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1.

Aplicações do Tubo de Choque

O primeiro estudo utilizando o tubo de choque no campo da mecânica dos


fluidos foi realizado em 1899 por Paul Vieille, sendo utilizado inicialmente no estudo
da propagação de ondas de choque. Em 1943, pela primeira vez, este dispositivo foi
utilizado como gerador de um degrau de pressão, pois a onda de choque formada no
tubo, ao se refletir no fundo do tubo, gera um degrau de pressão de duração finita,
permitindo que este dispositivo seja usado na calibração de sensores de pressão. Outra
característica importante do tubo de choque é a formação de um degrau de velocidade e
temperatura.
O tubo de choque, devido aos fenômenos que ocorrem no seu interior, pode ser
usado em diversas áreas da engenharia, como na simulação de situações reais, validar
códigos computacionais entre outras aplicações. Nos parágrafos seguintes serão
descritas várias aplicações do tubo de choque em diversos campos da engenharia.
O tubo de choque pode ser usado no estudo de abalos sísmicos, através da
compreensão da propagação de ondas acústicas em rochas. Em 1950 Maurice Biot
desenvolveu equações para descrever o comportamento de ondas acústicas em meios
elásticos porosos. Segundo Brown (2000) a teoria de Biot diz que além de uma onda de
expansão e uma onda de compressão rápida, que é caracterizada pela compressão
simultânea do líquido dos poros e do material, há uma outra onda lenta de compressão,
que é caracterizada pela mudança de fase do líquido dos poros e do material. O estudo
do comportamento desta segunda onda de compressão é importante, pois a mudança de
fase adiciona fatores nas propriedades fluidas dependentes do transporte, na freqüência
e nas perdas elásticas dependentes da freqüência. Com isso um tubo de choque, com
água e material elástico poroso (figura 1.1), é usado para validar os mecanismo de Biot
relacionando as medidas do tubo de choque aos parâmetros físicos do material em
estudo.

Figura 1.1 – (a) Esquema do Experimento. (b) Resultado.

Em experimentos envolvendo a dinâmica dos fluídos o tubo de choque é usado


para, investigar fenômenos fundamentais da propagação da onda de choque tais como
características da reflexão, o desenvolvimento ou o destacamento dos vórtices, e
instabilidades no fluxo. O tubo de choque também é usado em casos especiais de
aplicação, onde os efeitos mencionados contribuem na formação de uma distribuição
muito complexa da pressão, como por exemplo após detonações interiores.
Na área da cinética química, o tubo de choque é usado no estudo de altas
pressões, como os desenvolvidos pela universidade de Stanford, onde um tubo de
choque foi projetado (figura 1.2) para ser utilizado com uma mistura de pureza elevada
e cinética de alta pressão, da ordem de 1000 atm, na região refletida de choque. Esse
estudo é realizado através do diagnóstico ótico, da caracterização do tubo de choque e
da exploração de efeitos reais do gás em altas pressões.

(a) (b)
Figura 1.2 – (a) Tubo de choque da universidade de Stanford
(b) Diagrama de instrumentação do tubo.

Na universidade de Illinois, o tubo de choque é utilizado para o estudo da


combustão em altas pressões, com aplicação na engenharia astronáutica e aeronáutica.
O tubo de choque utilizado possui 15m de comprimento (figura 1.3), que comprime o
oxigênio a 3000K, desse modo inflamando partículas de metal e de boro. As partículas
que estão sendo estudadas são, alumínio, magnésio e ligas destes metais que entram em
combustão quando em contato com o oxigênio e o vapor de água. A câmara de
combustão de alta pressão é projetada para pressões transientes de até 3400 atm e
temperaturas transientes de até 4000 K, fabricada com aço de carbono 4340, tratado
termicamente,

Figura 1.3 – Tubo de choque da universidade de Illinois

Na universidade de Minnesota, o professor Balenger desenvolve uma pesquisa


financiada pelo exército americano para compreender o processo da disseminação dos
líquidos newtonianos e não-newtonianos que são expostos repentinamente a uma
corrente do ar de alta velocidade. Com isso é possível descobrir a carga útil de líquido
dentro de um míssil de ataque que se dispersará quando for abatido por um míssil
interceptor. Para isso é usado um tubo de choque controlado, para analisar o colapso
mecânico e as nuvens resultantes.
Os tubos de choque também são utilizados no estudo do impacto de explosões
em diversos ambientes, para isso são usados longos tubos onde é possível estabelecer o
vulnerabilidade de alvos militares e civis a ataques, inclusive nucleares. A central de
defesa do Reino Unido através da Atomic Weapons Establishment (AWE), estudava os
impactos de explosões nucleares, com um tubo de 200 metros de comprimento, que
opera através do uso de uma fonte explosiva no excitador que inicia a detonação, este
foi desativado recentemente.
No estudo de sistemas explosivos o AWE utiliza um tubo de choque linear com
seção transversal retangular (figura 1.4), para investigar a física do crescimento da
instabilidade nos gases.

Figura 1.4 – Tubo de choque com seção transversal retangular.

A instabilidade de dois líquidos de densidades diferentes separados e acelerados


constantemente é denominada de Raleigh-Taylor. Entretanto, sob um choque, isto é
uma aceleração impulsiva, o crescimento da instabilidade conduz a instabilidade de
Richtmyer-Meshkov, ou seja uma mistura turbulenta dos líquidos, sujeitados a elevadas
temperaturas e pressão. Este fenômeno é muito complexo para ser estudado em um
sistema explosivo, mas pode ser investigado facilmente em um ambiente
unidimensional usando o tubo de choque.
O tubo gera uma um choque plano da pressão constante, que atinge uma zona
que contém o gás Enxofre-Hexafluridrico (SF6), que é limitado pelo ar pelos dois lados,
como mostrado esquematicamente na figura 1.5. O choque incidente faz com que a
primeira zona torne-se instável. O choque continua e é refletido na extremidade
voltando no sentido contrário e faz com que a outra zona torne-se instável, gerando a
instabilidade usada para estudar sistemas explosivos. O progresso do evento é gravado
em uma câmera por meio da técnica que usa um feixe de laser.

Figura 1.5 – Diagrama esquemático de funcionamento do tubo retangular

Na Universidade de Brasília o tubo de choque é utilizado como um dispositivo


de calibração dinâmica, no Laboratório de Metrologia Dinâmica (LMD). Atualmente o
LMD, possui dois tubos de choque, um científico construído em acrílico e o outro
metrológico construído em aço. O tubo de choque de aço foi desenvolvido com
características metrológicas bem definidas, para ser usado na calibração dinâmica de
sensores de pressão, velocidade e temperatura. O tubo científico do LMD tem o objetivo
de demostrar os fenômenos que o ocorrem no interior do tubo de choque.
O LMD-UnB em associação com o LMD–ENSAM-Paris, realizou trabalhos de
caracterização e construção de tubos de choque metrológicos. Dentre estes, destacam-se
trabalhos que estudam a influência do diafragma nas características metrológicas do
tubo de choque por Vianna (1999), análise dos efeitos da curvatura do diafragma sobre
o escoamento dentro de tubos de choque por Barcelos (1999), avaliação da influência da
massa molecular na calibração dinâmica de transdutores de pressão em um tubo de
choque por Oliveira(2000).

1.1 – Calibração Dinâmica e Aplicações Metrológicas do Tubo de Choque


Calibrar dinamicamente um sensor consiste em determinar sua sensibilidade e o
tempo de resposta a um determinado estímulo, ou seja determinar o sinal de saída em
função do tempo. A calibração de um sensor é realizada experimentalmente
determinando sua função de transferência a partir do sinal de saída. Existem diversos
dispositivos utilizados na calibração dinâmica, adequados para diferentes faixas de
frequência e amplitude de sinal. Pode-se dividir estes dispositivos em dois grupos:
dispositivos geradores de sinal periódico e geradores de sinal aperiódicos.
Dentro dos dispositivos de geração de sinal periódico, tem-se os dispositivos de
tipos cavidade, jatos de pressão e coluna de fluído. Os geradores de sinal aperiódico são
os dispositivos de abertura rápida, o tubo de choque e a bomba fechada.

Dispositivos Geradores de Sinal Periódico


Os dispositivos de tipos de cavidade respondem a uma excitação modular,
podendo operar de forma ressonante ou não (figura 1.6). O modo não ressonante
permite o trabalho com uma variada faixa de frequências, na prática o limite inferior é
extremamente baixo e o limite superior é a frequência natural da cavidade. O ponto
negativo está na baixa amplitude do sinal de resposta. No modo ressonante a amplitude
do sinal aumenta consideravelmente, mas há uma diminuição da faixa útil da frequência
de trabalho. A mudança da faixa útil de frequência é conseguida, através da mudança
das características geométricas.

Figura 1.6 – Dispositivo tipo de cavidade,gerador não ressonante com modulação


de volume
Os jatos de pressão e a coluna de fluído apesar de possuírem características
semelhantes ao dispositivo tipos cavidade, não podem ser encaixados nesse grupo.
Dentre estes dois dispositivos o mais relevante e o método da coluna de fluído (figura
1.7), que consiste na utilização do campo hidrostático de pressão gerado por uma coluna
de fluído em movimento. O fluido contido em uma coluna é submetido a uma
aceleração senoidal, e esta atua gerando o campo de pressão que pode ser determinado a
partir da densidade do fluído, da altura da coluna e da aceleração, segundo Diniz (1995).
O uso de excitador mecânico de vibração permite a aplicação de vários valores de
amplitude e de frequência de sinal. A desvantagem está na pouca repetitividade e na
exigência de um controle rígido da temperatura do fluído.

Figura 1.7 - Desenho esquemático do Gerador Periódico de Coluna de Líquido do


LMD-UnB

Dispositivos Geradores de Sinal Aperiódico


O dispositivo de abertura rápida que é composto por duas câmaras com a razão
de volume da ordem de mil, separadas por um válvula de abertura controlada. A
calibração ocorre na câmara menor, por um degrau de pressão de P1 (câmara menor)
para P2 (câmara maior). Recomenda-se o uso deste dispositivo para ensaios com níveis
de pressão altos. A principal desvantagem é a limitação do dispositivo em altas
frequências, um estudo mais detalhado deste dispositivo foi realizado por Fritsche
(1999).
Cilindro de
acionamento da
válvula
Canal de
Passagem

Retentor
Câmara Haste da
maior Sede p/ sensor válvula
(2opostas)

Retentor

Câmara
menor Batente

Figura 1.7 - Dispositivo de Abertura Rápida (DAR) do LMD-UnB

Bomba fechada é um dispositivo capaz de gerar pulsos de pressão de grande


amplitude, através da detonação de uma pequena carga explosiva. O degrau de pressão
tem duração infinita, isto permite a calibração de sensores com frequências tendendo a
zero. O ponto negativo deste dispositivo está na sua baixa repetitividade.
Figura 1.8 - Desenho esquemático de uma Bomba de pressão.

O último dispositivo gerador de sinal aperiódico a ser discutido neste trabalho, o


tubo de choque possui uma razão de volume da mesma ordem de grandeza entre os dois
tubos que o compõe, o degrau de pressão gerado pelo tubo é de curta duração, ou seja
finito, o que não é recomendado para sensores de baixa frequência. Os câmaras são
pressurizados separadamente, de forma a obter uma diferença inicial de pressão e de
densidade entre os gases. Esta diferença pode ser conseguida pela pressurização das
câmaras, redução da pressão na câmara de baixa pressão ou com uma combinação das
duas.
Os processos dentro do tubo de choque são iniciados com a ruptura da
membrana que separa as duas câmaras. Com isso inicia-se a propagação de uma onda de
choque, que gera dois degraus de pressão, um no escoamento induzido e outro no fundo
do tubo na reflexão da onda de choque, região de velocidade nula. Degraus de
velocidade e temperatura também são formados pela passagem da onda de choque. Para
a capitação do sinal gerado pelo tubo pode ser usado um analisador de sinal ou um
osciloscópio.
Para a calibração de sensores, usa-se um sensor padrão no mesmo local, no
fundo ou na parede do tubo, onde está fixado o sensor a ser calibrado. Após o ensaio os
resultados são comparados e se estabelece a sensibilidade do sensor submetido a
calibração. Com já foi dito a extremidades do tubo devem ser fechadas, para garantir
uma maior reflexão da onda de choque. Caso uma das extremidades estivesse aberta,
haveria um degrau de pressão mas com duração reduzida, pois a onda de choque
enxerga a extremidade aberta como uma parede isobárica, ou seja a reflexão não é total,
pois parte da energia é dissipada em forma de ondas sonoras.
O desenvolvimento dos processos aero-termodinâmicos no tubo de choque
dependem diretamente das condições iniciais do sistema, atribuindo ao dispositivo
autonomia de operação. Para uma boa calibração deve-se respeitar as características de
cada câmara, ou seja manter a pressão mais alta no tubo indutor e a mais baixa no
induzido, as pressões não podem ser invertidas sem um estudo detalhado das
consequências geradas. Outro fator importante é garantir a não interferência da estrutura
na formação dos processos, está imposição é essencial para as formulações teóricas do
tubo.
Considera-se na prática que não há limite superior para amplitude do sinal, desde
que o tubo suporte os níveis de pressão de trabalho. A amplitude máxima do sinal é
limitada principalmente em função das propriedades mecânicas da membrana de
separação. O limite inferior depende do sistema de aquisição de sinal.
2. O Tubo de Choque

Neste capítulo são descritos os processos que ocorrem no interior do tubo de


choque serão analisados, através da solução analítica das equações de Euler.
São apresentados os principais fatores que devem ser levados em consideração
no dimensionamento das características geométricas e como estas influenciam na
formação do processos no interior do tubo de choque.

2.1 – Teoria do Tubo de Choque


2.1.1 – Análise do Tubo de Choque
Como foi dito no item anterior o tubo de choque é um dispositivo usado para o
estudo de escoamento compressíveis, capaz de gerar uma onda choque com padrões
bem definidos.
Os processos desenvolvidos no interior de um tubo de choque se iniciam com a
ruptura da membrana que separa o tubo indutor do induzido. A figura 2.1 ilustra os
processos dentro do tubo choque, através de um diagrama do tempo pela posição ao
longo do tubo.
Tempo

5
∆T5

2
3

1
4
Comprimento

Indutor (Alta) Induzido (Baixa)

Figura 2.1 – Diagrama dos processos no tubo de choque.


As condições iniciais do tubo são representadas pelas regiões 1 e 4, onde se tem
um fluido pressurizado mas em repouso. Com a ruptura da membrana, uma onda de
pressão se propaga em direção ao fundo do tubo induzido com velocidade supersônica
(Ws). No mesmo instante uma onda de expansão, com velocidade do som, se propaga
em direção ao fundo do tubo indutor e depois desta, várias outras com velocidades
subsônicas, formando um leque de expansão, denominado região 3. A medida que a
onda de choque se desloca na massa de ar, surge atrás dela um escoamento subsônico,
denominado região 2, conforme indicado na figura 2.1.
A pressão inicial P4, do tubo indutor decresce suavemente até o nível P3, que é
igual a pressão P2. Os gases das regiões 2 e 3 não se misturam, pois como acontece com
a pressão as velocidades são iguais, com isso verifica-se que entre 2 e 3 existe uma
descontinuidade termodinâmica e de densidade do fluido, por onde não há fluxo de
massa, ou seja, fundamentalmente uma superfície de separação ou de contato. A
superfície de contato desloca-se com a mesma velocidade do escoamento.
A onda de choque reflete-se no fundo do tubo induzido e retorna em direção a
superfície de contato, que devido as suas características, reflete a onda novamente,
criando a região 5, onde pode-se medir um tempo característico do tubo de choque, pois
é nessa região que acontece o degrau de pressão com maior duração. Apesar da
superfície de contato ser considerada sólida, parte da onda passa pela superfície, mas
esta parcela não refletida é desprezível. A posição onde a onda de choque encontra-se
com a superfície de contato depende basicamente da geometria do tubo.
Para um bom funcionamento do tubo de choque, a superfície de contato não
pode sofrer interferência do leque de expansão antes da primeira reflexão da onda de
choque sobre ela. Esta condição é obtida através de relações adequadas de comprimento
entre o tubo indutor e induzido. Caso o leque de expansão atinja a superfície de contato,
antes da onda de choque, esta é parcialmente destruída, o que diminui a sua capacidade
de reflexão. Segundo Shapiro (1954), a transmissão da onda de choque, através da
superfície de contato, depende também da velocidade do som a montante e a jusante.
Outro fenômeno que influencia na qualidade da onda de choque é a curvatura da
membrana, que dependendo da sua intensidade pode provocar o surgimento um
escoamento complexo com uma onda de choque com estrutura esférica, este problema
pode ser evitado usando diferenças de pressão não muito grandes.
A figura 2.2, mostra os processos que ocorrem no interior do tubo de choque e
como as propriedades termodinâmicas evoluem em função das mudanças impostas
pelos fenômenos.
Tempo
5

3 2

t
4 1

Comprimento

P4

P3 P2
Pressão

P1

T2
Temperatura

T4 T1

T3
Velocidade

V3 V2

V4 V1
Figura 2.2 – Diagrama das propriedades dentro do tubo de choque.

A passagem da onda de choque causa um aumento repentino da temperatura e


pressão. A temperatura inicial do tubo induzido T1, passa para um nível T2 e a pressão
de um nível P1 para um nível P2. Medindo pressão em qualquer ponto do tubo induzido,
após a passagem da onda de choque, até a chegada do leque de expansão ou da própria
onda de choque refletida, a pressão permanece constante em um nível P2. O que não
ocorre com a temperatura que sofre uma queda ao passar da região 2 para a 3. A figura
2.2, mostra esquematicamente os campos de pressão, velocidade e temperatura em
determinado instante de tempo.
Da figura 2.2 observa-se o degrau de pressão, temperatura e de velocidade que ocorrem
no interior do tubo de choque. A variação de pressão P4 para P3, ocorre gradativamente,
por se tratar de um expansão. A superfície de contato é responsável pelo degrau de
temperatura de T1 para T2. Na região 3 ocorre uma diminuição da temperatura, devido a
expansão. A indução do escoamento pela passagem da onda de choque causa um degrau
de velocidade de V1 para V2, visto que inicialmente o gás encontrava-se em repouso.

3.1 - TUBO DE CHOQUE

O Tubo de Choque é um dispositivo de estudo de escoamentos compressíveis. Sua


principal característica é a geração de uma onda de choque com padrões metrológicos bem
definidos, sendo provavelmente um dos mais antigos dispositivos geradores de onda de
choque. A criação do tubo de choque ocorreu em 1899, por Vieille, mas foi em 1940, com
os trabalhos experimentais realizados por Payman e Shepherd, que teve sua grande difusão
como instrumento de investigação em mecânica dos fluidos.

Este dispositivo tem a capacidade de gerar um degrau de pressão de duração finita,


normalmente muito curta. Como tempo e freqüência são grandezas inversamente
proporcionais, tal característica o torna inviável para calibração de transdutores de pressão
de baixa freqüência.

O Tubo de Choque é um longo tubo dividido em duas câmaras por um


diafragma, figura 3.1. Na primeira câmara existe um gás estagnado que está à alta
pressão e na segunda um outro que está a uma pressão mais baixa que o da primeira.
Diafragma

Tubo Indutor Tubo Induzido

Alta Pressão Baixa Pressão

Figura 3.1: Desenho esquemático de um tubo de choque.

A câmara de alta pressão é geralmente denominada de tubo indutor, a de baixa


pressão de tubo induzido. A diferença de pressão inicial entre os dois tubos é mantida
unicamente em virtude da presença de um diafragma. Essa diferença de pressão pode ser
obtida através da pressurização do tubo indutor ou da criação de vácuo no tubo induzido.
Os processos no interior do tubo de choque somente terão início após o rompimento do
diafragma e estes dependem da relação de comprimentos entre os dois tubos e da diferença
inicial de pressão (Carvalho, 1995).

3.1.1 - Análise do tubo de choque

As regiões 1 e 3, apresentadas na figura 3.2, tratam da diferença inicial de


pressão entre as câmaras. Essas regiões representam a condição inicial do tubo de
choque antes do rompimento da membrana. Com a ruptura da membrana, uma onda de
choque propaga com velocidade supersônica em direção à extremidade fechada do tubo
induzido e, neste mesmo instante, um leque de expansão segue em sentido oposto, ou
seja, em direção ao tubo indutor. O leque de expansão é um conjunto de ondas de
rarefação que representam uma expansão isentrópica. Todos os processos que ocorrem
em um tubo de choque são descritos no diagrama que é apresentado na figura 3.2.

Pode-se observar, ainda, o surgimento de um superfície de contato que separa as


regiões 2 e 4 formadas com o rompimento da membrana. Essa superfície propaga-se
com a velocidade do escoamento atrás da onda de choque. Através dessa superfície não
ocorre fluxo de massa, e a pressão da região 2 é igual a da região 4, mas a massa
específica e a temperatura são diferentes.

Outro fato que se observa são as reflexões das ondas. A onda de choque reflete-
se muitas vezes dentro do tubo, seja no fundo do tubo induzido ou na superfície de
contato, e essas reflexões dão origem a várias regiões com propriedades distintas, figura
3.2.

A velocidade do choque refletido no fundo do tubo induzido, WR, é diferente da


velocidade do choque incidente neste ponto, WI. Isto ocorre porque quando o choque
retorna, este atravessa um meio onde as propriedades termodinâmicas foram
modificadas desde sua primeira passagem. A onda de choque refletida na superfície de
contato também tem o mesmo comportamento.

As reflexões no fundo do tubo induzido podem ser entendidas como totais


devido à rigidez da parede, já na superfície de contato estas são parciais. Quando a onda
de choque encontra-se com a superfície de contato parte da onda reflete-se e o restante,
geralmente uma parcela pequena, é transmitida através da mesma e segue em direção ao
fundo do tubo induzido. Isto acontece em função das características geométricas do tubo
e dos gases utilizados.
3 Alta Pressão 1 Baixa Pressão

Ondas de Superfície Onda de


Rarefação de Contato Choque

W
3 4 2 1

Superfície
de Contato

( tSC , XSC ) 5 ∆t
Tempo

WR
Leque de Expansão
4 2
WI
t
Onda de Choque

3 1

p3
Pressão

p4 p2
p1

T2
Temperatura

T3 T1
T4

V4 V2
Velocidade

V3 V1
Posição
Figura 3.2: Diagrama geral das propriedades em um tubo de choque.
O tubo de choque, que tem o seu projeto realizado prezando-se a excelência de
seu funcionamento, a superfície de contato não pode sofrer interferência do leque de
expansão, o que é conseguido a partir de relações adequadas do comprimento do tubo
induzido e do tubo indutor. A superfície de contato deve permanecer inalterada pelo
menos até a primeira reflexão da onda de choque sobre ela, para que assim o tubo
apresente um bom funcionamento a nível metrológico.

Em tubos onde há uma relação muito grande entre os comprimentos do tubo


induzido e do tubo indutor, a onda de choque transpõe quase que totalmente a superfície
de contato. Neste caso, a primeira onda de expansão, que se desloca com velocidade
sônica após se refletir no fundo do tubo indutor, alcança a superfície de contato, que tem
a mesma velocidade subsônica do escoamento, antes do encontro desta com a onda de
choque, degradando-a e diminuindo sua capacidade de reflexão. A maior ou menor
quantidade de transmissão da onda de choque através da superfície de contato depende
ainda da velocidade do som a montante e a jusante da onda (Shapiro, 1953).

Um fenômeno que influencia de forma muito importante os processos que


ocorrem em um tubo de choque é a deformação do diafragma (Daru e Damion, 1993). A
configuração oblíqua da condição inicial provoca o surgimento de um escoamento
complexo, gerando uma onda de choque transversal que se reflete na parede do tubo e
depois se encontra sobre o eixo central formando uma onda concentrada de estrutura
esférica. Essa onda esférica repete-se periodicamente refletindo-se na parede do tubo e
propaga-se aproximadamente com a mesma velocidade do escoamento atrás da onda de
choque plana. Esse movimento gera um micro-escoamento em ambos os lados da onda
o qual é captado pelos transdutores de pressão, sendo responsável pelas oscilações
periódicas observadas nos degraus de pressão.