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MÓDULO DE:

SOCIOLOGIA INDUSTRIAL E DO TRABALHO

AUTORIA:

Dr. DANIEL PERTICARRARI


Dra. FERNANDA FLÁVIA COCKELL

Copyright © 2008, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil

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Copyright © 2007, ESAB – Escola Superior Aberta do Brasil
Módulo de: Sociologia Industrial E Do Trabalho

Autoria: Dr. Daniel Perticarrari


Dra. Fernanda Flávia Cockell

Primeira edição: 2009

CITAÇÃO DE MARCAS NOTÓRIAS

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e informar quem possui seus direitos de exploração ou ainda imprimir logotipos, o autor declara estar utilizando
tais nomes apenas para fins editoriais acadêmicos.
Declara ainda, que sua utilização tem como objetivo, exclusivamente a aplicação didática, beneficiando e
divulgando a marca do detentor, sem a intenção de infringir as regras básicas de autenticidade de sua utilização
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E por fim, declara estar utilizando parte de alguns circuitos eletrônicos, os quais foram analisados em pesquisas
de laboratório e de literaturas já editadas, que se encontram expostas ao comércio livre editorial.

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A presentação

Neste módulo você irá estudar os principais conceitos e ideias relacionadas à sociologia
industrial e do trabalho. Você entrará em contato com as principais mudanças estruturais que
ocorreram, não apenas, nas organizações de trabalho, como também na sociedade como um
todo.

Para um bom entendimento das questões relativas ao trabalho é extremamente desejoso


que o aluno já tenha cursado os módulos “Teoria das Organizações” e “Organização do
Trabalho”, oferecidos por essa instituição e que fazem parte do curso de pós-graduação
“Ambiente Organizacional, Saúde e Ergonomia”. Dessa maneira, as questões impactantes
sobre a sociedade, que serão trabalhadas nos estudos de casos e artigos expostos neste
módulo, terão um melhor embasamento conceitual.

As unidades baseiam-se em textos básicos e complementares e apresentação de estudos de


caso específicos na utilização do desenvolvimento do módulo. Dessa forma, o módulo pauta-
se em artigos especializados sobre o tema, de autores de reconhecida importância
acadêmica e científica. Tal procedimento justifica-se pela necessidade de entender as
transformações no mundo do trabalho em termos macrossociais e não apenas em empresas
específicas, o que engendra significativos desdobramentos para os trabalhadores, em que
pese sua saúde.

Se dedique à leitura dos textos, buscando aprofundar seus conhecimentos sobre cada
assunto.

Bons estudos!

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O bjetivo

Embasar teoricamente os profissionais de diversas áreas, na compreensão das principais


transformações do mundo do trabalho e da sociedade, de forma a oferecer elementos
conceituais para que se possam entender os possíveis impactos para os trabalhadores.

E menta

Entendendo a Sociologia;

O Mundo do Trabalho como Categoria de Análise;

Principais Transformações no Mundo do Trabalho;

Do Taylorismo/Fordismo à Especialização Flexível;

Gênero e Cultura na Sociologia do Trabalho;

O Cooperativismo como Forma de Associação do Trabalho;

A Informalidade no Trabalho;

A Precarização do Trabalho;

Informalidade, Redes Sociais e Saúde.

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S obre o Autor

Dr. Daniel Perticarrari

Pós-Doutorado pela UNICAMP – Faculdade de Educação;

Doutor em Sociologia Industrial e do Trabalho pela Universidade Federal de São Carlos


(UFSCar) – SP, 2007;

Mestre em Política Científica e Tecnológica pela UNICAMP, 2003;

Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos, 1999;

Desenvolveu e desenvolve projetos de pesquisa científica junto à UFSCar, UNICAMP, e


CARDIFF UNIVERSITY – Inglaterra.

Dra. Fernanda Flávia Cockell

Doutora em Engenharia de Produção (Saúde e Trabalho) pela Universidade Federal de São


Carlos (UFSCar) – SP, 2008;

Mestre em Engenharia de Produção (Ergonomia) pela Universidade Federal de São Carlos


(UFSCar) – SP, 2004;

Graduada em Fisioterapia pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, 2001.

Desenvolveu pesquisas na área de ergonomia junto à UFMG, FUNEP e UFSCar.


Atualmente, participa de projeto de pesquisas na UFSCar e UNICAMP, nas áreas de
Sociologia do Trabalho e Saúde do Trabalhador. Tem experiência em treinamentos, comitês
de ergonomia e projetos de intervenção ergonômica nas empresas: UNILEVER, Telemig
Celular, Multibrás (Brastemp), SOICOM, CRB, Johnson & Johnson, PMMG, Companhia
Mineira de Metais, entre outras.

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S UMÁRIO

UNIDADE 1 ........................................................................................................... 9
Entendendo a Sociologia ................................................................................... 9
UNIDADE 2 ......................................................................................................... 14
A Sociologia Industrial e do Trabalho .............................................................. 14
UNIDADE 3 ......................................................................................................... 18
A Sociologia Industrial e do Trabalho .............................................................. 18
UNIDADE 4 ......................................................................................................... 22
A Sociologia Industrial e do Trabalho .............................................................. 22
UNIDADE 5 ......................................................................................................... 26
A Sociologia Industrial e do Trabalho .............................................................. 26
UNIDADE 6 ......................................................................................................... 35
Do Fordismo à Especialização Flexível ........................................................... 35
UNIDADE 7 ......................................................................................................... 39
A Especialização Flexível e a Sociedade Atual ............................................... 39
UNIDADE 8 ......................................................................................................... 43
O Fordismo Informal ........................................................................................ 43
UNIDADE 9 ......................................................................................................... 48
Novas Configurações do Trabalho: A Inserção da Mulher e a Mão-de-Obra
Precária ............................................................................................................ 48
UNIDADE 10 ....................................................................................................... 55
Novas Configurações do Trabalho: A Inserção da Mulher e a Mão-de-Obra
Precária ............................................................................................................ 55
UNIDADE 11 ....................................................................................................... 61
Novas Configurações do Trabalho: A Inserção da Mulher e a Mão-de-Obra
Precária ............................................................................................................ 61

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UNIDADE 12 ....................................................................................................... 66
Novas Configurações do Trabalho: A Inserção da Mulher e a Mão-de-Obra
Precária ............................................................................................................ 66
UNIDADE 13 ....................................................................................................... 70
A Divisão do Trabalho Doméstico.................................................................... 70
UNIDADE 14 ....................................................................................................... 77
O Cooperativismo Como Forma de Associação do Trabalho ......................... 77
UNIDADE 15 ....................................................................................................... 82
Informalidade No Trabalho .............................................................................. 82
UNIDADE 16 ....................................................................................................... 86
O Significado de Informalidade ........................................................................ 86
UNIDADE 17 ....................................................................................................... 91
Sobre o Conceito “Informalidade” .................................................................... 91
UNIDADE 18 ....................................................................................................... 95
Trabalho Informal e Economia Informal ........................................................... 95
UNIDADE 19 ....................................................................................................... 98
Trabalho Informal e Economia Informal ........................................................... 98
UNIDADE 20 ..................................................................................................... 102
Trabalho Informal e Contrato de Trabalho ..................................................... 102
UNIDADE 21 ..................................................................................................... 107
Informalidade na Globalização ...................................................................... 107
UNIDADE 22 ..................................................................................................... 112
Relações de Trabalho e Precarização ........................................................... 112
UNIDADE 23 ..................................................................................................... 117
Relações de Trabalho e Precarização ........................................................... 117
UNIDADE 24 ..................................................................................................... 123
Precarização das Relações de Trabalho e Sindicalismo .............................. 123
UNIDADE 25 ..................................................................................................... 130

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Precarização das Relações de Trabalho e Neoliberalismo ........................... 130
UNIDADE 26 ..................................................................................................... 137
Tecnologia da Informação e Qualificação Profissional: Um Estudo de Caso
........................................................................................................................ 137
UNIDADE 27 ..................................................................................................... 141
Tecnologia da Informação e Qualificação Profissional: Um Estudo de Caso
........................................................................................................................ 141
UNIDADE 28 ..................................................................................................... 146
Tecnologia da Informação e Qualificação Profissional: Um Estudo de Caso
........................................................................................................................ 146
UNIDADE 29 ..................................................................................................... 152
Informalidade e Saúde ................................................................................... 152
UNIDADE 30 ..................................................................................................... 159
Fragilidade do Sistema de Proteção Social ................................................... 159
GLOSSÁRIO ..................................................................................................... 166

BIBLIOGRAFIA ................................................................................................ 176

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U NIDADE 1
Entendendo a Sociologia

Objetivo: Explicitar o que é sociologia e quais são seus campos de análise

Conceito Histórico

Sociologia pode ser entendida como a ciência ou campo de estudo da sociedade (a


totalidade dos seres humanos na terra, em conjunto com suas culturas, instituições,
capacidades, ideias e valores).

Dependendo do objeto de estudo em particular, a sociologia ganha especificidades:

 Antropologia: estudo dos valores simbólicos de uma determinada cultura ou grupo


social;

 Política: estudo das relações de poder (estrutura política, partidos, mídia, etc.);

 Economia: estudo das relações de troca e de produção;

 Sociologia: estudo das instituições, grupos, interações, etc.;

 Direito: estudo do aparato jurídico e legislativo.

Obviamente, uma disciplina não consegue dar conta sozinha de todos os campos de análise,
de maneira que qualquer pesquisa social envolve multidisciplinaridade, apesar dos meios
acadêmicos por razões de delimitação de campo profissional, tenderem a fracionar as
ciências sociais.

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Em termos históricos, a sociologia teve suas origens no século XVIII (retardatária em relação
a outras ciências, como a física, matemática, biologia, que se desenvolveram muito antes
disso) junto com o iluminismo e pretendia entender os fenômenos sociais não como obras do
acaso ou de forças metafísicas ou divinas, mas como estruturas construídas historicamente
com determinada lógica e dinâmica.

Um dos primeiros teóricos foi Auguste Comte, cuja importância repousa apenas na
delimitação da sociologia enquanto uma nova ciência. Segundo ele, os fenômenos da
sociedade obedecem a leis que podem ser analisáveis. É importante ressaltar, entretanto,
que, para Comte, a sociologia se ocupava mais em como a sociedade deve ser, do que
como ela realmente é o que dá um caráter extremamente positivista, ou seja, as diferenças e
transformações são consideradas disfunções (a sociedade fica “doente”). Esse caráter,
obviamente não se aplica mais, e as mudanças e diferenças são vistas como fenômenos
específicos construídos segundo uma lógica própria.

A partir do século XIX e início do século XX, a sociologia ganha estudiosos de maior gabarito
e o estudo dos fenômenos sociais passa a ter mais consistência. Nessa época, procurava-se
estudar a sociedade como um todo, e o que importava eram os grandes fenômenos
(macrossociais). Destacam nessa época Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim.

No entanto, é necessário frisar, de forma muito clara, que a Sociologia é datada


historicamente e que o seu surgimento está vinculado à consolidação do capitalismo
moderno.

Esta disciplina marca uma mudança na maneira de se pensar a realidade social,


desvinculando-se das preocupações especulativas e metafísicas e diferenciando-se
progressivamente enquanto forma racional e sistemática de compreensão da mesma.

Assim é que a Revolução Industrial significou, para o pensamento social, algo mais do que a
introdução da máquina a vapor. Ela representou a racionalização da produção da
materialidade da vida social.

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O triunfo da indústria capitalista foi pouco a pouco concentrando as máquinas, as terras e as
ferramentas sob o controle de um grupo social, convertendo grandes massas camponesas
em trabalhadores industriais. Neste momento, se consolida-se a sociedade capitalista, que
divide de modo central a sociedade entre burgueses (donos dos meios de produção) e
proletários (possuidores apenas de sua força de trabalho). Há paralelamente um aumento do
funcionalismo do Estado que representa um aumento da burocratização de suas funções e
que está ligado majoritariamente aos estratos médios da população.

O quase desaparecimento dos pequenos proprietários rurais, dos artesãos independentes, a


imposição de prolongadas horas de trabalho, e etc., teve um efeito traumático sobre milhões
de seres humanos ao modificar radicalmente suas formas tradicionais de vida.

Não demorou para que as manifestações de revolta dos trabalhadores se iniciassem.


Máquinas foram destruídas, atos de sabotagem e exploração de algumas oficinas, roubos e
crimes, evoluindo para a criação de associações livres, formação de sindicatos e movimentos
revolucionários.

Este fato é importante para o surgimento da Sociologia, pois colocava a sociedade num
plano de análise relevante, como objeto que deveria ser investigado tanto por seus novos
problemas intrínsecos, como por seu novo protagonismo político já que junto a estas
transformações de ordem econômica pôde-se perceber o papel ativo da sociedade e seus
diversos componentes na produção e reprodução da vida social, o que se distingue da
percepção de que este papel seja privilégio de um Estado que se sobrepõe ao seu povo.

O surgimento da Sociologia prende-se em parte aos desenvolvimentos oriundos da


Revolução Industrial, pelas novas condições de existência por ela criada. Mas outra
circunstância concorreria também para a sua formação. Trata-se das modificações que
vinham ocorrendo nas formas de pensamento, originada pelo Iluminismo. As transformações
econômicas, que se achava em curso no ocidente europeu desde o século XVI, não
poderiam deixar de provocar modificações na forma de conhecer a natureza e a cultura.

A Sociologia, assim, vai debruçar-se sobre todos os aspectos da vida social. Desde o
funcionamento de estruturas macrosociológicas como o Estado, a classe social ou longos

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processos históricos de transformação social ao comportamento dos indivíduos num nível
microsociológico, sem jamais esquecer-se que o homem só pode existir na sociedade e que
esta, inevitavelmente, lhe será uma "jaula" que o transcenderá e lhe determinará a
identidade.

Para compreender o surgimento da sociologia como ciência do século XIX, é importante


perceber que, nesse contexto histórico social, as ciências teóricas e experimentais
desenvolvidas nos séculos XVII, XVIII e XIX inspiraram os pensadores a analisar as
questões sociais, econômicas, políticas, educacionais, psicológicas, com enfoque científico.

Como ciência, a Sociologia se esmera em obedecer aos mesmos princípios gerais válidos
para todos os ramos de conhecimento científico, apesar das peculiaridades dos fenômenos
sociais quando comparados com os fenômenos de natureza e, consequentemente, da
abordagem científica da sociedade. Tais peculiaridades, no entanto, foram e continuam
sendo o foco de muitas discussões, ora tentando aproximar as ciências, ora afastando-as e,
até mesmo, negando às humanas tal estatuto com base na inviabilidade de qualquer controle
dos dados tipicamente humanos, considerados por muitos, imprevisíveis e impassíveis de
uma análise objetiva.

As perspectivas teórico-metodológicas apresentam tanto o estudo estatístico de


comportamentos sociais, buscando evidenciar padrões (estudo quantitativo), até estudos que
buscam a percepção dos atores envolvidos em determinado fenômeno social, tentando
entender a lógica simbólica e os interesses velados conscientes ou não dos indivíduos
(estudo qualitativo).

Os sociólogos estudam uma gama muito grande de assuntos, desde que relacionados ao
indivíduo em sociedade. Como exemplo, podemos citar:

 Sociologia da administração: é a disciplina que consiste na aplicação dos


conhecimentos sociológicos - conceitos, teorias e princípios - à análise das relações
sociais encontradas nas empresas de modo geral;

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 Sociologia econômica: é um ramo da sociologia que busca os elementos
socializadores da economia e do mercado. Surgiu em resposta às teorias da
economia clássica e neoclássica sobre o Homo economicus e a teoria da escolha
racional ao negar que as relações sociais inseridas no mercado visassem somente à
satisfação racional e utilitária de interesses individuais;

 Sociologia Industrial e do trabalho: é o ramo da Sociologia que procura estudar os


sujeitos ocultos do ambiente de trabalho, principalmente as fábricas e os sindicatos
estruturados, bem como os fenômenos que surgem das relações de trabalho e as
consequências para os trabalhadores, tanto em termos de empregabilidade quanto em
termos de saúde, projetos políticos, etc.;

 Sociologia das Religiões: busca explicar empiricamente as relações mútuas entre


religião e sociedade. Seus estudos fundamentam-se na dimensão social da religião e
na dimensão religiosa da sociedade;

 Sociologia urbana: é o ramo da Sociologia que trata do estudo das relações sociais
(entre indivíduos, grupos e agentes sociais) dentro do espaço urbano. Em síntese,
portanto, a sociologia urbana constitui-se de forma geral como a base dos estudos
sobre as cidades.

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U NIDADE 2
A Sociologia Industrial e do Trabalho

Objetivo: Compreender os principais conceitos relacionados à sociologia industrial e do


trabalho.

Pontos de referência

A sociologia industrial e do trabalho pode ser entendida como a ciência que se propõe
reconhecer, observar e interpretar os fenômenos sociais que se produzem no trabalho. A
noção de trabalho, por sua vez, é interpretada por teorias filosóficas e ou religiosas,
geralmente considerada com um valor moral.

O conjunto dos trabalhos que constitui a sociologia do trabalho varia sem dúvida de acordo
com os autores que a estão estudando. De um modo geral, estabelece-se o início desta
ciência com a descoberta pelo sociólogo americano Elton Mayo, de um novo domínio – o das
relações entre indivíduos e os grupos na indústria.

Não obstante, durante a maior parte da História da Civilização o trabalho foi considerado
como uma atividade depreciável. Para o Judaísmo e Cristianismo o trabalho é um castigo
divino. A palavra trabalho evoluiu da palavra "Tripalium", castigo que se dava aos escravos
preguiçosos. Para o mundo protestante europeu não latino, o trabalho não é um castigo, e
sim uma oferenda a Deus. Os gregos da Idade de Ouro pensavam que só o ócio criativo era
digno do homem livre.

A escravidão foi considerada pelas mais diversas civilizações como a forma natural e mais
adequada de relação laboral. Desde os meados do século XIX, vinculado ao
desenvolvimento da democracia e ao sindicalismo, a escravidão deixa de ser a forma

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predominante de trabalho, para ser substituída pelo trabalho assalariado. Com o surgimento
de uma valorização social positiva do trabalho, pela primeira vez na história da Civilização.

A partir da segunda guerra surgem conceitos da sociologia do trabalho: "divisão de trabalho",


"classe social", "estratificação social", "conflito", "poder".

A Sociologia presta atenção e estuda as implicâncias sociais da relação de trabalho com a


ferramenta (técnica e tecnologia). As profundas transformações que derivam do passo do
trabalho com simples ferramentas individuais (artesanato), ao trabalho industrial com
grandes máquinas (maquinismo), ao trabalho com computadores (sociedade de informação),
constituem um permanente tema de estudo sociológico.

Além disso, as relações de trabalho e as consequências para os trabalhadores, tanto em


termos de empregabilidade quanto em termos de saúde, projetos políticos, etc., se
configuram como tema de investigação.

A seguir, apresentaremos o artigo de Bila Sorj “Sociologia do trabalho: mutações, encontros


e desencontros”, que faz, justamente, um balanço da trajetória internacional da sociologia do
trabalho e traça os principais desafios da disciplina num mundo de constantes
transformações nas relações de trabalho.

O Mundo do Trabalho: Categoria de Análise

Há certos períodos na história em que muitos dos entendimentos produzidos pela Sociologia
sobre o modo como a sociedade se organiza têm o seu valor explicativo diminuído. As duas
últimas décadas foram, certamente, um desses períodos, momento em que novas
tendências no mundo do trabalho ensejaram uma extensa reavaliação das teorias e quadros
analíticos oferecidos pela Sociologia do Trabalho há quase um século.

O mundo do trabalho é apenas uma das dimensões de um amplo espectro de


transformações radicais que afeta nossas vidas e que está a desafiar a nossa imaginação
sociológica. Não obstante a carência de teorias gerais que interpretem, de uma maneira mais

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ou menos sistemática, essas mudanças e também as continuidades que marcam as
sociedades atuais, ouvimos de todos os lados que tudo, de alguma forma, mudou
fundamentalmente.

A família nuclear moderna desintegrou-se, dando lugar a uma grande diversidade de arranjos
singulares; a sociedade de classes dissolveu-se, assumindo a forma de grupos e
movimentos sociais separados, baseados em etnicidade, sexo, localidades; os Estados-
nação enfraqueceram-se em virtude de forças globais e regionais.

Uma boa evidência da percepção do caráter liminar do período em que vivemos é a profusão
de títulos de obras recentes nas ciências humanas que sentenciam o fim de algo: o fim da
história, o fim do social, o fim da sociedade industrial, o fim do iluminismo, o fim da
modernidade, o fim do trabalho. Evidentemente, não precisamos aceitar versões
cataclismáticas do presente para reconhecer a importância das transformações que estão
em curso na atualidade.

Neste final de século, a Sociologia do Trabalho, ou Sociologia Industrial, parece ter perdido a
importância adquirida entre os anos 40 e 60 como uma subárea central da Sociologia. A
proposição, quase que axiomática, de que o trabalho constitui a principal referência que
determina não apenas direitos e deveres, diretamente inscritos nas relações de trabalho,
mas principalmente padrões de identidade e sociabilidade, interesses e comportamento
político, modelos de família e estilos de vida, vem sendo amplamente revista.

Novas categorias de análise como "identidades", "estilos de vida" e "movimentos sociais"


ganham preeminência e asseveram, implícita ou explicitamente, que o trabalho e a produção
perderam sua capacidade de estruturar posições sociais, interesses, conflitos e padrões de
mudança social.

As implicações desses deslocamentos analíticos para a Sociologia do Trabalho são


numerosas. Desejo apenas assinalar que a área ficou acuada entre dois movimentos
teóricos distintos, ambos, a meu ver, insatisfatórios: um que continuou a insistir na validade
de modelos explicativos tradicionais, especialmente os de inspiração marxista, apesar do
reconhecimento da perda do seu poder explicativo, e outro que rapidamente abraçou as

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teses sobre o "fim do trabalho", deslocando o interesse da Sociologia para outras esferas da
vida e adotando novos conceitos de rentabilidade sociológica, supostamente superiores.

O resultado disso tem sido uma contínua perda de espaço da Sociologia do Trabalho. Na
melhor das hipóteses, seu campo de pesquisa hoje se limita ao estudo das novas práticas de
gerenciamento de recursos humanos provocadas pela reestruturação produtiva,
aproximando-se dos temas de interesse da Administração de Empresas; na pior das
hipóteses, reitera-se que o seu objeto de estudo perdeu todo interesse sociológico. Nesse
contexto, proliferam estudos históricos em que se observa um indisfarçável saudosismo dos
sistemas produtivos tayloristas ou fordistas que, até ontem, eram considerados modelos
supremos da alienação do trabalho.

Contra a ideia do "fim do trabalho", argumento que o trabalho, na pluralidade de formas, que
tem assumido, continua a ser um dos mais importantes determinantes das condições de vida
das pessoas. Isto porque o sustento da maioria dos indivíduos continua a depender da venda
do seu tempo e de suas habilidades de trabalho no mercado.

Mais ainda, como veremos adiante, sua presença tem invadido de tal forma diferentes
esferas da vida que temos, hoje, grandes dificuldades em estabelecer as fronteiras que
separam o âmbito do trabalho do não-trabalho. Por outro lado, também é pouco convincente
pretender que nada mudou. As transformações nessa área são tão profundas que requerem
uma ampla revisão da forma como a Sociologia construiu o seu objeto de investigação.

Meu argumento será exposto da seguinte maneira. Na primeira parte do artigo retomo o
modo como a Sociologia do Trabalho construiu o seu objeto visando identificar os limites dos
modelos interpretativos dominantes. Na segunda, analiso como os estudos de gênero
questionam a construção do conceito de trabalho prevalecente na Sociologia ao focalizar o
tema da cultura, geralmente negligenciado nos estudos do trabalho. Na terceira e última
parte, detenho-me nas novas configurações do mundo do trabalho para sugerir que hoje,
mais do que em qualquer outro momento, com a desregulação das relações contratuais de
emprego, as fronteiras entre o trabalho e o não-trabalho foram severamente reduzidas.

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U NIDADE 3
A Sociologia Industrial e do Trabalho

Objetivo: Compreender os principais conceitos relacionados à sociologia industrial e do


trabalho em relação a construção do objeto de estudo

Conteúdo

Nesta unidade você continuará lendo o texto de Bila Sorj. Neste, a autora trata da construção
do objeto da sociologia do trabalho, ou seja, quais seus campos de atuação.

A Construção do Objeto

Desde a sua constituição como uma subárea da Sociologia, a Sociologia do Trabalho


incorporou o ponto de vista então predominante entre os intérpretes das sociedades
modernas de que a economia formava uma esfera central e socialmente diferenciada do
conjunto da vida social.

É nos clássicos das ciências sociais que encontramos a origem dessa interpretação. A
despeito do interesse que manifestavam pelo sistema social como um todo, ou pelas
conexões entre "base" e "superestrutura", na formulação marxista, a verdade é que eles
consideravam a sociedade moderna diferenciada o bastante para que suas partes fossem
pensadas como subsistemas relativamente autônomos.

Para Parsons, por exemplo, uma das grandes realizações da modernidade teria sido
diferenciar internamente a sociedade de tal forma que princípios distintos orientariam a ação
de seus subsistemas.

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O ethos utilitário, por exemplo, prevaleceria no sistema econômico, ao passo que na família e
no sistema de parentesco as "atribuições de qualidades" e a "expressividade" teriam
primazia. Era nisto que a sociedade moderna se distanciava com maior nitidez da
"solidariedade mecânica", marcada pela rígida integração das partes em torno de um núcleo
central de valores, a qual, seguindo a influente descrição feita por Durkheim, supostamente
caracterizava as sociedades tradicionais.

De Marx herdamos ainda os pressupostos de que a posição do trabalhador no processo


produtivo é o princípio organizador da estrutura social; de que a dinâmica do
desenvolvimento é pautada pelos conflitos gerados em torno da exploração no plano das
relações de trabalho, e de que a racionalidade capitalista industrial é a responsável pela
continuidade do desenvolvimento das forças produtivas.

Tais interpretações da sociedade moderna, cuja economia foi concebida como uma esfera
separada e determinante do sistema social orientou a Sociologia do Trabalho em pelo menos
um aspecto fundamental: na concepção de que as formas de utilização industrial da força de
trabalho seriam presididas por um tipo de racionalidade estratégica amoral, desvinculada de
quaisquer critérios imediatos de referência ao mundo doméstico ou a lealdades de cunho
particularista.

Seriam os mandamentos dessa racionalidade estratégica que organizariam e regulariam


tanto o processo de trabalho direto, como o campo de ação dos atores nele envolvidos.

A relação salarial seria, então, o ponto de referência central por intermédio dos quais todos
os demais aspectos da sociedade — organização política, cultura, sistemas cognitivos,
família, sistema moral, religião, dentre outros — deveriam ser deduzidos.

É fácil constatar que a Sociologia do Trabalho escolheu como seu campo de pesquisa
favorito o trabalho remunerado, ou, de uma maneira mais restritiva, o trabalho assalariado
em tempo integral, particularmente na grande indústria. A produção em estilo fordista, isto é,
a produção em massa de produtos padronizados que se disseminam principalmente nos
Estados Unidos após a Primeira Guerra Mundial, passou a ser vista como a quintessência do

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desenvolvimento industrial, e o trabalhador da indústria automobilística, como o símbolo
daquilo que o trabalho moderno representava ou iria representar no futuro próximo.

Se estiver interessada em fazer uma leitura da Sociologia do Trabalho que realce as


convergências internas das distintas abordagens, para poder identificar os seus limites,
certamente não ignoro as divergências presentes. O marxismo, que até pouco tempo foi a
principal fonte de inspiração da Sociologia do Trabalho, pelo menos na Europa, distingue-se,
evidentemente, das abordagens de inspiração neoclássica.

Diferentemente dos neoclássicos, os marxistas enfatizam que o mercado de trabalho é um


fenômeno histórico recente que substituiu o trabalho organizado em bases feudais, a
escravidão e outras formas de vínculos pessoais fundados na coerção direta.

Seu argumento é que a criação do mercado de trabalho dependeria não apenas do


desenvolvimento tecnológico, mas também da acumulação prévia de riqueza e de recursos
produtivos, bem como da proletarização de amplos grupos sociais. Também não se pode
ignorar que os próprios marxistas divergem entre si. Por um lado, há aqueles que vêem a
tecnologia como o principal promotor do desenvolvimento econômico.

Esta visão serviu de inspiração, por exemplo, para a tese de Braverman sobre o incessante
esforço dos capitalistas para desqualificar a força de trabalho mediante uma minuciosa
divisão do trabalho.

Mas, por outro lado, há outras perspectivas que reconhecem a indeterminação das lutas
políticas e econômicas, como aquela da escola "regulacionista" de origem francesa, que
afirma que o capitalismo produz uma série de regimes de regulação cuja natureza de suas
sucessivas fases dependeria também de circunstâncias históricas contingentes.

Novamente contrastando com o modelo neoclássico, que concebe o mundo do trabalho


como povoado por indivíduos independentes, automotivados, que tomam suas decisões a
partir de interesses e preferências individuais, os marxistas enfatizam a consciência de
classe, a consciência coletiva do interesse de classe que emerge mais ou menos
naturalmente das relações sociais de produção.

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A aglomeração de grandes contingentes de trabalhadores em grandes estabelecimentos
industriais, com uma detalhada divisão do trabalho, e a crescente homogeneização da força
de trabalho intraindústrias produziria o principal ator coletivo da sociedade capitalista.
Embora os marxistas hoje adotem uma visão menos determinista e mais interativa da relação
entre economia e consciência, eles ainda sustentam que a percepção dos interesses é
poderosamente moldada pelo contexto estrutural da economia.

Apesar dessas diferenças, que não são poucas, permito-me, tendo em vista os propósitos da
minha análise, motivada pelos desafios do presente, unificá-las e concluir que a Sociologia
do Trabalho sustentou, ao longo do tempo, um tipo de "consenso ortodoxo" que vem sendo
recentemente desestabilizado pela ação de, pelo menos, duas ordens de fenômenos:

As contribuições dos estudos de gênero, que contestam tanto os limites daquilo que se
considera trabalho, como a visão de que a esfera econômica possa ser tratada de maneira
autônoma das demais esferas da vida, e as recentes mudanças nas relações de trabalho —
denominadas por alguns de pós-fordismo, acumulação flexível ou sociedade pós-industrial —
que vêm deslocando a figura do trabalhador masculino em tempo integral na indústria como
o arquétipo das sociedades contemporâneas. Tratarei de esses dois aspectos a seguir. (na
próxima unidade).

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U NIDADE 4
A Sociologia Industrial e do Trabalho

Objetivo: Compreender os principais conceitos relacionados à sociologia industrial e do


trabalho em relação às relações de gênero e cultura.

Conteúdo

Nesta unidade você verá a segunda parte do texto de Bila Sorj, no qual a autora trata das
dimensões de gênero e dos aspectos culturais da sociologia do trabalho.

Gênero e Cultura na Sociologia do Trabalho

Em que pese a grande variedade de abordagens que buscam salientar a importância das
relações de gênero na organização do trabalho, todas elas, de uma forma ou de outra,
procuram mostrar a influência dos valores da cultura mais ampla sobre a organização e a
experiência no mundo do trabalho.

Tal perspectiva não é exatamente uma novidade na Sociologia do Trabalho, tendo estado
presente desde a constituição da disciplina. Entretanto, o interesse em relacionar a
experiência no trabalho com outras esferas da vida ficou, na verdade, negligenciado diante
do horizonte de indagações marcado pelo "consenso ortodoxo" a que acabo de me referir.

Não apenas aquilo que se considera como a esfera própria do trabalho, como também os
modelos interpretativos oferecidos pela Sociologia dominante passaram a ser revistos,
sobretudo a noção de que a produção e o trabalho doméstico seriam regidos por diferentes
princípios — isto é, de que as regras do mercado se aplicariam à produção, ao passo que o
trabalho doméstico seria, por assim dizer, um dote natural que as mulheres aportariam ao

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casamento em troca do seu sustento — consolidado no século passado com a emergência
da família nuclear que acompanhou a industrialização.

Passou-se a questionar também as diferenças nos atributos de gênero estabelecidas e


justificadas, até pouco tempo atrás, como verdades eternas pelo discurso do senso comum e
concebidas, em algumas abordagens sociológicas, como um pré-requisito funcional da
sociedade moderna.

Não pretendo analisar o conjunto de fatores, extremamente complexo, responsável pelas


mudanças no modo de conceber as relações entre os gêneros observadas nas sociedades
ocidentais a partir dos anos 60. Quero, entretanto, assinalar que, além do ingresso maciço de
mulheres casadas no mercado de trabalho, a reemergência do movimento feminista como
articulador de um novo discurso sobre a condição das mulheres não pode ser ignorada.

Abrir a caixa-preta da esfera doméstica e expô-la ao debate político ajudaram a dissolver a


noção de harmonia ou equilíbrio entre os sexos, os tabus sobre o casamento, a sexualidade
e a maternidade.

Se a linguagem pode servir como barômetro das mudanças culturais nas relações de gênero
das últimas décadas, expressões como "guerra dos sexos", "guerra na família", "exploração
masculina", "contradição entre os sexos" passaram a caracterizar, frequentemente, o que
ocorria no interior das famílias. É evidente que esses exageros linguísticos tinham como
objetivo chamar a atenção do público para um problema político: a condição feminina
subalterna.

Mas, de alguma forma, também sensibilizaram a Sociologia para um campo de relações


sociais altamente desigual e surpreendentemente pouco explorado pelas análises
sociológicas dos anos 50 e 60.

O que me interessa reter das análises feitas sobre a posição e experiência das mulheres no
trabalho é que foram muito convincentes em mostrar a existência de um estreito vínculo
entre o trabalho remunerado e o trabalho doméstico, uma vez que os indivíduos ou
coletividades de trabalhadores não estão condicionados apenas por fatores de ordem

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econômica, tecnológica ou política, fatores estes frequentemente privilegiados nas
explicações sociológicas.

A posição diferencial de homens e mulheres no espaço doméstico é um elemento central na


determinação das chances de cada um no mercado das carreiras, dos postos de trabalho e
dos salários. Por outro lado, a esfera familiar não pode mais ser vista como um modelo ou
um sistema de posições fixas, livre dos constrangimentos externos gerados pelo mercado de
trabalho.

É importante reconhecer também as ambivalências presentes nos estudos de gênero. Se,


por um lado, se enfatiza a importância dos valores culturais na compreensão do
funcionamento dos mercados e das relações de trabalho, contraditoriamente, introduz-se
uma abordagem econômica no cálculo do valor das atividades domésticas, que passam a ser
contabilizadas em termos da sua contribuição para o funcionamento do sistema produtivo e
percebidas não apenas pela ótica das qualidades expressivas e morais que encerram, mas
também pelo valor econômico que aportam.

De qualquer forma, o principal resultado dessas contribuições à Sociologia foi a expansão


dos limites da definição de trabalho e o aprofundamento da reflexão acerca do caráter
histórico e cultural deste conceito e das atividades que abrange.

Tal conceito deixou de ter o significado objetivo, transcendente e autoevidente sobre o qual
se alicerçou boa parte da nossa tradição sociológica. Seus contornos passaram a ser vistos
como fruto de configurações culturais, de contextos cognitivos que constroem certas
atividades como sendo "trabalho", e das instituições sociais que sustentam tais definições.

Assim, as fronteiras entre o trabalho e o não-trabalho parecem menos demarcadas à medida


que passamos a ver as atividades de lavar, passar, cozinhar, cuidar das crianças e de idosos
e tantas outras tarefas domésticas como trabalho remunerado e não remunerado, embora
não seja nada aleatório que o trabalho remunerado apareça, em geral, como mais "valioso"
ou mais "real" do que o outro.

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Rever as tradicionais distinções entre o trabalho e o não-trabalho torna-se, pois, imperioso
para que a Sociologia possa sintonizar com as novas realidades produtivas do presente, das
quais passarei a tratar a seguir.

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U NIDADE 5
A Sociologia Industrial e do Trabalho

Objetivo: Compreender os principais conceitos relacionados à sociologia industrial e do


trabalho em relação às novas configurações do mundo do trabalho.

Conteúdo

Nesta unidade você verá terá acesso à última parte do texto de Bila Sorj, no qual a autora
traça as novas dimensões e configurações do mundo do trabalho e qual o papel da
sociologia neste momento.

Novas Configurações do Mundo do Trabalho

O cenário produtivo com o qual nos defrontamos hoje revela fortes sinais de que a produção
em massa de produtos industriais padronizados, empregando milhares de trabalhadores,
pode ser considerada coisa do passado. Os empregados das indústrias estão, cada vez
mais, produzindo bens especializados em fábricas que empregam consideravelmente menos
funcionários e utilizam de forma crescente tecnologias altamente informatizadas. Há também
grande alteração na organização espacial da produção. As empresas são hoje capazes de
operar em escala mundial, movimentando-se por distintos países e/ou regiões, beneficiando-
se da presença de menores níveis salariais, da baixa incidência de conflitos industriais e das
vantagens propiciadas por isenções fiscais de vários tipos. Outras mudanças relacionadas a
estas também são evidentes, embora o ritmo de sua implantação varie de país para país: o
crescimento significativo do emprego "autônomo"; o aumento das formas atípicas de
emprego, como o trabalho temporário, em tempo parcial e a domicílio; a acelerada expansão
de pequenas empresas, tanto no setor industrial como no de serviços; o declínio significativo

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do emprego mesmo nas grandes empresas multinacionais; a forte tendência ao
desmembramento de grandes empresas em pequenas unidades produtivas
descentralizadas; o crescimento de novas formas de propriedade, como o franchising, ou de
novos arranjos produtivos como a subcontratação.

Deste elenco de mudanças vou me ater a apenas duas, que, a meu ver, implicam a
formulação de uma nova agenda de questões para a Sociologia do Trabalho.

A primeira é a forte expansão do setor de serviços e a queda concomitante da participação


relativa da indústria nas economias contemporâneas. Esta transformação é de tal ordem que
muitos autores consideram que seria mais apropriado chamar nossas sociedades de pós-
industriais.

A demanda por serviços de toda espécie, como transporte e comunicações, governo e


administração, saúde e educação e serviços financeiros, cresceu de tal maneira que a
participação do setor industrial no total do emprego na Grã-Bretanha, por exemplo, caiu de
40% em 1970 para 18% em 1995.

Nos Estados Unidos, o setor de serviços, que respondia por 40% do total do emprego no
início do século, hoje já ultrapassa a marca de 82%. No Brasil a trajetória é semelhante: o
setor de serviços congrega mais de 50% da população ocupada, contra 20% na indústria e
25% na agricultura (PNAD/IBGE, 1996). Estima-se que até o ano 2000 esta proporção subirá
para 62% (Pastore, 1998).

Embora o trabalho no setor de serviços se tenha tornado a principal forma de ocupação nas
economias ocidentais, as análises sociológicas não acompanharam como deveriam essa
nova realidade. Isto se deve, em grande parte, à contínua preferência dos sociólogos por
formas particulares de trabalho — aquelas associadas à produção de bens tangíveis — e
pelos ambientes onde elas se encontram — as fábricas.

Nos casos em que o setor de serviços foi abordado, a atenção recaiu, principalmente, sobre
as tarefas manuais e rotineiras executadas por empregados situados em segmentos
inferiores da atividade, desconsiderando-se outras atividades do setor que envolvem

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comportamentos relacionais e interativos com clientes. A consequência disso foi a
representação do processo de trabalho nos serviços à semelhança do processo do trabalho
na indústria.

Não é de se estranhar, portanto, que muitos estudos sobre o setor de serviços tenham em
Braverman (1974) a principal fonte de inspiração. Como é bastante conhecido, este autor
argumenta que a introdução de novas tecnologias faz prevalecer no setor de serviços as
mesmas normas de rotinização, fragmentação e desqualificação do trabalho vigentes na
indústria.

Não há dúvida de que muitas ocupações nesse setor assumem, de fato, essas
características, especialmente nos níveis inferiores da hierarquia ocupacional. Entretanto,
gostaria de argumentar que, na produção de bens intangíveis, surge um novo modelo de
trabalho que escapa completamente ao padrão prevalecente na produção industrial. Refiro-
me aos aspectos interativos das ocupações no setor de serviços e às novas formas de
"governance", ou controle, que eles animam.

Como exemplo, Robert Reich, no seu livro The work of nations (1992), mostra que o maior
grupo ocupacional norte-americano (30%), e o que mais cresceu nos anos 80, abrange
empregos que envolvem algum tipo de interação ou contato direto entre produtor e
comprador de um serviço. Nesta categoria estão incluídos vendedores de grandes cadeias
varejistas, trabalhadores em restaurantes, hotéis, secretárias, corretores de imóveis,
enfermeiras, terapeutas, comissários de bordo, caixas de supermercados e lojas etc. O que
caracteriza essas ocupações é que a qualidade da interação estabelecida produz
significados que operam como importantes sinalizadores do valor do produto para os
consumidores. Dito de outra forma, o próprio trabalhador é parte do produto que está sendo
oferecido ao cliente.

A estreita relação que se estabelece entre características pessoais dos empregados e sua
adequação ao trabalho transformam traços como aparência, idade, educação, gênero e raça
em potencial produtivo, de tal forma que características e competências individuais são a
condição mesma da empregabilidade. O resultado disso é uma forte estratificação do

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mercado de trabalho, em que os níveis inferiores de emprego, em tempo parcial ou
temporário, são preenchidos predominantemente por minorias, mulheres e jovens com baixa
escolaridade e, portanto, poucas oportunidades de carreira e mobilidade.

A crescente importância dos serviços envolve também novas modalidades de controle


gerencial ou regulação que escapam às categorias de análise tradicionais da Sociologia.
Arlie Hochschild, em livro cujo título é muito sugestivo, The managed heart:
commercialization of human feelings (1983), mostra como o trabalho das aeromoças, por
exemplo, exige que elas dominem suas emoções e sorriam de uma maneira agradável,
envolvente e amigável para os clientes. A este tipo de trabalho, em que a cada contato é
necessário que o empregado sintonize o seu comportamento com as emoções de cada
cliente individualmente, Hochschild chamou de "trabalho emocional". Essa mudança
constante de comportamento faz dos empregados "analistas culturais", nos termos de Scott
Lash e John Urry (1994), aptos a interpretarem e modificarem suas interações com os
consumidores a partir de um julgamento cultural que os situa em diferentes categorias
sociais.

Esse novo perfil de ocupação nos serviços tem colocado para a gerência das empresas o
problema de como regular a relação empregado/consumidor em um contexto de interação.
Por um lado, a supervisão pessoal, direta e constante pode prejudicar a eficácia do serviço,
retirando dele sua qualidade espontânea e interpessoal. Por outro, como tornar previsíveis as
reações dos empregados a situações de trabalho tão diversificadas?

O entendimento da dinâmica das relações de trabalho nessas recentes e crescentes


ocupações coloca para a Sociologia o desafio de integrar às suas preocupações um conjunto
de novos elementos. O primeiro deles refere-se ao contato interpessoal como parte do
processo de trabalho e como área legítima de intervenção da gerência empresarial. O
segundo concerne à importância de integrar trabalho e consumo, que deixam de ser esferas
distintas no tempo e no espaço; ao contrário, boa parte do trabalho é o próprio produto que
está sendo consumido. Em terceiro lugar, é necessário considerar o impacto direto da
presença cada vez mais atuante de agrupamentos sociopolíticos de consumidores, que

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pressionam pela elevação da qualidade dos serviços, sobre a própria organização e gestão
do trabalho.

A segunda grande mudança refere-se ao regime de emprego que prevaleceu nas sociedades
avançadas desde o pós-guerra, período chamado por muitos de "a idade de ouro do
capitalismo". No que se segue, pretendo sugerir algumas hipóteses acerca da direção dessa
mudança — as quais, evidentemente, devem ser muito mais discutidas e empiricamente
testadas — que buscam escapar daqueles dois movimentos teóricos aos quais me referi no
início: a visão de que nada, ou muito pouco, mudou, e a perspectiva do "fim do trabalho", ou
seja, de que tudo mudou.

O regime de emprego que emergiu no século passado como resultado de conflitos ferozes e
de constantes crises sociais e políticas caracterizava-se por um alto grau de padronização
em quase todos os aspectos: o contrato de trabalho, o lugar do trabalho, a duração da
jornada de trabalho. Em termos legais, a tendência era a adoção de um padrão de contrato
negociado coletivamente para um segmento industrial inteiro ou para grupos ocupacionais
específicos. O emprego era também, em geral, geograficamente concentrado em grandes
empresas. Pode-se afirmar que até os anos 70, nas sociedades avançadas, o chamado
"emprego em tempo integral e para a vida toda" era uma forte referência tanto no
planejamento organizacional das empresas como no horizonte existencial dos trabalhadores.

Em sentido macrossociológico, o emprego desempenhava a poderosa função de articular


diferentes níveis do sistema social: as motivações individuais, as posições sociais e a
reprodução ou integração sistêmica. A construção das identidades sociais, ao menos para os
homens, tinha como principais determinantes a qualificação, a posição no emprego e as
expectativas de carreira.

Torna-se cada vez mais evidente que, nos tempos atuais, o emprego como uma carreira
contínua, coerente e fortemente estruturada não é mais uma opção que esteja amplamente
disponível. Empregos permanentes estão cada vez mais restritos a poucas e velhas
indústrias ou a algumas profissões que estão rapidamente desaparecendo. Os novos postos

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criados tendem a ser flexíveis no tempo, no espaço e na duração, dando origem a uma
pluralidade de contratos de trabalho: em tempo parcial, temporários ou por conta própria.

O fato de que as formas típicas de emprego não fazem mais parte do horizonte
organizacional das grandes empresas foi eloquentemente reconhecido pelo vice-presidente
do Departamento de Recursos Humanos da AT&T, James Meadows, em entrevista ao New
York Times, no início do programa de demissão de 40 mil trabalhadores, em 1996. Segundo
Meadows, "as pessoas devem ver a si mesmas como trabalhadores autônomos, como
vendedores que vêm para esta companhia vender suas habilidades". E acrescenta: "Na
AT&T temos que promover toda uma concepção de que a força de trabalho é temporária. Em
vez de empregos, as pessoas têm cada vez mais projetos' ou campos de trabalho'." (apud
Tilly e Tilly, 1998, p. 224).

Tal declaração indica que o trabalho na empresa transferiu-se do emprego assalariado típico
para outras formas de contratos de prestação de serviços que, no limite, tenderiam a
transações individuais. Sugere, ainda, que nas novas regras do jogo contratual não existe
nenhuma referência a um coletivo, exceto àquele formado pelo contratante e o prestador do
serviço. Mudanças similares, em termos de atitudes e expectativas de trabalhadores e
gerentes, foram captadas em amplos surveys realizados nos EUA (Cappelli e
O'Shaughnessy, 1995, apud Tilly e Tilly, 1998). Ambos os grupos avaliaram que o seu
compromisso atual com o empregado era muito menor do que em décadas anteriores.

Pois bem, as transformações que acabo de esboçar animaram um intenso debate na


Sociologia nos últimos anos. Alguns autores, mediante o conceito de "especialização
flexível", procuraram salientar dimensões específicas desse processo, particularmente os
desafios colocados à coordenação ou governance de estruturas produtivas altamente
descentralizadas, baseadas em redes de produtores independentes, tão distantes do modelo
weberiano de organizações burocráticas e hierárquicas.

Outros procuraram teorizar sobre a relação entre mudanças no regime de emprego e


mudanças mais gerais ocorridas nas sociedades contemporâneas. Neste último caso, como
mencionei no início, creio que a Sociologia do Trabalho ficou imprensada por duas visões

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opostas: aquela que considera que, no fundo, nada ou muito pouco mudou — afinal, as
economias continuam capitalistas e, portanto, estruturam-se a partir dos mesmos princípios
— e a que considera que tudo mudou e que o trabalho perdeu sua centralidade, tornando-se
o consumo o princípio ordenador das relações sociais.

Ambas as perspectivas são altamente parciais e, portanto, insustentáveis. Por um lado, a


tendência atual que encoraja os trabalhadores a perceberem a si mesmos como
empreendedores e a tratarem seus empregadores como clientes de seus serviços implica
uma mudança radical na experiência do trabalho. Por outro, o aumento da flexibilidade e a
precariedade do emprego, em lugar de diminuírem o peso do trabalho na vida das pessoas,
difundiram a sua presença em inúmeras esferas da vida que, anteriormente, eram vistas
como separadas do trabalho.

A erosão das normas tradicionais de assalariamento, fundadas em identidades ocupacionais


ou de classe, e a paulatina perda das funções protetoras do Estado têm como consequência
o aumento da individualização na construção e valorização das próprias condições de
empregabilidade. A constante incerteza, advinda da pluralidade de formas de contratos de
trabalho, em relação à duração, ao tempo e à localização das atividades, associada à rápida
obsolescência das habilidades adquiridas, requerem das pessoas intensos investimentos
privados e permanente sintonia com as eventuais oportunidades que o mercado oferece.

Nessas circunstâncias, os trabalhadores devem adquirir habilidades, inclusive a de cooperar


em diferentes ambientes, sem que, no entanto, possam contar com relações de longa
duração com qualquer empregador, ou cliente, em particular. Mais ainda, a crescente
exigência de reintegração da concepção e execução no processo de trabalho requer dos
trabalhadores maior qualificação, sem que a ela correspondam postos de trabalho definidos
ou um lugar institucional assegurado.

A desregulação das normas tradicionais do emprego e o consequente aumento da


individualização vis-à-vis o mercado transformam o trabalhador em um bricoler de sua
condição de empregabilidade.Gostaria de sugerir que uma das formas de assegurar a
empregabilidade a longo prazo é transformar as múltiplas redes de sociabilidade — como a

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família, grupos de vizinhança, igrejas, associações profissionais, clubes e partidos políticos
— em fontes de informação e de renovadas oportunidades no mercado de trabalho. O
recurso a essas redes, embora preexistente, tende a se aprofundar no novo contexto
marcado pela imprevisibilidade.

Participar das atividades sociais que tais redes organizam se tem tornado uma precondição
de empregabilidade. Pesquisas internacionais recentes mostram que uma elevada proporção
de trabalhadores vem encontrando emprego mediante o acionamento de redes de amigos,
familiares, vizinhança e contatos pessoais. Essa proporção alcança, por exemplo, 40% dos
trabalhadores da Grã-Bretanha, 35% dos trabalhadores japoneses e 61% dos altos
executivos na Holanda (Granovetter, 1995, pp. 140-141).

Podemos dizer que, da mesma forma que está ficando cada vez mais difícil identificar para
quem se trabalha, está igualmente difícil saber quando se trabalha.

Diante desse quadro, a Sociologia deve enfrentar uma nova agenda de questões. A primeira
delas é a de como situar as alterações que ora ocorrem no mundo do trabalho em um quadro
mais geral de mudanças sociais na família, na cultura e na política. Seja como locus
privilegiado da mudança ou como um sintoma dela, em nenhum dos casos o trabalho pode
ser estudado por si só.

A segunda refere-se à maneira pela qual as identidades das pessoas vêm sendo afetadas.
Se a flexibilidade do trabalho requer identidades menos atadas, por exemplo, às empresas
ou às ocupações, que identidades ou "comunidades imaginárias", internas ou externas à
produção, se desenvolvem e como elas moldam as percepções e as chances que se tem no
mercado?

A terceira questão que se coloca é: que funções o sindicalismo irá assumir em um contexto
em que contratos de trabalho são cada vez mais negociados individualmente, as relações
entre os empregados são mais amorfas e em que não há mais uma clara correspondência
entre o trabalho e o espaço da empresa?

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Considerando que na emergente economia flexível alguns são mais vulneráveis do que
outros, outra questão a ser examinada é como os menos vulneráveis exercem seu poder
sobre os mais vulneráveis e que tipos de novos conflitos emergem. Como os excluídos
reagem à exclusão? E, finalmente, que impactos a constante perda de direitos sociais e
trabalhistas terá sobre a política, a cidadania e a democracia?

Estas são apenas algumas das questões que o atual mundo do trabalho coloca para a
Sociologia em geral e para a Sociologia do Trabalho em particular. À medida que for capaz
de interpretar as mutações em curso sem reduzi-las, por um lado, a uma visão saudosista de
um passado agora idealizado e, por outro, a uma sociedade de consumidores ávidos de
imagens e símbolos da qual se exorcizou a luta pela sobrevivência material, creio que a
Sociologia do Trabalho poderá ocupar um lugar central na renovação da teoria social nos
tempos vindouros.

EXERCÍCIOS DISSERTATIVOS:

1. Por que dizemos que a sociologia do trabalho está reconsiderando seu objeto de estudo?

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U NIDADE 6
Do Fordismo à Especialização Flexível

Objetivo: Apresentar a crise do taylorismo/fordismo e o advento da flexibilidade produtiva na


sociedade.

Conteúdo

Nas unidades 6, 7 e 8 apresentaremos uma síntese do taylorismo/fordismo, bem como do


sistema flexível de produção industrial, que ganhou fôlego principalmente na década de 70
no mundo ocidental (Estados Unidos) e na década de 90 no Brasil. Para quem já cursou os
módulos “Teoria das Organizações” e “Organização do Trabalho” trata-se de uma
recapitulação, mas que se torna necessária devido aos desdobramentos para o mundo do
trabalho e para os trabalhadores, quando apresentaremos os principais impactos em artigos
relacionados ao tema. Para quem não pôde estudar os módulos supracitados, não se
preocupe, pois o artigo “Da rotina à flexibilidade: análise das características do fordismo fora
da indústria” de Alexandre Barbosa Fraga faz um bom resumo das características do
taylorismo/fordismo e da especialização flexível.

Bom Estudo.

O Fordismo e o Taylorismo

O conjunto de práticas produtivas cunhado de fordismo é característico da modernidade


sólida ou do capitalismo pesado, para usar expressões de Bauman, sendo importante para a
organização da produção até meados dos anos 70 do século passado. "Entre os principais
ícones dessa modernidade estavam a fábrica fordista, que reduzia as atividades humanas a
movimentos simples, rotineiros e predeterminados, destinados a serem obedientes e
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mecanicamente seguidos, sem envolver as faculdades mentais e excluindo toda
espontaneidade e iniciativa individual " (Bauman, 2001: 33/34).

O fordismo, método de racionalização da produção em massa, teve início na indústria


automobilística Ford, nos Estados Unidos, onde esteiras rolantes levavam o chassi do carro
e as demais peças a percorrerem a fábrica enquanto os operários, distribuídos lateralmente,
iam montando os veículos. Esse método integrou-se às teorias do engenheiro norte-
americano Frederick Winslow Taylor, que ficaram conhecidas como taylorismo. Ele buscava
o aumento da produtividade através do controle dos movimentos das máquinas e dos
homens no processo de produção. O empregado, seguindo o que foi determinado pelos seus
superiores, deveria executar uma tarefa no menor tempo possível.

Ford fez um acordo geral que aumentou o salário nominal de 2,5 para 5 dólares ao dia. Mas
o que Ford pretendia ao dobrar o salário de seus trabalhadores? É claro que a explicação
não vem de uma das suas famosas frases "quero que meus trabalhadores sejam pagos
suficientemente bem para comprar meus carros", já que eles eram responsáveis por uma
fatia muito pequena das suas vendas.

O “five dollars day” acabava com a alta rotatividade dos trabalhadores. Para que
continuassem recebendo o salário duplicado, os operários faziam de tudo para
permanecerem na Ford Motor Company. Com isso, as funções na linha de produção tinham
fixas a elas trabalhadores que ficavam por mais tempo na empresa, aumentando a prática
em determinada função e diminuindo o tempo de cada movimento. Além disso, ao impedir a
alta rotatividade dos trabalhadores, economizava-se dinheiro gasto em sua preparação e
treinamento.

O five dollars day não se estendia a todos os trabalhadores. Não se beneficiavam dele, os
operários que tivessem menos de seis meses na empresa, os jovens menores de vinte e um
anos e as mulheres. "Asegurado el aprovisionamiento de una mano de obra seleccionada y
dócil, la expansión de la Ford Motor Company prosigue a un ritmo desconocido hasta
entonces: 200.000 coches fabricados en 1913, 500.000 en 1915, um millón en 1919, dos
millones en 1923. Ha nascido la producción en masa del automóvil" (Coriat, 1994: 59).

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Dessa forma, o modelo fordista pode ser entendido por uma série de características:
"meticulosa separação entre projeto e execução, iniciativa e atendimento a comandos,
liberdade e obediência, invenção e determinação, com o estreito entrelaçamento dos opostos
dentro de cada uma das oposições binárias e a suave transmissão de comando do primeiro
elemento de cada par ao segundo" (Bauman, 2001: 68); baixa mobilidade dos trabalhadores;
homogeneização da mão-de-obra; "mão-de-obra numerosa e predominantemente masculina"
(Beynon, 1995: 6); produção em massa; consumo em massa; rotinas de trabalho; controle do
tempo; adaptação ao ritmo da máquina; e homogeneidade dos produtos.

Como mostrou José de Souza Martins, ao serem feitas mudanças tecnológicas "a la Ford" e
"a la Taylor" na produção de uma fábrica de ladrilhos, em São Caetano do Sul, no subúrbio
da cidade de São Paulo, no ano de 1956, "ao operário já não cabia pensar o seu trabalho,
mas apenas reagir interpretativamente aos movimentos que o ritmo do processo de trabalho
impunha ao seu corpo. O processo de trabalho não dependia da mediação de sua
interpretação para que tivesse seqüência. Seu corpo fora transformado num instrumento dos
movimentos automáticos da linha de produção" (Martins, 1994: 18).

O sistema produtivo flexível

De meados dos anos 70 em diante, houve uma transformação organizacional da produção,


como forma de se proteger das mudanças econômicas que estavam em ritmo cada vez mais
veloz. Os mercados eram cada vez mais diversificados e as transformações tecnológicas
faziam com que os equipamentos de produção que tinham apenas um objetivo se tornassem
obsoletos. "O sistema de produção em massa ficou muito rígido e dispendioso para as
características da nova economia. O sistema produtivo flexível surgiu como uma possível
resposta para superar essa rigidez" (Castells, 1999a: 176). O fordismo se enfraqueceu, a
partir do final do século XX, com a introdução de novos métodos de trabalho.

Nesse contexto, surge um modo original e novo de gerenciamento do processo de trabalho:


o toyotismo. Nele os trabalhadores tornam-se especialistas multifuncionais. Ele elevou a
produtividade das companhias automobilísticas japonesas e passou a ser considerado um

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modelo adaptado ao sistema produtivo flexível. Dentre as suas características temos: a
existência de um relacionamento cooperativo entre os gerentes e os trabalhadores, ou seja,
uma hierarquia administrativa horizontal; controle rígido de qualidade; e "desintegração
vertical da produção em uma rede de empresas, processo que substitui a integração vertical
de departamentos dentro da mesma estrutura empresarial" (Castells, 1999a: 179). Não há
mais uma rígida separação entre a direção (que pensa) e o operário (que executa).

Ulrich Beck ao ser entrevistado em 1999 por Jonathan Rutherford afirma que estamos
vivendo numa situação em que a primeira modernidade está se transformando em uma
segunda modernidade. Esta última, "se está viendo desafiada por cuatro tipos de desarrollo.
En primer lugar, la individualización. En segundo lugar, la globalización como fenómeno
económico, sociológico y cultural. En tercer lugar, el subempleo o el desempleo, no
simplesmente como consecuencia de la política gubernamental o de un retroceso en la
economía, sino como desarrollo estructural que no puede superarse fácilmente. Y, en cuarto
lugar, la crisis ecológica" (Beck, 2003: 344/345).

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U NIDADE 7
A Especialização Flexível e a Sociedade Atual

Objetivo: Apresentar o advento da flexibilidade produtiva na sociedade e as principais


consequências para a vida cotidiana dos indivíduos.

Conteúdo

Nesta unidade, o autor Alexandre Barbosa Fraga apresenta uma síntese do sistema flexível
de produção industrial, que ganhou fôlego principalmente na década de 70 no mundo
ocidental (Estados Unidos) e na década de 90 no Brasil e seus impactos para o mundo atual.
A seguir leremos mais um trecho do artigo “Da rotina à flexibilidade: análise das
características do fordismo fora da indústria”. Note que a nova conformação produtiva tem
incidido em âmbito macrossocial, não se restringindo apenas a uma forma de produção de
bens e serviços, o que traz grandes consequências para a vida cotidiana dos indivíduos.

O sistema produtivo e o mercado de trabalho na sociedade atual

Na era contemporânea, o sistema produtivo e o mercado de trabalho são muito diferentes do


que foram na modernidade pesada. Nessa alta modernidade, como diria Giddens,
modernidade reflexiva, como diria Ulrich Beck, ou modernidade líquida, como diria Bauman,
há uma flexibilidade e instabilidade do emprego, uma transformação do capitalismo que
incorporou a tecnologia da informação e sofisticou a forma de ganhar capital, um crescimento
acelerado do setor de serviços, um aumento das mulheres no mercado de trabalho, aumento
estrutural do desemprego, o surgimento de novas formas de gestão industrial que superaram
o fordismo e o taylorismo. Há também uma reestruturação produtiva, ou seja, o processo

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pelo qual as empresas passam ao absorver as tecnologias de informação, que rearticula o
trabalho. Dessa forma, o emprego passa a exigir maior escolaridade.

A qualidade e a quantidade de educação recebida têm um peso importante na possibilidade


de inserir-se no mercado de trabalho formal e de progredir nele, ainda mais na condição
atual em que ele tem a oferecer cada vez menos garantias e estabilidade aos trabalhadores.
A flexibilização do emprego se dá de duas maneiras, "seja legal, por meio de recente
legislação trabalhista, que facilita a flexibilidade para o desempenho de novas tarefas e,
inclusive, a dispensa dos trabalhadores; seja efetivamente, pelo trabalho clandestino ou no
setor informal. A terceirização do emprego (...) contribui, também, para a instabilidade
trabalhista" (Gallart, 2002 : 173).

Na América Latina, por exemplo, como nos mostra Gallart, houve mudanças no mundo do
trabalho entre a segunda metade do século XX e sua década final e início do século XXI.
Nesta parte do Globo, estende-se, na segunda metade do século XX, o modelo produtivo da
substituição de importações. "O fomento do consumo interno de produtos manufaturados,
cobertos por tarifas à importação, a produção em série na indústria têxtil e metalúrgica, o
desenvolvimento de empresas estatais e de serviços públicos contribuíram para a existência
de uma força de trabalho com determinado tipo de qualificações, as necessárias para uma
produção "fordista" e para o desenvolvimento dos serviços e do comércio" (Gallart, 2002 :
170).

Houve o desenvolvimento de uma indústria manufatureira, com o predomínio da indústria


automotriz, que tinha uma produção em cadeia e uma homogeneização do produto. Nesse
contexto, para que a educação pudesse atender a esse modelo de desenvolvimento, houve a
expansão da matrícula na educação básica e privilegiou-se uma formação técnica-
profissional relativamente específica para quadros médios e operários.

A partir da década final do século XX, há a privatização, em muitos países, dos serviços que
eram prestados pelo Estado, levando à limitação do emprego público. Na nova organização
do trabalho é enfatizada a produção flexível. Há também uma modernização tecnológica,
cuja "conseqüência para os trabalhadores é uma maior necessidade de multifuncionalidade e

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a exigência de administrar processos ainda em níveis ocupacionais relativamente baixos"
(Gallart, 2002: 172).

A reestruturação do modo capitalista de produção, no final do século XX, deu-se


principalmente através do informacionalismo, ou seja, de uma revolução tecnológica
concentrada nas tecnologias da informação, como nos mostra Castells. "As novas
tecnologias permitem a transformação das linhas de montagem típicas da grande empresa
em unidades de produção de fácil programação que podem atender às variações do
mercado (flexibilidade do produto) e das transformações tecnológicas (flexibilidade do
processo)" (Castells, 1999a : 176).

Há uma expansão do emprego no setor de serviços. "Atualmente, os serviços são


responsáveis por mais de 70% dos postos de trabalho na Inglaterra" (Beynon, 1995: 9).
Embora seja difícil trabalhar com um conceito que abarca múltiplas atividades, tudo o que
não é indústria, construção, mineração ou agricultura. Mas vis-à-vis as indústrias, muitos
serviços dependem de ligação direta com elas. Isso põe um pouco em xeque a teoria pós-
industrialista. O que há é uma redução do emprego industrial.

Com o advento da modernidade e da tão em voga globalização, como nos mostra Giddens,
há mudanças na intimidade e na vida das pessoas. Nesse contexto, duas características
polares passam a permear todos os aspectos da vida cotidiana: confiança e risco. As
pessoas constroem confiança em sistemas abstratos. "Com o desenvolvimento dos sistemas
abstratos, a confiança em princípios impessoais, bem como em outros anônimos, torna-se
indispensável à existência social" (Giddens, 1991: 122).

Dentre as quatro formas que alteram a distribuição objetiva de riscos específicos à


modernidade, citadas por Giddens, a que afeta mais diretamente o mundo do trabalho é a
segunda, ou seja, uma extensão quantitativa de eventos ou ambientes de risco por todo o
planeta. "Novos riscos surgiram: recursos ou serviços já não estão mais sob controle local e
não podem, portanto ser localmente reordenados no sentido de irem ao encontro de
contingências inesperadas" (Giddens, 1991: 128). Dessa forma, uma decisão tomada nos
Estados Unidos, por exemplo, pode afetar trabalhadores no mundo todo.

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O desemprego e o trabalho informal crescem. Este primeiro torna-se "estrutural" (eliminação
de postos de trabalho que não são recuperados e que ocorre de forma independente do
crescimento ou crise da economia), ou seja, "para cada nova vaga há alguns empregos que
desapareceram, e simplesmente não há empregos suficientes para todos" (Bauman, 2001:
185). Não se tem a mesma segurança que se tinha no emprego, nem os mesmos direitos.
Uma das respostas ao desemprego é o aumento do setor informal da economia. Aumenta o
número de pessoas que trabalha por conta própria.

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U NIDADE 8
O Fordismo Informal

Objetivo: Apresentar o fordismo fora da indústria e como características do fordismo ainda


coexistem no mundo do trabalho atual.

Nesta unidade, o autor Alexandre Barbosa Fraga apresenta uma síntese o fordismo fora da
indústria ou da produção industrial. Neste momento o autor ressalta que a convivência dos
dois modelos conforma uma condição pós-moderna, a que o autor chama de pós-fordismo
ou fordismo informal. A seguir leremos mais um trecho do artigo “Da rotina à flexibilidade:
análise das características do fordismo fora da indústria”.

O “Fordismo” fora da indústria

Em meio a todas essas transformações no mundo do trabalho, algumas importantes


características do fordismo passam a ser verificadas no setor de serviços e, como eu quero
demonstrar nesse artigo, também no setor informal da economia. Dessa forma,
características do capitalismo pesado estendem-se ao capitalismo leve, mas em setores que
atualmente são importantes empregadores de mão-de-obra e não mais no industrial.
Embora, ainda existam, atualmente, indústrias que têm fortemente características fordistas.

Ritzer mostrou que, na sociedade atual, "à moda do McDonald's", como ele diz, aspectos do
fordismo podem ser encontrados no setor de serviços. "Muitas características do fordismo
também são encontradas no estilo McDonald's: a homogeneidade dos produtos, a rigidez
das tecnologias, as rotinas padronizadas de trabalho, a desqualificação, a homogeneização
da mão-de-obra (e do freguês), o trabalhador em massa e a homogeneização do consumo
(...) nestes e em outros aspectos, o fordismo continua vivo e forte no mundo moderno"

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(Ritzer, 1993, p.155, citado em: Beynon, 1995: 12). Em novos setores de serviços há
também um controle do tempo e uma "produção" e venda em massa. "Em todos seus
pontos-de-venda, o McDonald's "tem como meta atender a qualquer pedido em 60 segundos,
Na hora do almoço, num ponto muito concorrido, chegamos a servir 2 mil refeições por
hora""(Beynon, 1995: 12).

A falta de emprego leva muitas pessoas a procurarem meios informais para se manterem.
Um desses meios é o que eu chamei de "fordismo" informal. Denominei dessa maneira
porque algumas características vitais do que passou a se chamar fordismo se encontram
presentes nessa atividade.

A atividade a que me refiro é a venda de balas e confeitos em sinais de trânsito. Mas o


interessante é não se tratar de qualquer venda, como observamos em muitos pontos do Rio
de Janeiro e por que não do Brasil. O que chama a atenção é justamente a "especialização"
que tal venda adquiriu em alguns sinais de trânsito na Tijuca, o bairro no qual observei tal
prática. Não sei se ela se estende a outros bairros.

Os trabalhadores a que estou me referindo são jovens rapazes, entre 18 e 25 anos, de boa
condição física. Eles têm, em muitos casos, pouca escolaridade, em torno do ensino
fundamental, e dificuldade em encontrar um emprego formal. Alguns nunca chegaram a ter
emprego com carteira assinada. Encontram no trabalho informal a forma para se manterem.
Embora sonhem com a proteção social e com a formalização das relações de trabalho.

A prática se dá da seguinte maneira, os vendedores deixam na calçada diversas caixas com


pequenos sacos de balas e confeitos industrializados, estes últimos são dois pacotes que
estão ligados um ao outro, de forma que se tenha o equilíbrio necessário para pendurá-los
nos retrovisores dos carros dos possíveis fregueses. Quando o sinal fecha, uma sequência
de passos e ações é instantaneamente acionada e praticada com rapidez e precisão.

Embora nos parágrafos seguintes sejam apresentadas semelhanças entre o fordismo e o


"fordismo" informal, de modo a ratificar as características do primeiro que se encontram no
segundo, faz-se mister iniciar com uma de suas importantes diferenças. No fordismo há um
antagonismo entre capital e trabalho, entre os vendedores da força de trabalho e os

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compradores da mesma. No "fordismo" informal não há isso. Os vendedores dos quais estou
falando são trabalhadores por conta própria. Mas se utilizam de algumas das características
do fordismo, como a rotina e o controle do tempo, como estratégia para aumentar as vendas.
Estratégia essa que impõe ao corpo movimentos frenéticos e rotineiros do ritmo do processo
de trabalho.

O interessante é a busca a todo custo da eficiência. Da mesma forma que no fordismo havia
um controle rígido do que estava sendo produzido em relação ao tempo gasto, no "fordismo"
informal há uma busca de atender ao maior número de carros no menor tempo possível.
Tanto no fordismo, que é um modo de produção, quanto no "fordismo" informal, que é um
modo de venda informal, há uma homogeneidade do produto.

O vendedor já tem internalizado o tempo exato e a forma certa e mais eficaz para no tempo
rígido do intervalo entre o fechamento e a abertura do sinal, conseguir pendurar um saco de
confeito ou bala no retrovisor de cada carro de uma das fileiras que se formam, já sabendo o
número certo de veículos que o tempo permite. Após ter feito isso, ele volta correndo para o
começo da fileira e vai recolhendo cada saco (ou dinheiro) em ritmo rápido. Os vendedores
poderiam colocar em menos carros e sobrar algum tempo, mas eles colocam os sacos de
confeitos em um número de veículos tão de acordo com o tempo que têm, que ao pegarem o
último pacote de volta, o sinal abre demonstrando quanto eficientes eles se tornaram.

Certa "subjetividade", que ainda se fazia presente nas relações produtivas pré-fordismo, foi
"controlada" com o surgimento do fordismo, que trouxe a necessidade de uma objetividade e
atenção rígida ao trabalho para aumentar a produtividade. Nessa nova forma de vender
balas em sinal, a subjetividade também deu lugar à objetividade. Na atividade de vendedor
de balas no sinal havia uma subjetividade necessária para comover o possível comprador.
Havia uma relação mais pessoal de convencimento e apelação, que levava para o lado da
"pena". Nessa nova forma de venda em sinais, isso não existe mais, em nome da eficiência e
da rapidez, a prática adotada é uma relação não pessoal. O rapaz vem correndo e coloca o
pacote pendurado no retrovisor do carro. O contato dura poucos segundos.

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Da mesma forma em que no fordismo o ritmo era tão rígido que uma quebra dele poderia
provocar uma baixa na produtividade e trazer uma punição ao operário, no "fordismo"
informal, um erro do vendedor e uma demora a mais podem trazer a punição dos carros
começarem a andar e deixarem os pacotes caírem no chão. A prática do fordismo trouxe
ganhos em produtividade, no "fordismo" informal, a "produtividade" também é maior, tanto
que a caixa levada nas mãos, em outras formas mais subjetivas de venda em sinal, é
substituída por caixas e mais caixas na calçada. Em uma das observações eu notei a
existência de 12 caixas.

Com o advento do fordismo, os operários passaram a ser um prolongamento das máquinas,


seus corpos passaram a funcionar no ritmo imposto por elas. Nessa nova forma de venda de
balas no sinal, os vendedores passam a ser também um prolongamento da máquina, nesse
caso do semáforo. Seus corpos, braços e pernas se movem num ritmo determinado por ela.

Considerações finais

Na sociedade atual, inserida num contexto de globalização, informatização, flexibilização e


privatização, o mercado de trabalho vem passando por uma transformação dos tipos de
empregos oferecidos e nos meios de se inserir neles. Certas transformações em curso são
responsáveis por uma ampla instabilidade trabalhista.

A terceirização, o aumento estrutural do desemprego e a expansão do setor informal são


bons indicadores da forma como os trabalhadores têm sido apresentados às perspectivas de
se manterem e de progredirem. Os trabalhadores têm que possuir, cada vez mais, múltiplas
competências.

A velocidade da informação e da inovação tecnológica força as pessoas a estarem em


permanente atualização. A exclusão digital e o não conhecimento de uma segunda ou
terceira língua também aparecem como empecilho para a obtenção de cada vez mais postos
de trabalho. O setor industrial, cada vez mais informatizado, passa por uma redução do
emprego. O setor de serviços tem expandido as suas vagas.

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Nesse contexto, a indústria passa da produção em massa para a produção flexível. O
fordismo, com seus movimentos rotineiros que não envolviam as faculdades mentais e a
espontaneidade dos trabalhadores, dá lugar a um modelo em que os trabalhadores passam
a desempenhar múltiplas funções e a não só executar, mas pensar sobre o processo de
produção. Uma parte do setor de serviços e do setor informal segue o caminho contrário,
passa a incorporar as características do fordismo no desempenho de suas atividades
profissionais. Os seus trabalhadores passam a ter rotinas de trabalho, rígido controle do
tempo e atividades mecanicamente seguidas.

Dessa forma, as características do "fordismo", típicas da modernidade sólida, não


desapareceram na modernidade líquida. Na complexidade do mercado de trabalho atual,
elas passaram, junto com as características do "pós-fordismo", a conviverem conjuntamente.

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U NIDADE 9
Novas Configurações do Trabalho: A Inserção da Mulher e a Mão-de-Obra Precária

Objetivo: Demonstrar as novas configurações que o trabalho vem assumindo em termos de


inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente, homens e mulheres.

Conteúdo

Nesta unidade iremos demonstrar as novas configurações que o trabalho vem assumindo em
termos de inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente, homens e
mulheres. Para tanto, serão apresentadas partes da tese de doutorado do professor doutor
Daniel Perticarrari, que versa justamente sobre tal questão. Atente para o fato de que, com
as transformações no processo de trabalho bem como da estrutura social a ele relacionado,
sérios, mas diferentes impactos têm ocorrido sobre os trabalhadores, tanto em termos de
empregabilidade quanto na saúde física e mental destes. Entretanto, tais impactos devem
considerar uma condicionante essencial: as questões de gênero.

Introdução

Como visto nas unidades anteriores, tributária das principais transformações na sociedade
como um todo, como por exemplo, a transformação da família nuclear moderna, que tem
cedido lugar a uma grande diversidade de arranjos singulares; ou a sociedade de classes
que tem assumindo a forma de grupos e movimentos sociais separados, baseados em
relações étnicas, sexo, localidades, etc., o enfoque de gênero no mundo do trabalho surge
como uma espécie de estímulo para a quebra de certo “consenso ortodoxo” até então
disseminado entre os pesquisadores da sociologia do trabalho, baseada nas pesquisas sobre
a exploração capitalista moderna (SORJ, 2000).

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No Brasil, na esteira das pesquisas sobre relações de gênero na sociologia, um contingente
cada vez maior de pesquisadores do mundo do trabalho começa a focalizar sua atenção
para as especificidades das relações entre homens e mulheres. Estudos começam a
constatar um substancial aumento no número de trabalhadoras mulheres no espaço público
e assalariado do sistema capitalista. Esse afluxo do trabalho feminino como um todo inspirou
a produção, principalmente a partir das décadas de 70 e 80, de uma gama de estudos
relacionados às relações de gênero subjacente ao trabalho, principalmente fabril.

Atualmente, a problemática das relações de gênero no espaço do trabalho tem ocupado


posição especial nos estudos sobre reestruturação produtiva. Com efeito, parece haver uma
posição consensual existente na literatura recente de que, a despeito da inserção das
mulheres no mercado de trabalho nos últimos anos ter se dado de forma significativa, estas
ainda concentram-se em ocupações de baixa qualificação e remuneração mesmo quando
ocupam os maiores estratos de escolaridade.

Além disso, esses denotam, apesar de um amplo conjunto de transformações, que têm
ocorrido poucas rupturas e que o trabalho feminino geralmente é delimitado em estereótipos:
costureiras, enfermeiras, professoras, trabalhos de manuseios finos, empregados
domésticas, etc. (HIRATA, 2002; ABRAMO, 1998; CONSONI, 1998; POSTHUMA, 1998;
LAVINAS, 1997).

Outros argumentos apontam para uma perspectiva dual entre domesticidade e mundo
público, assinalando uma exclusão de gênero (LIMA, 2004; LEITE, 1994), mas ainda
assentada sobre a mesma perspectiva de precarização do trabalho feminino. Outra
abordagem tem sido tema de vários trabalhos recentes quais sejam sobre a divisão sexual
do trabalho doméstico, enfocando as principais mudanças ocorridas na atribuição de tarefas
no intuito de verificar como esse processo tem alterado os padrões de domesticidade e as
práticas tradicionais na família (SORJ, 2005; ARAÚJO; SCALON, 2005; OLIVEIRA, Z., 2005;
NOBRE, 2004; LAUFER, 2003). Há, ainda, abordagens que apresentam os padrões
tradicionais de estrutura familiar como um hiato que aparta o trabalho masculino dos
afazeres domésticos (MATOS, 2005; PICANÇO, 2005).

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O Gênero do trabalho: feminização e precarização.

Os estudos mais recentes na sociologia do trabalho têm apontado para um aumento no


número de mulheres trabalhadoras concomitante à sua precarização. Segundo Schweitzer
(2003), a história do mercado de trabalho, no que se refere às mulheres, tem se mantido
fechada, relegando as mulheres às esferas da precariedade, “identificadas como simples e
famosa mão-de-obra de apoio” (p.55).

Tal argumento pode ser visto, também, em Hirata (2004), que constata a grande afluência de
mulheres no mercado de trabalho tanto nos países desenvolvidos como nos países em
desenvolvimento. Segundo a autora, dados do SEADE, demonstram que o emprego feminino
cresceu na região metropolitana de São Paulo em 1,3% contra um decréscimo de 0,5% no
emprego masculino.

A autora ressalta, no entanto, que se trata de um aumento que coexiste com maiores índices
de subemprego, precariedade e instabilidade, bem como com empregos em tempo parcial.
Dados do senso demográfico de 1970 a 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) demonstram o aumento da participação das mulheres no mercado de
trabalho brasileiro conforme ilustrado pelo Gráfico 1.

Gráfico 1 - Taxa total de participação de homens e mulheres no mercado de trabalho


brasileiro

80

60
40
20

0
1970 1980 1991 2000

homens mulheres

Fonte: Censos Demográficos de 1970, 1980, 1991 e 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) em Guedes e Alves (2004).

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Análogo a tal verificação, Lima (2004) argumenta que as assimetrias entre o trabalho
feminino e o masculino de forma geral, subjazem à própria noção de globalização da
economia bem como da flexibilização dos mercados econômicos. Na visão da autora, a
mundialização do capital e as novas articulações produtivas entre as economias globais têm
atingido profundamente a força de trabalho feminina com consequências para o salário, o
aumento da carga de trabalho e a presença cada vez maior das mulheres na economia
informal, uma vez que tais arranjos (com sérias restrições a um desenvolvimento mais
igualitário) não estariam levando em consideração as idiossincrasias locais de classe,
religião, gênero e outros aspectos da identidade.

Hirata (2006) faz constatação parecida ao elucidar três dimensões que dariam ao processo
de globalização e mundialização do capital um caráter contemporâneo. Uma delas versa
justamente a respeito do processo de globalização, que seria impulsionado por políticas
governamentais, na forma de políticas públicas “neoliberais”, com consequências tais como a
liberalização das trocas comerciais; a desregulamentação e abertura dos mercados; novas
lógicas de desenvolvimento das firmas multinacionais, tendo como corolário a privatização; o
desenvolvimento da subcontratação; a externalização da produção, tendendo a
consequências negativas sobre as condições de trabalho e emprego das mulheres.

Tal fenômeno contribuiria, para a “feminização” da pobreza, principalmente nos países em


desenvolvimento do hemisfério sul, onde se encontram com maior incidência processos de
informalidade, salário parcial, ausência de benefícios e proteção social, etc. Além disso,
como ressaltado pela autora, esses trabalhos precários passaram a existir como “via de
regra” e não mais como exceção, o que traz contornos ainda mais graves ao mundo do
trabalho, em especial o feminino. O emprego feminino, principalmente nos anos 90, teria uma
dimensão paradoxal, dado a expansão do trabalho das mulheres concomitante à
precarização e à vulnerabilidade dos mesmos.

Nessa direção surge o fato de que o aumento da participação das mulheres na força de
trabalho não tem sido acompanhado pela igualdade com trabalhadores masculinos. Segundo

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Posthuma (1998), o trabalho feminino é caracterizado por vários tipos de exclusão como, por
exemplo, segregação setorial e em determinados grupos de ocupação, pequenas chances
de ascensão profissional, trabalho em condições precárias ou no setor informal, menor
remuneração por hora trabalhada, baixa mobilidade social, etc.

Araújo et al (2004) ratifica essa idéia, concluindo que a evolução do trabalho feminino no
Brasil tem indicado a existência concomitante de continuidades e mudanças. As
continuidades seriam observadas no grande contingente de mulheres (36% das mulheres
contra 10% dos homens, segundo dados do IBGE e PNAD) inseridas no mercado de
trabalho em posições não qualificadas, precárias quanto ao vínculo empregatício, mal
remunerado e sem proteção social.

As continuidades poderiam ser vistas, também, na permanência de alguns nichos


ocupacionais nos quais sempre predominou a mão-de-obra feminina, como por exemplo, o
ensino, os serviços de saúde, ocupações administrativas ou burocráticas, como por exemplo,
secretárias, recepcionistas, auxiliares de escritório, serviços de limpeza, higiene pessoal,
alimentação (cozinheiras) e costura.

Porém, poderiam se observar a ocorrência de mudanças, com a inserção feminina em


setores de atividade e profissões, antes reservadas aos homens, como por exemplo, nas
profissões de nível superior (dentistas, juristas, farmacêuticas), ou mesmo em áreas técnicas
(técnicos em análises clínicas, técnico de estatística, técnicos em administração, técnicos em
contabilidade, técnicos químicos, analistas de sistema, etc).

A inserção da mulher no mercado de trabalho, a despeito de sua precariedade, é uma


constatação que já vem sendo observada há muito pela literatura especializada. Lavinas
(1997) diz que as mulheres estão melhorando sua posição em alguns segmentos de
ocupação. No entanto, são observadas algumas diferenças, especialmente de remuneração
em relação aos homens, mesmo quando comparados com os mesmos níveis de
escolaridade.

Lavinas (2001) apresenta dados do PME/IBGE entre 1981 e 1998 e conclui que as mulheres
vêm melhorando sim seu desempenho no mercado de trabalho, reduzindo o gap de gênero,

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mesmo em termos salariais e ampliando sua participação entre os ocupados. Para a autora,
as mudanças em curso na economia têm levado a uma intensa mudança dos postos de
trabalho e modificado, portanto, o perfil da demanda (com vantagem para a mão-de-obra
feminina). Segundo ela, a mulher estaria se adaptando melhor a essa nova demanda, em
razão do seu “diferencial de gênero”, como por exemplo, uma maior escolaridade, espessura
cognitiva, social e pessoal de cada trabalhador.

Barros (2006) demonstra, contudo, que apesar da crescente participação feminina no


mercado de trabalho, a proporção das mulheres em idade ativa engajada ou buscando
engajar-se em atividades econômicas é, ainda, muito aquém à masculina (28% a menos que
os homens, segundo dados com base na Pesquisa Mensal de Empregos – PME, entre 1996
e 1998).

As diferenças por sexo são evidenciadas, ainda, na duração da jornada de trabalho.


Enquanto cerca de 30% das mulheres trabalham menos de 40 horas por semana, entre os
homens apenas 15% trabalham menos de 40 horas, fazendo com que a jornada semanal
média de trabalho das mulheres ocupadas seja cerca de 5 horas inferior a dos homens.

O autor demonstra, ainda, que há uma substancial diferença no salário médio dos homens e
mulheres quando comparados com a ocupação e nível educacional. Segundo ele, na grande
maioria dos casos os salários masculinos são bem superiores aos femininos. Em apenas 5%
dos casos considerados, o salário médio feminino apresentou-se mais de 10% superior ao
masculino ao passo que em 81% dos casos o oposto ocorreu (segundo dados com base na
PME, entre 1996 e 1998).

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Fórum 1 – Novas configurações sociais do trabalho

Como pôde ser visto na unidade 9, as principais transformações na sociedade como um


todo, como por exemplo, a transformação da família nuclear moderna, que tem cedido lugar
a uma grande diversidade de arranjos singulares; ou a sociedade de classes que tem
assumindo a forma de grupos e movimentos sociais separados, baseados em relações
étnicas, sexo, localidades, etc., surge como uma espécie de estímulo para a quebra de certo
“consenso ortodoxo” até então disseminado entre os pesquisadores da sociologia do
trabalho, baseada nas pesquisas sobre a exploração capitalista moderna. A partir disso reflita
e responda:

Como estudar trabalho e as consequências para o trabalhador não apenas do ponto de vista
econômico e das condições salariais?

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U NIDADE 10
Novas Configurações do Trabalho: A Inserção da Mulher e a Mão-de-Obra Precária

Objetivo: Demonstrar as novas configurações que o trabalho vem assumindo em termos de


inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente, homens e mulheres.

Conteúdo

Nesta unidade, continuaremos demonstrando as novas configurações que o trabalho vem


assumindo em termos de inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente,
homens e mulheres. Para tanto, continuaremos apresentando partes da tese de doutorado
do professor doutor Daniel Perticarrari, que versa justamente sobre tal questão.

A Precarização do Trabalho Tem Sexo?

Consoni (1998) afirma que a presença das mulheres no mercado de trabalho na década de
90, em diversos setores tem sido marcada por poucas rupturas. A posição desigual das
trabalhadoras em relação aos homens tem se mantido quase que invariável e pode ser
observada quando se avalia o diferencial de remuneração. Além disso, o salário médio nas
ocupações da indústria metalúrgica e ocupações genéricas de produção, por exemplo, são
mais do que o dobro daqueles pagos nos serviços domésticos (BARROS, 2006).

No caso do segmento de linha branca, o diferencial salarial entre homens e mulheres parece
estar se atenuando. Perticarrari (2003) demonstra que em 1994, 79% das trabalhadoras
recebiam até 10 salários enquanto entre os homens, esse percentual chegava a 66,4%. Em
2000 esse percentual subiu para 93,1% entre as mulheres e 86,5 entre os homens. O
aumento no conjunto que agrega os menores salários foi de 14 pontos percentuais para as
mulheres e de 20 pontos entre os homens.
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É coerente afirmarmos, como demonstra Barros (1997), que uma parcela significativa da
desigualdade salarial entre trabalhadores (principalmente com pouca educação) deve-se a
diferenças na inserção ocupacional. Enquanto os dois grupos ocupacionais mais importantes
do lado feminino (segundo dados da PME em 1997) — serviços domésticos e vestuário —
representam cerca de 50% do emprego feminino, estas mesmas ocupações representam
apenas 3% do emprego masculino.

Por outro lado, os três grupos ocupacionais mais importantes do ponto de vista masculino —
construção civil, transportes e metalurgia — que correspondem a cerca de 45% do emprego
masculino, representam apenas 3% do emprego feminino. Os quatro grupos ocupacionais de
menor relevância para os homens — serviços domésticos, serviços de barbearia e beleza,
indústria eletroeletrônica e vestuário — representam mais de 55% da força de trabalho
feminina.

Em contrapartida a esse quadro, convém apresentar os resultados da pesquisa de


Guimarães (2001), que aponta uma tendência inversa. Durante a retração do emprego
durante a conjuntura da década de 90, houve um fechamento de oportunidades ocupacionais
em espaços tradicionalmente masculinos, como no caso da construção civil, que se
combinaria com um movimento de migração de trabalhadores homens para ramos e
atividades tradicionalmente femininos como, por exemplo, saúde e educação. Dessa forma, a
tendência do ajuste macroeconômico e reestruturação micro-organizacional estariam
possibilitando um maior mix do trabalho em ocupações predominantemente femininas. A
contrapartida, contudo, não teria acontecido. Estaria ocorrendo uma diminuição do mix de
trabalho em setores industriais tidos como o lócus masculino.

A questão da inserção das mulheres no mercado de trabalho foi tema de análise também de
Bruschini e Lombardi (2003). De acordo com elas pôde-se observar a constância da inserção
feminina no mercado de trabalho, concomitante à má qualidade de suas funções e a
predominância dessas em atividades informais e precárias. A atividade feminina chegava ao
final da década de 90 a 47% da população economicamente ativa feminina. Para se ter uma
noção, esta taxa, no mesmo período de tempo, chegava a pouco menos de 75% segundo
dados do IBGE e PNAD.

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Para Sanches e Gebrim (2003) a situação das mulheres no mercado de trabalho é revelada
por meio de três indicadores: os de dificuldade de inserção, segundo as quais as dificuldades
para obtenção de emprego seriam maiores para as mulheres do que para os homens, tanto
que as taxas de desemprego seriam sistematicamente superiores às masculinas; os de
qualidade dos postos ocupados, nos quais o trabalho feminino encontrar-se-ia, em maior
proporção, em postos de trabalho vulneráveis, representados pelo assalariamento sem
carteira assinada, trabalhos domésticos, autônomos e trabalhadores familiares. E de nível de
remuneração, os rendimentos da mulher no mercado de trabalho seriam sempre inferiores
aos dos homens, mesmo quando essas exercessem a mesma função e tivessem a mesma
forma de inserção.

Para os autores esse quadro estaria sendo compensado através de negociações coletivas
como formas de melhorias substanciais da situação da mulher no mercado de trabalho,
como, por exemplo, garantias relacionadas à gestação, maternidade e responsabilidades
familiares – cerca de 80% do total das negociações segundo os autores. Os outros 20%
estariam distribuídos entre os temas condições de trabalho (com 8%), exercício do trabalho
(menos de 2%), saúde (em torno de 5%) e equidade de gênero (próximo a 4%).

Apesar da possibilidade de melhoria das condições de trabalho formal, Girard (2002) conclui
que houve um aumento intenso da criação de empregos precários e estes são ocupados
preferencialmente por mulheres. No entanto, neste caso, a autora diz que o desemprego
atingiria mais os homens e as mulheres ocupariam os lugares mais vulneráveis, dependendo
dos setores. Os homens ocupariam os lugares antes tradicionalmente ocupados por
mulheres.

Mesmo longe do consenso, a maioria dos autores tem apontado para a desvantagem do
processo de reestruturação no mundo do trabalho para as mulheres. Para Araújo et al
(2004), a reestruturação produtiva significaria a emergência de um novo padrão de
acumulação que reorientaria o conjunto das relações sociais, transformando, não só a
organização da produção, os mercados e as relações de trabalho, mas reconfigurando o
mundo do trabalho e a própria classe trabalhadora.

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Esse seria um processo que transformaria o universo do trabalho, aumentando a
diversidade, a heterogeneidade e a complexidade da classe trabalhadora. Os novos arranjos
e modalidades produtivas estariam configurando um “novo proletariado fabril”, marcado pelas
desigualdades de sexo, raça, etnia e geração. A reconfiguração da classe trabalhadora se
daria, então, mantendo e aprofundando as desigualdades e dentre estas, as desigualdades
de gênero que teriam um caráter estruturante, na medida em que definem relações sociais,
conferindo lugares e papéis diferenciados para homens e mulheres. Dessa forma, o processo
de reestruturação produtiva teria uma clara dimensão de gênero “pois seus efeitos perversos,
desiguais e excludentes, atingem de forma particular as mulheres” (p. 5).

Hirata (1998) demonstra que a transformação do trabalho no contexto da reestruturação


produtiva assinala para uma precarização do trabalho desigual entre homens e mulheres.
Com a introdução da informática no setor industrial, certas tarefas e profissões que
demandam trabalhadores qualificados estão sendo abertas às mulheres (engenheiras,
analistas de sistemas, etc.). É o caso do setor bancário, onde a mão-de-obra feminina em
setores qualificados vem aumentando, principalmente, após o processo de incorporação de
inovações informacionais (SEGNINI, 1998).

Se, de um lado, algumas pesquisas demonstram que alguns processos de reestruturação


produtiva1 abriram algumas oportunidades de inserção da mulher, uma vez que teria
motivado a criação de mais postos de trabalho em atividades tidas como femininas e com
maior exigência de educação formal, como nos casos anteriormente descritos, por outro se
observa a ampliação de ocupações sem vínculo formal, que pagam menores salários, e
tendem a abranger maior rotatividade (MONTAGNER, 2004). É o caso de várias empresas
subcontratadas que alimentam as principais cadeias produtivas e onde se encontram
condições de trabalho mais precárias.

1
Que se acelerou no Brasil a partir da década de 90, fruto do aumento da concorrência gerada pela
liberalização da economia do país assim como de rearranjos patrimoniais por meio de aquisições e joint
ventures. É importante lembrar ainda, que o processo de reestruturação atingiu de maneira incisiva as indústrias
têxteis brasileiras, responsáveis pela eliminação de boa parte da mão-de-obra feminina no Brasil.

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Hirata (2006), no entanto, faz menção ao que ela chama de bipolarização do emprego
feminino dos anos 80 e 90. De um lado se encontrariam e começariam a se destacar entre
as mulheres os empregos altamente qualificados, relativamente bem pagos, valorizados
socialmente, como por exemplo, juristas, advogadas, médicas, professoras universitárias,
pesquisadoras, arquitetas, etc. De outro lado, pôde-se vislumbrar um aumento maciço (onde
de encontrariam mais de 90% das mulheres trabalhadoras) das profissões desvalorizadas
socialmente, pouco remuneradas, isto é, empregos que corresponderiam muito estreitamente
com as ocupações das mulheres no ambiente doméstico.

Bruschini e Lombardi (2003), ao estudarem a estrutura ocupacional feminina, notam que esta
se caracteriza, de maneira geral, por dois segmentos distintos de ocupação. De um lado, as
ocupações que gozariam de menos prestígio e ofereceria menor remuneração, como por
exemplo, as ocupações em serviços administrativos, serventia, higiene, beleza e auxílio à
saúde. Estas ocupações seriam responsáveis por 50% das ocupações femininas na década
de 90. De outro lado, estariam as ocupações de nível superior, principalmente nas áreas
jurídicas, artes e ensino, responsáveis por 18% das ocupações. Isso denotaria o acesso das
mulheres ao mercado de trabalho mostrando sua consolidação, principalmente, na década
de 90.

Em estudo anterior, Bruschini e Lombardi (2000), apontam para o que elas chamam – assim
como fez Hirata – de bipolaridade do trabalho feminino no Brasil contemporâneo. De um
lado, estariam aquelas ocupações que dizem respeito ao ainda grande contingente de
mulheres (cerca de 40% da força de trabalho feminina) que se insere no mercado de trabalho
em pólos nas quais se incluem as posições menos favoráveis e precárias, quanto ao vínculo
de trabalho, remuneração, proteção social ou às condições de trabalho propriamente ditas.

Seriam ocupações nas quais as presenças das mulheres teriam se dado tradicionalmente,
como por exemplo, o trabalho doméstico, as atividades sem remuneração e as atividades de
produção para consumo próprio ou do núcleo familiar. Incluir-se-ia segundo elas também,
entre as continuidades, o elevado contingente de mulheres em alguns tradicionais nichos
femininos, como por exemplo, a Enfermagem e o Magistério. Em sentido oposto, as

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transformações apontariam para ocupações femininas em profissões de nível superior de
prestígio, como por exemplo, a medicina, a Arquitetura, o Direito e mesmo as Engenharias.

Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua
SALA DE AULA e faça a Atividade 1 no “link” ATIVIDADES.

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U NIDADE 11
Novas Configurações do Trabalho: A Inserção da Mulher e a Mão-de-Obra Precária

Objetivo: Demonstrar as novas configurações que o trabalho vem assumindo em termos de


inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente, homens e mulheres.

Conteúdo

Nesta unidade, continuaremos demonstrando a nova configuração que o trabalho vem


assumindo em termos de inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente,
homens e mulheres. Para tanto, continuaremos apresentando partes da tese de doutorado
do professor doutor Daniel Perticarrari, que versa justamente sobre tal questão.

Guetos Ocupacionais e Padrões de Valores

É interessante notar, no entanto, como fizeram Guedes e Alves (2004) que, segundo o
Censo demográfico feito pelo IBGE em 1991, as mulheres com nível universitário eram as
que apresentavam menores salários em relação aos homens de mesmo nível educacional.
Esta relação direta entre escolarização e diferencial salarial, segundo eles, poderia ocorrer
por duas razões: “por um lado os trabalhadores de estratos educacionais mais baixos são
uniformemente mal remunerados (rendimentos próximos da subsistência) e por outro,
contrariamente, a variabilidade de rendimentos no topo das carreiras é muito grande, o que
gera uma diferenciação maior entre trabalhadores de mesmo nível educacional” (p.13). Esse
diferencial crescente de salários entre homens e mulheres diretamente proporcional às
carreiras de nível superior é considerado pelos autores como “uma barreira de fatores de
ordem cultural, muito presente e arraigado na vida social, mas de complexa interpretação
analítica” (p.13).

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Essa interpretação, que leva em consideração o grupo de trabalhadoras com curso
universitário, relativiza a idéia de que a conservação das mulheres em “guetos ocupacionais”
seja o principal fator que explicaria os altos diferenciais salariais por sexo uma vez que os
diferenciais salariais em relação aos homens de mesmo nível educacional não apresentam
uma modificação expressiva no sentido de uma melhora. Dessa forma, os autores sugerem
um olhar mais específico para a presença de homens e mulheres em cada carreira, o que
pode revelar alguns aspectos da relação entre concentração de renda.

Em outro estudo, Hirata (2002) disserta sobre a crise do emprego assinalando os principais
pontos de vista sobre os efeitos diferenciais de acordo com o sexo. Uma das constatações
versa sobre os critérios de demissões discriminatórias provenientes dos empregadores, cuja
lógica procederia de uma expulsão das mulheres do mercado de trabalho em que elas não
teriam lugar de pleno direito.

Galleazzi (2006) depreende também, que ao longo dos anos 90 e início do século XXI, o
desemprego atingiu proporções sem precedentes na história recente do País, “fato que tem
colocado o problema no centro das grandes questões e desafios de nossa sociedade,
extrapolando o âmbito do próprio mercado de trabalho” (p.15). O desemprego entre as
mulheres, nesse contexto, segundo a autora, tomaria dimensões maiores e desvantajosas
devido a discriminações sofridas no mercado de trabalho.

A força de trabalho feminina encontraria maiores dificuldades para ser absorvida na atividade
produtiva, resultando em taxas de desemprego que apresentariam patamares bem mais
elevados entre as mulheres do que os encontrados para a população masculina.

Além disso, os homens e as mulheres seriam separados por setor de atividade (indústria,
serviços, etc.), pela qualificação e pelo tipo de trabalho efetuado. Mesmo se as mulheres e
os homens exercessem a mesma atividade, como trabalhadores não–qualificados na
indústria, dificilmente teriam o mesmo tipo de tarefas e não seriam, nas palavras da autora,

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facilmente intercambiáveis. O impacto da crise econômica2 sobre o emprego feminino e
masculino além de ter sido quantitativo, foi também, qualitativo (HIRATA, 2002).

Para Kon (2005) ainda se observa na atualidade, que a distribuição do trabalho entre os
sexos nas empresas resulta de “visões arraigadas” sobre o papel da mulher na sociedade,
na família e mesmo na manutenção da força de trabalho. As escolhas dos agentes
econômicos sobre a incorporação dos trabalhadores segundo o gênero nos processos
produtivos das empresas, tanto por parte dos empregadores quanto dos trabalhadores à
procura de empregos, refletem “a mentalidade dominante de segregação e discriminação
que desfavorece as mulheres” (p.7).

As relações entre os sexos ainda são predominantemente assimétricas e hierárquicas, assim


como são desiguais as posições ocupadas pelos indivíduos dos dois sexos seja na esfera da
produção ou das relações familiares. As oportunidades de trabalho oferecidas para cada
sexo derivam em grande parte do conceito sobre o papel da mulher na sociedade, no âmbito
familiar e doméstico, e sua capacidade de compatibilizar o trabalho profissional com o
doméstico, assim como da qualificação ou capacitação que receberia, segundo ela, uma
conotação individualizada de escolaridade para exercer ocupações de maior
responsabilidade.

Daune-Richard (2003), salienta que uma das principais pontos em relação às questões de
gênero repousaria sob a qualificação do trabalho. A autora argumenta que a tecnicidade é
geralmente associada ao masculino e ao trabalho qualificado, sendo socialmente valorizado.
Ao contrário, os serviços – excluídos de uma representação em termos de uma tecnicidade e
desvalorizados socialmente – são tidos como pertencente ao universo de trabalho feminino.
Além disso, Hirata e Kergoat (2003) concluíram que a atual divisão sexual do trabalho imputa
aos homens o trabalho produtivo assim como sua dispensa do trabalho doméstico. Este, ao
contrário, é lugar legítimo das mulheres, mesmo que estas estejam se inserindo cada vez
mais no mercado salarial.

2
Aumento da inflação e retração do crescimento industrial na década de 1980.
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A divisão sexual do trabalho na indústria traz, ainda, elementos adicionais sobre a questão
de gênero. É o caso de alguns estudos que contemplam a relação das mulheres e dos
homens em relação às técnicas e os processos empregados na produção. Abramo (1998)
aponta para o fato de que se os novos arranjos e encadeamentos produtivos forem
orientados, exclusivamente, por uma lógica de redução de custos, a tendência é de que se
gerem novos processos de segmentação no mercado de trabalho com desvantagem para
toda a força de trabalho, especialmente a feminina, gerando novos processos de expulsão e
de precarização.

O emprego feminino se concentraria nas pequenas e médias empresas dos setores mais
tradicionais da economia, assim como no vasto esquema de subcontratações que serve às
grandes empresas. Esse seria o caso de ramos industriais cujo discurso ideológico de
trabalho sujo, pesado, perigoso e insalubre demonstraria uma lógica enganosa que
corroboraria, sobretudo, com a exclusão do trabalho feminino, uma vez que é justamente nas
empresas na base das cadeias produtivas onde o emprego se torna mais precário, instável e
os níveis de qualificação geralmente são muito baixos.

A esse respeito, Hirata (2002) diz que as relações sociais entre homens e mulheres fora da
fábrica estruturariam a divisão sexual do trabalho profissional, orientando tendencialmente as
mulheres para ocupações, os postos, as funções mais simples, independentemente do setor
econômico e o grau de modernização e inovação tecnológicas. O que realmente estaria em
jogo, seria “as relações de poder e de autoridade entre homens e mulheres” (p.218).

De forma análoga, Rizek e Leite (1998) argumentam que o lugar ocupado pelo trabalho
feminino no processo de reestruturação produtiva poderia ser pensado a partir de três
dimensões que explicitariam as segregações de gênero. As mulheres seriam mantidas em
postos cujo teor conservaria uma similaridade com o trabalho desenvolvido no lar; a
identificação de ‘sensibilidades’ femininas para tarefas específicas simples e desqualificadas;
e “a produção de um consentimento fabril associado à construção de imagens marcadas pela
equalização das exigências domésticas e fabris que configuram um feminino dócil e
confinado à esfera privada da vida doméstica” (p.64).

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O mesmo argumento é utilizado por Fischer e Marques (2001) que reiteram que a situação
de desigualdade no trabalho repete as relações domésticas. Os preconceitos que favorecem
a reprodução da inferioridade feminina (mãe, dócil, frágil, dedicada etc.) são apropriados
pelos colegas masculinos, que, ao invés de acolhê-la como companheira de trabalho,
parceira, indivíduo, aceita-a na condição particular de ‘mulher’.

Cappellin (2004) argumenta que há uma disparidade de tratamento assim como


discriminações de gênero no trabalho. Para a autora, diagnósticos do IBGE (instituto
brasileiro de geografia e estatística) e OIT (organização internacional do trabalho) apontam a
presença de discriminações associadas à propagação de estereótipos nos espaços, segundo
ela, privilegiados do emprego formal. Por conseguinte, se evidenciaria uma maior fragilidade
na manutenção do emprego formal para as mulheres, o alto índice de desemprego feminino,
as desvantagens e as diferenças salariais das trabalhadoras, a formação de “guetos
ocupacionais”, etc. Isso decorreria das distinções existentes e assimetrias de expectativas de
valores entre quem organiza e quem realiza o trabalho, ou seja, seriam situações onde as
formações de valores, motivações e expectativas de resultados viveriam em permanente
confronto.

Cabe ressaltar que o conceito de inferioridade, designado ao sexo feminino através da


religião, escola, família, onde cotidianamente a própria mulher reproduz a superioridade
masculina, se reproduz nas relações de trabalho fabril (BOURDIEU, 1999).

ATIVIDADES OPTATIVAS:

1. Discuta como padrões de valores podem contribuir para a formação de guetos


ocupacionais.

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U NIDADE 12
Novas Configurações do Trabalho: A Inserção da Mulher e a Mão-de-Obra Precária

Objetivo: Demonstrar as novas configurações que o trabalho vem assumindo em termos de


inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente, homens e mulheres.

Conteúdo

Nesta unidade, continuaremos demonstrando as novas configurações que o trabalho vem


assumindo em termos de inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente,
homens e mulheres. Para tanto, continuaremos apresentando partes da tese de doutorado
do professor doutor Daniel Perticarrari, que versa justamente sobre tal questão.

O Valor Masculino do Medo e a Saúde

De um ponto de vista histórico, é possível observar que a estruturação atual da divisão


sexual do trabalho (trabalho assalariado/trabalho doméstico, Fábrica/família) surgiu
simultaneamente ao capitalismo, e que a relação assalariada não teria se estabelecido na
ausência do trabalho doméstico. A divisão do trabalho é um termo genérico que remete a
toda uma série de relações sociais.

Embora a divisão sexual do trabalho se enraíze na atribuição prioritária do trabalho


doméstico às mulheres, de modo algum pode ser considerada operante simplesmente no
que diz respeito às mulheres (...) Muito pelo contrário, trata-se de uma problemática que
atravessa e dá sentido ao conjunto de relações sociais que a expressão “divisão social do
trabalho” abrange (HIRATA; KERGOAT, 2003, p.235).

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A articulação entre estruturas familiares e esfera produtiva é, muitas vezes, desconhecida
nos estudos acerca do trabalho. E, subjacente a essas, a questão das identidades sexuais.
Hirata (2002) demonstra como essas identidades são “exploradas pelo trabalho” fabril.

“Dos operários, exigem-se força física e resistência para efetuar um trabalho mais pesado,
mais sujo e mais perigoso, e das operárias a execução de trabalhos considerados mais
fáceis, mais leves e mais limpos” (p.267). É importante considerar, contudo, que essa noção
parece se apoiar num raciocínio sofismático, uma vez que literatura sociológica sobre a
inserção da mulher no mercado de trabalho tem apontado como vimos, para a precarização
do trabalho em detrimento do trabalho masculino, como por exemplo, o trabalho de mulheres
que lidam com elementos tóxicos como cola de sapateiro em fábricas de sapato.

Mesmo assim, há setores em que tradicionalmente os homens é que estão sujeitos a


maiores riscos. A esse respeito é proveitoso citar o trabalho de Dejours (1987) quando este
elenca, em seu estudo sobre a psicopatologia do trabalho, certas categorias profissionais
expostas a maiores condições de risco físico e psíquico em detrimento de outras. Seria o
caso da construção civil, indústrias de preparação de produtos tóxicos ou mesmo certos
trabalhos repetitivos assim como alguns setores tidos como “pesados” em determinados
ramos industriais.

O autor demonstra que o medo, intrinsecamente relacionado à noção de risco, e


consequentemente às categorias supramencionadas, está associado inúmeras vezes ao
trabalho masculino. Correr riscos seria um trabalho eminentemente de “macho”,
independente da ansiedade e dos problemas psíquicos que isso pode acarretar, o que
demarcaria os homens em ocupações mais perigosas, insalubres ou que demandem maior
esforço físico.

Borsoi (2002) chega à constatação semelhante, ao pesquisar o que ela chama de “os
sentidos do trabalho na construção civil”. No entender desta autora, a satisfação dos
trabalhadores desse segmento repousaria sob o trabalho enquanto garantia de
sobrevivência, acima de tudo. A autora ressalta, não obstante, que o que seria gratificante no
trabalho desses operários não seria a tarefa em si, considerada cansativa, pesada, e muitas

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vezes, perigosa, mas sim a possibilidade do cumprimento de provedor da família. Este
sentimento assenta-se sob a percepção do cumprimento de seu papel enquanto homem:

Trabalho, além de significar sustento, sentimento de unidade, lugar de construção de


vínculos, significa também a afirmação da virilidade, posto que possa ser modo de expressão
da força, da coragem, do caráter do macho (BORSOI, 2002, p. 322).

Emerge das constatações anteriormente descritas a consideração que, a partir desses


atributos (e das atitudes, tidas como essenciais a uma identidade viril), decorre a aceitação,
por parte dos trabalhadores homens, de condições de trabalho insalubres, além da recusa da
possibilidade do trabalho feminino tido como “frágil”. A ideia de um trabalho viril, ligada à
satisfação pelo cumprimento do papel de provedor (estreitamente relacionada às diferenças
de remuneração), corrobora para a conformação da divisão sexual do trabalho.

Nestes termos, há que mencionar, que alguns trabalhos, apesar de pontuais, já começaram
a levar em consideração os processos de identidade construídos no trabalho. Araújo et al
(2004), por exemplo, discorrerem sobre o que elas chamam de “múltiplos sentidos e
significados no trabalho”, onde haveria sentidos vivenciados de forma objetiva, ou
subjetivamente distintos por homens ou mulheres, por brancos e afro-descendentes, por
jovens ou trabalhadores mais velhos, de modo que há consequências distintas de acordo
com cada grupo ou categoria de análise.

Por isso, homens e mulheres, jovens ou mais velhos, no entender das autoras, estariam
implicados de modo distintos, vivenciando e percebendo os processos de mudanças (no
caso deste trabalho, no âmbito da reestruturação produtiva) de diferentes maneiras.

Sintetizando, a literatura apresenta aspectos convergentes e divergentes. Convergem


quando concluem que as transformações no mundo do trabalho têm trazido mais problemas
e precariedade ao trabalho da mulher do que novas oportunidades.

E divergem exatamente em relação a essas oportunidades quando apresenta dados


conflitantes em relação ao emprego feminino e masculino e como a precarização afeta

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homens e mulheres. Aliás, a literatura não tem entrado em consenso nem em relação à
questão do desemprego e aos espaços de trabalho ocupados.

Não obstante, vários autores (ARAÚJO et al, 2001; PERTICARRARI, 2003; SILVA, 2005)
têm apontado para um ramo que, ao que parece, tem tido uma incorporação consistente de
mão-de-obra feminina, principalmente a partir da década de 90: a indústria metalúrgica.
Artigo recente da Folha de São Paulo, de outubro de 2007, mostra que tem havido um
aumento do número de mulheres trabalhadoras de chão-de-fábrica em funções consideradas
masculinas da indústria metalúrgica.

Segundo a reportagem, em 2007 as mulheres ocupavam nas fábricas do ramo metalúrgico


de Sertãozinho, interior de São Paulo, cerca de 300 cargos ou ocupações que sempre foram
destinadas pelas empresas do setor aos homens, de forma que as mulheres já se
destacavam como ‘soldadeiras’ e ‘operadoras de torno mecânico’, por exemplo, (COISSI,
2007). No entanto, há que se ressaltar que a indústria metalúrgica é ainda um ramo onde o
trabalho é predominantemente masculino, apesar da recente feminização do setor
(PERTICARRARI, 2003).

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U NIDADE 13
A Divisão do Trabalho Doméstico

Objetivo: Demonstrar as novas configurações que o trabalho vem assumindo em termos de


inserção feminina e como a precarização atinge diferentemente, homens e mulheres não só
no ambiente fabril, mas também doméstico.

A divisão sexual do trabalho doméstico

A literatura tem mostrado que as mutações em curso na estrutura do mercado de trabalho,


em que pese o aumento do número de mulheres no mercado ocupacional, não têm sido
acompanhadas da mesma forma por decisões negociadas no ambiente do trabalho
doméstico, sendo esse ambiente influenciado, talvez, por uma estrutura de percepção
patriarcal que dificultaria a aceitação masculina desse tipo de função.

Esses processos seletivos que determinam preferências, prioridades, diferenças no que se


percebe são aprendidos e construídos nem sempre de maneira consciente e voluntária, o
que talvez explique a dificuldade dos homens em assumir novas identidades dentro da
estrutura familiar. Essas disposições sociais foram denominadas por Bourdieu (2001) de
habitus.

Segundo Bourdieu (2001), os agentes sociais são dotados de habitus, inscritos nos corpos
pelas experiências passadas: “tais sistemas de esquemas de percepção, apreciação e ação
permitem tanto operar atos de conhecimento prático (...), como também engendrar, sem
posição explícita de finalidades nem cálculo racional de meios, estratégias adaptadas e
incessantemente renovadas”. O habitus seria, portanto, o conjunto dos esquemas de
percepção da apreciação e ação inculcada pelo meio social em um determinado momento e
lugar. Apareceria como a mediação entre as condições objetivas e os comportamentos
individuais. (BOURDIEU, 2001, p. 169).

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A relação com o mundo seria uma relação de pertencimento, de presença no mundo, no
sentido de ser possuído por ele. Porém, o envolvimento com esse mundo não instaura uma
relação de consciência exterior, mas de uma relação estreita com um mundo que se revela
no corpo sob a forma de habitus. A ação para Bourdieu não seria, portanto, nem puramente
reativa a estímulos sociais externos, nem puramente consciente e calculada, mas produto de
uma história que o próprio habitus contribui para transformá-la. Seria a inter-relação entre a
história objetiva das coisas sob a forma de estruturas mais a história encarnada nos corpos,
sob a forma de habitus que se criaria o sentido da ação.

Se a história contribui para transformar, as vivências interacionais dos agentes sociais diante
de novos contextos de divisão sexual do trabalho e das tarefas domésticas têm servido para,
embora ainda lentamente, modificar certos horizontes de significação. Hirata (2004)
relaciona, por exemplo, as transformações na divisão sexual do trabalho doméstico com o
desenvolvimento, no mundo inteiro, do setor terciário, especialmente os serviços pessoais, o
trabalho doméstico remunerado, os cuidados com relação às crianças assim como às
pessoas idosas.

Disserta que tais serviços, geralmente associados à força-de-trabalho feminina e


considerada “naturalmente” tarefas femininas colaboram para o aumento da instabilidade e
da precariedade de uma grande proporção da força de trabalho feminina, o que poderia
acarretar na diminuição “do estatuto já subvalorizado do trabalho doméstico” (HIRATA, 2004,
p.18). Tal processo seria possível pela delegação de uma série de cuidados domésticos de
mulheres com mais recursos para mulheres com menos recursos.

Segundo Nobre (2004), no Brasil, o emprego doméstico foi o setor que mais criou postos de
trabalho nos anos 90. A autora demonstra que em 2001, eram seis milhões de pessoas.
Dessas, 94% eram mulheres e 66% eram negros. Ainda para ela, apesar de se observar um
aumento da formalização do emprego doméstico, apenas ¼ das mulheres trabalhadoras
domésticas tinham carteira assinada e contribuíam para a Previdência Social. (p. 65).

Para Hirata (2004), este “modelo de delegação” tenderia a superpor-se ou mesmo substituir
o “modelo de conciliação” entre a vida profissional e a vida doméstica. Em pesquisa recente,

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Semião (2004) apresenta dados do IBGE para demonstrar que 503 mil trabalhadores
domésticos não completaram 17 anos de idade. Além do mais, a grande maioria dessas
trabalhadoras são mais susceptíveis a doenças, vão com menos frequência ao médico e são,
muitas vezes, dispensadas pelos seus patrões quando acometidas com alguma doença
considerada mais grave.

Em termos de estrutura familiar, o modelo de família baseado nos papeis do


homem/provedor e da mulher/dona-de-casa aparece como um processo em significativo
declínio ao longo da segunda metade do século XX. Essa tendência seria encontrada tanto
em países centrais, como por exemplo, os Estados Unidos, como em países periféricos,
como é o caso do Brasil.

O declínio desse padrão familiar reflete as alterações ocorridas na esfera do privado, das
relações de gênero e da intimidade. Transformações de valores que têm afetado de modo
decisivo a estruturação da família tradicional, na qual o chefe da família era responsável pelo
controle e decisão sobre os demais integrantes da família (OLIVEIRA, Z., 2005).

Dados extraídos da PNAD / IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística) demonstram que em 2001, 42% dos homens
declararam realizar algum tipo de afazer doméstico, contra 90% das mulheres, o que
demonstraria, ainda, uma menor responsabilidade do homem na organização doméstica,
cabendo às mulheres o ônus do trabalho nesse tipo de conformação.

Para Dedecca (2004), a maior “responsabilidade” se traduziria em um uso do tempo


extremamente desigual entre homens e mulheres. Apesar da tendência de uma menor
jornada de trabalho de caráter econômico exercida pelas mulheres, estas possuiriam uma
jornada total superior à dos homens, levando-se em consideração que as mulheres
desempenhariam uma jornada de trabalho em afazeres domésticos, em média, três vezes
maior àquela realizada por homens.

Bruschini (2004) demonstra que, a partir dos anos 90, o perfil das mulheres no mercado de
trabalho no Brasil aponta para trabalhadoras mais velhas, casadas e com filhos. Contudo,
segundo ela, as responsabilidades domésticas e familiares permaneceriam sobrecarregadas

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sobre as próprias mulheres. Isso contrasta com o aumento do número de famílias chefiadas
por mulheres, que chegaria ao final da década de 90 a 26%.

Laufer (2003) expõe que, apesar da igualdade profissional e salarial em pauta na agenda
política das democracias ocidentais, a divisão desigual do trabalho familiar e doméstico pesa
sobre as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho e limita a
autonomia das mulheres.

Se para os homens, historicamente, o direito ao tempo livre constitui-se em um direito de


cidadania – com a redução do tempo de trabalho e com as férias pagas, os assalariados
reivindicavam uma liberdade de existir também fora do trabalho – para as mulheres, o caso
foi diferente. Suas reivindicações visavam o acesso igual à cidadania pelo direito de ter um
emprego. Para elas, o direito ao trabalho assalariado significava a liberdade de existir fora de
uma posição de subordinação doméstica (LAUFER 2003, p. 133).

Sorj (2005) demonstra como a nossa percepção sobre as relações de gênero foi
historicamente transformada. De acordo com a autora, desigualdades aceitas como justas
passaram, principalmente após os movimentos feministas do século XX, a ser socialmente
deslegitimadas; uma dessas é a exclusão das mulheres no mercado de trabalho.

Contudo e a despeito de uma relativa aproximação entre homens e mulheres no que tange
os afazeres domésticos, é importante ressaltarmos que a divisão sexual do trabalho
doméstico em parâmetros mais tradicionais (o trabalho do homem é de provedor e da mulher
cuidar da casa e da família) é ainda corroborada por boa parte das mulheres, fazendo com
que coexistam valores tradicionais e também igualitários dentro do sistema de percepção das
relações de gênero (SORJ, 2005). Tais atos de submissão das mulheres teriam uma
dimensão simbólica, de forma que a dominação sempre colocaria em jogo as estruturas
cognitivas que, aplicadas às estruturas sociais, estabeleceriam relações de sentido.

Assim, a violência simbólica, mais que uma violência física, ou qualquer outra forma de
coação mecânica, constitui o mecanismo de reprodução social, o meio mais forte de se
manter a ordem, como no caso da dominação masculina. “As oposições inscritas na
estrutura social dos campos servem de suporte a estruturas cognitivas, taxionomias práticas,

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muitas vezes registradas em sistemas de adjetivos, que permitem produzir julgamentos
éticos, estéticos e cognitivos” (BOURDIEU, 1999, p. 124).

Araújo e Scalon (2005) ao estudarem o tema gênero, trabalho e família em perspectiva


comparada concluíram que as transformações nos padrões de organização familiar e nas
relações de gênero comportariam dimensões que seriam aparentemente conflitantes. Para
elas há coexistência de valores e práticas que tendem para o mais moderno junto a outros
ainda muito conservadores, apesar da tendência das mudanças de valores irem à direção de
uma perspectiva mais igualitária.

Para Picanço (2005), o trabalho doméstico reproduz, muitas vezes, valores tradicionais das
sociedades ocidentais que conotam certos sentidos para a ação. O trabalho doméstico,
assim como o trabalho assalariado, comporta determinados valores que estimulam
motivações e sentidos. Tais valores, historicamente concebidos, têm passado por um
processo de mudança, transformando as motivações e os sentidos. O que antes era uma
simples definição do lugar ocupado na vida, o trabalho doméstico é agora, para muitas
pessoas, uma obrigação compartilhada.

Contudo, se por um lado essas transformações têm propiciado uma maior inserção feminina
na estrutura sócio-ocupacional da sociedade e uma negociação um pouco maior das
decisões dentro do núcleo familiar, por outro é possível evidenciar uma complexa e talvez
implícita forma de reprodução da desigualdade de gênero, principalmente no que consiste ao
trabalho doméstico. É possível afirmar que a divisão sexual do trabalho doméstico, até
mesmo naquelas famílias em que a mulher está inserida na esfera produtiva e contribui para
o orçamento doméstico, se apoia, ainda, num sofisma que legitima o lócus de poder do
homem sobre a mulher.

É necessário, ainda, destacar que, para boa parte da literatura sobre trabalho doméstico, a
divisão das tarefas domésticas tem se reproduzido em uma separação entre produção,
considerada função masculina e reprodução, considerada função feminina. O cuidado com a
casa e a educação dos filhos – futura força de trabalho para o sistema capitalista – seria,
ainda, realizado basicamente pelas mulheres, não sendo elas mesmas consideradas como

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uma força de trabalho livre, uma vez que tais responsabilidades limitam sua trajetória no
mercado de trabalho assalariado (NOBRE, 2004).

De uma forma geral, a literatura tem tratado o tema privilegiando abordagens que
consideram a estrutura de família tradicional, convencional. De acordo com Kon (2005) o
estudo da divisão sexual do trabalho na sociedade, deve ser compreendido a partir das
funções impostas ao homem e à mulher na divisão sexual do trabalho na família que,
segundo ela, sempre estiveram implícitas nas instituições culturais (políticas, sociais e
econômicas), das sociedades em várias fases de evolução.

Desde a economia predominantemente rural ou pré-industrial dentro da família, o homem e a


mulher desempenham papeis distintos enquanto produtores de bens e serviços à sociedade.
Desde então, a atividade econômica da mulher tem se originado de sua função prioritária de
reprodução da força de trabalho. Desta função se originariam as distintas formas que têm
assumido a subordinação feminina, em diferentes sociedades de maneira que a participação
da mulher na produção, a natureza de seu trabalho e a divisão do trabalho entre os sexos
seriam considerados resultados de suas atividades de reprodução. Ressalta, ainda, que
grande parte das análises econômicas na atualidade aceita essa forma de divisão do
trabalho como algo dado, ou seja, na divisão sexual do trabalho, o papel da mulher ainda é
definido para a contribuição à reprodução biológica da força de trabalho, isto é, para a
procriação e criação dos filhos.

No entanto, abordagens como esta tem ignorado novas formas de associação e interação
entre pessoas, que podem ser do mesmo sexo, por exemplo, ou pessoas que não vêem na
família nuclear burguesa a única e melhor forma de estrutura familiar. Não obstante, em
famílias operárias, como no caso desta pesquisa, essa ideia de estrutura familiar ainda é
muito arraigada no discurso, apesar do lento processo de mudança de percepção.

Há que se ressaltar, que a conformação familiar tradicional tem assumido novos contornos,
e estes subjazem à própria noção de destradicionalização, entendida aqui como um
processo de mudança dos parâmetros clássicos das identidades de gênero favorecendo
transformações na divisão sexual do trabalho doméstico (MATOS, 2005).

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É pertinente supor, entretanto, que as desigualdades na distribuição de atribuições das
tarefas domésticas ainda persistem, apesar de ser possível observar algumas
transformações mais recentes com possíveis desdobramentos para as identidades de
gênero, como no caso das famílias operárias.

ATIVIDADE DE TRABALHO:

Pesquise um ramo industrial e responda:

Como as transformações produtivas no setor estudado, em termos de inserção feminina no


mercado têm impactado sobre o trabalho doméstico e a saúde dos trabalhadores homens e
mulheres?

Obs. Você pode fazer uma pesquisa bibliográfica, ou entrevistar alguns trabalhadores
(homens e mulheres) perguntando sobre as condições de trabalho e a conciliação com o
trabalho doméstico. Lembre-se de perguntar sobre problemas de desconforto físico ou
emocional (doenças psíquicas).

ATIVIDADES OPTATIVAS:

2. Discuta as novas configurações do trabalho em termos de inserção feminina e como a


precarização atinge diferentemente, homens e mulheres.

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U NIDADE 14
O Cooperativismo Como Forma de Associação do Trabalho

Objetivo: Explicitar o conceito e analisar o cooperativismo como forma de associação e


produção do trabalho.

O Cooperativismo

De forma geral, o Cooperativismo é um sistema econômico que faz das cooperativas a base
de todas as atividades de produção e distribuição de riquezas, tendo como objetivo difundir
os ideais em que se baseia, no intuito de atingir o pleno desenvolvimento econômico e social.
É a união de pessoas voltadas para um objetivo comum, visando alcançar os objetivos
propostos na sua constituição estatutária.

No Brasil

O artigo 3º. da Lei 5.764/71 traz claramente o objetivo essencial da criação de uma
Cooperativa, onde “celebram contrato de sociedade cooperativa as pessoas que
reciprocamente se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o exercício de uma
atividade econômica, de proveito comum, sem objetividade de lucro.” Isto significa que uma
pessoa, para associar-se racionalmente a uma Cooperativa, deve partir da expectativa de
que possa alcançar de FORMA ASSOCIATIVA a realização de seus objetivos em nível, no
mínimo, igual ao que conseguiria individualmente.

As Cooperativas são EMPRESAS de pessoas que não visam à obtenção de resultados para
seus associados, no entanto, a avaliação da eficiência das mesmas não pode levar em conta
apenas a obtenção de sobras para seus participantes visto que além de donos eles são
também clientes desta empresa cooperativa, permitindo que os resultados auferidos possam
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ser econômicos, sociais, educacionais, agregadores de qualidade de vida, de renda, ou
outros conforme os objetivos da mesma. Acima de tudo, as Cooperativas são associações ao
serviço de seus membros.

Em situações normais as Cooperativas deveriam apresentar sobras zeradas, pois sua


existência decorre das operações com os associados. Este raciocínio decorre do fato das
Cooperativas serem empresas sem fins lucrativos, e as sobras positivas decorrem da
realização de negócios com os associados com custos acima dos necessários para a
sobrevivência da empresa. Este ideal, no entanto, afronta a necessidade de perpetuação da
Cooperativa que, competindo em um mercado dinâmico e em crescimento contínuo, exige
uma margem de rentabilidade que possa manter sua capacidade de obtenção de tecnologia
e ganhos de escala.

Esta necessidade de crescimento faz com que a empresa Cooperativa tenha de ter um alto
nível de administração e gerenciamento, dignos de grandes empresas capitalistas, inibindo
com isto que ela assuma um caráter meramente assistencialista ou paternalista.

A participação dos associados é o principal fator de eficiência empresarial nas Cooperativas.


É em função dos associados que a Cooperativa existe, caso ela deixe de cumprir seu papel
de representante de seus associados ela perde a razão de existir. Esta participação exige
uma EDUCAÇÃO COOPERATIVA, voltada para a conscientização política e social, para a
transparência na gestão e para a organização do quadro social.

Acima de tudo as empresas cooperativas devem ser competitivas e atraentes para seus
associados. A garantia de que a competitividade seja atingida pressupõe que algumas
dificuldades sejam conhecidas e deixadas para trás, sejam elas, a baixa acumulação de
capital, o investimento em tecnologia e a competitividade de seus produtos através de
ganhos de escala e qualidade.

Destes fatores merece atenção a questão do capital social, visto ser este o “sangue” que
corre nas veias da Cooperativa. A formação e acumulação de capital é a chave para a
absorção e desenvolvimento de tecnologias (industriais, produtivas e administrativas) e para
o desenvolvimento e conquista do mercado.

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Melhores serviços ou preços aos associados, durante o exercício, representam antecipações
de benefícios que ocorreriam ao final, se a estratégia administrativa se orientasse para
elevados excedentes a serem distribuídos.

As concepções do Cooperativismo

Conforme depreendido por Mondadore (2007), o trabalho autogestionário desenvolveu-se de


distintas formas em diversos países do mundo de acordo com as idiossincrasias de cada
local. Não obstante, seu intuito, de maneira geral, representou uma proposta de gestão no
final do século XIX e início do XX (principalmente na Inglaterra) que contemplasse um novo
tipo de organização do trabalho e produção por meio da autogestão, propondo uma
associação mais democrática e igualitária de trabalho e de convivência com o capitalismo
(SINGER, 2002).

Há que se considerar, no entanto, que não se trata de um tema consensual e que o debate
tem pautado a literatura sobre o tema, grosso modo, entre aqueles que acreditam no caráter
revolucionário das possibilidades do cooperativismo e outros que consideram as
cooperativas como uma simples adesão aos princípios capitalistas, dado seu caráter
reformista. Dessa maneira, paira a dúvida da concreta possibilidade das cooperativas se
constituírem em um avanço ou não em relação a uma maior democratização do trabalho, por
meio da autogestão e posse coletiva dos meios de produção, superando a subordinação ao
capital, ou constituindo-se como uma alternativa do capitalismo flexibilizado, que permite um
tipo específico de uso de força de trabalho e que possibilita a redução de custos e o aumento
de competitividade de empresas capitalistas (LIMA, 2004).

Historicamente, alternativas de emprego e ocupação passaram a ser experimentadas por


empresas interessadas em reduzir custos com a força de trabalho, por um lado, e de outro,
pelos trabalhadores, como resistência ao desemprego e da perda do poder de mobilização
para garantir melhores condições de vida e trabalho e a permanência dos direitos sociais
conquistados historicamente.

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As cooperativas e empresas autogestionárias, nas últimas décadas, se constituíram numa
dessas alternativas, tanto para o capital como para o trabalho.

Para o capital, na funcionalidade da autogestão enquanto trabalho participativo com maior


envolvimento dos trabalhadores e maior produtividade, fundamento das teorias
organizacionais flexíveis, desonerando as empresas da gestão direta da força de trabalho e
dos conflitos dela resultantes.

Para os trabalhadores, não apenas como uma estratégia de sobrevivência ao desemprego,


mas como uma possibilidade de autonomia e um movimento na direção da reconstrução de
um ideário emancipatório, de um projeto alternativo ao mercado, mesmo que dentro dele. Um
novo socialismo, corrigido das experiências fracassadas do século XX.

Há que se ressaltar, que o cooperativismo seja ele reproduzindo a lógica empresarial sem
qualquer autonomia para o trabalhador, seja incorporando a lógica da economia solidária, de
gestão coletiva e meios de produção dos trabalhadores, passa a representar uma nova
maneira de se conduzir o sistema produtivo.

Dessa maneira, entender a organização trabalhista e empresarial no mundo moderno, em


que pese o aumento de experiências de autogestão, como a cooperativa, se faz de suma
importância para entender os impactos para os trabalhadores, tanto em termos de
empregabilidade como de trabalho precário ou não.

Tipos de cooperativas:

a) Cooperativas doadas, caracterizadas por ideais socialistas cristãos ou pelo desejo de


se manter a empresa funcionando, mas que apresentam problemas relativos ao
controle democrático;

b) Cooperativas defensivas, formadas por empregados com intuito de preservar seus


empregos em empresas por falir;

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c) Cooperativas alternativas, formadas por pessoas de classe média, escolarizadas, com
forte compromisso com os ideais democráticos, e de atender aos interesses sociais
primeiramente e não o lucro, porém com problemas comuns aos pequenos negócios;

d) Cooperativas de geração de renda, que surgem como opção aos momentos de crise
do emprego, vinculadas a políticas públicas governamentais. Apresentam problemas
de obtenção de capital e competência gerencial e;

e) Cooperativas pragmáticas, organizadas para que as empresas terceirizem suas


atividades e reduzam custos relativos à produção, uma vez que os trabalhadores são
responsáveis pela manutenção e administração do empreendimento. Tais
cooperativas estão estreitamente ligadas às empresas responsáveis pela sua criação
e inexiste democracia no trabalho e autonomia do trabalhador.

ATIVIDADES OPTATIVAS:

3. Disserte sobre como a cooperativa pode significar uma alternativa à empresa capitalista
tradicional.

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U NIDADE 15
Informalidade No Trabalho

Objetivo: Analisar o conceito de “informalidade” e seus desdobramentos sobre o trabalho.

Conteúdo

Nas próximas unidades trabalharemos o conceito de informalidade e demonstraremos como


o mercado de trabalho no Brasil e no mundo tem se estruturado em torno de ocupações não
tipicamente salariais. Dentro das possibilidades de estudo para as consequências sobre os
trabalhadores torna-se necessário entender esse fenômeno, na medida em que se prescinde
de contratos e seus direitos relacionados, o que pode conferir uma configuração de trabalho
altamente precário e nocivo. Apresentaremos partes do texto “Informal, Ilegal e Injusto” de
Eduardo Noronha.

Introdução

Os mercados e os contratos de trabalho "informais" têm sido percebidos no Brasil como


problemas econômicos e sociais, pois representam rupturas com um padrão contratual único
(ou quase único), isto é, o contrato "formal". Subjacentes a essa afirmação há duas
premissas: (1) a boa sociedade deve ter apenas um tipo de contrato (o "formal") e (2) para
isso deve contar com algum órgão central (o Estado, por meio do poder Legislativo) que
defina padrões mínimos de legalidade para os contratos de trabalho. A noção de
"informalidade" é tanto mais problemática quanto mais a noção de "padrões mínimos legais"
não é consensual. Desde meados da década de 1990 as noções de mínimo estão em debate
no Brasil, embora verbalizadas sob a forma de flexibilização.

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De fato, o significado da dupla conceitual "formal"/"informal" não é claro, assim como não há
coesão sobre a pertinência de contratos homogêneos nem sobre o papel da legislação nos
contratos de trabalho. Argumentamos que somente quando tivermos identificado os diversos
tipos ou grupos de "contratos atípicos" (conceito que talvez seja preferível ao de
“informalidade”.), previstos ou não pelas leis, poderemos definir as eventuais inconveniências
da ausência de um padrão contratual único e, principalmente, identificar as razões da
existência de contratos atípicos e ilegais ou não previstos em lei e socialmente ilegítimos.

O conceito de "informalidade", embora muito adotado pelas ciências sociais e econômicas


brasileiras, refere-se a fenômenos demasiadamente diversos para serem agregados por um
mesmo conceito, como a literatura internacional vem apontando. O significado de
"informalidade" depende, sobretudo do de "formalidade" em cada país e período, e, embora
isso seja evidente, as análises sobre o tema tendem a ignorar a noção contraposta da qual
ela deriva. Assim, a compreensão da "informalidade" ou dos contratos atípicos depende
antes de tudo da compreensão do contrato formal predominante em cada país, região, setor
ou categoria profissional.

No Brasil, o entendimento popular de "trabalho formal" ou "informal" deriva da ordem jurídica.


São informais os empregados que não possuem carteira de trabalho assinada. Até as
recentes mudanças introduzidas no governo FHC, o contrato por tempo indeterminado
previsto na CLT era praticamente a única opção disponível para as empresas do setor
privado. O "formal", no Brasil, tinha apenas uma forma, ao contrário de outros países, cuja
legislação prevê (e de fato são praticados) contratos em tempo parcial, contratos específicos
para pequenas empresas, contratos temporários etc.

No Brasil, as mudanças legais recém-criadas tiveram impactos limitados, seja por serem
bastante inspiradas no padrão CLT, seja por sua aplicação ainda reduzida. De todo modo, os
padrões contratuais da "informalidade" são muito mais diversos, e, apesar disso, pouco
discutidos, salvo em estudos sobre categorias ou segmentos informais específicos.

Ao formal (no sentido de legal) contrapõem-se diversos tipos de contratos "informais", sejam
os claramente ilegais (ou criminosos, como, por exemplo, o trabalho escravo), sejam

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trabalhos familiares ou diversos outros tipos de contratos, cujo estatuto legal está
frequentemente em disputa , por exemplo, cooperativas ou contratos de terceirizados.
Contudo, frequentemente trata-se a "informalidade" como se fosse um fenômeno uniforme,
objetivo e mensurável. Aliás, o planejamento governamental e as políticas públicas impõem
formas de mensuração objetivas e de fácil aplicação (muitas vezes padronizadas para
comparações internacionais) das condições contratuais, as quais reforçam sobremaneira a
simplificação que a classificação binária implica.

Aceitas essas considerações, é necessário admitir que as abordagens econômicas ou


sociológicas baseadas no par formal/"informal" representam apenas uma visão parcial e com
limitado poder explicativo das razões pelas quais o Brasil conta com uma longa história de
contratos atípicos e de fracassos na busca da homogeneização dos mercados de trabalho.
Sustenta-se neste artigo que o debate sobre "informalidade" pouco avançou, pois a maioria
dos analistas continua a classificar sob um mesmo conceito fenômenos diversos. Mesmo os
que detectam a insuficiência da contraposição da dupla conceitual raramente apresentam e
discutem a diversidade de tipos contratuais e suas formas de classificação.

Sustenta-se aqui que as noções de contratos "eficientes" da economia, de contratos "legais"


do direito, bem como as noções populares de contratos "justos", podem elucidar as
possibilidades contratuais de fato existentes no mercado de trabalho de forma mais rica do
que aquela derivada de uma interpretação puramente econômica, jurídica ou sociológica.
Portanto, o objetivo deste artigo é, sobretudo, conceitual. Trata-se de um esforço de redefinir
"informalidade" com base na forma pela qual os economistas, os juristas e a opinião pública
a interpretam termo esse aqui usado para designar os grupos não especialistas, mas
diretamente envolvidos ou interessados, tais como empregados, empregadores e seus
representantes. Toma-se como pressuposto a existência de uma disputa conceitual entre
diversos segmentos para redefinir novas noções de contratos de trabalho moralmente
defensáveis no Brasil tema que será objeto de outro artigo.

Os argumentos apresentados neste estudo são o resultado inicial de uma pesquisa1 sobre
os diferentes significados de formalidade e "informalidade" e as noções de contratos de
trabalho legítimos. Na primeira parte, faz-se um breve resumo do surgimento de contratos

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atípicos como problema social e, em seguida, apresenta-se o argumento da existência de
três grandes matrizes de abordagem do tema: (1) os economistas, com a oposição
formal/"informal"; (2) os juristas, com a oposição legal/ilegal; e (3) o senso comum com a
oposição justo/injusto. Eficiência, legalidade e legitimidade são três dimensões subjacentes a
esses princípios constitutivos do contrato.

Na segunda parte, faz-se uma crítica às interpretações predominantes de "informalidade" e


apresenta-se a diversidade de situações contratuais abarcadas pelo termo "informal". Em
seguida, argumenta-se a respeito da especificidade do "trabalho informal" dentro do
"mercado informal", bem como os princípios que distinguem as atividades de empregado,
empregador e prestador de serviços autônomos.

Com base nos princípios que orientam as abordagens econômicas e jurídicas sobre o tema,
na terceira parte, apresenta-se um quadro contendo seis tipos de explicações a respeito do
fenômeno da "informalidade", as quais, ao enfatizarem as origens dos contratos atípicos,
mostram-se mais adequadas a determinadas épocas, regiões ou segmentos do mercado.

Na quarta parte, analisam-se as noções populares de contrato de trabalho "justo", na medida


em que elas mantêm relações reflexivas com as noções econômicas e jurídicas de contratos
legítimos.

Na quinta, argumenta-se sobre as dificuldades analíticas do tema no Brasil dada a


sobreposição no tempo e no espaço dos diversos processos geradores de contratos atípicos.
A partir desse quadro, apontamos para a necessidade de estudos interdisciplinares no
sentido de uma melhor compreensão dos contratos atípicos.

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U NIDADE 16
O Significado de Informalidade

Objetivo: Analisar o conceito de “informalidade” e seus desdobramentos sobre o trabalho.

Conteúdo

Continuaremos trabalhando o conceito de informalidade e demonstraremos como o mercado


de trabalho no Brasil e no mundo tem se estruturado em torno de ocupações não tipicamente
salariais. Continuamos lendo parte do texto “Informal, Ilegal e Injusto” de Eduardo Noronha.

Definindo o problema: O significado de "informalidade"

A seguir, apresentamos um resumo simplificado da história do mercado de trabalho no Brasil.

No início do século XX, começou a se desenvolver o mercado de trabalho, no sentido


moderno do termo, como a forma predominante de produção de bens e serviços. Durante as
primeiras três décadas, o trabalho transformou-se numa mercadoria livremente negociada, já
que leis e contratos coletivos eram quase inexistentes (ver Lamounier, 1988). Durante as
décadas de 1930 e 1940, o corporativismo de Estado de Vargas estabeleceu um amplo
código de leis do trabalho, o qual marcou o mercado nacional por todo o século. A partir de
então, as noções de "formalidade" e "informalidade" foram pouco a pouco sendo construídas.
As estatísticas indicam um longo processo de formalização das relações de trabalho,
sedimentado sobre, tudo por leis federais e, apenas secundariamente, por contratos
coletivos.

A legislação do trabalho estabelecia, de maneira cada vez mais detalhada, quais eram as
regras mínimas de relações de trabalho justas. Salário mínimo, jornada de trabalho, férias
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anuais e muitos outros direitos foram definidos por lei. Acordos coletivos tiveram um papel
bastante secundário nesse processo. Muitos direitos sociais também foram garantidos aos
trabalhadores, aqui entendidos como trabalhador formal, conformando um típico welfare
ocupacional.

Os servidores públicos foram os primeiros beneficiários dos contratos de trabalho formais e,


consequentemente, dos direitos sociais a ele associados. Gradualmente, os trabalhadores
urbanos não industriais foram incorporados. Wanderley Guilherme dos Santos descreveu
essa história como a do desenvolvimento de uma "cidadania regulada", isto é, um processo
no qual as diversas categorias de trabalhadores obtiveram direitos sociais (e do trabalho) de
acordo com sua posição no mercado. Entre as grandes categorias, uma das últimas a obter
sua "cidadania" foi o dos trabalhadores rurais na década de 1960. Assim, especialmente a
partir de 1930, o mercado de trabalho brasileiro e as questões do subemprego ou da
"informalidade" só podem ser entendidos como resultados da própria construção da noção
de "formalidade", que, por sua vez, está associada às noções de cidadania e de direito
social.

Nos anos de 1970 o perfil do mercado de trabalho já era claramente dual: a maioria dos
trabalhadores industriais havia sido incorporada ao mercado formal, bem como expressiva
parte dos trabalhadores do setor de serviços. Além disso, o processo simultâneo de
urbanização diminuiu de modo significativo, em poucas décadas, o número de trabalhadores
rurais, os quais se encontravam fundamentalmente no mercado de trabalho "informal", ou em
outras relações não propriamente contratuais de trabalhos familiares, em economias de
subsistência e com práticas "contratuais" tradicionais. A urbanização e a industrialização
ampliaram também a massa de trabalhadores subempregados, mal incorporados ao
mercado de trabalho.

A invenção peculiar da carteira de trabalho teve variados significados simbólicos e práticos.


Durante muito tempo funcionou (e marginalmente ainda funciona) como uma verdadeira
carteira de identidade ou como comprovante para a garantia de crédito ao consumidor, prova
de que o trabalhador esteve empregado em "boas empresas", de que é "confiável" ou capaz
de permanecer por muitos anos no mesmo emprego. Hoje, seu significado popular é o

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compromisso moral do empregador de seguir a legislação do trabalho, embora, de fato, não
haja garantia, pois os empregadores podem, na prática, desrespeitar parte da legislação e os
que não assinam podem ser processados. De todo modo, a assinatura em carteira torna
mais fácil ao empregado a comprovação da existência de vínculo empregatício. Enfim,
popularmente no Brasil, ter "trabalho formal" é ter a "carteira assinada".

Em janeiro de 1991, os empregados com carteira representavam 55,0% da força de trabalho.


Além desses, quase 20,0% eram autônomos registrados e outros 4,5% empregadores. Os
empregados "informais" representavam 20%.5

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Até o final dos anos de 1980, a "informalidade" (ou o subemprego) era percebida
principalmente como um problema endêmico pela maioria dos especialistas. Porém, as
mudanças das décadas anteriores levaram os especialistas e políticos a prever (e desejar)
uma expressiva redução do mercado "informal". Predominava a suposição de que a
"informalidade" (ou o subemprego) era um legado de uma economia semi-industrializada,
cujo fim era uma questão de tempo e desenvolvimento.

Contudo, em termos de mercado de trabalho, é razoável supor que o início dos anos de 1990
representou uma ruptura no movimento crescente de formalização do trabalho. Desde então,
tem crescido a "informalidade". A proporção de empregados sem carteira cresceu 8,1%: de
20%, em janeiro de 1991, para 28,1%, em janeiro de 2001; ao mesmo tempo, a proporção de
empregados com carteira decresceu 12,8% (Gráfico 1).

É provável que esse crescimento represente, de fato, uma reviravolta na história de um


aparente caminho seguro em direção à equalização do mercado de trabalho; pode também
resultar da má performance macroeconômica da América Latina nos anos de 1990, ou ainda
ser o reflexo da rápida internacionalização da economia. Muitos países sofreram mutações
similares. Para alguns analistas, trata-se de uma nova safra de contratos atípicos, os quais
rompem com os padrões de "sociedade assalariada" (ver Castel, 1998). Novos processos de
trabalho e tecnologias demandariam novas formas de contratos. A nova "informalidade"
derivaria dessas mudanças (voltaremos a tratar dessas interpretações na terceira parte deste
artigo).

No Brasil “velhas” e “novas” formas de trabalhos atípicos misturam-se, tornando


particularmente difícil a identificação das causas de seu recente crescimento. (A
incorporação de diversos segmentos ao mercado formal ainda estava em processo quando
“novas informalidades” surgiram; retomarei essa contraposição também na terceira parte).

Além disso, a coincidência do crescimento dos contratos atípicos em muitos países reforça
os argumentos dos que consideram que esses contratos resultam do aumento da
competição internacional por mercados. Os países na periferia do mercado internacional

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sofreriam as consequências de formarem o elo fraco das cadeias produtivas internacionais
(Gereffi, 1995). Sua vantagem competitiva é o baixo custo da mão-de-obra, que leva os
países em desenvolvimento a competirem entre si. Não se pretende aqui medir a "velha" e a
"nova" "informalidade", mas discutir um tema que antecede tal avaliação, isto é, os diferentes
significados de "informalidade" em contraposição ao termo "formal".

Se esse conceito adquiriu algum significado claro foi devido a certa abordagem econômica
que vinculava a "informalidade" (ou melhor, o subemprego) a atividades periféricas não
rentáveis. Contudo, o uso coloquial do termo no Brasil está ligado à legislação: o trabalho é
formal se, e somente se, o trabalhador possui carteira de trabalho assinada ou registro de
autônomo ou, ainda, status de empregador.

A terceira interpretação é a adotada por juristas: rigorosamente, não há contratos formais ou


"informais", mas apenas "legais" ou "ilegais". Na verdade, a existência de registro que
comprove o status de empregado, empregador ou autônomo é um parâmetro de importância
indiscutível, tanto pela relativa facilidade de sua mensuração como pela legitimidade da CLT,
observável por seu papel paradigmático na definição de um "bom contrato de trabalho".

Portanto, há três diferentes fontes de interpretação do fenômeno, popularizado pelos


economistas e pela mídia como "informalidade". A primeira é justamente a interpretação
econômica. Contrastando-a, juízes e procuradores, por seu próprio ethos profissional
classificam como ilegal a maior parte das situações entendidas como "informal" pelos
economistas. Sob a influência de ambos (bem como dos institutos de pesquisa) a população
tende a identificar "informal" com a ausência de carteira de trabalho e, em decorrência, com
"injusto".

Dessa forma, há três pares contrastantes de conceitos por meio dos quais são percebidos os
contratos de trabalho: formal e "informal"; legal e ilegal; justo e injusto. Embora "informal"
tenda a ser identificado com "sem carteira" e este com "injusto", a aderência dos conceitos
não é linear. Veremos adiante o quão rica pode ser a combinação entre eles.

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U NIDADE 17
Sobre o Conceito “Informalidade”

Objetivo: Analisar o conceito de “informalidade” e seus desdobramentos sobre o trabalho.

Conteúdo

Continuaremos trabalhando o conceito de informalidade e demonstraremos como o mercado


de trabalho no Brasil e no mundo tem se estruturado em torno de ocupações não tipicamente
salariais. Continuamos lendo parte do texto “Informal, Ilegal e Injusto” de Eduardo Noronha.

Crítica ao uso do conceito de "informalidade"

Não pretendemos discorrer sobre a vasta literatura sobre economia ou trabalho "informais".
Há diversas revisões da literatura desde a primeira referência ao fenômeno numa pesquisa
sobre a África elaborada pela OIT. O termo "informalidade", a despeito das tentativas de
depurá-lo, é ainda por demais polissêmico para ser utilizado sem adjetivos.

As ambiguidades do conceito apareceram desde sua origem, a qual não é estritamente


acadêmica, mas institucional. O termo foi cunhado para retratar uma sociedade que não era
tipicamente urbana e industrial. A despeito disso, o termo tem sido usado para descrever
uma ampla gama de situações urbano-industriais, bem como para classificá-las e mensurá-
las por meio de metodologias diversificadas de institutos de estatísticas nacionais e
internacionais.

Muitos autores já criticaram a natureza obscura desse conceito. Alejandro Portes apontou a
insuficiência de visões que identificam "informalidade" com algum tipo de pobreza ou que
não distinguem práticas criminosas (por exemplo, a venda de produtos ilegais) de outras
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situações ilegais não criminosas ou não previstas pela lei. Inspirado na sociologia
econômica, Portes afirma que a "informalidade" depende de redes sociais. Sem elos
comunitários, os contratos "informais" não seriam possíveis. O controle de um grupo étnico
sobre determinadas atividades "informais", encontradas em muitas cidades do mundo, é um
bom indício de que mecanismos sociais são requeridos para selar contratos "informais". Sem
a lei ou outros contratos formais de compromisso (por exemplo, acordos coletivos) as
identidades culturais são a base da confiança mútua, evitando situações hobbesianas de
mercado:

[...] o contexto no qual tais oportunidades (lucrar com atividades informais) são
transformadas em empreendimentos informais depende da capacidade das comunidades de
mobilizar os recursos sociais necessários para enfrentar o poder das leis estatais e
asseguras transações de mercado tranqüilas (Portes, 1994, p. 434).

Apesar das contribuições de Portes, acreditamos que ainda há certas ambiguidades, pois
sua análise não há separação clara entre economia "informal" e trabalho "informal". A origem
do trabalho "informal" e as razões que explicam sua disseminação em cada país diferem
daquelas relacionadas à economia "informal". Desde o trabalho do Polanyi (1994) sabe-se
que o contrato de trabalho se distingue de outros contratos do mercado. Além disso,
definições específicas da área do trabalho, como "assalariado", "autônomo", "empregador",
são em si por demais complexas para serem descritas sob o quadro conceitual genérico de
economia formal e "informal”.

Se aceitamos a ideia disseminada entre socioeconomistas de que o mercado é sempre


institucionalizado seja pela lei, pelos acordos coletivos, seja por práticas sociais (as quais
estão também repletas de normas implícitas), por que deveríamos nos referir a
"informalidade" dos mercados? A menos que entendamos "informal" como "sem normas
escritas", o mercado será sempre formalizado. Por que precisamos de uma contraposição
(formal versus "informal"), se esta poderia ser mais bem expressa por "legal"/"ilegal" ou,
ainda, "contrato escrito" versus "verbal"? Acreditamos que, em primeiro lugar, devem-se
separar as "informalidades" do trabalho das "informalidades" de outros contratos da

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economia e, em seguida, atentar para os instrumentos necessários para distinguirmos os
status jurídico e contratual das normas do trabalho, bem como sua legitimidade.

Mudanças nas estatísticas de emprego incentivam as pesquisas acadêmicas sobre o tema,


mas os dados são coletados de maneira ainda menos precisa que as teorias de
"informalidade", nas quais as metodologias são baseadas (Portes, 1994). Assim, a partir de
variações nos dados estatísticos nunca sabemos exatamente que tipo de fenômeno estamos
captando, salvo, é claro, se reduzirmos a ideia de formal à carteira assinada, o que explica
pouco e só pode ser aplicado no Brasil.

Se estamos interessados no aumento ou no decréscimo da "informalidade", ou melhor, de


contratos atípicos, no decorrer do tempo e do espaço, o que procuramos entender? Seriam
os contratos verbais derivados da economia de subsistência de países ou regiões
subdesenvolvidos? Ou as inevitáveis, e mais que isso, desejáveis, práticas "informais" como,
por exemplo, cultivar uma horta apenas por prazer, vender cerâmicas produzidas em casa
como hobby, alugar a vaga na garagem de seu prédio residencial? Estamos falando de
engraxates e meninos que vendem produtos feitos em casa nos semáforos, ou de seus
"colegas", na mesma esquina, que vendem produtos de uma multinacional? Ou, ainda, de
empregados domésticos? E, nesse caso, podemos agrupá-los com os empregados
domésticos que possuem carteira assinada? São eles diferentes dos faxineiros das
empresas formais? Em que aspectos? Estaríamos nos referindo a trabalhadores altamente
especializados que decidem abandonar a condição salarial e estabelecer uma atividade
voltada para apenas uma companhia? Ou a médicos que cobram menos para as pessoas
que não precisam de recibo? Ou, ainda, ao comércio de drogas? Ou, por fim, a relações de
escambo em empresas que, por suas outras características, poderíamos classificá-las como
modernas?

Essa lista de situações não pretende ser exaustiva, busca apenas mostrar a variedade de
realidades descritas sob o mesmo conceito. Esses exemplos incluem atividades não
propriamente econômicas, trabalhos autônomos, contratos de prestação de serviços para o
público e para empresas e diversas formas de contratos de trabalho não previstos na
legislação.

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Não pretendemos definir conceitos que sejam capazes de abarcar todas as situações
mencionadas, mas trataremos do mercado de trabalho urbano. Tal restrição visa a evitar a
complexidade das relações de trabalho rurais tradicionais, ao menos num primeiro momento
da pesquisa. Limitamo-nos, pois, à "sociedade salarial" e pós-salarial, deixando de lado
outras formas tradicionais de dependência em relação ao contratante.

Deixamos também de lado alguns tipos de trabalho "informais" por não serem propriamente
atividades econômicas, podendo ser mais bem descritos como atividades semieconômicas.
Por exemplo, as atividades que se situam entre o hobby e o artesanato (tricotar, pintar,
colecionar moedas raras etc.) ou que estão ligadas a padrões familiares tradicionais (alugar
um quarto sobressalente para amigos) ou, ainda, atividades transitórias e oportunistas em
termos renda (um estudante, por exemplo, que ajuda um colega em determinada disciplina e,
por sua vez, é ajudado por este em outra, ou em troca de dinheiro) e muitas outras atividades
semieconômicas nas quais o ganho monetário representa uma proporção bastante residual
no orçamento individual ou em termos da motivação de sua ação.

Os limites entre essas atividades semieconômicas e as atividades econômicas não são


facilmente observáveis empiricamente, mas aquelas podem ser definidas em teoria como
aquelas (a) irrelevantes do ponto de vista do orçamento fiscal público e (b) assim percebidas
socialmente , por exemplo, ninguém acha injusto que tais atividades não paguem impostos.

Trata-se de atividades que não são questionadas nem pelo economista, nem pelo jurista,
nem pelo cidadão comum. São encontradas em sociedade tanto tradicionais como pós-
modernas. Na verdade, constituem um tipo de fenômeno que prova a impossibilidade da
monetarização completa das relações sociais.

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U NIDADE 18
Trabalho Informal e Economia Informal

Objetivo: Analisar o conceito de “informalidade” e seus desdobramentos sobre o trabalho.

Conteúdo

Continuaremos trabalhando o conceito de informalidade e demonstraremos como o mercado


de trabalho no Brasil e no mundo tem se estruturado em torno de ocupações não tipicamente
salariais. Continuamos lendo parte do texto “Informal, Ilegal e Injusto” de Eduardo Noronha.

A especificidade do trabalho "informal" na economia "informal"

Ao considerarmos apenas a "informalidade" do trabalho evitamos a complexidade da


economia "informal" em geral. As interdependências entre economia e trabalho "informal"
não justificam tratá-las como um mesmo fenômeno. A economia "informal" (não legal, isto é,
não registrada como atividade econômica) só pode criar empregos "informais", mas a
economia formal frequentemente abre postos de trabalho "informais" empresas formais
(registradas e pagadoras de impostos) frequentemente contratam todos ou parcela de seus
trabalhadores sem registrá-los em carteira.

A tradicional distinção entre empregado e autônomo, bem como entre autônomo e


empregador, baseia-se no grau de subordinação ou dependência. O primeiro normalmente
trabalha de acordo com regras definidas pelo empregador, é pago por hora de trabalho (e
não por tarefa ou resultado), tem horário de trabalho relativamente definido e deve estar
disponível e subordinar-se a apenas um empregador nas horas contratadas.

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Essas características variam de acordo com as atividades. O "tipo ideal" de assalariado, o
qual agrupa todas elas encontra-se aparentemente em declínio por diversas razões.
Primeiro, por causa de mudanças econômicas e administrativas do mundo empresarial. Mas,
ao mesmo tempo em que o contrato de trabalho típico declina, juristas vêm tentando
atualizar a noção de contrato de "emprego" por meio da definição de um conjunto de traços
que distinguiriam os contratos de trabalho dos contratos de serviço. Isso ocorre em países
tanto de tradição legislada (ou corporativista) como de tradição contratual (ou pluralista).
Discutindo a legislação e a tradição jurídica britânica, Pitt (1995) opõe os contract of service
(empregados) aos contract for service (autônomos).

Raramente poderíamos confundir o status de empregador com o de empregado, mas


"autônomos" podem ser confundidos com ambos. Se alguém trabalha apenas para uma
empresa ou pessoa, a justiça do trabalho tende a interpretar isso como um contrato de
trabalho. De maneira análoga, se um autônomo passa a contratar ajudantes com certa
frequência e continuidade, a interpretação judicial tende a ir à direção oposta.

De todo modo, os princípios de dependência e subordinação, como guias das definições


jurídicas e sociológicas dessas três categorias, também indicam claramente a distinção entre
o contrato de emprego e os contratos entre empresas, nos quais a subordinação não está
suposta.

O compromisso moral observado por Portes (1994) entre empresários dominicanos e


imigrantes ilegais atuantes nos Estados Unidos, não ocorreria entre cidadãos norte-
americanos em relações de subordinação (e não contratantes de mesmo status) num
mercado de trabalho urbano. Não fosse a condição de migrante ilegal, o compromisso com a
"informalidade" (ou ilegalidade) compartilhada duraria apenas enquanto houvesse relação de
trabalho. No Brasil, a prática de ex-empregados "informais" processarem seus empregadores
quando demitidos exemplifica os limites do acordo "informal" prévio entre contratantes
desiguais.

A permanência e "reprodução de acordos "informais" parece depender de duas variáveis: a


convivência prévia de um grupo de pessoas em posição socialmente inferior ou

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estigmatizada e a percepção de certa igualdade "contratual", de forma a prevenir que um
processe o outro em virtude da relação que mantiveram. Nos contratos de trabalho
"informais" nas grandes cidades, os contratantes compartilham uma condição ilegal, mas
dentro de um contrato de subordinação. Portanto, as relações de dependência e
subordinação são variáveis-chave para distinguir os tipos de trabalhos "informais".

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U NIDADE 19
Trabalho Informal e Economia Informal

Objetivo: Analisar o conceito de “informalidade” e seus desdobramentos sobre o trabalho.

Conteúdo

Continuaremos trabalhando o conceito de informalidade e demonstraremos como o mercado


de trabalho no Brasil e no mundo tem se estruturado em torno de ocupações não tipicamente
salariais. Continuamos lendo parte do texto “Informal, Ilegal e Injusto” de Eduardo Noronha.

Explicações para o fenômeno do trabalho "informal"

Ao reduzir nosso objeto ao "trabalho informal" alguns problemas conceituais puderam ser
evitados. Porém, muitas das questões expostas permanecem. Nesse momento de análise,
procuramos identificar três abordagens principais para o fenômeno, juntamente com outras
três paralelas, cada qual apropriada para explicar um determinado tipo de contrato atípico.

A primeira denominada velha informalidade afirma que a "informalidade" deriva da condição


de um país em desenvolvimento, em que muitas atividades não são suficientemente atrativas
para o investimento capitalista. Essa era uma abordagem típica no Brasil dos anos de 1960 e
1970, a qual frequentemente classificava o trabalho "informal" como subemprego. Trata-se
de um ponto de vista exclusivamente econômico, na medida em que o investimento é a
variável-chave.

A segunda considera o trabalho "informal" o resultado natural da busca por maximização de


lucros por empresas em países com extensivo código de trabalho e elevado custo indireto da
folha salarial, sobretudo em momentos de aumento da competição internacional por
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mercados aqui designada informalidade neoclássica. Por fim, outros argumentam que a
"informalidade" resulta de mudanças nos processos de trabalho, novas concepções
gerenciais e organizacionais e novos tipos de trabalho, os quais não exigem tempo nem
locais fixos podemos nos referir a esse tipo como nova informalidade ou informalidade pós-
fordista.

Quadro 1

A "velha informalidade" buscava explicar o mercado de uma economia em transição, que


começava a gerar uma massa de desempregados e subempregados, os quais rapidamente
se aglomeravam nas cidades industrializadas, recém chegados do campo. Essa era a
agenda dos anos de 1960 e 1970. No Brasil, a abordagem "neoclássica" disseminou-se num
momento diferente, e retardatário em relação a outros países, a saber, no final da década de
1980, quando os direitos do trabalho foram reforçados pela nova Constituição e,
simultaneamente, intensificou-se o comércio internacional. A análise "pós-fordista" apareceu
no Brasil no início dos anos de 1990, mas, diferentemente das outras, é mais apropriada
para explicar a "informalidade" da classe média (e até operária) do que a "informalidade" dos
menos abastados ambulantes e similares.

Para cada uma dessas abordagens encontramos perspectivas similares quanto ao


diagnóstico, porém, bastante diferentes em seus pressupostos e implicações, até porque
contêm intenções normativas mais explícitas.

A abordagem da "velha informalidade", embora clara e consistente, pode facilmente gerar


interpretações mais frágeis, como, por exemplo, aquelas que identificam "informalidade" com
trabalho precário. Em países com grandes diferenças regionais e que enfrentam rápidas
mudanças sociais, incluindo fluxos migratórios, é bastante difícil distinguir o trabalho
"informal", derivado da economia tradicional da "informalidade" das grandes cidades, de
trabalhos ao mesmo tempo modernos e pobres, típicos de relações capitalistas recém-
deterioradas. Isso talvez explique a adoção desta versão do conceito por vários cientistas
sociais brasileiros.

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A perspectiva "neoclássica" tem como contraposição uma abordagem que pode muito bem
ser denominada jurídica, e que nos leva a conclusões opostas às da primeira. A semelhança
é o foco na regulação do trabalho, e a principal diferença é a maneira pela qual, de um lado,
a versão neoclássica vincula o excesso de regulação à expansão da "informalidade" e, de
outro, a versão jurídica culpa a falência do setor público em garantir o cumprimento da lei
diante das forças do mercado. A primeira quer evitar a falência do mercado devido à força da
lei; a segunda quer evitar a falência da lei devido à força do mercado.

Finalmente, a "nova informalidade" também apresenta uma vertente positiva e outra


negativa. A primeira acredita que o contrato de trabalho tradicional não se ajusta às novas
tecnologias e às práticas gerenciais. A crítica dessa posição afirma que a realidade não
mudou, isto é, as características da relação de emprego são as mesmas, e que as mudanças
ocorreram devido ao aumento da concorrência internacional e da preponderância de
princípios neoliberais no cenário mundial, o que causou muitos problemas sociais como o
desemprego ou os empregos "precários". Tal crítica circunstancia, pois, a vertente negativa e
pode ser denominada a abordagem da globalização.

No Brasil, todas essas abordagens encontram respaldo: a "velha informalidade" ainda está
em vigência em diversas regiões ou atividades; o argumento da "informalidade" neoclássica
também tem solo fértil no país, dado o modelo legislado de relações de trabalho; por outro
lado, o contra-argumento "jurídico" é forte, na medida em que o direito do trabalho é a fonte
do direito social no país, e não o oposto; isto significa que uma eventual desregulamentação
teria expressivos impactos sociais. Além disso, o debate sobre "o fim do trabalho" (ou
variações mais brandas como o "trabalho pós-industrial") tem considerável efeito simbólico
sobre a classe média, ávida por uma visão que explique seu próprio desemprego ou
subemprego, a despeito da discutível disseminação real de relações de trabalho
substantivamente novas e diferentes.

Essa é a complexidade do trabalho "informal" no Brasil: todas as abordagens possuem ao


menos um bom argumento no debate. Talvez a menos consistente (embora muito adotada)
seja a vertente da "informalidade "pobre", dada sua fragilidade teórica. Todavia, acreditamos
que no Brasil o principal debate gira em torno do eixo "neoclássicos" versus "jurídicos", visto

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que o conceito de contrato de trabalho no Brasil é bastante enraizado. De qualquer forma, se
essa classificação dos tipos de abordagem se mostrar apropriada, cremos que a tarefa das
pesquisas empíricas hoje é a identificação setorial e regional dos diversos tipos de
"informalidade" e a avaliação de seu peso relativo.

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U NIDADE 20
Trabalho Informal e Contrato de Trabalho

Objetivo: Analisar o conceito de “informalidade” e seus desdobramentos sobre o trabalho.

Conteúdo

Continuaremos trabalhando o conceito de informalidade e demonstraremos como o mercado


de trabalho no Brasil e no mundo tem se estruturado em torno de ocupações não tipicamente
salariais. Continuamos lendo parte do texto “Informal, Ilegal e Injusto” de Eduardo Noronha.

O contrato de trabalho "justo", segundo o senso comum.

O quadro sobre o trabalho "informal" não se completa sem o entendimento do senso comum
a respeito dos contratos de trabalho. Por sua própria natureza, a percepção popular não é
planejada, coesa e nem tem um propósito delineado. Assim, não se pode imputar a ela a
pretensão de criar um conjunto lógico de conceitos para classificar os tipos de contrato de
trabalho. Seus conceitos são dialógica e difusamente construídos, mas fortemente
influenciados por noções especializadas, divulgadas pela mídia, de juristas e economistas.

Em sociedades democráticas a lei é, por definição, justa. Caso não seja, deve ser mudada,
mas nunca desprezada. Contudo, muitos contratos considerados justos por determinados
grupos não são previstos em lei ou são francamente ilegais. Além disso, no Brasil,
popularmente, o trabalho "informal" típico pode ser entendido, se não como "justo", ao menos
como "aceitável", e certamente não é considerado "ilegal" a menos que se trate de crime (em
geral comércio de produtos ilegais) e não apenas um contrato ilícito. Assim, na visão popular,
os contratos legais (com registro em carteira) opõem-se aos "informais" (sem registro) e não

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aos ilegais (entendidos como criminosos), o que denota as influências dos dois sistemas
classificatórios concorrentes da economia e do direito.

Ambos os contratos, "legais" ou "informais" (ou melhor, como ou sem registro) podem ser
entendidos como legítimos. A escolha ou a aceitação de um ou outro demanda uma
complexa avaliação que inclui noções de direito, justiça, ética bem como conveniências
pessoais. Dessa maneira, quando da escolha ou da aceitação de um trabalho, há um
conjunto de considerações a respeito da legalidade do contrato (daí o par conceitual
legal/ilegal), mas, com mais frequência, de sua justeza (justo/injusto) e de sua adequação e
conveniência pessoal (contratos aceitáveis ou inaceitáveis independentemente ou a despeito
de sua justeza e legalidade). Ademais, os indivíduos fazem considerações a respeito de
contratos ideais ou completamente intoleráveis, tanto do ponto de vista pessoal como social.

As linhas divisórias entre contratos de trabalho "ideal", "justo", "aceitável" "pessoalmente


inaceitável", "injusto" ou "socialmente intolerável" são tênues e misturam noções de
necessidade pessoal, de eficiência, de éticas pessoais e familiares, de justiça e de valores,
normas e hábitos socialmente definidos (muitos deles de natureza tradicional, não
problematizados).

Um trabalho pode ser aceitável, porém injusto, ou, ao contrário, inaceitável para um
indivíduo, mas socialmente "justo". O par "justo" e "injusto" diz respeito à esfera pública,
enquanto as noções de "ideal", "aceitável" e "inaceitável" se referem às preferências
individuais. As noções de justiça pública afetam as preferências individuais, mas não as
definem de forma linear ou mecânica.

Um contrato "informal", verbal, pode ser entendido como "justo" se o empregado percebe
que o empregador tem boas razões para não regularizar a situação (por exemplo, uma micro
empresa em dificuldades financeiras). Ao contrário, quanto mais o trabalhador percebe que a
"informalidade" é um meio de gerar um retorno extra para a empresa, mais "injusto" será o
contrato.

Embora as percepções do justo e do injusto, do aceitável e do inaceitável sejam modeladas


por um amplo conjunto de valores morais e de éticas, dois princípios gerais compõem a linha

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divisória básica entre o justo e o injusto. Primeiro não ter direitos iguais a outros empregados
da mesma empresa em posto similares; segundo, perceber que ganhos extras dos
empregadores são alcançados por meio da restrição de seus direitos.

Uma situação bastante diferente ocorre nos contratos "informais" de prestação de serviços,
os quais não implicam nem a perda de direitos trabalhistas, nem vantagens obtidas pelo
contratante a expensas do contratado. Por meio da "informalidade", ambos se beneficiam às
custas do setor público ao se autoisentarem das taxas. Porém esse raciocínio simplista não
se sustenta quando o prestador de serviços se identifica pelo ofício, condição de trabalho ou
condição social com trabalhadores registrados e, portanto, membros dos sistemas solidários
de compensação de riscos. Neste caso, as vantagens e a segurança do registro tornam-se
mais atraente do que a liberdade do prestador de serviços. Portanto, os limites entre o
contrato "informal" "justo" e "injusto" dependem tanto da percepção de quem será lesado
com o não cumprimento da lei, como de uma noção de piso de direitos e da atratividade que
o sistema solidário implícito no contrato representa.

Há alguns indícios que nos permitem supor (algo a ser confirmado em pesquisas futuras) que
as noções populares de contrato de trabalho "ideal" são bastante influenciadas pela
legislação do trabalho. Os cidadãos dos centros urbanos têm como parâmetro do ideal o
contrato em carteira; alternativamente, e com mais intensidade sonha-se com um trabalho
autônomo, mas quase nunca com um contrato de trabalho "informal".

O "ideal" varia entre a segurança do contrato de trabalho (cujos inconvenientes são os


deveres a ele associados) e a liberdade do autônomo atividade arriscada especialmente
para não-profissionais. Entre esses dois "ideais", muitos contratos atípicos são percebidos
como "aceitáveis", isto é, nem "ideal" nem "inaceitável". Entretanto, para ser "aceitável" é
necessário possuir o mínimo de direitos, os quais são freqüentemente inspirados na
legislação do trabalho, tais como 13º salário, vale-transporte e férias anuais.

Há forte correlação entre o respeito a um dispositivo legal e sua legitimidade social, cuja
expressão é seu respeito também no mercado "informal". Muitos contratos "informais"
contemplam dispositivos da CLT. A ideia do "inaceitável" está ligada a esse piso de direitos

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(incluindo nível salarial) que compõem a expectativa mínima dos trabalhadores de uma
região. Os trabalhadores não agem como maximizadores de preferências. Como disse Kerr,

[...] a idéia de satisfação [explica] algumas decisões individuais melhor que a idéia de
maximização, por exemplo quando trabalhadores aceitam o primeiro trabalho disponível que
corresponda às suas expectativas mínimas [...] (Kerr e Staudohar, 1994, p. 77).

Um contrato legal (com registro) tende a ser visto como justo, mas em apenas alguns casos
os contratos ilegais (sem registro) são percebidos como injustos. Trata-se de uma curiosa
dissociação que demonstra o papel da CLT no Brasil, isto é, um código do trabalho legítimo a
ponto de influenciar as práticas do contrato "informal" e ao mesmo tempo incapaz de instituir
parâmetros mínimos que orientem a legitimidade dos contratos de trabalho. A CLT definiu
parâmetros do bom contrato de trabalho, mas foi incapaz de definir o inaceitável.

Além disso, aquilo que o empregado entende como aceitável não se distingue tanto da
percepção do empregador como poderíamos ser levados a crer pelas abordagens que
sobrevalorizam o conflito capital-trabalho ou aquelas que vêem os atores como
maximizadores racionais de suas preferências. Empregados e empregadores assumem,
conscientemente ou não, um conjunto mínimo de direitos e benefícios em segmentos
específicos dos mercados de trabalho de cada região. As diferenças dessas percepções são
provavelmente maiores na comparação entre regiões que entre empregados e
empregadores de um mesmo município e categoria.

Embora a ideia do "socialmente aceitável" não seja correlata de "justo", dada a resignação
pragmática dos indivíduos à realidade do mercado de trabalho (expressa na frase: um
emprego nunca é justo, mas assim é a vida), a ideia do socialmente inaceitável tende a ser
próxima de "injusto". Assim, para o entendimento da forma como o "homem comum" enfrenta
o conflito entre a abordagem jurídica (ilegal versus legal) e a econômica ("informal" versus
formal) é mais apropriado investigarmos a noção do "socialmente inaceitável" do que
qualquer outro termo acima mencionado.

Um trabalho pode ser inaceitável para uma pessoa devido a muitos fatores, tais como as
tarefas requeridas (por exemplo, atividades inferiores às qualificações não são bem vistas

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pelos empregados, especialmente as "degradantes"), as condições do ambiente de trabalho
(por exemplo, ambientes sujos e insalubres), ou relações pessoais (chefes autoritários), entre
outros.

Ademais, a percepção da ilegalidade ou da injustiça de um tipo de contrato varia conforme as


práticas populares locais. O trabalho infantil, por exemplo, pode ser popularmente visto no
Brasil como ilegal, apenas "informal" ou pode nem mesmo ser reconhecido como trabalho (e
portanto como problema), dependendo de variáveis culturais e econômicas das regiões do
país.

O piso de direitos e benefícios para um contrato "justo" ou "aceitável" varia de acordo com o
local, com o padrão contratual aí prevalecente, com as experiências prévias de trabalho do
indivíduo e de sua família, bem como em função das expectativas profissionais, o que por
sua vez é definido por muitos outros elementos das histórias individuais, incluindo variáveis
como grau de escolarização, sexo e idade.

Antes de dar continuidades aos seus estudos é fundamental que você acesse sua
SALA DE AULA e faça a Atividade 2 no “link” ATIVIDADES.

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U NIDADE 21
Informalidade na Globalização

Objetivo: Analisar o conceito de “informalidade” e seus desdobramentos sobre o trabalho.

Conteúdo

Continuaremos trabalhando o conceito de informalidade e demonstraremos como o mercado


de trabalho no Brasil e no mundo tem se estruturado em torno de ocupações não tipicamente
salariais. Leremos, por fim, mais uma parte do texto “Informal, Ilegal e Injusto” de Eduardo
Noronha.

Uma rápida transição da "velha" para a "informalidade da globalização"

Propomos a seguir a análise, embora não aprofundada e resumida, de como se deu o


processo recente de transição de um mercado de trabalho em um estado "pobre" do Brasil.
Comparativamente, o Ceará é um Estado pequeno, pobre, onde uma considerável parcela
da população ainda vive de uma economia de subsistência e, muitas vezes, trocam
mercadorias sem a referência monetária, embora Fortaleza (e muitos outros municípios) seja
uma cidade turística, moderna, e com amplo mercado formal de trabalho.

No final dos anos de 1980, o governo estadual iniciou um programa para atrair indústrias e
desenvolver a economia local. Para isso, dois incentivos principais foram criados: primeiro
incentivos fiscais para a instalação de indústrias de mão-de-obra intensiva, os quais seriam
mais generosos quanto mais distantes de Fortaleza fossem as propostas de instalação das
indústrias.

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Os incentivos fiscais visavam à instalação de indústrias nas áreas secas do Estado. O
segundo atrativo era a permissão de criação de "cooperativas", nas quais os trabalhadores
poderiam vender o produto de seus trabalhos para indústrias de exportação (principalmente
de calçados). O governo estadual incentivou a formação de tais "cooperativas" somente para
as indústrias exportadoras com o argumento de que a redução do custo da força de trabalho
era a forma mais eficiente de enfrentar a competição internacional em produtos de mão-de-
obra intensiva.

Tão logo a proposta foi implementada, os sindicatos estaduais começaram a denunciar as


"novas cooperativas" como "falsas cooperativas" e, apesar da discussão criada em torno do
tema, com o passar dos anos tornou-se claro que os trabalhadores "cooperados" na grande
maioria dos casos eram, rigorosamente, empregados das empresas exportadoras.
Inspetores do trabalho, procuradores públicos do trabalho e juízes recolheram evidências e
argumentaram nesse sentido. Atualmente há processos jurídicos (já executados ou em
andamento) que visam à transformação dos trabalhadores "cooperados" em empregados
subordinados à CLT.

No debate público, o governo estadual e os empresários exportadores uniram-se na defesa


das "cooperativas", baseados em argumentos econômicos, mas admitiram indiretamente a
inconsistência legal de seus argumentos e, portanto, passaram a propor uma mudança da
legislação nacional. Sustentavam que parte da população favorecida pelo programa nunca
havia recebido qualquer salário, que o padrão de consumo e de vida das populações locais
havia melhorado consideravelmente, que a instalação de indústrias nessas regiões jamais
teria ocorrido sem tais incentivos; em suma, superar a condição de pobreza seria mais
relevante que observar a lei.

Nos primeiros anos do programa, os inspetores do trabalho da DRT local não atuaram sobre
as "novas cooperativas" para os propósitos iniciais dessa discussão, não importa se isso
ocorreu por desatenção, tolerância, conivência ou simplesmente porque não foram
chamados a agir. Mais tarde, as denúncias de sindicatos e procuradores (muitas vezes
aplaudidos discretamente por empresários não favorecidos pelas "cooperativas") levaram os
inspetores locais a notificarem as empresas e informarem o Ministério do Trabalho.

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Os trabalhadores das cooperativas rapidamente entenderam que aquele arranjo não
respeitava a lei. O sentimento de ter sido "abençoado" por indústrias de exportação no meio
do mais seco sertão e de ter tido seu poder de compra elevado foi, no período de dez anos,
substituído pelo sentimento de estar excluído de direitos disponíveis para a maioria dos
trabalhadores brasileiros.

Pessoas que estavam habituadas à "velha informalidade" do trabalho até o final dos anos de
1980 experimentaram, na década seguinte, a "informalidade da globalização" (e muitos se
disseram satisfeitos e agradecidos por isso) e agora se sentem prejudicados por estarem em
situação ilegal a "informalidade jurídica" , enfrentando empresários e governantes
preocupados com a "informalidade neoclássica".

Considerações finais

Dada a complexidade da matéria proposta neste trabalho, não cabe propriamente uma
conclusão, mas apenas sugerir alguns pontos para tornar o debate sobre contratos informais
ou atípicos mais frutíferos. Num país com regiões que ainda enfrentam a transição de uma
economia de subsistência para uma economia moderna e urbana, qualquer noção de
contrato de trabalho legítimo está em permanente e rápida mutação, o que potencializa o
caráter provisório de qualquer pesquisa empírica sobre o tema.

Não só no Brasil, as noções do lícito, do justo, do aceitável estão em constante mudança, e


mais ainda em períodos como o atual, no qual a economia e o cenário ideológico
internacional trazem para a pauta novas noções de contratos de trabalho. Nesses momentos,
a discussão sobre a legitimidade dos contratos (legitimidade essa oriunda das noções
populares de contratos "justos" ou "aceitáveis") não pode ser obscurecida pelos debates
tradicionais no âmbito do direito e da economia sobre a legalidade e a eficiência econômica
dos contratos. Ao contrário, para compreender o fenômeno da "informalidade", ou melhor,
dos contratos atípicos, é essencial a compreensão daquilo que escapa à razão do
economista e do jurista, isto é, o balanço efetivamente elaborado pelas partes dos contratos
entre as noções de eficiência e justiça.

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Procuramos mostrar neste texto que a matéria vem sendo tratada de forma por demais
genérica. Subemprego, trabalho informal, trabalho precário ou precarização são termos
possivelmente úteis para descrever situações ou processos gerais que marcam
determinadas épocas ou regiões, mas são insuficientes para entender a gama de contratos
atípicos. Ou seja, aqueles contratos do setor privado os quais fogem do padrão legal
CLTista, no caso brasileiro.

A diversidade de razões para a CLT ser desrespeitada não pode ser restrita a nenhum fator
em específico. A explicação neoclássica, aparentemente tão robusta, não consegue resolver
o problema da legitimidade da lei, sobretudo daquelas cujas práticas reiteradas reproduzem
em todo momento padrões contratuais do passado. E não poderia ser diferente. Novos
padrões contratuais nascem inspirados nos velhos e, nesse sentido, são um excelente
laboratório de criação normativa.

Por sua dimensão, o trabalho "informal" (sem registro) é um problema econômico e social no
Brasil, mas, em contrapartida, o trabalho formal também está fortemente enraizado no país.
Aqui, o contrato de trabalho é matéria de lei, mais que de contrato coletivo. Juízes dessa
área criticam com frequência a detalhada legislação nacional, mas a maioria deles não
pretende que se abandonem os princípios subjacentes à noção de "empregado",
particularmente a noção de subordinação.

Os economistas (refiro-me ao mainstream neoclássico) tentam abstrair a legislação


trabalhista e propor um amplo programa de "desregulamentação", mas suas propostas
enfrentam o "fardo" de um modelo de relações de trabalho não contratual, no qual a condição
de "assalariado" é base da cidadania. Com isso, retiram a cidadania social da esfera do
contrato, sem transferi-la para outras esferas.

De forma reativa, os sindicalistas tentam manter o conjunto de direitos constitucionais e da


CLT. Contudo, para fazer valer seus argumentos eles precisam de propostas que solucionem
a "informalidade" endêmica e que considerem aspectos de eficiência. Os políticos locais
podem pactuar com empresários que desrespeitem a lei, seja por interesses eleitorais
(Tendler, 2002), seja para incentivar a criação de novos padrões contratuais, mas eles vivem

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num Estado federado onde a lei trabalhista sempre foi nacional. Esbarram, portanto, em um
tema fora da pauta, a saber, a estadualização das leis trabalhistas.

A legislação do trabalho é uma referência nacional. Assim, a despeito das práticas, das
tradições e das realidades regionais, a noção popular de "contrato justo" tem sido
influenciada pelos princípios legais nacionais, rapidamente assimilados pelas populações e,
por outro lado, pela noção de eficiência que o mercado impõe com o aumento da competição
nacional e internacional.

Do ponto de vista teórico, o desafio enfrentado é o entendimento da forma pela qual as


noções conflitivas de eficiência e justiça são resolvidas em contratos entre desiguais em
mercados dominados pela irregularidade, nos quais os atores já supõem que a lei não
precisa ser cumprida, dada as práticas reiteradas de empreendimentos similares que operam
com algum grau de sucesso e com baixo risco de punição. Contudo, apesar da
"informalidade", a lei continua sendo uma referência na formação das preferências das
partes contratantes. As análises institucionais históricas e a sociologia econômica têm
reforçado essas ideias de path dependency seja por sua construção teórica, seja pelas
evidências empíricas.

Do ponto de vista empírico, o desafio é a construção de uma tipologia contratual capaz de


retratar e explicar as diferentes razões que levam à não observância da lei. É nesse sentido
que as abordagens predominantes sobre informalidade falham. Interpretações radicalmente
concorrentes como as que apresentamos são menos incompatíveis do que parecem, pois
cada uma delas retrata as razões e as origens de determinados tipos de contratos atípicos.

Se as hipóteses defendidas neste texto estiverem corretas, as políticas públicas destinadas à


redução da "informalidade" (contratos ilegais ou não previstos em lei) terão de atuar de forma
seletiva de acordo com os tipos de trabalho "informal" encontrados, e, para isso, a tarefa
empírica de definir e dimensionar os diversos tipos de contratos atípicos terá de ser feita.

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U NIDADE 22
Relações de Trabalho e Precarização

Objetivo: Analisar como as mudanças na economia brasileira e mundial têm afetado as


relações de trabalho e impactado sobre a mão-de-obra, evidenciando um claro processo de
precarização do trabalho.

Conteúdo

Nas próximas unidades, estudaremos como as principais transformações na economia


brasileira têm incidido sobre as relações trabalhistas e as formas de reivindicação sindical e
como esse processo impacta sobre as condições de trabalho. Para tanto, leremos partes do
artigo “O sistema de relações de trabalho no Brasil: alguns traços históricos e sua
precarização atual” de Márcia da Silva Costa.

Introdução

As mudanças estruturais na economia brasileira no início dos anos de 1990, em especial, a


abertura comercial promovida pelo governo Collor e ampliada pelo governo Cardoso,
tomaram em cheio o setor industrial, rompendo com a política de substituição de
importações, sustentáculo dos programas de desenvolvimento do país desde os anos de
1930.

Esta experiência de adaptação competitiva ao mercado global deu início a processos


generalizados de reestruturação produtiva dentro das empresas, lugar onde aquelas
mudanças se concretizaram. Fechamento de fábricas, enxugamento de plantas, redução de
hierarquias, concentração da produção nas áreas ou produtos de maior retorno,
terceirização, modernização tecnológica, redefinição organizacional dos processos

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produtivos, entre outros, sintetizaram as estratégias empresariais, como estratégia mesmo
de sobrevivência, resultando num fenômeno de demissão em massa de dimensão jamais
vivida na história da industrialização do país.

Duas mudanças políticas interdependentes acompanharam essas transformações,


notadamente no que se refere ao funcionamento do mercado de trabalho: a flexibilização dos
regimes de trabalho (jornadas, salários, mobilidade funcional, ritmos) e a
flexibilização/desregulamentação do sistema legislativo nacional de proteção ao trabalho, da
CLT. Medidas provisórias como as que regularizavam o banco de horas, o contrato de
trabalho por tempo determinado, a suspensão temporária do contrato de trabalho por motivos
econômicos acenavam com a legitimidade institucional para a concretização daquela
flexibilização, abrindo caminho para iniciativas de reformas pontuais importantes naquele
ordenamento jurídico do trabalho.

No presente texto procuro brevemente caracterizar as bases históricas, institucionais e


políticas do sistema de relações de trabalho no Brasil como ferramenta analítica para a
compreensão do impacto das transformações correntes na correlação de forças que
imprimem mudanças àquelas relações de trabalho e sua legislação. As propostas de
flexibilização dos contratos de trabalho estão vindo reboque das atuais estratégias de
competitividade das empresas, mas em que sentido e respondendo a quais interesses?
Quais as características da estrutura e do arcabouço institucional que regularam as relações
de trabalho no Brasil no período áureo de consolidação de sua economia? Que
transformações centrais elas sofreram em face das pressões dos movimentos de
trabalhadores na luta por melhores condições de trabalho, de renda e de participação na
definição política de seus interesses? Que outras transformações esse ordenamento legal do
trabalho vem sofrendo ante a "inevitabilidade" de sua adequação às exigências atuais da
acumulação capitalista? Existiu entre nós algum arranjo social que, grosso modo, pudesse
ser equiparado ao pacto social fordista dos países centrais e que nos autorize a falar de seu
desmonte? É o que pretendo aqui abordar.

Em pauta: a institucionalização do modelo de representação sindical e as leis de proteção


ao trabalho no governo Vargas; a repressão política e a flexibilização institucional desse

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sistema, impostas pelo regime militar; a revitalização do movimento sindical e as pressões
pela redemocraticação do país animadas pelo novo sindicalismo; e, finalmente, o processo
mais recente de retração desses movimentos, assolados pelo neoliberalismo e pela
reestruturação produtiva nas empresas, e cuja luta política se direciona no sentido da
desregulamentação daquele sistema de proteção trabalhista.

O levantamento bibliográfico aqui realizado evidencia uma realidade histórica já conhecida,


mas que prevalece e se amplia: o fato de que as relações de trabalho no país foram
construídas sob condições de forte autoritarismo gerencial, e seu corolário, de debilidade da
organização sindical. Isso permitiu a sedimentação de práticas associadas ao uso flexível e
precário do trabalho.

A tendência recente de flexibilização da CLT agrava este quadro, põe em risco a garantia de
direitos, investe na possibilidade de seu rebaixamento. Embora sejam grandes as
necessidades de reforma, especialmente no que se refere à institucionalização de regras que
assegurem a representação coletiva nos locais de trabalho e a negociação mais centralizada,
a CLT ainda é o parâmetro central que impede que as relações de trabalho no país resvalem
na pura mercantilização da força de trabalho.

Representação sindical controlada e autoritarismo gerencial

O sistema de regulação do trabalho no Brasil é um capítulo central na própria história das


instituições políticas do país. Seu nascedouro acompanha as correntes ideológicas, as
disputas e as lutas políticas e policiais, e a atividade legislativa que puseram em debate os
preceitos do liberalismo econômico e da intervenção estatal desde final do século XIX até
início dos anos de 1930, quando Vargas assume o comando do Estado. A política de
substituição de importações, planejada e implementada sob a égide de um Estado forte e
centralizador, fez incorporar, especialmente depois de 1945, o padrão produtivo e
tecnológico dominante nos países mais industrializados, facilitando a acumulação capitalista
no país pelo controle e a integração limitada da classe operária.

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Controlando a ação direta dos sindicatos em troca de uma legislação minimamente protetora
do trabalho, o Estado preparava as bases para a expansão acelerada do capitalismo no país.
A ordem liberal estabelecida na Constituição de 1891 é rompida em 1926 com a emenda
constitucional que põe termo ao preceito da liberdade das profissões e das atividades
industriais, e entre 1931 e 1934 uma série de decretos passava a regulamentar a exploração
do trabalho, ampliando a intervenção do Estado no mercado de trabalho. Essa intervenção,
todavia, encarnava desde o princípio o espírito tutelador.

Embora a Constituição de 1934 assegurasse a autonomia e a pluralidade sindicais, o Estado


restringia a atuação dos sindicatos não apenas pelo fato de que cabia a ele o
reconhecimento das associações, mas também pela natureza de sua articulação política com
as lideranças sindicais. Ainda que não fosse completa sua interferência na organização dos
estatutos, na definição dos processos eletivos, no controle administrativo e financeiro, no
controle político e ideológico, como o que iria acontecer quando Vargas fecha o Congresso, o
Estado cerceava aos poucos o livre movimento dos sindicatos, trazendo seus líderes para os
quadros burocráticos, legislativos e judiciários, controlando-os, cooptando-os (Moraes Filho,
1978).

Com o golpe de 37, rompe-se de vez com a liberdade sindical, ordem que será central no
regulamento corporativista inspirado na Carta del Lavoro do regime facista italiano. Assim, o
decreto-lei de 1939 estabelece que os sindicatos só teriam poder de representação se
fossem reconhecidos pelo Estado, cabendo a este o completo controle administrativo e
político de suas atividades.

A contrapartida, e o que provavelmente fez com que os trabalhadores aceitassem o


reconhecimento de suas organizações sob o jugo do controle estatal, veio pela imposição
legal às empresas de reivindicações trabalhistas elementares, objeto de décadas de lutas,
direitos estes que se estenderam apenas às parcelas de trabalhadores urbanos
representados pelos sindicatos legalmente reconhecidos. A grande massa de trabalhadores
rurais, na época absoluta maioria da força de trabalho no país, permaneceu submetida ao
livre poder de seus feitores e patrões, sem a cobertura dos direitos legais, por praticamente
mais duas décadas.

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A CLT brasileira – a cartilha dos direitos do trabalhador e seu certificado de cidadania –,
nasce, pois, com esse viés seletivo. Ela consolidava um conjunto de leis arbitrando o uso do
trabalho na indústria nascente e restringindo a liberdade de contratação das empresas:
limitação da jornada de trabalho em 48 horas, proibição do trabalho de menores de 14 anos,
regulamentação do trabalho feminino, remuneração obrigatória da hora extra, descanso e
férias remuneradas, condições de salubridade e proteção contra acidentes de trabalho,
elevada indenização por dispensa imotivada, o que regulava a estabilidade no emprego para
indivíduos com mais de dez anos de trabalho, entre outros.

Por tal estatuto, o Estado delimitava o poder de atuação dos sindicatos e transferia para a
esfera da Justiça do Trabalho a regulação dos conflitos trabalhistas. Em outras palavras, em
sua estrutura original, o sistema de relações de trabalho no Brasil foi estabelecido com a
intenção de que os sindicatos fossem vertidos em órgãos de colaboração com o Estado e na
promoção da paz social. Como moeda de troca da redução dos direitos políticos e da
liberdade de organização e reivindicação, a CLT assegurava vantagens trabalhistas e sociais
mínimas por intermédio de uma política populista de incorporação estratégica e limitada da
massa de trabalhadores (Rodrigues, 1968; Vianna, 1999; Rodrigues, 1974; Keck, 1988).

Sob esse modelo de corporativismo estatal, o nosso projeto de desenvolvimento realiza-se


assentado numa base muito estreita e dependente de representação organizada dos
trabalhadores ante as estruturas do Estado. Não vingou entre nós a noção de concertação
política, baseada na negociação autônoma de interesses entre grupos organizados, tal qual a
que aconteceu nos países desenvolvidos, que entendiam os contratos coletivos de trabalho
como importante instrumento político-institucional. Longe de ser apoiado por qualquer
espécie de arranjo social negociado entre as partes em conflito, nosso sistema de
representação sindical nasce fortemente tutelado pelo Estado. Em seus traços gerais, ele foi
constituído sob alguns condicionantes básicos que apenas menciono como forma de
destacar os mecanismos do controle estatal: (continuação na próxima unidade).

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U NIDADE 23
Relações de Trabalho e Precarização

Objetivo: Analisar como as mudanças na economia brasileira e mundial têm afetado as


relações de trabalho e impactado sobre a mão-de-obra, evidenciando um claro processo de
precarização do trabalho.

Conteúdo

Continuaremos estudando como as principais transformações na economia brasileira têm


incidido sobre as relações trabalhistas e as formas de reivindicação sindical e como esse
processo impacta sobre as condições de trabalho. Leremos outra parte do artigo “O sistema
de relações de trabalho no Brasil: alguns traços históricos e sua precarização atual” de
Márcia da Silva Costa.

Reivindicação Trabalhista

1. O enquadramento sindical dava-se (e ainda é assim) por categoria profissional ou


setor econômico numa mesma base territorial, tendo como referência geográfica
mínima o município.

2. A lei permitia a criação de uma estrutura verticalizada, composta de federações (a


congregação de pelo menos dois sindicatos municipais de mesmo ramo) e de
confederações (que reúnem as federações estaduais também de mesmo ramo).
Limitando a representação por categoria profissional ou setor econômico num mesmo
município e impedindo a representação congregada de diversas categorias, a
legislação estabelecia (e ainda vige o mesmo princípio) o monopólio da
representação.

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A organização intercategorias (centrais sindicais) era até a Constituição de 1988
proibida, mas se hoje tem forte papel político e de orientação ideológica e prática
sobre os sindicatos, não tem, no entanto, poder de contratação. Esta estrutura
verticalizada e descentralizada foi responsável pela extrema fragmentação da
representação sindical, facilitando ao Estado o controle das instituições e
enfraquecendo o poder de pressão dos trabalhadores, que podiam estar divididos até
mesmo no interior de uma mesma empresa.

3. O Estado também assegura a sobrevivência financeira dos sindicatos instituindo o


imposto sindical anual, compulsoriamente extraído de um dia de trabalho de todos os
trabalhadores, filiados ou não. Tal imposto, hoje chamado de contribuição sindical,
juntamente com o princípio da unicidade (que garante o monopólio da representação),
permitia que os sindicatos existissem independentemente da vontade de filiação ou da
necessidade de mobilização dos trabalhadores, o que reforçava sua dependência em
relação ao Estado.

Essa característica é importante, como destaca Cardoso (1999), porque a receita


decorrente da associação voluntária não estava relacionada com a sustentação
financeira das práticas de mobilização dos sindicatos, e sim com sua burocracia
assistencial. Isso limitava não apenas as possibilidades de filiação, e mesmo, o
interesse nela, mas também o poder de pressão e reivindicação do sindicato, posto
que desestimulava as ações de mobilização e aproximação entre as lideranças e as
bases.

Ao dissociar a sobrevivência financeira dos sindicatos de sua capacidade de


arregimentação, o Estado poderia cooptar as lideranças sindicais cuja atuação se
pautasse não necessariamente pelos interesses imediatos dos trabalhadores que
representavam, mas na capacidade de controle das manifestações voluntárias que
ameaçassem a ordem social. Este foi o contexto que fez florescer as chamadas
diretorias sindicais pelegas, que possuíam o poder de representação legal dos
trabalhadores, mas, submissas ao Estado, não possuíam legitimidade representativa
perante suas bases.

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4. O sindicato só adquiria personalidade jurídica ou era legalmente reconhecido perante
o Estado (Justiça do Trabalho) e o patronato, e, portanto, só poderia pleitear direitos,
se obtivesse autorização do Ministério do Trabalho. Tal mecanismo permitia o controle
administrativo e político sobre as atividades do sindicato, poder este exercido em sua
autoridade absoluta ou de forma mais flexível, conforme a correlação de forças em
cada conjuntura política/econômica.

Foi assim que durante o autoritarismo do Estado Novo, com Vargas, e no período do
regime militar, o Ministério do Trabalho fez chegar à minúcia a definição dos estatutos
e a fiscalização sobre as ações administrativas e políticas dos sindicatos. Sob
qualquer ameaça de perda de controle, sua intervenção poderia ser direta, afastando
diretorias eleitas, perseguindo política e repressivamente os líderes e operários mais
militantes.

5. Os conflitos admitidos eram aqueles que resultavam de transgressão das garantias


legais estabelecidas na CLT, e sua solução ocorria normalmente pela mediação da
Justiça do Trabalho, seja pela via da indução do comum acordo entre as partes, seja
pela via da arbitragem normativa. Assim, abria-se um leque enorme para práticas
despóticas de relações de trabalho por parte das gerências, cuja resistência e
questionamento permaneciam latentes ou reprimidos no interior das empresas, sem a
possibilidade legal de se manifestarem sob a forma de reivindicações coletivas
organizadas e imediatas.

Os conflitos eram, então, transferidos para a Justiça do Trabalho, desestimulando ou


inibindo as oportunidades de confronto e tratamento direto das questões trabalhistas
entre entidades sindicais operárias e patronais. Ademais, o controle estatal da política
salarial dificultava ou tornava inócuas as iniciativas de negociação direta, tirando dos
sindicatos um de seus espaços mais importantes de luta representação.

Em todos os aspectos da gestão interna do trabalho, a resolução dos conflitos que


ficavam fora do que regulava a legislação permanecia prerrogativa do poder
discricionário e unilateral dos patrões, reforçada ainda pelo fato de que a legislação

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não assegurava nenhuma forma de organização ou representação coletiva no interior
das empresas.

Esse aspecto é interessante ressaltar porque está na base do desenvolvimento no


Brasil de uma cultura gerencial autocrática e paternalista que sempre relegou espaços
de participação democrática no processo de trabalho e nas relações de produção.

6. As greves eram, senão estritamente proibidas, tremendamente dificultadas pelos


procedimentos burocráticos exigidos para sua legalização, limitações legais que
instrumentaram a ação militar repressiva e violenta por parte dos governos
autoritários.

Saídos deste arcabouço institucional, os sindicatos foram reconhecidos não para


defender os interesses efetivamente demandados pelos trabalhadores ou barganhar
diretamente soluções para os conflitos inerentes às relações de trabalho, mas para
submeter aqueles conflitos ao controle do Estado.

A proibição das greves e a ação repressiva sobre as manifestações populares e


operárias limitaram o poder de pressão política dos trabalhadores e sua capacidade
de questionar o autoritarismo das relações de trabalho no interior da produção. A
validação do novo regime, no entanto, exigia reiteradamente a ação reivindicativa e
contestadora dos trabalhadores. O conservadorismo empresarial, que fazia perpetuar
práticas autoritárias de relações sociais e de trabalho, contribuiu para deixar no papel,
para muitas categorias e por muitos anos, as conquistas da CLT. A massificação do
assalariamento e dos direitos a ele pertinentes só veio acontecer entre o final dos
anos de 1950 e início da década seguinte, quando a economia se dinamiza com a
produção e o emprego gerado pela indústria de base, de bens de consumo duráveis e
de bens de capital, com forte presença da atividade produtiva estatal e do capital
multinacional.

Ainda assim, a política de substituição de importações não viria atrelada a uma política social
ampla encarregada de redistribuir seus frutos por toda sociedade. É também a partir daquele
período que a natureza autoritária e excludente do sistema de relações de trabalho se revela

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mais contraditória e incongruente com as demandas dos trabalhadores e suas condições de
vida e trabalho.

O crescimento econômico realizava-se sem uma associação direta com o aumento do


padrão de renda/consumo e bem-estar da população e sem qualquer compromisso mais
sólido com uma política de pleno emprego (pautada na estabilidade). Ao contrário, certo
desemprego estrutural era benéfico ao tipo de acumulação escolhido. Como destaca
Mattoso, no Brasil, "ao contrário do que ocorreu nos países europeus, o padrão de produção
baseada no setor de bens de consumo durável consolidou-se com baixos salários, elevada
dispersão e sem distribuição de renda" (1996, p. 130). O que se constituía, então, era um
padrão de desenvolvimento já extremamente seletivo.

Em face do privilégio estatal da expansão econômica nos grandes centros urbanos


desenvolvia-se, paralelamente, toda uma rede informal de trabalho em pequenas empresas
urbanas de fundo de quintal, no campo, e nas inúmeras formas de trabalho autônomo e
precário, cujos padrões de contratação e assalariamento passavam ao largo da legislação
trabalhista ou de qualquer forma de representação coletiva, e a quem eram relegados
direitos mínimos de proteção social.

A inexistência de um sistema amplo de regulação coletiva que tivesse por base a garantia de
direitos cidadãos fez ampliar a heterogeneidade estrutural das condições de trabalho e
emprego, restringindo o poder de abrangência da legislação trabalhista e social e criando um
modelo dual de estabilidade (formalidade)/marginalidade para a economia e para o mercado
de trabalho (Dombois e Pries, 2000).

Além de fraca, a intervenção do Estado na criação de políticas e mecanismos de proteção


social atingia apenas os trabalhadores formalmente reconhecidos pela relação salarial,
possuidores de uma carteira de trabalho. Um tipo de incorporação social a que Santos
chamou de cidadania regulada (ver nota 2). Essa base institucional alimentou todo um
conjunto de valores na sociedade brasileira que associava tudo o que não constituísse
trabalho formal (desemprego, formas de trabalho precário e instável) à marginalidade.

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No interior das empresas, por seu turno, predominavam as formas predatórias, pessoais e
autoritárias de gestão do trabalho. A despeito dos ganhos em produtividade, as metas
desenvolvimentistas e o crescimento econômico continuariam se dando à custa do
desenvolvimento social e da concentração da riqueza, o que fez fomentar fortes ondas de
contestação tanto nas fábricas quanto nos meios rurais.

As reivindicações de cumprimento de direitos trabalhistas e de maior humanização das


condições de trabalho, o arrocho salarial, a contestação da distribuição latifundiária traziam à
tona os movimentos revolucionários que postulavam efetivas mudanças estruturais. As
manifestações operárias e a efervescência dos movimentos populares alastraram-se,
conquistando algum poder para pressionar o governo, como o espaço encontrado para as
campanhas pelas reformas de base, e abrindo caminho para a reação conservadora e
autoritária das classes dominantes.

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U NIDADE 24
Precarização das Relações de Trabalho e Sindicalismo

Objetivo: Analisar como as mudanças na economia brasileira e mundial têm afetado as


relações de trabalho e impactado sobre a mão-de-obra, evidenciando um claro processo de
precarização do trabalho.

Conteúdo

Continuaremos estudando como as principais transformações na economia brasileira têm


incidido sobre as relações trabalhistas e as formas de reivindicação sindical e como esse
processo impacta sobre as condições de trabalho. Leremos outra parte do artigo “O sistema
de relações de trabalho no Brasil: alguns traços históricos e sua precarização atual” de
Márcia da Silva Costa.

Abertura política e novo sindicalismo

Ao tempo em que o país experimentava seu principal surto de crescimento, alavancado pelos
elevados índices de produtividade dos setores mais dinâmicos da economia, a gestão
despótica sobre a força de trabalho no interior das empresas e o controle oficial rígido sobre
os salários fomentavam terreno fértil para a manifestação das insatisfações operárias
reprimidas pelo regime militar.

A onda de greves que se desencadeou por todo país a partir de 1978-1979, lideradas pelos
metalúrgicos do ABC paulista, representou o transbordamento daquelas insatisfações e a
manifestação pública dos trabalhadores, que participavam em massa, fortemente apoiados
por movimentos populares organizados pelas alas progressistas da igreja católica e por uma
militância de esquerda saída da surdina. O grito de luta era uníssono: contra a exploração

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econômica das empresas e a ditadura política dos militares. E teve alcance longo e de
significado muito mais profundo para o desenrolar das transformações que a década de 1980
experimentaria: buscava a autonomia e a desvinculação dos sindicatos da tutela estatal e a
retomada dos direitos políticos e civis cassados pelo regime militar.

Por trás das reivindicações salariais, as lideranças operárias surgidas daqueles movimentos
tanto questionavam a legitimidade da representação meramente burocrática e
assistencialista a que havia sido resumida a atuação dos sindicatos sob o regime militar,
como negavam e criticavam as práticas populistas do sindicalismo no período precedente ao
golpe.

O chamado novo sindicalismo surgia enraizado nas bases, pelo confronto direto com os
patrões e o Estado, reivindicando a negociação coletiva, a representação nos locais de
trabalho, o direito de greve, ao mesmo tempo em que encabeçava os movimentos sociais
pela redemocratização do país.

Em São Bernardo e Diadema, berço desse movimento, pólo de concentração de grandes


massas de trabalhadores empregados nas modernas indústrias automobilísticas, a
revitalização da organização coletiva nos locais de trabalho fortalecia as inúmeras formas de
resistência e mobilização, e encontrava na greve a sua maior arma de pressão. Num
momento em que o desgaste político e econômico do governo tornava elevado demais os
custos sociais da repressão, as greves de 1978, 1979 e 1980, embora duramente reprimidas,
alcançaram dimensão quantitativa e ideológica suficiente para se espalharem por todo país,
envolvendo diversas categorias. Entre 1978 e 1988 o número de greves bate recorde
mundial, cumulando neste último ano, 132 milhões de jornadas de trabalho perdidas
(Noronha, 1991), um forte indicativo de que o movimento trabalhista crescera, buscando seu
espaço e impulsionando a distensão política do país.

O novo sindicalismo trouxe à tona, também, o questionamento da estrutura corporativa e da


prática sindical consagrada desde a era Vargas. Um questionamento que alimentou
divergências dentro da própria direção oficial dos sindicatos, fazendo emergir lideranças
identificadas com as bases e legitimadas por elas.

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Esses líderes ficaram conhecidos como os sindicalistas autênticos, por sua proximidade com
os trabalhadores de chão de fábrica e sua orientação e ação voltadas para os problemas ali
encontrados. Inaugurando um estilo de ação sindical combativo e apoiado pela militância e
pela mobilização ativa das massas de trabalhadores, os sindicalistas autênticos tomavam
expressão nacional sob a liderança carismática de seu principal protagonista – Lula –,
acontecimento que, nas palavras de Sader (1988), fazia entrar na cena política novos atores
sociais.

É dessa militância e das principais correntes políticas e ideológicas em que ela se fragmenta
que surgem o principal partido de esquerda do país, o Partido dos Trabalhadores (PT), e as
duas mais importantes centrais sindicais, a CUT e a CGT, hoje, depois de sucessivos rachas
internos, majoritariamente concentrada na Força Sindical.

Esse padrão combativo de ação sindical, que encontraria especialmente na CUT o apoio
ideológico e logístico, seria sentido principalmente no fortalecimento da resistência ao poder
arbitrário das gerências na organização do processo de trabalho, o que forçou a abertura de
canais de negociação direta entre trabalhadores e patronato, deslocando a resolução dos
conflitos para o interior das empresas.

Aspectos do trabalho até então de domínio exclusivo da gestão capitalista, como controle
disciplinar, ritmos de produção, regras de promoção, estabilidade, distribuição de horas
extras, condições de higiene e segurança no trabalho etc., passaram a ser confrontados,
pelo menos nos setores mais fortemente organizados, mediante a militância dos
trabalhadores e a reivindicação crescente de espaços de intervenção diretamente
barganhados. Consequência dessa militância é que os acordos coletivos ganham vida e
novo sentido a partir da incorporação de reivindicações relacionadas aos interesses de maior
penetração dos sindicatos nos locais de trabalho e a ampliação de seu poder de
representação interna.

Mesmo à custa de muita resistência por parte dos patrões, a figura dos delegados de base,
as comissões de representação interna dos trabalhadores, as comissões de fábrica, os
comandos de greve e os grupos de negociação constituíram atores novos a demandar poder

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de voz e a criar uma nova institucionalidade no padrão de relações de trabalho, fazendo
emergir conflitos latentes e trazendo a sua resolução para dentro das fábricas, longe dos
tribunais do trabalho.

Negociações coletivas, que antes meramente acompanhavam as formalidades da


implantação de ajustes salariais definidos pelo governo, passaram, então, a incorporar, ainda
que de forma descentralizada, reivindicações a respeito de abonos salariais e produtividade,
demandas relativas à carreira e à estabilidade no emprego, redução da jornada de trabalho,
igualdade de salário para mesmo trabalho, igualdade de salário e de tratamento entre os
sexos, condições de segurança e saúde do trabalhador etc. Como argumentou Almeida, "a
ação grevista descentralizada serviu para ampliar o espaço e o escopo da negociação
coletiva, assim como para estender, a contrapelo da lei, direitos trabalhistas importantes"
(1988, p. 337).

O coroamento dessas lutas veio com a Constituição de 1988, com a legalização de algumas
conquistas centrais, há muito reivindicadas e mesmo de certa forma já em prática, tanto no
âmbito da representação de interesses – direito de greve, liberdade para a criação de
sindicatos sem a tutela estatal, restauração do poder de negociar diretamente com os
patrões, institucionalização dos delegados de base, entre outros –, como no âmbito da
ampliação de direitos sociais e trabalhistas – redução da jornada de trabalho de 48 para 44
horas, seguro desemprego, licença gestante de 120 dias, licença paternidade. Contudo,
deve-se assinalar que, se a Constituição eliminou vários princípios autoritários encontrados
na CLT, ela manteve alguns dos seus principais traços corporativistas: a unicidade sindical e
a contribuição sindical obrigatória, que o novo sindicalismo tanto combateu.

Embora se renovando por dentro (Cardoso, 1999), o novo sindicalismo não foi capaz de
mudar a face extremamente fragmentada da representação sindical no país. O impulso inicial
dos sindicatos mais fortes de expandir conquistas trabalhistas para diversas outras
categorias representadas por sindicatos pequenos e fracamente organizados, especialmente
no tocante à defesa de reajustes salariais centralizados, foi perdendo fôlego à medida que as
empresas recompunham suas políticas de produção e gestão do trabalho e que a economia

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entrava em trajetória declinante, em relação às acentuadas taxas de crescimento do período
do milagre econômico.

As greves dos anos de 1980 foram fundamentais para impedir prejuízos maiores quanto ao
nível de renda, mas não foram suficientes para incorporar conquistas mais generalizadas no
plano da redução das desigualdades sociais e econômicas. Negociações coletivas
descentralizadas, reflexo mesmo das delimitações estruturais do sistema de relações de
trabalho, impediram uma maior homogeneização das conquistas no que se refere ao nível de
emprego e ao padrão de distribuição de renda e bem-estar, o que veio a ampliar a já
histórica/estrutural heterogeneidade do mercado de trabalho no país.

As centrais sindicais encontraram enormes dificuldades para articular formas de


representação políticas mais amplas, capazes de influir significativamente nas decisões
governamentais de política econômica e social, sobretudo no âmbito das políticas
redistributivas (Almeida, 1988; Medeiros, 1994; Oliveira, 1994; Comin, 1994).

Alguma articulação conjunta, ainda que efêmera e de amplitude limitada, foi realizada no
âmbito das câmaras setoriais com os acordos do complexo automotivo já no início dos anos
de 1990. As centrais sindicais, com destaque para atuação ativa da CUT, tiveram papel
relevante nas negociações. A experiência mostrou que, pela primeira vez, buscava-se um
entendimento entre Estado, empresários e trabalhadores em torno da defesa de interesses
mútuos no seio de um projeto de política industrial que contemplava questões de
modernização produtiva, competitividade, nível de renda e emprego e contenção
inflacionária, entre outras (ver, por exemplo, Diniz, 1994). Mas a agregação e a conciliação
de interesses dos diversos grupos econômicos em torno de políticas públicas de alcance
mais generalizado encontrava enormes barreiras na grande diferenciação de seu poder de
organização e pressão, isso tanto para as entidades de trabalhadores como para as
patronais. As profundas diferenças econômicas setoriais e regionais, coadunadas com os
fracassos sucessivos dos planos de estabilização econômica, inviabilizaram as tentativas de
ação cooperativa e solidária entre os sindicatos, debilitando seu poder para negociar, de
forma mais homogênea, políticas de emprego e renda e mecanismos que assegurassem

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direitos mínimos de representação coletiva, tanto nos locais de trabalho, como nas cúpulas
estatais (no âmbito dos três governos) de formulação de políticas públicas.

Essa questão remete todo tempo à luta por mudanças efetivas no sentido da democratização
do sistema de relações de trabalho no país, o que contempla não apenas as instituições
formais e legais da representação, mas também todo um complexo de práticas, regras,
costumes e valores que instruem e orientam as relações pessoais e a regulação social do
trabalho onde ele se realiza.

No âmbito mais macro, por um preceito institucional não derrubado, em função não apenas
das polêmicas e das divergências corporativas no interior das próprias entidades sindicais,
mas também das fortes resistências e retaliações articuladas pelo patronato, as centrais
sindicais não conseguiram institucionalizar o poder para negociar e assinar contratos de
trabalho, o que, de outro modo, ampliaria o poder de negociação para os trabalhadores em
qualquer dos espaços econômicos/geográficos (setorial, regional ou nacional) em que um
possível contrato coletivo de trabalho se estabelecesse. Da mesma maneira, não foi outro o
desempenho geral da representação sindical, espalhada numa complexa malha de pequenos
sindicatos municipais, incapazes de aproveitar a própria estrutura federativa para o
fortalecimento das negociações setoriais no sentido de incorporar um padrão mais
homogêneo e universal de relações de trabalho.

Produto dessa mesma heterogeneidade, os avanços democráticos no plano mais micro das
relações de produção também ocorreram de forma desigual. É verdade que a
redemocratização do país passou a exigir uma redefinição das relações de trabalho no
interior das empresas, fazendo-as encarar o conflito de classe. Mas os condicionantes
históricos do autoritarismo e as vicissitudes econômicas embaladas pela persistência de
ciclos recessivos tiveram papel decisivo no enfraquecimento das disputas. As concessões
não vieram sem a forte oposição capitalista. O extremo conservadorismo dos patrões, a
complacência da própria Justiça do Trabalho (Humphrey, 1982; Leite, 1992; Mangabeira,
1993) e mesmo o titubeio das lideranças sindicais, cautelosas com o surgimento de
organizações de base autônomas, ou receosas da manipulação desses grupos por parte das
gerências, tornaram muito lento o avanço da democracia na produção.

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Muitos sindicatos, inclusive os novos, criados no calor dos movimentos de início da década,
continuaram predominantemente atuando como "sindicatos de porta de fábrica", sem
qualquer acesso aos locais de trabalho, apegados às práticas assistencialistas e cuja
legitimidade para negociação é encontrada apenas no poder de homologação legalmente
conferido (Boito Jr., 1991; Oliveira, 1994). Em outras palavras, os avanços nos espaços de
disputa e negociação das políticas de produção nos locais de trabalho foram moderados,
especialmente quando se considera o grande universo de trabalhadores empregados em
empresas tradicionais que pouco se empenharam na modernização de suas práticas de
relações industriais, que podem contar com um vasto e competitivo mercado de trabalho de
baixa qualificação e que formam as bases de sindicatos politicamente mais fracos.

Contrariamente aos anos de 1980, quando a defesa das reposições salariais ante as altas
taxas inflacionárias instigava e legitimava a ação confrontacionista dos sindicatos com as
empresas, orientando, inclusive, as discussões ideológicas e os posicionamentos das
centrais quanto às políticas do governo, nos anos de 1990 esta postura confrontacionista
perde fôlego, dando lugar à política de negociação e cooperação entre capital e trabalho em
torno de projetos mútuos e específicos de autopreservação que a nova conjuntura
econômica exigia. A reestruturação produtiva nas empresas faria do desemprego o grande
vilão do processo de retração dos sindicatos e do avanço de iniciativas empresariais e do
governo no tema da flexibilização do mercado de trabalho. Vejamos, então, este novo
contexto.

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U NIDADE 25
Precarização das Relações de Trabalho e Neoliberalismo

Objetivo: Analisar como as mudanças na economia brasileira e mundial têm afetado as


relações de trabalho e impactado sobre a mão-de-obra, evidenciando um claro processo de
precarização do trabalho.

Conteúdo

Continuaremos estudando como as principais transformações na economia brasileira têm


incidido sobre as relações trabalhistas e as formas de reivindicação sindical e como esse
processo impacta sobre as condições de trabalho. Leremos por fim, parte do artigo “O
sistema de relações de trabalho no Brasil: alguns traços históricos e sua precarização atual”
de Márcia da Silva Costa.

Neoliberalismo e retrocesso nas relações de trabalho

Os anos de 1990 marcaram transformações profundas na economia brasileira. Com a vitória


eleitoral de Fernando Collor de Mello em 1989, primeiro presidente escolhido em eleição
direta após o regime militar, o país incorporava uma agenda de ajustes econômicos que
trazia em seu bojo a abertura comercial e as privatizações. A isso se agregava a busca da
estabilidade econômica, pedra de toque dos dois governos de Fernando Henrique Cardoso.

A abertura econômica, iniciada de forma atabalhoada com a queda abrupta das tarifas de
importação para uma grande diversidade de produtos industriais, trouxe consigo o
incremento do discurso da competitividade (agora em níveis internacionais), precipitando a
entrada da fechada economia brasileira na circulação da rede global. Isso fez com que,
forçosamente, fossem expandidos os processos de reestruturação produtiva: fechamento de

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fábricas, renovação tecnológica, terceirização, subcontratação, reorganização dos processos
produtivos, enxugamento de quadros, entre outros, traduziram os ajustes.

Em todos os casos os esforços se concentrariam primordialmente na racionalização de


custos, com destaque para os custos do trabalho. Tais processos de reestruturação
aconteceram concomitantemente a uma conjuntura recessiva, que se aprofundava, e a uma
avalanche de medidas liberais concretizadas nos programas de privatização e no abandono
das políticas públicas voltadas para a expansão da demanda, com acento no controle da
moeda e da inflação, via elevação da taxa de juros, e no avanço de projetos de
desregulamentação econômica e flexibilização institucional do mercado de trabalho.

Resultado imediato dessas mudanças: até a primeira metade dos anos de 1990 mais de 1
milhão de empregos foram destruídos na indústria de transformação, tendo boa parte de
seus trabalhadores caído na informalidade e outra se deslocado para o setor de serviços,
onde é ainda mais forte a heterogeneidade das condições de emprego, com predomínio
(para) dos (os) contratos de baixa qualificação e de baixos salários (Medeiros e Salm, 1994;
Pochmann et al., 1998).

Além do desemprego crescente, leis federais apoiadas no ideário de que a liberdade para
contratar e demitir ajustaria eficientemente os abismos diferenciais entre a oferta e a
demanda de trabalho davam vazão a institutos que fragilizavam ainda mais a proteção do
trabalho. A retórica concentrava-se no anacronismo e na desfuncionalidade da legislação
trabalhista ainda proveniente da era Vargas. Para muitos analistas do sistema de relações de
trabalho (ver, por exemplo, Pastore, 1994), para os empresários, para o governo e para
algumas lideranças sindicais, aquela legislação não acompanhava o passo das
transformações econômicas e produtivas necessárias ao ajuste competitivo do país.

O caminho da "modernidade" passava pelas agressivas reformas no âmbito das


privatizações, da previdência, da desregulamentação dos mercados econômicos e de
trabalho. Neste último, a saída, então, era flexibilizar os estatutos que, segundo eles,
oneravam o custo do trabalho e inviabilizavam a geração de empregos.

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Foi, portanto, com esse propósito que, no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso,
editou-se um pacote de medidas legislativas que alterava regras trabalhistas básicas, como o
vínculo contratual, a jornada e o salário. Assim, o contrato de trabalho por tempo
determinado, o trabalho em tempo parcial, a suspensão temporária do contrato de trabalho
por motivos econômicos, o banco de horas, a participação nos lucros e resultados das
empresas, a redução do salário com redução da jornada, entre outros, passaram a fazer
parte do rol de possibilidades legais de mudança nos contratos de trabalho. Em seu conjunto,
essas medidas representaram um verdadeiro desmonte dos direitos de proteção ao trabalho
e um retrocesso no espaço recentemente conquistado pelo movimento sindical.

A promessa da geração de empregos, todavia, não se concretizou mas os ataques


neoliberais às instituições do trabalho pareciam vivamente abrir caminho para uma
reprivatização das relações de trabalho. Ao findar seu governo, FHC fez passar no
Congresso o Projeto de Lei 5.843/01, que propunha a alteração do artigo 618 da CLT, cujo
objetivo era fazer sobrepor os acordos coletivos privados ao que determina a legislação
trabalhista. Esse projeto sai de pauta no governo Lula, mas, como veremos, parece não ter
esmorecido o teor liberalizante que ronda as intenções da reforma trabalhista acenada pelo
novo governo.

Em outras palavras, as políticas de inserção da economia brasileira no comércio


internacional seguiram à risca a cantilena dos valores superiores do mercado na ordenação
da economia, e seguiram uma tendência mundial. É vasta a literatura que aborda o
desmonte das estruturas políticas e sociais que possibilitaram o crescimento dos países
desenvolvidos nos chamados anos dourados do capitalismo, desmonte este fortemente
centrado nas instituições do mercado de trabalho e nas políticas de bem-estar social.

Aspectos contundentes das mudanças foram a ampliação das formas atípicas e precárias de
ocupação e o crescimento do desemprego, fenômenos que fizeram romper duas regras
básicas do padrão de regulação precedente: a estabilidade e a jornada de trabalho
preestabelecida.

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No entanto, o debate das reformas neoliberais no Brasil põe em foco questões sociais e
políticas muito mais complexas, dadas as características autoritárias, precárias, excludentes
e desiguais que marcaram o nosso sistema de relações de trabalho e a nossa estrutura
social. Antes de ser pensado no seio de um projeto mais amplo de desenvolvimento e
integração, ele preconizava escolhas políticas com forte propensão a acentuar aquelas
características, nas palavras de Siqueira Neto: "vulgarizando o conceito de rigidez do direito
e do mercado de trabalho e banalizando a negociação coletiva e o papel do estado" (1996, p.
328). Deslocavam-se, assim, as discussões e as mobilizações em torno, por exemplo, de
uma possível redução da jornada de trabalho como política socialmente mais justa de
geração de emprego, e, inclusive, deslocava-se o velho debate em torno da reforma do
sistema corporativo e seus anseios por torná-lo mais democrático, em proveito da
desregulamentação dos direitos sociais e da flexibilização das relações de trabalho (Oliveira,
1994; Rodrigues, 1999). Atacava-se como rígido um sistema de regulação que
estruturalmente sempre se adaptou a todo tipo de conjuntura econômica pelos artifícios
oficiais ou clandestinos que tornam extremamente flexível o uso do trabalho no país.

O outro lado da moeda do debate e das práticas de flexibilização é que se tornaram cada vez
mais unânimes as análises que apontam para uma redução significativa do emprego formal e
sua expansão na esfera da informalidade. A participação dos empregados formais cai de
53%, em 1991, para 45%, em 2000. Em contrapartida, o grau de informalidade que era de
36,6% em 1986, aumentou para 37,6%, em 1990, e para 50,8%, em 2000 (Sabadini e
Nakatani, 2002; Cacciamali, 2000).

Embora deva ser considerada a heterogeneidade das situações que consubstanciam o


trabalho informal, o fato é que sua expansão tem se dado num contexto de forte
desestruturação do mercado formal, com crescimento significativo dos trabalhadores sem
carteira de trabalho assinada, portanto, à margem dos direitos assegurados na legislação e
fora de qualquer relação com os sindicatos, único meio de representação institucional.

As demissões em larga escala dos anos de 1990, a difusão no interior das empresas de
programas organizacionais voltados para a antecipação dos conflitos e o maior envolvimento
ideológico dos trabalhadores (especialmente no âmbito dos programas de qualidade total), a

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migração de trabalhadores do setor industrial (tradicionalmente mais organizado em
sindicatos e desfrutando relações de trabalho formal) para o setor de serviços
(caracteristicamente mais heterogêneo e onde predominam relações de trabalho mais
precárias e instáveis, portanto, de baixa organização sindical), tiveram consequências
avassaladoras sobre o nível de sindicalização e sobre o poder (ideológico e material) dos
sindicatos, compondo uma realidade muito mais complexa para as relações de trabalho que
não mais poderia ser enfrentada pela prática confrontacionista do passado (Oliveira, 1994;
Comin e Castro, 1998; Rodrigues, 1999).

É preciso destacar, no entanto, e como mais um condicionante das mudanças na correlação


de forças, a importância política da polarização na cúpula do movimento sindical, polarização
esta que foi decisiva na sustentação do projeto neoliberal que orientou as escolhas políticas
dos três governos nos anos de 1990.

Trata-se da emergência da Força Sindical como central que propunha uma alternativa de
ação e de pensamento político em direta oposição à prática combativa e aos ideais
transformadores da CUT. Criada em 1991 e reunindo egressos do velho sindicalismo de
Estado, essa central incorporava aquele discurso da modernidade, já entoado pelo governo e
pelas elites empresarias. Atribuindo a si o slogan de um sindicalismo moderno, a Força
Sindical defendia um sindicalismo de resultados, assente à racionalidade cega do livre
mercado, e desideologizado, no sentido de que circunscrito aos interesses econômicos
imediatos dos trabalhadores.

Embora moderadamente reivindicativa no plano econômico, sua atuação pautava-se na


cooperação e na parceria com o capital, numa negação explícita ao sindicalismo de
confronto, ideologizado (porque tinha como uma de suas metas o questionamento do
capitalismo e das investidas neoliberais), propugnado pela CUT, baluarte do movimento
sindical nos anos de 1980 e, na época, principal opositora do governo.

Efeito dessa divisão, destruidora do poder do sindicalismo (Giannotti, 2002) e fomentada


pelas forças conservadoras no poder, foi que as negociações se voltaram para a realidade e
para a possibilidade específica de cada empresa ou de um conjunto de empresas em

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determinado setor, perdendo o elo de referência que, de alguma forma, existiu quando a luta
por reposição salarial e pela abertura política promovia uma articulação mais abrangente
entre todas as categorias. Por seu turno, o desemprego e a negociação de mecanismos
mínimos que assegurassem alguma estabilidade provisória, à falta de uma legislação mais
ampla, passaram a assumir relevância na agenda sindical.

É esse padrão de negociação, emerso de um contexto de estabilidade monetária, de livre


negociação dos salários e de mudanças na estrutura produtiva e na organização e gestão do
trabalho dentro das empresas, que fez autores como Castro (1995 e 1997), Comin e Castro
(1998) anunciarem o surgimento de uma nova institucionalidade micro-regulatória, segundo a
qual novos parâmetros, novas regras, em novos terrenos e escopo, comporiam os contratos
coletivos de trabalho e os aparatos normativos internos às empresas.

A preservação dos empregos, as políticas de formação e qualificação, o deslocamento de


ajustes salariais fixos para formas variáveis de compensação salarial, a manutenção de
conquistas passadas, a flexibilização das jornadas etc. passaram a dar o tom das
negociações coletivas, com o poder da balança de forças desfavorável para os
trabalhadores.

O grande dilema, porém, como destacou Oliveira (1994), é que a área de incidência desses
novos temas ou desse novo campo de pactuação é a empresa, onde tradicionalmente a
organização sindical sempre foi débil, e, acrescente-se, onde ela passa a concorrer com as
iniciativas das empresas de buscarem a cooperação dos trabalhadores, normalmente
isolando-os do sindicato. As negociações neste caso dificilmente poderiam ser embasadas
em condições ou posições de mútua autonomia, abrindo espaço para as decisões unilaterais.

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EXERCÍCIOS DISSERTATIVOS:

2. Como as transformações no mundo do trabalho contribuem para a precarização do


trabalho?

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U NIDADE 26
Tecnologia da Informação e Qualificação Profissional: Um Estudo de Caso

Objetivo: Demonstrar como o uso de tecnologia da informação pode afetar a qualificação


profissional.

Conteúdo

Nas próximas três unidades leremos o artigo de Sandra Mara Maciel de Lima, “Tecnologia
versus qualificação: impactos no setor de saúde” no qual ela analisa os impactos da
tecnologia da informação sobre os profissionais da saúde. A autora apresenta resultado de
pesquisa realizada nas unidades de saúde do município de Curitiba, no ano de 2001,
envolvendo médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem. Para tanto, a autora traça um
panorama das mudanças no setor industrial.

Introdução

Falar dos impactos da tecnologia informacional no setor de saúde implica fazer referência
obrigatória ao processo mundial de reestruturação produtiva, intensificado a partir da década
de 1970 e suas incursões nos diversos setores da economia.

Por sua vez, a segunda metade dos anos 70 marca um processo irreversível da indústria
manufatureira, referente ao deslanchar das novas formas de automação. Na época podem
ser identificados dois fenômenos de importância considerável para esta discussão, a crise do
taylorismo e a mutação das normas de concorrência provocada pela crise econômica (Coriat,
1988; Harvey, 1993). Tais fatores provocam e influenciam novas direções às pesquisas em
inovação tecnológica (Harnecker, 2000).

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Apoiado na rígida separação entre concepção e execução, o taylorismo como estratégia
organizacional descreve como a produtividade do trabalho pode ser radicalmente aumentada
por meio da decomposição de cada processo de trabalho em movimentos componentes e da
organização de tarefas fragmentadas segundo padrões rigorosos de tempo e estudo do
movimento (Harvey, 1993).

A introdução das linhas de montagem por Ford estende estas inovações, favorecendo a
passagem a um processo de trabalho baseado nos tempos impostos, regulados pelas
esteiras mecânicas (Coriat, 1988). No entanto, para outros autores, o fordismo pode ser
considerado como um paradigma que concentra industrialização pesada, organização
industrial, processo de trabalho, ideologia e estilo de vida bem determinados.

Leite, por sua vez, identifica três períodos do processo de industrialização. O primeiro
corresponde ao final dos anos 70 e início dos 80, "quando as propostas inovadoras se
concentravam na adoção dos CCQs, sem que as empresas se preocupassem em alterar as
formas de organização do trabalho ou investir mais efetivamente em novos equipamentos
microeletrônicos" (Leite, 1994, p.565).

O segundo período se inicia em 1984-85, a partir da retomada do crescimento econômico


(que sucede a profunda recessão dos primeiros anos da década) e vai até o final dos anos
80, caracterizando-se por uma rápida difusão dos equipamentos industriais. Nesta fase as
empresas também buscavam novas formas de organização do trabalho, baseadas,
sobretudo nas técnicas japonesas. No entanto, "vários estudos enfatizaram o fraco empenho
empresarial em inovações organizacionais no período" (Abramo citado por Leite, 1994,
p.567). Destaca-se ainda, a resistência que as empresas opuseram a que os trabalhadores
pudessem participar dos trabalhos de programação, mantendo dessa forma a separação
taylorista entre execução e concepção.

O terceiro período se inicia nos anos 90, contexto no qual as empresas concentravam
esforços em estratégias organizacionais, "bem como na adoção de novas formas de gestão
da mão-de-obra, mais compatíveis com as necessidades de flexibilização do trabalho e com
o envolvimento dos trabalhadores com a qualidade e a produtividade" (Leite, 1994, p.573).

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No bojo desta chamada "revolução produtiva" ou "revolução informacional" há transferência,
para as máquinas, de novos tipos de funções cerebrais abstratas (o que propriamente
caracteriza a automação), tendo como consequência fundamental, o deslocamento do
trabalho humano da manipulação para o tratamento de símbolos abstratos – e, pois, deslocá-
lo para o tratamento da informação.

Desta forma, para Lojkine (1995), a revolução informacional nasce da oposição entre a
revolução da máquina-ferramenta, fundada na objetivação das funções manuais, e a
revolução da automação, baseada na objetivação de certas funções cerebrais desenvolvidas
pelo maquinismo industrial.

Sendo assim, cada modo de crescimento do capitalismo estaria configurado pela forma de
organização da produção mais adequada para maximizar a rentabilidade das empresas sob
cada uma das sucessivas revoluções tecnológicas (Harnecker, 2000). E o que diferencia
uma época histórica de outra, conforme Marx, não é o que se faz, mas como, com que meios
se faz (Marx, 1988). Ou, como afirma Castells, "o que distingue uma época da outra são a
revolução das tecnologias da informação e a sua difusão em todas as esferas da atividade
social e econômica [...]" (Castells citado por Harnecker, 2000).

Portanto, para Marx, todo o processo de trabalho se dá inserido em determinadas relações


de produção, e que são estas relações que impulsionam o desenvolvimento de determinadas
tecnologias (Harnecker, 2000, p. 119).

Da perspectiva das relações de trabalho, as duas experiências históricas, tanto o auge do


fordismo quanto a reestruturação produtiva, impactam negativamente sobre o indivíduo.
Embora as empresas inovadoras demonstrem estar preocupadas em treinar seus
trabalhadores, a qualificação parece não ser a única preocupação presente nos
investimentos empresariais.

Na realidade, boa parte dos esforços empresariais voltados para o treinamento, tem como
pano de fundo programas comportamentais ou motivacionais, com o objetivo de despertar
nos trabalhadores uma postura cooperativa com relação às estratégias gerenciais e que
nada tem a ver com formação de trabalhadores mais qualificados (Leite, 1994).

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Sendo assim, parece que as novas tecnologias e formas de organização, além de
provocarem consequências sobre a quantidade de trabalho, também apresentam efeitos
sobre a qualidade do mesmo, no que diz respeito à qualificação. "Algumas profissões
desaparecem, outras se desenvolvem, ganham importância (...) Isso tudo demonstra que as
inovações tecnológicas afetam a qualificação das tarefas desenvolvidas no processo de
produção, alterando a própria qualificação exigida do trabalhador" (Dieese, 1994, p. 66).

A desqualificação gerada no auge da organização fordista do trabalho agora é motivo de


preocupação. O próprio processo de trabalho – inclusive na saúde - exige maior qualificação
em termos tecnológicos do que específicos em termos profissionais. Se em outros setores da
vida produtiva contemporânea, profissionais valorizados são os que possuem uma maior
intelectualização, ou melhor, preparo para o trabalho automatizado, no setor de saúde, o que
ainda tem valor é a formação específica do profissional. Sem ela, será de pouca valia o
domínio do trabalho automatizado.

Seguindo o mesmo raciocínio, a aproximação do sistema técnico informacional do sistema


de saúde tende a precarizar o profissional de saúde à medida que exige conhecimento além
da natureza do seu trabalho, obrigando-o a se familiarizar com um instrumento estranho ao
seu próprio trabalho. Ao ficar mais tempo familiarizando-se, adaptando-se, dando mais
atenção à máquina, a tendência é comprometer, degenerar as relações entre os homens. Até
porque, não tem como pensar em saúde sem pensar nas relações sociais entre homens.

Em suma, talvez a tecnologia não seja determinante dessas transformações, entretanto,


representa um aspecto importante nas modificações ocorridas no processo de trabalho
industrial, legitimando, por sua vez, estudos que investiguem tais transformações em outros
setores da economia.

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U NIDADE 27
Tecnologia da Informação e Qualificação Profissional: Um Estudo de Caso

Objetivo: Demonstrar como o uso de tecnologia da informação pode afetar a qualificação


profissional.

Conteúdo

Continuaremos lendo o artigo de Sandra Mara Maciel de Lima, “Tecnologia versus


qualificação: impactos no setor de saúde” onde ela analisa os impactos da tecnologia da
informação sobre os profissionais da saúde. Lembre-se de que a autora apresenta resultado
de pesquisa realizada nas unidades de saúde do município de Curitiba, no ano de 2001,
envolvendo médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem. Portanto, trata-se de um
estudo de caso em que ela apresenta trechos de falas no intuito de analisar a percepção dos
trabalhadores estudados.

O Controle Sobre a Máquina

De acordo com as necessidades das organizações sociais de cada época, ao longo dos anos
o conceito de qualificação vem se transformando para atender às referidas demandas. A
discussão sobre qualificação engloba não apenas estratégias gerenciais de controle do
trabalho e de obtenção de mais-valia, mas também a forma como o trabalhador, o indivíduo
percebe e reage a este processo.

Na década de 30, a noção de qualificação estava vinculada apenas ao controle da


maquinaria. Braverman cita o trabalho do Dr. Alba Edwards, no qual os trabalhadores eram
classificados entre qualificados – artífices, os não-qualificados – apenas trabalhadores e os

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semi-qualificados – operários (Braverman, 1987). Na tipologia citada, qualquer atividade não
ligada à máquina, era classificada como não-qualificada.

Nesta perspectiva, um trabalhador qualificado seria aquele artífice cujo preparo se deu por
vários anos e é formalmente reconhecido fora de uma firma individual; um trabalhador semi-
qualificado seria aquele que, durante um curto período de preparo adquiriu a destreza
manual ou conhecimento mecânico necessários para a sua função imediata, e um
trabalhador não-qualificado aquele cuja função não exige preparo formal algum de qualquer
espécie.

Sendo assim, ao se reduzir o trabalho à realização de tarefas parceladas, afasta-se o


trabalhador do processo de concepção. Apoiado na rígida separação entre concepção e
execução, o taylorismo como estratégia organizacional descreve como a produtividade do
trabalho pode ser radicalmente aumentada por meio da decomposição de cada processo de
trabalho em movimentos componentes e da organização de tarefas fragmentadas em
conformidade com padrões rigorosos de tempo e estudo do movimento (Harvey, 1993). O
trabalho de um marceneiro, por exemplo, embora necessite de muita experiência e
criatividade para criar e produzir um determinado objeto, deixa de ser caracterizado como
trabalho qualificado.

Na perspectiva do trabalhador, o conceito de qualificação está ligado ao domínio do ofício, à


combinação de conhecimento de materiais e processos com as habilidades manuais exigidas
para o desempenho de determinada função.

Com o parcelamento das funções e a reconstrução da produção como processo coletivo ou


social (Braverman, 1987), qualificação passou a ser interpretada como habilidade específica,
operação limitada e repetitiva. Qualificação passa a ser confundida com destreza, com
capacidade de executar tarefas com velocidade e perfeição.

Embutida nessa percepção está a noção de qualificação tácita, entendida como menor
valorização do conhecimento formal em favor da experiência subjetiva, muito difícil sua
transmissão por meio de linguagem explícita e formalizada. Este conhecimento está
vinculado à vivência concreta de um trabalhador particular numa situação específica, como

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conhecedor único das idiossincrasias próprias ao equipamento que conduz ou opera (Castro,
1994; Gorz, 1989).

Esta relação entre qualificação e repetição de tarefas aparece desenvolvida em Marx (1988)
ao definir qualificação como o processo exacerbado de redução da força de trabalho a uma
única tarefa, de especialização. É tomado como um conjunto de condições físicas e mentais
que compõe a força de trabalho despendida em atividades voltadas para a produção de
valores de troca. Sendo assim, a capacidade de trabalho é condição fundamental da
produção capitalista, uma vez que representa a possibilidade de obtenção de um valor
excedente, a mais-valia. Na esteira do taylorismo, qualificado é sinônimo de parcelado.

A Qualificação Polivalente e Politécnica

A qualificação também pode ser abordada em termos de polivalência ou politecnia. A


polivalência significa trabalho mais variado, com certa abertura quanto à possibilidade de
administração do tempo pelo trabalhador, não implicando necessariamente mudança
qualitativa das tarefas (Machado, 1994). Nesta perspectiva, mesmo se tratando de
equipamentos complexos, polivalência está longe de ser apreendida como intelectualização
do trabalho, uma vez que está baseada em tarefas diversificadas, porém rotineiras. É
suficiente, para ser um trabalhador polivalente, o recurso aos conhecimentos empíricos
disponíveis, permanecendo a ciência como algo que lhe é exterior e estranho.

O trabalhador polivalente adquire conhecimento prático e assume cada vez mais funções
rotineiras dentro da organização, intensificando seu trabalho, adicionando mais tarefas no
mesmo período de tempo sem que haja mudança, necessariamente, profissional em termos
qualitativos. Este trabalhador se torna capaz de "preparar a máquina, decidir sobre a
seqüência de atividades a serem feitas, diagnosticar falhas no processo produtivo e agir
sobre elas, prevenir produção fora da especificação etc." (Dieese, 1994, p. 167), mas nada
além dessa repetição sistemática de tarefas.

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Esta situação pode ser observada após a informatização do sistema de atendimento nas
unidades de saúde, quando os auxiliares de enfermagem passaram a executar tarefas que
antes eram feitas por um profissional da área administrativa, gerando conflito e revelando,
assim, um dos indicadores da precarização do trabalho:

"não sou auxiliar administrativo para fazer este serviço!" (Aux2, US-1, 28 Dez. 2000);

"esta não é minha função!" (Aux1, 22 Dez. 2000);

"o trabalho do auxiliar de enfermagem se tornou mais administrativo. O número de


atendimentos acaba forçando os atendentes a agilizar, mecanizar o atendimento. A pergunta:
Como você está? Não revela mais a preocupação pelo estado do paciente. Mas a
necessidade de obter este dado e preencher a ficha no computador. Sem este registro não
se marca nada" (Aux2, 28 Dez. 2000).

Os profissionais admitem que antes da informatização não existia o referido conflito. Os


depoimentos acima denotam, ainda, a falta de preparo destes profissionais para que
assumam tarefas diferenciadas, pois, para exercer o trabalho polivalente o profissional deve
possuir alguns requisitos comportamentais como: abertura, adaptação às mudanças,
possibilidade de lidar com regras e normas em situações diferenciadas, curiosidade, vontade
de aprender, motivação, iniciativa, atenção, responsabilidade etc. (Machado, 1994). E este
preparo demanda treinamento adequado e tempo para que os profissionais se aperfeiçoem,
buscando aproximar qualificação técnica de qualificação específica da função, uma vez que,
esta qualificação técnica não se configura como parte da natureza do trabalho na saúde.

No caso de uma qualificação politécnica, estas exigências se redefinem com a incorporação


de ingredientes como: discernimento e julgamento crítico; compreensão dos determinantes
sociais, econômicos e políticos das ações a serem empreendidas; independência na
avaliação das implicações das intervenções humanas frente a outras alternativas e
finalidades, e criatividade no enfrentamento das contradições.

Poderíamos dizer, então, que a politecnia se inscreve na perspectiva de "continuidade" e


"ruptura" com relação a polivalência e se apresenta como o "novo" em matéria de

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qualificação. Supõe que o trabalhador vá além do conhecimento específico na área da
saúde, que seja capaz de atuar criticamente em algumas atividades e busque com
autonomia os conhecimentos necessários ao seu progressivo aperfeiçoamento.

No entanto, no contrafluxo da politecnia, o que se percebe é que nas unidades de saúde o


que está sendo exigido do profissional é a polivalência. A mudança no processo de
atendimento (física e de gestão) é introduzida com o discurso de melhora qualitativa do
trabalho e no atendimento à população, entretanto, nada mais é do que uma estratégia para
obter mais produtividade, ou seja, adequar o atual número de profissionais ao aumento da
demanda de usuários, reduzindo os custos de novas contratações. Na verdade não há
ruptura, e sim intensificação da precariedade no trabalho do profissional e no atendimento à
saúde.

Uma auxiliar de enfermagem ao ser questionada sobre a mudança no seu trabalho após
tantas inovações respondeu da seguinte forma:

"... continua a mesma coisa. Inclusive, eu acho até que escravizou um pouco o funcionário,
porque a maioria do pessoal que lida com a informática, geralmente tem uma carga horária
reduzida. E a nossa carga horária continua oito horas" (Aux3, US-8, 09 Jan. 2001).

Este depoimento denota o sentimento do profissional de saúde com relação à sua formação
específica, questionando a exigência da qualificação técnica imposta pelo computador.

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U NIDADE 28
Tecnologia da Informação e Qualificação Profissional: Um Estudo de Caso

Objetivo: Demonstrar como o uso de tecnologia da informação pode afetar a qualificação


profissional.

Conteúdo

Nesta unidade leremos um último trecho do artigo de Sandra Mara Maciel de Lima,
“Tecnologia versus qualificação: impactos no setor de saúde” no qual ela analisa os impactos
da tecnologia da informação sobre os profissionais da saúde. Lembre-se de que a autora
apresenta resultado de pesquisa realizada nas unidades de saúde do município de Curitiba,
no ano de 2001, envolvendo médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem.

Conhecimento como Pilar da Qualificação

Na tradição marxista o conhecimento surge como um dos instrumentos utilizados pelo capital
para maximizar a produtividade do trabalho e, consequentemente, obter maior mais-valia
relativa.

Marx chamou de mais-valia relativa "a decorrente contração do tempo de trabalho necessário
e da correspondente alteração na relação quantitativa entre ambas as partes componentes
da jornada de trabalho" (Marx, 1988, p. 363). Considerando que a jornada de trabalho está
dividida em trabalho socialmente necessário para pagamento da força de trabalho e trabalho
excedente, a produção de mais valia relativa se dá pela redução do tempo de trabalho
necessário, ou seja, o trabalhador deverá produzir em menos horas a mesma quantidade de
meios de subsistência. Isto só é possível com o aumento da produtividade do trabalho. Por

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sua vez, a produtividade do trabalho exige modificação no processo, por meio de alterações
no instrumental ou no método do trabalho, ou em ambos.

Por muito tempo, a divisão social do trabalho e as inovações tecnológicas foram utilizadas
como instrumentos necessários ao aumento da produtividade do trabalho. O trabalhador
especializou-se, participando apenas da produção das partes, alienando-se do processo
global da produção.

No setor de serviços não acontece bem assim. Ao contrário do que ocorre na indústria, a
inovação tecnológica, por si só, não proporciona desempenho corporativo e nem
lucratividade exacerbada (Andreassi, 2002). No setor de serviços em geral e na área da
saúde, em especial, o que se destaca como fator fundamental são as habilidades e
capacitações dos funcionários. O conhecimento, então, está associado diretamente à área
da saúde.

A qualificação, portanto, é entendida neste trabalho, como a formação específica na área de


saúde, equivocadamente caracterizada até mesmo pelos profissionais da saúde, como
formação técnica. O conhecimento técnico, por sua vez, é entendido como a familiarização
do profissional com a informática.

Os depoimentos abaixo mostram a influência negativa do sistema técnico sobre o sistema de


saúde, indicadores da precarização do trabalho qualificado:

"se você entrar a fundo com esta pesquisa, o usuário vai dizer isso prá você. Que eles
preferem falar com as enfermeiras, porque elas não têm computador na sala delas. 'E se a
gente for falar com a pessoa ali, ah não dá... elas ficam no computador'. E a angústia deles é
assim: a máquina é mais importante do que eu" (Enf3, US-12, 15 Out. 2001);

"a gente se sente assim... um pouco robotizada... já que às vezes... como numa pré-consulta,
a gente pergunta pro paciente o que ele tem. Na época a gente conversava primeiro o que
ele tem, perguntava: o que você tem? O neném tá tomando que leite? ... ia pesar, ia medir, e
aí você ia conversando com a mãe ... ia orientando a mãe. Hoje, a gente abre a tela do
computador daí pergunta: "o que é que tem o neném?"Daí a mãe vai falando e você vai

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digitando. Mas na realidade a mãe tá falando e você nem tá olhando prá mãe, você tá
olhando prá tela" (Aux3, 09 Jan. 2001);

"... tem paciente que quer conversar... então às vezes a gente diz assim, que o nosso
paciente é mais o computador do que o próprio paciente [risadinhas nervosas]" (Aux8, US-
20, 25 Out. 2001);

"no começo eles reclamavam. Chegavam a dizer que a gente tava brincando naquela
máquina e não dava bola prá eles. E bem no começo que é mais difícil, você fica ali... então
eles diziam: 'vocês ficam brincando aí e não dão atenção prá gente'" (Aux5, US-18, 23 Out.
2001);

"no começo foi bem difícil [para o usuário]... Ficou complicado... porque existe uma
adaptação, primeiro do funcionário, e o funcionário está se adaptando na frente do usuário...
isso pro usuário foi ruim, então eles diziam assim: 'como é que mandam vocês, colocam
vocês em área sem treinar, aí ficam se batendo'. Demorava muito o atendimento, fazia fila...
então eles diziam que piorou porque...'estava piorando em vez de melhorar'; 'puseram o
computador em vez de melhorar'" (Enf2, US-5, 05 Out. 2001);

"porque você esquece, fica tão preso na parte burocrática [digitação dos dados] que o
conteúdo da enfermagem, que é ver o todo do paciente, você já não tem mais... o paciente
fala 'olha parece que a gente é uma máquina aqui, tem que digitar prá gente sair'" (Enf3, US-
12, 15 Out. 2001).

Muitos profissionais acabam por revelar que esta situação os preocupa. A introdução de um
sistema informatizado alterando o processo de trabalho, com certeza deveria estar visando a
uma melhoria nas condições de trabalho e atendimento aos usuários, mas ao que parece, o
objetivo é otimizar o trabalho dos profissionais.

A estrutura nas unidades mudou, mas a cultura social de apoio e priorização da saúde não.
Buscou-se alterar o processo de trabalho para atender a uma demanda maior da população,
mas não se investiu em aumento do número de profissionais nem na valorização dos que se
dedicam a esta atividade.

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Com a introdução do sistema informatizado houve aumento da produtividade em termos
quantitativos, pois o número de atendimentos registrados aumentou (ver Tabela 1 anexo A).
O aumento pode ser justificado tanto pela facilidade de controle e manutenção dos registros
de atendimento na recepção das unidades, como, também, pelo aumento da área de
abrangência da maioria das unidades do município.

Não significa somente que com a informatização o número de pessoas atendidas pelas
unidades aumentou, não mesmo. Este aumento pode ser melhor explicado pela nova gestão
do processo de atendimento, pois após a informatização, toda e qualquer pessoa que chega
na unidade, seja para marcar consulta, para pegar medicação ou para medir a pressão
arterial, tem sua demanda registrada sistematicamente pelo computador. Desta forma, o
número de registros nas unidades aumentou consideravelmente, pois anteriormente não se
tinha registro e controle de todos os procedimentos realizados.

Os depoimentos que seguem reforçam o raciocínio de que, no setor da saúde, a inovação


por si mesma não determina aumento de produtividade em termos quantitativos nem
qualitativos:

"nem o número de consultas aumentou, nem o número de médicos. Não dá para aumentar
as consultas porque já está no limite" (Aux4, 09 Jan. 2001);

[para melhorar precisa] "aumentar os médicos, porque têm poucos médicos, poucos
especialistas..." (Aux5, US-18, 23 Out. 2001);

"a gente está com problemas porque não temos médicos. Então a gente tem muito mais
usuário do que médicos na Unidade. Os pacientes se obrigam a vir mais cedo prá conseguir
consulta" (Aux7, US-19, 24 Out. 2001);

"com a redução de pessoal, com a informatização se perdeu muito..." (Aux2, 28 Dez. 2000);

"então, por ter menos médico agora, os auxiliares estão [em] escala meio apertadinha...
quando o médico está atendendo fica corrido, cada um tem seu lugarzinho... Teve uma
época que nós éramos em quatorze, sempre ficavam dois em cada setor. Agora é um só por
setor" (Aux4, 09 Jan. 2001);

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"com o sistema informatizado você tem a tua agenda fechada... e você tem que ter os
dezesseis atendimentos... eu acho que é pouco, eu acho que tinha que rever o tempo de
atendimento na Unidade. Se você quer um serviço de qualidade, se você quer um
atendimento minimamente razoável com o paciente, você não pode reduzir o tempo, você
não tem como atender em menos tempo" (Med1, US-13, 16 Out. 2001).

As declarações mostram que somente a inovação tecnológica não proporciona maior


produtividade, especificamente, no setor de saúde. Seriam necessários investimentos em
número de profissionais, incentivos salariais e suporte estrutural capazes de dar realmente
importância tanto ao profissional quanto ao usuário/paciente. A percepção de que faltam
médicos no setor de saúde torna visível que a produtividade do setor depende mais de
profissionais capacitados em termos específicos do que das inovações tecnológicas.

No entanto, cumpre lembrar que da mesma forma que o capital físico, o capital humano
também se deprecia. Demo (1999) afirma que o maior problema da depreciação do capital
humano não é o processo físico da idade, mas a rapidez com que o conhecimento específico
– aqui no caso, na saúde - e a tecnologia se tornam obsoletos. À medida que o
desenvolvimento dos novos conhecimentos e novas tecnologias se aceleram, torna-se mais
difícil e penoso para o trabalhador experiente da "sociedade do conhecimento" manter-se
atualizado em seu campo de atuação.

Portanto, uma solução para que os trabalhadores mantenham suas habilidades e


conhecimentos, atuando efetivamente no mercado de trabalho é o comprometimento com um
aprendizado contínuo.

Neste sentido, algumas declarações feitas pelos profissionais de saúde contrariam os


discursos "bem intencionados" em torno da formação continuada neste setor:

"no começo foi muito complicado, foi difícil... a equipe toda passou por um treinamento
prévio, mas foi um treinamento muito rápido, se não me engano uma semana, três dias... E
muita gente não tinha nem conhecimento do computador e isso dificultou muito..." (Enf5, US-
18, 23 Out. 2001);

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"... o nosso treinamento foi mínimo, foram três dias só" (Aux4, 09 Jan. 2001);

"eu acho assim que a gente devia ter um treinamento melhor porque ainda tem coisas que a
gente se perde. Mesmo que a gente tenha auxílio" (Aux8, US-20, 25 Out. 2001);

"o curso de treinamento foi muito rápido; o computador para mim era como uma nave de
extraterrestres... 'foi um parto' – é muita coisa; tinha medo" (Aux., US-28, 08 Nov. 2001);

"o treinamento foi só no início, os funcionários novos na Unidade estão aprendendo com os
colegas que já sabem pouco" (Aux., US-14, 17 Out. 2001).

Como se percebe, os treinamentos muito rápidos revelam que há um abismo entre a prática
e a teoria. Se a teoria fala em treinamento contínuo, os depoimentos mostram o contrário,
uma vez que foram exíguos ou, em alguns casos, inexistentes.

Os dados revelam que, ao contrário da teoria de Demo, no setor de saúde os investimentos


em conhecimento técnico e específicos foram praticamente nulos. Neste sentido o setor está
no contra-fluxo daquilo que Demo chama "sociedade do conhecimento", uma vez que
prioriza mais o condicionamento técnico do profissional do que propriamente conhecimento
na perspectiva emancipatória advogada por esse autor.

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U NIDADE 29
Informalidade e Saúde

Objetivo: Estudar as estratégias e redes sociais utilizadas por trabalhadores informais em


situações de infortúnio.

Conteúdo

Nas duas últimas unidades você estudará as estratégias e redes sociais utilizadas por
trabalhadores informais em situações de infortúnio. Para tanto, leremos trechos do artigo
“Retratos da informalidade: a fragilidade dos sistemas de proteção social em momentos de
infortúnio” de Fernanda Cockell e Daniel Perticarrari. Nele, foram entrevistados dezesseis
trabalhadores da construção de edificações de São Carlos-SP, onde se procurou entender
como estes trabalhadores lidam com a perda da capacidade de trabalho diante do contexto
de precariedade e como percebem tais situações.

As análises qualitativas apontam que a maior parte dos entrevistados encontra dificuldades
financeiras para adquirir formas privadas de proteção. Os resultados mostram que as redes
sociais informais são fundamentais no enfrentamento dos períodos de incapacidade laboral,
prevalecendo os apoios da família nuclear e extensa e das redes formadas na identificação
religiosa.

Bom estudo.

Retratos da Informalidade

O emprego assalariado, de longa duração e em tempo integral tem deixado de ser a forma
dominante de relação contratual, cedendo lugar ao trabalho temporário, parcial, executado

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de forma autônomo ou por projeto, terceirizado ou subcontratado, marcado pela baixa
qualidade, informalização e privação de direitos trabalhistas e previdenciários.

A Constituição Brasileira de 1988 institucionalizou a atual seguridade social, estendendo o


acesso aos serviços de saúde a todos os cidadãos, independente da contribuição para o
sistema de Previdência Social, possibilitando ao universo de informais a proteção dos
serviços de saúde pública e coletiva. Entretanto, a universalidade de cobertura não denota
igualdade de direitos, visto que, para os trabalhadores formais, a perda do emprego é
minimizada pelo aviso prévio, o FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) e o seguro
desemprego, caso oposto ao que ocorre com os informais que, como explica Néri, se
caracterizam pela inexistência de qualquer “seguro informalidade”. Para eles, o desemprego
é mais um agravante, pois na ausência dessas indenizações e na dificuldade de encontrar
um novo emprego, muitos acabam se sujeitando a atividades precárias ou mesmo ilegais.
Acrescenta-se a essa situação, o fato de também não contarem com nenhuma garantia de
renda no caso de acidente ou doença, assim sua família tampouco é amparada em caso de
sua morte; em alguns casos, o trabalhador informal nem mesmo dispõe da aposentadoria por
não conseguir comprovar o tempo de serviço.

Com o retraimento da proteção social exercida pelo Estado, as instituições não


especializadas e plurifuncionais – como a família, vizinhos ou redes de amigos – podem
exercer este papel. Contudo, diferentemente do que ocorria no passado, quando os casos de
infortúnio (eventos casuais e alheios à vontade humana) eram tradicionalmente amparados
pelos familiares, consolidam-se na atualidade outras formas privadas de proteção social,
sejam elas mercantis como planos de saúde, seguros de vida e planos de previdência ou não
mercantis como igrejas, instituições de filantropia ou associações mútuas.

Essas novas formas mercantis de proteção social surgem movidas pelo sentimento
crescente de insegurança e vulnerabilidade, habitual entre a população com trabalho
instável, ora trabalhando formalizados, ora informais, por vezes desempregados ou
realizando trabalhos temporários.

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Por este motivo, um número cada vez maior de pessoas passa a optar por tais formas de
proteção social. Trata-se de uma estratégia de enfrentamento para garantir o bem-estar
social em caso de doença, acidente, perda de emprego e velhice. Entretanto, nem todos
podem custeá-las.

Entre a vasta heterogeneidade de atividades do setor informal, há trabalhadores cuja renda


mínima mensal é maior do que no setor formal. Para esses, comumente os de maior nível de
escolaridade, os benefícios assegurados pela lei são compensados por uma maior
remuneração, o que lhes garante o acesso às formas privadas de proteção social. Contudo,
como afirma Lima e Soares, a maioria dos trabalhadores informais na América Latina tem
baixa renda, o que os impede de financiar a sua própria proteção social, permanecendo,
assim, “fora das redes de assistência social”.

Tal contexto tem trazido a necessidade de se compreender como os trabalhadores informais


conseguem garantir o seu sustento quando são afastados do trabalho. Desta forma,
pretendem-se analisar quais foram as redes sociais utilizadas por estes trabalhadores em
momentos de infortúnio. Buscamos entender ainda, quais são suas estratégias (existentes ou
não) frente a possíveis acometimentos da força física acarretados, tanto pelo
envelhecimento, quanto por doenças ou acidentes relacionados ou não ao trabalho.

O Papel das Redes Sociais nos Momentos de Infortúnio

As entrevistas nos permitiram vislumbrar o cenário atual de desproteção vivido pelos


informais ao perderem, mesmo que temporariamente, o seu maior bem: a força física. Para
cada episódio de afastamento e doença, ligados ou não ao trabalho, os participantes foram
questionados sobre como conseguiram se manter e quem os apoiou na época, mesmo
quando trabalhavam em outros setores.

Relatos de acidentes graves ou fatais, doenças crônicas e “casos de sorte” entremearam os


discursos, ora para explicar porque contribuem como autônomo para INSS, ora para
descrever a instabilidade da profissão e às vezes para ilustrar a falta de “sorte” dos colegas

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de profissão e de parentes que deixaram de trabalhar após um acidente ou devido ao
acometimento de uma enfermidade incapacitante. Uma dessas histórias merece destaque: A
“pneumonia” de Paulo.

O caso de Paulo nos foi contado em detalhes, pelo próprio entrevistado, pelo empreiteiro e
por seus colegas de trabalho Isaac e Dunga, que começaram a pagar a previdência como
autônomo após vivenciarem a dificuldade enfrentada por Paulo. Em 2006, Paulo passou mal
no trabalho e foi levado ao pronto socorro da cidade, com falta de ar. O primeiro diagnóstico
foi de pneumonia. Durante 12 dias permaneceu internado. Após um mês, começou a sentir
mal e 20 dias depois voltou a ser hospitalizado com o diagnóstico provisório de
pneumoconiose (doença respiratória grave causada pela exposição ocupacional à sílica).
Como nenhum dos seus dependentes trabalha, ele contou principalmente com a ajuda
financeira do empreiteiro e dos seus colegas de trabalho, segundo ele:

“Meu moleque não quer saber do pesado. A menina está grávida, vou ser avó e a mulher
nunca trabalhou. Aí fiquei com esse problema no pulmão. Graças a Deus o gato [empreiteiro]
me pagou direitinho. Me ajudou. Mesmo sem trabalhar, por quase quatro meses, ele não
faltou comigo. Teve caridade com minha família. Como a gente não tem contrato, ele podia
pegar outro e nem ligar para mim. Mas, ele é direito” (Paulo, servente).

Assim como Paulo, o entrevistado José também recebeu “ajuda” do contratante quando
permaneceu afastado do trabalho, por quase três meses.

“Já caí de andaime, faz um ano. Quem me levou foram os colegas. Quebrei o pé. Fiquei 25
dias no hospital passando por cirurgia. Por isso eu falo com você tem que ter uma reserva.
Eu usei minha reserva toda. O dono da casa até que ajudou, tinha coração bom. Ele me deu
dinheiro na época. Na época ele me deu uns 300 reais. A gente não tinha contrato, acho que
ele deu por medo deu colocar a boca no mundo, sei lá, ou por dó. Sem a minha poupança,
minha filha teria ficado sem plano de saúde e sem a escolinha. Tem que poupar sempre, a
gente não sabe o dia de amanhã, nem o de hoje!” (José, pintor).

Na medida em que estes trabalhadores perdem os seus direitos, o salário pago pelos
contratantes nos episódios de infortúnio é percebido como uma “caridade”, estabelecendo,

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certa relação de “tutela, ajuda e assistência de empregadores e do Estado”, em vez de
serem alvo do acesso à “participação, à justiça e aos direitos”. No discurso, a palavra “direito”
surge unicamente quando descrevem os acidentes ocorridos quando trabalhavam em
situações de trabalho formalmente regularizadas.

“Machuquei a coluna dentro da metalúrgica, era meu direito ter sido aposentado. Eles não
foram honestos comigo. Arrumaram uma função para mim, sem ter que fazer força, eu voltei
feliz, e um ano depois me demitiram. Sem orientação e estudo, não fui atrás dos meus
direitos. Não tive cabeça, hoje sei que podia ter levado [a fábrica] na justiça. Não é certo me
admitir para depois me mandar embora arrebentado, com a coluna lesada. Sem força para
fazer as coisas, não é justo!” (João, acabamento).

Abraão descreve porque processou a metalúrgica e buscou o cumprimento da lei:

“É um direito meu, perdi meu dedo porque eles não protegiam a máquina. Abri processo
porque eles sabiam que aquilo estava errado. Anos de luta, minha indenização está para
sair. É uma ajuda boa. Praticamente está ganho. Agora vai depender do Juiz qual o valor e
quando vão me pagar. Eles me aposentaram por invalidez, mas só perdi o dedo porque eles
não me escutaram. Por isso procurei o advogado, queria justiça. Não era certo me
aposentarem. Eu queria continuar como metalúrgico, por isso busquei meus direitos”
(Abraão, ajudante).

Por outro lado, não encontramos discursos de indignação ou de injustiça nos casos de
acidentes ocorridos durante o trabalho informal. Pelo contrário, percebemos certa “aceitação”
ou, “naturalização” pelo ocorrido. As condições adversas de trabalho, a precariedade dos
contratos de trabalho, a omissão do contratante e a falta de direitos não foram mencionadas
pelos informais durante os episódios de infortúnio. Parecem “resignados” com a desproteção
imposta pelo trabalho não regularizado, por vezes trazem uma idéia fatalista relacionada com
destino, com certo teor de autoculpabilização pela baixa educação formal.

Em outras situações, justificam o completo desamparo referindo-se ao sentido ideológico de


empregabilidade/empreendedorismo, onde cada um é responsável por sua contínua
qualificação e por sua permanência no mercado de trabalho.

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Desta forma, possuir uma rede intrafamiliar grande foi apontado, por nove entrevistados,
como uma vantagem diante dos casos de afastamento do trabalho. Explicam como foi
decisiva a ajuda fornecida por suas famílias na recuperação física e no provimento de
recursos. As redes de relações permitiram ainda o acesso aos serviços de saúde de maior
qualidade dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

A família promove, segundo Serapioni, maior facilidade de acesso aos serviços de saúde,
por meio de sua função de mediação e de conhecimento das oportunidades e dos critérios
de acessibilidade. Conhecer as pessoas certas pode ser um diferencial na recuperação do
trabalhador acidentado.

A família nuclear e extensa configurou-se como o nível mais significativo e estável de


provisão de apoio informal, buscando atender as necessidades físicas e psicológicas dos
seus membros, salvaguardando a saúde e lidando com a doença. Aguentam processos de
reajustamento e de reorganização diante do afastamento do chefe de uma família. Para arcar
com os compromissos adquiridos, passam a morar com parentes evitando gastos com
moradia e, além disso, priorizam as necessidades básicas da família. Contudo, ao mesmo
tempo em que os arranjos familiares assumem papel de destaque, estes podem se tornar
fragilizados em função da natureza e da gravidade do problema, do tempo de recuperação e
do papel desempenhado no seio familiar.

Para todos os entrevistados, cada dia parado significa um dia a menos de renda. Apesar da
gravidade do acidente ocorrido ou da doença acometida, observamos como a necessidade
financeira, a falta de proteção social/trabalhista e o medo do desemprego fizeram com que
muitos retornassem ao trabalho antes do total restabelecimento de sua força física, ou, até
mesmo, não interrompessem suas atividades ainda que sentindo dor ou com algum tipo de
limitação física e/ou emocional. A esse respeito, Oliveira & Iriart afirmam que alguns
trabalhadores não param de trabalhar apesar da gravidade do ocorrido, permanecendo em
constante conflito entre ser produtivo e se proteger.

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Fórum 2 – Trabalho e Informalidade

O emprego assalariado, de longa duração e em tempo integral tem deixado de ser a forma
dominante de relação contratual, cedendo lugar ao trabalho temporário, parcial, executado de
forma autônoma ou por projeto, terceirizado ou subcontratado, marcado pela baixa
qualidade, informalização e privação de direitos trabalhistas e previdenciários.

Como essas questões podem afetar a saúde de trabalhadores?

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U NIDADE 30
Fragilidade do Sistema de Proteção Social

Objetivo: Estudar as estratégias e redes sociais utilizadas por trabalhadores informais em


situações de infortúnio.

Conteúdo

Nesta unidade você continuará estudando as estratégias e redes sociais utilizadas por
trabalhadores informais em situações de infortúnio. Leremos mais um trecho do artigo
“Retratos da informalidade: a fragilidade dos sistemas de proteção social em momentos de
infortúnio” de Fernanda Cockell e Daniel Perticarrari.

Bom estudo.

E se a Força Física Diminuir? Doença, Envelhecimento e o Sonho da Aposentadoria

A maioria dos entrevistados relutou em respondeu sobre como se manteriam caso ficassem
doentes, sofressem um acidente que os impedisse de retornar ao trabalho ou perdessem a
capacidade de trabalho com o envelhecimento. Declarar algum tipo de estratégia significaria
admitir os riscos existentes, mostrando a fragilidade vivenciada.

Dejours elucida que ao manter a doença, a miséria e a fome à distância os trabalhadores


afastam para longe tudo que pode lembrá-las direta ou indiretamente. Ao evitar falar sobre o
assunto, tentam ocultar uma ansiedade presente na rotina instável e nociva de trabalho.
Admitir a possibilidade de se tornar dependente, é, aceitar, primeiramente, a precariedade
cotidiana.

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O risco aparece nas falas somente quando narram os acontecimentos com terceiros ou
ocorrido em um passado já distante. Mostram claramente o medo do imprevisto e como
percebem a desproteção social. Depender de terceiros para o cumprimento das
necessidades básicas, das tarefas de vida diária e para o sustento do lar é um “mal a ser
evitado”.

A ideologia defensiva está presente em quase a totalidade das respostas, mesmo entre
aqueles que apontaram com quais pessoas poderiam contar. Bater na madeira, pedir
proteção de Deus ou de algum santo católico mostrou-se uma defesa coletiva, elaborada por
todo o grupo.

“Nunca precisei, mas se eu ficasse doente, perdesse tudo com uma doença. Isso aí é vítima,
é trágico, também é fácil perder tudo com uma doença. Se for para eu perder tudo e
depender a gente vai depender. Não sei de quem, mas vai. A minha sogra não depende hoje
da gente? Mas, isso não vai acontecer nunca na minha vida porque eu tenho um Deus e Ele
é grande. Porque eu confio! Tem muita gente que poderia me ajudar com dinheiro, tem
irmão, o cunhado, minha filha. A gente não vai passar por isso! Não preciso nem te
responder, Deus não vai deixar” (Pedro, ajudante).

O tipo e a intensidade da proteção percebida não variaram muito. A maior parte limitou-se à
família nuclear, alguns membros da família extensa, amigos mais próximos, conterrâneos,
colegas de trabalho e a poucos vizinhos.

A expressão ninguém foi utilizada por cinco trabalhadores, mesmo quando faziam referência
a outras pessoas. Deus foi citado por doze entrevistados como parte da rede ou em
referência a fé que as pessoas depositam Nele. Pietrukowicz afirma que a “fé é o alimento
que dá à vida esperanças de dias melhores e ajuda a enfrentar as experiências mais
dramáticas do cotidiano”. É fonte de energias na recuperação da dignidade humana,
oferecendo um sentido à vida, consolo e orientações ante as situações de angústia e
identifica as pessoas como “filhos de Deus”.

Os resultados mostram que as associações, comunidades de bairro e o sindicato da


categoria não foram citados nenhuma vez, não fazendo parte das redes sociais dos

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entrevistados. A nosso ver, o que é antes de tudo determinante, não é apenas a ausência do
sindicato na luta por condições de trabalho menos precárias, mas também o futuro que a
profissão lhes oferece. Ou seja, à medida que o sindicato não é parte integrante das redes
sociais destes trabalhadores, eles perdem o único meio de representação institucional que
lhes restava diante da precariedade dos contratos de trabalho e da contínua perda dos
direitos.

O baixo nível de associativismo da classe trabalhadora, tanto no que diz respeito ao


associativismo sindical, como ao de classe e ao comunitário é um atributo marcante da
população brasileira.

O fraco associativismo nos permite inferir a dificuldade que enfrentam para romper as
fronteiras dos elos pessoais, embora transcendê-las seja fundamental para o enriquecimento
das redes informais e, consequentemente, para a ampliação da capacidade de mobilizar
diferentes formas de ajuda face à situação inesperada.

Para muitos, resta apenas o sonho da aposentadoria. Esperam aposentar quando não mais
tiverem forças para continuar trabalhando. Porém, o que certamente eles desconhecem é
que a concessão de aposentadoria por velhice aos 65 anos para os homens e 60 para as
mulheres somente é garantida aos trabalhadores cujo tempo de contribuição mínima seja
equivalente há 180 meses, ou seja, quinze anos. Isto é, diferente do senso comum, a
aposentadoria por idade não é um direito adquirido, pelo contrário, para solicitar o benefício,
os trabalhadores urbanos inscritos a partir de 25 de julho de 1991 precisam comprovar 180
contribuições mensais.

Caso contrário, quando completam a idade exigida, restará exclusivamente para os


trabalhadores com a condição de rendimento inferior a um quarto de salário mínimo
domiciliar per capita a possibilidade de aderir ao Benefício de Prestação Continuada da
Assistência Social (BPC). Excluindo os aposentados, apenas dois entrevistados contribuíram
acima do teto mínimo. Desta forma, é preocupante o fato de sete deles não pagarem o INSS
diante da expectativa da aposentadoria por idade.

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“Ultimamente eu não estou pagando não. Não está dando para pagar. Estou querendo pagar
sim para minha aposentadoria depois. Se não [...] todo jeito com 65 anos eu vou aposentar,
meu tempo não vai dar. Só se Deus me livre e me guarde se a gente precisar antes. Da
última vez tive que ter ajuda de todo mundo. O empreiteiro continuou pagando meu dia de
trabalho. Não tenho nem 5 anos de contribuição. Só me aposentarei pela idade mesmo
porque não vai ter jeito. Por tempo não dá “(Paulo, servente).

Cabe aqui ressaltarmos que o atual modelo de aposentadoria por idade ou por tempo de
serviço apresenta uma série de obstáculos para este tipo de trabalhador que, apesar de
nunca ter parado de trabalhar e de ter iniciado ainda criança o trabalho no campo, teve uma
trajetória ocupacional instável. Além disso, trajetórias estáveis, assalariadas e contínuas
tornam-se cada vez menos presentes no mercado de trabalho brasileiro.

Além do sonho da aposentadoria, quatro trabalhadores declaram o desejo de abrir um


negócio próprio quando ficarem mais velhos (comércio de material de construção,
lanchonete, loja de material de esporte e bar) e três afirmaram que planejam comprar “um
pedaço de terra” e retornar para sua cidade natal para trabalhar na lavoura ou na
agropecuária.

Outra estratégia apontada por Pedro, Isaac e Francisco é poupar dinheiro para construir
casas e poder viver de aluguel quando não mais conseguirem trabalhar. Dunga planeja fazer
o mesmo, mas para isso pretende utilizar o dinheiro da herança que poderá receber:

“Tem a herança para sair. Quero aplicar em alguma coisa. Lá 880 mil [reais] divididos para 4.
É do pai da mulher. Vai dar uns 220 mil, vou aplicar em casa. Se der na mão um dinheirão
desse e não souber aplicar perde. Eu quero construir e alugar. Quero usar o aluguel para
parar de trabalhar na construção, o trabalho é pesado e eu vou ficar velho” (Dunga,
pedreiro).

A existência de projetos ou simplesmente a viabilidade de tornar os sonhos em realidade


parece minimizar a insegurança atualmente vivenciada. Por outro lado, a fala dos
trabalhadores sem nenhum tipo de estratégia mostra um futuro incerto, desprotegido, e, por
vezes, até mesmo inexistente. Os discursos mostraram que as crenças, os valores e as

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expectativas sociais sobre doença e velhice remetem sempre a perdas físicas e, por sua vez,
dependência econômica e social. A maioria pretende continuar inserido no sistema produtivo,
tendo em vista os baixos valores das aposentadorias ou mesmo a impossibilidade de se
aposentar. Porém, treze entrevistados afirmaram que não desejam continuar na construção
civil até ficarem idosos, pois não conseguem vislumbrar um envelhecimento ativo neste ramo
diante da insegurança estrutural e das altas cargas de trabalho.

Considerações Finais

Constatamos que as redes sociais informais têm um papel fundamental na provisão de


recursos para os trabalhadores excluídos do sistema de seguridade social, principalmente
para aqueles cuja renda mensal inviabiliza o custeio das formas mercantis de proteção
social. Essas redes informais são constituídas pelos laços primários formados pela família
nuclear, família extensa e amigos, como também pelos diversos tipos de apoio – econômico,
emocional, afetivo, educacional, religioso ou social – proporcionados pelas redes de relações
de interdependência, de entreajuda e pelas redes não governamentais.

Torna-se evidente que as redes sociais formais configuram-se cada vez mais frágeis diante
da precarização da Previdência Social e da perda contínua de direitos trabalhistas e
previdenciários. O Estado, cada vez menos presente, e as instituições públicas não-estatais,
como o sindicato, fazem cada vez menos parte das redes destes trabalhadores. Situações
estas ainda mais alarmantes no caso do trabalhador informal, pois além de estar à margem
dos direitos assegurados na legislação, encontra-se desamparado pelo sindicato da
categoria.

É importante ponderarmos que, embora a maior parte dos entrevistados considere


insatisfatória a qualidade do atendimento recebido no SUS, todos, sem exceção, tiveram
acesso ao serviço público de saúde. Por vezes, precisaram manipular suas redes sociais
informais para obter um tratamento diferenciado – o que infringiria em parte as diretrizes de
universalidade, integralidade e equidade do SUS. Porém, apesar de todas as críticas

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recebidas e das limitações evidentes, o serviço público gratuito foi uma das poucas redes
formais de proteção social disponíveis.

Verificamos também que, apesar de fragilizada, pela desestabilização da condição salarial,


pela multiplicação das situações de precariedade e pela vulnerabilidade dos seus
provedores, a família vê, paradoxalmente, aumentar suas responsabilidades como
mecanismo de proteção social. Assim, na medida em que o Estado recua como regulador do
mercado de trabalho e da proteção social, as estratégias e situações colocadas em prática
pelos trabalhadores informais têm na solidariedade familiar seu principal ponto de
articulação. O reajustamento e a reorganização do núcleo familiar e as economias
minimizaram os efeitos causados pela vulnerabilidade das condições de trabalho e pela
fragilidade dos contratos de trabalho.

Mesmo quando possuem algum tipo de estratégia, a maioria absoluta dos entrevistados
evitou falar sobre quais formas de apoio poderiam contar caso perdessem a capacidade
física para o trabalho. Ter uma estratégia significaria admitir a fragilidade vivenciada. Assim,
tentando viver um dia de cada vez ou sonhando um futuro melhor, eles conseguem atenuar a
atual instabilidade e a incerteza quanto ao dia de amanhã. Para muitos, resta apenas o
desejo de trabalhar até se aposentar. Entretanto, podem, futuramente, não conseguir
preencher os critérios mínimos exigidos pela previdência social.

Podemos inferir, portanto, que no caso do trabalhador informal, quando sua vida não é
perdida no exercício do trabalho, a duração do tratamento e o tempo de recuperação
distinguem-se dos casos cobertos pelo INSS. Diante das dificuldades financeiras e da
desproteção social, antecipam o retorno ao trabalho antes do término do tratamento – caso
tenham recebido tal assistência – e, mesmo sem o restabelecimento completo de suas forças
físicas e mentais, voltam a exercer suas atividades para garantir o “pão nosso de cada dia”.

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Antes de iniciar sua Avaliação Online, é fundamental que você acesse sua SALA
DE AULA e faça a Atividade 3 no “link” ATIVIDADES.

Fórum 3 – Sistema de Proteção Social

As redes sociais informais têm um papel fundamental na provisão de recursos para os


trabalhadores excluídos do sistema de seguridade social, principalmente para aqueles cuja
renda mensal inviabiliza o custeio das formas mercantis de proteção social. Essas redes
informais são constituídas pelos laços primários formados pela família nuclear, família
extensa e amigos, como também pelos diversos tipos de apoio – econômico, emocional,
afetivo, educacional, religioso ou social – proporcionados pelas redes de relações de
interdependência, de entreajuda e pelas redes não governamentais.

Discuta como essas questões podem contribuir para a saúde e proteção previdenciária dos
trabalhadores.

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G LOSSÁRIO

ABSENTEÍSMO

Ausência dos trabalhadores no processo de trabalho, seja por falta, seja por atraso devido a
algum motivo interveniente.

ALIENAÇÃO

Perda da compreensão de seu status e papel dentro da organização.

ANTROPOLOGIA

Estudo dos valores simbólicos de uma determinada cultura ou grupo social;

AUTOMAÇÃO

Diz respeito à substituição ou apoio ao esforço mental do homem para a realização de uma
determinada série de operações, está relacionada, portanto, à realização de um conjunto de
operações sem interferência imediata do homem.

CADEIA PRODUTIVA

É um conjunto de etapas consecutivas, ao longo das quais os diversos insumos sofrem


algum tipo de transformação, até a constituição de um produto final (bem ou serviço) e sua
colocação no mercado. Trata-se, portanto, de uma sucessão de operações (ou de estágios
técnicos de produção e de distribuição) integradas, realizadas por diversas unidades
interligadas como uma corrente, desde a extração e manuseio da matéria-prima até a
distribuição do produto.

CÍRCULO DE CONTROLE DE QUALIDADE (CCQ)

É um conjunto de colaboradores que voluntariamente realizam reuniões regularmente em


busca da qualidade em suas organizações. Os círculos de qualidade iniciaram no Japão em

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1962 (Kaoru Ishikawa é considerado o criador dos Círculos de Qualidade) como um novo
método para melhorar a qualidade. O movimento no Japão era coordenado pela União
Japonesa de Cientistas e Engenheiros.

CLT – CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO

Foi criada através do Decreto-Lei nº 5.452, de 1° de maio de 1943 e sancionada pelo então
presidente Getúlio Vargas, unificando toda legislação trabalhista então existente no Brasil.
Seu objetivo principal é a regulamentação das relações individuais e coletivas do trabalho,
nela previstas.

CONTEXTO

Ambiente externo da organização que, de forma direta ou indireta, influencia a sua atuação e
o seu desempenho.

COOPERATIVA

Representa a união entre pessoas voltadas para um mesmo objetivo. Através da


cooperação, busca-se satisfazer as necessidades humanas e resolver os problemas comuns.
O fim maior é o homem, não o lucro. Uma organização dessa natureza caracteriza-se por ser
gerida de forma democrática e participativa, de acordo com aquilo que pretendem seus
associados, ou seja, empresa onde os trabalhadores são ao mesmo tempo sócios.

COORDENAÇÃO

Desenvolvimento de atividades de forma coordenada e controlada para atingir determinados


resultados. Este controle é geralmente efetuado por um líder, mas encontram-se muitas
vezes organizações em que estas tarefas são efetuadas por todos os membros em conjunto.

CORPORAÇÃO

(do latim corporis e actio, corpo e ação), é um grupo de pessoas que agem como se fossem
um só corpo, uma só pessoa, buscando a consecução de objetivos em comum. Num sentido
amplo é um grupo de pessoas submetidas às mesmas regras ou estatutos, e neste sentido é

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sinônimo de agremiação, associação ou ainda empresa. Num sentido mais estrito é uma
pessoa jurídica (diferente de pessoa física) que possui direitos similares a uma pessoa física,
mas sem se confundir com a natureza desta última.

DIREITO

Estudo do aparato jurídico e legislativo.

DORT

Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. É um grupo heterogêneo de


distúrbios funcionais e/ou orgânicos. Induzidos por fadiga neuromuscular devido ao trabalho
realizado numa postura fixa (trabalho estático) ou com movimentos repetitivos,
principalmente dos membros superiores.

DOWNSIZING

Enxugamento no quadro de funcionários.

ECONOMIA

Estudo das relações de troca e de produção

ECONOMIA INFORMAL

Envolve as atividades que estão à margem da formalidade, sem firma registrada, sem emitir
notas fiscais, sem empregados registrados, sem contribuir com impostos ao governo. No
mais, existem vários tipos de economia informal ex: vendedores ambulantes que trazem suas
mercadorias contrabandeadas para vender nos grandes centros.

É tudo que é produzido pelo setor primário, secundário ou terciário sem conhecimento do
governo( o governo não consegue arrecadar impostos e não são recolhidos os encargos
sociais dos trabalhadores da informalidade)

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FORDISMO

Dando prosseguimento à teoria de Taylor, Henry Ford (1863-1947), dono de uma indústria
automobilística (pioneiro), desenvolveu seu procedimento industrial baseado na linha de
montagem para gerar uma grande produção que deveria ser consumida em massa. Os
países desenvolvidos aderiram totalmente, ou parcialmente, a esse método produtivo
industrial, que foi extremamente importante para consolidação da supremacia norte-
americana no século XX.

GÊNERO

Refere-se às diferenças entre homens e mulheres. Ainda que gênero seja usado como
sinônimo de sexo, nas ciências sociais refere-se às diferenças sociais, conhecidas nas
ciências biológicas como papel de gênero. Historicamente, o feminismo posicionou os papeis
de gênero como construídos socialmente, independente de qualquer base biológica. Pessoas
cuja identidade de gênero difere do gênero designado de acordo com o sexo são
normalmente identificadas como transexuais ou transgêneros.

GLOBALIZAÇÃO

É um dos processos de aprofundamento da integração econômica, social, cultural, política,


com o barateamento dos meios de transporte e comunicação dos países do mundo no final
do século XX e início do século XXI. É um fenômeno gerado pela necessidade da dinâmica
do capitalismo de formar uma aldeia global que permita maiores mercados para os países
centrais (ditos desenvolvidos) cujos mercados internos já estão saturados. O processo de
Globalização diz respeito à forma como os países interagem e aproximam pessoas, ou seja,
interliga o mundo, levando em consideração aspectos econômicos, sociais, culturais e
políticos. Com isso, gerando a fase da expansão capitalista, onde é possível realizar
transações financeiras, expandir seu negócio até então restrito ao seu mercado de atuação
para mercados distantes e emergentes, sem necessariamente um investimento alto de
capital financeiro, pois a comunicação no mundo globalizado permite tal expansão, porém,
obtém-se como consequência o aumento acirrado da concorrência.

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INDÚSTRIA

É toda atividade humana que, através do trabalho, transforma matéria-prima em outros


produtos, que em seguida podem ser, ou não, comercializados. De acordo com a tecnologia
empregada na produção e a quantidade de capital necessária, a atividade industrial pode ser
artesanal, manufatureira ou fabril.

INOVAÇÃO

Significa novidade ou renovação. A palavra é derivada dos termos latins novus (novo) e
innovatio (algo criado novo) e se refere a uma ideia, método ou objeto que é criado e que
pouco se parece com padrões anteriores. Hoje, a palavra inovação é mais usada no contexto
de ideias e invenções assim como a exploração econômica relacionada, sendo que inovação
é invenção que chega ao mercado.

INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

É um termo usado para diferenciar inovações. A inovação tecnológica abrange os tipos


inovação de processo e inovação de produto.

JUST-IN-TIME / KANBAN

Sistema de organização da produção orientado para fabricar determinado produto apenas na


quantidade e no momento exatos. A produção é puxada por vendas e internamente o mesmo
ocorre, com processos finais “pedindo” componentes para os processos anteriores. A
expressão inglesa pode ser traduzida por “na hora certa”.

LAYOUT

“A configuração de instalação” estabelece a relação física entre as várias atividades. O


layout pode ser simplesmente o arranjar ou o rearranjar das várias máquinas ou
equipamentos até se obter a disposição mais agradável. No entanto, numa grande indústria
este procedimento não é tão simples, pois um simples erro pode levar a sérios problemas na
utilização dos locais, pode originar a demolição de estruturas, paredes e até mesmo edifícios
e consequentemente causar custos altíssimos no rearranjo. Para evitar tudo isto é

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necessário realizar um estudo, encontrando assim o melhor planejamento de layout. Pois, os
custos relativos ao planejamento de um layout são inferiores aos custos relativos ao
rearranjo de um layout defeituoso (Muther, 1978, p. 1). Existem vários tipos de layouts e cada
um deles se adequa a determinadas características, sendo uns mais vantajosos que outros
(Tompkins, 1996, p. 290). No planejamento do layout é necessário ter em conta todos os
fatores (os materiais, a maquinaria o Homem, o movimento, a espera, o serviço, a
construção e a mudança, pois estes fatores podem influenciar negativamente o planejamento
do layout (Muther, 1955, p. 27).

LER

Lesão por esforço repetitivo. Representa uma síndrome de dor nos membros superiores,
com queixa de grande incapacidade funcional, causada primariamente pelo próprio uso das
extremidades superiores em tarefas que envolvem movimentos repetitivos ou posturas
forçadas.

LINHA DE MONTAGEM

Mecanismo de transferência, que pode ser um trilho, uma esteira, ou um conjunto de


ganchos ligados a um mecanismo de tração integrado a um conjunto único que lhe transmite
um movimento regular ao longo do tempo. A cada um desses ganchos, ou em cima da
superfície da esteira, os objetos de trabalho são atados e assim transferidos para
praticamente todas as seções de trabalho em que se divide o setor de produção, sofrendo a
intervenção dos trabalhadores (que, por sua vez, se encontram distribuídos uniformemente
em cada ponto dessas seções) até que possa ser então, retirado dessa linha, testado,
embalado, e levado ao estoque de produtos acabados.

MARXISMO

É o conjunto de idéias filosóficas, econômicas, políticas e sociais elaboradas primariamente


por Karl Marx e Friedrich Engels e desenvolvidas mais tarde por outros seguidores. Interpreta
a vida social conforme a dinâmica da luta de classes e prevê a transformação das
sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo.

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Fruto de décadas de colaboração entre Karl Marx e Friedrich Engels, o marxismo influenciou
os mais diversos setores da atividade humana ao longo do século XX, desde a política e a
prática sindical até a análise e interpretação de fatos sociais, morais, artísticos, históricos e
econômicos. Tornou-se base para as doutrinas oficiais utilizadas nos países socialistas,
segundo os autores dessas doutrinas.

NEOLIBERALISMO

É um termo que foi usado em duas épocas diferentes com dois significados semelhantes,
porém distintos: Na primeira metade do século XX, significou a doutrina proposta por
economistas franceses, alemães e norte-americanos voltada para a adaptação dos princípios
do liberalismo clássico às exigências de um Estado regulador e assistencialista; A partir da
década de 1970, passou a significar a doutrina econômica que defende a absoluta liberdade
de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia, só devendo esta ocorrer
em setores imprescindíveis e ainda assim num grau mínimo (minarquia). É nesse segundo
sentido que o termo é mais usado hoje em dia.

OBJETIVOS

Metas ou resultados pretendidos.

OLIGOPÓLIO

(do grego oligos, poucos + polens, vender) é uma forma evoluída de monopólio, no qual um
grupo de empresas promove o domínio de determinada oferta de produtos e/ou serviços,
como empresas de mineração, alumínio, aço, montadoras de veículos, cimentos, laboratórios
farmacêuticos, aviação, comunicação e bancos. O Oligopólio que tem a maior Participação
no PIB Em termos de Receita Operacional.

ORGANIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

De forma geral, diz respeito ao conjunto formado pelo arranjo físico e tipo dos equipamentos,
pelos fluxos de materiais e pela organização do trabalho que compõem um sistema de
produção.

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ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Diz respeito aos métodos, conteúdos do trabalho e relações entre os ocupantes de cargos
em um determinado sistema de produção.

OUTSOURCING

(em inglês, "Out" significa "fora" e "source" ou "sourcing" significa fonte) designa a ação que
existe por parte de uma organização em obter mão-de-obra de fora da empresa, ou seja,
mão-de-obra terceirizada. Está fortemente ligado a ideia de subcontratação de serviços.

POLÍTICA

Estudo das relações de poder (estrutura política, partidos, mídia, etc.);

POSTO DE TRABALHO

Os trabalhadores são uniformemente dispostos lado a lado, a cada trecho por onde passa o
objeto de trabalho trazido pelo mecanismo de transferência, e nos quais já estão presentes,
na forma de pequenos estoques e com mecanismos que permitam seu mais fácil acesso aos
trabalhadores, os instrumentos, as ferramentas e as matérias-primas que serão utilizadas por
eles na tarefa estritamente determinada que tenham para cumprir. Esses postos de trabalho
são geralmente numerosos, ocupados por um trabalhador cada e ordenados de forma linear
e, sendo mínima a intervenção de cada um na produção como um todo.

PROLETARIADO

É a classe social dentro do Capitalismo que trabalha com os instrumentos de outra pessoa,
isso é, destituídos dos meios de produção, eles possuem apenas a venda de sua força de
trabalho para sobreviverem.

QUALIFICAÇÃO

É a preparação do indivíduo através de uma formação profissional ou técnica para que ele ou
ela possa aprimorar suas habilidades para executar funções específicas demandadas pelo
mercado de trabalho.

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RECURSOS

Os meios disponíveis à organização necessários à realização das suas atividades. Incluem-


se: os recursos humanos, os recursos materiais e tecnológicos, os recursos financeiros, etc.

REENGENHARIA

Reestruturação tecnológica e estrutural de uma empresa.

SINDICALISMO

É o movimento social de associação de trabalhadores assalariados para a proteção dos seus


interesses. Ao mesmo tempo, é também uma doutrina política segundo a qual os
trabalhadores agrupados em sindicatos devem ter um papel ativo na condução da sociedade.

SOCIOLOGIA

Estudo das instituições, grupos, interações, etc.

TAYLORISMO

O Taylorismo é uma teoria criada pelo engenheiro Americano Frederick W. Taylor (1856-
1915) que a desenvolveu a partir da observação dos trabalhadores nas indústrias. O
engenheiro constatou que os trabalhadores deveriam ser organizados de forma
hierarquizada e sistematizada, ou seja, cada trabalhador desenvolveria uma atividade
específica no sistema produtivo da indústria (especialização do trabalho). No taylorismo, o
trabalhador é monitorado segundo o tempo de produção, cada indivíduo deve cumprir sua
tarefa no menor tempo possível, sendo premiados aqueles que se sobressaem, isso provoca
a exploração do proletário que tem que se “desdobrar” para cumprir o tempo cronometrado.

TECNOLOGIA

Conjunto de conhecimentos registrados e disponíveis para a fabricação de determinado


produto. Resumidamente, as diversas formas de se fabricar uma coisa ou prestar um serviço.
Não se relaciona somente aos equipamentos, mas aos métodos de trabalho e
gerenciamento.

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TOYOTISMO

É um modo de organização da produção capitalista originário do Japão, resultante da


conjuntura desfavorável do país. O toyotismo foi criado na fábrica da Toyota no Japão após a
Segunda Guerra Mundial, este modo de organização produtiva, elaborado por Taiichi Ohno e
que foi caracterizado como filosofia orgânica da produção industrial (modelo japonês),
adquirindo uma projeção global.

TRABALHO PROLETÁRIO

Surge com a Revolução Industrial. Com o surgimento da Indústria, o proletário passa a ser
um empregado, recebendo um salário ruim, e cujo resultado de seu trabalho vai para a
burguesia. Assim, o proletário perde sua liberdade, fazendo sempre o mesmo serviço, se
alienando em sua produção, como Karl Marx dizia.

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