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ADENDA

TEXTUAL
[por Nuno Miguel & Rogério Nuno Costa]

”Salão de Beleza Bela” [performance culinária no corpo de Mariana Tengner Barros, 2010]
DO SENSUAL ABSOLUTO
E OUTRAS ESTÉTICAS TECNO-EMOCIONAIS
[manifesto, 2009]

A comida é sem porquê e isso basta.


Abaixo as teorias!
A comida como refúgio do sensual não tem que ser arte. A arte é um cancro hegeliano. Por
mais livros que se escrevam, nada ultrapassa um marron glacé.
O que se destila de útil nestes vários milénios de arte é um movimento de libertação que
acabou por nos libertar da própria arte e caminha para ultrapassar novos limites...
A arte é uma maçada “burrocrática” e um limite em si mesma.
Não chamemos a isto “paradigma artístico”. O “artístico” aqui é limitador. Aborrece. É
muito mais que isso, transcende tudo isso... Quanto muito é o transcendental da arte — a
sua essência, que neste momento já transcendeu a própria arte.
Aborrece termos ensaiado a fuga ao modo de espectáculo e agora termos recuado para
uma concessão... Isso significa voltarmos ao séc. XIX. É um beco sem saída. Caducou, não
liberta, não abre portas.
Dizer que a comida é apenas comida e não “espectáculo” é um grito de liberdade maior do
que qualquer revolução artística de pacotilha comercial. É reclamar a vida usurpada por um
artificialismo que a mimetizou. E a vendeu. E há que pôr um ponto final em todos esses
exercícios metafóricos que proliferam à volta da comida na forma de “espectáculo
relacional”. É preciso termos a irreverência da vida, e não um simulacro de irreverência. A
metáfora aqui é algo que tenta vender um valor que ultrapassa o valor de uso real e a arte
é exímia nesse processo; trata-se de uma “banha da cobra” que já apodreceu. É o unguento
do valor transcendente que sobrevive do tempo da arte sagrada e que serve para valorizar
aquilo que nos oprime.
A metáfora vende, todos sabemos disso; quando compramos um BMW, compramos uma
metáfora, porque o carro em si é igual a todos os outros. Com a arte estamos presos ao
mesmo; pode ser a coisa mais banal do Mundo, mas tem uma carga que a ultrapassa e é
esse inefável que se vende, essa mais-valia irreal... Porém, nunca como hoje o rei foi tão nu.
Essa aura não é um valor, é uma escravatura. Porque não se está a conseguir sair disto, nem
interessa que se saia, o que se promove é sempre a mesma encenação, que produz
mercadorias e mercados com mais ou menos mais-valia metafórica ou simbólica.
Há que pôr um ponto final na arte e nos artistas que não são mais que uma metáfora
daquilo que deveriam ser, que são um sinal de liberdade que atrai como a luz atrai os
pirilampos, mas que na verdade queima, não liberta.
Pôr um ponto final na “irreverência reverencial”, ao abrigo do sistema de espectáculo,
porque a política necessita de criar espectadores, pacóvios, mansos e passivos, que
observam e não agem. Tudo nos educa para ser assim; e todo o sistema de espectáculo, que
é o da arte em geral, também é assim.
Há que atacar o “espectáculo” numa lógica de destruição do sistema de civilização
opressiva.
Podemos fazer arte, mas tiremos-lhe a aura; doravante a arte deixou de ser um
espectáculo, é antes de mais tudo aquilo que eu vivo, mais o meu desejo de viver e o meu
desejo de experimentar esteticamente o mundo, e não um simulacro da forma como o
mundo poderia ser vivido e experimentado para depois o espectador “ver”.
Um dia perguntaram a um grande mestre das artes milenares do chá o que era o ritual do
chá; e ele respondeu: “O Chadô consiste em deitar água quente em folhas de chá e esperar
uns minutos para que o chá apareça.” Curto e seco. Nada de auras simbólicas. Isto é talvez
o mais difícil: despir as coisas daquilo que são as nossas projecções e conseguir que brilhem
por si mesmas.
Criar é algo temerário e a actividade criativa é castrada desde cedo (nas escolas
principalmente), e depois no trabalho a palavra de ordem é a “produção”; e “produzir” é
assistir às nossas acções de forma encenada, não pela nossa liberdade de agir, mas por algo
que nos transcende.
Criar implica que sejamos os encenadores da nossa vida. Não há compromisso possível.

[Nuno Miguel & Rogério Nuno Costa]

”Os Amigos de Marina” [Jardim de Inverno, S. Luiz Teatro Municipal, “Noites Ruminantes”, 2010]
DO SENSUAL ABSOLUTO
E OUTRAS ESTÉTICAS TECNO-EMOCIONAIS
[instalação-vídeo, LUPA Festival, Setembro 2010]

Para a medicina, o modelo corporal é o cadáver. Ou seja, o cadáver é a forma ideal do


corpo, o estado em que é completamente objectivo para a ciência. No cadáver, já nada
existe que ultrapasse o natural, tudo é sistematizável e evidente. Para a religião, a referência
ideal do corpo é o animal (instintos e apetites da carne); o animal humano é entendido
como uma ovelha, quase sempre tresmalhada, porque o sexo é para procriar e aumentar o
rebanho. Para o sistema de economia política, o modelo ideal do corpo é o robot: modelo
perfeito de funcionalidade, assexuada força de trabalho. Para a economia das trocas
simbólicas, a referência do corpo é o “manequim”, com todas as suas variantes, desde a
Vénus de Milo até à Kate Moss. Semelhante ao robot, este corpo é totalmente funcional e
vive sob a lei do valor, mas desta vez como local de produção do valor sígnico. O que é
produzido já não é a força do trabalho, mas sim modelos de significação — performance
sexual e também a sexualidade em si mesma como modelo. O que o Chef Ró nos propõe,
todavia, não é mais uma destas performances sobre o corpo. Estão fora das competências
do Chef: a higiene, a saúde, a produtividade industrial  racional, ou a libertação sexual. Ao
Chef só interessa a dimensão trans-(in)disciplinar da performance no seu ponto de fuga
possível, algures no mundo de fantasia da estetização da mercadoria, através da indústria
cosmética alimentar. O Chef não procura a arte, mas sim esse momento sublime presente
na magia do seu desaparecimento; ciente, porém, de que o pecado capital da arte
contemporânea consiste em repetir o seu próprio desaparecimento de forma repetitiva, ao
abrir portas que há muito estão abertas. Todas as formas de suicídio heróico já foram
cumpridas na abnegação das formas. Para o Chef, este desaparecimento acontece em
segunda mão, em plena situação perversa em que não só a utopia da arte já foi realizada,
pois penetrou na vida real (em conjunção com as utopias políticas, sociais e sexuais), mas,
para nossa surpresa, também já foi realizada a utopia do desaparecimento da arte. A arte
está assim destinada a encenar o seu desaparecimento de muitas formas, uma vez que a sua
anulação real já ocorreu. Revivemos o desaparecimento da arte, todos os dias, na repetição
entediante das suas manifestações constantes — quer sejam figurativas, abstractas, teatrais,
performativas ou multimédia —, assim como todos os dias revivemos o desaparecimento
da política na repetição enfadonha dos seus rituais nos telejornais, ou o desaparecimento
da sexualidade na divulgação pornográfica e publicitária das suas formas. Curiosamente,
descobrimos que não há melhor forma de fazer desaparecer a arte do que repeti-la até à
náusea e em overdose. O Chef é assim apologista de todos os festivais, museus, saraus e
feiras de arte. Mas é necessário distinguir dois momentos: o momento do suicídio heróico,
em que a arte experimentou e expressou o seu desaparecimento, e o momento em que
lida com este desaparecimento como herança negativa. O primeiro momento é original, só
acontece uma vez, mesmo que tenha durado décadas (algures entre os séculos XIX e XX).
O segundo momento pode durar uma eternidade, em coma irreversível, pois já nada há de
original e vivo, é apenas representação ou lamento do suicídio. Mesmo quando falhamos o
suicídio, não deixamos de conquistar a glória e o sucesso. Bem sabemos que um suicídio
falhado é a melhor forma de publicidade: e assim mais uma vez, e outra, e outra... renasce a
estetização oficial da mercadoria, esse movimento romântico sentimentalista do “ai tão boa
que era a arte antigamente”. Mas já sabemos que o romantismo é a primeira forma de
ready-made, ao pegar em manifestações antigas do pronto-a-vestir da História e vender
tudo isso num novo contexto. Pois é! A doença mortal já existe há muito tempo, a orgia
cheira a naftalina... Mas o que fazer depois da grande festa? Ou só nos resta a violência da
indiferença e banalidade? O Chef só nos pode propor outra forma de desilusão, ou, melhor
que isso, más ideias! Que outras nos restam depois da orgia da libertação política,
libertação sexual, libertação da força produtiva, libertação da força destrutiva, libertação da
mulher, libertação gay, libertação das crianças, libertação das pulsões inconscientes,
libertação da arte? Hoje já tudo foi libertado, mas esta liberdade cai em si mesma como o
seu contrário e pergunta: QUEM NOS LIBERTA DE TANTA LIBERTAÇÂO? Depois da
orgia já nada de real existe, só a aceleração inerte no vazio; porque todos os fins da
libertação ficaram para trás, só os podemos reproduzir, e isso é uma condição que
contraria a liberdade na sua essência. É essa re-encenação forçada dos fins da libertação
que faz com que desapareçam enquanto liberdade, numa espécie de indiferença fatal e
ritual. Também é esse o destino da arte. Vemos a grande transcendência da arte
materializada em toda a parte. A arte entrou no real e em todos os urinóis públicos há
Duchamps. A estilização do mundo está completa, tudo é arte. Os iconólatras, esse
percursores medievais dos artistas, eram pessoas subtis que proclamavam representar
Deus para Sua glória, mas que na realidade varreram Deus para debaixo do tapete das
formas artísticas. Por detrás de cada imagem, Deus desaparecia, entre o camuflado e o
conspurcado. Não estava morto, apenas desaparecia numa espécie de banalização; deixava
assim de ser um problema. O problema da existência ou não existência de Deus era
resolvida por esta reprodução. Mas podemos pensar se não seria uma ideia de Deus
desaparecer escondido atrás de todo esse lixo. Não será todo o existente uma obra de
arte que revela, e por isso oculta, o divino? Deus usou a arte para desaparecer obedecendo
a um impulso metafísico primordial: a vontade de se camuflar numa cascata de formas,
cores e sabores. Assim, a profecia é proclamada: vivemos no mundo da representação,  o
mundo em que a função mais alta dos signos é fazer com que a realidade desapareça e, ao
mesmo tempo, mascarar esse desaparecimento. A arte é apenas parte dessa função, assim
como a comunicação social, a ciência, a filosofia, a política e a economia. É por isso que o
destino de tudo isto é desaparecer.

[Nuno Miguel]

Vídeo-instalação [video still], LUPA Festival, Porto, Setembro 2010


BUFFET DE DEGUSTAÇÃO MICRO-BIOLÓGICA
[Pavilhão do Conhecimento/Ciência Viva, Julho 2010]

A convite da Prado/espaço ruminante, Chef Ró propõe um menu degustativo


absolutamente viral, contagioso e contagiante, com micro-iguarias feitas com e a partir de
estrelas do mundo unicelular e procarionte: cocktails de caldo iniciático ricos em
aminoácidos primitivos, cremes de fungos venenosos (e respectivos antídotos), granizados
de microorganismos extremofílicos que sobrevivem a temperaturas inferiores a 100 graus
negativos, bactérias gelatinosas com sabor a mar, amibas tricolores, risottos protozoários,
estafilococos com sabor a coco, bacilos crocantes a nadar no seu próprio cit(r)oplasma e
muito mais. Tudo ao som da música microscópica dos DJ's Guerreiro & Galante. Para que
ninguém morra de uma doença parasitária, no fim será servido um antibiótico auto-
injectável contra todos os riscos.

O Buffet de Degustação Micro-Biológico está inserido na programação comemorativa do


Dia Universal dos Microorganismos - Manifesto da Ciência Invisível, uma proposta de Mark
Deputter e Patrícia Portela/prado para o Pavilhão do Conhecimento.

MENU

1. OPARIN ON THE ROCKS, SHAKEN, NOT STIRRED [Cocktail aperitivo]

—Caldo iniciático, agri-doce-primitivo (e alcoólico)—

Ingredientes: rosé, hortelã, xarope de açúcar, gelo, sumo de romã, balsâmico de gengibre, vinagre de romã, pérolas
japonesas de morango, caster sugar, baunilha, essência de baunilha, essência de morango, gengibre cristalizado.

2. COLHER CHEIA DE MYXOMYCETES e OOMYCETES [Amuse-bouche mortal com antídoto]

—Creme de fungos venenoso—

Ingredientes (colher): cogumelos shiitake, porcini e pleurotus desidratados, azeite trufado, cogumelos chiodini, batata,
cebola, alho, sementes de sésamo negro, spaghetti nero di sépia, natas frescas, creme fraîche, cebolinho.

Ingredientes (antídoto): água purificada, sumos de uva preta, uva branca, pêssego e limão, extracto de sumo de maçã,
chá verde em pó, ginseng, damiana.
3. GRANIZADO DE MICROORGANISMOS EXTREMOFÍLICOS [Intermezzo glaciar]

—Neve do Árctico infectada com micróbios que adoram habitats extremos—

Ingredientes: sumo de toranja rosa, água, caster sugar, hortelã, licor de laranja, gummy bears, compota de morango.

4. FLEXIBACTER MARITIMUS [Entrada altamente contagiosa & respectivo anti-parasitário]

—Esparguetes de salmão nadando em água do mar contaminada—

Ingredientes (esparguete de salmão em água do mar): salmão fumado, bouillon de peixe, algas marinhas, escamas de sal
marinho com algas, agar-agar, cebolinho, azeite, açafrão, vinho branco, corante natural, queijo-creme.

Ingredientes (anti-parasitário): melaço de romã, açúcar mascavado, sumo de lima, água purificada.

5. SOLUÇÃO DE AMIBAS TRICOLORES [Intermezzo em avançado estado de putrefacção]

—Pasta patogénica recheada com creme de queijo cromaticamente alterado—

Ingredientes: Orecchiete, trufa negra, azeite, especiarias, tomate seco, mascarpone, quark, corantes naturais (azul,
vermelho e amarelo), sal marinho, pimenta rosa, pesto.

6. REINO DOS PROTOZOÁRIOS EM CREME [Prato principal mas que se come (e se morre) de uma só dentada
+ Anti-fúngico ultrapotente]

—Risotto fatal de algas unicelulares crisófitas, euglenófitas e pirrófitas—

Ingredientes (risotto): risotto arboreo, azeite, cebola, aipo, manteiga biológica, natas, gema de ovo, bouquet de algas
marinhas variadas, rama de funcho, bouillon de vegetais (cebola, aipo, cenoura), parmeggiano, alga nori, cebolinho.

Ingredientes (anti-fúngico): água purificada, concentrado de groselha, sumos naturais de lima, limão e tangerina, licor de
rosas.

7. SARCINAS DE STAPHYLOCOCCUS [Avant-postre com sabor a coco (do latim inventado ‘coccus’)]

—Fermentação de bichos lácteos que se juntam às sarcinas (quadrados)—

Ingredientes: Gelatina branca, leite de coco, iogurte grego, aroma natural de coco, leite de soja, açúcar em pó, vagem de
baunilha, coco ralado, concentrado de morango cintilante, sumo de limão.
8. BACILOS (COM FLAGELO) A CHAPINHAR NO SEU PRÓPRIO CIT(R)OPLASMA [Postre mortal que
actua ao primeiro contacto com as papilas gustativas]

—Bactérias cilíndricas vigiam o seu habitat cítrico contra catástrofes humanas—

Ingredientes: maçã verde, sumos de lima e de limão, raspa de lima, natas, açúcar mascavado, canela, bagas goji maceradas
em mel e limão, palitos de chocolate negro, sementes de papoila, compota de clementina, especiarias, orange jam.

9. ANTIBIÓTICO [(In-)digestivo final auto-injectável]

—Prescrição exacta (by Dr. Raw) que vence todas as doenças anteriores; é tomar ou
morrer—

Ingredientes: espumante, licor de limão verde, blue curaçao, açúcar líquido, gelo, sumo de limão, corantes naturais,
vagem de baunilha, amaretto.

Vídeo-instalação [video still], LUPA Festival, Porto, Setembro 2010


A COLECÇÃO PRIVADA DE CHEF RÓ
[“Os Amigos de Acácio Nobre”, Noites Ruminantes, Jardim de Inverno, Setembro 2010]

Dentro de uma lata de película tenho guardado um conjunto de receitas manuscritas em


papel de carta pela minha mãe. Essas receitas foram-lhe ditadas pela minha avó (que nunca
soube ler nem escrever) e que aprendeu a cozinhar quando aos 6 anos de idade partiu de
Amares (no Minho) para o Porto para servir na casa de uma família muito rica, nos anos
20. A esse conjunto de cerca de 50 folhas de papel amarelecidas pelo tempo, fui juntando as
minhas notas pessoais sobre temas tão variados quanto "como conseguir o melhor arroz
solto de cenoura e ervilhas", "a receita do creme queimado sem ovos à maneira das tias
emigradas em Paris" ou "a cabidela da família Costa em 3 passos simples", que recolhi
quando parti de Amares para Lisboa para servir na casa de uma família muito pobre, nos
anos 90. Esta colecção não contém receitas raras, perdidas no tempo, extintas ou em vias
de extinção; não possui qualquer tipo de interesse antropológico, etnográfico ou
gastronómico. São apenas notas soltas sobre trivialidades culinárias, compiladas por uma
vontade de combater o afastamento das origens, mimando-lhe os gostos e os sabores. Não
abro a lata desde que deixei de telefonar à minha mãe em jeito de pedido de socorro
culinário, por acreditar que já me tinha transformado num cozinheiro "a sério", autónomo e
experimentado. Está na altura de voltar atrás e re-aprender — um "back to the basics" que
é uma biografia gastronómica: começa no Minho e acaba em Lisboa, para depois voltar. Um
menu documental de pequenos-grandes ícones da comida portuguesa: rudes, simples,
basilares. The Very Best of Chef Silva (conterrâneo) remisturado por Chef Ró.

"A Colecção Privada de Chef Ró" é mais um menu de degustação inserido no projecto "Vou À Tua Mesa".
Uma proposta inserida na programação das "Noites Ruminantes", danceterias co-produzidas pelo Teatro
Municipal de S. Luiz e Prado/espaço ruminante.

[Rogério Nuno Costa]


ARTE DA MANGIARE
[uma receita gourmet pós-modernista, pós-estruturalista e pós-mortem]

Um programa de rádio de difusão pirata, apresentado em directo e ao vivo, no qual Chef


Ró [aka Rogério Nuno Costa] ensinará as donas de casa a cozinhar Arte Pós-Moderna [aka
“terrorismo retórico”] em pequenas doses profilácticas [aka “placebos culturais”] e anti-
histamínicas [aka “o aborrecimento dormente como cura possível para a soberania do arty-
chique”]. ARTE DA MANGIARE quer elevar a arte à categoria de gastronomia, porque o
contrário já foi feito. ARTE DA MANGIARE não é indigesta, ela é a própria indigestão. ARTE
DA MANGIARE é um Goronsan fora do prazo de validade.

"ARTE DA MANGIARE" é mais uma performance inserida no projecto "Vou À Tua Mesa". Uma proposta
inserida na programação do Festival TELL.

[Rogério Nuno Costa]


TRADIÇÕES CULINÁRIAS SERVO-MONTENEGRINAS
[“Os Amigos de Marina”, Noites Ruminantes, Jardim de Inverno, Outubro 2010]

Uma performance gastronómica e gastrofóbica inspirada no trabalho de Marina


Abramovic. Um teste à resistência física, mental, inter-cultural e extra-sensorial. Uma
refeição em modo de espera (que pode nunca vir a chegar). Uma vingança servida fria (ou
aquecida entre o rabo e a cadeira). Ou quando a comida se vinga de quem a come. Em
suma, um teste à resistência do velho conceito de "interactividade" em época de impasse
tecno-estético. Ou ainda a festa de anos da Marina Abramovic em 1984. The artist is
present and is watching you! Mais uma proposta para a ascensão da arte à categoria de
gastronomia.

[Mais uma performance inserida no projecto "Vou À Tua Mesa" para as "Noites Ruminantes" do Jardim de
Inverno, desta vez sob o mote "Os Amigos de Marina". Produção: Prado/espaço ruminante. Com a
participação de vários artistas convidados.

[Rogério Nuno Costa]


VOLTA AO MUNDO EM 80 MINUTOS
[“Os Amigos de Júlio Verne”, Noites Ruminantes, Jardim de Inverno, Novembro 2010]

Uma performance gastronómica e psicadélica, científico-natural e geo-emocional, quântica e


futurista. Um regresso ao futuro, sensual e absoluto, ou então uma fuga ao presente [mais
(euro)visionário que visionário]. Inicia com um cocktail infernal do centro da terra
[entrada], segue com um pedi-paper multicultural em modo teletransporte [pratos
principais] e termina com um laboratório de experiências moleculares e fumegantes
[sobremesa]. Uma viagem intergaláctica à velocidade de um click. Um Google Earth extra-
sensorial. Um melting pot desintegrado com aceleramento trendy-chic. Uma experiência
submarina, terrestre e extra-terrestre que anunciará a comida do futuro, elevando a
gastronomia à categoria de fashion design, a arte à categoria de gastronomia e a ciência à
categoria de arte. Os contrários já foram feitos.

[evento inserido nas "Noites Ruminantes", danceterias co-produzidas pela Prado/espaço ruminante e Teatro
Municipal S. Luiz, em colaboração com diversos artistas e convidados especiais, sob o mote "Os Amigos de
Jules Verne"]

[Rogério Nuno Costa]


AVISOS À NA(VEGA)ÇÃO
Textos de Nuno Miguel escritos à luz da persona “Ministro da Comida” para a
temporada alentejana do Vou À Tua Mesa/Cooking Show, genericamente
intitulada “Chef Ró Goes Alentejo”.

1
CHEF RÓ, SECRETÁRIO-GERAL DA SENSUALIDADE ABSOLUTA E OUTRAS ESTÉTICAS
TECNO-EMOCIONAIS, PEDE A ATENÇÃO DE TODOS OS COMENSAIS PARA A SEGUINTE
MENSAGEM DO NOSSO MINISTRO DA COMIDA. OIÇAM AGORA, POIS ELE SÓ VAI DIZER
ISTO UMA VEZ.

Caros concidadãos de todos os tamanhos, formas, cores, idades, grossuras, pesos, orientações
religiosas, orientações sexuais e estratos sociais: a auto-destruição é uma impossibilidade, mera
miragem retórica. Os cidadãos, quando são reorientados para além da realidade social dominante,
apenas parecem destruídos. Porém, o cidadão em si continua sempre a existir e a sua degradação,
que pode ser desfigurada para além do reconhecível, não suscita nada de preocupante. Parece
evidente que o moralismo, que recusa o suicídio, manifesta a resistência reaccionária à mudança. A
racionalidade intrínseca pertence à economia da linguagem, que transplanta na mente a realidade
física do capitalismo militar. Uma vez que toda a vida quotidiana foi colonizada pelo capital, somos
forçados a falar a linguagem que recebemos dos meios de comunicação social e da propaganda. Só
temos uma saída: o sensual absoluto, a fruição que se opõe a toda a racionalização fossilizante da
vida. Todavia, se esta situação configura novas formas de absolutismo, é porque se posiciona de
forma antagónica a um todo coerente. Por isso mesmo, levamos o progresso até à direcção última
dua sua finalidade, pela simples atitude de negar a sua exequibilidade. O sensual absoluto nada
produz, não é trabalho, é fruição; não é progresso, é filosofia experimental que encontra a sua
coerência na criação de situações degustativas, de forma a examinar experimentalmente as
questões da verdade. Esta situação exige a supressão das ideias pré-concebidas através da
criteriosa observação das reacções populares. A democracia assim o exige, e é nossa missão
arranjar sempre novas formas que nos ajudem a parar de pensar e dizer coisas. Pelo menos,
tentamos que fiquem de boca cheia e ruminem pensamentos de culpa e receio. Por tudo isto,
destruam os vossos desejos e vivam, apaguem, destruam e produzam toneladas de informação e
documentação inútil. Suprimam a Arte, a Política e a Filosofia, nem que seja à lei da bala e
investiguem a fundo as formas de negar a Ciência, a Matemática e a História. Resistam à Cultura e
a todas as outras formas de identidade institucional. Esmaguem a Imaginação, a Esquizofrenia, a
Morte, a Sexualidade, os Valores, o Tempo e outras formas de sedução, propaganda e abstracção
que consigam perceber no horizonte. Degustem todas as formas de fuga à moldura de referências,
pela qual se transformam meras sensações sem valor em capital simbólico. Boa noite.

ACABÁMOS DE OUVIR O NOSSO MINISTRO DA COMIDA A DIRIGIR-SE À NA(VEGA)ÇÃO.


RETOMAREMOS A EMISSÃO DENTRO DE BREVES INSTANTES.
2
Que se fodam os vanguardistas!

Por quanto tempo teremos que aturar a vossa elite, esse enclave despótico, a vossa
economia de arte sacra, o vosso complexo de culpa neo-liberal, a vossa fraternidade
maçónica de ensino público, as vossas cabeças rapadas, a vossa profissionalização do artista
anal/artes(anal), o vosso narcisismo adolescente, o vosso balbuciar psico-linguístico, as
vossas vivendas na Costa da Caparica, o vosso carreirismo manhoso, o vosso radicalismo
de saldo, as vossas amantes com celulite, a vossa bancarrota intelectual, o vosso coaching na
alcova das escolas de arte, o vosso culto da ópera católica, o vosso turismo burguês
internacional que se arrasta pelas residências artísticas das indústrias criativas, as vossas
abluções matinais, o vosso silêncio eloquente, o vosso cinismo financiado pelo Estado, a
vossa postura sado-masoquista, o vosso misticismo bolorento de Belas-Artes, as vossas
searas, a vossa procura desesperada pela marginalidade, a vossa não-indústria corrupta e
subsídio-dependente, o vosso desprezo por todos aqueles que estão fora da vossa claque
patética, a vossa produção de arte aborrecida, a vossa masturbação multimérdia, a vossa
ego-trip insaciável? Foram vocês que condenaram o exercício da liberdade a 30 anos de
naufrágio. Já estamos fartos! Façam o favor de ir para a puta que vos pariu. Obrigado e boa
noite.

Chef Ró Goes Alentejo, com Eduard Gabia (Romémia), Willy Prager (Bulgária) e Johannes Lernpeiss (Áustria), O Espaço do Tempo,
Montemor-o-Novo, Outubro 2010.
3
CATECISMO DO ARTISTA
Princípios universais pelos quais os artistas devem ser guiados.

1) O artista deve ser um trabalhador dedicado e com espírito de missão. Não pode ter
interesses pessoais, sentimentos, apegos e posses materiais. Deve tomar banho, acordar
antes do nascer do Sol, comer pouco, recusar os vícios, viver em castidade e prosseguir
uma conduta obstinada e espartana. Tudo nele deve estar absorvido por um único
pensamento, paixão e interesse: as Artes!
2) No mais fundo do seu ser, deve procurar romper com as amarras da ordem civil e
questionar todas as convenções sociais em pensamento, palavras, actos e omissões.
Deverá ser inimigo implacável da cultura vigente. Todavia, se continuar a viver entre os
mortais, será apenas para decorar as suas vidas de forma mais eficiente.
3) O artista despreza todas as doutrinas e rejeita as ciências mundanas. Abandona essas
questões inferiores para as gerações futuras. Ele só conhece uma única ciência: a ciência
da desilusão. Só estudará as ciências e a filosofia para melhor nos desiludir.
4) O artista despreza a opinião pública, despreza e abomina a ética social vigente em todas
as suas formas de manifestação. Para ele, são moralmente elevados todos os actos que
promovam o triufo da arte e a imoralidade consiste em tudo aquilo que se atravessa no
seu caminho.
5) O artista deve estar sempre preparado para aguentar a tortura e todas as formas de
interrogatório coercivo. O artista é um indivíduo dedicado, que obedece cegamente ao
Estado e ao conjunto da sociedade em geral, mas destes não pode nunca esperar a
misericórdia.
6) Tal como é duro e exigente consigo mesmo, também o deve ser para com os outros. É
sua missão abdicar de todo o conforto da amizade, amor, solidariedade, gratidão e a
honra, substituí-lo pela concentração fria na paixão pelas Artes. Para o artista, só existe
uma única consolação, um único prazer e recompensa: o sucesso das Artes! A todo o
momento, a sua mente deve estar absorvida num único pensamento e objectivo: a
defecação infalível de produtos artísticos. Infatigável nesta luta, deverá estar preparado
para morrer e destruir com as suas próprias mãos tudo aquilo que se entreponha no
caminho da sua carreira.
7) O artista considera apenas como amigos todas as pessoas que também lutam pelo
sucesso das Artes ou se consideram artistas. A extensão desta amizade para com os
seus camaradas é proporcional ao uso que deles pode fazer para o progresso da Arte.
8) As condições gerais necessárias para começar o movimento artístico são as seguintes:

a) Formar clãs ou confrarias;


b) Infiltrar os seus membros mais eficientes nos meios sociais privilegiados;
c) Conhecer bem as más línguas da cidade, os bordéis, as tascas, os salões de cabeleireiro e
todos os outros meios de disseminar falsos rumores;
d) Ter bons amigos na Polícia e no Clero;
e) Estabelecer boas relações com o crime organizado;
f) Conseguir o apoio e influência da classe política;
g) Conhecer em profundidade uma religião pagã, como por exemplo tai-shi, astrologia,
yoga, tiques tibetanos, riverdance irlandês ou chulas minhotas.

Obrigado e boa noite!

Chef Ró Goes Alentejo (video still). Nuno Miguel enquanto Ministro da Comida. O Espaço do Tempo, Montemor-o-Novo, 2010.
4
DECRETO LEI nº 378 / 011
PARA A ABOLIÇÃO DA ARTE

Art.º 1 — A função primordial deste decreto de abolição da arte é destruir todos os mitos
culturais com os quais o poder cristaliza a sua imagem de superioridade e inteligência; a
arte é o trono em que o poder se senta para seu bel-prazer.

Art.º 2 — Fica claro que a diferença entre esta abolição da arte e todas as anteriores
tentativas de destruição ideológica (especialmente o Dadaísmo), tem como fundamento a
aliança deliberada entre a eliminação dos valores estéticos com a possibilidade de
reinvenção da existência.

Art.º 3 — Não tenhamos ilusões: a maior parte dos críticos vão continuar a agir como se a
arte não tivesse sido abolida, como se não pudesse ser abolida; a maior parte dos artistas
vão continuar a acreditar no carácter "artístico" das suas produções industriais; a maioria
do público amante da arte e também, como é evidente, dos compradores, vão continuar a
ignorar o facto de que a arte foi abolida no nosso tempo. É por isso essencial a formação
de milícias de elite que procedam à abolição activa da arte, e que usem as máquinas de
produção das indústrias criativas de forma a que estas entrem efectivamente em total
contradição consigo mesmas.

Art.º 4 — Sim… cão que ladra não morde. Pensavam que um século de falsas tentativas de
suicídio eram só ameaças? A intenção não é destruir a lei da produção, mas inverter o seu
curso de forma a que se dirija para a realização sensual e absoluta do gozo.

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