Você está na página 1de 14

Análise Psicológica (2010), 2 (XXVIII): 255-267

Transição para a idade adulta: Das


condições sociais às implicações
psicológicas

CLÁUDIA ANDRADE (*)

INTRODUÇÃO dos estudos e uma marcada instabilidade


profissional que dificulta a inserção dos jovens
Na fase do ciclo vital que corresponde à no mercado de trabalho. Por outro lado, os
passagem da adolescência para a idade adulta, processos de emancipação residencial em relação
ocorrem transições traduzidas no desenvolvi- à família de origem tendem a ocorrer mais
mento, realização e consolidação da identidade tardiamente em termos etários, o que se
pessoal e social do sujeito, que culminarão com repercute na idade para a constituição de uma
a aquisição do estatuto social de adulto. Este família própria. O papel parental parece, assim,
último é sustentado pelo alcance de uma posição também ser adiado.
social decorrente do desempenho de papéis De um modo geral, as mudanças sociais
profissionais e familiares, que simultaneamente colocam novos desafios ao modo como os
jovens vivem a transição para a idade adulta
assinalam o final da juventude e caracterizam a
fazendo surgir uma nova figura de adulto “em
idade adulta.
transição”, o chamado adulto emergente.
Contudo, se classicamente, “ser adulto” era
definido pelo exercício de uma actividade profis-
sional e pela constituição de uma família, as
O PROLONGAMENTO DOS ESTUDOS
mudanças sociais actuais dão novos contornos
E AS DIFICULDADES
tanto à transição para a idade adulta, como ao
DE INSERÇÃO PROFISSIONAL
assumir dos papéis de adulto por parte dos
jovens. Por um lado, surge o prolongamento
Um dos aspectos que mais tem sido destacado
na literatura sobre as novas configurações de
(*) Equiparada a Profª Adjunta, Escola Superior de
Educação de Coimbra, Praça Heróis do Ultramar, transição para a vida adulta está relacionado
3030-329 Coimbra, Telefone: 239793120, Fax: com os investimentos prolongados dos jovens na
239401461; Investigadora de Pós-Doutoramento, formação escolar, originados pelo desenvolvi-
Centro de Psicologia Diferencial, Faculdade de mento do mercado de trabalho. De um modo
Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade geral, pode constatar-se, através dos indicadores
do Porto, Rua Dr. Manuel Pereira da Silva, 4200-392
Porto, Telefone: 226079700, Fax: 226079725, sociológicos, que a melhoria generalizada das
E-mail: perdigao.claudia@gmail.com condições de vida e a modificação progressiva

255
dos padrões culturais do país, associados à em tempo parcial enquanto estudam é elevado.
integração na União Europeia se, traduziram Contudo, os estudos indicam que estes o fazem
tanto no incremento dos níveis de formação para ter mais recursos económicos a fim de
escolar, como na ampliação das expectativas de usufruir de actividades de lazer. Assim, na
realização profissional que lhe estão associadas. maioria dos casos estas actividades profissionais,
Os jovens são, assim, incentivados a investir na não implicam o desenvolvimento de competências
educação, a prosseguir os seus projectos que possam ser transferidas para futuras activi-
vocacionais com vista à aquisição futura de uma dades profissionais (Greenberger, Steinberg,
profissão, que lhes possibilitará não só a Vaux, & McAuliffe, 1980). Apesar disto, mais
realização pessoal, como a obtenção de autono- tarde torna-se mais frequente o jovem procurar
mia económica. Isto implica, por si só, que a actividades que proporcionem experiências
entrada no mercado de trabalho se faça mais pessoais, como actividades de voluntariado ou
tardiamente. Além disso, as modificações no actividades mais próximas daquelas que
mercado de trabalho vieram também introduzir gostariam de vir a desempenhar no futuro, como,
alterações no tradicional processo de continui- por exemplo, a realização de estágios.
dade entre estudos e inserção profissional. A De acordo com Arnett (2000), às vezes
outrora previsível sequência de terminus dos experiências profissionais em jovens adultos
estudos e posterior integração na vida activa vê- servem também para identificar áreas e activi-
se hoje abalada por desajustamentos e fracturas, dades para as quais estes jovens se sentem ou
consequência sobretudo da instabilidade laboral. não vocacionados. Reportando-se ao contexto
Geram-se, assim, percursos de transição para a social europeu, algumas diferenças tendem a
vida activa mais diversificados, que evidenciam surgir. Cavalli (1997) refere que muitas vezes os
as transformações do sistema educativo e do estudantes preferem instituições de educação/
mundo laboral como, por exemplo, opções de /formação perto da residência dos seus pais, o
formação que não eram inicialmente desejadas que lhes permite evitar o confronto com custos
pelos jovens ou dificuldades de encontrar um de vida elevados, que os levariam, com maior
emprego compatível com a formação adquirida probabilidade, a ter de se inserir, mesmo que
(Elejabeitia, 1997). Estas alterações afectam temporariamente, no mercado de trabalho. Deste
todos os jovens e, particularmente, os jovens modo, estão também mais apoiados e incenti-
licenciados, para os quais frequentemente as vados para prosseguir a sua formação por
expectativas associadas ao investimento na períodos cada vez mais longos. Paralelamente, o
formação académica não têm correspondência no estatuto de estudante é socialmente encarado
mercado de trabalho, tanto em termos de como uma actividade à qual o jovem se deve
estabilidade de emprego, como em termos de dedicar “a tempo inteiro”, contribuindo a família
estatuto profissional (Elejabeitia, 1997). Apesar de origem para que tal seja possível. A par deste
destas dificuldades, é cada vez maior o número processo, a escassez de oportunidades, em
de jovens de ambos os sexos que prossegue determinados países, para os jovens terem
estudos universitários. experiências profissionais como, por exemplo,
A par desta tendência generalizada, denota-se programas de emprego a tempo parcial que
ainda a existência de algumas especificidades fomentem o desenvolvimento de competências
para os designados países do Sul da Europa, nos profissionais, contribui também para a dificul-
quais Portugal se inscreve. Estes tendem a dade em abandonar este estatuto de estudante “a
apresentar percursos escolares extensos, durante tempo inteiro” (Cavalli, 1997).
os quais a maioria dos jovens está totalmente Outro aspecto documentado por Cavalli
afastada do mercado de trabalho, contribuindo (1997) diz respeito ao facto de grande parte dos
assim para o prolongamento do referido estatuto jovens ingressarem no mercado de trabalho após
social de “não produtivo” (Cavalli, 1997). Para um período relativamente longo de emprego
esta realidade, contribuem factores de natureza precário ou de desemprego. A estabilidade no
sociológica e cultural. Por contraste, no contexto mercado de trabalho só é alcançada progressiva-
norte-americano, o número de jovens a trabalhar mente e tardiamente em termos etários (Cavalli,

256
1997; Arnett, 2001). A esta realidade acresce DEPENDÊNCIAS EM RELAÇÃO
ainda a necessidade de realização pessoal através À FAMÍLIA: ECONÓMICA,
do trabalho. De acordo com Arnett e Tanner RESIDENCIAL E EMOCIONAL
(2006) o trabalho é hoje visto pelos jovens não
apenas como uma tarefa que lhes deve permitir a As transformações estruturais dos sistemas de
autonomia económica, mas também como um ensino e de formação e do mundo do trabalho
lugar de realização pessoal. Esta visão do induzem também a períodos mais longos de
trabalho pode também, de algum modo, exigir coabitação entre pais e filhos adultos (Cordon,
um período mais longo de “ajustamento” ao 1997; Rossi, 1997), facilitados por mudanças
mercado de trabalho, ou seja, pode ser neces- culturais, que permitem, hoje em dia, aos jovens
sário mudar algumas vezes de trabalho, ou optar pela “coabitação entre gerações” (Rossi,
mesmo de profissão, até se encontrar uma activi- 1997). Apesar desta ser uma realidade social-
dade considerada gratificante (Arnett & Tanner, mente variável, vimos que, para os países do Sul
da Europa, o prolongamento da educação não
2006).
levou os jovens a sair de casa para frequentar o
Em resumo, existe algum consenso nos
ensino superior. Pelo contrário, a descentrali-
estudos, tanto no contexto norte-americano como
zação e o alastramento das instituições de
no contexto europeu, quanto à individualização
formação permitiu a permanência dos jovens em
dos percursos de transição entre o sistema de casa dos pais, enquanto realizam a sua formação
ensino e o mercado de trabalho para os jovens, (Rossi, 1997). Quando o jovem se desloca para
que envolvem muitas incertezas (Arnett & prosseguir os seus estudos noutra cidade ou
Tanner 2006; Cavalli, 1997; Elejabeitia, 1997). região, a situação não se modifica substancial-
Para esta realidade contribuem, por certo, mente, na medida em que o afastamento da
factores de natureza cultural, onde o incentivo habitação parental é temporário.
para o prosseguimento de estudos e a manu- Nesta linha, Tang (1997) efectuou um estudo
tenção do estatuto de estudante “a tempo que versou a temática da saída de casa dos pais
inteiro”, suportado pela família de origem, como factor de aquisição da independência
mantêm os jovens afastados do mercado de social face à família de origem. O autor utilizou
trabalho por períodos cada vez mais longos. o critério etário, para comparar jovens que
Paralelamente, as dificuldades do mercado de saíram de casa cedo (antes dos 17 anos), “na
emprego também contribuem para a necessidade altura certa” (“on-time” no original), ou seja,
de investimento em formação cada vez mais entre os 18 e os 24 anos, e tardiamente, entre os
extensa, prévia ao ingresso no mercado de 25 e os 30 anos. Verificou que, no que se refere
trabalho. No seu conjunto, estes factores aos jovens que saíram cedo de casa, as principais
contribuem para percursos de inserção profis- determinantes para essa saída estiveram asso-
sional tardios, onde as alterações nos projectos ciados a composições familiares que envolviam
situações de recasamento ou de adopção, pare-
profissionais e de carreira, assim como a alter-
cendo que tais situações promovem a saída de
nância entre períodos de emprego e desemprego,
casa dos jovens ou a redução do apoio socio-
também tendem a surgir. Para esta realidade,
económico que lhes é concedido (Tang, 1997).
contribui ainda a valorização do trabalho Quanto aos jovens que saem na “altura certa”,
enquanto fonte de realização pessoal. Deste o cumprimento do serviço militar, a constituição
modo, os jovens estão mais disponíveis para de sua própria família e a ruptura no casamento
procurarem empregos não só que se aproximem dos progenitores parecem ser os factores com
da sua formação, como aqueles que lhes maior influência. Já para os jovens que saíram de
proporcionarem realização pessoal. Esta busca casa mais tarde, a idade apresenta-se como o
contribui, de forma activa, para a existência de principal desencadeador da saída. Neste estudo,
percursos de ajustamento ao mercado de destaca-se que factores externos à dinâmica
trabalho, mais extensos e irregulares, em termos familiar, como o prosseguimento de estudos ou a
do exercício permanente de uma profissão. inserção no mercado laboral, numa área geográ-

257
fica diferente da de residência da família de Um dos aspectos menos positivos da depen-
origem, nunca surgem como factores decisivos dência residencial é, de acordo com Arnett
para a saída de casa dos pais. Importante é ainda (2000), o facto desta proporcionar aos estudantes
o facto de que, para o grupo dos jovens que saem universitários percursos educacionais muitas
tarde, o factor idade ser o mais referenciado, e vezes demasiado extensos e instáveis, mudando
não qualquer outro como, por exemplo, o desejo de curso com alguma frequência ou deixando de
de ser independente ou de constituir uma família. estudar e retomando os estudos mais tarde. Esta
De facto, este último grupo personifica o situação pode, na opinião do autor, implicar um
fenómeno de permanência prolongada em casa processo de exploração demasiado livre e
dos pais, que parece definir uma nova categoria mesmo “interminável”, dado que não apresenta
social de jovens adultos (Cordon, 1997; Rossi, qualquer custo para o jovem, retardando assim a
1997; Tang, 1997). definição do seu percurso académico, profis-
Esta situação de coabitação, encarada como sional e mesmo pessoal (Arnett, 2000).
fruto de circunstâncias sociais, não é alvo de No contexto nacional pensamos que existem,
“penalização social”, para o jovem adulto, contudo, algumas diferenças. Apesar da
sobretudo para as culturas da Europa do Sul. Num independência residencial ser muito pouco
estudo efectuado sobre as diferenças culturais frequente durante o ensino universitário, porque
entre estes países e os chamados países da Europa a maioria dos estudantes não exerce nenhuma
do Norte, verificou-se que, apesar do desemprego actividade profissional que o permita, também as
ou do emprego precário, os jovens nos países da interrupções dos estudos não são muito
Europa do Norte mantêm a independência frequentes. Mesmo que essa independência se
residencial, enquanto que o oposto se verifica nos verifique quando os jovens estudam em locali-
países do Sul da Europa, onde a família partilha a dades distantes da residência dos pais, não se
sua residência com os filhos. pode esquecer que ela serve apenas essa finali-
Mesmo assim, as dificuldades de emprego dade e que os jovens regressam a casa dos pais
constituem um outro factor importante para o durante as férias escolares ou quando terminam
prolongamento da coabitação. Nos países os seus estudos superiores.
europeus que partilham problemas de desem- Neste quadro, Cavalli (1997) considera que a
prego ou emprego precário, observa-se um dependência residencial dos jovens reflecte uma
aumento da dependência residencial dos jovens, escolha racional por parte destes e recorda que a
relativa à família de origem (Cordon, 1997). melhoria generalizada das condições econó-
Apesar deste estudo não ter incluído dados micas, particularmente da classe média, conse-
relativos a Portugal, pensamos que, no nosso quência da modernização, repercute-se ao nível
país, a situação é muito semelhante à dos outros das condições habitacionais. Nesta classe social,
países da Europa do Sul. Rossi (1997) indica que os jovens têm frequentemente, no lar dos seus
os jovens preferem optar pelo estatuto e pelo progenitores, um espaço próprio, muitas vezes
bem-estar que a residência familiar lhes propor- personalizado ao seu gosto, onde a vinda de
ciona, em detrimento da autonomia, uma vez colegas e amigos se efectua sem criar tensões.
que, na maioria dos casos, o seu nível de vida Assim, podem beneficiar de uma “semi-autono-
fora de casa dos pais tenderia a ser consideravel- mia” residencial, na medida em que têm um
mente inferior. De facto, tanto os pais como os espaço que é considerado como seu, mas que não
filhos adultos sentem-se confortáveis num necessitam de suportar do ponto de vista
processo onde aqueles concordam em apoiar económico.
residencialmente os filhos, até que estes Apesar de, no contexto norte-americano, a
consigam atingir a independência económica idade mais frequente de deixar a casa dos pais
que lhes permita uma vida autónoma. Deste seja os 18/19 anos, a independência residencial é
modo, também a própria família de origem não também muitas vezes efectuada de acordo com
assume um papel de incentivo para o abandono este estatuto de “semi-autonomia”, na medida
do lar familiar e para a aquisição da autonomia em que tem um carácter temporário, ou seja,
económica. ocorre durante os estudos ou para viver uma

258
relação afectiva. Mesmo no contexto norte- valor que atribuem ao seu próprio bem-estar, em
americano, os jovens que ingressam no ensino detrimento da autonomia: a decisão de serem
superior tendem a depender de bolsas de estudos apoiados economicamente pelos pais é perfeita-
e das suas actividades profissionais em tempo mente racional e baseada numa perspectiva
parcial, e também mantêm, na maioria dos casos, utilitária de vida.
o apoio económico dos seus pais (Furstenberg, É ainda importante salientar que o convívio
Kennedy, McCloyd, Rumbaut, & Settersten, residencial não implica necessariamente proxi-
2003). No entanto, uma vez terminados os midade psicológica entre pais e filhos. Estudos
estudos ou após experiências mal sucedidas ao efectuados no contexto norte-americano
nível afectivo, tendem a regressar a casa dos evidenciaram que os adultos que apresentavam
pais. Este regresso pode ainda ser provocado por uma proximidade física elevada com os pais, ou
experiências de desemprego, emprego precário seja, que residiam em casa dos pais ou próximo
ou sub-emprego que impedem a manutenção da da mesma, apresentavam indicadores muito
residência (Arnett, 2000). Estas flutuações ao fracos de ajustamento psicológico e de
nível da independência/dependência residencial proximidade com os pais (Dubas & Pertersen,
reflectem também instabilidades decorrentes da 1996). Já os dados relativos a estudos europeus
exploração e experimentação ao nível educa- indicam que os jovens que permanecem em casa
cional e até profissional. Uma vez concluídos os dos pais, não só estão satisfeitos com a sua
estudos, face às dificuldades do mercado de situação, como continuam a considerar os pais
trabalho e à escassez de apoios sociais, os jovens como uma fonte de apoio económico e
acabam por perpetuar a sua dependência emocional, embora manifestem elevados níveis
económica face aos pais, uma vez que a sua
de autonomia na sua vivência em família
actividade profissional não lhes permite ter uma
(Chisholm & Hurrelman, 1995).
vida economicamente independente. Assim, a
A este nível, Cavalli (1997) argumenta que,
sua dependência é acima de tudo justificada por
apesar dos padrões de apoio económico e social
factores económicos.
terem sido mais marcantes para as chamadas
Todavia, também existem jovens que, mesmo
famílias de classe média e alta, este modelo
exercendo uma profissão que lhes poderia
depressa se popularizou nas outras classes, pelo
permitir viver de forma independente optam por
continuar a ser apoiados pelos pais. Nestes que se apresenta na actualidade como domi-
casos, estes jovens vêem as principais despesas nante. Na verdade, muitas vezes o facto dos
relativas à habitação, aos estudos e à alimen- jovens de famílias modestas terem um nível
tação, entre outras, ser garantidas pelos pais, o mais elevado de escolaridade do que os seus
que lhes permite continuar a usufruir dos pais, leva-os a invocarem as suas responsabili-
recursos económicos de que a família dispõe (e dades escolares e profissionais para legitimar a
muitas vezes ainda lhes oferece sob a forma de necessidade de apoio por parte daqueles. De
mesada). Os seus recursos económicos próprios igual modo, quando negoceiam com eles as
podem, assim, ser canalizados para actividades condições de coabitação demarcam o seu direito
de lazer ou para bens mais diferenciados (férias, à “liberdade”, ou seja, à sua independência no
despesas pessoais, etc...), permitindo-lhes ter seio da vida familiar. Esta situação gera, na
uma qualidade de vida muito superior à que opinião do autor, um aparente paradoxo, que se
teriam, se vivessem de forma economicamente traduz no facto de que, quanto mais autonomia
independente, pois não há dúvida de que o os jovens sentem em relação à sua família, mais
estabelecimento e a manutenção de um lar dependentes da mesma aceitam tornar-se. Na
independente implica, na maioria dos casos, um realidade, as próprias alterações nos contextos
decréscimo significativo no nível de vida. É familiares e nos processos de socialização,
nesta sequência que se situa o paradoxo da nomeadamente na relação pais-filhos, tem
dependência versus independência, que leva reduzido os conflitos entre gerações, limitando
Cavalli (1997) a considerar que, nestes casos, os assim a necessidade de saída da família para
jovens tomam uma decisão racional, dado o procurar a autonomia (Cavalli, 1997).

259
Os valores culturais associados às famílias do competências de natureza escolar, profissional e
Sul da Europa, que tendiam a exigir comporta- relacional, que lhes permitam “estar preparados
mentos semelhantes dos seus membros, através para a vida de adulto” actuando enquanto rede de
do exercício do poder paternal, está hoje a ser apoio instrumental e emocional dos filhos
alterado, dando lugar a uma progressiva redução (Pappámikail, 2004).
da autoridade parental e das clivagens associadas
ao género e à idade. Esta transformação efectua-se
sem que a família ponha em causa a sua função O QUE SIGNIFICA “SER ADULTO?”
primordial de apoio emocional e económico aos CARACTERÍSTICAS E REPRESENTAÇÕES
jovens. Para além disso, as famílias podem DA IDADE ADULTA
constituir-se como recursos para os jovens em
dois sentidos: por um lado, podem, quando Apesar de no contexto das sociedades
dispõem de recursos económicos para tal, apoiar ocidentais a autonomia e a liberdade associadas
a escolha vocacional dos filhos, independente- ao período de transição para a idade adulta
mente do curso ser leccionado numa instituição
poderem influenciar o modo como os jovens
pública ou privada, nacional ou estrangeira. Por
representam e antecipam o que é ser adulto, a
outro lado, no caso de pais com formação
literatura sugere que as representações do papel
académica superior, podem não só disponibilizar
de adulto adquirem hoje uma configuração
aos filhos um leque mais alargado de
própria, não isenta de aspectos negativos. Alguns
informações relativas ao mercado de trabalho,
autores que analisaram as representações dos
mas ajuda-os a ponderar os benefícios e custos
jovens sobre o que significa “ser adulto” indicam
potenciais das suas escolhas vocacionais. Isto
que estas aparecem identificadas com aspectos
não significa que estes jovens vejam o apoio
menos agradáveis da vida adulta, nos quais se
familiar como isento de “obrigações”. Não só
destacam as obrigações familiares e profissionais
respeitam os conselhos dados pelos pais, como
tentam integrá-los nas suas decisões e opções e a monotonia daí decorrente (Andrade, 2006;
educacionais, profissionais e mesmo pessoais. Nilsen, 1998). Como aspectos mais positivos do
No nosso país, um estudo efectuado por papel de adulto, os jovens do mesmo estudo
Pappámikail (2004), revelou que, do ponto de referiram, acima de tudo, actividades que são
vista dos jovens, a família funciona como uma essencialmente características da fase de tran-
rede de apoio, até que consigam posicionar-se no sição para a idade adulta, como, por exemplo,
mercado de trabalho. Este apoio é não só de conhecer novas pessoas, viajar, encontrar
natureza instrumental, com forte incidência no ocupações, com a condição de poder abandoná-
apoio económico, mas também de natureza las logo que se “tornem aborrecidas” ou quando
emocional, que apesar de ser de grande aparece algo mais interessante, prosseguir os
importância, não intervêm, de forma restritiva estudos em domínios interessantes e desafiantes,
nas suas escolhas pessoais, educacionais e mesmo que não conduzam a um trabalho bem
profissionais (Pappámikail, 2004). remunerado, ter um emprego onde se aprendam
Assim, o processo de transição para o estatuto coisas novas e se enfrentem novas situações,
de adulto parece hoje menos previsível e mais seguindo sempre, em qualquer dos casos, os
complexo (Pais, 1998; Pais, Caims, & próprios desejos e aspirações. Para além destes
Pappámikail, 2005). A condição de adulto parece aspectos, estes jovens destacaram ainda que a
passar essencialmente pelo desenvolvimento de noção de “assentar na vida” é frequentemente
competências pessoais que caracterizam a associada à constituição de família com filhos, o
autonomia psicológica e a maturidade, sendo que implica um emprego permanente para
menos dependente de marcadores sociais, como assegurar um rendimento fixo e, portanto,
o exercício de um papel profissional ou familiar. garantir a independência económica da família.
Os pais contribuem também para este processo, Embora nenhum dos jovens desejasse o mesmo
já que preferem manter o apoio, de modo a estilo de vida da geração anterior, ou seja, da
garantir que os filhos invistam na aquisição de geração dos seus pais, muitos pensam que, de

260
algum modo, podem vir a acabar numa situação Com efeito, e de um modo consensual, os
algo semelhante (Andrade, 2006; Nilsen, 1998). estudos mais recentes têm identificado
Como consequência indirecta destas represen- características pessoais como sendo prioritárias
tações, destaca-se a coexistência de expectativas para se ser considerado adulto, das quais se
elevadas e de representações negativas, em destacam ser responsável, ser capaz de tomar
relação ao papel de adulto. Todavia, se as repre- decisões e ser capaz de sustentar-se a si próprio
sentações da vida adulta continuam associadas a financeiramente (Andrade, 2006; Arnett, 1998;
um emprego estável e a um aumento crescente Facio & Micocci, 2003; Greene & Wheatley,
do nível de vida, na actualidade, este critério não 1992). De facto, tais estudos apontam para a
é considerado determinante para se “ser adulto” importância da percepção de “auto-suficiência”,
(Arnett, 1998). Já a parentalidade é considerada do ponto de vista psicológico e instrumental,
como um factor decisivo para se ser considerado como característica fundamental da idade adulta
adulto. Alguns autores indicam que os jovens, (Arnett, 1998; Greene & Wheatley, 1992).
independentemente da idade e do género, Também o estudo comparativo efectuado por
assumem que ser pai ou mãe implica ter uma Gordon, Holland, Lahelma, e Thompson (2005)
responsabilidade sobre outra pessoa e sobre si sobre representações da idade adulta, que inclui
próprio, o que é característica da idade adulta jovens mulheres inglesas e finlandesas, refere a
(Andrade, 2006; Arnett, 1998; Greene & independência do ponto de vista psicológico e
Wheatley, 1992). Também num estudo retrospec- social como a principal característica do “ser
tivo sobre as representações do papel de adulto, adulto”. A importância desta auto-suficiência
efectuado junto de jovens mães, Aronson, foi também observada em outras culturas. Jovens
universitários argentinos consideram que ser
Kimberly, e Schaler (2001) confirmam que é
capaz de formar e sustentar uma família é o
determinante para se “ser adulto”, o facto de ter
critério mais importante para que se seja
sido mãe, a par da independência económica.
considerado adulto, havendo diferenças de
Estas jovens mulheres, aliás, não consideram
género, já que as raparigas valorizam mais este
nem o emprego, nem o casamento como marcos
aspecto do que os rapazes (Facio & Micocci,
importantes para se verem a si mesmas como
2003). Do mesmo modo, Mayseless e Scharf
adultas. Outro estudo sobre o significado da
(2003), a partir de um estudo conduzido em
vida adulta indicou que os jovens adultos Israel, consideraram que a responsabilidade
distinguem categorias fundamentais para se sobre os seus próprios actos, a capacidade de
analisar o significado de ser adulto: ao nível das decidir sobre as suas próprias crenças, o
relações familiares e com os amigos; do trabalho estabelecimento de uma relação igualitária com
através do envolvimento na formação ou os pais são critérios mais importantes para se ser
profissão; do bem-estar pessoal, associado a considerado adulto. Neste caso, verifica-se que o
uma orientação individualista, com a procura ser capaz de renegociar e reconstruir um
hedónica do prazer e a manutenção da saúde relacionamento entre pais e filhos é um
(física e/ou mental); e da auto-realização, através indicador de maturidade psicológica, que se
da concretização de objectivos e do consequente reporta à conquista da autonomia.
desenvolvimento das competências psicológicas É de salientar, no entanto que o “ser adulto” é
(Reitzle, 2006). algo de dinâmico que não corresponde a um
Apesar disto, na actualidade, as menores estatuto estável (Reitzle, 2006). Mesmo os
exigências de responsabilidade associada à jovens que se consideram adultos continuam a
assumpção destes papéis dominam a vida de achar que ainda não o são na sua plenitude, e que
muitos jovens, pelo que estes se encontram isto nem sempre depende de uma escolha
numa situação de “semi-adultos”, onde se pessoal, mas pode ser fruto de constrangimentos
perspectiva uma entrada na idade adulta sociais. A posição dos jovens é marcada pela
progressiva, sem a pressão do compromisso com ambiguidade e pela ambivalência. Por um lado,
os tradicionais papéis de adulto nos domínios do os jovens assumem, facilmente, uma imagem
trabalho e da família (Reitzle, 2006). idealizada da vida adulta, que passa por

261
representações positivas da mesma. Arnett característicos da juventude e da idade adulta.
(2001) constatou, com base num inquérito Contudo, parecem assumir consensualmente que
nacional para o Estados Unidos, que 96% dos ser adulto implica entrar numa fase diferente
jovens com idades compreendidas entre os 18 e daquela em que se encontram.
os 24 anos afirmam que a vida adulta lhes iria
proporcionar a possibilidade de “virem a obter
aquilo que sonharam para as suas vidas”. Por O ADULTO EMERGENTE: CONCEITO
outro lado, não parecem querer entrar E IMPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS
rapidamente e totalmente na idade adulta, se as
circunstâncias o permitirem e não se vêem a si Numa tentativa de especificação desta etapa
próprios para já como adultos. Nesta linha, o do ciclo vital, que se situa entre o final da ado-
estudo de Reitzle (2006), por exemplo, revelou lescência e o início da idade adulta, surge, com
que muitos jovens não se percepcionam a si alguma frequência na literatura psicológica, a
mesmos nem, como adolescentes tardios, nem designação de adolescência tardia. Falar em ado-
como jovens adultos, mas sim como estando lescência implica reportarmo-nos a um período
numa fase situada entre estas duas categorias. A desenvolvimental onde ocorrem mudanças tanto
autora concluiu que a percepção subjectiva de ao nível físico, como ao nível psicológico. Do
ser adulto só estava associada aos papéis ponto de vista do estatuto social, os adoles-
normativos de adulto para os jovens de classe centes, na maioria dos casos, encontram-se a
baixa e pouco escolarizados. Para os restantes, as frequentar o sistema de ensino secundário e
restrições no acesso ao emprego e a uma vida residem com os seus pais, de quem são depen-
independente, bem como a instabilidade das dentes do ponto de vista instrumental (depen-
relações afectivas fazem com que vivam o dência económica e social) e afectivo (mantêm
presente numa perspectiva de “hedonismo dos relações de grande proximidade afectiva com os
tempos modernos”, onde os papéis de adulto não progenitores). Aliando os aspectos de natureza
têm um significado muito importante. desenvolvimental aos aspectos de natureza social
Para o contexto nacional, e no que se refere será, na opinião de Arnett (2000), pouco
especificamente às transições para os papéis de adequado chamar adolescentes tardios aos
adulto, de acordo com Guerreiro e Abrantes jovens universitários, ou mesmos àqueles que já
(2004) estas efectuam-se em dois tempos: um exercem uma actividade profissional, por
primeiro período, caracterizado pela liberdade, exemplo, na medida em que estes se encontram
pelas experiências e pela ausência de compro- numa fase claramente distinta da adolescência.
missos; um segundo período, caracterizado pela Se nos reportarmos ao desenvolvimento físico,
responsabilidade, estabilidade e compromissos. as diferenças são notórias entre os adolescentes e
A vivência de uma transição para a idade adulta estes jovens, na medida em que estes últimos se
“livre” contrasta com as atitudes relativas à vida encontram numa fase de maturidade física ainda
adulta considerada rotineira, aborrecida e não alcançada pelos primeiros. Ao nível
desinteressante (Guerreiro & Abrantes, 2004). psicológico, a tarefa da construção da identidade
Este estudo revelou ainda que, quando os jovens faz-se agora com recurso à exploração, e muito
portugueses falam dos seus planos a longo prazo, menos numa óptica de reprodução de modelos
revelam, de forma mais ou menos unânime, a ou de indecisão, que caracteriza a adolescência
intenção de aderir num primeiro momento, a esse (Arnett, 2000; Arnett & Tanner, 2006). Por outro
modelo de vida hedonista, como “trajecto natural lado, na maioria dos casos, estes jovens são
da vida”, onde os 30 anos parecem ser a fronteira responsáveis pelas suas opções e decisões, tanto
para “assentar e assumir compromissos”. no domínio das relações afectivas como no
Globalmente, os estudos apresentados domínio da educação e das escolhas profis-
parecem indicar que a representação partilhada sionais. Ainda do ponto de vista da autonomia, e
pelos jovens sobre o que significa ser adulto está dado que são estudos que se referem ao contexto
impregnada de alguma ambiguidade, dado que norte-americano, muitos destes jovens já não
nela são integrados simultaneamente aspectos residem com a família de origem (por exemplo,

262
porque estão a estudar ou trabalhar longe de casa Mais recentemente, nos anos 90, este período
dos pais) ou, quando o fazem, mantêm um estilo foi popularizado como “Geração X”, designação
de vida independente. Por último, do ponto de inspirada na obra de David Coupland, de 1991,
vista social existem diferenças marcantes entre que tinha precisamente este título. Contudo, não
os adolescentes e estes jovens, como, por parece corresponder a um fenómeno temporário.
exemplo, a possibilidade de tirar a carta de con- Esta etapa veio para ficar na vida dos jovens,
dução ou mesmo de votar, para referir algumas sobretudo em determinadas culturas, e na
que são tarefas socialmente construídas como opinião de Arnett (2001), mercê de uma
indicadores do estatuto adulto. Com base nestes designação própria, dado que apresenta também
argumentos, parece inadequado tratar estes características específicas.
jovens como adolescentes tardios, visto que Para caracterizar este período de desenvolvi-
estão, em termos do desenvolvimento psicoló- mento, Arnett (2000) propôs a designação
gico e do estatuto social, numa etapa claramente “adultez emergente”. A adultez emergente é a
distinta da adolescência (Arnett, 2000). designação proposta para os jovens que se
Também comum na literatura psicológica é situam entre os 18 e os 24 anos (embora este
designar esta fase como transição para a idade critério etário possa ser variável, o que corres-
adulta. Na perspectiva de Arnett (2000), é ponderia a um período desenvolvimental com
necessário especificar o que se entende por características próprias do ponto de vista
transição para a idade adulta, dado que esta psicossocial) (Arnett, 2000). Deste modo, a
designação assume que estes jovens estão ainda designação incorpora aspectos de natureza
a transitar para a idade adulta, e não são adultos social, que se repercutem directamente ao nível
do desenvolvimento psicológico.
de facto, até alcançarem alguma das etapas que
A primeira característica da adultez emergente
de modo mais ou menos normativo, são
diz respeito ao facto de ser uma fase de
marcadores da entrada nessa fase de vida.
exploração ao nível da identidade, onde se
Apesar da aceitação comum desta designação,
ensaiam opções, nomeadamente em relação aos
tanto por parte dos estudos sociológicos como
domínios familiar e profissional. Para o domínio
dos psicológicos, fica na opinião de Arnett
profissional, as crescentes exigências do mundo
(2000), por perceber, de facto, quais são as
laboral implicam não só uma maior necessidade
alterações e como se caracteriza o processo de de investimento ao nível da formação, como são
desenvolvimento, que culmina com a aquisição acompanhadas por períodos de trabalho em
do estatuto social de adulto. Na verdade, está-se tempo parcial (trabalho e estudo), habitualmente
a assumir-se que é uma etapa de passagem e não em áreas diversificadas. Se bem que estes
uma etapa da vida com características próprias. aspectos possam apresentar diferentes configura-
Do mesmo modo, a designação “juventude” para ções, consoante o país/cultura a que cada um se
categorizar esta etapa do ciclo de vida encerra, refere, Arnett (2000) destaca o carácter explora-
numa mesma categoria, uma pluralidade tório destas actividades laborais, servindo
demasiado abrangente de indivíduos com sobretudo para a identificação de áreas e
características muito diversificadas, tanto ao actividades em que os jovens sentem que a sua
nível etário como ao nível do seu desenvol- vocação não se iria concretizar. Estas experiên-
vimento psicológico e do seu estatuto social e cias no domínio profissional são caracterizadas
consequentemente, difícil de analisar (Arnett, tanto por fracassos e frustração, embora
2000, 2001). Essa designação reporta-se a um orientadas pela ausência de pressão social, para
período da História em que eclodiram os que seja alcançada a estabilidade que caracteriza
movimentos juvenis, mais ou menos institucio- a idade adulta. Assim, este período de vida foi
nalizados, pelo que, na opinião de Arnett (2000), designado por Arnett (2000) de “idade da
será mais apropriada do ponto de vista instabilidade”, pois as explorações na adultez
sociológico, uma vez que permite estabelecer emergente fazem com que este período seja
uma fronteira entre a infância e a idade adulta, dedicado à construção de um projecto de vida
mas inadequada do ponto de vista psicológico. adulta. De facto, se este projecto acaba por se

263
definir, na maioria dos casos, ainda está sujeito a critérios para se considerarem adultos, serem
múltiplas revisões, que se traduzem em responsáveis pelos seus actos, serem capazes de
alterações nas áreas de estudo ou no abandono tomar decisões de forma autónoma e serem
temporário dos estudos, bem como no ingresso economicamente independentes. Dentro destes
no mercado de trabalho, com alterações de critérios, o último é aquele que é assinalado
actividade profissional, ou mesmo no retorno ao como o principal responsável por não se
sistema educativo. Também no campo das sentirem completamente adultos.
relações afectivas podem surgir compromissos Arnett (2000) faz alusão a um inquérito
mais ou menos duradouros, com períodos de nacional para o contexto norte-americano, onde
emancipação residencial relativa à família de 96% dos jovens entre os 18 e os 24 anos
origem, que nem sempre se estabilizam, podendo afirmavam que esperavam um dia “vir a obter
haver um regresso a casa dos pais ou o início de aquilo que sonharam para as suas vidas”. Como
um novo período de coabitação com outro é notório, trata-se de um período onde as
parceiro. Em qualquer dos casos anteriormente expectativas em relação à vida adulta são
apresentados, estamos perante uma etapa clara elevadas e positivas. Isto compreende-se pelo
de exploração, relativa aos papéis conjugais, facto de estes jovens ainda não se terem
familiares e profissionais e como salienta Arnett confrontado, na maioria dos casos, com dificul-
(2000), exploração e instabilidade são dois dades ou responsabilidades que implicassem
aspectos que estão intimamente associados. restrições dos possíveis desejos e uma visão
A adultez emergente é também classificada menos optimista do futuro. É uma idade que se
como uma idade de “auto-centração”. Se bem caracteriza por uma imagem idealizada do futuro
que tanto a infância como a adolescência e onde se acredita que várias possibilidades de
também apresentem esta característica, a verdade sucesso estão em aberto. Contudo, de acordo
é que nestes períodos existe sempre o espectro com Tanner (2006), podem ser identificados
da vigilância parental, familiar ou mesmo estádios desenvolvimentais dentro da adultez
institucional, por parte da escola, por exemplo. emergente. Assim, existe um estádio em que os
Na adultez emergente, este controlo dissipa-se, adultos emergentes estão a investir na sua
sendo as opções mais dependentes de uma formação académica onde existem explorações
decisão individual e com consequências para o frequentes no domínio afectivo e profissional.
próprio, como, por exemplo, será “devo estudar Nesta etapa, eles questionam-se se devem tomar
e trabalhar?” ou “deveria deixar a casa dos meus decisões, de acordo com as directivas dos seus
pais e ir viver com colegas?” ou “vou trabalhar pais, dado que, nesta fase, o seu apoio financeiro
para fazer umas férias?”. Estas e outras questões, e residencial é necessário, o que poderá fomentar
que se colocam na adultez emergente, fazem a tendência para respeitarem as directrizes
com que o jovem se torne mais centrado em si parentais. Nesta etapa, as escolhas e os compro-
próprio. Esta auto-centração não deve ser missos que efectuam têm dois tipos de efeitos:
entendida só como um período de insegurança e estão a dar-se os primeiros passos para futuros
incerteza, na medida em que, embora isto possa compromissos mais duradouros, que carac-
acontecer em alguns casos, na maioria das vezes terizam a idade adulta e, por outro lado, estão a
implica que o jovem efectue reflexões estabelecer-se fronteiras mais claras e definitivas
aprofundadas sobre as diferentes opções e as em relação aos pais. Na etapa seguinte, a
siga de modo autónomo (Arnett, 1999). Esta aproximação ao estatuto de adulto torna-se mais
reflexão é mesmo um pressuposto para o clara: surgem os compromissos, nomeadamente
desenvolvimento da autonomia que caracteriza a no domínio profissional. Os efeitos da entrada
idade adulta. num dos papéis de adulto fazem-se sentir ao
Destaca-se ainda, na adultez emergente, o nível de uma identidade construída, que vai
sentimento de estar parcialmente na adolescência progressivamente substituir a identidade de
e parcialmente na idade adulta, expresso por moratória da etapa anterior da adultez emer-
cerca de 60% dos adultos emergentes no estudo gente. Progressivamente, o envolvimento com as
de Arnett (2000), que indicam, como principais escolhas e os compromissos vai sendo crescente,

264
dando lugar ao exercício dos papéis de adulto, frequentaram o ensino superior (Arnett, 2000).
assim como à criação da independência Para além disso, esta concepção deve ser
emocional e residencial em relação aos pais. analisada do ponto de vista da especificidade de
Contudo, como defendem alguns autores, este cada cultura; sendo culturalmente construída
período de vivência sem grandes compromissos não é, portanto, universal. Na opinião do autor,
é visto pelos jovens de ambos os géneros como esta etapa, com as características que lhe foram
um período transitório, que é seguido por uma apontadas, é mais visível nos países industriali-
certa estabilização nos padrões de vida mais zados, nomeadamente na América do Norte,
convencionais (Brannen & Smitson, 1998). Europa, Austrália e nalguns países asiáticos,
Já outros jovens caracterizam-se por um longo como o Japão e a Coreia do Sul e em contextos
período pós-adolescente, destinado a viver a vida familiares de classe média e urbana (Arnett,
de forma descontraída, emocionante e sem 1998, 2000).
grandes preocupações. A sua prioridade é Em suma, a vantagem da introdução do
conhecer novos locais e países, conviver com os conceito de adultez emergente prende-se com o
amigos, sair à noite, procurar novas experiências, facto de ser um período de exploração de
aprender e divertir-se, antes de assentar e assumir opções, tanto no domínio afectivo como
responsabilidades e compromissos duradouros. ocupacional, vivido longe do “controlo” das
Estes jovens podem apresentar trajectos escolares normas sociais relativas à vida adulta. Este
longos, que incluem a frequência de cursos e de período de transição, conforme vimos, implica
formação pós-graduada, com inserções precárias sentimentos de insegurança e auto-centração
e/ou temporárias no mercado de trabalho. Estas que se manifestam em cenários de oportunidades
transições estão marcadas pelo carácter lúdico e e de desafios face ao futuro. São aquilo que
hedonista da vida. Arnett (2000) designa por “anos voláteis”, no
Surgem ainda outros jovens incluídos num sentido em que são vividos com alguma
período que os autores designam por “transições instabilidade. Contudo, aspectos de natureza
experimentais” (Guerreiro & Abrantes, 2004). cultural têm influência no limitar ou prolongar
Estas caracterizam-se por uma sucessão de da adultez emergente, ou de algumas das suas
configurações de vida temporárias e imprevi- características, para a etapa seguinte. Mesmo já
síveis, como opção de vida ou como período de tendo alcançado alguma das tarefas desenvolvi-
experimentação, antes de “assentar”, casar e ter mentais que demarcam o início da idade adulta,
filhos. Tal como acontece, de forma notória, em vimos que factores de natureza cultural fazem
alguns países, viver sózinho, em coabitação ou com que muitos dos jovens adultos permaneçam
com um grupo de amigos tornam-se modelos ainda numa situação que não configura, na sua
culturalmente valorizados, pelo menos até à plenitude, o estatuto de adulto. De facto, como
parentalidade, sendo esta opção muito caracte- questiona Cavalli (1997), porquê antecipar a
rística dos jovens mais escolarizados (Guerreiro passagem para a vida adulta, com o esforço que
& Abrantes, 2004; Nurmi & Poole, 1994). esta requer, se é algo que pode ser adiado a favor
Todavia, de acordo com Guerreiro e Abrantes de um bem-estar diário? Esta perspectiva é
(2004), em Portugal, não só existe alguma corroborada por mensagens do tipo “goza a
resistência de natureza cultural, por parte da juventude enquanto puderes”, que são muito
sociedade em geral e dos próprios jovens, como frequentes na nossa cultura e traduzem um
a insuficiência de apoio público e o desenvol- reforço evidente de que a vida adulta não irá ser
vimento dos modelos de apoio familiar tornam tão satisfatória como a vida na juventude,
esta opção minoritária. perspectiva que traduz uma valorização extrema
Apesar destas características poderem ser da etapa do ciclo de vida da adultez emergente.
encontradas em qualquer jovem que se situe no Isto é ainda reforçado por mensagens que
contexto de transição para a idade adulta, o indicam claramente aos jovens que os pais estão
conceito de “adultez emergente” reporta-se, na dispostos a efectuar sacrifícios pelos seus filhos
maioria dos casos, a uma “classe” de jovens e, por isso, irão certamente tentar corresponder
urbanos, de classe média e a frequentar ou que às expectativas dos mesmos, enquanto estes

265
permanecerem no seu domicílio. Deste modo, a REFERÊNCIAS
adultez emergente constitui-se como uma etapa
de exploração e expectativas em relação aos Andrade, C. (2006). Antecipação da conciliação dos
papéis de adulto e uma oportunidade de papéis familiares e profissionais na transição para
desenvolvimento psicológico e social. a idade adulta: Estudo diferencial e intergeracio-
nal. Dissertação de Doutoramento não publicada.
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
da Universidade do Porto.
CONCLUSÃO
Arnett, J. (1998). Learning to stand alone: The
contemporary American transition to adulthood in
Como destacam diversos autores, a “estrada cultural and historical context. Human
para a idade adulta” é cada vez mais longa e a Development, 41, 295-315.
tarefa de “ser adulto”, do ponto de vista psicoló- Arnett, J. (1999). Adolescent storm and stress,
gico e social, aparece como sendo mais exigente reconsidered. American Psychologist, 54, 317-326.
na actualidade, passando muitas vezes por ser,
Arnett, J. (2000). Emerging adulthood: A theory of
ou adiada em termos temporais e a ser comple-
development from the late teens through the
tada mais tardiamente, em termos etários twenties. American Psychologist, 55, 469-480.
(Arnett, 2001; Arnett & Tanner, 2006; Rossi,
1997). É assim que as chamadas mudanças Arnett, J. (2001). Conceptions of the transition to
adulthood: Perspectives from adolescence through
“normativas” para a aquisição do estatuto de midlife. Journal of Adult Development, 8, 133-143.
adulto, nas quais se inscrevem o desempenho do
papel profissional e familiar, perdem progres- Arnett, J., & Tanner, J. (2006) Emerging adults in
America: Coming of the age in the 21st century.
sivamente este seu carácter normativo, na
Washington: American Psychological Association.
medida em que o seu adiamento surge cada vez
com uma maior frequência. Entre o final da Aronson, R., Kimberly, M., & Schaler B. E. (2001).
The post-feminist era: Still striving for equality in
adolescência e o início da idade adulta, são
relationships. American Journal of Family
exploradas uma série de possibilidades, tanto ao Therapy, 29,109-124.
nível das relações afectivas como ao nível das
preferências profissionais, que apenas gradual- Brannen, J., & Smitson, J. (1998). Conciliação entre o
trabalho e os filhos: Perspectivas de futuro para
mente se irão transformar em opções. Esta jovens de cinco países. Sociologia: Problemas e
liberdade de exploração e de escolha faz com Práticas, 27, 11-25.
que esta etapa se caracterize por alguns
Cavalli, A. (1997). The delayed entry into adulthood: Is
paradoxos. Se, por um lado, é uma etapa de vida
it good or bad for society? Actas do Congresso
constituída por sonhos e desejos em relação à Internacional growing up between center and
idade adulta, é também um tempo de incerteza e periphery. Lisbon: Instituto de Ciências Sociais.
ansiedade, sendo assim simultaneamente um
Chisholm, L., & Hurrelmann, K. (1995). Adolescence
tempo de novas liberdades e novos receios in modern Europe: Pluralized transition patterns
(Arnett, 2001). Parece claro que as tomadas de and their implications for personal and social risks.
decisão relativas ao desempenho dos papéis de Journal of Adolescence, 18, 129-158.
adulto se inscrevem num processo mais amplo
Cordon, J. (1997). Youth residential independence and
de desenvolvimento ao longo do ciclo vital, autonomy: A comparative study. Journal of Family
onde, seguramente, o desenvolvimento psicoló- Issues, 18, 576-607.
gico interage com as condições sociais e ambos
Dubas, J., & Petersen, A. (1996). Geographical distance
propiciam diferentes opções de vida, que vão from parents and adjustment during adolescence
originar o desempenho dos papéis de adulto. É and young adulthood. New Directions for Child
precisamente nesta articulação, entre o desenvol- Development, 71, 3-19.
vimento psicológico e social dos jovens e alguns
Elejabeitia, C. (1997). El desafio da la modernidad.
dos novos contextos em que os jovens se Actas do Congresso Internacional growing up
movem, que radica a problemática central deste between center and periphery. Lisbon: Instituto de
artigo. Ciências Sociais.

266
Facio, A., & Micocci, F. (2003). Emerging adulthood in the changing contexts of East and West Germany.
Argentina. New Directions for Child & Adolescent European Psychologist, 11, 25-38.
Development, 203, 21-32.
Rossi, G. (1997). The nestlings – Why young adults
Furstenberg, F., Kennedy, S., McCloyd, V., Rumbaut, stay at home longer: The Italian case. Journal of
R., & Settersten, R. (2003). Between adolescence Family Issues, 18, 627-644.
and adulthood: Expectations about the timing of
adulthood. Network on Transitions to Adulthood Tang, S. (1997). The timing of home leaving: A
and Public Policy, Research Network Working comparison of early, on-time and late home leavers.
Paper No. 1. Journal of Youth and Adolescence, 26, 13-23.

Gordon, T., Holland, J., Lahelma, E., & Thompson, R. Tanner, J. (2006). Recentering during emerging
(2005). Imagining gendered adulthood: anxiety, adulthood: A critical turning point in life span
ambivalence, avoidance and anticipation. human development. In Jeffrey Arnett & Jennifer
European Journal of Women’s Studies, 12, 83-103. Tanner (Eds.), Emerging adults in America: Coming
of the Age in the 21st century (pp. 21-55.).
Greene, A. L., & Wheatley, S. M. (1992). “I’ve got a lot Washinghton: American Psychological Association.
to do and I don’t think I’ll have the time”: Gender
differences in late adolescents’ narratives of the
future. Journal of Youth and Adolescence, 21,
667-686.
RESUMO
Greenberger, E., Steinberg, L. D., Vaux, A., &
McAuliffe, S. (1980). Adolescents who work: Nas últimas décadas assistiu-se a um conjunto de
effects of part-time employment on family and peer alterações sociais que exercem influência sobre os
relations. Journal of Youth and Adolescence, 9, modos como a transição para a idade adulta é
189-202. efectuada. Se por um lado se perspectiva um período
Guerreiro, M., & Abrantes, P. (2004). Moving into de transição cada vez mais extenso, por outro lado este
adulthood in southern European country: envolve um conjunto de características próprias,
Transitions in Portugal. Portuguese Journal of adquirindo o estatuto de etapa desenvolvimental – a
Social Science, 3, 191-209. adultez emergente. O presente artigo explora o modo
como as condições sociais se repercutem na transição
Mayseless, O., & Scharf, M. (2003). From authoritative para a idade adulta, no contexto internacional e, em
parenting practices to an authoritarian context: particular, para o contexto Português. Pretende
Exploring the person-environment. Journal of também reflectir sobre o conceito de adultez
Research on Adolescence, 13, 427-457. emergente do ponto de vista dos desafios e das
Nilsen, A. (1998) Representações dos jovens acerca da oportunidades que esta encerra para os jovens.
vida adulta. In Maria das Dores Guerreiro (Ed.), Palavras-chave: Adultez emergente, Desenvolvi-
Trabalho, família e gerações: Conciliação e mento psicológico, Transição para a idade adulta.
solidariedade (pp. 139-143). Lisboa: Celta Editora.
Nurmi, J. E., & Poole, M. E. (1994). Age difference in
adolescent future-oriented goals, concerns, and ABSTRACT
related temporal extension. Journal of Youth &
Adolescence, 23, 471-488.
During the last decades major social changes have
Pais, J. M. (1998). Gerações e valores na sociedade introduced some special features into the transition to
portuguesa. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais adulthood. On one hand the transition to adulthood
da Universidade de Lisboa. tends to occur in later ages. On the other hand it
Pais, M. P., Caims, P., & Pappámikail, L. (2005). involves a set of particular specificities that allows it to
Jovens europeus: Retratos da diversidade. Tempo be considered as a developmental phase – emerging
Social, 17, 109-140. adulthood. This paper explores how social constrains
act in the transition to adulthood, taking into account
Pappámikail, L. (2004). Relações intergeracionais, the international and national context. It intends to
apoio familiar e transições juvenis para a vida give a global overview about the challenges and
adulta em Portugal. Sociologia, Problemas e opportunities that emerging adulthood provides to
Práticas, 46, 91-116. young adults.
Reitzle, M. (2006). The connections between adulthood Key-words: Emergent adulthood, Psychological
transitions and the self-perception of being adult in development, Transition to adulthood.

267