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O MAR ALTO DA CONSCIÊNCIA

A Psicologia dos
Espíritos

Imagem. Static3.depositphotos.com

ROBERGE FILHO

PELO ESPÍRITO: LUÍS.

1
O MAR ALTO DA CONSCIÊNCIA

CIP- BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

2
Luís (Espírito)

O Mar Alto da Consciência / [psicografado por] Roberge Filho; ditado pelo


Espírito Luís.

1. Espiritismo. 2. Obras psicografadas. I. Filho, Roberge. II. Título. III. Série.

TEXTO DE APRESENTAÇÃO DA OBRA

3
Saudamos o Amigo leitor, por através do carinho afetuoso que imprimimos nestas
ligeiras páginas...

Apresentamos uma colônia espiritual, dentre muitas outras que circunvizinham a


zona astral da crosta da Terra. Por que escolhemos uma incursão de aprendizado em “O
Mar Alto da Consciência”? Precisamente pelo seu vínculo manifesto à Medicina da
Alma.

O texto apresentará algumas noções que faz menções à Psicanálise de Freud, à


Psicologia Analítica de Jung, e, sobretudo a Doutrina Espírita conforme a entregou o
Codificador Allan Kardec; Adentramos em análise e reflexões conforme a Psicologia
dos Espíritos; Não lançamos nova teoria, pois renomados Autores Espirituais através de
médiuns dedicados na disciplina e na renúncia com Jesus já apresentaram no meio
Espírita obras que tecem a sensibilidade da Psicologia Espiritual.

Este pequeno livro nós o entregamos como um gesto sensível em detalhar nossas
experiências vivenciadas, e as experiências de outros; sobretudo eis que a Vida
Espiritual segue interpenetrada na gleba dos homens.

Toda escrita que vem trazer consolação aos homens é, uma obra permitida pela
Misericórdia de Jesus a Terra.

Muita paz a Todos, do Amigo Espiritual: Luís.

Capivari de Baixo, 02 de fevereiro de 2021.

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Notas:

*Luís: É um Trabalhador Espiritual na Medicina da Alma, atuando inicialmente na


Pátria Francesa; após, vem Integrar, desde o início do século passado, a Equipe de
Servidores de Jesus junto a Doutrina Consoladora dos Espíritos na Pátria Brasileira,
onde recebera da Veneranda Entidade Ismael, a tarefa de difundir o que poderíamos dar
a nomenclatura da “Psicologia dos Espíritos”.

** Roberge Filho é o pseudônimo do Médium Catarinense de psicografia Homero


Roberg Filho, nascido em 09 de março de 1981. Militante na Doutrina Espírita desde
1998; lançou alguns títulos por gráfica da Cidade cuja orientação era voltada ao
Pensamento Fraterno: “O Renascer da Alma” (2005); “Esperança Santa Esperança”
(2015), e a “Consciência Crística” (2021), estão entre as principais obras do médium e
também escritor; Atualmente “Roberge” divulga o Espiritismo nos meios de
comunicação virtual por através de palestras e mensagens de otimismo (diárias). Atuou
como Jornalista, Professor de Informática e Motorista Profissional da Saúde; e dedica-se
ao Estudo e formação de Psicanálise pela Academia Enlevo.

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SUMÁRIO

TEXTO DE APRESENTAÇÃO..............................................................................4

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I. PARTE: MOVIMENTOS DA CONSCIÊNCIA.......................................7

ATMOSFERA PSÍQUICA.......................................................................................8

O VISITANTE.........................................................................................................10

HOMO ESPIRITUALIZADO..................................................................................13

INSTITUTO FLAMMARION...................................................................................18

COMOÇÕES PSICOLÓGICAS.................................................................................22

DOUTOR DEMÉTRIO................................................................................................26

MÉDIUM.....................................................................................................................31

DIÁLOGO COM UM SOFREDOR.............................................................................35

A HISTÓRIA DE DEMÉTRIO......................................................................................39

AS REGIÕES DE PURGAÇÃO.....................................................................................46

O MÉDICO LEONARDO...........................................................................................51

O PACIENTE ROBERTO...........................................................................................55

AS DOENÇAS PSÍQUICAS........................................................................................59

II- PARTE: EM ATIVIDADE NA MEDICINA DA ALMA........................................63

O VAMPIRO MÁGICO...............................................................................................64

ANAGNÓRISE............................................................................................................67

GENÉTICA DA ALMA..............................................................................................70

LARVAS MENTAIS...................................................................................................81

DIÁLOGO FRATERNO.............................................................................................84

MENSAGEM MEDIÚNICA.......................................................................................89

PSICOTERAPIA DA ALMA/A CURA PELO AMOR..............................................95

O MONTE DAS VIRTUDES.....................................................................................103

GENEALOGIA DA OBSESSÃO...............................................................................107

PALAVRAS DO GOVERNADOR............................................................................111

A TEORIA DA PERMANÊNCIA.............................................................................117

I- PARTE: MOVIMENTOS DA CONSCIÊNCIA

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ATMOSFERA PSÍQUICA

7
Considerando a sabedoria milenar submersa no Inconsciente de que o Espírito
transcende a existência após o decesso biológico, importa-nos atender que é da Lei
Universal que tudo o que se move siga a uma direção...

O problema da direção, para a alma, remete a sua atividade psíquica, ao hálito


mental exaurido de seus pensamentos; o períspirito tem sutilíssimo peso atômico e
volume, é o corpo fluídico da alma;

Somos individualidades, mergulhados no Fluído Cósmico Universal, e nos


identificamos, uns com os outros, pelo padrão vibratório que nossa evolução comporta,
mediante a Lei de Afinidade que na Natureza a tudo atraí os afins, os semelhantes...

Os Espíritos pensam, logo sentem, e o fim colimado é aperfeiçoar-se no amor.

O que respira, o sopro, a vida, forças distributivas, em tudo, ao que vive, atraí,
agrega, compartilha, sente quando expande, sutiliza-se ao se desgastar...

Concluímos assim que o problema da direção na Vida Espiritual é dos mais graves
para a existência humana;

Como os herdeiros milenares da Raça Adâmica que trouxeram à Terra os genes


psíquicos da inteligência funcional, desde a Vida Espiritual tudo segue a um
planejamento, uma programação, um fim...

A Vida Espiritual é o Mundo das Causas... O Mundo Sensível na matéria é apenas


uma transitória atividade educativa.

A direção de que de início que mencionamos a um imenso “povo de Deus” que


desencarna diariamente na gleba humana é precisamente as Colônias Espirituais de
Transição.

Cada Região do Planeta, obedecendo ao lato das nações, bem como os níveis
culturais e heranças antropológicas, tem Colônias Espirituais correspondentes na zona
astral, e à guisa de imensos Parques Hospitalares, recebem os Espíritos nas condições
ordinárias à habitual atmosfera psíquica, para prepara-los ao despertar da
consciência cósmica, uma vez que larga soma estagia na consciência de sono.

É com imenso júbilo que apresentaremos uma Colônia Espiritual presente na zona
astral da pátria brasileira, que em atividade ao longo de mais de dois séculos
ininterruptos, preparou e segue a preparar para a Escola Humana, almas que se
aperfeiçoaram no campo das ideias morais, e estão incluídas no grupo de preparação
terreno à transição aguardada de orbe de prova e expiação a um Mundo de
Regeneração.

“O Mar Alto da Consciência” é uma colônia espiritual de transição que obedece a


padrões vibracionais sutis e delicados. Localiza-se por sobre a grande metrópole
Curitiba, no Estado do Paraná.

8
Façamos o obséquio de perlustrar o amor em nossas vidas... Eis o primeiro
alimento psíquico que inigualavelmente nos fora ofertado pelo Modelo e Guia, o
Médico e Terapeuta das Almas na Humanidade, nosso Senhor Jesus.

Luís. 02 de Setembro de 2020.

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O VISITANTE

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Minha primeira impressão ao chegar à colônia espiritual “O Mar Alto da
Consciência” foi precisamente a justa admiração. Da plataforma iluminada por luz
artificial, visto que estávamos em alta noite, lancei meus olhos à direção da crosta da
Terra e, à guisa de uma enorme circunferência semelhante à imensa lua cheia,
contemplei os continentes, a grande porção azul dos Oceanos, e um sem número de
pontinhos luminosos que meu Instrutor informou-me tratar-se de um verdadeiro
exército de trabalhadores espirituais direcionados aos pontos longínquos da raça
humana em padecimentos físicos e tormentos morais...

Recordei-me a situação da pandemia do corona vírus (Covid-19), e fiz uma prece


silenciosa, em busca de harmonização interior.

-- Sejam bem vindos! — Exclamava Dionísio, o anfitrião que nos recebia, Jerônimo
(meu Instrutor) e nós outro. Eram um simpático ancião de cabelos levemente
aureolados, vestes claras em tecido alvíssimo, e encantador olhar que trazia a firmeza do
homem sábio e velho, e a doce elegância da alma jovial.

Dionísio rapidamente encaminhou-nos a diretiva da larga avenida, onde teríamos


acesso ao transporte público da Cidade Espiritual. Era um imenso veículo diferente do
Aeróbus mencionado na conhecida obra mediúnica “Nosso Lar” (*) FEB, década de 40/
nota do Autor espiritual. Em uma analogia, tratava-se de uma nave de proporções
arredondadas nas extremidades, e inúmeros acentos confortáveis, no detalhe de que em
uma classificação mecânica, servia-se de um motor do tipo a consumir eletricidade
estática e, na estética, assemelhava-se muito a uma grande barca.

Assim que nos acomodamos confortavelmente, uma vez que aquela viagem seria
exclusivamente dedicada a nós outros, Jerônimo, meu instrutor, sorriu diante minha
perplexidade e obtemperou em tom verbal ameno:

-- Ora... Meu amigo Luís sinceramente espero que te habitues à significativa


mensagem da natureza psíquica em “O Mar Alto da Consciência”. Como uma colônia
que tem o primor da técnica terapêutica junto aos padecentes de mazelas morais, larga
soma dos habitantes desta colônia dedicam a trabalhar junto aos leitos dos parques
hospitalares, monitorando o repouso, enquanto perfaz o desdobramento espiritual dos
habitantes para uma terapia dedicada a transcendência do aparelho psíquico...

-- Não esqueçamos o mesmo proceder junto aos nossos irmãos encarnados na crosta
—intervia Dionísio, com uma das mãos apoiadas no acento, uma vez que o grande
veículo de transporte erguia-se aproximados dois metros da superfície esmeraldina da
colônia, e ganhava a velocidade aproximada de 80 km/hora em poucos minutos..

-- A conceituação de lidar com o aparelho psíquico de um desencarnado, muito me


atraiu, devido à elasticidade do corpo causal! – acentuei por minha vez.

Jerônimo foi quem manteve o curso do diálogo, parecia sutilmente alheio a


paisagem farta de luzes em torno que de modo algum me retirou o brilho na mente em
concentração.

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Respeitoso ao olhar grato de Dionísio, dizia-me particularmente o Instrutor:

-- A energia maravilhosa do amor é verdadeiro suporte de compensação ao desgaste


no tônus psíquico de inúmeros sofredores que lesionaram o corpo físico durante a
reencarnação, e aqui chegaram traumatizados tanto pelo impacto obscuro no Umbral,
como pelas chagas abertas pelos miasmas pestilentos que por conta de bacilos psíquicos
e vibriões mentais penetraram a célula e os intoxicou a corrente sanguínea.

Tomemos o exemplo da luz do Sol. É o nutriente da existência na Terra a tudo o que


vive. As radiações solares penetram a camada de ozônio na proporção exata para que se
realizem os inúmeros fenômenos na intimidade das células animais, na fotoquímica das
plantas, para o aquecimento e umidade do ar.

Sem o sol, tudo estaria em completa treva, e não nos possibilitaria conhecer algo da
Verdade. As sombras na personalidade, porém, ainda existem para nós outros como
parte de nossa deficiência de visão espiritual; nos momentos em que a luz solar está
direcionada a outra parte do planeta -- no mundo sensível, o homem à noite sente falta
daquilo que o trazia plenitude e força, e é então que se torna mais acessível à influência
tanto para o bem quanto para o mal em acordo às suas tendências, rigorosamente
submetidas à Lei vibratória da Afinidade.

A verdade dos homens, meu amigo, é a verdade suportável aos habitantes do mundo
sensível, da caminhada sob o peso dos grilhões celulares, e submetidos à força da
gravidade.

Na aparelhagem psíquica de que os homens fazem ainda ideia de um modelo muito


semelhante às ideias Freudianas do início do século XX, tornar-se-ia pobre se as
tornássemos símile a uma estrutura onde o Inconsciente é tudo de mais forte, reduzindo
a mera expressão de identidade a própria Consciência;

No aparelho mental, ditando às regras na dor, na vocação, nas tendências inatas... O


Espírito guarda sim o misterioso domínio do Inconsciente, porém as águas de um rio
chegam até o mar, e todas as nossas expressões anímicas nos encaminham em longo
curso de experiências milenares ao “Mar Alto da Vida”, o Pensamento de Deus!

A dor... Que circunscreve a um sentido simbólico de uma castração sexual, não a


descrevemos em nosso plano como sintomas de uma sexualidade padecendo
experiências traumáticas apenas, e sim de uma consciência lesionada que abusou dos
desejos, fez-se objeto de fantasia e sedução, multideterminado pelas angustias
emocionais, a só matizar dia, pós, dia, a sensação primária do vazio que fragmenta o
Ego.

Jerônimo fez breve pausa. De forma proposital dava-me tempo para pensar...

Foi então que Dionísio interveio e falou prazenteiro:

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-- Luís... Tenho recomendações que você permaneça na casa de nossa benfeitora
Elisabeth, enquanto Jerônimo será encaminhado à residência de seu núcleo familiar
residente na colônia.

Você esteve por algum tempo por lá! (A superfície da crosta), tens notícias de nossa
Benfeitora?

Para responder ao meu interlocutor, fiz-me corado de emotividade, e exclamei:

-- Visitei Elisabeth em sua tarefa de proteção espiritual, e trago boas notícias...

Diante meu emudecer repentino, Dionísio exclamou:

-- Conseguiram – a família que Elisabeth presta amparo, deixar a caverna?!

Estranhei a afirmação do novo amigo, mas numa rápida introspecção, no célere


fluxo de meus pensamentos, vim entender que o ambiente baldo de luz que a família aos
cuidados de Elisabeth residia, tomado pelos insetos pestilentos e fungos nocivos, além
da espreita de centenas de Espíritos trevosos que perseguem os médiuns ostensivos e os
servidores de Jesus, diante o manancial de beleza e luz presente naquela colônia, era sim
a considerar-se por uma “caverna”.

Após confirmar a nova residência dos amigos. Mantivemo-nos todos em profundo


silêncio, no que Jerônimo abriu um discreto sorriso, e entusiástico exclamou:

-- A dor de quem aprisionado esteja, guarda funções na lapidação do caráter que por
hora não nos é possível em divisar...

Nossos amigos encarnados aludidos realizavam há poucos anos o resgate de


pretéritos tempos sombrios, quando os abusos na carne condicionaram a mente na
escravidão dos vícios, e comprometeram o sujeito imortal nas modalidades do prazer e
à satisfação substitutiva.

A aderência dos miasmas pestilentos na estrutura psíquica cria na mente a ideia de


dor, isso sim, mas também refaz na própria consciência profunda o que Victor Frankl
chamou por “Otimismo dramático”, para conceber a luz psicológica de sua Logo-
terapia.

Essas frustrações repetitivas, a inércia da criatividade espiritual e não propriamente


da libido, gerou uma fixação de séculos que, na abençoada “caverna” resgatara-se na
dor, na indiferença de parentes consanguíneos, a saúde imortal da libertação do débito, e
a recuperação da constituição psíquica vem sendo elaborada com o apoio de nossa
estimada Elisabeth, que tem por todos nós um imenso amor...

Jerônimo calou-se, enquanto nós outros seguimos o restante da viagem em prece e


meditações oportunas.

***

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HOMO ESPIRITUALIZADO

Estava prestes a amanhecer quando o veículo de transporte no deixou em um


terminal que segundo Dionísio era o nosso porto de conhecimento à Sabedoria do Amor
Transcendental.

Saltamos.

A movimentação era intensa.

A madrugada, conforme nos elucidaram, é a faixa mais intensa de labor em “O Mar


Alto da Consciência”.

Canteiros em flor eram abundantes, dispostos em cerca de vinte a trinta mudas de


rosas amarelas e brancas a cada dez metros que vencíamos a pé.

Foram contabilizados aproximados vinte minutos onde me fizera admirador não


somente das rosas abundantes, mas também dos inúmeros Ipês perfumados e das
esculturas a representarem os deuses da mitologia grega.

Eros; Sophia; Zeus, e, curiosamente, o símbolo mitológico de Édipo...

Diante a um edifício de estrutura conservadora, janelas muito amplas e


singularmente iluminadas, Dionísio, assumindo sua condição de Guia Espiritual,
respeitando a familiaridade de Jerônimo com a colônia, expôs a nós outro
particularmente, a empregar os seguintes termos:

-- Temos diante de nós um dos Institutos mais importantes de nossa colônia, o


Prédio da “Fisiologia da Alma”.

Sem delongas adentramos.

Para minha surpresa, nossa visitação já era esperada. E acomodados em uma sala
contígua, uma Entidade de aspecto feminino, olhar meigo e sorriso acolhedor,
apresentou-se a mim pelo nome de Fernanda.

Ao pedido de Jerônimo, a nobre e delicada entidade começou a explicar-nos quanto


ao funcionamento daquele Instituto Preparatório à Reencarnação. Detalhava minucias
na parte técnica, relevâncias no setor administrativo, horários de funcionamento em
intercâmbio ininterrupto com Postos de Socorro nas intermediações das Zonas Astrais
mais baixas e Pontos de Apoio na superfície da crosta.

Por minha vez, anotava tudo com muito cuidado e precisão.

Até que enfim, o móvel de nosso despretensioso labor era apresentado.

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Fernanda tinha os olhos muito lúcidos, comuns de uma idosa, ou de alguém que
viveu longas décadas na crosta e ao chegar à Pátria Espiritual atravessara por uma
operação magnética para reaver os traços belos da juventude.

Dionísio confirmara-me a suposição momentos depois.

Mas, de retorno ao assunto que nos tocava mais profundamente, a bela dama nos
participava com as seguintes elucidações:

-- O conjunto de detalhes na formação de um futuro vaso biológico aprimorou neste


setor detalhes na estrutura Perispiritual. Na totalidade dos detalhes desta estrutura
modulada à imagem do homem do amanhã, começamos por trabalhar importâncias que
trazem de encontro origem e evolução da espécie humana.

Presumimos que para o futuro, o molde perispiritual à dar impulso ao mecanismo


humano prevalecerá sem muitas alterações. Ampliar-se-á principalmente na questão da
sensibilidade psíquica às energias no cosmo, e por assim dizer uma mediunidade natural
será a condição prevalente nos habitantes do globo, que estimamos a transcendência do
Homo Sapiens para o denominado, por nossos maiores em evolução na Colônia, ao
grupo de crescimento intelecto e moral do “Homo Espiritualizado”, na substituição
lenta e gradual dos velhos atavismos emocionais e apego animalizado ainda vigentes
na Terra.

Recordamos que o maior desenvolvimento a alcançar é o avanço do pensamento,


para a riqueza de bagagem anímica, onde ao receber o tratamento adequado no aparelho
psíquico os Espíritos de evolução um pouco superior ao que encontramos na atualidade
no mundo, muitos deles vieram de outros planetas, e nossa colônia os vem recebendo
desde meados do século XX, culminando para maiores migrações espirituais
interplanetárias desde o início do século XXI.

Fernanda fez uma pausa, e convidando-nos a ver alguns gráficos, salientou a seguir:

-- A 1ª fase, chamamos a determinação de fatores fisioquímicos, onde os elementos


espirituais presentes no corpo causal, ou psicossoma, determinarão desde a concepção
intrauterina as funções cerebrais com capacidades de ampliação às funções superiores
como a inteligência, a razão, a cognição...

A 2ª fase é a da sublimação, onde experiências no trato com entidades espirituais de


maior elevação, a conviverem diretamente nos lares onde desde a infância já ocorrerá o
intercambio mediúnico e suporte psíquico contra os agentes das trevas, filtram as
imperfeições ainda presentes no Inconsciente Coletivo, e que por meio do reforço das
potencialidades criativas a favor da bondade, no desapego às sensações instintivas,
sobretudo na microbiota intestinal para a absorção dos nutrientes, esses “Homo
Espiritualizados” serão indivíduos com maior aptidão intelectual, moral, possibilitando
o intercâmbio mediúnico fluente, e inclusive não terão os mesmos hábitos grosseiros da
alimentação. Na Terra, alguns já reencarnados desde o início da década de 1980, são
esses intolerantes à alimentação pesada, e extremamente sensíveis à atividade psíquica

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alheia, passados muitos por seres impressionáveis, sensitivos e intuitivos, quando a
maior atividade de expansão da mente ocorre principalmente na alta capacidade na
consciência de acessar o conteúdo do próprio Inconsciente e sem passar pelo processo
comum de desligamento, sem sofrerem atos falhos, plenamente cientes dos próprios
sonhos...

-- Uma atividade psicodinâmica do Inconsciente, mas seria uma derivação da já


conhecida psicossomática? — indaguei sobe viva impressão.

-- De certa forma—asseverou Fernanda--, mas não como a entendem os


Psicanalistas da atualidade, pois o Inconsciente destes Espíritos mais evoluídos não se
manifesta na linguagem verbal e não verbal, é uma intensa atividade telepática
inexpressiva ainda à linguagem humana, bem por isso no mundo que nos encontramos
eles ainda são minoria, e alguns se sentem deslocados, jamais melancólicos pelo alto
valor de bondade na alma.

Veja bem, não é dar palavras ao Inconsciente e sim apreendê-lo, senti-lo,


decodifica-lo por através de uma natural expansão psíquica que os põe em atividade
mental de renovação e regeneração interior...

A Interlocutora fez breve pausa, no que oportunizei:

-- Diga-nos algo em respeito à finalidade destas encarnações aos moldes futuros da


raça humana?

Balançando a fronte perpendicularmente, a Doutora obtemperou:

-- É o homem despertando para maiores potencialidades nas propriedades cognitivas


superiores... Recebe de seus antecessores a bagagem evolutiva da alma, cuja finalidade
da existência é a conquista de uma personalidade que aflora com naturalidade um
conteúdo, uma bagagem, meta-psicológica. Algo compatível com a sintonia espiritual
de ordem evolutiva superior, um ser aberto à experiência psíquica que transcenda desde
o ambiente simples no lar a recolher os movimentos da espiritualidade, assim como as
intenções humanas que pairam, no que o famoso psiquiatra Carl Gustav Jung
brilhantemente definiu por Inconsciente Coletivo.

Não definem a vida espiritual por algo palpável, e sim por algo explicável. Pois a
matéria ainda não se comunicará pelo toque ao sutilíssimo peso atômico do Perispirito
alheio, ou seja, o encarnado ainda não aperta as mãos do desencarnado, mas o “Homo
Espiritualizado” interage perfeitamente junto ao plano espiritual por através do
psiquismo. Entretêm diálogos claros e precisos, e identificam seguramente o bem e o
mal, nas suas reentrâncias e ressonâncias vibratórias.

O desdobramento do psicossoma se dá de forma natural durante o sono e, bem por


isso os sonhos serão claros e nítidos, onde se familiarizam com a vida espiritual ativa,
saudável e feliz. Que é a causa final da própria razão da existência humana.

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Lendo-me os pensamentos, a Doutora asseverou:

-- Nossos Técnicos preparam a ligação da alma com a fisiologia humana através de


cuidados especiais na seleção dos genes, e em futuro não muito longínquo, quando a
Ciência avançar na assistencial Neonatal, apreciaremos a utilização de úteros artificiais,
onde nossa manipulação genética à fixação dos novos valores sublimativos na psique e
ampliação da sensibilidade orgânica não sofrerá com os condicionamentos mentais
viciados das matrizes maternas, em atividades de modulação do futuro corpo físico
realizado praticamente de forma independente pelo Espírito reencarnante, ou operado
diretamente pelos Técnicos Espirituais.

-- Então os pensamentos latentes no Inconsciente da Alma farão tudo estar pleno na


identidade com a vida psíquica! — Exclamei com estupefação.

Fernanda sorriu com elegância, e complementou:

-- Toda formação fisioquímica do corpo humano será ricamente compatível à


elaboração de uma Estrutura reinante, compatível ao nível de consciência, ou se quiser
chamar, movimentos da alma...

O homem é convidado a viver no amanhã a sua identificação com a imortalidade da


alma!

Sob um olhar de Jerônimo, a Doutora Fernanda deu por encerrado naquele momento
o móvel das elucidações.

Tudo viria a seu tempo.

Nos momentos ulteriores fomos gentilmente conduzidos pela Doutora a visitar as


dependências do Instituto, onde se maravilhava a Tecnologia presente, bem como a
presença da luz vivamente colorida em todos os ambientes.

Para minha surpresa... Momentos antes de deixarmos o iluminado recinto, ouvira uma
voz familiar.

Sim. Era nossa cara amiga de longa data Felícia, que atendendo funções de
Enfermagem naquele Instituto, aproximou-se a mim trazendo nos braços um fardo
muito especial e iluminado, belo e delicado... Era um bebê... Um Espírito que havia
sofrido o processo de redução do veículo Perispiritual antes mesmo de ser entregue aos
braços da futura mamãe na crosta, e como informara-nos alegremente Felícia, mais um
dos Homo Espiritualizados em terras brasileiras.

Eu tinha os olhos húmidos.

Ao entregar-me o lindo bebe aos meus braços, a velha conhecida Enfermeira


admitida como voluntária desde a década de 1980 no projeto “Homo Espiritualizado”
em “O Mar Alto da Consciência”, exclamou:

-- De boas-vindas ao nosso pequeno Fédon, meu caro Luís...


16
Acredite... Ele é vivamente sensível não somente à sua voz, mas a ternura que o
consagras por através dos pensamentos...

***

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INSTITUTO FLAMMARION

Na primeira hora da tarde, nosso compromisso era a visita a um belo Instituto da


colônia, que recebera o nome de “Lar de Flammarion”, em homenagem ao célebre
astrônomo e poeta da ciência Espirita, Camille Flammarion, amigo de Allan Kardec, e
exímio colaborador na divulgação e consolidação do pensamento científico, filosófico e
religioso na Doutrina Espírita.

Após conhecer minucias no primor da tecnologia no plano espiritual, fomos


encaminhados-- Jerônimo e nós outro--, por Dionísio, nosso Guia na colônia, até o
terceiro andar no edifício, para que se efetuasse nossa apresentação a um professor
daquele setor que é dedicado a Medicina da Alma.

No ambiente... Luz muita diáfana. O acolhimento era demasiado. Cerca de vinte


funcionários, todos muito circunspectos às suas funções.

Acomodados e uma poltrona ampla e confortável, estávamos diante a uma tela


cristalina, de aproximados dois metros de largura e dois e meio de comprimento. A
imagem na forma conhecida por tridimensional, havia a luminosa figura do corpo
humano, melhor dizendo um molde em traços azuis, que girava continuamente em um
movimento de 360º. A área em destaque era o cérebro, onde um esquema de energias
luminosas destacava a interconexão sutilíssima dos nervos...

Música suave elevava-nos a um estado pleno de cura emocional. Fazendo-me


particularmente sorrir a esmo.

Logo éramos defrontados pela figura ímpar de um homem. Cabelos negros e barba
alva. Tinha um caderno em uma das mãos, e uma caneta na outra. Dionísio o apresenta
com intimidade pelo nome de doutor Charles Muller.

Cumprimentos. Saudações e alegrias...

Após depositar seu material em uma mesa estreita ao canto daquela sala, muito à
vontade, o doutor Muller dava início a um diálogo, surpreendendo-me ao endereçar:

-- Acompanho seu trabalho há décadas, Sr. Luís, e muito embora informalmente,


sempre que posso recomendo que o estudem, meus pacientes, nos jardins floridos de
nosso Instituto.

Agradeci com descrição. Logo após, expus, a minha solicitação, que era tentar levar
ao conhecimento humano a Medicina da Alma em seu aspecto psicológico...

Doutor Muller, agradeceu a minha humilde iniciativa, e como o tempo naquela


colônia é dedicado ao labor na caridade com Jesus, o Terapeuta, apreendendo meus
pensamentos, trata de iniciar rapidamente uma “exposição relâmpago”, ou uma
18
“palestra de bolso”, para satisfazer algumas de minhas necessidades de aprendizado, no
qual também eu por minha vez detinha material clássico para a anotação (bloco de
notas).

Explanava o Terapeuta:

-- Na vida espiritual herda-se algo da existência humana, na proporção que a


existência humana é um efeito da vida espiritual.

Recordemos René Descartes, filósofo cartesiano, e sua tese defendida em respeito ao


dualismo clássico: a mente e o corpo.

O corpo biológico é dentre muitos fatores da existência, a resposta material da vida


psíquica da alma.

Vejamos que os animais irracionais possuem no corpo funções similares aos seres
humanos, porém a vida psíquica é latente, dominados pelos instintos. Desta forma não
há para eles uma reação do Inconsciente, e sim um estado uniforme de atividade rústica
e sem a expansão da ideia.

Mas... Retornando com Descartes, algo em particular o entretinha, o inspirava a


seguir fiel a sua intuição... Era sua necessidade de entender os nervos, as nervuras,
levando a noção de um ducto onde ao núcleo percorrem inúmeros filetes. Nesta função
da Fisiologia, os nervos transmitiriam à mente a apreensão do mundo externo; na mente
haveria uma rápida conexão magnética para decodificar o que espreita ao lado externo,
e então – com a atividade Motora-psíquica em andamento--, os mesmos filetes retornam
com a informação para que a parte anatômica que está, por exemplo, exposta a um
perigo externo, possa retrair-se, preservar-se, defender-se, movendo o membro, em uma
atitude que ficaria conhecida por reflexo!

-- A ideia do “Espírito Animal” ensinado nos bancos de Universidade, correto?—


Indaguei... No que não esperei a confirmação para completar:

— Uma reação, uma troca célere e fisio-psíquica entre a mente e o órgão sensorial,
que desde os primeiros Homo Sapiens, regulam a manutenção da espécie.

-- Exatamente—confirmava o Doutor--, no que afirmamos seguramente que


Descartes foi um precursor para a Ciência, mas que inegavelmente nas largas faixas da
gleba humana, estas reações reflexas não eram inteiramente reflexas, no que diga
respeito ao domínio do Instinto, e sim uma rudimentar atividade psíquica que nos
primeiros caminhos humanos na superfície foi guiado pelo estímulo de Consciências
mais evoluídas no rumor da atividade mediúnica...

O reflexo guiado na mente pela “sobrevivência própria e do clã”, é a primeira forma


de mediunidade na espécie humana, e agindo a Espiritualidade à inconsciência dos
“médiuns”, sempre com fins de ampará-los, e guarnece-los...

19
O Doutor fez ligeira pausa. Inspirou a longos haustos e após, exalando
vagarosamente o ar retido nos pulmões, obtemperou:

-- A Ciência renascentista poderia indagar ao Cosmo: “Dois olhos”; “dois ouvidos”...


“Membros a trabalhar em conjunto”... Mas, a visão é uniforme; a audição passa por um
afinamento acessível... Os membros se movem em busca do alimento, do amparo, do
abraço... Porém... O cérebro guarda uma glândula especial, única, e a sede da vida
psíquica, que é a Glândula Pineal.

As terminações nervosas obedecem à leitura desta Glândula, mas não somente como
pensam os Médicos Fisiologistas humanos para a apreciação e a responsabilidade das
terminações nervosas...

A Glândula Pineal é também “sede monitora do Espírito”, um mecanismo de


permeabilidade entre o mundo físico e as funções orgânicas, e do mundo espiritual e as
funções psíquicas...

Na Mediunidade há também uma excitação nos nervosos... Para que as impressões


por entre o mundo intangível e o mundo sensível, sejam por momentos aceitas no imo
da mente. Sem essas impressões, o cérebro humano jamais aceitaria algo a vibrar e a
coexistir além da dimensão física, e sendo assim, qualquer tentativa de chegar o homem
a Presença de Deus, seria hipotética, e não uma certeza que é nevrálgica!

A dor neste processo, assim como o prazer fazem registros milenares no


Inconsciente. O homem é a alma, e a alma é o homem, necessário essa profundeza na
psique afim de que o mundo seja compreendido, e não ocorram desarranjos na mente.
Mas, quando ocorra a falta de harmonia psíquica, seja pelo abalo externo, seja por
questões endógenas... Comprometendo a leitura do corpo na alma, então a vida psíquica
deprecia, o Ego perde a própria noção de espaço na sua dimensão, sentiu-se fora do
eixo, e nasceu a Esquizofrenia e demais psicoses na psique humana.

-- Existirá um dia a cura da Esquizofrenia, para a alma ainda no corpo físico,


Doutor? — novamente questionei.

O senhor Muller, fez um olhar de dúvida, e ministrou a seguir:

-- A polaridade da cura é necessariamente espiritual. Mas, importa vermos


novamente o conceito: “o homem é a alma e a alma é o homem, quando tratar-se da
vida psíquica”. Neste mister, o trabalho de cura é ambivalente, necessitando dos
cuidados no corpo e na alma, e para que a mente receba a impressão da saúde que lhe
falta, os cuidados envolvam Medicina do corpo e a Medicina da Alma.

Recordemos Sócrates no século V a.C, buscando o conhecimento que já existe no


íntimo humano.

20
A Medicina Humana muito terá a receber em termos de diagnósticos de intricadas
doenças, quando os recursos tecnológicos mais avançarem e a permitir passar a
auscultação do períspirito.

O períspirito foi definido por Allan Kardec como o corpo semi-material, mediante a
sabedoria vigente de Newton.

A Física evoluiu com Einstein, Planck, dentre outros, e para a apreciarmos o


períspirito em suas funções conectivas, mergulhamos na energia quântica; A Essência, o
Espírito é a força, a energia pensante; o períspirito a sutil matéria quintessenciada com a
função de conectar, transmitir, absorver; e o corpo biológico a energia resfriada, a
matéria tangível, condensada...

O homem é um ser essencialmente mergulhado em suas criações mentais, e a sua


condição moral muito irá influir nesta maravilhosa engenharia de pensar e somatizar, e
tudo proporcionado pela intercomunicação do períspirito.

Tanto os homens, quanto nós outros os Espíritos, quando oramos a pedir paciência
nas nossas dificuldades e limitações, essa força íntima que nos move faz vibrar todo o
nosso ser. Nos homens, as salutares vibrações de uma prece tem ação
fisiopsicossomática, porque é a atividade intensa do Espírito, períspirito e matéria
biológica, gerando em si um efeito-resposta-psicológico-divino.

Na antiguidade, os Filósofos, depois os Astrônomos, muito estudaram o movimento


dos Astros no Universo para tentar entender respostas na mecânica celeste e universal
sobre a massa condensada de energias que é o homem.

Este Instituto, não por acaso recebeu o nome do ilustre astrônomo Camille
Flammarion; estudamos muito o efeito energético dos Astros sobre o átomo, e em tudo
o que se move na Terra, para extrairmos – como Sócrates--, de nós mesmos, a sabedoria
que nos leva a compreender que a Medicina da Alma é a Medicina das Energias, das
forças conectoras, dos átomos vibrantes, e assim atestarmos, nas almas e nos homens,
que a saúde e a doença são reações psicológicas do Espírito junto ao Universo, onde
reagimos incessantemente uns com os outros, seja na excitação nervosa, na alegria
contagiante, ou nos casos graves das Obsessões na vampirização de energias.

O doutor da alma silenciou.

Meditávamos em grupo, quando às nossas despedidas de seu Laboratório, doutor


Muller obtemperou:

-- Para a certeza de uma segura varredura fotossensível no períspirito, o pensamento


humano deve ir de encontro a elegância nos Astros, ao calor das Estrelas, sentir-se
deslocar-se na calda de um Cometa, e absorver algo de bom do plâncton dos Oceanos
que nosso orbe terrestre nos doa...

Auto amar-se é como a antiga expressão, cavalheiros: “Banhar-se de Luz!”

21
***

COMOÇÕES PSICOLÓGICAS

Regozijava-me o barulho da torrente das águas que escorriam por um córrego fino e
quedava sobre pedregulho brilhante, beijando-lhe a superfície virgem com substrato
fluídico farto de luz...

Os pássaros contavam-se dezenas deles, e curioso, que eu percebia variações na


espécie, e nuanças quase emocionais em seu cântico...

O Instrutor Jerônimo conectado à natureza da colônia, desejava-me conduzir a um


passeio mental por paisagens mais sutis, que era o psiquismo humano...

-- Luís—dizia--, com respeito aos nossos estudos, visualizemos, por obséquio, como
por um transporte temporário do psiquismo humano para os campos destes verdes
alegres pomares de “O Mar Alto da Consciência”.

Anuí de bom grado.

Jerônimo faz então a visualização terapêutica, no que contou com minha


humilíssima participação.

Logo em seguida, pressentindo tergiversações que os homens realizam na crosta com


relação aos enigmas da satisfação egoíca, relativo a essa parte nuclear da personalidade,
que Freud definiu pelo ego, na vertente do próprio íntimo, no psíquico, a partir das
experiências, no controle das vontades, dos impulsos muita vez partidos do
Inconsciente, Jerônimo salientou:

-- Em liberdade para fruir, o homem dominado pela soberania do Ego, ainda que no
alinho de suas faculdades mentais, parece que na procura de algo que lhe complete e
satisfaça, estaria correlacionando inconscientemente o desejo de viver e a libido; a
libido que é atendida nas paixões grosseiras, permitindo-se alívio na consciência quando
em suas funções reprodutivas acesas...

Entrementes o homem começa a certa altura da vida a perceber-se descontente,


desconfiando se é merecedor da felicidade conquistada no gozo das coisas mundanas, e
então um assalto de energias psíquicas o faz sentir que tudo em si venha convergir para
“o Centro”, razoavelmente ele teme, e indescritivelmente sente falta de desejos
diferentes, que não mais são carnais, fisiológicos e sexuais...

Permanece contrito por momentos de um vazio existencial, vive as agonias


psicológicas da melancolia, e rasgando algo em si mesmo, o aguilhão da consciência
fica, por momentos, permeável... Inveja às aves que estão guiadas pelo instinto, mas

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anela uma saudade inconcebível que o desdobra a realidade ignota que lhe apresentaram
pelo nome de Metafísica...

Após sofrer e encontrar o lenitivo nas forças que transcendem a matéria, “nasce-
lhe” o sentimento de que a meta do desenvolvimento da mente é algo melhor, maior,
mais amplo de si mesmo, o Self... – diz-lhe o imo em migração de energias no fulcro
mental – que o lugar onde pisa não é seu; que a nave onde vivencia as experiências
parecem não ser sua; que a criação divina é muito maior que o Si mesmo possa
conceber mesmo que fosse agigantado, e ainda que não afigure sair da existência e a
procure manter o maior tempo possível pelo temor da morte, a mente segue a emanar
para o “Centro”, e ele talvez não saiba mas é o herdeiro de tudo no universo que se
traduza espiritualmente por felicidade...

O homem que desdobrasse por alguns segundos na psique a certeza ultramontana da


Individuação, teria mais paciência com a realidade evolutiva em lentidão no próprio
Ego.

A força e a sensibilidade... Por que perder-se longe de si mesmo?

É possível percorrer sóis com a mente, e ser tragado na luz dos próprios pensamentos
sem queimar-se ou ferir-se...

Qual a razão em descer quando seria maior o testemunho de fé!

Vê desdobrar-se a sua inteligência para tantos empreendimentos tecnológicos, mas


ainda sente reprimido nas suas mais belas funções cognitivas; teme... Mas mesmo que
lute séculos como Espírito, e minutos como homem, lute dentro de si mesmo, ele
seguirá o caminho interior... Perceber-se-á à vizinhança da felicidade; já rompeu com a
semente da vida, e somente agora sente que o amor pela caridade o faz abandonar
momentos da soberania do Ego e divisar a luz que clareia que Outros se lhe acercam, à
espera de pura e simples atenção...

Ao despertar sua necessidade sempre criativa, ele faz que tudo cresça em si e sem
perder-se da conexão mais bela com o ínfimo...

Um dia, o homem entenderá que seu destino é a Angelitude; Que estão abertas às
portas da Individuação, que é capaz em reconhecer-se no Espelho Luminoso do
Infinito... Eis que a plenitude do Self será um dia... O Alfabeto do Amor se fará expelir
através dos poros do Espírito... Conseguirá comunicar-se com a essência do meio
externo, e para modificar o Pântano emocional, e fazer brotar a realidade que soergue da
dor, irá gradativamente afastar-se da natureza animal, e o amor o põe em relação mais
avançada com o infinito...

Todo frio na alma cederá lugar ao calor da vida. A emoção-humana sempre perde
espaço com o correr dos anos ao espiritual-sentimento... A Mente se expande nas ideias,
empurrando-o ao engenho da criatividade onde suas asas se movem manipuladas pela

23
necessidade de potência psíquica, tudo em si é progressivo, tudo é transcendente no
âmbito psíquico... O Ego é um minuto, e o Self a eternidade...

Ainda aqui... Atravessando nele (no profundo do homem) está uma área ampla e
microscópica... Gigantesca e atômica... Elevada e Grotesca... Uma Janela da Eternidade,
chamado, pelo nome de Inconsciente.

Jerônimo fez breve pausa.

Confesso que até ali permanecia ansioso... Ansiava por mais conteúdo, era meu
Espírito com sede de luz.

O Instrutor sorriu e aquiesceu:

-- Renascemos muitos de nós no manto físico, meu caro Luís, não objetivando a dor
contínua, o acesso à dor é o martelo da carpintaria do Espírito, que devolve o prumo de
uma estrutura deficitária, precária, corrigindo-nos muitos débitos...

Renascemos sobretudo para nos reeducar... Apagar com esforço, suor e lágrimas os
débitos que criamos para nós, e assim fechando na psique o fluxo ardente das paixões,
que nada mais faz que colorir nas próprias sensações o facho esmerilhado do egoísmo.

Todos... Independente do ponto em que nos encontramos, na forma que já anelamos


para o vaso evolutivo, nós denunciamos a dor na alma, quando nos afastamos da tarefa
evolutiva...

Precisamos crescer a caminho de Deus... Afim de que Deus também cresça no


âmago de todos nós.

Os descendentes da Família Humana de hoje partilharão da Comunidade que ama...


E, entregarão às gerações futuras melhores disposições do pensamento, onde a corrente
mental será capaz de sustentar todo o material milenar e evolutivo, pela limpeza do
Inconsciente primeiro, após a sua estabilidade, e por fim o almejado acesso de uma
forma sensível, sem dor, sem máculas... “O Ser Integral”, em semelhança a Potência
Intelectual de nosso Senhor Jesus, muito embora milênios a fio neste orbe ainda sejam
insignificantes para alcança-Lo em moralidade, sendo Jesus o único Ser que pisou na
Terra, segundo nos informamos, que jamais teve de quaisquer débitos para quitar,
evoluiu sempre verticalmente, é o Espírito Crístico puro!

Grande, meu amigo, é a necessidade de educar-nos o pensamento.

Melhor distribuição afetiva nas relações de afetuosidade; por através do


autodescobrimento, à ótica da razão, onde as fronteiras humanas não necessitarão de
preservação armada de ódio, de altivez, de auguras... Todos se permitirão em amar, a
sabedoria advirá inata, pela bagagem que o Espírito poderá acessar desde sua infância.
Todos crescerão unidos, juntos amarão, preservados de qualquer resquício de treva, uma
vez que já cicatrizaram as feridas morais, e curaram as chagas da mente.

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O “estado de contentamento”, a Eudaimonia será plena... Permitir-se-á a alegria do
Outro, na proporção que se vencer os temores da ignorância, da intolerância, do
preconceito...

Resumindo: O momento de adormecer os resquícios de animalidade e caminhar para


a ascese espiritual, em uma última análise, é essa nossa “Terapia Cognitiva Natural”,
que imortaliza no homem o mergulho dentro de si, no mais belo conselho psicológico
na Humanidade: “Conhece a ti mesmo”.

Jerônimo silenciou...

Confesso que naquele momento recordava-me de Paulo de Tarso que certamente


haveria de estudar Platão... Sensibilizei-me com Francisco de Assis que absorveu o
Amor de nosso Senhor Jesus; Sorria nas lembranças de Charles Darwin, Allan Kardec...

A Mente era maior e mais que poderia conceber...

Os sentimentos humanos nasciam como córrego para apagar a ilha vulcânica das
paixões...

Tudo veio a seu tempo, como as espécies, e na essência tudo estava intimamente
ligado, fertilmente distribuído, descendendo de um centro único, e multiplicando-se
vertiginosamente, para na personalidade inigualável do Cristo, a “Psicologia dos
Espíritos” viabilizava-nos o encontro íntimo com essa ideia-saúde que é o amor de
Deus!

***

25
DOUTOR DEMÉTRIO

Doutor Demétrio nos recebera, a pedido de Dionísio, em um ambiente convencional


para a terapia analítica junto de um Espírito que se preparava para reencarnar...

No Instituto Flammarion, havia muitos ambientes terapêuticos, a exemplo de um


imenso Hospital com inúmeros setores de atendimento clínico.

Sala elegantemente adornada onde nos encontrávamos. Sentia que algo da


personalidade de Demétrio estava imantado no recinto.

Livros... Poltronas confortáveis... Música erudita em volume muito baixo, apenas


para acalmar...

O paciente era de aparência idosa... Revelava um enfado curioso... Parecia desejoso


em falar, mais que o habitual. Chamava-se Bernardo.

Como tínhamos permissão para perfazer nossas anotações, Demétrio sentindo-nos as


necessidades no aprendizado, mencionou:

-- Chamamos, em nossos domínios, a terapia por atendimento fraterno. Um diálogo


terapêutico e, sobretudo, a cura pela palavra...

O Doutor silenciou.

A terapia tinha início, através de uma troca de palavras:

Demétrio—Como se sente ante a realidade de ter de volver à vida biológica


humana?

Bernardo—Ansioso e temerário.

Demétrio—Ainda a velha implicação do apego à volúpia física, não?

Bernardo—Foi o sexo desgovernado que me levou a experimentar a psicose.

Demétrio—Nós experimentaremos falar do Ego. E das duas atitudes psíquicas que


se contradiziam em sua psique. Uma insuportável e dolorosa; a outra tomada de uma
intensa pulsão...

Bernardo—Estive analisando o meu programa na reencarnação, o mapa de meu


destino futuro, e pelo fato de que por três séculos fui infiel nas relações conjugais; e tive
a infelicidade de desrespeitar a inocência infantil... É quase inevitável que o ambiente
onde serei posicionado esteja infectado pelos bacilos psíquicos do sensualismo... A
negação do respeito ao patrimônio biológico é algo que reconheço na figura de meu
futuro genitor... Temo... Não somente falir, mas a permitir-me o aflorar da ferida da
psicose latente em meu Inconsciente, e ser dependente químico, ou torturado pela
Obsessão...

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Demétrio—Ainda que experimente a psicose, o Ego não estará alheio à realidade...
E, uma parte de nós, estaremos em contato convosco, por através da intuição...
Produzirmos, tanto nos seja possível, um contato ostensivo-- psiquicamente fortalecido
te sentirás para contrabalancear um possível ingresso da mente em uma nova realidade
em delírio.

Ao demais, terás o mecanismo da mediunidade que te conferirá experimentar vozes,


sonhos, visões, que nada mais é – no teu prognóstico—que a percepção extra-sensorial
dos Espíritos... E somos muitos que estamos preparando-te para ter fé, para acreditar
que os fenômenos meta-psíquicos serão reais, e não somente a supremacia da
enfermidade psicótica em tua mente. A psicose existe, e sim, uma vez mais estarão
sujeitos a uma realidade paralela, enferma, doentia, dado a incidência do contágio
psíquico com que possivelmente irás deparar no núcleo doméstico, em uma expiação ao
lado de um pai e uma mãe atormentada pelas pulsões... Talvez experimente o Ego
deligar-se da realidade. Então te sentirás muito fraco e inquieto... Agressivo e apático...
A Clivagem gerada pela psicose...

Mas da dor, se bem a suportares, elevará a luz de teu Espírito. O sofrimento te


conferirá paz íntima por saberes que tudo o que acontece tem uma razão, uma causa, e a
própria hipersensibilidade que inicia a tua expiação pelo contato psíquico com o meio
obtuso, corrupto e sensualista, mais tarde renovará tuas concepções em respeito à
Energia da Libido, e se tudo ocorrer como esperamos, te levará a vivenciar na
maturidade a sublimação, com que engrandecerás tua alma com o exercício da caridade,
da castidade, e do desapego aos vícios!

Bernardo—Que Jesus nos guarneça, Doutor...

Nos momentos seguintes, o diálogo tenderia a um diálogo terapêutico em torno de


traumas mais profundos e particulares de Bernardo, onde fomos gentilmente convidados
a nos retirar do divã.

Momentos depois, fomos atendidos pelo Doutor, que atendendo nossas solicitações,
prestou importantes pareceres:

-- Psique e corpo se interligam...

Nosso irmão que irá reencarnar teme a experiência humana, mas tentamos elucida-lo
que o ser humano interage com as forças da natureza, e que se compreende na idade
adulta a tridimensionalidade de seu corpo físico, suas energias psíquicas interagindo
com os elementos minerais, vegetais e animais da Mãe Terra, então passará a ter mais
coragem para lidar com os impulsos sexuais...

Psique, um termo tão largamente utilizado pelo Psiquiatra Jung, significa alma, o
sopro da vida conforme entendiam os Gregos; Na psique estão dispostas as magnificas
expressões da alma como o Consciente e o Inconsciente (pessoal e coletivo);

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Tantos abalos no meio, mediante o impacto das vibrações e a pressão no contato
psíquico e físico junto a encarnados como desencarnados, encontramos na Persona,
uma ferramenta psíquica de interação, e por muitos uma forma de ocultar algo de si,
para proteger-se do mal que incida de outros...

O grande foco que trabalhamos em nosso Instituto, para as bases emocionais e


afetivas, sobretudo ao transcender da consciência humana para a consciência cósmica,
é preparar nossos tutelados a sentir o chamado do Alto, quando imersos na matéria
biológica, para iniciar o processo de Individuação, “a integração do si, conectando-se
a si mesmo”, buscando o ensaio imortal da totalidade, que é a maestria do Self.

A personalidade, cavalheiros, abre ao cosmo a possibilidade de integrar as mais


belas potencialidades da vida, pois somos sim um sopro, O Sopro de Deus!

O Doutor fez breve pausa na alocução, e evidenciando suave comoção, logo


prosseguiu:

-- Nesta força presente no Inconsciente Coletivo, reúne-se as milenares experiências


da alma, a antropologia profunda da raça adâmica disseminou-se no mundo por
milênios, e esses conteúdos Jung chamou-os por arquétipos, como canalizadores de
energia psíquica que transcende a mente ao decorrer das experiências, nas eloquentes
expressões e reações que os povos, as civilização, suas vitórias e suas quedas fizeram
pesar na essência humana.

Os símbolos ainda nos reportando ao notável labor de Jung, fazem essas leitura
expressiva dos arquétipos na psique humana; no Inconsciente de um indivíduo estão
guardados todas as suas experiências, boas e más, tanto o trauma, a fobia, que possam
estarem velados, e num mergulho nos mares mais fundos da consciência, o Inconsciente
Pessoal se conecta ao Inconsciente Coletivo, e vemos o ser humano sentir-se preso pela
culpa, mas não uma culpa transferida pelos seus ancestrais, mas a culpa de si mesmo
que se identifica com as barbáries, os equívocos, as ardências sensuais e luxuriantes dos
Povos, onde muita vez, esteve como espectador omisso, noutras como o algoz
imprudente, e outras ainda como o leviano e desarvorado pelo ter, pelo poder, pelo sexo
insidioso na mente, gerando rupturas ou fissuras no psicossoma, então a causa de muitas
projeções infelizes, a sombra e potências de energia psíquica que conforme forem
canalizadas no Ego, no centro da consciência, torna-se um núcleo de forças, uma
afluente deste mar da consciência que mencionamos onde as energias permeiam como
ondas fortes...

-- Teremos, para o Espírito de más tendências, carregado por sua sombra, um perigo
real na reencarnação, que seria os tormentos de uma consciência subjetiva a mergulhar
na consciência coletiva? – perguntei, no que o doutor da alma asseverou:

-- Carece então de buscar pela espiritualização, pelo transcender da personalidade,


por reforma íntima, oração e caridade como todo o projeto de uma vida, e assim, não se

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tornar refém das dores massificantes da coletividade, nem contabilizar dentre aqueles
que se permitiram viver empurrados pelo Sistema, e ao sabor dos gozos fugidios!

Os seres humanos não lograriam integrar o domínios pleno da psique, saturar a


própria sombra, e por meio da mediunidade, tornar-se-á vital servir e renunciar, amar e
aprender, afim de que se situe por entre as duas dimensões da alma, e consiga manter
qualidade de vida.

-- Mas o processo da “negação”, como defesa do Ego?—Desta vez, a pergunta partia


de Jerônimo.

O doutor agradeceu a participação do amigo, e tratou de enfatizar:

-- A infância espiritual é ainda uma realidade na crosta da Terra. Homens e mulheres


com 30, 40, 50 anos, que preferem negar sua sombra ao invés de tentar estudar melhor a
si mesmos, e buscar interagir com cautela junto ao meio onde vivem.

“Fechar os olhos”, para um médium ostensivo e clarividente, não o impedirá de ver


os lupinos espirituais que em verdade, são aqueloutros espíritos em condições
perispirituais bestializadas por domínio completo da sombra sobre o Ego, e por
deixarem que a perversidade fosse tornar-se um gozo.

-- Mas nos casos de fanatismo religioso ou mistificação por conta de perseguições


na Obsessão junto aos médiuns?—Intervi, respeitoso e direto.

A resposta seguia na mesma linha de ação psicológica, cujos traços mais fortes
identifiquei a inspiração na Psicologia Analítica de Jung:

-- O fanatismo está de forma intensa no Inconsciente Coletivo, especialmente nesta


herança psíquica cruel que o orbe ainda sofre desde os dias das cruzadas, da Inquisição,
e mais recentemente das duas grandes guerras mundiais, quando na II Grande Guerra o
Nazismo e a falsa ideia de uma superioridade ariana, levou ao clímax de primitivismo
psicológico na psicofera terrena, cujos efeitos nocivos são sentidos até os dias atuais,
como uma ressonância profunda daqueles “campos de concentração”.

Mas, não guardo apenas notícias amargas, cavalheiros.

Há um lírio de amor na atmosfera que os homens e almas respiram, que é a passagem


de nosso Senhor Jesus pela Terra.

Assim como Seus Missionários do Amor reencarnam periodicamente no globo, e


mantem acesa a tocha luminosa da caridade e da fraternidade na psique, neste notável
Terapeuta das Almas reside a base de toda a nossa Psicologia dos Espíritos, e
divinamente saturado de luz, a Personalidade do Cristo é a fenda de luz nas mais duras
provações coletivas na escola terrena.

Permitam-me, cavalheiros citar um trecho de obra de Carl Gustav Jung, do Livro


Psicologia do Inconsciente, (Jung, 1980, p.4):

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A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem
exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a
nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que
começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da
humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela
renovação da atitude do Indivíduo (*).

(* Psicologia do Inconsciente. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1980.v.7/1/ nota de Luís).

No médium de intuição, por exemplo, é praticamente impossível distinguir as


mensagens que lhe assomam na psique serem oriundas do Si mesmo, ou do sopro de
terceiros, telementada por Espíritos.

Mas, o importante é adquirir maturidade psicológica para decodifica-las, por


interpretá-las, seja por através dos sonhos, da criatividade, da sincronicidade, e
mesmo pelos sintomas somáticos...

Mas, ainda aqui, neste minúsculo universo que é a psique humana, a dor é um alerta,
um processo de auto aperfeiçoamento, o quitar dos débitos passados, e na jornada
numinosa a auto iluminação!

O doutor silenciou. Logo agradecemos e nos despedimos.

Em um leve sopro de inspiração, meditei com meus pensamentos ainda projetados à


gleba humana:

É difícil distinguir a intenção das pessoas. Muita vez tentamos obter respostas deste
mundo sombrio que é ainda o narcisismo humano, e se confrontarmos diretamente com
a sombra do outro, precisaremos estar fortes para não deixar aflorar nossos próprios
sintomas, nossas dúvidas e falta de fé, nossas “faíscas de dor”.

O que fazer quando o outro alega uma falsa superioridade por através das suas
atitudes?

Calar-se; manter-se humilde e prudente. Entender que muitos de nós viemos ao


mundo para servir e não ser servidos...

Ninguém em justa sanidade pode considerar-se superior a nada. Antes precisa


reconhecer sua própria sombra, e assim lidar dia pós dia dedicando-se a uma causa
nobre pelo melhor do Si mesmo.

***

30
MÉDIUM

Volvíamos-- vinte e cinco minutos após-- a larga avenida azul da colônia, e diante o
silêncio de Jerônimo, e da postura sempre ativa de Dionísio, eu me permiti em meditar
com respeito a tudo o que havia presenciado.

Quantos médiuns que não lograram a educação moral indispensável para o exercício
mediúnico, uns por uma severa imposição de fora (expiação no meio familiar), outros
pela negação e medo (internalização), e que lotam os consultórios psiquiátricos que os
recolhem como os mais graves psicóticos?

É fato que o legado de Josef Breuer (1842-1925/Médico e fisiologista austríaco, suas obras
muito contribuíram para a Psicanálise/ nota do Autor espiritual) e Freud, analisando os estados
neuróticos e psicóticos, e sua correlação com os traumas sexuais tinham razão de ser.
Mas... Acabara de presenciar um Espírito desencarnado em análise, consciente de que o
meio a que viria a renascer na Terra seria conspurcado pelos vícios e tormentos do sexo;
que encontraria a razão de seus males, quando ainda na infância... Que visualizava que a
Energia da Libido estaria em fluxo psíquico desnorteado, e que tudo isso afetaria a sua
mente, mas ele teria pela frente um mecanismo de hipersensibilidade ao plano espiritual
que chamamos por Mediunidade Ostensiva. Então, como poderiam os Médicos e
Analistas terrenos distinguir que o candidato a Esquizofrenia estaria tendo alucinações,
ou em verdade ele estava realmente vendo, ouvindo, sendo perseguido, obsidiado, pelos
agentes vivos e invisíveis à matéria, os (maus) Espíritos?

Diante a chuva de pensamentos inquietantes, Jerônimo acercou-se suavemente ao


meu lado, e revelando a ciência do que eu sentia, sintetizou:

-- Por enquanto, na Terra, meu caro Luís... Está distinção perfeita ainda não ocorrerá
por parte dos Profissionais da Saúde, onde então a marcha de autopreservação
prossegue na educação moral do médium.

O Médium é ainda o Médico de si mesmo nos assuntos psíquicos, e infra mentais, e


guarda a intuição de que o Evangelho do Cristo é o material psicopedagógico eficaz no
adestramento de suas faculdades psíquicas e orgânicas...

E, lançando um olhar ao horizonte onde o sol poente unia o campo de imensa beleza
e o magnetismo sideral, meu Instrutor obtemperou sob os olhares gratos de Dionísio e
de nós outro:

-- Ao futuro... Missionários na Saúde Mental irão reencarnar para tal mister: O de


unir os mais importantes materiais de estudos meta-psíquicos existentes na crosta, desde
os notáveis Aristóteles, Paracelso, Freud, Jung, Klein, Viktor Frankl, Lacan, etc. E, a
luz do Espiritismo, munidos das noções mais apuradas na Medicina da Alma, trarão
obras que irão educar os doutores e pacificar o medo incomum dos pacientes...

O futuro reserva o esclarecimento, a saúde e a reorganização...


31
O célebre Léon Denis mencionava sobre a “intuição profunda”, que é a capacidade
dos seres humanos em sentir suavemente a presença dos Espíritos e se comunicar com
eles...

A medida que o tempo experimenta a alma, o ser humano passa a se sentir um


pouco mais auto suficiente, desde criança aprendeu a engatinhas, mastigar, a
movimentar-se, a aceitar e também a rejeitar...

O desenvolvimento da criatura humana na Terra, é um complexo mecanismo de


potencializar a existência, ainda que nos tempos hodiernos a média de pessoas que
sofrem de padecimentos psicossomáticos é muito grande, devido à desobediência à
própria consciência, revelando a anarquia ou a revolta contra as Leis de Deus, que, para
segui-las com segurança simplificou nosso Mestre Jesus: Amar a Deus sobre todas as
coisas, e fazer ao outro aquilo que se queira para nós...

Para mobilizarmos o potencial criativo, e ascender moralmente, o homem, e mais


especificamente no caso que estudamos, o médium ostensivo, precisara trazer a luz suas
melhores disposições, e superar frustrações, sobretudo diante à luta diária a
sobrevivência, evitando a muito esforço que venha ocorrer uma cisão junto ao meio,
social, pois isolando-se priva de inúmeras riquezas em elementos psíquicos e mesmo
energias que ativarão o sistema endócrino, quando lida com outras pessoas, participa-
lhes de suas dores, suas alegrias, ideias diferentes das suas, opiniões divergentes,
convergentes, estar diante o afeto do amigo, ou da reprovação disciplinadora do
adversário...

Então a Esquizofrenia como um estado de saúde mental enferma não pode ser todo
caso uma mediunidade atormentada, muito embora médiuns atormentados e
indisciplinados possam desenvolver sintomas psicóticos e, quando já atingiu a lesão do
mecanismo cerebral, a Medicina Psiquiátrica é indispensável. As medicações também, e
tudo isso comprova a missão elevada da Medicina na Terra...

Porém, o novo milênio tem herdado dos antigos séculos XIX e XX, notáveis
conhecimentos descortinados pela Ciência e pelo Espiritismo, devidamente
assessorados pela Espiritualidade, ou melhor, por nosso Senhor Jesus, a sabedoria de
que o homem não carece apenas do Facultativo que irá cuidar de seu corpo, mas
também de Médicos da Alma, indivíduos sensíveis, médiuns ostensivos, que
reconhecerão a gênese da dor moral, o débito que atraiu o trauma profundo, a obsessão
cruel que é aquela que introduz na mente viciada por fluidos pestilentos a vontade
desconcertada, a “ideia maluca”, a frivolidade desmedida, e o sensualismo desenfreado,
sádico, doentio, que acaba por degradar a personalidade, enfraquecer o Ego, a tal ponto
que gera o que a Psiquiatria chama por Despersonalização.

Os médiuns, como médicos da alma, lidam diretamente com os conflitos da


personalidade incompleta, junto aqueles que não tem confiança em si mesmos,
desconhecedores dos “olhos de ver e dos ouvidos de ouvir”, perdidos por auto
referência exagerada, perseguidos por aqueles seres invisíveis que outros não estão

32
ouvindo, e também não estão vendo, que o meio julga ser completa ilusão psicótica, e
então se julga o outro pelo que não é, e o classifica por um doente que tratar-se do
doente da alma, e não do corpo, uma vez que o corpo estará refletindo a dor da alma,
reagindo quimicamente as injunções mortíferas dos obsessores, e sendo maltratado pela
falta de domínio das suas criações mentais...

Porque as crianças espirituais se descompensam, se desequilibram, quando seu


potencial criativo está alienado, os desejos do ser reprimido, que entenda a projetar
aquilo que não é seu; que expurga as deprimentes forças das trevas, e não se sente
homiziado, e sim aberto, exposto, gerando o que a Gestalt falou por “comportamentos
infantilóides”, que é a mente sobrecarregada de fantasias, legado à satisfações primárias,
excessivamente preocupado na matéria, perdendo a alegria de viver, de amar, de sentir-
se pleno em si mesmo...

O outro precisa de nossa compaixão, mas não exigir o que não seja justo, e nem
acusar por aquilo que não se tem certeza se o outro errou...

A vida é um campo de muitas emoções, onde se necessita de uma base, um curso,


uma sustentabilidade para o exercício mais profundo dos sentimentos, e não se deixando
dissolver as boas obras que precisam descer do Céu; se a alma tem um “buraco” onde
deveria existir um coração, é por haver se distanciado da caridade e dos sentimentos,
para viver a ilusão...

As frases soltas, o trampolim de ideias que não se desenvolvem com a razão, e


também faltando-lhes fortalecer os sentimentos...

A razão e o sentimento; o cérebro e o coração, são duas ferramentas de continuidade


do psiquismo que precisam estar em alinho...

O amor é uma escola na alma, o ensinamento máximo do universo, para que


venhamos trilhar na evolução ultramontana-- além dos montes--, por um “evoluir e
sentir”, “amar e se for preciso sofrer com resignação”, atendendo a certeza da
imortalidade da vida espiritual, não aceitando o que os outros precipitadamente
acreditam e que em verdade é uma representação da dor emotiva profunda de quem não
se entendeu na educação dos sentidos em apuro; a não certeza do Eu em desalinho com
o Si mesmo.

O homem tem também um corpo quântico, é algo além da máquina biológico, é ser
repleto de energias. A energia que pensa, a energia que conecta, a energia resfriada, o
homem é a obra prima do universo; o homem em Darwin evoluindo a espécie, mas em
Kardec evoluindo muito além da matéria, e viver sempre como Espírito!

O médium precisará aprender a viver para melhor construir e servir...

A mediunidade ostensiva é uma flor em meio ao pântano das ilusões humanas, onde a
criatividade, a serenidade, a paz que cria, tudo deve convergir ao amor, a essência da luz
criadoura de nosso universo!

33
Jerônimo silenciou evidenciando suave comoção.

Dionísio, assim como eu, sentíamos que nas lembranças de nosso Instrutor, também
havia um médium deslocado no fluxo temporal do passado, que teve seus dias bons e
seus dias ruins...

***

DIÁLOGO COM UM SOFREDOR

34
88888888 Jerônimo me havia dado uma pausa de nossos estudos, e sobe a indicação
do novo amigo Dionísio fui visitar um belo jardim arborizado da colônia, na esperança
de reencontrar antiga amiga, que operava por lá algumas atividades terapêuticas.

O sol parecia perfumar a natureza de luz...

Em sintonia com nosso Astro Rei, eu contemplava as reações maravilhosas do


espectro solar tecendo brilho na matéria quintessenciada...

O Parque arborizado não estava muito movimentado naquela ocasião, e


curiosamente, enquanto eu meditava em um banco, colhendo o lírio da natureza com os
sentidos da alma, eis que um homem, que trajava vestes semelhantes aos antigos povos
judaicos, acercou-se a mim, e indagou:

-- És Padre?

-- Médico—respondi, mas compreendendo um motivo naquele argumento, para


dialogar, emendei:

-- Posso tentar auxiliar... Se Jesus assim me permitir... Pois um Médico Espiritual é


também um Sacerdote da Alma...

Então o novo amigo apresentou-se pelo nome de Joaquim, e em seguida fez breve
relato de suas experiências traumáticas em um determinado credo religioso na gleba
humana.

-- Compreendi todo o histórico—asseverava--, e acredito na sinceridade de suas


palavras, se me permite...

-- A culpa que carrego é a de não ser uma alma livre e independente por razão de
minhas escolhas, porque estive dentro de um núcleo que me explorava—cortou-me a
palavra Joaquim, e ainda exclamou:

-- Hoje poderia ser uma alma feliz!

Não depender de atendimento psicoterápico...

Felicidade também é energia...

Não falo de uma utopia, mas de plenitude, de não depender de ninguém!

Diante a pausa, densa e cansada daquela alma, ajuntei:

-- Precisamos colocar três objetivos nesta busca pessoal, e tentarmos resignificar o


sentido de religare, e não da forma como você a entende por religião...

Por décadas também estive buscando renovar-me e servir... E não criando


exclusivismo a Religião X ou Y, mas buscando transcender na alma o conceito de
religiosidade...

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-- Não quero mais ser um fardo para ninguém!— bradava o novo amigo—Busco
uma maneira de apaziguar as feridas emocionais que trago do passado, e que hoje minha
escassez emotiva me levou, mesmo nestes sítios belos e perfumados, a uma incrível
solidão...

-- Substitua, meu amigo, o teu sentido pela vida, “religare” que para nós outros
guarda funções como em substituir o “pecado” por noções maiores de
responsabilidade... – retomei.

Desconfiado, aquele homem, inquiriu-me:

-- E se esse “teu religare” for a ligação com a tua sombra, a tua tentativa de liderança
espiritual sobre outras pessoas?

Eu não confio mais na Religião!

Não carrego títulos... Queres dominar-me as ideias?

Saiba que estou com meu próprio “religare”, ao líder que existe dentro de nós e que
quer encaminhar pessoas a melhores crenças ao que exista!

Compreendendo que aquele homem tentava uma alusão quase desarvorada aos
grandes missionários da Humanidade, inspirei profundamente, e tentando ao máximo
imprimir humildade ao meu tom de voz, asseverei:

-- Eu respeito todos os bons homens, mas não me espelho neles...

Reconhecerei sempre os esforços de Paulo de Tarso o divulgador emérito, de Pedro o


Apóstolo, Freud o Médico, Nietsche o filósofo, mas foram homens, como nós outros,
em busca de ressarcir débitos consigo mesmo como nós “humanos demasiado
humanos”; se queres um modelo isento de culpa, temos somente em Jesus, e Ele não
nos pede exclusividade no religare aos templos de pedra, e sim pura e simplesmente o
Amor!

-- Já estive nessa sua postura, senhor, comecei há séculos minha peregrinação


religiosa, e ainda acho que Jesus também esteve preso aos próprios dogmas religiosos
de seu povo e sua cultura!

-- Sim – aquiesci--, o amigo estava dentro da Religião. É fato, que sofreu nela, pode
até mesmo ter experimentado uma neurose; mas não se permita perder o amor de dentro
de si. Somente o amor vivo, ou o vivo amar, é que nós não nos sentiremos presos a
qualquer imposição, nem a sintomas e dogmas...

-- Deus criou leis severas!—bradava—Jesus veio para retratar isso, mas se o senhor
observar foi somente um modo de mudar o fardo pesado que era posto sobre uma
cultura escrava de si mesmo!

-- As pessoas fizeram com Jesus, meu amigo, uma ideia daquilo que as religiões em
seus erros e defeitos humanos malbarataram de Sua Personalidade. Jesus era “entre
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nós”, um Terapeuta de Alma, um Médico de Almas, e não como o idealizaram somente
por um pregador!

-- Tenho buscado a honestidade dentro de minha alma, então quero o amor para mim,
e depois para os outros! –exclamava.

-- Cumpra com a Lei de Amor—retomei--, e não teremos de confrontar com a


severidade... Deus também é amor, é Amor tão reluzente que ainda não somos capazes
de O compreender!

Tocado nas fibras mais íntimas de sua personalidade, Joaquim abaixou a fronte e
confessou:

-- Em verdade não enxergo Jesus desta forma, a questão é que a “cultura judaica”
que o inseriu neste jogo de interesses e conflitantes atritos...

No Livro de Tessalonicenses e Colossenses, mostra como a guerra era com os


próprios judeus e os ensinamentos que os Profetas teriam de operar no seio do povo
cruel e egoísta!

Os Judeus fecharam os olhos para a fraternidade na época do próprio Jesus—o


Cristo--; o egoísmo era imperante, eu perdera mesmo a fé nos gnósticos, como ei de
resgatar o respeito a linhagem?

Diante o medo e a incerteza de que me defrontava no semblante daquele homem de


barbas cumpridas, obtemperei:

-- Quando há amor em essência, nós vencemos o que o ego possa trazer ou sentir
desse Inconsciente Coletivo de culpa que o mundo vem transmitindo geração por
geração... É no individual que ama onde começa a mudança e não propriamente no
coletivo... Bem por isso o amor em unidade na Terra fara uma ponte ao todo... E não a
espera que o todo ame e chegue até cada um... Eis que todos estamos em busca da auto
realização, da Individuação, que será a faísca de uma energia que modificará as demais
afluentes, tão cansadas e reprimidas pela culpa...

Acredito que todos poderemos viver no íntimo esse amor para descrucificar de nossa
consciência o Cristo... E enxerga-lo mais além, como o foco de amor, de saúde e da
felicidade!

-- O senhor não nasceu “lá dentro”, não sofreu o que eu sofri!—vociferava.

Com muito tato, observei:

-- Sim... As escrituras podem nos ajudar a vencer a dor... Podem ditar conselhos, e
ensinam muito se bem observadas; mas a Ciência do Amor é aonde se fará o
entendimento de como personificar aquilo que os homens em suas diferentes opiniões
interpretaram da vida...

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E, estendendo-lhe minhas mãos, recuperando-me da própria emotividade aflorada
convidei ao seu reencontro consigo mesmo:

-- Você é um livro, meu amigo, e depende do quanto ama para as letras aparecerem no
universo...

Só depende de você, não culpemos mais a Religião, e principalmente, o Cristo de


Deus!

Joaquim então revelava-me sua real aparência de antigo rabi judeu, e com um olhar
que misturava agradecimento e orgulho ainda mantido, salientou:

-- Luís... Eu perdi a minha fé, mas o importante neste momento e nesta colônia
espiritual que me recolheu depois de mais de duzentos anos nas trevas, é minha ética e
caráter andarem juntos...

Não me sinto mais sobe controle...

E hoje o controle não habita mais em mim...

O novo amigo, dito aquilo despediu-se.

Deixando-me somente a vontade em naquele mesmo momento, orar o “Pai Nosso”


ensinado pelo Mestre Jesus, no que fiz em meia voz, sentindo restaurar as energias
despejadas naquele diálogo através do sopro suave do vento fresco...

“Jesus, nosso grande Terapeuta das Almas, quantos ainda não O compreenderam,
mas sim, Tu tens a divina paciência, e sabe reaver os corações desarvorados pela culpa e
pelo remorso...

“Tudo vem ao seu devido tempo”.

***

A HISTÓRIA DE DEMÉTRIO

38
À tardinha reencontrei Jerônimo e voltávamos ao suntuoso edifício principal do
Instituto Flammarion.

Encontrávamos em palestra amiga com um doutor da alma.

-- Por incrível que pareça – dizia-nos Demétrio em particular--, enquanto peregrinei


em minha última passagem pela superfície da crosta, reencarnei na condição do doente
mental em potencial, que foi duramente provado no seio familiar pela causa de maior
dor enfrentada pelos padecentes de distúrbios psíquicos no fim do século XIX, que era o
preconceito...

Adianto-lhes, cavalheiros, que a expiação não me fora em vão. Uma vez que dois
séculos antes da reencarnação que vos relato, meus abusos na área sagrada da Medicina
e, o uso que fiz dos louváveis conhecimentos da Alquimia a propósitos exclusivistas,
resguardara resgate por duas reencarnações sucessivas com dificuldades de expressão na
fala, e abandono físico por parte da família.

Em verdade, naquela época, as vivências psíquicas abaladoras eram todas chamadas


de loucura. E, não detendo ainda a benesse das medicações que atuassem no cérebro
lesionado por longos anos de psicose, nos era quase impossível de ser encaminhado a
uma recuperação que não fossemos largados à sarjeta ou internados em um Hospital de
aspecto infecto.

Minha situação era a do homem de vinte anos a sofrer de uma forma de paranoia
crônica. Tinha um modo patológico de defesa diante aos abusos físicos sofridos na
infância, que geraram o que Freud chamaria de Fixação que fazia que psiquicamente eu
recrudescesse à fase fálica.

Mas... Intimamente eu era o exemplo triste do Urso que é enjaulado e mantido atrás
das grades de um circo... Somente reagia a estímulos de violência, ou me movia sob o
imperativo do controle de um domador.

Quem domava o meu psiquismo eram as entidades espirituais obsessoras. A família


no qual ingressei era extremamente cética. Jamais me ensinaram a orar, desta forma
como eu teria o necessário mecanismo de defesa do ego, se me faltava à esperança na
partícula mental!

No verão de 1908... Meu pai, cansado de tanto conduzir-me ao Hospital, e dividido


entre o sentimento paternal e as ameaças de minha madrasta em abandonar a casa por
não suportar conviver com um “louco”, colocou-me em cima de uma carroça... Fez uma
trouxa de roupas que eram suas, pois minhas vestes eram sempre rasgadas, e pôs numa
bolça um amontoado de frutos frescos...

A carroça se moveu por cerca de duas horas no escuro da noite alta. Recordo-me
apenas do barulho da madeira friccionada ao chão, e do relinchar do cavalo velho e
cansado...

39
Então a carroça parou.

Meu pai me puxou vagorosamente, me acomodou em uma vala, aconchegando-me


por entre cobertores; ele chorava muito, mas eu não o compreendia... Ele parecia
indeciso, impreciso seria o termo mais adequado, não era seguro de si no que estava
fazendo.

Homem fraco. Desempregado. Dependia dos recursos da segunda esposa que era
costureira, e ele tinha mais quatro filhos para criar... A fome, a miséria, o desespero
fizera meu pai me abandonar qual se fosse um cão vira-latas que alguém não encontrava
mais espaço na choupana pobre...

Quando ouvia a carroça a seguir... Eu dei um grito! Meu pai, meu pai... Não me
abandona!

Aquele velho e abatido homem, ateou o chicote ao dorso do animal, e logo sumiram
em meio à escuridão!

Sozinho... Profundamente abalado... Eu pude ver nitidamente através da eclosão da


vidência mediúnica, que faíscas de luz chispavam dos céus... Eram as lágrimas de meu
pai que consumido pela culpa, adoentado repentinamente pelo remorso, pedia a Deus
perdão...

Mas, desde aquele momento, eu não estaria mais só. De que forma, cavalheiros?

Fui abandonado pelo homem, mas amparado por um Espírito de Luz que
imediatamente se colocou ao meu lado, e não permitiu mais que as Sombras espirituais
me escravizassem...

Naquela noite, eu recobrei boa parte de minha lucidez. Levei a sacola de roupas até
os ombros. Alimentei-me com as frutas deixadas por meu pai. E caminhei até a cidade
próxima...

Era o renascer de minha alma...

Eu caminhava...

Tudo era muito novo, e apesar de estar consciente de que tinha sido abandonado
pelos laços consanguíneos, a simples ideia de estar protegido do ataque ostensivo das
Sombras me causava um bem muito grande, parecia curado no ímpeto, quase feliz!

A presença de uma luz que me acompanhava era muito especial ao apuro de meus
sentidos...

Lembro-me haver cansado sobremaneira. Afinal passava o dia inteiro caminhando


com uma bolsa nas costas, mal nutrido...

Sentado na superfície lisa de uma pedra, divisei uma nascente d’água, com que lavei
as mãos, a face, e matei a sede...

40
Uma paz se apoderava de mim, o que me permitia ouvir o sopro suave da luz que me
acompanhava. Era quase uma melodia quando alcançava os sentidos, e fez-me, em dado
momento superar mesmo a fome.

A luz tinha os contornos de um homem. Mas, recordo que sentia um calor nos olhos
toda vez que a enxergava, feria-me e ao mesmo tempo fazia enorme bem.

Aquele Ser Espiritual refeito de luz transmitia-me a necessidade de orar por meu pai.
Ele muito se culpava. Pensava mesmo no suicídio, por culpa de largar o filho na
floresta, como se fora um bicho selvagem...

Então eu acatava aquele pedido de bom grado. E, concentrado, imaginava meu


genitor, e curioso percebia que uma fotografia viva, não, melhor, imagens vivas se
formavam em torno da fronte de meu Anjo Protetor, para minha surpresa, meu pai era
agora rodeado por aquelas mesmas Sombras que por tantos anos me atormentavam. Na
impossibilidade de me atacarem diretamente, se voltaram a meu pai, afim de que
possibilitassem meios vibracionais que indiretamente me atingissem na obra nefanda da
vingança...

Meu Guia Protetor me explicava que minha missão junto de meu genitor não havia se
encerrado. Que eu não tinha muito tempo para agir. Deveria me fortalecer, me
encontrar, transcender e quando estivesse pronto, voltar e resgatar a alma de meu pai.

-- Por onde começo?! – Exclamava a esmo, mas para a minha surpresa nada obtive
em resposta, somente uma indicação daqueles braços luminosos para que seguisse por
determinada direção, no que confiando pela primeira vez no plano espiritual, eu segui...

Foram um dia e uma noite caminhando initerruptamente. Ao longo da estrada eu


encontrei frutas silvestres com que as devorava instintivamente desde a casca até a
polpa...

Era madrugada ainda quando encontrei uma casa muito ampla, em meio a uma
verdadeira colônia de Eucaliptos verdes...

Que fazer?

E obtive a seguinte resposta:

Procure abrigo. Diga que veio em busca de orientação psicológica...

Realmente a indicação me foi válida.

Ao bater à porta, logo fui atendido e informado em ser aquela casa ampla uma
clínica de recuperação, orientada por um Psiquiatra em parceria com outros dois
Enfermeiros. Fui muito bem acolhido. E me deram um leito para descansar, em um
recinto onde mais dez pessoas repousavam.

Durante o dia, após meu repouso, recebera alimento consistente, e um dos


Enfermeiros cuidou de minha saúde. Auxiliou-me a tomar um banho. Cortou meu
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cabelo e barba. Emprestou-me aparatos de higiene com que cortei as unhas. Por fim
recebi uma muda de roupas limpas, um par de sapato—pois que andava descalço--, e em
seguida fui levado até a sala do Psiquiatra, que me concedera tempo à entrevista.

Na sala do Médico, informei-o detalhadamente o drama que me trouxe até ali,


ocultando somente a minha visão do “Ser de luz”, pois que temia julgar-me demente, e
me expulsarem, ou pior, me submeterem a novos tratamentos com choque e banho frio.

Meu argumento mais forte fora a miséria de minha família, e depois aleguei ter
vivenciado um tempo em amnesia, no que o Médico autorizou-me permanecer dez dias
naquela Clínica, e depois eu receberia uma diligência que me conduziria de retorno até a
Cidade.

E, começa meu tratamento...

Recebia três refeições por dia. Um banho a cada dois dias. E fizera amizade com o
Enfermeiro que me cuidava. Muito gentil, ele me ensinou a ler em uma semana. E
depois conseguiu autorização junto ao Psiquiatra para a minha permanência por mais
quinze dias, onde me confiou uma missão: “ler um livro a cada dois dias”.

Muito simpático, o Enfermeiro amigo ainda incentivava:

-- O amigo receberá um novo livro, no mesmo dia que receberá a água aquecida para
banhar-se.

Permanecera naquela casa até o ano de 1926... Onde lera muitos livros de autores
consagrados como Platão; Aristóteles; Sigmund Freud; alguns livros de Nietzsche;
Além de receber curso prático de Filosofia e Psicanálise, eu também aprendera
Matemática; Física; Astronomia; e Biologia com que me apaixonara pela obra “A
Origem das Espécies” de Charles Darwin.

Aquele Enfermeiro que me auxiliava era um homem muito culto, e eu via em seus
olhos que sua alegria era transmitir a quem desejasse aprender o fruto abençoado do
conhecimento.

O dia de volver a cidade enfim chegou.

Todos naquela Clínica, que me haviam acolhido como irmão, despediram-se


emotivos.

O Psiquiatra então me confiou uma soma discreta em dinheiro. Tentei recusar, mas
ele insistiu. Utilizou o argumento de que eu havia chegado aquela Casa como um pobre
mendigo, e a deixava como um funcionário exemplar, que fiz por merecer uma
gratificação.

Acatei o presente. E realmente eu era um novo homem; ao educar-me nas visões


mediúnicas, a estabilizar os humores e extinguir os delírios, e a paranoia obsessiva
havia desaparecido.

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Mesmo o Ser luminoso que me acompanhou no princípio havia muito tempo que não
aparecera mais.

Graças a Deus, devo repetir, que ao me educar também deixei de sofrer as


perseguições das Sombras...

Cheguei de retorno a Cidade era o meio dia de uma quinta-feira. Procurei pela casa de
meu velho pai, e para a minha surpresa ele, a madrasta e meus irmãos prosseguiam a
viver da mesma forma.

Meu pai desempregado; a madrasta costurando para fora, e meus irmãos com suas
frivolidades...

Mas... Guardo especial imagem do momento que meu pai me viu adentrar pela porta.
De pronto ele não me reconheceu. Apenas exclamava segundo seu próprio prisma:

-- O Doutor me parece familiar... Por ventura, veio trazer-me notícias de meu filho?!

Eu não me dei a conhecer de início a meu pai. Apresentei-me pelo nome “fictício” de
Sigmund, e solicitei permissão para dialogar com ele em particular.

A madrasta parecia desconfiada. Os jovenzinhos (meus irmãos) em nada


perceberam, afinal, pouca lembrança tinha-se do irmão “louco” que partiu uma noite
alta na carroça do pai e jamais voltou.

Meu pai conduziu-me até os fundos daquela sufocante residência. Puxou uma
cadeira para mim, e sentou-se ele por sobre o degrau de concreto.

Após rápida e ansiosa troca de olhares, eu comecei a indaga-lo:

-- Que teria acontecido com seu filho, senhor?

Olhos rasos d’água, meu pai então começa a relatar suas imensas dificuldades de
sobrevivência. E de como adoeceu gravemente desde a noite que abandonou o filho
doente... Pensara duas vezes em morrer por definitivo, mas não saberia dizer o porquê
de uma força misteriosa o sustentar, uma luz íntima não o deixar desfalecer, e então,
confessou que desde o início daquele ano que sonhava que o filho seria trazido de
retorno aquela casa, e o concederia perdão...

Então, como naquela noite alta, quando meu mundo havia sido totalmente rasgado de
cima a baixo... Eu tive novamente a visão do Ser Espiritual de luz... Mas desta vez, não
apenas luz e contorno humano, eu o reconheci por meu avô, pai de meu pai, que havia
desencarnado quando eu era apenas uma criança...

Meu avô tentou tomar uma de minhas mãos... Eu o seguia pela vidência mediúnica, e
aconchegando-nos junto de seu imenso magnetismo de amor, eu tive a coragem de
revelar a meu pai quem eu era realmente.

Era o fim de nosso drama?

43
Por incrível que pareça, meu pai não me reconheceu. Em verdade, não acreditou.
Lançou-me blasfêmias por querer tomar lugar de seu filho perdido na floresta.

Seu primogênito poderia teria sido criado por Lobos, por Macacos, mas, agora
acreditar em uma clínica de recuperação no meio da Floresta, era demais para ele!

Fui enxotado uma vez mais da vida daquela família. Primeiro como um mendigo
sujo. Depois como um doutor passando-se por charlatão...

A vida seguiu.

Perdoara novamente meu pai, e segui adiante.

Logo conseguira emprego. Tive a minha própria família. E dediquei-me a educar


meus dois filhos através dos livros...

Ler era a única forma de me fazer esquecer o passado e jamais desanimar novamente.

Quando retornei a vida espiritual, fui logo admitido nesta colônia espiritual como
aprendiz, e graças aos meus esforços, nosso Governador de “O Mar Alto da
Consciência” me concedera a oportunidade em trabalhar com a terapia junto de almas
em análoga posição de sofrimento íntimo de meu pai...

Demétrio silenciou aquele impressionante relato jornalístico.

E, para minha surpresa, ele nos lançou o seguinte convite:

-- Partirei com uma Equipe de socorro às Regiões obscuras do Umbral pela manhã.
Meu velho pai foi localizado em uma Colônia sombria de Purgação, e se os amigos
quiserem me acompanhar, seria de bom grado contarmos com a experiência de vocês...

Rápida troca de olhares entre Jerônimo e nós outro, e então, meu Instrutor tomou-me
a dianteira e replicou:

--Sim. Será proveitoso aos nossos estudos psíquicos, além de uma honra servir a uma
causa tão bela de amor.

Demétrio sorriu e agradeceu.

Por minha vez também mal contive a emoção.

Partiríamos nas primeiras horas do alvorecer...

***

44
AS REGIÕES DE PURGAÇÃO

Imaginemos um mergulhador com roupa apropriada e aparatos de mergulho


debaixo às águas do mar, e teremos assim a sensação aproximada da densidade
vibratória de um Espírito que há muito desacostumado em expedições nas Regiões de
Purgação Espiritual retorna ao caminho de descida em nosso plano...

Havíamos deixado “O Mar Alto da Consciência” antes do sol nascer... Já nos


encontrávamos em faixa vibratória “umbralina”, e sentia-me como se fora novamente

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um homem, ou melhor, uma alma encarnada, pela mencionada sensação de densidade,
agora com relação às necessárias transformações no envoltório fluídico.

Em meio à descida de nossa Equipe, onde Demétrio e mais dois funcionários do


Instituto nos guiavam, Jerônimo, meu Instrutor, deixou-me a vontade para explorar o
ambiente, solicitando-me, “apenas”, prudência e “pensamento elevado”.

Por quase duas horas “volitávamos”.

Quando o céu era todo ele escuridão, e não mais qualquer sinal de azul ao alto, foi o
momento que alcançamos as intermediações de uma imensa colina obscura, rodeada de
corvos negros...

Em acordo a Demétrio, daquele momento em diante, marcharíamos a pé,


caminhando em forma de uma fila única, e mesmo atravessado à devida transformação
na densidade vibratória de nosso períspirito-- acaso fôssemos considerados por
invasores, reconhecidos por trabalhadores no bem, se necessário—em último caso--
utilizaríamos os aparatos de defesa de ação magnética.

Figuras monstruosas guardavam a passagem ao orifício obscuro naquelas imensas


colinas;

Demétrio apresentou nossa autorização de permanência de seis dias...

O Guardião das trevas que nos barrava, assim que viu o documento assinado por um
dos Ministros de “O Mar Alto da Consciência”, deixou perceber estar contrariado, mas
liberou a passagem àquela colônia de purgação...

Assim que penetramos pela imensa passagem, gritos, gemidos de dor emocional, e
música exótica em batida frequente, fizeram-se ouvir mais intensamente.

Diante minha perplexidade, Jerônimo, comunicando-se comigo por através da


telepatia, elucidava:

Está área corresponde a imenso Hospital Psiquiátrico de nosso plano, Luís, onde
por afinidade vibratória, todos que são atraídos a estes sítios após o desencarne, é pelo
fato de haverem escarnecido, humilhado, ou tirado proveito de assuntos e pessoas,
relacionados à “doença mental”.

<Poderia ser mais específico?> solicitei. O Instrutor então resumiu:

Quantos enfermeiros, Médicos, Psiquiatras, Psicólogos, que maltratam seus


pacientes, ou os exploram economicamente, e que deveriam honrar com o juramento de
lealdade à Vida Humana; esses poderão até passar despercebidos pelo crivo das
Autoridades na Terra, mas jamais enganam a Lei Soberana de Deus.

Temos ainda por aqui, inúmeros Políticos desencarnados ambiciosos, que


desviaram verbas públicas que seria destinado aos Ambulatórios Médicos, que
prejudicaram o Sistema Público de Saúde, e investiram os desvios monetários ora em
46
vícios primários, ora em ações criminosas, como o tráfico, a prostituição, os jogos
clandestinos e as rinhas de animais...

São inúmeras colónias de purgação como essa em torno do plano astral do Globo
Terreno. Os que as governam são em sua maioria rebelados contra o Cristo de Deus, e
os grandes responsáveis pela “onda se materialismo, sensualismo, e criminalidade”
que avulta na gleba humana, se servindo de mentes encarnadas suscetíveis de
receberem as influencias perniciosas e as transmitir ao maior número de pessoas
possível.

Estão, atualmente, em larga presença nas redes sociais do meio virtual de


comunicação pela internet, onde seduzem as massas com promessas de riquezas
imediatas, prazer físico, comércio desvirtuado do corpo e a fixação mental em teorias
absurdas no próprio meio religioso.

Recordemos o conselho de precaver-nos contra “os falsos Cristos e falsos profetas”.

Jerônimo fez breve pausa, e capturando-me uma pergunta, tratou de elucidar


rapidamente, uma vez que aquele intercâmbio mental era algo desgastante a nós dois:

O pai desencarnado de Demétrio fora atraído para essa Colônia de Purgação


justamente por abandonar um filho que chamava de “louco” à sarjeta. E depois,
recebendo a oportunidade em se redimir, novamente faliu ao negar intimamente que
ele havia vencido o mal que o afligia.

Em realidade, Demétrio poupou-nos detalhes de seu drama pessoal, por respeito


filial, mas seu pai é um Espírito que há muitos séculos vem endividando-se com o abuso
de doentes mentais, na exploração com o comércio de forças invisíveis. Na narrativa, o
que despertou remorso foi o fato de ele ter abandonado um filho, degradado com um
cão doente, mas intimamente ele sentia prazer em dizer a todo mundo que seu filho era
demente; auto afirmava que ele era uma pessoa “boa”, que suportava um fardo
imundo, e assim espalhou aos quatro ventos a “doença” de Demétrio, e, se assim
possamos dizer, o fato de seu desequilíbrio ser a vergonha de sua família e o motivo
por ele estar desempregado, pois tinha suas forças consumidas no cuidado ao
“doentinho da família”.

A emissão dos pensamentos de Jerônimo silenciou em minha mente.

Encontrávamos agora muito próximos a uma encosta, diante um vale profundo, e


neste local havia um lago escuro.

Forças sombrias nos impediam a aproximação do lago, mas algo parecia interagir
com as nossas partículas mentais, tamanho poder magnético naquela substância etérea,
que transformava segundo o molde mental vigente, tornando-se ora escuro e lúgubre,
ora lodacento e de aspecto pantanoso, e ora azul e atrativo.

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Jerônimo não precisou esclarecer-me que a última amostra tratar-se de uma ilusão.
Como o canto de Sereia, para atrair ou seduzir os enfermos psíquicos...

Algumas entidades em fácies horripilantes dominavam o perímetro. Detinham a


posse daquele lago; o vento rajava aos pés de nossos ouvidos; e confesso que somente
não entrei em pânico graças ao socorro de energias mentais na sintonia psíquica com
meu experiente Instrutor.

Quantos Espíritos desceram no profundo daquele lago?

Que mistérios existiam?

Seria uma passagem a outra dimensão?

E o pneuma? Que forças imantavam naquele sopro que parecia o sopro da morte, “o
Espírito das Trevas”?

Os místicos humanos chamariam aquele fenômeno nas águas de um milagre; outros


dos sinais do Apocalipse.

Muitos Espíritos mergulhavam naquelas negras águas em busca de um distorcido


ritual de purificação; não a purificação das tribos primitivas, nem a profecia dogmática,
mas uma operação coletiva de “forças mento-magnéticas”, a gerar naquela colônia
purgativa um verdadeiro assombro coletivo.

A morte do ímpio era retratada pelo sustento daquelas entidades vagabundas e


descrentes nas águas pantanosas daquele lago.

No vórtice daquelas águas uma espécie de redemoinho, uma força centrífuga, que
puxava Espíritos que gritavam por perdão...

De tal forma eu me impressionava a fixar a atenção naquele espetáculo sombrio, que


experimentei um profundo cansaço, uma estafa mental, a me fazer recordar em átimos
de segundo todas as minhas falências intelectuais e morais quando na condição humana.

-- Onde está o Salvador de vocês?! — gritavam as entidades vagabundas e


maliciosas à diretiva de Espíritos estirados às margens lodacentas, e de mãos vazias...

Vozes tenebrosas entoavam cânticos medonhos, tomados pela embriaguez dos


sentidos, pareciam extasiados; certamente que não mais identificavam o próprio “eu”,
misturados àquelas redes de forças maléficas, estonteados por miasmas mentais, ávidos
ainda de riquezas físicas e muito distantes do amor espiritual.

Sentia-me atraído a tentar esclarecer alguns daqueles que me pareceram sofrer de


verdade. Mas Jerônimo, e integrantes de nossa Equipe, contiveram-me, pedindo que eu
apenas prosseguisse a observar cautelosamente.

A surpresa ainda estava por vir.

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Foi então que identifiquei Espíritos de uma envergadura muito ríspida; parecia a
estirpe da barbárie; de cabeleira cumprida, barba espessa... Alguns tinham a estatura
aproximada de 2 metros... E outros a hipertrofia dos braços e tórax, a se exibirem por
através das saliências do dorso nu!

Além da imagem de força bruta, revelaram intelecto avançado, e carregavam com


eles inúmeros instrumentos eletrônicos que apontavam na direção do hemisfério direito
no aparelho cerebral, responsável pelo pensamento simbólico e a criatividade. Via
atônito que todo o Córtex Cerebral em sua duplicata exata no períspirito era tomado de
um rubro intenso, e a reação era paralisante, robotizados, aquelas entidades sofredoras
serviam a ações inenarráveis de volúpia e práticas bizarras de sadomasoquismo,

Realizavam operações psíquicas a mancheias, e em alguns daqueles que se


rastejavam ao solo, aparentavam ter a cabeça de animal, muito similar aos cães mastins!

Jerônimo me explicou ulteriormente, que ali imperavam expiações milenares,


resquícios dos tempos em que os cães mastins alimentavam-se da carne humana nos
tempos da barbárie.

Tentei olhar, ou melhor, colocar o foco a outra direção, e vi “sacerdotes a


profetizar”. Parecia-me que realizavam um batismo sacramentado naquelas águas
turvas. Enveredavam túnicas negras e espessos gomos tinham sobre os ombros.

São os Generais... (elucidava Jerônimo) Que dominam e mistificam imensos cartéis


do crime, e o tráfico de drogas na gleba humana tem de ordinário, todo o planejamento
intelectual nefando em Colônias Espirituais purgativas com esta.

Munidos de braços fortes, mergulhavam os sofredores no profundo daquela


substância etérea, lodacenta, como se fossem divindades a cuidarem de um templo
natural, propriedade transcendente, portadores de uma cura fictícia, mas que por detrás
da “máscara”, hipnotizadores cruéis...

Tínhamos tanto nos Bárbaros quanto nos Sacerdotes das Trevas, o símbolo perfeito
dos “Falsos Profetas” enunciado pelo Cristo.

Mediante a intensa atividade psíquica, logo seríamos pressentidos por aqueles Gênios
do Mal. Temendo em sermos identificados naquela orla cruel, Demétrio, o líder de
nossa expedição, conduziu-nos a diretiva de uma viela estreita onde percorremos cerca
de vinte minutos até alcançarmos a um Posto Socorrista, sitiado por entre dez a vinte
Guardiões.

-- Eis aqui nossa ligação com “O Mar Alto da Consciência”!—exclamava Demétrio


a sorrir com dificuldades, observando ainda:

-- Trabalhadores de nossa colônia tem a permissão dos Gênios das Trevas dessa
Região Purgativa da permanência de Equipes de Resgate apenas por dez semanas por

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ano. Em verdade oportunizamos o fato de que eles visualizam nossas atividades
socorristas como um descarte de Espíritos “imprestáveis” aos vícios.

Desde que não venhamos a interferir no processo purgativo em voga. Não nos
atacam. Mas, os Guardiões que nos recebem é precisamente para manter a ordem, afim
de que os Espíritos dementados e sofredores não tentem invadir para fugirem dos
Carcereiros das Trevas.

Adentramos.

A atmosfera psíquica era suave. Causou-me alívio imediato.

Quem nos recebia era um velhinho sorridente e de semblante nobre, que logo
exclamou:

-- Sejam bem vindos, irmãos de “O Mar Alto da Consciência”; fui informado de


vossa expedição. Nosso “Posto Socorrista - 1” os abrigará pelo tempo que for
necessário.

O velhinho apresentou-se, momentos depois a mim, pelo nome de Cláudio. Era o


Diretor do P.S. 1, informando-me a seguir que a cada vinte quilômetros, estão
distribuídos outros Postos como aquele... Teria, segundo os registros atuais, os Postos-
2; - 3; e - 4. Sob os cuidados direto de “O Mar Alto da Consciência”, onde cerca de
vinte a trinta mil Espíritos sofredores em condições de arrependimento profundo são
resgatados por ano na “peregrinação dos dez dias”.

Agradecidos. Recebemos momentos após um caldo reconfortante. E, enquanto


Demétrio e os Enfermeiros foram traçar metas socorristas com Cláudio, Jerônimo
conduziu-me a um ambiente do P.S.1, onde me seria apresentado seu amigo, o Médico
Leonardo...

***

O MÉDICO LEONARDO

Muito simpático, o Médico espiritual que dava concluído o atendimento, puxou duas
cadeiras, uma para Jerônimo e outra para mim, e após relacionarmos lembranças da
existência humana, o doutor, sorriu, e asseverou:

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-- Na Terra, a prática na Medicina peca por acreditar que a vida parte do momento da
concepção... E que o ser humano nasce “vazio”, equipado de uma chapa limpa na
mente, para receber imagens, administrar sensações, reter o conhecimento, etc. Como se
apenas os golpes que sofre o recém-nascido, fizesse o papel da impressão a insculpir a
rudimentar atividade da consciência...

Quando aqui cheguei, na vida espiritual, trazido por mãos amigas de outros tempos,
após quinze anos a sofrer nas “mãos de ferro” dos gênios das sombras, eu ainda muito
experimentei dor e tormentos morais, afim de que as escamas do orgulho e do egoísmo
extraísse o fel da perversidade latente em meu psiquismo.

Sim, meus caros amigos, como podem observar a dor por aqui não é título de
expiação somente, sobretudo mecanismo de progresso.

Vocês devem ter sido tomados de profundo espanto pelos “espetáculos de horror”
com que presenciaram até alcançar este pouso de repouso em meio as Trevas... Mas,
acreditem que estes que são escravizados, iludidos, mal tratados, ainda que transpareça
um esquecimento de Deus, não é!

A dor que os faz padecer tormentos morais inenarráveis é uma fonte de progresso. É
o fogo incidindo no aço. A enxada bruta que limpa o matagal do egoísmo e da
ambição...

Sem este tratamento de choque emocional, milhares de almas que por aqui passam
anualmente, estariam espalhadas pelo globo a causar dissabores, intuir os vícios,
corromper a juventude, violar o sagrado patrimônio da inocência, e então, somente lhes
restaria o degredo a mundos primitivos, que em acordo com as projeções
cinematográficas que recebemos no último outono em nosso Grupo de estudos, faz esta
colônia de purgação parecer um Parque Temático de diversões...

Leonardo fez breve pausa na alocução, então me aproveitando da espontaneidade do


novo amigo, indaguei:

-- Acreditaria por ventura o doutor, que o Mal domina a nossa gleba terrena?

O Interlocutor fez um gesto de contrariedade a minha interrogativa, e em seguida


replicou:

-- Por minha vez, eu modifiquei e muito a minha forma de visualizar o sentido da


vida, e as nuanças do “veículo homem”, que rastejando nas sensações físicas, muita vez
tudo o que de maior prisão existe por lá, é a pequenez na mente!

Quando comecei a atender neste Posto, faz aproximados quinze anos, logo
percebera que as ideias humanas sobre espiritualidade são “menos realidade” que a
própria realidade material está para nós outros na vida espiritual.

O mundo sensível é apenas um reflexo do mundo das causas... Algo deste plano
está incutido na personalidade humana, mesmo que neguem os mais poderosos, os

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doutos, os homens fortes das mídias-- na essência do ser-- guardam descrito que todos
nós, que somos encaminhados a reencarnar, estamos colhendo os débitos de existências
passadas... Que levamos, ou melhor, trazemos ao nascer na Terra, à bagagem anímica
pré-formada, repleta de carga mento-magnética, latente de “n” lembranças imersas no
Inconsciente... E, que está carga mental latente irá nos acompanhar ao longo de toda
existência, bem por isso o culpado não se rebela nos sacrifícios, e o livre não cansa do
trabalho.

Haurimos toda a nossa estrutura emocional da vida Espiritual, e damos o colorido


de nossas aspirações, sonhos, desejos na existência efêmera, à medida que utilizamos o
livre-arbítrio para o bem ou para o mal... Escolhas livres... Das responsabilidades,
porém, ninguém as escapa...

O homem não nasce vazio, cavalheiros. Recordemos a Teoria dos Arquétipos do


notável Carl Gustav Jung, Psiquiatra Suíço, e damos força a nossa concepção espiritual
que a partir de modelos herdados construímos nossa personalidade. Em seguida temos a
incidência dos Complexos – em seu aspecto positivo e negativo--, um verdadeiro
conjunto de ideias, formas pensamentos, experiências que guardam uma relativa carga
emocional, e gravitam em torno do Arquétipo.

Esses modelos, talvez que Jung apenas o intuísse, porém, em uma visão que
transcende a matéria, ele fez mais, “psicografou, de forma inconsciente de que era
médium, mas plenamente consciente da eletricidade transcendental presente nas
informações que percorreram sua psique”.

Todos nós herdamos de nossas existências pregressas, o fruto da experiência. Nossas


escolhas? São motivos reais de felicidade, de tristeza, de acerto, de equívocos, de
virtudes, de vícios... Nossa mente é a “argila psíquica” que através do períspirito e seus
registros fisiopsicossomáticos profundos e milenares, irão moldar o corpo fetal no
processo de cada nova existência corpórea, a influir na larga porção do Inconsciente no
profundo da estrutura da psique.

Desta forma o Inconsciente é “inconsciente para a reduzida capacidade mental


humana”, mas jamais um mistério integral para o Espirito imortal e nossa amplitude
psíquica, a elasticidade de nossos neurônios na matéria quintessência. Algo mais
profundo da psique nós viemos a compreender nas romagens da vida espiritual.

Nos mundos mais evoluídos, o cérebro mais bem desenvolvido guarda funções
transcendentais, e a exemplo dos Anjos ou os Espíritos Puros, a Consciência
praticamente integral, apenas reduzida percentagem da influência do Inconsciente, uma
vez que no domínio dessas fronteiras do aparelho psíquico, à medida que se alarga o
horizonte evolutivo da alma, mas integralizada será sua capacidade de emergir no
passado, divisar o futuro, e permanecer sereno e vivo no presente.

Bem por isso, cavalheiros, para o Espírito em franca evolução não há noção restrita
de espaço, de tempo, e o passado poderá ser presente, bem como o presente poderá

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acessar facilmente o futuro, quando falamos das imagens em torno dos pensamentos, do
acesso aos registros milenares do Espírito.

Leonardo fez nova pausa. Não ousávamos interromper, e esperamos pacientes a sua
conclusão de tão brilhante assunto:

-- As Religiões do planeta entendem, intuem, informam cada qual à sua peculiar


visão transcendental, que o homem não é só matéria, não emerge a Alma do coquetel
genético entre os elementos germinativos: masculino e feminino; e sim que há algo
além da matéria que dá o impulso ao processo da fecundação, santificando-a!

Chamamos por Espírito, por Alma, por Essência... Por Luz que vitaliza e que não
perece; por Energia vivaz que preenche de fluido vital à saturação das células; e por fim
que se afasta, e não as consome, após o desencarne... Uma vez que os elementos
desagregados serão restituídos ao cosmos...

Nascer, crescer, reproduzir e morrer na indumentária humana... Somente é possível


pela passagem do Espírito, através da Alma que anima a matéria, intelectualizando-a, e
fazendo repercutir os abalos emocionais, diferindo dos animais irracionais que não
guardam expansão do pensamento, nem atividade lúcida e apurada da mente, visto que
o aparelho psíquico é atributo dos homens.

Leonardo pareceu pensar repentinamente... Mantive forte ansiedade, pois a sua


palavra me atraía particularmente dado o meu interesse sempre vivo à Medicina na Vida
Espiritual.

O nosso novo amigo, percebendo-me a expectação, sorriu e obtemperou:

-- Nosso papel neste Posto Socorrista - 1. É o papel da Medicina por através da


Educação Moral; Aplicamos sim os primeiros socorros nos Espíritos que resgatamos,
mas não nos deteremos neste fato. Trabalharemos ativamente ao desenvolvimento das
potencialidades psicológicas, para nutrir algo que levarão na raiz profunda da
consciência para o futuro de suas ações humanas, e que os inspirem a viver em acordo a
mentalidade saudável daquele que serve com Jesus!

O Médico Espiritual precisou encerrar em definitivo.

Sua presença era requerida com urgência para o atendimento de um paciente com a
conhecida crise de Paranoia.

Recebendo o incentivo de Jerônimo, eu integrei a pequena Equipe de atendimento do


doutor Leonardo, para irmos ao atendimento do paciente Roberto.

***

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O PACIENTE ROBERTO

Leonardo, enquanto atendia ao enfermo espiritual, revelava ao meu apuro, que a


maior percentagem de doação psíquica era o afeto que inoculava nas mentes esgotadas e
corações aflitos...

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Seguíamos de leito a leito, onde o doutor ministrava-me detalhes no estado mental
dos pacientes, até alcançarmos a um leito isolado dos demais à distância de cinco
metros.

-- Ali está o nosso irmão Roberto!-- informava Leonardo a transmitir segurança na


voz – Venha comigo Luís, quero que retire suas próprias conclusões.

Obedeci com cordialidade.

Ao fitar nossa aproximação, Roberto ergueu-se com dificuldades do leito, no que foi
prontamente amparado pelas mãos amigas de Leonardo que o posicionou com conforto
a encostar suavemente seu dorso em alvos e espessos travesseiros.

Com os grandes olhos lacrimosos à minha direção, o paciente de Leonardo,


inspirando-me piedade, exclamou:

-- Como posso ver, também é Médico...

Ah... “Doutores da alma”, como eu invejo a posição dos senhores!

Leonardo já conhece o drama de minha vida, mas muito estimaria em participar


também ao nobre visitante...

Agradecendo aquele gesto de confiabilidade, eu pus-me à sua disposição. Roberto


então cerrou por alguns momentos as pálpebras, e invocando da memória imagens de
sua última existência no manto biológico, deu início ao seguinte relato:

-- No exercício da Medicina, especializei-me em Neurologia...

Meus objetivos não eram de início na profissão, muito claros. Algo me impelia a
busca por assuntos relacionados a enfermidades psíquicas. A Paranoia, por exemplo,
intrigava-me o fato do recalque no sintoma primário, e este retorno condicionado às
representações outrora recalcadas...

Ver o semblante endurecido de meus pacientes, ou de pacientes que eram tratados


em consonância a Psicanálise, ardia na minha mente. Eu os perseguia a fim de obter
respostas que não encontrava de chofre.

Bom, falava da Paranoia, permitam-me continuar...

Por que razão aqueles pacientes aturdidos em uma vivência primária, algo semelhante
à Neurose Obsessiva; quanto desprazer na vida, senhores, aqueles corroídos pela
enfermidade psíquica no início do século XX!

Eram todos extremamente desconfiados, virtualmente permeáveis à sensibilidade a


outros...

O que projetavam em mim, que os desejava despertar desse sono prolongado de dor,
desprazer e ilusões...

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As lembranças que deveriam ter recalcadas, eu as tentava subtrair em meu
Consultório particular...

Naquele verão de 1929, recebia em meu Consultório um paciente muito especial, uma
moça de aproximados vinte anos.

Ela se expressava com enorme dificuldade. Suas lembranças mais primárias era todas
desfiguradas. Ela parecia substituir a realidade com projeções e ideias diabólicas!

À mesa, ela estava sempre furiosa, me pedia papel e lápis de cera, e começava a
pintar o retrato de um homem de chifres, com o corpo seminu, e uma calda que parecia
uma cobra pronta para o bote.

Identifiquei em ser tratar de uma representação do seu inconsciente para definir a


personificação do mal, ou aquilo que seus pais a ensinaram como Satã!

Solicitei aos pais de Natalina – este era o nome da moça que nasceu no dia de
Natal--, que administrasse uma efusão que prescrevi de erva sedativa, por duas vezes ao
dia, como sucedâneo ao tratamento da Psicanálise que me pareceu ineficaz no seu caso
em particular...

O caso tornou-se um desafio a minha profissão.

Levei a conhecimento de outro Psicanalista. Passávamos horas por entre os charutos,


o chá quente, e as horas a fio onde debatíamos minucias de nossos pacientes. Mas, foi à
opinião de um colega de profissão menos experiente que tinha aceitado a clínica há
poucos meses que mais me intrigava. Joel – jovem Psicólogo--, indicou que eu tentasse
persuadir a moça ao invés de retratar Satã, que tentasse desenhar paisagens da natureza,
ou figuras humanas mais belas...

Fazia sentido.

Talvez que seria o início de um tratamento menos agressivo.

Na semana seguinte, em meu Consultório, recebera Natalina novamente. Conduzi-la


até uma mesinha com cadeira; dei-a papel e lápis de cera, e solicitei que ela desenhasse-
me uma paisagem à beira mar...

Sua expressão, durante o momento artístico era suave agora; não mais aqueles
fragmentos de lembrança que retornavam desfigurados. À medida que ela expressava
sua arte, substituindo Satã por imagens análogas à paisagem da natureza a beira-mar, de
maneira simples notava que o “Eu” de Natalina não era de todo estranho; sob leve
estímulo, era possível aplacar aqueles delírios de assimilação... Seus sintomas de defesa
que denunciava avassalamento adormeciam...

Horas depois, pois que não ousei interromper, Natalina havia gasto cerca de duzentas
folhas de papel e uma caixa de lápis de cera—todo o meu estoque--, e para minha
surpresa ela não somente havia desenhado paisagens à beira-mar, mas também montes

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floridos, ruas marginadas em rosas, e para meu total espanto, aquelas paisagens tinham
uma figura, um homem de barba espessa e cabelo de madeixas longas que caíam na
altura dos ombros...

Sim, senhores... Como Médico Neurologista, simpatizante da Psicanálise de Freud,


divulgador da filosofia de Nietzsche, eu estava estarrecido em ver que ao entrar em uma
espécie de transe meta-psicológico-- algum fenômeno de projeção mental, Natalina
havia apresentado maior lucidez que o próprio Médico dela ao exercitar suas faculdades
anímicas e colocar ao papel uma mensagem visual de representação a figura ímpar de
Jesus...

Roberto fez breve pausa. Estava trêmulo.

Incentivado por Leonardo, Roberto com muitas dificuldades, retomou com aquele
interessante relato:

-- Não quis ou não conseguia aceitar...

Para mim o Cristianismo era a decadência intelectual do mundo. A pobreza


emocional dos homens subservientes. Que as Igrejas escravizam a mente e apagavam os
desejos carnais, gerando neuroses obsessivas...

Como poderia um simples anseio de fé ser maior que a força de uma Ciência?!

A ideia tornara-me obsessor de cristãos em consultórios médicos...

Organizei um movimento de reprimenda aos Médicos simpatizantes de alguma


Religião.

Expulsamos de nossa Academia aquele mesmo jovem e promissor Psicólogo, que a


meu ver havia se intrometido em minha especialização. Ora essa, eu tinha Natalina sob
meus cuidados, tratava da moça e da família... Mas, em verdade, eu não percebera a
minha transferência sentimental para aquela jovem que cabelos loiros e olhos verdes, e
quando ela declarou-se curada e que jamais retornaria a meu Consultório, eu caí em
Melancolia, sentia a fúria da “pequenez do “Eu””, fiz recriminações primárias, e depois,
nos acessos de fúria fui tomado de delírio de grandeza; cheguei ao cúmulo de ir à praça
pública pregar morte aos cristãos do século XX!

Desencarnei por uma síncope fulminante, e fui recebido, nas Regiões purgativas por
inúmeras entidades que se aproveitaram do trauma em meu Espírito, e sobe
metamorfose do corpo Peri spiritual se apresentava a mim como diabo, satã, demônio...
Eram todos munidos de chifres. Corpos nus, e tinham órgãos genitais em forma de
animais grotescos...

Roberto emudeceu de súbito, sendo prontamente atendido por Leonardo, que


salientou com energia:

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-- Afaste as projeções enfermiças. Sua expiação teve fim no início da década de 90, e
faz mais de dez anos que você prossegue internado em Postos como esse, repetindo a
todos os visitantes seu drama pessoal...

Não é chegado o momento de se perdoar, Roberto?!

O paciente abaixou a fronte, e manteve-se em silêncio.

Foi então que solicitei permissão para intervir, no que Leonardo, percebendo-me as
intenções, anuiu de bom grado.

Eu trazia comigo uma pasta. Tinha folhas de papel, e um objeto para escrever algo
similar a uma caneta.

Então, aproximei-me carinhosamente de Roberto, estendi minhas mãos sobre as suas.


Ele me olhou com olhos de águia.

Em seguida entreguei-lhe o papel e a caneta, rememorando os seus tempos de


Neurologista, e solicitei:

-- Por favor, faça-me o desenho de Jesus... Segundo tuas capacidades e convicções...

Tenha fé, será vosso recomeço... Se fora possível obterá a cura de Natalina que
decerto trazia do passado sua negação ao Amor transcendente à própria existência dos
homens, é chegado o momento de você também meu irmão em transcender a sua
condição espiritual e deixar fluir a energia de cura!

Naquele fim de tarde, Roberto fez não somente um retrato, mas muito do percurso
missionário de Jesus na velha Galileia...

Para a felicidade geral, eu ganhava um novo amigo, que confessava diante de nossas
lágrimas que se misturavam em gratidão recíproca, que seria a primeira vez em décadas
que ele detinha condições de equilíbrio para sentar-se à mesa com os demais para ceia.

***

AS DOENÇAS PSÍQUICAS

Era início da madrugada, e a movimentação de Espíritos sofredores sendo


conduzidos ao P.S.1. mantinha entre moderado a intenso, o que fez que além dos
pareceres de Doutor Leonardo, Jerônimo e nós outros, algo contribuíssemos nos
atendimentos médicos.

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Lá pelas 5 horas da manhã, um silêncio pacificador pousou não somente nas
dependências do Posto Socorrista, mas me pareceu também se estender aos imensos
sítios obscuros daquela Colônia.

Fitando pela vidraça da janela, reparei que pequeninas fagulhas de luz chispavam em
forma de refrações, e curiosamente os gritos de socorro e de desespero, também se
acalmaram.

Jerônimo aproximou-se e reparando-me as muitas indagações íntimas em minha


fronte, observou:

-- Todos nós precisamos de uma pausa para descansar... Faça o mesmo Luís!

-- A que se deve a calmaria?

-- Não é o que pensas... --- enlaçou o Instrutor—Este silêncio não é fruto da paz na
consciência coletiva, e sim o momento do esgotamento psíquico.

No intercâmbio com muitas casas de jogos e prostituição na superfície da crosta, as


entidades que enxamearam a madruga dissipam-se em busca de refúgio nos lugares
lúgubres e isentos da refração da luz.

As almas em desdobramento são reconduzidas ao vaso carnal. E, muitos encarnados


acordarão daqui a uma ou duas horas, para irem trabalhar, sem a mínima noção que
trouxeram impregnados em seus corpos fluídicos enquanto do desdobramento pela
ocasião do sono, os gérmens psíquicos da perversão e dos vícios...

Enquanto por aqui estiveram a polarizar vícios da alma, contraíram a chamada:


“Doença Psíquica”, que permanece na corrente vibrante de forças do corpo Peri
spiritual.

O estágio da Doença Psíquica é lento em alguns, e acelerado em outros, onde o “Eu”


é tomado pela luta inconsciente contra as “representações obsessivas contraídas”, mas
os efeitos colaterais iniciam-se normalmente por uma simples compulsão sexual,
alimentar, de aperitivos alcóolicos, por exemplo, e que não se consegue resolvê-los, não
de forma consciente.

Da compulsão nos primeiros estágios da incubação de bacilos psíquicos, surge então


um acúmulo de sintomas secundários, qual seja a “ruminação de ideias pessimistas”; o
descontrole a dipsomania; apreço a sensualismo promíscuo; e até rituais de fanatismo,
distorcendo a fé, e criando atritos verbais sem sentido, que primam pela vitimização no
lar, como seja o ciúme doentio, o complexo de inferioridade, os ataques de culpa e o
empobrecimento psíquico na Depressão.

Estabelecido uma ponte psíquica com o plano espiritual inferior, então é vertente o
sintoma primário de defesa, para então surtir o apego obsessivo aos seus afetos, e mais
comumente um medo, um temor indefinido, distorcido e algumas vezes desesperador do

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fenômeno da morte, que se não é combatido com os recursos espirituais à disposição,
fortalecem ainda mais o apego aos vícios.

É o momento culminante da Obsessão.

Se se detêm disposições mediúnicas, o indivíduo -- nessas condições de que


menciono--, experimenta delírios que a Psicanálise Freudiana classificou por “Neurose
Obsessiva”, mas que ao nosso prisma é a sintonia psíquica enfermiça ou a Obsessão.

Jerônimo silenciou.

Confesso que estava vivamente impressionado.

Diante à gravidade no assunto, interroguei:

-- As doenças psíquicas precedem a doença nervosa, e também as lesões orgânicas?

-- Sem dúvida! — replicou o Instrutor.

-- Participe-me, se possível, quanto a outros sintomas...

Meu Interlocutor aquiesceu ao pedido, e obtemperou:

-- A mania generalizada de que se é perseguido, de que corre risco de saúde, na


desconfiança quanto à assepsia do que se alimenta...

O desenvolvimento de vícios extravagantes, como o consumismo, o apego ao corpo


em o uso de anabolizantes, a drogas estimulantes da libido, ao tabagismo, além de que o
Ego em ameaça torna o indivíduo uma bateria elétrica de raiva, e conforme iniciamos
este diálogo, causa esgotamento nervoso, jamais paz na alma...

-- E o estado de consciência?

-- Alterado, ou por outra, levemente alterado...

Mais comumente o aflorar da Libido, seguido da insatisfação com seu parceiro ou


parceira, reparando defeitos físicos como exigisse a perfeição do outro, e não a sua, e
cultivando a falsa noção de que se é infeliz por culpa alheia, jamais por sua própria
culpa.

Os Neuróticos Obsessivos por experimentarem um tempo de estadia espiritual nestes


sítios de perversão e imoralidade, correm sério perigo de se comprometerem seriamente
com os Gênios das Trevas, e de canalizar toda tensão emocional nas linhas de ação do
sexo, onde recriminam energias sagradas, e conspurcam o vaso biológico para o
surgimento futuro de miomas malignos, nas Regiões mais sensíveis dos órgãos
genésicos e no próprio intestino.

Por exemplo, o indivíduo que adquiriu o vírus do HIV, se mantiver um estilo de vida
saudável, fazer o uso prescrito do retroviral, e recobrar esforços por se melhorar
moralmente, poderá recuperar a saúde, e talvez não vá desenvolver os sintomas comuns

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da doença; porém, se ataca a si mesmo com os processos recriminatórios da culpa, se se
entrega aos vícios primários, se alude o ódio pelo mundo à revolta contra a Divina
Providência, a indignação pelo preconceito sofrido, então sofre um abalo profundo na
Consciência, um choque anímico que comprometerá o Sistema Imunológico, e dará
livre vazão a que o Vírus da AIDS faça a depredação celular.

-- E a cura da Neurose Obsessiva? — atalhei de súbito.

Jerônimo asseverou com grave entonação na voz:

-- De tal forma, a dor quando pede passagem, não é simples reação da natureza
orgânica é, sobretudo, uma reação da alma!

O psiquismo, que retrocedeu a todas as formas de substituição, que padeceu à


recriminação primária, sofreado a ideias obsessivas... Desenvolve a doença mental, e
esta é o início de sua depuração, podendo ser uma terapêutica longa ou relativa, segundo
as disposições na personalidade.

Será preciso que acredite na própria cura, e compreenda a necessidade de substituir as


conexões mentais enfermiças pela medicação contínua do Evangelho.

Não raro será indispensável às medicações, unindo-o o efeito químico, com a


química emocional que na própria dor o levará a busca pela oração, por reeducação
moral, e a resistência ao Mal, somente ocorrerá se for mais forte o amor-doação, o auto
amor, o Amor Divino reacendendo-o no cerne.

Vemos por aqui, uma frota de almas que escolheram permanecer nos vícios, e então a
terapêutica que poderia ter sido efetuado no corpo biológico será transferido os anseios
de gozo para o Umbral, onde o infantilismo sobrepõe à maturidade moral, e as
aberrações sexuais criam a mente propícia ao estado psíquico da demência, da
incrustação psíquica e a escravidão nas próprias criações inferiores, pasto de cruéis
obsessões!

Desta forma surte os efeitos colaterais da perversão psíquica, cuja predominância


mental é o Ego fragilizado e tomado por uma autodefesa ilusória que é a imoralidade!

-- A repugnância sexual durante a reencarnação auxilia em algo? — intervi.

Jerônimo replicou:

-- O sexo é a união sagrada para a reprodução biológica, e que estará sobe os


cuidados da Espiritualidade Superior quando os casais se respeitam em tudo: nos
sentimentos, na integridade emocional, e no puro amor...

Nenhuma imoralidade tem êxito, e nestes casos, a repugnância é também um


mecanismo de defesa psíquica, que em alguns casos afasta o Obsessor, mas que em si
não cura a alma, se esta continuar com as ideias obsedantes do sexo nos pensamentos!

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Quando a Libido está intensa, os hormônios se alteram, e não é somente o ato em
indisciplina física a gerar problemas, sobretudo as projeções enfermiças que já se
consumiram no pensamento e seguem a alimentar Colônias de Purgação Espiritual
como esta...

Bem por isso, o pai de família, por exemplo, que faça em secreto o uso de material
pornográfico, ele está traindo não somente sua parceira, mas atraindo a prostituição em
elevado grau de comprometimento espiritual para a perturbação do lar!

Adoecem muitas pessoas na crosta sem entender o porquê.

Retornam a recalcar seus impulsos, para liberações mentais intensas e assim


adquirem o contágio psíquico, o mais comum na forma de absorção de larvas mentais,
que serão intensamente inoculadas a deposito nos órgãos sensíveis do organismo
perispiritual, redundando em agravo de doenças nervosas, e prorrompendo a futuras
lesões fisiológicas nas áreas sensíveis do soma, em respeito aos débitos adquiridos das
reencarnações e que virão à tona...

Algumas dessas doenças nervosas passam pela análise como um trauma de infância
recalcado no Inconsciente, mas em verdade estão no presente a causa, nas ações
promíscuas em desdobramento espiritual que o ser humano vai visitar os prostíbulos
nestas Colônias de Purgação, e retorna ao corpo físico para o impregnar com bacilos
psíquicos...

Antevendo-me uma pergunta, Jerônimo exclamou:

-- O remédio a esses males da alma, é combater as próprias imperfeições, lutar contra


tendências e pensamentos em vícios, e realizar o Evangelho no Lar, o Evangelho
Terapia preventiva, principalmente antes de ir dormir...

O amigo precisou silenciar.

Um sinal sonoro era entoado.

O clarim matinal avisava, segundo confirmava Jerônimo, que os grupos de resgate


chegavam com inúmeros enfermos recolhidos em macas alvas.

Dentre estes grupos socorristas, Jerônimo localizou seu amigo particular, o Espírito
Geovane, com quem teríamos uma interessante palestra com respeito ao intenso
movimento de purgação emocional naquela Colônia de Purgação.

II- PARTE: EM ATIVIDADE NA MEDCINA DA ALMA

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O VAMPIRO MÁGICO

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-- Deparei-me, hoje cedo, com uma entidade que vagava enlouquecida... – Contava-
nos Geovane, bravo cooperador nas linhas de frente do resgate.

Diante nosso grupo de observadores em torno de sua pessoa, Geovane dava o


prosseguimento do relato:

-- Era uma mulher... Bem... Mais parecia uma imagem fantasmagórica. Ela assustava
de tal forma, que mesmo os típicos Monstros desta colônia de purgação não se
aproximavam dela.

Fez-me recordar uma Leoa banida de seu Bando, mas faminta e com “sangue nos
olhos”.

Bom. Sem me ater a superficialidades em demasia, vamos ao que importa:

Havia uma solicitação provinda das Esferas mais Altas de nosso Plano que chegou ao
nosso Pavilhão para socorrer uma mulher desencarnada em condições análogas àquela.
Em verdade, um Espírito de Luz, se assim posso me fazer entender, e que há muito
havia se retirado para missões em torno das Colônias de Elevação próxima ao Planeta
Vênus, o que, diga-se de passagem, por sua aproximação a nossa Estrela Solar de
Quinta Grandeza, requer no mínimo, alguns milênios de labor ininterrupto pelo bem
comum. Segundo os nossos registros, o Espírito de pobre mulher vagava há cerca de
500 anos nas Regiões Purgativas, passando pelos Umbrais em torno da Nação Europeia,
Asiática, e chegando aos Umbrais em torno de nossa Pátria Brasileira, precisamente no
fim da Monarquia.

Por 500 anos consecutivos, ela permaneceu em estado de consciência adormecida,


porém, as suas projeções mentais eram de tal forma assustadoras, que mantinha afastado
dela quaisquer violadores morais.

O Interlocutor fez breve pausa. E, diante nossa expectativa, elucidou:

-- Muitas estratégias para resgatá-la foram improfícuas. Inúmeras vezes os


Intermediários entre as Trevas e a Luz tentaram desperta-la com recursos magnéticos
atuando no Córtex Cerebral, mas a densidade vibratória em torno do cérebro Peri
spiritual era como uma barreira de tijolos onde se arremessa um jarro d’água,
impossível de transpor.

Então, nossa Equipe começou a monitorá-la. Em verdade não compreendíamos a


razão daquele Vampiro Espiritual em ter sido atraído aos nossos sítios de atuação.

Na manhã de 14 de julho findo, nós a identificamos nas proximidades da grande


Colina de entrada; os Guardiões das Trevas atiram-na impropérios, que nada beliscava
seu psiquismo. Mas, algo fez com que ela se detivesse no limiar. Sentou-se. E
permaneceu estática por vinte e duas horas...

“Estaria meditando em algo?” — indagávamos na monitoração à distância.

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A sua permanência naquele local provocou uma reação na atmosfera psíquica, e
diante a materialização que ocorreria diante a forte ondulação de energias mentais,
começou a nevar no limiar desta colônia.

Levamos a efeito por através do canal de comunicação com os Planos mais Altos,
mas não tínhamos acesso ao Espírito de Luz que interveio por ela.

Ainda assim deixamos um recado, na esperança de que ele fosse informado da


estranha atividade mental daquela Entidade.

Diante a aglomeração de Espíritos sofredores em torno, acreditando que a “estranha


neve” era um sinal Divino de perdão coletivo, os mencionados Guardiães das Trevas
chamaram por seus Superiores Hierárquicos que por sua vez, nos cobraram uma atitude
drástica para a remoção do “Vampiro Mágico”, caso contrário eles organizariam seus
Exércitos, e partiriam para cima dela!

Como o responsável direto pela atividade socorrista, sentindo-me pressionado,


observando o temor de um colapso geral do Sistema, nada me restou senão imaginar
com todas as minhas forças a Entidade Luminosa, onde quer que Ele se encontre.

Após 40 minutos de intensa oração, e quando nós nos achávamos em uma verdadeira
multidão organizada para tentar proteger o Sistema Espiritual em choque, eis que um
fenômeno singular começa a acontecer...

A neve estancou e, em seguida começa a chover um líquido vermelho rubro intenso.


Confesso que mesmo nós outro, com algumas décadas de experiência de socorro no
Umbral tivera medo! Sim, senhores, a paisagem no raio de alguns quilômetros tornou-se
toda rubra, e nos sentimos transportados a outro planeta, uma planeta vermelho,
rochoso, e não era só isso... As entidades sofredoras em torno gritavam coisas do tipo:
“Afastem de nós esse Vampiro Mágico”; ou “Proteja-nos que Satã veio tomar o que é
seu!”; “Eis o Diabo em pessoa travestido de mulher!”

E, quando as Hordas das Trevas, um pequeno Exército armado com bastonetes de


energia, e cães agressivos partiram para cima da pobre entidade enlouquecida que
delirava e, nada poderíamos fazer para impedir o que haveria de ser um massacre de
forças que desconheceríamos a resultante daquele confronto, uma bola de fogo enorme
aparece logo abaixo da colina, a iluminar todo o ambiente, como se estivéssemos a
poucos quilômetros do Sol!

Tudo ficou claro. Era lindo e atemorizante. Transcendental e causador de


inenarráveis frissons!

Muitos de nós não conseguíamos abrir nossos olhos. Mas o pouco que pude
observar com aparelhos de bloqueio a intensa luz, o Exército das Trevas quedou ao
chão, todos pareciam desmaiados. Os cães pareciam em forma de morto. E, então
daquela circunferência luminosa e radiante, surgiu a figura de um homem que poucos de
nós que enxergávamos não conseguíamos descrever a fisionomia, nem as vestes. Ele

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aproximou-se do Vampiro, abraçou-o num gesto de intensa afabilidade e doçura, e
adormeceu-a lentamente em seus braços.

Em seguida aconteceu um impacto vibracional a exemplo de um poderoso relâmpago,


e a luz intensa desapareceu, e junto dela o Vampiro foi resgatado.

Após... O retorno da treva, do breu, e sentíamos um frio intenso, um vazio


indescritível...

Nas horas que se seguiram, no Pavilhão, assim que nossa Equipe se restabeleceu, eu
recebia uma notificação de que todo o fenômeno psíquico em alto grau de expansão de
energias fotossensíveis fora produzido com o auxílio da mencionada Colônia Espiritual
em torno de Vênus.

O efetuado resgate daquele Vampiro que por séculos sofreu tormentos inenarráveis,
fora um sucesso e, o toque divino em questão talvez tenha sido que a incrível resistência
à dor a credenciou em ser resgatada e encaminhada diretamente à mencionada colônia
de Elevação!

Disseram nossos superiores que foi belíssimo o seu despertar, e de uma emoção
imensa por parte de seu Benfeitor.

Geovane silenciou.

Todos nós, impressionados com o acontecimento, permanecemos em silêncio,


entregues a intenso processo de reflexão...

***

ANAGNÓRISE

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Ao núcleo daquele Posto havia um salão oval e belissimamente ornamentado de
flores, que segundo informara-me o Instrutor Jerônimo, haviam sido materializadas por
um Grupo de Artistas, ou melhor, de “pacientes com aptidões artísticas” internados em
regime aberto no Pavilhão Terapêutico conhecido por ala da “Harmonia”.

Estávamos na última noite de setembro, e integrávamos a plateia para apreciar a


apresentação cultural do Grupo mencionado por Jerônimo. Segundo o Instrutor amigo,
certamente estaríamos diante uma peça teatral, a retratar algo da atividade mental e
psicológica obscura, a realidade naquela colônia de purgação, e acredite, o último ato
seria a passagem a uma estância de luz.

-- A peça se repete anualmente, mudando apenas os personagens, mas a


configuração é a mesma—asseverava meu Instrutor--; É também uma forma de catarse
coletiva, uma limpeza ou purgação do Espírito.

Enquanto aguardávamos o início da apresentação em meio a uma plateia de


sessenta entidades espirituais aproximados, Jerônimo seguia a elucidar-me:

-- Muito embora a peripécia e a anagnórise, estar presente, ou seja, a aventura e as


mudanças radicalizadas, a dor em seu retrato fiel, não é, certamente deixada à mercê...

Recordemos algo da antiguidade clássica, quando Aristóteles ensina-nos que a


anagnórise é uma forma de passagem, uma transição da ignorância ao conhecimento...

-- E o que iremos conhecer? — Indaguei no que o nobre amigo sorriu e asseverou:

O Instrutor abaixou o tom de voz, e observou com critério medicinal:

-- Atores existem nos dois planos da alma...

São exímios para simular perfeitamente os padrões motores – na elasticidade do


aparelho cerebral em nosso plano--, onde a expressão das emoções é riquíssima, e
diferindo dos atores humanos que representam sentir a emoção, sem sentirem a emoção,
em nosso plano, mediante as criações mentais serem “formas vivas de energia”, nossos
atores acessam os territórios sutilíssimos do ENCÉFALO; Tu observarás Luís, como é
luminosa a área do HIPOTÁLAMO; a área PRÉ-FRONTAL e o SISTEMA LÍMBICO;
em tudo vertendo grandes forças motivacionais, mas, não aqueloutros relacionados às
emoções primárias humanas como a fome, a sede, o desejo sexual... E sim a emoção em
uma ordem superior, que faz com que vibremos em uma tonalidade psíquica muito
especial...

Jerônimo silenciou.

O espetáculo estava prestes a iniciar.

Recordando-me os conceitos na Medicina humana, eu recordava meus estudos das


áreas encefálicas ligadas ao comportamento emocional, o SISTEMA NERVOSO

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AUTÔNOMO; O SISTEMA LÍMBICO, e os fenômenos da emoção como a alegria, o
medo, o prazer, o desprazer, a tristeza...

O comportamento emocional era mesmo fascinante.

E, a maneira como o vaso humano equaliza a emoção, a expressar-se e envolver


padrões de atividade motora, visceral... Sobretudo é sim uma ferramenta anímica e
somática!

Quantas vezes me permiti expressar a emoção de forma equivocada?

Sim. Em minha última existência na crosta me permitiria teatralizar um drama


fatídico, onde muito recriminei a raiva, diferente de uma fera indomada como o Tigre,
mas singularmente indefeso a brandura de meus familiares, sempre tão pacientes com
minha bílis!

A alegria... Quantas vezes sorrimos na matéria por gracejo a coisas fúteis?

E, como não mencionar que choramos para colocar para fora toda nossa tristeza!

Profundo é a conexão psicoemocional. Abrange praticamente todo o processo


somático. No vaso biológico humano, é coordenado pelos respectivos: HIPOTÁLAMO-
HIPÓFISE e SISTEMA LÍMBICO.

Como não recordar de Beaumont (1833) e a intervenção no estômago de seu


paciente; a concomitância mente-corpo de Cannon (1920); o virtuosismo de Selye
(1946), ao investigar as síndromes e deixar-nos o legado na Psicofisiologia ao
entendimento do estresse; Maclean (1949) compreendendo a integração que existe entre
a Neurofisiologia e a Psicodinâmica...

Talvez, que muito pouco se desdobrara dos estudos do notável Almy, em nossa
década de 30, diante as alterações da MOTILIDADE RETOSIGNOIDEANA. Recordo-
me ainda de estudar suas observações em pacientes no Grupo com Diarreia, e auferir a
hipotonia de pressões sigmoides, cujos efeitos somáticos são adversos, mas o mais
patente é a Depressão.

Wolf também observa o estado de espírito-afetivo, e sua conexão no aparelho


digestivo. E, Bergman (1940), acompanhando as funções do órgão, as discinesias e
discrinias na base das doenças gástricas.

Sim. Meditava. Na Gleba humana a atenção para as questões psicossomáticas ainda


me parecem sobe o domínio quase exclusivo da Ciência. Todos – encarnados--, de
alguma forma, sofrem os sintomas psicossomáticos oriundos da emotividade
desregrada, da afetividade mal conduzida, do remorso, da culpa... E, não logram ir à
busca de que há uma ligação profunda na ordem dos sintomas psicológicos e
fisiológicos. Onde o “estalar da emoção” e a evolução do pensamento, integram um
mecanismo vivo da mente a ativar ou prostrar a saúde no binômio mente-corpo.

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Estava em um Posto de Socorro Espiritual agora. Estudando as reações
psicoemocionais de antigos artistas fora do vaso biológico. Esses artistas, como nós
outros no passado, cometemos equívocos em nossa profissão, distorcemos os fatos,
abusamos das facilidades, caímos em vícios, e agora sentíamos na “epiderme da alma” a
ramificação na simultaneidade das respostas regenerativas do veículo Peri spiritual, ou
PSICOSSOMA.

Sim. O fulcro da consciência é a base central, e a mente é o mapa da


PSICOFISIOLOGIA;

A expressão da criatividade reacende o gráfico ou à planilha de nossas atividades


fisiopsicossomáticas. Criamos e logo materializamos.

Assim deveria a Medicina humana tentar descrever os mais notáveis casos de


doenças psíquicas, como a criação da mente humana em processos contínuos de alegria
e tristeza, e na já auferida questão de que no vaso humano o papel do Sistema
Endócrino é especialíssimo como regulador das funções vegetativas; Na organização do
PSICOSSOMA, o Espírito ramifica a função de comando nas funções periféricas, e
como a influência se faz sentir no Sistema Nervoso, também é a erupção da Consciência
em busca de felicidade é a realidade que todos almejamos...

Desperto por meu Instrutor Amigo Jerônimo, eu interrompera minha anotações


íntimas...

A peça teatral começava...

***

GENÉTICA DA ALMA

69
Pela manhã, Demétrio organizou sua Equipe, e saímos à procura do Espírito de seu
pai que segundo informações prévias, haveria de estar perambulando por aqueles sítios
obscuros ao longo da Colônia de Purgação.

Todos nós estávamos em grande expectação, mas, sem dúvida era Demétrio que nos
aparentava um pouco de ansiedade.

Muito justo, afinal, havia quase meio século que ele não reencontrava com seu pai, e
acima de tudo, havia ali um delicado processo de perdão que precisava ocorrer, afim de
que a vida de ambos seguisse.

De retorno aos campos obscuros, eu começava a sentir uma falta prematura do


ambiente seguro do Posto de Saúde1. Entretanto, meu Espírito de investigação parecia
aguçado.

Que formas estranhas eram aquelas que observávamos ao longo.

Alguns Espíritos dementados revelavam peculiaridades no contorno da forma


humana.

Até onde tenho condição em avaliar, as criações mentais infelizes parecem agir na
organização Peri spiritual. Algumas daquelas Entidades sofredoras tinham o organismo
sutil aptos a se alimentar do barro escuro!

Que condições desiguais, meditava, mas jamais injustas, uma vez que tudo na Vida é
a Lei do Retorno.

Por certo que ao reencarnarem, tais entidades levarão consigo as variações na


organização que aprisionam nas moléculas fisiopsicossomáticas, e então o código
genético não será uma herança dos pais apenas, e sim uma reunião de fatores adversos,
onde impera, seguramente, o estado de Consciência.

É muito impreciso de minha parte tentar chegar a um parecer final da condição


orgânica futura daquelas entidades, e principalmente, se elas estariam aptas a ser
devolvidas à reencarnação na Terra, ou se serão banidos a mundos inferiores. Mas, não
há a menor dúvida de que a forma sui generis em que se alimentam, mecanizam seus
pensamentos de maneira primitiva, e estão expostos a um meio espiritual tão adverso,
que irá criar alterações na espécie, sobretudo na aparelhagem cerebral, na função
digestiva e também na reprodutora, ao reencarnarem.

Seria permitido que se reproduzissem?

E aquelas protuberâncias na face? Não estaríamos diante a gênese da “bestialidade”


na delicadeza da fisionomia humana?

Muitas questões ardiam em minha alma; aquelas monstruosidades não deveriam de


serem separadas da espécie humana para que se evitasse uma limítrofe geral?

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Percebendo-me as perigosas perquirições íntimas, Jerônimo como uma sentinela ao
meu lado, salientou:

-- Com respeito às alterações que percebemos Luís, torna-se possível aquiescer que
essas entidades ao reencarnar levarão consigo tais registros latentes e, criarão alterações
genéticas passiveis de perturbar o equilíbrio da forma humana.

Mas... Tais alterações não farão repercutir em um nível pandêmico, não se preocupe,
mas representam casos isolados, onde, por exemplo, a exposição a determinados rigores
climáticos, tais entidades reencarnadas apresentarão disposições a inflamações
generalizadas, suscetibilidade ao ataque de vírus, e sensibilidade ou intolerância a
determinado tipos de alimentos.

Inconcebível na linguagem humana; estão descritos em nosso plano de ação, certos


bloqueios mento-magnéticos que a alma humana carrega consigo ao reencarnar, e que
atua como protetor da espécie.

Há um respeito das Entidades Angélicas que dirigem as condições de vida no orbe


terrestre sob o insuflo de amor do Cristo, que observa minuciosamente tudo o que diga
respeito a uma disseminação através do sistema reprodutor humano, e da bagagem
perispiritica das almas afetadas pelos vícios e crimes hediondos.

Torna-se, em verdade, possível a nós outros concebermos que a extrema


sensibilidade, bem como a robustez avantajada, são polarizações que o Espírito carrega
de si mesmo ao reencarnar. Não é propriamente o cruzamento de determinados
indivíduos em sua ascendência racial que irá produzir filhos fortes e saudáveis.
Sobretudo, é uma questão de ordem mento-psíquica, que todos herdamos de nós
mesmos, como se levássemos as informações, os registros de nosso ingresso mental em
um Habitat Espiritual.

Jerônimo silenciou. E, mesmo diante a paisagem sombria em torno, eu estava


embevecido com suas elucidações.

Teimoso, ainda indaguei a meu Instrutor:

-- E não seria o caso de averiguarmos que a carga mento-magnética também receba


muito do ato da reprodução sexual, onde indivíduos desvirtuados psiquicamente, e sobe
efeitos de substancia alucinógenos, como as drogas ilícitas, sejam impactantes no
momento da fecundação, distorcendo o comando mental da entidade reencarnante de
menor evolução?

Jerônimo, sem perder o foco de nossa expedição, observou:

-- Seria a sua alusão, uma espécie de enxerto psíquico, e que não está descartado de
ocorrer...

71
Não é raro que tal fenômeno ocorra, e que de forma induzida pelos atos obsessivos
em derredor, as condições da reprodução serão uniformes, pelo olhar atento dos
Geneticistas Espirituais.

Ainda aqui, a natureza do organismo Peri spiritual será o registro dominante. E


oportunizados as matrizes genéticas apenas. A atividade mento-magnética inflama a
ação reprodutiva em sua gênese, para que a vontade de viver predomine!

Neste por menor, temos em vista que os maus hábitos dos pais poderão traumatizar o
feto logo após o início da vida uterina, e que esses registros poderão sim permanecer no
profundo do Inconsciente.

Entrementes, inúmeras Leis biológicas regularizarão o desenvolvimento germinal, e


em qualquer período da vida o ser absorverá o que há de bom e de mal do meio, para
digeri-los segundo a sua elevação psíquica, e devolver o mal com o bem é a
predominância das almas que acenderam a luz radiante de encontro ao pensamento
sublime do Cristo.

-- Mas e a grave questão da doença manifesta, como herança dos registros Peri
spirituais? — insisti.

Jerônimo, muito paciente, replicou somente a minha particular comunicação mental:

-- A menção milenar do Cristo, quando nos advertia que a necessidade de Médico e


aos doentes e não aos sãos, guarda, também aqui, uma amplitude de valores morais...

Como o caso que nos chama particular atenção de nossa visitação nestas regiões
purgativas, é de se admirar que milhares de seres humanos na gleba terrena necessitam
recorrer ao apoio da farmacologia, dos ansiolíticos, psicotrópicos, antidepressivos,
comumente indispensáveis para o controle da energia mental em abalo pelo choque das
impressões na consciência profunda. Esmorecer, sentir-se estranho a si mesmo; o
Transtorno Bipolar, muitos são resquícios de nossas repetidas passagens por paragens
umbralinas, e conforme salientamos, algo destes sítios que chamaremos de substrato
psíquico inferior permanece em registro no veículo do psicossoma; desta forma, ao
contato com as dificuldades, com o fracasso, a perda, sem deixar de mencionar o
trauma, a dor afetiva, a fragilidade orgânica, a mente revive de forma inconsciente os
painéis de sofrimento que por aqui observamos, e traz para si parte deste Tempo
Espiritual, para então ir de encontro à noção de que passado e presente são tempos
inclusos na essência da alma, e o acesso às sensações pretéritas são revividas quase que
instantaneamente.

O indivíduo que experimentou o Umbral na erraticidade de forma comprometedora e


traumática poderá trazer no âmago penosas impressões ao reencarnar, e assim ocorrer a
só matização de doenças. Isso ocorre com frequência quando tudo é muito recente...

São necessários alguns séculos de “viver continuamente o bem” para que se apaguem
as impressões profundas de dor, sofrimento e treva na alma!

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-- Seria uma regra: “Esteve no Umbral por muito tempo, o vivenciará no âmago
indefinidamente!” — aludi.

Meu Interlocutor corrigiu com critério:

-- Somente o bem anula os efeitos do mal. Desta forma, o indivíduo na Terra terá de
trabalhar ativamente no bem comum afim de que venha a exterminar os bacilos mentais
que traz no vaso Peri spiritual...

À medida que o bem é uma corrente pura de energias no fulcro mental, então os
germens de perversão psíquica adquiridos nestes sítios obscuros serão paulatinamente
diluídos.

Não é uma regra o que mencionaste. Mas, é uma realidade.

Há “pessoas e pessoas” que sofrem na gleba humana, Luís...

Muitos por lá estagiam dores e dificuldades sem serem presos na teia da


psicopatologia. Sofrem sem depreciar o humor, nem a queda na Depressão, tampouco o
mergulho temporário na demência...

Entrementes, esses de quem agora me refiro são Almas que permaneceram por mais
tempo em atividade benéfica no plano astral, e desenvolveram resistência maior, ou
imunidade psíquica ante os gérmens psíquicos da perversão...

-- Mas... As dores na alma não tem cura na existência humana, somente na vida
espiritual? — exclamei.

-- Você mesmo pode responder a si esta questão. Não te deixes influenciar pelas
energias sobrecarregadas que por hora absorvemos e não sejamos extremistas, Luís,
tampouco pessimistas ou radicalistas. Acaso não é, por exemplo, o coração de mãe um
manifesto de grandeza psíquica quando voltado a sacrifícios pessoais por seus filhos?
E... Quantos Missionários que iniciam na dor um resgate com sua mediunidade de
prova; persistem no amor-doação; modificam-se, iluminam-se através da renúncia e do
sofrimento, e “algo bom” surte da personalidade, para crescerem à diretiva da
imortalidade da vida!

Acaso não somos nós outros exemplos vivos daqueles que muito erraram no passado
e hoje se esforçam pelo bem comum?

Jerônimo estava corretíssimo. Talvez que a atmosfera carregada do ambiente em


que respirávamos a longos haustos, modificara-me sensivelmente a forma de visualizar
as coisas. Deixava-me influenciar por uma espécie de mensagens subliminares
negativas que possivelmente eram emitidas pelos Gênios das Trevas para o controle e
domínio da psique.

Meu Instrutor lançou-me um olhar de condescendência. Confirmando-me as íntimas


suposições. Ainda assim, persistia no assunto:

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-- Os traumas invisíveis, muito bem observadas no início da Psicanálise de Freud,
fruto da Histeria, tanto em mulheres como em homens, não haverá também uma causa
espiritual?

Jerônimo foi suscito ao responder:

-- As lesões no cérebro, comumente, são resgates de existências passadas, por


decorrência do abuso nos vícios, e no crime premeditado...

Mas, há circunstâncias em que está lesão está ainda latente no organismo Peri
spiritual, e não migrou ao organismo somático, porém, a sensibilidade psíquica faz com
que o indivíduo acometido de Histeria, por exemplo, manifeste seu trauma do
inconsciente, ou então, ao nosso olhar espiritual, só matiza a dor da alma!

Muitos casos de paralisias de membros inferiores, sem uma causa definida de lesão
cerebral constatada, são de fundo emocional, sobretudo, uma latência da dor que o
indivíduo causou a si mesmo, ou causou a seu semelhante. O registro que permanece no
inconsciente é em largos casos uma ferida na alma, um remorso escondido, que vai
minando aos poucos as energias mentais, a exemplo do cancro na depredação celular.

Essas dores não recebendo o auto perdão, insuflam a carga mento-magnética da


culpa, e os traumas invisíveis refletem inúmeros casos de desordem na conduta humana,
ou abusos causados como também sofridos, mas necessariamente fixados no abuso
sexual, podendo ser abrangente ao abuso na alimentação; na avareza; na violência; na
animosidade com que trata os seus inferiores, e costumeiramente, o sexo desregrado,
promiscuo, ou a experiência traumatizada...

-- Que meios encontramos para auxiliar nossos irmãos encarnados que padeçam dos
vícios, qual a dipsomania, o tabagismo, que parecem ainda tão comuns e tão aceitos
pelos homens, que não vemos um término, um ponto final, ainda nesta geração?!

-- A superação nestes vícios, Luís, necessita do apoio de três etapas... A assistência


médica; a assistência psicológica; e a assistência espiritual.

Uma só dentre essas não resolve por completo o problema. É necessário um elo forte,
uma reunião das três, e ainda assim, as três unidas somente funcionam na libertação do
vício se o indivíduo suportar a dor da abstinência e for maior sua vontade em se
modificar.

Em meio àquela travessia, Demétrio solicitou-nos atenção.

Jerônimo e nós outro encerrávamos o diálogo telepático de chofre.

Então, vimos o Médico Espiritual se aproximar de uma vala lodacenta e resgatar uma
jovem mulher, cujas vestes pareciam um vestido de gala aos farrapos...

-- Nossa irmã nos oferece condições de uma intervenção—avisa Demétrio--, e veja,


ela pede-nos alguém para a escuta.

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Jerônimo apresentou-se para auxiliar. E sobe a aprovação de Demétrio, convidou-
me a prestar os primeiros socorros fluídicos. Logo após prestaríamos os primeiros
socorros psicológicos.

Com dificuldades, a moça apresentou-se pelo nome de Felícia, e diante sua


necessidade imperante da cura pela fala, após expelir líquido negro pelos orifícios
nasais, relatava com dificuldades:

-- Venho pedir-lhes, por amor ao Divino Cordeiro, que me concedam asilo...

-- Você está segura agora—acalmava Jerônimo--, mas se sente que é preciso falar,
nós a protegeremos dos seus algozes...

-- Sim... Sim... – balbuciava Felícia a demonstrar que o pranto já havia secado há


muito—Estou sofrendo abusos inenarráveis por meus dois ex-maridos também mortos,
nestes sítios obscuros faz muito tempo.

A moça começou a tossir, sua ansiedade era enorme. Então Jerônimo pediu que ela
silenciasse, que adentraria em sua sintonia mental, para que o diálogo fosse natural
daquele momento em diante.

As imagens psíquicas, ou a ideoplastia expelida da fronte de Felícia era agora uma


pequena tela cinematográfica aos meus olhos...

As imagens não mentiam o depoimento da moça. Era-nos possível visualizá-la


integralmente, sem a dor emocional e os farrapos com que se cobria...

Era uma jovem muito bela, filha de fazendeiros prósperos, e que foi prometida ao
casamento com um estudante de medicina. Tudo se passava no Rio de Janeiro, no início
da década de 30.

Felícia não estava disposta a estudos, ou mesmo sujar suas mãos com a terra úmida e
o esterco utilizado para a plantação na fazenda modelo de seus pais.

Era muito bem cuidada, como se fosse uma boneca de gesso.

Atravessava os dias a cuidar dos cabelos crespos, castanhos e volumosos... A banhar-


se com leite para aveludar a pele, e a experimentar vestidos que a costureira particular
confeccionava especialmente a ocasiões especiais.

Felícia casou-se com o Médico recém-graduado, no início de 1933. Depois ambos


mudaram para o Sul da França, e por lá viveram a ventura de uma união estável e cheia
de luxo até início de 1935, quando então em uma noite do outono Felícia cederia ao
galanteio de um poeta francês, que há muito espreitava o casal em tentativa de usurpar a
ventura de quem tudo tinha a mancheias.

Iniciou-se para aquele casal o grande tormento na relação conjugal. Patrick, o


francês, tramou a morte do esposo de Felícia, mas sem o seu consentimento. A moça
pensava em uma separação conjugal, em verdade era grata por todo amor recebido,
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pelos sonhos realizados, mas curioso que para uma mulher ainda jovem e que sempre
teve tudo, existisse um vazio existencial a ponto de se permitir envolver por uma
relação abusiva?!

Alguns meses em preparação, e Patrick contratando alguns capangas de aluguel,


encomendou o assassinato do Médico, e fez tudo parecer um caso de suicídio, ao
encontrarem o corpo nas águas do rio, com uma corrente atada no tórax.

Felícia não suportou a culpa, e duas semanas após, quando voltava de uma festa de
gala na companhia do Poeta assassino, ela abriu a porta do veículo em alta velocidade
em plena madrugada, colidindo a fronte em cheio em uma pedra à margem.

Ao abrir os olhos na vida espiritual, tinha diante de si o “fantasma do ex-esposo” que


olvidando todo o refinamento de sua condição espiritual, consumido de ódio, arrastou
Felícia a estes sítios obscuros, onde a manteve em cárcere por seis anos. Precisamente
quando Patrick retorna corroído pela cirrose hepática, e vinculado aos gênios das
sombras, iniciaram os dois rivais uma guerra pela “posse” da bela Felícia.

Mas o conflito entre os obsessores espirituais fora de tal forma intensa, que por quase
dez anos movimentou ódio e desavenças a ponto de incomodar os planos dos Gênios
das Trevas com relação à “ordem no consumo de vícios”.

Neste momento o ex-Médico e Patrick o poeta, estão metidos em um presídio da


colônia purgativa, e Felícia foi expulsa, ficando a mercê da própria sorte, aonde vem
padecendo sensações similares ao frio e a fome nos encarnados, e que nas condições em
que ela se encontra, tratar-se de atividade psíquica inferior, ou uma reminiscência.

Assim que encerrou a operação magnética, Jerônimo retirou a destra da fronte de


Felícia e está adormeceu repentinamente, no que foi entregue aos cuidados de um de
nossos companheiros na vigília, que a encaminharia imediatamente ao Posto de
Socorro. 1.

Confesso que guardava inúmeras dúvidas a serem sanadas, mas Jerônimo


solicitava-me silencio interior, pois era preciso poupar energias, uma vez que
atravessaríamos a noite em busca do genitor desencarnado de Demétrio, e quem sabe
quantos enfermos espirituais encontraríamos pelo caminho em condições análogas a de
Felícia, que era a postura da vítima dos próprios erros, mas psiquicamente controlada
por uma mente cruel e obsessora...

Caminhávamos em fila única, quando Demétrio, nosso guia em meio daquelas trevas
solicitou nossa completa atenção.

Apontando-nos com a mão erguida na altura da fronte, sinalizamos através do


Instrutor uma luzinha mui fraca, quase bruxuleante, que se aproximava vagarosamente...

As entidades sofredoras em derredor, também visualizavam aquela “vela”... No que


silenciaram quase ordenadamente os gemidos e gritos de dor na alma.

76
De repente, uma imagem se faria a mim de fato, inesquecível...

Era um velhinho montado no que me pareceu uma antiga bicicleta. A luzinha acesa
era uma pequenina lanterna no guidão. Ele vinha cambaleando e cantarolando algo
assim:

Eu sigo bem de mansinho...

Desloco-me sempre ao luar...

Trago conforto aos pais aflitos...

Que buscam por seus filhinhos!

Sou o mensageiro de paz!

Diante um gesto rápido de Jerônimo a Demétrio que estava visivelmente emocionado


por reconhecer a presença de seu pai, meu Instrutor solicitou ao Doutor da Alma que
nos concedesse alguns minutos, e que permanecesse em vigília e oração.

Meu Instrutor puxou pelo meu braço com moderada energia, e exclamou:

-- Siga-me, Luís, não há tempo a perder!

Nós outros e o Instrutor nos aproximamos ao velhinho, e Jerônimo se apresentou a


ele, empregando os seguintes termos:

-- Senhor Roberval, que bom encontra-lo por aqui!

O velhinho apresentou uma carantonha de desconfiado, e em seguida bradou:

-- Você me conhece, “moço”? Qual sua graça?

Então meu Instrutor diz seu nome e em seguida apresenta-se como um amigo de
Demétrio, detalhando por quase vinte minutos um verdadeiro “filme” da vida daquela
família, conforme o argumento que o próprio Demétrio havia nos ministrado dias atrás.

Roberval, ao recolher minucias de sua vida particular, derrapou o instrumento de


duas rodas com que sustentava o corpo frágil, franzino, sentou-se em uma pedra escura,
enterrou a face barbuda nas mãos espalmadas e começou a dizer:

-- Jovem Jerônimo... Em uma noite de lua cheia... Mesmo me encontrando


adoentado, eu deixei minha casa e fui procurar por meu filho na floresta, talvez pela
milésima vez!

Minha segunda esposa havia me abandonado. Meus filhos sumiram no mundo. E, eu


me alimentava dos restos nos pratos dos vizinhos ranzinzas que me chamavam de cão...

Mas naquela noite eu saí decidido que só retornava se encontrasse meu filho
Demétrio, a quem irrefletidamente eu legara ao abandono...

77
Estava tão escuro o matagal, e sem perceber, eu topava diante uma cobra rastejando
no chão. Ela me atacou na perna. Não tive condições de absorver com os lábios o
veneno, e depois senti uma tontura, um suor frio, e caí ao chão...

Lembro-me de adormecer e despertar em outra paisagem... Que estranho... Desde


que despertei é sempre noite. Julgava enlouquecer, pois, tantos gritos e gemidos de dor!

Então quando enfim consegui sustentar-me de pé... Eu comecei a caminhar e, curioso


jovem Jerônimo, eu via a face de meu filho Demétrio em todos os rostos, de todos
aqueles que choravam, em diversos grupos que se arrastam por essa lama espessa...

Comecei então a observar melhor as coisas por aqui, e me dedicar a todos que
utilizam a máscara de Demétrio à face.

Sentia-me constrangido ao me aproximar, mas as pessoas por aqui me tratam como o


paizinho deles. Eu converso com eles. Canto uma de minhas canções, e até aprendi a
fazer uma massa escura que abençoo em nome de meu filho morto, e dou a eles
comerem!

-- E essa bicicleta, como a conseguiu, senhor? — Indagava Jerônimo, a tentar ganhar


integral confiança.

Roberval abriu um sorriso. Reparei que não possuía parte da arcada dentária. E, logo
confidenciou:

-- Os “chefões” daqui me deram um emprego. Chamam-me de “palhaço”, de


animador de circo, e nas noites de Natal, quando por aqui há protestos e lamúrias de
ingratidão contra os céus, eles me vestem de palhaço, pintam meu nariz de vermelho, e
me mandam sair cantando afim de que os náufragos da alma não se percam de vez!

-- Desculpe... Mas o senhor então tem consciência de que somos Espíritos!

-- Sim... Sim... Jovem Jerônimo... E, estes pobres são todas as minhas crianças que
perdi na vida! Eu as amo do profundo de meu coração!

Roberval silenciou de pronto, e sentindo que alguém particular chorava bem


próximo, ele perguntou:

-- Quem chora bem próximo de nós, meu jovem?

Jerônimo, reconhecendo que se tratava não de um fenômeno auditivo vulgar, uma


vez que muitos eram as lágrimas e os gemidos naqueles sítios, mas uma reação
emocional de sintonia psíquica, esclareceu:

-- Senhor Roberval... Em verdade tem alguém junto a nossa caravana que busca há
muitas décadas pela tua presença.

-- Seria a jovem Capitolina, minha filha mais jovem?

78
-- Não senhor.

-- Então minha primeira esposa, Berenice?

-- Também não.

-- Oh, quem sabe meu meio irmão John?

-- Errou outra vez...

Foi então, que intervindo naquele diálogo, Demétrio chamou:

-- Meu pai... O senhor ainda gostaria de me resgatar da floresta?!

Vimos então o velhinho esfregar os olhos, e procurar no meio a treva pelo


semblante de seu filho há muito abandonado...

Mas, a demência era ainda marcante... E ele começa a ver inúmeras fácies de
Demétrio, muito jovem, por todos os lados. Nossa sensibilidade nos permitiu em
visualizar a forte ideoplastia...

-- Não... Meu pai... Concentre-se em teu filho apenas... Eu estou aqui... Encontre-
me... Resgate-me... Venha até mim! Eu o espero vir me buscar faz mais de cinquenta
anos!

O velhinho corria a todas as direções, abruptamente levava as mãos sobre os ombros


das almas caídas, mas quando tocava em alguma delas a ilusão, ou uma espécie de
miragem da persona evanescia e ele gritava:

-- Tu não és meu filho! És apenas um fantasma, algum dos chefões destes sítios me
pregam uma peça, tentam me fazer de palhaço outra vez! Eu o odeio! Tudo o que me
fez passar Demétrio, me fez sentir repulsa de mim mesmo! Tua doença secou-me até a
raiz... Deixou-me um morto-vivo muito antes de meu corpo perecer do veneno da cobra
maldita!

Eu o procuro sim, mas para abatê-lo com minhas próprias mãos! Talvez se eu
tivesse o abatido como o cão que és naquela noite... Eu não tivesse enlouquecido de
remorso!

Tu que eras um cão! Tu que me fez tornar-me um palhaço! Maldito... Maldito!

E, consumido pelas lágrimas, o velhinho caiu ao chão a debater-se, sendo


prontamente atendido por mim e por Jerônimo, pois aparentava sofrer uma convulsão...
Havia uma excitação da camada externa do cérebro, algo similar ao problema
neurológico clônico, que depois o levou a um estado de prostração profunda,
aparentando agora o autismo...

Demétrio então se aproximou. E aplicou passes longitudinais na fronte do pai. Em


seguida, reparando sua inconsciência, ele explicou-nos:

79
-- Infelizmente, apesar de toda dor sofrida, ainda não foi possível à transformação
positiva. Todo esse aparente altruísmo foi a sua persona. Sua sombra psicológica é
ainda muito forte e ele disfarça todo o mal da personalidade. O Joker (palhaço) destes
sítios obscuros, é um Espírito intimidado, fracassado, isolado da realidade; Roberval é
“o palhaço”, mas não como fator vivo de comédia, e sim uma farsa que ele estabelece
junto aos “chefões” destes sítios para manter o vampirismo, estimular o tráfego das
coisas ilícitas... Que melhor traduziria a escravatura dos vampiros espirituais em regime
de obsessão nos lares da crosta.

Meu pai é como uma raposa corrupta, ou a personificação do homem imoral. Ao


desencarnar, sua aparência frágil e carismática foi tão somente oportunizada pelos
Gênios do Mal para fazer o intercâmbio de energias viciadas...

Em verdade seu ódio por mim permanece, e infelizmente desta vez terei eu por
minha vez de abandoná-lo mais algum tempo nesta “floresta negra”, até que a dor o
tenha modificado verdadeiramente; quando se arrepender, provavelmente terá de ser
preparada uma reencarnação expiatória de emergência, uma vez que lhe será
incompatível viver em um ambiente livre do mal e farto de luz!

Seu chamado por mim, absorvido por minha vez nas ondas mentais mais elevadas,
foi tudo um embuste, uma vitimização para tentar prejudicar-me a evolução...

Façamos os primeiros socorros fluídicos, depois partimos...

Quando despertar ele entenderá que atravessou um novo pesadelo, e possivelmente


continuará ainda indefinidamente neste círculo de corrupções que lhe sustenta a alma
imoral, até que lhe seja preparado a reencarnação de emergência de que aludi, para
então a dor física venha corrigir a putrefação da consciência infeliz.

Eu estava estarrecido. E por minha vez admirava o equilíbrio de Demétrio para lidar
com a triste situação.

Recordei de quando vim para buscar meu pai em um destes vales escuros do Umbral
para que se efetuasse a sua reencarnação de emergência, e confesso, não tive o mesmo
suporte emocional para ter de deixa-lo.

Retornamos todos em respeitoso silêncio à dor na alma de nosso amigo.

Verdadeiramente a máscara do palhaço caiu...

E embora o tempo de espera nos peça maior dispêndio de paciência, e a renúncia


precisasse aumentar, entregávamos o futuro ao Deus de Amor; a dor moral é uma
prova que incluí ciência, psicologia aplicada e auto perdão... Materiais leves para a
própria imortalidade da vida!

***

80
LARVAS MENTAIS

Quando retornamos ao P.S.1, Demétrio, para minha surpresa, não demonstrava de


qualquer sinal de abatimento psicológico.

Endereçando particular convite a mim e a Jerônimo, o Doutor da Alma convidava-


nos a irmos prestar socorro a um Espírito que havíamos resgatado na volta de nossa
missão. Era um velhinho, aparentando 80 anos, e muito debilitado.

Ainda não sabíamos o seu nome; faríamos uma auscultação para tal fim.

Entrementes, Demétrio pediu-me a colaboração na assepsia do paciente, no que anuí


de bom grado. Após, enquanto uma das Enfermeiras aplicava-lhe passes, e curativos nas
lesões expostas, o Doutor da Alma elucidou-nos:

-- A grande absorção de bacilos psíquicos é a causa do estado atual, o que se lhe


assemelha muito a uma febre maligna.

Chamamos por “Febre no psicossoma”; são os casos onde os Espíritos sofredores


apresentam todos os sintomas febris de um encarnado, mas que a razão deste abalo é de
ordem nervosa e emocional.

Reparem que o coro cabeludo está com sinais de que foi mordido por cães...

-- Teria sido atacado pelos cães dos Guardiões das trevas? — Indaguei a tentar
correlacionar com tudo que havia experimentado até ali naquela colônia de purgação.

Demétrio lançou-me um olhar sério, e asseverou com cautela.

-- Em verdade estamos diante um Espírito em confronto com os Lupinos desta


colônia... Espíritos embrutecidos na maldade, que muito assemelham ao velho mito do
Lobisomem; se enquadraram como analogia apenas.

Diante minha surpresa, pois que até então julgava que o Lobisomem era apenas um
mito folclórico, solicitei detalhes, no que o novo amigo enlaçou-me com ares de
fraternidade e em seguida obtemperou:

-- O Inconsciente é a profundeza da alma; seu acesso é um mistério mesmo para nós


outros na atual condição evolutiva de existência espiritual.

Se nos antigos símbolos religiosos, os pequeninos anjinhos de quatro a seis anos, ao


desencarnarem estariam representados como os moradores do Limbo, “nem ao céu, nem
ao inferno”, as almas que desencarnam sobe a fúria da violência não poderiam
sintonizar senão com as Zonas Infernais do Umbral.

A mente espiritual enferma é cabível na absorção de uma quantidade enorme de


bacilos psíquicos; Jung salientava que o cérebro humano é o resultado do

81
desenvolvimento de uma longa cadeia de antepassados, e que o Inconsciente Coletivo é
o depósito dos registros do mundo e estão inseridos tanto no cérebro como no Sistema
Nervoso.

Nesta linha de pensamento, levando-se em conta que estão acumulados todo o


material milenar da história humana nos registros profundos da psique, quando um
Espírito aqui chegando se envereda totalmente ao mal, é natural que deixe aflorar os
horrores que a barbárie e a ignorância fizeram pesar na bagagem existencial de nossos
antepassados.

Os Lupinos, como os chamamos, cristalizaram no Perispírito toda a raiva, todo o ódio


que guardaram por séculos de dores atrozes no Inconsciente, e assim diante a
plasticidade de nosso corpo fluídico, sobe o imperativo de uma mente atormentada e
desejosa de assustar, de causar pânico e intimidação pelo medo, assumem a meta-
expressão do animal feroz e indômito, mas a causa não se detêm somente aí...

-- Se me foi possível compreender seus pensamentos... – Intervi respeitosamente,


uma vez que defronte a nós outros o paciente agora recebia atendimento de nossa
Enfermagem —A transformação, ou a metamorfose psíquica sofrida pelas almas
endurecidas, uma vez que absorveu uma quantidade superior ao suportável em larvas
mentais estas lhe vampirizam a região cerebral no períspirito, e poderia inclusive
transmitir uma mutação de um vírus psíquico por haverem migrado muita vez, dos
“monstros” destas regiões purgativas, ou mesmo do veículo fluídico rudimentar dos
cães raivosos...

O processo seria semelhante à contaminação com o a saliva dos animais pela Raiva,
causada pelo vírus Lyssavirus da família Rhabdoviridae. Vírus que acomete o Sistema
Nervoso Central do infectado, ocasionando uma encefalite, ou melhor, uma inflamação
e inchaço no cérebro...

Ao acompanharmos um paciente infectado pela Raiva na gleba humana, notaremos


que a evolução ocorre nas áreas mais próximas do Sistema Nervoso Central, como o
ombro, a face, o pescoço... O vírus se desloca pelo Sistema Nervoso Periférico até o
Sistema Nervoso Central. A replicação no Sistema Nervoso Periférico é lenta, onde
pode permanecer o vírus em incubação...

-- Grato pelo registro médico, senhor Luís—asseverava Demétrio com aprovação a


meus humildes apontamentos, e oportunizando a explanação, asseverou:

-- Este senhor que atendemos, permanecerá em uma sala hermeticamente isolada


deste Posto. Até que maiores observações de nossos especialistas possa comprovar a
incubação dos bacilos perniciosos; presumimos para daqui a duas horas...

Na matéria, se empregaria com urgência a vacina, mas nós outros contamos também
com soro fluídico especializados na imunização, e que atua tanto no mecanismo
cerebral (psiquismo), quanto nas células sutis do períspirito; Como terapia de
emergência, enviaremos este senhor a exposição à Luz, em uma Câmara de Fóton-

82
tratamento, por um período de alguns dias; afim de que se possa neutralizar a replicação
viral...

E franzindo as sobrancelhas, o Médico exclamou:

-- Mas... O que é de maior espanto, meus colegas, é o fato de que por tratar-se de um
vírus psíquico, a mente poderá recriá-lo nos processos “não nascidos”, a qualquer
momento, desde que reminiscências mais fortes ataquem de súbito a psique do
desencarnado...

-- Por Deus! —Exclamei— De que forma este velhinho vai volver ao convívio social
em nosso plano?!

-- Não vai! — respondeu Demétrio enfático—O único meio cabível para que ele
saísse do isolamento será precisamente a reencarnação de emergência, e, possivelmente,
apresentará o quadro de Microcefalia, ou então desenvolverá doenças neurológicas que
irão entravar o desenvolvimento cognitivo, e da memória, afim de que a organização
Peri spiritual se reorganize lentamente, e não de acesso novamente aos genes da
perversão...

Atrevendo a uma indiscrição, indaguei:

-- Que haveria de ter feito este Espírito quando homem, para merecer uma má-
sorte destas?!

Demétrio respondeu em tom verbal quase imperceptível:

-- Exploração da vida humana.

O assunto poderia render maiores aprendizados, mas não sem mergulharmos em


abismos mais profundos da existência daquele velhinho.

Fora dado por encerrado o atendimento, e também as preciosas elucidações.

Contávamos uma hora antes de o dia amanhecer, quando Jerônimo foi solicitado a
uma intervenção de emergência na superfície da crosta. O Instrutor amigo lançou-me o
convite, no que aceitei prontamente.

Através do recurso da volitação, nós outros deixamos aquela atmosfera densa e


obscura e penetrávamos na atmosfera respirada pelos homens nos primeiros raios
solares da manhã, o que me trouxe uma sensação de alívio e leveza indescritíveis.

Permanecemos, Jerônimo e nós outros por 15 minutos a beira-mar, inspirando a


longos haustos o plâncton do mar.

Refeito nossas forças, nos dirigimos até uma residência da Capital Fluminense, para o
atendimento de emergência no qual nosso Instrutor fora designado.

***

83
DIÁLOGO FRATERNO

Estávamos em um belo edifício, cujas instalações eram dedicadas à prática do


Espiritismo Cristão.

O horário da Sessão Mediúnica seria às 20 horas, mas segundo o compromisso de


Jerônimo, nós estaríamos em atividade desde as primeiras horas da manhã.

Os trabalhadores espirituais estavam em atividade. Aproximadamente 200


companheiros de nosso plano, trajando alvas vestes fluídicas, recebiam os enfermos
espirituais que também chegavam para tratamento, e permaneceriam para a seleção à
manifestação de psicofísica, logo às 20 horas, juntos aos Médiuns preparados para o
mister.

Quem nos recebeu fora o Dirigente Espiritual do Centro Espírita, a nobre entidade
Afonso. Um senhor de aparência muito forte, barba espessa e alva; olhos claros; ombros
largos como de Platão, e estatura mediana.

Abraços, cumprimentos e alegrias.

Em seguida, enquanto Afonso e Jerônimo estabeleciam um diálogo correspondente


ao labor da noite, tratei por minha vez em realizar uma breve observação em torno, afim
de que obtivesse algum conhecimento extra para a presente obra que tinha em mente
divulgar no próprio meio Espírita.

Dei alguns passos em meio ao amplo salão, e meus olhos bateram em direção a uma
jovem mulher (desencarnada) que permanecia a chamar por ajuda. Ela estava deitada
em confortável maca sustentada por matéria rígida de nosso plano, e estranhando talvez
por que os trabalhadores passavam por ela e não a atendiam, eu me aproximei
vagarosamente para não criar uma má-impressão, e assim que ela pousou seus dois
grandes olhos verdes a minha diretiva, eu a indaguei:

-- Também sou Médico, minha irmã. No que posso servi-la?

Após analisar-me com frieza, a jovem replicou:

-- Por que meus pais me trouxeram para este Hospício?!

-- Já esteve em um Hospício?—rebatia com gentileza—Posso assegurá-la que a


realidade em um Hospital é muito mais severa que está paz que flui das paredes do
recinto...

-- De modo algum!—bradou—És “outro” que tenta me persuadir a aceitar


mentiras e finge em ser bonzinho e educado!

Não me reterão aqui por nem mais um dia!

84
Compreendendo que a jovem não aceitava o fenômeno da morte, e julgando que
seus pais espirituais a trouxeram por alguma razão provincial a doutrinação, eu procurei
modificar o rumo de nossa palestra, interrogando com gentileza:

-- De onde a irmãzinha vem?

-- Daqui mesmo... Do Rio...

-- E qual a sua última lembrança antes de ser trazida a este recinto médico?

A jovem mordeu os lábios, revelando-me enfado por ter de repetir sua história à
outra pessoa, mas diante meu emudecido gesto de expectação, ela deu início ao seguinte
relato:

-- Na manhã de sexta-feira... Eu fui buscar no meu automóvel pela presença de


minha amiga Rute. “Gente boa” que vive em Copacabana!

Então eu tomei o trânsito das 11h30min; Agitado... Mas apesar de ter tirado a carta
de motorista há pouco mais de dois anos, eu dirijo bem... Adoro correr conforme
Edivaldo me ensinou em seu “carro preparado de rua”.

Abriu o sinal... E eu acelerei com veemência. Mas, num cruzamento entre as duas
Avenida surgiu um Motoboy também em alta velocidade, e fizemos a colisão!

Lembro-me de ele vir abruptamente bem no meu lado, e depois eu desmaiei... Não
sei ao certo, porque escureceu e quando abri meus olhos eu estava em uma área ampla,
escura e pessoas gritando: “Suicida!” “Teu lugar não é aqui!”

Diante aquelas palavras impactantes, a jovem começou a tossir e expelir substância


fluídica enegrecida...

Intentei em socorrê-la, mas prontamente ao nosso lado surgia uma Enfermeira de


nosso plano, que fez a assepsia, e aplicou-a passes longitudinais.

A jovem acalmou-se.

Ensaiei em deixa-la, mas para a minha surpresa ela me chamou de volta.

Rápida troca de olhares com a Enfermeira de plantão, e recebido à permissão devida


ainda em pendência, eu sentei-me ao lado da moça, e disse-lhe:

-- Se lhe faz bem... Sou todos ouvidos!

-- Sim, senhor...

E, retomava a dizer, se apresentando formalmente:

-- Meu nome é Carolina Medeiros...

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Bom... Eu seguia a não entender o que me atraiu, ou quem me conduziu naquele
ambiente inóspito. Curioso, que eu não sentia dor, mas tinha as marcas de pneu
queimado nas minhas roupas!

Para onde eu seguia, as “vozes provindas do escuro me perseguiam”: “Suicida, vá


embora, não perturbe a quem mereceu o inferno por descanso!”

-- Por que razão tu julgarias Carolina, que farias jus a condição de que lhe
acusaram? — Intervia.

-- Bom... Talvez que um único detalhe... Mas, não, não... Deixa para lá!

-- Por favor— insisti--, te peço que releve a minha curiosidade, mas endosso o
pedido a título de que outras pessoas possam um dia se beneficiar com a tua
experiência. Revele este detalhe, por obséquio...

Diante as lágrimas que encheram as órbitas daqueles vibrantes olhos verdes,


Caroline meneou a fronte para o lado esquerdo do corpo, e balbuciou:

-- Sim... Eu acelerei o veículo pela emoção!... Sim... Eu atravessei o Sinal Vermelho


para chamar a atenção!... Sim... Antes de sair de casa, fui até o refrigerador e julguei
que o calor de 40º me permitisse em tomar duas ou três “latinhas de bebida alcóolica”.

Um silêncio constrangedor se fez. E, pelo que me pareceu, a jovem naquele átimo de


consciência do erro cometido teve um raio de luz a atravessar sua mente, a tudo que
afligia em fazer sentido em seus pensamentos; Carolina enfim compreendeu que havia
desencarnado, que aquele local não era um Hospício, mas um Pronto Socorro de
Almas... E, sua condição de suicida inconsciente se devia aos abusos que sua
intolerância e juventude mal educadas... Ela não permitiu-se em cuidar de si mesmo...

Suas lágrimas eram abundantes.

Ao seu lado, eu fiz uma prece, e olvidando o pedido da Enfermeira tomei a liberdade
em aplica-la passes de reconforto...

Assim que Carolina adormeceu, duas Entidades luminosas apareceram ao meu lado.
Numa rápida transmissão de pensamentos compreendia que eram os pais desencarnados
da jovem. Sim, eles a vinham buscar... Levariam consigo aquele fardo leve de amor... E
deixaram-me uma simples mensagem:

Nossa filha jamais aceitou que seus pais desencarnaram em um acidente de


automóvel, e desde então passou a buscar a morte de forma inconsciente, sempre que
colocava suas mãos delicadas no volante de um automóvel...

Muitas foram às noites que evitamos que ela desencarnasse nas imprudências de
velocidade e disputas insanas nas madrugadas Fluminense...

86
Porém, como ela planejasse em secreto atirar-se com o veículo em plena ponte...
Para suicidar-se, nós recebemos a orientação de não intervir naquele acidente que era
a programação de desencarne também do motociclista...

Tudo fizemos por amor a Carolina, uma vez que muito embora igualmente temível e
que deve ser fortemente combatido na Terra, o suicídio inconsciente, no caso de
Carolina foi passível de uma pena mais branda que a do suicida consciente!

Senhor Luís... Por amor a nossa Carolina, faz com que essas informações ajudem
os jovens órfãos na crosta; que aceitem que a morte dos pais não é o fim para a vida
dos filhos; que os vícios, principalmente no “beberem socialmente” é uma das mais
graves atitudes e desrespeitos às leis soberanas de Deus!

Nós seguimos nossos filhos ainda do Além, os ministrando cuidados e amor que são
de tal forma intensos; é uma prova a orfandade que precisa ser aceita com resignação,
pois Deus jamais deixa um filho que separou-se prematuramente da prole em completo
abandono.

Tememos agora pela vida do namorado de Carolina, que mesmo três anos após o
acidente não consegue recuperar-se da Depressão.

Edivaldo introjetou na alma uma culpa muito grande, está agora na condição dos
“super-reativos”, e conectado mentalmente à entidades espirituas sofredoras e
obsessoras, alimenta um grande sentimento de inferioridade...

Esperávamos por resgatar Carolina, e trataremos de apressá-la na recuperação,


para que se Deus nos permitir, e o tempo nos colaborar, volvermos ao Rio de Janeiro,
e tentarmos evitar outra tragédia.

Edivaldo uniu-se a um grupo de “rachadores de rua”; jovens burgueses que investem


o patrimônio financeiro recebido de pais invigilantes para a preparação de veículos de
rua e, guiados por uma Orla de Gênios das Trevas, fazem das ruas da Capital
Fluminense uma improvisada pista de corridas na madrugada, regada a bebidas
alcóolicas e prostituição, colocando em risco dezenas de vidas, além de fomentarem a
baderna e a obsessão coletiva.

Edivaldo entregou-se ao domínio das Trevas, e colocou sua vida à mercê de


segundos e minutos seguidos de uma intensa emoção, muito perigo por ocasião da
explosão de adrenalina e a liberação do hormônio cortisol. Se não ocorrer um acidente
fatal, poderá vir a desencarnar de uma síncope fatal, e isso em pleno volante,
colocando pedestres e moradores de casas próximas na linha de risco de morte.

Agora, precisamos partir.

Nossa tarefa é longa, e contamos com o apoio dos trabalhadores espirituais deste
Posto de Amor...

Ore por nós, amigo.

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Uma vez mais, nossa gratidão. Muito gratos por tua intercessão, pois não fazes ideia
de quanto nós tentamos que alguém a despertasse, já faz mais de três anos do trauma
psíquico daquele acidente fatal...

Que Jesus nos abençoe.

Banhando em lágrimas, eu os abracei, e também os abençoei, enquanto carregavam


com muito amor a filha querida de suas almas.

Por minha vez, estava sumamente impressionado com essa realidade autodestrutiva
da juventude em nosso planeta.

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MENSAGEM MEDIÚNICA

No horário das 20 horas, o grupo mediúnico estava reunido no Centro Espírita.

Apontado por Afonso, Jerônimo identificou um casal que enfrentava difícil drama
pessoal. Era Roberto e Mariana, ambos eram médiuns que se doavam há uma década na
mediunidade com Jesus. E a terceira pessoa se chamava Raquel. Uma jovem bela e
solteira, que ingressara como médium de apoio na Sessão Mediúnica há pouco mais de
um ano, e por manifestar respeitoso apreço por Roberto, o médium, deixando-se
absorver pela vaidade, e realizando o que Sigmund Freud chamou por uma
Transferência, projetou seus sentimentos a jovem. Sentia-se correspondido, e
intencionava secretamente em realizar o divórcio com a dedicada Mariana que o
amparou desde os momentos mais tristes de sua vida, era o esteio de sua disciplina
moral, e o suporte para a sua mediunidade dependia da aliança de energias que Roberto
recebia dos Amigos espirituais que eram, em verdade, a família espiritual de Mariana.

Em resumo: Se Roberto olvidasse seu compromisso, não renunciasse, e se permitisse


viver uma nova paixão, ou seja, abandonasse “Jesus” para lançar-se no mundo, estaria
relegado à própria sorte, e colocaria em risco toda uma delicada e extensa programação
de servir na Doutrina Espírita, onde pela fila de Espíritos sofredores que recolhíamos à
espera para se comunicar através da aparelhagem do Médium, seus desafetos do
passado, não conseguíamos imaginar o seu estado de saúde mental acaso cedesse aos
caprichos do corpo físico.

Afonso era só preocupação.

Já havia sondado psiquicamente Roberto por repetidas vezes, onde dizia a Jerônimo:

-- Entende agora o motivo de minha solicitação de ajuda da colônia?

Nosso Grupo Mediúnico não suportará um escândalo dessa proporção.

Roberto, sem perceber, há semanas é assediado por Entidades infelizes que o


inspiram a somente ver defeitos na esposa, seja no lar, ou na sociedade...

A troca de olhares com a jovem e bela Raquel atinge a permuta de fluidos... Nosso
irmão fez, agora pouco, a displicência de imaginar uma possível cena romântica junto à
moça, e planejou secretamente em dar uma desculpa de trabalho à esposa, e chamar
Raquel para um passeio à beira-mar, logo que se encerrasse a Sessão Mediúnica!

Já tentamos fazer o possível para remover essa ideia fixa. Mas, como dissemos, o
invigilante médium fez a transferência de sentimentos, que teve início quando Raquel o
elogio em público por duas vezes em uma noite, enquanto a esposa, missionária do
Cristo, sempre se atem para não proferir qualquer lisonja aos feitos do esposo, primeiro
por respeito a Doutrina Consoladora, segundo por seu alto nível de consciência entender
que todo o sucesso do marido é fruto do amparo dos Bons Espíritos.

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Em apontando Mariana que emitia uma luz muito suave e delicada visível aos olhos
de nosso plano, onde por certo se mantinha em silenciosa prece, Afonso exclamou:

--A pobrezinha tem reparado a indiferença do marido nas últimas semanas, mas,
sempre resignada, sustenta sua cruz sem qualquer queixume. Talvez que ela intentasse
em brigar pelo seu respeito e afeto, mas sua devoção ao Divino Mestre, e amor à
Humanidade vem sempre em primeiro lugar, mesmo diante sua felicidade pessoal!

-- A situação pede uma medida de emergência—assinalava Jerônimo--. Iniciem a


Sessão, pois que estamos na marca do horário. Vou me ausentar por alguns minutos, e
retornarei com uma possível solução.

E, dirigindo-se a mim particularmente, Jerônimo explicou:

--Luís, peço-lhe que mantenha o amparo magnético sobre Mariana, prestando-a


suporte mental emotivo... Se é por através de Mariana que todo o manancial de luz
chega a está casa, é natural que seja através dela que seja colocado um ponto final nesta
situação!

Acatei as ordens, sustentando por minha vez a curiosidade que não cabia no
momento.

Jerônimo... Para se afastar naquele exato momento, por certo sabia o que estava
fazendo.

A Sessão Mediúnica teve início.

Sob a direção espiritual de Afonso, os trabalhadores espirituais selecionaram três


entidades sofredoras somente para aquela noite. A única médium disponível por
condições psíquicas favoráveis e reta disciplina orgânica era justamente Mariana...

Roberto teve de ser isolado psiquicamente do grupo. Nossos Orientadores espirituais


acoplaram na sua fronte uma espécie de capacete de isolamento mental, tecido da
matéria fluídica de nosso plano; A medida foi eficaz, e assim ele não atingiu mais em
cheio a própria Mariana, que era o veículo de amor transcendente.

O primeiro Espírito sofredor reclamava de sentir dores fortes no abdômen. A nobre


senhora que cumpria a função de Doutrinadora inspirada diretamente por Afonso,
esclarecia a entidade sofredora que aquelas impressões eram apenas um efeito psíquico
secundário; pediu em seguida que a acompanhasse em uma prece de restabelecimento
emocional, e que a dor iria ser diluída à medida que a mente se libertasse dos fortes
vínculos materiais.

Acompanhávamos o desenrolar da doutrinação com justa admiração, tanto pelos


esforços de Mariana, da nobre senhora Doutrinadora (chamada Cleonice), e dos
Trabalhadores Espirituais. Mas, era triste perceber a constante troca de olhares entre
Roberto e Raquel, e acaso não fosse o capacete de isolamento psíquico acoplado pelos
nossos magnetizadores na fronte daquele homem irrequieto por sensações grosseiras, e

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o envolvimento pernicioso, ou à vontade-desejo-sexual imperante seria o fio condutor às
trevas, que espreitavam, dezenas de entidades obsessoras, ao lado de fora da Instituição
Espírita.

Estávamos muito próximo das 22 horas, quando Jerônimo retornava ao recinto,


precisamente no momento em que abrira espaço para uma mensagem de consolação por
parte dos Mentores Espirituais.

Para minha surpresa, Jerônimo estava acompanhado de um nobre Espírito de Luz,


que facilmente o reconhecia por tratar-se de um Emissário de amor que integra a Equipe
Espiritual do Doutor Bezerra de Menezes...

Um dos participantes encarnados na reunião é intuído a dar “play” no aparelho de


música, e então o ambiente enchia-se de luz por através da divinal melodia de Schubert
– Ave Maria.

O Espírito de ares joviais cumprimentou-nos muito celeremente, e após, recebida à


permissão de Afonso, aproximou-se de Mariana, tocou-lhe a fronte com imensa ternura
paternal, e estreitaram-se os laços psíquicos, para recebermos todos à seguinte
comunicação mediúnica:

-- Meus irmãos espíritas... Venho vos falar, nesta noite, em nome do Venerando
Espírito de Luz que nos abraça com seu amor a Jesus e a Pátria Brasileira... O Médico
dos Pobres, Adolfo Bezerra de Menezes...

Deixamos, agora, a suave melodia adentrar pelos sentidos profundos da alma, e


agradeçamos ao Mestre Jesus pela oportunidade em servir nas lides abençoadas do
Espiritismo Cristão.

Somos, todos aqui presentes, conforme nos apregoa o Evangelho redivivo do Amor,
“os Trabalhadores da última hora”.

Como Espíritas, somos sabedores da gravidade que existe em cuidar de nossos


pensamentos, e, como nos identificamos, nos misturamos fluidicamente, nos entretemos
sentimentalmente, uns com os outros, por através da Energia do Pensamento.

Pensamentos, podem criar, poderão dar consolação, mas se a usina mental não está
sendo muito bem preservada, a sobrecarga vai destruir algo dos aparelhos eletrônicos
de nossa mediunidade...

Meus irmãos... Quem mais carece de amor senão quem sofre?

Qual o pássaro que não sabe dar valor ao próprio ninho, principalmente nos dias
rigorosos do Inverno, e nos perigos à espreita pelos predadores na floresta?

E que dizer se este pássaro ao invés de alimentar sua espécie, no aconchego de seu
ninho, respeitando os valores imorredouros da natureza, quisesse abandoná-lo, e

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seguir sozinho a busca de aventuras que colocariam não somente sua existência em
risco, mas o próprio ninho poderia perder-se?!

Espíritas... Cuidai da palha no mundo que tece vossos ninhos domésticos, muitos
deles tecidos desde à Espiritualidade com a sustância divina do amor!

Se o mundo vos convidar a experiências menos dignas, olvidai o convite em desertar


a batalha, uma vez que há séculos, os Espíritos no Mal tem espreitado os caminhos dos
médiuns, na tentativa de desvirtua-los para a senda criminosa dos vícios carnais, e
assim tentar obstar a obra de Jesus por entre a Humanidade!

Recordemos que a dor pode chegar sem aviso prévio, quando o timoneiro eu sabia do
caminho seguro busca por livre-arbítrio o caminho das facilidades e vícios...

Não permitam-se às paixões; Dê ao amor o seu devido espaço na alma.

“Quanto mais interiorizamos o amor, mais o amor fará por nós!”

Muita paz... A nossa Casa de Oração!

O Espírito luminoso como um raio de sol ao entardecer “apagou a palavra antes


acesa”. Mariana, a medianeira, estava coberta em lágrimas, uma vez que não era
inconsciente a sua passividade.

Então, quando todos nós imaginávamos que havia encerrado a comunicação, o


Espírito de Luz, volve a manifestar-se por através de Mariana, e no uso do sagrado
instrumento de comunicação da vida, dirigiu-se especialmente a Roberto, para
admoestar com energia e brandura incalculáveis:

-- Irmãozinho... Receba nosso aceno de amor...

-- Que assim seja, nobre Mentor... – respondia Roberto, vertendo abundante


sudorese.

-- Escuta-me, querido, o que resumirei em dois pontos de esclarecimento:

Não caberia a mim, realizar o que o mundo congratulou por uma Regressão. O
passado, muita vez precisa permanecer no passado, e somente somos dignos em
conhecê-lo ou por uma força maior ao nosso bem, ou para que se evite um grande mal.

Há dois séculos, que tua alma se esforça por ser digna em receber o dom da
mediunidade... Mas... Sua sina tem sido a impaciência no coração...

Sabemos das noções do Anima e Animus proferida pelo sábio Jung, e de Kardec
entender a respeito da sabedoria dos Bons Espíritos na Codificação de nossa Doutrina
que o Espírito não tem sexo.

Mariana ao teu lado, sempre esteve como vocação missionária no amor...

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Já assumira, por meio da reencarnação, a função sublime de mãe que não soubestes
seguir os conselhos nobres e justos; foi noutra reencarnação a irmã querida e amiga
que te guiou no sacerdócio católico, mas abandonaste a redentora batina, e fostes em
busca de uma paixão; e agora, como a última chamada para tua redenção, recebeste-a
por esposa para integrá-lo na retidão das forças genésicas, e apreender a sublimar no
tempo devido a função sexual, convertendo-a em criatividade, caridade e luz através da
mediunidade...

Todas essas vezes ela intercedeu a teu favor, Amando-te como o ser mais precioso da
Terra, atrás somente de Jesus em seu coração, e por todas essas vezes, tu a
abandonaste...

Primeiro, como o filho que ganhou o mundo e jamais quis o retorno; segundo como
o irmão que inveja e faz se afastem membros da família... E, desta vez, o que o meu
irmãozinho pretende realizar na obra de si mesmo?

Muitos médiuns no Espiritismo, fazem o despropósito de confundir amparo espiritual


com facilidades humanas. Caem nos prazeres e vícios de forma secreta, olvidando que
nada há de secreto para os Espíritos, com relação ao proceder dos homens...

Se, o amor não é para ser confundido com a paixão, como tu esperas o abandono do
amor que é Divino, para lançar-te à paixão enraizada no primitivismo humano?

Não sãos os desejos que movem o Ser, eles apenas o impulsiona; Agora o amor,
quando puro e verdadeiro, é celeste guia!

O desejo de ser feliz no matrimônio, somente será verdadeiro, a consumar-se, se há


amor e cumplicidade nas tarefas redentoras do lar.

Se o homem pensar ainda neste novo século, que a Psicologia da satisfação do Ego,
de todas as necessidades carnais devem ser atendidas, que não se reprime um desejo
sexual, que não se veta o curso da sexualidade a “toda forma de amar”, então como
esperar evoluir, e ascender o cume das luzes celestes, quando for preciso abandonar
tudo o que represente o que Freud chamou de Id, para caminhar ao encontro da
plenitude do Si mesmo, o Self?!

Atenda a nobre função do Superego na estrutura da Personalidade que é a do censor


psíquico. Busca pela função nobre na Consciência Profunda, espelhando-te nos Bons
Anjos de Deus, que alcançaram a Individuação, que não são tomados pela sombra,
nem reféns da persona, muito menos fantoches das energias espirituais do meio!

É hora de pesar todos os nossos atos no amor! Educar-se para vetar os desejos
egoísticos... Cobrir a nossa face não sempre com a persona da vergonha e sim com o
lírio de esperança e luz!

Até quando os homens esperam serem governados pelo que trazem reencarnações
sucessivas de abusos no profundo do Inconsciente; pelos seus arquivos milenares de

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obscurantismo, sensações, medos, traumas, e desejos, venhamos em busca do Cristo,
para suavizar o fardo e erguer-nos ao horizonte azulino do amor, vertendo rios de
caridade misturadas aos nossos testemunhos e lágrimas...

Nosso destino espiritual, Roberto e Mariana: é “O Mar Alto da Consciência”!

O Espírito de Luz silenciou.

Todos nós, encarnados e desencarnados, estávamos banhados em suave pranto de


emoção...

Naquele momento... Diante nossos olhares de ternura... Vimos Roberto erguer-se do


acento, enxugar o pranto de sua face morena e grossa, e aproximar-se lentamente de
Mariana...

O Médium abraçou a esposa com uma indescritível ternura, e balbuciou com seus
lábios, mas que era verdadeira sonoridade para os nossos Espíritos:

“--Mariana... Eu a amo... Prometo-te cuidar por toda a nossa vida... Por favor recebe
o meu pedido de perdão”.

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PSICOTERAPIA DA ALMA. A CURA PELO AMOR

Retornávamos Jerônimo e nós outros a colônia “O Mar Alto da Consciência” nos


primeiros raios solares da manhã...

Assim que adentramos pelos grandes portões de acesso, nós nos dirigimos à
suntuosa praça de fronte a Governadoria, onde centenas de Crianças entoavam um
cântico gracioso... Fez-me plasmar na imaginação a “Morada dos Anjos”.

Um vento suave sussurrava a medicação sublime da Natureza para mover no imo da


alma, no recôndito do ser, a fortaleza anímica de que sentimos a Presença de Deus Vivo,
Amoroso, Onipresente e Pai!

Nosso Senhor Jesus curou muitos sofredores pela imposição das mãos, onde
abundante jorro de energia vital era dispendida; entrementes, o que eu percebia naquela
colônia espiritual era o fato de que muitos seguiam o exemplo do Mestre, na cura pelo
Amor!

O exercício da Psicoterapia naquela colônia espiritual de transição seguia por uma


forma de Psicologia Profunda ou a Psicologia dos Espíritos.

Na Consciência vibrava estar consciente da imortalidade do Espírito e isso é algo


maravilhoso!

A razão de sentir para o entendimento da Lei de Causa e Efeito. A Memória “quase”


integral de nossas reencarnações...

Que farol a iluminar a vida!

Não havia espaço a teorias que supusesse o que se sente, nem interpretações
imprecisas dos sonhos, dos atos falhos, do insight...

Não se sofria pelo desejo mal atendido, pela sexualidade reprimida, pelo luto...
Fantasias não existiam naquela colônia, talvez que ainda exista nas Regiões Inferiores
do Espírito, assim como na Terra muitos homens não suportam a realidade e se apegam
ora a vícios, ora a fantasias...

Tudo é muito nítido, claro, e a compreensão vai muito além do Logos Humano...

Jerônimo, sentindo-me refletir, exclamou:

-- Temos nesta área ampla, também pertencente às atividades do Instituto


Flammarion, um ambiente terapêutico muito simples. Vamos até lá, Luís, há um amigo
que nos poderá atender...

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Partimos, e logo que meus olhos contemplavam a diretiva de um pomar extenso,
roseiral bem cuidado... E, havia um grupo de entidades que formavam um círculo em
torno do que me pareceu um legítimo Profeta.

Jerônimo sorriu de minha ingênua concepção, e informou:

-- Trata-se de Camilo... Um Terapeuta Espiritual. Os demais em círculo são seus


aprendizes...

E, lançou-me o Instrutor o convite:

-- Vamos ouvi-lo.

Fomos. E, ao nos aproximar ao círculo intelectual ou filosófico, recebemos de todos


os sorrisos de cordial acolhida, e nos sentamos em uma abertura que nos foi concedida.

Camilo, não retomou do ponto de partida, ou seja, prosseguiu a explanação,


imperturbável e fraterno.

O Sol estava se pondo. Na linha do horizonte a visão se perdia em milhares de


Girassóis que absorviam algo da luz e devolviam o brilho ao céu em tonalidades
vermelha e dourada...

O mais lindo entardecer, onde a natureza se movia em comunhão de energias com os


raios solares...

Espetáculo de luz a causar-nos um estado de unção e profunda devoção a Deus Pai de


Amor!

Mas... Retornemos nosso foco àquele círculo intelectual, onde Camilo palestrava:

--Meus amigos e amigas...

Sei que as coisas algumas vezes nos parecem difíceis...

Mas a vida é uma Escola e as dificuldades são lições que precisamos da Esperança
para as suportar...

As lágrimas limpam os dutos orgânicos, mas se possível preservemos nossas forças e


reencontrando novamente a Esperança, não nos cansamos de pedir ao Alto força,
equilíbrio e resignação.

A dor não é para sempre... É como um sopro gelado na alma, mas que logo seremos
aquecidos pelo abraço fraterno de quem nos ama.

Coragem... Ninguém está sozinho... E o amor que nos sustentará... Hoje guardamo-lo
bem presente...

Após os dias de dificuldades o Sol da Vida retorna para nosso banho reparador da
Luz!

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Guardar paciência para ensinar é Amor à educação, e amar na doação trará reflexo à
educação moral eivada de Amor.

A palavra ameniza. O abraço fraterno acalma. A segura orientação é manancial


psicológico ativo e pacificador...

O amor que nos cura, e o ato de curar por amor leva-se desta vida (espiritual),
para outra vida (humana), e sempre estreitam laços, cultivando a ordem, prevenindo o
caos, silenciando melindres, apaziguando os tormentos da angústia, destruindo o
império dos vícios!

A capacidade em sentir... O magnetismo do mundo nos alcança. Não somos alheios


ao que ocorre na crosta da Terra...

A Natureza -- em todos seus níveis energéticos -- repercute na alma.

São bons todos os sentimentos que buscam pelo Cristo de Deus; necessidades são
somente humanas? Decerto que também exista as necessidades espirituais, porém sutis,
e adequadas a nossa condição etérea.

No coração, por exemplo, comover-se é ainda Empatia.

Dedicar-se ao próximo segue por solidariedade. O Espírito, assim como o Homem,


não está legado ao abandono. A mente não se limita ao Ego, Somos o Ser, a Essência
integrada ao cosmos, a Luz viva do Amor!

Perdão segue como virtuosismo, e os registros na consciência, para nós outros


representam “grifos de luz”, com que nos identificamos, uns aos outros, e nos
aproximamos como a tatear as paredes de uma casa suspensa no infinito...

Ainda existe para nós outros uma cruz?

Será que a dor ainda nos ensina?

Se nos sentirmos feridos, resignamo-nos?

Sofrimento, ainda aqui, mesmo a dor moral, a fragilidade emocional é processo de


auto iluminação!

Nossa dor espiritual é também algo de nosso passado, como homens vis e
ignorantes em caminhos opostos, e reféns de objetos de prazer; é então que ela (a dor
moral), vai realizando, diluindo, limpando as chagas do Espírito que marcha para as
Altas Expressões da Vida!

Feliz de quem aprendeu com essa ferramenta a não desprezar sua história, a
entender e aceitar o patrimônio da existência imperecível, da imortalidade em um
horizonte de esforços, trabalho, renúncia e resistência às saudades de Casa... Eis que o
labor terapia é algo da Luz que cresce no Eu, a integração com o Si mesmo ao eterno
porvir!

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Muitas coisas nós aprendemos... Muito ainda teremos a aprender... E muito está
latente, ou seja, à espera que seja extraído de nossa raiz; Logo estaremos na matéria
novamente, mas creiam-me, irmãos, que o sentir permanecerá, que tudo o que agora
sentimos transcenderá em nosso campo profundo do Inconsciente, e bem por isso não
há retroceder para a alma, ainda que distantes deste mar tépido de rosas fluídicas... O
Oceano em rosas de ouro será o nosso berço emocional, na palha do mundo!

Neste momento de exercícios espirituais, respiramos os próprios pensamentos


insuflados em amor, e uníssonos ao chegar de uma noite plácida, transpiramos a
profundidade do Universo para tornarmos aos homens na Terra, algumas estrelas a
mais no lençol espesso da vida!

A força divina vive em nós!

A família é o próprio Universo, e hoje Deus nos plenifica desta Consciência clara e
ionizante, afim de que revertamos aos nossos irmãos sobe véus de dor e ignorância, as
vibrações de paz...

A terapêutica espiritual é simplificada nas vibrações de amor, para consolidar no


aparelho psíquico aos dourados fios da esperança que não morre; da fé que não
vacila; da serenidade que não se perde; da paz desperta; da alegria indefinida porém
responsável; da elegância nas formas, do gesto de gratidão a Eterna Bondade de Deus!

Amemo-nos hoje e sempre e assim seja.

Ao término da explanação, Camilo veio ter em presença a Jerônimo e por através de


um abraço fraterno, muito simpático, saudou-me com essa gentileza também.

Nós nos afastamos suavemente adentro daquele pomar de girassóis para dialogar, e
isso muito me agradou, uma vez que minha visitação naquela colônia era um ingresso
ao aprendizado da Terapia da Alma.

Resumindo nosso diálogo, eis algumas palavras de Camilo:

Os homens na crosta da Terra precisam entender que não são os únicos a sofrerem
neste Planeta de Provas e Expiações. A dor também existe na vida espiritual, mas uma
dor moral, tangida na saudade, nas lembranças do passado em erro, da culpa, do
remorso, a apreensão pelo futuro de um novo regresso as vestes biológicas para
efetuar uma expiação...

De fato os Espíritos em nossa colônia não sofrem de dores no ventre, pela fome, pelo
calor ou pelo frio... Mas sentem a dor emocional, a dor moral, e desta forma a larga
soma de nossos atendimentos são Psicológicos. Carecem as almas de que menciono de
terapêutica psicológica para aceitar que pessoas amadas permanecem longe; que a
imortalidade é um convite ao labor e ao sacrifício de si mesmo; que temer é comum,
mas que a coragem nasce da fé no Cristo e, sobretudo na gratidão e sensibilidade a
Deus Pai, no cumprir de Suas Leis perfeitas e sábias!

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Bem por isso, Luís, vá transmitir aos homens, quando te seja oportuno, para que
aproveitem bem cada oportunidade no amor-doação...

A Psicoterapia como cura se dá por através do Amor que é Universal...

Amamos, somos amados, e muito ainda precisaremos amar, estejamos na condição


da alma encarnada ou do Espírito na erraticidade; mas aquele que não se sente
amado, nem por isso deva deixar de vencer a pequenez do apego e ir ao encontro da
caridade sem máculas.

Eis, nosso humilíssimo concurso na Medicina da Alma...

Na Terra... Sigmund Freud ergueu importantes correlações entre a saúde orgânica e


o aparelho psíquico...

Ao mencionar a respeito das Pulsões, o enigma da ação do Sistema Nervoso


começa a ser descortinado por um efeito de desenvolvimento, cuja energia vital estaria
na gênese da própria substância viva...

Descemos à existência fisiológica, e passamos a nutrir a interação profunda do


anímico e o somático. Comandamos algo em nossos estímulos, mas em verdade, larga
percentagem humana vivencia uma resposta íntima constante para os estímulos oriundos
do próprio interior, onde as funções orgânicas impregnam a psique, saturam o campo
anímico.

O anímico e o físico estão intrinsecamente ligados durante a existência, e bem por


isso o homem que lesa por através da vontade desvirtuada nos vícios os mecanismos
celulares, a mente espiritual que sedia toda atividade na economia vital registra-a.

-- A sabedoria Divina – atalhei de súbito—, escreveu Suas Leis Eternas e imutáveis


na própria Consciência Humana, onde estão crimes de lesa-consciência jamais ficam
impunes, uma vez que o anímico é o próprio registro.

-- Perfeito—aquiescia Camilo imperturbável--, desta forma poderemos entender que


as Pulsões refletem algo da própria condição humana, porém que a negatividade nas
relações psíquicas é herança da alma.

O corpo não dá maldade ao Espírito, a Perversidade, mesmo a Esquizofrenia, é o


anímico enfermo reagindo sobre os núcleos celulares do corpo, em especial no cérebro;
e contendo a energia vital no descuido de si mesmo, surte então a doença psíquica, a
psicopatologia que desregula a distribuição regular da energia vital, gerando falências
múltiplas, e a mais comum é o esgotamento nervoso.

-- Psicossomática! — asseverei.

-- Transferências da mente para o soma– completou Camilo, que seguia a


oportunizar-nos sua experiência clínica:

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-- Importa considerarmos que a neurose obsessiva pode sim guardar relação com
traumas na sexualidade infantil, uma vez que a contagem dos abusos sexuais é algo
alarmante, triste e milenar; verdadeiro desrespeito ao sagrado e complexo mecanismo
germinativo.

Mas... Ao chegarmos ao “outro lado da vida”, auferimos o grave e desgastante


processo de vampirização por através da Obsessão Espiritual, a resistência nervosa do
obsidiado na carne entra em verdadeiro colapso no fulcro anímico. As afecções da alma
migram para o corpo, e inúmeros conflitos em registros milenares no cérebro espiritual
– resguardados no Inconsciente—atacam vorazmente a permeabilidade na Consciência
quando potencializadas são as influências psíquicas enfermiças pelos Gênios
Obsessores;

A “afecção raiz” é aqueloutra que inicia-se na sede dos pensamentos, a desnivelar a


química na produção dos neurotransmissores, afetando – sobretudo -- na produção da
Dopamina...

-- Seria uma das causas da Esquizofrenia o desgaste nervoso prolongado por uma
obsessão espiritual, e cessado a interferência obsessiva o paciente começa a melhorar,
no entanto os efeitos colaterais no mecanismo cerebral geraram perda de energia vital, e
então o tratamento farmacológico e a psicoterapia, que intentam os Psiquiatras e
Terapeutas é pela recuperação nesta conexão complexa entre a sede orgânica e o Eu
anímico?

Camilo sorriu e observou:

-- O detalhamento é valido, mas importa que os termos (a dualidade) a sede orgânica


e Eu anímico, no Homem, Alma encarnada, estão intrinsecamente ligados. O indivíduo
é um apêndice de forças vitais, e somente classificaremos então como o “Eu integral-
humano”: corpo e mente.

O corpo físico é a resposta da gênese anímica que o configurou segundo os padrões


genéticos recebidos dos progenitores biológicos, e respeitando a natureza psíquica em
registro profundo na Consciência.

Recebe-se o plasma germinativo como o melhor que serve na produtividade


transcendente...

A transmissão geracional é algo químico, mas é o anímico que acata os valores


imorredouros que o Espírito necessita para se desenvolver a caminho de Deus.

Celebramos o estudo das Pulsões de vida e de morte de Freud, à tentativa de penetrar


na tipificação natural da Consciência, onde os passos mais importantes refletirão
degraus para a realidade imortal do Espírito!

Acreditamos que há “o lado mais elevado do homem”, e neste mister está à essência,
o Espírito quando se liberta da escravatura psíquica dos vícios...

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A repressão durante a existência biológica não revela tudo o que é importante na
psique, nem desmerece a complexidade da mente...

Transcender a tudo o que aprisiona o Ego em matéria de sensações, requer início de


maturidade para o mundo das relações afetivas.

-- O Ego sustenta-se de que forma após o desencarne? — Indaguei, no que Camilo


esboçou um ar de expectação e replicou:

-- O Ego para Freud, em larga faixa é o herdeiro do Complexo de Édipo. O assunto


requer observações no campo da libido e dos impulsos, mesmo as aflorações da
personalidade... Mas na vida espiritual, o Ser modifica sutilmente a estrutura da psique.
No corpo físico muito da herança filogenética reage na psique, não há dúvida que os
ancestrais deixaram informações muito úteis a “gênia” (referia-se ao DNA), e elementos
pospositivos foram agregando-se um após outro em uma reação em cadeia, uma
sequência de reações provocadas por um elemento ou um grupo de elementos que partiu
do primeiro elemento... Então as reações entre esses elementos carecendo de uma forma
de calor, de energia, possibilita a transformação... Recordemos a Fissão Nuclear...

Na Psique, o elemento gênese é o princípio inteligente alcançado a função viva do


anímico, contendo o Anima e o Animus (feminino e masculino), e a experiência da
carência, da vontade, do frio, e as forças pospositivas dos desejos, dos impulsos,
imprimem algo na personalidade que se torna condensado no Ego enquanto o Espírito
está na matéria, mas que se sutiliza fora dela.

O desencarne é a retirada do véu celular, sobretudo na ação contínua da mente que irá
entrar em atividade permanente expressando-se por meios mais leves qual as células do
Psicossoma, em sua matéria quintessenciada; Então, afim de que o real transpareça, e o
psíquico não mais esteja fundido aos grilhões moleculares “pesados”, volta-se com mais
sutileza ao mundo interno, para elevar-se à medida que a consciência toma posse da
vida útil do Espírito, a vida psíquica.

Valores morais elevados poderão redesenhar na mente o mapa central de sua


realidade, e a ferramenta da dor na matéria, somente na amalgama da vitalidade
transcenderá quando o campo psíquico encontra em si, os elementos próprios do amor.
Se não há esse mergulho íntimo de autodescobrimento, o que restará é sofrimento
negativo e não sofrimento positivo, e somente haverá sofrimento positivo quando a dor
negativa seja convertida em criatividade.

Sofrer por renúncia. Sentir por elevada porção empática.

Os sentimentos de quem supera a dor amando, ainda aqui, senhor Luís,


redimensionam a vida psíquica, e poderão neutralizar milênios de viciações mentais...

101
Tenho para mim que o sofrimento negativo é o homem que sofre, mas que não aceita
a mudança. E o sofrimento positivo é a resignação que converte a criatividade latente
nas obras do bem comum.

Que para elevar-se o Espírito necessitará despir-se gradativamente dos desejos


grosseiros ou animais e sublimar a vontade.

Em muitos séculos, as almas recapitulam experiências, esbarram nas mesmas


viciações, corrompidas pelas Pulsões que lhe escapam do controle.

Desnaturam o laço afetivo pelo ciúme.

Rompem o fluxo da emotividade com o ódio.

Cristalizam o amor nas paixões.

O homem em sua natureza elevada, somente será uma realidade física, quando na
própria realidade física estiver pleno que em sua consciência profunda está o melhor de
si a ser colocado na pista das concretizações emotivas, e que é a força transcendente e
espiritual, sobe a direção de Deus, o caminho à ascese.

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102
O MONTE DAS VIRTUDES

Vento fresco balançava suavemente as folhas das árvores... Curioso, havia belas
Palmeiras naquela colônia.

Indaguei a respeito de nosso Guia Dionísio e ele disse prazenteiro que é comum à
energia mental plasticizante dos Missionários de “O Mar Alto da Consciência” trazer
consigo elementos psíquicos hauridos de felizes passagens pela reencarnação.

Agradeci. E, oportunizando a questão da criatividade nas criações mentais, Jerônimo


exclamou:

-- Na Terra, Luís, há muito mais criações mentais que se supõe entender...

Tudo de mais belo é produto do Espírito, o que o homem faz é oportunizar as


criações já existentes no “Mundo das Causas”, e materializa-las no “Mundo Sensível”.

Recordemos Platão.

A imagem criada por nosso Instrutor era simples, clara e filosófica.

Atrevi-me a dar um parecer:

-- A intuição na mente humana poderia representar uma luz, uma ideia, uma fagulha
do Divino amor, quando objetivados estão os mais belos programas de desenvolvimento
do intelecto e da moral...

A gravidade, porém, é forçosamente na má-sintonia. Pessoas existem que divulgam


ideias nas redes sociais da internet, nos sites de chat público, na mídia televisiva, ou no
velho conhecido “programa de rádio”, munidos de intenções que exasperam a Anarquia,
a revolta, o consumismo, o sensualismo e, o abuso de poder vertido na sangria
emocional do preconceito!

-- Exato Luís! — Confirmava o Instrutor, que completou:

-- Assim como existem colônias espirituais como essa que nos acolhe gentilmente a
presença, há também reuniões de Espíritos infelizes, “colônias de purgação” nas zonas
inferiores do plano intangível...

Desta forma, Platão concebeu o “Mundo das Ideias” como o perfeito, mas teremos de
levar em conta a alta hierarquia moral do Filósofo Grego.

No “Mundo das Ideias”, há também Idealizadores ainda afeitos ao mal.

Talvez que Nietzsche intuiu essa situação, e sintonizando com a dor, a revolta e os
padecimentos de Espíritos há muito sofredores desde a fatídica época da Inquisição,
exprimiu toda uma revolta filosófica, uma provocação nas ideias e conceitos, aforismos
e parábolas, que em verdade não estava errado, mas novamente era unilateral.

103
O “Mundo das Ideias” é o Universo amplo em seus níveis evolutivos; respeitoso ao
grau de evolução espiritual.

Nos planos sensíveis ou tangíveis, a criatura irá intuir conforme já detenha. Saberá
distinguir segundo consiga discernir. Resolverá enigmas mediante o conteúdo psíquico
latente no Inconsciente...

-- De fato—intervi--, Somente quem adquiriu a bagagem da Consciência é capaz de


sustentar o conteúdo latente no Inconsciente. A vida psíquica é mais complexa que
supõe os homens, mas seria muito mais simples aos Doutos na Terra compreenderem a
extensão da realidade intangível se se colocassem em maior tenacidade mental, e
começassem por perceber a realidade do Espírito, a veracidade da reencarnação, e o
equilíbrio moral como a ferramenta de acesso ao profundo da psique.

Silenciamos todos.

Foi então, que nosso Guia Dionísio, apontou-nos a uma direção cujo gradiente
térmico me pareceu diferir, dado a verticalidade, e convidou:

-- Naqueles montes de aspecto similar aos elevados picos rochosos, está situado o
Instituto da Elevação de nossa colônia, onde nobres Espíritos realizam suas orações
diárias pela proteção e assepsia psíquica de todos nós...

Reza a lenda, que o primeiro Espírito de Luz que chegou a “O Mar Alto da
Consciência”, enfrentou dificuldades de vulto para adaptar-se ao modus de vida dos
Espíritos errantes que por aqui habitavam, visto que o primeiro descia das Regiões mais
Altas da Sublimação, e a população em geral era um reservatório de almas recém-saídas
da crosta da Terra...

Então essa nobre Entidade de Luz, idealizou com a força de sua vigorosa mente um
Monte muito Alto e que nele tivesse todo o material necessário para a difusão de ideias
elevadas sobe o amplexo da energia solar.

Entrementes... Meus caros amigos... As Entidades generosas jamais fazem algo em


vão, ou por exclusivismo. Para alcançar o pico destes Montes, deixou-nos aquele Nobre
Espírito desbravador uma espécie de ação Behaviorista... E a psicologia em questão é a
da intenção positiva, da inspiração luminosa...

A nossa quantidade de bônus espiritual pelos bens que produzimos por nossos
semelhantes valem de um a dez degraus à subida íngreme. Desta forma, nossos esforços
durante um ano são contabilizados sempre na Semana do Natal com Jesus, e segundo
nossos esforços recebemos a permissão de subir ao Monte no dia 25 de dezembro, para
contemplar a preleção desta Nobre Entidade de Luz, que não somente nos apresenta a
inigualável explanação do Evangelho, como também um quadro ideoplástico de
imagens referentes à vida real, ou seja, a recuperação das mais belas passagens
evangelizadoras a beira-mar, no Monte das Oliveiras, etc. efetuadas pelo próprio Cristo!

104
Sim. Meus amigos—confirmava-nos o Guia a sorrir—minha esposa e nós outros
estamos nos esforçando muito por essa dádiva, pois que ainda não conseguimos realizar
tal feito em mais de duas décadas de permanência ativa nesta colônia...

Dionísio silenciou de pronto. Era visível sua emoção.

Nada mais foi preciso dizer...

Em meus pensamentos, sonhei com um dia ser capaz em escalar não somente o
Monte do conhecimento, sobretudo, o Monte das Virtudes.

Volvíamos a via pública, e oportunizando a benevolência de Dionísio, indaguei:

-- O amigo acreditaria que as experiências iniciais de Freud, Breuer, com a


Psicanálise, seria uma extensão de candura pelas enfermidades psíquicas. Defino: “O
Espírito na matéria adoece pela Histeria, pela Neurose e pela Psicose, com maior
frequência de que se possa supor?”

-- Como não? — Exclamou Dionísio de viva voz—Precisamos considerar que Freud


agiu impulsionado por uma grande vontade, uma determinação hercúlea de encontrar a
gênese da Histeria, e desta forma, a própria enfermidade psíquica tão criticada em sua
época, tão violentada por preconceitos inenarráveis, foi –talvez-- um mal necessário
para que todo um movimento inicia-se à humanização dos atendimentos psicológicos...

-- Poderemos comparar as crises de Histeria para o aguçar da medicina em Freud, de


um impacto similar ao das mesas girantes, o fenômeno que despertou a curiosidade
científica de Allan Kardec?

-- Entendo aonde quer chegar—salientou Dionísio a sorrir--; de fato a dor na alma,


bem como os segredos desvendados na movimentação dos Espíritos tão oculto aos
homens, faz parte de uma atividade de regeneração que nossa pátria-mãe-terrena, desde
a passagem do Cristo não pode desprezar...

No entanto, quando uma verdade precisa ser revelada, os locais são minuciosamente
escolhidos pelos Benfeitores Espirituais, uma vez que jamais se atém a um único
detalhe, ou a uma só pessoa...

Veja bem: Platão necessitou da sabedoria de Sócrates; Jesus contou com o apoio de
12 Apóstolos, e depois veio Paulo de Tarso; Santo Agostinho; Francisco de Assis;
Inácio de Loyola; Joanna D’Arc; Allan Kardec; Francisco Cândido Xavier...

Poderíamos citar inúmeros colaboradores a Saúde Espiritual, mas, como convêm ao


amigo meditar, os notórios Médicos, Psicólogos, Terapeutas na Era Moderna, foram
buscar a base, a sustentabilidade de suas teorias nos grandes vultos intelectuais e morais
do passado...

Sem a Filosofia não haveria a Psicanálise;

Sem a Matemática como entender a Física Quântica?


105
A verdade, Luís, é como se fosse à essência presente e comum em todas as coisas.
Modificam-se nomenclaturas; adornam de teorias em torno que se vão avançando
conforme o amadurecimento da Humanidade. Entretanto, tudo o que o Cristo sabia e
pregava há dois mil anos, é hoje ainda perfeitamente atual, modificaram a maneira de
dizer o que o homem sente, em analisar a dor na sua alma... Mas, meu amigo... Se a dor
de um membro ferido é a mesma de todas as gerações naqueles que pisaram em um
prego, como menoscabar o prego que penetrou no Espírito, referindo-nos a Depressão!

O amigo silenciou de súbito, e logo seguiu a dizer:

-- Infelizmente o homem na Terra é o ser que experimenta tormentos voluntários


pelas vibrações viciadas e pelo medo... Na matéria, é o animal racional que influi na sua
indumentária biológica em acordo aos pensamentos, aos sentimentos, a tudo que a vida
psíquica reclama uma resposta somática.

O medo faz arder no próprio estimulo, e se não há cuidado, a resultante é a só


matização de doenças...

O equilíbrio não poderá faltar... Por lá, meu amigo, o homem guarda em sua psique
um amontoado de informações, e no menor dos pesares é a ansiedade, pois quando
guarda a mágoa, o rancor, e o desejo de vingança, e não consegue filtrar e tampouco
descartar essas emoções negativas, então volvamos ao estudo brilhante de Freud, que
analisava cuidadosamente uma de suas pacientes que intentou, premeditou um ato de
violência contra um pai austero, severo em demasia, mas se deteve bruscamente,
gerando uma carga mental nociva. E, por quê? Justamente, meu caro amigo, porque a
ação foi criada no plano mental, então ela ocorreu de alguma forma, gerou algum
prejuízo a seu pai, seja nas vibrações deletérias, seja no ataque espiritual propriamente
dito pela má-sintonia. Onde então na consciência profunda a jovem percebeu que fez o
mal indiretamente, um mal intangível mas que não deixou de ser o mal, e causou
prejuízo ao pai violento, que já detinha a pré-disposição, a má-tendência, e trouxe de
volta para ela a consumação deste mal, como lhe disse, num plano intangível que gerou
a neuropatia de fórum psicossomático.

O mal é sempre o mal, assim como o vício é sempre vício...

Bem por isso o plano espiritual inferior estimula negativamente a pornografia visual,
aquela não declarada no secreto dos lares, e que planta nas casas invigilantes onde a
oração não existe, a semente do vício, onde essas pessoas que não declaram
publicamente seus tormentos vão realizar a consumação dos tormentos precisamente no
desdobramento do veículo Peri spiritual, indo de encontro a regiões promíscuas de
nosso plano, para retornarem impregnados de bacilos perniciosos a vampirizar a
biologia humana, e dar vasão a uma infinidade de doenças...

106
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GENEALOGIA DA OBSESSÃO

Recolhíamos o parecer de uma Entidade Luminosa da colônia, que para nível de


comparação com a Terra, representaria um Ministro da Saúde de um país.

Eis algumas anotações que fizemos de suas palavras, ou melhor, seu parecer:

Ambivalência de sentimentos...

Transformação da pulsão de vida em seu oposto...

Em respeito às observações de Freud, eis que definiríamos o caso da conversão do


amor em ódio, dirigidos ao mesmo objeto, ou ao mesmo sujeito...

Mas... Talvez Freud ignorasse que tal conversão não se circunscreva a vida sexual.
Se resumíssemos o amor a uma aspiração exclusiva do objeto, da satisfação sexual,
viveríamos as lutas intermitentes das sensações convulsas, e o predomínio das pulsões
na psique.

Retrair os impulsos na alma é (aparentemente) menos oneroso quando a atividade


estimulante é externa, porém, as viciações no Espírito são milenares e desta forma as
conexões anímicas na forma dos hábitos, por exemplo, confundem-se por entre auto-
amor-sublimação (que seria a vitória do Eu sobre a matéria), e o seu oposto o
Narcisismo. A primeira é o auto amor conforme a necessidade-valor de interação com
Deus. E a segunda é o prazer em excesso no que se supõem as conquistas, os logros, o
prazer no contorno das formas e não na sua essência, que se não satisfeitos, gera um
estado de indiferença com os outros...

No auto amor segue o alo amor, uma vez que amor só faz bem, em toda sua
polarização caritativa...

Agora “amar a si mesmo na forma narcisista”, não podemos definir um amar no


sentido profundo e espiritual, tampouco nos deter no “auto erótico” como definiu
Freud. É uma súmula da paixão... Onde a psique é dominada ou encharcada de um
prazer direcionado a fantasia, uma infância moral, jamais pura e ingênua, mas
conspirando apego e sensações efêmeras, a busca pela satisfação que entorpeça e não
à necessidade de viver pelo bem que carece de ser nutrida...

O alívio é necessário. A fuga psicológica é um estado patológico.

O ódio, então, é o apego que dá prazer e que é levado ao extremo das sensações, bem
por isso o ódio gera a vingança sem limites... É o apego incisivo e não o amor
desprendido... Gera a sensação do tudo ou nada. Ou então a determinação do “é meu e
de mais ninguém”.

107
O Obsessor ferido no Ego incorpora parte da vida psíquica do outro a maneira do
contágio, por considerar o outro um objeto que lhe pertence, algo que lhe fere toda a
atenção e que nada há além...

A pulsão de morte, a vontade de destruição... São o móvel da sua mentalidade


destorcida, e realidade imprecisa.

Há o bloqueio de toda utilidade prática, o absinto do ódio delira, e o censor psíquico


na consciência é iludido, por símbolos mortais. Psicose, Psicopatologia...

Dentre inúmeros fatos subsequentes, todo Psicopata se torna um Obsessor em


potencial de alguém, e todo Obsessor desenvolve a psicose na alma...

Tudo que faça ferir a alma narcisista volta-se ao objetivo de escarnecer o objeto
que lhe traz desprazer...

Para o Obsessor perde-se a distância entre o Eu e o Objeto de desejo ou de


vingança... E, se não há opção de posse, cria-se a ideia do extermínio, ou de ferir quem
lhe seja concorrência em potencial no domínio dos pensamentos.

É uma força distorcida a sustentar a pulsão de morte. O amor que alguns supõem
nutrir é em verdade uma psicopatologia disfarçada para burlar o ódio, e o ódio, o
apego que julgam ser maior por existir um amor traído.

É um apego que faz reagir ferozmente pelo temor que condensa na mente, e que
muita vez, para que se suporte, há uma transferência. Imaginemos o homem que saí da
caverna e se depara com a luz, mas que não suportando a luz volve ao obscuro da
caverna para então consumir-se na culpa de que haveria de estar na luz, mas não pode.
Então maquina no pensamento que a culpa de não estar na luz é justamente por causa
do sujeito que o fez mal, ou que despertou nele o mal, e então se alimentando dos
dejetos psíquicos presentes no seio pegajoso e lodacento da caverna, a força que tem é
fictícia, e esta condição é superalimentado pelas trevas, que o faz misturar-se com a
própria treva, e a cada golpe desferido com ódio, mais cresce a culpa, e quanto maior
a culpa, maior a transferência de ódio a quem o magoou, o feriu, o fez sofrer...
Descargas magnéticas que atingem em cheio o obsidiado que esteja em uma condição
mental nos vícios, por exemplo, criando um campo de ação que denominaríamos
“psiquismo bomba”, parcial de inflações na personalidade, só matização de doenças
imaginárias, e perturbações sexuais de largo gênero.

A prostituição, por exemplo, em séculos pós séculos, tem sido a prisão emocional
onde inúmeras almas culpadas vão desgastar pela libido seus crimes na expiação,
precisamente por agregar o “psiquismo bomba”, a explosão de sensações onde a
libido perde totalmente o controle ao ponto de o êxtase neutralizar o auto amor, e não
censurar a necessidade de fantasia...

Sim. A fantasia sexual é em verdade o ápice da culpa, onde o indivíduo obsidiado


perdeu o fio condutor com a Espiritualidade Maior, e acatando o débito com tristeza

108
profunda, entorpece a psique, e canalizando energias fictícias, artificiais de nosso
plano, como por exemplo às larvas mentais e vermes psíquicos, o organismo físico se
torna algo semelhante à máquina alimentada por fios condutores de energia
clandestina, onde a energia adentra mas perde-se ao longo da distribuição, causando
curto circuito, incêndio, ou sobrecarga de força.

Essa sobrecarga vai diretamente ao campo mental, gerando o que poderíamos supor
em uma psicose controlada, ou uma Síndrome da Fera, gerando no períspirito as
reações que as aproximam da animalidade.

Pergunta-se como um períspirito se torna através de inúmeras descargas mentais


deletérias a forma de um Lupino, de um Vampiro, ou de tantos Monstros que avultam
nas Regiões inferiores do Umbral?

Uma dentre as vertentes desta recrudescência é justamente o “psiquismo bomba”, a


implosão da energia psíquica, e as aberrações de ordem sexual...

O deslocamento do amor-apego, cuja raiz psíquica é ainda uma forma de saciar os


desejos instintivos, na Psicologia Espiritual temos nítida noção de quantos persistem
na fixação de uma das fases da existência humana pregressa onde o trauma, o abuso, o
crime, a desgraça, e o narcisismo vilipendiado, causaram profunda rejeição, ímpetos
de cólera, maceração das forças vitais, problematização improfícua da própria
existência; suicídio...

A função sexual passa então por uma função vício, ou seja, perde-se na questão da
ideia de que o sexo na existência humana é uma dádiva da reprodução e de reposição
psicoemocional, para quedar aos abusos do Sadismo, do Masoquismo, da Pedofilia, e
da Prostituição. Está última para nós outros na vida espiritual é uma forma de psicose,
uma doença moral em que a alma adentra em um círculo psicológico perturbador, mas
que se acredita de pé justamente pelo fio clandestino mencionado na psique, que é
nutrido por dezenas, centenas de Espíritos obsessores na difusão do prazer e sensação
infeliz, gerando o automatismo sexual ligado a alívio na consciência, um falso alívio,
uma descarga nervosa, onde o indivíduo se machuca, se permite as mais diversas
crueldades e abusos, como se emprestasse seu corpo por acreditar que não mais lhe
pertence.

A prostituição-obsessão é uma crueldade que não está no projeto das expiações, o


Bem não se serviria da baixeza e degradação para punir uma alma culpada. Seria
como se o sistema carcerário tomasse o preso, e o mantivesse sobre tortura e não sobre
o cárcere, afim de que ele pagasse suas dívidas com a sociedade...

Deus é Infinita Luz.

A Luz não é o obscuro da caverna.

A caverna é meramente a fuga da luz, e neste local que muitos se refugiam é uma
escolha triste e que poderia ser modificado do plano astral de nossa pátria terrena, se

109
os nossos irmãos encarnados iniciassem um movimento de luz-terapia, de oração-
terapia, abandonando tudo o que fere, que degenera, que vicia, que prostitui, que
amaldiçoa, que escraviza...

É o vício, a maldade, o abuso, a mágoa, o rancor, o ciúme, e toda forma de mal que
as mentes inteligentes e cruéis infligiram na Terra que permite a existência ainda de
Regiões Trevosas, o Inferno das Religiões Dogmáticas, o Umbral para os Espíritas... O
deus Ades Líder dos Infernos da mitologia grega representa a antítese da luz, mas é em
nossos estudos psicológicos “O Mal de Hades”, ou seja, “A função sexual convertida
em masoquismo, e que é alimentada pela culpa e perda de si mesmo”.

Esse mal persiste nos planos espirituais inferiores, e faz perder o contato mental com
o mundo externo, torna a psique obscura ao ponto de não perceber mais a dor anímica,
até que a dor moral torne-se insustentável, e então ocorrendo o fenômeno da segunda
morte, o Espírito sofredor tem de abandonar densas camadas fluídicas até que o
próprio períspirito seja capaz de conseguir se expuser novamente à luz!

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PALAVRAS DO GOVERNADOR

Nas primeiras horas da manhã... Dionísio me veio buscar no recinto familiar que me
acolhera em laços espirituais, e logo estávamos junto a Jerônimo em ambiente
majestosamente adornado de flores, à frente da Governadoria da colônia...

Ao Alto de uma torre, do edifício principal, havia um jovem de aspecto respeitável e


envolto por uma luz diáfana e radiante.

-- É Glauco, o Mensageiro da Governadoria—explicava-me Dionísio--, que aos


Sábados, pontualmente às 6 horas da manhã, faz uma leitura de um texto que segundo
estamos informados, Mensageiros Celestes do Cristo de Deus expedem o Pensamento
fraterno de Jesus a todas as colônias espirituais como a nossa; totalmente dedicados a
Medicina da Alma.

Dionísio teve de silenciar. Glauco portava em mãos um aparelho portátil, onde me


parecia visualizar o conteúdo a ser explanado através de uma tela brilhante. Algo muito
semelhante aos modernos celulares que existem na superfície da crosta.

Aquele jovem de imponente aspecto tinha os cabelos negros a quedarem sobre os


ombros, e uma barba também escura a cobrir a face muito bem desenhada e esmaltada
como a neve.

Formávamos um auditório ao ar livre de aproximados dez mil Espíritos de aspectos


joviais, idosos, e também diversos grupos de crianças.

O completo silêncio era perfeito. Todos respeitosos à presença do Mensageiro do


Cristo. O sol brilhava intenso e acolhedor. O ar emanava o olor refinado das ervas
naturais...

Parecíamos naquele momento, estagiar um ingresso temporário aos Campos


Elísios...

Então... Glauco ergueu a destra. Fez um sinal de profunda reverência à diretiva do


Universo, e balbuciou algumas palavras como se entoasse um mantra. Uma energia
espectral se fez sentir em torno do Jovem Mensageiro, e um fio de luz desceu do muito
Alto alcançando em cheio a sua fronte...

Muitos de nós nos ajoelhávamos em reverência à presença de energias mentais a


simbolizar o Pensamento do Cristo...

Com uma simplicidade admirável, e a voz angelical, Glauco começou a dizer algo
que tentarei reproduzir de forma aproximada à linguagem humana:

111
-- As Mãos de meu Pai aproxima-se de nós, e como nos primeiros dias quando tudo
era Caos, e a Luz se fez na Terra, começa-se a idealizar o homem a semelhança de uma
força, uma potência, um jorro de amor capaz de mover-se, sensibilizar-se, acalentar a
satisfação em seu ventre... As Mãos de Deus movem-se novamente por sobre a Terra, e
modulam a Alma para que a substância que lhe dá a posse tangível entre o motor da
Natureza, venha estreitar-se no seio húmido a imagem mais próxima à perfeição!

A Força do Universo é constante... A Energia que condensa é incorruptível agora...


O necessário impulso será dado, para que todos partilhem do pão que Lhes entrego ao
Espírito e este possa tecer os fios do tecido regenerador...

O Etéreo será mais bem conhecido na gleba humana, e o sentimento-luz na


expansão que irá distanciar-se um pouco mais do instinto para crer-se na posse
inabalável da razão, aproximar-se-á do Coração Absoluto... E as lágrimas serão
enxugadas, todo pranto será atendido... A vida será uma imortal primavera, onde a
arte despertará o prazer sem máculas, afim de que sejam atendidas todas as
necessidades fisiológicas, uma vez que o orbe de Meu Pai anseia pela felicidade, e a
libertação de milênios em escravidão ao grosseiro dos sentidos!

A raça humana é única... Diferente somente as nuanças na roupagem dos tecidos,


porém, sempre, desde o princípio, todo homem é feito do mesmo barro da Terra, e
recebe o mesmo sopro dos Lábios do Grande Espírito que reúne em si o equilíbrio de
toda resposta, a água de toda forma, o fogo de toda ideia, o corpo de toda luz...

As dores de outros séculos estão sendo limpas... Uma vez que a gangrena cicatriza,
e a leitura desta chaga é feita no silêncio e na reunião da vida, nos mais simples
capítulos da existência familiar...

Os esforços do Bem resplandecem... Casa alguma está desatendida... Os registros


mentais são mais belos... A caridade é revelada, e não apenas estudada... Os tormentos
cedem espaço à intuição e a clarividência de um mundo melhor, humano por natureza,
espiritual por herança universal...

Decodificaremos ainda na Ciência dos Homens, o mapa à identificação dos


hormônios psíquicos, e faremos o retrato de Deus somente no coração humilde do
lavrador da esperança, que entregará com seu suor às sementes do Cristianismo para
os campos da consciência, arados pela renúncia, pelo recolhimento, pela satisfação
grata do prazer em servir, em se doar...

Não mais algemados pela experiência sensorial... O Amanhã está impresso suas
primeiras gravuras morais no caderno humano de hoje. E, o lápis que irá redigir novas
páginas do destino já foi apontado por meu Pai, para riscar a seda da existência em
um grande traço de luz!

A inteligência do homem assumirá sua grande função.

112
A experiência é satisfatória na dor, e a vontade em crescer para a vida, está na
condição da vida crescendo na própria vontade...

O Ato que vivenciamos é Divino.

Sentimo-nos unidos como parte de uma feliz razão somente medida pelo
Instrumento da Causa.

A existência espiritual é imortal, Meu Pai é Eterno, e nada ocorre por acaso...

Silenciarão as discórdias...

O Caos foi precedido pela Noite, mas no horizonte de onde Meus olhos vos
abraçam, filhos Meus da alma, aproxima-se o Alvorecer!

Eu os abençoo do profundo de minha Alma, que estende seus fios de esperança, a


todo o Universo onde Age o Doador Universal da Luz!

Glauco silenciou.

Víamos em torno dele uma órbita elíptica de energias a simbolizar que sua mente
expandirá muito além...

Após refazer-se da emoção. O Mensageiro do Cristo pediu-nos que acreditássemos


mais em nossas capacidades em amar...

E, ao meu pobre entendimento, realizou, ali mesmo, uma operação magnética que
enfaixou com salutares energias as muitas chagas Peri spirituais naqueles que foram
encaminhados dos Parques Hospitalares...

Em momento algum, o Doador Universal passa sem deixar um conforto, uma cura,
um soerguimento, e Sua Excelsa proteção...

Na ocasião... Era um belo fim de tarde... Jerônimo apresentou-me a um Grupo


Terapêutico. Cerca de vinte entidades joviais me pareciam meditar às margens de
gracioso Lago, cuja fluidez do elemento fluídico faz com que se confunda o que sacia
sede com o que brilha aos nossos “olhos de ver” na vida espiritual.

Dionísio solicita-nos licença para deixar-nos. Outros compromissos urgentes o


aguardavam na função de Guia Espiritual.

Permanecíamos a distância de alguns poucos metros, na observação discreta e


silenciosa, onde então a Dama que assumia a condição de Psicoterapeuta, assimila-nos a
atividade mental, e sem qualquer cerimônia, aproxima-se e lança-nos o convite para
integrar o Grupo.

Anuímos de bom grado.

Oh... Como era reconfortante o som ou se assim possa me exprimir, “a frequência da


natureza” (*).
113
(*) (*Nota do Autor espiritual: Algo similar a 432 Hz).

Ondas magnéticas eram expendidas também do campo energético dos integrantes à


meditação, mas, sem resquício de dúvida, a mente mais poderosa naquele recinto era da
Terapeuta, cujo nome é Salomé.

Quarenta e cinco minutos depois... E, o Grupo de Meditação era dispensado.

Sentíamos uma paz muito nítida na essência.

Agradavelmente bela e muito bem disposta, Salomé procurou enfim atender aos
imperativos das elucidações, uma vez que nossa solicitação era o aprendizado.

Salomé informara-nos haver integrado um grupo de Psicanálise em sua última


passagem pela reencarnação. Enquanto encarnada, admirava os conceitos de Sigmund
Freud, e notadamente fora tocada na alma pelo curioso sentimento de liberdade dos
fenômenos metapsíquicos da Religião, e voltou-se unicamente a Ciência.

Porém, reconheceu somente quando retornara a Pátria Espiritual, há mais de seis


décadas, que há uma capital importância da Religião no psiquismo humano. Que faz
bem deter uma fé raciocinada, nutrir um apego transcendental a Figura Paternal de
Deus, e que o amor terapia, na renúncia, no desapego ao prazer egocêntrico, na luta
constante pela vitória ante as fantasias sexuais, e as vaidades intelectuais, são as
medidas que conduzem ao equilíbrio emocional após deixar a carne biológica.

Salomé relatava-nos ainda que muito embora houver adquirido considerável


patrimônio no saber científico, quando se viu em definitivo fora do corpo, sentia-se
como a mulher vaidosa que se vestia somente a farrapos...

Que fez pelo povo?

Como colocou a cultura em seus dias?

Por que razão tanto desprezara a Religião?

E, não tratar-se dos ritos, dos dogmas, das cerimônias religiosas... E sim, o que lhe
fez falta era precisamente a necessidade de entregar-se ao bem gratuitamente, em
realizar uma conexão transcendente com o pensamento Divino, que se dissemina no
Universo por através de Seus Missionários do Amor.

A vagar pelas vielas escuras das Regiões sombrias do Plano Espiritual... Era como se
uma densa noite prolongasse por décadas...

Deprimida, com um padrão vibratório de sofrimento, definia-nos que se sentia:

“-- O Camelo de Zaratustra (*), ou melhor, o símbolo mais exato seria uma Mula de
carga, pois carreava comigo o sobrepeso de meu orgulho, vaidade, exasperação sexual,
e agora em nada me valeu o intelectivo, uma vez que os limites eram sobremaneira
morais”.

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(* Nota do Autor Espiritual: A imagem passada por Salomé indicava uma possível atividade na
Transvaloração Nietzschiana de Zaratustra; uma espécie de aniquilação da moral Cristã, e a imagem do
Si).

Peregrina nas Regiões Inferiores estava sedenta por encontrar uma saída, mas
sistematicamente era atraída para uma espécie de furor, de agregado de energias
bruxuleantes que encontrava no personalismo inferior de outros sujeitos inebriados nos
vícios, e desesperados por tormentos morais!

Então... Na primavera, pois que me identificava num campo que na crosta conseguira
estar, ignorando os métodos, fora atraída a uma pessoa que pensava em mim, e era de
minha família.

Ao me aproximar desta pessoa, verdadeira Constelação de Energias Psíquicas


despertou-me e emocionara-me profundamente, abraçando-me a ela que me registrou
com incrível serenidade para adentrar em uma forte corrente magnética de oração.

Via-me cercada de imagens conflitantes à primeira hora... Amargurados registros


transbordava-me em cheio na consciência, a fazer todo o meu ser a vibrar por aquela
que um dia me prometera proteção, que era minha mãe.

Minha mãe sempre fora meu espelho na personalidade, a considerava pela


materialização de meu Álter Ego, o Outro Eu, que em verdade eu seria o seu Álter
Ego... Não sabia explicar ao certo a nossa relação de energias, vigorosas, intensas, mas
sempre conflitantes...

Onde estava minha mãe que também havia desencarnado?

Do Inconsciente um rio de energias atingiu-me na flor aberta da consciência e quedei


ao solo. Não havia alívio emocional a exprimir o conjunto do que sentia...

Relampejos de memória... Um misto de minha subserviência e altives, meus


“pecados no sexo”, a tormenta de quem seduzia sem medir consequências emotivas no
Outro...

Sempre atendia aos costumes; era respeitada e temida; outra vez bela e depressiva...
Principalmente se não me sentisse desejada... Se não me perdesse nos olhos daqueles
que me admiravam... Marginalizei muito quem me transparecia inferior, e naquele
instante, não me sustentava integralmente, era rejeitada por minha própria consciência,
como se fosse um fardo sujo o meu Ego, e as escamas morais ferissem a tudo o que a
memória tentasse apagar, não podendo inclusive conter...

Mas... Uma fenda de luz se abriu na direção vertical de meus olhos...

Sem perceber, havia agora uma Constelação Multidimensional operando forças, a


Constelação do Espírito, a realizar-se na ruptura do meu Ego enfermo, e na consciência
migravam miríades de luz, que desinfetava o meu psiquismo contaminado pelo
egoísmo...

115
A passagem da luz...

A Alma individual integrando-se no Coletivo de Amor...

A Luz vencia a Sombra, e a Mula de carga perdia a veste pesada e obscura, para sair
de mim um pássaro radiante, iluminado pela dor, insculpido pelo sofrimento,
identificado com a Potência Divina na presença espiritual de minha mãe que me veio
buscar...

Sentia-me, no âmbito psicológico, na condição mais próxima da criança. Identificava


o Self, mesmo ainda não haver conquistado a Individuação, mas algo poroso em minha
consciência transcendia a razão de pensar, e concatenava as elegantes formas etéreas da
sensibilidade aflorada.

Todo o processo teve início com a dor, no sofrimento abençoado. Uma dor que se
desenvolveu naquela Constelação Familiar e transformando-me sutilmente para a
Constelação Cósmica!

Desde então... Absorvo do Universo sua fluidez... Energias benévolas me atraíram a


está colônia, e de Espírito leve, o pássaro sente-se livre, e a mente da criança manterá a
pureza, perdendo a ingenuidade...

Uma força cocredora me possibilita tanger nesta Estrela de Jesus (assim Salomé
define “O Mar Alto da Consciência”), sob leve fluxo, alegria em sentir... Que
transforma a dor em felicidade; que converte o sacrifício e lágrimas em sorrisos de
gratidão...

E, com lágrimas nos olhos... Salomé encerrava aquele impressionante relato, com
uma frase:

-- A “Estrela de Jesus” empresta a Mãe Terra, algo de nossa atmosfera psíquica para
a fluidez de um mundo melhor...

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A TEORIA DA PERMANÊNCIA

O Satélite Lunar fazia-se muito belo. Era como um diamante onde os ângulos se
fundiram para uma imensa esfera circular...

Melodia suave...

À noite, a colônia respirava intensa atividade na Medicina da Alma, e jungido a


esses pulmões da ciência do bem-estar na vida espiritual, eu encontrava o oxigênio a
pulsar em minha mente.

Visitávamos uma residência muito especial.

A senhora Clarisse, digna Pedagoga, recebeu-nos cordialmente.

Quem fazia as honras daquela casa era Dionísio. Sim. Clarisse é a esposa de nosso
Guia Espiritual, e impressionava-me a evolução daquele Espírito, que segundo
informara-nos prazenteiro o nosso novo amigo: “Minha Esposa é a educadora das
crianças”.

À mesa... A simpática Matrona, que estava na semelhança de uma senhora de


aproximados 70 anos, servia-nos um caldo fluídico bem consistente. O sabor fez-me
recordar o queijo derretido, delicioso, e revigorante.

Jerônimo e nós outros, os visitantes na casa de Dionísio, não tínhamos palavras para
agradecer.

O casal não detinha junto deles a presença dos filhos, que permaneciam nas lutas
redentoras da reencarnação. Para minha surpresa, aliais “viva surpresa”, a senhora
Clarissa comentou que seu filho mais velho era uma alma muito sábia, douto em
Filosofia, e aplicado na caridade, e, inclusive, já havia sido cotado por colaboradores de
“O Mar Alto da Consciência” para entrar em preparação de cem anos, ou dez décadas
de estudo na Medicina da Alma, para estagiar uma reencarnação em outro planeta de
Sistema Solar mais vultoso que a nossa Via Láctea, onde este estágio seria uma
passagem de 500 anos, para depois retornar a Terra, e participar do progresso na
regeneração.

Insisti, mas a senhora Clarisse diz-nos que não detinha permissão para ampliar o
horizonte de tão interessante assunto.

“Se essas informações fossem detalhadas por entre nossos irmãos encarnados, senhor
Luís, certamente o senhor não teria ainda crédito para dar prosseguimento na sua
divulgação, mesmo entre nossos irmãos esclarecidos e experimentados nos assuntos
metafísicos, os “Espíritas””.

Tive de concordar.

117
A sabedoria feminina é sempre a mais ampla psicologia do universo, logo abaixo
dos Anjos e os Anjos abaixo de Deus...

Foi uma noite tranquila. Diálogo produtivo.

As palavras de Clarisse eram muito esclarecedoras, e atendiam plenamente a nossa


vontade em tentar compreender minucias do pensamento humano, por meio da ótica
espiritual.

Falávamos com respeito à ansiedade.

Timbre de voz doce, e notadamente pacificado, dizia-nos Clarisse:

-- O ansioso de hoje é o Seareiro do Cristo no amanhã.

A natureza nos dá o exemplo mais sublime da nascente pequena e precipite; no rio


tomado pela fúria da correnteza; e a permanência nas águas do mar.

A natureza ensaia nas águas algo que o princípio vital exprimirá sinais no Reino
Vegetal; instinto e movimento no corpo animal; inteligência, raciocínio e ansiedade no
veículo humano... Até alcançar a plenitude do Self, na condição de puro Espírito, que
tudo sente, sabe e suporta, em permanência de amor nas águas sublimes do fluido
universal haurido de Deus.

-- Por obséquio, defina melhor “Permanência”, no sentido psicológico, senhora


Clarisse—solicitei.

A Matrona do lar sorriu com simplicidade e elegância, e obtemperou:

-- A Biologia está na Mente, e também na Alma...

Charles Darwin concebeu a origem das espécies por meio da seleção natural das
raças favorecidas na luta pela vida...

Margaret Mahler reflete a fase inicial da vida humana na Teoria da Simbiose...

Sigmund Freud minucia que as emoções estão presentes na área primitiva do


cérebro...

Tanto no tempo, como no espaço, tanto na latência quanto na experiência... O


Espírito permanece em Deus, muito embora seja preciso que se afaste temporariamente
num complexo mecanismo de desabrochar da Consciência, em nada se perde em
essência desde o instante belo do raio de luz (*).

(*) Raio de luz: a definição da Instrutora Espiritual para definir o momento da concepção do
princípio inteligente/ nota do Autor espiritual.

Quando o dia amanhece... A natureza toda canta a melodia da vida!

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O raio de sol permanece na fotossíntese das folhas verdes; na síntese de vitamina e
minerais do animal. Interage com o húmus da Terra, e causa reações inúmeras no
imenso lençol de águas...

Tudo permanece. Todos sentem. Penetrante é a Vida no seio de Deus, e Deus abraça
o cosmos, em muitos braços de luz!

As mudanças morfológicas desde as plantas até alcançar o animal, é a permanência


do princípio espiritual movendo-se, mas jamais algo se perde nele. Tudo agrega,
clarifica, ilumina, reage, perde, sofre e cresce. Mas a estação dos grilhões psíquicos em
desenvolvimento está na aquiescência da vida...

O barulho das águas... O cântico dos pássaros... O sopro do vento... Arabescos...


Pólen disseminado na atmosfera... Todas essas coisas permanecem em Deus, é energia
consubstanciada no plasma que verterá nos milênios solidários o sopro da Consciência.

Sábio foi o homem ao entender nas interpretações bíblicas, que Deus tomou do barro,
e soprou, e este ganhou vida...

Tudo está intimamente ligado na natureza... As variações nas formas, nas espécies,
nas cores, são meramente registros do princípio vital, como as gotas que se armazenam
em um recipiente modulado pelo hábil Artesão da Vida...

A biologia da mente ensina ao homem que a riqueza dos neurônios, as sinapses


cerebrais estão também além, no espaço, nas estrelas do infinito escuro que prorrompe à
eclosão da luz!

O mesmo princípio na Luz Solar, na energia nuclear, é regente na formação das


ideias humanas, ou se melhor poderíamos definir, a “Permanência da energia difusa,
radiante, veloz na luz, estática no diamante, é a metamorfose do princípio espiritual,
crescendo initerruptamente, ainda que lento na passagem do tempo seja veloz na
Permanência da Eternidade!”

Clarisse silenciou. Em torno de sua fronte nos era possível apreciar miríades de luz
em opalinas faíscas...

Doce e branda, radiante e plácida, como eram bom permanecer próximo de sua
atividade mental...

Encabulada, a simpática Matrona exclamou:

-- Veja só... E pensar que iniciamos este despretensioso diálogo a mencionar nosso
pobre conceito sobre ansiedade...

--Sim, sim – despertava Dionísio ao nosso lado, talvez com o pensamento em


alguma estrela muito distante--, quem está na Terra vive ansioso pelo dia de amanhã, e
se esquece de que hoje, o presente, é a nossa melhor e mais prática noção de
imortalidade!

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O hoje indefinido... Ininterrupto... Alvo como a neve nas Regiões Glaciais... Rubro e
incandescente ao núcleo da Terra onde as lavas vulcânicas permanecem em atividade...

-- Céu e Inferno permanecem em nós—retomava elegantemente a esposa de


Dionísio--, mas passam... No entanto somente Deus permanece Eterno em Vida, para a
felicidade radiante da Natureza Cósmica que não cede à força da destruição, e sim
acrescenta na modificação, nos estágios atômicos e radiantes, no espectro da luz!

E, finalizando aquele momento de transcendente atividade psíquica, Clarisse deixou


verter uma lágrima de emoção e balbuciou:

-- Entenderemos Deus permanente em nós, na Permanência do Cristo... Jesus é nosso


Guia por entre a vasta rota dimensional da alma em peregrinação a caminho da luz...

FIM.

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