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CURSO

Semiótica da Arquitetura:
o espaço arquitetônico como experiência e
signo de engendramento de condutas humana

Profa. Dra. Lucia de Souza Dantas


Outubro e novembrode 2020
1.

Programa 2.
1.

do curso 2.
3.
3.
1.
2.
Este é um programa
3.
preliminar, que está sujeito à
adaptações, conforme a 4.
evolução da dinâmica das 5.
aulas. 1.

2.

3.

4.
6.
Aula 3
Teoria da Percepção em Peirce e
percepção estética dos
elementos arquitetônicos
26/10/2020
O contínuo da experiência

Qualidade de
sentimento

Representação
Reação Existência (signo)
e – aqui e Mediação
Possibilidade agora cognição
relação

Primeiridade Segundidade Terceiridade


As três categorias

Terceiridade

Representação Segundidade
(signo)

Reação -
relação Primeiridade
Mediação - Existência – Qualidade - sentimento Possibilidade
cognição aqui e agora
Teoria da percepção em Peirce
Processo cognitivo do pensamento – por meio da percepção:

1) sensação – percepção

2) associação com ideias de passado e futuro

3) concepção

O pensamento é a linha melódica


que perpassa a sucessão de nossas sensações”
Da fenomenologia à semiótica

PRIMEIRIDADE Sentimento
Objeto
SEGUNDIDADE Signo
Memória Sensação Interpretante
TERCEIRIDADE

EXPERIÊNCIA PERCEPÇÃO SEMIOSE


Das diferenças entre:

1) Sentimento: experiência de interioridade,


contínua e singular (primeiridade)

2) Sensação: experiência de exterioridade,


definida e particular (segundidade)

3) Pensamento: experiência de interioridade,


definida e geral (terceiridade)
Peirce explica que:

Processo de “[...] em toda a imaginação e percepção há uma tal operação pela


qual o pensamento surge; [...]”. (CP 1.538 [1903]).
formação do
conceito de um
objeto, sob a ótica
do Pragmatismo Percepção sensível Esquematização - a
partir da imaginação
(memória e previsão
Busca pelas
consequências práticas
do objeto
Confirmação da
previsão das
consequências práticas

(Pragmaticismo) de futuro) no mundo – na


experiência possível

peirciano.
Generalização do A conduta do objeto Hábito, por sua vez, Logo, o significado do
conceito – aplicado à de forma repetida guia as condutas conceito do objeto é o
todos que podem ter a torna-se hábito – uma futuras próprio hábito do
mesma experiência regra, uma ordem objeto
possível. ( visitar o
objeto)
Sensação é decorrência da alteridade:
Sensação Logo, pode-se concluir que enquanto sentimento e
qualidade são elementos da primeira categoria, sensação,
(segundidade) embora também seja imediata, é elemento da segunda
categoria, pois requer reação, reação à alteridade, tendo
em vista que está associada aos cinco sentidos que são os
sentimento meios pelos quais a consciência toma contato com o
mundo externo: “Sensação e volição sendo assuntos de
(primeiridade) ação e reação se relacionam com coisas particulares.” (CP
1.341 [c.1895], CP 6.19 [1891]). Por isso, embora a sensação
contenha um elemento de primeiridade – o sentimento -
ela continua como elemento fundante de segundidade:
“A sensação tem duas partes: a primeira é o
sentimento, e segunda, o sentido de sua
assertividade, do meu ser sendo convencido
a tê-la. A consequência é que ter uma
sensação não é a mesma coisa que lembrar
dela.” (CP 7.543 [s.d.]).
Diferença entre sentimento e
sensação em Peirce:
Da diferença entre
ver e imaginar,
por exemplo, a cor
Templo de Dendur, período romano, reinado de Cesar Augusto, completo em 10 a.C. Egito, Nubia, Arenito. Doado aos EUA em
1965, e ao Met- NY em 1967.
Aquarela de David Roberts realizadas por volta de 1838 Templo de Hathor em Dendera, século I a.C.
TEORIA DA PERCEPÇÃO

A teoria da percepção peirciana, que explica


minuciosamente a passagem do estímulo
perceptivo (a partir dos seus elementos de
primeiridade e segundidade) até a gênese da
formulação do juízo - com seus elementos de
primeiridade, segundidade e terceiridade é
extremamente esclarecedora para o estudo da
arte, uma vez que possibilita o entendimento do
jogo perceptivo sensorial, sensitivo e cognitivo.
I
Do conceito de
percepto
“[...] o ponto importante é que o senso de externalidade na
percepção consiste em um senso de impotência diante da
força avassaladora da percepção”.
(CP 1.334 [1905]).
1. CONCEITO DE
PERCEPTO:
o percepto tem um
evidente caráter de
“O percepto brutalmente se força sobre nós.”
segundidade na sua
imediatez de choque de (CP 1.253 [1902])
alteridade.

“Nós estamos compelidos a admitir o percepto, um


conhecimento que se força sobre nós, que é imediato, e,
portanto, acrítico. No entanto, gera uma descrição imprecisa,
imperfeita, que é o juízo perceptivo.”
(CP 2.141[1902]).
Em sua singularidade, o percepto tem simultaneamente elementos de primeiridade
(qualidades de sentimento) e de segundidade (vivacidade de alteridade). Nas palavras de
Peirce:

“Assim, dois tipos completamente diferentes de elementos irão compor


qualquer percepto. Em primeiro lugar, há as qualidades de sentimento ou
sensação, cada qual é alguma coisa explícita e sui generis, sendo tais como são
sem levar em conta como ou o que qualquer outra coisa é. Em virtude desta
autossuficiência, é conveniente chamá-los de elementos de "primeiridade". [...]
A vivacidade com a qual um percepto se destaca é um elemento de
segundidade, porque o percepto é vívido com relação à intensidade de seu
efeito sobre o percebedor. Esses elementos de segundidade trazem consigo a
peculiar singularidade do percepto.” (CP 7.625 [1903]).
Qualidade Vivacidade
de de PERCEPTO
sentimento alteridade
II
Do conceito de juízo
perceptivo
Segundo Peirce, o juízo perceptivo é “[...] o ponto de partida ou a
primeira premissa de todo o pensamento crítico e controlado.” (CP
5.181 [1903]).

O JUÍZO PERCEPTIVO
É INCONTROLÁVEL “Mesmo depois do percepto [percept] ser formado, há
uma operação que me parece ser quase incontrolável.
É esta operação de julgar o que é que uma pessoa
percebe. Um juízo [judgment] é um ato de formação
de uma proposição mental combinada com sua adoção
ou ação de assentimento. [...] O juízo perceptivo
[perceptual judgment], isto é, o primeiro juízo que uma
pessoa faz com o que está diante de seus sentidos,
não carrega mais semelhança com o percepto do que
uma figura que eu desenhe de um homem.[...] Não
vejo como é possível exercer algum controle sobre
esta operação ou como submetê-la à crítica. [...] Até
que eu tenha maiores esclarecimentos, considerarei o
juízo perceptivo totalmente fora de controle.”
(CP 5.115; EP2, p.191 [1903], grifo do autor).
JUIZO “[...] todo nosso conhecimento baseia-se em juízos
perceptivos. Esses são, necessariamente, verídicos num
PERCEPTIDO grau maior ou menor, conforme o esforço feito, mas não
há significado em dizer-se que têm outra verdade que não
NÃO É PASSÍVEL a veracidade, porquanto um juízo perceptivo nunca pode

DE CRÍTICA ser repetido.”(CP 5.142 [1903]).

Por isso, o juízo perceptivo é imune à crítica. Ele só pode ser aceito, mas
não verificado. Sendo assim, ele está sempre ‘correto’, pois juízo
perceptivo apenas diz o que se percebeu, e não o que o fato perceptivo é:

“Tudo que eu posso entender sobre o juízo perceptivo é


que é um juízo imposto em termos absolutos à minha
aceitação, e isto através de um processo que eu sou
completamente incapaz de controlar e, por conseguinte,
incapaz de criticar.” (CP 5.157 [1903]).
Percepto e juízo perceptivo

“O juízo perceptivo é tudo, mas o é na mesma relação para com o

conhecimento e a crença que o percepto. É verdade que eu posso, por um esforço

de vontade, abster-me de pensar sobre a cor da cadeira, de modo que o juízo “a

cadeira parece amarela” não é incondicionalmente forçado sobre mim e, portanto,

pode parecer que não participa totalmente do caráter da percepção. Pode-se, no

entanto, escapar do próprio percepto fechando-se os olhos. Mas, se alguém ver, não

pode evitar o percepto, e se alguém olhar, não pode evitar o juízo perceptivo. Uma

vez apreendido, ele absolutamente se impõe à admissão. Sua falha de firmeza, é,

portanto, excessivamente leve e de nenhuma importância lógica.”

( CP 7.627 [1903])
Cadeira Charles
Eames Eiffel
Cadeira Way
Desig Corporate
Cadeira Allgra Rivati
Cadeira Scheel
Cadeira retirada de propaganda na internet Cadeira Egípcia – c. século XIII a.C. British Museum - Londres
Trono
encontrado na
Tumba de
Tutancâmon-
Egito, século XIV
a.C – Museu do
Cairo
Joseph Beuys, Cadeira com gosrdura, 1964
Cadeira de madeira, gordura e arame,
47x42x100 cm
Herssisches Landesmuseum, Darsmstadt, Alemanha
'bela bagunça' por alejandro cerón

https://www.designboom.com/design/alejandro-
ceron-beautiful-mess-collection/
One and Three Chairs,
1965
(Uma e três cadeiras),
Joseph Kosuth

(objeto real- coisa, representação- fotografia , definição do conceito - dicionários)


CHER, CHAIR, SHARE
(Hello Joseph, 2011)
“Percebemos o que
estamos preparados para
interpretar”
Peirce

45
Lago da consciência
“A consciência é como um lago sem fundo no qual as ideias estão
suspensas em diferentes profundidades. Na verdade, essas
ideias constituem, em si mesmas, o próprio ‘médium’ da
consciência. Os perceptos sozinhos são despidos de mediação.
Nós devemos imaginar que há uma contínua chuva sobre o lago,
que representa o constante influxo de perceptos na experiência.
Todas as outras ideias além dos perceptos estão mais ou menos
profundas [...]” (CP 7.553 [s.d.]).

Nesta metáfora do lago, além da ideia de gotas que cutucam


aleatoriamente, e, portanto, agem como álter, existe a ideia do lago
sem fundo, onde não há limite. Ora, o lago é líquido e móvel, e o fato
dele ser sem fundo traz o sentido de que na consciência sempre cabe
mais ideias, umas mais rasas, e, portanto, mais acesas, e outras mais
profundas e, portanto, menos evidentes.
Por outro lado, a ideia de aleatoriedade do que chega à consciência imediata e pré
cognitiva por meio de perceptos também está associada à noção de que algo interno
interfere no processo de experiência com a alteridade do percepto. Voltando à
continuação deste texto de Peirce:

[...] O sentido dessa metáfora é que aquilo que está mais profundo é
discernível somente através de um grande esforço. [...]. Uma ideia
próxima a superfície atrairá aquela que está mais profunda. [...]
Parece ser um fator de “momentum” pelo qual a ideia originalmente
obscurecida torna-se mais nítida do que aquela que a trouxe para
cima. [...]. Ainda, outro fator parece interferir no grau de flutuação
ou associação com qualquer ideia que possa ser vívida, o fato de
pertencerem àquelas ideias que chamamos de propósitos, em
virtude dos quais elas são particularmente aptas a serem levadas e
permanecerem perto da superfície, e perto do influxo dos perceptos
e, portanto, ajudam a conservar mais elevadas todas as ideias com
as quais eles podem estar associados. [...]. Os níveis de ideias
facilmente controladas são aqueles que são próximos o suficiente da
superfície para que sejam fortemente afetados pelos propósitos
presentes. A pertinência desta metáfora é muito grande.” (CP 7.557
[s.d.]).
Propósitos e
juízos
perceptivos
Primeiridade
O processo de
percepção: Sentimento
É imediato
(Presentidade)
do percepto ao
juízo perceptivo Experiência
interna

Segundidade

É imediata JUÍZO PERCEPTIVO


Percepto Sensação
(Aqui e agora)

Experiência
externa

Terceiridade

Ideias na mente Mediada


Memória (no tempo)

Experiência
interna
III
Percepção – imaginação
- alucinação
O embuste da percepção

“Todos sabemos, muito bem, aliás, o quão terrivelmente insistente pode ser
a percepção; e, no entanto, por tudo isso, em seus graus mais insistentes, pode ser
totalmente falsa, isto é, não pode caber no conjunto geral da experiência, e ser uma
malfadada alucinação. Em outros casos, a insistência do percipuum pode ser algo
como um embuste.” (CP 7.647.[1903])
PERCEPÇÃO E ALUCINAÇÃO

“Não há diferença entre uma percepção real e uma alucinação,


tomadas em si mesmas; ou se houvesse, seria totalmente
irrelevante. A diferença é que as previsões racionais baseadas em
alucinação serão aptas a serem falsificadas - como, por exemplo,
se a pessoa que tem a alucinação, espera que outra pessoa veja a
mesma coisa - enquanto previsões verdadeiramente sadias,
baseadas em percepções reais, são para supostamente nunca
serem falsificadas, embora não tenhamos nenhuma razão
explícita para considerar tanto esta quanto aquela.” (CP 7.644
[1903], grifo do autor).
Exemplo da escada de Schoeder
Do limite entre a percepção e a
imaginação: alucinação
Se é possível aferir que se por um lado há uma especificidade de um olhar artístico
que seria, como chama Peirce, um olhar poético do mundo, um olhar que vê o
presente como presente, na sua imediatez das qualidades de sentimento (PEIRCE,
CP 5.44), por outro, este olhar abre a possibilidade de um processo de percepção
amalgamado ao um jogo de devaneio imaginativo que carreia um vaivém entre
percepção e alucinação (seja a alucinação derivada de um gatilho sensorial, isto é,
provocada por um percepto, ou puramente mental.) Ou seja, Peirce explica que a
percepção está intimamente correlacionada à imaginação. E vai além: Peirce evoca
a noção de alucinação em sua possibilidade de ser confundida com a percepção da
alteridade propriamente dita. Diz ele que:

Assim também, todas as alucinações, as não-verídicas, as


fortuitamente verídicas e as decididamente verídicas,
para nós, são, nelas mesmas, um só e o mesmo
fenômeno. Mas isso não é tudo. O princípio serial não nos
permite desenhar uma linha precisa de demarcação entre
percepção e imaginação. (1903, CP 7.645- 6)
O olhar poético: da
percepção estética em
Peirce
Percepção No caso específico da cognição da arte, dado
que tanto a experiência como o juízo da arte
estética têm um importante caráter estético (sensível),
(SENSÍVEL) a percepção, que opera como propulsora deste
tipo de cognição, constitui-se, necessariamente,
como um fator sensível preponderante.
Todavia, ela é redimensionada a partir de ideias
prévias, que conduzem nossa percepção,
inclusive a estética.
O olhar do artista

“[...] olhar para o que está presente tal como aparece aos
olhos do artista. O modo poético aproxima o estado no
qual o presente surge como presente [...]”
(PEIRCE, CP 5.44)
Da relação entre imaginação e percepção

[...] a imaginação [Φαντασία] é um movimento gerado pela ação da percepção sensorial em


atividade. Ora, uma vez que a visão é o sentido por excelência, a palavra «imaginação»
[Φαντασία] deriva da palavra «luz» [Φάος] porque sem luz não é possível ver.

Aristóteles (350 a.C., De Anima, 428b 30 - 429a 1-4)

A imaginação é uma afeccção da consciência, que pode ser diretamente comparada com um
percepto, do qual algumas particularidades podem estar mais acentuadamente em acordo
ou em desacordo com ela.

Peirce (1903, CP 2.148)


ALUCINAÇÃO ARTÍSTICA: IMAGINAÇÃO

“Mas porventura provavelmente me perguntarão se não admito que exista algo tal
como uma ilusão ou alucinação. Ah sim! Entre os artistas, eu conheci mais de um caso
de imaginação alucinatória ao sinal e sob o chamado dos {poietai} [poetas] É claro,
que a pessoa sabe que tais aparições obedientes [obedient spectres] não são
experiências reais, porque a experiência é aquela que se impõe sobre si, quer queira,
quer não. Alucinações propriamente ditas - alucinações obsessivas - não sairão sob um
comando, e as pessoas que estão sujeitas a elas estão acostumadas a chamar as
pessoas que estão com elas para averiguar se o objeto diante delas tem uma
existência independente de sua doença ou não. Existem também alucinações sociais.
Nesses casos, uma câmera fotográfica ou outro instrumento do tipo pode ser de boa
serventia.” (CP 5.117 ou EP2, p.192 [1903], grifo do autor).
Davaneio O fato é que a linha que separa a percepção
imaginativo da alteridade - gerada por um percepto que
nos impele a observá-lo e aceitá-lo - e o puro
devaneio imaginativo, tão caro e
característico do ato criativo -, é muito tênue,
e por vezes, impossível de ser identificada,
embora sejamos impelidos a concordar que
ela exista. Há uma passagem especialmente
esclarecedora a este respeito, quando Peirce
afirma que:
“[...] sim, entre os artistas, eu sei de mais de
um caso de uma flagrante imaginação
alucinatória a serviço dos poetas [poietai].”
(1903, CP 5.117)
A percepção
sensível do artista –
ou o olhar poético
A PERCEPÇÃO DO ESPAÇO
E DA COR
Mark Rothko
No. 13 , 1949
No. 14, 1951

Óleo sobre tela


Rothko Chapel
Houston, 1971

Arquitetos:
Philip Johnson,
Howard Barnstone,
Eugene Aubry

http://www.rothkochapel.org/l
earn/about/
Espaço de
meditação: da “Em 1964, Mark Rothko foi comissionado por John e Dominique de Menil

cor ao espaço (que também são os fundadores da coleção Menil, localizada no Museu
Menil, projetado por Renzo Piano e na Cy Twombly Gallery) para criar um
espaço meditativo repleto de suas pinturas específicas do local. O
arquiteto original designado para trabalhar ao lado de Rothko foi Philip
Johnson, com quem Rothko se confrontou com suas ideias distintas para
o edifício. Rothko se oporia à monumentalidade do plano de Johnson
como distração da obra de arte que seria abrigar. Por esta razão, a
Capela passaria por várias revisões e arquitetos trabalhando no espaço
meditativo. Rothko continuou primeiro com Howard Barnstone e depois
Eugene Aubry, mas no final não viveu para ver a conclusão da capela em
1971.”
( descrição dos arquitetos apud:
https://por.architecturaldesignschool.com/ad-classics-rothko-chapel-
77949)
The House of Silence [ A casa do silêncio]
Juhani Pallasmaa

House and Gazebo, Lakeside Site in Eastern Finland

“[…] tal como ele uma vez disse : “ esquecer o nariz no mundo do lado de fora e ouvir apenas a batida de seu próprio coração.””

[– as he once put it – “to forget the noise of the outside world and listen only to one’s own heartbeat”]. Apud: Petra Čeferin

(http://oris.hr/en/oris-magazine/overview-of-articles/%5B104%5Dthe-nature-of-silence,2368.html)


EXPERIÊNCIA
primeiridade
segundidade
terceiridade PERCEPÇÃO

Da percepção à sensibilidade
sensação

intepretação da arte repertório

ARTE
à luz da
filosofia de APREENSÃO
Charles Sanders Peirce COGNIÇÃO
signo
memória
reconhecimento
semiose
juízo perceptivo
significado
A Epifania poética
O jogo entre percepção e
alucinação no olhar do artista
Os estímulos alucinatórios -
imaginativos

“Sou da opinião que não se deverá desprezar aquele que olhar


atento para as manchas da parede, para os carvões sobre a grelha,
para as nuvens, ou para a correnteza da água, descobrindo, assim,
coisas maravilhosas. O gênio do pintor há de se apossar de todas
essas coisas para criar composições diversas: lutas de homens e de
animais, paisagens, monstros, demônios e outras coisas
fantásticas. Tudo, enfim, servirá para engrandecer o artista. [...].
Com esses muros e essas pedras dá-se o mesmo que com o som
dos sinos, em cujo toque encontrarás todos os nomes e palavras
imagináveis.”

(Leonardo da Vinci, Tratado da Pintura, séc. XVI)

Leonardo Da Vinci
St Jerome
c. 1480
Oil on panel, 103 x 75 cm
Pinacoteca, Vaticano
Epifania
[ephipháneia]
Virgin of the Rocks Virgin of the Rocks
1495-1508 1483-86
Oil on panel, 189,5 x 120 cm Oil on panel, 199 x 122 cm
National Gallery, London Musée du Louvre, Paris
Mona Lisa (La Gioconda)
c. 1503-5
Oil on panel, 77 x 53 cm
Musée du Louvre, Paris
Arte como devaneio compartilhado

Nesta esteira, Danto argumenta a possibilidade de se definir a arte como ‘devaneio’


compartilhado. E a arte é um ‘sonho acordado’, que é diferente de um mero sonho, porque
pode ser compartilhado. Eis a diferença da arte e da mera imaginação. Nas palavras dele:

“Decidi enriquecer minha definição de arte anterior de significado


encarnado [embodied meaning] - com outra condição que capta a
habilidade do artista. Graças a Descartes e Platão, definirei arte como
‘sonhos acordados/devaneios’ [wakeful dreams]. O que explicaria a
universalidade da arte. Minha compreensão é que todos, em todos os
lugares, sonham. Geralmente isso exige que estejamos dormindo. Mas, os
devaneios [wakeful dreams] exigem que estejamos acordados. Sonhos são
feitos de aparências, mas precisam ser aparências das coisas em seu
mundo. É verdade que as diferentes artes do museu enciclopédico são
feitas por diferentes culturas. Eu apenas comecei a pensar sobre devaneios
[wakeful dreams], que, diferente dos sonhos que nos chegam dormindo,
têm a vantagem de poderem ser compartilhados [shared]. Eles,
consequentemente, não são privados, o que ajuda a explicar por que todos
na plateia riem ao mesmo tempo, ou gritam no mesmo
momento.” (DANTO, pp. 48-49, tradução minha).
Por outro lado, igualmente, Danto sugere definir a arte como
‘significado encarnado’ [embodied meaning]. E, neste sentido,
novamente, ele atenta para a necessidade da exteriorização da arte,
enquanto obra. Pois, nem significado, nem devaneio, se continuem
como uma arte por si mesmos, uma vez que é preciso a realização e
a existencialização desse processo de pensamento e devaneio de
arte em produto. Por isso, a arte é ‘devaneio’ [wakeful dream]
compartilhado. O que nos faz lembrar a afirmação de Peirce, citada
no início da aula:

“[...] em toda a imaginação e percepção há uma tal


operação pela qual o pensamento surge; [...]”.
(CP 1.538 [1903]).
Pensamento é
um signo Cognição, pensamento, enquanto mediação e
representação, é signo, Peirce discorre que:

“Cada pensamento, ou representação cognitiva é


da natureza de um signo. ‘Representação’ e
‘signo’ são sinônimos.” (CP 8.191 [1904]).

Logo, o significado de alguma coisa, i.e., um


conceito, um SIGNO, é a representação
(elucidação) do real, a partir da experiência e a
partir dos efeitos que o signo gera na conduta.
• DANTO, Arthur. (2014) What art is? New York: Yale University Press.

BIBLIOGRAFIA • PEIRCE, Charles Sanders. (1931-35 e 1958) The Collected Papers of Charles Sanders
Peirce. Edited by Charles Hartshorne, Paul Weiss, and Arthur W. Burks.
CITADA Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1931-35 e 1958. 8 vols.
Eletronic Edition. [citado CP, seguido pelo número do volume e número do
parágrafo]
As traduções dos textos de • ______. (1903/2017) SOUZA DANTAS, Lucia Ferraz Nogueira de. Telepatia e
Peirce (referenciadas por CP percepção. In: Cognitio: Revista de Filosofia, [S.l.], v. 18, n. 2, pp. 344-375, fev.
(Collected Papers), são minhas. 2018. ISSN 2316-5278. Disponível em:
<http://revistas.pucsp.br/cognitiofilosofia/article/view/35754/24679>. Acesso em:
10 ago. 2019. doi:https://doi.org/10.23925/2316-5278.2017v18i2p344-375.

• DANTAS, Lucia F. N. de; GHIZZI, Eluiza B. (2018) Experiência Estética e


Continuidade na Obra de Arte: A Pintura de Lucian Freud à Luz do “Hiato no
Tempo” e das “Coisas sem Nome” de Ivo Ibri. In: GHIZZI, Eluiza Bortolotto et al.
(org.). Sementes de pragmatismo na contemporaneidade: homenagem a Ivo
Assad Ibri. São Paulo: FiloCzar (pp.119- 132).

• DANTAS, Lucia Ferraz Nogueira de Souza. (2019) Contribuições da filosofia de


Charles S. Peirce para uma investigação acerca de questões de fenomenologia e
ontologia das obras de arte. 2019. 309 f. Tese (Doutorado em Filosofia) -
Programa de Estudos Pós-Graduados em Filosofia, Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo, São Paulo, 2019.
PRATONE
Poltrona
•Design de Pietro
Derossi , Giorgio Ceretti,
Riccardo Rosso