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RESPONSABILIDADE COMO PRINCÍPIO E LIMITES(S) DA(S)

(INTER)SUBJECTIVIDADE(S) JURÍDICA(S): REFLEXÕES EM


TORNO DA PROPOSTA DE CASTANHEIRA NEVES

Ana Margarida Simões Gaudêncio

ABSTRACT:
O fundamento da responsabilidade jurídica, e, assim, e pressuponentemente, do(s)
sentido(s) de subjectividade e intersubjectividade jurídicas, é aqui considerado a partir do
reconhecimento do sujeito de direito como pessoa na proposta jurisprudencialista de
Castanheira Neves, e na respectiva proposta de construção da juridicidade numa específica
relação dialéctica entre um pólo de suum e um pólo de commune. Visando perscrutar os sentidos
e os modos de construção e delimitação das noções de sujeito(s) de direito(s) e de sujeito(s) de
dever(es), numa assimilação axiológica e substancialmente fundamentada, explorando
possibilidades de determinação do(s) sentido(s) e conteúdo(s) prático-normativamente
adequado(s) de relevância jurídica, e, assim, de um princípio normativo da responsabilidade
jurídica, expressão do direito enquanto material-axiologicamente autónoma normatividade
prática.

1. (Inter)subjectividade jurídica e responsabilidade jurídica: sentido


normativamente constitutivo da responsabilidade como princípio

Indagar pelo sentido da responsabilidade jurídica como princípio, e, assim,


especificamente, como referência ao fundamento normativamente constitutivo do sentido
do direito – ou seja, o fundamento da responsabilidade jurídica –, a partir do
reconhecimento do sujeito de direito como pessoa na proposta jurisprudencialista,
apresentada por António Castanheira Neves1, implica perscrutar os respectivos sentidos

1
Para uma síntese do sentido do pensamento jurisprudencialista, vide agora António Castanheira
NEVES, “O ‘jurisprudencialismo’ – proposta de uma reconstituição crítica do sentido do direito”, in Nuno
Manuel Morgadinho dos Santos COELHO/Antônio Sá da SILVA (Org.), Teoria do Direito. Direito
interrogado hoje – o Jurisprudencialismo: uma resposta possível? Estudos em homenagem ao Senhor
Doutor António Castanheira Neves, Salvador, Juspodivm/Faculdade Baiana de Direito, 2012, 9-79.

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normativamente constitutivos e os modos de construção e de delimitação das noções de
subjectividade e intersubjectividade, e, consequentemente, de sujeito(s) de direito(s) e de
sujeito(s) de dever(es). Assumir, então, a responsabilidade como princípio (normativo),
fundamental e fundamentante da tercialidade normativamente especificante do direito,
imporá, mais aprofundadamente, assimilar a bilateralidade e a comparabilidade
predicativas e identificadoras do direito na delimitação substancial e formal da
correspondente exigência de responsabilidade, e, portanto, enquanto pressuposto
materialmente axiológico e normativo de referenciação da validade do direito,
simultaneamente conferente de normatividade intencionalmente autónoma e de
reflexividade criticamente prática2. Na consideração do fundamento, do sentido e dos
limites de uma responsabilidade assim assumida como um dos fundamentos materiais e
como componente fundamental da densificação do sentido axiologicamente constitutivo
do próprio direito, partindo da pressuposição de uma ética de responsabilidade –
«Verantwortungsethik»3, na confluência reflexivamente crítica dessas dimensões, mais
do que repensar a necessidade prática, e até pragmática, da delimitação (inter)subjectiva
da responsabilidade jurídica –, tratar-se-á, portanto, de enfrentar a necessidade da
determinação – rectius, da determinabilidade – da(s) fronteira(s)-limite(s) da
(inter)subjectividade jurídica, face à actual proliferação de plurifacetada(s) sociedades,
em que a(s) (inter)subjectividade(s) se desenvolve(m) sobretudo em (des)equilíbrio(s)
geradores de díspares possibilidades de determinação dos sentidos e conteúdos a assimilar
como prático-juridicamente relevantes.
A actualmente proliferante difusão de afirmações de identidades, geradoras de
pluralismos, pondo em causa a possibilidade de intervenção materialmente positiva de

2
António Castanheira NEVES, “O direito como validade”, Revista de Legislação e de
Jurisprudência, Coimbra, Ano 143, 3984, 2014, 154-175. Vide também José Manuel Aroso LINHARES,
“O dito do direito e o dizer da justiça – diálogos com LÉVINAS e DERRIDA”, in José Joaquim GOMES
CANOTILHO/Lenio Luiz STRECK (Org.), Entre discursos e culturas jurídicas, Coimbra, Coimbra
Editora, 2006, 181-236 (também in Themis, VIII. 14, 2007, 5-56), 202 (vide sobretudo p. 202-207); José
Manuel Aroso LINHARES, “Autotranscendentalidade, desconstrução e responsabilidade infinita: os
enigmas de Force de Loi”, (2004), in Jorge de FIGUEIREDO DIAS/José Joaquim GOMES
CANOTILHO/José de FARIA COSTA (Org.), Ars Ivdicandi – Estudos em Homenagem ao Prof. Doutor
António Castanheira Neves, STVDIA IVRIDICA – 90, Ad Honorem – 3, Volume I – Filosofia, Teoria e
Metodologia, Coimbra, Coimbra Editora, 2008, 551-667, 638-645; “A “abertura ao futuro” como dimensão
do problema do direito”: um “correlato” da pretensão de autonomia?”, in António Avelãs NUNES/Jacinto
de Miranda COUTINHO (Coord.), O Direito e o Futuro. O Futuro do Direito, Coimbra, Almedina, 2008,
391-429, 420-423.
3
Vide Kurt BAYERTZ, “Eine kurze Geschichte der Herkunft der Verantwortung”, in Kurt
BAYERTZ (hrsg.), Verantwortung: Prinzip oder Problem?, Darmstadt: Wissenschaftliche
Buchgesellschaft, 1995, 3-71; Hans JONAS, Das Prinzip Verantwortung. Versuch einer Ethik für die
technologische Zivilisation, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1979.

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juridicidade, remete progressivamente para distintas experiências de
procedimentalização, reduzindo o que se dirá direito a um discurso ordenador
tendencialmente neutro4, que haverá de demitir-se, em último termo, de compromissos e
valorações axiológicas susceptíveis de influir na orientação subjectiva; ou que deverá
assumi-los como objectivos externos, instrumentalmente internalizáveis em nome e por
ordem de tais exigências heterónomas. Sendo num e noutro destes cenários os sujeitos de
direito configuráveis, apenas, como indivíduos, solipsisticamente ensimesmados nas suas
células individualizadas de circunspecção, seja ela ontológica, axiológica, talvez mesmo
moral, ou religiosa, seja já social, económica, tecnológica, ou outra. Tendência esta, de
heterodeterminação do direito, conducente a movimentações de funcionalização, em
diversos funcionalismos jurídicos, para o dizer com Castanheira Neves, desde os de
neomaterialização aos de, por reacção àqueles, neoformalização5. Apresentando-se
aquela primeira alternativa em conteúdos que o direito instrumentalmente assume em
função de fins heteronomamente definidos, e conferindo a segunda ao direito uma função
de estabilização face a outros subsistemas sociais, sem que se instrumentalize aos fins
que estes prosseguem6…

4
Neste sentido, vide especificamente Niklas LUHMANN, Soziale Systeme. Grundriß einer
allgemeinen Theorie, Suhrkamp, Frankfurt am Main, 1984, citado na tradução inglesa Social Systems,
tradução de John BEDNARZ, Jr., Dirk BAECKER, Stanford University Press, Stanford, 1995, 176-209;
“L’unité du système juridique” (“Die Einheit des Rechtssystems”), Archives de Philosophie du Droit,
vol. 31, 1986, 163-188; “Le droit comme système social”, Droit et Société, 11-12, 1989, 53-66; Das
Recht der Gesellschaft, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1993, 8. VII, 6-31, 38 ss., 195-204, 550 ss. Vide
ainda Gunther TEUBNER, Recht als Autopoietisches System, Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1989, citado
na tradução portuguesa O Direito como Sistema Autopoiético, tradução de José Engrácia ANTUNES,
Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1989; Gunther TEUBNER, “Reflexives Recht:
Entwicklungsmodelle des Rechts in vergleichender Perspektive”, Archiv für Recht und
Sozialphilosophie, vol. LXVIII/1, 1982, 13-59. Vide também Gunther TEUBNER, “Altera Pars Audiatur:
Law in the Collision of Discourses”, in Richard RAWLINGS (Ed.), Law, Society and Economy, Oxford,
Oxford University Press, 1997, 149-176, citado na versão francesa “Altera Pars Audiatur: Le Droit
dans la Collision des Discours”, Droit et Société, 35, 1997, 99-123; IDEM, “The Two Faces of Janus:
Rethinking Legal Pluralism”, in Kaarlo TUORI, Zenon BANKOWSKI, Jyrki UUSITALO (Ed.), Law and
Power. Critical and Socio-Legal Essays, Liverpool, Deborah Charles Publications, 1997, 119-140
(inicialmente publicado in Cardozo Law Review, vol. 13, 1992, 1443-1462).
5
Vide António Castanheira NEVES, in Teoria do Direito. Lições proferidas no ano lectivo de
1998/99, policop., 1998, 127-191 (70-106, na versão A4), e “O funcionalismo jurídico. Caracterização
fundamental e consideração crítica no contexto actual do sentido da juridicidade”, Revista de Legislação e
de Jurisprudência, ano 136, 2006, n. 3940, 3-31, a ano 136, 2006, n. 3942, 122-151, e também in Digesta
– Escritos acerca do Direito, do pensamento jurídico, da sua metodologia e outros, vol. III, Coimbra,
Coimbra Editora, 2008, 199-318.
6
Vide, sobretudo, António Castanheira NEVES, “A redução política do pensamento metodológico-
jurídico (Breves notas críticas sobre o seu sentido)”(1993), in Número especial do Boletim da Faculdade
de Direito da Universidade de Coimbra – Estudos em homenagem ao Prof. Doutor Afonso Rodrigues
Queiró, 1984, vol. II (1993), 393-447, e também in Digesta – Escritos acerca do Direito, do pensamento
jurídico, da sua metodologia e outros, vol. II, Coimbra, Coimbra Editora, 1995, 379-421, e “O

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Por entre tais propostas, voluntarística e instrumental-finalisticamente
construídas, e formal e instrumental-procedimentalmente estruturadas, regressar à
consideração do problema do direito hoje, no sentido assumido por Castanheira Neves7,
envolverá, decisivamente, questionar a possibilidade de conferir a esse assim dito direito
uma matriz fundamentante materialmente autónoma, numa base comunitária e
civilizacional, e, assim, culturalmente marcada, que o leve pressuposto como
possibilidade de resposta a um problema necessário, o da convivência humana no mundo
– o que de imediato implica uma condição ética como pressuposto –, afirmando
substancialmente um sentido, um fundamento e um conteúdo específicos materialmente
autónomos de outras ordenações culturalmente normativas8. Partindo desta
perspectivação, a conferência ao direito de um sentido autónomo exigirá uma valoração
materialmente crítica das respectivas práticas, à luz de uma compreensão dos seus
fundamentos materiais.

2. O sujeito de direito como pessoa e a dialéctica suum/commune: o princípio


do mínimo e o princípio da formalização

Pensar neste enquadramento a construção da responsabilidade jurídica requererá,


portanto, tomar como respectivo epicentro uma específica relação dialéctica intrínseca à
titularidade de direitos e de deveres, uma relação dialéctica entre um pólo de suum e um

funcionalismo jurídico. Caracterização fundamental e consideração crítica no contexto actual do sentido da


juridicidade”, 199-318.
7
Vide António Castanheira NEVES, O direito hoje e com que sentido?, Lisboa, Piaget, 2002
(também in Digesta…, vol. III, 43-72), 9-21.
8
«(…) o direito é só uma resposta possível para um problema necessário – e daí as suas alternativas.
Isto, porque o direito apenas surgirá, enquanto tal, se se verificarem certas condições e essas condições –
ou algumas delas – não são de verificação necessária». – António Castanheira NEVES, “Coordenadas de
uma reflexão sobre o problema universal do direito – ou as condições da emergência do Direito como
Direito”, in R. M. Moura RAMOS, C. Ferreira de ALMEIDA, A. Marques dos SANTOS, P. Pais de
VASCONCELOS, L. Lima PINHEIRO, M. Helena BRITO, D. Moura VICENTE (Org.), Estudos em homenagem
à Professora Doutora Isabel de Magalhães Collaço, vol. II, Coimbra, Almedina, 2002, 837-871, 839;
também in Digesta…, vol. III, 9-41. Vide António Castanheira NEVES, O problema actual do direito. Um
curso de filosofia do direito, Coimbra/Lisboa, 1985/1986, e António Castanheira NEVES, “Entre o
‘legislador’, a ‘sociedade’ e o ‘juiz’ ou entre ‘sistema’, ‘função’ e ‘problema’ – os modelos actualmente
alternativos da realização jurisdicional do Direito”, Revista de Legislação e de Jurisprudência, ano 130.º,
1997-98, 3883, 290-300, e 3884, 322-329, e ano 131.º, 1998-99, 3886, 8-14, também in Boletim da
Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vol. LXXIV, Coimbra, 1998, 1-44; também in
Digesta…, vol. III, 161-198; vide ainda António Castanheira NEVES, “O problema da universalidade do
direito – ou o direito hoje, na diferença e no encontro humano-dialogante das culturas”, in Digesta…, vol.
III, 101-128, especialmente 127-128.

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pólo de commune, tal como propõe Castanheira Neves, problematizando o(s) sentido(s)
de subjectividade e intersubjectividade jurídicas a partir do reconhecimento do sujeito de
direito como pessoa. Num percurso em que se propõe a discussão de algumas das
consequências da(s) actualmente plurifacetada(s) (inter)subjectividade(s) e do(s)
respectivo(s) (des)equilíbrio(s), que a partir do diagnóstico desta sistematização apontará
a qualificação de sujeito(s) de direito(s) e de sujeito(s) de dever(es), buscando uma
determinação do(s) sentido(s) e conteúdo(s) prático-normativamente adequado(s) de
relevância jurídica, e, assim, do direito, enquanto material-axiologicamente autónoma
normatividade (para a) prática.
Na proposta de Castanheira Neves, na especificidade da construção da
mencionada relação dialéctica entre um pólo de suum e um pólo de commune, como
pressuposto de inteligibilidade, constituição e delimitação substancial e formal da ideia
de direito, enquanto manifestação de um específico sentido tematicamente diferenciado
de intersubjectividade, projectam-se, num primeiro passo, a densificação de um sentido
normativo do direito como substancialmente conferida a partir da determinação de um
prático-axiologicamente gizado princípio normativo, e, num segundo passo, as
decorrentemente propostas vertentes de responsabilidade jurídica.
Uma tal abordagem das razões para a procura de um sentido materialmente
autónomo para o direito, e dos respectivos limites da responsabilidade jurídica, espelha
a subjacente proposta de redensificação axiologicamente material das opções a tomar na
fundamentação material do direito, perante a crescente afirmação da diferença, ou, pelo
menos, da pulverização crescente da intersubjectividade em comunidade(s) de
comunidades. Afastar-se-ão, pois, as pretensamente estritas acepções liberais,
formalmente compreendidas, que, hipertrofiando a dimensão de suum, presumivelmente
garantiriam ao Estado, e, concomitantemente, ao direito, neutralidade, igualdade,
liberdade e autonomia; e, simultaneamente, no eventualmente contrastante extremo
oposto, as pretensamente compensatórias integrações radicalmente comunitaristas,
privilegiando a dimensão de commune, presumivelmente questionariam ao Estado, e,
concomitantemente, ao direito, a neutralidade, igualdade, liberdade e autonomia,
baseadas num assimilante reconhecimento redutor desta última, e, assim, da

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correspectividade9. A percepção jurisprudencialista da juridicidade projecta-se,
diferentemente, no que ao fundamento do direito concerne, numa suprapositividade
dogmaticamente absorvida numa dimensão normativamente reconhecida como
fundamentante. Uma dimensão de suprapositividade em que a assimilação da
juridicidade se densifica em princípios fundamentantes, e, assim, princípios normativos,
autonomamente constituídos e filtrados pelo sistema jurídico, e, nesse sentido,
especificamente compreendidos como jus10. Princípios estes através dessa filtragem
instituídos como estrato fundamentante de um sistema pluriestratificado de concretização
do sentido expresso por aquela suprapositividade, de construção historicamente
determinada, informadora de uma experiência civilizacionalmente cunhada. E, assim,
princípios cuja juridicidade e vigência não dependerá de positivação sob a forma de
direito legislado11, e estritamente jurídicos, enquanto fundamentos. De que haverá, então,
que distinguir princípios extrajurídicos, cuja influência na determinação do conteúdo da
juridicidade se encontrará delimitada pelos contornos material e formalmente
constituendos desta última12.

9
Vide, por exemplo, desde logo, a discussão apresentada por vários autores em C. F.
DELANEY (Ed.) The Liberalism-Communitarianism Debate. Liberty and Community Values, Lanham,
London, Rowman & Littlefield Publishers, 1994, e ainda Patrick J. Deneen, Why Liberalism Failed,
New Haven, London, Yale University Press, 2018.
10
Vide António Castanheira NEVES, Curso de Introdução ao Estudo do Direito: lições
proferidas a um curso do 1.º ano da Faculdade de Direito de Coimbra, no ano lectivo de 1971-72,
Coimbra, 1971-1972, 125-130; António Castanheira NEVES, “A unidade do sistema jurídico: o seu
problema e o seu sentido”, Número Especial do Boletim da Faculdade de Direito de Coimbra – Estudos
em Homenagem ao Prof. Doutor Joaquim José Teixeira Ribeiro, 1979, vol. II, 73-184, e também in
Digesta…, vol. II, 95-180, 172-175; António Castanheira NEVES, Apontamentos complementares de
Teoria do Direito – Sumários e textos, Coimbra, 1998-1999, 88-90 (48-49 na versão A4). Vide ainda
Fernando José Pinto BRONZE, Lições de Introdução ao Direito, Coimbra Editora, Coimbra, 2002, 3.ª
Ed., 2019, Coimbra, Gestlegal, 627-650; José Manuel Aroso LINHARES, “Na ‘coroa de fumo’ da teoria
dos princípios: poderá um tratamento dos princípios como normas servir-nos de guia?”, in Fernando
Alves CORREIA, Jónatas E. M. MACHADO, João Carlos LOUREIRO, Estudos em Homenagem ao
Professor Doutor José Joaquim Gomes Canotilho, STVDIA IVRIDICA, 106, Ad Honorem – 6, Volume
III – Direitos e interconstitucionalidade: entre dignidade e cosmopolitismo, Coimbra, Coimbra Editora,
2012, 395-421, 413-421; José Manuel Aroso LINHARES, “Validade comunitária e contextos de
realização. Anotações em espelho sobre a concepção jurisprudencialista do sistema”, 2009, in Revista
da Faculdade de Direito da Universidade Lusófona do Porto, 1/1, 2012, 30-35
(https://revistas.ulusofona.pt/index.php/rfdulp/article/view/2966).
11
Sobre a classificação dos princípios normativos – positivos, transpositivos e suprapositivos –
convocada em texto, vide António Castanheira NEVES, Apontamentos complementares de Teoria do
Direito, 88-90 (48-49, na versão A4). Vide ainda Fernando José Pinto BRONZE, Lições de Introdução ao
Direito, 632-633.
12
Vide, neste sentido, Ana Margarida GAUDÊNCIO, O intervalo da tolerância nas fronteiras da
juridicidade: fundamentos e condições de possibilidade da projecção jurídica de uma (re)construção
normativamente substancial da exigência de tolerância, STVDIA IVRIDICA 111, Coimbra, Instituto
Jurídico da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, 2019, Parte III, 3.1.1.1.2., 3.1.1.1.3.

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Se a condição ética de emergência do direito como direito, na proposta de
Castanheira Neves, se traduz no reconhecimento do homem – aqui compreendido no
sentido de ser humano – como Pessoa, numa comunidade que é sua condição vital
(empírica), existencial e ontológica, com base nesta se constituirão os pressupostos da
sua assunção como sujeito de direito. Procurando, por outro lado, afastar a diluição do
direito na ética, faz residir naquela compreensão do reconhecimento da dignidade ética
da pessoa humana um pressuposto essencial da subjectividade e da intersubjectividade
jurídicas. Dignidade ética que não conduz à redução do fundamento da juridicidade a
uma ética, na medida em que pudesse impelir o direito a uma consideração da
irredutibilidade da singularidade do Outro, mas que reconhece nesse Outro um
indisponível, um valor e um fim em si mesmo, enquanto pressuposto, e não, como se
disse, fundamento, ético da configuração do sujeito de direito13. E reconhecimento este
que, para além de implicar como pressuposto um outro reconhecimento, como condição
previamente constituinte, referido a um Absoluto criador14, não se consubstanciará
axiologicamente, e não se efectivará normativamente, senão enquanto reconhecimento

13
Vide, desde logo, António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema
universal do Direito…”, 841 ss., e, especificamente quanto ao sentido de comunidade, enquanto condição
de existência, condição vital e condição ontológica, 849-852. Vejamos ainda, nas palavras de Castanheira
Neves, esta mais recente síntese: «Quanto às condições possibilitantes, quero invocar nestes momentos
antes de mais a que tenho considerado a essencial para a emergência, e a diferenciação, do direito como
direito, e que digo a condição ética – a convocar a pessoa enquanto o referente e o titular da humana prática
jurídica. Outras duas condições são também relevantes, uma primeira, que se dirá a condição mundanal, a
referir a social mediação do mundo, na sua fruição e repartição (…). Uma segunda condição, bem menos
evidente e que mesmo hoje ainda em geral se recusa (…), será a comunidade, a condição comunitária, na
sua irredutibilidade existencial, empírica e ontológica, e com a importância decisiva de se haver de
reconhecer aí o fundamento último da responsabilidade. (…) A pessoa não é o indivíduo, nem o sujeito
(…). Assim o tenho pensado e encontro reconfortante confirmação e refundamentação, posto que de
perspectivas entre si não coincidentes, certamente em Lévinas, mas também em Axel Honneth e em Adela
Cortina, inclusivamente em G. Jakobs (…), e em outros decerto». – António Castanheira NEVES, “Pensar
o direito num tempo de perplexidade”, in Augusto SILVA DIAS/João António RAPOSO /João Lopes ALVES
/Luís Duarte D’ALMEIDA/Paulo de Sousa MENDES (Org.), Liber Amicorum de José de Sousa e Brito, em
comemoração do 70.º Aniversário, Coimbra, Almedina, 2009, 3-28, 13-14. Vide o diálogo estabelecido por
João LOUREIRO com esta impostação das condições de emergência do direito, projectando na
responsabilidade para com as gerações futuras a expansão do sentido do direito nelas presente, in João
LOUREIRO, “Autonomia do direito, futuro e responsabilidade intergeracional: para uma teoria do Fernrecht
e da Fernverfassung em diálogo com Castanheira Neves”, Boletim da Faculdade de Direito da
Universidade de Coimbra, vol. LXXXVI, Coimbra, 2010, 15-47, especialmente p. 18-31 e 39-40.
14
«A assunção relacional do valor absoluto da pessoa ou relação de reconhecimento do puramente
pessoal como verdadeiro dom que encontra a sua decisiva possibilidade e o seu último sentido (…) na graça
de aquele outro reconhecimento provindo do Amor absoluto que nos chamou ad imaginem et similitudem
Suam e que, simultaneamente libertador do autêntico em cada um de nós e vinculante de cada um de nós à
vocação iniludível do outro, nos faz todos irmãos na comunhão e partilha do mesmo mundo». – António
Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do Direito…”, 865-866.

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recíproco15. Neste reconhecimento residirá, então, o “imperativo ético do direito”16. E
deste reconhecimento, recíproco, da pessoa como sujeito de ineliminável dignidade ética,
decorrerão duas implicações – ditas inferências axiológico-normativas – como condições
de possibilidade axiológica e normativamente essenciais à constituição do direito: o
princípio da igualdade e o princípio da responsabilidade. Com o homem-pessoa a
apresentar-se originariamente como sujeito de direitos e de deveres17. E com uma
correspondente implicação normativa fundamental: a compreensão do direito como
validade18.
Sendo o sentido pressuposto de comunidade (Communitas-Gemeinschaft) aqui
convocado por distinção relativamente ao de sociedade (Societas-Gesellschaft)19,
demarca-se especificamente tal sentido também da estrita vinculação contratual que a
Modernidade introduziu, situando-se para além desta – sem, todavia, deixar de
constitutivamente a considerar na sua decisiva leitura da autonomia – , pois que a postular
uma verdadeira comunhão, com estabelecimento de laços pré-jurídicos, de
interdependência, capazes de considerar a dimensão comunitária como indissociável da
dimensão individual. A comunidade, em Castanheira Neves, é, então, compreendida

15
«Por outro lado (…) este reconhecimento haverá de ser recíproco; os outros só me podem
reconhecer como pessoa se eu os reconhecer também a eles como pessoas. (…) O reconhecimento é assim
um diálogo ético – um diálogo de pessoas». – António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão
sobre o problema universal do Direito…”, 866.
16
«Ora, se é esta indisponibilidade (este ser fim-em-si ou esta dignidade) que, ao afirmar-se na
pessoa como pessoa, dá fundamento à sua qualidade ética de sujeito ético (…), assim, como tínhamos
igualmente compreendido que o ser sujeito ético é condição transcendental do direito, então não podemos
também deixar de reconhecer, segundo o enunciado de HEGEL, que “o imperativo do direito é este: sê pessoa
e respeita os outros como pessoas”. (…) distinguindo-se embora o direito da ética, na sua perspectiva
intencional e na sua normatividade específica – e uma coisa e outra em virtude da condição mundanal –,
nem por isso deixa ele de ter afinal na ética a sua constituinte possibilidade. O direito não é a ética, mas
tem uma dimensão ética». – António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema
universal do Direito…”, 866.
17
«Por um lado, e numa mera explicitação normativa, o reconhecimento da pessoa vem a traduzir-
se no princípio da igualdade (…).
(…) Por outro lado, permite-nos igualmente compreender que correlativo ao princípio da
igualdade das pessoas se impõe, com o mesmo sentido fundamental, o princípio da responsabilidade». –
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do Direito…”, 867.
18
«Afirmado o reconhecimento da pessoa que funda o “imperativo” do próprio direito, o
imperativo da sua própria constituição com sentido de direito, segue-se uma decisiva implicação normativa.
Desde logo, a exigência de fundamento para todas as pretensões que na intersubjectividade da
coexistência eu dirija aos outros e os outros me dirijam a mim. Um fundamento é a expressão de uma ratio
em que se afirma uma validade – é argumentum de validade. E a validade é a manifestação de um sentido
normativo (de um valor ou de um princípio) transindividual (…)». – “Coordenadas de uma reflexão sobre
o problema universal do Direito…”, 868. Vide ainda, globalmente, António Castanheira NEVES, “O direito
como validade”, 154-175.
19
Ferdinand TÖNNIES, Gemeinschaft und Gesellschaft. Abhandlung des Communismus und des
Socialismus als empirischer Culturformen, Leipzig, Fues’s Verlag (R. Reisland), 1887. Vide ainda José
Manuel Aroso LINHARES, “Validade comunitária e contextos de realização…”, 9-10.

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enquanto horizonte de referência historicamente construído, expressão histórica da
axiologia constitutiva duma normatividade vigente20. E isto sem convocar uma ontologia
ou uma determinação transcendente/transcendental, mas com uma
autotranscendentalidade que pretende subtraí-la à pura contingência histórica.
A concentração da subjectividade jurídica na pessoa, tal como proposta por
Castanheira Neves, pressupondo os padrões culturais vigentes num determinado âmbito
espácio-temporal, construídos na autodisponibilidade comunitária, comporta: por um
lado, a construção histórica – a manifestação da irredutível dimensão de historicidade
constitutiva que o direito pressupõe –, num primeiro nível, das valorações que, num
segundo nível, hão-de manifestar-se juridicamente nos princípios (normativos)
fundamentais, e, num terceiro nível, da assunção da crucial aquisição axiológica do
homem como pessoa, e da reciprocidade do reconhecimento da dignidade ética de cada
pessoa21; e, por outro lado, o horizonte regulativamente projectante e materialmente
densificante da autovinculação normativamente comunitária do direito. O que,
postulando uma tal densificação axiológica, não implicará o regresso a um
jusnaturalismo, pois que coloca a sua base de sustentação ao nível das valorações
socialmente agregadoras historicamente construídas – não meramente contingentes, antes
normativamente assimiladas na sua axiológica vinculação-vigência –, e também
recusando um estrito consenso societário (overlapping consensus)22, ou uma

20
António Castanheira NEVES, A crise actual da Filosofia do Direito no contexto da crise global
da Filosofia. Tópicos para a possibilidade de uma reflexiva reabilitação, STVDIA IVRIDICA, 72,
Coimbra, Coimbra Editora, 2003, 93-94; António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre
o problema universal do Direito…”, 863.
21
Sobre os três planos da consciência jurídica geral, vide António Castanheira NEVES, “A
Revolução e o Direito. A situação de crise e o sentido do direito no actual processo revolucionário”, Revista
da Ordem dos Advogados, ano 35, 1975, 23-62, 157-186 e 321-416, e ano 36, 1976, 5-67, e também in
Digesta – Escritos acerca do Direito, do pensamento jurídico, da sua metodologia e outros, vol.
I, Coimbra, Coimbra Editora, 1995, 51-239, 208-222; Fernando Pinto BRONZE, Lições de Introdução
ao Direito, 476 ss.. Vide ainda, quanto ao conceito de pessoa como aquisição axiológica, entre outras
reflexões de Castanheira NEVES, Apontamentos complementares de Teoria do Direito, 71-79 (40-43, na
versão A4); e “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do Direito…”, 863-871. Vide
também, Fernando Pinto BRONZE, Lições de Introdução ao Direito, 170-196, 480, 490-543, 570-579; José
Manuel Aroso LINHARES, “Humanitas, singularidade étnico-genealógica e universalidade cívico-territorial.
O “pormenor” do Direito na “ideia” da Europa das Nações: um diálogo com o narrativismo comunitarista”,
Dereito. Revista Xurídica da Universidade de Santiago de Compostela, vol. 15/1, 2006 (Separata de A
organización territorial dos estados e a integración europea), 17-67, especialmente p. 59-60, 64, e “A
representação metanormativa do(s) discurso(s) do juiz: o ‘testemunho’ crítico de um ‘diferendo’?”, in
Revista Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Estudos e Ensaios, 12, 2007-2008, 101-120, 117. Vide
ainda, como inspiração fundamental nesta construção do sentido de Pessoa, João Baptista MACHADO,
“Antropologia, existencialismo e direito”, Separata da Revista de Direito e Estudos Sociais, vol. XIII, 1-2,
Coimbra, 1965.
22
Considerando aqui o overlapping consensus na construção fundamental do liberalismo
político de Rawls: «(…) to see how a well-ordered society can be unified and stable, we introduce

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 779


determinação apenas discursiva-procedimental23. Permitindo erigir aquelas valorações
como ideais regulativos, e, nessa medida, autotranscendentais – autênticas condições de
possibilidade – não obstante na autodisponibilidade dos membros de uma comunidade
histórico-concreta –, portanto nem de pura contingência empírica – pois que se assumem
como ideais vinculantes –, nem de origem heterónoma, pois que de constituição e
reconstituição dialecticamente histórica e humana24.
O caminho aqui traçado não opta, posto o que ficou dito, nem por um estrito
individualismo, que isole o homem, nem por um absoluto comunitarismo, que o dilua. O
homem/ser humano não o será plenamente – isto é, não será pessoa, no sentido em que
Castanheira Neves no-la apresenta, na sua ineliminável dignidade ética (a condição ética
da emergência do direito25) – senão por mediação da comunidade. E deixará igualmente
de o ser – especificamente no que diz respeito ao direito – no momento que perca a noção
da fronteira, ainda que mais ou menos oscilante, entre a sua autonomia individual e a sua
integração comunitária.
A comunidade assume, assim, um relevo inquestionável, como condição vital,
existencial e ontológica da compreensão do homem como pessoa, para o dizer de novo
com Castanheira Neves. E é também na correspondente dialéctica entre os dois pólos
constitutivos da pessoa – o pólo do suum e o pólo do commune – que se compreenderá a
intersubjectividade própria do Direito26. Nesta compreensão, na primeira condição de
emergência do direito como direito, a condição mundanal, o homem/ser humano
reconhecer-se-á na sua contingência prática enquanto habitante de um mundo – de um só
mundo –, que frui por mediação – positiva e negativa – dos outros27. Conforma-se assim

another basic idea of political liberalism to go with the idea of a political conception of justice, namely,
the idea of an overlapping consensus of reasonable comprehensive doctrines». – John RAWLS, Political
Liberalism, Columbia University Press, New York, 1993, Expanded Edition, 2005, 134. Vide
especialmente p. 133-172.
23
Exemplificadamente apresentado aqui na proposta de Habermas, mormente tal como exposta em
Jürgen HABERMAS, Faktizität und Geltung. Beiträge zur Diskurstheorie des Rechts und des demokratischen
Rechtsstaats, Suhrkamp, Frankfurt am Main, 1992, IX. «Paradigmen des Rechts», III. «Krise des
Rechtsstaats und prozeduralistisches Rechtsverständnis», 516-537.
24
Ana Margarida GAUDÊNCIO, “From Centrifugal Teleology to Centripetal Axiology(?):
(In)adequacy of the Movement of Law to the Velocity of Praxis”, Boletim da Faculdade de Direito da
Universidade de Coimbra, vol. LXXXVIII, Tomo I, 2012, 91-103, 102-103.
25
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do
Direito…”, especialmente p. 841 ss.
26
António Castanheira NEVES, “Pessoa, Direito e responsabilidade”, Revista Portuguesa de
Ciência Criminal, 6, 1996, 9-43, 32-43; também in Digesta…, vol. III, 129-158.
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do
27

Direito…”, 841-844.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 780


uma inter-subjectividade, a culminar numa condição social de convivência correlativa e
recíproca – com a concomitantemente pressuponente exigibilidade a expressar a
bilateralidade atributiva específica do direito. Já na condição antropológico-existencial,
o ser humano compreende-se enquanto elemento de uma comunidade. E nesta como sua
condição de existência, condição vital e condição ontológica28: condição de existência
enquanto suporte substancial desta; condição vital enquanto conjunto de meios e
instrumentos possibilitantes de realização pessoal (a institucionalizada “sociedade”); e
condição ontológica enquanto possibilidade de constituição e manifestação do ser homem
e enquanto possibilidade de acessão a um nível humano-culturalmente comunitário, isto
é, na «(…) intencionalidade de um transpessoal comunitariamente constituído e
subsistente para além do simples correlato formal das relações inter-individuais e antes a
emergir materialmente das relações “inter-subjectivas”»29. Culminando esta condição
antropológico-existencial na condição cultural da institucionalização de uma ordem
política30. Em resultado, na condição ética, com base naquelas duas primeiras condições
– mundanal e antropológico-existencial –, assentará a ordem de direito, sendo, porém,
várias as possibilidades alternativas de substancialização regulativa da
intersubjectividade, na ausência daquela terceira condição, desde uma ordem de
necessidade – assente num despotismo ou numa total sujeição – a uma ordem de
possibilidade – traduzida numa ordem de pura administração ou de estrita eficiência –
ou mesmo a uma ordem de finalidade estritamente política31. Postulando o direito,
diferentemente, uma ordem de sentido próprio, a que seria essencial, em último termo, e
conjuntamente, uma condição ética32. Uma condição ética traduzida no reconhecimento
do sujeito ético, que se afirma em duas notas cumulativas essenciais: a liberdade –
enquanto condição transcendental da normatividade, espelhando o homem como
originarium e como autor, enquanto subjectividade perante si próprio, os outros e o
tempo – e a pessoa – de que as referidas dimensões do homem, enquanto sujeito, são

28
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do
Direito…”, 844-861.
29
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do
Direito…”, 851.
30
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do
Direito…”, 860.
31
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do
Direito…”, 861.
32
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do
Direito…”, 861.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 781


também condição essencial, e que se exprime já não no plano antropológico mas no da
coexistência ética, e portanto acrescentando-se àquele sujeito a aquisição axiológica que
a pessoa, na sua ineliminável dignidade ética, constitui33.
Só se concretizando verdadeiramente na conjugação daquelas três condições –
apresentando-se como demarcador essencial a condição ética –, a pessoa constitui a
subjectividade essencial na determinação desta ordem de direito34. Com a dimensão
axiológica de fundamentação última do direito a radicar no reconhecimento recíproco do
homem como pessoa35, sem enveredar por qualquer desconstrução linguística formal ou
material da linguagem do direito, nem pela consideração partisan de minorias, e nem
mesmo, em último termo, por uma ética da alteridade, em que a ampliação, posto que
não absolutização, da responsabilidade pelo Outro implicaria uma radical referenciação
– se não mesmo uma diluição… – do jurídico à ética, acarretando a perda de autonomia
da juridicidade que esta opção jurisprudencialista toma como pilar crucial firmante do
direito.

33
«(…) a reconhecida categoria de sujeito (pessoa) é, já nestes termos, condição transcendental do
direito – o direito é impensável sem ela –; e irá revelar-se-nos ainda sua condição de possibilidade – o
direito também não existirá sem ela». – António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre
o problema universal do Direito…”, 862. «O sujeito que assim se nos impôs como pressuposto da
normatividade não é um qualquer sujeito- é o sujeito pessoal, e, como tal, o sujeito ético». – Ibidem. Vide
ibidem, 862-866. «As dimensões que referimos determinam o “sujeito” e a sua individualidade humana,
não nos impõem a pessoa: para acedermos da individualidade à pessoa temos de passar do plano
simplesmente antropológico para o mundo da coexistência ética – a pessoa não é uma categoria ontológica,
é uma categoria ética – numa outra palavra, a primeira é uma entidade antropológica, a segunda é uma
aquisição axiológica». – Ibidem, 863-864.
34
«(…) o direito só o teremos verdadeiramente, ou autenticamente como tal, com a instituição de
uma validade e não como mero instrumento social de institucionalização e de organização, regulativo
apenas de uma qualquer estratégia de satisfação de interesses ou de necessidades (…)». – António
Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do Direito…”, 869-870.
35
Vide, entre outros textos de António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre
o problema universal do direito…”, 863-865. «(…) a categoria fundamental na ordem prática não a
temos no homem-sujeito-indivíduo, mas na pessoa, no homem pessoa e com todas as implicações da
sua imediata referência ético-comunitária, de realização e de responsabilidade. Pelo que, e já por aqui,
se terá de concluir que o vínculo social não pode fazer tabula rasa de outros vínculos humanamente
pressupostos, no postulado de um vazio aberto ao incondicional alvedrio da vontade política, ainda que
por mais de uma vez na história, e sempre tragicamente e em vão, assim se pensasse e tentasse na
acção». – António Castanheira NEVES, “O direito interrogado pelo tempo presente na perspectiva do
futuro”, in António Avelãs NUNES /Jacinto de Miranda COUTINHO (Coord.), O Direito e o Futuro. O
Futuro do Direito, Almedina, Coimbra, 2008, 9-82, 19 (também Boletim da Faculdade de Direito da
Universidade de Coimbra, vol. LXXXIII, 2007, 1-73). «(…) a pessoa implica a relação ao outro num
recíproco reconhecimento ético, como ser de dignidade em relação que é, como ainda em si mesma e
pela sua eticidade constitutiva é não menos um ser de responsabilidade – em si e nos seus próprios
direitos – e portanto é impensável sem o vínculo comunitário. Também aqui o homem não se reduz ao
“sujeito” moderno». – Ibidem, 47. Vide ainda José Manuel Aroso LINHARES, “Humanitas, singularidade
étnico-genealógica e universalidade cívico-territorial…”, especialmente p. 28, 40-41, 59-60, 64-67.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 782


3. Para uma (de)limitação da responsabilidade jurídica enquanto princípio: o
princípio normativo da responsabilidade

Do reconhecimento da Pessoa como sujeito de ineliminável dignidade ética –


posto que, enquanto categoria determinante da terceira condição de emergência do direito
como direito, a condição ética, pressupõe, decisivamente, a definição de comunidade e a
integração comunitária do homem-pessoa36 – decorre a exigência de responsabilidade
jurídica, sobretudo, enquanto projecção, na dimensão de commune, da bilateralidade
atributiva característica do jurídico, correspectiva do princípio da igualdade, e deste
enquanto manifestação da dimensão de autonomia e, sobretudo, da articulação entre as
dimensões de autonomia e responsabilidade, à luz do crivo de determinação da relevância
substancial e formal da juridicidade. Autonomia e responsabilidade enquanto faces da
dialéctica suum/commune – com equilíbrios contextualmente diferenciados, e,
consequentemente, a materializar-se especificamente enquanto corresponsabilidade, e
assim, responsabilidade que não se reduz a neminem laedere37. E que não se remete a
uma pura coexistência comunitária, antes exige e exprime uma verdadeira convivência
comunitária, a culminar num ideal de solidariedade – situado num plano transjurídico,
postulando uma dimensão de prestação positiva, cuja relevância se projectará
juridicamente em planos gradativamente distintos, e dogmático-normativamente
justificados38.

36
António Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do
Direito…”, 861-871; António Castanheira NEVES, Questão-de-facto – questão-de-direito ou o problema
metodológico da juridicidade (ensaio de uma reposição crítica) – I. A crise, Coimbra, 1967, 539-540, 571-
573; António Castanheira NEVES, “O papel do jurista no nosso tempo”, Boletim da Faculdade de Direito
da Universidade de Coimbra, vol. XLIV, 1968, 83-142, e também in Digesta…, vol. I, 9-50; António
Castanheira NEVES, “O Direito como alternativa humana. Notas de reflexão sobre o problema actual do
Direito”, Revista de Direito Comparado Luso-Brasileiro, ano IV, 1988, 10 e ss., e também in Digesta…,
vol. I, 287-310; António Castanheira NEVES, “Pessoa, Direito e responsabilidade”, 9-43.
37
António Castanheira NEVES, “Pessoa, Direito e responsabilidade”, 43; António Castanheira
NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do Direito...”, 867-868.
38
«Para além da responsabilidade pode considerar-se a solidariedade. (...) Só que – ponto essencial
– distinguindo bem responsabilidade (jurídica) e solidariedade (humana). E nesse caso não terá sequer de
convocar-se uma responsabilidade que seja compreendida a exorcizar o absurdo da dor humana na assunção
de uma culpa originária que nos solidarize, simplesmente aí – e uma vez mais naquele não já jurídico, mas
transjurídico princípio de responsabilidade radical que é o Anspruch des Seins no homem e para o homem
–, humanidade, responsabilidade e solidariedade identificam-se». – António Castanheira NEVES, “Pessoa,
Direito e responsabilidade”, 43. Vide também, enfatizando a dimensão de pertença à comunidade ínsita nos
sentidos objectivo e subjectivo de tolerância, José Casalta NABAIS, “Algumas considerações sobre a
solidariedade e a cidadania”, Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vol. LXXV,
1999, 145-174, 146-148: «(…) a solidariedade pode ser entendida quer em sentido objectivo, em que se

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 783


Da densificação material e delimitação formal da dimensão de commune e dos
consequentes sentido e relevância normativamente constitutivos do estabelecimento de
uma relação dialéctica entre suum e commune, tal como Castanheira Neves a expõe,
decorre a distinção de um “princípio do mínimo”, e, espelhando-o, de um “princípio da
formalização”, assimilando aquele primeiro a substância do jurídico, do conteúdo do
juridicamente relevante, e este último, e decorrentemente, a (de)limitação formal da
responsabilidade jurídica e da assimilação desta pelo sistema jurídico, na sua
concretização fundamentante e normativamente prática, desde logo ao nível do estrato
dos princípios normativos39. Assim, para lá da esfera de suum, a determinaçãpo da
exigibilidade jurídica assumida no pólo do commune surgirá à luz de um “princípio do
mínimo”, enquanto delimitação substancial do conteúdo jurídico das relações
intersubjectivas, determinante do estabelecimento de limites substanciais,
axiologicamente fundados, à intervenção jurídica, justificando a respectiva relevância
jurídica, e a concomitante responsabilidade jurídica40. Como delimitação do conteúdo
do juridicamente relevante, contextualizadamente excogitando o núcleo substancial do
juridicamente exigível, e continuamente reflectindo e (re)posicionando os respectivos
limites. Limites aqueles insusceptíveis de se tornarem efectivamente consubstanciados,
eles próprios de-limitados e, assim, reciprocamente exigíveis, senão espelhando tal
conteúdo, agora do ponto de vista formal-institucional, através de um “princípio da
formalização”41, enquanto demarcação institucionalmente conferida, delimitação formal
– esquemática e institucionalmente – do conteúdo histórico-concretamente aferido e
substanciado como juridicamente relevante e, portanto, a assimilar pelo sistema jurídico.
Estabelecendo, então, a potencialidade de afirmação de um sentido de relevância jurídica
dialecticamente imbricado com um sentido de responsabilidade que a peculiar
intersubjectividade respeitante ao direito exige, como integração comunitária, e cuja

alude à relação de pertença e, por conseguinte, de partilha e de corresponsabilidade que liga cada um dos
indivíduos à sorte e vicissitudes dos demais membros da comunidade, quer em sentido subjectivo e de ética
social, em que a solidariedade exprime o sentimento, a consciência dessa mesma pertença à comunidade».
– Ibidem, 148.
39
Vide António Castanheira NEVES, Curso de Introdução ao Estudo do Direito…, 125-130;
António Castanheira NEVES, “O princípio da legalidade criminal. O seu problema jurídico e o seu critério
dogmático”, Número especial do Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra – Estudos
em homenagem ao Prof. Doutor Eduardo Correia, Coimbra, Coimbra Editora, 1984, vol. I, 307-469, e
também in Digesta…, vol. I, 349-473, 416.
40
António Castanheira NEVES, “O princípio da legalidade criminal”, 416. Vide também José
Manuel Aroso LINHARES, Introdução ao Direito. Sumários Desenvolvidos, Coimbra, 2008-2009, 80-86;
Ana Margarida GAUDÊNCIO, O intervalo da tolerância nas fronteiras da juridicidade, Parte II, 5..
41
António Castanheira NEVES, “O princípio da legalidade criminal”, 416.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 784


extensão haverá de determinar-se contextualmente, em função da densificação do sentido
– substancialmente autónomo – a conferir ao direito42.
A (de)limitação substancial e formal dos sentido e conteúdo da responsabilidade
a assumir pelo direito e da respectiva assimilação pelo sistema jurídico, na sua
concretização fundamentante e normativamente prática – e, assim, na determinação do
respectivo sentido e conteúdo para a delimitação material e formal da exigibilidade
jurídica –, traduzirá a respectiva assimilação enquanto princípio normativo, e
consequentemente, a respectiva filtragem para o estrato dos princípios normativos. Pelo
que o princípio da responsabilidade, enquanto princípio suprapositivo, emanação
imediata da ideia de direito, se substancializa através da delimitação recíproca do
conteúdo de exigibilidade que a interacção intersubjectiva contextualizadamente
corporiza, perpassando todo o conteúdo do juridicamente relevante, e especificando-se
em diversas concretizações dogmáticas, em sentidos e conteúdos maleavelmente
construídos em função das respectivas exigências normativas43. Tal princípio da
responsabilidade jurídica apresenta-se determinadamente enquanto limitação às
limitações que a interacção comunitária/societária impõe às afirmações das autonomias
conviventes. E, neste sentido, no âmbito do pólo de commune, representa a definição dos
limites da necessária e adequada exigibilidade substancial e formalmente jurídica.
Necessidade e adequação essas a aferir contextualizadamente, dada a historicidade
constitutivamente caracterizadora do direito.
Assim desenhada, a responsabilidade reveste-se de diversas configurações,
assumindo papéis diferenciadamente decisivos na construção dos limites de
responsabilização normativamente adequados e da relevância prática da respectiva
intencionalidade normativa e consagração positivada em princípios e critérios jurídicos
vigentes – metadogmaticamente reflectidos e dogmaticamente densificados, consoante os
domínios do direito positivo. Numa estruturação em que Castanheira Neves identifica as
vertentes de “responsabilidade perante as condições da existência comunitária”,
“responsabilidade por reciprocidade” e “responsabilidade de integração comunitária”44.

42
António Castanheira NEVES, O direito hoje e com que sentido?.
43
António Castanheira NEVES, Curso de Introdução ao Estudo do Direito…, 125-130; Fernando
José Pinto BRONZE, Lições de Introdução ao Direito, 632-633; José Manuel Aroso LINHARES, “Na ‘coroa
de fumo’ da teoria dos princípios…”, 413-421.
44
António Castanheira NEVES, Lições de Introdução ao Estudo do Direito, Coimbra, 1968-69, 105-
125; IDEM, “Pessoa, Direito e Responsabilidade”, 32-43. Segue-se de perto o desenvolvimento desta
temática presente em José Manuel Aroso LINHARES, Introdução ao Direito. Sumários Desenvolvidos, 80-
86.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 785


Na “responsabilidade perante as condições da existência comunitária” parece
configurar-se, na proposta em análise, um corolário fundamental da assunção da
exigência de responsabilidade como princípio normativo, como estruturante
fundamentação material e consequente delimitação formal da exigibilidade
intersubjectivamente relevante no direito, e, assim, enquanto compondo o
estabelecimento de limites substanciais e formais de responsa reciprocamente exigíveis
entre sujeitos de direito, entre suum e commune – especificamente enquanto implicação
axiológico-normativa deste. Assumida em sentido sobretudo negativo – ou passivo –, por
um lado, e já mais positivo – ou activo –, por outro, apresenta-se-nos esta
“responsabilidade perante as condições da existência comunitária” em diversas
ramificações. Em primeiro lugar, uma responsabilidade de preservação, mesmo de auto-
preservação – e, assim, especificamente na fronteira entre suum e commune –, traduzida
num princípio de corresponsabilidade (stricto sensu), em que a interacção – correlação
e convivência (partindo de Werner Maihofer e Max Weber45) – se apresenta como mútuo
comprometimento com o(s) sentido(s) intersubjectivamente pacificador(es) conferidos de
alguns bens e/ou valores juridicamente assumidos como pilares fundantes da juridicidade,
expressão de honeste vivere. Admitindo, portanto, exemplarmente, naquela
corresponsabilidade, a manifestação exponencialmente sensível da validade e da
normatividade autónomas do direito, perpassando todo o espectro de relevância e
responsabilidade jurídicas, e sumamente expresso na referenciação de ultima ratio à
responsabilidade criminal. E, em segundo lugar, incluindo uma responsabilidade de
contribuição, de afirmação de participação efectiva na construção do sentido do
commune, traduzida num princípio de solidariedade e nas suas traduções jurídicas,
manifestação de suum cuique tribuere – desde logo, no âmbito da projecção social da
justiça distributiva. O que pressupõe a consideração da origem da axiologia da
normatividade jurídica – e, assim, da pré-juridicidade da axiologia constituinte do direito,
e da respectiva assimilação e filtragem para a juridicidade, desde logo enquanto princípio
normativo –, em consequência do mencionado reconhecimento recíproco, enquanto
“imperativo ético do direito”, da pessoa como sujeito de ineliminável dignidade ética,
condição transcendentalmente essencial e contextualmente constitutiva a juridicidade46.

45
Vide também Fernando José BRONZE, Lições de Introdução ao Direito, 221-227.
46
António Castanheira NEVES, Lições de Introdução ao Estudo do Direito, 105-125; António
Castanheira NEVES, “Coordenadas de uma reflexão sobre o problema universal do Direito…”, 866.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 786


As duas outras vertentes de responsabilidade jurídica identificadas surgem como
suas contíguas, pressupondo-a. Na vertente de “responsabilidade por reciprocidade” se
posicionará a responsabilidade comutativa em geral, e a responsabilidade contratual em
particular, a assentar na exigência de auto-responsabilidade. Respeitará esta dimensão à
correspectividade específica de certos domínios do direito, em função dos bens jurídicos
em causa e da respectiva (in)disponibilidade na titularidade dos sujeitos. Assumindo,
então, um conteúdo englobante mais amplamente densificado do que o manifestado pela
dita responsabilidade contratual através do princípio pacta sunt servanda, numa
intencionalidade normativamente constitutiva dirigida a executio justi. Por sua vez, a
vertente de “responsabilidade de integração comunitária” corresponderá à
responsabilidade pelo dano, pelo prejuízo, por situações de acção antinómica, e, assim,
numa mais ampla perspectivação da intersubjectividade, numa intencionalidade
normativamente constitutiva dirigida a hominis ad hominem proportio47. Na vertente de
“responsabilidade por reciprocidade” especificar-se-á a corresponsabilidade mais
restritamente, enquanto correspectividade e, mais especificamente ainda, se e quando
justificada, comutatividade; e, diferentemente ainda, outra especificação da
corresponsabilidade, na “responsabilidade de integração comunitária”, mais
amplamente compreendida, assente na intencionalidade correctiva dos equilíbrios
intersubjectivamente interferentes.

4. Princípio normativo da responsabilidade e limite(s) da (inter)subjectividade


jurídica: sujeito(s) de direito(s) e sujeito(s) de dever(es)…

Assumir a intersubjectividade jurídica enquanto intersubjectividade que faz


corresponder à dimensão da afirmação de direitos a titularidade de (correspectivos)
deveres, numa comunitariamente assimilada dialéctica entre autonomia e
responsabilidade, implica a expressão de uma normativamente estabelecida integração
comunitária, a pressupor e a exigir uma dialéctica entre direitos e deveres, como condição

47
António Castanheira NEVES, Lições de Introdução ao Estudo do Direito, 105-125; IDEM,
“Pessoa, Direito e Responsabilidade”, 32-43; José Manuel Aroso LINHARES, Introdução ao Direito.
Sumários Desenvolvidos, 80-86. E, considerando especificamente a distinção no âmbito da
responsabilidade civil, Mafalda Miranda BARBOSA, “Liberalismo, comunitarismo e personalismo: reflexos
em sede de responsabilidade civil”, Revista de Direito da Responsabilidade, ano I, 2019, 1331-1369.

REVISTA DE DIREITO DA RESPONSABILIDADE – ANO 2 - 2020 787


essencial da respectiva identificação como jurídicos48. Posto o que haverá que assumir
que o direito, enquanto ordem normativa materialmente densificada, se constrói
fundamentalmente a partir de um princípio de igualdade e do seu reflexo elemento interno
de reconhecimento recíproco. A responsabilidade jurídica apresenta-se, portanto, deste
ponto de vista metadogmático, enquanto corresponsabilidade comunitária, e, assim,
tradução do mútuo respeito e reconhecimento entre os sujeitos de direito, como co-
responsáveis por aquela dialéctica suum/commune e suas respectivas implicações
normativas, desde logo, então, como “responsabilidade perante as condições da
existência comunitária”. A responsabilidade, enquanto referente axiológico
fundamentante do direito, e, portanto, princípio, pressupõe, afirma e concretiza, assim,
um sentido normativamente axiológico conferido ao e expresso pelo direito, distinta,
prévia e independentemente das prescrições criteriológicas que legislativamente a
determinem: um fundamentantemente normativo princípio da responsabilidade,
substancialmente constituinte e formalmente delineador do(s) limite(s) da
intersubjectividade jurídica, entre sujeito(s) de direito(s) e sujeito(s) de dever(es)…
Pressupor o sujeito de direito como pessoa significa assumir essa qualidade
enquanto característica fundamentalmente aferidora da titularidade de direitos subjectivos
e de deveres jurídicos – a que corresponderão, consequentemente, facultados os requisitos
dogmaticamente construídos, a personalidade jurídica, a capacidade de gozo, e, de certo
modo, e sob determinadas condições, de exercício, de direitos subjectivos e,
concomitantemente, de deveres jurídicos, e, assim, de responsabilidade jurídica (posto
que admitir que na categoria sujeito de direito se institua um titular diverso de pessoa –
ou de um colectivo de pessoas –, numa substancialização axiologicamente normativa da
juridicidade, implica um reequilíbrio, uma reconstituição, parcialmente analógica, da
prática, considerando seres humanos e não humanos, num outro sentido de
intersubjectividade)49. Afirmar, por outro lado, e correspectivamente, uma

48
Vide António Castanheira NEVES, “Uma reconstituição do sentido do direito – na sua autonomia,
nos seus limites, nas suas alternativas”, Revista da Faculdade de Direito da Universidade Lusófona do
Porto, vol. 1/1, 2012, e também já António Castanheira NEVES, “O direito interrogado pelo tempo presente
na perspectiva do futuro”.
49
Vide António Castanheira NEVES, “O direito interrogado pelo tempo presente na perspectiva do
futuro”, 10-14. Vide ainda António Castanheira NEVES, “O problema da universalidade do direito – ou o
direito hoje, na diferença e no encontro humano-dialogante das culturas”, 101-128. Vide também Aroso
LINHARES, “A “abertura ao futuro” como dimensão do problema do direito”: um “correlato” da pretensão
de autonomia?”, in António Avelãs NUNES/Jacinto de Miranda COUTINHO (Coord.), O Direito e o Futuro.
O Futuro do Direito, 391-429, 426-427; Mafalda Miranda BARBOSA, “Inteligência artificial, e-persons e
direito: desafios e perspetivas”, Revista Jurídica Luso-Brasileira, 6, 2017, 1475-1503.

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autotranscendentalidade intrinsecamente fundamentante do direito – na afirmação não
apenas das suas constitutivamente normativas fundamentação, reflexão e realização
concreta, como ainda da respectiva vinculatividade, substancialmente definidas –
significa concentrar na categoria princípio normativo a efectiva filtragem normativo-
substancialmente fundamentante da materialidade do sentido do direito 50. Identificar,
portanto, os princípios normativos assim assimilados, na qualidade de autónomas
concretizações de valores-projectos comunitariamente assumidos, como vectores
essenciais à intersubjectividade definidora da juridicidade, implica reconhecê-los
enquanto construções práticas simultaneamente orientadoras, e, assim,
autotranscendentes. E, além disso, enquanto intenções à validade, em contínua
construção e redensificação histórica, condições de possibilidade de um projecto de
fundamentação axiologicamente normativa de uma comunidade jurídica, e, assim,
autotranscendentais51…
Neste continuum normativamente constituindo se reflectem, na (re)construção da
dialéctica suum/commune, bilateralidade, comparabilidade e tercialidade como
características contextualmente constitutivas da juridicidade, projectando a discussão
essencial sobre a (de)limitação da responsabilidade para o nível fundamentante dos
princípios normativos, e, consequentemente, para o patamar crítico-reflexivo dos limites
do próprio direito52. Expressando a dialéctica e dialógica construção e reconstrução
intersubjectiva contextualizante dos e contextualizada pelos fundamentos de delimitação
do intervalo de intersubjectividade respeitante à juridicidade o conjunto de fundamentais
condições de possibilidade da determinação de dimensões constitutivas, por um lado, dos
sujeitos de direito, e, por outro, do(s) sentido(s), conteúdo(s) e amplitude(s) prático-
normativamente adequados de assimilação de um específico sentido de responsabilidade

50
«(…) a prática humano-cultural e de comunicativa coexistência, com a sua tão específica
intencionalidade à validade em resposta ao problema vital do sentido (…), refere sempre nessa sua
intencionalidade e convoca constitutivamente na sua normatividade certos valores e certos princípios que
pertencem tanto ao ethos fundamental como ao epistéme prático de uma certa cultura numa certa época
(…). E que assim, sem se lhes ignorar a historicidade e sem deixarem de ser da responsabilidade da
autonomia cultural humana, se revelam em pressuposição intencional-problematicamente fundamentante e
constitutiva perante as positividades normativas que se exprimam nessa cultura e nessa época – são valores
e princípios pressupostos e metapositivos a essa mesma positividade, e assim numa autotranscendência de
sentido, que é verdadeiramente uma transcendentabilidade prático-cultural, de histórica criação ou
imputação humana decerto, mas de que o homem no momento da invocação não pode dispor sem a si
mesmo se negar, que deixaram nesse momento de estarem na sua opção ou no seu arbítrio». – António
Castanheira NEVES, “Pensar o direito num tempo de perplexidade”, 17-18.
51
Ana Margarida GAUDÊNCIO, “From Centrifugal Teleology to Centripetal Axiology(?)...”, 91-
103.
52
António Castanheira NEVES, “Pensar o direito num tempo de perplexidade”, 3-28.

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– substancial e formalmente ínsito ao direito, enquanto fronteira da exigibilidade
recíproca –; que, em virtude do âmbito material e do enquadramento formal que assume,
prático-normativamente e reflexivo-dialecticamente constituendos, se substancia e
configura como jurídica...

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