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RESUMO P2

TEORIA DE SEGURANÇA E DEFESA

SEGURANÇA HUMANA

CONTEXTO
 Pós-Guerra Fria, 1990.
 O conceito de segurança passava por um processo de redefinição.
 O surgimento de novas ameaças, como a falta de itens básicos, epidemias e a repressão violenta, faz
com que o indivíduo se torne o objeto de referência de segurança. Além disso, o foco vai além da
integridade física, abordando também as necessidades físicas do indivíduo. Logo, o problema da
segurança humana se relaciona com o progresso dos estudos sobre o desenvolvimento humano, de
modo que essa ideia esteja fundamentada na compreensão da ordem mundial articulada pela
liderança dos EUA, desde o fim da 2GM.
 É um processo de securitização do debate de desenvolvimento humano.

SOBERANIA – PACIFICAÇÃO INTERNA E PROTEÇÃO EXTERNA

 SEGURANÇA HUMANA E INTERVENÇÃO: as operações de paz mudam de prerrogativa e passam a


atacar diversas áreas da sociedade num processo de “peace building” – encerram a guerra,
coordenam grupos políticos, programam eleições, treinam a polícia, desenvolvem programa de
desenvolvimento completo.
 Ao trazer a ideia de que garantir a estabilidade da burocracia do Estado é substancialmente diferente
de garantir a segurança do indivíduo, permitiu que houvesse uma intervenção internacional, na qual
noções da democracia liberal moderna seriam importadas por nações que não tiveram a mesma
trajetória de consolidação desse regime. E o documento utilizado para legitimar essas intervenções é
o da Responsabilidade de Proteger, que destaca dois níveis de soberania.
 Segundo Hobbes, soberania é a instituição que promete pacificação interna (segurança pública)
e proteção das ameaças externas. A soberania de um Estado é defendida, pois é dessa maneira
que o indivíduo se mantém seguro – quanto mais seguro um Estado, mais seguro o indivíduo
está.
1. O Estado tem como função primária garantir a integridade e o desenvolvimento dos indivíduos.
2. Em caso de indisposição do Estado, em garantir a segurança de todos os seus cidadãos, a
sociedade internacional assume a responsabilidade de, por meio da intervenção, restaurar a
segurança.
 Década de 90: alguns Estados passam a perseguir grupos, dentro de seu território, visando a
estabilidade da sua burocracia.
 Se o Estado se mostrar incapaz de prover estabilidade, ou prover estabilidade às custas da
perseguição a certos grupos sociais, a sociedade internacional tem a mesma responsabilidade
residual de fornecer segurança àquela população, sem pedir autorização para entrar no Estado,
cumprindo o papel que deveria ser dele.
 Quando se evidencia uma desproporcionalidade entre a segurança desses dois agentes, questiona-se
qual deve ser a prioridade do estudo da segurança: o Estado ou o indivíduo?
o O Estado é um problema se ele aumenta sua própria segurança em detrimento do indivíduo.
PNUD 1994 – LIBERDADE DO MEDO X LIBERDADE DA NECESSIDADE

 Segurança humana X Direitos humanos.


o Direitos humanos é uma questão de justiça, de igualdade. São os direitos inalienáveis dos
indivíduos, independente das condições políticas do Estado.
o A segurança humana está ligada à estabilidade da ordem, levando em conta a proteção da
liberdade do indivíduo.
o PNUD a conceitua como “segurança com foco no indivíduo e suas liberdades”.
o Assim, destaca-se a ARMADILHA DO CONFLITO, baseada em dois tipos de liberdade:
1. Liberdade Do Medo: ideia de que um indivíduo não tem sua liberdade ameaçada, por
exemplo, por não pertencer a um grupo político que é perseguido.
2. Liberdade Da Necessidade: baseia-se na noção de que, dentro de uma sociedade, existem
grupos que sofrem um extremo grau de privação (de recursos). Logo, vão se utilizar da
violência para sair dessa situação precária. Por exemplo, um processo de marginalização
cultural.
 Segurança e desenvolvimento andam juntos: alto nível de desenvolvimento, leva a altos níveis
de segurança e vice-versa.
 O fundo da ONU para a segurança humana visava concretizar e operacionalizar esse conceito,
por meio do financiamento de projetos relacionados à construção da paz, à restauração pós-
conflito. Dessa forma, o conceito era visto como algo que trazia benefícios sustentáveis às
pessoas e comunidades, que por algum motivo estavam sendo ameaçadas.

TRUMAN 1949 – COOPERAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO


 Reorganização do projeto da ordem internacional dentro da ideia de um sistema capitalista.
o ONU: organização multilateral fundamental.
o OTAN: defesa da Europa da influência soviética.
o Plano Marshall.
 Cooperação técnica para o desenvolvimento: banco mundial financiando programas que
tinham por objetivo aumentar a produtividade da América Latina, permitindo a integração
plena dessas economias dentro do sistema capitalista. Transformação da relação centro x
periferia.
o Hegemonia Britânica: a relação se dava pelo colonialismo (colônia x metrópole), na
qual existia uma hierarquia inflexível – a colônia não poderia virar metrópole.
o Hegemonia Estadunidense: tem-se uma divisão entre 1º e 3º mundo. A ideia vendida
por esse discurso é a de que todos são Estados, porém existem Estados mais
avançados no processo de desenvolvimento e Estados menos avançados. Se os
“atrasados” cumprirem todas as etapas de desenvolvimento, um dia poderão se
tornar países desenvolvidos. E a existência dessa possibilidade de emergir (ir do
subdesenvolvido ao desenvolvido) é muito importante para convencer esses Estados
de 3º mundo a continuar participando do projeto do capitalista.
 OBJETIVO FUNDAMENTAL: especializar a economia desses países subdesenvolvidos na
produção de commodities e, a partir disso, criar plataformas para acelerar não só o crescimento
desses países, mas também a integração deles, por meio do barateamento do custo de
exportações e a consequente maximização da capacidade de exportação desses países.
 TEORIA DA DEPENDÊNCIA: os países de 3º Mundo são, essencialmente, exportadores de
commodities, enquanto os de 1º Mundo são produtores de bens manufaturados, o que cria
uma cadeia de dependência. Nisso, tem-se que a desigualdade é um resquício do colonialismo
e, por isso, os países mais desenvolvidos deveriam ajudar os subdesenvolvidos,
economicamente.
o Entretanto, descobre-se que o desenvolvimento econômico não leva ao
desenvolvimento humano.

FEMINISMO
 Introdução da questão do gênero no debate acadêmico da segurança.

O ESTUPRO, A GUERRA E O FEMINISMO NOS ESTUDOS INTERNACIONAIS


 Durante o período de invasões japonesas ao território chinês e sul-coreano, o estupro e a
violência sexual fizeram parte da estratégia de guerra, pretendendo humilhar a população
daquele local, a fim de consolidar o cruel imperialismo japonês.
 Outro acontecimento importante se dá em Bangladesh, no processo de independência da Índia.
Bangladesh se consolida enquanto um território paquistanês, onde havia uma minoria bengali,
que começou a reivindicar autonomia cultural, principalmente. Nesse contexto, o movimento
dos bengali foi reprimido por meio da prática coordenada e sistemática do estupro.
 Traz à tona o caráter étnico da guerra: o estupro como um processo de neutralização de uma
identidade/cultura.
 Dificuldade da Teoria das Relações Internacionais em lidar com esses acontecimentos, por ser
focada na relação entre soberania e território. Como entender a natureza da violência e de que
forma as organizações internacionais são capazes a administrar a violência? → Porta de entrada
para a pauta feminista na TRI.
o A partir do momento em que se compreende a existência de um tipo de violência,
como o estupro, sendo conduzido sobre uma parcela específica da comunidade, tem-
se o gênero com um papel de como a experiência será vivida. Logo, a fim de entender
a lógica da violência, é necessário trabalhar dois conceitos que se unem: a identidade
e o gênero.
 Década de 90: o estupro se torna indissociável do processo de guerra e é responsável por
desestruturar sociedades.
o Como é o caso de Ruanda: o TPIR (Tribunal Penal Internacional de Ruanda) coloca o
estupro coletivo como crime de genocídio, e então é considerado um crime
internacional.
 Crime de genocídio: quando há, dentro de um espaço curto de tempo, o
extermínio e a neutralização cultural de uma comunidade.
 O construtivismo já debatia o papel do conceito de identidade na compreensão acerca do
comportamento do Estado no Sistema Internacional. Nesse sentido, identidade é algo
intrínseco ao contexto em que o Estado está inserido. A identidade é o elemento que vai
motivar a ação estratégica do Estado, logo, ajuda a compreender sua racionalidade. Então, é
possível dizer que, dentro da narrativa construtivista, há uma relação direta entre
comportamento, interesse e identidade do Estado.
 Por sua vez, o feminismo vai mostrar que a identidade, quando está profundamente
entranhada no projeto social, causa um impacto sobre a experiência de um indivíduo. Dessa
maneira, a identidade vai gerar também um impacto sobre a visão que esse indivíduo tem do
mundo e de seu lugar nele. Essa noção de identidade acaba por ser muito mais profunda e
rígida do que aquela oferecida pelos construtivistas.
o A identidade sujeita indivíduos diferentes a experiências diferentes.
o Enquanto conceito, a identidade tem como função principal conseguir compreender
quando ela gera estruturas de dominação invisíveis, mas que marcam fortemente a
experiência de diferentes indivíduos numa mesma sociedade. Entende-se, então, que
a identidade é também uma variável fundamental para a compreensão das próprias
engrenagens de poder dentro da estrutura social.
o A fim de entender como a identidade funciona, é preciso ter em mente que ela exerce
uma função não só sobre o comportamento da unidade política ou do indivíduo, mas
também tem um papel fundamental sobre a experiência e a visão de mundo, dentro
de um universo marcado por estruturas de dominação que se consolidam por meio da
própria identidade.

O CONHECIMENTO SUBALTERNO
 Esse tipo de conhecimento faz com que os grupos subalternos tenham uma visão da realidade
diferente dos grupos privilegiados.
 Quando um indivíduo está submetido a um determinado grau de insegurança, ele não pode se
desvestir dessa identidade, a fim de se livrar dessa sensação de insegurança, e construir um
novo processo de interação com essa mesma sociedade, isto é, inserir uma nova identidade.
o Essa insegurança, que se impõe sobre certa identidade, é algo particular, intrínseco à
própria estrutura desigual de poder daquela sociedade.
o É dessa maneira que afirmam ser possível tentar compreender racionalmente a
insegurança do outro, mas é impossível produzir, efetivamente, esse conhecimento.
o Exemplo: um homem branco nunca saberá de verdade o que é ser uma mulher negra,
ou seja, estar realmente em uma posição subalterna. Isso ocorre porque essa mulher,
negra, tem uma experiencia particular subalterna provocada pela perversidade das
estruturas de dominação, que tem um impacto sobre a sociedade como um todo.
 É só da perspectiva subalterna que o grau de perversidade das estruturas de poder pode ser
claramente observado.
o Observação objetiva: tipo de conhecimento ligado ao universo da materialidade dos
interesses, presente nas teorias mais convencionais, como realismo e liberalismo.
o A observação fornece a evidência mínima que se tem sobre o mundo, e a experiência
fornece todas as ênfases que se pode ter sobre o mundo.
o Isso significa que o conhecimento subalterno não é subjetivo, ou seja, não é um
conhecimento única e exclusivamente relacionado com a sua experiência, pois como já foi
dito, é por meio dele que um indivíduo, em condição subalterna, é capaz de reconhecer
estruturas de dominação que governam toda a sociedade e abala todos os indivíduos.
o Existem outros dois tipos de observação, que também pode ser chamada de narrativa:
1) a narrativa subjetiva, que é algo presente apenas dentro da sua própria mente e 2)
a narrativa intersubjetiva, que é a construtivista, na qual o interessante é a estrutura
histórico-cultural da relação entre os países.
 O conhecimento subalterno, por sua vez, gera uma nova forma de lidar com o problema trazido
pelas feministas, que é o conhecimento indutivo. Isso é um diferencial enorme, pois até então,
tudo o que era produzido no campo das RI tinha como base o conhecimento dedutivo, isto é:
produz-se um conhecimento geral, que é testado na realidade, e caso fosse comprovado,
geraria a acumulação de conhecimento. Agora, é a particularidade da experiência individual
que dá valor ao conhecimento produzido, pois as estruturas que condicionam a experiência
são objetivas, responsáveis por organizar toda a sociedade.
 É através da razão reflexiva e autogovernada que se pode conceber as experiências contextuais
particulares.

ONDAS DO MOVIMENTO FEMINISTA


 Todo esse problema da identidade está ligado a uma fase mais contemporânea do movimento
feminista, na qual o foco da discussão é gênero enquanto variável estruturadora da identidade
de todos os indivíduos.

PRIMEIRA ONDA DO MOVIMENTO FEMINISTA – SÉCULO XIX


 Foco: movimento sufragista de direito ao voto.
 No Brasil, por exemplo, houve muita resistência em dar direito de voto às mulheres, pois a
organização da sociedade levava à compreensão de que a mulher estava fundamentalmente
ligada à esfera privada e, dessa forma, não fazia sentido ela se manifestar publicamente.
o As Guerras Mundiais mudam drasticamente a dinâmica dessa relação entre público e
privado, pois a partir do momento em que a mulher começa a ocupar cargos que
anteriormente eram apenas para homens, tem-se a transformação da mulher no
cenário público. Início do debate sobre as funções da mulher dentro da sociedade.

SEGUNDA ONDA DO MOVIMENTO FEMINISTA – DÉCADA DE 1950


 Contexto: fim da 2GM.
o Mulheres começam a trabalhar e desempenhar papel principal na sustentação da
família.
 O problema da igualdade, que envolve a demanda por acesso ao mercado de trabalho,
representação política e poder político.

TERCEIRA ONDA DO MOVIMENTO FEMINISTA – DÉCADA DE 1970


 O feminismo se junta a outros movimentos sociais que começam a emergir nas sociedades
ocidentais e não-ocidentais: o movimento estudantil de 1968, o movimento negro, hippie, o
movimento dos direitos civis.
 Ao combinar o direito de igualdade com o direito de diferença, a 3ª onda traz a ideia de que a
mulher não precisa se “masculinizar”, ou melhor, se assemelhar a um homem, para ter acesso
às esferas de poder. Ela, enquanto mulher, portadora ou não de feminilidade, tem total direito
de acesso ao poder.
 É nesse contexto que a discussão sobre o gênero começa a ganhar força e se torna mais
proeminente.

 A partir da década de 70, o universo do mundo feminista é marcado por uma pluralidade de
correntes que não necessariamente dialogam entre si.

MOVIMENTOS CONTEMPORÂNEOS

FEMINISMO LIBERAL
 Essa corrente está ligada às revoluções burguesas do século XVIII, e busca estender às mulheres
os direitos políticos e civis restritos apenas aos homens.
 Foco na reversão das desigualdades e hierarquias de modo mais prático.
 A opressão das mulheres é feita pelas barreiras legais do Estado, que impedem a realização de
direitos individuais. Entretanto, o Estado seria a autoridade fundamental na garantia dos
direitos das mulheres.
 Prega o discurso da igualdade: o papel da corrente feminista é que as mulheres ganhem tanto
quanto os homens e tenham acesso ao poder tanto quanto os homens.

FEMINISMO RADICAL
 Influenciado pelo marxismo.
 Vão se opor às liberais: a esfera legal não é o único desafio para a emancipação feminina.
 Defendem que a opressão feminina é uma das formas de opressão mais primitivas, e é até hoje
sustentada pelo sistema opressor do patriarcado, presente em todas as esferas sociais.
 Ênfase na diferença, e na necessidade de valorização das características e experiências
femininas, tradicionalmente inferiorizadas em sociedades patriarcais. Priorizam a autonomia e
a libertação das mulheres em relação a normas masculinistas e heteronormativas.
o Dessa forma, desafiam o poder do gênero dentro do Estado e no Sistema
Internacional.
 A raiz dessa opressão está no controle dos homens sobre o corpo das mulheres. Esse controle
pode se dar de forma tanto ideológica, por meio de leis e normas, quanto prática, utilizando-se
da violência sexual, por exemplo.
 Para o feminismo radical não existe nenhuma medida paliativa, ou reformista, que redefina a
sociedade. A única forma de superar o tipo de estrutura marcada pela hegemonia do
patriarcado é revolucionando completamente a forma como a sociedade funciona.

FEMINISMO CRÍTICO
 Não se nasce mulher, torna-se mulher.
 Trabalha com a noção de gênero enquanto variável produtora e reprodutora de identidade,
influenciando homens e mulheres de formas diferentes.
 Ressalta a função do gênero na construção de desigualdades na sociedade: como as estruturas
sociais atribuem papéis diferentes a pessoas diferentes, utilizando-se da ideia de gênero.

FEMINISMO PÓS-COLONIAL
 Nasce no Oriente Médio, também é conhecido como antirracista ou anti-imperialista.
 Ênfase na interseção entre imperialismo, colonialismo, capitalismo e racismo e a opressão das
mulheres: no 3º Mundo, as mulheres sofreriam formas mais agudas de opressão, por causa
dessas interrelações.
 Desafia a distinção entre o local e o global, afirmando que estruturas de dominação perpassam
esses níveis.
 Reconhece o papel do patriarcalismo nas suas sociedades, mas parte do princípio que as suas
necessidades só poderiam ser efetivamente atendidas caso vivessem naquela experiência.

ANOTAÇÕES!
 O poder do gênero se relaciona às maneiras, pouco comuns em RI, de pensar como nossas formas
de ver e interpretar o mundo estão delimitadas pelo gênero. Certas normas e instituições são
responsáveis pelas formas como somos socializados nas hierarquias de gênero, como
internalizamos pressupostos culturais e os definimos como parte de nossas identidades. O controle
social que garante essa internalização é feito pela família, pelas leis, pelo mercado, pela coerção
física e, também, pela organização do sistema internacional.
 GÊNERO: define as relações de poder entre homens e mulheres, e condiciona o nosso
pensamento a funcionar a partir de dicotomias hierarquizadas que legitimam formas múltiplas de
dominação em diversas esferas sociais.

PÓS-MODERNISMO
 CONTEXTO: fim da Guerra Fria.
 OBJETIVO: desconstruir as teorias dominantes das Relações Internacionais, especialmente as
de análise científica (realismo, idealismo, liberalismo).
o Racionalismo, cientificismo e positivismo formavam uma tríade, que de certa forma
limitaram a área do conhecimento das RI, uma vez que produziram muitas conclusões
parciais sobre o internacional.
o Dessa forma, tem-se uma crise na tríade moderna, que afeta a forma como a realidade
é percebida. Nesse sentido, propõe-se uma visão de mundo mais fluida, baseada no
Reflexivismo, relativismo e pós-modernismo.
 Principais pensadores: Foucault e Derrida.
 A Verdade enquanto conceito múltiplo.

IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO
BUSH, BIN LADEN E OS GUERREIROS DA LIBERDADE
 Osama Bin Laden, no contexto de fim da guerra entre Rússia e Afeganistão (1989), era visto
como um Guerreiro da Liberdade, ao lado do presidente Bush. Nesse momento, a narrativa do
conservadorismo religioso violento estava direcionada aos russos.
o Guerreiros da Liberdade: a mídia estadunidense romantizava o conservadorismo
religioso do Talibã, inclusive aproximando-o do conservadorismo puritano trazido
pelos ingleses no século XVIII. Afirmavam que o grupo Talibã, assim como os primeiros
estadunidenses, precisava lutar pela liberdade, para afirmar sua razão e defender seus
valores, da invasão russa.
 O pós-modernismo estabelece a identidade como representação, ressaltando o papel político
que ela pode cumprir.
o O processo de representação do Talibã em 89 era de legitimar sua violência e
resistência. Posteriormente, a representação do Talibã como terrorista serviu para
deslegitimar a violência produzida por ele, ao mesmo tempo em que legitimava a
violência contra esse grupo. Nesse último contexto, os EUA não se sentiam mais
representados pelos ideais do Talibã.

O PROBLEMA DA IDENTIDADE
 Percepção da identidade dentro das variadas teorias reflexivistas.
 CONSTRUTIVISMO: identidade enquanto trajetória histórico-cultural, que influencia na tomada
de decisão (do Estado).
 FEMINISMO: identidade enquanto singularidade da experiência.
 PÓS-MODERNISMO: identidade enquanto representação, ancorada na estrutura de
significados que marcam aquele contexto.
o O processo de representação é um processo instável, no qual o importante é a
estrutura do discurso dentro de um determinado contexto. Deve-se, aqui, olhar para
como a natureza do ator é representada e compreender a força política que ela
carrega. É a utilização do discurso para dar sentido à certas atitudes, exemplo: o
conservadorismo religioso do Talibã.
o O processo de construção da identidade depende do período histórico em que se está
inserido.

DEFINIÇÃO POR OPOSIÇÃO – A DEMARCAÇÃO DA IDENTIDADE


 O papel da identidade é demarcar; a demarcação da identidade trata de algo que se quer
reforçar.
o O discurso sobre a identidade brasileira de Barão do Rio Branco baseou-se na
construção de oposições, isto é, a América Latina e suas repúblicas eram
caracterizadas por uma continuada instabilidade. Entretanto, o Brasil afirmava-se
enquanto Império, logo, se diferenciava das demais, no sentido de ser estável e,
consequentemente, superior. Dessa maneira, o Brasil ao tentar reforçar sua
característica de nação estável, acaba por deslegitimar os outros, que são diferentes.
o Não existe a construção de uma identidade sem a construção de uma alteridade, isto
é, uma característica que se desenvolve por relações de contraste. Todo processo de
construção da identidade é um processo de demarcação do “eu”, que é instável e não
é natural.
o Criação de expectativas: se dá em relação ao externo. Por exemplo, o Brasil hoje não é
uma democracia, mas se representa como uma, pois busca um efeito de legitimidade. 

SINALIZAÇÃO POSITIVA E NEGATIVA


 A construção de uma delimitação positiva e negativa leva à deslegitimação de uma realidade ou
cultura desconhecida por um ator.
 A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE OCIDENTAL
o A complexidade do oriente, enquanto um conjunto de comunidades políticas
múltiplas, permite que os europeus construam ali uma espécie de “espelho inverso”,
com a projeção das ambiguidades, da sociedade europeia, nesse espaço
desconhecido. Isso se dá de tal forma que para construir uma identidade europeia
confortável, todos os seus próprios elementos sociais que lhe são desconfortáveis, são
projetados sobre o outro, que nesse caso é o oriente.
o Para que a reafirmação do potencial de liberdade do ocidente faça sentido, é preciso
caracterizar o oriente como uma sociedade autoritária. Ou hedonista, para se
contrapor ao racionalismo ocidental.
o Construção de uma representação que permite a defesa de um próprio modo de vida,
por exemplo.
 Para defender todas as escolhas que você faz, você deve projetar tudo aquilo que você nega
sobre a incapacidade do outro de ser quem você é.

 Tem-se um debate interessante, dentro do pós-modernismo, sobre as maneiras pelas quais o processo
de representação da identidade provoca a estigmatização do outro. Dois autores vão falar sobre as
variadas formas que pode se dar a estigmatização.

TODOROV
 Utiliza-se de três narrativas.
1) A ELIMINAÇÃO DO OUTRO
a. Processo mais violento, no qual existe uma incapacidade de reconhecer a civilidade e a
humanidade no outro.
b. Exemplo fundamental disso é a relação da pólis grega com os bárbaros. Deve-se ter
em mente que a própria ideia de “bárbaro” tem a ver com algo que não é plenamente
humano, por estar afastado da civilização grega. Assim, a lógica desse processo torna-
se bastante clara: a única vida legítima é a vida civilizada. A única forma de vida
civilizada é aquela que está dentro de uma estrutura cultural específica. Tudo o que
está fora disso é “bárbaro”. Logo, todos os meios para o extermínio do outro são
legítimos, pois é como se eles não fossem realmente humanos. Além disso, essa
população às margens da civilização “verdadeira” representa uma ameaça, que precisa
ser eliminada.
2) A CONVERSÃO DO OUTRO
a. Exemplificado na colonização hispânica nas américas: momento no qual existe uma
autoridade dos jesuítas e eles pretendem investigar se o índio possui, ou não, alma,
isto é, se é humano ou não.
b. Nesse contexto, tem-se uma alteridade na qual o outro compartilha da mesma
essência, porém está numa situação mais atrasada, ou seja, não tem o mesmo tipo de
civilização que seu povo. Logo, aquele que é mais desenvolvido tem como
responsabilidade converter o outro para dentro de seus padrões civilizatórios, e não o
eliminar.
3) A ACEITAÇÃO DO OUTRO
a. Momento no qual se tem um grau elevado de sofisticação da relação entre duas
organizações, a ponto de permitir que o outro seja reconhecido como o outro. Dessa
maneira, o outro deixa de ser lido como ausência, sendo possível dialogar com ele e
enriquecer dessa troca. A particularidade dele, enquanto outro, é reconhecida e
aceita, de forma que ele não é mais tido como uma ameaça.

FOUCAULT
 Preocupado com as formas pelas quais as organizações políticas contemporâneas administram o
problema da coletividade: quais são os instrumentos de poder utilizados para transformar a
coletividade caótica em algo coordenado; como a sociedade é governada, de forma a estabelecer
um grau de coerência identitária e cultural a ela.
 É observando a formação dos Estados-nação europeus que ele vai notar a existência de um
conjunto de técnicas capazes de transformar a subjetividade em identidade e, assim, governar uma
sociedade complexa.
1) SOBERANIA
a. Processo de governança da sociedade baseado na demarcação territorial.
b. É a capacidade de governar a subjetividade, por meio do governo do espaço, onde
existem leis e punições, que condicionam a mente dos indivíduos sobre o que pode ou
não ser feito.
2) DISCIPLINA
a. Poder que se exerce sobre o corpo: são normas, regulações sobre o comportamento
que os indivíduos devem exercer.
b. Ligada ao processo de doutrinação do indivíduo, isto é, a disciplina governa atacando
a individualidade, uma vez que obriga todos os indivíduos a aceitarem as mesmas
regras, em detrimento da individualidade.
c. Exército = Escola – é a ideia de conhecer e compreender as normas para as cumprir; o
próprio processo de educação é um aparato disciplinar.
3) GOVERNAMENTALIDADE
a. Governo exercido sobre a população enquanto agregado, que nasce com o
desenvolvimento da estatística e da economia.
b. Não está relacionado com a individualidade ou com o território, mas como os dados
estatísticos denunciam certas informações, que permitem a identificação de
problemas que podem gerar instabilidade, e as políticas que podem ser utilizadas para
impedir a resistência de grupos ao poder em questão.
c. É importante para entender quais são os dados da população que podem ser utilizados
para, por exemplo, a construção de políticas públicas que vão diminuir a resistência ao
poder.
PÓS-COLONIALISMO

O CAMPO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS E O 3° MUNDO


 Desde o início das TRI o que estava em jogo nos debates realismo x liberalismo era um
problema cultural e geográfico muito específico. Ainda que o SI estivesse globalizado, a
capacidade de pensar o sistema internacional permaneceu espelhando os dilemas e a realidade
de poucos países. Dessa forma, a teoria das relações internacionais sempre foi algo que partiu
do centro para a periferia, o que impediu, de certa forma, a compreensão da complexidade da
periferia.
o Exemplo: a ideia de que o problema da política poderia ser resolvido a partir da
territorialização da autoridade não fazia sentido para o espaço colonial, que no caso,
era a maior parte do mundo.
o Os conceitos centrais desenvolvidos para lidar com o problema do poder no SI foram
ineficazes para a compreensão do processo de sobreposição de autoridade e das
modalidades de poder existentes.
o Exemplo 2: durante a Guerra Fria, enquanto Waltz falava sobre a estabilidade da
bipolaridade, os países de 3º Mundo sofriam com uma instabilidade brutal.
 A Teoria da Paz Democrática: EUA vence a Guerra Fria, o que significa que o sistema de
democracia liberal moderna venceu e, portanto, não existe rivais à altura da superioridade
política e civilizacional desse modelo de organização. A partir disso, constrói-se uma
perspectiva de que esse modelo se expandirá para a periferia, carregando a ideia de que
democracias não entram em guerra entre si, devido aos direitos políticos e civis inerentes a ela.
É, na verdade, uma estratégia política.
o No desenrolar dos anos 90, tem-se uma maior resistência às operações de paz da
ONU, pois nas sociedades mais desestruturadas, o Estado-nação liberal-democrático
imposto vai dificultar, na verdade, a organização delas. Ainda, começa a ficar clara a
existência de uma imposição política, vinda de cima para baixo, principalmente
porque a intervenção internacional conseguiu piorar a situação de algumas regiões,
em vez de melhorar.
o A tentativa de inserir um modelo particular em locais com construção histórica e
cultural diferentes gera resistência, porque a cultura dentro da qual a sociedade está
inserida, não é a mesma da estrutura política pela qual ela será comandada.
o Portanto, a periferia continua instável e violenta. Porém, agora, diferente do que era
na Guerra Fria, a estabilidade da ordem internacional passa a depender cada vez mais
da estabilidade da periferia. Ainda, há uma limitação dos modelos teóricos,
intelectuais, em compreender a complexidade da periferia, o que impede a
administração dos conflitos nessa região. Isso ocorre, pois os instrumentos intelectuais
disponíveis foram construídos para resolver apenas os problemas do centro.

TEORIAS PRODUZIDAS NO 3° MUNDO


 Um conjunto de autores vai começar a refletir sobre como utilizar o arcabouço teórico das RI
para compreender como a periferia funciona.

TEORIA DA DEPENDÊNCIA
 Crítica ao liberalismo clássico: ao trabalhar com a ideia de vantagens comparativas, esse
liberalismo defendia o estímulo a uma Divisão Internacional do Trabalho.
 A teoria da dependência serve apenas para promover a divisão internacional do trabalho.
 DTT: Deterioração dos termos de troca. Isso é, produtos de maior valor agregado se valorizam
mais, mais rapidamente, enquanto os de menor valor se valorizam de forma mais lenta. Isso
leva à uma maior vulnerabilidade econômica, ao mesmo tempo em que aumenta a
dependência dos países subdesenvolvidos em relação aos mais ricos.
 Os Estados que se especializam em produtos primários se desenvolvem de maneira mais lenta
e são geralmente países da periferia.

REALISMO PERIFÉRICO – CARLOS ESCUDÉ


 Premissa fundamental: a teoria das relações internacionais não consegue entender como a
periferia funciona, porque parte da premissa central de Sistema Internacional anárquico, e essa
premissa é insuficiente e disfuncional para a compreensão da dinâmica periférica.
o Entende-se por anarquia a ideia da coexistência de diferentes Estados, que se
reconhecem mutuamente enquanto Estados, ou seja, existe ali uma espécie de
igualdade que leva a uma relação horizontal entre eles. Entretanto, o mesmo não
pode ser aplicado à periferia, pois a forma como o poder é produzido nesse contexto é
diferente.
 Para entender como o SI funciona na periferia, deve-se abrir mão dessa ideia estipulada de
anarquia e, assim, perceber que ali o SI é marcado pela HIERARQUIA INCIDENTE:
o Sistema no qual o tipo de escolhas à disposição dos atores é diferente, ainda que
exista um estatuto jurídico igualitário. Assim, delimita-se três funções que
caracterizam o SI:
1. Os atores mais poderosos são os que criam as regras, os que formulam e
reformulam as regras do jogo, construindo e desmontando instituições,
estabelecendo o parâmetro dentro do qual todos os outros Estados vão operar.
a. Os Estados periféricos, nesse sentido, só podem cumprir dois papéis diferentes:
i. Tomadores de regras: filiam-se a instituições internacionais, abraçam o
projeto hegemônico em vigor.
ii. Rebeldes: desafiam as instituições, não se incorporam ao projeto hegemônico
– é o caso da Coreia do Norte, por exemplo.

REALISMO SUBALTERNO – MOHAMED AYOOB


 Premissa Fundamental: a teoria das relações internacionais fracassa em entender o dilema de
segurança da periferia, porque tem-se definida a ideia de Estado enquanto ator soberano, logo,
tudo o que está fora do Estado é uma ameaça à sua sobrevivência.
o Entretanto, essa é uma forma muito pobre de compreender as fontes de insegurança
dos países periféricos, uma vez que a ameaça à integridade deles é interna.
 A fim de compreender o dilema de segurança na periferia, é necessário, primeiramente,
entender a trajetória de consolidação dos Estados-nação periféricos e como ela se deu de
forma diferente dos Estados europeus.
o A criação dos Estados nacionais europeus está baseada num processo de
territorialização, com um processo lento de centralização política. O uso extremo e
irrestrito da violência é o que permite a consolidação desses Estados, que são coesos
pois tudo o que era culturalmente diferente foi eliminado.
o Por sua vez, a formação dos Estados “pós-coloniais” se dá com a sujeição destes a
constrangimentos normativos que os europeus não tiveram. Agora, eles têm
organizações monitorando seu processo de consolidação, o que impede que eles
recorram ao mesmo nível de brutalidade dos europeus.
 Essa comparação é importante, pois permite desmitificar a ideia de que, por
exemplo, os Estados africanos são inviáveis devido à cultura deles ser tão
oposta, que eles não conseguem se adaptar à modernidade. Desenvolve-se
uma ideia de que a responsabilidade pelo fracasso dos países africanos se dá
pela incapacidade de governabilidade das elites, e não pela trajetória
histórica que levou à centralização de poder nesses países.
 Culpar as elites é mostrar-se incapaz de entender os diferentes contextos e os
diferentes processos de consolidação. A fragmentação histórica nada tem a
ver com a “incapacidade étnica” de um grupo político.

 Existe outro conjunto de autores, que vão partir de um ponto de vista mais epistemológico, de
forma a construir uma narrativa crítica do Sistema Internacional, são os pós-colonialistas.
o Esses autores vão se diferenciar daqueles do 3º Mundo, pois ainda utilizarão uma
teoria do Estado: como o Estado periférico funciona e como ele pode funcionar.

PÓS-COLONIALISMO
 Apresenta como perspectiva a percepção do Estado como uma forma específica de organização
da vida política, mas não a única possível.
 Na Europa, a territorialidade é importante, pois a terra é valiosa devido à pequena extensão
quilométrica. Na África, por outro lado, a terra não é um problema, e esse é um dos motivos
pelos quais essa região não prioriza o poder territorial para a sua organização política.
 Logo, para entender o pós-colonialismo, é preciso ter em mente a ideia de que o Estado não é
universalmente válido e ele está, de certa forma, intrínseco à cultura europeia. Portanto, o
objetivo da teoria é pensar o efeito de oposição do Estado enquanto uma forma particular de
organização da comunidade política, sobre um espaço que não foi criado socialmente para ser
governado na forma de um Estado. Dessa forma, o Estado deixa de ser um objeto e passa a ser
parte do problema que define o objeto.
 Esses autores vão apresentar, de formas diferentes, os impactos sobre a experiência pós-
colonial do encontro com o ocidente.

EDUARD SAID – ORIENTALISMO


 Oriente é uma invenção do Ocidente, uma espécie de espelho reverso, isto é, o contrário do
que o Ocidente quer dizer sobre si mesmo.
o Democracia versus despotismo autoritário; comedimento versus sensualidade.
 O processo de identificação de tudo o que está fora do Ocidente é construído pela tentativa do
Ocidente de compreender a si mesmo.
 Do ponto de vista geográfico, não existe uma coisa chamada Oriente: foi o nome dado a tudo
aquilo que não representava a Europa.

FANNON – CONDENADOS DA TERRA


 Entra numa dimensão mais psicológica.
 Mostra que a violência colonial vai muito além da violência material (destruição e apropriação
material), pois aborda também a violência simbólica, que é muito mais marcante e duradoura,
porque é através dela que o colonizador vai impor sobre o outro normas sociais de
comportamento adequado, obrigando o colonizado a se ressocializar, de forma a se adequar às
regras impostas.
o A colonização causa a estigmatização do modo de vida e da cultura de um povo, que
passa a se comportar de modo a reafirmar a sua própria inferioridade cultural, porque
um outro impôs isso sobre ele.

 O pós-colonialismo se assemelha ao feminismo na forma como lida com o problema da


identidade: abre-se mão de entender uma única e exclusiva forma de comportamento, a fim de
compreender o impacto da experiência sobre a visão de mundo.