre quem
estava apertando os botões da influência e por quê.
Enquanto o Parlamento estava em sessão, simultaneamente havia inquéritos e inquisições. As
inquisições dos delegados londrinos de 4 de novembro e 20 de novembro de 1381 são muito eloqüentes
quanto ao ponto de vista de que os rebeldes não marcharam sobre Londres em algum tipo de marcha
lemingue instintiva para a capital, mas foram incitados, encorajados e convidados a vir por residentes em
Londres. Os registros da inquisição de 4 de novembro afirmam: "Item, os jurados declaram sob seu
juramento que um certo Adam atte Welle, na época açougueiro... e atualmente fornecedor de
mantimentos para o senhor duque de Lancaster, viajou para Essex 14 dias antes da chegada dos rebeldes
daquele condado à cidade de Londres: ali, Adam incitou e encorajou os rebeldes de Essex a vir a Londres e
lhes prometeu muitas coisas se o fizessem."
As mesmas inquisições acusam um conselheiro municipal londrino, John Horn, peixeiro. Horn era
um dos membros da delegação de três homens
enviada pelo prefeito de Londres para se encontrar com os líderes dos rebeldes de Kent, tanto para
verificar sua força como para tentar dissuadi-los de se aproximar da cidade. Horn fez o oposto.
Encontrou-se em particular com os líderes de Kent, aparentemente para aconselhá-los a seguir em frente.
Foi após esse encontro que os rebeldes de Kent foram para Southwark, no extremo sul da ponte de
Londres, e abriram a prisão de Marshalsea. Horn também deu aos rebeldes um estandarte real que tirara
da câmara municipal. De alguma forma levou três dos líderes rebeldes para Londres antes da multidão e
os manteve por toda a noite em sua casa, presumivelmente para discutir planos e objetivos para os
próximos dias.
Outro conselheiro municipal e peixeiro londrino, Walter Sybyle, foi indiciado como cúmplice de
Horn. A tutela de Sybyle incluía a ponte de Londres. Foi acusado de desmandar as ordens do prefeito para
fechar os portões e erguer a ponte levadiça, assim como de dispersar uma multidão que se reunira no
extremo norte da ponte para evitar que os rebeldes cruzassem até a cidade.
Um terceiro conselheiro municipal, William Tonge, foi acusado de abrir o portão em Aldgate para
permitir a entrada dos rebeldes de Essex. No indiciamento, os jurados admitiram que "não sabiam, no
momento, se William Tonge abrira Aldgate por sua própria maldade, porque estava ligado a John Horn e
Walter Sybyle, ou porque estava assustado com as ameaças dos malfeitores de Kent que já estavam na
cidade".
Os historiadores nos preveniram de que devemos ser céticos quanto aos inquéritos de Londres
porque podem ter sido politicamente motivados. Essa é uma preocupação sensata, porque cada
crônica da rebelião prevê um motivo político, nem que seja apenas para cair nas boas graças do rei
ou da Igreja. Os rebeldes não tinham escriba ou historiador para registrar seu lado da história.
Outros aspectos das inquisições, porém — que não envolviam pessoas em altas posições, como
conselheiros municipais e, portanto, talvez menos sujeitos à distorção política —, são igualmente
reveladores. Alguns indiciamentos falam de artesãos londrinos voltando de Londres para as ci-
dades em que nasceram para incitar seus amigos e parentes à rebelião. Outros homens foram
acusados de, e confessaram, ser agentes ou mensageiros de uma Grande Sociedade e dar ordens em
nome dela. Infelizmente, não há indicação registrada de que os inquisidores, delegados ou juizes te-
nham expressado algum desejo por informação adicional sobre essa Grande Sociedade, o que
levou alguns historiadores a concluir que ela nunca existiu. Mais historiadores afirmam que
certamente havia uma organização por trás da rebelião de 1381, mas concluem que provavelmente
nunca saberemos nada sobre a natureza dela. Há demasiados mistérios não resolvidos. Uma olhada
mais de perto para alguns desses mistérios, porém, leva à conclusão de que a organização por trás
da rebelião não precisa ser um mistério total para sempre. " ;v * ; ; •
"PRIMEIRO , E ACIMA DE TUDO... A DESTRUIÇÃO DOS
HOSPITALÀRIOS"

primeira distorção a ser tratada é o papel atribuído pelos cronistas ao rei Ricardo II. Quando seu

A pai, o legendário Príncipe Negro, morreu em 1376, Ricardo foi declarado herdeiro do trono por seu
avô, Eduardo III. No ano seguinte, Eduardo morreu e a Inglaterra ficou com um rei de dez anos de
idade. Um conselho de dois bispos, dois condes, dois barões, dois baronetes, dois cavaleiros menores
e um advogado civil foi nomeado para governar o país e o menino rei. Enquanto Ricardo era menor, o
novo conselho deveria ser eleito a cada ano. Não há menção a esse conselho todo-poderoso em nenhum dos
relatos da rebelião de 1381. Em vez disso, o próprio reizinho aparece como a força maior e unilateral que
agia pelo governo real. Nada disso soa verdadeiro, não apenas porque Ricardo não tinha autoridade real
própria, mas também porque ele simplesmente não era o herói das histórias vitorianas para meninos em
que nos pedem para acreditar.
Um cronista contemporâneo, conhecido apenas como monge de Evesham, deixou-nos uma descrição
de Ricardo que inclui as palavras: "... arrogante... ávido... tímido e malsucedido na guerra estrangeira...
permanece, às vezes, até de manhã bebendo e cometendo outros excessos que não devem ser citados", e, o
que talvez seja mais importante para nossa avaliação, "de fala abrupta e balbuciante". Ricardo tinha
tanto medo do conselho de regentes que apenas quando fez 23 anos pôde reunir o espírito necessário para
fazer uma simples declaração: de que, uma vez que ele atingira a idade havia algum tempo, já podia
reinar. Esse é o homem que nos pedem para acreditar ter agido com coragem e carisma tão espantosos
aos 14 anos. Contam-nos que ele se dirigiu à multidão de rebeldes que acabara de ver seu líder ser
derrubado e, com uma voz clara, tomou o controle da situação, oferecendo-se para ser o líder e campeão
dos rebeldes. Deu ordens para combinar o encontro em Mile End a fim de tirar os rebeldes de Londres.
Comandou, pessoalmente, o exército de desforra em Essex. Decidiu perdoar os rebeldes. O conselho
governante aparentemente não representou nenhum papel, não exerceu autoridade, não tomou decisões.
Não é provável. O que a "história" nos conservou é a crônica de acontecimentos feita por escritores
opostos aos rebeldes, escritores cujas carreiras seriam melhoradas (ou pelo menos asseguradas)
obtendo-se o favor da monarquia. Qualquer um que realmente trabalhasse nos bastidores teria ficado
comprazido em deixar o menino receber o crédito.
Nos bastidores? Considere o encontro em Mile End. Teria sido realmente combinado para tirar os
rebeldes de Londres? Se sim, não funcionou, porque um bando organizado bastante grande ficou na
cidade, assim como os principais líderes Tyler, Bali e Strawe. Eles tinham algo a fazer que obviamente era
mais importante do que encontrar o rei para discutir reivindicações. Não foram ao encontro para tomar a
Torre. E completamente razoável especular que o encontro em Mile End foi arranjado não para tirar os
rebeldes da cidade, mas para tirar o rei da Torre. Uma chave para a combinação foi que o arcebispo de
Canterbury e o prior dos Hospitalàrios não foram com o rei, mas ficaram para trás, onde, acreditavam,
fosse totalmente seguro. De alguma maneira, foram influenciados para não quererem ir ou receberam
ordens de ficar. O arcebispo deve ter sido dispensado de seus deveres de chanceler, pois havia tido a
permissão de tentar a fuga pelo rio naquela manhã, mas, e quanto a Sir Robert Hales? Ele não apenas era o
principal administrador de uma ordem monástica militar, mas um famoso líder de campo de batalha e
lutador. Em 1365, quando era comendador de Egle, comandara uma força de Hospitalàrios em uma
grande batalha nas Cruzadas pela qual ele se tornou conhecido como "o herói de Alexandria" por seus
feitos de valor, em uma grande vitória que deixou vinte mil muçulmanos mortos. Sir Robert era o mais
experiente homem de guerra no séqüito do rei. Ele não apenas deveria ter sido parte do corpo de guarda
do rei, como deveria tê-lo comandado. Então, por que ele deixou seu jovem rei sair para encontrar
milhares de rebeldes sedentos de sangue, prevendo ficar em segurança atrás das paredes maciças da
Torre? Isso tudo cheira a encenação, no mais alto nível.
Se essa conclusão parece demais especulativa, considerem a entrada de Tyler na Torre. Algumas
centenas de homens poderiam ter guardado a Torre por semanas, e mesmo meses, contra uma multidão
sem atiradores de mísseis ou máquinas de sítio, especialmente se essas poucas centenas fossem
comandadas por um militar experiente como Hales. Tyler sabia que não tinha tempo para construir uma
torre de sítio ou um aríete. Havia um jeito muito mais simples: fazer acordos que garantissem que a
ponte levadiça
estivesse baixada e a porta levadiça, erguida. Ter controle dos portões de forma que os rebeldes pudessem
simplesmente entrar. Nenhum cronista nos conta sobre lutas no portão ou sobre resistência de qualquer
tipo. Ninguém nem mesmo tentou especular sobre como poderia ter ocorrido um feito de armas tão
notável.
Também há o mistério de Tyler querer tomar a Torre em primeiro lugar. Em qualquer revolta
comum, a tomada da mais poderosa fortaleza da área teria sido o ponto alto, militarmente falando. O líder
teria imediatamente feito dela seu quartel-general, sua base de operações a partir da qual ele poderia
ameaçar toda a área circunvizinha. Esse, claramente, não era o objetivo de Tyler. Quando as execuções
terminaram, ela não tinha mais utilidade para o lugar. Ao sair, disse à guarnição que agora eles podiam
fechar os portões e erguer a ponte levadiça. O objetivo não era a Torre, mas a morte de alguns homens
dentro dela.
Quando terminou o encontro em Mile End, o rei não voltou à Torre, mas foi escoltado ao edifício que
abrigava seu guarda-roupa (sua equipe pessoal, não seus trajes). Era um edifício substancial, mas não
uma fortaleza. Ricardo havia sido claramente removido da linha de fogo para garantir sua segurança
pessoal. De fato, uma vez que seus conselheiros mandavam nele, e não o contrário, o itinerário e a escolta
de Ricardo tinham sido escolhidos para ele. Considerando-se o número de vezes que ele foi exposto aos
rebeldes — em Mile End, na Abadia de Westminster, em Smithfield, passando pelas ruas —, parece que
certos membros da Corte sabiam bem que a pessoa do rei seria protegida não apenas por sua escolta
pessoal, mas
também pela liderança rebelde.
Considerando-se tudo, o rei aparentemente foi manipulado de forma hábil. As citações a ele
atribuídas sem dúvida vieram de outras pessoas falando por ele. Os cronistas ignoraram totalmente o fato
de que, em 1381, o rei ainda não era o monarca reinante. Ele foi guiado, ordenado e manipulado ao longo
dos anos, até mesmo depois da idade que a lei dizia que ele precisava atingir para poder governar. Os
relatos de seu heróico comando direto sobre a situação durante a rebelião podem não passar de ficção
bajuladora, mas apontam para a cooperação entre a liderança rebelde e um
ou mais dos membros da Corte.
Essa operação não parece ter parado com a supressão da rebelião. Quando o Parlamento, de
novembro e dezembro de 1381, decidiu-se pelo conceito de anistia geral, fez questão de excluir da graça
todos os cidadãos de Cambridge, Canterbury, Bridgewater, Beverly, Scarborough e Bury St. Edmunds. A
Igreja teria ficado especialmente ansiosa em se vingar pelos ataques a seus quartéis-generais ingleses de
Canterbury e à sua propriedade religiosa e cscolástica de Cambridge. Apesar disso, veio uma ordem "do
rei" que passava por cima do Parlamento e estendia o perdão real a todas
as cidades, exceto Bury St. Edmunds.
Quanto aos indivíduos excluídos da anistia geral, já vimos que alguns dos líderes rebeldes
conseguiram o perdão apesar de terem sido especificamente excluídos, por meio da ajuda de homens em
altas posições, incluindo o conde de Oxford.
Quanto aos 287 homens cujos nomes estavam excluídos da anistia,
eles constituem um mistério à parte. Exceto por aqueles já na prisão, eles simplesmente desapareceram.
Foram típicos os casos de Richard de Midelton, Thomas White e Henry de Newark de Beverly. Um
decreto real veio de Westminster a 10 de dezembro de 1381, exigindo a prisão e o interrogatório desses
três homens a respeito de sua participação no levante de Beverly. A resposta à Corte Real dos oficiais da
cidade concluíra: "Além disso, eles declaram que Richard de Midelton, último conselheiro municipal,
Thomas White, telhador, e Henry de Newark, camareiro, não podiam ser encontrados dentro da comarca
de Beverly após o recebimento deste decreto: por causa disso, não podemos executar as intenções deste
decreto nos assuntos citados." Eles haviam partido, mas para onde? Será que cada um dessas centenas de
fugitivos estava completamente sozinho ou havia alguma ajuda disponível para eles? Um aspecto
intrigante nesse desaparecimento em massa é que não foi diferente do sumiço em massa dos Templários,
setenta anos antes. Ambos eram grupos já condenados, procurados pela Igreja e também pelas
autoridades leigas, que tinham a necessidade imediata de fontes clandestinas de alimento, alojamento,
novas identidades e lares seguros. Seria realmente notável se, sem assistência, eles houvessem encontrado
dezenas de bolsos separados e não relacionados para apoio seguro, entre homens desejosos de arriscar a
vida e os membros (literalmente) para ajudá-los. Porém, se houvesse uma Grande Sociedade de homens
que juraram proteger-se mutuamente, uma de suas funções teria sido fornecer toda a ajuda necessária
aos Irmãos em fuga ou escondidos. O fato é que não há registro de que algum dos condenados tenha sido
capturado, de forma que é razoável admitir que alguém lhes deu proteção, em algum lugar, de alguma
forma.
w w*9 w
Enquanto tudo isso acontecia, a Igreja parecia voltar as costas para todo o conceito da rebelião, como
se fingisse que ela não havia acontecido. O novo arcebispo de Canterbury, William Courtenay, não foi
atrás dos rebeldes. Em vez disso, foi atrás do dignitário de Oxford e padre John Wycliffe e seus
seguidores. Courtenay não pediu ao Parlamento esforços maiores para encontrar e punir os líderes
rebeldes que haviam vandalizado a propriedade da Igreja e assassinado seu predecessor. Pediu apenas
leis mais severas para caçar e punir a heresia. Historiadores recentes afirmam que John Wycliffe e suas
críticas à Igreja pouco têm a ver com a eclosão da rebelião. O arcebispo Courtenay não teria concordado
com eles. Atormentado até o fim pela Igreja, que ele queria purificar com a eliminação de sacramentos e
doutrinas não escriturais, John Wycliffe morreu em 138— Suas idéias, porém, sobreviveram, de forma
que nos Concílios de Constance.
trinta e cinco anos após sua morte, ordenou-se que as cinzas de Wycliffe fossem desenterradas e
queimadas por heresia.
Já vimos os efeitos da agitação e da liderança trazida aos rebeldes pelas ordens menores do clero,
especialmente padres de paróquia como John Bali, John Wrawe e seus seguidores, ao se mobilizarem
contra monas- térios ricos e a servidão aprovada pela Igreja. O que o arcebispo Courtenay pode ter visto
ou sentido é que algo muito maior do que um motim de homens rústicos e comerciantes ocorrera na
Inglaterra. Não era o Trono da Inglaterra que o preocupava, mas o trono de Pedro, e esse sentira o
primeiro tremor de uma atitude anti-Igreja que fermentaria nos subterrâneos da Inglaterra, até que
irrompesse como a Reforma Protestante.
O principal mistério da Revolta dos Camponeses de 1381, é a organização por trás dela. A maioria dos
historiadores atuais concorda que realmente houve organização e planejamento sobre uma grande área
da Inglaterra, mas ninguém se preocupou em especular sobre a fonte dessa organização. Teria sido
disposta apenas para a rebelião ou existira por algum tempo antes de 1381? Teria parado no fim da
rebelião ou houve alguma associação remanescente ou contínua que possa ter tido um significado nas
perturbações religiosas e políticas da Grã-Bretanha nos anos seguintes? Seria uma organização ou
simplesmente uma comunicação informal entre grupos reunidos às pressas?
Consideremos este trecho de uma carta real de 23 de julho de 1381 para os delegados e comendadores
de uma unidade administrativa do condado de Cheshire chamada "distrito de WirraF\ a mais de 150
milhas de distância de Londres: "Segundo os testemunhos de homens confiáveis, soubemos que muitos
dos vilões de nosso amado em Cristo, o abade de Chester, realizaram certas assembléias dentro da área de
sua jurisdição; e eles se reuniram em confederações secretas dentro dos bosques e
escondidos no dito distrito. Eles realizaram conselhos secretos que contrariam nossa recente proclamação
sobre o assunto." Mesmo em uma área tão remota, tais "confederações secretas" teriam demandado
planejamento. Alguém tinha de escolher um local de encontro. A notícia precisaria correr, em total
segredo, notificando os participantes da hora e do lugar do encontro. Seria necessária uma triagem para
determinar quem era confiável, porque qualquer um que assistisse poderia delatar o grupo inteiro: cada
homem confiava nos outros com sua vida e propriedade. Era necessário tomar cuidado para que os
participantes se aproximassem do local por caminhos diferentes para evitar suspeitas. Deviam inventar
álibis usados pela família e pelos vizinhos para evitar que se suspeitasse das muitas ausências ao mesmo
tempo. Sentinelas ou guardas deveriam estar a postos para alertar o grupo sobre a aproximação não
apenas de autoridades, mas de qualquer um que pudesse posteriormente cair na inocente tentação de
contar aos outros sobre a estranha circunstância de encontrar homens reunidos na profundeza dos
bosques. Alguém precisava definir a agenda da reunião e decidir, sozinho ou com um ou dois outros
líderes, que o assunto tratado era importante o bastante para correr o risco de um encontro.
É óbvio que organizar e operar uma sociedade secreta em apenas parte de uma área rural
remota demandaria organização, planejamento disciplina. Agora, vamos expandir esses requisitos
em nível nacional ou regional e poderemos começar a apreciar a vasta quantidade de planejamento
e engenhosidade necessários para incrementar até mesmo um sistema de comunicação que funcione.
Quem inicia a comunicação? Quem entre- ga? Se toda entrega fosse feita a pé, não terminaria
nunca. Mas, se fosse feita a cavalo, não seria exatamente uma sociedade "camponesa".
Outro problema com os mensageiros é o reconhecimento. Como sa- ber que um mensageiro não
é espião? O método normal utiliza sinais corpo- rais, itens de vestuário ou decoração e catecismo.
"Você viajou bastante?" "Não tanto quanto deveria, mas o bastante para um dia." "Uma longa jor -
nada traz uma fome feroz." "Sim, de mais de um tipo. Meu estômago tem fome de comida, mas
meus ossos cansados têm fome de uma cama ma- cia." Nas sociedades secretas chinesas, tal
catecismo de identificação, em certas circunstâncias perigosas, teria cerca de cinqüenta questões e
res- postas diferentes. Os sinais podem ser encontrados na forma como se usam as mãos para
segurar uma taça ou como se movem os dedos ao se utilizar um lenço para esfregar a testa de
alguém (como veremos mais tarde, o herói escocês Sir William Wallace foi identificado, na ocasião
de sua pri- são, quando um informante virou um pão na mesa de uma taverna). 0 ponto importante
desses meios de identificação e comunicação é que devem ser compreendidos por ambos os lados.
Divulgá-los em certo número de localizações geográficas implica algo muito mais complexo: requer
pa- dronização, que por sua vez demanda uma liderança autocrática pa ra ditar os padrões ou, no
caso de uma forma mais democrática, o encontro de um grupo de líderes, um corpo governante
empossado para definir padrões de senhas, sinais, reconhecimento e assim por diante. Isso é
especialmente verdadeiro se um membro tiver de encontrar e ajudar, ou encontrar e obedecer, um
completo estranho. Os aspectos práticos apontam para a proba bilidade de um conselho governante
ou um comitê, que, no caso da Grande Sociedade, parece quase com certeza ter sido baseado em
Londres. I
Isso significaria que a sociedade espalhara a participação individual com apenas uma divisão
ou base em Londres? Isso é pouco provável, considerando aqueles tempos de viagem muito
difíceis. Seus contatos nas cidades mais provavelmente teriam sido células ou capítulos compostos
por residentes daquelas cidades. Ainda mais importante, esses contatos ou mem bros teriam
incluído pessoas de alguma influência em suas áreas respectivas. Ter uma rebelião em massa e ser
capaz de ordenar a todos, em uma área de 36 milhas de distância do mar, que ficassem em casa
significa mais do que mera organização: exprime ordens dadas por pessoas que esperam
ser obedecidas. Em uma época de comunicações miseráveis, a marcha sobre Londres precisou de
planejamento anterior, liderança e um sistema clandestino superior de geração de mensagens, tanto para
combinar um dia quanto para realmente motivar cem mil homens a se revoltar contra a lei. Esse tipo de
ação demandaria aquilo que os antropólogos culturais chamariam de fase da "dança da guerra". Há o
tempo e a energia necessários para coordenar e divulgar as informações (ou desinformação) e a
propaganda necessárias para levarem o grupo à exaltação — para conseguir que um grande grupo esteja
prestes a agir, e mesmo a matar. Em nossa época, a "dança da guerra" que dispõe um povo a iniciar uma
revolução ou a apoiar um esforço de guerra nacional é um veloz exercício multimídia de jornais, rádio,
televisão e consultores de relações públicas. No século XIV, nada disso existia: praticamente toda a
comunicação era local e, em uma sociedade analfabeta, boca a boca. O púlpito era uma fonte de
comunicação grupai. E, certamente, as ordens menores descontentes do clero, incluindo John Bali e seus
seguidores, fizeram sua parte para agitar os três lugares de reunião medievais: a igreja, a taverna e o
mercado.
Isso para não dizer que a Grande Sociedade "criou" a Revolta Camponesa. A Grande Sociedade, o
que quer que fosse, não trouxe a Peste Negra. Ela não poderia ter sido responsável pela atitude da Igreja
em relação à liberdade das pessoas em suas terras nem pela guerra que trouxe a necessidade de impostos
extras. Os líderes revolucionários raramente criam os males que causam a revolução; em vez disso, eles os
aproveitam, articulando os problemas para o povo aflito (nem sempre de maneira exata), apontando os
responsáveis, pintando melhor a vida possível, mexendo a panela até o ponto de fervura. Sua esperança é
transformar aflição e frustração em raiva, modificar a raiva em ação e então mostrar os planos e a
liderança para desviar e dirigir essa ação raivosa, com o objetivo de tomar o controle total. Vimos esse
padrão ser usado efetivamente e com freqüência na história recente. Infelizmente, Wat Tyler foi morto
antes que seus objetivos fossem esclarecidos, de forma que talvez nunca possamos saber com precisão os
objetivos da Grande Sociedade ou sua verdadeira liderança.
Antes de continuar, é preciso fazer uma observação por motivo de esclarecimento. Não há indicação
de que tenha havido uma organização chamada a Grande Sociedade. Referiam-se a ela simplesmente como
uma Grande Sociedade, e ninguém jamais deu um nome a ela. Porém, é extremamente difícil discutir ou
mesmo pensar em um grupo sem um rótulo. Já vimos isso em nosso tempo, quando a imprensa finalmente
percebeu que o ramo italianado do crime organizado na América, que inclui mais do que um punhado de
calabreses e napolitanos, não podia ser chamado de fato "máfia", porque a máfia é um fenômeno
puramente sicilianoi Por algum tempo, experimentaram "O Sindicato" e mesmo "A Combinação", mas
tais termos não funcionaram. Então, um grampo telefônico registrou uma conversa em italiano que se
referia à sociedade criminosa com "nossa coisa" (em italiano,
la cosa nostra). A imprensa se agarrou a um termo que hnalmcnte preencheria a falta de rótulo e o utiliza até
hoje. Claro, mantiveram o termo em italiano, porque pareceria um pouco estúpido relatar que "o FBI
acabou de prender Ângelo Pigliacelli, da cidade de Jérsei, um conhecido chefe da Nossa Coisa". Da
mesma maneira, tanto por conveniência como por necessidade, tivemos de usar o termo "Grande
Sociedade" mesmo sabendo que ela não trazia esse nome, até que alguém nos conte qual era o verda-
deiro. .
Na busca da verdadeira natureza da Grande Sociedade nao havia
muito em que se basear. Não há registro oficial de nenhuma sociedade secreta na Inglaterra medieval
com exceção dos Lolardos, adeptos dos ensinamentos do padre herege John Wycliffe, que expôs sua
crítica à Igreja tanto antes como depois da rebelião. Diziam alguns que John Bali era seguidor de
Wycliffe, mas a pregação de Bali é anterior à atividade lolarda. Porém, em uma confissão publicada de
John Bali, afirma-se que havia uma "fraternidade secreta" dos seguidores de Wycliffe que viajavam pela
Inglaterra, divulgando suas crenças. Os historiadores concordam que essa "confissão" é uma produção
posterior e não a confissão feita por Bali no cada falso. É interessante, porém, porque os lolardos
realmente foram, subseqüentemente, mantidos na obscuridade, existiram por alguns séculos em células
secretas por toda a Inglaterra e nunca foram claramente identificados ou descritos.
Havia outra sociedade secreta muito conhecida na Grã-Bretanha, a Antiga Ordem dos Maçons Livres
e Aceitos. Porém, não existe documentação que sugira que a Maçonaria era ativa na época da rebelião
(mas também não há nada para indicar que não era). Os escritores maçônicos que começaram a exaltar as
virtudes de sua fraternidade depois de ela ter saído do segredo para o conhecimento do público, em 1717,
freqüentemente faziam grandes vôos no mundo da fantasia. Chegavam a declarar que personalidades
como Adão, Noé, Pitágoras, Aquiles c Júlio César eram membros c Grão-Mestres maçônicos, dizendo
existir desde "tempos imemoriais". Pensadores mais sóbrios não contam a Criação e o Dilúvio e afirmam
que o rei Salomão foi, na verdade, o primeiro Grão-Mestre maçônico e seu Templo, o primeiro edifício
maçônico. Com o amadurecimento trazido pelo tempo, os historiadores maçônicos inclinavam-se a trazer
sua descoberta um pouco mais para a frente, citando seus inícios em guildas medievais de pedreiros,
atualmente a teoria mais aceita sobre as origens da fraternidade.
A primeira indicação de que a Maçonaria poderia estar relacionada | rebelião é o nome do líder,
Walter Tyler. Ele surgiu na história inglesa quando de sua misteriosa e indiscutível nomeação como
supremo comandante
da Rebelião Camponesa na sexta-feira, 7 de junho de 1381, e a deixou também abruptamente quando sua
cabeça foi cortada oito dias depois, no sábado, 15 de junho. Não se sabe absolutamente nada sobre ele
antes desses
oito dias. Isso sugere que ele não estava usando o nome real. Historiadores sugerem que seu nome
provavelmente indica que ele era telhador de profissão2, coisa que, baseada cm sua óbvia experiência
militar e dom de liderança, não é muito provável. Mas se ele houvesse realmente adotado um pseudônimo,
por que se chamaria "Tyler"? Os maçons que lerem este livro perceberão sobre o que estou falando. O
Tyler é o sentinela, sargento de armas e o homem forte da Loja Maçônica. Confere as credenciais dos visi-
tantes, cuida do local de encontro e fica de guarda do lado de fora da porta com uma espada
desembainhada na mão. Se a Grande Sociedade estivesse de algum modo ligada à Maçonaria, "Tyler"
teria sido o único título maçônico apropriado para o líder militar que empunhasse uma espada e mantives-
se a disciplina. Deve-se admitir que é uma ligação tênue.
Outra conexão maçônica possível, mas igualmente tênue, era a revolta uniformizada e altamente
organizada em Yorkshire, especialmente na cidade de York. Quando quatro Lojas Maçônicas londrinas
decidiram ir a público em 1717, encontraram-se em 24 de junho, dia dedicado a seu santo padroeiro, João
Batista, e elegeram um Grão-Mestre para sua nova Grande Loja. Os maçons de York ficaram
enraivecidos por essa decisão unilateral da parte dos maçons londrinos de jogar fora seu antigo véu de
segredo e pela presunção deles, que pensavam poder ficar por cima de todas as Lojas Maçônicas da
Inglaterra. A Loja de York se considerava a mais antiga do país, remontando ao século VII e à construção
da catedral de York. Em 1725, a Loja de York decidiu se afirmar e formou sua própria "Grande Loja de
Toda a Inglaterra". Muito mais tarde, em 1767, a Grande Secretaria de York escreveu que "essa Loja não
2 N. T.: em inglês, tiler = telh ado r a mesmo palavra que denomina o "Guarda" da Loja Maçônica.
reconhece superior, não presta homenagem a ninguém, existe em seu Próprio Direito, tem suas
Constituições e Certificados da mesma Maneira como é feito pela Grande Loja em Londres e, por vir de
Tempos Imemoriais, tem o Direito de fazê-lo."
York ocupa um lugar muito especial na Maçonaria, especialmente nos Estados Unidos, onde muitos
maçons acreditam que a Maçonaria de York é a mais pura e a mais antiga forma de Maçonaria.
Outra nebulosa relação maçônica encontrada na rebelião era o ala de se libertar, de acabar com toda a
servidão e a vilanagem. Um dos antigos Landmarks da Maçonaria é que um Maçom deve ser "um homem
livre, nascido de uma mãe livre". Se um advogado provasse que um homem livre que fosse Maçom não
era mais livre, aquele homem teria de renunciar à Maçonaria. No final do século XV, praticamente todos
os homens na Inglaterra eram livres — ou seja, a existência da condição livre como requisito para a
Maçonaria indicava que ela já era uma antiga organização ao se revelar em 1717. É interessante, porém,
que nada disso apresente algum indício forte cie que a Grande Sociedade fosse a Maçonaria ou um
precursor dela. Há indícios mais diretos c dramáticos em outra direção, em uma organização bem
documentada que existia antes da Rebelião Camponesa, mas que se acreditava haver desaparecido
completamente.
O primeiro vislumbre desses indícios eram os ataques rebeldes especialmente maldosos aos Cavaleiros
Hospitalàrios, incluindo o assassinato de seu prior, Sir Robert Hales. Considere-se o caso dc Georgc de
Donnesby (Dunsby)t de Lincolnshire. Ele foi preso a mais de 200 milhas dc casa c confessou ser
mensageiro da Grande Sociedade. Seria simples coincidência o fato dc que em sua cidade de Dunsby, em
Lincolnshire, os arrendatários tenham feito greve e se recusado a pagar suas obrigações aos proprietários
hospitalàrios locais? Ou tome-se o caso da destruição da propriedade dos Hospitalàrios recentemente
reconstruída em Highbury. Bem no meio dos acontecimentos dramáticos de Londres, entre todas as
propriedades da Igreja sobre as quais eles poderiam esperar lançar sua vingança, Wat Tyler escolheu
enviar seu principal tenente e um bando de rebeldes para uma missão fora da cidade. Eles tiveram de
andar 6 milhas apenas para destruir delibe- radamente aquela propriedade dos Hospitalàrios em
Highbury, e então marcharam de volta para se juntar a Tyler. Em Cambridge, oficiais da cidade, com a
aprovação do prefeito, foram se reunir a um bando rebelde em Shingay, uma propriedade dos
Hospitalàrios que estava sendo incendiada, e em seguida todos voltaram a Cambridge para atacar a
Universidade. Por que os homens da cidade deveriam andar 10 milhas para o interior para assistir aos
rebeldes incendiando uma propriedade dos Hospitalàrios? Por que não esperaram simplesmente os
rebeldes em casa? Ou será que combinaram de se encontrar para planejar seu ataque unificado,
circunstância sob a qual um encontro simultâneo à destruição de uma propriedade dos Hospitalàrios teria
algum significado para cies?
Todas as ordens religiosas tinham propriedades cm Londres, mas apenas a dos Hospitalàrios foi f
dclibcradamcntc procurada para ser destruída, e não apenas os estabelecimentos principais cm St. John s
Clerkenwell c a área do "Templo" entre a Rua rleet e o Tâmisa. Os cronistas afirmam que os rebeldes
foram atrás dc cada casa e propriedade dos Hospitalàrios arrendadas para destruí-las ou queimá-las.
Para esse fim. londrinos nativos tinham de estar envolvidos, não apenas para identificar essas
propriedades, mas para guiar os rebeldes a elas; naquela época, as ruas de Londres não eram
demarcadas com placas de sinalização; apenas centenas de anos depois a cidade teria um sistema de
numeração de casas. Os rebeldes chegaram a destruir duas forjas na Rua Fleet que os Hospitalàrios
haviam tomado dos Templários suprimidos. Os registros indicam que, vinte anos
depois, a Ordem I lospitalária ainda tentava, sem sucesso, reconstruir essas duas forjas ante a oposição de
certos cidadãos de Londres, o que talvez indique a intensidade da ligação entre a liderança rebelde e
cidadãos londrinos eminentes.
Em toda a destruição de Londres, por que os rebeldes não queimaram os registros guardados na
igreja hospitalária da Rua Fleet, onde os encontraram? Por que ter todo o trabalho de carregar caixas e
pacotes para fora da igreja ate a rua principal, longe do edifício, a menos que fosse para evitar o risco de
danificar a estrutura? Por que css.a igreja seria diferente de qualquer outra propriedade? Apenas porque
fora a principal igreja, na Grã- Bretanha, dos Cavaleiros Templários, consagrada quase trezentos anos
antes, cm 1185, por Heráclio, o patriarca de Jerusalém. Mas não foi apenas sua consagração que a salvou,
pois o patriarca também consagrara a igreja dos Hospitalários em Clerkenwell em 1185, no mesmo mês
em que abrira a igreja Templária; mas os rebeldes não tiveram consideração cm proteger
a igreja de Clerkenwell.
Os rebeldes altamente organizados em York, Scarborough e Beverly, que eram cidadãos, não
"camponeses", exibiam uma libré cm comum. Era um xalc branco com um capuz e um ornamento
vermelho, que sc registra ter sido usado por quinhentos homens, apenas em Beverly. Certamente, eles não
surgiram na noite anterior na vizinha Singer; sua existência demonstra liderança formal e organizada c
tomada de decisões, para não mencionar a disponibilidade de fundos. Pode ser pura coincidência, mas
vermelho c branco também eram as cores templárias: uma cruz vermelha
sobre um fundo branco.
O mais assustador era uma simples frase da confissão do principal tenente de Wat Tyicr no leito de
morte, lack Strawe. De acordo com relato de Thomas Walsingham, monge de St. Albans, Strawe foi
capturado e levado a Londres, onde foi sentenciado à morte pelo prefeito. Antes que a sentença fosse
cumprida, o prefeito prometeu a Strawe um enterro cristão e três anos de missas por sua alma sc
confessasse o verdadeiro propósito da rebelião. Nessa confissão, conta-se que Strawe disse, em certo
trecho: "Após reunirmos uma enorme multidão de pessoas comuns em todo o país, teríamos assassinado
de uma vez todos os senhores que pudessem se opor ou resistir a nós. Primeiro, c acima ele tudo, procederíamos à
destruição dos Hospitalários" (o grifo é nosso). Strawe não explicou esse ódio especial pelos Hospitalários, c não
há registro de que alguém tenha perguntado. Se havia uma organização por trás da rebelião, ao menos um
de seus objetivos fica claro: "A destruição dos Hospitalários". Que organização, ou mesmo que segmento
da sociedade poderia ter desejado a aniquilação total dessa Ordem altamente respeitada de monges
militares? Havia apenas uma.
Os Cavaleiros Templários haviam sido abolidos oficialmente pelo papa Clemente V em 1312, depois
de sofrerem quase cinco anos de aprisiona- mento, tortura e morte na fogueira. Quase toda a sua
propriedade na Grã- Bretanha fora entregue a seus grandes rivais, os Cavaleiros Hospitalários. Os
Templários certamente tinham razões para odiar tanto a Santa Sé quanto a Ordem Hospitalária. Teriam
aprovado completamente a execução de
Sir Robert Hales, grande prior dos Hospitalàrios na Inglaterra, e teriam também aprovado o fato de sua
própria igreja central ter sido poupada. Quanto à Santa Sé, que havia surrado, torturado e queimado seus
Irmãos, teriam provavelmente concordado com os rebeldes por eles ignorarem os direitos do santuário,
menosprezado o Santo Sacramento e cortado a cabeça do arcebispo de Canterbury.
Uma notável exceção à patente concentração sobre as propriedades dos Hospitalàrios foi o ataque
especialmente maldoso ao monastério beneditino de Bury St. Edmunds, liderado pelo padre rebelde John
Wrawe. Ali, as cabeças do presidente do tribunal, Cavendish, e do prior, John de Cambridge, foram
usadas como brinquedo. A essas duas juntou-se a cabeça de outro monge, John de Lakenheath, que era
encarregado das propriedades do monastério. Os rebeldes também procuraram outro monge, Walter
Todington, esperando juntar sua cabeça a dos outros, mas não conseguiram descobrir seu esconderijo.
Quando se definiu a anistia geral, apenas os cidadãos de Bury St. Edmunds foram excluídos, por
causa dos acontecimentos especialmente sangrentos de lá. Aparentemente, não há ligação entre esses fatos
e qualquer possível sociedade secreta. Não parece haver ligação com os Templários, também, até
consultarmos as crônicas da abadia. Elas documentam uma firme base para a violenta raiva templária,
bastante distante de qualquer referência aos Hospitalàrios.
Uma tradução da crônica original, com suas acusações contra os Templários, foi feita por Antonia
Gransden, que editou The Chronicle ofBury St. Edmunds 1212—1301. As palavras falam por si mesmas: "Na vigília e
no dia do Domingo de Ramos, os cristãos e os infiéis se encontraram em uma batalha entre Acre e Safed.
Primeiro foram mortos oito emires e dezoito colunas de infiéis, então os infiéis acabaram por ganhar a
vitória, mas não sem grande perda de homens. O exército cristão foi praticamente liquidado pela sedição dos Templários" (o
grifo é nosso).
Esse relatório, escrito em 1270, baseia-se no ataque do exército egípcio ao castelo templário de Safed
quatro anos antes. O novo sultão era um guerreiro kipchak brutal e traiçoeiro chamado Baibars Rukd
ad-Din, que se apossara do trono ao assassinar o sultão anterior. Quando seus ataques ao castelo
falharam, ele ofereceu a fuga e o perdão a todos os Turcopoles, as tropas nativas que compreendiam a
maior parte da guarnição, e eles começaram a desertar em quantidade. Desprovidos de seu apoio, os
Templários enviaram um de seus sargentos sírios, Irmão Leo, para negociar com Baibars. Leo voltou com
a boa notícia de que todos os Templários estavam livres para partir, com a garantia de um salvo-conduto
pelas linhas egípcias. Os Templários ainda não conheciam o caráter de seu inimigo e aceitaram.
Logo que Baibars tomou o controle do castelo dos Templários, deu a eles uma noite para decidir se
escolheriam a conversão à fé islâmica ou a morte. Na manhã seguinte, eles se alinharam fora dos portões
do castelo para anunciar sua decisão. Antes que pudessem falar, o comandante templârio do castelo os
conclamou a escolher a morte em vez de abandonar a fé cristã. Foi prontamente capturado, despido e
esfolado vivo na frente de seus Irmãos templários. Impassíveis com os gritos e o sangue de seu líder, os
Templários todos preferiram a morte a renegar a cruz. Haviam feito sua escolha e foram atendidos, pois
Baibars ordenou sua imediata decapitação.
Essa é a história da perda do castelo de Safed e do martírio dos Templários como realmente
aconteceu, e como deve ter sido contada a cada novo Templârio como exemplo da piedade e do sacrifício
de seus predeces- sores. De alguma forma, a história foi torcida e revertida na época em que foi aceita e
registrada pelos Beneditinos em Bury St. Edmonds. Acusar os Irmãos mártires de Safed de traição teria
feito ferver o sangue de qualquer Templârio que ficasse sabendo disso. Essa não era a única acusação con-
tra os Templários nas crônicas de Bury St. Edmunds.
O outro artigo anti-Templários nas crônicas parece ser mais um julgamento final do que uma
acusação: "Hugo de Lusignan, rei de Chipre, seu filho e outros de sua família foram mortos envenenados
pelos Cavaleiros do Templo."
Não há dúvida de que, na maior parte de seu reinado, Hugo III de Chipre estava às turras com os
Templários; confiscara suas propriedades e chegara mesmo a acusá-los de combinar um ataque
muçulmano às suas tropas. Hugo queria estabelecer a supremacia sobre o continente afirmando sua
controversa reivindicação ao trono de Jerusalém. Era de conhecimento público que os Templários eram
opostos a suas ambições. Porém, não há base histórica para a acusação de que eles envenenaram o rei
Hugo e seus filhos. Ele morreu a 4 de março de 1284 e seu filho mais velho, Bohemond, morrera em
novembro do ano anterior. Seu frágil segundo filho, João, herdou a coroa; com a morte de João, a coroa
passou para o terceiro filho de Hugo, Henrique. Mas, de volta à Inglaterra, na abadia beneditina de Bury
St. Edmunds, os escribas escreveram que os Templários eram culpados do assassinato em massa do rei, de
seu herdeiro e membros de sua família.
Havia realmente uma conexão com os Templários e, se houvesse
uma demonstração de vingança templária acobertada pela Revolta Camponesa, Bury St. Edmunds teria
sido um dos principais alvos.
Se a liderança e o "empurrão" da multidão enraivecida na direção de certos objetivos foram
inspirados por um desejo de vingança templária, a rebelião pode não ter sido o fracasso com que a
história a rotulou. Certamente, se o propósito fosse se vingar dos três grandes inimigos dos Templários —
os Hospitalàrios, a Igreja e a monarquia —, um certo grau de sucesso é óbvio. Podem, por mais que os
alvos escolhidos pelos rebeldes tenham sido indicados pelos Templários, não parece, de forma alguma,
prático que a Grande Sociedade que guiou parte da rebelião pudesse se basear em uma
Ordem abolida 69 anos antes. Um Cavaleiro Templârio com 21 anos na época da supressão teria 90 anos
quando ocorreu a rebelião. A ligação templária precisaria ter alcançado a segunda e a terceira gerações.
Uma conexão templária significaria que a Grande Sociedade naoem apenasum orupo marginal
organizado para fomentar ou financiar essa rebelião de 1381, mas antes, que uma sociedade secreta
existia havia quase setenta anos.
Seria isso possível?
Era aparente que algum tipo de organização livre ou grupo de simpatizantes devem ter trabalhado para
os Templários na época de sua prisão na Inglaterra por Eduardo II, uma vez que tantos escaparam da
prisão e desapareceram tão efetivamente. Uma diligência real assistida pelas ordens religiosas conseguiu
capturar apenas dois Templários fugitivos na Inglaterra eum na Escócia. Além disso, diversos deles
escaparam da prisão, o que sem dúvida teria demandado a ajuda tanto de dentro quanto de fora. Além
disso, as prisões na Inglaterra ocorreram três meses após as prisões na França, o que deu tempo suficiente
para fazer preparativos. Algum tipo de organização livre de assistência mútua poderia ter se preparado
apressadamente na época, mas, para que houvesse permanecido viva e funcional por setenta anos, teria
sido necessário que a utilidade ou necessidade dessa sociedade marginal de proteção mútua se estendesse
além do tempo de vida dos membros fugitivos originais. Teria sido preciso o objetivo comum, o temor
comum ou o inimigo comum para motivar a longevidade. Se realmente a Grande Sociedade teve origens
templárias, talvez possamos encontrar pistas para esse elo comum nas atividades organizadas associadas
à Revolta Camponesa. Para continuar seriamente com a teoria de uma ligação templária, seria necessário
dar uma nova olhada na história e no trabalho dessa ordem militar de monges que nasceu na primeira
Cruzada.
Isso significa desviar-se de qualquer outra especulação sobre o envolvimento da Maçonaria; mas, da
forma como as coisas decorreram, não por muito tempo.

Os CAVALEIROS DO TEMPLO

A pós um ano de batalha em direção ao sul, passando por Nicéia e Antioquia, os guerreiros cristãos da
primeira Cruzada viram-se diante dos grandes muros de Jerusalém a 7 de junho de 1099.
Ante a aproximação dos cruzados, o governador egípcio de Jerusalém destruiu ou envenenou
os poços d'água em torno da cidade e afastou os rebanhos que excediam suas próprias necessidades.
Todos os cnstaos tiveram ordens para sair, não apenas como um ato de piedade, mas para colocar uma
carga adicional de necessidade de alimento e água sobre os invasores. Um dos cristãos expulsos era
Gerard, mestre da hospedaria Amalfi, na cidade. Ele, imediatamente, aproximou-se dos líderes cnstaos
para compartilhar tudo o que sabia sobre o desenho e as defesas de Jerusalém. Sua informação foi muito
bem-vinda.
Ninguém prevenira os cruzados sobre o calor, particularmente insuportável para os homens que
tinham de vestir roupas sob a armadura, sem sombra para impedir que o sol batesse nela o dia inteiro.
Ninguém dissera a esses homens, acostumados aos bosques da Europa, que não havia madeira em volta
de Jerusalém para a construção de máquinas de sítio. O material tinha de ser trazido da costa ou das
florestas da Samaria, necessitando mais de sessenta prisioneiros muçulmanos para carregar um único
tronco. Eles não haviam esperado uma viagem de 12 milhas para buscar água para si mesmos e seus
animais. Então, após seis semanas de desconfortos físicos aumentados pelas deficiências de comida e
água, chegou ao Cairo a notícia de que os egípcios estavam reunindo um grande exército para libertar a
cidade. O desespero e o pânico se apossaram do exército cristão.
Como em resposta às suas orações, um padre no acampamento cristão contou que tivera uma visão
que revelava as condições sob as quais os cruzados teriam a vitória. Primeiro, tinham de pôr de lado todo
o pecado, todas as ambições egoístas e todos os desentendimentos entre eles. Em seguida deviam jejuar e
orar por três dias. No terceiro dia, tinham de desfilar com humildade, de pés descalços, em torno da
muralha da cidade sagrada de Deus. Obedecendo a todas essas condições. Deus lhes daria a vitória dentro
de nove dias. A visão foi aceita pelos líderes, que ordenaram todo o exército a cumprir as condições. Após
dois dias de jejum, o exército inteiro retirou seus calçados e começou a caminhada de duas milhas em
torno da cidade. Em cima da muralha, os defensores egípcios olhavam para os cruzados gritando insultos
e risos e urinavam sobre as cruzes carregadas pelos penitentes.
Felizmente, a profecia teve o auxílio de um surto de atividade para completar três torres de sítio.
Para empurrá-las até os muros na posição escolhida, era primeiro necessário tapar porções do grande
fosso ou vaiado em frente à muralha. Isso foi feito, mas com grande custo em razão da constante
barragem de pedras e fogo grego sulfuroso atirados neles pelos defensores. Na noite de 14 de julho, o
exército estava pronto e começou a empurrar as gigantescas torres de assalto para a posição. Raimundo
de Toulouse posicionou sua torre na parede primeiro, mas não pôde fazer seus homens atravessar a ponte
da torre para o muro. Godofredo de Bulhões encostou sua torre na muralha norte de manhã e passou a
ponte no alto da muralha. O combate pessoal durou horas, mas ao meio-dia Godofredo tinha homens na
muralha da cidade. Outros homens abriram caminho pela ponte para apoiá-lo e logo Godofredo tinha
domínio de boa parte da muralha para permitir o uso seguro de escadas para a entrada de mais homens.
Quando já tinha reunido um número suficiente, mandou-os abrir o Portão da Coluna e a força cruzada
principal penetrou na cidade. Jerusalém foi tomada no nono dia, como a profecia prometera.
Tomados por um frenesi de vingança sanguinolenta após semanas de sofrimento fora das muralhas,
os cruzados vitoriosos invadiram as ruas, abrindo casas, lojas e mesquitas para assassinar cada homem,
mulher e criança* que pudessem encontrar.
Um dos relatórios ao papa diz: "Se você quer saber como tratamos nossos inimigos em Jerusalém,
saiba que no pórtico de Salomão e no Templo nossos homens cavalgaram pelo sangue impuro dos
sarracenos, que chegava ao joelho de seus cavalos."
Correu a notícia de que os muçulmanos locais, às vezes, engoliam seu ouro para escondê-lo de forma
mais segura; depois disso, o desentranha- mento se tornou uma prática comum na busca da pilhagem.
Esperando evitar o massacre frenético, os judeus correram para sua principal sinagoga a fim de
deixar claro que não eram muçulmanos. Os cruzados incendiaram a sinagoga, matando todos.
Raimundo de Aguilers, ao escrever sobre os cadáveres mutilados que cobriam a área do Templo, citou
o salmo 118: "Este é o dia que o Senhor fez; regozijemo-nos e alegremo-nos nele."
E assim estava pronto o palco para essa estranha mistura de piedade, auto-sacrifício, derramamento
de sangue e ganancia que marcou a história do reino cristão do Oriente pelos dois séculos seguintes.
Uma interessante conseqüência da Primeira Cruzada está no tratamento da pequena ordem que a
hospedaria Amalfi possuía para peregrinos. Gratos por sua informação e assistência, e no calor da
vitóna, os monges foram recompensados com presentes e terras. Conseguiram assim expandir suas
operações com o financiamento entusiástico dos novos governan- tes cristãos. Por volta de 1118, o novo
prior, um nobre francês, decidiu que deveriam fazer mais do que apenas dar alojamento e cuidar de
peregrinos, precisariam aceitar cavaleiros em sua ordem e ter um exército militar que lutaria pela Terra
Santa. Mudaram seu nome para Hospital de Sao João de Jerusalém e pediram ao papa uma
Constituição ou Regra; própria, que loi obtida. Com sua nova riqueza e importância, sentiram que haviam
superado seu santo padroeiro, São João Compadecido. Declararam que seu santo
padroeiro seria dali em diante São João Batista.
P
No mesmo ano, fundava-se outra ordem em Jerusalém que rivalizaria
e poder.
com os Hospitalàrios em números, riqueza
O apoio dado por Balduíno I à recentemente reorganizada Ordem dos Hospitalàrios de São João
pode ter inspirado Hugo de Payens, vassalo do conde de Champagne. Em 1118, De Payens enviou uma
petição ao rei Balduíno II pedindo permissão para que ele e outros oito cavaleiros pudessem se
estabelecer como uma nova ordem religiosa. Fizeram votos de po-
br"za castidade e obediência ao patriarca de Jenisalém. Diferentemente

dos Hospitalàrios, que operavam hospedadas e hospitais na Terra Santa essa nova ordem se devotaria
totalmente à proteção militar de peregrinos aos lugares sagrados. Eles buscaram permissão, e
conseguiram para ttr
quartéis de sua nova ordem em uma ala do palácio real na área do Templo Ali ficava a antiga mesquita de
al-Aqsa, que supostamente fora construída no lugar do Templo de Salomão original. Por causa da
localização o arupo adotou seu nome: os Pobres Companheiros Soldados de Cristo no Templo de
Salomão. Ao longo dos séculos, eles seriam conhecidos como Ordem do Templo, Cavaleiros do Templo
de Salomao em Jerusalém e diversas outras variações. Duas coisas permaneceram padronizadas porém:
qualquer que fosse a forma de seu nome, sempre se baseava do Templo de Salomão, e sempre vinha
depois do nome popular que eles
carregam, os Cavaleiros Templários.
a inda

A nova ordem aparentemente fez muito pouco nos primeiros nove anos de sua existência; nem
mesmo há registro de que tenha aceitado novos membros. Então, em 1127 eles parecem ter decidido se
expandir Nesse ano o rei Balduíno II escreveu uma carta para Bernardo (mais tarde, São Bernardo),
abade de Clairvaux e o mais influente clérigo de seu tempo, chamado algumas vezes de "o segundo
papa". Balduíno pediu para Bernardo usar sua considerável influência junto ao papa Honóno II para
obter a sanção papal para a nova Ordem dos Cavaleiros Templários e lhe pediu para estabelecer uma
Regra para a vida e o comportamento de seus mem Bernardo respondeu favoravelmente.
bros.

A ordem, no início, parece ter sido pouco mais que um clube particular formado em torno do conde
de Champagne. Todos os Cavaleiros Tem- plários fundadores eram vassalos de Champagne. Hugo de
Payens era seu primo. André de Montbard, que se tornaria o quinto Grão-Mestre, era tio de Bernardo,
que era, ele próprio, de Champagne, enquanto o papa Honório fora um seguidor cisterciense de
Bernardo. O papa escolhera a capital de Champagne, a cidade de Troyes, como o local de encontro de um
concilio para rever os pedidos templários. A primeira doação de terras feita aos Templários foi em
Troyes, e ali eles estabeleceram sua primeira preceptoria
na Europa.
Bernardo contatou o papa a pedido de Balduíno, dando-lhe toda a sua
aprovação e encorajamento. Quando Hugo de Payens e cinco outros Templários chegaram a Roma,
foram recebidos pelo pontífice. O papa convocou um concilio no ano seguinte em Troyes, em Champagne,
e instruiu os Templários a estarem presentes. Bernardo não pôde comparecer em pessoa, mas escreveu
para declarar suas boas expectativas quanto ao futuro da nova ordem. Deu suas razões para pedir ao
concilio que desse à ordem o reconhecimento oficial, pedindo o estabelecimento de uma Regra, para o que
ele oferecia sua assistência pessoal. A fama de Bernardo se baseava em seu grande sucesso como
reformador e propagador da vida monástica, e sua posição era tão bem estabelecida que qualquer projeto
aprovado por ele dificilmente seria rejeitado pela Igreja ou pelos leigos. Bernardo ajudou a esboçar uma
Regra Templária baseada na Ordem Cisterciense, que por sua vez havia sido baseada na Regra
Beneditina, muito mais antiga.
Para compreender a natureza da Ordem Templária, é importante enxergar nela uma ordem
monástica e não uma ordem de cavalaria. Os Templários eram religiosos em uma época em que os
monges eram geralmente vistos como melhores do que os padres seculares e muito mais próximos de
Deus. O próprio São Bernardo dizia:''As pessoas não podem consultar padres, porque as pessoas são
melhores que os padres." Hoje a Igreja Católica Romana tem linhas bem organizadas pela Santa Sé,
desde bispos até o clero secular; as ordens monásticas contemporâneas parecem muito pouco necessárias
à estrutura, exceto quando realizam certas tarefas especializadas como ensinar ou curar. É difícil,
portanto, para nós, compreender o quanto as ordens monásticas eram importantes para a Igreja; elas
chegaram mesmo a ter papas, particularmente nos séculos XI e XII.
A vida monástica começou no início do Cristianismo como um esforço individual. Homens frustrados
com os assuntos mundanos, consumidos pelo desejo de viver a vida que acreditavam que Deus esperava
deles, simplesmente saíam para vagar sozinhos. Foi a época do eremita asceta, um movimento que parece
ter surgido primeiro no Egito. A preocupação era lutar contra todos os desejos da carne e os impulsos do
materialismo Por meio da biografia escrita pelo bispo Atanásio, sabemos bastante sobre
um monge chamado Antônio, que optou pela vida de eremita religioso no final do século III. Embora
vivesse no quente deserto egípcio, Antonio vestiu uma manta de pele pelo resto da vida, sobre roupas de
couro. Nunca tomou banho e jejuava até quase morrer. Suas maiores tentações nao vinham da
abstinência dos confortos, mas do desejo sexual. Ele contava que o diabo lhe aparecia à noite sob a forma
de mulheres sensuais, atormentando-o ate que crritasse alto. Ele buscava modos ainda mais dolorosos de
torturar seu corpo para se purgar de pensamentos pecaminosos. Esse esforço extremo para agradar a
Deus fez de Antônio quase um santo durante sua vida; peregrinos viajavam para vê-lo e buscar seus
conselhos. O mais famoso de todos os eremitas, é claro, foi o asceta sírio Simeão Estilita, que construiu
um pilar de 60 pés de altura e viveu no alto da coluna por trinta anos ate morrer, alimentado por
seguidores e peregrinos, que, presumivelmente, também deram algumas contribuições para seu
saneamento rudimentar.
A Igreja não impedia tais extremistas, mas também nao os encorajava Na verdade, a influência da
Igreja era dirigida à vida em comunidade, que preservava a existência eremítica dando aos monges celas
particulares para devoção pessoal, meditação e descanso. Isso era, porem, combinado com algumas
atividades comunitárias, como a celebração da missa, a leitura de ofícios, a oração em grupo, as refeições
e o trabalho. Cidadaos que admirassem os monges e mesmo os invejassem, mas que não conseguiriam
suportar aquele nível de sacrifício pessoal, poderiam compartilhar de sua santidade fundando e
sustentando monastérios ou doando terras e outros artigos de valor para casas que já existissem. A
maioria dos primeiros monastérios eram unidades totalmente independentes, formadas por um abade
e 12 monges, imitando os 12 discípulos das Escrituras. ■
Talvez o homem mais influente dessa era monástica primitiva tenha
sido Benedito de Nicósia. Incapaz de tolerar o vício e a corrupção da vida romana, Benedito fugiu para
as colinas próximas e iniciou uma vida de pobreza abjeta e autopunição cruel. Gradativamente, sua
fama se espalhou e jovens vinham a ele como peregrinos e voluntários para compartilhar de sua te e sua
conduta Ele começou a organizar comunidades para seus discípulos, que culminaram com a fundação
do monastério em Monte Cassino, por volta de 530 d C O bombardeamento e a restauração desse
monastério durante e depois da Segunda Guerra Mundial foram bem documentados; ele ainda está
no alto de uma colina no sul de Roma.
Mais importante do que o próprio monastério foi a Regra que Benedito criou para os monges que o
seguiram. Essa Regra Beneditina se tornou um modelo de fundação para diversas ordens monásticas
que se seguiram, como os Cistercienses, cuja Regra, por sua vez, tornou-se a base da Regra criada para
os Cavaleiros Templários. O ponto central da Regra Beneditina estava incorporado em três votos: de
pobreza, castidade e obediencia, todos rigorosamente obrigatórios. Para as primeiras otensas, a Regra
exigia repreensão verbal e confinamento solitário, com muita oração. Se isso não fizesse com que o
monge abandonasse seus modos obstinados, o abade estava autorizado a usar o flagelo. Se seus
erros não pudessem ser arrancados dele, o monge podia ser expulso da Ordem. Embora os monges
tentassem ser tão auto-suficientes quanto possível, sua principal obrigação era servir a Deus por
meio da devoção e da caridade. Os monges, por viverem de acordo com uma Regra ( regula),
tornaram-se conhecidos como clero "regular". Os padres, que estavam livre s para se mover pela
sociedade (,saeculum), ficaram conhecidos como clero "secular". Enquanto a Igreja se tornava
cada vez mais mundana e materialista, o clero monástico "regu lar" parecia cada vez mais santo
aos olhos da população em geral, o que contribuiu para a influência dos monges e sua posição de
confiança. O macio cinto trançado vestido pelos monges e frades agora nos parece ape nas um item
de seu hábito, mas nos primeiros dias das ordens monásticas todos sabiam que o cordão áspero em
torno da cintura de um monge servia para a autoflagelação, para afastar pensamentos e
necessidades pecadores.
Claro, as preocupações mundanas também se infiltravam no monas- tério e, uma vez que os
presentes de terra e ouro os capacitavam a ter arrendatários e servos de sua propriedade, por fim,
o sistema monástico necessitou de reforma. Essa necessidade foi respondida de maneira bas tante
dramática por Bernardo de Clairvaux. Em 1112, Bernardo se juntou à relativamente nova Ordem
Cisterciense, aos 21 anos. Logo se tornou abade de Clairvaux e fundou nada menos que 65 casas
filiais. Era um orador brilhante, escritor persuasivo e, conta -se, viveu uma vida sem mácula,
estritamente de acordo com a Regra Cisterciense.
Bernardo tinha apenas 28 anos quando o Concilio de Troyes lhe pediu para ajudar a criar uma
Regra para os Templários. Ele fez mais que isso. Tornou-se seu principal defensor oral, clamando
que eles necessitavam de doações de terras e dinheiro e incitando os homens de boas famílias a
rejeitarem sua vida de pecado e tomar da cruz e da espada como Cavaleiros Templários. Bernardo
também obteve sucesso em estabelecer uma forma de recrutamento que provavelmente misturou os
Templários aos livre-pen- sadores por toda a sua existência. O serviço na Ordem, que unia a adesã o
a estritos votos monásticos com a constante ameaça de mutilação ou morte no campo de batalha
sagrado, era penitência suficiente para compensar qualquer pecado. Assassinos, ladrões,
fomicadores e mesmo heréticos eram bem-vindos, desde que renunciassem a seus costumes
pecadores anteriores e abraçassem os votos sagrados da Ordem. Durante os anos da Cruza da
Albigense no sul da França, uma porção de Cátaros heréticos penitentes e autodeclarados foram
aceitos na Ordem. E impossível avaliar a influência de tais homens nos enclaves secretos da Ordem,
mas seria bobagem pensar que não tiveram nenhuma.
Bernardo instigava todos os jovens de berço nobre a se juntar aos Templários e pedia aos
cristãos que apoiassem a Ordem com generosos presentes. O rei da França res pondeu com doações
de terras, assim como
muitos de seus nobres. Em viagem à Normandia, Hugo de Payens se encontrou com o rei Estêvão da
Inglaterra. Filho de Estêvão de Blois, um herói da Primeira Cruzada, o rei inglês logo declarou seu
apoio. Fez aos Templários doações substanciais de dinheiro e conseguiu que eles trouxessem o", seus
esforços de recrutamento para a Inglaterra e Escócia. Ali, eles não ápçnas receberam doações de ouro e
prata, mas também ganharam propriedades produtivas, que forneceriam um fluxo contínuo de caixa. A
esposa de Estevão, Matilda, contribuiu com a valiosa propriedade de Cressmg em Essex (a mesma
propriedade de Cressing Temple que foi transferida aos Hospitalários e mais tarde destruída pelos
rebeldes ingleses da Revolta
Camponesa). 1
Hugo de Payens partira de Jerusalém em um grupo de apenas nove
cavaleiros unidos em uma ordem obscura e não oficial. Voltou dois anos
depois como Grão-Mestre de uma ordem que respondia apenas ao papa e
possuía ouro, prata e terras, com trezentos cavaleiros prontos a morrer se
seu mestre assim ordenasse. .
Durante todo o tempo, o trabalho em sua Regra prosseguia. Ela nao
poderia ser simplesmente como qualquer outra Regra monástica porque a vida templária exigiria
viagens, treinamento militar e participaçao em batalhas atividades pouco conhecidas em outras
comunidades monásticas. Primeiro vinham os três votos monásticos básicos de casüdade pobreza e
obediência. A castidade incluía ambos os sexos. Nenhum Templário podia beiiar ou tocar qualquer
mulher, nem mesmo sua mãe ou irmã. Mesmo a
conversa com qualquer
da Os Templários utilizavam ceroulas de pele de carneiro que nunca deviam ser removidas (a Regra
ordenava que eles nunca se banhassem, de forma que a não remoção das ceroulas era vista como uma
ajuda a proibição da atividade sexual). Nenhum Templário devia permitir que ninguém, especialmente
outro Templário, visse seu corpo nu. Em seus dormitónos, lâmpadas ficavam acesas a noite toda para
afastar a escuridão, que permitiria ou encorajaria práticas homossexuais, preocupação constante em
todas as sociedades masculinas, incluindo monasténos.
Ao manter seu voto de pobreza, Hugo de Payens entregou toda sua
propriedade à Ordem, e os outros Templários fundadores logo fizeram o mesmo. Se um novo recruta
Templário não tivesse propriedades para contribuir
,esperava-se que desse um "dote" em dinheiro. Uma vez Templário
não tinha permissão de ter dinheiro ou outros valores, nem mesmo livros, em domínio pessoal. Se
houvesse saque, era entregue à Ordem_Essa Regra era tão importante que se, após sua morte,
descobrisse que o Templário possuía bens, ele era declarado expulso da Ordem, o que impedia um enter-
A obediência instantânea a seus superiores era exigida de cada Templário e uma vez que a Ordem não
respondia a ninguém além do papa, ela essencialmente criou seu próprio sistema de punições, que
chegava até a
pena de morte, por desobediência. Por exemplo, uma cela penitenciária com apenas 4 pés e meio de
comprimento foi construída na igreja templária em Londres e, nessa cela, o Irmão marechal
(comandante militar) da Irlanda foi confinado por desobediência às ordens do Mestre. Incapaz de se
levantar, de se esticar, ele foi mantido na pequena cela de pedra até que morreu de fome. De forma
alguma os Templários deviam ser limitados pelas leis dos países nos quais eles pudessem residir de tempo
em tempo. Apenas sua própria Regra governava sua conduta e somente seus superiores podiam
discipliná-los.
Os Templários não tinham permissão de ter privacidade e, se um Templário recebesse uma carta, ela
tinha de ser lida em voz alta em presença de um Mestre ou capelão.
No campo de batalha, os Templários não tinham permissão de bater em retirada a menos que as
chances contra eles fossem ao menos de 3 para 1 e, mesmo assim, eles não podiam se retirar a não ser que
recebessem ordens para fazê-lo. Se, por acaso, estivessem sob condições opressivas, com direito de se
retirar de acordo com sua Regra, e o comandante do campo lhes dissesse para ficar e lutar até que o
último Templário estivesse morto, a ordem tinha de ser obedecida. Os homens que se juntavam à Ordem
Templária esperavam morrer em batalha e a maioria deles o fazia. Havia pouca razão para a rendição
individual no campo, porque os Templários eram proibidos de utilizar os fundos da Ordem para resgatar
qualquer membro que fosse feito prisioneiro. Como resultado, os Templários presos em batalha eram
quase sempre executados sumariamente pelo inimigo.
A Ordem era dividida em três classes. A primeira classe era a dos Irmãos plenos (os "cavaleiros"),
que tinham de ser livres e de nascimento nobre. Seu traje distintivo era um manto branco, ao qual, mais
tarde, acrescentou-se uma cruz vermelha de oito pontas; o manto simbolizava a nova vida alva de pureza
em que o cavaleiro ingressava. A segunda classe, em geral chamada Sargentos, vinha da burguesia livre.
Eles agiam como homens em armas, sentinelas, cavalariços, camareiros e assim por diante, vestiam a cruz
templária vermelha em um manto preto ou marrom escuro. Em terceiro vinham os Clérigos, padres que
agiam como capelães da Ordem c, como era o único grupo dos três iniciado nas Letras, freqüentemente
agiam como escribas e cronistas, sendo responsáveis por outros deveres de caráter não-militar. Também
vestiam a cruz templária em um manto verde, usavam luvas todo o tempo, para manter suas mãos limpas
para "quando tocassem Deus" ao realizar a missa. Os clérigos eram escanhoados, de acordo com o
costume da época, enquanto os cavaleiros tinham de manter o cabelo curto, mas deixar a barba crescer.
Como prova exterior de seus votos de pobreza, os cavaleiros tinham limites para o adorno de suas
vestimentas ou equipamentos. O único ornamento permitido em seu traje era a pele de cordeiro. Conforme
a Regra, o
cinto que tinha de ser vestido todo o tempo como símbolo de castidade era
também feito de pele de cordeiro. _
A Regra Templária também dava direito a apenas duas refeições diárias,
mas permitia a carne, proibida por outras ordens monásticas, por causa da natureza fatigante dos
deveres templários. Não tinham permissão de falar durante as refeições e eram absolutamente obrigados
a participar das devoções religiosas cotidianas, como qualquer outro grupo monástico
O estandarte templário era vertical, dividido em duas barras ou blocos, um deles era todo preto,
para simbolizar o mundo negro do pecado que os Templários haviam deixado para trás, e o outro era
branco, para refletir a vida pura da Ordem. O estandarte era chamado "Beau Séant', que significava
também um grito de guerra. A palavra beau, hoje em dia, significa apenas "belo" mas na verdade, quer
dizer muito mais do que isso. Em francês medieval denotava o estado elevado, para o qual os tradutores
ofereceram termos como "nobre", "glorioso" e mesmo "magnífico". Como um grito de guerra, então,
"Beau Séant" é algo como "Ser nobre!" ou "Ser glorioso!
As iniciações templárias e reuniões de capítulos eram feitas em total segredo Qualquer Templário
que revelasse algum procedimento, mesmo que fosse para outro membro de nível mais baixo, estava
sujeito a punições, incluindo a expulsão da Ordem. Para preservar o segredo, os encontros eram tardados B
cavaleiros que ficavam do lado de fora da porta com espada já desembainhada. Embora não haja
documentação, a lenda conta que muitas vezes espiões, ou mesmo simples curiosos, encontraram a morte
no momento em que foram apanhados.
O conteúdo completo da Regra, que podia ser alterado, acrescentado
ou mesmo ignorado de tempos em tempos por cada Grão-Mestre, era altamente confidencial. O iniciante
sabia apenas o bastante da Regra para lhe permitir tomar seu lugar na Ordem. Conforme subia na
hierarquia templária, novas partes da Regra eram reveladas e explicadas a ele. O conhecimento do
conteúdo completo dela era restrito aos escalões mais altos da Ordem. Para todos os outros, só se
contava o estritamente necessário. Uma das mais sérias ofensas na Ordem era que um cavaleiro de
qualquer escalao
revelasse qualquer parte da Regra.
Um encontro de Cavaleiros Templários em uma de suas igrejas poderia bem fazer lembrar a lenda
do Rei Artur e sua Távola Redonda já que a maioria das igrejas templárias era circular, para imitar a
igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém. A igreja templária circular em Londres, por exemplo, tem um
banco de pedra em torno de todo o perímetro, de forma que os cavaleiros sentados pudessem olhar para
o centro. Não há trono nem decoração especial para indicar que qualquer assento é mais importante do
que outro.
Em dado momento, segundo Matthew de Paris, os Templários tinham mais de nove mil propriedades em
toda a Europa, além de moinhos e mercados Além dessas propriedades lucrativas, possuíam outras
fontes de renda.
O saque tomado ou compartilhado por qualquer Irmão era entregue à Ordem. Durante seus duzentos anos
de existência, mais de vinte mil iniciados trouxeram terras ou dotes em dinheiro à Ordem. Ao comprar e
mesmo j construir seus próprios navios para transportar homens e suprimentos para o Oriente, assim como
navios de guerra para proteger os outros, os Tem- plários obtiveram lucro com o transporte de
equipamento, cruzados seculares e peregrinos para a Terra Santa. Ganhavam, freqüentemente, presentes
de agradecimento ou eram lembrados em testamentos. A Igreja de Roma con- tributa e conclamava os
outros a fazer o mesmo. Parte da penitência do rei inglês Henrique II por sua participação, direta ou
indireta, no assassinato de Thomas à Becket, arcebispo de Canterbury, foi sua conhecida fustigação
pública. Não tão conhecida, porém, foi outra parte da penitência de Henrique, que exigia que ele fizesse
um substancial pagamento em dinheiro para os i Cavaleiros Templários usarem em uma Cruzada
subseqüente. O resultado disso tudo foi uma superabundância de fundos e, como esse excesso era aplicado,
os Templários ingressaram em um negócio relativamente novo: o monetário.
Há muitas referências às atividades financeiras templárias sob o termo "bancário", que não é muito
exato. A revista Fortune usa um termo para certa categoria de negócios que se ajusta bem melhor: "serviços
financeiros diversificados". O serviço financeiro mais fácil para os Templários era o depósito seguro. Uma
vez que eles tinham de manter vigilância contínua sobre seu próprio tesouro, não era necessário trabalho
nem homens extras para realizar o mesmo serviço para terceiros. A segurança era tão eficiente que mesmo
alguns governos a utilizou; a Inglaterra, em dado momento, guardou parte das jóias da Coroa com os
Templários. Há registros de roubo de postos templários, mas eles ainda eram favoritos em uma época em
que a única proteção para valores eram homens armados ou o esconderijo seguro. Se um homem rico
viajasse, podia levar seu tesouro e arriscar perdê-lo para bandidos ou para um senhor rival; ou deixá-lo
em casa, com o risco de ser roubado por parentes, servos ou por um ataque à casa durante sua ausência.
Uma alternativa efetiva era o serviço oferecido por monges militares que tinham a reputação de guardar o
tesouro dos outros com tanta atenção como se fosse o deles. j
Outro importante serviço templário era o de agentes de coleta. Eles faziam contratos para a coleta de
impostos e, às vezes, trabalhavam como agentes para negociar o resgate e a libertação de prisioneiros
importantes, chegando ao ponto de participar da coleta dos fundos do pagamento dos resgates.
Realizavam esses serviços para os dois lados, se ambos fossem cristãos.
Os Templários mantinham empreendimentos no sentido de que coletavam lucros ou gerenciavam
propriedades lucrativas. Dispensavam pagamento a herdeiros nas bases de um acordo específico,
assegurando o gerenciamento próprio do lucro para os beneficiários e recebiam uma taxa por seu
serviço.
Como banqueiros hipotecários, os Templários emprestavam dinheiro a propriedades rentáveis,
freqüentemente evitando a proibição à usura, recolhendo seus lucros até que ela fosse resgatada. Nesse
caso, agiam também como gerentes da propriedade e empregavam os proprietários para gerenciarem
suas próprias posses. Seu mais famoso serviço financeiro talvez fosse a emissão de papéis que valiam
dinheiro. Os documentos eram honrados em qualquer posto templário e, como tal, podem ser
considerados antepassados de cheques ou saques à vista. Era um serviço importante. Se um nobre na
Provença quisesse enviar dinheiro para seu filho e administradores em uma Cruzada, tinha de encontrar
um mensageiro de confiança, contratar guardas para acompanhá-lo e pagar as despesas de uma viagem
de mil milhas, com perigo de bandidos em terra e piratas ou naufrágios no mar. Era muito mais fácil e
barato entregar o dinheiro para o Mestre Templário local e depois o dinheiro ser retirado, digamos, em
Jerusalém, sem nenhum perigo de perda. Uma taxa para "despesas era
paga de bom grado. g
É impossível dizer qual desses serviços financeiros, se e que há algum,
foi inventado pelos Templários. Famílias banqueiras italianas começavam a oferecer serviços similares e
os venezianos, havia muito, aperfeiçoaram técnicas de transferência financeira internacional e certos
aspectos de compartilhamento de riscos e serviços bancários mercantis, apenas entre si. Os judeus da
Europa, proibidos por lei na maioria dos países de possuir terra agrícola ou outros meios de produção,
haviam sido forçados a se dedicar ao comércio e a transações financeiras relacionadas, embora,
novamente, fosse entre eles. Eles apenas emprestavam a governantes, mas, normalmente, como uma
atividade comunitária, não como "banco". Os serviços financeiros templários eram conduzidos em
escala mais larga e eram de natureza pública, o que pode ter resultado em uma crença demasiado
entusiástica
dos historiadores na inventividade financeira templária.
Uma coisa que os monges militares poderiam ter inventado, porem, eram seus próprios meios de
identificação para completar transações financeiras. Atualmente, temos carteira de identidade com
fotografia, CPF, carteira de motorista, números de contas bancárias, hologramas, tintas invisíveis
fluorescentes, impressões digitais e toda uma indústria devotada à segurança e à identificação. Mesmo
com toda essa tecnologia disponível, o dinheiro e os valores são ocasionalmente entregues às pessoas
erradas e cheques roubados ainda são descontados. Podemos apenas especular sobre os problemas de
um homem de Jerusalém a quem um estrangeiro, que acabou de entrar com um pedaço de papel,
entregue três meses antes em Paris, pede uma grande soma de dinheiro. Não havia telex, telégrafo
telefone, nenhum meio de determinar que o documento não era forjado ou que aquele que o portava era
realmente o homem cujo nome
aparecia nele.
Os romancistas gostam muito da moeda ou talismã partido, usado anos depois para provar que o
herói é realmente o príncipe desaparecido. Infeliz- mente, o uso das "peças encaixadas" como meio de
identificação requer que uma metade seja enviada antes para o outro lado, solução nada pratica,
especialmente se o título deve ser trocado em qualquer posto templário. Eram absolutamente necessários
técnicas e padrões de identificação. Um dos métodos era exigir duas ou mais "testemunhas", pessoas que
poderiam afirmar a identidade. Algumas vezes, a exigência era maior, e era necessá- ria uma carta de
fiança. A pessoa que afirmava a identidade assinava um papel dizendo, com efeito: "Se, por causa de meu
testemunho, você entre- gar o dinheiro ao homem errado, eu devolverei a soma." Outro método era
elaborar uma ou mais questões pessoais que, esperava-se, apenas o desti- natário autorizado pudesse
responder. Pergunta: quando era menino, você caiu de uma árvore e se feriu. Quantos anos você tinha?
Resposta: Nove anos. Pergunta: Que árvore era? Resposta: Um carvalho. Pergunta: Quem encontrou você e o levou
para casa? Resposta: Meu tio Tomás. Esse antigo sistema ainda é utilizado hoje, como descobri recentemente
ao enviar dinheiro da América para um amigo na Inglaterra. Tive de escolher uma j questão que apenas o
destinatário poderia responder corretamente. A ques- tão era "Como era o nome de solteira de sua mãe?"
Com a revelação da palavra secreta Jamieson, o dinheiro foi entregue.
As cartas também requeriam verificação, uma vez que a maioria era escrita por escribas e copistas.
Cartas falsas podiam trazer instruções perigosamente enganadoras sobre movimentos militares ou
manobras navais. Códigos embutidos, porém, poderiam ser usados para certificar a autenticidade. Em
um código de letras ocultas, a segunda letra da terceira palavra de cada frase soletra uma mensagem.
Usavam-se códigos para esconder a informação no texto de correspondência aparentemente inócua. A
mensagem oculta podia dizer coisas como: "Mande dois navios a Messina" ou "Mate o homem que
entregar esta carta."
Sabia-se que os Templários mantinham agentes de informação nas principais cidades do Oriente
Médio e na costa mediterrânea e, necessariamente, teriam de empregar meios secretos de comunicação.
Negócios financeiros internacionais requeriam segredo total; em operações navais, era preciso esconder
informações dos muçulmanos ou piratas e a administração militar sobre dois continentes certamente
exigia isso. É bom registrar que os Templários obtiveram uma reputação, e não uma boa reputação, por
sua dedicação ao segredo, mesmo nos encontros e concílios da Ordem. Em seu conjunto, a rede de
códigos, sinais, técnicas de identificação e tratados sub-reptícios, associados com contínuas operações
militares e financeiras, além de uma inflamada dedicação ao segredo em iniciações e reuniões, forneciam
uma base ideal sobre a qual construir uma sociedade secreta. Talvez nenhuma outra organização na
Europa do século XIV tivesse tanta necessidade e amor por atividades ocultas quanto a que
caracterizou os Cavaleiros do Templo. É certo que, se os Templários residentes na Grã-Bretanha
tivessem a necessidade de construir às pressas uma organização marginal após saber da prisão de seus
Irmãos franceses em 13 de outubro, antes de sua própria prisão quase três meses mais tarde em 10 de
janeiro, eles teriam o conhecimento perfeito para faze-lo.
Em toda essa atividade administrativa, não se deve pensar que guerrilheiros armados, analfabetos,
passavam suas horas livres decodificando mensagens ou no escritório de contabilidade atualizando
livros-caixa e conferindo inventários, ou no estábulo, supervisionando a tosquia anual dos carneiros.
Embora não chamassem a si mesmos, ou um ao outro, cavaleiros" nem empregassem o título honorífico
"Sir", observando antes sua postura eclesiástica com um simples título de "Irmão" (frater ou frere), os
Templários precisavam ser de linhagem e grau cavaleiresco. Eram guerreiros e não escriturários. Na
Ordem do Templo, havia a classe dos oficiais, que tinha como principal treinamento e ocupação a
participaçao direta no campo de batalha; o exército de administradores, tropas nativas e empre- oados
por trás deles eram maiores que eles em número, numa proporção de 50 para 1. A Ordem não podia ser
composta 100% de "cavaleiros , assim
como uma força aérea
Os sargentos eram mais diversificados e podiam ser soldados montados ou a pé na batalha, assistentes
pessoais dos cavaleiros ou administradores de uma ou mais propriedades agrícolas. Os clérigos
templários eram a ala letrada e muito provavelmente tinham tarefas de natureza administrativa ou
contábil, incluindo a escrita de cartas em código. Outros administradores, supervisores e escribas eram
simplesmente empregados, e em anos posteriores muitos deles falavam árabe. Conforme a Terra Santa
era povoada por sangue local misturado com sangue europeu após sucessivas gerações, jovens eram
recrutados no local e treinados pelos Templários para serem Turcopoles", membros de uma unidade de
cavalaria leve na Terra San a, comandada por um oficial templârio especial chamado Irmão Turcopoler
(frère Turcopolier).
O Grão-Mestre, que também tinha o grau de abade, era o governante
autocrático da Ordem, embora recebesse conselhos e sugestões de seus principais oficiais. Mestres de
preceptorias ou postos de comando eram também autocráticos, a menos que o Grão-Mestre estivesse
presente. Os quartéis-generais da Ordem e a residência do Grão-Mestre situavam-se no Templo de
Jerusalém. Ele não era apenas administrador mas hder mihtar de primeira linha, o que fica evidente
pelo fato de que, de 21 Grao-Mestres, dez morreram em batalha ou das feridas que sofreram em
combate.
Conforme a Ordem amadurecia, aumentando em riqueza e números, o capuz da humildade se
afastou. Embora fosse uma irmandade monástica, os Templários, inevitavelmente, envolveram-se em
política, especialmente no Reino de Jerusalém. Seu papel nas maquinações políticas tomou inevitável
que se desenvolvesse uma intensa rivalidade com a Ordem do Hospital de São João de Jerusalém. Essa
rivalidade se inflamou tanto que, por vezes, havia verdadeiras lutas na rua entre Templários e
Hospitalários.
Para ajudar a compreender como os Templários, que eram monges piedosos e humildes, devotados ao
serviço dos peregrinos, tornaram-se um arrogante centro de poder, afirmando-sc como senhores seculares
de grande influencia, c preciso examinar as atividades da Ordem do Templo nos últimos anos antes da
perda da Terra Santa c da brutal supressão da Ordem.
O ÚLTIMO GRÃO-MESTRE

edaldo Visconti, arcebispo de Liège, esteve na Terra Santa em


1271, quando lhe chegou a notícia de que fora eleito papa. Como Gregório X, ele
T finalmente tinha a influência suficiente para organizar a nova Cruzada que, em sua opinião, era
necessária. Jerusalém caíra anos antes e os territórios cristãos agora ocupavam apenas uma
estreita faixa centrada cm cidades portuárias fortificadas que se dispunham como contas
amarradas frouxamente ao longo da costa do atual Líbano e Israel, com cada cidade no centro de um
feudo distinto.
Ricos potentados cristãos, que viviam (e até se vestiam) como potentados orientais, queriam
preservar sua riqueza e seus lucros, que agora dependiam do comércio com seus vizinhos muçulmanos
e das habilidades mercantis, frotas e financiamento das arqui-rivais Gênova e Veneza. Eles não
compartilhavam do entusiasmo do papa por uma nova Cruzada para recapturar os lugares santos da
Cristandade com uma guerra que poderia acabar com suas fortunas.
Seguindo o caminho normal para organizar uma Cruzada, Gregório X convocou um concilio em
Lyons, que foi aberto em maio de 1274. Os principais governantes, os únicos que podiam conseguir um
bom número de novos cruzados, desistiram de participar. O velho rei Jaime I de Aragão foi o único
monarca que apareceu, mas não viu nisso nenhum benefício para si e logo voltou para casa. Maria de
Antioquia teve permissão de se dirigir ao concilio, para se queixar aos membros de que, embora ela
fosse de uma geração anterior na linhagem, seu primo, o rei Hugo de Chipre, havia usur pado o trono
de Jerusalém. Mais dramáticos, os delegados de Miguel de Bizãncio vieram com a garantia do
imperador de que, após oitocentos anos de disputa, ele faria com que a Igreja Ortodoxa do Oriente
reconhecesse a supremacia da Igreja Romana. A teologia nada tinha a ver com a concessão, o
imperador esperava que esse reconhecimento da supremacia de Roma fizesse com que a Santa Sé
dissuadisse o maior aliado do papa, Carlos de Anjou, de sua intenção assumida de reconquistar
Bizãncio. Os bizantinos não eram os únicos a temer, pois todo o concilio estava sob a sombra desse mesmo
homem.
Carlos, irmão de Luiz IX da França e tio do atual rei, era conde de Anjou e da Provença. A Santa Sé,
para desalojar a casa antipapal de Hohenstaufen de suas posses italianas, agira rapidamente após a morte
do líder dessa casa, o imperador alemão Frederico II. A Igreja fez um tratado com Carlos de Anjou e lhe
emprestou o dinheiro para montar uma campanha militar contra o herdeiro de Frederico, Carlos venceu
e o papa o declarou rei da Sicília e de Nápoles. Carlos tornou-se o homem mais forte do Mediterrâneo,
com o apoio total para tudo o que fizesse. Tinha também o apoio firme de seu primo Guilherme de
Beaujeu, que acabara de ser eleito Grão-Mestre dos Cavaleiros Templários.
Quanto à petição de Maria de Antioquia, o papa Gregório X a encorajou a vender sua reivindicação
ao trono de Jerusalém a Carlos e ajudou a negociar os termos. Carlos concordou em pagar a Maria dez
mil libras de ouro, com a promessa de quatro mil libras por ano para o resto da vida, pelo direito de se
dizer rei de Jerusalém. Seu primo, o Grão-Mestre, que assistia ao concilio, assegurou o apoio templário à
reivindicação real que ele acabara de comprar.
Já a nova Cruzada não existiria. Os bispos relataram ao concilio que não puderam encontrar
nenhum ardor cruzado em seus territórios. Cavaleiros e barões não mais acreditavam nos benefícios
espirituais prometidos pela Igreja. Sabiam que o conceito cruzado nascera da reverência pela Terra Santa
de Jesus Cristo, mas agora sentiam que suas recompensas espirituais haviam sido denegridas, trocadas
pelos papas por apoio militar na Prússia, na Lituânia e contra os albigenses na França. Sentiam que a
idéia de Cruzada havia se degenerado em um meio de conseguir apoio militar para os esquemas da Igreja
ao custo de pesadas taxas sobre todo o povo e sabiam que muito daquele dinheiro dos impostos nunca fora
gasto para o fim ao qual deveria ser destinado; a maior parte dele serviu para sustentar o luxuoso estilo de
vida do alto clero. O povo também estava desiludido. Havia um sentimento crescente de que, se Deus
dirigia as armas de combatentes solitários na batalha individual, Ele deveria fazer o mesmo pelos
exércitos. Uma vez que Jerusalém, Belém, Nazaré e a maior parte da Terra Santa estavam perdidas,
talvez fosse porque Deus quisera assim. Não haveria Cruzada.
O único que parece ter tirado algum benefício do Concilio de Lyons foi Carlos de Anjou. Seus planos
não foram frustrados pela submissão do imperador Miguel, porque, quando o povo de Bizãncio soube que
seu imperador planejava sujeitar sua Igreja à autoridade da Igreja Romana, o resultado foi um princípio
de revolta e Miguel teve de voltar atrás.
Quando o bispo de Trípoli levou sua delegação de volta à Terra Santa para relatar o fracasso do
conselho em organizar uma nova Cruzada, a manipulação política se acelerou. Os cruzados residentes,
que não queriam
lutar contra os infiéis, lutavam um contra o outro incessantemente. O rei Hugo de Chipre, que havia
requisitado o trono de Jerusalém apesar da reivindicação superior de sua prima Maria de Antioquia,
tentou impor sua autoridade sobre Beirute. O marido da herdeira de Beirute, um inglês chamado Hamo
TEstrange ("Hamo, o Estrangeiro"), suspeitou das intenções de Hugo; assim, antes de morrer, Hamo fez
um acordo para pôr sua esposa e suas terras sob a proteção do sultão egípcio Baibars. Após a morte de
Hamo, o rei Hugo raptou a viúva, com a intenção de forçá-la a se casar com um homem que ele
controlasse. Fiel a seu pacto, Baibars, com apoio local, forçou Hugo a devolvê-la a Beirute. Para se
certificar de que tentativas similares não voltariam a acontecer, Baibars forneceu um guarda- costas
permanente para a viúva. Uma força armada de infiéis guardava uma nobre cristã contra os desígnios do
rei de Chipre e Jerusalém.
O próximo movimento do rei Hugo foi alcançar o controle direto sobre a região de Trípoli. Quando o
príncipe Bohemond VI de Antioquia morreu em 1275, o título e Trípoli passaram para seu filho de 14
anos. Hugo declarou que agiria como regente até que o menino atingisse a maioridade, mas quando chegou
a Trípoli descobriu que a mãe do menino se declarara regente e entregara o garoto aos cuidados de seu
irmão, o rei Leão III da Armênia, além do alcance de Hugo. Este não encontrou apoio local para sua
reivindicação e saiu de Trípoli, de volta a Chipre. A regente deixou Trípoli sob a administração do bispo
de Tortosa, que se utilizou da posição para atacar seu inimigo pessoal, o bispo de Trípoli, tentando
derrubá-lo, mandá-lo ao exílio e mesmo executar alguns de seus seguidores no processo. Felizmente, o
bispo de Trípoli fizera amizade com o Grão-Mestre Templário durante os meses no concilio de Lyons, de
forma que tinha um protetor armado. Dois anos mais tarde, quando Bohemond VII atingiu a maturidade
e voltou a Trípoli, descobriu que tinha de enfrentar dois fortes inimigos, o rei Hugo de Chipre e a Ordem
do Templo.
Hugo não obteve muito sucesso ao se afirmar como rei de Jerusalém, mas esperava tempos melhores
ao passar para o porto de Acre, uma cidade murada à beira-mar maior do que Londres, com uma
população de quase quarenta mil pessoas. Localizada no meio do caminho entre Tiro e Haifa, era o
principal porto de comércio com a capital síria, Damasco. Desde a queda de Jerusalém, Acre também se
tornara a principal base dos Templários, que eram opostos à reivindicação do rei Hugo e cujo
Grão-Mestre Beaujeu era totalmente dedicado a aumentar as ambições de seu primo já muito ambicioso,
Carlos de Anjou. Os Hospitalários, que haviam perdido sua maciça cidadela no interior, Krak des
Chevaliers, estavam reduzidos apenas a trezentos cavaleiros na Terra Santa, sendo que, antes, possuíam
muitos milhares e, portanto, não significavam um fator político importante. Os ve- nezianos, porém, com
suas tropas, navios e casas comerciais, representavam um fator político muito forte e se alinharam aos
Templários contra o rei Hugo. Prevenido da aliança entre o papa e Carlos de Anjou, o patriarca de
Acre permaneceu neutro, assim como os Cavaleiros Teu tônicos, uma Ordem religiosa militar que fora
organizada anteriormente por cruzados alemães,
Sem apoio forte em nenhum lugar, Hugo voltou a sua ilha de Chipre em 1276, mas deixou como seu
comendador, ou deputado, para Acre, seu leal vassalo Balian de Ibelin. No ano seguinte, Carlos de Anjou
completou seu acordo para comprar a reivindicação ao trono de Jerusalém de Maria de Antioquia e fez
sua jogada. Enviou uma força armada a Acre com seu próprio comendador, Roger de San Severino.
Notificados com antecedência, os Templários e venezianos fizeram com que Roger desembarcasse e
entrasse na cidade. Enfrentado com documentos assinados por Maria de Antioquia e pelo papa, tendo às
costas as tropas de Veneza e os Cavaleiros Templários, Balian tinha pouca escolha senão renunciar, e
Carlos de Anjou foi declarado rei de Jerusalém.
No mesmo ano, o jovem príncipe Bohemond Vil quebrou a promessa que fez a seu primo e vassalo,
Guy de Jebail. Assegurara a Guy que seu irmão João teria a mão de certa herdeira rica, mas o bispo de
Tortosa interferiu, pois queria aquela riqueza em sua própria família e fez com que Bohemond VII
desfizesse o acordo com Guy de Jebail em favor de um casamento com o sobrinho do bispo. A resposta de
Guy foi raptar a jovem herdeira e casá-la com seu irmão. Sabendo que Bohemond viria ao seu encontro,
Guy buscou refúgio com os inimigos do príncipe, os Cavaleiros do Templo. Para punir os cavaleiros,
Bohemond mandou derrubar os edifícios templários em Trípoli e, em resposta, o Grão-Mestre Beaujeu
tirou seus Templários de Acre em um assalto de vingança contra Trípoli e queimou o castelo de
Bohemond em Botrun. Deixando uma pequena força templária para apoiar Guy em Jebail, Beaujeu se
retirou para seu quartel-general em Acre, mas, logo que o Grão-Mestre estava de volta à sua base,
Bohemond atacou Jebail. Guy e suas tropas, junto aos Templários que haviam ficado com eles, inter-
ceptaram Bohemond e o derrotaram completamente.
Em janeiro de 1282, Guy tentou a captura de Trípoli. Com seus irmãos e um pequeno grupo de
seguidores próximos, entrou de modo ilícido na cidade; foi primeiro ao posto templário restabelecido e o
grupo se escondeu nos bairros dos Hospitalários, mas alguém alertou Bohemond de sua presença. O
príncipe os encurralou em uma torre, mas os Hospitalários negociaram termos sob os quais as vidas de
Guy, seus irmãos e seus amigos fossem poupadas se eles se rendessem pacificamente. Porém, logo que pôs
as mãos no grupo, Bohemond desobedeceu a promessa e ordenou que todos os seguidores de Guy fossem
cegados. Quanto a Guy e seus irmãos, foram enterrados, ficando apenas a cabeça para fora do chão, para
uma morte pública e prolongada de fome e sede.
Em 1279, o rei Hugo, ainda agitado com o trato feito entre sua prima Maria e Carlos de Anjou,
decidiu tentar, novamente, afirmar sua autoridade sobre Acre como verdadeiro rei de Jerusalém.
Acompanhado por seus vassalos armados, desembarcou em Acre e ordenou que a nobreza local
fosse ter com ele. Ninguém foi. A principal força que trabalhava contra Hugo eram os Cavaleiros
Templários, com seu Grão-Mestre ainda dedicado em apoiar o rei Carlos e seus aliados venezianos,
prontos a emprestar seu apoio político e militar. O contrato feudal entre o rei Hugo e seus vassalos
cipriotas só os obrigava a passar quatro meses em serviço militar fora da ilha e, quando o tempo se
esgotava, eles voltavam para Chipre. O rei Hugo sentiu que não tinha outra alternativa senão voltar
com eles, mas vingou-se dos Templários confiscando todas as suas propriedades de valor em Chipre.
Nem mesmo a intercessão do papa pôde convencê-lo a devolvê-las.
Nessa época, as hordas mongóis, sob a liderança de descendentes de Genghis Khan, haviam
penetrado no Oriente Médio e governavam a Pérsia (Irã) e a terra entre os rios Tigre e Eufrates
(Iraque). Seu principal inimigo era um sucessor de Baibars, o sultão mameluco Kala'un, que naquele
momento governava o Egito, a Síria e a Palestina. Em 1280, o ilkhan mongol enviou um embaixador a
Acre, relatando que mandaria um exército de cem mil homens para a Síria na primavera se guinte e
propondo uma aliança com homens e armamentos cristãos para enfrentar seu inimigo comum. Os cris-
tãos não responderam, mas o sultão egípcio, sim. Ansioso para limitar suas campanhas militares a
apenas um inimigo por vez, o sultão Kala'un propôs um tratado de paz de dez anos com os cristãos. O
tratado foi assinado e incluía as assinaturas dos Grão-Mestres dos Hospitalários, dos Cavaleiros
Teutônicos e dos Cavaleiros Templários. Como vice-rei de Carlos de Anjou, Roger de San Severino
assinou por Acre, seguindo ordens de manter as boas graças e a aliança com os egípcios, que estariam
junto com Carlos quando ele iniciasse sua campanha contra Bizâncio.
Apesar da indiferença dos cruzados, o ilkhan iniciou a campanha com seus cavaleiros mongóis em
setembro de 1281, e o sultão egípcio Kala'un, que havia reunido seus exércitos em torno de Damasco,
saiu para encontrá- lo. Houve diversos confrontos violentos, com dezenas de homens assassinados e
mutilados no campo, mas nenhuma vitória decisiva para qualquer um dos lados. Em uma grande
batalha, o irmão do ilkhan, Mangu Timur, foi seriamente ferido e ordenou que seus mongóis
recuassem. Kala'un sofrerá muito as perdas de homens e suprimentos para iniciar uma perseguição e
os deixou partir. A guerra empatara.
Mas, em menos de seis meses, ocorreu algo que mudou o poder e a política em toda a bacia do
Mediterrâneo, desde a Espanha até a Terra Santa. Alguns historiadores italianos disseram que a
sociedade criminal, atualmente conhecida como Máfia, nasceu a partir de uma sociedade secreta
formada pela baixa nobreza e por líderes camponeses da Sicflia, como uma resistência secreta aos
conquistadores franceses. Se eles estiverem corretos, a Máfia ou seu predecessor teve um papel
dramático na perda final da Terra Santa. Certa noite, 30 de março de 1282, em uma operação que
necessitara de muitas semanas da mais secreta preparação, os sicilianos
se revoltaram e mataram cada um dos odiados franceses em sua ilha, no chocantebanho de sangue que
ficou conhecido como as Vésperas Sicihanas. Aquela noite abalou o império de Carlos de Anjou e o
papado que o apoiava.
O rei Carlos estava reunindo o exército no sul da Itália para conquis- | tar Constantinopla Agora tinha de
usar esse exército para a conquista de seu reino siciliano, que fora totalmente perdido. O rei Pedro III de
Aragão teve a mesma idéia e começou a enviar tropas a Sicília, de forma que, quando Carlos chegou,
percebeu que tinha uma guerra nas mãos As forças navais de Aragão derrotaram a frota de Carlos no
estreito de Messina e poucos meses depois, venceram sua frota napolitana na baía de Nápoles. O papado
veio ao seu auxílio com homens e dinheiro, e quase esgotou o tesouro da Igreja conforme o conflito se
estendia. Gênova, ocupada em uma guerra com o forte aliado de Carlos, a república veneziana, voltou com
vigo renovado. Felipe III da França apoiou seu tio Carlos com uma invasão direta a Aragão, mas suas
tropas foram totalmente derrotadas por Pedro III, que acabara de ser excomungado pele papa. Carlos de
Anjou não era mais o homem forte do Mediterrâneo ou de qualquer outro lugar.
No Oriente, o imperador Miguel podia relaxar. Não haveria invasão de Constantinopla nem
necessidade de submissão da Igreja ortodoxa orien- tal à supremacia de Roma. O sultão egípcio viu seu
aliado cristão cair em poder e prestígio e sabia que Carlos não seria capaz de defender sua reivindicação
ao trono de Jerusalém, e muito menos de livrar os mamelucos de seus inimigos bizantinos. Também não
havia poder forte para proteger as bases cruzadas na Terra Santa e nenhuma probabilidade de uma nova
Cruzada, uma vez que quase todos os príncipes da Europa estavam atacando uns aos outros.
O rei Hugo de Chipre ficou especialmente comprazido em saber que Carlos precisava de seu vassalo
Roger de San Severino e lhe ordenou que voltasse à Itália, deixando o confuso senescal de Roger, Odo
Poilechien, como comendador de Acre. Em julho de 1283, Hugo partiu de Chipre, determinado, desta
vez, a ser reconhecido rei de Jerusalém. Sua frota se dirigiu a Tiro, mas o vento desviou os navios para
Beirute. Hugo decidiu ir para Tiro, ao sul, de navio, enquanto suas tropas fariam a viagem por terra.
Durante a marcha, foram atacados e interrompidos por assaltantes muçulmanos. Hugo acreditava que
esse ataque fora instigado pelos Cavaleiros Templários.
Hugo foi bem recebido em Tiro, mas esperou em vão que chegasse alguma mensagem dizendo que
seria bem-vindo em Acre. Os Templários, ali, assim como a nobreza local e os comerciantes venezianos,
preferiram o governo liberal de Odo Poilechien, que em sua confusão sobre sua autoridade e a de seu
mestre, o rei Carlos, estava deixando que eles fizessem o que quisessem sem interferência governamental.
Novamente, Hugo esperava ansiosamente pelo contrato militar feudal de quatro meses de seus
vassalos. Como antes, voltou para Chipre quando o tempo terminou, mas, dessa vez, o rei Hugo decidiu
ficar no continente para levar adiante suas reivindicações. Porém, a 4 de março de 1284, ele morreu e a
Coroa de Chipre, junto a reivindicação de Jerusalém, passaram para seu frágil filho João, de 17 anos,
que não viveria muito mais do que um ano.
Enquanto os cristãos faziam manobras entre si para conquistar posições, o sultão Kala'un preparava
sua campanha final. Começou por passar por todas as cidades portuárias cruzadas para sitiar o grande
castelo costeiro de Marqab, uma base hospitalária a cerca de 25 milhas a norte de Trípoli. Chegou ali
com um grande exército de soldados, engenheiros e mineiros a
17 de abril de 1285.
Incapazes de derrubar as muralhas com catapultas, os engenheiros
do sultão solaparam as bases de uma torre do lado norte do castelo, que
caiu quando seus alicerces de madeira foram incendiados. Os Hospitalàrios
se renderam sob termos que permitiam | guarnição deixar o castelo

Cinco dias antes da queda de Marqab, o rei João morreu e a coroa de Chipre, junto a reivindicação
de Jerusalém, passaram para seu irmão
Henrique, de 14 anos.
Durante o cerco de Marqab, Carlos de Anjou também morreu, ou seja,
um acontecimento muito mais importante para o jovem rei Henrique do que a perda de um castelo
hospitalário. A 4 de junho de 1286, Henrique desembarcou em Acre, e, dessa vez, ninguém se opôs a ele
além do comendador, Odo Poilechien. Dois Grão-Mestres dos Templários, dois Hospitalàrios e dois
Cavaleiros Teutônicos chegaram juntos e convenceram Odo de que, com Carlos de Anjou morto e seu
filho, Carlos II, totalmente ocupado com a guerra siciliana, não havia razão para acreditar que alguém
defenderia qualquer pretensão angevina à Terra Santa. O rei Henrique de Chipre foi
declarado por unanimidade rei de Jerusalém.
Havia ainda uma chance de que houvesse realmente um reino de Jerusalém para Henrique governar,
e ela estava sob uma aliança com os mongóis contra o sultão do Egito. Não era uma aliança que os
cristãos devessem procurar, mas era algo com o que eles simplesmente tinham de concordar O ilkhan
mongol Ahmed assumira o trono persa em 1282, mas fora assassinado em 1284 em uma conspiração,
liberando o trono para seu filho Argun No primeiro ano de seu reinado, Argun escreveu ao papa Honóno
IV solicitando com urgência um esforço combinado mongol-cnstao contra o sultão mameluco, carta que
o papa nem mesmo se incomodou em responder Em 1287 Argun enviou seu embaixador pessoal, um
cristão nestoriano
chamado Raban Sauma, mas, quando ele chegou a Roma, o papa já havia morrido. Raban Sauma viajou
pela Europa em busca de uma aliança. Visitou o doge em Gênova, Felipe IV em Paris, Eduardo I da
Inglaterra em Bordeaux Então, em fevereiro de 1288, Raban Sauma soube que um novo
ou não, nenhum cristão seria enviado à morte nas mãos dos mamelucos. Kala'un não poderia ter apreciado
mais a decisão, pois agora tinha a razao de que precisava para quebrar a trégua. Conclamou a mobilização
do exército egípcio e ordenou à sua armada síria que se movesse para a costa palestina. Anunciou
publicamente que preparava uma campanha na África, mas o emir al-Fakhri ganhou, novamente, seu
salário avisando ao Grão- Mestre Templário que o verdadeiro alvo de Kala'un era Acre. Porém, mais uma
vez, o Grão-Mestre repassou uma advertência de seu próprio sistema de espionagem, e, outra vez, não
encontrou nenhuma autoridade que acreditasse nele. Frustrado em suas tentativas de despertar os
líderes de Acre quanto ao perigo, o Grão-Mestre Beaujeu mandou seu próprio mensageiro à Corte de
Kala'un. O sultão observou que ele almejava o lugar, não seus habitantes, e concordou em deixar as
pessoas saírem da cidade desarmadas em troca de um número de zecchine (ducados) venezianos de ouro
igual à população total. Quando o Grão-Mestre anunciou sua oferta à alta corte de Acre, a resposta veio
em forma de insultos e acusações de traição em altos brados, que não cessaram nem quando Beaujeu
deixou a sala. 1 Parecia que o Grão-Mestre Templário errara e os líderes de Acre estavam certos quando
chegou à cidade a notícia de que Kala'un estava morto. Ele deixara o Cairo à testa de seu exército, a 4 de
novembro de 1290, e morrera durante a semana. Seu filho, al-Ashraf, porém, jurara a seu pai moribundo
que tomaria da espada e levaria adiante seus planos contra os cristãos. Não demorou para que o povo de
Acre soubesse que o filho seria tão impiedoso quanto o pai. Esperando afastar a invasão, os cristãos
enviaram uma embaixada ao novo sultão, composta por um nobre importante, um Templário e um
Hospitalário. Assim que chegaram, o jovem sultão mandou levá-los ao calabouço antes que pudessem
sequer falar qual era o propósito de sua missão. O povo de Acre não soube de que modo seus mensageiros
morreram, apenas que estavam todos mortos. I Fiel a seu voto filial, al-Ashraf chegou diante dos muros de
Acre em abril de 1291. A cidade podia se orgulhar de uma força defensiva de quinze mil homens, enquanto
o sultão tinha dez vezes mais, além de máquinas de sítio, catapultas e engenheiros. j A defesa de Acre
consistia em uma dupla muralha a norte e a leste, com mar a sul e a oeste. Tanto as muralhas internas
quanto as externas eram reforçadas por torres, mas os que estavam dentro não se sentiam confortáveis
com essas paredes altas e finas porque se dizia que al-Ashraf trouxera engenheiros suficientes para colocar
mil mineiros em cada torre.
O assalto começou com manganelas e catapultas que atiravam grandes pedras e vasos em chamas
sobre os muros, enquanto arqueiros escureciam o céu com suas setas. Após dez dias de ataques, os
Cavaleiros Templários fizeram um assalto noturno em um acampamento muçulmano, tomando o inimigo
totalmente de surpresa. Infelizmente, no escuro, muitos
dos Templários armados tropeçaram em cordas de tendas e foram capturados. O resto foi rechaçado de
volta à cidade. Os muçulmanos estavam prontos para novos ataques e, quando os Hospitalàrios vieram a
eles algumas noites depois, os sentinelas prontamente acenderam fogueiras e tochas e os Hospitalàrios
foram facilmente derrotados, com grandes perdas.
O ataque já começara a 4 de maio, quando o rei Henrique chegou para assumir o comando, com cerca
de dois mil homens adicionais. Por volta de 15 de maio, cinco torres haviam caído e a defesa teve de se
deslocar para a muralha interna. A 18 de maio, o sultão ordenou um assalto geral em todo o comprimento
da muralha, com maior concentração na Torre Amaldiçoada, um canto fortificado onde a muralha norte
interna e a muralha leste interna se juntavam. Os cavaleiros e sua guamição foram expulsos da torre e um
contra-ataque dos Templários e Hospitalàrios, comandado por seus Grão-Mestres, não foi páreo para as
hordas de mamelucos que entravam pelas brechas. Guilherme de Beaujeu foi mortalmente ferido no
contra-ataque e carregado por seus Cavaleiros Templários para morrer no quartel-general templârio do
outro lado da cidade. Quando a Torre Amaldiçoada caiu, o rei Henrique embarcou e navegou de volta
para Chipre.
Dominada a Torre Amaldiçoada, os muçulmanos abriram caminho ao longo da muralha leste interior
e abriram o portão de São Nicolau. Eles entraram na cidade e a sangrenta luta nas ruas começou, mas sem
dúvida quanto aos resultados. Assim como em Trípoli, a única rota de fuga era pelo mar. Soldados e civis
reuniram uma multidão imensa no porto a fim de escapar em qualquer coisa que flutuasse. O servo do
patriarca Nicolau, que estava ferido, encontrou um bote, mas o bom homem convidou tantas pessoas para
compartilhá-lo que o bote afundou, afogando todos a bordo. Um Templârio chamado Roger Flor usou
uma galé templária para construir uma enorme fortuna para si, fazendo com que os nobres no cais
escolhessem entre a vida e as caixas de jóias que apertavam nas mãos.
Enquanto os mamelucos se moviam pelas ruas, não fizeram prisioneiros. Cada cristão era morto, sem
considc/ação de idade ou sexo. Aqueles que se esconderam em casa foram mandados depois para o
mercado de escravos, e conta-se que tantos escravos de Acre chegaram ao mesmo tempo que o preço de
uma moça caiu para um único dracma.
Ao cair da noite, os muçulmanos haviam tomado a cidade inteira, exceto o edifício templârio
fortificado no extremo sudoeste da cidade, que tinha duas muralhas voltadas para o mar, de forma a poder
receber suprimentos adicionais. Os Templários preferiram defender seu templo a fugir em suas galés e
haviam abrigado todas as mulheres e crianças que buscaram refúgio junto a eles. Após cinco dias, o sultão
al-Ashraf se cansou desse edifício que segurava seu exército e ofereceu um acordo a Pedro de Severy, o
grande marechal da Ordem. Se os Templários entregassem sua fortaleza, todos os que estavam dentro
poderiam partir para Chipre com
suas armas e todos os bens pessoais que pudessem carregar. O grande marechal concordou e uma
centena de mamelucos, comandados por um emir, teve permissão de entrar no templo para
controlar a saída. Talvez, com a desculpa de que ficaram muito tempo no campo de batalha, os
mamelucos imediatamente começaram a abusar sexualmente das mulheres e meninos. Isso era
mais do que os Templários pretendiam tolerar e, puxan do suas armas, caíram sobre os
mamelucos, matando todos. Derrubaram a bandeira do sultão e anunciaram que estavam prontos
para lutar até a morte.
O sultão enviou um mensageiro no dia seguinte para expressar seu pesar pela má conduta de
seus homens. Ofereceu os mesmos termos de antes e pediu que o marechal templário e seus
oficiais fossem seus convi- j dados para que ele pudesse oferecer, pessoalmente, suas desculpas e
dis- cutir os termos de rendição. Pedro de Severy escolheu alguns homens para acompanhá-lo e.
ao se aproximarem da tenda do sultão, os guarda-costas deste apanharam os Templários e os
decapitaram à vista dos cristãos que
olhavam por cima das muralhas.
Enquanto isso, os engenheiros do sultão cavavam um túnel sob as fundações do templo.
Solaparam os dois lados terrestres do edifício e in- cendiaram as vigas de sustentação. A 28 de
maio, as paredes terrestres cederam e caíram. O sultão ordenou que dois mil homens entrassem
no edifício pela brecha; seu peso completou a devastação e toda a estrutura de pedra caiu,
matando todos os que estavam dentro. Não sobrou nenhum
cristão em Acre.
A seguir, na lista do sultão, estava Tiro, supostamente a mais segura
fortificação da costa, talvez porque, por duas vezes, frustrara os ataques do legendário Saladino.
Dessa vez não houve luta a registrar, pois, ao saber da aproximação dos mamelucos, o
comandante de Tiro imediatamente zarpou para Chipre. Os homens de al -Ashraf simplesmente
entraram e tomaram
Tibald Gaudin, tesoureiro da Ordem Templária, estava em Sidônia, onde soube que os
cavaleiros sobreviventes haviam-no elegido como o seu novo Grão-Mestre. Inevitavelmente, um
exército mameluco apareceu diante de Sidônia poucas semanas após a queda de Acre e os
cavaleiros se retira- ram para o Castelo do Mar, construído sobre uma rocha a cerca de cem
jardas da costa. O novo Grão-Mestre navegou então para Chipre com o tesouro da Ordem,
aparentemente para buscar ajuda. Ninguém se apre- sentou. Naquele momento, os engenheiros
mamelucos não podiam utilizar sua técnica favorita de solapamento porque o mar estaria acima
deles, en- tão fizeram o oposto. Começaram a construir um largo dique em direção ao castelo. A
situação não apresentava esperanças e a guarnição templária zarpou de seu castelo para a costa
de Tortosa. Os mamelucos, sob o comando do emir Shujai, entraram no castelo em 14 de julho e
começaram a derrubá-lo.
Com Sidônia fora do caminho, Shujai encaminhou seu exército para Beirute. Talvez, aprendido algo
das técnicas de seu sultão, Shujai convidou os líderes cristãos a visitá-lo para discutir a situação. Não
havendo, aparentemente, aprendido nada com os acontecimentos de Acre, os líderes da guarnição
aceitaram o convite de Shujai e foram aprisionados no momento em que chegaram à sua tenda. Sem seus
líderes, a guarnição entrou em pânico e fugiu da cidade nos navios que encontrou. Os mamelucos entra-
ram no dia 31 de julho. Todos os ornamentos e decorações cristãs foram arrancados da catedral e ela foi
reconsagrada como mesquita.
Poucos dias depois, outro exército egípcio no sul tomou Haifa sem luta. Os monastérios do Monte
Carmelo foram incendiados e todos os monges, assassinados. Os Templários tinham um castelo a algumas
milhas ao sul de Haifa, em Athlit, mas com uma pequena guarnição, que não estava em posição de deter o
exército egípcio. Eles o abandonaram duas semanas depois, em 14 de agosto. No extremo norte, do outro
lado de Trípoli, a mesma decisão foi tomada no castelo templârio de Tortosa, abandonado no mesmo mês.
Quando os Templários zarparam de seus castelos em Athlit e Tortosa, os mamelucos controlavam cada
centímetro quadrado da Terra Santa. A derrota foi total. Os Cavaleiros do Templo estavam sem uma base
na Terra Santa pela primeira vez desde o dia de sua funda- ção, 170 anos antes.
Os Templários continuaram a manter seu castelo na pequena ilha de Ruad, a duas milhas de Tortosa,
mas ele não tinha importância estratégica e sua manutenção era muito trabalhosa — até a água potável
tinha de ser trazida de navio —, e após alguns anos eles simplesmente o abandonaram. Após a queda de
Acre, estabeleceram seus quartéis-generais na ilha de Chipre, com a relutante permissão do rei Henrique.
Sem outro lugar para ir, os Hospitalàrios também transferiram sua base para a mesma ilha.
Durante o ano seguinte, Tibald Gaudin morreu e os Templários começaram a escolher um novo
Grão-Mestre, sem desconfiar de que ele seria o último a ter essa honra. O escolhido foi Jacques de Molay,
um cavaleiro da pequena nobreza do leste da França e disciplinador comprovado. Passara toda a sua vida
adulta na Ordem Templária desde a iniciação em 1265, aos 21 anos. Com 48 anos, era Grão-Mestre e já
havia servido como Mestre do Templo na Inglaterra e, mais recentemente, como Grande Marechal, o su-
premo líder militar da Ordem. Embora as fortunas templárias na Terra Santa houvessem desmoronado.
De Molay ainda controlava a riqueza de milhares de propriedades agrícolas na Europa, além de moinhos,
mercados e monopólios comerciais. Controlava uma frota de navios de guerra e continuava com as
operações bancárias internacionais. Ele ainda podia se gabar de ter o mais bem treinado e melhor
equipado exército permanente da cris- tandade, com dezenas de postos na Europa, e seu orgulho feroz
refletia
esse poder.
Como militar, uma das primeiras ações de Jacques de Molay foi tentar restaurar o moral, reforçando
a estrita disciplina e retornando ao comportamento mais ortodoxo da Ordem. A posse de quaisquer livros e
outros escritos foi proibida aos soldados, sem exceção. Como um soldado monge analfabeto, De Molay não
via nenhum propósito em que os Templários soubessem ler: tudo o que precisassem saber lhes seria dito e
não havia por que saber mais do que o necessário. Ordenou um aumento geral na disciplina por toda a
Ordem, exigindo o reforço rígido da Regra Templária no que dizia respeito à dieta, traje, posses pessoais e
devoção religiosa. j
Um problema contínuo para De Molay foi a declaração do rei Henrique de Chipre de que teria direito
real de comandar todas as forças militares de seu reino, incluindo os Templários. Essa idéia foi totalmente
rejeitada por De Molay, que não reconhecia autoridade maior do que a sua na face da Terra, com a
simples exceção do próprio papa. O rei e o Grão-Mestre discutiram tão amargamente sobre esse ponto
que, por fim, o único modo de resolver o problema foi apresentá-lo ao papa. Em agosto de 1298, Bonifácio
VIII se pronunciou a favor do Grão-Mestre, declarando que o rei Henrique deveria ficar feliz por ter os
corajosos Templários baseados em seu reino, em virtude da proteção adicional que eles traziam à sua
Coroa naqueles tempos de completa incerteza militar. A declaração do papa reforçou a avaliação, já
exagerada, de Jacques de Molay sobre sua própria estatura e poder.
Encorajado por essa expressão de apoio do papa, De Molay apresen tou projetos para uma nova
Cruzada de reconquista da Terra Santa, mas suas alegações vieram numa época inoportuna. O papa
BonifácioVIII chafurdava no sucesso do ano de seu jubileu em 1299, uma celebração de virada de século
na qual parecia que todo o mundo queria vir a Roma para se inclinar diante do supremo pontífice como o
novo César e buscar suas boas graças com presentes em prata e ouro. Certamente, as discussões sobre
uma nova Cruzada poderiam esperar até o ano seguinte. 3
O atraso foi frustrante para De Molay que, com sua formação de planejamento e liderança militares,
sentia saber como a nova Cruzada deveria ser montada, mas, gradativamente, ficou óbvio que não haveria
nova Cruzada enquanto Bonifácio VIII estivesse no Trono de Pedro. Então, em 1305, Bernardo de Goth,
arcebispo de Bordeaux, ascendeu ao trono como papa Clemente V. As ordens de monges guerreiros
esperavam para ver
qual seria a atitude do novo papa em relação 1 reconquista da Terra Santa. Não tiveram de esperar muito.
Em 1306, durante o primeiro ano de seu reinado, o papa Clemente V enviou instruções aos
Grão-Mestres dos Templários e dos Hospitalários ordenando-lhes que o encontrassem em pessoa naquele
mesmo ano, em Poitiers. Um dos objetivos do encontro era planejar os aspectos monetários e financeiros
de uma nova Cruzada. Para que os infiéis não soubessem que os dois principais lideres militares cristãos
haviam se ausentado das bases orientais, receberam ordens de viajar a Poitiers incógnitos. Suas viagens
tinham de ser mantidas em segredo.
Os Hospitalàrios estavam empenhados em uma tentativa de conquistar a ilha de Rodes; seu
Grão-Mestre não foi repreendido quando declarou que não podia ir ao encontro na data desejada.
Jacques De Molay não tinha nenhuma desculpa, mas fez o possível para não responder ao chamado
até o começo do ano seguinte porque precisava de tempo. A nova Cruzada era vital à Ordem Templária e
os planos que De Molay queria apresentar à Santa Sé deveriam ser muito bem pensados, altamente críveis
e que demonstrassem a habilidade militar e a experiência superiores de sua Ordem. Tudo deveria ser feito
para assegurar que a nova Cruzada seria levada adiante, porque sem isso a Ordem Templária não mais
teria razão de existir. Ela fora fundada para cuidar das estradas dos peregrinos a Jerusalém, mas naquele
momento elas eram guardadas pelos muçulmanos, que as possuíam. A Ordem fora criada para proteger
os peregrinos, mas agora não havia peregrinos para proteger. Uma nova Cruzada era vital, também, para
renovar o respeito e o apoio. Como uma Ordem mendicante que abraçava votos de pobreza, os
Templários dependiam de apoio em forma de doações de seus companheiros cristãos, mas essas doações
haviam diminuído muito. É verdade que a Ordem ainda possuía grande riqueza, mas podia ser
rapidamente dissipada pelo custo da invasão e da guerra de que a Ordem agora necessitava. De Molay
sentiu que o mundo inteiro deveria respeitar a galanteria e a coragem desprendida de seus Irmãos
Templários que haviam derramado o sangue nas batalhas perdidas pela Terra Santa, mas também sabia
que estava em uma profissão que era julgada não por seus esforços, mas por suas vitórias.
As outras ordens militares haviam se beneficiado por aceitar a realidade. Os Cavaleiros Teutônicos
cancelaram a Cruzada contra os muçulmanos e dirigiram toda a sua atenção a uma Cruzada contra os
pagãos no noroeste da Europa. Conquistaram uma região territorial que se tornou o Estado da Prússia; os
próprios cavaleiros formaram o núcleo daquilo que se tornariam os Junkers prussianos, a classe
aristocrática, que preservou a cruz negra de oito pontas dos Cavaleiros Teutônicos como sua cruz de ferro
militar. Os Hospitalàrios não estavam contentes em ser hóspedes forçados em Chipre e procuraram uma
base territorial própria. Expandindo sua frota e buscando aliados, ganharam uma base na ilha de Rodes,
as primeiras boas notícias do Oriente em quinze anos, além de uma vitória que lhes valeu maior respeito
dentro da Igreja e nas cortes da Europa. Ao fim da conquista, em 1308, ficaram contentes em se tornar
conhecidos como Cavaleiros de Rodes. Muitos anos mais tarde, foram expulsos de Rodes e mandados I
ilha de Malta, até serem novamente desalojados por Napoleão. A Ordem Hospitalária ainda existe em
Roma, onde é reconhecida pelo Vaticano como um Estado soberano sob seu nome atual, os Cavaleiros de
Malta.
Dentre os Grão-Mestres, apenas Jacques de Molay se recusou a re- tirar as vendas que dirigiam toda a
sua visão do futuro para uma nova
Cruzada de retomada de Jerusalém. Ele, aparentemente, nao tinha idéia de quanto sua mente se desviara
da realidade da política européia Qualquer príncipe na Europa daria apoio moral à Cruzada, mas não a
espada, e muito menos ã bolsa. A Igreja não podia obrigar Felipe IV da França a fazer nada; a realidade
era bem outra. Talvez, se De Molay houvesse acompanhado a batalha de 27 anos entre Felipe e a Santa Sé,
teria sido capaz de ver através das maquinações de Felipe e perceber como ele usava a falsa esperança de
uma nova Cruzada para encher seu próprio tesouro com o ouro da Igreja e da Ordem Templária. Quanto
à Inglaterra, Eduardo I não tinha desejo real de lutar contra infiéis de turbante pelo Jordão; sua preocu-
pação eram os cristãos de kilt pelo Tweed. As Cruzadas haviam terminado.
Jacques de Molay também, mas ele ainda não sabia. Não importavam os rumores ou relatos que ele
pudesse ouvir, recusava-se consistentemente a se curvar à realidade, até que, por fim, ele se redimiu ao
preço de uma morte lenta e agonizante sobre um fogo de carvão.
Para obter a compreensão que De Molay não teve, para melhor compreender como os Cavaleiros
Templários foram tão cuidadosamente suprimidos e como a Inglaterra e a Escócia puderam fornecer um
abrigo tão perfeito para os Templários fugitivos, precisaremos dar uma breve olhada no que acontecia na
Europa entre a queda de Acre e a prisão dos Templários. Os conflitos significativos se davam entre Felipe
IV da França e os papas e entre Eduardo I da Inglaterra e os escoceses em sua fronteira norte. Por um
curto tempo, teremos de deixar Jacques de Molay em seu caminho para Marselha, de pé na proa de uma
galé templária, olhando no horizonte as margens da França, onde espera alistar um poderoso exército de
Deus para retomar a Terra Santa, sem sonhar nem por um momento com os flagelos e correntes que o
esperavam em Paris.
"O MARTELO DOS ESCOCESES"

m uma noite tempestuosa de 1286, o rei Alexandre III da Escócia parou em Burntisland para trocar
de cavalos. Viajava para Kinghom para encontrar sua segunda esposa. A tempestade estava tão fe-
E roz que recomendaram que o rei passasse a noite no posto de troca, mas ele insistiu em continuar
cavalgando e seu cavalo caiu de um penhasco íngreme ferindo Alexandre fatalmente.
A primeira esposa de Alexandre lhe dera uma filha, que se casou com Eric II da Noruega, mas
estava destinada a morrer após dar à luz uma filha chamada Margaret. Essa criança, bisneta de Henrique
II da Inglaterra e neta de Alexandre III da Escócia, ficou conhecida como Dama da Noruega. Seis anos
antes da morte de Alexandre, o tratado de Brigham prometera a princesa, então com 4 anos, ao primeiro
príncipe de Gales, que se tornaria Eduardo II da Inglaterra. O grande plano era unir as coroas da
Inglaterra e da Escócia em uma só dinastia, embora os países fossem administrados separadamente, mas o
destino quis de outra maneira. Quando a pequena rainha, com 10 anos, ia de navio para a Escócia, uma
tempestade originária nas ilhas Orkney afundou a nave e a Dama se perdeu. A sucessão escocesa foi
atirada ao caos. Nenhum trono vago espera muito tempo por pretendentes
e, na Escócia, não houve menos do que treze, embora quatro deles apenas tivessem alguma chance de
sucesso. Entre eles, havia dois Comyns de Badenock, identificados pela cor de suas barbas como Comyn, o
Negro, e Comyn, o Ruivo, para evitar confusão entre os ramos da família. O Comyn Negro era o favorito
de muitos, mas ele deu a entender que, se fosse necessário resolver qualquer disputa, daria o lugar ao
aparente favorito, João Baliol, neto de Margarida, a filha mais velha do rei Davi I da Escócia. O quarto
pretendente era Roberto Bruce, filho da segunda filha do rei Davi, Isabel.
Legalmente, Baliol tinha a reivindicação mais forte, pois era descendente da filha mais velha do rei
escocês, mas não era popular entre o povo. Seus modos tímidos haviam lhe valido o apelido popular 'Toom
Tabard", ou Casaco Vazio, indicando que não tinha nada por dentro.
Bruce era de longe o mais popular dos treze candidatos e sua segunda posição era compensada pelo fato dele ter uma linha masculina de suces - são. Havia um filho
de aproximadamente 40 anos e um neto de 16 anos, que um dia entraria em uma caverna, observaria uma aranha e se tornaria |
0 novo rei da Escócia.
Se quisessem evitar a guerra civil, seria preciso negociar. O rei Eduardo
da Inglaterra, renomado legislador e árbitro, arranjou para que ele próprio fosse chamado para decidir a sucessão. Convocou os senhores escoceses a encontrá-lo em maio
de 1291 no castelo Norham, uma fortaleza de fron- teira com a Inglaterra, às margens do Tweed. Chocou a nobreza reunida ao anunciar que um requisito para a arbitragem,
qualquer que fosse o resultado, seria que o reconhecessem primeiro como o senhor supremo da Escócia , Além disso, diversos castelos fronteiriços deveriam ser cedidos
à Coroa inglesa para selar o acordo. Temendo traição, os senhores escoceses ime - diatamente atravessaram o rio até o solo escocês para confabular. Uma delegação voltou
a Eduardo e lhe pediu trinta dias para consultar os nobres e líderes da Igreja que não estavam presentes.
Quando a delegação voltou, trinta dias depois, o número de preten - dentes caíra de 13 para 8. Diante da perspectiva real de guerra civil entre os partidários dos dive rsos
pretendentes, os porta-vozes concordaram com a suserania de Eduardo e cada um dos pretendentes restantes fez um jura mento com esse objetivo. Uma vez que a escolha
era, obviamente, entre Bruce e Baliol, decidiu-se que seria feita por um grupo de 40 homens selecionados por Baliol, outros 40 escolhidos por Bruce e mais 24 a ser
j
nomeados por Eduardo. Esse grupo debateu por mais de um ano e finalmente se reu niu na capela dominicana próxima ao castelo de Berwick para anunciar sua decisão. A
mesma fraqueza que fazia com que os escoceses zombassem de João Baliol o tornava atraente para Eduardo da Inglaterra como uma marionete em potencial, e Baliol foi
nomeado rei da Escócia. A 30 de novembro de 1292, foi coroado em Scone, antiga capital dos pictas, sen tado na pedra sagrada de Scone, que a lenda conta ter servido de
travesseiro para São Columba. Mais tarde, o novo rei escocês apareceu em Newcastle, na fronteira, para prestar homenagem a Ed uardo como seu soberano. Eduardo deu
| ilustre audiência um sinal surpreendente de como ele via a relação entre as Coroas da Inglaterra e da Escócia. Mandou buscar o Grande Selo da Escócia e o quebrou em
pedaços, que foram colocados em uma bolsa para ser depositados no tesouro inglês em Londres. O significado desse gest o não passou despercebido a nenhum dos presentes.
Legalmente, o problema da sucessão escocesa fora resolvido sem derramamento de sangue, mas o modo como fora cumprida preparou o palco para o derramamento de rios
de sangue de ambos os lados nos anos que viriam. O feito fora cumprido, mas as pessoas não gostaram da maneira como isso ocorreu. Os nobres escoceses, que normalmente
não apreciavam mestres, agora tinham dois.
Não demorou para que descobrissem o tipo de mestre que Eduardo seria. Meses após a coroação do
rei João, os escoceses que não estivessem satisfeitos em sua própria corte eram encorajados a trazer suas
reclamações à Inglaterra. O próprio rei João foi chamado diante da corte da Inglaterra para responder a
um processo sobre uma conta de vinho vendido a seu predecessor. Um conde escocês, cujo irmão fora
morto por lorde Abernathy, decidiu que teria mais chances contra o assassino levando o caso a
Westminster. O Parlamento inglês concordou em ouvir o caso e pediu que o rei João aparecesse diante
dele como testemunha. Quando chegou sua recusa, ele foi imediatamente considerado culpado de contu-
mácia ("desobediência, especialmente a uma ordem da corte") e, como punição, deram ordens para o
confisco de três de seus castelos. Diante disso, a resolução do rei João foi por água abaixo e ele concordou
em ir a
Londres na próxima reunião do Parlamento.
Em Londres, o rei João teve outro choque. Eduardo estava se preparando para a guerra contra a
França e disse a João que ele, como vassalo, deveria, é claro, fornecer tropas e dinheiro escocês. Houve
uma troca de palavras raivosas de ambos os lados e João, decidindo que estaria mais seguro em casa,
deixou Londres secretamente e correu para as fronteiras
O que ele encontrou na volta não era muito melhor. O povo não gostou de sua submissão aos pedidos
do rei inglês para aparecer em Londres e sentia que a humilhação dele era a do povo também. Estavam
cansados dessa fraqueza e nomearam uma junta de quatro condes, quatro barões e quatro bispos para
aconselhar o rei e deixaram claro que esperavam que o
conselho fosse seguido.
Com o povo a seu lado, a nova junta começou a agir em seu propno interesse nacional. Um
Parlamento foi reunido em Scone, o que instigou uma série de atitudes que, bem sabiam eles, envolviam o
risco, se nao a probabilidade, de uma guerra. Rejeitavam formalmente as exigencias de Eduardo por
tropas escocesas para servir | causa inglesa na França. Todos os oficiais ingleses da Escócia foram
depostos e todas as terras na Escócia pertencentes a súditos ingleses foram confiscadas. O Parlamento fez
algo que não deixava a Eduardo outra escolha senão declarar guerra: enviou uma delegação parlamentar
| corte de Felipe IV para tentar uma aliança entre Escócia e França. A aliança foi consumada;
combinaram que, se um dos países fosse invadido pela Inglaterra, o outro deveria vir em suaL ajuda. Para
selar esse acordo, decidiu-se que a sobrinha de Felipe Isabel filha de Carlos de Anjou, se casaria com o
filho e herdeiro do rei João da Escócia.
Ao saber disso tudo, Eduardo exigiu a posse imediata de todos os castelos fronteiriços para proteger
seu reino de ataques escoceses enquanto ele estava na França. O pedido não apenas foi recusado, como os
escoceses com a confiança aumentada por sua nova aliança com a França.
fizeram um ataque à Inglaterra pelas fronteiras. Os nobres escoceses, po rém, como já haviam feito antes e fariam novamente, foram amaldiçoados por sua relutância em
sacrificar um pouco de seu orgulho pessoal e o de seu clã para trabalhar juntos ou obedec er a alguma autoridade maior. Carecendo de disciplina e direção, os ataques
foram malogrados e terminaram com uma séria derrota em Carlisle. Os escoceses se retiraram para seu país para preparar as def esas contra a vingança do rei inglês e seu
exército. Ela não demorou a vir e a primeira batalha dessa guerra ainda é lembra da por sua carnificina.
À testa de um exército de 30 mil soldados a pé e 5 mil a cavalo, Eduardo cruzou o rio Tweed, tendo o rico porto escocês de Be rwick como primeiro alvo. A cidade
rechaçou facilmente o ataque naval, mas estava despreparada para o ataque por terra, embora tenham erguido às pressas paliçada s rústicas, protegidas por um fosso
ineficaz. Além disso, a guarnição era comandada pelo temível Sir William Douglas e os cidadãos se sentiram confiantes de sua segurança. Eduardo liderou ele próprio
o ataque em seu grande cavalo branco Bayard. Percebendo um ponto baixo na paliçada, saltou sobre o fosso para entrar na cidad e, com seu exército logo atrás. Houve luta
breve, mas terrível, nas ruas; um grupo de trinta mercadores flamengos defendeu seu Red Hall até que foi incendiado com eles dentro, o que não representa exatamente
uma batalha. A guarnição no castelo se rendeu em termos que lhe permitia marchar para fora da cidade, entreg ando os cidadãos ao saque. Após amarrar e aprisionar toda
a população, Eduardo ordenou que todos os cidadãos homens de Berwick fossem mor tos. O massacre levou dias; o número estimado de execuções oscila entre 8 e 10 mil.
A escala do massacre foi um choque para ambos os países, mesmo naquela época sangrenta.
Reconstruindo as fortificações de Berwick, Eduardo levou seu exér cito a norte do Tweed. Encontrou o exército escocês, que acabava de voltar de seus ataques no
norte da Inglaterra, e o derrotou facilmente em Spot- tswood. Como ele antecipara, a lição do massacre em Berwick não foi desperdiçada nas cidades e nos castelos em
seu caminho. O castelo de Dunbar se rendeu sem nenhuma luta que mereça esse nome. Uma cidade após outra capitulou e, em junho , Eduardo estava diante de Edimburgo.
A cidade não opôs luta e seu castelo resistiu por apenas oito dias. Dali ele avançou para Stirling, onde a guarnição do caste lo fugiu ao saber de sua aproximação, e em
seguida para Perth, onde recebeu a mensagem de que o rei João estava preparado para se render.
Eduardo encontrou João em Montrose, onde o último se ajoelhou para apresentar o bastão branco como sinal de submissão. O rei escocês deposto foi levado à Torre
de Londres, onde definhou até que o papa intercedeu em se u favor e lhe permitiu o exílio na França. Para deixar para sempre claro aos escoceses quem mandava em sua
nação, Eduardo removeu a pedra sagrada de coroação de Scone para Westminster. Talvez nenhum
outro ato tenha provocado tanto a ira nacional escocesa como o roubo de seu símbolo sagrado de realeza
(mais de seiscentos anos depois, em 1950, um grupo de jovens escoceses nacionalistas roubou novamente a
pedra de seu lugar, da abadia de Westminster, e a devolveu, temporariamente, à Escócia. Embora esse
esforço tenha sido frustrado, até hoje há rumores sobre novos planos para recuperar a pedra).
Finalmente, em Berwick, Eduardo exigiu e recebeu a submissão de quase todos os líderes escoceses —
condes, barões, bispos, chefes de clã e principais cavaleiros. Ele pediu seus nomes por escrito e a lista
demandou 35 pergaminhos de pele de cordeiro. Essa coleção de pergaminhos, costurados ponta com
ponta, foi ridicularizada pelos escoceses como "Rolo de Trapos". Esse nome, para um assunto tedioso e
complicado, mais tarde degenerou no termo rigamarole, que encontrou um lugar permanente na língua.
Rigamarole ou não, a derrota inglesa da Escócia foi completa e, aparentemente, irrevogável. Eduardo
podia novamente voltar sua atenção para a guerra com a França. -
E assim poderia ter sido, se não fosse por aquele estranho fenômeno que ocorreu repetidas vezes ao
longo da História, em muitas épocas e muitos lugares. Surge um homem que se ajusta à ocasião. Não um
comandante, mas um homem do povo que encontra seus anseios e combina essa empatia com um gênio
militar nato. Tais homens freqüentemente têm tristes fins, sem recompensa, mas vivem como lendas do
povo. Na Espanha, houve Rodrigo Díaz de Bivar, chamado El Cid. O México produziu Emilia- no Zapata.
Para os revolucionários cubanos, houve Che Guevara. O Marrocos teve Abdel Krim, que, quando foi
chamado de volta após o exílio forçado para um lugar de herói na realização da independência de seu país,
declinou porque seu terrível inimigo, a França, fora diplomaticamente reconhecida. Tal homem surgiu na
época em que a Escócia mais precisava. Seu nome era William Wallace.
Wallace era o segundo filho de um obscuro cavaleiro de Renfrew e tinha pouco mais de vinte anos
quando decidiu erguer sua espada contra o odiado invasor do sul. A terra de Wallace, no sudoeste da
Escócia, não tinha as vantagens topográficas das Highlands, consistindo em colinas baixas e planícies
achatadas cortadas por muitos regatos, tendo também muitas fortificações com guarnição inglesa. Apesar
de todas essas desvantagens, Wallace reuniu um pequeno grupo de seguidores e iniciou uma carreira de
guerrilha. Atraiu a atenção nacional quando atacou Lanark, quartel-general do delegado inglês William
de Hessilrig, com um pequeno bando de trinta membros de clã. Eles tomaram Lanark e mataram o
delegado. O feito chamou a atenção de Sir William Douglas, cujas propriedades eram em Lanarkshire e
que desejava ardentemente se vingar de Eduardo por sua derrota em Berwick. Quando Douglas e alguns
outros nobres escoceses decidiram que, com Eduardo amarrado às guerras na França, aquele seria um
bom momento para revidar, mandaram chamar William Wallace.
Wallace | Douglas rapidamente armaram uma operação que agrada ria a eles propríos e a toda a
Escócia. Atacariam William de Ormesby, o juíz inglês da Escócia, que, Calculadamente, estabelecera á
sede de sua corte em Scone. Era um lugar entranhado na tradição escocesa c visto com reverencia, No
passado distante, fora a capital dos pictas. Sua abadia fora o abrigo da pedra sagrada de coração ate que
Eduardo a roubara; desde tempos imemoriais, decisões importantes para o povo foram tomadas no
Mont Moot, em Scone.
Ormesby aparentemente achou que ter sua sede em Scone daria validade a suas regras; quâíquer escocês
que se negasse a obedecer às íntímações dele para ir a Scone severamente multado. Se a multa não fosse paga,
o escocês era "proscrito", posto fora da proteção dá lei c ficava, portanto, à merce de ladrões e assassinos- Era
o equivalente têmporal da excomunhão. Arrogante na vitória, Ormesby se mostrou prudente diante do
perigo, pois juntou todo sei ouro e seus registros e partiu apressada- mente de Scone assim que ouviu falar
da aproximação do exercito escocês,
Wallace era um homem pobre, sem nada a perder, mas Douglas não- Ao saber da tomada de Scone.
Eduardo ordenou o confisco das extensas propriedades de Douglas na Inglaterra, Mais tarde, o próprio
Douglas foi capturado e mandado para Bervwick, onde morreu em menos de um ano. preso a grilhões e
pesadas correntes, em uma prisão deliberada mente miserável.
Após Scone Wallaee foi para o norte, sem perder recrutas, Até mesmo alguns membros da nobreza
escocesa se uniram a ele, mas, freqüentemente, continuavam insistindo em suas prerrogativas individuais,
lutando onde, quando e como quisessem, relutantes em reconhecer totalmente o líder militar supremo no
campo, Para compensar isso, Wallace se tornou um severo disciplínador das tropas sob seu comando direto.
Um homem em cada cinco era nomeado líder, assim como um homem em cada vinte, um em cada cem e um
em cada mil. Assim, tuas ordens podiam ser rapidamente repassadas a cada homem de seu exército. A
desobediência a essas ordens, e a qualquer líder, em qualquer nível, exigia apenas uma punição a morte. 0s
líderes escoceses que lutavam separados de Wallace, com seus membros tradicionais de Clã. não eram páreo
para os ingleses, que os esmagavam facilmente. Wallace era outra espécie. Comandava o mais disciplinado
e melhor
organizado exército de ambos os lados com uma gana fanática e habilidade militar espantosa, fatos ainda
desconhecidos aos ingleses. Pcnsavam
eles que iriam, mais uma vez castigar uma multidão fragmentária de membros de clã.
Na preparação para sua mais famosa batalha, Wallace sitiou Dundee e enviou uma grande força à
Abadia de Cambuskenneth. Essas manobras ameaçavam o castelo Súrling os ingleses tinham de reagir, Um
experiente exército inglês de 50 mil soldados de infantaria e mil cavaleiros foi encontrar
o exército de Wallace. que tinha menos de 40 mil a pé e apenas 180 cavalos, Wallace era guerrilheiro que
jamais havia comandado uma força militar tão grande, O líder inglês era John de Warenne, conde de
Surrey e gover-
nador da Escócia, que linha toda uma vida de experiência prática em liderança militar. Os ingleses estivam
profissionalmente armados, ao passo que os homens de Wallace, muitos dos quais haviam perdido seus
líderes dc clã cm batalhas anteriores, estavam armados principalmente com longas lanças ou machados. Como
armadura, tinham apenas túnicas dupla recheadas Com trapos ou estopa para se protegerem contra golpes de
espada. Esta- varn, na maioria, descalços^ Além disso, quase não tinham suprimentos* Estavam, porem,
totalmente equipados com um alto grau de ódio pelos invasores e um enorme respeito por seu líder.
Wallace sabia que os ingleses marchariam para ele a partir do castelo Stirling, á sul, Para chegar, feriam
de cruzar o rio Forrh sobre aponte Stirling, uma estrutura de madeira que não comportava mais do que dois
cavaleiros lado a lado. Ele colocou seus homens a norte da ponte, escondidos em densas moitas, com ordens
estritas de permanecer escondidos até que recebessem o comando para avançar. A disciplina dc Wallace era
admirável, pois essa ordem foi obedecida implicitamente por milhares de homens lou- coi para lutar. Os
ingleses sabiam que os guerreiros estavam pôr ali em algum lugar, mas não sabíam onde, nem exatamente
quantos. Por que os escoceses não haviam destruído a ponte? Será que uma ponte mais larga em outro
ponto do rio caudaloso poderia ser usada para atacar os escoceses pelo Flanco? O bispo Cressingham,
tesoureiro do rei e coletor de impostos da Escócia, deu por fim sua opinião, pedindo para que a renda limitada
do rei não fosse esbanjada prolongando-se a questão. O exército inglês Começou a atravessar a ponte estreita,
Wallace precisou de toda a sua autodísciplina para aguardar a divisão mais perfeita do exército inglês
entre os dois lados do rio, Calculara que
levaria ao menos onze horas para que todo o exercito inglês atravessasse.
Primeiro vieram os cavaleiros para testar a força da ponte. Uma vez sobre ela. eles se espalharam sobre o
lado escocês como um piquete semicircular para vigiar á travessia. Vieram então os soldados a pé os arqueiros
galeses.
Hora após hora, os guerrilheiros se ajoelhavam, desconfortaveis, nos arbusíos que haviam ocupado desde a
noite anterior. Finalmente, ás 11 da manhã, Wallace decidiu que a força de seu lado rio era grande para ser
derrotada por um ataque esmagador, mas pequena para ser batida suave e decisivamente por um número
superior de homens. Deu o sinal.
Dos arbustos saíram dezenas de milhares de escoceses selvagens berrando. Para os ingleses, eles
pareciam não ter fim, atravessando o campo
aberto com os pés descalços e as pernas nuas, brandindo lanças de doze pés e longos machados curvados, com
um espadão aqui e ali, a mortal espada escocesa de folha larga. Todas as gargantas estavam cheias com
berros de gelar o sangue e gritos de batalha. Wallace linha seus melhores
homens à sua direita c eles atacaram o flanco esquerdo do exército inglês, abrindo ligeiramente seu caminho a golpes até ter controle do
extremo norte da ponte, para que nenhum reforço pudesse atravessar. Os ingleses do lado escocês estavam encurralados em uma curva
do rio. Aqueles que avançavam foram barrados e os que estavam na margem foram empurrados no rio, cuja maré estava cheia.
Carregados de armaduras e cotas de malha, afundavam rapidamente.
O desesperado Warenne assistiu à sua cavalaria e aos seus arqueiros serem despedaçados e empurrados da ponte, ou da margem, para se afogarem nas águas
caudalosas. Deu ordens de bater em retirada, mas os escoceses não permitiriam que essa retirada fosse ordenada. Logo que a ponte foi desocupada. Wallace mandou
seus homens em uma caçada frenética para apanhar os soldados extraviados. Quando a notícia da derrota chegou aos nobres escoceses que haviam declinado de lutar sob o
comando de Wallace. muitos deles decidiram auxiliar na caçada. Milhares de soldados ingleses corriam por sua vida. sem tempo de parar para comer nem dormir. Eram empurrados
para fora das estradas, caçados em florestas e montanhas. Os fugitivos diminuíam diariamente em número, enquanto a quantida de de caçadores crescia, conforme mais e mais se
juntavam à caça. Não tinham o objetivo de fazer prisioneiros. Os escoceses queriam apenas matar e continuar a caçar para matar de novo. De volta à ponte, o corpo do bispo
Crcssingham foi estolado e um pedaço da pele dele foi dado de pre sente a Wallace para servir de bainha para sua espada.
Wallace voltou a reunir o que pode de seu exército espalhado e recrutou mais homens. Em poucos meses havia retomado Stirling. Berwick. Dundee e Edimburgo. Com
a Escócia segura, embrenhou-se em uma expedição punitiva para incendiar cidades inglesas na fronteira, fazendo ataques em Cumberland e Westmoreland.
De volta à Escócia, Wallace, que teria pouquíssima oposição se reivindicasse o trono, caso fosse esse seu objetivo, foi ordenado cavaleiro e escolheu o título "Guardião do
Reino". Trouxera alguma organização e união nacional a seu pais. mas era um homem de luta. não um político. Os nobres escoceses ainda tramavam para manter sua preciosa
independência de qualquer autoridade. j
terra que operava sem seu temível rei Eduardo l. que estava afastado quase
A Escócia eslava livre, mas recuperara essa liberdade dc uma Ingla
continuamente cm razão perda da Escócia? "
de sua guerra com a França. Como reagiria ele à i
}

Sua reação foi entrar cm prolongadas negociações com a França, para nfio ler dc lidar com a ameaça em sua própria seleira. Em 1294, che-
garam ao acordo dc que o rei Eduardo sc casaria com a irmã do rei Felipe, a princesa Margarida, enquanto o filho e herdeiro de Eduardo sc casaria com a
filha de Felipe, Isabela. Essa dupla aliança mariial tornou negocia ções posteriores meros incidentes de percurso e. por volta de 1297,
Eduardo conseguiu voltar sua atenção e o grosso de sua força militar para o
problema da Escócia. .?
De volta à Inglaterra, o primeiro ato oficial de Eduardo foi reunir um parlamento em York. exigindo
que os nobres escoceses também comparecessem. com a advertência de que qualquer ausente seria
automaticamente considerado traidor. Nenhum deles compareceu, não necessariamente porque seguiam
Wallace. mas porque alguns apenas não reconheciam autoridade maior do que eles próprios. Muitos
tinham medo de traição.
Eduardo liderou seu exército para o norte, em uma terra improdutiva. Todas as colheitas haviam sido
queimadas e toda a criação saíra da zona de guerra. Navios ingleses esperavam no Estuário de Forth com
provisões, ínas Wallace bloqueou o caminho. Os ingleses esperavam conseguir fazer pilhagens pelo caminho
e obter suprimentos frescos no Estuário, mas também não puderam fazê-lo. Wallace baseara sua estratégia
no fato de que. cedo ou tarde, o faminto exército inglês teria de se retirar para encontrar alimento; então
ele atacaria e os destruiria. Infelizmente, dois condes escoceses decidiram usar os ingleses para se livrar do
comandante Wallace e enviaram informantes a Eduardo. Eles contaram que o exército de Wallace estava
escondido perto de Falkirk. a apenas algumas milhas, esperando a retirada inglesa. Era tudo o que Eduardo
queria ouvir. "Eles não precisam me seguir! Irei ao encontro deles hoje mesmo!"
Ao cair da noite desse mesmo dia. o exército inglês foi para bem peno de Falkirk. Após algumas horas de
descanso. Eduardo liderou seu exército durante as horas restantes de escuridão e. quando o sol se ergueu, os
ingleses conseguiram ver o exército escocês a meio caminho, no declive de uma montanha na frente deles.
Wallace linha apenas poucas centenas de cavaleiros sob o comando de John Comyn, o Ruivo. e alguns
arqueiros armados com o rústico arco curto das Highlands. que não era páreo para o alcance ou o poder do arco
dos arqueiros galeses de Eduardo. A maioria dos escoceses carregava a lança de 12 pés e estava formada em
três schiltrons. círculos ocos de lanceiros que criavam uma cerca eriçada de pontas de lança, com reservas no
centro do círculo para substituir os que caíssem. A longa lança era efetiva contra a cavalaria, mas
praticamente inútil na luta corpo a corpo, e não tinha utilidade contra as arqueiros ingleses. Wallace colocou
seus próprios arqueiros entre os schiltrvns com a pequena unidade de cavalaria como reserva para ser usada
conforme ditasse o curso da batalha, principalmente para quebrar as formações de arqueiros, contra os quais
não havia outra defesa.
Tanto Comyn. o Ruivo. quanto Sir John Stewart. que comandava as arqueiros escoceses, argumentaram
antes da batalha que. por causa da linhagem e títulos superiores aos de Wallace. eles deveriam estar no co-
mando supremo. Wallace prevaleceu, mas pagou caro. No primeiro ataque dos inaleses. Comvn. o Ruivo, e
sua cavalaria abandonaram o campo de
batalha, deixando Wallace sem proteção nem reservas. Sir John Stwart caiu com com tropas, no comoço do combate.
Pior algum tempo, os schilitrons resistiram aos ataques ingleses e parecia que os escoceses seriam, novamente. os vencedores. Eduardo
porém. decidiu tentar algo diferente e os escoceses, em soa armadura de trapos. experimentaram uma arma totalmente nova para eles no
campo, contra a qual não havia defesa. Eduardo mandou soas tropas; recuar e alinhou seus arqueiros. As setas que voavam em velocidade
suficiente para atravessar armadura de metal leve e cotas de malha não tiveram problema algum com o tecido cru da armadara dos escoceses.
Rajada após rajada, as setas derrubavam os chilitrons amontoados dos lanceiros que caíam onde estivam sem nenhuma chance de recuar. O
contra-ataque apropriado teria sido um assalto da cavalaria entre os arqueiros. como Wallace bem sabia.
mas a cavalaria se fora. Sem poder fazerem nada a não ser ficar parados e morrer, os schilitrons começaram a se
desfazer. Quando Eduardo viu isso. mandou sua própria cavalaria em um assalto amplo pela retaguarda e os escoceses
romperam em fuga. desordenada. Felizmente, Wallace os colocara próximos ao bosque e aqueles que fugiam para lá eram
uma presa mais cfcf ícii para a cavalaria pesada que os perseguia. O próprio Wallace foi perseguido em uma moita por Sir Briar.
de Jay. Mestre dos Templários ingleses. Wallace o matou.
Depois de a baralha e a f uga terminarem. 10 mil escoceses jaziam mortos no campo. Os nobres da Escócia, naquele momento
não perdiam a oportunidade de denegrir Wallace e todos se recusaram a segui-lo. Contando com a aliança com a França,
WalIace foi ter com o rei Felipe para pedir ajuda para seu pais. Como resposta. Felipe acorrentou Wallace e escreveu para Eduardo
oferecendo-se para entregar o prisioneiro. O rei expressou sua gratidão e pediu que Wallace ficasse preso na França por
enquanto. Subseqüentemente. Felipe mudou de idéia e o soltou. Em vez da ajuda militar que Wallace viera buscar. Felipe lhe
deu uma carta para levar ao papa. solicitando a ajuda
do pontífice. Não há registro de que Wallace a tenha utilizado.
Em 1304. John Stewart de Menteáh. antigo partidário e amigo de Wallace. passara para o lado dos ingleses e fora
recompensado com o posto de delegado de Dumbarton. Naquele mesmo ano. um homem chamado Jack Short. servo de Wallace.
aproximou-se de Mentenh. Short queria ganhar uma recompensa, agora que seu mestre era um fugitivo sem futuro, e contou
a Menteith que Wallace estava em Robroystom próximo a Gbtigow- Menteich arranjou para que de próprio fosse a hospedaria buscar
Wallace e que, se o encontrasse, mostraria aos soldados na taverna que aquele era seu homem virando o pão da mesa. Menteith.
realmente, encontrou seu velho amigo Wallace e sentou-se a mesa com ele. Quando os soldados entraram. Menteith
apanhou o pão. vírou-o ao contrário e o devolveu à mesa, depois do que Wallace foi capturado.
Não perderam tempo em acorrentar Wallace e desfilar com ele até Londres. A 22 de agosto de 1305, apenas um dia após sua chegada.
Walla- ce foi levado a julgamento no Great HalI de Westmimster Haviam erguido uma plataforma em um dos cantos do salão para exibi-lo e uma
coroa de louros fora posta em sua cabeça — uma gozação. dirão alguns escoceses não morto diferente da gozação dos soldados romanos que puseram
uma coroa de espinhos na cabeça de Jesus Cristo, Wallace foi acusado de uma longa lista de crimes contra a Coroa, incluindo traição. sedição
assassinato e incêndio culposo. Tendo sido declarado proscrito, não tinha permissão de dizer uma só palavra em defesa. Foi considerado culpado
por um corpo de cinco juizes e sentenciado a ser enforcado, arrastado e esquartejado.
Menos de uma hora depois de a sentença ler sido anunciada, ela começou a ser cumprida. Wallace foi levado de Westmimster à Torre. Ali
um cortejo que esperava se encarregou de entregá-lo no local de execução em Tyburn, para onde ele foi arrastado por cavalos ao longo de ruas
cheias de espectadores. Antecipando sua sentença, os partíbulos de Tyburn haviam
sido erguidos mais alto para permitir a boa visão de toda a multidão. Colocaram um nó corrediço em torno do pescoço de Wallace e o ergueram
lentamente sofocando-o e o baixavam antes que ele estivesse morto Revivido um pouco, foi castrado e um pequeno corte foi feito em seu
estômago através do qual seus órgãos víscerais foram vagarosamente arrancados de seu corpo, finalmente trazendo-lhe a morte. Sua cabeça foi
cortada e posta em uma estaca na ponte de Londres. Seu corpo foi cortado em quatro pedaços e salgado. Os quartos foram enviados para o
norte para ser exibidos em Newcastle. Penh, Berwick e Súrling como prova da morte de Wallace e como exemplo para outros que pudessem
pensar em imitar seu líder. O maior patriota da Escócia morrera de modo mais revoltante que a imaginação mais sangrenta poderia ter criado.
Seu legado foi um ódio que queimava lentamente.
A 10 de fevereiro de 1306. após a carnificina de Wallace. Roberto Bruce encontrou John Comyr.. o Ruavo, no monastério
Franciscano de Dumfries. Com seu avó e seu pai mortos. Bruce era pretendente direto ao trono da Escócia. Comyn, o Ruivo. o mesmo que
fugira com a cavalaria de Wallace na batalha de Falkirk. assumira a reivindicação de Baliol ao trono, baseado em em parentesco
distante. Bruce e Comyn discutiram diante do altar principal e se inflamaram tanto que Bruce puxou sua adaga e a enfiou
até o ponho no flanco de seu rival. Bruce saiu da Igreja e disse a seus partidários: " Não tenho certeza se matei Comyn, o Ruivo"
Um de seus seguidores puxou seu longo punhal das Híghiands e gritou em resposta: " I se mak" siccarl" ( Eu trarei a
certeza!) e entrou na igreja para dar o golpe
mortal.
Movendo-se com rapidez para não dar aos inimigos tempo para reagir. Bruce foi- direto a Scone. Em resposta à sua
chamada-, o bispo Wishart de Glasgow o encontrou ali com os paramentos da coroação Reuniu-se a
ele um grupo de bispos c nobres que sabiam bem que apenas sua presença nessa cerimônia lhes iraria a eterna inimizade de Eduardo J, que estava na In glaterra e nem
suspeitava que a paz escocesa estava prestes a ser quebrada*
A heroína do dia foi lsabe)a t condessa de Buchan. Era esposa de um Comyn f agora inimigos de morte de Bruce- Mais importante ainda, era também filha do conde
de Fife, um firme defensor da reivindicação de Brucc ao trono. Ao saber da iminente coroação, ela pediu para que sua sela fosse posta no mais veloz cavalo dos estábulos
e, sem que seu marido soubesse, foi para Scone tão rápido quanto seu cavalo podia viajar. Tendo chegado logo antes da cerimônia, afirmou que, uma vez que seu irmão, o
atual conde de Fife, estava demasiado longe para estar presente em pessoa, ela seria aquela que exerceria o direito hereditário de sua casa de por a coroa da Escócia na cabeça
de seu rei de direito. Impressionados, mais pelo espírito de Isabela do que por qualquer direito legal, seus compatriotas concederam a honra e Bruce se tornou o rei Roberto
da Escócia.
Quando Eduardo I recebeu a notícia da coroação do novo rei escocês, explodiu. Despachou ordens para seu tenente na Escócia, Aymer de Valence, de que todos os
que seguissem Bruce deviam ser mortos. O exér cito que se reunira na Inglaterra para a nova invasão da Escócia não faria prisioneiros. Em grande parte por causa de sua
própria saúde frágil, mas também numa tentativa de fazer com que seu filho efeminado, o príncipe Eduardo, assumisse alguma responsabilidade, Eduardo colocou o
exército nominalmente sob o comando do jovem, que foi o primeiro herdeiro do trono inglês a carregar o título de Príncipe de Gales. <j
Para emprestar alguma cerimônia à nova estatura do príncipe Eduar do, ele foi ordenado cavaleiro em Wcstminster. Duzentos e setenta jovens que deveriam
acompanhá-lo h guerra também foram ordenados em um grande evento cavalheiresco. O procedimento cerimonial formal daquela época exigia que o jovem que fosse ordenado
se preparasse para a cerimônia na noite anterior; era barbeado e tomava um banho de essências (isso contrastava com os Cavaleiros Templáríos, que faziam votos de não se banhar e
não se barbear). Após seu banho, o candidato passava a noite em uma capela em oração e meditação, enquanto velava por sua armadura e armas. Nessa ocasião, nenhum aposento
disponível era grande o bastante para todos os candidatos, e muitos foram abrigados no posto templário cm Londres. Algumas das árvores do pomar templário tiveram de ser
cortadas para dar espaço às tendas dos candidatos, com seus servos e assistentes. A maioria deles fez a vigília na Abadia de Westmínster, mas muitos velaram por seu equipamento
cavalheiresco na igreja templária (é interessante notar a alta posição dos Templário» junto à família real inglesa nessa ocasião especial, apenas alguns meses antes de sua prisão
na França),
A cerimônia encheu a Abadia dc Wcstminster como nunca. Em meío à pressão esmagadora da multidão reunida para assistir ao espetáculo histórico, dois
homens
morreram sufocados diante do altar principal. Depois de o príncipe e cada um de seus novos companheiros terem
sido sagrados cavaleiros com uma batida de espada no ombro, toda a companhia se retirou para uma grande festa.
Ali, o rei fez um juramento de vingança pelo assassinato de Comyn, o Ruivo, e de não descansar até ter matado
Roberto Bruce. Ü jovem príncipe também fez um juramento de não dormir mais do que uma noite no mesmo
lugar até que a Escócia fosse reconquistada. Nas mesmas festividades estavam dois novos cavaleiros destinados a
representar papéis destrutivos no futuro do príncipe inglês: Roger de Mortimer, que se tornaria amante de Isabela
da França, depois de ela se casar com o futuro rei, e Hugo le Despenser, o jovem que anos depois seria o amante do
futuro rei junto com o qual acabara de ser ordenado.
Nesse meio tempo, na Escócia, Aymer de Valence estava atento às ordens de Eduardo I. Quando
avançou em direção de Perth encontrou Bruce, com seu recém-formado exército, ansioso para entrar cm
batalha com os ingleses. Os escoceses Ficaram orgulhosos de si mesmos quando os ingleses se recusaram a
lutar e, finalmente, retiraram-se do campo para relaxar e exultar sobre a relutância de seu covarde inimigo.
Completamente des- prevenidos, foram totalmente surpreendidos pelo repentino ataque do exército inglês
e, em sua confusão, foram facilmente derrotados.
Bruce se retirou para as montanhas e finalmente recuou com o resto de seu exército para um refúgio
nas ilhas ocidentais. Os escoceses dispersados, reunidos apenas dias antes e, no momento, sem líder, nada
tinham a fazer senão tentar voltar para suas casas. Pelo caminho, eram presas fáceis para os ingleses ainda
organizados. Cada seguidor de Bruce que caía cm suas mãos era executado, de acordo com as ordens do rei
inglês. O irmão de Bruce, Nigel, foi capturado e levado ao castelo de Berwick para ser publicamente
enforcado. Seus irmãos Tomás e Alexandre foram presos juntos e arrastados pelas ruas amarrados a caudas
de cavalos, até os patíbulos que os esperavam.
Aymer de Valence conhecia seu rei. Quando a condessa de Buchan foi capturada ele não a executou,
mas mandou pedir instruções a Eduardo. Elas não demoraram a vir. Ainda furioso por ela ter deixado seu
leal (Eduardo) esposo para colocar pessoalmente a coroa escocesa na cabeça de Roberto Bruce, o rei decidiu
dar à condessa uma coroa só para ela. Mandou construir uma gaiola, em forma de coroa, c colocá-la numa
das mais altas torres do castelo Berwick. Ali a condessa impenitente foi colocada e, quando fazia bom
tempo, a gaiola era pendurada do lado de fora em uma viga, para que todo mundo visse o preço de ofender
Eduardo da Inglaterra. Duas mulheres inglesas, interrogadas para se ter certeza de que não tinham
simpatia pela condessa, foram designadas para alimentá-la c limpá- la, para que cia vivesse o maior tempo
possível. O marido de Isabela, Comyn, o Negro, estava totalmente de acordo com sua punição e não fez
tentativa para tornar sua pena mais tolerável. Finalmente, após quatro anos na gaiola em forma de coroa,
a condessa foi transferida para confinamento em um monastério. Foi apenas após a morte de seu marido,
muitos anos depois, que seus amigos puderam interceder e conseguir sua liberdade.
O rei Roberto era culpado por obrigar seu povo a lutar antes de estarem prontos. Foi enquanto
pensava em seus erros naquele inverno, planejando como deveria, novamente, erguer a espada contra a
Inglaterra, que ele observou a aranha tentar e tentar até conseguir tecer sua teia. Qualquer que tenha sido
a fonte de sua inspiração, o rei escocês voltou à Escócia continental na primavera do ano seguinte, pronto
para a guerra. Eduardo I reuniu um exército inglês e, dessa vez, decidiu comandá-lo pessoalmente. Fraco
demais para cavalgar, acompanhou o exército em uma liteira. Não completou a viagem, morrendo no
caminho em julho de 1307, apenas três meses antes das prisões em massa dos Templários na França.
Se Eduardo I tivesse vivido, é duvidoso que Felipe da França fizesse, ou mesmo pudesse ter feito, sua
manobra contra os Templários. Em união com a Ordem do Templo, Eduardo seria uma força demasiado
poderosa, pois foi um dos reis mais fortes que a Inglaterra já teve. Felizmente, para Felipe, o jovem
Príncipe de Gales, que se tornara o rei Eduardo II, era, talvez, o pior e mais fraco monarca que já se
sentara no trono inglês.
Durante seu reinado, Eduardo I fizera tentativas consistentes de colocar a Escócia sob seu controle e,
assim fazendo, iniciara uma inimizade amarga contra os ingleses que duraria muitas gerações entre os
escoceses e cujos traços permanecem até hoje. Em sua tumba na Abadia de West- minster se lê: "Aqui jaz
Eduardo, o Martelo dos escoceses", mas o legado a seu filho foi uma Escócia ardente de novo fervor
patriótico sob um rei determinado a martelar um pouco o inimigo inglês. Ele também deixou uma Escócia
pronta para receber e abrigar qualquer homem de luta que fugisse da autoridade inglesa. Os Cavaleiros
Templários fugiriam dessa autoridade por causa de uma brutal supressão nascida no conflito que crescera
entre Felipe IV da França e os papas da Sagrada Igreja Romana.

QUATRO VIGÁRIOS DE CRISTO


pós a morte do papa Nicolau IV em 1292, os cardeais se dividiram em duas principais facções comandadas, as sim como haviam sido em
diversas ocasiões semelhantes, pelas duas principais famílias de Roma, os Colonna e os Orsini. Nenhuma delas podia ganhar a e leição,
A então fizeram aquilo que os cardeais faziam com freqüência: escolheram um homem velho, sem muito te mpo de vida e sem alianças com
nenhum dos lados. Nesse caso, escolheram Pietro Morrone, um padre camponês que nunca ocupara um alto ofício na hierarquia da Igreja.
Seus seguidores, chamados celestinos, levavam u m a existência austera de jejum e autoflagelação. Não tinham permissão de rir
porque, embora as escrituras digam que "Jesus chorou", em nenhum lugar se diz que ele ria. A vida solicitou Morrone, que não desejava ser
papa, mas suas objeções foram ignoradas e ele foi tirado de sua caverna nas montanhas e levado a Nápoles, onde se tornou o papa Celestino V.
Carlos II, o rei francês de Nápoles e filho de Carlos de Anjou, facilmente dominou o novo papa, que já experimentava as dificuldades da
senilidade. Era confuso e vago, mas manejável o bastante para nomear trinta novos cardeais, dos quais três eram napolitanos e sete, franceses.
Os cardeais logo notavam que haviam cometido um erro. O que eles pensavam que
seria um papado neutro acabou por cair sob a influência de uma terceira facção crescente, as monarquias francesas de França e Nápoles. Sua
resposta foi sugerir que Celestino V abdicasse. O mais ambicioso dos cardeais, Benedetto Gaetani, foi da mera sugestão para a coação e a
perseguição. Conta uma lenda que Gaetani fez um buraco na parede do quarto do papa atrás de uma tapeçaria. Dizem que ele falava através do
buraco durante a noite, dizendo que era um mensageiro de Deus que trazia a ordem do Todo-Poderoso para que Celestino deixasse o Trono de
Pedro. Finalmente, o papa anunciou que devia renunciar porque a idade e sua saúde frágil o tornavam incapaz de governar a Igreja
apropriadamente. Sua renúncia foi imediatamente aceita.
117
Novamente os cardeais tinham o problema de escolher entre o candidato dos Colonna e o dos Orsini.
Quando Gaetani se apresentou como candidato independente, não parecia ter muita chance. Porém, ele
se aliara a Carlos de Nápoles c aos interesses franceses, que, como resultado das recentes nomeações de
novos cardeais por Celestino, constituía, naquele momento, um voto de desempate. O grupo francês,
apoiando Gaetani, buscou aliança com os Orsini. Eles, por sua vez, estavam determinados a bloquear
qualquer candidato dos Colonna, e Bencdetto Gaetani se tornou o papa Bonifácio VIII.
Uma dificuldade ao reinado de Bonifácio VIII era que muitas pessoas não aceitavam que um papa,
divinamente escolhido, pudesse renunciar ao plano divino e por isso sustentavam que Celestino ainda era
o verdadeiro papa c Bonifácio, simplesmente um impostor. Peregrinos começaram a visitar o papa
anterior, entregando-se a ele e recebendo sua bênção. Isso era mais do que Bonifácio VIII estava
preparado para tolerar, então mandou capturar e aprisionar Celestino em uma pequena cela na qual o
espantado velhinho mal podia se esticar. Na primavera de 1296, Celestino morreu em sua cela.
Dependendo do ponto de vista, Bonifácio VIII foi o maior defensor do papado ou o mais egocêntrico
de todos os papas. Ele sustentava que tinha autoridade sobre todos os reinos e principados da cristandade
e sobre cada ser humano na face da Terra. Tinha também tempo para lidar com seus inimigos. A casa de
Colonna não apenas se opusera à sua eleição como papa como continuava a afirmar que, uma vez que
fora eleito enquanto Celestino ainda estava vivo, sua eleição era inválida. Pediram que deixasse o Trono
de Pedro. A reação de Bonifácio foi determinar-se ao extermínio da família Colonna de uma vez por todas.
Os dois cardeais Colonna foram destituídos de seus privilégios cie príncipes da Igreja. Bonifácio
condenou todos os Colonna, passados c presentes, e sugeriu que suas terras deviam ser confiscadas pela
Igreja. Também fez uma advertência pública: com a queda dos cardeais Colonna, o mundo inteiro
reconheceria que a Santa Sé sabia tratar seus inimigos. Os Colonna responderam com a acusação de que
Bonifácio não fora eleito de forma válida e por isso não era o verdadeiro papa. Além disso, citaram uma
lista de crimes e irregularidades das quais diziam que ele era culpado. A resposta de Bonifácio às acusações
foi declarar que as propriedades dos Colonna estavam confiscadas para o papado e decidir que nenhum
membro da família podia entrar para o sacerdócio pelas próximas quatro gerações. Caracterizou sua
batalha contra os Colonna como uma guerra santa e prometeu a todos os participantes do lado papal as
mesmas indulgências e privilégios que haviam sido dados aos cruzados. Os Orsini agarraram-se à chance
de, finalmente, eliminar seu pior rival e foram acompanhados por milhares de outros que queriam as
recompensas papais. Cada castelo, cidade e casa fortificada dos Colonna caiu diante do exército papal até
que apenas
Palestrina, sua maior fortaleza, ainda pertencia a eles. Nessa posição, quase inexpugnável, os dois cardeais
Colonna haviam se refugiado. Após algum tempo, Bonifácio rompeu o cerco prometendo pleno perdão, a
segurança pessoal dos ocupantes e a indulgência para com sua propriedade. Porém, não teve problema em
quebrar as três promessas e a família Colonna foi quebrada como poder — ou ao menos assim parecia.
Bonifácio VIII passou a impor sua autoridade sobre todos os Estados da Europa, com sucesso confuso.
Encontrou resistência de Eduardo I da Inglaterra, o que diversas vezes levou a situações difíceis, mas o
maior obstáculo à ambição do papa era Felipe IV da França. Em 1296, Felipe impusera uma taxa sobre a
propriedade da Igreja e seus lucros na França para ajudar a financiar sua constante guerra com a
Inglaterra. O papa denunciou essa taxa como um mau uso do poder secular, afirmando que nem a
propriedade e nem os lucros da Igreja podiam ser taxados sem a permissão específica de Roma, e exigia a
devolução do valor. Felipe respondeu com uma nova lei proibindo a exportação de ouro e prata da França
sem sua permissão expressa, o que efetivamente impediu que substanciais lucros da Igreja francesa
fossem enviados a Roma. A proibição feria e, em 1297, chegou-se a um acordo benéfico para Felipe.
Porém, em dois anos, Bonifácio encontrara um modo de aumentar sua fortuna e seu poder sem
necessidade da cooperação de príncipes seculares. A virada de ura século fora sempre uma época de
celebração religiosa, mas Bonifácio transformou 1299 cm um grande jubileu. Prometeu a absolvição de
todos os peregrinos que viessem a Roma por 15 dias naquele ano, e eles vieram em uma onda que alguns
historiadores dizem ter sido de mais de 2 milhões de visitantes. O povo de Roma nunca tivera tantos
negócios com peregrinos, nem jamais vira tanto dinheiro entrar na cidade. Esperava-se que a peregrinação
trouxesse presentes à Igreja, e eles vieram em tal corrente que na igreja de São Paulo os padres ficavam
atrás do aliar juntando o ouro e a prata com rodos de madeira, tão rápido quanto eram depositados por
peregrinos generosos que conseguiam abrir caminho até o altar. Bonifácio estava radiante. Dizem que ele
vestiu as insígnias do antigo Império Romano e se apresentou como César, mantendo duas espadas de pé
diante de si, simbolizando sua dupla autoridade sobre os mundos espiritual e secular, com arautos diante
dele, gritando: "Veja! Eu sou César!". Intoxi- cado e incentivado pela nova riqueza, Bonifácio retornou
sua batalha com Felipe da França.
Felipe muito fizera para desafiar e irritar Bonifácio. Entre outras coisas, tomara a terra da Igreja
para si e dera refúgio aos piores inimigos pessoais do papa, os Colonna. Bonifácio chamou o clero para um
concilio em Roma, a fim de discutir o problema entre a Igreja e a França. Preveniu Felipe de que não
interferisse, mas este ignorou, chamando, ele próprio, um grande conselho. Foi a primeira vez que o
Terceiro Estado, os cidadãos da França, havia sido chamado. Os primeiros dois Estados, o clero e a
nobreza,
sempre haviam bastado, mas agora o povo devia estar alinhado caso o rei tivesse de se confrontar
diretamente com o papa. Os nobres e comuns rapidamente se juntaram ao rei e apoiaram a opinião de que
Felipe obtiven seu trono diretamente de Deus, não do papa. Rogaram aos cardeais para que repreendessem e
disciplinassem Bonifácio. O clero francês reafirmou sua lealdade a Felipe, mas alegou que eles também
deviam lealdade a Roma e assim deviam responder ao chamado do papa para o concilio em novembro. O rei
simplesmente se recusou a permitir que qualquer membro do clero na França participasse de um concilio
reunido para criticar seu reino.
Diante desse último desafio, e contra o conselho de diversos cardeais, Bonifácio publicou sua bula
histórica, Unam Saneiam, que afirmava a superioridade do papa sobre todos os governantes seculares e que,
além disso, "é uma condição de salvação que todos os seres humanos sejam súditos do pontífice de Roma".
Essa bula era e ainda é a mais forte afirmação da supremacia papal jamais apresentada por qualquer papa.
Bonifácio alertou o clero francês de que, se eles não comparecessem ao concilio em Roma, estariam
sujeitos à sua ira e disciplina. Felipe os preveniu de que se algum deles comparecesse, teria toda a sua
propriedade na França confiscada. Alguns clérigos franceses correram o risco, mas o concilio fracassou por
falta de quórum.
Como faria muitas vezes no futuro, o rei Felipe apelou para os talentos especiais de Guilherme de
Nogaret, que diversos historiadores descrevera como "advogado", "ministro" e "agente" de Felipe. Em abril
de 1303. Nogaret propôs a um concilio na França que Bonifácio fosse proclamado inapropriado para se
sentar no Trono de Pedro. Seu argumento dizia que i Igreja estava casada com o papa Celestino V e que
Bonifácio cometera adultério ao roubar a noiva do papa anterior enquanto ele ainda estava viva Três meses
depois, Nogaret apareceu novamente, dessa vez com uma lista de 29 acusações contra o papa. Acusou-o de
heresia, sodomia, blasfêmia, roubar da Igreja para enriquecer sua família, revelar segredos do confessi-
onário, assassinato e assim por diante, incluindo a extraordinária acusação de relações sexuais secretas com
um pequeno demônio que vivia no anel do papa. Esse documento circulou pela França para angariar apoio
popular para o rei e, nesse meio tempo, Felipe fez apelo a todos os príncipes da cristandade para derrubar
Bonifácio, com pouco resultado. Na França, porém, ele tinha pleno apoio. Quase toda a nobreza endossava a
idéia de derrubá-lo, assim como os vinte bispos, grande pane do baixo clero e representantes franceses dos
Cavaleiros Templários e dos Hospitalários.
Bonifácio ainda tinha uma cana na manga. Em abril de 1303, ele proclamou anátema, a mais extrema
forma de excomunhão, contra Felipe, pessoalmente. Para o aborrecimento do papa, sua proclamação teve o
efeito indesejado de aumentar a antipatia e a raiva do povo francês. Anunciou então que, a 8 de setembro
de 1303, ele pretendia colocar todo o reino da
França sob interdito. O interdito não era excomunhão, mas antes uma cenoura eclesiástica. Sob essa
censura, o papa podia impedir cada cristão na França de realizar batismo, sagrada comunhão, absolvição e
até mesmo enterro eclesiástico. Essa foi a ameaça principal a Felipe, porque podia levar à erupção de
rebeliões ou mesmo a uma revolução em larga escala. Tomou essa decisão de impedir o interdito por
quaisquer meios possíveis e 2 tarefa foi dada ao agente de confiança de Felipe. Guilherme de Nogaret. A ele
uniu-se, entusiasticamente, Sciarra Colonna, alegre em atingir o mais odiado inimigo de sua família..
Bonifácio planejava baixar a proclamação de interdito de seu próprio palácio ancestral em Anagni, na
Itália. Na noite anterior em que o anúncio seria feito, Nogaret e Colonna, que haviam recrutado uma pe-
quena força local, invadiram Anagni, e muitos de seus habitantes fugiram ante sua aproximação.
Encontraram o palácio quase abandonado e facilmente capturaram o papa, de 86 anos. Por três dias.
praticaram abusos verbais e até físicos sobre o velho. Colonna queria matar Bonifácio imedia- umente, mas
Nogaret o impediu. Finalmente, no quarto dia, o povo cie Anagni retornou para resgatar o papa e expulsar
os invasores. O papa voltou a Roma muito abalado mental e fisicamente e morreu algumas semanas depois.
Conta uma lenda que ele se matou batendo a cabeça contra a parede de pedra de seu quarto. Outra lenda
conta que as mãos de alguma outra pessoa guiavam sua cabeça contra a parede.
Não houve repercussão nem condenação por outros príncipes da bailai manipulação de Felipe sobre o
supremo pontífice. Talvez vissem em Felipe um defensor em suas próprias lutas para se manter livre do
controle papal. Sem brigas ou discussões, o sucessor de Bonifácio VIII foi eleito em iez dias. O novo papa
escolheu o nome de Benedito XI. Começou seu reino papal com uma atitude conciliatória para com Felipe IV
da França. Fez concessões e o rei aceitou essas concessões, mas pediu mais e sua relação se deteriorou. Felipe,
ainda consumido pelo ódio contra o papa morto, pediu que Benedito XI convocasse um concilio para dar
seguimento às acusações feitas contra seu predecessor. O papa se enfureceu e, em julho de 1304, publicou
uma severa repreensão contra todos os participantes do ataque a Bonifácio em Anagni e ordenou a
excomunhão dos participantes. Felipe se preparou para outra batalha papal, mas poucas semanas após sua
condenação do "crime de Anagni", o papa Benedito XI estava morto. Dizem alguns que ele fora vítima de
envenenamento sob ordens de Felipe.
A seguir, Felipe voltou sua atenção ao homem que se tornaria o principal ator do drama da supressão
brutal dos Cavaleiros do Templo, Bernardo de Goth, arcebispo de Bordeaux. A relação entre De Goth e
Felipe não se baseava em nenhuma cooperação anterior e eles não gostavam nem um pouco um do outro.
Ela não nascera de um desejo de resolver as diferenças entre Igreja e Estado; De Goth se alinhara
consistentemente com Bonifácio contra Felipe. Simplesmente, Felipe queria um papa que pudesse controlar
e Bernardo de Goth desejava, mais do que qualquer coisa, ser papa. Eles
fizeram um acordo.
Ardendo de ambição, o arcebispo queria — a qualquer custo — as
honras, a riqueza e o poder que seriam seus se fosse vigário de Cristo. Felipe tinha a nomeação em suas mãos,
porque, após quase um ano de negociações, discussões e politicagem, os cardeais ainda não haviam con-
cordado sobre o sucessor de Benedito XI. Havia agora três facções sólidas. Às antigas casas romanas de
Orsini e Colonna (a última voltara a ter influência) se acrescentavam os cardeais franceses. Para quebrar
essa paralisação, decidiram procurar um candidato não-alinhado aos cardeais, e a facção francesa fez o
conclave adotar um conceito original: dentro de quarenta dias os cardeais franceses elegeriam um de três
candidatos nomeados por seus oponentes.
O arcebispo de Bordeaux tinha grandes chances de ser um dos três nomeados por causa de seu histórico
de oposição a Felipe e seu apoio a Bonifácio. Ele não devia nenhuma fidelidade a Felipe porque, naquela
época, Bordeaux era território inglês. Conferindo a lista, Felipe sentiu que tinha seu homem, pois
Bernardo de Goth superaria qualquer inimizade e desafeto anterior para poder ser eleito papa. Com
controle completo dos cardeais franceses, o rei francês podia designar pessoalmente qual dos três candida-
tos se tornaria o próximo supremo pontífice.
Restava apenas o problema de fazer um acordo com De Goth. Felipe foi fiel ao apoio dos Colonna e
pediu o restabelecimento de seus dois cardeais. Todos os que tinham lutado contra Bonifácio e haviam sido
punidos com excomunhão ou censura deveriam ser completamente absolvidos. As bulas de Bonifácio
tinham de ser apagadas e o papa morto deveria ser oficialmente condenado. Felipe deveria ter o direito de
taxar o clero francês em até 10% de seu lucro bruto por um período de cinco anos (dizem que houve mais
um acordo, mantido secreto, de que De Goth cooperaria na supressão dos Cavaleiros Templários). O
arcebispo concordou e fez um juramento solene de manter sua parte no negócio. Como indicação do ver-
dadeiro sentimento entre os dois homens, Felipe não ficou seguro apenas com o juramento sagrado e exigiu
que o arcebispo entregasse seus irmãos e dois sobrinhos como reféns para garantir o acordo. A 14 de
novembro de 1305, Felipe cumpriu sua parte na barganha e Bernardo de Goth foi unanimemente eleito
para o Trono de Pedro. Assim começou o reinado do papa Clemente V.
Durante seu reinado. Clemente V preparou o palco para "o cativeiro da Babilônia" do papado fora de
Roma, nomeando 24 cardeais, dos quais 23 eram franceses e muitos deles eram seus parentes. Felipe
conseguiu interferir bastante na nomeação dos cardeais, pois, embora consumido de ambição. Clemente V
era um covarde fisicamente. Enquanto prosseguia com sua comitiva de sua casa para a Itália, nunca ficou
muito tempo sem ao menos um indicio da intenção de Felipe de mantê-lo sob sua guarda e
controle. Ele vagou pelo sul da França, ostensivamente dirigindo-se a Roma mas nunca atingiu o destino.
Em vez disso, em 1309 assentou residência em Avignon. Esta nao era parte da França, mas da Provença,
que pertencia a Jane de Nápoles. Ela precisava de dinheiro, de forma que vendeu Avignon ao papado por
80 mil florins de ouro. Os papas de Avignon construíram um palácio e fortaleza e a corte papal se
estabeleceu ali para uma estada de 75 anos, período durante o qual apenas um papa chegou a fazer uma
visita a Roma.
Clemente cumpriu a maior parte de seu acordo com Felipe, mas, constantemente, evitava uma
condenação formal de seu confrade papa, Bonifácio VIII, resistência pela qual Felipe regularmente o
repreendia e ameaçava.
A família Colonna emergiu mais forte que nunca. Suas terras foram devolvidas e as cortes de Roma
exigiram que a soma de 100 mil florins de ouro fosse paga a eles pelos Orsini e outros partidários de
Bonifácio VIII.
Não se deve pensar que a luta pelo poder entre autoridades seculares e espirituais era limitada à
batalha entre a Santa Sé e o reino da França. Os reis medievais eram autocratas. Acreditavam que todas as
pessoas e propriedades de seus domínios estavam sujeitas a eles e que a complexa engrenagem ascendente
de vassalagem feudal parava no trono, que tinha poder sobre todas elas. Em contraste, a Igreja sentia-se
acima e dissociada de qualquer autoridade secular. A Santa Sé assumiu o direito de criticar, julgar e
castigar toda autoridade secular e não admitiria quaisquer circunstâncias pelas quais pudesse ser de outro
modo. Em Unam Saneiam, Bonifácio VIII havia resumido tudo: cada ser humano na face da Terra estava
sujeito ao pontífice romano. O poder espiritual, sendo concedido diretamente por Deus, era de todas as
formas superior ao secular, que nascera do
pecado original.
Os príncipes seculares não concordavam. Nenhum monarca absoluto poderia ficar confortável com
um batalhão de clérigos em seu reino, donos de vastas propriedades e com simpatias e lealdades
prendendo-os a um poder forasteiro. Era como (e às vezes era exatamente isso) dar hospitalidade a um
exército de espiões para um inimigo estrangeiro. Faziam-se compromissos e eles eram constantemente
alterados. Príncipes precisavam de dinheiro e sempre olhavam com inveja e raiva a corrente infinita de
riqueza jorrando de suas terras para a Santa Sé. Em alguns acordos eles, às vezes, tinham permissão para
taxar esse lucro, mas somente em ocasiões muito especiais e apenas com permissão. No domínio secular, a
Igreja não só possuía mais de 30% da superfície da Europa, como mantinha cortes e prisões eclesiásticas
separadas e independentes.
Freqüentemente, chegava-se a um acordo que dava a um príncipe o direito de aprovar, ou mesmo
designar, os portadores de ofícios importantes da Igreja em seus domínios. Era um direito
cuidadosamente guardado. Um exemplo chocante de quão cuidado se tinha é citado por Edward Gibbon
em seu Declínio e Queda do Império Romano. Ao relatar o incidente na vida de Geoflrey, filho do rei de Jerusalém e
pai de Henrique II da Inglater- n Gibbon escreve: "Quando ele era mestre da Normandia, o capitulo de
Seez sem o seu consentimento, elegeu um bispo: e por isso ele ordenou que todos eles, junto com o bispo
eleito, fossem castrados, e fez com que seus testículos lhe fossem apresentados em uma bandeja. (O
próprio comentário de Gibbon sobre esse ato de crueldade é inacreditável. Ele afirma: "Sobre a dor e o
perigo eles poderiam, com justiça, se queixar; porém, já que fizeram voto de castidade, ele os privara de
um tesouro supérfluo"!) I
Com o papa entrincheirado em Avignon, sob a forte influência, se não a dominação, do monarca
francês, a questão do poder temporal foi um tanto abatida e as energias da Igreja se voltaram para a
aquisição de riqueza, luxo e engrandecimento pessoal. Derramou-se ouro em mobiliário, trajes suntuosos,
centenas de servos de libré e cerimonial elaborado. O dinheiro era tudo o que importava e tudo estava |
venda. Os lucros eram de quase 100%, porque o que se vendia eram direitos e não bens materiais.
Indulgências, isenções, honras, tudo vinha junto. Clemente V inventou as "anatas". taxas baseadas em
porcentagens (até 100%) do primeiro ano de lucro dos benefícios eclesiásticos. Diante dessa obrigação, os
nomeados para esses bispados e outros benefícios passavam o problema para os que estavam abaixo,
explorando cada propriedade por cada centavo que ela pudesse ou não gastar, deixando freqüentemente
um clero destituído na base da pirâmide.
O prestígio 11 estatura pessoal se tornaram os itens mais importantes para o alto clero. Reuniões
sem-fim eram realizadas para definir a relação exata da hierarquia da Igreja com a nobreza secular.
Estabeleceram-se protocolos sobre a posição em procissões e à mesa. O ego definia a honra 1 a Igreja
exigia para si cada direito, privilégio e gesto concebível de respeito. Nem mesmo os jogos das horas livres
estavam isentos. Os cruzados haviam trazido o jogo persa do xadrez, um jogo de tabuleiro que era uma
batalha entre dois reinos | que levava | captura ou morte de um dos reis (a exclamação moderna
"xeque-mate!" é uma corruptela do persa "Shakh Matl", que significa "o rei está morto!") Cada peça no
xadrez se move de acordo com sua habilidade; os oito peões protegem toda a formação, como lanceiros a pé,
movem-se um passo por vez, exceto o movimento de abertura, quando podem se mover duas casas, dc
acordo com uma comum tática militar persa na qual o lanceiro corre para fazer um piquete aguçado na
frente do batalhão. A torre ou castelo era originalmente um elefante com uma câmara ou "castelo"
fortificado em suas costas; o elefante se movia o quanto quisesse, mas apenas em linha reta. A seguir,
vinham os cavai arianos, que os cruzados transformaram em cavaleiro. Ele trotava, mo- vendo-se duas
casas em uma direção e uma para o lado. Em seguida, vinha a esquadra, representada por um navio, que
podia apenas avançar em cruzeiro, de forma que o navio só se movia em diagonal. No centro estava o rei,
encarregado de sua família, seu pessoal administrativo e a maior parte
de todo o seu tesouro, que ele tinha de levar ao campo de batalha como modo de protegê-los. Tão
carregado, o rei se movia lentamente, apenas uma casa por vez. A rainha, por outro lado, era guardada
pela cavalaria ligeira e podia se mover em qualquer direção tanto e tão rápido quanto necessário. Mas,
afinal, o que tudo isso tinha a ver com a Sagrada Igreja Romana? Simplesmente era intolerável que
houvesse um jogo popular que lançava nação contra nação sem um papel para a Igreja. Além disso, ape-
nas a posição próxima à família real seria suficiente, de forma que os navios se tornaram bispos e até hoje
todo jogador de xadrez move seu bispo na diagonal pelo tabuleiro, ziguezagueando como um navio em
busca de vento. Em suma, a Igreja medieval se via como o principal centro de poder. Reinos seculares,
ducados e condados eram centros de poder. Ordens sagradas, como os Cavaleiros Templários, eram
centros de poder. A vida real era um jogo de xadrez, mas o nome verdadeiro do xadrez era poder.
Felipe IV da França jogava o jogo do poder muito bem, mas ele estava longe de terminar. Com
Bonifácio fora do caminho e Clemente V substancialmente sob seu controle, ele podia continuar com a
questão principal que causara a maior parte de sua rixa com a Igreja: a necessidade de mais dinheiro para
sua guerra territorial com a Inglaterra. Ele tinha dívidas pesadas, principalmente com os Cavaleiros
Templários, que eram os principais banqueiros da Europa. Eles eram incrivelmente ricos, com
propriedades, moinhos e monopólios pelos quais não pagavam ou pagavam poucas taxas. Era a chance de
Felipe de obter uma dupla recompensa: o cancelamento de suas dívidas e a pilhagem do tesouro
templário. Mesmo com o novo papa sob sua influência, mesmo com a oportuna morte, em julho de 1307,
do rei inglês Eduardo 1. único monarca europeu que poderia ter frustrado sua ambição, a supressão dos
Templários demandaria planejamento cuidadoso, propaganda habilidosa e ação ousada. Era um grande
risco e Felipe era provavelmente o único homem na cristandade com a ambição e a coragem para tentá-lo.
Começou a fazer planos.

"NÃO POUPEM MEIOS CONHECIDOS DE TORTURA"


O chcgar a Marselha, Jacques dc Molay decidiu nflo ir a Poiticrs,

A como o papa lhe instruíra, mas foi diretamente a seu templo -for- taleza cm Paris.
Ignorando também as ordens do papa dc viajar incógnito, decidiu lembr ar o mundo de sua
rique/.a e poder e desfilou em Paris como um paxá do Oriente. Sua escolta consistia de
sessenta Cavaleiros Templários com seu servos e assistentes, mais doze cavalos dc carga
sobrecarregados com o tesouro de 150 mil florins de ouro.
De Molay estava convencido de que seria muito bem-vindo em Paris pelo rei Felipe, que devia
muitos favores aos Templários. Eles apoiaram o rei em suas confrontações com o papa Bonifácio
VIII, haviam emprestado 0 dinheiro de que precisava para o dote de sua fil ha, a princesa Isabela.
que havia sido prometida ao futuro rei Htluardo II da Inglaterra. Eles lhe perliram 0 uso do
templo de Paris para o tesouro da França. Durante os ataques a Paris no ano anterior, eles
abrigaram Felipe no templo dc Paris por três dias, mantendo-o seguro da multidflo enraivecida. O
rei chegara a pedir ao Grao-Mestrc De Molay que fosse padrinho de seu filho Roberto. Certa-
mente, ninguém merecia mais gratidão e respeito do rei Felipe, o Belo, do que a Ordem do Templo c
seu vencríível líder, e, certamente, Dc Molay poderia contar com o apoio de Felipe no problema
que perturbava o Grflo-
Mestre.
Como parte do planejamento de uma nova Cruzada, o papa indicara que queria discutir a
proposta de os Templários e os Hospitalários se unirem em uma só ordem, idéia que surgira cada
vez mais freqüentemente nos últimos anos. Apenas dois anos antes, um frade dominicano, Ramon
Lull, escrevera um plano dc fusflo que despertara muito interesse. Ele propunha que os
Cavaleiros do Hospital de Sflo Joflo dc Jerusalém e os Cavaleiros do Templo dc SulomOo se
combinassem em uma única Ordem que se chamaria
Os Cavaleiros de Jerusalém, e que todos os governantes da Europa combinassem suas forças cruzadas sob
um único comandante conhecido como o Rex Bellator, o "Rei da Guerra". Poucos anos antes, um padre
francês, Pierre de Bois, oferecera um plano escrito para a recuperação dos lugares sacros chamado De
Recuperatione Sanctae, no qual ele citava a eficiência que se conseguiria combinando as ordens militares.
O papa respondera favoravelmente ao conceito de fusão. Os Hospitalàrios trouxeram nova esperança
para uma Cruzada e novo respeito para eles próprios com sua recente invasão da ilha de Rodes e o papa se
inclinava para a nomeação de Foulques de Villaret, Grão-Mestre dos Hospitalàrios, para Grão-Mestre da
proposta combinação.
Felipe, também ele, via essas propostas de fusão com bons olhos, mas de um ponto de vista totalmente
diferente. Ele propôs que o papa e os reis da França fossem nomeados Grão-Mestres hereditários das
ordens combinadas e que ele próprio fosse nomeado Rex Bellator, com pleno acesso à riqueza abundante das
ordens unidas. A única pessoa que parecia disposta a favorecer esse plano era o próprio Felipe, de forma
que, como alternativa, ele desenvolveu um plano para derrubar a Ordem Templária. Suas propriedades
mais valiosas e seu maior tesouro estavam na França e ele pretendia expropriar todos para si.
Adicionalmente, livraria-se também de suas imensas dívidas com os Templários, o que para ele era
importante, uma vez que sua Cruzada pessoal para adquirir as posses continentais dos reis ingleses havia
secado seu tesouro. Eduardo I fora um inimigo formidável, mas seu filho efeminado era outra coisa. Felipe
tinha certeza de que chegara a sua hora e que ele não podia simplesmente deixar passar essa
oportunidade.
Jacques de Molay não sabia das ambições pessoais de Felipe e, assim, deve ter esperado o apoio dele
para o documento que o Grão-Mestre preparara para o papa, no qual ele expunha todas os razões pelas
quais os Templários eram opostos a qualquer conceito de fusão com os Hospitalàrios. Sua teimosa recusa
em mesmo considerar tal movimento sem dúvida teve muito a ver com os acontecimentos das semanas que
se seguiriam, manejados pelas mãos de Felipe.
Certamente, De Molay não tinha idéia do desastre iminente que viria pelas mãos do rei, que, com um
método digno da máfia, festejou e agradou ao homem que ele planejava destruir. Esse plano fora armado
por Guilherme de Nogaret, o mesmo homem que planejara o rapto do papa Bonifácio VIII. A mãe e o pai
de Nogaret haviam sido atirados à fogueira como heréticos albigenses e ele não perdia a oportunidade de
se vingar da Igreja romana. Na preparação para seu ataque aos Templários, Nogaret colocara 12 de seus
homens como espiões em vários postos da Ordem.
Inconsciente dos complós contra ele, De Molay foi ao palácio papal e submeteu aos planejadores
papais as sugestões templárias para a condução de uma nova Cruzada. Recomendou que os planos
definitivos para a invasão da Palestina permanecessem em total segredo e não fossem nem
mesmo escritos. Pessoalmente, ele indicava que suas sugestões secretas eram tão adequadas a uma guerra
bem-sucedida que apenas as revelaria para o papa em pessoa. Quando surgiu o esperado assunto de uma
fusão entre os Templários e os Hospitalários, De Molay estava pronto. Apresentou um documento formal
intitulado De Uniõne Tenipli et Hospitalis Orditium ad Clementum Papam Jacobi de Molayo relatio, um
trabalho que ele podia discutir apenas em termos gerais, porque ele próprio era completamente
analfabeto. Não podia nem mesmo ler o texto de seus próprios argumentos.
De Molay usou também esse encontro para tratar dos rumores que ele ouvia desde seu retorno a
Paris, de que havia sérias impropriedades dentro da Ordem do Templo. Ele sugeria que o inquérito papal
formal fosse implementado, o que, certamente, derrubaria quaisquer críticas contra sua fraternidade
sagrada.
Por todo o tempo em que o Grão-Mestre afirmava sua confiança em si próprio e na Ordem
Templária, o plano para derrubá-lo estava em marcha. Como parte desse plano, um antigo Cavaleiro
Templário, que subira até o posto de prior de uma preceptoria templária na França antes de ser expulso
da Ordem, fora recrutado para uma engenhosa representação. Foi posto na prisão em Toulouse com um
homem sentenciado à morte. Para manter a provisão eclesiástica de que membros do catolicismo laico
deveriam confessar um outro na ausência de um sacerdote, os dois prisioneiros ouviram a confissão um
do outro. O antigo Templário confessou práticas blasfemas e repugnantes que ele supostamente havia
testemunhado dentro da Ordem Templária. A chocante confissão foi usada para preparar a lista de itens
pelos quais os prisioneiros Templários foram subseqüentemente "interrogados" pelos torturadores da
Inquisição. Novos membros, disse ele, como parte do ritual de iniciação, tinham de cuspir ou pisar na
cruz. Os Templários eram obrigados a colocar sua Ordem e sua riqueza acima de qualquer outro
princípio, temporal ou religioso. Qualquer membro suspeito de revelar os segredos da Ordem era
secretamente assassinado. Os Templários zombavam dos sacramentos da Igreja e absolviam os pecados
uns dos outros. Mantinham contatos secretos com muçulmanos. Permitiam e encorajavam a atividade
homossexual entre membros. Haviam perdido a Terra Santa da cristandade por causa de sua ganância
insaciável. Eles adoravam ídolos, usualmente na forma de uma cabeça ou de um gato.
O outro prisioneiro (que era também um embuste) pediu a seus carcereiros que lhe permitissem
passar adiante essa informaçao vital. Ela toi devidamente entregue ao rei, que a repassou ao papa com a
sugestão de que se implementasse um inquérito formal. Ambos os prisioneiros toram
recompensados e dispensados.
Nogaret tinha muito a fazer. A logística de obter correntes para 15 mil
homens e arranjar lugar para seu aprisionamento já sena bastante dificil em
público, mas o problema era multiplicado pela necessidade dc total segredo. Esse segredo era importante
porque o plano era prender cada Templário nu França exatamente no mesmo tempo.
Como operação secreta, o conceito de apreensfio simultânea nao era totalmente novo a Nogaret. Em
um plano similar no ano anterior, ele efetuara a captura e o encarceramento de cada judeu na França cm
um dia, 22 de julho de 1306. Algumas semanas depois, de acordo com o plano do mestre, os judeus foram
todos exilados da França, mas sem sua propriedade. Seu dinheiro foi levado diretamente ao tesouro de
Felipe e fizeram-se arranjos para leiloar seus bens móveis. Anunciou-se então que a Coroa da França
também tomara posse dc suas contas a receber, c o Estado se tornou uma agência dr coleta multo
eficiente, exigindo que todas as somas devidas aos judeus cia França fossem pagas ao proprietário legal
dessas contas, o tesouro da França. Dc forma correspondente, c claro, todas as dívidas do Estado para com
os judeus foram canceladas, assim como Felipe esperava
que, com a supressão do Templo, todas as dívidas do Estado com os Templários também seriam
canceladas. A prisão simultânea de cada Templário exigiria uma operação similar, mas ainda mais
complexa, porque o grupo a
ser preso compreendia muitos homens com experiência em luta. Decidiu-se manobrar enquanto eles
estivessem dormindo. Ordens seladas foram enviadas ao sencscais da França, com instruções para nao as
abrir até 12 dc outubro.
Há amplos indícios de que De Molay e seus principais oficiais nao tinham como nao estar prevenidos de
que algo estava sendo planejado. Um cavaleiro que se empenhou em deixar a Ordem foi elogiado por sua
decisão pelo tesoureiro do templo dc Paris, que lhe disse para agir com presteza porque uma catástrofe
para a Ordem era iminente. O Mestre Templário de Paris enviou uma ordem para todos os postos
templários na França para reforçar a segurança e nao revelar nada a ninguém, sob nenhuma circuns-
tância, sobre os rituais secretos e encontros da Ordem. Diversos ex-Templários foram colocados sob prisão
preventiva pelo Estado por medo dc que seriam mortos se suspeitassem que eles poderiam revelar segredos
da Ordem. Infelizmente, para a Ordem, Jacqucs de Molay nao tomou nenhuma atitude, cegamente sereno
nu consciência trazida por sua riqueza e poder. Afinal de contas, ele respondia a apenas um homem na
face da Terra, e somente este poderia fazer mal à Ordem. Por isso, nao parecia haver perigo. Os
Templários nao eram sujeitos às leis de nenhuma terra, nao podiam
ser punidos por qualquer governante secular por nenhuma ofensa e, como
uma Ordem sagrada, estavam isentos de tortura. Acreseentem-se sua enorme riqueza e um exército pronto, c
que perigo podia haver?
For ocasiao da volta dc Jacqucs de Molay a Paris após sua visita ao papa, ele foi ainda mais acalmado
por uma grande honra concedida pelo rei. Em 12 de outubro dc 1307, o Grâo-Mcstre estava entre os
maiores
nobres da Europa que carregaram o caixão no funeral da princesa Catari na, a falecida esposa do
irmão do rei Felipe, Carlos de Valois. Enquanto De Molay realizava esse sombrio serviço na
companhia dos poderosos, os sencscais de toda a França abriam suas ordens seladas.
Quando De Molay se retirou naquela noite, nao havia modo pelo qual cie poderia ter sabido que
logo antes da aurora do dia seguinte aconteceria algo dc dimensões tão esmagadoras que a data,
sexta-feira 13, viveria por séculos nas mentes de milhões dc pessoas como o dia mais azarado do ano.
E realmente o loi para a Ordem do Templo, quando as tropas dc Felipe se abateram sobre cada
posto templário em uma área dc 150 mil milhas quadradas para acorrentar 15 mil homens com
grilhões que haviam sido feitos especialmente para eles.
No dia seguinte, Nogaret iniciou a segunda parte de seu plano. Fizc - ram-sc anúncios aos
cidadãos locais cle toda a França apresentando acusações chocantes contra os Templários; a
principal delas era heresia e a rejeição dc Cristo, exemplificadas pelo ritual de cuspir e andar sobre
a cruz. A sodomia, essa Fiel companheira dc quase todas as acusações medievais de heresia, era
alegada, junto com os "beijos obscenos" exigidos dc cada novo Templário qua ndo de sua iniciação.
As acusações foram elaboradas em cima dos púlpitos da França no dia seguinte, tudo calculado
para, primeiro, chocar e, em seguida, ganhar o apoio da população em geral para as pri sões
templárias.
Quando as notícias das prisões chegaram a ele, o papa Clemente V ficou furioso, nao por causa
de alguma simpatia pelos Templários, mas pela usurpação da autoridade papal, o único poder que
legalmente poderia fazer essas prisões. Felipe justificou suas ações alegando ter recebido a
autoridade do papa para investigar as acusações contra os Templários. Clemente V aparentemente
aprovara tal investigação, mas sc referira a uma investigação feita por um conselho nomeado, nao
por meio de prisões em massa e tortura. Felipe também se lembrou de uma i nstrução papal que
ordenava que todos os príncipes cristãos dessem toda a assistência possível ao Santo Ofício da
Inquisição, argumentando que, como rei da França, ele simplesmente prestara a assistência
requerida ao Grande Inquisidor da França (que era também o confessor pessoal dc Felipe).
O papa respondeu com um protesto formal ao rei Felipe. Como papa, era o único a ter
autoridade sobre os Templários e não fora consultado no assunto de sua captura e seu
aprisionamento. A riqueza tcmplária confiscada por Felipe deveria servir para ajudar a financiar
uma nova Cruzada (o que provavelmente significa que a proposta fusão com os Hospitalários já
havia sido decidida). Por escarnecer da autoridade do papa, o grande inquisidor dominicano da
França, Guilherme Imbcrt, foi afastado do ofício. Finalmente, o papa exigiu a imediata cessação dos
procedimentos contra os Templários.
A reação de Felipe à ordem papal foi iniciar uma campanha de propa ganda contra Clemente V
ao povo da França, seguida por uma visita ao
papa com um pequeno exército às costas. Felipe denunciou o papa com acusações de brandura para com os
heréticos, o desejo de ter a riqueza templária para si e sua família e fazer amizade com os inimigos da
Santa Madre Igreja. A discussão continuou dia após dia, com o exército de Felipe acampado nos arredores
da cidade. Nunca saberemos a que acordo eles chegaram, mas em algumas semanas o papa e o rei estavam
em completa harmonia, e o grande inquisidor foi restituído a seu terrível ofício. A 22 de novembro.
Clemente V promulgou a bula Pastoralis Preeminentae, na qual ele elogiava o rei Felipe, confirmando a
posição papal oficial de que as acusações contra os Templários pareciam verdadeiras e conclamando
todos os monarcas da cristandade a prender e torturar todos os Templários em seus domínios. Daquele dia
em diante, o papa perseguiu os Templários com entusiasmo.
Enquanto toda essa manobra política progredia, desde as prisões na alvorada de 13 de outubro até a
publicação da bula papal a 22 de novembro, os Templários aprisionados na França estavam sendo
torturados para obter confissões de heresia. A tortura para a confissão envolvia a fina arte de infligir toda
a dor possível até atingir a beira da morte, parando apenas porque a morte excluía a possibilidade de
confissão, que era o objetivo do exercício. Como indicação da atividade temerária praticada pelos bons fra-
des da Inquisição em parar logo antes da agonia mortal, trinta e seis Templários morreram nos primeiros
dias depois do início das torturas. Claro, havia grandes diferenças entre os homens que estavam sendo
torturados. Fisicamente, alguns eram jovens na flor da idade e outros eram bem velhos. Culturalmente,
alguns eram cavaleiros guerreiros, alguns eram padres e muitos mais eram homens de armas ou
empregados. Todos haviam sido repentinamente arrancados de uma das mais poderosas organizações do
mundo e estavam indefesos. A única autoridade legal acima deles era o próprio papa, mas agora eram
prisioneiros do rei da França e do grande inquisidor, que não tinham direito legal de mantê-los sem a
autorização direta do papa. Como membros de uma ordem sagrada, eram isentos de tortura, mas aqui
estavam os padres da Inquisição com suas rodas e ferros quentes. Acrescente-se a isso a natureza
deliberadamente repugnante do confinamento medieval, e podia-se esperar que eles confessassem qualquer
coisa, pois as condições de confinamento poderiam muito bem ser consideradas parte do processo de torturas,
com a miséria abjeta e revoltante agindo sobre mente e corpo.
Diferentemente da cadeia moderna, com suas divisões em séries de celas, o calabouço medieval
consistia em geral de uma larga sala com janelas muito pequenas, ou mesmo sem janelas, para assegurar a
segurança máxima. Normalmente, os prisioneiros eram presos a anéis na parede ou no piso de pedra. Se a
punição decretada fosse branda, as correntes podiam ser leves e largas o bastante para permitir que um
homem movesse seus membros e se deitasse. Um anel mais alto na parede, com uma corrente presa a um
colar de ferro, poderia forçá-lo a se sentar ou ajoelhar. Como punição temporária, o anel no pescoço podia
ser preso mais alto por algumas horas para forçar o prisioneiro a ficar de pé ou se arriscar a sufocar até a
morte. Correntes mais pesadas e pesos podiam ser acrescentados para tornar difícil ficar de pé ou mesmo
se mover. Outras variações podiam ser manter o prisioneiro deitado de costas, com seus calcanhares
amarrados a muitos pés de altura na parede, ou pendurado pelos punhos ou calca-
Com pouco ou nenhum saneamento e nenhuma circulação de ar, o mau cheio era quase insuportável.
Em calabouços construídos para esse fim, havia um dreno para urina, excremento, vômito e sangue. Isso
deu aos franceses a oportunidade de desenvolver um refinamento gaulês chamado "masmorra". A
masmorra era um pequeno poço ou câmara logo abaixo do pesado ralo de ferro do tubo de esgoto, no chão.
Nessa câmara, era posto qualquer prisioneiro que fosse invulgarmente indócil, incorrigí- vel ou destinado
à degradação particular. Com uma cela pequena demais (e demasiado profunda) para se deitar, o
desgraçado tinha de se sentar ou ajoelhar no poço
f
meio cheio, que era constantemente recarregado com a
imundície dos outros prisioneiros. ^
O confinamento normalmente significava pouca ou nenhuma roupa. Se o saneamento e o conforto
fossem planejados, era geralmente no sentido negativo — para aumentar a atmosfera de miséria doentia,
calculada para induzir confissões que levariam à libertação de tais condições, nem que fosse pela morte.
No verão, o prisioneiro cozinhava. No inverno, congelava. A água era imunda e a comida, deliberadamente
asquerosa, designada para manter a vida no mais baixo nível de subsistência por tanto tempo quanto
quisesse o carcereiro (em um castelo daquela época, a ordem era nunca dar aos prisioneiros água do poço
para beber, apenas a água do fosso, no qual se esvaziavam todas as latrinas do castelo).
Certos instrumentos de tortura eram desajeitados e não podiam ser movidos com facilidade, como o
esticador e a roda, mas outros eram facilmente carregados para qualquer cômodo, para que a agonia
infligida ao sofredor não deixasse de ser vista pelos outros prisioneiros. Freqüentemente, testemunhar o
sofrimento e os gritos de outros e esperar a sua vez era suficiente para induzir um homem forte a
desmoronar e confessar qualquer coisa que seus torturadores quisessem.
Tantos membros e servos dos Templários foram presos na França que tiveram de ser distribuídos em
dezenas de lugares, muitos dos quais não haviam sido planejados como prisões. Isso deve ter causado uma
carência no número dos complexos instrumentos dc tortura disponíveis, de forma que algumas
improvisações foram necessárias, das quais as mais simples eram fogos de carvão e ferros em brasa. Uma
vez que frades e padres em geral eram proibidos de verter sangue, desenvolveram-se diversos artifícios
para capacita-los a causar refinada agonia sem romper a pele. Um desses era um aparelho com duas
faixas de ferro postas em torno da panturrilha e um parafuso que era girado para aumentar a pressão
entre as faixas, quebrando a tíbia. Um artefato comum facilmente conseguido era uma moldura de
madeira em torno da perna. Colocavam-se tábuas entre a moldura e a perna e entre elas enfiavam-se
cunhas com malhos. Desse modo, a pressão local deliberada podia ser aplicada para quebrar os ossos do pé,
o calcanhar, o joelho e os ossos da perna.
O ferro em brasa podia ser aplicado em qualquer lugar do corpo, incluindo os genitais, e, por vezes,
era usado em forma de pinças para arrancar pedaços de carne, enquanto as garras incandescentes
automaticamente fechavam e cauterizavam as feridas. Pinças frias eram usadas para arrancar as unhas e
dentes de alguns dos Templários e as gengivas eram perfuradas com sondas, para aumentar a dor.
Alguns Templários eram amarrados na posição horizontal com a parte inferior das pernas amarradas
a uma moldura de ferro e seus pés eram bem untados com óleo. Então se acendia um braseiro. Alguns
tinham os pés totalmente queimados dessa maneira e, compreensivelmente, relata-se que muitos ficaram
loucos com a dor. Um Templário foi levado para um interrogatório depois de uma dessas sessões, carregando
os ossos enegrecidos que haviam se soltado de seus pés ao serem queimados. Seus torturadores haviam lhe
permitido ficar com os ossos como souvenirs repugnantes.
Por que todos os detalhes horrendos? Porque, para compreender os passos que foram dados na
Grã-Bretanha para que os homens fugissem e se escondessem, para formar novas opiniões e crenças sobre
Deus e sobre o papado, que desencadeava sobre eles o ódio e a perseguição da Igreja, é necessária uma
compreensão detalhada do nível de terror e raiva que guiava os fugitivos. Até hoje, há poucas provas de que o
medo da punição realmente evite o crime, mas é certo que o medo da punição motiva homens a tomar quase
qualquer atitude para evitar ser apanhados. O papa ordenou que nenhum meio conhecido de tortura fosse
poupado no interrogatório dos Templários. Podemos argumentar que em qualquer época, antes ou depois,
nenhum grupo foi sujeito, por ordem direta, a toda a extensão de meios conhecidos de infligir dor
intolerável.
As acusações que se exigia que os Templários confessassem eram abundantes e incluíam muitas que,
freqüentemente, mostraram-se em alegações de heresia e bruxaria pelos séculos seguintes. Queriam que os
Templários admitissem que os iniciados eram obrigados a renegar Deus, Cristo e a Virgem Maria; que
eram obrigados a dar o Osculum Infame, o "beijo da vergonha", no prior, beijando sua boca, umbigo, pênis
e nádegas; que eles adoravam ídolos; que em suas cerimônias secretas eram obrigados a urinar e pisotear
a cruz; que não consagravam a hóstia; que a Ordem não apenas permitia, como encorajava práticas
homossexuais entre seus membros. A acusação que abrangia todas essas, que permitiria o confisco da
propriedade e a total supressão, era a heresia, definida como negação ou
dúvida, por uma pessoa batizada, de qualquer "verdade revelada" da fé romana.
A principal responsabilidade pela "descoberta, punição e prevenção da heresia" fora entregue àquilo
que era conhecido como Congregação do Santo Ofício, mas a que nos referimos como Inquisição. Suas
funções eram basicamente entregues nas mãos da Ordem dos Pregadores, os dominicanos, fundada pelo
padre espanhol Domingos de Gusmão (mais tarde São Domingos), que ganhará fama por seu
extraordinário zelo contra os heréticos albigenses no sul da França. Infelizmente, para os acusados, haviam
decidido que a confissão sob tortura era válida e irrevogável. Um herético convicto, uma vez tendo
confessado suas dúvidas e negações e então admitindo a inteira verdade dos ensinamentos da Igreja,
sofreria uma penalidade leve, uma multa, aprisionamento, morte e punições semelhantes, conforme o
tribunal decidisse qual o grau de seriedade da heresia. Porém, qualquer pessoa que confessasse, mesmo
sob horrível tortura, e mais tarde retirasse essa confissão, não tinha esperança. Era chamado "herético
reincidente" e entregue à autoridade secular, que não tinha escolha senão queimar vivas todas as pessoas
entregues a ela por esse motivo. Essa foi a armadilha que apanhou dezenas de Templários, que
confessaram sob tortura uma ou mais das alegações contra a Ordem e então retiraram essas invenções
quando a tortura terminou. Cinqüenta e seis deles foram publicamente queimados vivos como heréticos
reincidentes em um só dia em Paris.
Nesse meio tempo, o papa não via os resultados que esperava fora da França. Na Península Ibérica, as
forças guerreiras templárias eram muito importantes para ser perdidas, pois, para os monarcas cristãos
da Espanha e de Portugal, os muçulmanos não eram inimigos do outro lado do mar, mas inimigos que
viviam do outro lado da montanha. Os bispos de Aragão anunciaram que seus inquéritos haviam
inocentado os Templários das acusações feitas contra eles. Em Castela, o arcebispo de Compostela
anunciou a mesma coisa. Em Portugal, o rei foi mais longe. Não apenas os Templários foram considerados
livres de culpa, como eles e sua propriedade foram convertidos em uma nova ordem chamada Cavaleiros
de Cristo, que tinha o rei, e não o papa, como seu líder supremo. Na Alemanha, os Templários locais
fizeram suas próprias manobras. O preceptor templário Hugo de Gumbach irrompeu no concilio do
arcebispo de Metz, vestido com armadura completa e acompanhado por vinte de seus Irmãos Cavaleiros.
Hugo proclamou a todos os presentes que a Ordem Templária era inocente de todas as acusações e que o
Grão-Mestre De Molay era um homem de religião e honra. O papa Clemente V, ao contrário, era muito
mau, ilegalmente eleito para o Trono de Pedro, do qual Hugo agora o declarava deposto. Quanto aos
Templários presentes, estavam prontos a arriscar seus corpos em combate contra seus acusadores.
Repentinamente, não havia mais acusadores e o concilio do arcebispo foi adiado.
A situação cm Chipre, lar do quartel-general templário, era especialmente frustrante para o papa. O
príncipe Amalric nem mesmo confirmou o recebimento da bula papal de 22 de novembro até maio
seguinte c, quando do julgamento dos templários, foram considerados inocentes. Com raiva, o papa
despachou dois inquisidores a Chipre para Inzer um novo julgamento; somente depois disso suas ordens
de torturar os Templários para obter confissões de heresia foram cumpridas. Se necessário, por causa dos
números
envolvidos, os inquisidores tinham autoridade de fazer apelo aos dominicanos e franciscanos da ilha para
ajudá-los nas torturas. Estranhamente, não há documentação que nos conte os resultados do segundo
julgamento, ou mesmo se cie ocorreu.
Na Grã-Bretanha, a resistência às ordens papais foi forte. Essa situação é tão importante, porem, que
falaremos dela separadamente e cm detalhes.
Quanto ao tesouro, Felipe frustrou-se novamente, pois muito da riqueza que esperara tomar dos postos
templários se fora. Também se fora toda a frota templária de sua base naval em La Rochelle, e não existe
registro histórico do destino dos oito navios que supostamente estavam ali.
Copo se podia esperar, as reações dos templários às torturas infligidas a eles variavam muito. Alguns
enlouqueceram com a agonia. Alguns morreram sem confessar nada. A maioria confessou duas ou três
das acusações, provavelmente na esperança de que seus inquisidores diziam a verdade sobre parar com a
tortura. Dois Templários confessaram adorar um ídolo barbado, aparentemente uma cabeça, à qual
11
chamavam "Baphomet . O tesoureiro da Ordem desmoronou completamente, admitindo que, sob tal tortul
ra, ele certamente confessaria que matou Deus. Jacqucs de Molay tinha quase 70 anos cie idade e,
aparentemente, não podia sequer encarar a perspectiva da tortura. Confessou uma porção dc acusações
contra a Ordem e contra ele próprio, mas hesitou diante da alegação pessoal dc práticas homossexuais, que
negou furiosamente.
Após as confissões serem coletadas e repassadas à Santa Sé, Clemente V pode promulgar uma lista
pública e formal dc acusações contra os Templários a 12 dc agosto dc 1308, dez meses depois de sua prisão
cm Paris. Ele também chamou o 15° Concilio Ecumênico da Igreja a se reunir cm Viena dois anos depois
para tratar dc diversos assuntos, incluindo planos para uma nova Cruzada e o destino da Ordem Templária.
Os registros dos julgamentos e inquisições templárias feitos em toda a cristandadc foram enviados à
Santa Sé c finalmente o Concilio de Viena se reuniu um ano depois, em 16 dc outubro dc 1 3 1 1 , enquanto os
Templários já estavam agonizando em suas miseráveis prisões por quatro anos. Jacqucs Duese, o
cardcal-arcebispo do Porto, que seguiria Clemente V no trono papal como o controverso papa João X X I I ,
já dava mostras dc sua atitude cm relação ao poder papal aconselhando Clemente V a ignorar o concilio c
condenar os Templários por sua própria autoridade, mas o papa queria a
legitimidade e o apoio de um conselho ecumênico, Ele convidara formalmente quaisquer membros da
Ordem Templário a apresentar sua defesa, julgando que nenhum deles ousaria estar presente. Quando
nove Templários realmente surgiram logo antes da abertura do concilio, dizendo que haviam vindo para
apresentar sua defesa, o papa imediatamente mandou
prendê-los.
Quanto aos membros do concilio, muitos expressaram seus sentimentos de que os Templários
deveriam ter permissão de apresentar seu ponto de vista. Os prelados franceses, sabendo que cada
palavra seria relatada a
Felipe, tomaram a posição oposta. Táo vacilantes estavam os membros, c tão relutante estava o papa a
tomar uma posição firme, que cinco meses depois, o assunto do destino dos Templários ainda estava no
ar. A decisão final poderia pender para qualquer lado, situação que Felipe da França não toleraria. Em
março de 1312, o rei escreveu ao concilio pedindo que a Ordem Templária fosse suprimida e que todos os
seus direitos, privilégios e riqueza fossem transferidos a uma nova ordem militar. Reforçou sua sugestão
aparecendo em Viena alguns dias depois, em 20 de março, com uma forte escoltu militar.
Contrário às opiniões dos historiadores da Igreja, Clemente V demonstrou, nas semanas seguintes, que
não estava sob o total domínio dc Felipe da França. O objetivo do papa era a fusão dos Templários c
llospi- (ulários cm uma só ordem, e não estava à vontade para estigmatizar uma Ordem sagrada que
respondia apenas a ele como herética. A ambição de Felipe, como expressa ao concilio, era que uma nova
ordem militar fosse comandada por ele próprio OU um de seus filhos, com completo acesso ã riqueza c
propriedade das ordens atuais. O papa ganhou, a seu modo. A 3 dc abril de 1312, promulgou a bula papal
Vox in Excelso% que dispensava a Ordem Templária sem realmente proclamar sua culpa nas acusações
feitas contra ela. A Ordem foi simplesmente dissolvida no sentido parlamentar, e não como punição por
crimes provados contra a Igreja.
lendo conseguido, em certo sentido, cumprir seu desejo de transformar duas ordens em uma, o papa
publicou outra bula. Ad Pnmdunu cerca de um mês depois, a 2 de maio, Esse decreto ordenava que toda
propriedade dos Templários fosse transferida aos Hospitalários, excetuando-se apenas a Península Ibérica,
onde os monarcas espanhóis e portugueses exerciam pressão adversa na base dc sua contínua luta contra os
infiéis que estavam em sua terra. Talvez como concessão a Felipe, concordava que os monarcas cristãos
poderiam retirar da propriedade templária o correspondente a suas despesas para a prisão,
encarceramento e alimentação dos prisioneiros 'Templários, assim como pela custódia e gerenciamento
dessa propriedade desde o dia em que os 'Templários foram presos. Repentinamente, para o
aborrecimento dos 1 lospitalários, essas despesas ficaram realmente
altas.
Outro problema era que um punhado de propriedades dos Templários havia sido doado à Ordem com
diversos vínculos e contratos, de acordo com o sistema feudal. Muitos simplesmente pegaram de volta suas
propriedades uma vez que suas doações não eram transferíveis. Isso significou uma batalha legal para os
Hospitalàrios, mas, nas décadas seguintes, conseguiram reforçar o desejo do papa, adquirindo a maior
parte dos bens dos Templários. Os Templários subseqüentemente soltos estavam livres para buscar um
lugar entre os Hospitalàrios, e alguns deles o fizeram. Da forma como foi feito, porém, todo o negócio foi
basicamente sem sentido; sua proposta, do ponto de vista da Igreja, era criar uma ordem combinada que
pudesse sustentar mais efetivamente a próxima Cruzada, mas essa Cruzada, embora autorizada e
encorajada pelo Concilio de Viena, simplesmente nunca passou dos planos. As Cruzadas haviam
terminado. A noção de uma ordem conjunta também terminara; embora os Hospitalàrios tenham ganho
mais riquezas, conseguiram pouquíssimos novos membros com a supressão
dos Templários.
Restava o problema dos Templários ainda na prisão, que foi resolvido
alguns dias depois pelo decreto papal Considerantes Dudum. Estabelecia que os altos oficiais Templários
seriam julgados pela Santa Sé, enquanto o destino dos soldados rasos seria determinado por concílios
provinciais de líderes da Igreja. Os últimos, em geral, determinavam que os Templários que não haviam
confessado culpa, ou os que tentaram mudar as declarações feitas sob tortura, seriam sentenciados I prisão
perpétua. Aqueles que haviam confessado e não fizeram esforço para mudar ou retirar essas confissões
foram soltos da prisão, mas não de seus votos, e passaram a receber pensões muito pequenas. Não se tomou
atitude alguma contra os Templários que não haviam sido pegos. Ainda estavam sujeitos à prisão se
fossem encontrados, uma precaução necessária porque o concilio recebera a notícia de que cerca de 1.500
Templários e simpatizantes estavam escondidos na área em torno de Lyons, planejando algum tipo de
vingança. A caçada humana iniciada para encontrá-los foi totalmente infrutífera.
Quanto aos altos oficiais, passaram-se quase dois anos após o Concilio de Viena antes que eles fossem
trazidos diante de um quadro de três cardeais. Uma vez que todos eles confessaram certo número de
acusações, seja sob tortura ou, como no caso de De Molay, sob a ameaça de tortura, a recapitulação foi
superficial, levando a sentenças de prisão perpétua. Para derrubar todos os pensamentos e rumores de que
os Templários não eram realmente culpados, mas haviam sido vítimas de perseguição gananciosa,
decidiu-se que o Grão-Mestre da Ordem deveria fazer sua confissão diante do mundo. A nobreza, os
prelados da Igreja e pessoas influentes foram convidados para testemunhar o evento histórico a 14 de
março de 1314. Uma alta plataforma foi erguida na frente da grande catedral de Notre-Dame, sobre a qual
De Molay confessaria sua vergonha,
para que todo o mundo soubesse que os Templários eram realmente culpados de imensas obscenidades e
heresias.
O Grão-Mestre foi escoltado pelos degraus da plataforma, acompanhado pelo preceptor templário
da Normandia, Godofredo de Charney, e por dois outros oficiais. De Molay deve ter pensado e orado
muito sobre esse momento, que seria sua última chance de vingar a Ordem. Fazê-lo retirar suas confissões
de culpa para defender a honra da Ordem do Templo seria uma forma de suicídio. No entanto, todos os
homens que o haviam seguido, que haviam olhado para ele em vão buscando a liderança em sua hora mais
negra, que haviam sofrido humilhação, agonias inconcebíveis e as mortes mais dolorosas concebidas pela
mente medieval teriam sofrido e morrido em vão se seu Grão-Mestre os declarasse culpados de sua pró-
pria boca. Era o momento mais importante da história templária e o idoso Grão-Mestre encontrou a
coragem para usá-lo. Adiantando-se na plataforma para se dirigir à multidão, da qual a maior parte já
fora informada sobre o que ele diria, De Molay condenou a si mesmo ao martírio:
"Eu penso que é justo que, em ocasião tão solene e nos últimos momentos de minha vida, eu revele
toda a iniqüidade da fraude e faça triunfar a verdade. Diante do céu e da Terra e de todos vocês como
minhas testemunhas, admito que sou culpado da maior das iniqüidades. Mas essa iniqüidade é ter mentido
ao admitir as revoltantes acusações feitas contra a Ordem. Declaro, e devo declarar, que a Ordem é
inocente. Sua pureza e santidade estão acima de qualquer questão. Confessei realmente que a Ordem era
culpada, mas apenas o fiz para me salvar das terríveis torturas dizendo o que meus inimigos desejavam
que eu dissesse. Outros cavaleiros que retiraram suas confissões foram levados à fogueira, porém a idéia
de morrer não é tão pavorosa para que eu deva confessar crimes imundos que nunca foram cometidos. A
vida me é oferecida, mas ao preço da infâmia. Por tal preço, não é digno ter a vida. Não me entristeço por
ter de morrer, se a vida pode ser comprada apenas se amontoando uma mentira sobre a outra."
No tumulto que se seguiu, o irmão De Charney declarou aos brados sua própria retratação e a inocência
da Ordem, quando ele e De Molay foram empurrados para fora da plataforma. A perturbação
monumental que eles haviam trazido tanto ao rei quanto à Igreja afirmava que não haveria escapatória
da regra que dizia que heréticos reincidentes deviam ser queimados vivos e a perspectiva de que eles
pudessem causar mais perturbação assegurava que suas mortes não demorariam nem uma hora a mais do
que o necessário. A fogueira foi anunciada para aquela mesma noite.
Havia variações na prática da morte na fogueira, e mesmo a possibilidade de pequenas misericórdias.
A vítima podia receber uma poção entorpecente para mitigar a consciência da dor. Mediante uma taxa, o
carrasco podia acrescentar madeira verde e mesmo ramos de sempre-viva para produzir uma fumaça
densa que a vítima aspiraria freneticamente, para produzir inconsciência ou morte pela inalação da
fumaça antes que a dor fosse muita.
Um logo bem forle traria a mais rápida morte possível. Nenhum desses alívios estaria disponível aos
líderes Templários abjurados.
As execuções foram feitas em uma pequena ilha do rio Sena, mas uma multidão ainda tentou chegar
de barco para testemunhar o fim do drama que explodira naquela manha. As fogueiras foram
cuidadosamente preparadas com madeira seca e madura e carvão, para fazer uma pira com pouca
fumaça e intenso calor, calculada para primeiro cobrir as pernas de bolhas e trazer I alívio final da morte
por cozimento lento desde o chão. De Molay e De Charney, tanto quanto puderam, continuaram a berrar
a inocência da Ordem. As lendas dizem que, enquanto a carne de Jacques de Molay queimava, ele atirou
uma maldição a Felipe da França e a toda sua família por treze gerações. Conclamou o rei c o papa para se
encontrarem com ele dentro de um ano para o julgamento diante do trono de Deus. Clemente V morreu cm
abril seguinte, seguido pela morte inexplicável dc Felipe em novembro daquele mesmo ano. Como veremos,
a morte dc Clemente V foi uma vingança quase insignificante comparada ao impacto contínuo da
supressão templária sobre a Igreja romana nos séculos que viriam,
Após a execução de Jacques de Molay, o rei Felipe recebeu uma queixa formal dos monges agostinianos
que possuíam a ilha na qual as execuções haviam ocorrido. Não expressaram nenhuma objeção ou ofensa
quanto a execução, na fogueira, do abade e mestre de uma ordem monástica sagrada. Sua queixa era
contra a violação dos direitos de propriedade.
Esse cenário de seis anos e meio da eliminação dos Templários na França â sombra do rei e do papa
no» ajudará a compreender melhor as circunstancias muito diferentes que rodeavam a supressão
templária na Inglaterra c na Escócia, onde as condições, incluindo uma substancial advertência anterior,
eram m u i t o mais condizentes com a formação de uma sociedade secreta de proteção mútua.

"SEM EFUSÕES VIOLENTAS DE SANGUE"

E m julho dc 1307, três meses antes da captura dos Templários na França, o primeiro Príncipe
de Gales, com 24 anos, tornou-se o rei
Eduardo II da Inglaterra, Assim, a Coroa passava dc um dos mais
lortes reis da Inglaterra para o mais fraco e mais deplorável.
De seu lado, Eduardo II estava feliz por ter seu severo pai fora de sua vida, poiso jovem rei
estava apaixonado; não pela princesa Isabela da França, com quem seu pai arranjara seu
noivado, mas por um belo jovem chamado Pie rs Gaveston, um pobre cavaleiro da Gaseonha. Eles
eram amigos desde a infância e o pai de Eduardo encorajara essa amizade acreditando que o cortes
gascáo, tao habilidoso nas anuas e, aparentemente, possuidor de todas as virtudes cavalheirescas,
seria um modelo efetivo para seu fraco
filho.
O velho rei eslava preocupado com suas guerras contra a Escócia e a França e não notara o
desenvolvimento da relação entre os dois jovens, limão, no ultimo ano de seu reinado, ele chamou o
jovem príncipe para se juntar a ele na campanha contra os escoceses. Gaveston, é claro, acompa-
nhou o Príncipe de Gales e, observando-os, o rei pôde ver que era uma
relação an ti natural. A verdadeira explosão veio quando o príncipe pediu ao
pai que desse a Gaveston a província francesa de Ponthieu. O território real se localizava no canal,
que era vital para a defesa das posses do rei
francês. Dizem que o rei ficou com tanta raiva desse pedido extraordinário
que deu uma bofetada no príncipe e o arrastou pelo cômodo pelos cabelos, xíngando-o por sua
estupidez. Píer» Gaveston não ganhou Ponthieu. Em vez disso, foi banido da Inglaterra.
Agora, corno rei, o jovem Eduardo II podia fazer o que quisesse. Seu primeiro ato oficial com o
monarca foi chamar seu amante dc volta a cone
inglesa, onde foi compensado pelo desconforto de seu breve exílio sendo
nomeado conde da Cornualha.
Enquanto Eduardo II utilizava os primeiros meses de reinado para exercer seus poderes reais em
benefício de seu favorito, os barões usavam o tempo para reduzir esse poder. Ganharam o controle da
Cúria Regis, o conselho do rei, e criaram dentro dela um comitê governante que chamavam ^lordes
ordenadores". Gaveston parecia dividir seu tempo entre pedidos incessantes ao rei de riquezas e poder e o
uso de sua aptidão e facilidade com palavras para caçoar dos nobres da corte, criando mesmo apelidos
insultuosos para cada um deles. Esse antagonismo deu o tom à corte inglesa pelos próximos cinco anos.
Enquanto a supressão dos Templários era uma tarefa rígida para a corte da França, para a corte inglesa
era mais uma distração. Outros eventos importantes tinham de ser dirigidos: Roberto Bruce saíra de seu
santuário nas Ilhas Ocidentais e voltara ao continente escocês recrutando seu povo. O casamento do rei
com Isabela da França fora marcado para janeiro seguinte em Bolonha, e os preparativos levariam meses.
Felipe enviou um emissário, Bernard Pelletin, para seu futuro genro, exigindo que ele prendesse os
Templários em seu reino, e o papa transmitiu suas instruções escritas para essas prisões. A reação de
Eduardo II ante as acusações contra os Templários foi de descrença. Ele crescera com os Templários a seu
redor. O templo de Londres abrigara muitos dos jovens que haviam sido ordenados com ele, e havia até
mesmo cortado parte de seu pomar para acomodar tendas dos novos cavaleiros que lutariam por seu rei
contra a Escócia. Um mestre do templo inglês, Brian de Jay, morrera lutando pela Inglaterra contra
William Wallace. A Ordem não parecia culpada de nada para o jovem rei, e foi o que ele disse ao enviar
canas para os outros monarcas cristãos, pedindo-lhes que o apoiassem na defesa dos Templários contra as
falsas acusações. A 4 de dezembro, Eduardo escreveu ao papa, recusando-se a prender os Templários da
Inglaterra, alegando sua inocência. No caminho, sua carta cruzou com a bula Pastoralis Preemi- nentae, a
condenação papal oficial dos Templários que havia sido publicada a 22 de novembro de 1307. Eduardo II
recebeu sua cópia a 15 de dezembro. Seus sentimentos pessoais não importavam mais, e ele não tinha esco-
lha senão ordenar a prisão dos Templários. Mas ele não precisava fazê-lo imediatamente.
Não sabemos se o atraso nasceu dos próprios sentimentos do rei, de sua propensão a procrastinar ou da
influência dos Templários e de seus amigos na corte, mas as prisões na Inglaterra não começaram até 7 de
janeiro, em Londres, e se espalharam a partir dali com a passagem de dias a mais, enquanto as ordens eram
disseminadas por meio do reino e para as províncias inglesas no continente. Quaisquer que fossem os
arranjos feitos para a fuga dos Templários durante os dois meses entre a notícia das prisões na França e o
recebimento, na Inglaterra, da bula papal a 15 de dezembro, eles foram muito acelerados pelas notícias
alarmantes de que as prisões eram iminentes. Podemos apenas imaginar a agitação quando o mestre inglês,
William de la More, voltou da corte ao templo de Londres
para relatar a chegada da bula papal. Sem dúvida, cavaleiros saíram de Londres para todas as direções
prevenindo seus Irmãos nos condados.
Não há dúvidas de que houve planejamento efetivo nesses 23 dias entre a chegada da bula a 15 de
dezembro e o início das prisões a 7 de janeiro de 1308. Quando as tropas reais chegaram, conseguiram
prender alguns, mas a maioria dos Cavaleiros Templários, sargentos e clérigos não foi encontrada.
Registros haviam sumido ou sido destruídos. No Templo de Londres os soldados do rei, esperando se
apoderar do maior tesouro que já haviam visto, encontraram na verdade menos de duzentas libras. O ouro e
a p ratar ia, os relicários, tudo se fora.
Também se fora o rei. Ele e muitos dos lordes de sua convivência haviam embarcado para a França e o
casamento do rei com a princesa Isabela da França, de doze anos (sua inocência pré-adolescente não a dei-
xava desconfiar que um dia seria conhecida pelos ingleses como "a Loba da França"). Para a fúria de seus
nobres, Eduardo II nomeou Piers Gaveston regente do reino, para governar na ausência do rei. Gaveston
não via nenhum lucro pessoal no assunto dos Templários e os nobres que ficaram não tinham estômago para
prender seus Irmãos de armas, entre os quais existiam muitas amizades. Uma busca real, assistida pelas
ordens religiosas, encontrou apenas dois Templários fugitivos em toda a Inglaterra. Alguns pre- ceptores
Templários conseguiram o direito à prisão domiciliar e ficaram em seus quartéis-generais. O mestre inglês
De la More, que provavelmente teve de ficar para trás porque sua fuga teria denunciado todos os
preparativos cuidadosos, foi levado à prisão de Canterbury, mas foi hospedado em quartos relativamente
confortáveis e uma permissão real o deixava comprar confortos adicionais de seus carcereiros. Muitos dos
Templários cativos escaparam de suas prisões, o que deve ter envolvido a ajuda de dentro ou de fora, ou
ambas. Talvez a assistência que eles receberam fosse suficientemente organizada ou talvez seus
perseguidores não tivessem grande desejo de recapturá-los, mas, qualquer que seja a razão, nenhum dos
Templários fugitivos jamais foi encontrado.
Quanto aos poucos Templários que ficaram na prisão, eles se beneficiaram do fato de que o canal não
era apenas uma barreira de água entre a Grã-Bretanha e o continente, mas era de muitas formas também
uma barreira filosófica. Desde o tempo da antiga Igreja celta, que nunca esteve sujeita à autoridade de
Roma, líderes da Igreja na Inglaterra e do governo secular lutaram contra a autoridade papal no reino
insular, e uma das instituições contra a qual eles haviam resistido era a Inquisição, que não existia na
Grã-Bretanha. Os dominicanos tiveram a permissão de entrar, mas deixaram suas fogueiras e pinças em
brasa em casa. Os prisioneiros Templários foram encarcerados, mas não torturados, situação vista pelo
papa Clemente V como uma afronta pessoal à sua autoridade. Ele exigiu que os Templários fossem
torturados para arrancar confissões de heresia como ele instruíra. O papa também decretou que qualquer
pessoa que desse ajuda e assistência aos Templários fugitivos, e mesmo qualquer um que desse conselhos a um
Templârio fugitivo, seria punido e excomungado. Notavelmente, a ameaça de tortura e excomunhão para
os que ajudassem os fugitivos não resultou na denúncia de nenhum Templârio. Enquanto o papa lutava
para que Eduardo II se curvasse à sua vontade, seu companheiro gascão, Piers Gaveston, gozava de
enorme sucesso nesse mesmo domínio. Na volta de seu casamento, Eduardo deu a Gaveston alguns dos
mais valiosos presentes de casamento. Quando da coroação do rei, no mês seguinte, Gaveston recebeu uma
posição acima de todos os pares do reino.
Dois anos se passaram e os Templários questionados sem tortura não confessaram nada, reafirmando
sua inocência, talvez animados pelas fugas de seus Irmãos. Em resposta à exigência papal de tortura,
Eduardo retrucou que a tortura jamais representara papel na jurisprudência eclesiástica ou secular na
Inglaterra, e por isso não havia ninguém no reino que soubesse como praticá-la. Exasperado, Clemente V
escreveu advertindo que ele devia cuidar do destino de sua própria alma por zombar assim das ordens
diretas do vigário de Cristo na Terra; disse que tentaria apenas uma vez mais dar ao rei Eduardo o
benefício da dúvida. O papa estava enviando dez torturadores habilidosos para a Inglaterra, liderados por
dois experientes dominicanos. Agora Eduardo não teria mais desculpas. Além disso, quando os
torturadores chegassem a seu destino, Clemente esperava que iniciassem o trabalho imediatamente. É
significativa a resolução do papa de ter se afastado dos importantes deveres religiosos de seu Santo Ofício
na noite de Natal, 24 de dezembro de 1310, para tratar do problema de assegurar a aplicação de abuso
físico doloroso sobre os Templários cativos. Seu presente de Natal ao povo da Inglaterra foi a introdução
do sistema legal de interrogatório com tortura.
Eduardo recebeu a equipe papal de tortura, mas ordenou que suas aplicações deveriam excluir a
mutilação e que não deveria haver feridas permanentes nem "efusões violentas de sangue". A história
quase não traz nada de honroso sobre Eduardo, porém, essas restrições à tortura dos Templários ingleses
podem ser o primeiro esforço registrado para pôr alguma espécie de supervisão na loucura galopante que
teve seu auge no século X I V e que tornou a aplicação da pena máxima sobre outro ser humano uma parte
vital em depoimentos e interrogatórios. Assim como a dor infligida por pais nervosos ou professores, ela
nascera provavelmente da frustração, mas cresceu em freqüência de aplicação e engenhosidade, até que
ultrapassou a barreira da sanidade quando alguém decidiu que seria ferramenta efetiva para proteger e
promover os ensinamentos de Jesus Cristo. A Igreja terminou por restringir o uso da tortura pela
Inquisição, mas não sem forte objeção registrada pelos principais frades dominicanos, que achavam que
sua eficácia seria diminuída. Coube à autoridade secular impor as limitações mais dramáticas à tortura
legal naquilo que é provavelmente o
mais incompreendido termo em sua longa história, o "terceiro grau". De alguma forma, esse termo foi
considerado por alguns como tendo uma relação com a Maçonaria, provavelmente por causa do juramento
sangrento do Mestre Maçom no "terceiro grau". :°
A frase na verdade se originou daquilo que na época era considerado um decreto extremamente
humano. Até o tempo da imperatriz austríaca Maria Teresa, autoridades individuais eram muito pessoais
em estabelecer limites sobre os tipos e a intensidade da tortura usada ao questionar "testemunhas" para
extrair confissões. Pessoas inocentes freqüentemente morriam como resultado do questionamento, e muitas
outras ficavam aleijadas para o resto da vida. Sob Maria Teresa, no século XVIII, as torturas usadas para
questionamento foram padronizadas. O Primeiro Grau do Interrogatório era o esmagador de polegares.
Esse pequeno aparelho era apertado por dois pinos até fazer pressão com uma barra ou uma ponta
rombuda na base da unha do polegar. Então, o questionário começava, com voltas subseqüentes no
parafuso até que a junta do polegar fosse esmagada.
No Segundo Grau do Interrogatório, a vítima era despida até a cintura e amarrada, com os braços
esticados para cima, a uma escada rústica posta em um canto, contra uma mesa ou parede. O torturador
segurava uma vela em posição de queimar a pele sensível no flanco, desde a cintura até a axila. Com uma
área tão larga para trabalhar, em dois lados do corpo, e com ampla liberdade de ação quanto ao tempo em
que a chama podia ser encostada à carne, o torturador tinha considerável controle sobre a quantidade de
dor infligida, de acordo com sua avaliação da importância do testemunho ou
seu próprio estado mental.
O Terceiro Grau do Interrogatório era a estrapada. A vítima primeiro tinha as mãos amarradas atrás
das costas; então uma corda era presa a seus punhos e passada através de uma roldana presa ao teto. Puxando
a corda, o torturador e seus assistentes forçavam os braços da vítima para trás, causando dores excruciantes
nos ombros, até que os pés da vítima saíssem no chão. Então, duas variações podiam ser introduzidas. Com
os pés da vítima a boa altura do chão, o torturador podia soltar a corda e segurá-la novamente, fazendo
com que a vítima chacoalhasse e balançasse como um pêndulo até parar, procedimento que
freqüentemente levava ao deslocamento de um ou de ambos os ombros. Na outra variação, uma vez que a
vítima fosse suspensa no ar, um assistente segurava suas pernas e as puxaria com todo o seu peso para o
chão, intensificando assim a dor e talvez
arrancando os braços da vítima fora de suas cavidades.
Quem passasse pelo terceiro grau sem confessar, seria julgado inocente e solto. É importante
compreender que o que precede, por mais brutal que possa parecer, foi saudado por líderes seculares e
religiosos como um exemplo de piedade cristã, um indicativo das qualidades humamtanas
da imperatriz.
As ordens de Eduardo não foram então restritas quanto aos três graus do interrogatório de Maria
Teresa, mas talvez sua expressa simpatia pelas vítimas tivesse alguma base no fato de que, mesmo sob
tortura, nenhuma confissão material foi extraída dos Templários ingleses. Eles podem ter se beneficiado
também de ter estado em confinamento por três anos antes que a tortura começasse, tempo durante o qual
eles puderam falar entre si e combinar suas decisões, em contraste com seus Irmãos franceses, que haviam
sido tomados completamente de surpresa e sujeitos às agonias da Inquisição imediatamente após a prisão.
Um efeito do início da tortura dos Templários da Inglaterra certamente seria aumentar a
determinação dos fugitivos em não ser pegos. Por três anos, a captura significara apenas o aprisionamento
junto aos companheiros Templários, mas ser apanhado agora significaria compartilhar seu sofrimento nas
mãos dos dez especialistas papais em agonia humana.
Enquanto isso acontecia na Inglaterra, os esforços do papa para prender os Templários da Escócia e
interrogá-los não deu em nada. Houve algumas prisões em janeiro de 1308, mas Roberto Bruce estava
ocupado com seus próprios problemas e preferia recrutar guerreiros em seu reino do que prendê- los e
torturá-los. Sabia que a morte de Eduardo I o fizera ganhar tempo, mas que cedo ou tarde um exército
inglês invasor cruzaria o Tweed para derrubá-lo. Ele não tinha interesse nas ordens militares, em uma
Cruzada à Terra Santa nem nas ambições de Felipe da França ou do papa Clemente V. O interesse de
Bruce estava totalmente dedicado 1 segurança de uma nação escocesa independente. Como monarca
cristão, recebera uma cópia da bula papal de condenação, com instruções para cumprir o decreto nela
incorporado, mas, aparentemente, apenas a deixou de lado. A bula papal nunca foi publicada, anunciada
nem reconhecida na Escócia, dando assim ao país o aspecto de um refúgio legal para Templários fugitivos
da Inglaterra ou do continente. Não apenas um Cavaleiro Templârio fugitivo se sentiria seguro, como não
teria remorso de lutar contra o rei inglês e seria uma adição bem-vinda | deploravelmente pequena força
de cavalaria armada de Bruce. A importância dessa pequena força para Bruce seria amplamente
demonstrada quando os ingleses finalmente iniciassem sua invasão da Escócia, poucos anos depois.
Enquanto as perseguições dos Templários na Inglaterra entravam na fase de inquéritos formais em
novembro de 1309, os tribunais pouco fizeram em matéria de confissões para ajudá-los e pouco em matéria
de testemunhos. A maioria dos que vinham testemunhar contra os Templários era membro de outras
ordens religiosas e tinha pouco a oferecer além de rumores e fofocas. Quanto aos governantes do país, não
estavam nem um pouco interessados: suas atenções estavam voltadas para outro lugar. Os dez torturadores
profissionais fornecidos pelo papa conheciam seu serviço - havia uma grande variedade de modos pelos
quais eles podiam infligir dores excruciantes sem sair das diretrizes do rei mas, apesar dessa revoltante
especialidade, não extraíram nenhuma confissão material. Conseguiram apenas admissões de que, para
preservar seus segredos, os Templários podiam apenas se dirigir a seus próprios padres para confessar, que
poderiam ocasionalmente ter absolvido o pecado uns dos outros em situações especiais e que usavam uma
corda junto à pele, embora não soubessem por quê. Admitiam que essa corda devia ser uma linha divisória
que definia as "zonas de castidade", artifício inventado por São Bernardo de Clairvaux para ordens
sagradas. Não houve confissões de heresia, blasfêmia, beijos obscenos nem práticas homossexuais.
Em 1311, o ano em que a tortura templária começou na Inglaterra, os lordes ordenadores estavam
fartos do favorito homossexual do rei, não tanto por causa das inclinações sexuais de seu rei, mas porque
Piers Gaveston usara seu domínio sobre ele para conseguir o controle quase total sobre a monarquia. Para
ira do rei, os barões, ajudados pelo fato de que Gaveston havia sido excomungado pelo arcebispo de
Canterbury, o exilaram em Flandres. Naquele mesmo ano, porém, ele voltou e, enquanto o Concilio de
Viena estava reunido para discutir uma nova Cruzada e o destino da Ordem Templária, os lordes
ordenadores estavam ocupados caçando Gaveston pelo norte da Inglaterra. Eles, por fim, o encurralaram
no castelo de Scarborough onde, caracteristicamente, pediu que poupassem sua vida. Enquanto era levado
para Londres, a escolta de Gaveston foi rodeada pelas tropas do conde de Warwick. Embora ele próprio
fosse um lorde ordenador, Warwick sustentava que, uma vez que ele não estivera em Scarborough, não
fizera parte do acordo travado ali com Gaveston, não estava preso a ele. Gaveston foi levado de volta ao
castelo de Warwick, mas, sabendo que o rei faria qualquer pressão para salvar seu favorito, o lorde
mandou seus homens levarem o prisioneiro para a montanha Blacklow, onde cortaram sua cabeça 1º de
julho de 1312. Eduardo II, evidentemente, não soube de nada sobre esse incidente,
além de novos níveis de raiva, e, em pouco tempo, estava sob a influência de outro amante homossexual. No
momento, porém, sua fortuna parecia estar no ponto mais baixo e a monarquia em si, em grande perigo,
pois os lordes ordenadores puderam pensar em sua vitória sobre o rei indefeso. Eduardo decidiu aceitar o
conselho dado a governantes perturbados em séculos anteriores e posteriores, de que o modo de unir a
nação novamente e voltar a ganhar autoridade era colocar o país em guerra. Em 1313, por chamado de seu
sogro, Felipe da França, Eduardo tomou da cruz e jurou liderar seu povo na grande nova Cruzada que
fora declarada pelo novo Concilio de Viena, que abolira a Ordem Templária no ano anterior. Porém, nem
Eduardo nem seu povo tinham o desejo de viajar para a Terra Santa. Política e militarmente, seria
desastroso para homens de luta ingleses se ausentar na mesma época em que o enérgico rei Roberto da
Escócia estava inexoravelmente expulsando os ingleses de uma fortaleza escocesa após outra, até que em
toda a Escócia apenas os castelos de Dunbar, Berwick e
Stirling permaneceram era mãos inglesas. Nao, nao seria uma Cruzada custosa sob o domínio do rei
francês, que estabeleceria a supremacia de Eduardo sobre os barões guerreiros, mas antes uma grande
vitória sobre o ameaçador inimigo na porta dos fundos. As promessas a seu pai seriam mantidas. Eduardo
11 seria o rei que finalmente controlaria a nação escocesa e a tornaria parte do reino inglês.
Em 1314, enquanto as brasas quentes cozinhavam a carne e os ossos enegrecidos de Jacques dc Molay,
Eduardo 11 reunia uma grande força para a invasão final e a conquista da Escócia. Bruce conseguiu reunir
10 mil homens para defender sua pátria, enquanto a Inglaterra drenava todos os seus recursos e territórios
para juntar o exército de mais dc 25 mil homens, incluindo 5 mil cavaleiros pesadamente armados c cerca dc
10 mil arqueiros.
Os lordes ordenadores, os principais barões do reino, não tinham nenhum desejo de arriscar a vida
para serem heróis nacionais do rei desprezado e muitos deles simplesmente declinaram de ir.
Aparentemente, isso não apresentava problemas para Eduardo, que não tomou nenhuma atitude para
forçá-los, provavelmente porque não tinha desejo dc compartilhara glória antecipada com os homens que
ele lutava por dominar.
Enquanto o exército debilitado avançava pelo norte da Inglaterra, ar- rastando-se por muitas milhas
dos dois lados da estrada, Roberto Bruce já tinha plena consciência de sua aproximação. Os ingleses
estavam procurando por ele, o que deu a Bruce a vantagem de escolher seu terreno, um campo em que seus
homens podiam descansar e se restaurar enquanto as exaustas tropas inglesas venciam milha após milha
para encontrá-lo. Bruce escolheu um terreno que punha seus homens entre os ingleses que se apro-
ximavam e o castelo Stirling, com sua pequena guarnição inglesa, a algumas milhas a norte.
Tendo aprendido bem com as campanhas de Wallaee, Bruce ajeitou seus schiltrons, aqueles círculos de
homens com lanças de doze pés, no alto de um dcclivc, entre densos trechos de bosque. Antecipando o
ataque da imensamente superior cavalaria inglesa, cavara centenas de buracos em posições aleatórias
diante de seus lanceiros e os cobrira com grama e galhos cortados como armadilhas para animais. Seus
criados dc acampamento, carroceiros, cozinheiros e famílias foram enviados em segurança para irás dc
uma montanha próxima. Finalmente, lembrando que a cavalaria de Wallaee, sua única defesa contra os
arqueiros ingleses, o abandonara no campo de Falkirk junto ao seu comandante descontente, o próprio
Bruce assumiu o comando direto de suas poucas centenas de cavaleiros montados. A lenda conta que foi
nessa força crucial que Bruce recebeu um grupo de Cavaleiros do Templo fugitivos.
A base do declive estava em um vale de terreno pantanoso, com apenas uma estrada dc terra firme. O
vale e seu chão alagadiço eram cortados por um pequeno regato, ou burny no dialeto escocês, chamado
Bannock Burn. Ele estava prestes a assumir o lugar mais alto na história
militar escocesa. '
Ao saber da posição de Bruce, o exército inglês voltou-se para essa direção e, finalmente, a vanguarda
chegou ao lado oposto do regato. A enorme força estava tão fisicamente debilitada que demorou três dias
para que o escalão de trás se aproximasse. Enquanto se reuniam, uma pequena força foi enviada para
ocupar a guarnição do castelo de Stirling, o que daria aos ingleses uma posição fortificada às costas de
Bruce. Batedores relataram o movimento e o rei da Escócia agiu rapidamente para interceptar a força de
socorro inglesa. Seu líder, Sir Henry de Bohun, veio para a frente de seus homens para desafiar Bruce a um
combate pessoal. O rei aceitou o desafio e galopou para diante de seus homens. Sir Henry abaixou sua lança
e esporou seu pesado cavalo de batalha em direção ao seu oponente. Bruce escolhera sua montaria leve
naquele dia para perseguição ligeira e estava armado com um machado de batalha, com alcance muito
menor do que a lança de Bohun. Quando a ponta da lança o atingiu, O rei escocês a desviou com um movi-
mento de seu machado e em seguida deu um golpe ligeiro com a larga lâmina, matando o cavaleiro inglês
com uma só pancada. A missão de Stirling terminara e, quando a notícia se espalhou, os escoceses
cresceram em orgulho de
seu rei guerreiro.
Do lado inglês, o rei, que não tinha nada de guerreiro, ordenou o ataque e voltou a seu pesado cavalo.
Eles se arrastaram pelo chão mole em ambos os lados do rio e esporaram sua montaria até a colina, onde
esperavam os lanceiros. Cavalos tropeçavam nos buracos, caíam uns sobre os outros, mas, por fim,
chegaram ao piquete aguçado de lanças. Ingleses e escoceses formavam um grupo compacto no qual
nenhum dos lados podia recuar. Os reforços ingleses vieram mas não conseguiram chegar ao inimigo na
limitada frente de 6 mil pés. Os arqueiros eram ineficazes porque suas flechas lançadas aos milhares
tinham mais chance de acertar seus camaradas do que de atingir os inimigos, inferiores em número. A
resposta foi mover os arqueiros para o flanco escocês, de onde podiam acertar seus
alvos.
Enquanto os arqueiros ingleses se moviam pelo campo, Bruce aprontou seus cavaleiros montados,
mantendo-os sob firme controle. Para obter o máximo impacto dos imensos cavalos de batalha, ele
necessitava que os arqueiros se juntassem para começar a lançar suas flechas, sem recuar ou se mover.
Finalmente, os arqueiros estavam no lugar, preparados para dizimar os lanceiros escoceses, e Bruce deu o
comando que seus cavaleiros esperaram com tanta gana. Os arqueiros ingleses foram derrubados pcios
cavalos de batalha de armadura, treinados para chutar, morder e pisotear, montados por homens de
armadura que perseguiam os arqueiros desarmados com machado e maça. Os ingleses desfizeram a
formaçao e tugiram desordenados.
Talvez os observadores entre os empregados de acampamento de Bruce tenham pensado que a
retirada dos arqueiros significava uma vitória
escocesa, ou poderiam ter sido levados a agir por algum fanático patriótico; mas, por alguma
razão qualquer, os não-combatcntcs escoceses decidiram mudar sua condição. Brandindo
bandeiras improvisadas em casa, berrando c soprando em chifres, os homens, as mulheres c
meninos desarmados surgiram por cima da montanha e das florestas h esquerda dos ingleses. As
tropas inglesas se sentiram ameaçadas pelo que pensavam ser reforços escoceses adicionais. Seu
flanco esquerdo começou a vacilar c 1 íduardo II decidiu sair do campo. Seu séqüito e corpo dc
guardas vieram com ele, logo reunidos por outras unidades confusas c mal comandadas, até que
todo o exército invasor estava em plena fuga. Os escoceses exultantes desceram a colina atrás deles,
enterrando suas estacas nas costas dc um atrás do outro. Foi o pior desastre militar na história
inglesa, com uma baixa estimada de 15 mil ingleses, em comparação com cerca de 4 mil cscoccses.
A batalha de Bannock Burn terminou com as esperanças dc domínio inglês sobre a Escócia, que
manteve sua posição como nação independente até a união dos dois países sob um rei quase quatro
séculos depois, em 1707.
Enquanto os sobreviventes de Bannock Burn, incluindo o rei Eduardo, faziam o caminho de
volta, viajaram por uma terra em estado próximo da anarquia. A fraqueza do rei permitira a
erosão do poder central por um grupo de barões ambiciosos, ansiosos por seu próprio ganho
pessoal, mas sem o menor interesse em produzir alguma melhora na voz do povo dentro do
governo. Seu líder, Tomás de Lancastcr, conseguira usurpar para si as grandes propriedades dos
condados de Lancastcr, Lincoln, 1 -eicester, Derby e Salisbury.
O governo central, quase microscópico nos termos pelos quais pensamos em equipe de governo
hoje, dependia dos nobres e cavaleiros para manter a lei e a ordem no reino, mas, além de proteger
seu próprio interesse, eram indiferentes e indispostos quant o às exigências da profissão. Bandos
de fora-da-lei proliferavam. Em algumas áreas, eles eram a única lei e ordem disponível, c cm
diversas ocasiões eram contratados como mercenários por senhores eclesiásticos e seculares para
defender suas propriedades. Assim, os fora-da-lei dominaram alguns territórios e senhores locais
receberam ordem de cortar todas as arvores e arbustos em ambos os lados dc estradas
freqüentadas para evitar emboscadas e ataques de surpresa. Foi a época de surgirem heróis
populares fora-da-lei e lendas como Robin Hood. Ninguém condenava esses heróis por atacar
ricos abades e bispos para aliviá-los do peso de libras e pence que haviam sido retirados de seus
paroquianos. Não havia pecado nisso, porque os ladrões legendários não entravam cm igrejas
para roubar cruzes dc ouro e candelabros de prata, mas apenas tiravam o que era visto como
riqueza pessoal de prelados ga- nanciosos. Bandidos corajosos rompiam todas as leis sobre a caça
para também apanhar carne fresca onde quisessem, o sonho de todo camponês.
Nao importa que os fora-da-lei nao fossem realmente como o Robin Hood das fábulas, mas é importante
que tenha sido nesse contexto que eles viveram na memória popular. O camponês pôde viver suas
fantasias dessa forma — espancar um barão arrogante, tirar o ouro dc um bispo ambicioso, agradar à sua
família e aos seus amigos com um grande festim de carne ilegal. A popularidade de Robin Hood e seus
semelhantes nos diz muito sobre como o povo comum se sentia a respeito da vida e aqueles que os homens
e Deus haviam posto acima deles.
Quanto aos bandos de fora-da-lei, eram compostos por homens criminosos, proscritos, fora da
proteção das leis da terra, o que permitia a qualquer um surrar, roubar c mesmo matar sem medo de
punição legal. Sua única esperança de proteção contra os cidadãos protegidos pela lei era formar bandos
com outros dc seu tipo. Cavaleiros Templários e homens de armas sem nenhuma profissão alem da luta, já
condenados pelo rei e pela Igreja, eram recrutas ideais. Não sabemos se algum Templário fugitivo real-
mente se juntou aos fora-da-lei ou formou bandos próprios, mas temos conhecimento que eles operavam
em torno das áreas de propriedades e postos
templários.
Eduardo procurava aliados e encontrou dois no conde de Winchester, Hugo le Despenser, um senhor
das fronteiras galesas, e seu belo filho, também chamado Hugo. Novamente, Eduardo ficou totalmente
cativado por um amante homossexual, o jovem Despenser, c permitia que o conde controlasse muitos dos
negócios do reino. Os Despenser usavam esse poder para prejudicar os outros senhores das fronteiras
galesas, tanto que esses senhores se aliaram a Tomás, duque de Lancastcr, e aos outros lordes or-
denadores que o seguiam. Despenser organizou uma campanha contra
Lancastcr e derrotou os senhores da fronteira, aprisionando um de seus líderes, Rogcr de Mortimer. No
ano seguinte, 1322, o conde Despenser organizou uma campanha contra Lancastcr c o derrotou na
Batalha de Boroughbridgc, em Yorkshire. Lancastcr foi levado a seu próprio castelo cm Pontefract e
decapitado. Rogcr de Mortimer conseguiu evitar o destino similar planejado para ele, escapando da prisão e
fugindo para a Trança, onde logo se reuniria a ele um outro eonspirador real.
Carlos IV, rei da França e irmão da rainha Isabela da Inglaterra, tirou vantagem dos problemas cia
Inglaterra para se apoderar do ducado da Gasconha. Esse foi um grande golpe na bolsa de Eduardo,
porque o comércio dc vinho que operava por meio dc Bordeaux lhe trazia mais renda do
que todas as suas propriedades inglesas. Isabela se ofereceu para ir a Paris negociar com seu irmão a
devolução da rica província, e Eduardo concordou.
Na França, Isabela encontrou Rogcr de Mortimer e se apaixonou por ele. Mortimer queria vingança e
a devolução de suas terras. Isabela estava totalmente enfastiada da relação de seu marido com o jovem
Despenser e
detestava tanto o jovem quanto seu pai. Juntos, Isabela e Mortimer traçaram um plano para dar o trono
da Inglaterra ao príncipe de Gales, que ainda era menor de idade, com eles próprios como regentes e
governantes da Inglaterra. Isabela mandou chamar o príncipe com a desculpa de que ele devia prestar
homenagem a seu irmão pela província da Gasconha. Logo que o menino estava com eles, Isabela e
Mortimer reuniram um exército de mercenários e invadiram a Inglaterra em setembro de 1326. Foram
muito bem recebidos por um povo cansado da arrogância dos Despenser e da negligência do rei em
relação a quase todos os deveres reais por causa de sua ardente preocupação com o amante. Os Despenser,
pai e filho, foram rapidamente aprisionados e encontraram a morte por estrangulamento no laço do
carrasco. O próprio rei foi aprisionado e forçado a abdicar em favor de seu filho de 14 anos. Após um ano
em diversas prisões, Eduardo II foi finalmente assassinado no castelo de Berkeley, em Gloucestershire, em
22 de setembro de 1327. Os violentos cavaleiros que fizeram o trabalho aparentemente decidiram que,
uma vez que ele escolhera o modo como vivia, poderia muito bem morrer do mesmo jeito e, por isso, o
seguraram de bruços e introduziram um ferro incandescente em seu ânus.
O reinado de Eduardo II foi talvez o período mais funesto e deplorável da história da Inglaterra, mas,
como tal, foi uma bênção para homens fugitivos ou escondidos. Vimos que os Templários fugitivos, que
podem muito bem ter recebido também seus Irmãos do continente, tinham ampla motivação para correr e
escapar das correntes e torturas que os esperavam. Vimos também que o matadouro que era o governo de
Eduardo II era ideal para fugitivos, que podiam apenas se beneficiar da derrubada da lei e da ordem. A
Escócia lhes daria as boa-vindas, mas apenas em sentido clandestino, pois sua presença teria de ser
mantida em segredo das ordens religiosas, que, certamente, teriam seguido as ordens do papa e os
capturado. Mas, e quanto aos próprios fugitivos? Quais eram suas necessidades e temores enquanto
buscavam refúgio, novas identidades, novos lares? Sob tais circunstâncias, seriam essas as necessidades
melhor servidas por uma sociedade secreta do que pela segurança do esforço individual? Na busca da
Grande Sociedade, havia necessidade de olhar para o problema de um homem fugitivo do seu ponto de
vista.
HOMENS EM FUGA

característica comum a todos os fugitivos é seu estado mental, que é de estresse contínuo, nunca

A sabendo quando esperar a mão no ombro ou a porta arrombada. A manifestação exterior desse es-
tresse é o pânico, estado que interfere na capacidade de pensar e agir de modo racional e
construtivo. Os antídotos mais efetivos para esse pânico são um plano e um pouco de assistência
dada por outros seres humanos. O fugitivo sem plano e sem objetivo, totalmente sozinho, está em
constante perigo de se trair. Os mais bem-sucedidos condenados ou prisioneiros de guerra fugitivos são
sempre aqueles que passaram tanto tempo planejando o que fariam após a fuga quanto passaram no
planejamento da fuga em si. Aqueles que escapam aproveitando-se de uma oportunidade repentina, en-
contrando-se do lado de fora sem ter idéia do que fazer nem para onde ir, quase sempre são recapturados
rapidamente.
Os Templários foram afortunados por terem quase três meses após a advertência de sua iminente
captura, o que lhes deu tempo para planejar tanto individualmente quanto com seus camaradas. Tinham
também recursos e meios de transporte, tinham amigos e ligações em todas as partes da Grã-Bretanha,
que, como já vimos, não era de modo algum uma unidade política única. Seu maior problema era serem
descobertos pelas outras ordens religiosas, cujas propriedades constituíam mais de um terço da superfície
da Grã-Bretanha. Não que as outras ordens tivessem por eles alguma animosidade especial, mas os
Templários eram a prova viva de que o papa podia punir e puniria uma ordem religiosa com
aprisionamento, dor, morte e perda de propriedade, portanto, não era uma época em que uma ordem
desperdiçaria qualquer oportunidade de demonstrar lealdade e obediência à Santa Sé. Nenhum
Templário fugitivo poderia esperar que outro religioso
fizesse vista grossa.
Outro problema que deve ter surgido era a diversidade de homens envolvidos. A ordem de prender os
Templários e seus associados incluía representantes de quase todos os estratos livres da sociedade
medieval.
Membros da Ordem incluíam os Irmãos plenos, os cavaleiros, que, como condição para sua
aceitação, tinham de comprovar sua linhagem como membros da classe cavalheiresca; os sargentos,
vindos da burguesia e os clérigos, os padres Templários que podiam provir de qualquer uma das
muitas classes, desde que fossem nascidos livres. Além desses, as ordens de prisão incluíam outros
associados Templários que pudessem dar informações sobre suas atividades, como seus servos,
administradores e gerentes de propriedades templárias, artesãos que operavam as forjas e moinhos
templários e assim por diante, e os empregados mercantis que supervisionavam a compra, a venda e
o embarque, e que operavam seus negócios.
Apenas os oficiais Templários podiam dispor do tesouro templário central, embora preceptores
locais e administradores pudessem dispor de alguns fundos. A maior parte não podia dispor de nada
e precisava de algum tipo de auxílio. Quanto ao transporte, cada cavaleiro possuía ao menos três
cavalos. Tinha seu poderoso cavalo de batalha treinado, seu cavalo de uso geral, rápido para
viagem, e um cavalo de carga para transportar sua armadura e armas, além de outros suprimentos.
O cavaleiro em fuga tinha transporte suficiente de prontidão. Isso não era verdade para a massa dos
outros fugitivos templários, que tinham de se locomover a pé ou de barco.
Apesar dessas óbvias vantagens, o cavaleiro tinha seus problemas específicos. Seu cabelo era
cortado rente, em uma época em que a maioria o usava comprido, mas ele podia sempre utilizar
alguma espécie de capuz até que o cabelo crescesse. Sua barba era outro caso, pois a moda era
barbear-se, de forma que a grande e inculta barba templária podia ser localizada em meio a uma
multidão. Ele podia tirá-la, mas se houvesse acabado de chegar à Grã-Bretanha após passar anos no
Oriente Médio, apresentaria uma estranha aparência com o rosto escanhoado, com a parte de cima
do rosto cor de mogno e o queixo e as bochechas brancos como neve. Aplicar sujeira ou tinta, ou
sumir de vista até que a pele bronzeada empali- decesse, seria absolutamente necessário, porque
não havia meio de bronzear o queixo e as bochechas pálidas sob o sol inglês.
Vestimentas eram também motivo de preocupação. O traje normal dos três graus da Ordem
Templária era um manto com capelo, como era apropriado a uma ordem de monges. Tinham, é
claro, trajes de batalha, mas vestiam aquela farda quente e pesada apenas quando necessário. Uma
olhada em uma sala de refeições templária teria revelado uma reunião de monges de manto,
silenciosos, não um grupo ruidoso de cavaleiros glutões de armadura, como o grande salão da corte
do rei Artur. Para fugir das prisões papais, os membros fugitivos necessitariam de guarda -roupas
completos, adequados aos papéis que assumiriam.
Uma consideração ainda mais desafiadora seria a linguagem. Os Tem plários eram essencialmente
uma ordem francófona, e o francês era a língua da nobreza e da monarquia britânica.
Passar-se-iam outros cinqüenta anos até que julgamentos legais na Inglaterra fossem conduzidos
em inglês, em vez do francês. Alguns dos cavaleiros e padres templários deviam possuir um conhecimento
prático do inglês para supervisionar suas propriedades e empregados, mas qualquer um deles teria
revelado sua posição social na primeira frase de inglês^ com sotaque francês. Sem dúvida, o Cavaleiro
Templârio, cujo único ofício era a luta, encontraria abrigo mais seguro entre os de seu próprio tipo. Ele
poderia se oferecer em contrato feudal sob nome diferente aos barões do reino, que apreciariam um
lutador experiente e provavelmente não se preocupariam caso o recruta estivesse sendo procurado pela
Igreja e pela Coroa inglesa. Havia muitos na Inglaterra que lhes dariam as boas-vindas, e havia também
os barões normandos em Gales e na Escócia, e mesmo na Irlanda, onde, por exemplo, a grande família
senhorial "de Burghe" ainda não se transformara naquilo que, atualmente, nos parece o nome puramente
escocês "Burke".
Para o homem em fuga, a segurança é freqüentemente representada pela geografia. Ele deve sair do
território inimigo ou do alcance da lei. Para o fugitivo da Igreja, porém, não havia lugar completamente
seguro em toda a cristandade. Sua segurança teria de vir do segredo, de um novo nome, um novo lar, um
novo meio de sobrevivência. Isso teria sido muito difícil em um mundo de pequenas comunidades (a
própria Londres, a maior cidade na Grã-Bretanha, tinha uma população de apenas 25 mil pessoas). O
fugitivo do século XIV teria necessitado de ajuda, incluindo a assistência de amigos que o apoiariam e
confirmariam sua nova identidade. Esse tipo particular de problema aparece em uma das Antigas
Obrigações da Maçonaria, que diz que o Irmão visitante não deve ir "para a cidade" a menos que seja
acompanhado por um Irmão local que possa "testemunhar" por ele (ou seja, responsabilizar-se por ele
diante das autoridades locais, que tinham o direito de prender estranhos com negócios desconhecidos na
cidade).
Durante a fuga, o fugitivo tinha uma preocupação acima de todas, que era a de não ser pego. Isso
significava viajar longe das estradas principais, preferencialmente com um guia ou com instruções dadas
por um amigo. Em uma aldeia ou cidade menor ele seria mais vulnerável, porque um estranho seria
facilmente notado. Suas outras preocupações principais seriam arranjar algo para comer e um lugar
seguro para dormir, sendo o segundo muito mais estressante para ele. Pode-se comer a qualquer hora, em
movimento, e mesmo pode-se ficar sem comer por longos períodos. O sono nao pode ser deixado de lado
além do ponto em que o corpo humano absolutamente o exige, e é quando um fugitivo está sob o maior
risco. O mais valente, mais forte, mais experiente homem em fuga vivo é tao indeleso quanto uma criança
ao dormir profundamente. Um alojamento seguro era
imperativo.
Nas centenas de propriedades templárias em toda a Gra-Bretanha, os empregados do local certamente
teriam sido ajudados por suas próprias famílias e amigos para permanecerem escondidos em áreas
proxim..-
Essas famílias e amigos teriam sido também contatos vitais para fugitivos que sc moviam para essas áreas,
contatos que podiam conseguir pão, carne e alojamento por uma noite em um celeiro, um porão, uma
cabana de caça. Tais alojamentos seguros forneceriam aquilo que o fugitivo esperava: ali- mento, notícias,
uma chance de descansar e instruções para a próxima parada, alguma comida ou dinheiro para levar na
próxima etapa da jornada, um ouvido solidário.
Na próxima parada, ele precisaria de um artifício ou sinal pelo qual pudesse localizar o homem que o
ajudaria a se identificar com segurança. Mais tarde, naquele mesmo século, os Lolardos, que se escondiam
da Igreja usariam a frase: "Vamos todos beber do mesmo copo", como modo de estabelecer suas
identidades. Os Maçons desenvolveriam um sistema muito mais elaborado no qual o Maçom tinha um
sinal pelo qual identificar a si mesmo (seu "cumprimento''), um sinal para pedir ajuda a qualquer Irmão
que estivesse presente (o sinal maçònico de aflição), palavras para usar na escuridão ou para se dirigir aos
outros que estivessem fora de vista ou olhando em outra direção ("O senhor meu Deus, não há ajuda para
o filho da viúva?"), e mesmo um catecismo coníirmatório ("Você é um viajante?" "Sim. eu sou." "Para
onde você está viajando?" "De oeste para leste."). Um sistema semelhante de identificação e
reconhecimento encobertos teria sido necessário — ou ao menos muito benéfico — para homens em
movimento, com a esperança de ir de um alojamento seguro a outro, bus- cando, afinal, não uma casa
segura, mas um porto seguro, um lugar onde parar de correr e sc estabelecer para continuar com o ofício
da vida. No sistema, seriam incluídos amigos totalmente confiáveis e simpatizantes fora da Ordem que
desejassem correr o risco de participar de uma rede oculta.
Os Templários certamente tinham a experiência necessária para criar sinais e signos secretos e
sabiam que nenhum sistema desse tipo poderia funcionar sem padronização. Os sinais tinham de ser
conhecidos e combinados com todos, o que significa que eles precisariam ser inventados e divulgados por
um pequeno centro de líderes e depois simplesmente revelados aos outros; qualquer processo democrático
de votação em possíveis escolhas teria sido logisticamente impossível naqueles dias de comunicação difícil
e condições de viagem deficientes. Com uma população analfabeta, também, o sistema teria de ser
implementado verbalmente, sendo aprendido por rotina e repetição.
Uma vez que os sinais e signos estivessem estabelecidos, seria de extrema importância que eles fossem
repassados apenas às pessoas consideradas de absoluta confiança. De acordo com os costumes da época, a
segurança dessa confiança provavelmente teria exigido um juramento sagrado. aliado a uma penalidade
terrena para suplementar o desprazer de Deus com o rompimento de um juramento feito em Seu nome.
Vimos isso na combinação secreta feita entre Felipe IV da França e o arcebispo de Bordeaux. que
designaria o próximo líder da Sagrada Igreja Romana. O
arcebispo da Igreja fez o mais sagrado dos juramentos diante do próprio anfitrião, mas isso não foi
seguro o suficiente para Felipe, que exigiu os irmãos e sobrinhos do arcebispo como reféns; a
penalidade do arcebispo por quebrar seu juramento seria o assassinato de sua família. O juramento
sob penalidade não era limitado aos mais altos senhores da autoridade real e espiritual. Nós o vemos,
na memória popular repassada às crianças do mundo anglófono, em sua promessa infantil de
segredo quando elas fazem o sinal-da-cruz sobre o peito esquerdo e dizem: "Cruzo meu coração e
espero morrer." O sinal-da-cruz faz disso um juramento religioso. A penalidade por quebrar o
juramento é a morte. A palavra-chave é "espero", que significa que a penalidade é livre e
voluntariamente assumida: "Se eu quebrar esse juramento, eu quero morrer, como uma punição
adequada por meu pecado." O objetivo do juramento é instilar a confiança total. Uma vez que. no
caso dos Templários fugitivos, a traição significaria um tratamento muito mais horrível do que uma
morte simples, a penalidade pela quebra do juramento também necessitaria ser algo horrível. Isso
traz à mente o juramento mui condenado da iniciação do Mestre Maçom no terceiro grau. quando ele
pede para seu corpo ser cortado em dois e seus intestinos queimados até as cinzas se ele quebrasse seu
juramento de segredo. A penalidade pareceria totalmente inadequada para um juramento quebrado
feito por um membro de uma guilda de pedreiros, mas não pareceria tanto para um homem cuja
traição significaria dias e semanas de tormento com chicotes. correntes c ferros em brasa, com o risco
derradeiro
w de ser queimado vivo na fogueira.
Os anos que se passaram entre as primeiras prisões de Templários. em 1307. e a dissolução final
da Ordem, em 1512. teriam fornecido muito tempo e oportunidades para que o sistema oculto
amadurecesse em uma organização clandestina que pudesse admitir outros simpatizantes e fugitivos.
especialmente aqueles que haviam fugido da prisão durante esses anos. A organização poderia ter
ajudado nessas fugas e conseguiria apressar a viagem dos fugitivos por caminhos ocultos. Alguns
Cavaleiros Templários se juntaram aos Hospitalários. como o papa sugerira, e muitos sacerdotes
Templários foram para outras ordens religiosas, mas isso não significa que eles não teriam de boa
vontade se juntado em uma sociedade secreta re- cém-formada que ajudasse seus Irmãos —
especialmente por causa do estado mental que domina o homem depois que o pânico se acalma.
Um homem que experimenta grande medo. que deve fugir e se esconder. que perde sua liberdade,
sua posição na comunidade e mesmo seu próprio nome. que e reduzido pelas circunstâncias a correr
como um animal, tem uma idéia fixa. pensa apenas cm evitar a captura e a prisão. Uma vez que ele se
sente seguro, porém, e o pânico diminui, sua mente se move para aqueles que o levaram a essa
condição. Sua mente passa do medo à raiva e do pânico a pensamentos de vingança. E esse estado de
espirito que pode manter vivo um grupo clandestino, inclusive por gerações. Alguns
podem estar desejosos de esquecer, mas muitos niio estão, e alguns dentro os armênios, curdos, irlandeses,
sioux, sikhs, judeus e palestinos, bascos c ucranianos garantem que seus filhos e netos também niio
esquecerão. 0 ódio e a paixão pela vingança não morrem necessariamente com as vítimas originais.
Os Templários fugitivos que escaparam com os navios da Ordem estavam em uma situação muito
especial. Não sabemos o destino das naves templárias que trouxeram Jacques de Molay e seu séqüito a
Marselha. Não há registro da captura de IX navios templários de sua base naval cm La
Roehelle na costa francesa, ou de quaisquer navios Templários ancorados no Tâmisa ou em outros portos
marítimos na (irã-Bretanha. Os Templários que fugiram com esses navios tiveram um duplo benefício: os
navios forneciam um lugar para viver e também os meios dc ganhar a vida. Para piratas c corsários do
Mediterrâneo, era sempre a estação da caça, com centenas dc países separados, províncias,
eidades-Estado e comunidades insulares. Uma vez que muitos dos navios templários eram galés, eram
perfeitamente adequados | pirataria, pois navios parados pela calmaria sempre seriam presa fácil para
aqueles que não dependiam do vento. Se. por acaso, um corsário tinha uma orientação religiosa, havia
diversos alvos de obediência muçulmana. cristã romana e cristã ortodoxa para escolher, mas, mesmo
dentro da própria convicção religiosa do agressor, as diferenças políticas usualmente traziam alvos
substanciais. Navios de guerra deviam ser evitados como alvos, porque a pilhagem fácil era o objetivo.
Navios de pesca e lugares costeiros eram jogo ganho, mas tinham dc ser procurados. O ponto dc ataque
mais seguro eram as vilas costeiras, sendo o tamanho do alvo escolhido de acordo com o tamanho da força
pirata. Depois das colheitas, a estação pirata se aquecia. Havia sempre um mercado pronto para alimentos
e animais e se. por acaso, uma igreja tinha um relieário cravcjado ou um copo de comunhão de prata, era
um bônus. As pessoas eram os principais alvos, sendo os mais ricos devolvidos mediante resgate e o resto
vendido no mercado de escravos. Grandes portos cresciam, onde os piratas podiam dispor de suas cargas,
recrutar-se e reabastecer para a próxima viagem. Escravos cristãos eram prontamente vendidos nos
portos da África do Norte, como Túnis e Mahdia.
A especulação sobre o desaparecimento dos navios templários e dos homens que os manejavam traz I
mente um dos muis misteriosos princípios da Maçonaria. Na palestra que resume a iniciação de um novo
Mestre Maçom, o candidato recém-admitido aprende que esse grau "fará de voefi Irmão de piratas e
corsários". A afirmação não Ia/, nenhum sentido no contexto de uma sociedade descendente dc pedreiros
medievais. Não pode realmente ser explicada; nunca conversei com um Maçom que pudesse oferecer
qualquer base para essa estranha declaração. I lá uma lenda na Maçonaria. porém, que freqüentemente é
lembruda. A história é que, em 1813, um Maçom era capitão do navio mercante Oak, que foi tomado por
um pirata. Desesperado, o capitão fez o Sinal de Aflição de Mestre Maçom. 0 sinal foi reconhecido
pelo chefe dos piratas, que devolveu os bens do capitão e o soltou. Alem disso, o pirata amarrou um
biscoito dc marinheiro cm uma fita, que prendeu em torno do pescoço u
do cão do Maçom. Essa fita e o
biscoito supostamente ainda estão cm posse da Loja da Amizade (n 137), cm Poolc, Inglaterra. O
pirata é lembrado na história maçônica como Por mais intrigante que possa ser a história, nada
oferece para explicar por que um Mestre Maçom poderia ser considerado "Irmão dc piratas c
corsários". Sc, por outro lado, houvesse se desenvolvido alguma relação entre os Templários fugitivos
c os Maçons, a afirmação misteriosa faria muito sentido, pois o fugitivo Templário em terra seria
realmente Irmão dc quaisquer Templários que houvessem levado os navios da Ordem para o piratas.
A possível relação entre os Templários c os Maçons surgia cada vez mais forte. Qualquer Icmplário
fugitivo apanhado seria aprisionado e torturado para extrair confissões dc heresia, e a pessoa que o
ajudasse, mesmo que com conselhos c opiniões, podia ser punida c excomungada, arriscan- do-sc a perder
qualquer propriedade que tivesse. Sob tais circunstancias, saber quem era confiável era, literalmente,
assunto dc vida ou morte. Sc o fato dc deixar um homem conhecer seu nome colocasse sua vida e proprie-
dade em risco, que tipo de juramento ou ameaça seria suficiente para lhe dar um sentimento de
tranqüilidade? O 'Icmplário fugitivo precisaria de uma Regra como a da Antiga Obrigação da Maçonaria:
que um Maçom n&o conte, sobre um Irmão, nenhum segredo que possa fazer com que este perca sua vida
e propriedade. Para os Templários fugitivos, essa obrigação seria absolutamente necessária, enquanto
paru o pedreiro medieval não faria qualquer sentido. Que segredos poderia o pedreiro ter que ameaçasse
sua vida c propriedade? Uma nova e engenhosa maneira de manejar um cin/.cl? Uma fórmula para
calcular a capacidade dc sustentação de um alicerce? Que segredo cie poderia temer que o Irmão Maçom
revelasse às autoridades, que poderiam então tirar sua vida c propriedade como resultado do
conhecimento desse segredo? Teriam os Templários fugitivos dc alguma forma se misturado aos Maçons e
injetado em seus rituais esses pontos, que se aplicariam a todos os 'Templários fugitivos, mas a nenhum
pedreiro? Isso significaria que os Templários não apenas haviam encontrado um abrigo na Maçonaria,
mas, de alguma forma, vieram a dominá-la.
Havia outra ligação maçônicn difícil dc ignorar. Os Templários tinham três inimigos: a monarquia, os
l Iospitalários e a Igreja, Para um Templário, a idéia da Igreja como seu inimigo devia ser, ao mesmo
tempo, deprimente c desconcertante, A entrada na Ordem Templária não fazia de um homem um
cavaleiro; ele teria de pertencer i\ classe adequada para isso. A grande mudança radical em sua vida era
que, por sua própria vontade, a iniciação tcmplária fazia do cavaleiro um monge, cuja vida posterior seria
inteiramente dedicada ao serviço da Igreja e de seu papa. Essa dedicação fazia com que ele abandonasse
qualquer pensamento de ter uma esposa e filhos por causa de seu voto de castidade, levava-o a desistir de
todas as suas posses mundanas por causa do voto de pobreza e fazia com que curvasse a sua própria
vontade diante daqueles que estavam acima dele em seu serviço a Deus por seu voto de obediência. Era
membro de uma comunidade religiosa dê homens que, em muitas ocasiões, haviam escolhido morrer em
vez de salvar suas vidas negando ou comprometendo a fé católica romana. O monge templário vivia de
acordo com uma Regra monástica estrita e aderia rigidamente a um programa diário de adoração e
oração, como sua Igreja decretara que ele deveria fazer. Como ele poderia, repentinamente, adaptar-se a
ter a mesma Igreja contra ele, acusando-o de blasfêmias e obscenidades, prendendo-o, acorrentando-o e
levando-o à fogueira?
De se esperar que muitos Templários tivessem reações diversas à sua rejeição pelos representantes
nomeados por Deus na Terra. Alguns podiam ter repudiado toda a hierarquia da Igreja, outros podiam
ter discordado em assuntos como os sacramentos; Cristo que, por meio de Pedro, trouxera os papas para
iiderarem sua Igreja na Terra ou a Virgem Maria! que era reverenciada por essa Igreja. Porém,
obviamente, eles necessitariam de um ponto focai de concórdia, ou seja, que realmente havia um Deus,
pois de que outro modo poderia haver juramentos efetivos? Deixemos dê lado aqueles que haviam recaído
em uma total descrença de Deus; nenhum homem quereria sua segurança, de forma alguma dependeria
do juramento de um ateu, pois, sem fé, não poderia existir juramento confiável. Quanto às diferenças de
opinião entre a irmandade do Templo a respeito das partes da Igreja e de seus ensinamentos que
manteriam ou rejeitariam, eles que decidissem por si mesmos. Havia vidas na fogueira, de forma que as
diferenças religiosas não importavam. Discutir sobre crenças pessoais poderia apenas separá-los, então
seria melhor não as discutir.
Dado esse conjunto de pensamentos e conclusões, o monge militar rejeitado se viu em uma condição
totalmente nova e esquisita. O papa o havia rejeitado, portanto, ele não tinha escolha senão rejeitar o
papa. Até então, durante sua vida inteira na Ordem Templária, sua ligação com Deus se dera por meio de
seu Grão-Mestre, que respondia apenas ao papa, que dizia ser o único vice-rei de Deus na Terra. Naquele
momento sua ordem religiosa havia sido dissolvida, seu Grão-Mestre queimado na fogueira e o vigário de
Cristo na Terra o desprezara. Ainda acreditava em Deus, mas sua corrente de intercessão com Ele havia
sido quebrada. Pela primeira vez em sua vida não havia ninguém entre Deus e ele. Suas orações de
solicitado e agradecimento, seus atos de adoração, suas esperanças de salvação nao podiam mais se dar
por intermédio do papa e ficavam em uma base puramente pessoal. Com tais pensamentos c conclusões, as
sementes da reforma | do protestantismo podem muito bem terem sido germinadas completamente sessenta
anos ou mais antes dc John Wycliffe c dos Lolardos.
Essas sementes estavam livres para germinar e sc propagar porque eram cultivadas cm completo
segredo, talvez nutridas por crenças de outros desiludidos ou perseguidos, que teriam sido
bem-vindos à irmandade.
Tudo isso é especulação, não importa o sentido que possa fazer, porque não há absolutamente
nenhuma evidencia histórica da existência dc uma sociedade secreta especificamente baseada cm
Templários fugitivos. A busca pode ser razoavelmente abandonada, exceto por um ponto que
permanece na mente e não sc apaga. Tudo o que precede pode ser a primeira explicação lógica
do verdadeiro cerne da Maçonaria. O ponto que mais caracteriza essa fraternidade, c que não
teve explicação por centenas de anos, é a doutrina central da Maçonaria, que diz que cada
membro deve afirmar sua crença em um Ser Supremo, mas a forma como adora esse Ser Supremo
não deve ser questionada. Não tem permissão dc discutir suas crenças religiosas na Loja nem
devem tentar persuadir qualquer outro Maçom de seu ponto de vista ou credo.
A maioria dos Maçons dc hoje acredita que sua fraternidade nasceu nas guildas medievais dc
pedreiros. Retraçada a tais inícios, a atitude ma- çônica para com a religião é extremamente
difícil dc compreender. As guildas eram muito religiosas, tinham santos padroeiros, possuíam
relíquias sagradas, apresentavam peças religiosas, contribuíam com peregrinações. Nor-
malmente, veneravam a Virgem Maria. Faziam doações extras para a Santa Sé. Como guildas de
pedreiros, jamais poderiam ter adquirido uma atitude cm relação à Igreja e à religião que dizia:
"Sc cias são importantes para você, para nós tudo bem, mas, para nossa irmandade secular
protetora, os sacramentos não importam, Cristo não importa. Sua Santa Mãe não importa e o
papa, em Roma, não importa. Tudo o que importa c cjuc você concorde que há realmente um Ser
Supremo acima de todos nós." Isso não significa que os Maçons não possam ser cristãos, porque
a maior parte deles certamente é. Porém, significa que a fraternidade básica da Maçonaria não é
estruturada na ética cristã em si, mas dá as boas-vindas a todo homem que acredite em qualquer
percepção de um Ser Supremo monoteístico. Dá as boas-vindas a qualquer crente e rejeita apenas o
ateu. O iniciado cristão faz seu juramento sobre a Bíblia sagrada, o iniciado judeu usa a Torá e o
sikh pode pousar a mão no Khalsa, do Guru Gobind Singh. Pedir-nos que acreditemos que esse
tema central possa ter evoluído a partir de uma guilda medieval c demais. Mas, como vimos, isso
poderia ter facilmente nascido nas circunstâncias dc uma irmandade condenada pela Igreja e
levada a se esconder sob a ameaça de aprisionaincnto e tortura papal.
Por um lado, há um grupo dc homens escondidos, com toda a motivação c a habilidade
necessárias para formar uma sociedade secreta e com boa razão para adotar uma atitude radical
cm relação à religião dominante, mas sem prova específica de uma organização ex-templária. Por
outro lado, há indícios óbvios de u m a sociedade secreta que realmente existiu c prosperou no f i m
da Idade Media e a crença comum dc que, u m a vez que seus membros, em certo ponto, começaram a
ser chamados "maçons", ela deve ter surgido literalmente dessa guilda de ofício, mas sem indício
documental que sustente tal teoria. Além disso, temos homens escondidos que poderiam ter se beneficiado
de todas as protetoras Antigas Obrigações da Maçonaria. ao passo que uma guilda de pedreiros não teria
necessidade prática de quase nenhuma delas.
Finalmente, seria pura coincidência que os Cavaleiros Templários e os Maçons fossem a única
organização em toda a história que encontrou sua principal identificação no Templo de Salomão, ou essa
história estaria tentando nos contar algo?
E possível ficar enfastiado, ou cauteloso, ao tentar passar por cima de tantas similaridades
templárias/Maçônicas como se fossem coincidência. Seria necessário cavar muito mais fundo antes de
chegar a qualquer conclusão. mas já se descobriu o bastante para permitir um olhar muito mais intenso
em rituais, lendas e histórias da Maçonaria, para rejeitar ou reforçar o que agora parece ser uma relação
muito definida. Muitas vezes, nos últimos 270 anos, houve alegações de uma conexão entre os Templários e
a Ordem Maçônica, mas foram deixadas de lado por falta de quaisquer fatos reais e acabaram por ser
vistas como espúrias. Novamente, quase todas as provas sobre as origens da Maçonaria vieram de dentro
para fora, ao se tentar construir algo a partir de lendas e símbolos, algo como um investigador que usasse a
suástica para provar que o partido nazista se originou na antiga índia e na Grécia, com ligações com os
índios hopi. Dessa vez, as investigações seriam de fora para dentro, tentando retraçar as razões para a
sociedade secreta maçônica que existia apenas na Grã-Bretanha, além dos fatores que poderiam mantê-la
viva, e em segredo, por séculos.
PARTE II

Os MAÇONS
PRÓLOGO

Calçamento Vitoriano, ao longo do rio Tâmisa, em Londres, é um dos passeios mais

O impressionantes do mundo. Sua característica mais notável é um antigo obelisco egípcio


chamado Agulha de Cleópatra, que data do reinado de Tutmés III, cerca de 1500 a.C. Foi ofe -
recido ao povo britânico muitas vezes, desde a época de George IV, mas começou sua viagem a
Londres em 1877. No caminho, uma tempestade afundou o navio na baía de Biscay, mas em água
suficientemente rasa para que o obelisco fosse retirado e levado a seu novo lar.
A inauguração da Agulha de Cleópatra no Calçamento, em 1878, foi uma grande ocasião, e
alguém teve a interessante idéia de tornar a celebração e o obelisco ainda mais memoráveis. Uma
vez que os hieróglifos dão pistas sobre uma cultura de 3 mil anos, o favor deveria ser devolvido
deixando-se pistas da sociedade britânica contemporânea para os futuros arqueólogos. Para esse
fim, dois jarros de cerâmica foram selados na base do obelisco e, nesses jarros, colocaram -se
objetos indicando as maiores realizações do império britânico—por exemplo, um conjunto
completo de moedas recém-cunhadas, pois, certamente, o sistema monetário britânico, preemi-
nente no mundo, estava entre as maiores realizações britânicas.
A lista completa de objetos colocados nos jarros saiu no Times de Londres do dia da
inauguração. Ninguém parece ter notado, ou comentado, sobre um objeto muito ordinário colocado
em um dos jarros selados. Era uma régua de metal de 24 polegadas. Qual era a realização
simbolizada por essa régua? A invenção da polegada? Os Maçons que estão lendo isso já devem ter
adivinhado. A régua, chamada pelos Maçons de "régua de 24 polegadas", é um símbolo muito
importante na lenda e no cerimonial da Maçonaria. A régua de 24 polegadas é a primeira
ferramenta de trabalho apresentada a um novo Maçom como parte de sua iniciação como Apren -
diz. A moral é que ele ilustra o uso apropriado do dia maçônico de 24 horas, dividido em períodos
de trabalho, descanso e caridade. Ele também aparece no ritual maçônico como uma das
ferramentas usadas para atacar o
Mestre Maçom nu construção do Templo de Salomão nos ritos de iniciação para o grau de Mestre Maçom.
Aparentemente*, o Metropolitan Works Hoard, ou seus superiores, ou todos eles, decidiram colocar
discretamente a régua dc 24 polegadas soba hase do obelisco para contar aos arqueólogos de mil anos
depois que, entre as maiores rcali/açcVs britânicas, devia-se contar a organização quase secreta conhecida
como Antiga Ordem de Maçons Livres e Aceitos,

O NASCIMENTO DA GRANDE LOJA

A tarefa de descrever a Maçonaria | formidável. É a maior organi- zação fraternal no mundo, com quase
três milhões de membros nos Estados Unidos, mais de 700 mil membros na Grã-Bretanha c mais de um
milhão no resto do mundo. Foi assunto de mais de cinqüenta mil livros, panfletos e artigos desde que se
revelou ao mundo, em 1717.
Embora baseada no pré-requisito principal de admissão, a firme crença em um Ser Supremo,
admitindo homens dc todas as religiões e tendo como tema central o comportamento moral, o
auto-aperfeiçoamento constante e a dedicação | caridade, a Maçonaria provavelmente despertou mais
inimizade do que qualquer organização secular na história mundial. Foicon- sistentemente atacada pela
Igreja Católica Romana, proibida aos membros da fé mórmon. e mesmo o Exército da Salvação e a Igreja
Metodista na Inglaterra aconselharam seus membros contra a associação maçônica. Ela foi, 11 ainda hoje,
proscrita em muitos países, embora os Maçons certamente não se importem por ter tido sua ordem
declarada ilegal por Adolf Hitler, Benito Mussolini e Francisco Franco. Eles se importam, sim, por ter sido
estigmatizados como uma nova religião, o anticristo. e como força por trás de complôs subversivos para
derrubar governos. Mais recentemente, eles tiveram de lidar com o envolvimento de uma Loja Maçônica
clandestina, não reconhecido, nos escândalos bancários do Vaticano e com alegações dc promoções não
comprovadas e encobriraento de verdade na polícia britânica e ao serviço civil.
Muitas alegações antimaçônicas são difíceis de lidar eni razão da tradicional política da Maçonaria aão
responder aos ataques. Críticos da Ma- çonaria se beneficiam do conceito de "confissão pelo silêncio", pois
suas acusações normalmente permanecem não respondidas por uma sociedade quase secreta que
aparentemente sente, mesmo em nossa sociedade dominada
pela mídia, que fatos são mais importantes do que matérias em jornais. Em virtude dessa política, os
Maçons podem estar destinados a permanecer controversos, embora suas legiões de críticos sejam
facilmente desafiadas pelas legiões de notáveis que escolheram ser membros dela. A Maçonaria estava
presente na Revolução Americana, com membros como George Washington, Benjamin Franklin, James
Monroe, Alexander Hamilton, Paul Revere, John Paul Jones e mesmo o marquês de Lafayette e Benedict
Arnold. Outras revoluções, contra a Igreja e o Estado, foram lideradas por Maçons como Benito Juarez,
Simón Bolívar, Giuseppe Garibaldi e Sam Houston (ajudado, cm alguns casos pelos produtos de seu
companheiro Maçom, Samuel Colt).
Reis e imperadores que fizeram o juramento maçônico incluem Eduardo VII, Eduardo VIII e George
VI da Inglaterra, Frederico, o Grande, da Prússia, George I da Grécia, Haakon VII da Noruega, Stanislaw
II da Polônia e até o rei Kamehameha V do Havaí. Além de Washington e Monroe, o rol maçônico de
presidentes dos Estados Unidos inclui Andrew Jackson, James K. Polk, James Buchanan, Andrew
Johnson, James A. Garfield, Theodore Roosevelt, William Howard Taft, Warren G. Harding, Franklin D.
Roosevelt, Harry S. Truman, Lyndon Johnson, Gerald Ford e o Irmão honorário Ronald Reagan.
A Segunda Guerra Mundial foi travada pelos líderes maçônicos britânicos Sir Winston S. Churchill, o
marechal-de-campo conde Alexander de Túnis, o marechal-de-campo Sir Claude Auchinlech, o marechal
lorde Newhall (Royal Air Force) e o general Sir Francis Wingate. A Maçonaria americana estava bem
representada pelos generais Mark Clark, Ornar Bradley, George Marshall, Joseph Stillwell e Douglas
MacArthur.
Também não havia sempre Maçons no mesmo lado. Napoleão comandou seus marechais Maçons
Messena, Murat, Soult, MacDonald e Ney contra os Maçons Kutuzov da Rússia, Blucher da Prússia e a
causa de sua ruína, o duque de Wellington.
E difícil saber onde parar ao se enumerar a influência maçônica em todos os aspectos da vida
ocidental nos últimos 270 anos, seja essa influência política, militar ou cultural. Em música, a Maçonaria
aparece em toda a escala, desde William C. Handy, compositor do The St. Louis Blues, até John Philip Sousa, e
de Gilbert e Sullivan, passando por Sibellius e Haydn até Wolfgang Amadeus Mozart, que, segundo
alguns, foi assassinado por revelar segredos maçônicos em sua ópera 1 Flauta Mágica.
Os membros maçônicos do mundo literário incluem Sir Walter Scott, Robert Burns, Rudyard Kipling,
Jonathan Suvift, Oscar Wilde, Oliver Goldsmith, Mark Twain e Sir Arthur Conan Doyle (que nunca teria
permitido que o livro antimaçônico Jack ilie Ripper: The Final Solution de Stephen Knight fosse reescrito, como foi,
em uma versão de filme de ficção. degradandoa criação de Sir Arthur, Sherlock Holmes, contra os Irmãos
do próprio Sir Arthur em Londres).
Por mais impressionantes, e mesmo legendários, que alguns desses verdadeiros Maçons possam ser,
eles empalidecem diante das revelações dos primeiros historiadores maçônicos, que diziam pertencer à
sua irmandade Adão, Abraão, Noé, Moisés, Salomão, Ptolomeu, Júlio César e Pitágoras (lembrado na
tradição maçônica verbal pelo nome anglicizado "Peter Gower"). Um escritor maçônico ficou muito
irritado porque alguns de seus contemporâneos expressaram dúvidas quanto à alegação de que Aquiles
era membro da Maçonaria. E a fantasia não pára por aí. Já se alegou que as origens da Maçonaria estão
no antigo Egito, e alguns remontam as fontes maçônicas aos essênios, zoroastrianos, caldeus e
especialmente aos fenícios, já que eles foram gentis o bastante para viajar à Grã-Bretanha e compartilhar
seus mistérios com os druidas, também alegados predecessores da Maçonaria.
Gradativamente, a competição entre historiadores maçônicos para superar uns aos outros em tais
fantasias se estabeleceu e vozes mais sóbrias tiveram chance de ser ouvidas. A primeira grande retratação
foi ao estabelecimento da Maçonaria quando da construção do Templo de Salomão, baseado em uma
interpretação literal de uma alegoria que, como veremos, é central no ritual de iniciação de um Mestre
Maçom. Essa teoria foi embelezada para estabelecer três Grão-Mestres originais: o Rei Salomão; Hirao,
rei de Tiro; e o Hirão mítico chamado "Hiram Abiff'. Escritores maçônicos tentaram identificar o Hiram
Abiff como o Hirão bíblico, "filho de uma viúva de Naftali", que era mestre artesão em bronze, habilidade
que utilizou para fabricar os grandes pilares, Jaquin e Boaz, que ladeavam a entrada do pórtico exterior
do Templo. O problema é que, no ritual maçônico, o mestre construtor, Hiram Abiff, é assassinado e o
Templo de Salomão nunca é terminado, enquanto o relato bíblico conta que o Templo foi terminado e que,
até onde sabemos, Hirão, o ferreiro, foi para casa, vivo e saudável. O relato bíblico na verdade não dá
nenhuma pista quanto às reais origens da Maçonaria. Se havia qualquer revelação válida das origens
maçônicas na construção do Templo de Salomão, teria de ser desenhada a partir do drama alegórico
encerrado no ritual maçônico.
A geração seguinte de historiadores maçônicos, buscando agora a verdade e não o romance, finalmente
admitiu que não havia nenhuma prova do início da Maçonaria no Templo dc Salomão, mas eles achavam
que haviam encontrado essa origem nas guildas medievais dc pedreiros. Essa teoria levou à apropriação de
todas as ferramentas de trabalho dos pedreiros, tornando-as símbolos das lições dc moral que o Maçom
deve seguir enquanto se empenha constantemente pelo auto-aperfeiçoamento. O problema é ter uma
história plausível, uma base crível para pensar que lima organização de portadores de pedra poeirentos,
com mãos e joelhos arranhados, costas doloridas por lidar com blocos pesados de pedra em todas as
condições climáticas, de alguma forma, transformaram-se em uma nobre companhia liderada por reis c
príncipes, duques e condes — para não mencionar que todo o processo foi realizado em total segredo.
O problema básico, é claro, é que, antes do ano de 1717, a Ordem Maçônica era uma verdadeira
sociedade secreta; nào apenas uma organização com signos e apertos de mão secretos, mas uma sociedade
muito difundida cuja própria existência era secreta. Nenhum historiador maçônico alega compreender
completamente por que esse segredo existiu ou mesmo por que o grupo existia. Quando a Maçonaria
finalmente se revelou. tornou-se gradativamente conhecido que essa sociedade secreta tinha células, ou
"Lojas", como as chamavam, por toda a Inglaterra, Irlanda Escócia e Gales, mas em nenhum outro lugar.
O que as mantivera juntas, prometendo preservar sua tradiç ao de total segredo geração após iicração
com juramentos tão sagrados que a quebra deles poderia trazer punições extraordinariamente brutais?
Qualquer que fosse a argamassa de motivação que mantivesse juntas as pedras das Lojas Maçônicas,
dando um objetivo à vida dos membros e exigindo total segredo, teria desaparecido na época em que o
primeiro rei hanoveriano, George 1. ascendeu ao trono da Inglaterra, trono até então proibido legalmente
a qualquer católico romano ou esposa de um católico romano.
Na época, foi um acontecimento de pouca importância: quatro Lojas de Maçons se reuniram na
Taverna da Macieira em Covent Garden. em 1 .ondres. em 1717. e declararam que iriam se coligar e
formar uma associação oficial chamada "Grande Loja". Não há indícios de que, na época, eles pensassem
numa confederação que sc estendesse além de Londres e de Westminster. A notícia em si não era
impressionante para o povo de Londres. cuja primeira impressão, se é que houve alguma, deve ter sido de
que
quatro clubes de almoço estavam sc unindo para comer e beber juntos uma vez por ano. Essa impressão
teria sido justificada pelo fato de que esses "Maçons" regavam seus encontros na "Loja" com comidas,
bebidas e tabaco na Taverna da Macieira, na Cervejaria da Coroa, perto de Drury Lane, no Ganso e
Grelha, ao lado da igreja de São Paulo, e na Taverna Taça e Uvas. em Westminster. O grupo tomou então
São João Batista como um de seus santos padroeiros e. no dia de São João Batista. 24 de junho de 1717, a
Grande Loja foi oficialmente instituída, com a eleição de um Grão-Mestre e outros oficiais.
O verdadeiro choque deve ter ocorrido no subterrâneo e sentido por todos os outros Maçons na
Grã-Bretanha. As quatro lojas londrinas, simplesmente revelando a existência dc sua Ordem, haviam
violado seu juramento sagrado de segredo. Decidiram, unilateralmente, que o segredo total não era mais
necessário, ou mesmo desejável. Todos os outros Maçons na Grã-Bretanha devem ter ficado num dilema e
é fácil imaginar as discussões preocupadas c acaloradas que ocorreram nos encontros secretos da Loja por
toda a Grã-Bretanha durante os meses que se seguiram à revelação londrina.
Pouco a pouco, outras Lojas Maçônicas. a maioria nas áreas em torno de Londres, revelaram-se e
pediram para se unir | nova Grande Loja.
Outras, porem, estavam irritadas com os "perjuros" e não queriam nada com cies. A ira pode ter sido
ocasionada porque os membros da recém- formada Grande Loja não fizeram nenhuma tentativa para
justificar suas ações ou mesmo para explicar por que haviam decidido que chegara a hora dc afastar
aquilo que eles, aparentemente, achavam ser um segredo desnecessário e mesmo inconveniente.
Sabemos que houve resistência por parte das Lojas que ainda se prendiam a suas obrigações originais,
por sua reação a um pedido formal feito pelo Mestre da Grande Loja no segundo Grande Festival de
1718. Pediu-se a todas as Lojas Maçônicas na Inglaterra que entregassem à Grande Loja quaisquer
registros antigos ou outros documentos relacionados à Maçonaria para que pudessem ser estudados a
fim dc traçar uma Constituição para a Grande Loja. A reação de muitas Lojas foi queimar todas as
referências escritas e seus regulamentos ou história para evitar que fossem usados na quebra do
juramento de segredo. Os historiadores podem lamentar essa destruição de documentos valiosos, mas.
de certa forma, isso dá crédito àqueles que não estavam dispostos a jogar fora suas tradições ou seus
votos.
A primeira objeção formai ao conceito da Grande Loja veio oito anos depois, em 1725, da Loja
Maçônica de York. Os Maçons de York baseavam sua queixa não nas violações do antigo segredo da
Ordem, mas na assumida superioridade e antigüidade dos londrinos. A Maçonaria de York, afirmavam
eles, era tão antiga quanto o estabelecimento dos alicerces da catedral de York no século VII. Edwin, o
rei da Nortúmbria, fora seu primeiro Grão-Mestre. No espírito de irmandade, diziam, eles não
discutiriam com o grupo londrino que se chamava, assim mesmo. Grande Loja da Inglaterra. mas o
mundo inteiro deveria saber que a Maçonaria de York tinha um "direito indiscutível" de se chamar
"Grande Loja de tala a Inglaterra"
(o grifo é nosso). ,
Durante esse mesmo ano de 1725, a Maçonaria irlandesa saiu de seu
pântano enevoado de segredo e declarou uma Grande Loja da Irlanda, baseada em Dublin. O primeiro
Grão-Mestre irlandês foi o conde de Rosse, com 29 anos, provavelmente uma escolha sábia para manter
as coisas em movimento, uma vez que herdara uma vasta fortuna de um milhão de libras de sua querida
avó, a duquesa de Tyrconnel.
A Escócia foi a que mais demorou para trazer sua Maçonaria à vista do público (já se disse que. se a
Maçonaria fosse classificada como o judaísmo, na América ela seria chamada de reformadora: na
Inglaterra, de conservadora; e na Escócia, de ortodoxa). Finalmente, porém, dezenove anos após o início
da Grande Loja da Inglaterra, as lojas escocesas se reuniram para discutir sua própria situação. O ano
de 1737 viu o primeiro encontro formal da nova Grande Loja da Escócia.
Naquele mesmo ano, também houve o início de uma explosão da Maçonaria na França. Foi o que deu
início à proliferação de novas ordens maçônicas e estimulou a criação de novas lendas e fantasias que
confundem
qualquer tentativa séria de compreender a Maçonaria moderna, mesmo nos Estados Unidos. Tudo isso foi
engatilhado por um só homem, um escocês bem-nascido cujas motivações ainda hoje são misteriosas.
Andrew Michael Ramsay nasceu em Ayr, na Escócia, por volta de 1681 e foi educado na Universidade
de Edimburgo. Em 1709, Ramsay foi nomeado tutor dos filhos do conde de Wemyss, mas logo se envolveu
no distúrbio religioso que atacava a Escócia naquela época e foi para a França. Ali, sob o patronato do
arcebispo Fénelon, Ramsay se converteu ao catolicismo romano. Algum tempo depois foi nomeado
preceptor do duque de Château-Thierry e, subseqüentemente, do príncipe de Turrene. Por seus serviços,
foi recompensado com uma ordenação na cavalaria francesa, foi feito chevalier (cavaleiro) da Ordem de São
Lázaro e por isso é lembrado na história maçônica como Cavaleiro Ramsay.
Talvez o serviço mais significativo de Ramsay tenha sido para um rei, mas um rei sem país. Ele foi
chamado a Roma pelo homem que teria sido o rei Jaime III da Inglaterra se seu pai, Jaime II, não
houvesse sido deposto. Jaime se dedicava a devolver as Coroas escocesa e inglesa à sua família e a devolver
o povo britânico à autoridade da Igreja romana. Se ele não conseguisse essas Coroas para si, podia tentar
consegui-las para seu filho, Carlos Eduardo Stuart, bisneto daquele monarca que reinara como Jaime VI
da Escócia e como Jaime I da Inglaterra e era, portanto, aos olhos da Europa católica, herdeiro dos tronos
inglês e escocês. Em busca de um tutor para seu herdeiro exilado, Jaime mandou buscar o cavaleiro
escocês Andrew Ramsay, que empreendeu a educação do trágico jovem que viveria na história como o
Belo Príncipe Charlie.
Após algum tempo em Roma, Ramsay voltou | França, onde ganhou um papel ativo na Maçonaria.
Era a Maçonaria básica britânica de três graus, que fora trazida para o outro lado do canal por maçons
ingleses que haviam assentado residência em Paris e outras cidades grandes da França. Estabeleceram
Lojas e trouxeram a elas alguns de seus amigos franceses. Eles pareciam levemente interessados, mas não
estavam lá muito impressionados por uma sociedade semi-secreta que crescera a partir de uma associação
de pedreiros sujos. Ramsay mudou tudo isso. Proclamou uma origem inteiramente nova para a
Maçonaria; não em pedreiros medievais, mas em reis, príncipes, barões e cavaleiros das Cruzadas. Não
tinha nenhum traço de documentação e nem mesmo base razoável para sustentar sua alegação, mas
acreditaram nele. Afinal de contas, ele era tutor da realeza, membro da Sociedade Real, Cavaleiro da
Ordem de São Lázaro e Grande Chanceler da Grande Loja Maçônica de Paris. O Discurso de Ramsay,
como se tornou conhecido, foi lido pela primeira vez na Loja Maçônica de São Tomás em Paris, a 21 de
março de 1737.
"Nossos ancestrais, os cruzados, reuniram-se, vindos de todas as partes da cristandade, na Terra
Santa, desejando assim reunir em uma única fraternidade os indivíduos de todas as nações", disse
Ramsay. Ele explicou
algumas das palavras secretas que dizia ser protetoras, "palavras de guerra que os cruzados diziam uns
aos outros para resguardá-los das surpresas dos sarracenos, que freqüentemente surgiam entre eles para
matá-los". Alegava que os antigos mistérios de Ceres, ísis, Minerva e Diana tinham ligação com a Ordem.
Quanto a ser "Maçons", Ramsay explicou que os maçons cruzados originais não eram trabalhadores de
pedra, mas antes homens que haviam feito votos para restaurar o Templo dos Cristãos na Terra Santa.
Declarava que a fraternidade formara uma "união íntima com os Cavaleiros de São João de Jerusalém".
(Ao refletir sobre as principais motivações dos nobres cruzados, é fácil concluir que elas não incluíam uma
dedicação à irmandade do homem. Talvez, Ramsay possa receber o crédito por ter ajudado a iniciar a
onda de fantasia cavaleiresca que varreu a Europa nos séculos XVIII e XIX, que sustentava, como ideal
para todos os cavaleiros, um cavaleiro bom, piedoso e compassivo, generoso e honrado para com os outros
homens e extremamente respeitoso com todas as mulheres, coisa quase impossível de se encontrar nas
páginas da história).
Ramsay afirmou também que as Lojas dos Maçons foram estabelecidas pelos cruzados que voltaram
à Alemanha, Itália, Espanha, França e especialmente Escócia, onde o senhor steward da Escócia era
Grão-Mes- tre de uma Loja em Kilwinning em 1286 (talvez, ele presumisse que sua audiência já sabia que
os senhores administradores hereditários da Escócia, tendo o título "steward" evoluído para o nome de
família "Stewart" ou "Stuart", haviam se tornado a família real da Escócia e da Inglaterra, cujo
descendente, antigo aluno de Ramsay, estava então em Roma manobrando para reconquistar o trono
perdido*). As Lojas, continuou ele, eram deixadas de lado em todos os países exceto na Escócia e, embora
o príncipe Eduardo tenha trazido a Maçonaria de volta à Inglaterra, a Escócia certamente tinha a mais
antiga Maçonaria na Grã-Bretanha e era a nascente do espírito maçônico. Fez apelo urgente à França
para que adotasse a causa e "se tornasse o centro da Ordem".
A França respondeu. Pedreiros eram uma coisa, mas reis, duques e barões eram outra bem diferente.
Novos graus e ritos maçônicos explodiram na França, como uma apoteose de fogos de artifício. Esses
novos ritos foram exportados para outros países que, por sua vez, acrescentaram adornos próprios, até
que chegou o dia em que um historiador maçônico disse ser capaz de documentar mil e quatrocentos
graus diferentes. Suas cerimônias e rituais, e mesmo seus nomes, descendiam da nomenclatura disponível
no Antigo Testamento e de todas as ordens da cavalaria.

* N. T.: Steward, cm inglês, é o título dado ao "Mordomo" ou "Mestre dc Banquete" da Loja Maçônica. Também pode ser compreendido, fora do contexto maçônico, como
"administrador" — o que também forma sentido, já que sc trata da família real Stuart, "administradora" da Escócia c da Inglaterra; o jogo de palavras é, portanto, intraduzível.
Um sistemaa francês que nasceu do discurso de Ramsay — Ecossaise, ou Maçonaria Escocesa —
chegou até o 33 grau e foi exportado para os Estados Unidos, onde ainda é exercido, com
modificações, como o Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria. Inclui uma relação com a antiga
Ordem Arábica dos Nobres do Santuário Místico (os "Shriners"), para quem as alegações de
Ramsay quanto às origens na Terra Santa forneceram uma base para um ritual e t rajes com um
tema poliglota árabe/turco/egípcio. Na verdade, de todas as pretensas Maçonarias "Escocesas" que
existem, apenas a Ordem Real da Escócia tem alguma conexão direta com esse país.
Provavelmente, não há ligação direta, mas em 1738, um ano após o discurso de Ramsay, o papa
Clemente XII publicou a bula In Eminenti Apostolatus Specula, a primeira de uma longa série de
bulas e encíclicas papais contra a Maçonaria, que trouxe uma nova área de interesse e pre venção
para a Santa Inquisição Romana. Onde quer que a Inquisição tivesse poderes para fazê-lo, os
Maçons nos países católicos foram aprisionados, deportados ou mesmo torturados. Em Portugal,
um homem foi torturado e sentenciado a quatro anos acorrentado ao banco de uma galé pelo crime
de ser Maçom.
Outro acontecimento na história maçônica continental pode ter envol vido Ramsay. Um nobre
alemão, com o nome de Karl Gotthelf, barão von Hund und Alten-Grotkau, acreditava ter sido
escolhido para promulgar a verdadeira Maçonaria sob um sistema conhecido c omo "Estrita
Observância", porque o juramento do Aprendiz Maçom incluía um voto de absoluta obediência a
"superiores desconhecidos". O diário de Von Hund indica que, enquanto estava em Paris, em 1743,
foi recebido em uma Ordem Maçônica do Templo por um oficial desconhecido, que ele conhecia
apenas como o Cavaleiro da Pluma Rubra. Na assistência, estavam lorde Kilmarnock (jacobita que
foi decapitado por alta traição a 18 de agosto de 1746) e lorde Clifford. Mais tarde, Von Hund alegou
ter sido apresentado ao príncipe Carlos Eduardo Stuart como um Irmão ilustre. A "verdadeira
história" da Maçonaria contada a Von Hund foi que, na época da supressão dos Tem plários, um
grupo de cavaleiros fugira para a Escócia, mantendo viva sua Ordem condenada ao unir -se a uma
guilda de pedreiros. Haviam escolhido um Grão-Mestre para suceder a De Molay, e desde então
houvera uma sucessão ininterrupta de mestres Templários. Para fins de segurança, a identidade do
Grão-Mestre era mantida em segredo durante sua vida, e sua posição era conhecida apenas por
aqueles poucos que o haviam elegido. Tornou-se necessário jurar obediência a um "Superior
Desconhecido". Von Hund deveria começar a estabelecer Lojas da Estrita Observância na Ale -
manha e esperar novas instruções. Ele fez o que lhe disseram, mas vivia frustrado, pois nunca mais
foi contatado.
O conceito de uma ordem cavaleiresca, de estrita obediência e um Grão -Mestre secreto
aparentemente tinha grande apelo para os compatriotas de Von Hund, porque a nova ordem se
alastrou como fogo na Alemanha em um período de vinte anos e dali se estendeu a quase todos os países da
Europa continental. Depois começou a desaparecer e, praticamente, morreu na década seguinte, porque
ficou óbvio que o Grão-Mestre não apenas era desconhecido como também inexistente. Von Hund foi para
o túmulo convencido de que o "superior desconhecido" era o próprio Belo Príncipe Charlie. Aqueles que
achavam que o próprio conceito de promulgar a Maçonaria da Estrita Obser vância era recrutar homens
e dinheiro para a causa jacobita estavam inclinados a concordar com ele. Se realmente Von Hund estava
certo e o príncipe Carlos Eduardo Stuart era o "superior desconhecido", suas razões para não entrar
novamente em contato com Von Hund eram óbvias. A causa jacobita foi inutilizada para sempre no
massacre sangrento da Batalha de Culloden Moor e na resposta igualmente sangrenta do comandante
inglês, William, duque de Cumberland — "o Carniceiro" —, que caçou e massacrou católicos escoceses
pelos vales das Highlands (como herói inglês, o duque foi homenageado emprestando seu nome a uma
perfumada flor das rochas, Sweet William [Doce William], que com- preensivelmente é conhecida na
Escócia como "Stinkin' Billie [Billie Fedo-
Enquanto a Maçonaria continental estava ocupada em tecer mais e mais padrões complexos de rituais,
a Maçonaria britânica original de três graus enfrentava seus próprios problemas. Como todo o
conhecimento de qualquer propósito anterior desaparecera, a Maçonaria emergiu como uma sociedade
glutona e beberrona, com, talvez, uma sombria ênfase exagerada na última. Todos os Maçons ingleses
provavelmente lamentavam que seu Irmão moralista, William Hogarth, houvesse imortalizado o estado
da Maçonaria londrina do século XVIII em sua pintura intitulada A Noite, que retrata um Mestre Maçom
bêbado como um gambá sendo carregado para casa pelo Guarda da Loja, ambos com as insígnias
maçônicas. A frivolida- de inicial era provavelmente resultado da falta de propósito da fraternidade, além
do companheirismo de taverna, tanto que as Lojas comumente recebiam o nome das tavernas que eram
seus locais de encontro costumeiros. Após perdida a proposta original da Maçonaria havia uma geração
ou mais gerações, a liderança percebeu que era preciso encontrar novos objetivos. O primeiro deles foi a
caridade maçônica, iniciando-se com os Irmãos necessitados e gradativamente estendendo-se às viúvas e
filhos dos Irmãos Maçons, até a atual inclusão de beneficiários não -maçônicos.
Outro objetivo assentado na Maçonaria para afastá-la de sua postura de clube de almoço foi o
conceito de constante auto-aperfeiçoamento por meio da prática do comportamento moral, como ensinado
na Loja. AS 11- Ções eram ensinadas utilizando-se o simbolismo das ferramentas do oticio de pedreiro;
expressões maçônicas como "no esquadro tomaram-se pane Ja linguagem comum. Esses símbolos de
moralidade nao eram parte da Maçonaria antes de ela vir a público em 1717, mas rapidamente a
dominaram.
O apogeu foi atingido no símbolo da "pedra de cantaria", a pedra de construção. O Maçom recentemente
aceito representava a "pedra bruta" re- cém-extraída e tinha de usar as ferramentas simbólicas da
moralidade para cortar, dar forma e polir a si mesmo para sc tornar uma "pedra dc cantaria perfeita",
pronta para tomar seu lugar na construção do Templo de Deus, pois o princípio mais importante da
Maçonaria era e ainda é a crença assumida em um Ser Supremo.
Esses dois novos elementos maçônicos, a caridade e a moralidade, constantemente reafirmados e
monitorados, tiraram a Maçonaria britânica das tavernas e a levaram a salas e edifícios construídos
especialmente para isso, o que, por sua vez, deu à Ordem uma postura quase religiosa. Em vez de ter seu
jantar, seu vinho c seus longos cachimbos chtirch-warden (cachimbo de haste longa) durante a reunião da
Loja, esses prazeres foram banidos c substituídos por hinos e orações maçônicos e música dc órgão no
templo, tudo para aumentar ainda mais a atmosfera formal e de ritual.
Baseado em um pouco mais do que o fato de que eles sabiam se chamar "Maçons" c que o ritual
central envolvia a construção do Templo de Salomão, tudo o que dizia respeito à fraternidade inclinou-se
na direção do ofício de pedreiro, e não apenas por meio do uso dc ferramentas simples como símbolos
moralistas. Qualquer coisa que pudesse ser aprendida sobre pedreiros medievais ou sobre a construção de
antigos edifícios era tido como significativo para a história da Maçonaria. As imponentes catedrais góticas
atraíram especialmente a atenção dos romancistas maçônicos, que estavam preocupados em criar um
passado para a Maçonaria nas guildas medievais. Descrições das catedrais mais conhecidas encheram
livros maçônicos e foram incluídas em palestras nas Lojas, completadas com detalhes dc arcos,
contrafortes, pináculos e variações no desenho de colunas e capitéis. Atualmente, reconhece-se que não há
nenhum indício que ligue a Maçonaria a qualquer construção notável e escritores mais sérios abando-
naram a sua outrora proclamada declaração de Grão-Mestria maçônica para Sir Chrístopher Wren.
Incapaz de descobrir um único indício firme, a preocupação maçônica britânica com o ofício da
construção, assim como a preocupação maçônica francesa com as Cruzadas e a Terra Santa, nada
poderiam oferecer de construtivo na busca do início da Maçonaria. O ponto principal era determinar se
era possível estabelecer alguma conexão com a Ordem suprimida dos Cavaleiros Templários, e nada se
podia esperar de palavras e símbolos que foram inventados depois de a Maçonaria vir a público, cm 1717.
Os signos, símbolos, palavras e rituais que provavelmente trariam pistas a respeito da origem maçônica
seriam aqueles preservados na transmissão puramente verbal, passados para a frente, mas não
compreendidos, tornando-os assim menos sujeitos a adições e elaborações na transmissão.
O melhor caminho, então, seria se concentrar nos aspectos da Maçonaria conhecidos no momento cm
que as quatro Lojas londrinas sc revelaram
em 1717, quando todo o conhecimento vinha do passado. Essa seria classi ficada como Maçonaria
"Secreta", oposta à Maçonaria posterior a 1717, que seria conhecida como Maçonaria "Pública". E
isso também significava que seria possível ignorar as interpretações dos fatos da Maçonaria Secre ta
feitas pelos primeiros historiadores maçônicos que olhavam para tr ás, não para se certificar da
verdade, mas para forçar cada item da Maçonaria Secreta a sc encaixar na dedicação preconcebida
de estabelecer a origem maçônica dentro de guildas medievais de artesãos.
Como exemplo, há a "vestimenta" da Maçonaria, as luvas e o avental de pele dc cordeiro, que os
escritores maçônicos dizem ser o traje de trabalho do pedreiro medieval. O exame de centenas de
desenhos, pinturas e xilogravuras que mostram pedreiros medievais no trabalho não revelam
nenhum indício de luvas de trabalho ou de um avental dc pele de cordeiro. Outro exemplo é o
guarda que fica do lado dc fora da porta da reunião com uma espada na mão, o Guarda do Templo.
Os escritores maçônicos decidiram que o guarda deve ter sido emprestado da guilda dos telhadores,
ou talvez a sala dc reuniões secretas tivesse, antigamente, uma porta coberta com telhas*. Nesse
momento, sentimos que havia indícios suficientes para abandonar essa teoria, mas sua aceitação
estava muito espalhada e talvez algo tivesse sido deixado para t rás. Para dar à teoria o benefício da
dúvida, era necessário dar uma boa c séria olhada nas guildas medievais de pedrei ros da
Grã-Bretanha. A conclusão dessa busca foi algo que muito me aba lou, e imagino que abalará ainda
mais os Maçons.

• N. T.: a palavra inglesa correspondente ao "Guarda" maçônico é Tyler que pode ser
traduzido como "Telhador", "Assentador de Telhas".
EM BUSCA DAS GUILDAS
MEDIEVAIS

U m dos aspectos da Maçonaria que não deveriam ser um mistério acabou sendo o maior de todos; ou
seja, como a Maçonaria surgiu, onde e por quê. A origem e os objetivos da Maçonaria não deve-
riam ser um mistério porque Maçons, antimaçons e a mídia em geral, quase universalmente,
concordam que a Maçonaria se originou nas guildas medievais de pedreiros da Grã-Bretanha. A pesquisa
por trás deste livro levou àconclusão de que essa teoria, não importa o quão amplamente seja aceita, está
errada. Discordar das autoridades, tanto maçônicas quanto não maçônicas, que expuseram a crença da
origem nas guildas, gerou muita dúvida, que, por sua vez, deu incentivo para muitos meses de pesquisa, o
que envolveu milhares de quilômetros de viagem. No fim da busca, 1
a convicção de que a teoria da guilda
era errônea estava mais forte do que nunca, e a dúvida se fora.
Deve-se admitir que os escritores maçônicos modernos dão mais espaço para novas especulações e
novas pesquisas do que seus colegas não maçônicos. Os Maçons F.L. Pick e G.N. Knight, em seu
competente livro de bolso The Pocket History of Freemasonry, afirmam: "Até o presente momento, nenhuma teoria
sequer plausível sobre a 'origem' dos Maçons foi apresentada. A razão para isso é que provavelmente a
Maçonaria, como a conhecemos, originou-se entre os pedreiros operários da Grã-Bretanha." 0 falecido
Stephen Knight, o mais sincero crítico da Maçonaria nos últimos anos, não expressou nenhuma dúvida
quanto à origem maçônica em seu livro The Brotherhoocl, no qual o título dado | parte I é: "De guilda de
trabalhadores a Sociedade Secreta". Declarou que a história da Maçonaria "é a história de como uma
guilda católica romana de alguns milhares de trabalhadores de construção na Grã-Bretanha veio a ser
assumida pela aristocracia, pela pequena nobreza e por membros das profissões essencialmente não
produtivas, e como foi transformada em uma sociedade secreta não cristã." Essa caracterização não nos
intimidou, por diversas razões. Primeiro, todas as guildas comerciais na Europa medieval deviam ser
chamadas "católicas romanas", porque católica romana era a única coisa a ser (a menos que se quisesse
correr o risco de perder a propriedade, sofrer tortura física e ter um fim prematuro em meio a uma pilha
de gravetos em chamas). Em segundo lugar, guildas de ofício eram estritamente locais por natureza e
nunca houve uma guilda medieval que operasse além da extensão da Grã-Bretanha. Em terceiro, o fato de
a Maçonaria não exigir que um membro fosse cristão, mas apenas que acreditasse em Deus e na imor-
talidade da alma, sugere que tal grupo poderia não ter se originado em uma guilda de ofício,
particularmente em uma cujo principal cliente teria sido o maior consumidor de estruturas de pedra, a
Igreja.
No entanto, é preciso parar para ler a declaração prosaica da Enciclopédia Britânica: "A Maçonaria surgiu
das guildas de pedreiros e construtores de catedrais da Idade Média."
Seria necessário examinar a conexão com a guilda cuidadosamente, mas a pesquisa preliminar
indicava alta probabilidade de que o papel dos Maçons como membros legítimos de uma guilda de
pedreiros era uma história de disfarce, o que não é uma característica incomum de sociedades secretas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os japoneses operavam uma sociedade secreta, conhecida como
Shindo Rommei, na Bacia Amazônica. Seu objetivo era a preparação para a exploração dos recursos
naturais da área após a esperada vitória japonesa. Sua operação de disfarce era a pesca; seu vocabulário
secreto era construído a partir de termos de pesca. Quando a sociedade foi, finalmente, exposta e seus
membros presos, descobriu-se que o supremo comandante era um coronel japonês disfarçado como a
cozinheira de um navio de pesca. Na índia, membros de uma sociedade secreta conhecida como Thuggee
(que deu origem ao termo em inglês "thug", que quer dizer "assassino") viajavam pelas estradas
disfarçados como caixei- ros-viajantes e usavam a terminologia comercial com significado secreto.
Misturavam-se facilmente a outros caixeiros-viajantes que marcavam como vítimas, estrangulando-os
com faixas de pano e dedicando as mortes à deusa sanguinária Kali. Na Inglaterra elisabetana, os jesuítas
proscritos e seus seguidores usavam a linguagem comercial como disfarce. Se um católico contasse a outro
que "dois novos mercadores da Itália haviam atracado cm Plymouth e estavam procurando contatos cm
Sussex", essa era a senha que dizia que dois novos padres jesuítas tinham chegado e estavam procurando
uma casa segura em Sussex. Não seria dc todo incomum para uma sociedade secreta, cujo ritual central
envolvesse a construção alegórica do Templo de Salomão, assumir gradativamente, como disfarce, que
eram construtores dc verdade. Mas um conceito aceito como histórico por mais de dois séculos não podia
ser facilmente posto de lado, exigindo que se aprendesse mais sobre as guildas medievais de artesãos,
especialmente as baseadas no ofício de pedreiro. I
Uma guilda não era uma associação de trabalhadores, mas antes, uma associação de empreiteiros. Era
autorizada a operar por uma patente, que concedia à associação uma licença, um monopólio em um ofício
ou serviço para uma área específica, ou usualmente uma cidade. A guilda se beneficiava ao ganhar os
direitos de acabar com toda a competição, colocar preços em níveis que garantissem o lucro, ajustar o
nível de produção para a demanda atual e controlar o número de novos praticantes permitidos a entrar
nesse ofício ou serviço. O benefício para o senhor que concedia a patente era um meio metódico de coletar
impostos e taxas sobre a matéria- prima que entrava e sobre a venda do produto final. Podia também
significar a ausência de problemas triviais ou intranqüilidade, garantindo um nível mínimo de qualidade
do produto. Sem uma guilda de padeiros estabelecendo e reforçando padrões, por exemplo, alguns
padeiros poderiam fazer pães com menos peso, mal-assados ou mesmo colocar um pouco de areia na
receita. Sob o sistema de guildas, da forma como se desenvolveu, elas não apenas estabeleciam os níveis de
qualidade do produto pronto, mas também decretavam o tipo e a fonte da matéria-prima, as ferramentas
a serem usadas e mesmo o modo de utilizá-las. -*
A motivação da guilda era o lucro e o modo reconhecido de maximizar o lucro era por um monopólio
que pudesse ajustar a oferta à demanda. Nenhum membro da guilda gostaria de adaptar a oferta
produzindo menos que sua própria capacidade, de forma que o método aceito de controlar a oferta foi o
estabelecimento, de regras sobre quantos podiam entrar no ofício e, especialmente, quantos podiam se
tornar mestres artesãos, o que significava que eles podiam possuir ferramentas e entregar produtos
prontos para a venda. Os mestres tocavam a guilda, e por isso relutavam em permitir novos mestres se não
houvesse o mercado pronto para sua produção.
O mestre era o único membro pleno da guilda de comércio ou ofício que era um
proprietário-operador. Seu estabelecimento e sua casa eram geralmente combinados e ele possuía as
ferramentas. Negociava a maté- ria-prima necessária, supervisionava o trabalho e cuidava da propaganda
do produto. Obtinha, freqüentemente, uma fonte extra tanto de lucro quanto de trabalho grátis tomando
um ou mais aprendizes. Eram, de modo geral, meninos, que seriam rapazes na época em que terminassem
a aprendizagem, que costumava ser de sete anos. Os meninos trabalhavam e aprendiam sob um contrato
legal, que lhes dava uma posição semelhante a de empregados contratados. Se tentassem fugir podiam ser
capturados, trazidos de volta e punidos. No contrato de aprendizagem, o mestre concordava em dar
treinamento em cada aspecto do ofício até o nível de habilidade no qual o aprendiz poderia ser contratado
pela guilda por meio de um exame, que freqüentemente incluía a apresentação de um produto feito pelo
candidato,
sua "obra-prima"*
O mestre também servia como uma espécie de pai postiço. Concordava em dar ao aprendiz
hospedagem e comida e criá-lo no caminho da religiosidade. Estabelecia as regras de conduta e era
legalmente autorizado a punir o aprendiz delinqüente, até mesmo com uma surra. Por todos esses
serviços, o mestre tinha direito a uma taxa e mais todo o trabalho que pudesse obter de seu pupilo.
Infelizmente, o término do aprendizado, e mesmo elogios rasgados acompanhando a aprovação de
sua obra-prima, não significava que o artesão recém-aceito poderia automaticamente se estabelecer
como mestre. Apenas a guilda podia dar aprovação para essa condição, o que, às vezes demorava anos
para acontecer, se acontecesse. Nesse meio tempo, ele sé movia no limbo entre o aprendizado atrás dele
e a condição de mestre à frente, que podia nunca chegar. Tudo o que podia fazer era se oferecer como
empregado para um mestre, que geralmente o pagava em uma base diária pelos dias que ele
trabalhasse. Por isso, ele se tornou conhecido como "diarista". Um diarista que fosse particularmente
bom podia poupar seus pennies para adquirir ferramentas e buscar uma situação melhor fora da área
concedida à guilda, talvez a apenas uma ou 2 milhas da cidade, arris- cando-se a despertar a raiva dos
chefes da guilda por competir com seu monopólio. Por essa razão, as guildas estavam constantemente
lutando para estender seus territórios concedidos (como vimos durante a Rebelião Camponesa,
quando os rebeldes atacaram Great Yarmouth com entusiasmo porque o monopólio das guildas de lá
havia sido estendido para 7 milhas em torno da cidade).
Conforme o trabalho começou a se dividir em especialidades, as guildas viram seus lucros
influenciados por outras guildas, e surgiram conflitos. Os seleiros precisavam comprar couro dos
tanoeiros e peças de ferro e bronze dos ferreiros, e mandar decorar a sela pelos pintores e tingidores.
E, de longe, as maiores influências no lucro eram as grandes guildas mercantis, que controlavam a
fonte de matéria-prima, o transporte e os mercados de exportação para os produtos finais. Era deles a
maior certeza de lucro e eles se tornaram ricos o bastante para ganhar a inveja da aristocracia agrí-
cola. Algumas das guildas mercantis conseguiram permissão para estabelecer escritórios de comércio e
armazéns em outros países; guildas estrangeiras formadas, principalmente, por flamengos e
lombardos, conseguiram os mesmos privilégios na Grã-Bretanha. Os rebeldes em Londres, em sua
fúria contra os mercadores, haviam arrastado mercadores estrangeiros para fora da igreja a fim de
massacrá-los na estrada. Em Berwick, Eduardo I da Inglaterra revelou sua atitude em relação a uma
patente concedida àquela cidade
escocesa quando atacou os mercadores estrangeiros e queimou seu estabelecimento com eles dentro.
Entre outras coisas, os grandes mercadores usavam sua riqueza para mudar o curso do governo
municipal. Formando associações que legalmente podiam ser vistas como indivíduos (corpus:
corporação), eles arrendavam
cidades inteiras de seus senhores e, no caso de Londres, da própria Coroa. Desistir de impostos de receita,
taxas de mercado e outras fontes de renda era agradável ao senhor governante em troca de uma taxa
anual segura, que apenas as mais ricas guildas podiam pagar. Isso ficou claro na Revolta Camponesa,
quando os artesãos de York, Beverly e Scarborough se revoltaram para forçar as grandes famílias
mercadoras a dividir o governo da
Por fim, as guildas de ofício conseguiram ter voz em suas próprias cidades, e até hoje as antigas guildas
de Londres, agora chamadas Companhias Uniformizadas (em razão de seus trajes cerimoniais em
comum), elegeram o senhor prefeito de Londres em suas próprias fileiras. Sir William Walworth, prefeito
de Londres que derrubou Wat Tyler, era membro da honorável Companhia de Peixeiros. *
Dentro dos limites de suas patentes, as guildas gozavam de um elevado grau de autogoverno; elas, e
não as cortes, normalmente ouviam queixas sobre os produtos e serviços dos membros da guilda, que
possuíam o poder de disciplinar aqueles que quebrassem as regras. Isso não é tão incomum quanto parece,
e é possível entender um pouco melhor o sistema de guildas examinando a prática da lei nos Estados
Unidos. Advogados possuem alvarás que lhes dão o monopólio na prática da lei, e seus alvarás são emi-
tidos pelos Estados, assim como por agências do governo federal. Após um período de treinamento, o
estudante faz um exame para provar que adquiriu suficiente conhecimento para merecer a admissão.
Embora esse treinamento seja atualmente recebido por escolas de direito, ainda há advogados vivos que
não freqüentaram a escola de Direito, mas foram aprendizes de outros advogados, prática conhecida como
"descoberta da lei". As associações de advogados têm uma grande influência nas escolas de Direito e dão
assistência no estabelecimento dos currículos.
Internamente, os advogados fossem padrões de conduta e serviço chamados Códigos de Ética. Pode-se
exigir censura e disciplina dos membros que transgridem essas regras. Os advogados também mantêm
comitês de reclamações para ouvir queixas contra membros e para regular assuntos como os honorários
cobrados pelos serviços. Em todas essas questões, as associações monopolistas de advogados são muito
parecidas com guildas. Também como nas guildas, a associação pode trazer privilégios. Um desses
privilégios, dado séculos atrás, é ainda guardado com carinho na lembrança de advogados pelo mundo
anglófono.
Deve-se lembrar que, durante a rebelião camponesa, os rebeldes atacaram as salas de advogados na
área do Templo em Londres entre a Rua Fleet e o rio Tâmisa. Essa propriedade havia sido tomada dos
Templários e dada aos Hospitalários, que em troca arrendaram parte dela para hospeda- rias e quartos
para advogados que vinham a Londres se apresentar diante da corte do rei, na cidade vizinha de
Westminster. A localização era perfeita porque era adjacente a um portão de Westminster chamado
Barrière du
Temple. A barrière (de onde veio nossa palavra "barreira") era uma espécie de pedágio para pagamento de
taxas de entrada. Não se poderia esperar que advogados que entravam e saíam muitas vezes por dia
pagassem a taxa a cada vez, então eles tinham o valioso privilégio de passar pela Barrière du Temple, cujo
nome foi anglicizado para "Temple Bar", sem pagar a taxa. O jovem que estava qualificado para aparecer
diante da corte ganhava o direito de "atravessar a barreira". Aqueles qualificados para atravessar a
Barrière ficaram conhecidos como "barristers" (advogados) e, até hoje, a lembrança desse privilégio é
preservada; jovens fazem exames de direito para atravessar a barreira e se unir às "guildas" de
advogados, atualmente chamadas associações.
As guildas medievais eram também um forte apoio para a religião estabelecida. Faziam doações à
Igreja em dinheiro e objetos religiosos de valor. Muitas possuíam relíquias e santos e tinham santos
padroeiros cujos dias festivos eram celebrados publicamente. A maioria tinha igrejas especialmente
projetadas nas quais realizavam suas próprias observâncias e devoções particulares. A prática permanece
e hoje, a adorável igrejinha de St. James Garlickhythe, em Wren (hythe significa "doca"), é a igreja oficial
de oito Companhias Uniformizadas de Londres: os Vinhateiros, os Tintureiros, os Pintores-Tingidores, os
Marceneiros e Gesseiros, os Horners (fabricantes de lanternas), os Fabricantes de Agulhas, os Vendedores de
Vidro e os Emprestadores de Ouro e Prata de Wyre.
Em suas atividades religiosas, as guildas de ofício forneciam uma experiência terrena que o povo
podia apreciar, porque os membros da guilda eram do povo, não da aristocracia. Representavam peças
sobre milagres religiosos, muitas das quais exigiam meses para a preparação dos trajes e cenários, e o
diálogo não era em latim, mas no vernáculo do povo. Ajudaram na transição para a cristandade das
celebrações muito antigas, propiciadas pelo clima e pelas fases da agricultura, que não haviam sido
totalmente erradicadas pela Igreja e que finalmente foram assimiladas como festivais cristãos. O festival
do solstício de inverno, que celebra a vitória do sol sobre os poderes da escuridão (pois os dias ficam
maiores), era celebrado como o Natal; o equinócio dc primavera era representado pela Páscoa; o solstício
de verão se tornou a festa de Corpus Christi; e os festivais de colheitas do outono eram celebrados como o
Dia de Todos os Santos. Já no século VII a Igreja começara a se inclinar, tentando arrancar as pessoas de
sua antiga religião natural. O venerável Bede dizia a seus pares missionários para não renegar a deusa
britânica conhecida como "Mãe Terra", "Mulher do Milho" ou simplesmente "A Senhora", mas para
dizer às pessoas que A Senhora é a mesma Nossa Senhora e que os padres vieram para esclarecer o seu papel
celestial. Ninguém se preocupa mais por que certos símbolos pagãos se mostraram impossíveis de
arrancar pela raiz e hoje pouquíssimas pessoas pensam no uso do termo pagão Yule (Natal), ou no uso do
símbolos dos espíritos fortes que mantêm a vida durante a morte de quase tudo o mais no inverno, ao
colhermos azevinho e visco para decorar as árvores de Natal. Ninguém se ofende também com a contínua
popularidade dos símbolos de fertilidade do coelho e do ovo na Páscoa (houve um tempo na Inglaterra,
porém, em que omaypole foi condenado e banido por ser um símbolo fálico — e realmente o era).
As guildas representavam peças sobre milagres, sendo que algumas duravam vários dias; levavam o
ensinamento cristão às pessoas em linguagem que elas compreendessem e lhes dessem uma apresentação
visual da Bíblia, à qual eram proibidas de ler. Toques dos antigos costumes religiosos pré-cristãos eram
ocasional e inadvertidamente misturados aos relatos escriturais muito mais para ganhar audiência para a
Igreja do que para transmitir os serviços em latim que não entendiam e com o qual não conseguiam ter
empatia. As guildas se orgulhavam muito de suas produções de representação de milagres e se
empenhavam em superar uma à outra, tornando-se uma parte muito importante da experiência cristã me-
dieval. Essas, portanto, eram as pessoas que supostamente foram os pre- decessores da tolerante
Maçonaria, em uma guilda devotada ao ofício da construção.
O primeiro problema principal com o conceito de uma guilda de pedreiros como predecessores da
Maçonaria é o território de concessão. Guildas de ofício eram quase sempre locais, mas a Maçonaria é
encontrada em células por toda a Grã-Bretanha. Mesmo se fosse possível encontrar algumas associações
mais livres na Inglaterra, seria difícil conseguir que a mesma organização existisse na Escócia. Uma
guilda, afinal de contas, demandava uma patente. Já vimos como as coisas se passavam entre Inglaterra e
Escócia na Idade Média, e é altamente improvável que um grupo patenteado por um fosse bem-vindo nas
terras do outro: o oposto teria sido verdadeiro. Não há simplesmente nenhum modo pelo qual uma guilda
pudesse ter sido aceitável aos governos da Escócia, Inglaterra, Irlanda e Gales. Quanto a suas patentes, em
territórios tão grandes elas teriam de vir dos governos centrais, e não há registro, nem mesmo uma pista,
de que algo assim tenha acontecido. Há, porém, numerosos registros que citam os mestres construtores de
estruturas notáveis, e muito freqüentemente eram os membros das ordens religiosas para as quais as
construções estavam sendo feitas, monges que certamente não eram membros de nenhuma guilda.
Maçons e não Maçons da mesma maneira explicaram a necessidade de cumprimentos e sinais secretos,
afirmando que os pedreiros medievais eram trabalhadores itinerantes, que viajavam de um serviço num
castelo para a construção de uma catedral conforme o serviço estivesse disponível. Por não terem base
permanente como outras guildas, precisariam de

* N. T.: mastro enfeitado com flores e fitas, erguido para as festas do


1º de maio; equivalente ao mastro da dança do pau-de-fita brasileiro.

sinais secretos com os quais se identificar uns aos outros para manter seu monopólio fechado. Sem um lar
fixo, eles se encontrariam em lojas para discutir seus negócios. Essa teoria nos faria acreditar que
construir uma abadia, um castelo ou uma catedral não é muito diferente de montar paredes
pré-fabricadas com trabalhadores temporários. Construir um castelo, de fato, podia tomar de cinco a
vinte anos, e as grandes catedrais góticas estiveram em construção por gerações, sendo que algumas
levaram mais de um século para serem terminadas. Em tais trabalhos, não é provável que um homem
vivesse em alojamentos temporários com a esposa e os filhos em casa, em algum outro lugar. A teoria
também demandaria que a estrutura estivesse sendo construída fora da jurisdição da autoridade da
patente da guilda, o que exigiria permissão para viagem legal. Indícios de associação nessa guilda não
teriam de ser mantidos secretos, nem os sinais de tal associação teriam sido limitados à comunicação
verbal. Pelo contrário, a prova de associação em uma guilda legalmente patenteada e a prova de um
pedido de serviço teriam de ser produzidas de acordo com a necessidade, especialmente na Inglaterra da
Idade Média, período que na maior parte exigia um passe para que um homem viajasse para fora de sua
própria cidade ou distrito. Para obter um desses passes, a razão para a viagem tinha de ser declarada e
acreditada.
Quanto aos encontros da guilda em "lojas", certamente havia caba- nas construídas pelos grupos de
trabalhadores que, com freqüência, recrutados nas épocas em que não eram, desesperadamente,
necessários para arar, plantar e colher. Trabalhavam em pedreiras, transportavam pedras e forneciam
um exército de músculos para os pedreiros. Eram temporários e recebiam um lugar para dormir e
comida. Certamente, os mestres construtores não comiam nem dormiam nessas cabanas de trabalhadores,
que, com certeza, também não eram "lojas".
Os Maçons têm alguns documentos antigos que chamam de "Antigas Obrigações da Maçonaria", dos
quais os mais velhos parecem datar do século XIV. Eles estabelecem regras de conduta e responsabilidade,
que, acredita-se, serem relacionadas à conduta da guilda medieval de pedreiros. Uma dessas obrigações
diz que nenhum membro deve revelar segredo de qualquer Irmão que possa lhe custar sua vida e
propriedade. O único segredo semelhante, que custaria a um homem sua vida e propriedade, seria ele ser
culpado de traição ou heresia ou, como é freqüentemente o caso, quando a religião é o Estado, ou ambos.
Outra obrigação é que nenhum Irmão visitante deveria ir à cidade sem o Irmão local para "testemunhar"
por ele. Se um pedreiro tivesse emprego legítimo com o senhor ou bispo local, não tena necessidade de
alguém para testemunhar por ele (provar que o conhece), mas, se não tivesse prova de estar empregado,
passe de viagem e nenhum meio de explicar o que fazia na cidade, ele poderia ser e certamente seria
capturado e atirado na cadeia, mantido ali até que tudo se resolvesse. O testemunho local conhecido podia
fornecer uma história plausível e a
verificação de uma identidade real ou assumida. Mais importante um residente podia manter o visitante
longe das próprias pessoas e lugares que poderiam causar questionamento. | .
Outra Antiga Obrigação é que o Irmão visitante deveria ter "emprego" por duas semanas, receber
algum dinheiro e ser mandado para a próxima Loja. Não nos deviam fazer acreditar que guildas
medievais de mestres artesãos tinham o costume de contratar homens de que não precisavam e emprestar
dinheiro para pedreiros itinerantes que passavam. Esse tipo de tratamento é muito mais provável de ser
dispensado a um homem em fuga, que receberia alojamento por duas semanas, e não um "emprego".
Outra interessante Antiga Obrigação é que nenhum Maçom deve praticar o ato sexual com a esposa, filha,
mãe ou irmã de um Irmão Maçom. Essa obrigação foi usada por antimaçons para mostrar que os Maçons
tinham moralidade seletiva e que, por conta de seu código moral ser limitado a seus próprios membros,
permitiriam que os Irmãos tivessem relações sexuais com a esposa, filha, mãe ou irmã de qualquer não
Maçom. O engano de tais críticas reside em interpretar essa obrigação como parte de um código de
moralidade, o que ela não é. Essa irmandade é uma organização secreta que de alguma maneira incluía
homens que eram, ou ajudavam e abrigavam, heréticos e traidores. Era vital que permanecessem unidos.
Um homem que chegasse em casa e encontrasse um Irmão com sua esposa ou filha poderia esquecer seu
juramento sagrado de irmandade imediatamente, de forma que a proibição de tal atividade não era
moralidade, era sabedoria.
Uma diferença muito importante entre guildas medievais e Maçonaria foi citada por Stephen Knight.
As guildas eram muito religiosas e qualquer guilda que contasse com a Igreja Católica Romana como seu
maior cliente teria sido especial e abertamente devota. A Maçonaria, porém, admite qualquer crente em
um Deus monoteístico. O ritual não faz menção a Jesus Cristo ou à Sua Mãe, enquanto muitas guildas
estavam na linha de frente da crescente veneração especial a Maria. Como tal transição poderia ter
ocorrido? Não ocorreu.
Juntando tudo, o que aprendemos sobre a Maçonaria indicava que era essencialmente uma sociedade
de proteção mútua de homens com problemas com a Igreja ou o Estado, ou ambos, e não uma sociedade de
construção. Essa opinião estava tão distante do ponto de vista mantido por quase todas as pessoas que
parecia melhor esclarecer esse ponto indo direto à fonte, às patentes originais das guildas de pedreiros
medievais, para conferir seus limites territoriais e os aspectos monopolísticos dessas concessões.
Londres foi a primeira parada, mas a maioria dos registros que quisermos ver foi destruída no Grande
Incêndio de 1666. Há uma companhia de Pedreiros entre as Companhias Uniformizadas de Londres, mas
a
ela foi tormada em época muito posterior para ter tido um papel nas origens maçoni- cas. Ela é a 29 em
precedência entre as companhias uniformizadas, muitas das quais têm salas de Loja Maçônica em seus
próprios estabelecimentos. Se a companhia dos pedreiros de Londres tivesse um papel na Maçonaria
secreta, seria agora tratada com respeitosa reverência, mas não há nenhuma indicação de que ela receba
tratamento especial por parte dos Maçons.
Decidimos ir a Oxford, a mais monumental das cidades britânicas, que, além de seu castelo em ruínas
e igrejas majestosas, tem uma coleção de colégios, todos de pedra, cada qual com sua própria capela e
alojamentos. Houve construções ali geração após geração, e, se apenas uma cidade na Grã-Bretanha
pudesse ter tido uma guilda local permanente de pedreiros, seria certamente Oxford. Semanas antes de
minha chegada, consegui um horário na sala de pesquisas dos arquivos do distrito de Oxfordshire, onde
há documentos que remontam ao século XII. Eu dissera com antecedência à equipe que gostaria de olhar
patentes ou qualquer outra documentação relacionada a qualquer guilda de pedreiros. Quando cheguei, a
equipe parecia embaraçada ao me contar que haviam buscado em seus arquivos e não puderam encontrar
nenhuma referência a uma guilda de pedreiros em Oxfordshire. Em um esforço extra, eles contataram um
funcionário do Conselho da Cidade na vizinha Burford, onde ainda se extrai a bela pedra Cotswold. Esse
cavalheiro também procurou, mas não encontrou nenhuma referência a qualquer guilda de pedreiros.
Sugeriu que, se eu quisesse mesmo encontrar uma guilda medieval de pedreiros, deveria procurar na
França.
A próxima tentativa foi em Lincoln, cidade conhecida por seus edifícios medievais de pedra, incluindo
sua magnífica catedral, seu enorme castelo e a melhor coleção de casas medievais e prédios de guilda da
Inglaterra. A equipe da livraria teve muita boa vontade, mas não pôde encontrar nenhum indício de
guilda medieval de pedreiros em Lincoln. O mesmo espírito de obséquio e o mesmo resultado negativo
foram encontrados no Museu do Condado de Lincolnshire.
Uma busca final na Oxford's Bodleian, uma das maiores bibliotecas do mundo, e, por fim, senti-me
absolutamente seguro em afirmar que a Maçonaria não surgiu das guildas medievais de pedreiros da
Grã-Bretanha porque, aparentemente, não havia guildas medievais de pedreiros na Grã- Bretanha.
Maçons, antimaçons e historiadores interessados terão de viver com o simples fato de que a repetição
constante não cria a verdade.
Se me sentia sozinho com essa descoberta, o sentimento não durou muito. Antes de deixar a
Inglaterra, visitando as livrarias em Charing Cross Road, descobri que um livro sério sobre Maçonaria
fora publicado em 1986. Era Tlie Craft, de John Hamill, bibliotecário e curador da biblioteca e museu da
Grande Loja Unida de Londres. O Sr. Hamill abre o primeiro capítulo de seu livro com as seguintes
palavras: "Quando, por que e de onde a Maçonaria se originou? Há uma resposta para essas questões:
não sabemos, apesar de todo o papel e tinta que já se gastou para examiná-las." No final desse capítulo, ele
afirma: "Se descobriremos ou não a verdadeira origem da Maçonaria é uma questão em aberto." Embora
seja possível que o Sr. Hamill possa não concordar de forma alguma com as conclusões atingidas neste
livro, ao menos sua razoável imparcialidade e impecáveis credenciais estabeleciam um terreno comum
para eliminar todas as noções anteriores por não serem comprovadas. Tornou-se possível começar da
estaca zero a examinar os rituais da Maçonaria, não disfarçados por idéias preconcebidas e preconceitos.
Chegar ao cerne da Maçonaria secreta exigia uma olhada nas cerimônias de iniciação e palestras dos
três graus básicos do ofício maçônico: o Aprendiz, o Companheiro e o Mestre Maçom.
O que se procurava era alguma pista para os grandes mistérios maçônicos:
1. Quando a Maçonaria começou a existir? Ela se desenvolveu ou foi engatilhada por algum
acontecimento ou conjunto de circunstâncias?
2. Qual era o propósito que manteve a Maçonaria viva na obs- curidade por séculos e que a
manteve constantemente abastecida
com novos recrutas?
3. Por que esse propósito foi perdido totalmente por volta de
1717?
4. Quais são os significados dos símbolos maçônicos—o compasso e o esquadro, o avental e as luvas,
a letra G, o círculo no chão, o mosaico preto e branco?
5.Como a Maçonaria veio a atrair e, por fim, ser liderada pelas mais altas posições da aristocracia
e da família real?
6. Como e por que a Maçonaria adota uma política de total tolerância religiosa em uma atmosfera
na qual o catolicismo romano era o único credo legal, arriscando-se assim à tortura e à morte?
7. O que a Maçonaria fazia, durante todos esses anos, que necessitava de um sigilo tão incrível e de
penalidades tão sangrentas por revelar seus segredos?
8. Havia alguma conexão direta entre a Maçonaria e a
Ordem suprimida dos Cavaleiros do Templo?
Foi necessário escavar um pouco, mas as respostas estavam todas
"TER MINHA GARGANTA
CORTADA"

s Antigas Obrigações da Maçonaria estabelecem diversas regras relacionadas ãs

A qualificações para a associação. A principal qualificação é a afirmação da crença em um


Ser Supremo monoteístico, pois nenhum "estúpido atou" pode sc tornar Maçom. O
candidato deve ser "um homem livre nascido de uma mãe livre", uma fraseologia
interessante, uma vez que, sob as antigas leis britânicas, as condições de servidão e de
vilanagem eram herdadas pela mãe, o que remontaria as origens da Maçonaria a um tempo em
que essas condições ainda existiam. A idade também era um fator, uma vez que as Antigas
Obrigações proíbem a iniciação de um homem em "sua menoridade ou decrepitude",
eliminando o imaturo não confiável e o homem sob a eterna ameaça da senilidade. A
verdadeira exigência de idade variou de época para época e de uma Grande Loja para outra.
Em certa época, na Grã-Bretanha, a idade mínima era 25, embora, atualmente, 21 seja a idade
mais comum de admissão na Maçonaria. Uma exigência menor de idade com freqüência foi
aplicada ao filho de um Maçom, candidato especial conhecido na Maçonaria pelo t ítulo
inexplicável de Lewis (o general Douglas MacArthur se tornou Maçom por uma forma especial
mais curta de iniciação que constituía em se tornar um "Maçom-à- vista". baseado em grande
parte no fato de ser ele um Lewis).
Os mentalmente deficientes estão proibidos de pertencer à associa ção maçônica segundo as
Antigas Obrigações, o que é compreensível. Não é tão clara a razão para a proibição de
associação a qualquer homem que não tenha plena posse de todos os seus membros. Essa foi,
por muito tempo,
* N.R.:O Grão-Mestre tem a prerrogativa de convocar uma Ocasional e" à vista" do candidato,
iniciá-lo, eleva-lo e exultá-lo em uma única ocasião. Tal prerrogativa faz parte dos
Landmarks da Orde,.
uma exigência de organizações militares e uma cláusula comum às regras das ordens religiosas, mas
parece deslocada em uma organização fraternal. Na prática, é claro, a Maçonaria não obedece mais a essa
antiga regra. Alega, porém, obedecer à regra que diz que um candidato deve ter bom caráter e boa
reputação em sua comunidade.
Os Maçons declaram orgulhosamente que hoje ninguém é convidado para se tornar Maçom, mas deve
pedir a admissão por meio de uma petição escrita para uma Loja. Tal procedimento teria sido impossível
na Maçonaria secreta, uma vez que um homem dificilmente poderia esperar ardentemente tornar-se
membro de uma organização de cuja existência ele era totalmente ignorante. Nos tempos do segredo, ele
teria sido vigiado, avaliado, discutido e, talvez, entrevistado sub-repticiamente, e então, muito cuidado-
samente, seria prevenido da existência da fraternidade secreta aos poucos, até que se julgasse
absolutamente seguro convidá-lo. Um resíduo da prática de admissão por convite ainda existe em algumas
Grandes Lojas, como nas da Austrália/
O pedido do candidato para admissão deve deixar claro que ele pretende respeitar e admirar a
Ordem Maçônica e que busca a associação por razões que não sejam benefícios materiais pessoais. O
pedido é revisado, assim como seu caráter e reputação, e faz-se uma votação na Loja. Embora as práticas
variem, tradicionalmente um voto negativo (um feijão preto ou bola preta) é suficiente para rejeitar sua
solicitação.
Finalmente, chega o dia em que o candidato será iniciado como um Aprendiz Maçom. Hoje, essa
iniciação, geralmente, acontece no "recinto da Loja" permanente, equipado com altar, candelabros e
cadeiras para os diversos oficiais da Loja. Os símbolos maçônicos apropriados ao grau são pintados em
painéis. Isso tudo são adições posteriores, por conveniência e para aumentar o sentimento de solenidade
da cerimônia, uma vez que isso teria sido impossível nos encontros ocultos da Maçonaria secreta. Nesses
encontros, que a lenda maçônica nos conta que eram realizados "em altas montanhas e profundos vales",
nenhum "mobiliário de Loja" teria estado disponível, nem mesmo seria recomendável. Considerando o
clima britânico, devemos assumir que, mesmo no tempo do segredo, alguns desses encontros eram feitos
em lugares fechados, nem que fosse um celeiro ou cabana, especialmente em cidades grandes como
Londres, onde a oferta de altas montanhas e profundos vales era pequena.
O símbolo da Loja que sempre estaria presente nesses encontros secretos era o círculo no chão, o
centro do simbolismo do recinto da Loja Maçônica. Esse círculo podia facilmente ser desenhado na terra
de uma clareira ou no chão empoeirado de um celeiro. Nos primórdios da Maçonaria Pública, quando
quase todos os encontros de Loja ocorriam nas salas

* N. R.: Em geral, a Maçonaria Brasileira adota o costume do convite para


admissão de novos membros.

particulares das tavernas, os símbolos eram marcados no chão com giz. Desenvolveu-se o costume de dar
ao Irmão recém-admitido, a despeito de posição ou linhagem, um esfregão e um balde, que ele usava para
apagar os símbolos maçônicos do chão. Embora nesse período de "tavema" os encontros de Loja fossem
feitos no andar de cima para afastar curiosos, os Maçons se referiam à Loja do Aprendiz como "o piso
térreo do Templo de Salomão".
Outra importante característica da iniciação de hoje, que pode ter estado ausente no antigo ritual, é a
Bíblia ou outro livro sagrado no altar, usado sempre em combinação com o compasso e o esquadro
simbólicos na administração dos controversos juramentos. E pouquíssimo provável que uma Bíblia
estivesse facilmente disponível a qualquer grupinho na Grã-Bre- tanha dos séculos XIV e XV, de forma
que o juramento devia ser administrado apenas como um símbolo.
O candidato a Aprendiz é sujeito ao interrogatório final antes de ser preparado para sua iniciação.
Precisa então confirmar se foi levado a buscar a admissão por uma opinião favorável já formada sobre a
Maçonaria, que não tem motivos mercenários pessoais, que tem o desejo de conhecimento e
auto-aperfeiçoamento e uma vontade sincera de ser útil a seu semelhante.
Ao passar satisfatoriamente por esse interrogatório, pede-se a ele que fique semi-nu. Originalmente,
isso significava retirar apenas as calças e a camisa, em seguida arregaçar a perna esquerda da calça acima
do joelho e desabotoar a camisa para permitir tirar o braço esquerdo, deixando à mostra o ombro e o
peito. O sapato esquerdo e as meias também eram removidos. Hoje, ficou ainda mais fácil com um traje
feito especialmente para isso e uma pantufa para o pé direito. Todos os objetos de metal de qualquer
natureza são tirados do candidato.
Após se despir, ele é "encapuzado" (os Maçons dizem "vendado") e uma corda é amarrada em torno
de seu pescoço, arrastando no chão. A corda, usada de maneira levemente diferente em cada uma das três
cerimônias de iniciação dos três graus básicos da Maçonaria, é chamada "amarra"*.
Na preparação para a cerimônia de iniciação, a Loja foi arrumada como Loja de Aprendiz Maçom. Do
lado de fora da porta fica o oficial conhecido como Guarda do Templo, uma combinação de sentinela com
sargento de armas, encarregado da segurança do encontro, incluindo a triagem de Maçons visitantes. Seu
título, cujo significado foi perdido há muito tempo, foi utilizado para criar o verbo maçônico cobrir, como
vemos quando o Venerável Mestre da Loja pergunta ao Segundo Diácono qual o primeiro dever dc um
Maçom. A resposta é: "Ver se a Loja está coberta,

* N. R.: Figurativamcnte a amarra significa proteção. Também c uma corda ou cordel.

Venerável", ao que o Mestre responde: "Cumpra essa parte de seu dever e informe ao Guarda do Templo
que estamos prestes a abrir uma Loja de Aprendiz Maçom, e mande-o cobrir devidamente." Após seguir
essas instruções, o Segundo Diácono relata: "A Loja [ou porta] está coberta."
"Por quem?"
"Por um Mestre Maçom do lado de fora da porta, armado com o instrumento próprio a seu ofício
[uma espada]."
"Qual seu dever aqui?"
"Afastar todos os profanos e curiosos e não deixar que ninguém passe ou repasse sem permissão do
Trono [ou Venerável Mestre]."
Segue-se então uma rotina de identificar cada oficial, seu lugar na Loja e seus deveres. O Mestre dá
então os sinais do grau de Aprendiz que serão revelados ao candidato na cerimônia de iniciação, sinais
que são repetidos por todos os Maçons presentes, como indicação de que todos na assistência estão
qualificados para estar ali, e a Loja é aberta.
Um oficial da Loja (o Segundo Diácono) leva o candidato vendado pelo braço até o recinto da Loja
para o ritual. Não há necessidade de descrever essa cerimônia em detalhes, porque o interesse principal é
identificar apenas os itens mais significativos que possam nos dar pistas da origem da Maçonaria. Além
disso, cerimônias maçônicas tendem a ser desordenadamente repetitivas, o que pode ser muito tedioso
para o leitor, mas que, provavelmente, era necessário para preservar rituais que nunca puderam ser
escritos e tiveram de ser guardados na memória. A repetição servia para um fim muito importante para
os Maçons, mas representa pouca importância para nós. Além disso, por causa da tradição puramente
verbal, há variações nas palavras exatas de uma Loja ou jurisdição para outra. E notável que, na ausência
de manuais oficiais escritos, a execução do ritual seja tão semelhante em todo o mundo.
Enquanto o Segundo Diácono escolta o candidato vendado ao recinto da Loja, o Primeiro Diácono
espera com um compasso na mão. Quando o candidato pára diante dele, o Primeiro Diácono segura uma
das pontas
do compasso contra seu peito e diz: "Senhor , ao entrar nesta
Loja pela primeira vez eu o recebo com a ponta de um instrumento afiado pressionando o seu peito
esquerdo nu, para lhe ensinar que, assim como isso é uma tortura para sua carne, assim deve a lembrança
disso parecer à sua mente e consciência, caso você tente revelar segredos da Maçonaria ilegiümamente."
O Primeiro Diácono se encarrega então do candidato e começa a guiá-lo mais uma vez em torno do
recinto. Logo que começam, o Mestre os interrompe com uma pancada de seu malhete, advertindo-os que
uma jornada tão importante não deve ser empreendida sem invocar as bênçãos dc Deus. Todos curvam a
cabeça para uma oração que dedica o candidato ao serviço de Deus e da irmandade; após, o Mestre faz a
seguinte pergunta ao iniciado: "Em quem você tem confiança?", para a qual a única resposta aceitável é:
"Em Deus".
Conforme o Primeiro Diácono e o candidato avançam em tomo do recinto, param no local onde está o
Segundo Vigilante, que pergunta: "Quem vem lá?"
"O senhor ____ , que esteve por muito tempo na escuridão e
agora busca ser trazido à luz e receber os direitos e benefícios desta Venerável Loja erigida a Deus e
dedicada ao sagrado São João, como todos os Irmãos fizeram antes."
Após algumas questões relacionadas a suas qualificações e intenções, o candidato vendado é levado ao
Primeiro Diácono, que lhe fará as mesmas perguntas. Levado então à estação do Venerável Mestre, ocorre
a mesma troca, exceto porque o Mestre pergunta: "De onde você vem e para onde você está viajando?"
Dessa vez, o Primeiro Diácono responde pelo iniciado: "Do oeste, e viajando em direção ao leste." "Por
que você deixa o oeste e viaja para o leste?" "Em busca da luz." '
O Mestre então ordena que o candidato seja levado ao Primeiro Vigilante no oeste para ser instruído
sobre a melhor maneira de se aproximar do leste. O Primeiro Vigilante conduz o candidato pelo leste para
o altar, posicionando o calcanhar de seu pé direito na concavidade de seu pé esquerdo, formando um
ângulo
O Mestre sai de sua estação no leste e se aproxima do altar para informar ao candidato que, antes que
ele possa continuar, deve fazer "um solene juramento e obrigação", que o Mestre lhe assegura que não
interferirá em nenhum dever para com Deus, a Pátria, a família ou os amigos. Após expressar sua boa
vontade em fazer o juramento, o candidato, ainda vendado, é guiado para a posição apropriada do
Aprendiz. Ele se ajoelha sobre seu joelho esquerdo nu, com a perna esquerda à sua frente em ângulo reto.
Em frente dele, no altar, está o livro sagrado de sua fé, aberto, com o compasso e o esquadro em cima. Na
cerimônia do Aprendiz, o esquadro está
em cima das pontas do compasso.
O candidato põe sua mão esquerda sob o livro com a palma para cima, enquanto sua mão direita fica
em cima do compasso e do esquadro, com a palma para baixo. Nessa posição, ele faz o primeiro
juramento, que trouxe tantas críticas sobre a instituição maçônica.
"Eu, ___ , por minha própria vontade e acordo, em presença de
Deus Todo-Poderoso, e desta Venerável Loja erigida para Ele e dedicada ao sagrado São João, faço a
partir de agora e daqui por diante a mais sincera promessa e juramento de sempre aclamar, de sempre
ocultar e nunca revelar nenhuma das artes, partes ou pontos dos mistérios ocultos da antiga Maçonaria
que possam ter sido, ou daqui por diante possam ser, agora ou em qualquer período futuro, comunicados
a mim como tal, a qualquer pessoa ou pessoas, exceto se for um verdadeiro e legítimo Irmão Maçom, ou
em uma Loja regularmente constituída de Maçons; nem para ele ou eles até que, por estrito julgamento,
devida investigação ou informação legítima eu saiba que ele, ou eles, são legitimamente autorizados ao
mesmo que eu próprio. Prometo, além disso, e juro, que não os imprimirei, pintarei, estamparei, cortarei,
talharei, marcarei ou gravarei, fazendo com que os mesmos sejam transformados em algo móvel ou
imóvel, capazes de receber a menor impressão de uma palavra, sílaba, letra ou caracter, tornando- se
assim legíveis ou inteligíveis a qualquer pessoa sob a abóbada celeste, e os segredos da Maçonaria assim
ilegitimamente obtidos por causa de minha indignidade.
Tudo isso eu, muito solene e sinceramente, prometo e juro, com uma firme e imutável resolução de
realizar o mesmo, sem nenhuma pompa e reserva mental ou evasão secreta da mente, obrigando-me a
penalidade não menor do que ter minha garganta cortada, a língua arrancada pela raiz e meu corpo
enterrado nas areias ásperas do mar, no lugar da vazante, onde a maré enche e vaza duas vezes em 24
horas, caso eu conscientemente viole essa minha obrigação de Aprendiz. Portanto, que Deus me ajude e
me mantenha firme no cumprimento deste juramento."
Após terminar o juramento, o candidato é instruído a beijar o livro sagrado, como prova de sua
sinceridade. Pergunta-se o que ele mais deseja, para o que a resposta apropriada é: "Luz". Ante essa
resposta, a venda é removida e os segredos do Aprendiz são revelados a ele. Entre eles está o aperto de
mão e dois sinais com as mãos. Um deles é o sinal penal, que lembra a penalidade "ter minha garganta
cortada", quando a mão, com o polegar recolhido, é passada rapidamente pela garganta e então colocada
ao lado do corpo. Um outro sinal repete a posição na qual as mãos estavam colocadas sob e sobre o livro
sagrado ao fazer o juramento: palma esquerda para cima, palma direita para baixo, mãos separadas por
cerca de duas polegadas. E o sinal mais interessante dos dois porque tem um nome com um significado
perdido. O sinal é chamado due-guard.' Já se fizeram muitas tentativas para explicar o termo, mas só
apareceram explicações forçadas, como por exemplo "com este sinal você se guarda como um Aprendiz
Maçom."
Vem a seguir uma parte especialmente intrigante: a cerimônia de apresentação do "avental"
maçônico. Hoje em dia ele, de modo geral, é feito de tecido branco ou feltro, mas o antigo costume exigia
que o avental fosse de pele branca de cordeiro. A tradição indica que, originalmente, ele não era cortado e
decorado como uma peça de roupa, mas apenas uma pele inteira de cordeiro amarrada em torno da
cintura. Hoje os aventais maçônicos são de tecido, costurados, enfeitados com cores e decorados com uma
variedade de símbolos e distintivos maçônicos, mas, como pista para o passado, tudo o que importa é a
pele de cordeiro original.

*N
- R- Contração francesa de "Dieu vous garde". Deus vos proteja, como
poder místico recebido na iniciação. Na corruptela inglesa tornou-se o "duly
guard", referindo-se às obrigações assumidas pelo juramento.

O novo Maçom aprende que seu avental branco é um emblema de inocência "mais antigo que o Velo
de Ouro ou a Águia Romana", um símbolo mais honorável do que o que possa ser concedido por qualquer
príncipe ou potentado. Ensinam-lhe como vestir o avental para que ele se ajuste da mesma forma como
era usado pelos aprendizes na construção do Templo de
O Mestre pede ao novo Maçom que contribua para a Loja com algum item, qualquer um, feito de
metal, nem que seja um alfinete ou um botão. Uma vez que todos os itens metálicos foram tirados dele
antes de sua iniciação, ele fica confuso e frustrado pelo reiterado pedido. Finalmente, o Mestre acaba com
a confusão indicando que, nesse momento, o novo Maçom está destituído, sem uma moeda no bolso. Ele
aprende que essa parte da cerimônia foi incluída como um lembrete de que, se ele encontrar um amigo, e,
em especial, um Irmão Maçom, em condição semelhante, deve contribuir tão liberalmente quanto puder,
de acordo com a necessidade, mas apenas até o ponto em que sua generosidade não traga nenhum prejuízo
material para ele próprio ou sua família. Essa é a primeira lição da caridade maçônica.
Na parte final da iniciação, apresentam-lhe as "ferramentas de trabalho do Aprendiz". Primeiro, o
medidor de 24 polegadas (régua), a ser usada simbolicamente para dividir o dia maçônico em períodos de
trabalho, descanso e sono e de serviço a Deus e Irmãos necessitados. A seguir, o malhete ou marreta
utilizados para preparar as pedras, mas que agora será simbolicamente usado para lascar vícios e
leviandades, para que o Maçom possa ser esculpido em uma pedra adequada ao Templo de Deus. Porém, o
uso de uma ferramenta de pedreiro para ensinar lições de moralidade definitivamente não fazia parte da
Maçonaria Secreta, e não pode contribuir para a busca de seu início.
Mais importante para as pistas da origem são os termos maçônicos revelados neste grau, que
permanecem mistérios até hoje. O Guarda do Templo é um oficial que guarda a Loja contra profanos e
curiosos. O Aprendiz identifica sua posição fazendo o due-guard desse ideal. Ele é levado pela cerimônia por
meio de uma amarra. Se seu pai for Maçom, ele
é um Lewis.
Os símbolos a serem considerados cuidadosamente eram o círculo e o pavimento mosaico branco e
preto no chão, além do compasso e do esquadro sobre a Bíblia. Outras partes da cerimônia em destaque
eram a seminudez do candidato, a retirada de quaisquer objetos feitos de metal, o conceito de Maçom
como o homem que viaja do oeste para o leste e o avental de pele branca de cordeiro.
As próximas fontes dos mistérios maçônicos seriam os ritos de iniciação do segundo grau, ou de
Companheiro.

* N. R.: O filho do Maçom também é conhecido como Lowton, equivalente


ao Lobinho no escotismo.
'MEU PEITO ABERTO, MEU CORAÇÃO ARRANCADO"

O termo Companheirismo é um título bastante deselegante para um nível de associação que,


certamente, começou de forma um
pouco mais convencional e foi aos poucos sendo forçada a se
adaptar em um novo molde. Um dos significados desse estranho termo poderia ser "outro ofício", o
que não faria sentido como título de um grau de iniciação, de forma que podemos admitir que em
algum ponto o termo foi Companheiro do Ofício, que pode ser revelado. "Companheiro" significa
um par, um igual, como um Companheiro da Sociedade Real. Usado no contexto de "guilda"
maçônica, parece ser uma tentativa de colocar um nível entre um Aprendiz e um Mestre, o que
designa o Companheiro como equivalente do diarista. Porém, já vimos que o diarista não era um
"Companheiro" da guilda — apenas os Mestres gozavam dessa posição. Isso dá apoio à observação
feita por antigos escritores maçônicos de que na Maçonaria Secreta havia apenas dois graus, o
Aprendiz (os escoceses dizem Intrant) e o Companheiro. O título de Mestre nã o representava um
grau, mas indicava apenas o mestre de uma Loja. O Mestre Maçom original, portanto, era um
mestre de homens, não o mestre de um ofício. O Companheiro era, de todos os pontos de vista, o
membro pleno.
Esse ponto é sustentado pelo diário de Elias Ashmole, o antíquário inglês cujas coleções
forneceram uma base para o Ashmolean Museum, em Oxford. Uma anotação no diário indica que
ele se tornou Maçom em 16 de outubro de 1646, cerca de setenta anos antes de a Maçonaria se
revelar, em 1717. Mais importante é uma anotação muito posterior de 11 de março de 1682,
registrando sua participação em uma reunião de Loja em Londres. Diz ele: "Eu era o mais velho
Companheiro entre eles (pois fazia 35 anos desde que fora admitido)." Parece seguro assumir que
alguém da estatura de Ashmole não teria passado 35 anos no segundo grau, se o terceiro grau já
existisse na época.
Quanto à cerimônia de iniciação do Companheirismo é, principalmente, uma série de variações sobre
o grau de Aprendiz, sem nenhuma das mudanças dramáticas que caracterizam o ritual de Mestre, embora
a palestra que se segue seja muito reveladora. Dessa vez o peito, a perna e o pé direitos são desnudados, e
não os esquerdos. A amarra é enrolada duas vezes em torno do pescoço do iniciado, em vez de uma só (em
algumas jurisdições, a corda é enrolada em torno do ombro). Novamente, o candidato é "encapuzado" ou
vendado. Esse termo pode ser outra indicação de idade e, originalmente, pode ter significado (lembre-se
da libré vestida pelos rebeldes em Beverly, Scarborough e York) quando um capuz é puxado sobre seu
rosto, assim como o falcão é "encapuzado" pelo falcoeiro. Já se sugeriu que a venda é usada na cerimônia
para acrescentar o drama e inspirar uma nota empolgante de medo. A verdadeira razão é mais simples do
que isso: em sociedades secretas, especialmente as ilícitas, a venda é uma precaução necessária, usada
para se certificar de que o candidato não veja o rosto de nenhum outro membro até ter passado pela
iniciação, assumido as obrigações de seu juramento e sido admitido.
Após ser guiado pela cerimônia, passando pelo recinto da Loja estação após estação, o candidato
novamente se encontra diante do altar, ainda vendado, e faz o juramento do segundo grau. É levado para
a posição e se ajoelha sobre o joelho direito. Sua mão direita fica sobre o compasso e o esquadro na Bíblia,
enquanto sua mão esquerda é erguida com o braço na horizontal e o antebraço na vertical, formando
assim um esquadro. Novamente, o Mestre da Loja assegura que o juramento não interferirá em seu dever
para com Deus ou sua Pátria. O candidato repete, então, após o Mestre:
"Eu, ------- , por minha própria vontade e acordo, em presença de
Deus Todo-Poderoso e desta Venerável Loja de Companheiros Maçons, erigida a Deus e dedicada ao
sagrado São João, a partir de agora e daqui por diante mui solenemente prometo e juro, além de minha
obrigação anterior, que não entregarei os segredos do grau de Companheiro Maçom a ninguém de grau
inferior, nem a nenhum outro ser do mundo conhecido, exceto se ele for um Irmão verdadeiro e legítimo,
ou Irmãos Companheiros Maçons, ou pertencentes ao corpo de uma Loja constituída legalmente; e não
para aquele ou aqueles de quem eu apenas ouvir que o são, mas apenas para aquele ou aqueles que eu
comprovar sê-los, após estrito julgamento e devida investigação ou informação legítima. Além disso,
prometo e juro que não prejudicarei conscientemente esta Loja, nem um Irmão deste grau, nem deixarei
que isso seja feito por outros, se estiver em meu poder evitá-lo.
"Prometo, além disso, e juro, que obedecerei a todos os sinais e intiinações regulares dados, enviados,
entregues ou atirados a mim pela mão de um Irmão Companheiro Maçom, ou do corpo de uma Loja
constituída justa e legalmente; desde que esteja dentro do comprimento de minha amarra ou no esquadro
de meu trabalho. Prometo também, e juro, que
ajudarei e assistirei todos os pobres e desvalidos Irmãos e Companheiros, suas viúvas e órfãos, onde quer
que estejam em torno do globo, se me procurarem para tal, até onde esteja em meu poder, sem prejudicar
a mim mesmo e à minha família. Tudo isso eu, mui solene e sinceramente, prometo e juro sem a menor
hesitação, reserva mental ou qualquer auto-evasão da mente em mim, obrigando-me sob penalidade não
menor do que ter o peito esquerdo aberto e o coração e os órgãos vitais arrancados e atirados por sobre
meu ombro esquerdo e carregados ao vale de Josafá, para ali se tomarem presas dos animais selvagens do
campo e dos abutres selvagens do ar, se eu me provar voluntariamente culpado de violar qualquer parte
deste meu solene juramento ou obrigação de Companheiro Maçom, portanto, que Deus me ajude e me
mantenha firme no cumprimento desse juramento."
(Ao recitar a penalidade do juramento, uma variação diz:"... Nenhuma penalidade menor do que ter
meu peito aberto, o coração arrancado e colocado no mais alto pináculo do Templo." Bastante alheia ao
fato de que não há indicação alguma de que o Templo de Salomão tivesse pináculos, a versão que usa essas
palavras: "com os órgãos vitais atirados por sobre o ombro esquerdo", foi citada por um antimaçom como
indício de que as mutilações brutais infligidas a diversas mulheres em Londres pelo assassino conhecido
como Jack, o Estripador, não foram carnificina brutal, mas mutilação administrada em conformidade
com essa penalidade do juramento do Companheiro Maçom). 1
Após fazer o juramento, a venda é removida e o novo Companheiro aprende o cumprimento e a
palavra de passe de seu grau. Também lhe ensinam o sinal penal, que relembra a penalidade cle ter o
coração arrancado do peito; mostram-lhe como mover a mão direita espalmada cruzando o peito
esquerdo e então colocá-la ao lado do corpo. Da mesma forma que no primeiro grau, o due-guard do
Companheirismo repete a posição de suas mãos ao fazer o juramento: a mão direita na frente dele na
altura da cintura, com a palma virada para baixo (da mesma forma como ele pousou a mão na Bíblia
sobre o compasso e o esquadro), e o braço esquerdo erguido, formando um ângulo reto.
Na segunda parte de sua iniciação, o novo Companheiro Maçom é dirigido para uma escada em espiral
simbólica (ou real, se a Loja for rica o bastante) que leva à Câmara do Meio do Templo de Salomão, onde
se chega passando entre duas colunas. Essas colunas, diz ele, representam Jaquin e Boaz, as grandes
colunas de bronze que ladeavam o pórtico exterior do Templo de Salomão. No alto de cada uma há um
globo, um deles representando um mapa do mundo e o outro, um mapa celeste (embora nenhum deles
estivesse presente na corte de Salomão). A intenção desses dois globos é motivar todos os Maçons a estudar
astronomia, geografia e navegação. O iniciado aprende que as colunas originais eram ocas e serviam para
proteger os documentos secretos da Maçonaria de enchentes e
incêndios.
O iniciado aprende a seguir que a Maçonaria incorpora a Maçonaria Operativa (trabalhadora) e a
Especulativa (alegórica) e que os Maçons construíram o Templo bíblico de Salomão, além de muitas
outras estruturas de pedra notáveis.
Os primeiros três degraus em direção à Câmara do Meio representam a juventude, a idade adulta e a
velhice, comparadas à iniciação do Aprendiz em sua juventude, amadurecimento em conhecimento e boas
obras como Companheiro e o resto da vida como Mestre Maçom, confiando em uma vida imortal, da
forma como ele reflete sua vida honrosa como Maçom. Diz-se também que os três degraus simbolizam a
sabedoria, a força e a beleza.
Dois significados simbólicos possuem os cinco degraus seguintes. Primeiro, representam as cinco
ordens da arquitetura: toscana, dórica, jônica, coríntia e composta; em segundo lugar, diz-se que
representam os cinco sentidos: audição, visão, tato, olfato e paladar.
Os sete degraus seguintes estão ligados, simbolicamente, por todo um catálogo de sete, incluindo os
sete anos de fome, os sete anos de construção do Templo, as sete maravilhas do mundo e os sete planetas,
mas seu significado mais importante é simbolizar as sete artes e ciências liberais, que são a gramática, a
retórica, a lógica, a aritmética, a música, a astronomia e, mais enfaticamente, a geometria. O iniciado é
encorajado, na palestra desse grau, a se dedicar ao estudo das artes liberais, no sentido de que esse grau
tem mais um sabor de fraternidade universitária do que de sociedade secreta mutuamente protetora.
O Venerável Mestre chama a atenção do novo Companheiro para a grande letra G dourada
normalmente suspensa no teto ou pendurada na parede acima da cadeira do Mestre. Esse é o G
encontrado no atual emblema do compasso e esquadro da Maçonaria, e simboliza a geometria. Ele explica
que o grau de Companheiro é baseado na ciência da geometria, tema central de toda a Ordem Maçônica.
É com essa ciência que o homem compreende o Universo, os movimentos dos planetas e o ciclo das esta-
ções. A geometria é especialmente útil ao homem na ciência maçônica da arquitetura e é a base para uma
designação maçônica do Ser Supremo como o Grande Arquiteto do Universo. Conta-se ao iniciado que a
geometria é tão importante para a Maçonaria que antigamente os dois termos eram sinônimos.
Em nossa busca pela origem, porém, é necessário trazer em mente que toda a aura de aprendizagem e
a ênfase na geometria não são parte do ritual básico. São apresentadas e exaltadas na palestra que se
segue, um sinal quase certo de que foram adicionadas muito posteriormente. Outras das pistas que
procuramos seriam encontradas na cerimônia de iniciação do Mestre Maçom, o mais místico dos rituais
da Maçonaria, centrado na lenda da perseguição e assassinato do mestre construtor do Templo de Salomão.
O MESTRE MAÇOM

0 s ritos de iniciação do Mestre Maçom são muito mais complexos e dramáticos do que os do
Aprendiz e do Companheiro e reve-
lam o mais permanente e importante mistério de todo o ritual
maçônico: a lenda do Mestre assassinado. Preparado de maneira similar a do s dois primeiros
graus, o candidato fica seminu, com os braços despidos e o peito descoberto; todo o metal é
tirado dele: uma corda (a amarra) é enrolada em seu corpo e lhe colocam uma venda ou capuz.
Após breve cerimônias similares àquelas dos primeiros dois graus, o candidato está pronto
para a administração do juramento do Mestre Maçom, que o Mestre da Loja novamente lhe
assegura que não interferirá em nenhum dever que ele tenha para com Deus. a Pátria ou sua
família. O candidato se ajoelha diante do altar, com ambas as palmas viradas para baixo sobre
a Bíblia Sagrada, em cima da qual foram colocados o compas so e o esquadro, com ambas as
pernas do compasso acima do esquadro. O juramento pode variar consideravelmente no
linguajar de lugar para lugar, em razão de sua história de comunicação exclusivamente verbal,
mas em todos os lugares os pontos essenciais são os mesmos:
"Eu, ____ , de minha própria vontade e acordo, em presença de
Deus Todo-Poderoso e desta Venerável Loja de Mestre Maçom dedicada a Deus e ao sagrado
São João, a partir de agora e daqui por diante, mui solene e sinceramente prometo e juro, além
de minhas obrigações anteriores, que não revelarei o segredos do grau de Mestre Maçom para
ninguém de grau inferior, nem para nenhum outro ser do mundo conhecido, exceto se for um
Irmão verdadeiro e legítimo Mestre Maçom, dentro de um corpo de Loja justa e legalmente
constituída como tal, e não para aquele ou aqueles que apenas me digam sê-los, mas apenas
aquele ou aqueles que se provem como tal, após estrito julgamento e devida investigação, ou
legítima
informação recebida. -
Além disso, prometo e juro que não revelarei a palavra de Mestre que devo aqui receber, nem na
Loja nem fora dela. exceto nos cinco pontos do
companheirismo*, e não em volume maior que minha respiração. Além disso, prometo e juro que não farei
o Sinal maçônico de Aflição exceto se estiver em real aflição, ou para o benefício da Maçonaria quando no
trabalho, e se vir esse sinal ou a frase que o acompanha, e se a pessoa que o fizer parecer em aflição,
correrei para aliviá-la sob risco de minha vida, mesmo que haja maior probabilidade de salvar sua vida do
que de perder a minha.
Prometo também, e juro, que não estarei na iniciação, elevação ou exaltação de um velho em sua
idade senil, um jovem em sua menoridade ateu, um libertino irreligioso, um idiota, um louco ou uma
mulher. Também prometo e juro que não falarei mal do Irmão Maçom, nem por suas costas nem diante de
seu rosto, mas o prevenirei de qualquer perigo iminente, se isso estiver em meu poder. Prometo também, e
juro, que não terei intercurso carnal ilegal com a esposa, mãe, irmã ou filha de um Mestre Maçom, se eu
souber que elas o são, nem permitirei que isso seja feito por outros, se estiver em meu poder evitá-lo.
Prometo, além disso, e juro, que os segredos de um Mestre Maçom, que a mim forem passados, e
sabendo eu que o são, devem permanecer tão seguros e invioláveis em meu peito quanto no dele, quando
comunicados a mim, excetuando-se o assassinato e a traição, quando serão deixados para meu próprio
arbítrio.
Prometo também, e juro, que me engajarei na missão de um Mestre Maçom sempre que necessário,
nem que tenha de ir descalço e com a cabeça nua, se isso estiver dentro do comprimento de minha amarra.
Além disso, prometo e juro que sempre me lembrarei de meu Irmão Mestre Maçom quando estiver
ajoelhado oferecendo minha devoção a Deus Todo-Poderoso.
Prometo e juro também que ajudarei e assistirei todos os Mestres Maçons pobres e indigentes, suas
viúvas e órfãos, onde quer que estejam sobre o globo, enquanto isso esteja em meu poder, sem prejudicar
materialmente a mim ou minha família.
Também prometo e juro que, se qualquer parte de meu solene juramento de obrigação for omitida
neste momento, considero-me obediente a ela assim que for dela informado. Tudo isso eu mui
sinceramente prometo e juro, com firme e segura intenção de manter e realizar o mesmo, obrigando- me
sob penalidade não menor que ter meu corpo partido em dois e dividido em norte e sul, meus intestinos
queimados até as cinzas no centro e as cinzas espalhadas diante dos quatro ventos do céu, para que não
possa haver nem o menor rastro ou traço de lembrança entre os homens, ou Maçons, de canalha tão vil e
perjuro como serei, se, por acaso, mostrar-se voluntariamente culpado de violar qualquer parle deste meu
solene juramento e obrigação de Mestre Maçom. Portanto, que Deus me ajude e me mantenha firme no
cumprimento deste juramento."

* N. R.: Conhecidos também como cinco pontos de perfeição.

Após breves cerimônias, a venda é removida e o novo Mestre Maçom aprende diversos
segredos daquele grau. Aprende o sinal penal, sinal de mão baseado na penalidade do juramento
do Mestre Maçom, que consiste em passar a mão em um movimento de corte, com a palma para
baixo e o polegar voltado para o corpo, por cima do estômago. O due-guard do Mestre Maçom
repete a posição de suas mãos sobre a Bíblia Sagrada e o compasso e o esquadro quando ele faz
o juramento: seus braços ao lado do corpo e os antebraços esticados com as palmas para bai xo.
Até esse ponto, a cerimônia é muito semelhante a dos primeiros dois graus, mas vem então um
terceiro sinal, o Sinal maçônico de Aflição do Mestre Maçom, feito com os braços paralelos ao
chão, os antebraços verticais com as mãos acima da cabeça e as pal mas para a frente. Para
aqueles momentos em que o Mestre Maçom está fora do campo de visão da possível ajuda, ou no
escuro, ele aprende a pedir ajuda com as palavras: "O Senhor meu Deus, não há ajuda para o
filho da viúva?", referência a Hirão, legendário Mestre artesão da construção do Templo de
Salomão, sobre quem o iniciado ainda não aprendeu nada e que os Maçons identificam como o
ferreiro que a Escritura descreve como o "filho de uma viúva de Naftali".
Até esse ponto, o ritual de iniciação parece familiar para o novo Mestre Maçom por ser
muito parecido com as cerimônias que experimentou em suas iniciações de Aprendiz e
Companheiro. Ele não se surpreende quando o Venerável Mestre declara um intervalo no
encontro para descansar; ele é reconduzido de volta à ante-sala para sc vestir e voltar à reunião
como um Mestre Maçom pleno. Ele ficará muito surpreso poucos minutos depois, quando
souber que a parte importante de sua iniciação ainda não começou e nem mesmo foi sugerida.
'1 |
Ao voltar para o recinto da Loja, já envolto em seu avental de Mestre, com a fita e a jóia do
Primeiro Diácono em torno do pescoço, o candidato é rodeado pelos membros da Loja, que lhe
apertam a mão e o congratulam por se tornar Mestre Maçom. O companheirismo domina o
ambiente, até que o Venerável Mestre usa seu malhete para exigir o retorno da ordem à reunião.
Procurando o iniciado, o Mestre pergunta se ele se considera um Mestre Maçom. À resposta
afirmativa, o Mestre o corrige dizendo que não o será até que tenha viajado por uma estrada
cheia de perigo e risco, encontrando-se com ladrões, bandidos e assassinos. Apenas após
sobreviver a essa iminente provação ele será capaz de se considerar Mestre Maçom. Vendado
novamente, o Primeiro Diácono, como "condutor", o leva em um círculo em torno do recinto da
Loja, enquanto o Venerável Mestre começa a contar a história do assassinato de Hiram Abiff, o
Mestre construtor do Templo cie Salomão e que, junto ao próprio rei Salomão e Hirão, rei dc
Tiro, foi um dos três Grão-Mestres da Ordem Maçônica.
Ele explica que, durante a construção do Templo de Salomão, era cos tume de Hiram Abiff
entrar no Sanctum Sanciorum ainda inacabado do Templo todo dia ao "doze superior"
(meio-dia), com o fim de planejar na
"pracheta de traçar' a distribuição de tarefas do dia seguinte aos trabalhadores. Depois ele ofereceria
suas orações a Deus e sairia pelo portão sul do pátio do Templo. O iniciado não sabe que o resto da
história de Hiram Abiff será em forma de uma peça ou drama no qual ele próprio terá o papel do Grão-
Mestre; descobre isso com um susto quando as pessoas que o escoltam atingem o mítico Portão Sul. Ali,
ele é apanhado e sacudido por um assaltante invisível. Seu atacante afirma que Abiff prometera aos
companheiros que, quando o Templo fosse completado, eles todos poderiam saber os segredos de um
Mestre Maçom (algumas Lojas dizem "a palavra do Mestre"), para que pudessem viajar para terras
estrangeiras para encontrar trabalho e receber as recompensai de um Mestre Maçom. Não contente de
esperar pelo término do Templo, o atacante exige esses segredos imediatamente.
Seu condutor responde pelo atônito iniciado vendado, dizendo ao assaltante que ele deve esperar
até que o tempo seja completado e então, se fosse merecedor, receberia os segredos de um Mes tre
Maçom. Não satisfeito, o atacante, cujo nome é Jubela, ameaça tirar a vida de Hiram Abiff se ele não
divulgar os segredos; quando isso é negado, ele passa a régua de 24 polegadas pelo pescoço do
candidato e depois seu condutor o leva até o "Portão Oeste do Templo". Nesse portão, ele é agarrado
pelo segundo assaltante, cujo nome é Jubelo. Novamente lhe pedem os segredos do Mestre Maçom e,
quando eles não são revelados, Jubelo o ameaça e atinge o candidato no peito com um esquadro.
Conduzido até o "Portão Leste", o iniciado é abordado pelo terceiro assaltante, cujo nome é Jubelum.
Depois que o candidato, ainda no papel de Hiram Abiff, recusa-se a divulgar os segredos do Mestre
Maçom, mesmo sob pena de morte, é aüngido na cabeça pelo malhete de Jubelum e cai "morto"
(empurrado no chão por seu condutor e outros).
Vendado e no chão, o iniciado ouve os três assassinos decidirem enterrá- lo em uma pilha de
cascalho até o "doze inferior" (meia-noite), quando retirarão o corpo do Templo. Para simbolizar o
enterro de Hiram Abiff, o candidato envolto em um lençol é carregado para um canto do recinto. Logo
ele ouve um sino bater 12 vezes e é removido do túmulo de "cascalho" para um túmulo cavado no pé de
uma montanha "a oeste do Monte Moriá" (o monte do Templo). Os assassinos concordam em marcar
seu túmulo com um ramo de acácia e então tentar escapar para a Etiópia pelo Mar Vermelho.
Momentos depois, na continuação do drama, o rei Salomão (representado pelo Venerável Mestre
da Loja) chega para descobrir a razão de toda a confusão e é informado de que o Grão-Mestre
desapareceu e que, sem a distribuição de tarefas, os trabalhadores não sabem o que fazer. Salomão
ordena que todos os trabalhadores procurem o Grão-Mestre desaparecido, e o candidato em seu
"túmulo" ouve barulhos de pés arrastados e objetos empurrados pelo recinto. Finalmente, relatam ao
rei Salomão que Hiram Abiff não pôde ser encontrado; ele ordena que se faça uma chamada, que
revela a ausência de Jubela, Jubelo e Jubelum, conhecidos coletivamente pelos maçons como os Juwes .
Salomão ordena que 12 companheiros partam, três para o leste, três para o oeste, três para o norte e três
para o sul, para procurar os fugitivos. Os que foram para o leste e sul retornam sem novidades. Os três do
oeste relatam que souberam dos Juwes esperando embarcar no porto de Joppa (antigo nome para Jaffa),
mas não conseguiram por causa do embargo aplicado por Salomão à navegação como parte da caça.
Souberam que os três fugitivos deram meia-volta em direção a Jerusalém e ao Templo. , u
Todos recebem ordens de continuar as buscas e, cerca de 15 dias (simbólicos) depois, um deles pára
para descansar ao lado do ramo de acácia, que sai da terra facilmente. Ele chama seus companheiros e
outro grupo de busca a se juntar a eles para contar que, enquanto descansava perto de algumas rochas,
havia ouvido vozes. A primeira voz, de Jubela, dissera: "Oh, antes ter tido minha garganta cortada, minha
língua arrancada pela raiz e meu corpo enterrado nas rústicas areias do mar no lugar da vazante, onde a
maré sobe e vaza duas vezes em 24 horas, que participar da morte de um homem tão bom como nosso
Grão-Mestre, Hiram Abiff." A segunda voz era de Jubelo, que gritava: "Oh, antes ter meu peito aberto,
meu coração e órgãos vitais arrancados e atirados sobre meu ombro esquerdo e levados ao vale de Josafá,
para ali se tornarem presas das feras selvagens do campo e dos abutres do ar [algumas Lojas dizem meu
coração arrancado e posto no mais alto pináculo do Templo, para ali ser devorado pelos abutres do ar], a
ter planejado a morte de um homem tão bom como nosso Grão- Mestre Hiram Abiff." A terceira era a voz
de Jubelum, mais alta e lamuriosa que as outras: "Ah! Jubela e Jubelo, eu o atingi mais forte do que vocês
dois! Fui eu quem lhe deu o golpe fatal! Fui eu quem o matou! Antes meu corpo tivesse sido partido em
dois, meus intestinos arrancados e queimados até se reduzir a cinzas, as cinzas espalhadas pelos quatro
ventos do céu, até que não houvesse o menor traço de lembrança entre os homens, ou Maçons, de patife tão
vil e perjuro como sou."
A equipe de busca volta às rochas, captura os três fugitivos e os leva ao rei Salomão. Ajoelhados diante
do rei, os três confessam a culpa e são sentenciados às punições saídas de sua boca. Com muito estrépito, os
três são arrastados para fora do recinto da Loja e o candidato, ainda enrolado no lençol, ouve os gemidos e
lamentos vindos de fora do recinto. Então, vem uma voz anunciar ao rei que as sentenças foram
cumpridas.
A seguir, Salomão ordena aos 12 companheiros que procurem o túmulo de Hiram Abiff, dizendo-lhes
que, quando encontrassem seu corpo, deviam procurar cuidadosamente qualquer revelação da palavra do
Mestre ou alguma chave para ela. Procurando no ponto em que a acácia havia sido

* N. R.: Os três maus companheiros tem nomes com a mesma raiz yubel, que
significa"rio ou sinal", ou seja "corrente" da vida material que ameaça as
conquistas espirituais.
arrancada, os buscadores "descobrem" o iniciado, ainda em seu "túmulo" de lençol, em seu papel de
Hiram Abiff. Ao abrir o túmulo, são derrubados pelo fedor do corpo em putrefação e põem suas mãos na
frente de si, com as palmas para baixo (imitando o due-guard de seu grau), para afastar o mau cheiro.
Examinando o coipo, nada descobrem além da fita e da jóia em seu pescoço, que levam ao rei Salomão,
relatando que não puderam encontrar nenhuma pista para a palavra do Mestre que, aparentemente,
estava perdida para sempre (algumas Lojas dizem que uma letra G desbotada aparecia no peito do corpo
em decomposição).
Dirigindo-se a Hirão, rei de Tiro (o Tesoureiro da Loja), Salomão decreta que o primeiro sinal dado e
a primeira palavra pronunciada no túmulo deviam se tornar parte da Regra do grau de Maçom até que
aquilo que foi perdido fosse descoberto pelas futuras gerações. Todos vão para o "túmulo" e o rodeiam. O
rei Salomão, logo que avista o corpo, ergue as mãos com as palmas para a frente (o Sinal maçônico de
Aflição) e grita: "O, Pai, Senhor meu Deus, não há ajuda para o filho da viúva?" Então, o rei manda que o
corpo seja erguido do túmulo com o toque do Aprendiz, mas dizem que a carne se solta quando tentam
esse toque. Ordena então que o corpo seja erguido com o toque do Companheiro, mas também esse toque
falha em levantar o corpo. Finalmente, Salomão diz que vai tentar ele próprio erguer o corpo do túmulo
usando a "Garra de Leão", o toque do Mestre Maçom. Aplicando o toque (e assistido por diversos
membros da Loja), ele ergue o corpo do candidato até a posição vertical e coloca o pé do candidato dentro
do pé direito de Salomão, seus joelhos direitos unidos, as mãos esquerdas nas costas um do outro, a boca
próxima à orelha um do outro. Em algumas jurisdições, o Venerável Mestre, como rei Salomão, sussurra
ao candidato a palavra de Mestre mcihabone e o manda sussurrar a palavra de volta, advertindo o novo
Mestre de que a palavra deve apenas ser repassada nessa posição, chamada "cinco pontos do
companheirismo"*. Assim que o novo Mestre Maçom aprende a palavra de Mestre, a venda é removida.
Dando um passo para trás, o Venerável Mestre explica que os cinco pontos do companheirismo são: pé
com pé, para indicar que o Mestre Maçom sairá de seu trajeto, até, se necessário, para dar assistência a um
Irmão merecedor; joelho com joelho, como lembrete de que, em suas orações ao Todo-Poderoso, o Mestre
Maçom se lembre do bem-estar de seus Irmãos, assim como do seu próprio; peito com peito, como garantia de
que cada Mestre Maçom manterá em seu próprio peito todos os segredos de um Irmão quando estes lhe
forem contados, exceto assassinato e traição; mão nas costas, porque um Mestre Maçom sempre estará pronto
para estender a mão para apoiar o Irmão e defender seu caráter e reputação em suas costas, assim como
diante de seu rosto; e boca no ouvido, porque um

* N. R,: Conhecido como cinco pomos de perfeição.

Mestre Maçom sempre tentará prevenir e dar bons conselhos a um Irmão pecador da maneira mais
amigável possível, apontando seus erros e dando- lhe recomendações adequadas para que ele possa se
afastar do perigo.
Em parte porque não se pode esperar que o novo Mestre Maçom tenha podido compreender
completamente a história de Hiram Abiff, estando coberto por uma venda e enrolado num lençol, o
"relato histórico" completo do assassinato do Grão-Mestre é contado a ele com detalhes. Dizem-lhe que,
depois de Hiram ter sido tirado do túmulo pelo rei Salomão, foi enterrado sob (às vezes, "perto de") o
Sanctum Sanctorum do Templo, que estava sendo construído para abrigar e honrar a Arca da Aliança. Contam
a ele que, de acordo com a tradição maçônica, um belo monumento (hoje perdido) foi construído para
honrar a memória de Hiram Abiff. Consistia em uma bela virgem chorando sobre uma coluna quebrada,
com um livro aberto diante dela. Na mão direita, ela segurava um ramo de acácia; na esquerda, uma urna.
Atrás dela estava o Tempo, contando os anéis de seu cabelo. Explicam que a coluna quebrada representa o
Templo inacabado, assim como a vida e a tarefa inacabadas de Hiram Abiff. O livro é o registro eterno das
virtudes e obras do Grão-Mestre. O ramo de acácia simboliza sua imortalidade e a urna contém suas
cinzas, enquanto a figura do Tempo nos lembra que tempo, paciência e perseverança podem realizar
qualquer coisa. Tudo isso, o iniciado aprende, é a razão pela qual a Loja do Mestre Maçom é conhecida
como o Sanctum Sanctorum da Maçonaria.
Mostram-se ao novo Mestre muitos dos símbolos maçônicos, com suas explicações, nenhum dos quais
se sabe se existiu na Maçonaria Secreta (os americanos se interessam mais pelo Olho que Tudo Vê, o
símbolo do Ser Supremo, o Grande Arquiteto do Universo, porque aparece na nota de US$ 1, acima de
uma pirâmide sem ponta, símbolo maçônico para o
Templo inacabado de Salomão).
Assim termina a iniciação do Mestre Maçom, para nós o mais interessante dos três graus, porque
contém a alegoria inexplicada que dá à Maçonaria sua identificação central com a construção do Templo
de Salomão. Como ela parte livremente do relato bíblico, certamente esconde pistas quanto às origens da
Ordem Maçônica. Chegara a hora de organizar as palavras misteriosas, termos, símbolos e Antigas
Obrigações da Maçonaria Secreta, começando com o vocabulário maçônico especial que, através dos
séculos, ajudou a separá-la de todas as outras organizações, e por cujo uso os Maçons de todo o mundo
instantaneamente reconhecem um ao outro.

MISTÉRIO NA LINGUAGEM*

os rituais de iniciação dos três graus básicos da Maçonaria surgi - ram diversas palavras e

D
termos cujos verdadeiros significados fo- ram perdidos ao longo dos séculos. Essas palavras e
termos são exclusivos da Maçonaria, como Tyler (Guarda do Templo), Cowan (Profano),
Ccible-tow (amarra), due-guard e Lewis (termos sem equivalente em português; trata-se de
um sinal maçônico de proteção e o nome dado ao filho de um Maçom), mais a "palavra
maçônica" escocesa mahábone, à qual podemos acrescentar uma montanha mítica escocesa, o
Monte Here- dom. Havia Abiff, o sobrenome do alegórico Mestre construtor do Templo de
Salomão, e os Juwes, os assassinos de Hiram Abiff chamados Jubela, Jubelo e Jubelum. Houve
diversas tentativas da parte de escritores maçônicos de relacionarem esse vocabulário com o
trabalho dos pedreiros medievais, mas as tentativas foram forçadas e essas explicações são atual -
mente rejeitadas por pesquisadores maçônicos sérios, de forma que todos esses termos permanecem
um mistério.
Ficou evidente que, se havia algo de certo na hipótese de que os fugitivos Cavaleiros Templários
eram o fator dominante na Maçonaria do século XIV, essa hipótese poderia primeiro ser testada
partindo da premissa de que os Templários eram uma Ordem francófona. As respostas que não
podiam ser encontradas em inglês talvez o fossem em francês medieval. Logo encontramos o
problema básico que existe ao remontar antigas palavras e frases francesas a partir de seu uso
corrente em inglês: no curso do tempo, a pronúncia afeta a soletração e a soletração afeta a
pronúncia. Vimos que o próprio nome normando de Burghe tornou-se o irlandês Burke, assim
como o nome francês Saint Clair tornou-se o nome escocês Sinclair.

• N. T.: este capítulo foi originalmente escriio para leitores anglófonos, de forma que as explicações
dadas para a origem dos termos apresentados nao sc encaixam de forma alguma nos mesmos termos
em português. Optei, portanto, por manter os termos no original e acresc entar seu equivalente em
português entre parênteses, ao lado deles.

Hoje, turistas em Londres se confundem, às vezes, quando seu guia lhes diz que as lojas de porcelana
que eles procuram estão em "Beecham Place", que não conseguem encontrar porque a placa da rua diz
"Beauchamp". Os Templários, também, fornecem um exemplo em sua grande propriedade em
Lincolnshire, que era conhecida como Temple Bruer Em francês medieval, bruer (pronuncia-se Bru-Ey)
significa "charneca" Gradativamente, alguns dos habitantes locais começaram a pronunciar o nome
como era escrito, então o modo de escrever mudou para combinar com a nova pronúncia, de forma que
hoje alguns mapas da área identificam o lugar como o "Templo Brewer", e, freqüentemente, tira-se a
conclusão de que era um lugar em que os Templários faziam cerveja*.
Nessa transformação de palavras francesas em inglesas talvez não haja nenhuma mais comum do que
o termo dos jogadores de tênis para um placar zero, ou "ovo de ganso". Poucos dos que gritam
"forty-love" percebem que o termo de tênis "love" começou como Voeuf, a palavra francesa para ovo.
Com todas essas possibilidades em mente, a busca começou por respostas ^maçônicas em francês
medieval. A primeira palavra procurada foi "Tyler" (Guarda), mas nenhuma das poucas palavras
francesas começando com ty fazia sentido num contexto maçônico. Decidimos tentar uma aproximação
fonética, uma vez que o som de ty em francês se escreve toi, e a resposta surgiu na palavra francesa tailleur,
que significa "aquele que corta". A raiz da palavra fora usada na palavra inglesa medieval taille (talha;
pronuncia-se "tai"), que significa uma taxa, ou o "corte" tirado pelo governo. Uma variação anglicizada
trouxera a palavra titlie (dizimo), o "corte" que vai para a Igreja. De tailleur de vêtement, "aquele que corta rou-
pas", veio a palavra inglesa "tailor" (alfaiate). Ao ver suas várias distorções em outras palavras inglesas,
podemos aceitar que tailleur poderia ter se desenvolvido em "tyler" (que é quase exatamente como o
londrino pronuncia "tailor"). Na prática, "cortador" parece uma designação perfeitamente aceitável
para um homem que fica do lado de fora da porta (ou no bosque) com uma espada afiada na mão.
O Tyler (Guarda) tem como primeiro dever a proteção da Loja contra "cowans (profanos) e curiosos".
A explicação maçônica usual é que a palavra cowan era um antigo termo escocês para designar um
pedreiro ainda sem habilidade suficiente para ser admitido na guilda. Durante a investigação, não
pudemos encontrar cowan em nenhum compêndio de antigas palavras escocesas, e sabíamos que os
Lowlanders da Escócia na Idade Média tinham mais afinidades lingüísticas com os ingleses do que com os
Highlanders, que falavam gaélico; o povo usava a língua inglesa e os nobres normando-franceses, que
constituíam a maior parte da aristocracia

| H p "Brewery", cm inglês, é "cervejaria", e "brewer" é "cervejeiro".

Lowlander, usavam o francês. Novamente, a linguagem francesa deu uma solução sensata na palavra
couenne (pronuncia-se cu-ên). Seu significado é "ignorante" ou "grosseiro", de forma que é possível que o
vocábulo fosse realmente aplicado aos trabalhadores ineptos na Escócia, mas seu uso de forma alguma se
limitava a essa aplicação, e nem se limitava à Escócia. Além disso, essa derivação era sustentada pela
palavra francesa couarde (cuard), que veio para o inglês como "coward" (covarde). O Tyler (Guarda),
portanto, protegia o encontro da Loja contra os ignoran-
O termo due-guard, o sinal que o Maçom dá para se identificar em qualquer grau do ofício, também
existia no francês em um termo que havia sido truncado ao longo dos anos. O termo francês para um gesto
protetor é gesle du garde, que gradativamente se encurtou para dit garde, sendo a escrita anglicizada como
"due-guard"*". Se isso parece demasiadamente especulativo, considere que a mesma transição truncada
ocorreu diversas vezes quando termos franceses gradativamente foram absorvidos pela língua inglesa. O
paralelo próximo existe em um tecido de trama muito fina desenvolvido pelos tecelões de Nímes, na
França. Era conhecido como serge de Nímes, depois serge de Nim, e mais tarde a primeira palavra desapareceu,
de maneira que o termo sobrevive em inglês simplesmente comoBdenim" (sarja).
O termo maçônico Lewis para um filho de Maçom era um pouco mais difícil: não havia nenhuma
palavra em dicionários franceses que começasse com as letras lew. Então nos lembramos que diversos
dialetos ingleses, incluindo alguns ainda comuns em Londres, freqüentemente trocavam os sons de v e w.
Essa inversão dava a resposta na palavra francesa plural levées usada no contexto agrícola, que teria sido
pronunciada "lewis" por muitos ingleses. O significado da palavra é praticamente sinônimo de "des-
cendente". Significa "rebentos", uma designação sensata para filhos e herdeiros"*. 1
De longe, o maior dos desafios residia em tentar encontrar uma raiz francesa para Hiram Abiff. A palavra
Abiff, supostamente o sobrenome do Mestre Maçom assassinado encarregado da construção do Templo de
Salomão,

* N. T.: "cowans": a mesma palavra é usada, em inglês, para "covarde, polirão". M N. T.: Há outra explicação para o significado do termo, que me foi gentilmente
dada por um amigo Maçom: Due guard = forma arcaica (anglo-normanda) para "Deus guarda" (em francês, Dieu Garde), que subsiste nas lojas estadunidenses
e irlandesas. *** N. T.: Lewis pode também ser uma corruptela do francês Louveteau, que significa "Lobinho". O termo aplicado cm português é Lowton, outra
corruptela do mesmo termo, embora não com equivalência exata (Lowton é o filho de Maçom adotado pela Loja, que se responsabilizará por sua educação e
sustento até que se torne maior de idade). E interessante notar que "lobinho" é também a designação utilizada para o escoteiro iniciante, fato que vem engrossar
o número dc pontos semelhantes encontrados entre esse grupo e a Maçonaria.

nao vem do hehrcu nem do inglês; também nflo pode ser encontrada em
trances, entre todas as palavras Francesas com a letra a. Notei então uma anomalia nas iniciais
freqüentemente usadas em escritos maçônicos para aumentar o nível de segredo. A maioria dos
documentos maçônicos usa as iniciais HA para Hiram Abiff, mas alguns dos trabalhos mais antigos sc
referiam a ele como HAB. Poderia isso significar que em algum ponto seu nome foro Hiram A. Biff?
Tomando novamente os dicionários franceses encontrou-se uma resposta no verbo bijfer, que significa
derrubar ou eliminar. O termo maçônico não era um nome, mas uma designação: Hiram à liiffc simplesmente
significaria "Hiram, que foi eliminado".
Não podemos encontrar nenhum indício dc que alguém tenha seriamente tentado encontrar ura
significado real para os nomes dos Juwes, os três homens que surraram c mataram Hiram Abiff. o que nflo
é surpreendente, já que os nomes Jubela, Jubelo e Jubelum, a princípio, parecem semelhantes ao
palavreado infantil feito com sílabas sem sentido, como Dlindindum e Dlindindim. A busca em francês
antigo, porém, mostrou que nossa primeira impressão estava errada. A palavra francesa jubé significa
"arco cruzeiro", o biombo da igreja medieval que ficava na entrada da capela, a área leste da nave, que
incluía o coro. Naquele tempo, um grande crucifixo era afixado no arco cruzeiro |roodscreen, em inglês), que
recebeu esse nome porque rood é uma antiga palavra saxã para "cruz".
Era em frente drsstjubé, desse biombo com crucifixo, que freqüentemente se realizava a penitência
pública pelo padre. Em vez cio uma penitência típica de uma dúzia de Ave-Marias, a penitência medieval
poderia significar horas de oração, ou mesmo ura castigo físico, com joelhos nus sobre a pedra bruta.
Mais importante: era ordens religiosas como a dos Cavaleiros Templários, era no jubé que se efetuavam as
punições ou penitências físicas dos monges e padres, incluindo OS chicoteamentos exigidos por suas
regras. Ojub c era o lugar da punição pública pelo pecado. Esse significado permanece hoje no termo
francês coloquial venirà jubé, literalmente "vir ao jubé", que significa submeter-se. receber o que c devido. 1
nesse sentido dc punição e retribuição que a palavra jubé vive no ritual
maçônico. Para lembrar os destinos dos três atacantes dc Hiram Abiff, que fórum punidos por seu crime e
pecado pelo julgamento do rei Salomão, os
onginadores da alegoria podiam tò-los chamado Jube Um, Dois c Três, mas
escolheram diferenciá-los usando os sufixos feminino, masculino e neutro.
nomeando-os Jube\a. Jubelo e Jubehim. O termo coletivo, Juwes, sem
dúvida começou como Jubes. Sem equivalente em inglês, os nomes Da- queles-Que-Foram -Punldos apontam
diretamente para uma ordem
francófona e para ura contexto medieval.
O termo escocês intrant para designar o Aprendiz é uma óbvia corruptela de "entram", originalmente
uma palavra francesa que tinha o mesmo significado e foi incorporada ao inglês. Parecia razoável que um
título iniciai para um novo membro fosse "Entram", e que, no esforço de identificar
a fraternidade com as guildas medievais» cujos iniciantes eram chamados aprendizes, o termo maçônico
teria se tornado Entrant Apprentice, e a versão verbal teria gradativamente se reduzido ao som de Entered
Apprentice (Aprendiz Admitido), mais suave (oposto, por exemplo, a Aprendiz nào admitido, uma posição
improvável). Na verdade, o próprio uso da palavra "Aprendiz" mostra sua tradição em uma data muito
posterior, talvez mesmo quando da passagem da Maçonaria Secreta para a Maçonaria Publica, porque
viola o princípio básico das sociedades secretas. Novos membros dc sociedades secretas são confinados a
um pequeno grupo de nível baixo até que sua integridade esteja acima de dúvida, dc forma que eles
possam trair apenas um número mínimo em seu próprio nível de entrada, seja maliciosamente ou sem
querer. Para apoiar essa segurança, iniciados que acabaram dc entrar são levados a acreditar que são
membros plenos, inteiramente familiares com os líderes da sociedade. O ideal é que eles nem mesmo sus-
peitem de que há níveis mais altos e membros superiores muito mais importantes, totalmente
desconhecidos deles. O uso do título "Aprendiz" destrói essa segurança porque torna óbvio que há níveis
acima, de forma que é muito improvável que a palavra tenha sido usada nos tempos em que o segredo em
cada nível da ordem era vital.
A "palavra maçônica" escocesa e mahabone, que desafiou todas as nossas tentativas de encontrar sua
origem na linguagem francesa, embora o francês bon seja freqüentemente encontrado no inglês como
"bone" como em Londres, onde o nome original francês Maric Ir liou subsiste no nome de Marylebone.
Chegamos a uma possível explicação, mas é altamente especulativa. No ritual para a iniciação dc um
Mestre Maçom, conta-se ao candidato que esse grau o tornará "Irmão dc piratas e corsários". Já vimos
que essa irmandade especial provavelmente deriva dos Templários que tomaram os navios de guerra da
Ordem e optaram pela vida e pelo
comportamento arriscado dos saqueadores. Nesse período, o maior porto
pirata na costa norte africana era a cidade de Malulia. Da mesma forma
como Madri, sob o domínio mouro, foi chamada Mahadrid. Malulia era antigamente conhecida como
Mahadia. Sc essa grande cidade corsária recebia e abrigava os Templários fugitivos e seus navios, poderia
muito bem ter ficado conhecida como "Mahadia, a Boa", ou Mahadia Ir Bon, que ao longo de séculos de
comunicação estritamente verbal poderia facilmente ter sc transformado em nutliaboiie. Admito que isso é
pura especulação, e nao indícios, embora seja razoavelmente certo que, se algum dia se encontrar um
significado original, ele confirmará que a sílaba escocesa "boné" vem do francês bon. . •M
O termo cabh-tow (amarra) não parecia ter conexão alguma com o francês, uma vez que é construído
com duas palavras inglesas, mas havia o fato irritante de que, no significado em inglês, ela não lazia
sentido quando aplicada ao ritual maçônico, Em inglês, um cable (cabo) a urna
corda pesada dc ao menos 10 polegadas de diâmetro. Como unidade dc medida britânica, o
comprimento dc um cabo é a distância de 100 braças ou 600 pés. Mas em francês medieval,
encontramos um significado completamente diferente. A palavra francesa cable vem diretamente
cla palavra latina capulum. O significado, tanto cm latim como em francês, é "cabresto",
precisamente o uso no ritual maçônico quando o candidato é levado pelas cerimônias por meio de
uma corda enrolada cm torno dc parte dc seu corpo como um cabresto, c que t em uma ponta mais
comprida, formando assim o "cable-tow" maçônico. O que, aparentemente, aconteceu é que o termo
c usado para as cordas fortes necessárias para amarrar, ou "cnca - brestar" o navio, c o significado
animal original acabou por ser perdido para o termo puramente náutico.
Um termo exclusivo da Maçonaria escocesa c Mont Herecloni, uma montanha mítica que
supostamente ficaria próxima à cidade dc Kilwinning, lar cla "Loja -Mae" da Maçonaria na
Escócia. Nenhuma explicação plausível dc Heredpm jamais foi apresentada, então tentamos
encontrar uma resposta no francês.
Para começar, o sufixo dom pode ser francês ou inglês, pois ambos derivam do latim domus, a
palavra que nos trouxe "domicílio". Significava originalmente, cm inglês, uma localização
geográfica; por exemplo, o kingdom (reino) era a área governada por um rei. Mais tarde, passou a
significar um estado dc existência, e não um lugar; írcodom (liberdade) seria o estado de ser livre. O
sufixo parecia claro, mas o que significaria Herel Não dá para ser conclusivo, mas encontramos uma
resposta que faz sentido. A antiga palavra francesa héraudie significa heráldica (heraldry, cm inglês).
Heraudom, facilmente anglicizada como Heredom, indicaria o lugar ou estado de ser nobre.
Ex-Templários, que seriam da classe cavalheiresca, por terem direito de portar brasões de armas
heráldicos, mas agora vivendo sob identidades falsas, poderiam bem ter desejado preservar uma
lembrança simbólica de sua posição social.
O estabelecimento da origem dessas palavras perdidas da Maçonaria na linguagem francesa
resolve diversos mistérios maçônicos menores, mas, é claro, não estabelece dc forma conclusiva
nenhuma associação direta com os Cavaleiros Templários. Certamente, porém, acrescenta peso à
hipótese da conexão templária, mas não à antiga alegação dos inícios maçônicos na construção do
Templo dc Salomão, ou às atuais alegações dc origem nas guildas medievais dc pedreiros; em
nenhum desses contextos os participantes teriam sido francófonos. O que realmente fica
estabelecido é um estrato social ligado às classes superiores normando-francesas c uma moldura
temporal. Foi apenas após o ano de 1362 que se promulgou, na Inglaterra. uma lei que dizia que
todos os julgamentos, dali cm diante, seriam conduzidos cm língua inglesa, dc forma que os
participantes compreendessem o que estava acontecendo. As raízes francesas das palavras perdidas
da Maçonaria indicam a forte probabilidade de que a sociedade já existisse
na primeira metade do século XIV, outro ponto que contribui para a plausibilidadc das origens associadas
aos Templários, que fugiram da prisão da Igreja e do Estado nesse mesmo período.
Uma ligação mais direta com os Templários pode ser enconlrada na palavra francesa com a qual os
cavaleiros se dirigiam uns aos outros. Os Templários de todas as classes chamavam-se por frére, ou
"Irmão", e não chevalier, ou "cavaleiro", como fazem os modernos Templários maçônicos ao se dirigir a
um oficial, por exemplo, como "S/r Cavaleiro Generalíssimo". Os Templários dirigiam-se a seu próprio
comandante militar (não tinham um generalíssimo) como Frére Marechal, ou "Irmão Marechal". O termo
francês para Maçom (cm inglês, Freemason) é Franc-Maçon, que provavelmente teria sido anglicizado para
"Frank Mason" (lembrando que na comunicação verbal maçônica o nome dc Pitágoras se degenerara
como "Petcr Gowcr"). Por outro lado, o termo francês para Irmão Maçom 6 frére Maçou. Antecipando os
exemplos dc C. S. Forester, que fez os oficiais ingleses e outros homens em uma de suas histórias de
Horatio Hornblower pronunciar frére como "freer", a anglicização de frére Maçou teria produzido Freer Mason
e, mais tarde, para facilitar a fala, "Free Mason", muito mais suave. Na verdade, grande parte da antiga
literatura maçônica emprega o termo MIrmão Maçom", c não podemos encontrar nenhum precedente no
século XIV para alguma organização que se referisse dc forma consistente a seus membros como Irmãos,
exceto as diversas ordens religiosas que, claro, incluíam os Cavaleiros do Templo.
O termo maçônico Loja pode não parecer conter nenhum mistério, porque a palavra adotou a definição
maçônica. Se buscarmos as definições inglesas originais do inglês lodge, o inglês medieval logge ou o francês
loge, o significado é o mesmo*. Um alojamento é um lugar para dormir e, às vezes, também para comer.
Em nenhum lugar, além da Maçonaria, a palavra designou uma cela ou um capítulo, ou um grupo de
homens unidos por laços fraternais. Esse significado, porém, que foi revelado pela primeira vez quando os
Maçons vieram a público em 1717, tornou-se agora parte aceita da linguagem comum. The Random House
Dictionary of lhe Englisli Language dá diversas definições dc lodge, incluindo "lugar de encontro de uma
ramificação dc uma sociedade secreta" e "os membros que compreendem essa ramificação". Assim,
ouvimos falar dc uma Loja dos Companheiros Excêntricos e uma Loja do Alce e perdemos de vista o fato
de que esse uso puramente maçônico das palavras fornece uma importante pista para exatamente aquilo
que esses Maçons Secretos estavam fazendo. Em geral, aceita-se que na antiga Maçonaria os únicos
encontros formais foram aqueles organizados para realizar uma iniciação. Mesmo assim, não havia via
um recinto formal dc "Loja", mas antes alguns homens

' N. T,: cm inglês, lodge 6 "alojamento"


reunidos em segredo com sentinelas, ou Guardas, a postos para sua proteção. O encontro seria tão breve
quanto possível, em consideração do assunto tratado. Não seria um "alojamento" no sentido original.
Os historiadores maçônicos nos contaram que os pedreiros de guilda itinerantes, que viajavam de
trabalho em trabalho, paravam e se encontravam em "lojas" para inspecionar seu trabalho e discutir os
negócios de sua guilda, mas agora sabemos que o conceito de guilda era, em grande parte pura fantasia.
Assim, o que era uma "Loja" para um antigo Maçom Secreto? Exatamente aquilo que a palavra significa
e sempre significou: um lugar para que Irmãos Maçons em movimento ou em fuga comessem e dormis-
sem. Eram homens que tinham segredos que poderiam fazê-los perder a vida e a propriedade. Haviam
feito juramentos sangrentos de não trair uns aos outros, e tinham prometido ajudar-se entre si. Uma
Antiga Obrigação da Maçonaria diz: Se um Irmão vem a você, dê a ele "trabalho" por duas semanas,
então lhe dê algum dinheiro e mande-o à próxima Loja. Porque a suposição de que ele precisaria de
dinheiro? Porque está correndo e se escondendo. O que recebeu não foi um "trabalho" alegórico, mas
alojamento. Depois de ter uma chance de descansar, de trocar informações, e depois de haver determinado
que aquele não era um abrigo seguro onde poderia se estabelecer, ele recebia algum dinheiro e era posto
no caminho até o próximo "alojamento" maçônico de cuja direção ele era informado. Diriam-lhe qual a
taverna, a fazenda, a ferraria ou mesmo a igreja em que ele poderia se apresentar na próxima parada,
fazendo-se conhecer por sinais secretos, talvez mesmo pelo catecismo "Você é um viajante?", "Sim, eu
sou", "Para onde você está viajando?", "Do oeste para o leste".
Outra Antiga Obrigação adequada a essa situação prevenia que, quando um Irmão "visitante"
estivesse "na cidade", ele deveria ser acompanhado por dois Irmãos locais que "testemunhassem" por ele.
Essas testemunhas e o dinheiro para seu bolso eram extremamente importantes para o viajante. Na
Inglaterra medieval, o nômade não poderia apenas ser preso, mas também chicoteado antes de ser
mandado embora. Sob os Tudors, houve uma época em que a penalidade para a terceira reincidência de
vagabundagem era a morte.
Com os Juramentos e as Antigas Obrigações, vemos que emerge uma sociedade de ajuda e proteção
mútua que auxiliava homens que se arriscavam à morte caso fossem apanhados. A palavra Loja dá forte
sustento a essa afirmação, porque nada é mais importante para o homem em fuga do que alojamento
seguro, especialmente quando sustentado por fundos e informações para a próxima etapa da viagem e
assistência para encontrar um lugar onde suspender a fuga. Uma vez que os próprios Irmãos estavam
espalhados, seria natural pensar na sociedade geograficamente em termos do "alojamento" em Maidstone
ou do "alojamento" em York. Aqueles que davam esse alojamento, e as doações em dinheiro, pensariam
cm si próprios como especializados nesse quesito. O alojamento seria normalmente o único lugar em que
Maçons marginais em viagem encontrariam seus Irmãos locais, não em uma sala de reuniões, mas em um
celeiro, num sótão, numa cabana na floresta ou onde quer que um alojamento j seguro e secreto fosse
conseguido.
A transição do antigo para o novo significado é facilmente compreensível. 0 lugar escolhido para dar
alojamento ao Irmão em fuga seria o local mais seguro e secreto que os membros poderiam arranjar;
talvez um sótão de celeiro ou um porão cuja entrada é um alçapão. A principal função desse espaço
secreto seria um "alojamento" para o Irmão em movimento ou buscando esconderijo. Teria também
uma função secundária, porque, quando os Maçons locais tivessem de se encontrar, o lugar mais secreto
e seguro que eles conheciam para sua reunião seria a "Loja" local. Conforme o tempo passou e não havia
mais Irmãos para serem escondidos e alimentados na "Loja", sua proposta original desapareceu e
apenas sua função como sala de reuniões secreta permaneceu. Como a memória do uso original se des-
vaneceu, um significado inteiramente novo para o termo entrou em uso; foi definido como o lugar de
encontro da célula, ou os membros coletivos daquela célula.
Para melhor compreender as verdadeiras reuniões da antiga Maçonaria Secreta, talvez ajude
considerar os encontros secretos dos Maçons prisioneiros nos campos de concentração durante a
Segunda Guerra Mundial. Não apenas a Maçonaria fora proscríta pelos governos fascistas, como
nenhum comandante de campo de concentração toleraria uma sociedade secreta funcionando em sua
prisão, qualquer que fosse seu propósito. Punições para todos os participantes viriam rapidamente. Não
havia altares ou velas, nem pilares, nem prancheta; na verdade, nem recinto da Loja. Nada disso era
necessário. O círculo no chão podia ser marcado no pó ou desenhado com giz ou água. Não havia
nenhuma das tediosas repetições encontradas nas modernas reuniões de Loja e a rápida sucessão de
assuntos era conduzida aos sussurros. O Guarda, em seu tradicional papel de vigia, não era um funcioná-
rio ornamental, mas um oficial vital, que rapidamente prevenia da aproximação de qualquer profano ou
curioso, especialmente se usasse uniforme alemão ou japonês. Esta, por um breve período, foi uma
verdadeira sociedade secreta, cuja própria existência precisava ser mantida em segredo. Esses encontros
provavelmente chegaram mais próximos da realidade das antigas reuniões de Loja do que quaisquer
outras funções maçônicas nos últimos dois séculos, especialmente porque eles se encontravam apenas
para fins muito específicos, tão rápido quanto possível, e eram motivados por proteção e assistência
mútuas.
Havia ainda uma palavra misteriosa na Maçonaria, a própria palavra Maçam, que decidimos
considerar apenas após cuidadoso estudo sobre a característica central do ritual maçônico, a lenda dc
Hiram Abiff.
Nesse meio tempo, seria necessário tratar dos símbolos e dos trajes da Maçonaria, além de aspectos
dos rituais dc iniciação, para ver como
eles se encaixavam na hipótese de uma ligação templária com a Maçonaria. Da forma como as coisas se
passaram, eles não apenas se encaixaram na hipótese, como praticamente a provaram.
MISTÉRIO NA ALEGORIA E NOS SÍMBOLOS

imos o candidato à iniciação maçônica sendo preparado para a cerimônia: foi parcialmente

V despido, privado de todos os objetos de metal e amarrado com uma corda, a amarra. A venda
é comum a quase todas as sociedades secretas, uma vez que nenhum iniciado pode ter
permissão de ver o rosto dos membros até ter feito o juramento e sido admitido (em algumas
sociedades o iniciado não é vendado, mas todos os membros do recinto ficam mascarados ou
encapuzados). Os outros aspectos da preparação, porém, têm significado maçônico específico.
Hoje, o candidato privado de metal entrega seu troco miúdo, suas chaves, talvez um clipe de
papel, um isqueiro, chaveiros ou uma esferográfica dc ouro. No século XIV, e depois, o metal que
um candidato provavelmente teria estaria limitado a dinheiro, armas brancas e talvez uma peça de
armadura ou cota de malhas (o trabalhador de guilda estaria lim itado a algumas moedas). A falta
de trajes, dinheiro, armas, com um cabresto enrolado em torno dele, falam todos de uma condição
comum, que poderia ser resumida e descrita nestas palavras: "Você veio a nós amarrado, semi - nu
e indefeso. Não tem dinheiro consigo com que se alimentar e se alojar, nem armadura para prevenir
os golpes dc seus inimigos, nem armas com que se defender.
"Conforte-se com o fato de que todos os seus Irmãos juraram ajudá- lo. Se você está nu, vamos
vesti-lo. Se você está com fome, vamos alimen- tó-lo. Vamos abrigá-lo e protegê-lo dc seus inimigos.
Vamos guardar seus segredos. Seu pedido de ajuda nunca ficará sem resposta.
Você também ajudou. Se um Irmão em necessidade vem a você, você o protegerá e abrigará.
Defenderá seu bom nome. Você guardará seus segredos, assim como você jurou guardar todos os
segredos de nossa irmandade que foram e serão revelados a você."
Tudo isso faz sentido em uma sociedade secreta, mas não tem nenhum lugar razoável em associações
de construção. Fala de homens quê têm inimigos e que poderiam necessitar de ajuda, o que é provado pelo
fato de que o iniciado aprende os modos secretos de solicitar essa ajuda. Mesmo no escuro, ou fora da
visão daqueles que podem vir em seu socorro ele tem um apelo oral de aflição: "Ó Senhor meu Deus, não
há ajuda para o filho da viúva?" Para quando estiver no campo de visão dos outros, aprende o Sinal
Maçônico de Aflição, a ser usado para pedir ajuda. Esse sinal com ambas as mãos erguidas no ar, revela
sua idade, porque as mãos são mantidas exatamente como seriam em resposta à ordem de um homem
armado: "Mãos ao alto!" Se esse homem armado desse essa ordem a dez pessoas em um banco, ou a seis
pessoas que saíssem de uma diligência todos pareceriam fazer o Sinal Maçônico de Aflição de um Mestre
Maçom. Tal sinal poderia apenas ter sido criado e utilizado antes do tempo dos bandoleiros de estrada
com armas de mão, o que atesta sua antigüidade.
Nada disso, é claro, aponta diretamente para algum grupo conectado com os Cavaleiros Templários,
mas apenas para uma sociedade secreta de fugitivos ou pessoas em risco de se tornar fugitivas, ou
daqueles com simpatia tão fortes pelos transgressores que estão prontos a arriscar a vida e a propriedade
para ajudá-los. A motivação para se juntar e participar dos riscos teria requerido sentimentos muito
fortes e entrega total, e nos anos que se seguiram às ordens papais para sua prisão e tortura, os
Templários fugitivos eram certamente um grupo assim.
Quanto a certos símbolos da Maçonaria, porém, eles têm conexões templárias muito mais diretas.
Era importante considerar os trajes da Maçonaria e certos aspectos dos rituais, em vez do "mobiliário"
do recinto da Loja, porque encontros secretos "em altas montanhas e profundos vales", ou em celeiros e
porões, certamente não incluiriam o altar, candelabros, colunas ou cadeiras. Não teriam nem mesmo
incluído a Bíblia Sagrada (o que ainda provoca críticas § Maçonaria, por se referir I Bíblia Sagrada como
um item do "mobiliário" do recinto da Loja). No período que estamos examinando, os indivíduos não
possuíam Bíblia, ao menos não legalmente.
Os elementos que eles poderiam ter eram o círculo, o pavimento mosaico, o compasso e o esquadro.
O círculo que fica no centro da Loja Maçônica tem quatro partes:
primeiro, o próprio círculo, depois, o ponto no centro do círculo, e mais duas
linhas para elas, uma em cada lado do círculo. Na tradição maçônica o
circulo é o Universo sem limites, o ponto no centro é o Maçom e as linhas
dos dois lados do circulo são os bastões de São João Batista e São João Evangelista.
Vejamos agora como um Maçom medieval prepara o local de encontro- Varre as folhas e gravetos
caídos para deixar a área limpa. Corta dois galhos, digamos, de 4 pés de comprimento. Ele os segura ou
amarra em uma extremidade, abrindo-os na outra ponta para fazer um compasso rústico. Segurando a
extremidade de um galho firmemente no chão, ele roda o outro para esboçar um círculo na poeira. A
ponta que foi mantida no lugar deixará necessariamente um ponto no centro do círculo. Colocando os
dois bastões de cada lado do círculo, ele criou o símbolo inteiro. Mentes ativas e a passagem do tempo
atribuíram ao ponto um significado simbólico próprio e importante, assim como aos bastões. Em certo
ponto do ritual, os Maçons da assistência caminharam em torno do círculo, no ato de reverência agora
conhecido como "perambulação da Loja".
Poderiam os Cavaleiros Templários dar alguma solução para o mistério do círculo e da
perambulação? Facilmente. As cerimônias de iniciação dos Cavaleiros do Templo ocorriam em suas
próprias igrejas, que eram normalmente circulares para imitar a igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém.
Embora seja verdade que nem todas as igrejas templárias fossem circulares, certamente a maioria
daquelas na Grã-Bretanha era. Significativamente, a mais importante igreja templária na Grã-Bretanha,
aquela consagrada em 1185 por Heráclio, patriarca de Jerusalém, que ainda está na área do Templo de
Londres, foi construída em um círculo perfeito.
Quanto à perambulação, uma característica da igreja medieval era a procissão do padre e
paroquianos em torno da igreja. Alguns anos atrás, assisti a um serviço de Natal da catedral de Lincoln no
qual o padre anglicano lembrava a congregação desse antigo costume, que pedia que fosse repetido como
parte desse serviço festivo. Assim, os padres, os acólitos, o coro e toda a congregação se ergueram e se
uniram em uma grande procissão pela catedral, entoando cânticos pelo caminho. Quando os Templários
percorriam suas igrejas circulares tinham apenas um modo de se mover: em círculo, exatamente como os
Maçons de hoje fazem sua "perambulação" da Loja.
É também interessante notar que, uma vez que é necessário um compasso para desenhar um círculo, o
compasso era provavelmente uma característica da sociedade antes que seus membros começassem a se
chamar "maçons", e isso pode mesmo ter dado alguma pequena contribuição à evolução dessa falsa
história em particular.
Quanto ao pavimento mosaico maçônico, podia ser indicado no chão esboçando-se um padrão xadrez
ou utilizando qualquer material preto e branco. Estranhamente, não há regra quanto ao tamanho dos
quadrados ou o seu número. Muito provavelmente, o simbolismo começou como um quadrado branco e
um preto, porque carregar um mosaico, ou os materiais para fazer um, teria sido difícil de explicar se
descoberto, fazendo disso um risco desnecessário. A base templária para esse simbolismo é simples e
direta. A bandeira de batalha dos Cavaleiros Templários, o Beati Séant, era um desenho vertical consistindo
de um bloco preto em cima e um bloco branco abaixo. O bloco preto significava o mundo negro do pecado
que o Templário deixara para trás e o bloco branco simbolizava a vida pura que
ele adotara como soldado de Cristo. Os historiadores maçônicos nem mesmo tentam especular quanto à
origem de seu pavimento mosaico, dizendo usualmente nada mais do que "veio do Oriente". Eles estão
certos. Veio mesmo, da bandeira de batalha dos Templários que, se repetida muitas vezes, forma um
mosaico preto e branco.
Outro mistério que encontrou a solução na Ordem do Templo foi a vestimenta da Maçonaria. O item
principal, é claro, é o avental maçônico, o primeiro item recebido pelo Aprendiz em sua iniciação e o
primeiro símbolo maçônico explicado a ele. Hoje o avental é bem cortado, costurado, bordado e decorado
com emblemas e símbolos, mas na antiga Maçonaria ele não era de forma alguma um avental
manufaturado. Era uma pele branca de cordeiro, sem cortes, amarrada em tomo da cintura. A Maçonaria
declara que essa pele de cordeiro é um emblema da inocência e da pureza, derivada dos aventais de
trabalho usados pelos membros das associações de pedreiros da Idade Média. Além do fato de que é difícil
ver pureza e inocência como qualificações vitais para o pedreiro da Idade Média, não parece haver
nenhum indício de que esses artesãos tenham em algum momento vestido aventais de pele de cordeiro, e
para o pesquisador não faltam desenhos e pinturas contemporâneas de homens trabalhando na
construção de castelos de pedra e catedrais.
Podemos, porém, ver uma ligação muito direta com os Cavaleiros Templários. Deve-se lembrar que sua
Regra proibia qualquer decoração pessoal, exceto a pele de cordeiro, e exigia além disso que o Templário
usasse um cordão de pele de cordeiro em tomo da cintura o tempo todo, como lembrete de seu voto de
castidade, um contexto no qual a pureza e a inocência são vitais. A pele de cordeiro teria sido um item
muito efetivo e seguro de cerimonial secreto e lembrança, porque na economia da Inglaterra, baseada na
lã, na Idade Média, a posse de uma pele de cordeiro não teria sido vista com suspeita. Um item de libre
fraternal como esse teria sido inócuo, mas teria tido um significado muito direto se cada homem
amarrasse essa lembrança da Regra templária em torno da cintura para participar dos cerimoniais da
Maçonaria Secreta.
A situação é diferente com o outro item da vestimenta maçônica, as luvas. Elas não eram um artigo
comum de vestimenta na Idade Média e a posse delas poderia ter despertado suspeitas ou, ao menos,
chamado a atenção para os usuários, coisa pela qual todas as sociedades secretas têm uma forte aversão.
As luvas não eram fáceis de ser feitas e eram muito caras, portanto, eram -utilizadas apenas pela classe
cavalheiresca e o alto clero. Mesmo hoje as luvas são concedidas como parte da cerimônia religiosa que
faz de um padre um bispo e o alto clero possui anéis dc tamanhos maiores para ser usados com luvas;
elas continuam a ser símbolo de poder. Quanto aos pedreiros medievais, não podemos encontrar
documentação ou ilustração de que usassem luvas.
Há, porém, uma forte ligação templária. Sua Regra exigia que sacerdotes Templários usassem luvas o
tempo todo para manter as mãos limpas "para quando tocassem Deus", ao servir a sagrada comunhão.
Os sacerdotes que participavam da sociedade secreta podem ter usado suas luvas nas cerimônias para
lembrar de seu próprio papel na Regra templária, ou em certa época as luvas podem ter sido usadas por
um capelão de Loja, mas é muito duvidoso que na Maçonaria Secreta cada Irmão vestisse um par de luvas
para um encontro de sua Loja — ao menos não até os últimos anos, quando as luvas se tornaram um item
padrão da vestimenta comum.
O manto branco usado nas iniciações maçônicas talvez seja um traje demasiado comum para que se
possa remontar suas origens, exceto a menção de que a Regra templária especificava um manto
completamente branco como o principal item de vestimenta do Cavaleiro.
Quanto às frases misteriosas da Maçonaria Secreta, já tratamos daquela mais intrigante até para os
próprios Maçons, a afirmação de que o Mestre Maçom é "Irmão de piratas e corsários". Não
conseguimos definir uma origem possível dessa asserção além da irmandade com aqueles Templários que
levaram os navios de guerra da Ordem para o mar como piratas e corsários.
Outra frase intrigante identifica o Maçom como um viajante que vai do oeste para o leste. Todos os
Templários começavam no oeste e, para cumprir sua missão e seus votos, tinham que viajar para leste, a
Terra Santa. Os Maçons, como pedreiros simbólicos cuja tarefa é terminar ou reconstruir o Templo
alegórico de Salomão, devem também viajar simbolicamente para o leste até aquele Templo. A
importância dessa viagem alegórica é enfatizada por sua inclusão em um catecismo secreto de
identificação.
Há outra conexão dramaticamente gráfica entre os Cavaleiros do Tem- pio e a Maçonaria que é difícil
de ser negada como indício específico dessa ligação. Os juramentos maçônicos são feitos sobre o compasso
e o esquadro, que repousam sobre uma Bíblia Sagrada. Essas Bíblias não estavam disponíveis para
indivíduos na Idade Média, o que nos leva a concluir que os juramentos eram anteriormente feitos sobre
algum símbolo, aparentemente o compasso e o esquadro. Se esses primeiros Maçons eram na verdade
Templários fugitivos ou seus descendentes, esse símbolo poderia muito bem ser um Selo de Salomão, que
se parece muito com o Selo ou "Estrela" de Davi, exceto porque um dos triângulos eqüiláteros é apenas
contornado e o outro é sólido. Mas a Maçonaria foi definida por seus próprios escritores como "uma
ciência de moralidade, velada na alegoria e ilustrada por símbo- los". Como tal, e como sociedade secreta
ansiosa para permanecer secreta, provavelmente não utilizaria um símbolo conhecido em seu sentido
literal. O símbolo literal precisaria ser "velado na alegoria", para que parecesse uma coisa ao mundo
exterior, mas representasse outra bem diferente para o iniciado. Não é difícil desenhar um véu cla
alegoria sobre o selo literal de Salomão, que tem a seguinte aparência:
Para mudar completamente a aparência e o significado desse selo, não é
preciso mais do que retirar as barras horizontais e ele ficará assim:

Repentinamente, vemos o compasso e o esquadro, e apenas modifi cações insignificantes sào


necessárias para dar ao novo símbolo a aparência superficial dessas ferramentas. E assim o selo de
Salomão, facilmente identificável, um símbolo bem conhecido e com significado especial para os
Cavaleiros do Templo, torna-se uma representação inócua de suas simples ferramentas de pedreiro.
Ao longo dos séculos, o significado secreto esteve totalmente perdido e o significado simbólico
sobreviveu para encorajar a preparação gradativa de origens fantasiosas para a Ordem Maçônica
em guildas de pedreiros não-existentes.
Se alguém gritar "coincidência!", é preciso reconhecer aí a probabilidade de uma coincidência
dentro de outra coincidência. Note a posição das "pernas" do compasso derivado do selo de
Salomão, com uma perna acima do "esquadro" e outra debaixo dele, exatamente a justaposição do
compasso e do esquadro da forma como são apresentados no juramento do grau de Companheiro,
antigamente o grau da associação plena da irmandade maçônica.
Alguns podem perguntar sobre o compasso e o esquadro modernos com a letra G no centro.
Como isso se liga aos Templários? A resposta é simples: não se liga. D evemos nos lembrar de que,
antes da Maçonaria se tornar pública era 1717, não havia representações gráficas do compasso e do
esquadro, nem jóias, nem impressos, nem cartazes, nem adesivos de pára - choque, E nenhuma letra
G.
O caso. porém, deve ser tratado em qualquer pesquisa séria da origem da Maçonaria por causa da
atitude quase reverente da Maçonaria moderna por essa letra G, que os membros aprendem que simboliza
a geometria. O Maçom aprende primeiro sobre a importância da ciência da geometria para a Maçonaria
na palestra que se segue à cerimônia de iniciação do grau de Companheiro. Aprende que a geometria é a
ciência mais importante para a arquitetura e a única ciência pela qual se pode medir e apreciar o universo.
Aprende que. às vezes, a palavra geometria é até mesmo usada como sinônimo de Maçonaria. como na
primeira Constituição maçônica de 1723. Sua importância para a Maçonaria moderna é inquestionável,
mas como isso se encaixa na antiga Maçonaria Secreta?
A primeira pista veio da maneira de sua apresentação ao novo Maçom Companheiro. A geometria não
representa nenhum papel. No ritual de iniciação é apresentada apenas como parte, embora muito
importante, da palestra que se segue. Isso praticamente dá a certeza de que ela foi sobreposta em algum
ponto, mas por quê?
A resposta reside naquilo que emergiu como a verdadeira proposta da Maçonaria Secreta, a proteção
mútua de homens com problemas com a Igreja e o Estado, particularmente quando a religião do Estado
era o catolicismo romano. Como veremos mais adiante na investigação da religião da Maçonaria. o
desacordo com os ensinamentos da Igreja e o temor da punição da Igreja foram os fatores que mantiveram a
Maçonaria livre, e deses- peradamente secreta, por muitos séculos. Chegou então ura tempo próximo do início
do século XVII em que a ciência e a matemática começaram a se apossar das mentes humanas, remexer sua
imaginação e invocar novas teorias e novos experimentos. A Igreja foi apanhada de surpresa. Divulgavam-se
idéias que os altos oficiais da Igreja não tinham nem tempo, nem conhecimento, nem inclinação para absorver e
avaliar. As descobertas científicas pareciam conflitantes com as interpretações literais das Escrituras, sendo
assim inaceitáveis. A Igreja sentiu-se obrigada a defender sua própria apresentação da palavra de Deus e a
disciplinar esse novo tipo de dissidente. ' Tj
Podemos olhar para trás com desdém, agora, e nos perguntar como tal coisa poderia ter acontecido. Porem, se não
olharmos para trás. mas apenas em volta, encontraremos situações similares ainda hoje. mas agora nao são os católicos
romanos. Fundamentalistas protestantes operam faculdades que conseguem graus avançados, incluindo um grau de
doutor em ciência da criação, para o estudo de uma interpretação literal do livro bíblico do Gênesis que prova que o
mundo não tem muito mais do que 4 mil anos. Assim, a ciência da criação rejeita os modernos ensinamentos da geologia,
antropologia, paleontologia, arqueologia e lingüística, e zomba da prática da datação por carbono.
Em 1987. em uma cidade próxima à minha casa no Kentucky; o jornal local relatou que membros do quadro da escola distrital haviam procurado
uma professora da escola fundamenta! em sua casa. Disseram-lhe que se ela ousasse novamente repetir o
pecado que cometera aquela semana, poderia ser despedida. Seu pecado? Ela mostrara às crianças um
filme da National C Jeographic sobre dinossauros que falava de uma terra com milhões de anos de idade,
em violação direta da palavra revelada de Deus.
Agora a luta é social, e quando irrompe na comunidade, como na
abolição de livros na Louisiana, torna-se assunto para as cortes legais. No século X V I I , a Igreja era a corte
em matéria de religião e moralidade. Os cientistas que surgiam viam-se em grave perigo de punição
eclesiástica. O mais famoso de todos os casos, é claro, foi o de Galileu Galilei, o astrônomo italiano
construtor do telescópio, que anunciou ter descoberto que o Sol não se move em torno cla Terra, mas, pelo
contrário, a Terra sc move cm torno do Sol. Para a Igreja, isso era tuna blasfêmia ostensiva, pois não
dizem as Escrituras que certa vez o Sol parou em sua órbita em torno cla Terra? Para evitar punições mais
duras e para ser solto da prisão papal, Galileu se retratou e declarou que estava errado, então foi apenas
banido de sua própria aldeia para toda a vida, forçado a viver o resto de seus dias com medo de falar a
verdade.
Outros homens de ciência viram o perigo, mas não quiseram abandonar sua curiosidade científica,
de forma que houve uma nova fonte de recrutas para os Maçons na Grã-Bretanha, homens que tinham
motivo para se encontrar e compartilhar suas idéias e descobertas em segredo, longe dos olhos e ouvidos
da Igreja. Homens dc ciência em Londres, Oxford o Cambridge se encontravam em segredo naquilo que
foi chamado "faculdade invisível", que aparentemente existia nas Lojas Maçônicas secretas nessas
localidades. Seu primeiro encontro secreto conhecido ocorreu em 1645, apenas três anos após a morte dc
Galileu. O homem destinado a se tornar seu mais famoso membro, Sir Christopher Wren, tinha apenas 13
anos naquela época. Por volta de 1660, o grupo sentiu-se seguro o bastante no reino aparentemente
protestante de Carlos II para solicitar à Coroa uma patente real, que foi concedida em 1662. C) nome que
eles escolheram foi Sociedade Real de Londres para o Desenvolvimento do Conhecimento Natural, tuas
ficaram conhecidos simplesmente como Sociedade Real e ainda são chamados assim hoje em dia.
Quando a Maçonaria veio a público em 1717, apenas 55 anos depois, a Sociedade Real era
praticamente uma subsidiária maçônica, sendo Maçons quase todos os membros e todos os membros
fundadores.
Antes da revelação pública da Maçonaria, porém, ocorrera algo que distraíra os homens dc ciência da
teoria e OS empurrara na direção da ne cessidade imediata. Em setembro de 166o, um incêndio devastador varreu
Londres, destruindo a maior parle da cidade. A necessidade de reconstruir a partir das cinzas era tão
urgente que. no ano seguinte, o Parlamento publicou leis destinadas a encorajar todas as classes dc
construtores a vir a Londres.
Ali eles ganhariam a cidadania e sc tornariam homens livres de Londres, não sendo exigida nenhuma
associação a uma guilda.
Sir Christopher Wren, um Maçom que fora fundador da Sociedade Real aos 28 anos, não era
arquiteto dc profissão. Era geômetra de alguma fama e fora professor de astronomia na Universidade de
Oxford. Nessa época dc grande necessidade nacional, ele teve uma imensa demanda c apreciação de seus
serviços na reconstrução dc Londres. Oitenta e sete igrejas haviam sido destruídas 110 grande incêndio e
Wren foi o arquiteto supervisor na reconstrução de 51 delas. .
Foi o conhecimento de geometria que trouxe a Wren seu maior triunfo, a reconstrução da catedral de
São Paulo. Quando o observador vê o grande domo de São Paulo contra o céu dc Londres, normalmente
não está ciente de que o domo visível é simplesmente uma concha de madeira coberta de chumbo. A
concha é sustentada por um cone oculto de tijolo que dá todo o sustento. O domo visto de baixo é
simplesmente uma cavidade decorativa e não-sustentadora, construída dentro do fundo do cone de tijolo.
O sustento do grande domo foi um triunfo da geometria sólida. São Paulo foi completada em 1711, apenas
seis anos antes que a Maçonaria
Pelo período de cinqüenta anos, logo antes dc a Maçonaria sc revelar, esses homens de ciência,
engenheiros, matemáticos, arquitetos e geômetras foram heróis, exercendo grande influência na Ordem
Maçônica á qual a maioria deles pertencia. Os Maçons escoceses não foram deixados de fora,
porque, pouco após o Grande Incêndio dc Londres, um incêndio similar arrasou Eclimburgo,
propiciando a aprovação de uma lei que decretava que, daquela data em diante, todas as construções
realizadas na cidade deveriam ser
Um quadro ajuda a resumir a história. Há uma grande pintura na principal realização arquitetônica
de Wren, o Hospital Naval de Greenwich, projeto concebido pela rainha Maria e construído após sua
morte pelo rei protestante William. E uma pintura alegórica de William e Maria em seus tronos, rodeados
por muitas figuras. Abaixo deles, querubins seguram um desenho de Silo Paulo, um tributo ao arquiteto
do hospital. Outro querubim segura o compasso em uma mão e uni esquadro na outra. A curta distancia,
a tiara papal jaz no chão. '
A Constituição da Grande Loja foi escrita em Londres, onde esses
homens de ciência e literatura eram membros dos mais proeminentes e influentes. Eles impuseram sua
marca na Maçonaria para sempre, instilando- ü com a importância de seu próprio trabalho. Eles ligaram
a geometria Maçonaria e adicionaram um G ao compasso e esquadro. Seu próprio uso da Maçonaria e
sua reverência pela geometria e arquitetura tornaram-se uma característica central da Maçonaria
Pública, embora a propensão para dramatizar e fantasiar fizeram com que eles fixassem a entrada da
Geometria na Maçonaria na construção do Templo de Salomão, esquecendo-se de
que, naquela época, nem a palavra geometria nem a letra G existiam. Sua ciência nada tinha a ver com as
origens da Maçonaria, mas teve um papel na lembrança dos dias em que a ciência necessitava daquilo que
a Maçonaria Secreta podia conceder a seus membros, aquela importantíssima proteção contra seu inimigo
comum.
O que realmente tem a ver com a origem da Maçonaria são os símbolos mais antigos do ofício: o
avental dc pele dc cordeiro c as luvas, o círculo no chão, o pavimento mosaico, a perambulação da Loja c o
compasso e esquadro escondidos no selo de Salomão, todos diretamente ligados aos Cavaleiros do Templo
de modos bastante claros e diretos. Agora é hora dc
examinar o mais perturbador aspecto da Maçonaria, as penalidades brutais dos juramentos de iniciação.

MISTÉRIO NOS JURAMENTOS SANGRENTOS

s mais controversos mistérios da Maçonaria, c os mais inspirado - res para os antimaçons, são

O as penalidades incluídas nos juramen- tos feitos a cada grau. O vocabulário das condenações
foi exaurido, conforme os juramentos maçônicos foram repetidamente tachados de san -
grentos, brutais, horríveis, repugnantes, ilegais, ateus, antieristãos, do entios c assim por
diante. Realmente, cortar a língua de alguém pela raiz. arrancar o coração do peito, cortar em
dois o corpo e reduzir as entranhas a cinzas parece ser exagerado e, inquestionavelmente, contra a
lei dc qualquer terra na qual a Maçonaria funcione, assim como contra os princípios dc qualquer
das religiões cujos membros são bem-vindos na irmandade. Em dado momento, o choque c a recusa
do público ante a revelação das penalidades maçônicas chegaram quase a destruir inteiramente a
Ordem nos Estados Unidos com base em alegações de assassinato.
A 13 de março de 1826, o capitão William Morgan dc Batavia, Nova York. assinou um contrato
para a impressão dc um livro que, segundo ele, revelaria os cumprimentos, sinais e rituais secretos
da Maçonaria. Na consternação que irrompeu entre os membros locais da Ordem, o estabelecimento
do impressor foi incendiado c, naquilo que ele chamou dc assédio, Morgan foi capturado e
encarcerado por não-pagamento dc dívida. Um benfeitor anônimo pagou a dívida por ele, mas. logo
que Morgan saiu da cadeia, foi apanhado por homens que esperavam cm frente c forçado a entrar
num coche que, imediatamente, saiu pela estrada norte. Foi levado ao abandonado Forte Niágara e
mantido ali como prisioneiro. Isso foi confirmado mais tarde, quando cinco Maçons confessaram o
scquestro e o confinamento. Conta a versão maçônica que ele foi solto, escapou c fugiu para o
Canadá, enquanto a história antimaçônica diz que seus captores levaram Morgan ao rio em um
bote, onde foi amarrado a pesadas pedras e
empurrado para dentro d'água. Nunca se encontrou nenhum corpo, mas o público e muitos Maçons
estavam convencidos dc que Morgan havia sido assassinado na tentativa de proteger os segredos
maçônicos.
Conforme as prisões eram feitas e se arranjava um julgamento, o público soube que o delegado local,
o juiz e alguns jurados eram Maçons. Os delegados das cidades pelas quais os captores haviam passado
eram maçons. Também o era o Secretário de Estado dos Estados Unidos e se descobriu que o governador
de Nova York, DeWitt Clinton, era o antigo Grão-Mestre. Parecia que a Maçonaria funcionava como um
governo clandestino.
Convenções maçônicas foram realizadas de improviso e nelas o assassinato de Morgan foi condenado
e milhares de Maçons praticantes renunciaram à Ordem. Organizou-se um partido antimaçônico como
um terceiro partido político nos Estados Unidos com levantamento formal de fundos, seus próprios
jornais e a primeira convenção nacional na qual se selecionou um candidato a presidente. O principal
orador do partido antimaçônico era o congressista John Quincy Adams, que fora o sexto presidente dos
Estados Unidos. Os Maçons diziam que o alegado assassinato de Morgan era apenas uma desculpa para
que Adams atacasse a Maçonaria, pois ele estava ressentido por não ter conseguido um segundo mandato
como presidente por causa cla popularidade e das maquinações políticas do Maçom Andrew Jackson.
Quaisquer que fossem suas razões, Adams nao perdeu nenhuma oportunidade de condenar a
Maçonaria, afirmando que o assassinato dc Morgan estava de acordo com os juramentos assassinos da
Ordem Maçônica. Fez apelo a todos os Maçons para que abandonassem a Ordem e para que o ajudassem
a aboli-la de uma vez por todas, pois era totalmente incompatível com uma democracia crista. Escreveu
tantas cartas contra a Maçonaria que elas poderiam encher um livro (e realmente foram utilizadas para
tal fim). Em uma carta a Edward Ingersoll de 22 de setembro de 1831, o ex- presidente resumiu sua
atitude em relação aos juramentos maçônicos c seu impacto na irmandade:
"Punições cruéis c desumanas são igualmente repugnantes ao espírito indulgente do
Cristianismo c ao espírito da liberdade igualitária. A aplicação delas é expressamente proibida
na Carta de Direitos desta comunidade, e mesmo assim milhares de seus cidadãos atestaram cm
nome de Deus sujeitar-se a torturas tais que selvagens canibais instintivamente relutariam em
aplicar.
Portanto, é de minha opinião, desde a revelação dos crimes do assassinato de Morgan, c dos
juramentos e penalidades maçônicas segundo os quais eles foram instigados, ser dever
indispensável da Ordem Maçônica dos Estados Unidos dissolver-se ou descartar para sempre dc
sua Constituição e leis todos os juramentos, todas as penalidades,
todos os segredos e seus ridículos apêndices, todos os mistérios e
Como principal orador do partido antimaçônico, Adams também não era a favor de aceitar a idéia
sugerida por alguns de que o caso Morgan foi resultado das ações de um punhado de Maçons, que agiram
de forma independente, sem planejamento nem aprovação central. Essa atitude poderia livrar a
Maçonaria como um todo, para prejuízo do partido. Em uma carta para Richard Rush de York,
Pensilvânia, Adams deu alguns conselhos po- líticos:
'Tendo em vista o principal objetivo da antimaçonaria, a abolição da Maçonaria nestes Estados Unidos,
parece-me que seria um ponto importante ganho, se produzimos na mente do público uma plena
convicção de que esses crimes foram cometidos e que a Maçonaria foi
Por um certo tempo, parecia que Adams realizaria seu desejo, uma vez que os Maçons que
renunciaram à Ordem no furor das alegações de assassinato de Morgan não foram substituídos por novos
recrutas. O livro de Morgan foi publicado pelo impressor incendiado, que restaurou seu estabelecimento e
imprimiu o livro no ano seguinte, 1827, sob este extraordinário título registrado: lllustrations of the Masonry by one
oflhe Fraternity who has devoted Thirty Years to the Subject. "God Said, Let there be Light, and there was Light." (Ilustrações da
u
Maçonaria por alguém da Fraternidade que Devotou Trinta Anos ao Assunto. Deus disse, que se faça a L
uz, e a Luz se fez."). Sua revelação dos juramentos sangrentos acelerou os acontecimentos dos próximos
anos, incluindo o crescimento do partido antimaçônico. Entre seus clientes não-intencionais estavam
Mestres das Lojas Maçônicas, que compraram o livro para ajudar a encenar as cerimônias, uma vez que a
Maçonaria ainda mantinha a regra da estrita comunicação verbal, e o livro de Morgan foi o primeiro
"guia" que ajudou a administrar os complexos rituais de iniciação. É publicado ainda hoje com um título
muito mais curto — e muito mais sensacionalista—Freemasonry Exposed (Maçonaria Exposta).
O partido antimaçônico desapareceu aos poucos, no tempo de uma geração, e a Maçonaria americana
logo começou a se reerguer, mas as críticas aos juramentos maçônicos ainda estavam vivas e operantes.
Em 1869, um livro antimaçônico foi publicado pelo reverendo C. G. Finncy, presidente da Faculdade
Oberlin, em Ohio. Se as preocupações de Adams sobre as penalidades maçônicas eram, principalmente,
políticas, as preocupações de Finney eram religiosas. Em seu prefácio, ao expor as razões para escrever o
livro, Finney afirmou: "Desejo, se possível, estimular os jovens que são Maçons a considerar as inevitáveis
conseqüências de tão horrível leviandade com os mais solenes juramentos, como é constantemente
praticado pelos maçons. Tal atitude entristece muito o Espírito Santo insensibiliza a consciência e
endurece o coração." Em um capítulo chamado Medonha Profanação nos Juramentos Maçônicos, após uma discussão
sobre as penalidades, o reverendo Finney escreveu:
"Mas fico enojado em continuar com esses detalhes asquerosos e profanos; e temo chocar tanto
meus leitores que eles fiquem tão exaustos como estou. Ao ler esses juramentos, a impressão é que
uma Loja Maçônica é um lugar em que homens se reúnem para cometer a maior das blasfêmias
de que são capazes, para zombar e desfazer de tudo o que é sagrado e para produzir entre si o
maior dos desprezos por qualquer forma de obrigação moral. Esses juramentos soam como sc o
homem que os aceita e administra estivesse determinado a aniquilar seu senso moral e se tornar
incapaz de fazer quaisquer discriminações morais e, certamente, se não pode ver pecado em
aceitar e administrar tais juramentos sob tais penalidades, terá sucesso, seja intencionalmente ou
não, cm se tomar terrivelmente cego no que diz respeito ao caráter moral de sua conduta. Ao
repetir essa blasfêmia, eles arrancaram os próprios olhos."
Então o bom reverendo, na melhor tradição do fanatismo, ultrapassa em muito os limites da verdade:
"Ou esses juramentos significam algo ou não. Maçons, quando os fazem, pretendem obedecê-los
ou não. Se não pretendem, fazê-los é blasfêmia. Se pretendem conformar-se a eles, estão jurando
realizar coisas que não apenas são extremamente injuriosas para a sociedade, para o governo e
para a Igreja de Deus, como também juram, em caso da violação de qualquer ponto dessas
obrigações, empenhar-se em infligir as penalidades sobre o transgressor. Em outras palavras, em
tal caso, juram cometer assassinato; e todo homem que adere a tais obrigações está sob juramento
de se esforçar para cumprir a morte violenta, não apenas de todo homem que venha a trair os
segredos, mas também de qualquer um que venha a violar qualquer ponto ou parte dessas obrigações."
Uma apresentação muito emocional, mas totalmente falsa. Nenhum Maçom jura infligir as penalidades,
apenas as invoca sobre si próprio. Nunca houve nenhuma indicação quanto à pessoa ou poder que
aplicaria a penalidade e, uma vez que o juramento é feito sobre a Bíblia Sagrada, é altamente provável que
se esteja pedindo a Deus para assumir essa responsabilidade. Tais pedidos eram comuns na Idade Média e
não são desconhecidos hoje em dia. Quantas vezes na história alguém não disse: "Que Deus me fulmine se
não for verdade!"? Lembremos o papa Gregório VII, na celebração de sua vitória sobre o Sacro Império
Romano, quando quebrou um pedaço da hóstia consagrada e pediu para que Deus o sufocasse com aquele
pão se ele houvesse feito algo de errado. E lembremos o destino de Judas Iscariotes no Livro dos Atos. Ele
comprou um pedaço de terra com as trinta peças de prata que recebera para trair Jesus Cristo. Enquanto
observava aquele "Hacéldama" ("o campo de sangue"), Judas caiu de cabeça. Seu estômago inchou e se
rompeu, espalhando suas entranhas no chão. Ao se fixar a penalidade para o Mestre Maçom,
provavelmente se considerou que o próprio Deus havia acatado o desentranhamento como punição
apropriada para a
Para compreender completamente os juramentos maçônicos em contexto, devemos perguntar a nós
mesmos por que os homens e os governos tão freqüentemente exigiram que outros homens jurassem em
nome de Deus, com as mãos sobre a Bíblia Sagrada. Tais juramentos eram considerados garantia de
verdade ou garantia de que o contrato seria cumprido. Por que se sentir confortado quando uma
testemunha dá uma resposta afirmativa à questão: "Você jura que o testemunho que está prestes a dar é a
verdade, somente a verdade e nada mais que a verdade, que Deus o ajudeT A resposta, principalmente no
passado, era um temor puro e cru. 0 homem que rompesse um juramento feito diante de Deus e sobre a
Bíblia Sagrada se arriscava à danação eterna, à agonia perpétua que, segundo contam, é muito pior do que
qualquer punição simples como ter a língua cortada ou o coração arrancado. Um Maçom faz um
juramento sobre a Bíblia Sagrada, afirmando sua fé em Deus, sendo assim, teoricamente, sujeito a
qualquer penalidade por Deus escolhida para quem quebra um juramento feito em Seu nome. Além disso, ele
invoca sobre sua própria cabeça uma punição específica para a traição de seus Irmãos ou de seus segredos.
Se concordarmos que o fogo infernal da danação é mais doloroso e tem duração infinitamente maior do
que a penalidade que o candidato voluntariamente chama sobre si, podemos imaginar porque a
penalidade menor e voluntária atrai tanto a atenção. Só pode ser porque a ameaça de danação por quebra
de juramento perdeu seu poder — além, é claro, da errônea crença em que o candidato está também
jurando infligir tal punição com suas próprias mãos sobre algum Irmão Maçom transgressor, uma das
mais comuns e duradouras concepções errôneas sobre a Maçonaria.
O aspecto final das penalidades por quebrar os juramentos maçônicos é a freqüente acusação de que a
punição não se ajusta ao crime. Por que deveria haver mutilações tão sangrentas, incluindo a morte, por
revelar segredos disponíveis a qualquer um com um cartão de biblioteca e um mínimo de curiosidade? A
resposta nos faz remontar aos anos da Maçonaria Secreta, antes de 1717, quando os segredos da
Maçonaria não estavam disponíveis ao público, e quando a traição a um Irmão Maçom poderia significar
tortura e morte.
O ex-presidente Adams pode ter tido razão ao afirmar que "selvagens canibais relutariam
instintivamente em infligir" penalidades semelhantes àquelas dos graus básicos maçônicos, mas os cristãos
civilizados do século
XIV não tiveram nenhum problema com essas mesmas punições, e outras piores. Quanto ao
arrancamento da língua, podemos lembrar que durante a Peste Negra o rei da França decretou a perda da
língua para a terceira ofensa de blasfêmia, sendo que as duas primeiras custaram ao ofensor seus lábios
superior e inferior. Cortar a garganta era um método estabelecido para se livrar de prisioneiros e outras
pessoas e uma forma de punição capital civil no Ocidente. Mesmo hoje, no museu da capital muçulmana
Khanate de Kiva, há fotografias verdadeiras dessa punição sendo realizada pela lei na década de 1920.
Finalmente, a penalidade do Mestre Maçom, que na primeira impressão parece ser insuperavelmente
sangrenta, mostra-se muito menos cruel e sanguinolenta que seu equivalente legal no período apropriado.
A penalidade maçônica é cortar o corpo em dois, queimar as entranhas e espalhar as cinzas. Já vimos, na
vingança judicial após a Rebelião Camponesa, execuções legais relacionadas a isso, mas muito mais cruéis
que a versão maçônica. Cortar o corpo em dois traz a morte, e a fogueira subseqüente seria puramente
cerimonial. Segundo as instruções do presidente do tribunal Tresilian, os carrascos reais faziam aberturas
na barriga dos rebeldes, puxavam suas entranhas para fora dos corpos e as atiravam no braseiro de
carvão para queimar enquanto as vítimas ainda estavam vivas para assistir e sofrer. Então os rebeldes
tinham a cabeça cortada e eram esquartejados, sendo os corpos cortados em cinco pedaços, e não dois.
Será que essa comparação justifica a penalidade maçônica? Claro que não, pois tal brutalidade está
totalmente além de nossa experiência e compreensão; mas devemos nos perguntar que tipo de alívio, que
tipo de punição ameaçadora, faria com que um homem sentisse que poderia confiar completamente em
outro, quando este poderia traí-lo, expondo-o às punições engendradas pela mente medieval. A fogueira
era escolhida como punição especial para a heresia, não porque se prestava a um cerimonial, mas porque
uma queimadura era a experiência mais dolorosa que eles conheciam, e queimar até a morte era a
suprema agonia, que imitava o próprio inferno. Qual seria a punição apropriada para um homem que
condenasse outro àquele destino, ou a toda gama da tortura física, por sua traição? Quando o papa
Clemente V ordenou que, no interrogatório dos Templários, os Inquisidores não deveriam "poupar
nenhum meio conhecido de tortura",
por definição declarava que nenhuma punição conhecida poderia ser excessiva para sua ordem.
No contexto de providenciar uma medida de segurança para os Templários escondidos, as
penalidades violentas faziam o maior dos sentidos, e é naquele contexto temporal e sob aquelas
circunstâncias que os mistérios das penalidades maçônicas deixam de sê-los. Até agora, já vimos que a
antiga sociedade era uma irmandade de proteção mútua, que jurava ajudar outros homens cujos
sentimentos, cujas convicções, eram contrários à Igreja estabelecida. A essência dessa proteção era
impedir que eles fossem encontrados, tanto filosófica quanto geograficamente. Quando um homem se
associava à Ordem naquele tempo, estava pondo sua vida e propriedade nas mãos de qualquer outro que
visse seu rosto ou soubesse seu nome. Em tais circunstâncias, as penalidades não podiam ser leves, e
aqueles que pensavam ganhar uma recompensa ou resolver alguma pendenga pessoal tomando-se
informantes poderiam muito bem ser punidos, embora não com as penalidades de forma literal.
Pessoalmente, duvido que jamais se tenha empreendido alguma missão para transportar um cadáver sem
língua, com a garganta cortada, a 100 milhas da costa para enterrá- lo onde a maré enche e vaza duas
vezes em um período de 24 horas. Se um traidor realmente fosse executado, seria mais provavelmente
enterrado a 6 pés debaixo de um chiqueiro de aldeia. As verdadeiras penalidades eram provavelmente um
tanto simbólicas para os fins de fazer o juramento. mas não tinham nenhum valor a menos que o iniciado
estivesse convencido de que alguma penalidade semelhante seria infligida sobre ele se violasse aquele
juramento. .^
O mistério que permanece é por que a Maçonaria se prende à recita- ção dessas penalidades tanto
tempo depois de elas se tornarem desnecessárias e deixarem de fazer sentido, e muito tempo depois que
todos os maçons deixaram de acreditar que tais penalidades fossem uma possibilidade real. A única
resposta é a tradição. Em um mundo rapidamente mutável, há conforto e segurança em fazer parte de
coisas que não mudam. Se parte dessa tradição é estranha, ou secreta, ou apenas meio compreendida, o
drama é aumentado, assim como o sentimento importante de que a pessoa faz parte de um grupo. Nenhum
Maçom acredita que as penalidades de seu juramento serão desencadeadas sobre ele, e qualquer
candidato sairia correndo se algum dia lhe dissessem que deveria ajudar a infligir tais penalidades sobre
qualquer outra pessoa. .. ~
Infelizmente para a Maçonaria, as penalidades sangrentas continuarão a ser um ponto focai de ataque
até que se reconheça que uma tradição nada perde e até mesmo ganha ao ser identificada como tal, fato
que mesmo agora é assunto de conferências maçônicas ocasionais por todo o mundo anglófono. Nada se
perderia se. no ponto apropriado do ritual, o Mestre da Loja dissesse ao iniciado: "Você fez um juramento
diante de Deus e sobre o Livro Sagrado de sua fé, e agora lhe pedimos que repita outro juramento, que não
será prometido por você, mas será falado em voz alta em um Rito de Lembrança. Assim você nunca
esquecerá nossos antigos Irmãos que arriscaram a vida e sua propriedade, que se arriscaram a torturas
obscenas para trabalhar em segredo por liberdades de que você agora goza em público. Você repetirá o
juramento feito naqueles dias; um juramento que impõe uma pena pela traição que, por mais brutal que
pareça, não é tão brutal quanto as penalidades que podiam ser impostas ao Irmão traído. Que você se
lembre dos riscos que os Irmãos que o antecederam estavam dispostos a correr por aqueles que vieram
depois." ,
Esse tipo de preâmbulo não depreciaria de forma alguma a solenidade da ocasião, e removeria as
penalidades maçônicas do fluxo antimaçônico de incessante crítica.
Após a análise, as penalidades dos juramentos maçônicos nos revelam ter se originado em um
contexto medieval, quando a traição de um Irmão poderia revelar que ele era culpado de crimes que
poderiam sujeitá-lo à perda de sua vida e de sua propriedade. Essas punições legais eram específicas e
aplicadas por heresia e traição em um tempo em que a heresia era traição. As penalidades maçônicas eram
produtos de sua época. A proteção de heréticos pelo segredo se encaixa com a aceitação herética de
homens de todas as crenças religiosas, assim como se encaixa com os Cavaleiros do Templo fugitivos que
rejeitavam a Igreja que os rejeitara e subseqüentemente estenderam a mão da irmandade e da assistência
àqueles com convicções similares. em uma sociedade secreta que foi mantida viva por uma corrente cres-
cente de dissidentes de uma Igreja cada vez mais gananciosa por riqueza e poder.

MISTÉRIO NAS CONVICÇÕES RELIGIOSAS

s Maçons negam com veemência que a Maçonaria seja uma reli-


gião. e realmente não é, mas o principal requisito para a associa - ção é de natureza

O religiosa. O candidato deve afirmar sua crença em um Ser Supremo monoteístico e precisa
também acreditar na ressurreição e na imortalidade da alma. A forma como o Maçom
individual percebe e adora o Ser Supremo no qual ele acredita só diz respeito a ele. assim
como a maneira pela qual ele espera atingir a imortalidade, e nenhum Maçom tem a permissão de
tentar dissuadi-lo dessas crenças. Para reforçar essa regra, a discussão das crenças religiosas é
proibida na Loja Maçônica.
A ênfase em um Deus monoteístico é levada a sério. Há poucos anos, uma Loja britânica na
índia queria iniciar um hindu proeminente e houve objeções a isso baseadas na alegação de que o
hinduísmo é panteístico. com Vishnu. Shiva. Kali e diversas outras deidades. O assunto teve de ser
levado a Londres para que a Grande Loja o considerasse e. por fim. con cordaram que essas
divindades aparentemente separadas eram, na verdade. manifestações simbólicas de aspectos de
um Ser Supremo. 0 hindu foi
recebido na Ordem.
Os Maçons também glorificam o Templo de Salomão como o primei ro templo construído para
um Deus monoteístico (o que pode garantir um pedido de desculpas a Abraão). A Igreja Católica
Romana, compreensi- velmente, discorda do conceito monoteístico maçônico, uma vez que ela
reconhece apenas o Deus triuno da Santíssima Trindade. Na verdade, a percepção maçônica de
Deus pode ser a única percepção monoteística em toda a cristandade. porque os e nsinamentos
maçônicos não fazem menção a um diabo ou Satã. A maior parte dos cristãos aprende que há ao
menos duas divindades: Deus, que é a incorporação de tudo o que é bom e Satã, que incorpora tudo
o que é mau. Negar a existência de Satã é obviamente
herético, c identificá-lo como o Deus do mal provavelmente também é m qualquer que seja seu papel, a
Maçonaria não dá importância a ele. Èxc tuando-se quaisquer crenças pessoais que um Maçom
individual possa te" sobre o assunto, a Maçonaria sustenta que as fraquezas dc um homem sü resultado
dc seus próprios erros morais, não de um mal demoníaco que o força a viver no pecado.
Da mesma maneira, a tendência maçônica é encorajar o indivíduo avançar na direção da esperança
de ressurreição c imortalidade por mérito pessoal e atos de caridade, um conceito que também aborrece
certos credos cristãos estabelecidos que sustentam que a salvação não é atingida pela moralidade pessoal
e por bons trabalhos, mas apenas pela crença no Cristo. Uma vez que é uma Ordem aberta a homens dc
muitos credos porém, a resposta da Maçonaria seria que eles não discordam desse caminho para a
salvação, nem dc nenhum outro princípio religioso acreditado por qualquer Maçom: ele pode acreditar
nos ensinamentos de qualquer religião organizada, e pode mesmo ter convicções religiosas que são
exclusivas dele — como fizeram Thomas Jefferson e John Locke —, desde que acredite em um Ser
Supremo. Nessa base, a Maçonaria recebeu judeus
muçulmanos, sikhs c outros, e todos fazem os juramentos sobre seus livros sagrados.
Essa política dc aceitar como Irmãos homens de muitas fés diferentes, especialmente não cristãos, foi
o foco de ataques freqüentes à Maçonaria, dos quais alguns continuam hoje em dia (sem notar o fato dc
que a mesma crítica poderia ser feita ao Conselho Mundial de Igrejas). Havia sim tolerância c aceitação
de homens de todas as fés, porém, não se deve pensar que o requisito maçônico básico de crença em um
Ser Supremo é de alguma iorma uma regra superficial da Ordem. Quando a Maçonaria francesa
anunciou em 1847 que a crença em Deus não mais seria um requisito para a associação e que ateus
seriam bem-vindos em suas Lojas, eles foram imediatamente renegados pelas Maçonarias britânica e
americana e todos os laços formais foram sumariamente cortados.
Diversas crenças religiosas a se reunirem e permanecerem juntos em uma sociedade fraternal. As Antigas
Obrigações da Maçonaria Secreta aludem a homens que têm diferenças de opinião religiosa, em um
tempo em que tanto a lei secular quanto a da Igreja não tolerariam tais diferenças Tais homens tinham de
pertencer a apenas uma crença universal que era decretada, ensinada e reforçada pela única Igreja
legalmente permitida, a de Roma. As Antigas Obrigações maçônicas revelam que havia homens con-
trários aos ensinamentos de Roma, solidários e protetores uns com os outros. O que vemos na Maçonaria
é a provisão de ajudar e proteger aqueles cujas crenças os pusessem em grave perigo e, uma vez que a
traição dos "segredos" de um Maçom Secreto poderia custar sua vida e sua propriedade, devemos
assumir que o caráter dc segredo e proteção mútua que estava no centro da Ordem dava abrigo contra as
mais elevadas autoridades. Quanto à aceitação dc Irmãos dc diferentes crenças religiosas, a impressão é
que a autoridade a ser temida era principalmente a Igreja, embora normalmente essa autoridade
estivesse unida ao Estado. Em tempos tão recentes quanto o reinado da rainha Elizabcth I, mais de
trezentos católicos foram parar no cepo porque permaneceram fiéis à sua fé romana, embora a acusação
legal fosse "traição contra a Coroa".
Hoje, o conceito de uma sociedade que aceita homens dc qualquer religião parece bastante comum,
tanto que não parece merecer nenhuma tentativa de dramatização. É difícil para qualquer um dc nós,
criados em uma atmosfera social na qual a liberdade de religião é tão trivialmente aceita e legalmente
obrigatória, imaginar um tempo em que isso era inimaginável e expressamente proibido. Os monarcas
seculares sentiam que uma religião universal, praticada à exclusão de todas os outras, era vital para o
governo eficiente do povo c, no mundo ocidental do século XIV, essa religião não podia ser outra além da
fé católica romana. Heréticos ostensivos tinham de ser mortos para que não infeccionasscm outros,
rompendo assim a trama da sociedade ordenadamente autocrática. No século anterior | supressão dos
Templários, um exército cruzado papal dc mais de 30 mil homens havia massacrado dezenas dc milhares
de pessoas dc todas as idades e ambos os sexos na Cruzada Albigense contra os heréticos cátaros no sul da
França, um conflito que deu origem a mais chocante citação da história religiosa. O comandante militar
prestes a atacar a cidade dc Béziers perguntou como suas tropas poderiam diferenciar entre os heréticos e
os católicos leais entre os 15 mil homens, mulheres e crianças da cidade. O legado papal respondeu:
"Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus." Iniciado em 1209, o massacre durou até 1244. Durante essa
guerra santa, a zelosa perseguição dos heréticos cátaros pelo padre espanhol Domingos de Gusmão o
capacitara a fundar a Ordem Dominicana. Por volta de 1229, essa ordem representava um papel-chave no
estabelecimento do Santo Ofício, oficialmente conhecido como Sagrada Inquisição Romana e Universal.
Sua feroz
defesa da pureza da te ensinava às suas vítimas o perigo de até mesmo expressarem dúvidas sobre
os ensinamentos da Igreja Romana. Nessa atmosfera, a boa vontade maçônica em aceitar o seguidor
dc qualquer crença ou modo dc adoração cm laços de irmandade era unia ofensa capital, o que
tornou a Maçonaria uma organização de alto risco para sc pertencer. 0 desejo de ser parte de tal
grupo significava uma dedicação, uma entrega ao conceito de erros nos ensinamentos e práticas da
única Igreja estabelecida. Aqueles julgados culpados de tal dedicação teriam sido culpados de
heresia e de traição, o que daria verdadeiro significado à Antiga Obrigação maçô nica de que um
Maçom não poderia revelar nenhum segredo de um lrmão Maçom que pudesse lhe custar sua vida e
propriedade.
Não é difícil relacionar os Templários fugitivos a esse perigoso com promisso, uma vez que,
realmente, nos é extremamente difícil pensarem qualquer outra organização que tivesse a mesma
motivação que os Templários para originar tal filosofia. Os Cavaleiros Templários, seus sacerdotes
e seus sargentos eram todos membros de uma ordem religiosa sob coman - do direto do papa,
Quando foram rejeitados pelo papa, capturados e por cinco anos aprisionados, torturados e
lançados à fogueira, perderam seu contato e o intercessor junto a Deus. Se o papa os rejeitava, e sua
resposta era rejeitar o papa, que tipo de cristãos eles poderiam ser? Certamente, nao católicos
romanos. Aceitariam eles a declaração de que o abandono do papa significava o abandono de Deus?
Ou, quando seu pânico diminuiu c o ódio cresceu em seu lugar, eles decidiram que era o papa, e não
eles, que havia pecado contra Deus? Se mantiveram sua crença em Deus, mas rejeitaram a
autoridade do papado e os ensinamentos da Igreja sobre seu próprio papel e autoridade, estavam
entre os primeiros a lançar as sementes de protesto, mas não são necessariamente todos do mesmo
modo. Alguns simplesmente podem ter desejado rejeitar aquele papa. Outros podem ter rejeitado o
próprio conceito de papado, ou a validade de sua autoconcedida delegação dc autoridade espiritual
e temporal suprema na Terra de Jesus Cristo por intermédio de Pedro. Certamente, na confusão e
pânico de sul rejeição, eles não teriam achado individualmente uma resposta universal para seu
dilema comum. O que eles tinham em comum era o desejo dc permanecer livres, de procurar ajuda
e de dar ajuda em um pacto mútuo para abrigar um ao outro. Para se sentir seguros, para extrair e
confiar em juramentos de segredo e irmandade, eles acreditariam apenas no homem que pudesse
jurar diante de Deus. Aqueles que rejeitavam Deus e não podiam fazer tal juramento não deviam
merecer confiança, e por isso ateus não podiam ser parte du irmandade protetora.
O que a sociedade secreta necessitava era de homens que afirmassem sua crença em Deus, com
um desejo de irmandade forte o suficiente para aceitar quaisquer tendências religiosas pessoais
como secundárias pura seu objetivo principal de sobrevivência. Tão amplas demonstrações, ao re-
dor deles, de que diferenças religiosas podiam separar os homens o mesmo
lança-los um ao pescoço do outro, deu origem à Regra maçônica que proibia o proselitismo e abolia o
argumento religioso, ou mesmo a discussão religiosa, dos encontros da irmandade. ' v
Tudo isso significava levar vida dupla, porque tanto a lei secular quanto a espiritual exigiam, sob
pena de punição, que todo homem fosse devoto e membro praticante da Igreja. Para o mundo exterior,
ele devia parecer cumpridor da lei, assistir à missa regularmente e pagar seus dízimos à Igreja sem
questionamentos. Sua dissensão e sua ajuda a outros dissidentes deviam ser um segredo, porque tal
dissensão era um sério crime contra o Estado e crime ainda mais sério contra a Igreja. Tal sociedade
pode parecer destinada a morrer junto aos seus fundadores, mas nasceu em um tempo em que a
dissensão
%i
na Bretanha estava apenas começando a se fazer ouvida e, segundo a antiga regra que diz
O inimigo de meu inimigo é meu amigo", não houve diminuição de recrutas ao longo dos séculos que
se seguiram, como um breve exame mostrará.
Os dissidentes do século XIV são freqüentemente classificados como os antecessores da Reforma
Protestante, mas eram, na realidade, mais reacionários do que reformadores. Não tinham nenhum
ritual novo nem doutrina para sugerir à Igreja, queriam antes que esta retornasse a princípi os mais
antigos. Homens como o padre John Wycliffe não gostavam dos ensinamentos da Igreja, formados
muito após a morte de Cristo, Não podiam encontrar nenhuma base escriturai para um papa, para a
doutrina de que o pão e o vinho da missa se transformam no verdadeiro corpo e sangue de Jesus Cristo
ou para o depósito dc méritos baseados nas virtudes de Cristo e Sua Mãe, que a Igreja podia vender
por ouro e prata. Seu ardente desejo não era estabelecer uma nova Igreja, mas ter a antiga de volta.
Por seu lado, a Igreja declarara que, de muitos modos, seus ensinamentos, os pontos discutidos pelos
líderes da Igreja ao longo de muitos séculos, eram mais importantes do que a verdadeira Escritura.
Decretou-se que qualquer dúvida ou rejeição dos ensinamentos da Igreja era heresia igual à dúvida ou
rejeição da própria Escritura e estava sujeita à mesma punição. Isso tornava a heresia muito mais
comum e mais fácil de estabelecer.
Um desses ensinamentos era que a Igreja seguia o Cristo em ser rápida ao perdoar, mas também
seguia o próprio Deus em suas ações após a queda de Adão o Eva, quando aplicou as punições de morte
definitiva, doença e a necessidade de trabalhar para ganhar a vida. As punições foram aplicáveis
não apenas às partes culpadas, Adão e Eva, mas a toda a humanidade para sempre, conceito designado
pela Igreja como Doutrina do Pecado Original. Diz ela que Deus oferece o perdão a todos, mas exige
punição, a essência do Sacramento da Confissão, Punição (penitência) e Absolvição. Esse requisito
absoluto para que o pecado seja punido tornava ainda mais arriscado a vida de qualquer
protestante secreto ou dissidente. A única garantia de segurança máxima era o segredo máximo, de
forma que o único abrigo seguro ou assistência que um homem podia oferecer ao outro tinha de ser feito
sob o mais pesado véu dc segredo que as mentes pudessem conceber, e muitas mentes templárias haviam
sido treinadas exatamente nessa direção.
Era um período em que a Santa Sé estava preocupada com a extensão de sua própria riqueza e poder,
incluindo a imposição dc um poder autocrático supremo sobre o sacerdócio. Quando o arcebispo I
íunthausen de Seatile afirmou em 1986 que os bispos da Igreja deviam ter mais autonomia, foi
simplesmente dispensado, temporariamente, dc alguns de seus deve- res. No século XV, um bispo que
fizesse a mesma sugestão era imediatamente capturado e atirado em uma prisão eclesiástica por sete anos.
Os bispos realmente haviam sido autônomos por centenas de anos após a morte de Cristo. Veio então um
tempo em que o bispo dc Roma declarou que, como sua diocese era a mesma do próprio São Pedro, ele
certamente era o bispo mais importante da Igreja, e se tomou "o primeiro entre iguais". A partir disso os
bispos romanos declararam sua autoridade maior como herdeiros diretos da autoridade de São Pedro, a
quem haviam sido confiadas as chaves do Reino dos Céus, apresentando-se como vigários dc São Pedro.
Tomando posições ainda mais fortes conforme seu poder crescia, declararam-se Vigários de Cristo e sc
afirmaram como governantes autocráticos de toda a hierarquia da Igreja. O papa Gregório VII
(1073-1085) anunciou, após mil anos de Igreja cristã, que dali por diante apenas o bispo de Roma podia
usar o título de papa e ordenou que todos os príncipes seculares fossem beijar o pé do papa, gesto de
humildade reverente que não podia se estender a nenhum outro bispo, Como vimos, Bonifácio VIII. mais
tarde, tomou a posição papai ainda mais fone declarando que era a condição da salvação que cada ser
humano na Terra fosse súdito do pontífice romano.
Com o novo poder v ieram novos ensinamentos. O papa Gregório, que fizera o voto de castidade como
monge antes de ser elevado ao Trono de Pedro, era firme em sua crença de que padres não podiam se
casar, mas caiu vítima da vingança do Sacro Império Romano antes que pudesse reforçar seu governo
com disciplina papal. Coube a Urbano II, o papa que reunira a primeira Cruzada, dar força à condenação
papal do casamento clerical. Ordenou que todos os senhores seculares exigissem dos padres casados em
seus domínios que pusessem as esposas de lado. A punição ordenada para aqueles que se recusassem era
que a esposa do padre seria capturada § força e vendida como escrava. Muitos padres se sentiram no
direito de contestar, porque as Escrituras dizem que Cristo expulsou demônios da sogra de Pedro. Havia
clara evidência escriturai de que São Pedro, o fundador da Igreja, era um homem casado, então, por que
seus sucessores e seguidores também não podiam ser?
Encontramos aí uma pista para o porquê da dissensão ser tão freqüentemente expressa ou liderada
pelo clero. Eles eram os únicos que tinham
acesso direto à Escritura como base para seus desacordos com a Igrej a, especialmente na área
dos "ensinamentos" que não podiam ser sustentados por referência escriturai direta, mas eram
resultados de raciocínio cle- rical. Algo que despertou muita discussão foi o argumento de que,
uma vez que Cristo e Sua Mãe eram, de todos os modos, perfeitos e totalmente virtuosos, haviam
recebido aos olhos de Deus uma quantidade infinita de bênçãos. Esse Tesouro de Méritos,
também chamado Tesouro da Igreja, foi declarado completamente sob o controle do papa, que
podia dispor desse ilimitado inventário de virtudes à sua própria discrição. Unidades desse
mérito podiam ser concedidas como recompensas, por exemplo, aos cruza dos, mas podiam
também ser vendidas, prática que levou a fortes objeções de muitos clérigos, incluindo Wycliffe,
John Hus e Martinho Lutero. Essas vendas de "indulgências" eram permitidas por outro
ensinamento da Igreja, o conceito de purgatório, uma sala de espera espiritual necessária
porque nenhum ser humano é perfeito e a perfeição é exigida para se entrar no Reino d os Céus.
A compra de unidades de tempo do tesouro da Igreja podia encurtar o período de limpeza
purgatorial por centenas e mesmo milhares de anos, uma fonte de renda que enraivecia grande
parte do baixo
clero.
Há outra área de protesto clerical que, embora nàc complete toda a
lista das dissensões, vale a pena ser tratada porque criou diversas áreas de protesto baseado em
um único tema: o ensinamento da transubstanciação. Esse ensinamento diz que, no sacramento
da Sagrada Comunhão, o pão se toma o verdadeiro corpo de Jesus Cristo e o vinho, seu
verdadeiro sangue. Não podiam dizer que diferentes pedaços de pão se tornavam partes diver sas
de seu corpo, cie forma que se concordou que cada pedaço de pão, cada migalha, torna -se o corpo
inteiro do Cristo, embora a forma permaneça sendo a do pão. Qualquer exame secular, de
paladar, pelo microscópio, análise qualitativa e quantitativa, provavelmente mostraria que o pão
é pão porque tx forma permanece a mesma. A substancia do pão, porém, torna - se o corpo
verdadeiro e completo de Jesus Cristo, donde o termo transubstanciação. O primeiro protesto foi
que a cerimônia da Ultima Ceia foi de lembrança e não uma verdadeira consumação de 12 corpos
de Cristo. Como algo assim poderia ter ocorrido quando o próprio Cristo esta va sentado ali à
mesa com seus discípulos? O protesto seguinte^sobre o tema foi que, na ordenação, o padre era
capacitado a realizar o milagre da transubstanciação como uma delegação de autoridade dada
exclusivamente à Igreja por Jesus Cristo por intermédio de Pedro. Isso significava que ninguém
além de um padre ordenado da Igreja poderia rezar a missa.
O terceiro protesto deve ter sido o mais forte de todos, contra a alega ção de que cada padre
da Igreja tinha o direito e o poder de dar ordens a Deus, às quais Deus não tinha escolha senão
obedecer. Parecia que a subserviência da Igreja a Deus havia sido ao menos parcialmente
revertida;
em lugar algum se via esse direito da Igreja de dar ordens a Deus de forma mais forte ou mais dramática
do que no papel do padre na Sagrada Comunhão. Essa linguagem pode parecer um pouco forte para
alguns, então deixemos que um padre o diga. Em seu Faitli for Millions, o Padre John 0* Brien, da
Universidade de Notre-Damc, o expressou da seguinte maneira:
u
O supremo poder do ofício sacerdotal é o poder dc consagrar. 'Nenhum ato é maior', diz Sao
4
Tomé, do que a consagração do corpo de Cristo'. Nessa fase essencial do sagrado ministério, o
poder do padre não é ultrapassado pelo do bispo, do arcebispo, do cardeal ou do papa. Na
verdade, é igual ao de Jesus Cristo, pois nesse papel o padre fala com a voz de autoridade do
próprio Deus. Quando o padre pronuncia as extraordinárias palavras de consagração, ele atinge
os céus, busca Cristo em seu trono e o coloca sobre o altar para ser oferecido novamente como
vítima pelos pecados do ho-
A

mein. E um poder maior do que o dos monarcas c imperadores: maior do que o de santos c anjos,
maior do que o de serafim e querubim. Na verdade, chega a ser maior do que o poder da Virgem
Maria: pois, enquanto a abençoada Virgem foi a mediadora humana pela qual Cristo foi
encarnado uma única vez, o padre traz Cristo de volta do céu e o toma presente em nosso altar
como a eterna vítima pelos pecados do homem — não uma, mas milhares de vezes! O padre fala e
eis! Cristo, o Deus eterno e onipotente, curva a cabeça em humilde obediência à ordem do padre."
É esse poder miraculoso, além de poderes como o direito de perdoar pecados com a segurança de que
Deus concordará com o julgamento do padre, que separa os padres dos outros homens e, apesar de todos
os rompimentos de protestos, a dedicação da Igreja a esse papel dela própria e de seus padres nao
diminuiu ao longo dos séculos. Por exemplo, na tentativa de trazer a Igreja da Inglaterra de volta à
congregação romana, fizeram-se compromissos, como o de permitir que um padre anglicano casado, que
deixasse sua fé para se tornar padre da Igreja Romana, continuasse com sua mulher. Por outro lado, na
preparação para uma conferência anglicana que ocorreria no Palácio Lambeth em 1988 e que discutiria,
entre outras coisas, a união das Igrejas, o Vaticano mandou avisar com antecedência que os ensinamentos
romanos sobre a transubstanciação deveriam ser aceitos inteiramente e de forma alguma seriam assunto
de compromisso ou negociação.
Em nossa reflexão sobre as atitudes religiosas da Maçonaria, o possível nascimento dessas atitudes
entre os Templários suprimidos e seus sucessores e uma contínua oferta de recrutas maçônicos
necessitando de segredo e proteção em vista dc suas convicções religiosas, é o período desses protestos que
nos interessa, e não sua validade. Todos os protestos, e mais, foram formulados pelo padre John Wycliffe
no século XIV, durante o período
imediatamente anterior e posterior à Revolução Camponesa na Inglaterra, assim como pelos seguidores
do padre John Bali, que representou um papel forte e direto nesse conflito.
A época da supressão dos Templários coincidiu exatamente com a introdução das anatas, ou
pagamentos devidos à Santa Sé para benefícios recentemente concedidos, uma forma de taxa inventada
para prejuízo do padre de paróquia. Coincidiu com o início do cativeiro da Babilônia, que viu a Santa Sé
transferida de Roma para Avignon. Ocorreu exatamente na época em que a corte papal de Clemente V
explodiu em um supermercado de vendas de indulgências.
Ocorreu também perto da época em que a primeira grande dissensão organizada contra os
ensinamentos da Igreja nascia dos seguidores dos ensinamentos de John Wycliffe, os Lolardos, que
permaneceram na obscu- ridade, na qual sobreviveram por séculos naquilo que os historiadores chamam
"células secretas" por toda a Grã-Bretanha, ceiulas sobre as quais nada se sabe. Sua existência à parte
exige que acreditemos que havia duas sociedades secretas distintas com células, ou lojas, por toda a
Grã-Bretanha, ambas opostas à Igreja estabelecida e oferecerendo assistência e esconderijo seguro para
seus membros. Aparentemente, nunca ocorreu a ninguém que as duas redes de células secretas poderiam
ter sido apenas uma.
Em qualquer caso, a supressão dos Templários ocorreu em uma época de perturbação e
descontentamento do baixo clero, no início da primeira grande onda de protesto dos ingleses contra a
Igreja, durante o reinado de um rei cujo governo gerou tanta dissensão e desorganização que se aproxi-
mou da anarquia. Era uma época ideal para formar uma sociedade secreta na qual pudesse se esconder
da vingança, e mesmo do conhecimento, da
Igreja estabelecida.
A supressão dos Templários não foi o único acontecimento da época a lançar medo aos oponentes da
Igreja. Os frades Espirituais Franciscanos, os mais gentis dos homens, também sentiram a ira da Santa Sé
quase ao mesmo tempo. São Francisco tomara a posição de que Cristo e os apóstolos eram homens pobres
e deliberadamente haviam escolhido a vida de pobreza como parte de sua vida de serviço. O primeiro
franciscano vivia do alimento que os fiéis desejassem pôr em sua tigela. Os altos clérigos não viam nada
contra os franciscanos quererem viver em um nível de quase inanição, mas se ressentiam raivosamente da
sugestão dos frades de que o clero, os bispos, os cardeais e mesmo o próprio papa deveriam seguir o
exemplo de Cristo e se desfazer de todos os seus bens materiais, cuja aquisição era naquela época a maior
preocupação da Igreja. Disseram aos frades para abandonar essa idéia estúpida de que Cristo era pobre e
muitos o fizeram. Mas um pequeno grupo, que ficou conhecido na Itália como os Fratelli, ou Irmãozinhos, c
no resto do mundo como Franciscanos Espirituais, recusaram-se a deixar de lado o ensinamento básico de
seu santo fundador. "Se
Cristo caminhava", perguntavam eles, "por que os bispos andam a cavalo?" Sua contínua pregação
desagradava e enraivecia o papa e seus bispos e, em 1315, os Franciscanos Espirituais foram declarados
culpados de heresia c excomungados. Um bom número deles foi queimado vivo em 1318, apenas quatro
anos após o castigo de Jacques de Molay. Esses homens eram humildes, religiosos dedicados, e não
monges guerreiros. Se podiam morrer por tão pequena dissensão, qual vida estaria segura? Qualquer
honesto desacordo com qualquer ensinamento da Igreja estava fadado a se ligar a um honesto temor.
Não pode haver outra explicação para uma organização secreta na Bretanha que recebeu novos
recrutas, geração após geração, por quatrocentos anos de total segredo.
Mesmo assim, pode-se considerar que a origem da Maçonaria e a preservação da Ordem cm séculos
de diferença religiosa não resolvem todos os mistérios maçônicos relacionados à religião, por causa de
certos acontecimentos maçônicos depois que a Maçonaria veio a público.
O primeiro deles foi o esboço de uma Constituição para a Grande Loja, que foi completada em 1723.
Era na maior parte trabalho de James Anderson, e nela o Dr. Anderson diz, sobre a religião dos Maçons:
"Achamos agora mais adequado obrigá-los apenas àquela religião com a qual todos os homens
concordam, deixando suas opiniões particulares para eles próprios." Os antimaçons afirmaram que, com
essa sentença, Anderson havia "dcscristianizado" a Maçonaria, como sc antes dessa data ela estivesse
limitada apenas aos seguidores de Jesus Cristo, coisa da qual não há indícios. Muito pelo contrário, há
uma indicação dc que a idéia de uma "religião com a qual todos os homens concordam" não se originou
com o Dr. Anderson, que dc qualquer modo não poderia ter imposto unilateral- mente uma crença
religiosa pessoal sobre a Ordem inteira.
Anos antes, Anthony Ashley Cooper, conde de Shaftesbury, tivera uma troca dc idéias com uma dama
durante uma reunião social. O conde disse: "Homens dc bom senso só podem ter uma única religião."
"Diga, meu senhor, que religião é essa com a qual os homens sensatos concordam?" "Madamc", respondeu o
conde, "os homens de bom senso nunca o revelam". A fim de que isso não seja visto como mais uma
coincidência, deve-se notar que lorde Shaftesbury, um importante deísta de seu tempo, era, com toda
probabilidade, ele próprio, um Maçom. Era patrono de John Locke, que preparou uma Constituição
sugerida para a nova colônia proposta por Shaftesbury da Carolina do Sul. Locke sugeriu que cada
cidadüo da nova colônia tivesse de declarar publicamente a crença em um Ser Supremo, com leis que
protegeriam cada homem dc qualquer interferência na maneira pela qual ele escolhesse adorar aquele
Ser Supremo. Além disso, nenhum homem teria a permissão dc processar o outro por danos monetários.
Esses são conceitos puramente maçônicos. Shaftesbury morreu cm 1683, quarenta anos antes que o Dr.
Anderson citasse a declarada crença
religiosa de Shaftesbury na Constituição maçônica em 1723. A acusação de que a Maçonaria fora
delibcradamente descristianizada em 1723 é obviamente falsa, mas reveladora no sentido de que exige da
Maçonaria que ela se torne semelhante a uma religião, que limite sua associação apenas a cristãos,
excluindo judeus, muçulmanos e outros, movimento que, em uma sociedade secular fraternal provocaria
um grande desastre por fanatismo.
A derradeira confusão de religião e Maçonaria é a injeção de atmosfera religiosa e cerimonial no
recinto da Loja e nas vistas do público. Ao sair da taverna e entrar nos recintos de Loja com esse fim,
surgiu a introdução da música de órgão e a composição de hinos a ser cantados pelos Irmãos. Havia
funerais maçônicos preparados com todos os emblemas da Maçonaria. Alguns deles ocorreram em igrejas
protestantes, onde, após o ministro terminar seu serviço, os Maçons tomavam a vez com os próprios ritos.
Por um lado, poder-se-ia dizer que esses eram serviços genéricos, mostrando que homens de muitos
credos encontravam terreno comum no qual podiam cultuar juntos. Por outro lado, serviços conduzidos
cm uma casa de Deus na presença de uma congregação, completos com hinos e orações, justificariam
qualquer percepção do público de que a Maçonaria c uma Ordem religiosa. Nos últimos anos,
aconselhou-se aos Maçons que abandonassem a prática dos serviços públicos com emblemas maçônicos,
para diminuir essa imagem religiosa. *
Em suma, os requisitos religiosos da Maçonaria são bastante simples: a crença em um Ser Supremo e
a inexistência de qualquer interferência, ou mesmo persuasão contra, na crença do Maçom individual.
Pode-se afirmar com segurança que a Maçonaria não é uma religião por uma simples razão. Em geral, os
adeptos acreditam que seus credos religiosos estão completamente certos. Isso significa que eles acreditam
que todos os outros credos são, ao menos até certo ponto, errados. A posição da Maçonaria é oposta, uma
vez que admite que há alguma verdade em todas as percepções humanas de Deus e declina de afirmar que
qualquer crença em particular é perfeita. ^
Quanto às críticas à Maçonaria baseadas em percepções de suas atitudes para com a religião, em
geral, afirmam que: a) a Maçonaria é uma religião; b) a Maçonaria não é suficientemente parecida com
uma religião e deve adotar os princípios dos credos cristãos (dependendo dos princípios cristãos adotados
pelo crítico); c) os juramentos sangrentos da Maçonaria sao repugnantes a Deus, assim como à lei.
Ao testar a hipótese templária contra os aspectos religiosos da Maçonaria, porém, ficou claro que
nada dentre as crenças maçônicas era contrário às atitudes que sc poderia esperar de um grupo que fora
quebrado rejeitado pela Igreja romana c que as Antigas Obrigações da Maçonaria indicam claramente
uma sociedade de proteção mútua que não apenas permitia, como também fornecia abrigo para aqueles
que tinham problemas
com a Igreja estabelecida. Mais especificamente, enquanto vimos outras destruições de grupos pela Igreja
no continente cm suas Cruzadas domésticas contra a heresia, nenhum grupo além dos Cavaleiros do
Templo recebera esse tratamento da Igreja britânica e, até depois de 1717, não há nenhum indício dc
Maçonaria em lugar algum além das Ilhas Britânicas.
Esse isolamento geográfico da Maçonaria por muitas gerações era em si um mistério maçônico que
sustentava a hipótese das origens templárias, porque os Templários na Grã-Bretanha foram os únicos que
tiveram a vantagem dos três meses de aviso antes de sua prisão iminente, e a Grã-Bretanha, com sua
atitude única para com a Igreja dc Roma, nunca permitiu que a Inquisição se estabelecesse daquele lado
do canal. ;
Restava ainda outro mistério, que era a significação do período centrado no ano 1717. Por que a
Maçonaria não se declarou cinqüenta anos depois ou cinqüenta anos antes? A conclusão de que a
Maçonaria baseada nos Templários havia sido mantida viva por homens que tinham problemas com a
Igreja romana estabelecida necessitava desse teste final para ser considerada válida. Algo importante deve
ter acontecido alguns anos antes de 1717 que dispensou a Maçonaria de sua necessidade de segredo, e tal-
vez mesmo de sua própria finalidade.
Essa importante data será discutida, mas apenas após um olhar profundo no mais importante ritual
da Maçonaria, a alegoria do Mestre assassinado.

EVIDÊNCIAS NA LENDA DE HIRAM ABIFF

a busca de respostas na alegoria conhecida como lenda de Hiram

N Abiff era necessário ter em mente que na Maçonaria Secreta


mestre Maçom era um mestre de homens, não o mestre de uma
arte ou ofício. A massa da Ordem Maçônica era composta de Companheiros, os membros
plenos, c de Iniciantes, aqueles cuja discrição e confiabilidade não eram aceitáveis o bastante
para merecer o convite para a associação plena. A maior parte desses Iniciantes conhecia apenas
aqueles Irmãos Maçons que estivessem em sua própria célula ou Loja. Os Mestres eram os
senhores do território ou das Lojas, o que exigia que mantivessem comu nicação uns com os outros.
Essa comunicação, e mesmo a assembléia geral secreta ocasional, teria sido absolu tamente
necessária para o importante problema da padronização — para chegar a acordos sobre os sinais
de mãos e braços, palavras de passe e catecismos pelos quais o Irmão Ma çom podia buscar ajuda e
os membros pudessem identificar uns aos outros com algum senso de segurança. Quando se
suspeitasse que a segurança em uma sociedade secreta fora rompida, esses sinais secretos deviam
ser mudados c sc realizavam reuniões para fazer as mudanças e divulgá -las. Além disso, para
enviar um Irmão em fuga à Loja seguinte, era obviamente necessário que alguém conhecesse a
localização dessas outras lojas, ao menos em uma base regional. Assim, os Mestres eram ao mesmo
tempo os mais importantes c perigosos membros da fraternidade. Os Irmãos cujas relações se
limitavam a suas próprias células individuais podiam trair apenas os membros daquela única
célula, seja durante uma bebedeira ou na roda de tortura; mas um Mestre podia arriscar a própria
existência da sociedade revelando nomes de ouiros Mestres, dos quais todos possuí am informações
muito mais amplas, incluindo nomes e localização de ainda outros Mestres. Essa seria a razão pela
qual apenas um Mestre necessitava de
um Sinal Maçônico de Aflição e uma chamada especial de socorro quando estivesse no escuro ou fora do
campo de visão: "O Senhor meu Deus. não há ajuda para o filho da viúva?"
Cada Mestre era o "filho da viúva". Era a continuação da linhagem de Mestres que aparentemente
fora interrompida com a morte do primeiro Grão-Mestre. Hiram Abiff. No drama da iniciação, ele
recebera o papel de Hiram Abiff. cujo manto, supunha-se. tornava-se a característica principal do papel
do candidato na sociedade secreta. Nesse mesmo papel, ele imitaria Abiff, que preferiu morrer a
entregar segredos do Mestre Maçom. Nesse papel, ele frustraria os efeitos do ataque dos três assassinos,
que queriam tanto esses segredos que estavam dispostos a matar, sem pensar que a morte de Hiram
Abiff significava a interrupção da construção do Templo inacabado.
Essa continuação da função do Grão-Mestre e arquiteto do Templo, uma espécie de imortalização
de um sonho mantido vivo por aqueles que viriam depois dele. era simbolizada pelo ramo de acácia, um
símbolo de imortalidade muito mais velho do que o Cristianismo. Para os povos antigos, o clima e as
reações das colheitas eram os determinadores da vida e da morte, da boa vida ou da inanição durante o
ano que viria. As mudanças nas estações, muita ou pouca chuva, as geadas, eram muito mais
compreensíveis e mais facilmente atingidas na devoção religiosa do que mistérios totais como fungos,
bolores e doenças de animais, que eram usualmente atribuídas à bruxaria ou ao mau-olhado. Sem
alimentos frescos a esperar e sem nenhum modo de preservar o alimento que tinham, a estação mais
temida era o inverno, quando as dias ficavam mais curtos e o poder da escuridão ganhava terreno a cada
dia sobre o poder da luz. Como se fosse para aumentar sua desgraça, cada arbusto, árvore e planta
morriam. Quer dizer, todos exceto a sempre-viva. Ela permanecia brilhante e verde, e portanto devia ser
habitada por um espírito mais forte do que o poder da escuridão, preservando a vida até que o sol
conseguisse sua inevitável, mas temporária, vitória. Aquele espírito forte ajudava a preencher o espaço
do outono à primavera, preservando o fio da vida. Em alguns lugares, a árvore da sem- pre-viva era
cortada para trazer o bom espírito para dentro de casa. onde os galhos eram usados para decorar
presentes, tradição da antiga religião natural que ainda é preservada na época do Natal. Assim, a
sempre-viva se tomou um símbolo de imortalidade, e uma dessas sempre-vivas era a acácia.
A acácia teria sido escolhida como símbolo da "imortalidade" de Hiram Abiff por razões muito
específicas. Deus ordenara que a Arca da Aliança fosse feita de madeira de acácia, a arca tinha de ser
abrigada no Smctuni
Sanctorum do Templo de Salomão, onde o Grão-Mestre fazia seus planos para o próximo d ia. A acácia era
também o abrigo de um tipo especial de visco, com uma flor escarlate. Não apenas esse visco — que, além de
permanecer verde, dava frutos no inverno—era um forte símbolo da imortalidade
em si, como muitos acreditam que a planta, coberta por um lençol de brotos de visco cor dc fogo. é a "sarça
ardente" do Antigo Testamento, Além disso, a acácia egípcia tem uma flor branca e vermelha, que lembra
as cores Templárias, baseadas em um manto branco com uma cruz vermelha.
A imortalidade de Hiram Abiff não reside na existência eterna de sua alma em algum reino celeste,
mas nas mentes e corpos daqueles Mestres que vieram depois dele. homens encarregados de tomar seu
lugar e terminar aquilo que o Grão-Mestre mítico havia começado. Seu dever era traçar planos e dirigir os
"trabalhadores", os Iniciantes e Companheiros do Ofício, completando o objetivo de Abiff. o término do
Templo de Salomão.
Tudo isso tinha apenas conexões muito vagas com o relato bíblico. De acordo com a Escritura, ele não
era um arquiteto, mas um Mestre trabalhador de bronze e latão. Ele não foi assassinado, mas viveu para
ver o Templo completado e voltou para sua casa. As pistas para a origem e o objetivo maçônicos seriam
encontradas na lenda alegórica, e não nas Escrituras.
Ao procurarmos na história britânica por um templo inacabado como base para uma sociedade
secreta e exclusivamente britânica, encontramos apenas uma resposta na ordem religiosa que
freqüentemente se referia a si mesma com apenas um nome simples: o Templo. Jacques de Molay e seus
predecessores assinaram documentos com o título Magisier Templi. Mestre do Templo. E aquele Templo, que
tomava seu nome do Templo de Salomão, certamente foi deixado inacabado após a morte de seus Mestres,
que haviam sido também torturados para revelar seus segredos por três assassinos, que acabaram por
destruí-los. Não Jubela. Jubelo e Jubelum. mas Felipe — o Belo. da França, o papa Clemente V e a Ordem
dos Cavaleiros do Hospital de São João de Jerusalém. Muitos, que leram apenas o resumo da Igreja sobre
a supressão dos Templários. podem objetar, afirmando que apenas o rei da França poderia ser
considerado o "assassino" dos Cavaleiros Templários, já que fez todo o trabalho sujo e coagira um papa
fraco a ajudá-lo. Realmente, essa é a versão usual da Igreja até os dias de hoje. mas os fatos históricos
falam um tanto ao contrário, se voltarmos a olhar os acontecimentos descritos anteriormente neste livro.
Quando Eduardo 11 da Inglaterra declinou de torturar os Templários. o papa poderia ter jogado o
problema de volta para o sogro de Eduardo, o rei da França: ninguém forçou Clemente V a despachar dez
especialistas em tortura da Igreja para Londres. O papa poderia ter convivido com a absolvição dos
Templários em Chipre: ninguém o forçou a pedir um novo julgamento ou a despachar uma equipe de
tortura com poder pura arregimentar os dominicanos e franciscanos locais se precisassem de mais ajuda.
Nem o rei da França realizou seu desejo de tornar alguém de sua família o chefe de uma Ordem conjunta
templária/hospitalária. com pleno acesso à riqueza de ambas. E se Clemente V houvesse sido apenas um
papa-marionete temeroso nas mãos de Felipe, os reis da França teriam sido os novos proprietários dos
bens templários na França, e não os Hospitalários, O papa era muito mais duro ou, ao menos, muito
mais obstinado do que fomos levados a acreditar e, aparentemente, ele concebera um plano próprio
junto aos Hospitalários.
Essa Ordem conseguira se livrar de todas as críticas no assunto da supressão templária, mas
aparentemente apenas porque evitou chamar a atenção sobre si pela ótima razão de haver
combinado suas recompensas com antecedência. Bem sabemos que o papado era a favor da união
dos Templários e dos Hospitalários e já havia determinado que Foulques de Villaret, Mestre dos
Hospitalários, seria o Grão-Mestre das Ordens combinadas. Os Templários, em seu quartel-general
de Chipre, ficaram sabendo da séria intenção de combinar as Ordens e haviam preparado uma
refuta- ção escrita. Os Hospitalários, em seu próprio quartel-general naquela mesma ilha, devem
ter recebido a mesma informação, porém, não prepararam nenhuma répl ica, seja escrita ou verbal.
Na verdade, De Villaret manobrou para ficar longe do encontro na França e não há nenhuma crítica
papal registrada por sua ausência. Isso sem dúvida ocorreu porque sua presença não era necessária
e porque não havia motivo para arriscar uma confrontação entre as duas Ordens, especialmente
uma vez que o papa já estava dedicado a cuidar dos interesses dos Hospitalários. Não apenas os
Hospitalários não ofereceram objeção ao conceito de fusão, como não fizeram nenhuma tentativa de
defender seus Irmãos monges guerreiros quando foram presos e torturados. Simplesmente ficaram
de fora e esperaram, até que Clemente V, para descontentamento do rei Felipe, declarou que toda a
propriedade templária confiscada iria para a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, completando, de
fato, a união que ele planejou, com plena aprovação e cooperação hospitalária. Se procurarmos um
motivo, a Ordem Hospitalária foi a maior beneficiária da supressão dos Templários, como
provavelmente fora planejado desde o início. O papa e os Hospitalários, juntos, frustraram os
objetivos de Felipe da França e não deveria haver dúvidas ao se colocar os Hospitalários como um
dos três assassinos da Ordem do templo.
Um ponto interessante sobre a lenda de Hiram Abiff é que nela os três assassinos já foram punidos,
"trazidos ao Jubé". Certamente houve guerras com a França antes e depois da supressão templária,
e se torna cada vez mais provável que as punições que atingiram os Hospitalários durante a Rebelião
Camponesa, incluindo o assassinato de seu prior, foram atos de vingança disfarçados sob um ato
político. Quanto às punições da Santa Sé, o movimento subterrâneo gerado pelos Templários era
provavelmente o inimigo mais efetivo que a Igreja teve nas Ilhas Britânicas antes, dura nte e depois
da Reforma. Por mais de quinhentos anos após a supressão templária, os papas ainda condenavam a
Maçonaria por receber membros de todas as fés religiosas e por não reconhecer o catolicismo
romano como a única Igreja verdadeira. Na Maçonaria Secreta, dissidentes religiosos tinham uma
organização que os ajudaria, esconderia e facilitaria a comunicação com outros do mesmo tipo e,
conforme os anos se passaram, conflitos entre papas e reis, papas e o povo e entre papas e seus próprios
padres forneceram um rio de recrutas para uma sociedade secreta que lhes permitia adorar a Deus de seu
próprio modo. Todos os três assassinos da Ordem do Templo tinham razão para lamentar suas ações
contra os cavaleiros barbados.
Um grande mistério na lenda de Hiram Abiff é a identidade "daquilo que foi perdido". Alguns
historiadores maçônicos tomam a alegoria literalmente, quase sempre um erro, e afirmam que o que se
perdeu era a "palavra" do Grão-Mestre, os "segredos" do Mestre. O que os Templários perderam,
literalmente, foi sua riqueza, respeito e poder. O que a alegoria sugere que foi perdido foi o arquiteto, o
planejador necessário para terminar o Templo e que traria a liderança para continuar. O homem que é
iniciado como Mestre, representando o assassinato, está sendo transformado em outro Hiram. Cada
Mestre representa aquele papel, e se torna Hiram (nome pelo qual os Maçons, às vezes, dirigem-se uns aos
outros). Ele é o "filho da viúva", é sua tarefa substituir aquilo que foi perdido: a liderança, a direção, o
trabalho necessário para "terminar" a construção da Ordem do Templo, que foi brutalmente
interrompida por golpes e assassinato. Agora, é claro, essa liderança, essa elevação ao papel de um dos
supremos líderes da sociedade, foi mudada. Cada Maçom tem a oportunidade de se tornar Mestre e o
iniciado pode ficar um pouco confuso com o fato de que aquilo que parece a ele apenas outro grau em sua
ladeira de progresso na Maçonaria seja tão enfático sobre os meios de buscar e dar ajuda, e tão enfático
sobre a necessidade de guardar os segredos de seu Irmão Mestre Maçom.
Em suma, a lenda de Hiram Abiff nos conta que não é uma coincidência que duas organizações
encontrem sua identificação central no Templo de Salomão, porque um grupo deu origem ao outro. O
objetivo do grupo sucessor, os Maçons, é explicado contando-se, alegoricamente, o destino do grupo
anterior, a Ordem do Templo. O Templo foi deixado inacabado por causa do assassinato do Grão-Mestre.
O homem que está sendo exposto a essa lenda em sua iniciação representa o papel de Grão-Mestre e então
assume sua tarefa: a conclusão do Templo. Nesse sentido, o Maçom não é um Maçom "operativo" com
ferramentas em suas mãos nem um Maçom "especulativo", que se junta a uma vida de maçons como um
membro não trabalhador. Ele é antes um Maçom simbólico, cuja tarefa de construção não está ligada a
nenhuma construção verdadeira, mas diz respeito apenas à sobrevivência e ao crescimento do Templo
simbólico, a Ordem dos Pobres Companheiros Soldados de Cristo e do Templo de Salomão: os Cavaleiros
Templários.
Conforme as verdadeiras origens da Maçonaria eram obscurecidas pelo tempo e então perdidas, os
Maçons ficaram apenas com a alegoria e criaram um mundo de fantasias aceitando essa alegoria como
fato. Certo
escritor maçônico ficou espantado porque a Maçonaria preservara por mais de 2 mil anos esses detalhes
da construção do Templo de Salomão que haviam escapado aos autores do Antigo Testamento. A lenda
de Hiram Abiff é ensinada não como uma lenda, mas como um relato de um fato histórica
Junto à aceitação de Hiram Abiff como uma pessoa real. a Maçonaria. por gerações, ensinou que a
Ordem havia sido fundada entre os trabalhadores que construíram o Templo de Salomão. Essa
construção se tornou um ponto focai para a reverencia e respeito maçônicos. Representações artísticas do
Templo de Salomão começaram a decorar as paredes dos templos maçônicos e alguns Maçons fizeram
peregrinações até o sítio. Alguns conseguiram trazer para suas Lojas um pedaço de pedra do Monte do
Templo ou de regiões próximas, relíquias que eram exibidas com orgulho e toda a aura de relíquias
religiosas. Mesmo hoje. muito tempo depois de a Maçonaria trocar a alegação de que se originou na
construção do Templo para dizer que. na verdade, veio das guildas medievais de pedreiros, há Maçons
firmemente convencidos dc que sua Ordem começou na construção daquele Templo.
Finalmente, as mentes mais sóbrias prevaleceram e a Maçonaria veio a admitir que a história de
Hiram Abiff não era real. mas um pedaço importante da mitologia maçônica. Sua aceitação como fato
fez com que toda a fraternidade se inclinasse na direção das sociedades de construção e os levou a
identificar cada ferramenta comum de pedreiro como um símbolo maçônico. a identificar o Ser
Supremo como o Grande Arquiteto do Universo. a ensinar que os Maçons haviam construído as grandes
catedrais góticas e a incluir detalhes de arquitetura e construção nos rituais maçônicos.
Agora que a história de Hiram Abiff foi reconhecida como lenda, c não fato. todo o simbolismo da
associação de construção gerado pela aceitação literal da história permanece e esse simbolismo serve
para confundir as origens e objetivos porque ficou imbuído de uma realidade e antigüidade que na
verdade não possui. Na ausência de registros escritos, os séculos representaram seu inevitável papel de
obscurecer o início e o fim. e a precipitação em incluir as guildas de construção trouxe um quadro que
não sc preocupa em olhar para trás. O simbolismo nascido da alegoria foi aceito como real.
O mistério é simplesmente este: se a história de Hiram Abiff e o papel maçônico na construção do
Templo de Salomão são admitidos como mitos, como o Templo se tornou central no ritual e na lenda
maçônicos? Certamente. os pedreiros medievais não oferecem nenhuma resposta a essa quesito e. como a
própria teoria da guilda medieval caiu por terra, parece não haver resposta a esse mistério... exceto uma.
O Templo honrado e reverenciado pela Maçonaria não é uma construção, mas apenas a única outra
Ordem que já se identificou com essa construção: os Cavaleiros do Templo.

DE MONGES A MAÇONS

Vimos que há apenas duas organizações que encontraram suas principais identificações
no Templo de Salomão: a Maçonaria e a Ordem Cruzada do Templo. A grande massa de
indícios circunstanciais indicou claramente que a identificação comum não era mera coin -
cidência, mas sim que a organização secreta nascera das cinzas da organi zação publica que
fora condenada pela Igreja e pelo Estado, na época das mais brutais punições corporais. O
único modo de os Templários perseguidos continuarem a manter contato um com outro e
ajudar-se entre si era no mais negro dos segredos. Esse estado de segredo não requeria grande
adaptação para os Templários. para quem o segredo era parte de seus votos ou de sua Regra.
Cada Templário era sujeito a imediata punição se revelasse qualquer parte da Regra da
Ordem, ou qualquer parte dos procedimentos de seus encontros de capítulo, que eram
mantidos secretos por meio de guardas parados do lado de fora do recinto do encontro, com as
espadas de prontidão. Felizmente, as circunstancias da época, como já explicado antes, es -
tavam a seu favor. Três meses antes de suas prisões em massa na França, na alvorada da
sexta-feira, 13 de outubro de 1307. o trono da Inglaterra passara para seu rei mais fraco e mais
lamentável, Eduardo 11. O resultado da fraqueza desse monarca, sua confusão e
procrastinaçáo* fora dar aos Templários condenados da Inglaterra um período de advertência
de três meses, durante o qual fizeram planos. Quando suas prisões finalmente começaram, em
janeiro de 1308, o rei estava na França para se casar, tendo deixado seu amante como regente.
E. na mesma época em que o inglês Eduardo 11 mandava seu reino pelo caminho da efetiva
anarquia, Roberto Bruce da Escócia reunia seu povo, preparando-se para entrar em estado de
guerra com a Inglaterra, que foi desde o empate forçado até a vitória esco cesa definitiva em
Bannock Burn. Ele receberia qualquer homem que fugisse dos domínios ingleses na
Grã-Bretanha ou no continente, ordem papal para prender os Templários da Escócia, fizera
daquele país um
abrigo para os Templários em fuga.
O povo inglês daquela época havia visto o inimigo francês escolher um papa a dedo e observado a
transferência da Santa Sé de Roma para Avignon. Assim, a supressão templária coincidira com o
cativeiro babilôni- co do papado, situação que despertou e manteve a suspeita e preocupação do povo
inglês. Ele não tinha nenhum incentivo para ajudar o papa, que parecia agir como um instrumento de
seu inimigo nacional, Felipe da França, em sua busca para encontrar e torturar os monges militares
que ele condenara. Se o assunto dos Templários tivesse sido resolvido rapidamente, os monges
fugitivos e seus camaradas poderiam apenas ter ajudado um ao outro de modo apressado, baseados
nas necessidades imediatas da ocasião, conforme surgissem. A supressão se arrastou, porém, o
Grão-Mestre Jacques de Molay foi queimado quase sete anos após as primeiras prisões na França e
esse atraso deu aos frouxos elos de contato entre os fugitivos tempo para amadurecer e fortalecer laços
de irmandade. A organização formal que se deu desenvolveu uma base sobre a qual se estabeleceria
uma instituição permanente, alimentada por um fluxo incessante de dissidentes.
Embora tenha sido alegado que a sociedade secreta maçônica se originou nos construtores do
Templo de Salomão ou nas guildas medievais de ' pedreiros na Grã-Bretanha, junto a outras
sugestões ainda mais fantasiosas, nenhum início, além dos Cavaleiros Templários, dá explicações tão
claras sobre o significado perdido dos símbolos maçônicos do círculo e do mosaico no recinto da Loja
ou do avental de pele de cordeiro e as luvas que compreendem o "traje" da Maçonaria. O compasso e
esquadro aparecem alegori- camente como o selo de Salomão inacabado, simbolizando diretamente o
Templo inacabado. Eles, escondidos no selo de Salomão, fazem uma ligação gráfica impossível de ser
ignorada, uma ligação entre o maior emblema da Maçonaria e a interrupção da construção do
Templo na lenda de Hiram Abiff, como simbolizado pelo selo "inacabado".
Essa lenda, que é a principal característica do ritual maçônico, acrescenta crédito à origem templária,
especialmente por se basear em um Templo alegórico cuja construção foi interrompida por causa do
assassinato do Grão-Mestre Hiram Abiff. Sabemos que o verdadeiro Templo de < Salomão foi
inteiramente completado e utilizado por muitos séculos. O Tem- | pio de Salomão que não foi completado
pode apenas ser a Ordem dos Pobres Companheiros Soldados de Cristo e do Templo de Salomão, os Ca-
valeiros Templários. O Mestre morto é substituído pelo iniciado, que é ele- vado ao grau de Mestre
Maçom. Ele não apenas "se torna" Hiram Abiff no j drama do ritual, mas também assume o objetivo
interrompido do Grão-Mestre, a conclusão do Templo, mantendo a sociedade secreta viva e crescente,
resgatando, simbolicamente, a Ordem do Templo da suspensão ordenada
pelo rei e o papa. |
A lenda também dá ao Grão-Mestre o título de Mestre Construtor; a alegoria da construção do
Templo forneceu a base para a história falsa da
sociedade secreta como uma sociedade de pedreiros. Eles eram pedreiros simbólicos, que terminavam em
segredo um Templo simbólico que o mundo acreditava ter sido destruído. Essa falsa história foi utilizada
como uma cobertura adicional para preservar as Antigas Obrigações e Landmarks da Maçonaria como se
fossem as regras para a conduta de uma guilda medieval de pedreiros. As regras das antigas guildas são
bem conhecidas e têm pouca relação com as Antigas Obrigações da Maçonaria, que são claramente
estruturadas para sustentar uma sociedade secreta de proteção mútua. Nenhuma guilda exigia que um
membro protegesse os segredos que poderiam custar a vida e propriedade de um Irmão caso fossem
descobertos, nem jamais houve, como guilda local, nenhuma obrigação de dar "emprego", alojamento e
dinheiro para Irmãos de outras guildas locais que estivessem de passagem. ; O risco de morte e de
perder a propriedade não era um temor vago e indefinido, mas uma punição muito específica determinada
pela Igreja. O concilio papal de Toulouse em 1229 decretara que qualquer homem que abrigasse um
herético deveria perder sua propriedade e ser punido; qualquer casa em que o herético fosse encontrado
seria demolida e o terreno em que estivesse seria confiscado pela Igreja e, finalmente, os heréticos e seus
protetores deviam ser sentenciados à morte. Fica claro, portanto, que o segredo de um Irmão que pudesse
causar a perda de sua vida e propriedade era ser culpado de heresia, acusação que nunca foi feita contra
nenhuma guilda de artesãos. As antigas guildas eram quase militantemente religiosas e todas eram ligadas
à Igreja Católica Romana estabelecida. Nenhuma poderia ter tido, ou teria desejado, um código de
tolerância religiosa que desse plena irmandade àqueles cujas opiniões fossem de qualquer maneira
contrárias aos ensinamentos da Igreja.
Qualquer indivíduo excomungado teria tido um problema em sua relação pessoal com Deus, uma vez
que sua conexão com a Igreja fora cortada, mas teria de manejar o problema apenas para adaptá-lo às
suas necessidades pessoais. Os Templários, porém, foram cortados pela Igreja em grupo. Era improvável
que um ponto em comum de dissidência ou protesto surgisse rapidamente, mas a necessidade da crença
em Deus era imediatamente necessária para dar substância a juramentos mútuos de segredo e apoio. Sua
primeira preocupação teria sido salvar vidas, não almas, e uma solução para a necessidade imediata de
juramentos de união foi encontrada na insistência sobre uma crença assumida em Deus, sem nenhum
requisito quanto ao modo individual de adoração ou suas atitudes para com a Igreja estabelecida.
Rodeados pela evidência maciça de que as diferenças religiosas lançavam os homens em batalhas
sangrentas, os fugitivos necessitavam desesperadamente negar as diferenças religiosas para manter seu
grupo firmemente unido. A resposta residia na abolição de todos os argumentos religiosos, ou mesmo
discussões, e as crenças particulares de cada homem
eram plenamente respeitadas por seus Irmãos.
Hoje, o credo maçônico diz que a admissão está disponível a homens de todas as fés religiosas, mas este
não teria sido o conceito original no século XIV, pouco depois que todos os judeus haviam sido expulsos da
Grã- Bretanha por Eduardo 1, mas antes do advento de seitas protestantes claramente identificáveis.
Havia apenas uma fé religiosa, a católica romana, de forma que as diferenças poderiam apenas ser aquelas
de protestos variados contra os ensinamentos da Igreja, dissidências quanto às interpretações das
Escrituras e às "argumentações" e rejeição dos estilos de vida e do materialismo da hierarquia eclesiática.
A rejeição templária pela Igreja, acompanhada como foi pela espécie de punições brutais que dão origem
ao ódio e ao desejo de vingança, forneceram um alicerce muito claro para uma sociedade secreta com essa
filosofia religiosa, que não pode ser comparada com nenhum outro acontecimento ou organização da
história britânica. Essa conclusão é reforçada pelo fato de que os Templários cruzados estavam entre os
poucos grupos da Europa que realmente haviam experimentado e encorajado a tolerância religiosa. A
grande mesquita de Acre havia sido convertida cm uma catedral cristã, mas possuía também uma área
para devotos muçulmanos. No outro lado da cidade, a mesquita próxima ao Poço dos Bois foi mantida
para muçulmanos, mas possuía um lugar para as devoções cristãs. E muito difícil até mesmo imaginar
uma igreja cristã medieval da Europa que permitisse serviços judaicos em seu recinto ou que tolerasse que
uma sinagoga tivesse um crucifixo. Naquela época e lugar, o próprio pensamento de tolerância era
intolerável e ilegal.
Finalmente, a descoberta dos significados perdidos dos termos maçônicos em francês medieval dava
apoio vital à hipótese do nascimento da Maçonaria nos Cavaleiros Templários francófonos e indicava um
contexto temporal adequado. Não permanecia nenhuma dúvida razoável de que a Maçonaria se originara
na má situação e na fuga dos Cavaleiros do Templo, uma organização equipada de forma única para
constituir uma sociedade secreta rapidamente, uma vez que grande parte de sua própria Ordem
funcionaria em segredo, com códigos, palavras de passe e seu próprio sistema de espionagem.
Pode parecer que há um grande salto desde a supressão templária em 1307 até a revelação pública da
Maçonaria em 1717, sem indício algum de existência maçônica dentro desse intervalo de quatrocentos
anos, mas isso
não c verdade. Os indícios existem, mas já que nenhum historiador jamais
suspeitou de uma conexão com a Maçonaria, a maior parte desses indícios foi deixada de lado sem que se
fizessem as devidas ligações. Considere-se novamente a Rebelião Camponesa de 1381, com suas alusões à
Maçonaria e seus mistérios relacionados aos Templários, assim como a concentração de ataques maldosos
sobre a propriedade dos Hospitalàrios; a tomada incrivelmente fácil da Torre de Londres, sem nenhum
propósito conhecido além do assassinato do arcebispo de Canterbury e do prior da Ordem Hospitalária;
a proteção especial à igreja Templária central, enquanto os rebeldes incen diavam todas as construções em
torno delas. Há também o persistente" indício dos lideres rebeldes que confessaram ser membros de uma
Grande Sociedade que nenhum historiador jamais tentou definir. Uma vez que a origem da Maçonaria na
sociedade secreta dos templários fugitivos seja aceita é fácil concluir que a Grande Sociedade que enviou
Walter para dirigir à rebelião e o chamou "Tyler" era descendente direta dos fugitivos Templá- rios e
predecessora da sociedade secreta da Maçonaria.
Esse preciso período de tempo também indicou a ponte para o próximo indício da existência maçônica
nos padres rebeldes e outros que foram influenciados pelos protestos contra a Igreja e sua hierarquia pelo
padre inglês John Wycliffe. Seguidores das doutrinas de Wycliffe de dissidência e protesto formaram
aquilo que os historiadores dizem que era uma sociedade secreta à parte, conhecida pelos forasteiros como
lolardos, ou "murmura- dores" (pois alguns eram vistos murmurando orações enquanto caminhavam). O
arcebispo Courtenay, que se tornou o principal clérigo da Inglaterra como sucessor do arcebispo cuja
cabeça havia sido cortada por Wat Tyler, identificou a existência do grupo lolardo na primavera de 1382,
menos de um ano depois da Rebelião Camponesa. Ele os expulsou de Oxford e tentou esmagar todo o
movimento. O Lolardismo, porém, sobreviveu a seus esforços e aos de outros líderes civis e religiosos pelos
próximos dois séculos, com o artifício de permanecer em segredo. Os lolardos conduziam seus negócios em
"conventículos", ou encontros secretos, em uma rede de células por todo o país e, de alguma forma,
ganharam o apoio de certos membros da aristocracia, especialmente a classe cavalheiresca. Nenhum
historiador parece capaz de contar muito sobre essas células além do fato de que elas existiram, que o
movimento permaneceu vivo até muito depois da Reforma Protestante (para a qual ele muito contribuiu)
e que os lolardos irromperam em ação aberta em diversas ocasiões ao longo dos anos, mais dramatica-
mente na revolta liderada por Sir John Oldcastle em 1414. Não parece razoável que duas sociedades
secretas existissem lado a lado naquelas cidades relativamente pequenas da Grã-Bretanha sem relação
entre si, especialmente quando ambas tinham como tema central a provisão de "alojamento" para
esconder Irmãos do ódio da religião do Estado. E mais provável que houvesse apenas uma extensa
sociedade secreta na Grã- Bretanha, e que as células secretas lolardas dos primeiros protestantes e a
sociedade secreta que se transformou na Maçonaria tossem apenas uma, ou ao menos, intimamente
relacionadas. Se assim foi, a Maçonaria Secreta teve um papel fundamental na Reforma Protestante na
Gra-Bre-
tanha, o qual nunca lhe fora creditado.
Se o conceito de que as Lojas Maçônicas eram, na verdade, baseadas em células isoladas parece
demasiadamente especulativo, é preciso considerar as atividades lolardas na região de Leicester, como
registrado por Henry Knighton, cânone da abadia de Santa Maria nessa cidade. Segue uma série de
citações diretas dessas crônicas, extraídas para fins de sínte se. Os grifas são meus.
"William Smith, assim chamado por sua profissão... renunciou a todos os prazeres Já que...
ele ensinava o alfabeto c fazia pregações. Diversos cavaleiros costumavam protegê-lo para
que não fosse prejudicado por conta dc seu ensinamento profano, pois eles tinham amor a
Deus, mas eram incultos, pois acreditavam no que ouviam de falsos profe tas... cies
assistiam ao sermão com espada e broquel para interromper quaisquer objeções à
blasfêmia.
Certo Richard Waytestathc, padre, e este William Smith, costumavam se revezar na capela
de São João Batista fora de Leicester, ao lado do hospital de leprosos. Ali, outros sectários
se encontravam para seus convcntículos [encontros secretos]... pois ali havia uma
hospedaria e alojamento para esse tipo de visitante e ali eles tinham uma escola de
doutrinas e opiniões malignas c uma câmara dc compensação de heresia. A capela fora
dedicada a Deus, mas era então um asilo para blasfemos que odiavam a Igreja de Cristo.
Havia em Leicester um padre chamado William de Swynderby, que o povo chamava
eremita porque ele costumava viver como tal... ele se uniu a William Smith em São João
Batista. perto do hospital de leprosos e ali sc associou também com Wyckliffes... ele dirigia
[seus sermõesl contra o clero dizendo que eles eram maus e, como o resto da seita, dizia que
os paroquianos não precisavam pagar o dízimo aos impuros, aos nüo residentes ou àqueles
que não podiam ensinar e pregar por ignorância ou inaudibilidade, pois o outro Wyckliffes
disse que o dízimo é presente voluntário e um pagamento para más pessoas é conivência.
Ele também pregou que os homens podem pedir pagamento de dividas mas não processar
ou aprisionar por elas, que a excomunhão pelo não- pagamento dc dízimo era extorsão e
que quem vivia de modo contrário à lei de Deus não era padre, mesmo se fosse ordenado.
John Bukkyngham, bispo de Lincoln, ficou sabendo disso e pronta mente o suspendeu de
qualquer pregação na capela, igreja ou pátio, excomungando qualquer um que o ouvisse c
divulgando isso para diversas igrejas... o bispo exigiu que ele viesse à catedral de Lincoln...
ali ele foi publicamente acusado dc heresia e erro e muito mereceu ser condenado a se r
alimento para o fogo.
Naquele dia, o piedoso duque dc Lancaster estava por acaso em Lincoln e ele
freqüentemente protegia os lolardos, pois suas línguas e rostos suaves o enganaram e a
outros, que viam neles santos de Deus. Ele persuadiu o bispo a dar a William uma sentença
diferente..."
E assim novamente encaramos uma bateria daquilo que alguns pode riam preferir rotular
como coincidências, mas que poderiam também sercon-
siderados itens de evidência circunstancial. Um bom grupo de pessoas que protestavam contra a Igreja e
seu clero estava baseado em uma capela de São João Batista, o santo padroeiro da Maçonaria. Eles
mantinham encontros secretos, pregavam contra o uso de artifícios legais para pagamento de dívidas, um
preceito maçônico básico. Forneciam "alojamento" para viajantes c itinerantes que compartilhavam de
seu ponto de vista e eram protegidos por cavaleiros locais. Quando um deles era condenado a ser
queimado vivo por heresia, um duque real, "por acaso", estava lá perto para persuadir ou coagir o bispo
de Lincoln a reduzir a sentença. Considerando-se tudo isso. fica evidente que uma "Loja" maçônica estava
ativa em Leicester por volta do final do século XIV. .
Para obter mais possíveis indícios circunstanciais podemos pular direto para o século XVII, para algo
que aconteceu muitas gerações depois que achávamos que o lol ardis mo já desaparecera completamente,
embora isso que ocorreu pareça estranhamente relacionado com os acontecimentos de
9
Em sua competente história de uma parte do reinado de Carlos I, intitulada The King s Peace. 1637-1641,
C. V. Wedgwood incluía esta interessante anedota: parece que William Laud, arcebispo anglicano de
Canterbury, ficou preocupado com relatos sobre o crescente número de encontros secretos —
"conventículos" — pelo reino durante o ano anterior. Finalmente, sua paciência acabou com a prisão de
um homem chamado Trendall, que estava em Londres, longe dc sua casa, pregando contra a hierarquia da
Igreja. O arcebispo determinou que Trendall fosse lançado à fogueira, como exemplo para os outros, mas
já fazia mais de uma geração desde a última vez em que um herético fora queimado na Inglaterra. Laud
escreveu para o velho arcebispo de York perguntando detalhes sobre como arranjar a execução do
cerimonial, mas ela nunca ocorreu. De alguma maneira, o senhor Trendall escapou do seu destino. Tudo o
que aparentemente se sabe sobre ele é que era o pedreiro de Dover.
Vimos John Locke incorporar obrigações maçônicas na Constituição que ele escreveu para a proposta
colônia da Carolina do Sul. cerca de meio século antes que a Maçonaria viesse a público, incluindo uma
proibição contra artifícios legais por danos monetários (claro que isso pode ser apenas outra das dezenas
de coincidências que já encontramos até agora, mas a Carolina do Sul se tornou um reduto da Maçonaria
nos Estados Unidos, e ainda o é. A cidade de Charleston era o portão de entrada para aquilo que se tornou
a Maçonaria do Rito Escocês quando ele veio da França).
Antes mesmo de Locke e Laud, em um período de mais de um século antes que a Maçonaria fosse
revelada, encontramos amplos indícios maçônicos nos escritos de Sir Francis Bacon, cientista, filósofo e
político da corte de Elizabeth I e Jaime I. Seus ensaios nunca discordam dos princípios maçônicos nem das
atitudes maçônicas em relação à ciência e religião. Fiel à admoestação maçônica de corrigir os hábitos
errados de um Irmão de modo firme mas amigável, e ainda sempre falar bem de um Irmão e melhorar sua
reputação, Bacon escreveu: "E certo que a luz que um homem recebe por conselho de outro é mais seca e
pura do que aquela que vem de sua própria compreensão e julgamento... o melhor conservante para
manter a mente saudável é a repreensão leal de um amigo." E: "Um homem mal pode alegar seus próprios
méritos com modéstia, muito menos exaltá-los; um homem não pode tolerar ter de suplicar ou implorar...
mas todas essas coisas são graciosas na boca de um amigo, e são vergonhosas na do próprio homem."
Muito, muito mais relacionada a esse assunto, Bacon escreveu uma peça chamada A Nova Atlântida, que
foi publicada em 1627, no ano seguinte à sua morte. O trabalho contém o conceito de Bacon de utopia,
uma ilha desconhecida guiada por uma sociedade culta, contada do ponto de vista de um cavalheiro
náufrago. Um dos oficiais lhe explica: "Nós desta ilha de Bensalem (pois assim eles a chamam em sua
língua) somos da seguinte forma: em razão de nossa situação solitária e das leis de segredo que temos para
nossos viajantes, e nossa rara admissão de estrangeiros, conhecemos bem a maior parte do mundo
habitável, e somos, nós mesmos, desconhecidos."
Bacon então profetiza o "colégio invisível" dos Maçons científicos que fundaram a Sociedade Real,
onde ocorreu o primeiro encontro "conhecido", em 1645 — embora essa história sugira que isso possa ter
ocorrido antes. Ao contar novamente a peça da ilha secreta, o oficial fala de um grande e antigo rei que
proclamara leis sábias para seu povo: "Vocês devem entender (meus caros amigos) que entre os excelentes
atos desse rei, um, acima de todos, se destacava. Foi a criação e instituição de uma Ordem ou Sociedade a
que chamamos Casa de Saio/não, a mais nobre fundação (assim pensamos) que jamais existiu sobre a Terra e o
luminar deste reino. Elaé dedicada ao estudo dos trabalhos e criaturas de Deus. Pensam alguns que o
nome do fundador está um pouco corrompido... mas os registros o escrevem da forma como é falado.
Então eu considero que seja a denominação de um rei dos hebreus, que é famoso para você e não é
estranho para nós."
Explica-se ainda que, a cada 12 anos (lembrando os 12 companheiros que Salomão enviou, em turmas
de três, em busca de Hiram Abiff), dois navios navegam para o mundo em busca de aprendizado: "Que
em cada um desses navios haja uma missão de três dos Companheiros ou Irmãos da Casa de Salomão cuja
missão seja apenas nos trazer conhecimento dos negócios e estado desses países para os quais eles foram
designados, especialmente das ciências, artes, manufaturas e invenções de todo o mundo; e, além disso,
que nos tragam livros, instrumentos e padrões de todos os tipos..."
Então Bacon inclui tudo corretamente num sumário maçônico: "Mas vocês vêem que mantemos um
comércio não por ouro, prata ou jóias, nem por sedas, nem por especiarias, nem por qualquer outra
comodidade da matéria, mas apenas pela primeira criatura de Deus, que foi a Luz."
Como complemento sobre a religião do reino místico, Bacon cita que judeus vivem na ilha, que são
livres para praticar sua religião sem ser forçados a se converter e que em troca "dão a nosso Salvador
muitos altos atributos". Quem dizia isso era um mercador judeu chamado Joabin, cujo nome foi
aparentemente montado por Bacon a partir de Jaquin e Boaz, os nomes dos pilares que ladeavam a entrada do
Templo de Salomão, nomes que foram também aplicados a cumprimentos secretos maçônicos. Tudo isso
leva à firme conclusão de que a Maçonaria estava ali, misturada aos semelhantes de Drake, Hawkins e
Raleigh na Corte de Elizabeth I, e frustrando, tanto secreta quanto publicamente, as ambições católicas
dos jesuítas e de Felipe da Espanha de levar a Inglaterra de volta à autoridade da Igreja Romana.
Certamente surgirão muito mais pistas da existência de atividades da Maçonaria Secreta se apenas
alguns estudiosos de história britânica se encorajarem a sintonizar uma faixa de sua mente no
comprimento de onda da conexão maçônica.
Claro, em contraste com a quase total falta de documentação histórica reconhecida da existência da
Maçonaria Secreta, aqueles que são familiares com a história maçônica sabem que houve freqüentes
alegações, depois que a Maçonaria veio a público, de uma conexão Templária com a Maçonaria. Vimos
uma delas na Maçonaria da "Estrita Observância", de curta duração, que declarava que os Templários
fugitivos haviam viajado para a Escócia, onde se juntaram a uma guilda de pedreiros. Outra alegação, que
também surgiu na França, foi que, enquanto estava na prisão, Jacques de Molay assinara um documento
nomeando um certo Johannes Marcus Larmenius como seu sucessor como Grão-Mestre dos Templários e
que, desde essa data, houve uma sucessão secreta e ininterrupta de Grão- Mestres. Isso foi tudo colocado
em um documento chamado Patente de Transmissão de Larmenius, que provou ser ostensivamente forjado. Atual-
mente, está abrigado no Mark Masons' Hall em Londres. Outros vêem a conexão templária com a
Maçonaria no discurso de Ramsay, embora Ramsay nunca tenha mencionado os Templários pelo nome.
Alguns Maçons rejeitaram as afirmações de uma ligação templária como um complô jesuíta para
prejudicar a Maçonaria, porque na época acreditava-se que os Templários eram culpados de todas as
acusações de arrogância, subversão e heresia que haviam sido lançadas sobre eles. Essa crença na culpa
templária permaneceu viva e foi dramatizada quando o Maçom Sir Walter Scott fez dos Cavaleiros do
Templo — especialmente seu Mestre inglês — os sinistros vilões de seu popular romance Ivanhoé, e mostrou
o Grão-Mestre Templário na Terra Santa como um homem completamente malévolo em O Talismã. Coube
aos historiadores posteriores, ao estudar os julgamentos dos Templários, determinar que eles não foram
inimigos da Igreja, mas sim suas vítimas,
De alguma forma, a antiga relação dos Templários e Maçons fora mantida viva em conceito, mas sem
provas documentais. A resposta de alguns convencidos desse conceito foi tentar criar provas e, como elas
se mostraram falsas, a conexão templária perdeu toda a credibilidade. Uma das teorias propostas, por
exemplo, foi que os Templários haviam deliberadamente escolhido a mesquita de al-Aqsa como
quartel-general porque ficava no sítio do Templo de Salomão, e que, em seus encontros secretos, os
Templários estavam mantendo viva a Ordem da Maçonaria, que havia sido fundada na construção
daquele Templo. Quando ficou claro que a Maçonaria não tinha nenhuma ligação com a construção do
verdadeiro Templo de Salomão, a conexão templária, também, foi rejeitada como uma alegação espúria.
Ao longo dos tempos, as tentativas de ligar a Maçonaria aos Cavaleiros do Templo por meio de fantasia e
mistificação acabaram por eliminar as chances de descobrir a verdadeira fonte da origem maçônica e
dirigiram os pesquisadores maçônicos para alegações ainda mais improváveis de uma origem nos steinmetzen
(pedreiros) da Alemanha, os culdeus, os essênios e os druidas, para as quais não existe nem o mais leve
fragmento de prova.
Da explosão da Maçonaria francesa que se seguiu ao discurso de Ramsay surgiram as "Ordens
Maçônicas de Cavalaria", incluindo uma série de graus laterais nas Ordens Maçônicas dos Cavaleiros de
Malta e dos Cavaleiros do Templo. A Ordem original dos Cavaleiros de Malta, que é o novo nome dos
antigos Hospitalários de São João, ainda existe hoje, reconhecida peloVaticano como um Estado soberano
e com quartel-general em Roma, em um palácio concedido à Ordem, parte da propriedade confiscada dos
Templários. Aparentemente, a declaração de Ramsay de que os cruzados maçônicos haviam efetuado uma
aliança com os Cavaleiros de Malta foi tomada como justificativa para criar uma nova Ordem de Malta
como parte da Maçonaria. Quanto aos Cavaleiros Templários maçônicos, apareceram pela primeira vez
na Alemanha, depois foram para a França e, com variações, estabeleceram-se nos Estados Unidos antes de
1770 e na Grã-Breta- nha por volta de 1778. Nenhuma dessas Ordens se baseava na verdadeira origem da
Maçonaria, a fuga dos Templários das garras do papa Clemente V. Embora as Ordens Templárias
maçônicas ensinem a história da supressão templária e tenham "graus de vingança" empenhados na
desforra pela morte de Jacques de Molay, nossa pesquisa indicou que o Maçom fica, na verdade, mais
próximo de "ser" um Cavaleiro do Templo quando é elevado ao grau de Mestre Maçom no ritual baseado
em acontecimentos reais — mesmo se lembrados apenas de forma alegórica — e não em uma Ordem
constituída muito depois do fato e que não contém nenhum conhecimento ou identificação do verdadeiro
laço entre o Templarismo e o nascimento da Ordem Maçônica. É interessante notar que o apelo para a
associação das ordens cavalheirescas maçônicas é que o iniciado é sagrado cavaleiro. Na verdade, se a
admissão fosse buscada em qualquer das ordens originais dos
Cavaleiros do Templo ou dos Cavaleiros de Malta (Hospitalários), encon- trar-se-ia um requisito
inflexível: o candidato já deveria pertencer à classe cavalheiresca. Sua associação não tornava um homem
cavaleiro, mas o fazia monge, transformação que não seria chamativa para a maior parte dos membros
fraternais de hoje. Além disso, não nos estendemos sobre os graus laterais além da "Loja Azul" básica ou
Maçonaria de Ofício* porque eles não se relacionam com nenhum dos mistérios da Maçonaria Secreta
anterior a 1717; como sociedades "construídas", elas não possuem nenhum mistério próprio não resolvido
e nenhuma conexão direta com a antiga Maçonaria Secreta ou com os Cavaleiros do Templo original.
Essas ligações param com os três graus básicos da Maçonaria de Ofício.
Quanto à Maçonaria de Ofício básica, como poderia ser afetada pela descoberta de que surgiu a partir
de uma sociedade protetora de Templários fugitivos, e não de guildas medievais de pedreiros? Deveriam as
práticas atuais ser abandonadas? É claro que não. A falsa história do pedreiro é parte importante da
tradição maçônica. No tempo em que o Cristianismo tinha de funcionar como sociedade secreta, adotou
uma falsa história de "pescadores". A preservação desse disfarce em simbolismo e canção, mesmo na
decoração da igreja, enriquece o tecido da tradição religiosa, assim como a apresentação alegórica da
Igreja como pastora de um rebanho, como disse Cristo, "alimenta meus cordeiros". Todo o simbolismo e
ritual tradicionais devem permanecer intatos, embora a aceitação das descobertas deste livro fosse exigir
mudanças em alguns aspectos das palestras maçônicas. Essas mudanças ampliariam e enriqueceriam as
tradições da Ordem e poderiam mesmo aumentar o número de inscrições, por serem capazes de citar
origens que são ao mesmo tempo mais sensatas e mais empolgantes do que aquelas citadas aos novos
membros hoje. Segredos que salvam a vida de um homem são muito mais prováveis de ser respeitados do
que segredos de uma companhia, e um sinal secreto de reconhecimento é mais dramático quando usado
para identificar um Irmão de sangue do que para validar o proprietário de um cinzel. As Antigas
Obrigações, também, sairiam de trás da falsa história para serem expostas como as regras básicas de uma
irmandade fundamentada na preservação da própria vida. Nada sobre a origem templária deprecia a
Maçonaria. Na verdade, acrescenta-se muito, especialmente compreensão do nascimento da Maçonaria,
seus propósitos e a construção de uma liberdade religiosa que era tão importante em sua época a ponto de
os homens arriscarem a vida e a liberdade por séculos, sob o escudo dos objetivos comuns que forjam a
verdadeira irmandade. Puseram a vida nas mãos uns dos outros com votos de segurança, segredo e apoio.
E não pode ser mau lembrar à irmandade que o mundo ainda não está num estado tal que possamos
declarar que a liberdade

* N. R.: Este é um termo popular para a Maçonaria Simbólica de três graus.


de religião seja universalmente aceita e assim não precisa ser mantida c o objetivo principal da Ordem, como era nos
dias da Maçonaria Secreta Enquanto esse princípio básico estiver presente, o Templo inacabado de Salomão
permanecerá inacabado.
O PÊNDULO PROTESTANTE

o discutir com Maçons e outras pessoas a conclusão de que a proposta central da

A Maçonaria Secreta era a proteção de seus


membros contra a captura e punição pela Igreja estabelecida,
muitos perguntaram como esse objetivo poderia ter mantido a Maçonaria Secreta unida
pelos dois séculos depois que Henrique VIII tirou a Inglaterra da supremacia da Igreja
romana, período durante o qual essa proteção secreta não seria mais necessária. Por que os
Maçons precisariam esperar duzentos anos, até 1717, para se fazer conhecer? Tornou-se uma
percepção comum, ao menos nos Estados Unidos, que a Inglaterra deixara de ser católica
durante o reino de Henrique VIII e se tornara, irrevogável mente, protestante, como se
houvesse girado um interruptor. Uma breve olhada no clima religioso da Grã-Bretanha desde
o primeiro rompimento com Roma até 1717 deve esclarecer a resposta à importante questão
da época escolhida pela Maçonaria para sair do segredo.
A 22 de agosto de 1485, o rei Ricardo III da Inglaterra perdeu o trono e a vida na batalha
de Bosworth. O vencedor foi Henrique Tudor, o conde galés de Richmond, que subiu ao trono
como rei Henrique VII. Ele teve de solidificar sua posição não apenas em casa, como novo rei,
mas entre as nações da Europa também, como fundador de uma nova dinastia. O primeiro
movimento efetivo em seu país foi se casar com Elizabeth de York, herdeira de seus maiores
rivais domésticos. Buscando no continente por alianças, conseguiu facilmente uma forte
afiliação com o novo poder espanhol que havia sido criado pelo casamento do rei Fernando de
Aragão com a rainha Isabel de Castela, que, juntos, estavam adquirindo mais território ex -
pulsando os mouros da Espanha. Ficou muito comprazido em arranjar o noivado de seu filho
mais velho, o príncipe Artur, com a princesa Catarina de Aragão, filha de Fernando e Isabel.
Seu filho mais jovem, Henrique, foi educado para servir à Igreja, o que era equivalente a uma
aliança com Roma. Sua filha Margarida casou-se com o rei Jaime IV da Escócia. Sua
filha Maria foi prometida ao rei da França, o duque de Suffolk, que era muito mais velho, união
que produziu a trágica Lady Jane Grey.
A principal aliança européia de Henrique Tudor aparentemente se desfez quando da morte do
príncipe Artur, atacado pela tuberculose em 1502. O segundo filho, Henrique, era agora o herdeiro
do trono, mas não podia manter a aliança com Fernando e Isabel casando -se com a viúva de seu
irmão porque a Igreja sustentava que o casamento com um parente por afinidade era tão
incestuoso quanto o casamento com um parente de sangue. A resposta de Henrique VII e Fernando
foi unir forças para conseguir uma dispensa papal que pusesse de lado essa política da Igreja, e
conseguiram. O trono inglês passou para Henrique VIII, de 18 anos, em 1509, e em seis semanas ele
se casou com a viúva Catarina de Aragão, com as bênçãos da Santa Sé.
O firme estabelecimento da dinastia Tudor foi uma preocupação tão importante para ele
quanto fora para seu pai, mas Henrique VIII e sua rainha não pareciam capazes de pr oduzir um
herdeiro varão saudável. Em 18 anos de casamento a rainha experimentou uma série de natimortos
e abortos. Apenas um filho sobreviveu às dores do parto, em 1511, mas mor reu um mês e meio
depois. Então, em 1516, nasceu uma filha que sobreviveu e tinha aparência saudável, a princesa
Maria. Finalmente, Henrique convenientemente se convenceu, e tentou persuadir os outros, de que
Deus estava lhe negando um herdeiro varão como punição por seu tremendo pecado de se casar
com a viúva de seu irmão. A solução que encontrou foi solicitar ao papa Clemente VII que
rescindisse a dispensa papal anterior que permitira o casamento fora das regras da Igreja, o que
acabaria com esse longo e improdutivo casamento com Catarina de Aragão. Isso tam bém tornaria o
nascimento da princesa Maria ilegítimo.
Henrique fizera as coisas de seu jeito, mas escolhera um mau momento. O imperador Carlos V
havia invadido a Itália e estava em Roma com um exército. Ele não estava disposto a deixar que o
papa cancelasse a posição marital legal da rainha da Inglaterra, que era sua tia. A discussão se
arrastou por cinco anos e, durante esse tempo. Henrique VIII determi nou-se e se casou com Ana
Bolena, mãe da futura rainha Elizabeth I.
O fracasso do cardeal Thomas Wolsey, o chanceler de Henrique, em conseguir a rescisão da
dispensa papal trouxe sua queda, para grande satisfação de muitos na corte inglesa. O poder de
Wolsey fora grande e sua ganância era legendária. Mais de mil servos atendiam a suas necessidades
em diversos palácios, incluindo o magnífico Hampton Court Palace, que ele construiu para si com o
dinheiro da Igreja e do Estado. Ele enriquecera seu filho ilegítimo com benefícios da Igreja, que
trouxeram àquele jovem felizardo uma incrível renda de mais de 2.700 libras por ano, mai s do que
suficiente para despertar a inveja e a inimizade de barões e condes. E havia também a questão da
terra: a Igreja nunca parecia capaz de conseguir o suficiente, e raramente cedia alguma, mesmo
pela venda. Ela recebia terra, comprava
terra e tomava terra como multa e punição. Essa terra permanecia em grande parte não taxada, e a
maior parte de sua renda ia para Roma ou para proprietários ausentes de benefícios ingleses.
O fato é que Henrique, sozinho, não poderia ter rompido com Roma, mas, na atmosfe ra que
rodeava a Igreja na Inglaterra, ele teve o apoio de todos os níveis da sociedade. Henrique VIII
também não tinha em mente uma Igreja protestante ao romper com Roma. Ele se considerava um
católico muito devoto em tudo, exceto à supremacia papal. Tinha orgulho de ter recebido o título de
defensor da fé pelo papa Leão X como recompensa por seu tratado Em Defesci dos Sete
Sacramentos, um trabalho que categoricamente expunha e condenava as heresias do monge
agostiniano Martinho Lutero. Apoiava a morte na fogueira como a punição apropriada para a
negação da doutrina da transubstanciação. O que Henrique queria era uma Igreja Católica inglesa
("anglicana") administrada pelo governante da Inglaterra, em vez de uma Igreja Católica Romana
administrada por um papa estrangeiro. Opositores e dissidentes da doutrina católica na Inglaterra
tinham tanto a temer de Henrique VIII quanto tinham de Clemente VII. O papa declarou que os
súditos de Henrique VIII não gozariam mais de proteção papal contra a escravização pelos outros
cristãos e que qualquer conquistador da Inglaterra estava, dali em diante, livre para vendê -los nos
mercados de escravos. Henrique permitiu a publicação e a distribuição da Bíblia em inglês, mas'se
arrependeu. Mais tarde, tentou limitar seu uso às classes privilegiadas, mas era tarde demais: outra
geração havia provado o fruto da árvore do conhecimento, e queria mais.
E havia toda aquela terra. Os cortesãos que rodeavam Henrique VIII nunca se cansavam de
relembrar quantos cavaleiros, barões e condes partidários poderiam ser mantidos com uma
redistribuição daquela riqueza quase imensurável, mais de um terço da superfície de todo o país.
Observaram também que todos os centros monásticos podiam se conluiar e se subverter para
devolver a Inglaterra à supremacia de Roma, As comunidades religiosas tinham pouco a oferecer
como refutação, uma vez que muitas gerações de vida mansa com exércitos de servos, vilões e
empregados haviam tornado muitas delas indolentes e, com freqüência, ostensivamente imorai s. Em
1536 e 1539, os monastérios foram dissolvidos. O rei não pegou toda a terra para a Coroa, mas
vendeu as propriedades maiores por preços baixos a seus partidários, firmando neles a
determinação de manter a Inglaterra separada de Roma. O lucro produziu uma grande euforia
anti-romana na maior transferência de títulos imobiliários desde Guilherme, o Conquistador,
Esses proprietários de terra deram um sólido apoio ao filho de Henrique, Eduardo VI, que subiu
ao trono em 1547, aos 10 anos. Governou por apenas seis anos e morreu pouco antes de seu 16 ü
aniversário, mas, segundo suas próprias tendências e aquelas de seus conselheiros, abriu as portas à
Reforma Protestante. Repeliu as leis de heresia. Foi no segundo ano de seu
reinado que a Inglaterra viu a publicação em inglês do Livro de Oração Comum, do arcebispo
Cranmer, que apresentava um programa de devoção uniforme na Igreja inglesa que divergia o
bastante da prática romana para causar uma rebelião armada quase imediata no sudoeste da
Inglaterra.
Quando o jovem rei estava morrendo de tuberculose, seu principal "protetor', o duque de
Northumberland, usou a devoção do rei à reforma da Igreja para implementar um esquema
próprio. Baseado no fato de que a irmã de Eduardo, Maria, a herdeira do trono, era firmeme nte
católica, Northumberland fez com que Eduardo VI designasse sua prima, Lady Jane Grey, como
herdeira da Coroa. Ela era apenas a quinta na linha de sucessão, mas aparecia em primeiro nos
planos de Northumberland, pois ele arranjara o casamento dela com seu próprio filho.
A morte chamou Eduardo VI em 1537. Henrique VIII deixara a In glaterra católica anglicana.
Eduardo VI a descentralizara em direção ao protestantismo.
O plano do duque de Northumberland de ser o verdadeiro poder por trás da rainha Jane I caiu
por terra em pouco mais de uma semana, e isso lhe custou a cabeça. Lady Jane Grey sentou -se no
trono da Inglaterra por apenas nove dias antes de ser derrubada pela reivindicação superior da
filha de Henrique, Maria, que governou por cinco anos como rainha Maria I, mas é quase sempre
chamada de "Maria Sanguinária" (Bloody Mary). A nova rainha ganhara apoio prometendo a
tolerância religiosa e, mais importante, assegurando aos grandes lordes que eles não teriam de
devolver as terras monásticas que haviam adquirido com tantas vantagens. Ela manteve a última
promessa, mas ignorou completamente a primeira. Cancelou as leis anti -romanas iniciadas por seu
pai e seu irmão e restaurou a Igreja inglesa à supremacia de Roma em um espírito de dedicação
implacável. Ela via a oposição à Igreja romana como traição e heresia. Mandou os bispos anglicanos
Latimer e Ridley à fogueira em Oxford em 1555, conce- dendo-lhes a mercê de ter sacos de pólvora
pendurados no pescoço, e queimou o arcebispo Cranmer no mesmo lugar no ano seguinte. Elizabeth
I coordenaria trezentas execuções em seu reinado de 45 anos. Maria conse guiu empatar esse
número em três. Na busca de um monarca católico para governar ao lado dela, casou -se com o rei da
Espanha e insistiu para que ele reinasse como rei da Inglaterra e não como príncipe consorte, um
conceito que nem mesmo seus súditos católicos poderiam aceitar facilmente, em razão do medo da
dominação política espanhola. Maria criou um reino de terror, com execuções na fogueira e
decapitações que atiraram os dissidentes da Igreja romana em um segredo muito maior do que
antes.
Uma das cabeças que estava prestes a rolar a qualquer momento era a da irmã mais jovem de
Maria, Elizabeth, uma protestante secreta que preservara sua vida adotando a atitud e de total
servidão e mandando dizer a missa todos os dias em sua casa de campo. Estava determinada a
mostrar
que não se podia encontrar católica mais devota na Inglaterra, sua única esperança de proteção
contra sua sanguinária irmã.
Por causa disso, quase todo mundo acreditava, incluindo o papa, que quando ascendesse ao
trono como rainha Elizabeth I, ela continuaria a manter a posição exclusiva da Igreja romana na
Inglaterra. Na verdade, fizeram- se negociações para tentar um noivado com Felipe da Espanha,
um paladino da Igreja. Mas, pouco a pouco, os verdadeiros sentimentos de Elizabeth se revelaram,
conforme ela organizava sua corte. Reinstaurou as leis anti- Igreja de seu pai e de seu irmão, que a
rainha Maria havia posto de lado, e acabou por ser excomungada pelo papa, que decretou que os
católicos ingleses não deviam mais nenhuma submissão nem obediência a ela. O rompimento
definitivo com a Igreja deu a Elizabeth três inimigos católicos romanos determinados; um ao norte,
um ao sul e um na obscuridade.
A ameaça do norte era um possível assassinato, porque a herdeira do trono no caso da morte de
Elizabeth era sua prima, Maria Stuart, rainha dos escoceses, que era católica convicta e podia
contar com a ajuda da Igreja e das monarquias católicas continentai s. Uma rebelião irrompeu em
1569, liderada pelos condes católicos no norte da Inglaterra, e os próximos anos viram uma onda de
complôs para assassinar a rainha inglesa. Em 1586, Maria Stuart, imprudentemente, deixou -se
envolver com um grupo liderado por um católico raivoso chamado Anthony Babington, que
extraíra de seus seguidores a promessa de assassinar Elizabeth. Embora Elizabeth tentasse evitar
envolvimento pessoal, Maria, a rainha dos escoceses, foi presa por alta traição e executada no ano
seguinte.
O inimigo ao sul era o rei Felipe da Espanha, Sua Majestade Católica, que estava
intelectualmente dedicado a derrubar a rainha herética e economicamente exasperado pelos
sucessos marítimos de Drake, Hawkins, Grenville e Raleigh, que haviam desafiado com su cesso a
supremacia da Espanha nas Américas. Apenas ensinar aos ingleses uma lição não basta ria. Seria
necessário a invasão e a total conquista do reino e sua devolução a Roma. Em maio de 1588, Felipe
estava pronto, ele havia reunido uma força naval de 130 navios, incluindo galés portuguesas e
venezianas. Sua intenção era transportar 20 mil soldados e conseguir mais 16 mil dos Países Baixos
espanhóis e passar a invadir a costa sul da Inglaterra. Felizmente, para a Inglaterra, a armada
espanhola era mal planejada, mal liderada e azarada. Os ingleses deram largas ao massacre com
suas embarcações mais rápidas e armas de maior alcance, com ventos que favoreciam seus navios de
ataque. Enquanto os espanhóis corriam para casa, navegando para o norte em torno da Esc ócia e da
Irlanda, foram atingidos pelo inflamado "temporal protestante" nas costas rochosas e sofreram
mais com o clima do que com o inimigo. A população anti-romana da Inglaterra se regozijou,
confiando em que Deus estava do seu lado.
O terceiro inimigo não era tão fácil de rechaçar. Era a Ordem Jesuíta, dedicada e bem treinada,
que preparara muitos de seus soldados de Cristo
especificamente para o serviço secreto na Inglaterra, onde deveriam organizar os católicos locais,
liderá-los e derrubar Elizabeth de seu trono herético, matando-a, se necessário. Em alguns casos eles se
moveram abertamente, disfarçados como mordomos e outros criados da nobreza católica. Muitos
permaneceram escondidos, rezando missas em casas católicas, prontos para correrem para seus
esconderijos secretos, ou "buracos do padre", ante a aproximação de caçadores de padres. Muitos desses
esconderijos eram extraordinariamente engenhosos, mas nenhum mais do que aqueles planejados e
construídos nas casas de católicos leais pelo mestre dos buracos de padre, Nicolau Owen. Ele foi
capturado, torturado e, finalmente, executado em 1606, mas seus serviços incomuns não foram
esquecidos. Foi canonizado como santo da Igreja Católica Romana mais de 360 anos depois, em 1970.
A Inglaterra sob Elizabeth I inclinou-se mais em direção ao Protestan- tismo, mas muito mais
protestante do que ela tinha em mente. Por mais longe que tenha ido, tinha súditos que queriam ir ainda
mais longe. Alguns rejeitaram não apenas a suserania da Igreja de Roma, como também o governo da
Igreja inglesa pelo trono. Assim, o reinado de Elizabeth viu o nascimento do puritanismo e seu conceito
de "presbitério", o governo da congregação por seus próprios ministros e anciãos. A reação puritana
contra os ricos cerimoniais, vestimentas e decoração das igrejas introduziu uma nota de austeridade
severa e sem compaixão no novo Protestantismo. Sua influência se espalhou, tanto no Parlamento como
pelas vilas e cidades. Para eles, a Igreja anglicana e sua hierarquia eram contrárias às Escrituras, embora
não tanto quanto a denominação católica romana. Mas eles eram muito semelhantes aos papas medievais
em uma coisa: reivindicavam o direito de determinar a moralidade, além do direito de punir aqueles que
se afastassem dessa determinação.
Eis a situação religiosa que Elizabeth deixou atrás de si ao morrer, em 1603: os católicos romanos
subjugados, os católicos anglicanos controlando a Corte, os novos protestantes em ascensão. Era um
distúrbio que levou a mais distúrbios e, por fim, à guerra civil. Nesse meio tempo, a Casa de Tudor abriu
caminho para a Casa de Stuart e a união das Coroas inglesa c escocesa cm um monarca de quem Thomas
Macaulay disse: "Era feito de dois homens — um estudioso culto e engenhoso que escrevia, discutia e
fazia discursos, e um idiota nervoso e tagarela que atuava."
Jaime VI da Escócia era filho de Maria, rainha dos escoceses, e bisneto de Henrique VII. As dinastias
Stuart da Inglaterra e da Escócia se uniram nele quando assumiu a Coroa inglesa como Jaime I, após a
morte da rainha Elizabeth, em 1603. Ficou feliz em deixar os irritantes presbíteros, que estavam se
expandindo rapidamente na Escócia, mas nada contente com a crescente seita puritana que encontrou na
Inglaterra. Quanto a ele, estava feliz em ser governador da Igreja anglicana, embora glori ficasse esse
papel mais do que aqueles em torno dele quando escreveu: "Os reis são imagens vivas de Deus na Terra."
Tal posição católica secreta continuou, com complôs de assassinato, culminando no esquema de um
grupo de católicos que alugaram um depósito de carvão sob a câmara parlamentar. Encheram o depósito
com barris de pólvora, planejando explodir o rei e todo o Parlamento puritano-anglicano no dia de sua
abertura, 5 de novembro de 1605. O plano foi descoberto, a pólvora removida e um conspirador, Guy
Fawkes, foi preso e executado. A única explosão causada pelo plano da pólvora foi a da raiva anticatólica
intensificada. Até hoje, as pessoas em toda a Inglaterra se lembram de Guy Fawkes todo 5 de novembro
com fogos de artifício e fogueiras, nas quais queimam um boneco. Hoje todos imaginam que a figura seja
de Guy Fawkes, tendo esquecido que, até algumas gerações atrás, o ápice da excitação no Dia de Guy
Fawkes em muitas aldeias da Inglaterra era a queima da efígie do papa.
Jaime I não se dava bem com a Câmara dos Comuns, nem com o crescente número de puritanos nela,
mas deixou-se persuadir de que os indivíduos bretões se beneficiariam com o estudo da Bíblia. Autorizou
um grupo de estudiosos a traduzir a Bíblia para inglês, e sua "Versão King James" da Bíblia tornou-se
um best-seller instantâneo. Até hoje, esse é o livro mais vendido que existe. Infelizmente, para seu ponto de
vista, ele propiciou a causa do Protestantismo. Os homens podiam ler, ponderar, debater e se reunir uns
com os outros para chegarem a conclusões similares, conclusões que, no tempo de Jaime, levavam, às
vezes, a perseguições como aquelas que acabaram originando a viagem do Mayflower durante seu
reinado.
Quando morreu, em 1625, Jaime I deixou um reino britânico combinado que experimentava um novo
ódio e temor do catolicismo romano. A Igreja Católica anglicana era a religião oficial do Estado, mas os
novos movimentos protestantes estavam fortalecendo seus músculos nos distritos e especialmente na
Câmara dos Comuns.
Seu sucessor, o rei Carlos I, foi descrito como "um santo jovem de 24 anos". Ele pode ter sido santo,
mas viveu toda a sua vida como se o mundo real estivesse por trás de uma neblina que ele não conseguia
atravessar. Casou-se com a princesa Henrietta Maria da França, católica convicta, e aparentemente não
podia compreender por que esses barões e parlamentares anglicanos expressavam preocupações quanto
ao fluxo de católicos estrangeiros para a Corte inglesa. Em desacordo com a Câmara dos Comuns, que era
a única que podia impor taxas, Carlos levantou fundos da Coroa com engenhosos esquemas próprios,
assim como impor pesados tributos para a concessão da qualidade de cavaleiro e pesadas punições sobre
os cavaleiros ricos que declinavam da cara honra. Seu principal conselheiro em assuntos religiosos era o
arcebispo Laud, que tentava devolver o complexo ritual e as elaboradas vestimentas à Igreja inglesa,
precisamente a visão oposta dos parlamentares puritanos. Laud impôs suas idéias ritualísti- cas à Igreja
da Escócia e o resultado foi uma revolta armada. Carlos I rejeitou as declarações do Parlamento de que
eles não tinham nenhuma influência sobre a estrutura ou conduta da Igreja anglicana e que não ti -
nham controle algum sobre as forças militares. De acordo com esse ponto de vista, a Igreja e o
exército pertenciam apenas ao rei. A dissensão cresceu até o dia — janeiro de 1642 — em que o rei
entrou na Câmara dos Comuns com uma guarda armada com a intenção de prender pessoalmente
cinco de seus membros. Nenhum deles estava em sessão, e tudo o que Carlos conseguiu em troca de
sua dramática interrupção dos procedimentos foi uma real descompostura do presidente do
Parlamento (suas palavras foram.aparentemente ouvidas, pois nenhum soberano britânico cr uzou
o pórtico da Câmara dos Comuns desde aquele dia). Por volta de agosto daquele ano, a situação se
degenerara em um estado de guerra civil, com Carlos I de um lado apoiado pela Igreja, a
Universidade de Oxford e o gentio rural do norte e do oeste. Do ou tro lado, a Câmara Puritana dos
Comuns contava com a riqueza das cidades comerciais do sul, incluindo Londres. Carlos tinha o
apoio das idéias; os Comuns tinham o dinheiro. Com ele, eles criaram um novo exército -modelo
comandado por um membro, Oliver Cromwell, que, finalmente, derrotou as forças reais, em 1646.
Para consolidar essa vitória, eles determinaram colocar o rei em julgamen to. Para seu crédito,
Carlos I se defendeu com clara lógica e dignidade real, mas sem, aparentemente, atinar com o fato
de que ele não fora colocado à vista do público para ser julgado, mas para ser culpado. Hoje
mostra-se aos turistas a janela através da qual o rei foi levado do salão de festas de seu novo palácio
de Whitehall, a 30 de janeiro de 1649, para um alto cadafalso onde sua cabeça foi cortada diante da
multidão na rua. Poucos dias depois, os Comuns votaram a favor da abolição da monarquia como
"desnecessária, prejudicial e perigosa para a liberdade, segurança e interesses públicos do povo". O
herdeiro do rei, que se tornaria Carlos II, vivia no exílio na França católica. O país que ele um dia
governaria era, naquele momento, firme e rigorosamente puritano.
Cromwell, que governou como potencial ditador com o título de Lorde Protetor, não tinha
espaço em seu coração ou mente para a tolerância e esforçou-se para provar o quão desagradável a
religião pode ser. Leis sem fim foram publicadas contra práticas tais como o trabalho no Sabá e
impu- seram-se penalidades severas para a profanação, criando uma atmosfera que deprimia o
povo e descontentava o exército. Cromwell tinha a força de vontade e a devoção à disciplina
necessárias para manter tal sociedade unida, mas a tarefa era grande demais para seu filho, que
recebeu um manto de governador após a morte do pai, em setembro de 1658. Finalmente, o exército
interveio, depôs o ineficaz jovemfl protetor e convidou Carlos II para receber novamente sua coroa.
Ele chegou a Londres cm seu 30 aniversário, a 29 de maio de 1660.
Carlos II era católico em segredo, mas tinha suficiente bom senso para perceber que seu melhor
artifício para permanecer com a coroa era inclinar-se para a moderação e a tolerância, trabalhando
contra propostas tais como a exclusão de todos, exceto católicos e anglicanos, do serviço do governo.
Persistiam rumores de que Carlos II havia feito um tratado secreto com o rei da França, no qual
concordava em trabalhar para devolver a Grã-Bretanha à Igreja romana, em troca de uma larga soma de
dinheiro. Esses rumores foram reforçados, muito recentemente, em 1988, quando lorde Clifford de
Chudleigh declarou que iria leiloar alguns antigos documentos dos arquivos de sua família. Entre eles,
havia uma cópia assinada do acordo segundo o qual Carlos trabalharia para devolver a Bretanha à Igreja
romana em troca de um pagamento de 1,2 milhão de libras de ouro (não há registro de que a soma tenha
sido paga).
O acontecimento mais dramático do reinado de Carlos foi o Grande Incêndio de Londres em 1666.
Novamente, o humor do povo estava inflamado contra a Igreja Católica e correram rumores de que o fogo
fora iniciado por agentes do papa. Nell Gwynn, uma das amantes do rei, salvou-se declarando a uma
multidão raivosa que bloqueava seu caminho: "Bom, povo, eu sou a prostituta protestante/" Os próprios
sentimentos verdadeiros do rei despontaram durante as últimas horas de sua vida, em fevereiro de 1685,
quando, a seu pedido, um padre católico foi trazido pelos fundos para administrar os últimos sacramentos
da Igreja.
Durante os últimos anos de seu reinado, Carlos II repetidamente ouviu pedidos para excluir seu irmão
mais novo, Jaime, da sucessão, porque Jaime era católico romano devoto. Os cortesãos queriam o filho
ilegítimo do rei, o duque de Monmouth, que era protestante convicto. Carlos recusou-se con-
sistentemente, de forma que, após sua morte, a coroa passou para um monarca católico determinado,
Jaime II. Monmouth fez uma tentativa de tomar o trono, atacando na região oeste, onde tentou promover
uma rebelião. Suas forças foram rapidamente derrubadas, mas o povo ficou chocado com a brutalidade
das punições decretadas pelo juiz George Jeffreys. Homens foram executados, marcados e vendidos em
correntes para os plantadores de açúcar caribenhos. Um aldeão foi executado por vender um pouco de
peixe aos rebeldes, caso em que o pobre homem não tinha nenhuma escolha. Essa brutalidade recaiu
sobre o governo, iniciando-se assim uma nova onda de perseguições a protestantes. Jaime II substituiu
oficiais do governo, incluindo almirantes e generais, por seus nomeados católicos. Perseguiu tambénvíete
bispos anglicanos.
A existência da Maçonaria durante o reinado de Carlos II foi bem documentada e, no reino sucessor
de Jaime II, ela apenas poderia ter crescido, pois o próprio rei era o Mestre para o recrutamento. Com sua
incansável campanha para devolver à Igreja romana a supremacia na Bretanha porquaisquer métodos
disponíveis, Jaime uniu todas as seitas anti-romanas pela primeira vez em uma causa comum. Houve
planos, complôs e encontros secretos, e podemos estar certos de que, como a sociedade secreta mais bem
estabelecida, a Maçonaria representava um papel fundamental.
As pessoas estavam perdendo tempo, pois não havia herdeiro. A Co roa católica morreria com
Jaime II. Então, em junho de 1688, a rainha deu à luz um filho e o rei declarou que a e ducação e a
criação do menino seriam entregues aos cuidados dos jesuítas. Os protestantes iniciaram um rumor
de que a sucessão era um plano jesuíta, que não havia príncipe da Coroa e que o bebê havia sido
enfiado no dormitório real dentro de uma panela.
Finalmente, um grupo de líderes protestantes, entre os quais estava o bispo de Londres, decidiu
agir. Foram ter com Maria, a própria filha de Jaime, que havia se casado com seu primo Guilherme
de Orange, sobrinho de Carlos II. Juntos, eles eram os mais forte s pretendentes masculino e
feminino ao trono após o filho recém-nascido de Jaime II. Mais do que isso, Guilherme era líder dos
holandeses protestantes contra o católico Luís XVI* da França. Partindo da suposição de que o
bebê não era o verdadeiro filho de Jaime II, Guilherme e Maria foram convidados para dividir o
trono inglês. Quando Guilherme chegou, no Dia de Guy Fawkes, 5 de novembro de 1685, o apoio
para Jaime II caiu por terra. Isso foi apenas 32 anos antes que a Maçonaria se fizesse conhecer em
Londres, em 1717.
Dezesseis anos depois, em 1701, foi aprovada uma lei que excluía do trono todas as pessoas,
exceto os membros da Igreja da Inglaterra. Che- gou-se a um acordo religioso para garantir
liberdade limitada de devoção religiosa para protestantes n ão anglicanos (os "não conformistas").
De maneira significante, esse foi o fim do direito divino dos reis na Grã-Bretanha. Estava claro que
o Parlamento decidiria quem ocupava um assento real.
Embora Guilherme propusesse aderir à tolerância religiosa, uma mancha em seu registro diz o
contrário. Ele exigiu que todos os líderes dos clãs católicos da Escócia assinassem documentos de
submissão. Um líder de um pequeno grupo do clã dos MacDonald no vale de Glencoe ultrapassou o
prazo em alguns dias, enquanto atravessava uma tempestade de neve para assinar por seu povo. O
preço pago é lembrado como o massacre de Glencoe: um banho de sangue nas Highlands no qual
pessoas de todas as idades e ambos os sexos foram massacrados como punição pelo atraso de seu
chefe. Os sentimentos religiosos permaneceram elevados e a morte de Gui lherme foi
cerimoniosamente lembrada por anos. Ele morreu por conta de ferimentos causados quando seu
cavalo tropeçou num buraco de toupeira em Hampton Court, e os jacobitas, agradecidos, honr aram
a toupeira com o discreto brinde: "Ao pequeno cavalheiro em veludo negro."
Assim, em 1701, a coroa passou para Ana, filha protestante de Jaime II, cujo corpo de 37 anos
havia sido danificado por 17 gravidezes, das quais nenhuma resultou em um herdeiro vivo para o
trono.

♦ N. T.: provavelmente um engano do autor, já que na época o rei da França era Luís XIV, o Rei Sol. Luís XVI seria o monarca no período da
Revolução Francesa, pouco mais de cem anos depois.

A rainha Ana, a última dos Stuarts, foi uma soberana bastante comum, mas diversos acontecimentos
espetaculares ocorreram durante seu reinado. A onda de vitórias continentais sob o duque de
Marlborough estabeleceu um novo respeito para as proezas militares britânicas. A Sociedade Real
prosperou com homens de letras e ciências, como John Locke e Isaac Newton, e o Maçom Sir Christopher
Wren continuou a expressar seu gênio na restauração da Catedral de São Paulo. Em 1707, o Ato de União
entre a Inglaterra e Escócia combinou essas Coroas irrevogavelmente e formou a Grã-Bretanha.
Quanto à religião, Ana era firmemente ligada à Igreja da Inglaterra e chegava a conceder dinheiro
real para melhorar a vida do baixo clero, uma graça que esses cavalheiros chamaram "A Generosidade da
Rainha Ana". Em Roma, a Santa Sé ainda se lembrava da lealdade de sua família e de boa vontade deu
abrigo ao homem que seria Jaime III. Ainda havia complôs jacobitas na Grã-Bretanha para os
pretendentes católicos romanos ao trono, mas tal restauração precisaria ser feita por força, uma vez que
era expressamente proibida por lei. Em 1689, Jaime II e seu filho haviam sido especificamente negados à
sucessão por um ato do Parlamento que afirmava categoricamente que nenhum católico romano ou
esposa de um católico romano poderia ocupar o trono britânico. Então, em 1701, o Parlamento havia sido
mais específico. No ato de sucessão deles decretaram que, após a rainha Ana, a coroa passaria para o mais
próximo parente protestante da casa de Stuart. Tratava-se de Sofia, neta de Jaime I, que era casada com o
de Hanover.
Portanto, após a morte de Ana, em 1714, o filho de Sofia fundou a dinastia hanoveriana na
Grã-Bretanha como o rei George I. Ele nunca se preocupou em aprender inglês e passou mais tempo em
casa, na Alemanha, do que em sua Corte em Londres, mas isso não importa mais. Seu país era governado
pelo Parlamento, conforme a nova monarquia tomava a forma e Robert Walpole se tornava o primeiro
primeiro-ministro da Inglaterra.
No ano seguinte, a rebelião jacobita tão esperada se iniciou e foi um fracasso de curta duração. Foi
derrubada tão rapidamente que terminou antes que Jaime pudesse chegar à Grã-Bretanha para se juntar
a ela. A causa jacobita, a luta para devolver a Grã-Bretanha à Igreja romana, fora efetivamente quebrada
— apenas quatro anos antes que as quatro Lojas Maçônicas em Londres decidissem se revelar ao mundo.
Agora, realmente, os Maçons não tinham mais necessidade de segredo, nenhuma razão para se esconder
das autoridades estabelecidas ou de conspirar contra elas. A Maçonaria se tomara a autoridade estabelecida.
Os MISTÉRIOS FABRICADOS
Ste livro tratou dos principais mistérios da antiga Ordem dos Ma - çons Livres e Aceitos,

E dos quais a maioria foram mistérios para os


próprios Maçons, e deu soluções sensatas para quase todos eles ,
que apóiam a principal conclusüo desta pesquisa — que as origens da Maçonaria
residem nos membros e amigos da Ordem dos Cavaleiros Templários que fugiram da
prisão c da tortura do rei e do papa. Porém, estamos cientes dc que muitas pessoas acharam
este livro incompleto porque nfio tratados mistérios e problemas maçônicos sobre os quais
leram ou ouviram falar: E quanto à adoração maçônica ao diabo? E quanto il
responsabilidade maçônica por corromper o Vaticano na maior fraude financeira de nosso
tempo? E quanto à infiltração secreta na lei e no governo? E a ligação com
a KGB?
Nosso primeiro pensamento foi ignorá-los. porque são"mistérios"que nilo emanam do
ritual, da história ou mesmo das lendas da Maçonaria, Em vez disso, foram alegados e
falsificados, e mesmo promovidos, por escrito- res antimaçônicos. Nos últimos anos, cada vez
mais aumenta a opiniflo antimaçônica, especialmente na Grã-Bretanha, aparentemente
baseada em um livro intitulado The Brotherhood(A Irmandade), do jornalista britânico
Stcphen Knight. Era 1976, o Sr. Knight atraiu a atenção do mundo com seu livro Jack lhe
Ripper — The Final Solution (Jack, o Estripador — A Soluçüo Final), que se propunha a
solucionar os assassinatos dc Jack. o Estripador, em Londres, provando que foram
perpetrados e encobertos por Maçons proeminentes, e que as mutilações sangrentas das
vítimas estavam, de acordo com as penalidades dos juramentos maçônicos. O livro resultou
Primeira prtgina de jornais c foi divulgado pelo rádio e pela televisflo. Uma versilo liccion al
da história foi apresentada em um filme chamado Murder hy Decree (Assassinato por
Decreto), no qual Sherlock Holmes resolve o mistério e enfrenta os Maçons culpados*.

, J- B «livro do Kntghl deu também origem | mais duas obras, a série cm

quadrinhos"Do inferno", dc Alan Moore | Ecklie Campbell. c o filme de

mesmo nome. com Johnny Depp de 2001.


Como seqüela desse sucesso de publicação, o Sr. Knight escreveu The Brothcrhood. O subtítulo
desse livro de capa dura era O Mundo Secreto dos Maçons. A edição em brochura tinha um subtítulo
ainda mais sensacional: Revelação Explosiva do Mundo Secreto dos Maçons. Publicado pela primeira
vez em 1984, o livro causou sensação na Grã-Bretanha e no resto do mundo. O Sr. Knight foi
rapidamente elevado à posição da maior autoridade sobre os males e potenciais males da Maçonaria
e deve permanecer na história como o anti-Maçom mais influente do século XX. Como tal, seria
inevitável que eu estudasse seu livro para ver se sua pesquisa trazia alguma informação significativa
que pudesse levar à solução dos mistérios maçônicos, ou se lançava nova luz sobre a origem da
Ordem. Seu livro nao foi útil em nenhuma dessas áreas, mas foi fascinante, porque se tratava de um
estudo conciso sobre como a informação pode ser colorida e retorci da, como os fatos podem ser
mudados e citados de forma incompleta ou fora de contexto, e até onde alguém pode forçar dados
para que caibam em uma conclusão preconcebida. Esse livro criticou os historiadores maçô nicos
por tentar forçar as informações sobre a Ordem num conceito preconcebido de origem nos
pedreiros medievais, então, para ser justo, ele deveria criticar a mesma técnica quando utilizada
por seus detratores.
O Sr. Knight nunca revela a seus leitores qual sua verdadeira posição; assim, antes de examinar
alguns dos mistérios maçônicos que ele implantou em seus leitores, deixe -me afirmar que não sou, e
nunca fui, Maçom e nao sou, e nunca fui, católico romano. Convido livremente cada um desses
grupos ao cuidadoso escrutínio e crítica relativos àquilo que encontrei na análise de The
Brotherhood.
Primeiro, vamos tratar da mais condenatória de suas conclusões so bre a Maçonaria. em um
i4
capítulo chamado 0 Diabo Disfarçado?" Nesse capítulo, o Sr. Knight cita a encíclica papal
Humanum Genus% um extraordinário documento publicado em 1884 pelo papa Leão XIII. O Sr.
Knight diz: "Leão XIII classificava a Maçonaria como um agrupamento de sociedades no 'Reino de
Satã'/' O que o papa realmente disse foi que o Exército da Salvação, a Igreja Batista, os budistas e os
mórmons — na verdade cada membro da raça humana que não fosse católico romano — eram parte
M
do "Reino de Satã . Mas, para que eu não pareça estar interpretando, deixemos que Leão XIII fale
por si mesmo:
"0 Gênero Humano [Humanum Genus], após sua miserável queda de Deus, o Criador e Doador
dos dons celestes, 'pela inveja do demônio', dividiu-se em duas parles diferentes e opostas, das
quais uma assidua- mente luta pela verdade e a virtude e a outra por aquelas coisas que são
opostas à virtude e à verdade, Uma é o Reino de Deus na Terra, especificamente, a verdadeira
Igreja de Jesus Cristo; c aqueles que desejam do fundo da alma estar unidos a cla, dc modo a
receber a salvação, devem necessariamente servir a Deus e a Seu único Filho com toda a sua
mente e com toda a sua vontade. A outra é o reino de Satanás, em cuja possessão c controle estão
todos os que sigam o triste exemplo dc seu líder e dc nossos primeiros ancestrais."
E como exatamente o papa diz que a Maçonaria se encaixa nesse grande reino não-católico de Satã?
"Em nossos dias, porém, os partidários do mal parecem estar se reunindo, e combatendo juntos, com
empenho, liderados ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida a que chamam
Maçons." O Sr. Knight afirma ainda sobre o papa Leão XIII: "Ele qualifica a Maçonaria como subversiva
da Igreja e do Estado." Aquilo de que o papa realmente se queixou foi da separação entre Igreja e Estado,
mas, novamente, deixemos o papa falar por si mesmo, lembrando que quando ele usa a palavra Igreja, quer
dizer apenas a Igreja Católica Romana:
"Por um longo e obstinado labor, eles [os Maçons] esforçam-se para alcançar este resultado —
especificamente, nem o ensinamento, nem a autoridade da Igreja podem ter alguma influência; e
por esta mesma razão declaram ao povo e argumentam que a Igreja e o Estado devem ser
completamente desunidos. Por este meio, eles rejeitam a saudável influência da religião católica
sobre as leis e a nação; e eles consequentemente querem que os Estados sejam constituídos sem
nenhuma consideração pelas leis e preceitos da Igreja."
' vk
Uma vez que a Humanum Genus tem apenas cerca de 15 páginas, acreditamos que o Sr. Knight a tenha lido
inteira e esteja ciente de que seu principal tema é uma argumentação contra a idéia de democracia, e
contra a teoria de separação da Igreja Católica da autoridade temporal sobre todo o Estado. O papa
estava horrorizado com a idéia de que as pessoas fizessem leis para governar a si mesmas em vez de ser
obedientes aos governantes que haviam recebido comando divino quando ungidos pela Igreja. Parece
forçado? Leão XI11 afirma (o grifo é meu): "Reconhecendo que do próprio Deus vem o direito de governar, ela [a
Igreja] concede grande dignidade ã autoridade civil, e ainda ajuda a obter a obediência e boa intenção dos
súditos." Em 1884, a Santa Sé ainda favorecia monarcas autocrá- ticos ungidos pela Igreja e que
reconheciam sua autoridade temporal. A esse respeito, Humanum Genus é, em cada pedacinho, uma
condenação da Constituição dos Estados Unidos assim como da Maçonaria, como transparece em uma
lista de pecados das quais a Maçonaria é acusada:
"A seita dos Maçons tem como objetivo firme e unânime tomar a si mesma a educação da
juventude. Eles pensam poder facilmente moldar às suas opiniões aquela idade tenra c inaleável e
torcê-la para preparar para o Estado cidadãos do modo como querem. Portanto, na educação e
instrução de crianças eles não permitem nenhuma participação, quer
no ensinamento quer na disciplina, aos ministros da Igreja [católica]; e em muitos lugares eles têm
procurado obter que a educação dos jovens esteja exclusivamente nas mãos de leigos: e do
ensinamento moral deve ser banida qualquer idéia desses sagrados e grandes deveres que unem
homem e Deus."
As acusações ficam mais fortes, pois os Maçons são igualados a "naturalistas":
"E ainda há suas doutrinas sobre ciência social. Aqueles naturalistas decretam que os homens têm
todos os mesmos direitos e que são perfeitamente iguais em condição, que cada um é naturalmente
livre, que nenhum tem o direito de comandar a outrem, que é um ato de tirania requerer que
homens obedeçam a qualquer autoridade além daquela que é obtida deles mesmos. De acordo
com isso, portanto, todas as coisas pertencem ao povo livre, o poder é exercido pela ordem ou
permissão do povo, de modo que, quando o desejo do povo muda, os governantes podem ser
legalmente depostos e a fonte de todos os direitos e deveres civis está ou na multidão ou na
autoridade çover- nante quando esta é constituída de acordo com as últimas doutrinas. É
sustentado também que o Estado deve ser sem Deus; que nas várias formas de religião não há
razão pela qual uma devesse ter precedência sobre outra e que todas elas devem ser tidas na
mesma estima. "Que essas doutrinas são igualmente aceitáveis aos Maçons, e que eles desejariam
constituir Estados de acordo com esse exemplo e modelo, é excessivamente bem conhecido para
exigir prova."
Eis o que o "Reino de Satã" estava fazendo no Humanum Genus: estava privando a Igreja de autoridade e
privilégio, e, às vezes, até de propriedade, substituindo soberanos aprovados pela Igreja por governo
democrático. Devemos lembrar a data dessa carta, 20 de abril de 1884. A Santa Sé acabara de perder os
Estados papais na Itália para o novo reino da Itália, de forma que Leão XIII foi o primeiro papa em
séculos que exerceu apenas o posto de sacerdote e não de um rei, simultaneamente. O México fora
conquistado por uma revolução liderada por Benito Juárez, cujo novo governo confiscara terras da
Igreja, conventos e monastérios proscritos e proibira o envio de fundos da Igreja para Roma,
permanecendo ao mesmo tempo firmemente católico, mas dizendo ao papa que sua missão na Terra era
espiritual e pastoral e não econômica e política. Uma riqueza incomen- surável foi perdida pela Igreja na
América do Sul como resultado das revoluções de Simón Bolívar e José de San Martin. O Humanum Genus
culpava naturalistas, homens que queriam substituir os ensinamentos da Igreja pelo raciocínio e que
ensinavam que as leis deviam ser feitas "apenas com o consentimento dos governados". Sim, o papa
acusou os Maçons dc "indiferença religiosa", como relata o Sr. Knight, mas ele deixa de contar que a
Igreja, na verdade, condenava essa aceitação maçônica de homens de todas as crenças religiosas, diante do
fato de que todas as religiões, exceto o catolicismo romano, foram declaradas falsas: "Ao abrir suas portas
a pessoas de todos os credos, eles, desse modo, promovem o grande erro dessa época — indiferença
religiosa e a paridade de todos os cultos. Esse é o melhor modo de aniquilar todas as religiões,
especialmente a católica, que, como é a única verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser considerada
meramente igual às outras religiões."
Nada havia de nefasto ou subversivo da parte do papa. Leão XIII era um homem perturbado. Sentiu
profundamente as grandes perdas no poder, privilégio e riqueza da Igreja trazidas pelas revoluções
democráticas e desenvolveu uma desconfiança tão intensa que guardava todo o ouro do Vaticano em uma
caixa embaixo da sua própria cama. Acreditava que a democracia era má, parte do "Reino de Satã", e que
a Igreja Católica tinha o direito e o dever de controlar todos os governos seculares. Essa atitude não
morreu com ele. Em uma época recente, abril de 1948, a publicação oficial jesuíta, Civilità Ccittolica, tornou
claro que, quando os católicos em qualquer país estão em minoria, a Igreja exige liberdade religiosa para
todos; mas, quando a maioria é católica, a existência legal será negada a todos os credos. Leão XIII teria
concordado com a afirmação jesuíta:
"A Igreja Católica Romana, estando convicta, segundo suas divinas prerrogativas, de ser a única
Igreja verdadeira, deve exigir o direito de liberdade apenas para si, porque tal direito pode apenas
ser possuído pela verdade, nunca pelo erro. Quanto às outras religiões, a Igreja certamente nunca
puxará da espada, mas exigirá que, por meios legítimos, elas não tenham a permissão de propagar
falsas doutrinas. Conseqüentemente, num Estado em que a maioria das pessoas é católica, a Igreja
exigirá que a existência legal seja negada ao erro, e que, se as minorias religiosas realmente
existem, elas devem ter apenas uma existência de facto, sem oportunidade de difundir suas crenças...
em alguns países, os católicos serão obrigados a exigir plena liberdade religiosa para todos,
resignados a coabitar em lugares em que apenas eles deveriam ter o direito de viver. Todavia, ao
fazê-lo, a Igreja não renuncia à sua tese, que permanece a mais imperativa de suas leis, mas,
meramente, a adapta para condições de facto, que devem ser levadas em conta em casos práticos."
E aqui temos a diferença aparentemente irreconciliável entre a Maçonaria e a Igreja Católica
Romana. Uma característica central da Maçonaria é a aceitação de homens de todos os credos religiosos,
incluindo o catolicismo, enquanto a Igreja romana acredita que apenas sua fé é a certa, e que, quando tem
a oportunidade, é seu divino dever suprimir todas as outras. Cada organização acredita fortemente em sua
própria posição; uma solução conciliatória parecia impossível até que o papa João XXIII, em sua segunda
conferência ecumênica, conclamou um diálogo maior com outros credos. Claro, isso foi muito após a
bateria de condenações papais à Maçonaria citadas pelo Sr. Knight. Essas condenações são quase
totalmente políticas e econômicas. Em nada contribuem à tese do Sr. Knight dc que o diabo tem seu lugar
na Maçonaria. Claro, cm The Brotherhood ele fala dc uma situação mais sinistra em Roma, onde tenho indícios
dc que o próprio Vaticano está infiltrado de Maçons". Por que ele não nos entrega essa empolgante
informação? Não havia espaço no livro? Não havia espaço para explicar que a celebrada condenação
papal à Maçonaria chamada Humanum Genus era culpada dc erro grosseiro? Ela condena os ensinamentos
maçônicos da separação de Igreja c Estado, governo pelo povo, casamento civil e ensinamento das crianças
por leigos em vez dc padres, mas nenhuma dessas situações é especificamente defendida pela Maçonaria,
que deixa a escolha sobre esses assuntos inteiramente aos membros individuais. O papa simplesmente
confundira a Maçonaria com todos os não católicos. Dc qualquer modo, a Humanum Genus em nada contribui
na busca de indícios da adoração maçônica ao diabo.
Na verdade, o Sr. Knight encontrou todas as provas da adoração maçônica ao demo de que ele
precisava na revelação do "inefável nome de Deus", como exposto nos ritos de iniciação do grau do Real
Arco. Ele decidiu, e declarou, que esse nome, aparentemente um acrônimo que simboliza a aceitação
maçônica dc homens de todas as fés, é prova incontestável da existência de um Deus à parte c facilmente
identificável na Maçonaria. Embora nada semelhante seja mencionado no rilual maçônico além do
próprio nome, o Sr. Knight imaginou a "verdadeira natureza" do Deus maçônico que ele criou. Esse
"nome inefável" é Jalibulon, que sc diz ser um nome formado por três sílabas de Jeová, Baal e On, ou Osíris.
Alguns Maçons que tentaram "quebrar o código" do nome chegaram a essa conclusão, embora de forma
alguma essa interpretação seja universalmente aceita pelos historiadores maçônicos. O Sr. Knight aceitou
alegremente essa interpretação, porque servia a seu propósito dc provar que Satã tinha um papel na
Maçonaria. Quanto ao nome Jahbulon, o Sr. Knight afirma que não há "um termo geral abrangente que um
Maçom individual poderia escolher, mas uma designação precisa que descreve um ser sobrenatural
específico". Ao definir a natureza desse Deus maçônico específico, ele fala de apenas uma sílaba, que bul
simboliza Baal. Ele então aponta que um demonologista do século X V I descreve Baal como um diabo
com corpo de aranha e cabeças dc homem, rã e gato. Isso certamente soa como uma deidade específica.
O problema é que Baal não é um nome: é um título, e seu uso não aponta para uma deidade
específica. Não sabemos sc o Baal que teve seu
aliar derrubado por Cíideao era o mesmo Baal que foi desafiado para um duelo com Jeová por Elias, ou
que qualquer dos dois fosse a mesma deidade adorada no Líbano, no Templo do Sol de Baalbeck.
Simplesmente, Ba 'al é uma palavra hebraica que significa senhor ou mestre. Diversas deidades foram
chamadas por esse título no Oriente Médio, mas seus nomes não chegaram a nós. Teria causado grande
confusão se os tradutores do Antigo Testamento houvessem traduzido ba 'al como senhor, de forma que
deixaram a palavra em hebraico. Para o leitor em outra língua, parece ser um nome e não um título
honorífico, que, aliás, ainda é usado na fé judaica. Por exemplo, alguém que pode fazer milagres em nome
de Deus é conhecido como Ba'al sliem, o Senhor (ou Mestre) do Nome. Talvez o mais famoso deles tenha sido o
Ba 'al sliem Tov, o rabi ucraniano que fundou o movimento hasídico na Polônia, dc forma que, se você
encontrar um jovem alto em um longo casaco negro sem gravata, com uma barba cheia e cachos saindo de
debaixo de um chapéu preto, não corra o risco de dizer a ele que Ba'al significa Diabo.
O que aconteceu, é claro, não foi muito diferente da declaração do papa Leão XIII de que qualquer
rival da Igreja Católica Romana era membro do Reino de Satã, exceto que no caso de "Baal" era qualquer
rival de Jeová. Em certo ponto, alguns israelitas seguiam um "Senhor" não nomeado, em vez de Jeová, e
para testá-los ele lhes ordenou que cada facção matasse um boi e o pusesse sobre uma pilhaf dc lenha c
então pedisse a seu Deus para acender o fogo. Quatrocentos e cinqüenta sacerdotes de "Ba ar rezaram
firmemente o dia inteiro, chegando mesmo a mutilar-se e açoitar- se como sacrifício pessoal para que seu
Deus agisse, mas nada aconteceu. Então Elias, que mandara umedecer sua madeira, invocou Jeová, que
respondeu com raios e relâmpagos que acenderam o fogo. Em uma grande explosão de fervor religioso e
dc gratidão, Elias mandou seus seguidores matarem imediatamente os 450 sacerdotes rivais.
Além do fato de que, se há um milagre que Satã é capaz de cumprir, esse seria acender uma
fogueirinha, os judeus não acusaram o rival de Jeová de ser o Diabo, mas o denegriram chamando-o
Senhor de Nada, Senhor das Moscas ou — em hebreu — Ba'al-zbub. Mais de mil anos depois, alguns cristãos
inflamados decidiram que qualquer rival de Jeová tinha de ser o diabo e transformaram a palavra
hebraica para Senhor das Moscas em Belzebu, que declararam ser um nome de Satã. Tudo isso é
terrivelmente forjado, motivado pela malignidade que, com freqüência, toma a dianteira em desacordos
religiosos. Porém, cm nada ajuda para produzir o menor fiapo de prova dc que haja qualquer coisa dc
adoração ao diabo na Maçonaria, especialmente porque a afirmação dc que Jahbulon significa Jeová, Baal
e Osíris é, também, pura conjectura. Ninguém sabe com certeza o que significa, ou mesmo como o nome foi
originalmente pronunciado antes que sofresse mudanças após séculos de comunicação estritamente
verbal. Por exemplo, já vi a última sílaba ser soletrada on, om e un. Será que ela poderia ter começado como
am? Se si nu alguém podo ter tomado a última sílaba de um nome que Deus revelou aos israelitas: eu sou
(em inglês, I iini), Se o nome original fosse Jahbaalam, uma ve/ que IUi'al é o hebreu para "Senhor", seria
um nome construído a partir de três nomes diferentes dc Jeová. Não estou dizendo que isso sejam novos
indícios, apenas apontando as possibilidades e as dúvidas razoáveis. Em The Bívthtrhooíl, Stephen Knight nao
tem nenhuma dúvida ao escrever: "Se Cristo fosse uma parte aceitável da Maçonaria até para os não
cristãos, por que o diabo também não seria? Por mais inaceitável que isso pareça ã maioria dos iniciados,
ele tem seu lugar." 11
Começamos assim a ver uma fonte típica dos "mistérios fabricados da Maçonaria (e muitas outras
instituições), aqueles que são forjados não para a análise, mas para a destruição, e lhe lirotheiiiood de forma
alguma nega a adoração maçônica ao diabo. Hm outro capítulo, intitulado "A Crise Italiana", o Sr.
Knight escreve sobre o envolvimento do próprio banco do papa na maior fraudo financeira do séculoXX, um
escândalo papal catastrófico que ainda não terminou. E mesmo assim, no livro do Sr. Knight, o assunto foge
de qualquer indicação de escândalo na Igreja, sendo descrito como uma1
"conspiração maçônica",
A base para a caracterização da conspiração como "maçônica ó uma antiga Loja Maçônica
conhecida como Propaganda l)ut\ ou P2, uma Loja originalmente formada pelo Grande Oriente italiano como
uma Loja de pesquisa. Em 1975, um fascista italiano chamado Licio (iol| foi feito venerável Grão-Mestre
da P2, o no ano seguinte essa Loja foi rejeitada o suspensa pelo Grande Oriente da Itália; então, de
qualquer modo, a IV! deixou do ser uma organização maçônica oficial. (íelli converteu a estrutura da IV a
seus próprios propósitos o aos de seus associados, acabando por usá-la para construir uma rodo do células
secretas do políticos poderosos, banqueiros e editores cm toda a Itália. Isso tudo foi feito om completo
segredo o som nenhuma conexão maçônica autorizada.
I .ogo após a P2 ter sido afastada da Maçonaria oficial italiana, Gelli admitiu Michele Sindona, o
principal conselheiro financeiro do Vaticano. Então, em 1977, Sindona convidou Roberto Cal vi, chefe do
Banco Ambrosia no de Milão, que era intimamente associado ao banco papal, um do seus maiores
acionistas. Ate a queda do governo do Mussolini, era necessário que qualquer pessoa que quisesse um
empréstimo, ou mesmo um depositário, provasse que era católico romano antes de lazer negócio com o
Banco Ambrosiano. Cal vi trouxe à mesa seu contato mais valioso, o Instituto per le Qp$tt (li Religione, o Instituto
para Obras Religiosas (O "IOR"), uma instituição financeira que freqüentemente o chamada "Manco do
Vaticano". O IOR não pertence à cidadc-Kstado do Vaticano» mas apenas ao papa. Como seu nome
indica, a função do Instituto o receber depósitos de organizações de indivíduos católicos o emprestar o
dinheiro sob taxas nominais, em termos favoráveis, para financiar a construção de escolas, igrejas o
orfanatos católicos em todo o mundo. Na época dos escândalos, e ate 1989 o IOR era comandado pelo
arcebispo Paul Marcinkus, um nativo dc Cicero, Illinois, velho amigo e antigo guarda-costas do papa

Depois que Calvi entrou no poder com Gelli e Sindona, o Banco Am brosiano ajudou a estabelecer
companhias-fantasma, incluindo dez no Panamá, que eram controladas pelo banco papal. Então o Manco
Ambrosiano emprestou para esses fantasmas somas dc até 1,3 billulo dc dólares. O banco papal também
aplicou fundos próprios, mas ninguém cm Roma Ia/ia a menor idéia do tamanho ou propósito desses
imensos capitais secretos. Tudo o que se sabe c que parte do dinheiro foi usada para comprar c sustentar o
valor das açòes do Banco Ambrosiano. {.
Quando os oficiais bancários italianos começaram a suspeitar, Cal vi o o arcebispo trocaram cartas.
Marcinkus deu ao banqueiro "cartas de alivio", afirmando que as companhias-fantasma estrangeiras
estavam realmente sob controle direto ou indireto do banco papal, e Cal vi respondeu com cartas
afirmando que o IOR nào devia realmente 1,3 bilhão de dólares. Ambos sabiam que os empréstimos eram
impossíveis de serem cobrados e a troca dc cartas tinha pouco valor. Quando o governo começou a fechar
o cerco, a última solução de Calvi foi se enforcar na Ponte Blackfríors om Londres, com os bolsos cheios de
dinheiro o pedras, embora ainda haja suspeitas de assassinato. A morte de Calvi engatilhou uma exaustiva
invés- ligação e o Banco Ambrosiano entrou em colapso. Di/ se que o banco papal perdeu mais de 450
milhões de dólares com o fiasco.
Apesar das pesadas perdas, seu controle sobre a maioria das ações das companhias de além mar e seu
total envolvimento na maior fraude financeira deste e talvez dc qualquer outro século* a Santa Sé nào
respondeu a nenhuma questão nem forneceu documentação alguma quanto à participação do banco papal
ou dos oficiais do Vaticano. Já em 1987, o arcebispo Marcinkus foi indiciado pelo governo italiano por
bancarrota fraudulenta. A Santa Se não permitiu que Marcinkus respondesse ás acusações e ele nào pode
ser extraditado por uma razão muito interessante.
Um ano em que Licio (íelli se juntou aos Camisas Negras de Mussolini, o ditador italiano concluiu o
tratado de I atrào com a Santa Se, acordo conhecido como a concordata italiana. Em troca do apoio do
Vaticano, Mussolini concordava que a Itália nào teria leis que nào estivessem de acordo com os
ensinamentos da Igreja, motivo pelo qual a lei italiana não permitia o divórcio o porque o Vaticano podia
exercer a censura sobre todos os livros, revistas e jornais na Itália. Mussolini concordou com a exigência
do Vaticano de que os cardeais da Igreja recebessem toda a posição, respeito e privilégios dc príncipes de
sangue real, Ele criou a fortuna do Vaticano concordando cm pagar 92 milhões de dólares como
compensa- ção pela perda dos Estados papais, de forma que a Igreja tinha um pote de dinheiro substancial
com o qual comprar, enquanto o resto do inundo estava pressionado a vender, logo no início da Grande
Depressão. O Duce também concordou que o Vaticano fosse reconhecido como Estado soberano
completamente separado, totalmente independente da Itália ou de qualquer outro país, c em deixar a
Itália sem direito de extradição. Isso se mostrou muito útil durante a Segunda Guerra Mundial, pois
Hitler também reconheceu a Concordata entre seu aliado Mussolini e o Vaticano, de forma que muitos
aristocratas e outros que tinham as ligações certas foram capazes de conseguir asilo contra os nazistas no
Vaticano, embora tivessem de escapar | guerra permanecendo cuidadosamente dentro dos limites do
Estado de 108 acres.
Foi exatamente o que o arcebispo Marcinkus fez quando soube que havia sido indiciado pelo governo
italiano. Os funcionários italianos de processos e oficiais de prisão não tinham permissão de entrar, e o
arcebispo não pôs o pé para fora do Vaticano pelos cinco meses em que a ordem da autoridade foi
discutida na Suprema Corte italiana. Finalmente, em julho de 1987. essa Corte decidiu que o governo
italiano não tinha autoridade para iniciar uma acusação formal sobre atos realizados em outro Estado
soberano, conclusão essa universalmente esperada (o jornal The Observei| de Londres, apresentou a notícia
com o comentário jocoso: "Surpresa, surpresa").
Foi um verdadeiro choque quando o banco papal concordou em pagar ao Banco Ambrosiano a
incrível soma de 244 milhões de dólares, enquanto negava qualquer culpa, ou mesmo qualquer
envolvimento material, na grande fraude. A estimada perda de 450 milhões de dólares significava que os
negócios entre o banco papal e o Banco Ambrosiano custaram | Igreja Católica quase 700 milhões de
dólares, mais de dez vezes a perda de 1987, a qual se pediu que os católicos de todo o mundo ajudassem a
cobrir com doações extras, sem explicações aos fiéis da má administração dos fundos que eles haviam
doado ou depositado no passado. Os cadeados do segredo total haviam sido vigorosamente arrebentados
em cada aspecto do escândalo da Santa Sé, deixando pouca dúvida quanto 1 "sociedade secreta"
envolvida nessa desgraça.
Isso é o que aconteceu, mas, da forma como está descrito em The Brotlierhood do Sr. Knight, não se trata
de um escândalo do Vaticano, mas de um escândalo maçônico. A alegação se baseia em nada mais além do
fato de que, do lado secular do negócio, um grupo clandestino, que se autodenominava uma Loja Maçônica,
mas não o era, estava envolvido. Seu capítulo "A Crise Italiana" começa com a sentença: "Uma
conspiração inaçomca de gigantescas proporções abalou a Itália até os alicerces no verão de 1981." Ele
conta que Gelli extraiu segredos pessoais de membros do governo, que foram usados para chantagem, e
relembra a produção dos
débitos maçonicos" secretos. Ele se refere aos "Maçons corruptos nas forças armadas italianas".
Quanto ao enforcamento de Calvi na Ponte Blackfriars de Londres, o Sr Knight conta que a morte foi
considerada suicídio, mas acrescentou um rumor que ele ouvira (ou enfeitara) de que Calvi "havia sido
ritualmente condenado à morte pelos Maçons, com uma 'amarra' maçônica em torno do pescoço e seus
bolsos cheios, simbolicamente, de cacarecos maçônicos, havendo escolhido a localização do assassinato
por causa de seu nome (Blackfriar = Frade Negro) — na Itália o logotipo da irmandade é a figura de um
frade negro." Eu suponho que esse rumor tenha sido enfeitado (se é que ele existiu) porque não consegui
comprovar que a figura de um frade negro seja o logotipo da Maçonaria italiana, embora, segundo o
costume das Lojas Maçônicas terem nome, há uma Loja na Itália chamada pela forma plural desse nome,
Frati Nere (Irmãos Negros). Outro ponto em toda essa história que não parece preocupar o Sr. Knight é o
problema do motivo. Por que os Maçons se preocupariam em correr o risco de assassinar o banqueiro
italiano? Outras pessoas podem ter motivo para isso: oficiais do Banco Ambrosiano, aqueles envolvidos
nas companhias controladas pelo Vaticano que tiveram lucro com os empréstimos, qualquer um que
tenha recebido parte desse dinheiro, qualquer um com forte necessidade de se esconder, mas nenhum
desses possíveis motivos aponta para o envolvimento maçônico. Quanto ao próprio Vaticano, o Sr. Knight
não apenas percebeu todo o caso como um escândalo maçônico, em vez de um escan- dalo no Vaticano,
como ainda considerou que o Vaticano era uma possível vítima de outras armações maçônicas, citando "a
penetração da Maçonaria não apenas na Igreja Católica Romana, mas no próprio Vaticano . Suas
conclusões, porém, não foram acompanhadas por um único fiapo de prova. 0 Senhor Knight ainda vê "a
penetração da Maçonaria na KGB . Em I I l e Brotherhood, ele alega muito simplesmente: "A máquina
soviética de espionagem tornou prioridade infiltrar-se em todos os tipos de orgamzaçao em cada país do
mundo. Seu principal alvo, em todos os países em que ela existia, era inevitavelmente a Maçonaria." Seu
principal alvo.
Um dos países nos quais a Maçonaria existe é a Suíça. "Por meio de um intermediário", escreve o Sr.
Knight, "perguntei ao antigo espião da KGB Ilya Grigevich Dzhirkvelov, que desertou para o Ocidente
em 1980, sobre a Maçonaria". O Sr. Dzhirkvelov aparentemente não sabia nada sobre a Maçonaria, de
forma que o Sr. Knight disfarçou seu desapontamento observando que a maior parte dos 35 anos de
Dzhirkvelov como agente da KGB foi passada na Suíça, onde há apenas 52 Lojas Maçônicas. Lem-
brem-se de que o Sr. Knight disse que em cada país em que ela existia a Maçonaria era o principal alvo da KGB,
porém ei-lo em contato com um agente da KGB que trabalhou na maior parte de sua vida em um
pequeno país com 52 Lojas Maçônicas e o homem não tem nada a dizersobrea Maçonaria. Eles não
falaram do principal alvo no treinamento de Dzhirkvelov? Mas o intrépido Sr. Knight não desiste, e pede
para que o citado
espião comente aquilo que o Sr Knight tinha a dizer sobre Maçonaria, e ficou tão triunfante com a resposta que a
reproduziu em duas linhas em itálico: "Dzhirkvelov... disse que, se a Maçonaria era uma parte tão
importante do Establishment quanto eu disse, não havia dúvidas de que a KGB a estava explorando, chegando até a instruir seus
recrutas britânicos a se tornar Maçons Da mesma forma como a KGB poderia instruir recrutas para se tornar
escoteiros, a ser membros ativos de grupos de caridade locais, a ser sócios de um bonito clube de campo,
do Lions ou do Rotary Club, ou a fazer qualquer outra coisa que os fizesse parecer membros verdadeiros
e respeitados da comunidade.
Ainda havia mais "provas concretas" a vir.
O Sr. Knight encontrou um oficial de informação recentemente aposentado, de um jeito realmente
"serviço secreto", ao lado de um viveiro de peixes no primeiro andar de um banco. Da forma como é
apresentado em The Brotherhood: "Ele concordara em encontrar-me apenas se combinássemos que não
discutiríamos assuntos incluídos na Ata de Segredos Oficiais. Ele não era Maçom. Disse que nunca
soubera que a Maçonaria poderia ser uma vantagem no serviço do governo, nem sentira a necessidade de
ser Maçom para avançar em sua carreira. Ele acrescentou, 'mas talvez seja porque eu nunca pensei sobre
issol.
Ele me disse4
que nunca soubera de nenhum caso da KGB utilizando a Maçonaria na Inglaterra, e
acrescentou: Mas é claro que isso não significa que não tenha acontecido.'" Que tal essa prova para a
acusação de que a Maçonaria é o principal alvo da KGB?
Vejamos mais um exemplo para deixar de lado o "mistério" maçônico de seu alegado envolvimento
com o sistema de espionagem soviético. No serviço de inteligência britânico, o departamento de além-mar
é MI6, enquanto a seção de segurança doméstica é MI5. Em The Brotherhood, o Sr. Knight nos conta: "Como
me disse o antigo secretário doméstico... é proibido para qualquer membro de qualquer dos serviços de
inteligência se tornar Maçom." Mais além, ele diz: "De acordo com os indícios agora disponíveis, o
aspecto incontestável dos 'empregos para os Irmãos' da Maçonaria britânica foram usados
extensivamente pela KGB para penetrar nas áreas mais sensíveis da autoridade, de forma mais
espetacular nos anos posteriores a 1945, colocando espiões nos postos mais elevados tanto em MI5 como
em MI6." Infelizmente, o Sr. Knight não colocou essas duas informações lado a lado, como elas aparecem
aqui, de forma que a maior parte de seus leitores não percebeu que a KGB havia, com sucesso, usado a
Maçonaria para colocar espiões nos mais altos escalões de dois departamentos cm que Maçons não são
permitidos. Tentar descobrir a lógica utilizada pode provocar uma severa dor de cabeça.
Em suma, as conclusões definitivas do Sr. Knight sobre a ligação da KGB com a Maçonaria são
baseadas em sua convicção de que os Maçons gozam de favoritismo e vantagens indevidas e que, portanto,
qualquer organização de espionagem gostaria de tirar vantagem dessa situação. Mesmo assim, ele não foi
capaz de dar nenhum exemplo claro nas 34 páginas dessa parte de seu livro, intitulada "A Ligação com a
KGB". Esse é outro mistério maçônico fabricado pelo Sr. Knight, ou, talvez, tenhamos sido enganados
pelos dois desertores da KGB cujos livros foram lançados na primavera de 1988: Secret Servant: My Life with the
KGB and the Soviet Elite, de Ilya Dzhirkvelov (o mesmo ex-espião que o Sr. Knight contatou por meio de um
intermediário), e On the Wrong Side: My Life in the KGB, de Stanislav Levchenko. Nenhum dos autores menciona a
Maçonaria como o principal alvo da KGB. Na verdade, nenhum deles sequer
menciona a Maçonaria.
Na realidade, as alegações do Sr. Knight sobre uma ligação da KGB com a Maçonaria são
simplesmente uma extensão da tese principal de The Brotherhood, que é o favoritismo e a preferência de
emprego entre Maçons em detrimento do resto da sociedade. Ele vê a preferência maçônica em toda a
parte, mas em seu livro ele passa por um mau bocado tentando prová-lo. A razão é que, embora haja
realmente muito de verdadeiro favoritismo em todos os aspectos da vida, em todos os países do mundo,
grande parte dela existe na mente daqueles que acham que foram passados para trás e injustiçados —
uma reação natural para todos, exceto para os mais autodepreciativos, pois, instintivamente, buscamos
explicações exteriores a nós mesmos para nossas fraquezas. Se um chefe católico promove um trabalhador
católico, um rival protestante pode desancar sua esposa com uma condenação de favoritismo religioso. Se
um vendedor católico tenta fazer uma grande venda a uma firma pertencente a um judeu e a perde para
um fornecedor rival judeu, ele pode muito bem contar a seu superior: "Você sabe como são esses judeus
— sempre grudados um no outro." Embora os negros sempre tenham o lado mais fraco da corda na
indústria americana, a promoção de um homem branco melhor qualificado com freqüência gerará
acusações de racismo no trabalho, seja verdade ou não.
Com exceção das queixas injustificadas dos perdedores, haveria realmente favoritismo no trabalho ou no
governo? Certamente. Mas ele não pode ser atribuído a nenhum segmento da sociedade, embora, como
grupo, os políticos tenham de carregar a maior carga de culpa pelo mau uso de seu poder de nomeação.
Até muito recentemente nos Estados Unidos, o presidente do partido político vencedor era
automaticamente nomeado diretor- geral dos correios após a eleição, como se sua consumada habilidade
de político se igualasse à requerida para gerenciar um negócio de muitos milhões de dólares. Mesmo o
presidente Kennedy caiu nessa quando decidiu que seu irmão mais novo era o homem mais qualificado
nos Estados Unidos para o posto de procurador-geral. Em muitos casos, como o do presidente Kennedy, é
o desejo de estar rodeado por pessoas com quem ele possa se relacionar facilmente que favorece tais
decisões. Há alguns anos, no mercado da propaganda, contava-se a história de um grande fabricante de
massas que entrevistou algumas agencias de publicidade. O proprietário c presidente italiano ficou
sentado durante todas as apresentações enquanto jovens brilhantes apresentavam os resultados dc
suas pesquisas de mercado e análise do consumidor, seguida por belos kiyouts e storwoarcLs para a
televisão. A apresentação final chocou todos na sala porque, do início ao fim, foi feita inteirame nte
em italiano, que era compreendido apenas por um homem do grupo. Quando o gerente dc contas,
que falava italiano, terminou, o presidente anunciou que essa agencia ganhara o trabalho. "Mas,
senhor", queixou-se um de seus executivos, "apenas porque cies falam italiano não quer dizer que
compreendam nossos problemas de mercado". "Talvez náo", replicou o feliz proprietário, "mas
isso significa que eles me compreendem!" Um caso óbvio dc favoritismo lingüístico.
Outra observação que deve ser feita a respeito de favoritismo no trabalho c que isso é buscado
com empenho por aqueles que esperam se beneficiar desses atalhos para avançar na carreira. Km
minha juventude, eu era empregado de uma companhia pertencente a uma família judaica e a maior
parte dos altos executivos pertencia a essa fé. Um dia, fomos apresentados a um jovem recém -saído
da universidade que fora contratado pelo próprio presidente da companhia e não pelo gerente dc
pessoal. Após alguns dias, o novo empregado nos confidenciou que não deveríamos le var para o lado
pessoal se, em algumas semanas, ele fosse nomeado chefe do departamento. Ele explicou que fora
presidente da fraternidade judaica de sua universidade, da qual o presidente de nossa companhia
era diretor, e que eles pertenciam ao mesmo templo. Fora contratado para ser rapidamente
promovido. Aparentemente, ele pensou que essa ligação também excluía qualquer necessidade de
trabalho, e, dentro de 90 dias ele se foi, quase cm estado de choque. Náo entendera que nao possuía
uma garantia, mas um contato, o que significava que recebera uma oportunidade e nao um futuro
assegurado, É isso que as associações significam para muitos —
os contatos que se pode fazer na igreja, em grupos dc teatro amadores, em uma sociedade fraternal
ou cm um clube dc negócios.
Na verdade, muitas organizações, ao contrário do ponto de vista ma çônico assumido. anunciam
abertamente os possíveis contatos de negócios como urna razão para sc associar e vários esperam
que esses contatos valham a pena, Algum tempo atrás, minha secretária veio me dizer que havia um
homem na recepção que náo quis se identificar, mas pediu para me informar que era um antigo
Irmão de uma fraternidade estudantil. Eu parei imediatamente o que fazia para evocar
rcminiscôncias com um velho amigo. Eu náo conseguia localizar seu rosto, mas continuava
conversando. Finalmente, eu disse: "Estou terrivelmente embaraçado, mas não consigo me lembrar
dc vocô. Em que ano você estudou na Universidade dc Miaini? "Oh", respondeu ele, "eu nunca fui
para Miami, fui para o Arizona" (mais ou menos a 2 mil milhas de distancia). Blc explicou que,
como parte dc um novo programa de marketing da companhia paru a qual vendia seguros de vida, cada
vendedor dera o nome da fraternidade de sua universidade c a companhia lhe entregava o nome de todos
os membros cm seu território de vendas. "Pensamos que vocô gostaria de comprar seu seguro de um
Irmão de fraternidade." Ele estava errado.
Essa aproximação também nao é limitada a indivíduos, um incorporador imobiliário em uma cidade
próxima à minha casa leve uma idéia: com uma população majorilariamente católica naquela área, ele
construiu um pequeno shopping center e colocou ali apenas comerciantes católicos, de forma que a população
católica locai daria preferência a essas lojas. Ele chegou a chamá-lo 'The Madonna Center". Todo o
conceito foi um completo fracasso, pois a irmandade espiritual perdeu em qualidade, preço c seleção. '
O ponto em que quero chegar é que preferências em trabalho e negócios certamente existem, mas não
na extensão cm que os beneficiários em perspectiva gostariam de pensar. É uma área da atividade
humana sobre a qual se pode dizer que, depois que tudo for dito e feito, há muito mais dito do que feito.
Ale o fim dos tempos, os homens esperarão usar os contatos que fizeram na Antiga Ordem de Hibérnieos,
na Sociedade Caleclôniea, nos
Filhos da Itália, nos Cavaleiros de Colombo, no Lions Clube e na Maçonaria.
Mas não encontrei nenhum indício, incluindo as páginas de lhe Brotherhood dc que o favoritismo
maçônico seja de alguma forma melhorou pior do que qualquer outra organização fraternal. As pessoas
persistirão em se inclinar na direção daqueles que conhecem; membros de qualquer grupo nacionalista,
étnico ou religioso eonlinuaráo a sc sentir mais confortáveis com os de seu próprio tipo; c as pessoas
continuarão a encontrar um jeito de fa/.er negocio ou de dar trabalho para pessoas de quem gostam e em
quem confiam, da mesma forma como evitarão fazer negócio ou parar de faze-lo com pessoas de quem
não gostam ou não confiam, li aposto que nenhum gerente arriscará a sua carreira, ou tornará seu
próprio trabalho mais duro, contratando um homem incompetente porque ele se senta no mesmo banco
da igreja, pertence ao mesmo clube de almoço ou compartilha o mesmo
cumprimento secreto.
Agora, suponhamos, dado tudo isso, que eu queira acusar um grupo de uma preferência insidiosa que
chega às raias da corrupção, como o Sr. Knight parece querer tão desesperadamente cm The Brotherhood. Eu
poderia ir até Boston, identificar oficiais de polícia católicos de alto escalão nas últimas décadas e conferir
quantos católicos estão atualmente na força para provar favoritismo de emprego. Eu poderia então
pesquisar quantos oficiais de polícia foram descobertos recebendo propinas ou envolvidos em outras
atividades ilegais, identificar quais deles eram católicos e apresentar os resultados corno uma
conspiração católica para ocupar e corromper o departamento de polícia. Eu poderia fazer o mesmo para
estabelecer a culpa dos batistas em Hirmingham. Alabama, e corrupção mórmon em Utah.
Dc forma alguma o Sr. Knight pode ser acusado de inventar o "misté rio" da preferência de
emprego maçônica e o disfarce dos atos corruptos dos Irmãos Maçons. Essas alegações existem há
bastante tempo. Mas ele tomou a dianteira ao trazê-las para o presente e para a imprensa pública,
com conclusões baseadas em alguns dos trechos mais enganosos que eu já vi. Após ler The
Brotherhood pela primeira vez, fiquei confuso com as inacreditáveis acusações e conclusões
baseadas em dados frágeis ou incompletos. Ao lê-lo novamente, fiquei envergonhado pelo que havia
me escapado da primeira vez, por causa do suave fluxo de linguagem. Por exemplo, no prólogo, o Sr.
Knight conta que dois irmãos e editores, que já lhe haviam feito um substanc ial pagamento
adiantado, anunciaram que confiscariam seu adiantamento porque haviam decidido não publicar
seu livro. O editor disse que "embora nem ele nem seu irmão fossem Maçons, seu pai... é um antigo
membro da irmandade e, em respeito a ele, eles não o publicariam". Muito claro. Os dois irmãos
editores não eram Maçons. Na página seguinte, o Sr. Knight resume a situação, afirmando: "Se esse
incidente não demonstra o poder direto da Maçonaria sobre o Quarto Estado, oferece um exemplo
vivido da devoção que a Maçonaria, com freqüência, inspira em seus iniciados, devoção que não é
nada menos que religiosa." Quais iniciados? De acordo com o livro, esses homens não eram
iniciados maçônicos devotos dc forma alguma, havendo claramente afirmado que não eram
Maçons. O incidente não é um "exemplo vivido" de coisa nenhuma, exceto dc que os dois Irmãos
escolheram não ganhar dinheiro por causa dos sentimentos de seu pai. Porém, isso é, realmente, um
exemplo de uma outra coisa.
Ao ilustrar um tipo único de lógica, vamos dar uma última olhada no profundo conhecimento
no qual essa critica se baseia. Citarei apenas um parágrafo de The Brotherhood, que condena o
conhecimento dos trabalhos internos da Maçonaria. O parágrafo está completo, os trechos entre
colchetes são meus:
"Muito do ritual maçônico se baseia no assassinato. [Errado: nos três complexos rituais da
Maçonaria de Ofício, há um assassinato simbólico em um dos graus.] No terceiro grau, a vítima é
Hiram Abiff, arquiteto mítico encarregado da construção do Templo de Salomão. A cerimônia
envolve a representação do assassinato de Hiram por três pedreiros aprendizes [Errado: eles são
três Companheiros] e sua subseqüente ressurreição. [Errado: Hiram não ressurgiu dos mortos. Foi
simplesmente exumado e enterrado em outro túmulo. J Os três aprendizes [mesmo erro] são
chamados Jubela, Jubelo e Jubelum — conhecidos coletivamente como Juwes. Na tradição
maçônica, os Juwes são caçados c executados [Errado: são caçados e aprisionados, e em seguida
levados ao rei Salomão para julgamento/, 'tendo o peito aberto e o coração e os órgãos vitais
arrancados e atirados sobre o ombro esquerdo' [Errado: apenas um dos
três Juwes foi sentenciado por Salomão a essa punição], o que se equipara em detalhes ao modus operandi de
Jack, o Estripador."
Quanto à última afirmação, o livro antimaçônico anterior do Sr. Knight, Jack the Ripper: The Final Solution,
era dedicado a provar que os assassinatos do Estripador tinham motivos maçônicos e eram disfarçados de
modo maçônico por Sir Charles Warren, comissário da polícia metropolitana. 0 Sr. Knight estava tão
orgulhoso de sua peça mais dramática de prova condenatória que a repetiu em The Brotherhood. Sua alegação
é que uma mensagem escrita a giz foi encontrada em uma parede, perto do local do quarto assassinato do
Estripador. Ela dizia: "Os Juwes são os homens que não serão acusados por nada." Relata ele que, quando
Sir Charles soube dessa mensagem, correu para o local e a apagou. Ele diz: "Warren... sabia muito bem
que o escrito na parede estava dizendo ao mundo: 'Os Maçons são os homens que não serão acusados por
nada'." Isso dá ao Sr. Knight a distinção de ser o primeiro escritor da Maçonaria em 270 anos a afirmar
que a palavra Juwes é sinônimo de "Maçonaria". Qualquer um que saiba algo sobre Maçonaria, incluindo
os leitores deste livro, sabem que a palavra Juwes é um sinônimo dos inimigos da Maçonaria, os assassinos do
Grão- Mestre Hiram Abiff.
Realmente, não posso acreditar que esse livro abalou um governo. Ele me abalou, mas por uma razão
totalmente diferente. Fiquei surpreendido porque o Sr. Knight conseguiu retirar de algum grande
reservatório de cliutzpah o diâmetro testicular necessário para se identificar em The Brotherhood como
"observador neutro". Afinal de contas, se um "observador neutro" faz acusações de promoções injustas
no trabalho e no governo, corrupção da polícia e do sistema judicial, uma ligação com a KGB, uma
infiltração do Vaticano e uma conspiração para cometer a maior fraude financeira de nosso tempo, a
responsabilidade pelos assassinatos de Jack, o
Estripador, e a inevitável adoração ao diabo, que será que um inimigo declararia?

O TEMPLO INACABADO
DE SALOMÃO

11 de fevereiro de 1988, um grupo de Maçons de alto escalão se reuniu no Salão Oval da Casa

A Branca. Estavam reunidos para


honrar e ser honrados pelo presidente Ronald Reagan. Primeiro, o
Sr. Reagan recebeu um certificado de honra da Grande Loja de Washington, DC, e foi então
nomeado Maçom Honorário do Rito Escocês. A terceira honra foi a maior, pois o Sr. Voris
King, potentado imperial da Antiga Ordem Árabe de Nobres do Santuário Místico, nomeou o
presidente dos Estados Unidos membro honorário do Conselho Imperial do Santuário.
O Santuário, o aspecto mais visível da Maçonaria nos Estados Unidos, percorrera um lo ngo
caminho. Apenas uma geração antes, as convenções do Santuário haviam causado alarme e
preocupação; escreviam-se editoriais contra homens crescidos que, aparentemente, achavam
divertido jogar uma bexiga d'água de uma janela de hotel sobre a cabeça de um inocente pedestre.
A hora do Santuário era hora de festa.
Então, alguns homens sábios encontraram um jeito de subordinar e redirecionar essa
exuberante energia, com grande sucesso. O foco foram as crianças e o resultado foi uma rede de 22
hospitais do Santuário para crianças aleijadas, incluindo 19 hospitais ortopédicos e 3 centros de
queimados. A pesquisa representa também um papel importante: vinte anos atrás, uma criança que
estivesse com 30% do corpo coberto de queimaduras de primeiro grau certamente morreria,
enquanto hoje, uma criança com duas vezes mais do que isso pode sobreviver, graças à pesquisa
promovida pelo Santuário. Talvez o mais notável aspecto desses hospitais seja o fato de eles não
terem departamentos de cobrança ao paciente. Nenhuma criança espera por tratamento enquanto
seus pais comprovam sua renda ou mostram documentos do seguro porque não há cobrança, nunca.
Quando o Circo do Santuário vem à cidade para levantar fundos para esses hospitais,
separam-se assentos para as crianças nos orfanatos locais e lares carentes — e a doação não pára por aí.
Membros1 do Santuário vão buscar as crianças e as devolvem após o show. No circo, eles remexem em seus
próprios bolsos para se certificar de que suas cargas de grandes olhos tenham todol o algodão-doce, a
pipoca e a limonada que podem agüentar. E esse palhaço do Santuário que ajuda a tornar a vida delas
mais do que memorável pode ser o seu gerente de banco. Ao todo, a alteração na diretriz do Santuário e a
proposta de prestar serviços incontestavelmente bons são um exemplo bem forte da eficácia da liderança e
da vontade inerente de homens de se aplicar física e financeiramente por uma causa na qual acreditam.
Se esse é o caso, alguém pode perguntar por que este livro não dirigiu maior atenção aos graus
superiores mais conhecidos da Maçonaria, como o Rito Escocês e a Maçonaria do Rito de York. A
resposta é simplesmente que a origem e a organização de todos esses termos maçônicos são bem
conhecidas e não contêm nenhum mistério esquecido. Os mistérios reais vivem apenas no coração do
"Ofício" original ou na Maçonaria da "Loja Azul" do Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom, a
verdadeira sociedade secreta cujas origens e propósitos aparentemente foram perdidos para sempre com
a passagem do tempo e as variações da transmissão verbal.
A atmosfera de mistério tomou conta do público, pois qualquer sociedade "secreta" desperta a
curiosidade, a inimizade e a inveja daqueles que não fazem parte dela e, mais ainda, se eles não são aptos
para isso. O preço que essas sociedades pagam é que, na ausência do conhecimento de suas práticas, a
sociedade como um todo deve suportar o estigma de atos de membros individuais. Os "Molly Maguires",
por exemplo, que aterrorizaram os campos de carvão da Pensilvânia incendiando casas e cortando
orelhas e narizes dos superintendentes das minas que despediram seus Irmãos bêbados, eram todos
membros da Antiga Ordem dos Hibérnicos; e levou muito tempo para que os Hibérnicos conseguissem
convencer o mundo de que as mutilações não haviam sido oficialmente sancionadas. Da mesma maneira,
a Maçonaria cambaleou sob ataques à Ordem trazidos pelos atos de membros individuais, como o alegado
assassinato do capitão William Morgan. Outro acontecimento semelhante envolveu aquilo que era, na
época, toda a população mórmon do país.
Não muito distante da casa de Morgan em Batavia, em Nova York, ficava a cidade de Manchester, lar de
um jovem chamado Joseph Smith, que fundou a Igreja Mórmon. Smith baseou sua nova Igreja em
instruções de dois pratos de ouro que declarava terem sido dados a ele pelo anjo Moroni, pouco mais de
um ano após o desaparecimento de Morgan. Ele começou em Palmira, Nova York, mas foi expulso e
mudou sua congregação para Ohio, de onde foi novamente expulso e, por fim, se estabeleceu em Nauvoo,
Illinois. A cidade inchou e a Maçonaria cresceu junto com ela, com muitos mórmons pertencentes às
fileiras maçônicas. Alphonse Cerza, um historiador maçônico, conta que, por volta de 1843, havia cinco
Lojas
mórmons maçônicas em Nauvoo, das quais todas foram suspensas pela Grande Loja por irregularidades
em sua conduta. As Lojas mórmons ignoraram as suspensões, aumentando ainda mais a tensão entre
mórmons e os cristãos locais — incluindo Maçons não-mórmons — sobre o assunto da poligamia.
O que aconteceu a seguir é discutível. A população antimórmon local, certa noite, explodiu em um
acesso de raiva que fez com que multidões saíssem atirando e batendo, incendiando casas e celeiros
mórmons, iniciando uma cadeia de eventos que levou ao assassinato de Joseph Smith. Seu sucessor,
Brigham Young, condenou os Maçons locais pelo ataque, acusando- os de agentes de Satanás. Decretou
que qualquer mórmon que se recusasse a abandonar a Maçonaria, ou escolhesse se tornar Maçom, estava
sujeito à excomunhão sumária da Igreja mórmon. Os Maçons, por outro lado, declararam que os Maçons
de Nauvoo não tinham nada a ver com os ataques selvagens. De seu lado, os mórmons decidiram deixar os
Estados Unidos de uma vez, dirigindo-se a oeste até chegarem ao território mexicano de Utah. Os Maçons,
por fim, decidiram que o mormonismo era incompatível com os princípios da Maçonaria, e por muitos
anos nenhum mórmon podia se tornar Maçom; mas em 1984 a Grande Loja de Utah fez as pazes com os
mórmons e hoje muitos são Maçons.
Alguns anos depois, durante a guerra entre os Estados, oficiais e homens maçons serviram
enfrentando seus Irmãos maçônicos do outro lado. Houve muitas lendas da Guerra Civil em que se conta
a ajuda prestada em resposta a Sinais de Aflição maçônicos, mas o acontecimento mais significativo
ocorreu logo depois da guerra terminada. Enraivecido pela erosão de seu modo de vida e pelo poder
político crescente de homens que haviam sido seus escravos antes da guerra ter sido perdida, um grupo
de sulistas decidiu reagir por meio de uma sociedade secreta. Muitos deles eram Maçons e utilizaram-se
do conhecimento do ritual maçônico para desenvolver uma infra-estrutura ritualística para a sociedade
que deveria salvar o sul por meio da manutenção da supremacia branca. Eles adotaram o círculo da Loja
como sua organização formal de encontro de membros, nomearam sua sociedade a partir dele e
demonstraram seu nível de educação utilizando a palavra grega para "círculo", que é kuklos. A pronúncia
rápida se torna Ku Klux, e eles se denominavam Cavaleiros da Ku Klux Klan, uma vez que introduziram
alguns termos de cavalaria no ritual. O próprio Olho Que Tudo Vê da Maçonaria se tornou o Grande
Ciclope. Havia sinais de mao, palavras de passe secretas, apertos de mão secretos e sinais de reco-
nhecimento, e mesmo um juramento sagrado, todos adaptados da experiência maçônica. Alguns
membros do Klan chegaram a se jactar de conexões oficiais entre o Klan e a Maçonaria.
Uma sociedade que começara como o único recurso dos sulistas contra a invasão pós-guerra do sul se
degenerou rapidamente em algo diferente. A violência tomou a dianteira, com surras, linchamentos e
mesmo torturas,
de forma que se decidiu que o Klan deveria ser desmantelado. Em 1869, o Grão-Mestre e antigo General
Confederado da Cavalaria Nathan Bedford Forrest publicou sua única ordem geral, que mandava todos
os Klans se separarem e dispersarem. Era tarde demais. A ordem do general foi ignorada por muitos que
ainda se aborreciam com a humilhação da derrota na guerra e por aquilo que achavam ser a maior
humilhação de todas. Conforme a violência crescia, e o alvo do ódio do Klan se expandiu dos negros para
os judeus, católicos e todos os estrangeiros, a história da ligação com os maçons continuava. Finalmente,
as Grandes Lojas estatais, tanto no norte quanto no sul, sentiram-se obrigadas a declarar publicamente
sua total rejeição pela filosofia, motivos e ações da Ku Klux Klan.
Mesmo assim, uma sombra se formara sobre a Maçonaria em muitas mentes e isso não melhorou
nada com a atitude de muitos Maçons em relação à comunidade negra. E verdade, há alguns membros
negros na Maçonaria, mas o número é apenas uma fração de uma fração de 1% do total dc associados.
Um Maçom me explicou que isso ocorria porque as Antigas Obrigações da Maçonaria dizem que
nenhum homem que não fosse "um homem livre nascido de uma mãe livre" poderia se tornar Maçom, e
todos os negros americanos eram diretamente descendentes dos escravos. Ele não teve resposta para o
argumento de que as Antigas Obrigações não dizem que o Maçom deve ser um homem livre nascido de
uma tataravó livre.
Uma sombra mais antiga sobre as atitudes raciais da Maçonaria é uma rede influente, mas quase
desconhecida, de Lojas Maçônicas, que é parte integrante do estabelecimento negro nos Estados Unidos,
mas continua não reconhecida pelos Maçons brancos. É conhecida como Maçonaria Prince Hall, nome de
seu fundador, um negro livre que serviu como soldado na guerra revolucionária. Antes desse conflito, ele
e 14 outros foram feitos Maçons por uma Loja militar viajante, a n° 441, do 38° Regimento Britânico de
Infantaria, com base em Boston. Quando o Regimento saiu dessa área, a Loja deixou seus
Irmãos-residentes com uma licença que lhes permitia fazer reuniões, mas não admitir iniciados nem
conceder graus.
A guerra deu a certeza de que a Loja militar britânica não retornaria a Boston; então Prince Hall,
subseqüentemente, fez uma solicitação à Grande Loja da Inglaterra, que lhe deu uma patente em 29 de
ô
setembro de 1784, para a Loja Africana n 459. Embora fosse uma Loja oficial maçônica, a n° 459 não era
reconhecida pela Maçonaria branca dos Estados Unidos. Ela, finalmente, respondeu à exclusão quando
começou a conceder patentes a lojas em outras comunidades negras, e mesmo lojas militares viajantes
patenteadas que existiam dentro das unidades militares negras na Guerra Civil e mais tarde em ambas as
guerras mundiais. A Maçonaria Prince Hall, gradativamente, espalhou-se pelo país e se expandiu em
graus superiores. muito semelhante à Maçonaria Branca. Acabou por se tornar um dos
mais influentes, mas, menos conhecidos, pilares da comunidade negra, especialmente no sul, com mais de
250 mil membros.
De quando em quando, surgem discussões em conferências maçônicas sobre a concessão de
reconhecimento às lojas Prince Hall, mas os que são a favor nunca foram capazes de reunir uma maioria.
Os Maçons declaram que não são racistas, mas é difícil mudar as idéias de alguém sobre o conceito de
uma irmandade universal limitada.
Outra barreira para a irmandade "universal" foi a relação entre os Maçons, as sociedades católicas e
a Igreja Católica, embora esta tenha mudado muito nos últimos anos, especialmente desde o Segundo
Concflio do Vaticano. Os clérigos não mais implementam de maneira tão forte as instruções do papa Leão
XIII no Humanum Genus no intuito de "insistir para que os pais e diretores espirituais que ensinam o
catecismo nunca deixem de admoestar apropriadamente crianças e pupilos sobre a natureza má dessas
seitas [os Maçons]", e as crianças assim eram ensinadas. Um advogado católico me contou que, em sua
escola elementar paroquial, na década de 1950, as irmãs falavam contra a Maçonaria na classe. Em seu
caso, havia um Templo maçônico a apenas dois quarteirões, e os alunos que passavam por ali ao sair da
escola eram aconselhados a desviar os olhos ao sair (para ser justo, isso não foi unilateral. Vinte anos
antes, minha mãe presbiteriana observara para mim, que era então uma criança de sete ou oito anos, que
as igrejas e monastérios católicos eram construídos com tanta freqüência em cima de montanhas porque
aquele terreno podia ser usado como posição de artilharia quando os católicos tentassem dominar o país).
Leão XIII também recomendava que se formassem sociedades para dar ao "trabalhador" uma
alternativa à Maçonaria. Conclamava que eles deviam ser "convidados para boas sociedades para que
não fossem arrastados às más" e expressava sua aprovação porque essas sociedades já estavam sendo
formadas. Ele devia ter em mente o fato de que apenas dois anos antes, em Hartford, Connecticut, o
padre Michael J. McGiveny formara uma sociedade de homens católicos de descendência irlandesa que
recebeu o nome "Cavaleiros de Colombo". Uma organização fraternal, completa com encontros
secretos, palavras de passe e graus, essa sociedade foi fundada para atender às necessidades dos católicos
irlandeses que estavam em verdadeiros guetos étnicos, rodeados por um mar de protestantes
anticatólicos e, como afirmavam abertamente, para dar uma alternativa católica I Maçonaria. O
conceito pegou e hoje estima-se que haja mais de 1,3 milhão de Cavaleiros de Colombo nos Estados
Unidos, com membros
adicionais no México, Canadá e nas Filipinas.
Ambas as sociedades fraternais cresceram durante os primeiros anos do séculoXX. Os Maçons e os
Cavaleiros de Colombo nunca chegaram às vias de fato, mas atacavam uns aos outros constantemente de
todos os outros modos. O conflito entre eles se tormou mais dramático no México,
naquilo que os Cavaleiros de Colombo se referiam como sua "Campanha Mexicana'' contra os
"comunistas", como chamavam o partido governante anti-Igreja do país. As vitórias revolucionárias no
México haviam privado a Igreja Católica de extensas propriedades e da maioria dos privilégios tradi-
cionais da Igreja. Ordens religiosas foram proscritas, clérigos e religiosos foram proibidos de lecionar na
escola elementar. Houve uma completa separação entre Igreja e Estado e os sacerdotes não tinham a
permissão de voltar, sendo vistos como cidadãos de um Estado estrangeiro, já que deviam lealdade, em
primeiro lugar, ao Vaticano.
Por volta de 1925, havia milhares de Cavaleiros de Colombo no México, determinados a combater as
leis anticatólicas e devolver o México a Roma. Chegaram a tentar fundar escolas religiosas, mas foram
suprimidos. Finalmente, muitos dos Cavaleiros se uniram a outros leigos católicos para formar a Liga
Nacional para a Defesa da Liberdade Religiosa. A liga, por sua vez, formou o núcleo de uma rebelião armada contra o
governo. Os rebeldes dedicavam sua submissão a Cristo Rei, sendo por isso chamados de Cristeros. Os Maçons
mexicanos lutaram nas fileiras do governo, enquanto muitos Cavaleiros mexicanos foram ao campo de
batalha como Cristeros. Nos Estados Unidos, reuniam-se fundos e apoio para os dois lados. A rebelião durou
de 1926 a 1929 e o tratamento brutal definitivo para os Cristeros derrotados foi garantido por seu uso do
assassinato como uma arma para tentar a vitória. Em 1927, dois membros da Liga Nacional sendo um deles
um padre jesuíta, foram executados sem julgamento pela tentativa de assassinato do presidente Álvaro
Obregón, que não escapou das balas dos assassinos em uma nova tentativa no ano seguinte. Quando a
rebelião foi derrubada e os prisioneiros Cristeros foram sumariamente fuzilados.
O início da Grande Depressão na América viu o ressurgimento da Ku Klux Klan, que muitos dos
Cavaleiros de Colombo ligavam à Maçonaria. O antagonismo mútuo ameaçava produzir mais violência,
mas já começavam a surgiu rachaduras no grande muro religioso que separava os Cavaleiros e os Maçons,
baseado em seu terreno comum de nacionalismo americano. Os Cavaleiros haviam estabelecido
organizações de serviço na Europa durante a Primeira Guerra Mundial, época em que eles já tinham
instituído um Quarto Grau baseado no patriotismo. Após a guerra, decidiram doar uma estátua de
Lafayette à cidade de Metz, na França, como símbolo de gratidão e irmandade, e foram imediatamente
atacados por alguns de seus Companheiros católicos. Seus críticos declararam que Lafayette havia sido
Maçom, portanto, não deveria ser honrado por nenhum católico leal. A mais forte e mais vociferante
condenação ao projeto veio das sociedades de católicos germano-americanos, alguns dos quais acusaram
os Cavaleiros de tentar criar um "santo Maçom". Os Cavaleiros tinham de tomar uma decisão.
Concluíram que, mesmo sendo católicos leais, eram também americanos leais. Não podiam abraçar uma
política que rejeitava as contribuições
de Maçons à história americana, já que isso significaria eliminar George Washington, Benjamin
Franklin, John Hancock e dezenas de outros. O tributo foi adiante e a estátua de bronze foi dedicada à
memória do Maçom aristocrata francês a 6 de agosto de 1920. Após a cerimônia, uma delegação de
Cavaleiros foi a Roma para uma audiência com o papa Benedicto XV, que derrubou o conflito com o
comentário de que a completa devoção a seu país não é incompatível com os ideais católicos.
Seria tolice dizer que não mais existe uma animosidade entre os Maçons e as sociedades fraternais
católicas como a Ordem Católica de Guardas Florestais, a Antiga Ordem dos Hibérnicos e os Cavaleiros
de Colombo, mas, certamente, houve uma melhora patente nos últimos anos. Em 1967, altos oficiais, tanto
da Maçonaria de Ofício quanto do Rito Escocês, reuniram-se com líderes dos Cavaleiros de Colombo para
discutir seus objetivos comuns de moralidade, patriotismo, lei e ordem. Na verdade, eles tinham mais do
que isso em comum. Ambas as Ordens haviam sido severamente criticadas pelos "maus-tratos" físicos
juvenis freqüentemente encontrados em cerimônias de iniciação, e ambas foram acusadas de favoritismo
no trabalho e influência política. Após ler as condenações de Stephen Knight sobre o favoritismo da
Maçonaria, fiquei interessado em ver o que Christo- pher J. Kauffman, em seu oficialmente reconhecido
Faith and Fraterna- lism: Tlie History of the Knights of Columbus, escreveu: "Havia, é claro, aqueles homens que se
juntavam à ordem principalmente por razões econômicas e políticas. Porém, como essas razões são
motivos comuns para a associação em qualquer organização fraternal, não são peculiaridades dos
Cavaleiros de Colombo."
Conforme as sociedades fraternais aprendem a conviver umas com as outras, também têm de viver
com o fato da diminuição de associações. A Maçonaria ainda é a maior Ordem fraternal dos Estados
Unidos e no mundo, mas o recrutamento diminuiu nos últimos anos e muitos membros simplesmente
saíram. Inevitavelmente, conforme os tempos mudam, as necessidades dos homens também mudam.
Durante os grandes períodos de expansão, conforme os anglófonos se moviam pelo globo, a Maçonaria
prestou importantes serviços sociais. Seja ao ser transferido para Hong Kong, ao buscar emprego em
uma mina sul-africana ou ao desembarcar em São Francisco durante a grande corrida do ouro, o
Maçom solitário não precisava permanecer perdido e sozinho por mais do que um dia ou dois até travar
contato com os Irmãos maçons locais, que o guiavam, o ajudavam se ele tivesse algum problema e o
apresentavam nos lugares certos. E sua associação maçônica também assegurava sua posição social.
A importância disso foi dramaticamente ilustrada na história inicial da Austrália. Sabemos bem que
sua primeira "colonização" foi feita por milhares de condenados, mas não se sabe tão bem que as
unidades do exército que foram vigiar os acusados levaram a Maçonaria em suas Lojas militares
viajantes. Tecnicamente, o condenado que houvesse cumprido sua pena podia aproveitar todas as
oportunidades de uma nova terra, mas, mesmo se construísse um negócio próprio ou uma operação
agrícola substancial, ele e sua família, talvez por muitas gerações, tinham de conviver com o estigma da
servidão penal, que os mantinha firmemente no mais baixo patamar da escala social. Todo o necessário
para mudar sua posição era ser aceito em uma Loja Maçônica, que, imediatamente, o colocava na
posição de Irmão juramentado junto aos oficiais da guamição, cidadãos importantes e membros do
governo. Essa vantagem não estava disponível aos muitos ex-con- denados irlandeses, cujo catolicismo
romano obstruía a escada maçônica para a aceitação social. A Austrália adotou a Maçonaria e há mais de
3 mil Lojas ali, atualmente.
A posição social da Maçonaria na Grã-Bretanha foi assegurada há muitos anos pelo patronato da
família real, mas isso também pode estar mudando. O príncipe Charles é o primeiro herdeiro varão
britânico a rejeitar a Maçonaria em quase duzentos anos. A explicação dada com mais freqüência, mas
não confirmada, é que Charles foi influenciado contra a Maçonaria por seu pai, o príncipe Philip, que se
ressentia amargamente da pressão feita sobre ele por seu sogro, o rei George VI, para se tornar Maçom.
Philip se associou, mas permaneceu totalmente inativo, de forma que o atual Grão-Mestre é seu primo
real, o duque de Kent.
Não se deve pensar, porém, que os votos de fraternidade criaram uma grande panela de fondue na qual
todas as distinções de classe desaparecem. Quando o duque de Sussex se tornou Grão-Mestre da Grande
Loja Unida, sugeriu-se que se deveria reunir uma Loja feita inteiramente de pares do reino, para que ele
pudesse ter uma Loja "apropriada" da qual ser Venerável Mestre. O patronato real, porém, tornou
muito mais fácil formar Lojas Maçônicas em unidades navais e militares e recintos de Loja em
instituições tão veneráveis como a Scotland Yard e o Banco da Inglaterra.
Além da rejeição real pelo príncipe de Gales, a Maçonaria britânica ainda se lamenta sobre os
resíduos dos ataques feitos à Ordem por Stephen Knight e outros, como testemunha um projeto de lei de
dez minutos apresentado (sem sucesso) na Câmara dos Comuns em junho de 1988, com a intenção de
restringir a aceitação de Maçons na polícia metropolitana.
É cedo demais para avaliar o sucesso de seus esforços, mas a Grande Loja Unida da Inglaterra fez
algumas tentativas para se opor à má publicidade. Uma delas, iniciada em 1986, era um programa de
passeios públicos gratuitos no Freemason's Hall, mas infelizmente parte da cobertura da imprensa sobre
esses passeios era insultuosa e jocosa (e, ao menos parcialmente, ficcional). Por exemplo, um artigo no
Illustraled London News de novembro de 1987, intitulado 'Templo de Horrores", apresentava uma ilustração de
milhares de morcegos saindo do Freemason's Hall. Relatava ostensivamente o passeio do ponto de vista
de uma mulher. Após expor suas observações sobre os odores do Hall ("mau hálito, brilhantina e
lustra-mó-
veis"), a autora apresenta apenas dois de seus companheiros visitantes, ambos americanos. Uma delas é
descrita como "Maçona" — a primeira de que ouvi falar — que, obviamente, tinha saltos altos que
batucavam no piso de mármore e que em certo ponto é observada acariciando estátuas de Jônatas e Davi.
Outro americano é um texano que mastiga chiclete incessantemente e responde aos comentários do guia
com "Wowee" e "Gee Whiz" (conheci uma porção de texanos que certamente dominavam alguns dos
mais engenhosos epítetos e exclamações pungentes no mundo anglófono, mas nunca ouvi nenhum dizer
"Wowee" ou "Gee Whiz". Talvez Gomer Pyle ainda esteja passando na televisão britânica). Quando o
grupo pára para examinar uma estrela desenhada no chão, a repórter observa que não ficaria surpresa
em "ver o próprio príncipe da escuridão surgir do meio da estrela de lápis-lazúli com fumaça vermelha
saindo de suas narinas dilatadas". Ao passar por uma porta fechada, ela especula sobre a possibilidade
de que haja galinhas sendo decapitadas do outro lado. É difícil imaginar o que tal estilo de narrativa
passa aos leitores da publicação, mas, talvez, tenha gerado ondas de riso no próprio círculo de amigos da
autora, o que é freqüentemente o objetivo principal dessa forma de jornalismo. Tais artigos também
tranqüilizam as pessoas que acham que a Maçonaria domina a imprensa livre na Grã-Bretanha.
Em tempos anteriores, a Maçonaria teve uma força poderosa pela liberdade de religião. O
recém-formado país dos Estados Unidos foi construído de colônias nas quais o fanatismo e a intolerância
religiosa eram parte do modo de vida. As colônias tinham sua própria religião de Estado e o Estado de
Connecticut permaneceu oficialmente congregacionista até 1818. Roger Williams fugiu da intolerância
religiosa em Massachusetts para fundar Rhode Island, e mesmo os calverts católicos só conseguiram obter
sua patente para Maryland ao concordar que a religião do Estado seria o catolicismo anglicano. A
Virgínia era um Estado militante pela Igreja da Inglaterra, com leis que exigiam o açoitamento de
ministros batistas e metodistas que ousassem pregar sermões a seus seguidores. Sob a pressão dessa
perseguição, diversas dessas congregações deixaram a Virgínia e foram ao deserto arborizado do
sudoeste americano, onde ainda permanecem. Os católicos romanos também não podiam ser condenados
por seu fanatismo na Terra da Liberdade, pois compreendiam menos de 1% da população em 1776.
Cabia aos diferentes protestantes resolver as coisas em seu favor, e de forma alguma eram todos a favor
da proposta liberdade de religião que seria garantida pela Carta de Direitos. As afiliações maçô- nicas de
muitos homens que lutavam por esses direitos indicam que eles levavam a sério seus votos de manter o
princípio de que a forma como um homem escolhe adorar a Deus é problema só dele.
Por mais útil que a Maçonaria possa ter sido para seus membros no passado, porém, o maior
problema para a Ordem hoje é: para onde ela vai agora? A concentração na moralidade do indivíduo e
na caridade em grupo
não interrompeu a erosão do recrutamento, pois os jovens freqüentemente não seguem seus pais e avôs no
ofício. Talvez um dos problemas seja que, em uma sociedade cada vez mais permissiva e materialista, os
conceitos de moralidade pessoal, dignidade pessoal e honra pessoal podem parecer antiquados. Se for
assim, é necessário iniciar um programa para trazê-los de volta, não como conceitos, mas como maneiras
reais de comportamento. Se a Maçonaria pudesse ajudar a cumprir isso, seria para nós um grande favor,
uma vez que estamos presos em uma sociedade na qual o ganho monetário substancial parece modificar o
estigma social e moral de crime. O homem que rouba um automóvel de 5 mil dólares é um ladrão, um
escroque e um proscrito, mas o homem que rouba 20 milhões não deixa de ter convites para festas. Um
amigo pagou 30 dólares para me levar a um jantar para ouvir um ex-presidiário de sucesso prever o
futuro da economia mundial e, após a palestra, a audiência — composta na maior parte de banqueiros,
economistas e homens de negócios — fez perguntas, em uma atmosfera de respeito atento. A prisão não é
um período de inércia para o homem que comete seus crimes em Wall Street ou na Pennsylvania Avenue,
porque ele pode ocupar suas horas escrevendo um livro após um adiantamento substancial de seu editor e
se corresponder com seu agente sobre palestras pagas posteriores e o aparecimento em programas de
entrevista na televisão. Em tal clima, qualquer esforço para o ressurgimento da moralidade pessoal seria
muito bem-vindo.
Bem mais exclusiva da Maçonaria, e de potencial benefício para todos, é sua antiga tradição contra o
litígio. A cada ano os Estados Unidos vêem o nascimento de 3,8 milhões de bebês e de 8 milhões de
processos legais. Registra-se que, de todos os homens e mulheres que praticam a jurisprudência na face
da Terra, mais de 60% estão nos Estados Unidos. Recentemente, no distrito de Kentucky, onde vivo, um
motorista bêbado ao volante de uma caminhonete chocou-se com um ônibus da igreja, que pegou fogo e
matou 27 pessoas. Nas semanas seguintes, comentou-se tanta coisa sobre os processos judiciais que
seriam originados pelo acidente quanto sobre a chocante morte de 24 jovens inocentes.
Em resposta à proliferação do litígio, os custos dos seguros rapidamente cresceram e afetaram o
custo e até a disponibilidade de bens e serviços essenciais. Em certa comunidade na Geórgia, os médicos
que praticam a obstetrícia e a ginecologia anunciaram que não aceitariam mais nenhuma paciente que
fosse advogada, esposa de um advogado ou funcionaria de alguma empresa de advocacia, por causa de
um medo crescente e realista de processos maliciosos. As infelizes grávidas foram forçadas a se locomover
cerca de 70 milhas até Savannah para receber os cuidados pré- natais e dar à luz. Mesmo as brandas leis
da hospitalidade sofrem, e as pessoas ficam com medo de deixar que vizinhos e hóspedes utilizem uma
piscina ou um cavalo, ou de permitir que seus filhos subam em uma árvore.
Os Maçons poderiam prestar um grande serviço se trouxessem suas antigas atitudes em relação ao
litígio à luz e ao foro público. Suas antigas leis dizem que os processos judiciais só são válidos em último
recurso, e que — mesmo então — o processo deve ser apenas pela restituição, e não para causar danos
monetários. Embora esteja claro que as atitudes maçônicas são desi°nadas para as relações dentro da
fraternidade, a Antiga Obrigação afirma claramente que os homens têm de tentar todos os outros
remédios antes de procurar o socorro das cortes. Três milhões de homens, afirmando esse ponto de vista
publicamente e para seus legisladores, poderiam exercer uma poderosa influência. Tal força é necessária,
antes que uma situação que já está se descontrolando se degenere até o ponto em que uma sociedade cada
vez mais agressiva, motivada principalmente pela obtenção do sucesso material, lance ainda mais ataques
monetários planejados que se baseiam em uma confusa complexidade de leis que nenhum homem poderia
jamais esperar memorizar, muito menos compre nder.
Para o mundo inteiro, seria muito mais importante se a Maçonaria divulgasse publicamente suas
Antigas Obrigações sobre laços de irmandade entre homens de todas as fés religiosas, assim como
exortações a seus membros para que cada um dê seu tempo, seu apoio ativo e sua própria fé. Enquanto
este livro é escrito, a religião, o amor de Deus, ainda é o maior dos problemas em muitos países. É a base
para tumultos políticos, terrorismo e guerra aberta, com potencial para problemas ainda maiores no
futuro. Os sikhs na índia, que querem seu próprio Estado no Punjab, fizeram conhecer a intensidade de
seus sentimentos com o assassinato da primeira-mimstra Indira Gandhi, e sentiram a punição das armas
de fogo sendo largamente utilizadas contra seu Templo Dourado em Amritsar. O exército indiano des-
pachou tropas de hindus para o Sri Lanka para ajudar a derrubar um levante de tamils budistas.
Khomeini provou que a religião pode ser uma força mais poderosa do que programas de assistência social
e armas de alta tecnologia ao derrubai um governo e enviar centenas de milhares de seus seguidores xiitas
contra os militantes sunitas do Iraque. Ambos os lados estavam prontos para morrer por aquilo que
começara como uma diferença de opinião sobre a possibilidade ou impossibilidade de os parentes de
Maomé herdarem sua liderança sobre o Islã. A situação licou ainda mais dividida em Beirute quando, em
maio ds i988, os xiitas pró-iranianos enfrentaram os xiitas pró-sírios W tanques e metralhadoras, ate que
centenas de correligionários jazessem mortos e mutilados nas ruas.
Os russos pensaram que haviam, efetivamente, bloqueado os jovens da Ásia Central contra a fé
islâmica de seus antepassados reduzindo o número de mecldresseh, ou seminários muçulmanos, de mais de
quatrocentos para apenas dois. Realizaram-se palestras anti-religiosas nas escolas e, para garantir,
afixaram-se cartazes anti-religiosos em santuários muçulmanos ("Orar a Deus", diz um deles, "é como
pedir para que dois mais dois, por favor, não seja igual a quatro"). Mas nos primeiros estágios da guerra
no Afeganistão, para a qual eles haviam enviado tropas uzbeques — descendentes muçulmanos dos
mongóis —, os russos ficaram surpresos quando os uzbeques e os guerrilheiros afegãos gritaram uns aos
outros por detrás das rochas: 'irmãos, somos todos crentes e Filhos do Profeta. Por que tentamos matar
uns aos outros por causa desses russos?" Os uzbeques tiveram de ser afastados do combate e os russos
devem ter refletido muito sobre como esses jovens, na segunda década de vida, podiam se considerar
muçulmanos, quando toda a máquina do governo, as escolas e a mídia controlada pelo governo havia
consistentemente martelado na cabeça deles que não havia Deus.
Na Grã-Bretanha, a associação à Igreja declinou de forma acentuada e os bispos da Inglaterra
questionaram os milagres do Novo Testamento. Na Europa setentrional, há mais pessoas afastadas da
Igreja do que aquelas que a freqüentam. No Japão, uma onda de anti-semitismo está se alastrando com
livros, artigos e mesmo cartazes no metrô de Tóquio. Na Grécia, já se propôs que a maior parte da
riqueza da Igreja ortodoxa seja posta sob controle do governo.
Na Suíça, em 1988, o arcebispo Lefebvre abraçou alegremente a excomunhão da Igreja romana para
si e seus milhares de seguidores de todo o mundo ao consagrar quatro bispos contra as ordens expressas
da Santa Sé. Ele declarou sua determinação de devolver a Igreja à posição que tinha antes daquilo que
chamou de mudanças "heréticas" do Segundo Concilio do Vaticano (1962-65). A associação ao
sacerdócio nos Estados Unidos também decaiu bastante, e a associação a ordens religiosas caiu, de um
pico de mais de 100 mil, a pouco mais de 6 mil em 1988. As escolas católicas foram fechadas e as igrejas
desativadas por falta de padres para cuidar delas. As mulheres não têm permissão para preencher essa
lacuna na Igreja Católica, porque se determinou que, embora mulheres possam ter certas posições
importantes na Igreja, nunca serão ordenadas como padres (não estão sozinhas nisso: em outubro de
1987, as Igrejas Batistas do sul expulsaram toda uma congregação que escolhera uma mulher como
pastora, citando referências escriturais que afirmam que mulheres não podem ter autoridade sobre
homens).
O papa João Paulo II não hesitou em castigar os dissidentes da Igreja, mas a dissensão continua se
alastrando, particularmente em relação ao casamento dentro do sacerdócio, o papel da mulher, o aborto,
o uso de preservativos para evitar a AIDS, o controle de natalidade e o homossexualis- mo. Também não
resolveu o problema dos padres comunistas na América Latina, mesmo tendo proibido suas atividades.
Nos Estados Unidos, a Ku Klux Klan aparentemente está viva e muito bem, combatendo negros e
católicos. A imagem de evangelistas da televisão foi manchada, talvez sem chance de reparação, pela
conduta pessoal de alguns de seus correligionários. Em 1987, a Suprema Corte dos Estados Unidos
reverteu a decisão de um juiz federal em Louisiana que violava o
preceito constitucional da separação entre Igreja e Estado. Em março, o juiz distrital dos Estados Unidos,
W. Brevard Hand, estabelecera uma regra contra aquilo que ele chamava "humanismo secular" — a
tentativa de ensinar um comportamento moral em uma base secular, e não religiosa. Ele mandou que 44
livros fossem recolhidos das escolas, incluindo 2 livros de economia doméstica para jovens donas de casa.
A história de George Washington e a cerejeira não mais poderia ser usada para ensinar uma lição de
moral. "Se esta Corte é compelida a remover o 'Deus é Grande, Deus é bom, nós Lhe agradecemos pelo
nosso alimento de cada dia' da sala de aula", disse o juiz, "então esta Corte também retirará da sala de
aula aquelas coisas que servem para ensinar que a salvação depende de cada um, e não da divindade".
Também em 1987, a Suprema Corte americana derrubou, por ser anticonstitucional, uma lei estadual
que exigia que as escolas estaduais ensinassem o "criacionismo" — a história literal da criação, do Livro
do Gênesis —junto com a teoria da evolução. A decisão irritou profundamente os fundamentalistas
protestantes, que também expressaram sua objeção ao critério tríplice da Suprema Corte para os
programas escolares: o programa deve ter uma proposta puramente secular; não pode ter o efeito de
promover a causa de nenhuma religião; e deve evitar envolver o governo em assuntos religiosos. Nesse
meio tempo, há outra solicitação na fila, na qual um juiz federal do Tennessee decidiu que crianças
fundamentalistas deveriam ser dispensadas de ler livros escolares que violassem suas crenças religiosas,
citando trechos do Diário de Anne Frank, Cinde rela e O Mágico de Oz•
Falamos aqui de muçulmanos, católicos e protestantes fundamentalistas, e devemos citar ainda mais
um grupo. Com a guerra Irã-Iraque em estado de trégua incerta e os soviéticos expulsos do Afeganistão, a
situação mais potencialmente explosiva que restou no mundo pode ser resumida nos fundamentalistas de
Israel, que podem complicar um ou dois problemas extremamente vitais. Em primeiro lugar, o problema
dos levantes nos territórios ocupados (quando até mesmo um primeiro-ministro descreveu os residentes
locais, dos quais havia alguns cujas famílias viveram ali por dez gerações, como "estrangeiros"). É
importante para Israel ser reconhecida como uma democracia, especialmente em suas relações com os
Estados Unidos, e mesmo com muitos judeus americanos. Para preservar essa impressão é necessário
encontrar um modo de lidar com a substancial população não judaica. Para cumprir sua imensa ambição
de preservar um Estado puramente judeu, Israel não pode permitir que esses não judeus tenham direitos
de voto iguais, o que daria a eles uma voz substancial no Knesset. Para muitos israelitas, a solução é
entregar parte do território conquistado, como a menor das duas catástrofes. Há outros que ficam
irritados só em pensar nisso, e alguns chegaram a mencionar que Israel ainda não tem toda a terra que
Deus originalmente deu para Seu povo escolhido. Os fundamentalistas têm soluções mais duras, tais como
simplesmente expulsar a população muçulmana e substituí-la por colonos judeus, manobra que
provavelmente atrairia a condenação do resto do mundo e talvez mesmo a guerra.
O outro problema em Israel nos leva de volta à Maçonaria, porque ela está justamente centrada no
lugar original do Templo de Salomão no Monte Moriá, o Monte do Templo em Jerusalém, local de
nascimento dos Cavaleiros Templários. Talvez nenhum outro ponto na Terra conclame a irmandade dos
homens de diferentes religiões tanto quanto o lugar do Templo original de Salomão, em uma situação tão
tensa que alguns escritores especularam que poderia engatilhar a Terceira Guerra Mundial. E pela pri-
meira vez neste livro, não estamos discutindo alegorias baseadas no Templo, mas o Templo real, no
monte do Templo em Jerusalém.
Ele tem vital importância para as três grandes religiões — o Judaísmo, o Islamismo e o
Cristianismo. O rei Davi teve a visão de construir uma grande casa de Deus e adquiriu a eira de Ornan,
no Monte Moriá, para a construção. Coube a seu filho, Salomão, realmente construir o Templo, o que
levou sete anos, no décimo século a.C. Em 587 a.C., os babilônios, comandados pelo rei Nabucodonosor,
conquistaram Jerusalém, saquearam todos os bens de valor do Templo e o incendiaram.
Cerca de cinqüenta anos depois, a Babilônia foi tomada pelos persas,
que permitiram que os judeus voltassem do exílio para a prática de sua
religião. Os persas nomearam Zerubabel como governador. Este, com o
encorajamento do sumo-sacerdote Josué, determinou a construção de um
segundo Templo no mesmo lugar. Era uma estrutura grandiosa, mas sem a
magnificência da realização de Salomão. Foi completado por volta de 515
a.C. e utilizada por séculos, mas não sem sofrimento, conflito e mudança de proprietário.
Em 168 a.C., o rei da Síria, Antíoco Epifânio, falhou em sua tentativa de subjugar o Egito, mas
arruinou o território judeu no caminho, dando assim ao Templo seus dias mais negros de profanação. A
circuncisão foi proscrita, sendo punida com a morte, assim como qualquer celebração do sabá judeu.
Como humilhação deliberada aos judeus, cujas leis alimentares proibiam o porco, Antíoco mandou
construir um altar no Monte do Templo para o sacrifício de suínos.
Nada disso foi deixado de lado por um bando guerrilheiro de judeus militantes que operavam nas
montanhas sob o comando de um homem chamado Matatias. O bando ficou conhecido como macabeus,
ou "martelos" Quando da morte de Matatias, o comando passou para seu filho Judas (ou Judá). O
inimigo subestimou tanto seu gênio militar que, antes de uma importante batalha, o general adversário fez
arranjos para a venda do exército judeu para mercadores de escravos, mas acabou tendo seu próprio
exercito derrotado pelos macabeus, que eram em número muito menor. Uma vitória se seguiu a outra até
que os macabeus retomaram Jerusalém. Ao chegar ao Templo para oferecer suas orações de
agradecimento e voltar
a acender o Menorá sagrado, descobriram apenas um restinho de óleo consagrado. Seria preciso oito dias
para atravessar o ritual de consagrar mais, enquanto a quantidade à mão duraria menos que um dia. Eles
seguiram em frente de qualquer modo e testemunharam um milagre, já que a pequena quantidade de
óleo ardeu por oito dias e noites até que o novo óleo estivesse pronto, um milagre ainda relembrado na
celebração do Hanukkah, a Festa
das Luzes.
Mas os romanos estavam a caminho e a conquista de Jerusalém retirou a cidade sagrada do controle
judaico por mais de 2 mil anos, até a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Foi o rei Herodes, o encarregado
romano, quem empreendeu a expansão e o embelezamento do segundo templo. Ele seria maior do que o
Templo de Salomão e, para acomodar seu alicerce aumentado, construíram uma parede de sustentação
maciça no lado sudoeste do Monte do Templo. Foi no pátio cercado de colunas desse Templo aumentado
que Jesus Cristo caminhou e ensinou a seus discípulos. Esse novo Templo teve vida mais curta, pois foi
totalmente destruído pelos romanos na guerra civil de 70 d.C. Tudo o que resta da elaborada estrutura é
parte da parede de sustentação, agora chamada Muralha Oeste ou Muro das Lamentações.
Embora Israel tenha tomado posse de Jerusalém em 1967, estavam relutantes em tomar posse do Monte
do Templo. Ele ainda é policiado por muçulmanos, porque, em vez de um templo judeu, o Monte é
coroado por duas mesquitas construídas durante o tempo do governo islâmico, incluindo o famoso Domo
da Rocha, coberto de mosaicos e de ouro. Essa situação é assunto de dissensão e discordância entre os
israelitas. Muitos pensam que o que eles conquistaram está bom por enquanto; mas, do outro lado do
espectro, estão os fundamentalistas, como os Gush Emunim, os "fiéis", que acham essa atitude tão intolerável
quanto a idéia de muçulmanos realizando cultos no próprio lugar do Templo de Deus, enquanto os
judeus estão restritos à parede de sustentação abaixo. Meir Kahane, o rabino americano que lidera os
fundamentalistas de extrema- direita Kach, não tem nenhum problema com os muçulmanos. Ele sim-
plesmente diz que todos deveriam ser expulsos de Israel, e o problema do Monte do Templo poderia ser
facilmente tratado.
Esses grupos e outros querem um templo judeu no Monte do Templo, de preferência no mesmo lugar
do Templo de Salomão. Por que outro motivo haveria um programa para ensinar o antigo ritual do
Templo no seminário ortodoxo Yeshi vah Ateret Hacohanim? A principal questão para o mundo e se,
caso qualquer um desses grupos prevaleça, eles realmente pensariam em derrubar a mesquita do Domo
da Rocha para abrir caminho para um novo Templo. Isso sem dúvida despertaria a ira de todos os
muçulmanos do mundo, que consideram o local sagrado como 0
o lugar em que Maomé ascendeu até o
próprio trono de Alá. Não há como prever a violência — terrorismo esporádico até a guerra aberta.
Qualquer governante muçulmano que declinasse de participar arriscaria seu próprio trono.
Porém, para os judeus, essa colina baixa em Jerusalém, esse Monte do Templo, é o lugar mais
sagrado na Terra. O Templo de Salomão precede o Cristianismo em mil anos e o Islã, em muito mais.
Também para os cristãos, o lugar em que Cristo discutiu e ensinou, e expulsou os vendilhões, é terreno
sagrado. A Igreja Católica sugeriu que Jerusalém se tornasse uma cidade internacional, um conceito que
pode ter seus méritos, mas que não resolve o problema. Não é a própria cidade, mas os poucos acres
sagrados do Monte Moriá, que se situam no centro da controvérsia. Poderiam os seguidores das três
grandes religiões, três grandes meios de adorar a Deus, encontrar um modo de se reunir em paz e
irmandade nesse pequeno espaço? Este é o lugar onde, mais do que qualquer outro lugar, a atitude
religiosa central da Maçonaria poderia ser aplicada com o mais benéfico dos efeitos para o resto do
mundo, no qual homens que assumem sua crença em um Ser Supremo poderiam se reunir em irmandade
e prestar pleno respeito ao modo dc adoração do outro homem.
Conseguir esse objetivo no Monte do Templo seria uma tarefa monumental. Deveria haver um
Templo tripartido para todos? Seria prático deixar o Domo da Rocha do jeito que está, mas construir um
templo judaico e um santuário cristão no Monte, todos ligados por um pátio ou praça comum? Um plano
sensato precisa ser feito e então vendido: para Israel, porque é quem controla a terra e deseja o Templo;
para os muçulmanos, porque ficariam preocupados com a profanação do Domo da Rocha; e para os
cristãos, que são divididos em dezenas de denominações, de forma
que um grupo interconfessional seria necessário para administrar a parte cristã.
O simples planejamento e movimento nessa direção poderiam ajudar a frustrar os planos daqueles que
desejam arriscar uma guerra em um jogo maníaco de rei-da-montanha, para colocar seu Deus acima de
outros deuses, qualquer dos três seja ele. Quem quer que vença, homens morrerão, e é tempo de que os
homens parem de morrer e de matar, por mais piedoso, compassivo e caridoso que seja seu Deus. As
Igrejas disseram, e ainda dizem, que seus seguidores não podem ser Maçons, porque admitir todas as
religiões é denegrir a "verdadeira religião", igualando-a com todas as outras que são falsas, dc forma que,
certamente, não estou sugerindo que todos os homens se tornem Maçons. Sugiro, sim, que os cerca de 5
milhões de Maçons no mundo, que aceitam a irmandade com homens de todas as fés, possam nesse
espírito tomar a dianteira na resolução do problema do Monte do Templo combinando suas atitudes
religiosas com sua veneração do Templo de Salomão, para benefício de todo o mundo. Seria uma jornada
longa e dispendiosa de oeste para leste, mas daria um novo significado a cada homem que está se
moldando em uma pedra de cantaria perfeita para tomar seu lugar no Templo de Deus. Seria um modo
maravilhoso de terminar
0 Templo inacabado de Salomão e de completar uma perambulação de volta | primeira proposta de seus
predecessores, os Cavaleiros do Templo,
a passagem segura de todos os peregrinos para aquele lugar sagrado .

APÊNDICE

(A seguir, a encíclica Humanum Genus f a mais forte e mais abrangente condenação papal à Maçonaria, promulgada em 1884.)

A SEITA MAÇÔNICA
LEÃO, PAPA, XIII.
Aos Patriarcas, Primazes, Arcebispos e Bispos do Mundo Católico
em Graça e Comunhão com a Sé Apostólica.
O gênero humano, após sua miserável queda de Deus, o Criador e Doador dos dons celestes,
"pela inveja do demônio", dividiu-se em duas partes diferentes e opostas, das quais uma
assiduamente luta pela verdade e a virtude e a outra por aquelas coisas que são opostas à virtude e à
verdade. Uma é o Reino de Deus na Terra, especificamente, a verdadeira Igreja de Jesus Crist o; e
aqueles que desejam do fundo da alma estar unidos a ela, de modo a receber a salvação, devem
necessariamente servir a Deus e a Seu único Filho com toda a sua mente e com toda a sua vontade. A
outra é o reino de Satanás, em cuja possessão e controle estão todos e quaisquer que sigam o triste
exemplo de seu líder e de nossos primeiros ancestrais, aqueles que se recusam a obedecer à lei divina
e eterna, e que têm muitos objetivos próprios em desprezo a Deus, e também muitos obje tivos contra
Deus.
Este reino dividido, Santo Agostinho penetrantemente discerniu e descreveu ao modo de duas
cidades, contrárias em suas leis porque lutando por objetivos contrários; e com sutil brevidade ele
expressou a causa eficiente de cada uma nestas palavras: "Dois amores formaram duas cidades:
o amor de si mesmo, atingindo até o desprezo de Deus, uma cidade terrena; e o amor de Deus, atingindo
até o desprezo de si mesmo, uma cidade celestial."
Em cada período do tempo uma tem estado em conflito com a outra, com uma variedade e
multiplicidade de armas e de batalhas, embora nem sempre com igual ardor e assalto. Em nossos dias,
porém, os partidários do mal parecem estar se reunindo e combatendo juntos, com empenho, liderados
ou auxiliados por aquela sociedade fortemente organizada e difundida a que chamam Maçons. Não mais
fazendo nenhum segredo de seus propósitos, eles estão agora abruptamente levantando-se contra o
próprio Deus. Planejam a destruição da Santa Igreja pública e abertamente, com o propósito
estabelecido de despojar por completo as nações da cristandade, se isso fosse possível, das bênçãos
obtidas para nós por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador.
Lamentando esses males, somos constrangidos pela caridade que urge em nosso coração a clamar
freqüentemente a Deus: "Ó Deus, eis que Teus inimigos se agitam; e os que Te odeiam levantaram a
cabeça. Eles tramam um plano contra Teu povo e conspiram contra Teus santos. Eles disseram: 'Vinde,
destruam-nos, de modo que eles não sejam uma nação'."
Em uma crise tão urgente, quando tão feroz e forte assalto é feito sobre o nome cristão, é nosso ofício
apontar o perigo, marcar quem são os adversários e, no máximo de nosso poder, fazer uma barreira
contra seus planos e procedimentos, para que não pereçam aqueles cuja salvação está confiada a nós, e
para que o reino de Jesus Cristo confiado a nosso encargo possa não só permanecer de pé e inteiro, mas
possa ser alargado por um crescimento cada vez maior pelo mundo.
Os pontífices romanos que foram nossos predecessores, em sua incessante vigilância pela segurança
do povo cristão, rapidamente detectaram a presença e o propósito desse inimigo capital tão logo ele
saltou para a luz em vez de se esconder como uma tenebrosa conspiração; e, além disso, eles
aproveitaram e tomaram providências, pois isso a eles cabia, e
não permitiram a si mesmos serem tomados pelos estratagemas e armadilhas armadas para enganá-los.
A primeira advertência do perigo foi dada por Clemente XII no ano de 1738, e sua constituição foi
confirmada e renovada por Benedito XIV. Pio VII seguiu o mesmo caminho; e Leão XII, por sua
Constituição Apostólica — quo graviora —, juntou os atos e decretos dos pontífices anteriores sobre o
assunto e os ratificou e confirmou para sempre. No mesmo sentido pronunciaram-se Pio VIII, Gregório
XVI e, muitas vezes, Pio IX.
Tão logo a constituição e o espírito da seita maçônica foram claramente descobertos pelos manifestos
sinais de suas ações, pela investigação de suas causas, pela publicação de suas leis, ritos e comentários,
com a freqüente adição do testemunho pessoal daqueles que estiveram no segredo, esta Sé Apostólica denunciou
a seita dos Maçons e publicamente declarou
sua Constituição como contrária à lei e ao direito, prejudicial tanto à cris- tandade como ao Estado; e
proibiu qualquer um de entrar na Sociedade, sob as penas que a Igreja costuma infligir sobre as pessoas
excepcionalmente culpadas. Os sectários, indignados por isso, pensando em deixar-se aproveitar ou
diminuir a força desses decretos, parcialmente por desprezo e parcialmente por calúnia, acusaram os
soberanos pontífices que os passaram ou de exceder os limites da moderação em seus decretos ou de
decretar o que não era justo. Esse foi o modo pelo qual eles se esforçaram para esquivar-se da autoridade e
do peso das constituições apostólicas de Clemente XII e Benedito XIV, e também de Pio VII e Pio IX.
Entretanto, na própria Sociedade, encontraram-se homens que relutantemente concordaram que os
pontífices Romanos tinham agido dentro de seu direito, de acordo com a doutrina e disciplina católicas. Os
pontífices receberam a mesma concordância, em termos fortes, de muitos príncipes e chefes de governo,
que tomaram como um dever delatar a sociedade maçônica à Sé Apostólica ou, por seu próprio acordo,
valer-se de leis específicas para declará-la perniciosa, como por exemplo na Holanda, Áustria, Suíça,
Espanha, Bavária, Savóia e outras partes da Itália.
Mas, o que é da maior importância, o curso dos eventos demonstrou a prudência dos nossos
predecessores. Pois sua providente e paternal solicitude não conseguiu sempre e em todo lugar o resultado
desejado; e isso, ou por causa do fingimento e astúcia de alguns que eram agentes ativos na maldade, ou
então da irrefletida leviandade do resto que deveria, em seu próprio interesse, ter dado ao assunto sua
diligente atenção. Em conseqüência, a seita dos Maçons cresceu com uma velocidade inconcebível no
curso de um século e meio, até que se tornou capaz, por meio de fraude ou audácia, de obter tal acesso em
cada nível do Estado de modo a quase parecer a sua força governante. Este veloz e formidável avanço
trouxe sobre a Igreja, sobre o poder dos príncipes, sobre o bem-estar público, precisamente aquele grave
dano que nossos predecessores tinham previsto muito antes. Atingiu-se tal condição que, de agora em
diante, haverá grave razão para temer, não realmente pela Igreja — porque sua fundação é demasiado
firme para ser derrubada pelos esforços dos homens —, mas por aqueles Estados em que prevalece o
poder, ou da seita da qual estamos falando ou de outras seitas não diferentes que se curvam a ela como
discípulas e subordinadas.
Por essas razões, nós, tão logo chegamos ao governo da Igreja, claramente vimos e sentimos ser nosso
dever usar nossa autoridade em sua máxima extensão contra tão vasto mal. Já por muitas vezes, conforme
as ocasiões surgiram, atacamos alguns pontos principais dos ensinamentos que demonstraram de uma
maneira especial a perversa influência das opiniões maçônicas. Assim, em nossa carta encíclica, quod
apostolici muneris, nós nos esforçamos por refutar as monstruosas doutrinas dos socialistas e comunistas;
depois, por meio da Carta Arcamim, penosamente defendemos e explicamos a verdadeira c genuína idéia
da vida doméstica, da qual o matrimônio é o ponto dc partida c a origem; c novamente, na carta que
se inicia Diuturnum, descrevemos a idéia de governo político conforme os princípios da sabedoria
cristã, que é maravilhosa em harmonia, por um lado, com a ordem natural das coisas, e, por outro
lado, com o bem-estar tanto dos príncipes soberanos quanto das nações. É agora nossa intenção, se -
guindo o exemplo de nossos prcdecessorcs, tratar diretamente a própria sociedade maçônica, todo o
seu ensinamento, seus objetivos, c sua maneira de pensar c agir, dc modo a trazer mais e mais à luz
sua força malévola, c fazer o que nós pudermos para deter a propagação dessa peste contagiosa.
Há diversas seitas organizadas que, embora diferindo cm nome, cm cerimonial, forma c
origem, são contudo tão unidas por comunhão de propósitos e pela similaridade de suas principais
opiniões, dc modo a formar dc fato uma só coisa com a seita dos Maçons, que é um tipo de centro ao
qual todas se dirigem c do qual todas retornam. Embora em nossos dias cias não mais mostrem um
desejo dc permanecer escondidas, pois realizam seus encontros à luz do dia c h vista do povo c
publicam seus próprios jornais, quando completamente compreendidas, dcscobrc -sc que elas ainda
retêm a natureza c os hábitos de sociedades secretas. Há muitas coisas, como mistérios q ue é regra
fixa esconder com extremo cuidado, não somente dc estranhos, mas dc muitos e muitos membros
também; tais como seus desígnios secretos c últimos, os nomes de seus maiores líderes c certos segre -
dos c encontros privados, assim como suas decisões e os caminhos c meios dc executá-las. Este é, sem
dúvida, o objetivo das múltiplas diferenças entre os membros quanto a direito, cargo e privilégio,
das distinções recebidas de ordens e graus, c da severa disciplina que é mantida. Os candidatos são
geralmente ordenados a prometer, c mais, a jurar, que eles não irão nunca, a nenhuma pessoa, cm
tempo algum ou dc nenhum modo, dar a conhecer os membros, as senhas ou os assuntos discutidos.
Assim, com uma aparência externa fraudulenta e com um estilo dc fingimento que é sempre o
mesmo, os Maçons, como os maniqueístas de antigamente, csforçam -sc, tanto quanto possível, para
encobrir a si mesmos c para não admitir testemunhas, exceto seus próprios membros. Como
maneira conveniente de disfarcc, assumem o caráter de homens de letras c acadêmicos associados
com o objetivo de aprender, têm sempre pronto um discurso por maior refi namento cultural c sobre
seu amor pelos pobres c declaram que seu único desejo 6 a melhoria da condição das massas c o
compartilhamento de todos os benefícios da vida civil com o maior número possível dc pessoas. Mes -
mo que esses propósitos fossem visados verdadeiramente, eles não são de modo algum o todo dc seu
objetivo. Ainda mais, para ser alistado, 6 necessário que os candidatos prometam e assumam ser, daí
em diante, estritamente obedientes aos seus líderes c Mestres com a mais completa submissão e
fidelidade, e estar dc prontidão para cumprir suas ordens à mais leve
exp