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Coerência – ou a falta de

a) Maria tinha lavado a roupa quando chegamos, mas ainda estava lavando a roupa.

Acabado e não acabado ao mesmo tempo,

b) João não foi à aula, entretanto estava doente.

A relação não seria de oposição.

c) A galinha estava grávida.

Conhecimento prévio de que galinha põe ovos.

d) Depois do tango, chegou a vez do fado. Na Arábia.

Para dar sentido , é preciso saber que é uma manchete de jornal, na seção
esportiva e que 1) tango é música da argentina, fado é de Portugal 2) Arábia é um país 3)
estava acontecendo o campeonato mundial de futebol de juniores na Arábia e 4) que o Brasil
já havia enfrentado a Argentina e enfrentaria Portugal na sequência.

Tipos de coerência, segundo Van Dijk e Kintsch (1983)

Coerência semântica

e)Felicidade é a simplicidade de executar problemas.

Resolver

Coerência sintática

f) A felicidade, onde não existem técnicas para sua obtenção...

para cuja obtenção não existem técnicas

a qual não se obtém através de técnicas

Coerência estilística

g) Prezado Antônio,

Neste momento quero expressar meus profundos sentimentos por sua mãe ter batido as
botas.

Coerência pragmática

h) – Você me empresta o livro de Rachel de Queiroz?

- Ontem descobri um restaurante ótimo.


Como se pode perceber por estes exemplos, a coerência depende de vários fatores e os tipos
enfatizam seus diferentes aspectos.

Fases de produção de um texto (coerente) (Bernardez, 1982). Em qualquer uma das fases,
pode ocorrer incoerência:

1) intenção comunicativa

2) plano global que possibilite que o texto cumpra com a intenção comunicativa

3) realização das ações necessárias para expressar verbalmente o que se quer dizer, supondo
(ou fazendo uma aposta) aquilo que o interlocutor é capaz de reconstituir como a intenção
comunicativa

A coerência é também e portanto um princípio de interpretabilidade.

Para Charolles (1987) as sequências de frases não são coerentes ou incoerentes em si. Não há
regras de boa formação de texto que se apliquem a todas as circunstâncias. Contudo,
podemos falar em incoerência local (como nos exemplos que mencionamos).

Quando a Linguística começou a tomar o texto como unidade de estudo, partiu da


pressuposição de textos (sequências linguísticas coerentes em si) e não-textos (sequências
linguísticas incoerentes em si) e foi proposta uma Gramática do texto. Esta gramática seria
semelhante à Gramática de frases de Chomsky: um sistema finito de regras comum a todos os
usuários da língua e que lhes permitiria dizer, de forma coincidente, se uma sequência
linguística é ou não um texto (bem formado, coerente).

Como vimos, é preciso levar em conta diversos fatores variáveis, para estabelecer a coerência
de um texto. Não há critérios que confiram uma unicidade para a coerência. Por isso, passou-
se a uma construção de uma Teoria do texto ou Linguística do texto, cujo objetivo não é
predizer a boa ou má-formação dos textos, mas permitir representar* os processos e
mecanismos dos dados textuais que os falantes põem em ação quando compreendem e
interpretam uma sequência linguística, como num cálculo (de coerência).

O papel da Linguística no estudo do texto, conforme Charolles (1987) é: “delimitar, na


constituição e composição textuais, qual é a parte e a natureza das determinações que
resultam dos diferentes meios que existem nas diferentes línguas, para exprimir a
continuidade ou a sequência no discurso”.

*entender

Relações entre coesão e coerência

Os conceitos se confundem, na tentativa de separar tão nitidamente aquilo que é “linguístico”


(o modo de dizer da materialidade, manifestação “literal” ou superfície do texto) do que é a
atividade linguística como um todo: que envolve evidentemente a materialidade do texto, mas
também as inferências e interpretações relacionadas aos fatores mencionados: conhecimento
de mundo, memória, situação, gênero discursivo, etc.
O primeiro passo foi constatar que a coesão não é condição necessária nem suficiente de
coerência, já que ela não está no texto, mas se constrói a partir dele, pelos interlocutores em
interação, conforme já vimos.

O passo seguinte foi constatar que a coesão depende da coerência – ou melhor, é um modo de
estabelecer coerência.

Os movimentos responsáveis pela estruturação do texto - retrospecção e prospecção – são em


grande parte realizados por elos coesivos, mas dependem de estabelecer coerência para
cumprirem seus papéis.

Pontes de inferência (Charolles) – virada cognitivista.

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