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Enter 'Enquanto pesquisava critérios de diferenciação entre orações coordenadas explicativas (OCE)

e orações subordinadas adverbiais causais (OSAC), verifiquei, em uma de suas respostas no campo
Consultório, que os senhores classificaram a oração «Ela estudava muito, pois desejava ser
aprovada» como OCE.

Parece-me irresistível não ver nela uma relação de causa (desejar de ser aprovada) e efeito (estudar
muito).

Por que ela é classificada como OCE? E como eu poderia reescrevê-la de modo a que ela se torne
uma OSAC?

Por exemplo, caso o verbo “desejar” estivesse no pretérito mais-que-perfeito do indicativo


(indicando que a ação de “desejar” é anterior a de “estudar”), a oração seria SAC?

Parabéns pelo excelente trabalho!

Eduardo Monteiro do Amaral Oficial Militar Anápolis, Goiás, Brasil 1K

Quando estamos perante uma frase que inclui uma oração subordinada adverbial causal,
tipicamente, a segunda oração descreve uma causa real:

(1) «O João partiu a perna porque caiu.» (O facto de ter caído tem como consequência ter partido a
perna)

Nesta frase, cair corresponde à situação apresentada como causa real que tem como consequência
«partir a perna».

Numa frase que inclua uma oração coordenada explicativa, a segunda oração não apresenta uma
causa real para a situação enunciada na primeira oração, mas antes uma causa a qual também não é
uma consequência da segunda. Trata-se, antes, de uma causa de dicto. Veja-se (2):

(2) «Vai chover, pois o céu esta muito escuro.» = «*O facto de o céu estar muito escuro não tem
como consequência chover.»
A frase (2) apresenta uma justificação para o enunciado apresentado na primeira oração, pelo que
poderá ter a seguinte paráfrase:

(2a) «Afirmo que vai chover, e justifico a minha afirmação com o facto de o céu estar muito escuro.»

Esta paráfrase não é possível em (1):

(1a) «*Afirmo que o João partiu a perna, e justifico a minha afirmação com o facto de ele ter caído.»

Acresce que a oração coordenada explicativa surge sempre em final de frase enquanto a subordinada
causal pode ser colocada no início ou no fim da frase:

(1b) «Porque caiu, o João partiu a perna.»

(2b) «*Pois o céu está muito escuro, vai chover.»

No plano da temporalidade, quando a causa é efetiva, a situação apresentada na oração causal é


temporalmente anterior à situação descrita na oração principal, enquanto na oração coordenada
explicativa esta anterioridade pode não ter lugar:

(1c) «Primeiro o João caiu, depois partiu a perna.»

(2c) «*Primeiro o céu está muito escuro, depois vai chover.»

Finalmente, se introduzirmos uma negação antes do verbo da primeira oração, no caso das orações
subordinadas causais o seu escopo será a oração subordinada, enquanto no caso da oração
explicativa o advérbio não não terá esta capacidade:

(1d) «O João não partiu a perna porque caiu (partiu a perna porque lhe bateram).»
(2d) «?Não vai chover, pois o céu está muito escuro.»

Em (2d), a negação incide apenas sobre chover e a justificação apresentada é sentida como estranha.

Apliquemos os testes1 apresentados atrás à frase apresentada pelo consulente, usando frases com
duas conjunções distintas – pois, conjunção típica das orações explicativas, e porque, conjunção
típica das orações causais:

(3) «Ela estudava muito, pois desejava ser aprovada.» = «Afirmo que ela estudava muito, e justifico a
minha afirmação com o facto de ela desejar ser aprovada (disse-o desde sempre).»

(4) «Ela estudava muito porque desejava ser aprovada.» = «?Afirmo que ela estudava muito, e
justifico a minha afirmação com o facto de ela desejar ser aprovada.»

(3a) «*Pois desejava ser aprovada, ela estudava muito.»

(4a) «Porque desejava ser aprovada, ela estudava muito.»

(3b) «*Primeiro ela desejava ser aprovada, depois ela estudava muito.»

(4b) «?Primeiro ela desejava ser aprovada, depois ela estudava muito.»

(3c) «*Ela não estudava muito pois desejava ser aprovada.»

(4c) «Ela não estudava muito porque desejava ser aprovada (estudava muito porque o pai lho
exigia).»

Os testes mostram que a frase (3), com a conjunção pois, reage bem aos testes de identificação da
coordenada explicativa. Neste caso, o locutor pretende com o seu enunciado defender que «ela
estuda muito», apresentando este facto como não comprovado ou não observável, pelo que sente
necessidade de justificar a sua afirmação com uma outra afirmação: a de que «ela tem o desejo de
ser aprovada». É este desejo que justifica a afirmação de que ela estuda muito, facto que é
apresentado como uma possibilidade na qual o locutor acredita.

A frase (4), com a conjunção porque, também reage bem à maioria dos testes. Somente a ordenação
temporal das situações descritas poderá levantar algumas dúvidas. Todavia, o importante é perceber
que nesta frase se afirma algo diferente do que se descreve em (3). Aqui, o locutor afirma um facto
que não é discutível («ela estuda muito») e apresenta a situação «desejar ser aprovada» como a
causa real deste estudo intenso.

Em (4) estamos perante uma constatação, enquanto em (3) estamos perante uma argumentação que
sustenta uma possibilidade.

Em conclusão, o consulente tem razão na interpretação que faz da frase (desde que não recorra ao
conector pois, que tem dificuldade em estabelecer nexos causais), mas também a resposta dada pelo
Ciberdúvidas está correta (esta recorrendo ao uso do conector pois).

Em nome do Ciberdúvidas, agradeço as gentis palavras que nos endereça.

Disponha sempre!

* Assinala anomalia sintática ou semântica.

? Marca a estranheza da frase.

1. Para maior desenvolvimento e para a identificação de outros testes, leia-se pp. Matos e Raposo in
Raposo et al., Gramática do Português. Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 1814 – 1816 e Lobo in
Ibidem, pp. 2006 – 2011'
in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-
conector-pois-ii/35915 [consultado em 08-07-2021]

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