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Política secular e intolerância religiosa na

disputa eleitoral
EDUARDO DULLO1

No dia 13 de setembro de 2012, a menos de um mês da eleição para prefei-


to, a Arquidiocese de São Paulo publica em seu site e divulga aos meios de
comunicação uma “Nota de repúdio” a um texto escrito por Marcos Perei-
ra, coordenador da campanha do candidato Celso Russomanno, do Partido
Republicano Brasileiro (PRB). Naquele momento, segundo as pesquisas2, o
candidato do PRB possuía 35% das intenções de voto, sendo o primeiro da
lista. O segundo colocado era José Serra, do PSDB, com 19%, e em terceiro,
Fernando Haddad, do PT, com 15%. Celso Russomanno aparecia como uma
grande surpresa, com um avanço inesperado mesmo para os membros de seu
próprio partido. A possível eleição de Celso Russomanno para prefeito da
maior cidade brasileira era vista pelos adversários como uma ameaça iminente.
De acordo com Abreu (2013), a ameaça em um futuro próximo inverte a
relação de causalidade, fazendo com que a indeterminação do futuro opere
como causa do presente. Esse parece ser o caso na disputa eleitoral, a partir
do prognóstico de vitória divulgado pelos meios de comunicação com base
nas pesquisas de intenção de voto.

1
Agradeço as sugestões de Regina Novaes, de Diana Lima, de Evandro Bonfim e de Paula Montero
a uma versão anterior deste texto.
2
Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/politica,crescimento-de-russomanno-e-
-homogeneo-aponta-diretora-do-ibope,930608,0.htm>.

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28 O cenário trazia a profunda insatisfação do eleitorado com a linha de conti-
nuidade da prefeitura, com o PSDB como o partido da situação. Mesmo sendo
Kassab (DEM) o prefeito na ocasião (eleito em 2009), ele ganhara notoriedade
publicamente como o vice de Serra na eleição de 2004, assumindo o posto em
2006 quando este último renunciou para se candidatar ao governo do Estado. A
emergência de Celso Russomanno evidenciava o descontentamento da popula-
ção com as duas principais legendas: o PSDB e o PT, num cenário que se tornaria
mais dramático nacionalmente em 2013 com as manifestações durante o mês
de junho e com o rompimento parcial da polarização nas eleições presidenciais
de 2014, graças à candidatura de Marina Silva pelo PSB.
O primeiro parágrafo da “Nota” publicada pela Arquidiocese de São Paulo é este:
O “Pastor” Marcos Pereira, presidente do Partido Republicano Brasileiro (PRB), do
candidato à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, partido que é manifesta-
damente ligado à Igreja Universal, publicou no seu Blog, em um site vinculado ao
portal da Record, uma série de ataques à Igreja Católica (“Qual o futuro da educação
no Brasil?” – R7). Numa clara demonstração de destempero, ele atribui à Igreja o
tal “kit gay” do governo e se coloca totalmente contra o ensino religioso nas escolas,
esquecendo-se que o “Acordo Brasil-Santa Sé” poderá ser interpretado a favor de
todas as religiões. E não se impõe a ninguém, sendo a matrícula de livre escolha3.

Inicia-se, assim, a denúncia pública4 feita pela Igreja Católica. Seguindo a pro-
posta de Boltanski (2000), a denúncia pública envolve quatro atores formando
o sistema: (1) o denunciante, (2) o denunciado, (3) a vítima e (4) o juiz. No
presente caso, eles são: (1) o Arcebispado da Igreja Católica em São Paulo, (2)
Marcos Pereira, coordenador da campanha do candidato Celso Russomanno
(PRB), (3) a Igreja Católica, os fiéis católicos e a democracia em um Estado laico,
e (4) os eleitores, que votarão ou não no candidato do partido denunciado.
Não cabe, porém, ao analista julgar qual o objetivo ou plano secreto deste ou
daquele agente, e sim, seguindo a proposta de análise de uma denúncia e de
uma controvérsia pública, analisar os argumentos mobilizados, as justificativas
apresentadas e as estratégias articuladas nos discursos (cf. BOLTANSKI, 2000;
BOLTANSKI; THÉVENOT, 2006; BOLTANSKI; CLAVERIE, 2007). Ao re-

3
“Nota de repúdio”. Disponível em: <http://www.arquidiocesedesaopaulo.org.br/sites/arquidioce-
sedesaopaulo.pucsp.br/files/nota%20rep%C3%BAdio%20marcos%20pereira%20%281%29.pdf>.
4
A dimensão pública do evento tem lugar nos meios de comunicação de massa, centralmente os
jornais impressos, on-line (que privilegiei como material de pesquisa, dada a facilidade de acesso
tanto para o autor quanto para o leitor) e televisivos, responsáveis pela amplificação e pela visibi-
lidade dos discursos. Os sites tanto da Arquidiocese quanto do PRB também foram considerados
para esta análise.

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cusar a posição de juiz do acontecimento, o analista não está, necessariamente,

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evitando a atitude crítica, mas ressaltando que essa posição está socialmente
ocupada: os juízes legítimos dessa controvérsia são os eleitores e é a eles que
tanto o denunciado quanto o denunciante se dirigem5.
A metodologia de análise de controvérsias é particularmente instrutiva por
colocar em destaque as diferentes conceituações que os agentes possuem a
respeito de determinado assunto ou conceito. Além disso, essa abordagem evita
que o trabalho do pesquisador torne-se a descrição de uma (única) visão de
mundo ou ponto de vista sobre o acontecimento, elevando-o a um status que
não encontra ressonância no mundo social (maximizando sua visibilidade ou
tornando-o legítimo) ou utilizando-o para realizar um julgamento moral sobre
a situação. Ao levar a sério múltiplas posições contrastantes e em conflito, o
pesquisador é levado a analisar não apenas como os agentes se apresentam
publicamente, mas, sobretudo, como se constroem as relações (assimétricas)
entre eles e o exercício de poder de um sobre o outro6 – e deles em relação à
normatividade reinante. Torna-se, assim, imperativo que a controvérsia como
metodologia traga para a análise o ponto de vista de mais de um nativo. No
presente caso, tanto do Arcebispado da Igreja Católica quanto da campanha de
Celso Russomanno pelo PRB. O caso sob análise neste texto é particularmente
instrutivo para a compreensão dos sentidos sociais da laicidade, ao tornar
evidente como os envolvidos retraçam, a partir de suas posições, as fronteiras
entre religião e política. Isso ocorre por termos o representante máximo da
Igreja Católica local apresentando-se publicamente como um defensor da de-
mocracia e da laicidade na eleição, ao mesmo tempo que o denunciado é um
pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que reivindica
para si, também, o epíteto de defensor da laicidade num regime democráti-
co. Vemos, assim, duas posições contrastantes. A primeira veicula a posição
historicamente consolidada, e a segunda, a emergência de um novo paradigma

4
Além disso, é preciso atenção para a dimensão pública do trabalho de análise, na medida em que a
sua publicação orientada para o lado A ou B incidirá como mais um elemento da disputa e não como
uma explicação científica externa. Esse ponto fica claro na presença de professores universitários,
geralmente sociólogos, cientistas políticos, antropólogos e filósofos políticos que são chamados a
expressar sua opinião em jornais, seja na forma de entrevistas, na de colunas de opinião ou como
citações autorizadas (“o sociólogo X, da Universidade Y, nos afirma que...”). Todos esses apareci-
mentos na esfera pública são parte do material e concorrem para o argumento de um ou outro dos
atores na esfera pública.
5
Nesse sentido, a análise de controvérsias proposta por Boltanski se opõe por um lado à de Latour
(2005), que propõe uma ontologia plana com apenas duas posições (mediador e intermediário) e,
por outro, à proposta de Bourdieu (1986), na medida em que procura deslocar a “sociologia crítica”
para uma “sociologia da crítica” operada pelos próprios agentes sociais (BOLTANSKI, 2011).

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30 de articulação social dos conceitos de religião e política e, consequentemente,
disputa o sentido da laicidade.
Além do deslocamento metodológico, proveniente do uso da “controvérsia”,
outra precaução teórico-metodológica advém da perspectiva sendo construída
por pesquisadores como Casanova, Asad e Taylor, entre outros (DULLO, 2012).
Tais trabalhos discutem como se formulou e como se atualiza a formação de
sociedades seculares (para o caso brasileiro, DULLO, 2013, 2014). Ao adentrar
nessa literatura, torna-se essencial não confundir o termo socialmente em dis-
puta, laicidade, com instrumentos conceituais do analista, como “secularismo”,
definido como o conjunto de crenças ou doutrinas políticas que sustentam o
mundo secular e que, assim, são muito mais amplas do que a separação entre
Igreja e Estado, envolvendo noções de subjetividades, de corporalidade, a re-
flexividade científica e ainda de temporalidade (ASAD, 2011; BUTLER, 2008;
CASANOVA, 2011; KOSELLECK, 2003; TAYLOR, 2007), pouco ou nada
utilizado pelos agentes sociais. A análise de controvérsias se dá sempre entre
perspectivas discordantes dos agentes sociais posicionados, tornadas visíveis a
partir de momentos críticos. Por isso, e seguindo as propostas de Asad (2010),
cabe ao pesquisador analisar a maneira pela qual a religião é definida histórica
e situacionalmente ao invés de apresentar uma definição universal e trans-
-histórica do fenômeno. Uma das preocupações do analista, portanto, deve ser
menos a tentativa de definir, antropológica ou sociologicamente, o que é (ou
deveria ser) “religião” e/ou quais ações são intromissões ou “contaminações”
da “religião” na esfera da “política” e, mais, a de analisar as maneiras pelas
quais essas fronteiras são traçadas pelos agentes em disputa.
Enquanto o sistema de classificação da realidade religioso/secular pode ter se
globalizado, o que permanece bastante disputado e debatido em quase todo lugar,
hoje, no mundo, é como, onde e por quem as fronteiras entre o religioso e o secular
podem ser desenhadas com propriedade (CASANOVA, 2011, p. 637).

Nesse movimento, tomamos categorias como “religião”, “política” e a defe-


sa da “laicidade” como conceitos nativos a serem examinados. A união das
duas abordagens – o estudo da controvérsia e a sociologia/antropologia do
secularismo – tem o mérito de nos permitir analisar as maneiras pelas quais,
historicamente, se configurou a secularidade no Brasil, ao invés de avaliar a
nossa maior ou menor adequação aos padrões de laicidade derivados de países
europeus ou norte-americanos.

6
Todas as traduções são de minha responsabilidade.

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Avançarei, assim, o meu argumento central de que a Igreja Católica possui uma

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posição bifronte no cenário brasileiro: por um lado ela é o paradigma social-
mente legítimo de “religião”; por outro, ela é um dos agentes fundamentais da
constituição de uma sociedade civil secular nacional, tendo agido em favor da
democracia e contra os regimes autoritários. O caso empírico aqui analisado
nos permitirá observar como essa posição se reatualiza no confronto com a
emergência de uma nova configuração entre os conceitos, proposta por uma
crescente presença evangélica na esfera pública.
Façamos, portanto, uma sistematização. Primeiro: quais os pontos da denúncia?
Como eles se referem ao texto de Marcos Pereira publicado no blog? A quais
contestações iniciais essa denúncia responde? E, ainda, quais são as estratégias
utilizadas para o engrandecimento de si e para a diminuição do outro? Um
segundo momento de análise se referirá às tentativas do denunciado e de seus
associados de evitar a instauração de uma disputa prolongada. Por fim, fecha-
remos com a tentativa de Celso Russomanno de encontrar-se pessoalmente
com Dom Odilo Scherer, o arcebispo, e sua ausência no colóquio organizado
pela Igreja Católica com os cinco candidatos com maiores índices de intenção
de voto. A partir desses elementos veremos quais foram as ações vistas como
afronta à “laicidade” por cada um dos envolvidos e quais os limites socialmente
aceitos para a presença da “religião” na esfera pública e/ou na “política”.

A denúncia
A denúncia pode ser resumida em um ponto central: o texto do coordenador
da campanha de Russomanno “cheira a intolerância religiosa”. Porém, isso
pode ser desdobrado: a acusação deve-se a dois argumentos do texto original
de Pereira, que foram interpretados como falsas acusações em relação à Igreja
Católica e como incitação à discórdia. Além disso, a categoria de acusação into-
lerância religiosa faz menção a um rompimento da fronteira entre “religião” e
“política”, que deveriam ser mantidas em separado – e de maneira ainda mais
clara durante as eleições. Vejamos os trechos:
Atribuir o malfadado “Kit Gay” e os males da educação no Brasil à Igreja Católica
não faz nenhum sentido e cheira a intolerância religiosa, que nunca foi e nem deverá
ser alimentada ou incentivada.

Qual seria o motivo para ataques tão gratuitos, infundados e ridículos à Igreja
Católica em tempo de Campanha Eleitoral? Lamentavelmente, se já fomentam

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32 discórdia, ataques e ofensas sem o Poder, o que esperar se o conquistarem, mesmo
parcialmente, pelo voto? (“Nota”, grifos meus).

O trecho de Pereira, cujo texto tem por título “Qual o futuro da educação no
Brasil?” (doravante “QFEB”), que motivou a resposta é o seguinte:
Agora, tentam nos impor os famigerados “kits gays”. Até quando o Vaticano terá
o controle das ações do governo, seja federal, estadual ou municipal? Até quando
o Brasil do século 21 continuará se curvando às “batinas púrpuras” de Roma? Pre-
cisamos salvar o Brasil e torná-lo um país verdadeiramente laico, completamente
livre da influência da religião (grifos meus).

Para além da polêmica do “kit gay” ou de combate à homofobia – e que não


foram implantados –, o texto de Pereira traz a acusação similar à da Arquidio-
cese de que há uma ingerência da religião na política, impedindo o caráter laico
do Estado de se consolidar de fato, sendo apenas de direito. Não apenas isso,
o trecho faz referência ao centro hierárquico de decisões da Igreja Católica, ao
usar os termos “Vaticano” e “Roma”, localizando, portanto, a fonte de influência
no Estado brasileiro fora do território nacional. Nesse sentido, é importante
atentar para o fato de que uma das três palavras-chave (os tags) com que ele
marcou a sua publicação foi “Roma”, sendo as outras duas “Estado laico” e
“kit gay”. A marcação e o uso de um localizador espacial específico em vez
de Igreja “Católica”, que quer dizer universal, serve como uma estratégia de
diminuição do adversário, evitando a generalização de uma posição (o cristia-
nismo eurocêntrico romano) como válida para outros contextos (o brasileiro).
A marcação de “Estado laico” é utilizada como bandeira política também na
crítica do “Acordo Brasil-Santa Sé” (para uma discussão do Acordo, ver GIUM-
BELLI, 2011), recusando-se o ensino religioso em escolas públicas como parte
dessa interferência. Com isso, Pereira reivindica para si a posição de defensor
da laicidade brasileira. Em seu blog, Pereira apresenta-se da seguinte forma:
Marcos Pereira é especialista em Direito e Processo Penal pela Universidade
Presbiteriana Mackenzie, professor universitário de Direito, advogado no Brasil
e em Portugal e membro fundador da CJLP – Comunidade de Juristas de Língua
Portuguesa. Foi membro colaborador nas comissões de Direito à Adoção e
Seleção e Inscrição da OAB/SP (Ordem dos Advogados do Brasil). Atualmente
é Presidente Nacional do PRB (Partido Republicano Brasileiro)8.
É relevante analisarmos a apresentação de si tendo em vista as estratégias de
engrandecimento e de legitimação do próprio discurso. Em momento algum

7
Perfil em: <http://noticias.r7.com/blogs/marcos-pereira>.

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aparece o seu pertencimento religioso, como pastor da IURD. Ao contrário,

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o que se divulga é uma carreira secular, preocupada com o regramento da
sociedade, sua legislação. Além disso, sua estratégia de engrandecimento vem
pela associação com diferentes entidades coletivas da sua área profissional:
“colaborador na comissão...”, “membro fundador da...”, “professor universi-
tário de...”, terminando com um engrandecimento fundamental na dimensão
política: “Presidente nacional do...”.
Em contraposição a esse engrandecimento, podemos marcar a diminuição
que a “Nota” da Arquidiocese opera em Pereira. Em primeiro lugar, devemos
marcar o uso de aspas ao se dirigir a ele com os termos “pastor” e “jurista”,
implicando uma reflexão acerca do sentido colocado. Ou seja, será ele real-
mente um pastor, termo religioso cujo uso a Igreja Católica deseja restringir,
reivindicando-o para seus membros, se o que ele faz é promover a discórdia?
Que pastor é esse que recai no pecado da vaidade ao se autoproclamar, se
“pavonear”? E será realmente um jurista apesar de seus títulos universitários
se ele se apresenta tão distante do conhecimento da justiça a ponto de fazer
acusações infundadas? É nessa dupla direção – tanto religiosa quanto secular
– que chega a afirmação contida na “Nota”: “Ele se pavoneia gritando um
currículo invejável, como se isso lhe desse o direito de falar inverdades, para
não dizer bobagens.” Esse duplo ataque já nos permite vislumbrar a posição
bifronte da Igreja Católica.

Instaurando ou dissolvendo a controvérsia?


Retornemos, portanto, à denúncia. As pesquisas de opinião apresentavam uma
grande vitória de Celso Russomanno, o que desagradava as duas grandes forças
políticas que se imaginaram as únicas com real capacidade de vitória: o PT e o
PSDB. Sendo o PRB um partido de menor expressão no cenário político local, a
existência de uma denúncia, vinda de fora da disputa eleitoral, foi um duro
golpe para a candidatura9. Para Russomanno era necessário, portanto, que se
apresentasse uma defesa e, na melhor das hipóteses, que se evitasse a instau-
ração de uma disputa prolongada e, se possível, que se retirasse a denúncia.

8
“Integrantes das campanhas de José Serra (PSDB) e Haddad já esperavam reação da Igreja Católica
que apontasse as ‘contradições’ do candidato do PRB, por causa da ligação de integrantes do partido
com a Igreja Universal. Embora tenham se encontrado recentemente com d. Odilo, negam que
fomentaram a reação.” Arquidiocese diz que partido de Russomanno fomenta discórdia. Disponível
em: <http://www.estadao.com.br/noticias/politica,arquidiocese-diz-que-partido-de-russomanno-
-fomenta-discordia,930304,0.htm>. Acesso em: 14 set. 2012, data da publicação.

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34 O primeiro argumento de defesa da campanha foi o da não coetaneidade do
texto do blog e o da denúncia. Assim, reivindicaram que o texto de Pereira
era de maio de 2011 e, portanto, não dizia respeito a uma polêmica atual. Se-
ria a Igreja Católica, por meio de sua Arquidiocese de São Paulo, que estaria
utilizando esse texto em tempo de eleição?
Segundo Pereira, o texto é antigo. “Era uma época em que eu estreava o blog
e vivíamos um momento específico, que era o possível lançamento do famige-
rado kit gay. Querem ressuscitar uma coisa do passado.” O presidente do PRB
disse que o artigo não foi um ataque à Igreja Católica. “Foi uma opinião sobre
questão específica naquele momento10.”
“Lamento que tal exercício de pensamento publicado há um ano e quatro meses
seja usado de maneira indevida às vésperas da eleição para a prefeitura de São
Paulo”, escreveu Pereira11.

Esse argumento procura fazer a denúncia da denúncia, virar a mesa e mos-


trar a Igreja como a verdadeira responsável pela intromissão religiosa da
política. A essa estratégia a Arquidiocese respondeu que o texto do blog era
atual por estar on-line, disponível para quem quisesse ver – o texto estava
no arquivo do blog.
A Arquidiocese não aceita a afirmação de que o fato foi trazido à tona por ela
mesma, ou por um “falso blogueiro”, uma vez que nem o próprio autor negou
a autoria do escrito, que se encontra atualmente no seu blog, e também nos
“sites” relacionados com o mesmo partido. Portanto, o artigo já estava sendo
usado na campanha eleitoral, antes da manifestação da Arquidiocese12.
Outro argumento mobilizado, e este foi mais recorrente, foi o de minimizar
a presença da IURD no partido e na campanha de Russomanno, e ampliar a
visibilidade católica. Nessa direção, o candidato afirmou em vários momentos
que o PRB contaria com 80% de católicos ante 20% de evangélicos, sendo que
apenas 6% do total seria da Universal e 14% de outras denominações cristãs.
Além disso, na tentativa de impedir o prolongamento da disputa, tanto Perei-
ra quanto o próprio Russomanno reivindicaram para o último a condição de

9
Arquidiocese diz que partido de Russomanno fomenta discórdia. O Estado de S. Paulo, 14 set. 2012.
10
Presidente do PRB diz lamentar uso eleitoral de seu texto por Igreja Católica. Disponível em: <http://
www1.folha.uol.com.br/poder/1154745-russomanno-diz-que-pretende-falar-com-arcebispo-sobre-
-ofensiva.shtml>. Acesso em: 14 set. 2012, data da publicação.
11
Set. 2012, “Política com ofensas à Igreja, não!”. Disponível em: <http://www.arquidiocesedesao-
paulo.org.br/?q=node/173688>. Acesso em: 16. set. 2012.

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“católico” e a independência do candidato em relação aos membros do partido

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ou aos apoios.
Pereira também destacou que Russomanno é católico e foi irônico ao comentar
trecho da nota que diz que integrantes da campanha “fomentam a discórdia”.
“Russomanno é católico. É ele que vai estar no poder, se vencer. E, portanto, não
oferece nenhum risco, já que é católico”13 (grifo nosso).

– Como bom cristão que sou, o que a gente precisa é amar o próximo. Eu não vou
plantar uma guerra santa. Nós estamos na campanha para a prefeitura de São Paulo.
Não é uma campanha religiosa14 (grifo nosso).

Os dois trechos são sumamente importantes: o primeiro aponta para a ideia


de que um candidato católico “não oferece nenhum risco”; o segundo pontua
que ele não está interessado em fazer da campanha eleitoral uma campanha
religiosa, em que a lógica imperante é a de uma “guerra santa”. Vê-se que es-
ses dois argumentos mostram como ele assume a posição normativa da Igreja
Católica em sua tentativa de evitar os danos à sua imagem. Afirmando-se como
católico – e não como evangélico ou como cidadão –, ele explicita o fato de que
essa é uma posição legítima e dominante. Por outro lado, quando associada à
segunda afirmação, vemos que o fato de o candidato ser católico não faz com
que sua campanha seja religiosa, mas esteja dentro das regras socialmente
válidas para a laicidade. Além disso, o fato de que ele retrocedeu, assumindo
discursivamente uma posição católica, demonstra a assimetria de poder na
relação entre esses dois agentes e/ou coletivos.
Em consonância a essas declarações, Russomanno conseguiu o apoio do bispo
da região sul e de um dos sacerdotes mais midiáticos da Igreja Católica, o padre
Marcelo Rossi – que teria celebrado o casamento do candidato com a segunda
esposa (ele é viúvo) e faria o batismo do futuro filho do candidato, posto que
a mulher deste estava grávida.
Em meio à crise entre a Arquidiocese de São Paulo e Celso Russomanno, o bispo
da Diocese de Santo Amaro, dom Fernando Antônio Figueiredo, defendeu ontem
o candidato do PRB a prefeito como um “bom católico”.

12
Russomanno minimiza carta da Igreja Católica contra PRB. Disponível em: <http://www.estadao.
com.br/noticias/politica,russomanno-minimiza-carta-da-igreja-catolica-contra-prb,930617,0.htm>.
Acesso em: 14 set. 2012, data da publicação.
14
Russomanno diz ser ‘bom cristão’ e promete não criar ‘guerra santa’. Disponível em: <http://
oglobo.globo.com/pais/russomanno-diz-ser-bom-cristao-promete-nao-criar-guerra-santa-
-6116649#ixzz26wBBUL62>. Acesso em: 19 set. 2012, publicado em 17 set. 2012.

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36 “Confio muito na sinceridade, na honestidade e no modo de agir e pensar de
Russomanno e de D’Urso. Serão totalmente independentes na questão religiosa”,
disse o bispo, também se referindo ao candidato a vice, Luiz Flávio Borges D’Urso
(PTB). “Eles são pessoas boas, conhecidas e de igreja15.”

“Só para encerrar o que você colocou: hoje dom Fernando, da Igreja Católica da
região sul, saiu em minha defesa. Ele me conhece. Não preciso dizer que sou católico.
Eu sou o que sou. As pessoas me conhecem há muitos anos”, afirmou Russomanno,
em entrevista ao SPTV, da TV Globo16 (grifo nosso).

Podemos observar esse núcleo de contra-argumentos da campanha como um


núcleo “religioso”, na medida em que é pela tentativa de associar-se com uma
imagem e identidade católica e não com uma cidadania desprovida de pertenci-
mentos religiosos. A inclusão de um membro da hierarquia como o bispo dom
Fernando e do sacerdote padre Marcelo Rossi, que é o mais midiático de todos os
padres brasileiros e possui forte apelo popular, garantiriam a legitimidade de sua
fala. Entretanto, como podemos notar pela última citação, a necessidade de
dizer que ele não precisa se afirmar católico é exemplar da crise em que ele
se encontra. Certamente, uma conclusão a tirar dessa linha de argumentação
de Russomanno é que podemos ver associações inesperadas, como a do apoio
recebido por parte da hierarquia católica. Porém, mais relevante ainda para a
nossa análise é que todo esse conjunto de justificações traz como aceita a iden-
tidade católica de um candidato, mas recusa a aproximação com os evangélicos.
Por qual razão apresentar-se como católico não é visto como problemático?
Ou como interferência da religião na política? Qual é a lógica subjacente às
afirmações do bispo ao dizer que ele seria isento na questão religiosa e, ao
mesmo tempo, afirmar que ele é uma pessoa “de Igreja”?
Renova-se, assim, a percepção de que não há uma interferência da religião
na política quando um candidato é católico, mas há um problema quando o
candidato aparece como vinculado a uma instituição religiosa não católica,
principalmente se for evangélica ou neopentecostal. Nesse caso, como as
justificativas mostraram, há a suspeita de que exista algum interesse escuso
na associação entre partido e Igreja. O maior problema, nesse sentido, é a
referência implícita à “bancada evangélica”, isto é, candidatos que, se eleitos,

15
Para bispo do padre Marcelo, Russomanno é “boa pessoa”. Disponível em: <http://www1.folha.uol.
com.br/poder/1156261-para-bispo-do-padre-marcelo-russomanno-e-boa-pessoa.shtml>. Acesso
em: 20 set. 2012, data da publicação.
16
Russomanno comemora defesa feita por bispo do padre Marcelo. Disponível em: <http://www1.
folha.uol.com.br/poder/1156461-russomanno-comemora-defesa-feita-por-bispo-do-padre-marcelo.
shtml>. Acesso em: 20 set. 2012, data da publicação.

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propõem projetos de lei e votam nas câmaras de acordo com os princípios

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morais de sua “crença”. Esse aspecto será retomado na conclusão, mas é
possível adiantar que esse ponto merece consideração na medida em que não
existe uma “bancada católica” formalmente organizada, ainda que exista forte
influência de políticos que são leigos católicos e, ainda, da instituição, na forma
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
A nossa delimitação metodológica da controvérsia não termina com esses
pronunciamentos. Dom Odilo Scherer reforçou a sua posição no dia 16 de
setembro. Ele escreveu uma nota que deveria ser lida durante as homilias das
missas dominicais, por aproximadamente 300 padres, repercutindo em milhares
de fiéis. Com o título “Política com ofensas à Igreja, não!”17, ele afirma que:
Arquidiocese, através de seu Arcebispo e dos Bispos Auxiliares, também deu
orientações e critérios sobre a participação dos fiéis na campanha eleitoral e na
vida política da cidade e sobre a escolha de candidatos idôneos, embora sem citar
nomes ou partidos. Essas orientações estão amplamente divulgadas18. Entendemos
que o voto dos cidadãos é livre e não deve ser imposto aos fiéis, como por “cabresto
eleitoral”, pelos ministros religiosos; nem devem nossos templos e organizações
religiosas ser transformados em “currais eleitorais”, reeditando práticas de uma
política viciada, que deveriam estar superadas. A manipulação política da religião
não é um benefício para o convívio democrático e pluralista e pode colocar em
risco a tolerância e a paz social.

Esse trecho é particularmente instrutivo para que compreendamos as diferenças


de posições e avancemos mais na tese de que a Igreja Católica sustenta-se em
uma posição bifronte. Do ponto de vista da Arquidiocese, o que está em jogo
é uma “manipulação política da religião”, em que os fiéis não são mobilizados
como cidadãos, livres e independentes, capazes de realizar as próprias escolhas,
mas conduzidos, governados por um pastor que os leva para o terreno mais
propício para eles, numa prática pouco democrática que remete ao coronelis-
mo da primeira metade do século XX. Assim, os termos “cabresto eleitoral” e
“curral eleitoral” trazem a imagem de uma população entendida como animal,
como um gado que precisa ser levado e direcionado, ao contrário de sujeitos
capazes de reflexão e decisão própria. Tal postura seria oposta à da própria
Igreja Católica, que, sem desconsiderar a importância da vida cidadã, não
impõe aos seus fiéis um determinado candidato, mas “apresenta orientações”.

17
Disponível em: <http://www.arquidiocesedesaopaulo.org.br/?q=node/173688>.
18
Ver Anexo.

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38 Além da leitura denunciatória dessas práticas, poderíamos nos perguntar se
o que está em jogo não pode ser analisado sob a ótica do “poder pastoral”, tal
como delimitado por Foucault (2003, 2008). Nos termos do autor, algumas
das características dessa relação é que um pastor “exerce seu poder sobre um
rebanho, mais do que sobre uma terra”; “reúne, guia e conduz seu rebanho”;
e visa assegurar a sua salvação (2003, p. 359). Não está fora dessa relação a
imagem do “curral”, pois é tarefa do pastor “conduzi-lo [o rebanho]a uma
boa pastagem ou reuni-lo no curral” (2003, p. 360). Por fim, tudo que o
pastor faz é pelo bem de seu rebanho. Esse último aspecto é importante
para uma diferenciação que faremos adiante, entre duas variações do poder
pastoral – uma evangélica e outra católica. O pastor representante político
pode ser lido como aquele que luta, ele mesmo, para garantir a salvação
do seu rebanho, ao passo que a forma católica é a de incentivar/governar
os leigos, de maneira a motivá-los a se manifestarem politicamente para
defender os valores e princípios de sua fé. Essa primeira diferenciação é
crucial: enquanto o poder pastoral evangélico é marcado pela ação do pastor
representante político, no poder pastoral católico o sacerdote estimula o
fiel a agir politicamente.
Lançadas em 15 de agosto de 2012, as “orientações” católicas para as eleições
municipais continham dez instruções. Cada uma delas possuía uma frase em
negrito, que resumia a ideia do parágrafo, e um trecho mais explicativo. Em
resumo, eram: 1. Participe e vote; 2. Vote em quem você conhece; 3. Prefei-
to e vereadores devem promover o bem comum; 4. Candidato de quem?; 5.
Confira a ficha; 6. Não venda o voto, nem o troque por favores; 7. Vote com
consciência e liberdade; 8. Questione se os candidatos...; 9. Política, religião
e família; 10. Fique de olho.
Considerando todas as dificuldades encontradas na tentativa de evitar a que-
rela, a campanha de Russomanno decide evitar o embate “religioso”, alterando
o foco para a questão “política”, como a de suas propostas de governo para a
prefeitura. Sua fala se torna, então, mais uma vez de defesa da cidadania e da
laicidade, pois ele afirma que “Religião é religião e política é política”. Assim, a
denúncia ocorrida nos permite observar de maneira clara as (não) delimitações
entre religião e política no Brasil. A candente questão e a luta por definição do
que é ou não “religião” pode ser observada na entrevista do candidato ao SPTV,
da Rede Globo. Ali, após ser questionado seguidamente acerca da presença
de membros da IURD em seu partido e/ou em sua campanha, ele respondeu ao
entrevistador: “Posso te pedir um favor? Vamos falar sobre São Paulo? Vamos
parar de discutir religião?”

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“Acho triste, essa apelação não leva a nada, não constrói cidadania, não respeita

Política secular e intolerância religiosa na disputa eleitoral


39
o eleitorado, não está respeitando o cidadão que quer saber das propostas para a
cidade”, ponderou Russomanno19.

Após insistência de jornalistas para que falasse sobre denúncias que vêm sendo
veiculadas na imprensa, Russomanno não quis comentar. “Quero falar sobre São
Paulo. Vamos parar. Se vocês quiserem falar sobre São Paulo estou a toda disposição,
com todo o entusiasmo”, disse20.

A disputa parecia suficientemente forte e, para que não afetasse a campanha,


restou aos membros do partido a mesma estratégia utilizada pelo site institu-
cional do PRB e do site ao qual está vinculado o blog de Pereira (R7, da Record,
vista como o braço midiático da IURD): o silêncio sobre o assunto, na tentativa
de fazê-lo extinguir-se. “Contatado, Pereira disse que não comentaria a carta,
para tentar ‘encerrar o assunto’21.”
Porém, essa última estratégia não foi bem-sucedida e, diante dos constantes
ataques que sofreu, Russomanno se retira do “Colóquio” organizado pela Igreja
Católica com os candidatos. Sua equipe tentou, em vão, organizar um encontro
com dom Odilo Scherer, que recusou com um argumento que figuraria entre
as posições da transparência democrática:
Questionado sobre se sua participação no debate de quinta-feira depende do
encontro com o arcebispo, o candidato do PRB disse que sua equipe considera
aconselhável a conversa. – Eu estou trabalhando com toda uma equipe e a equipe
acha prudente que eu converse com ele antes de ir para um debate onde eu não
sei o que vai acontecer – afirmou22.

Dom Odilo, que se prepara para embarcar para Roma em outubro, alegou um
problema de agenda para não receber Russomanno antes do debate promovido
pela Igreja Católica, mas não descartou receber o candidato antes da viagem. Outro

19
Não vamos fazer de São Paulo uma guerra santa. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/
noticias/impresso,nao-vamos-fazer-de-sao-paulo-uma-guerra-santa-,931619,0.htm>. Acesso em:
17 set. 2012, data da publicação.
20
“Religião é religião e política é política”, diz Russomanno. Disponível em: <http://www.estadao.
com.br/noticias/nacional,religiao-e-religiao-e-politica-e-politica-diz-russomanno,931111,0.htm>.
Acesso em: 15 set. 2012, data da publicação.
21
Russomanno é alvo da Igreja Católica em missas dominicais. Disponível em: <http://www1.folha.
uol.com.br/poder/1154520-russomanno-e-alvo-da-igreja-catolica-em-missas-dominicais.shtml>.
Acesso em: 17 set. 2012, data da publicação.
22
Russomanno diz que arcebispo de SP precisa conhecê-lo de perto. Disponível em: <http://
oglobo.globo.com/pais/russomanno-diz-que-arcebispo-de-sp-precisa-conhece-lo-de-perto-
-6129265#ixzz26wAsnNCr>. Acesso em: 19 set. 2012, publicado em: 18 set. 2012.

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40 motivo mencionado pelo líder religioso para não se encontrar com o candidato do
PRB na véspera do colóquio, segundo a assessoria de imprensa da arquidiocese, foi

que isso poderia causar um mal-estar com os outros candidatos, uma vez que não
estava previsto nas regras do encontro23.

Russomanno não vai ao “Colóquio” organizado pela Arquidiocese com os


cinco candidatos com maior intenção de voto nas pesquisas. Na mesa em que
figurariam, lado a lado, permanece vago o local destinado a ele, com o seu
nome visível, tornando concreta a sua ausência. Esse é mais um dos momentos
em que podemos observar a assimetria de poder entre os envolvidos: a Igreja
Católica foi capaz de organizar um evento e convocar os candidatos para que
respondessem a perguntas feitas pelo seu clero. Essa prática, normalmente
restrita aos meios de comunicação de massa com a justificativa de tornar visíveis
as propostas dos candidatos, foi realizada por uma Igreja. Para Russomanno,
sobrou apenas a decisão quanto a ir ou não ao evento.
Seu encontro com dom Odilo ocorre, portanto, após o “Colóquio” e marca o
término da controvérsia. Em dez dias de intensas discussões, o candidato do
PRB saiu enfraquecido, tendo que se explicar ao arcebispo de São Paulo para
tentar readquirir a confiança de muitos eleitores católicos e não católicos.
O cardeal confirmou que, na reunião, Russomanno procurou se desvincular do
episódio que gerou o desconforto com a Igreja. Ele também disse esperar que o fato
seja considerado agora “letra morta”. “Quanto ao artigo, eles tomaram distância. E
espero que daqui por diante isso seja considerado letra morta. Agora a gente precisa
ver os passos seguintes”, afirmou o cardeal24.

A posição bifronte do catolicismo


O desfecho do último tópico demonstra a reatualização da posição católica
como dominante, ao mesmo tempo que torna explícita a crescente presença
de outras formas, contestatórias de sua normatividade. Assim, ela é o modelo
legítimo de uma Igreja que se mantém circunscrita ao domínio socialmente
estabelecido como “religioso”, ao mesmo tempo que se manifesta como agente
de defesa e constituição de uma sociedade civil democrática e secular.

23
Cardeal nega encontro com Russomanno antes de debate. Disponível em: <http://g1.globo.com/sao-
-paulo/eleicoes/2012/noticia/2012/09/cardeal-nega-encontro-com-russomanno-antes-de-debate.
html>. Acesso em: 19 set. 2012, data da publicação.
24
Russomanno busca desfazer mal-estar com arcebispo. Disponível em: <http://www.estadao.com.
br/noticias/nacional,russomanno-busca-desfazer-mal-estar-com-arcebispo-,934407,0.htm>. Acesso
em: 22 set. 2012, data da publicação.

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Poderia parecer inusitado que a Igreja Católica, que tem por princípio a au-

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41
toridade da mediação com o divino, fosse compreendida como promovendo
uma discussão democrática e secular. Porém, isso só seria incompreensível caso
não atentássemos para a sua posição histórica no Brasil e para a singularidade
do caso nacional. O que é preciso compreender é que não é a Igreja Católica
no Brasil que está promovendo uma democracia secular, ou melhor, não é
apenas isso. Trata-se, em suma, da uma constituição histórica da secularidade
democrática brasileira a partir do entendimento católico do tema. Isto é, meu
argumento é o de que a percepção consolidada do que é uma posição “laica”
no debate político é derivada da própria posição católica. Não é, portanto, a
Igreja que se tornou laica, mas a laicidade brasileira que está prenhe de um
determinado catolicismo.
Para que possamos alcançar uma alternativa analítica aos posicionamentos
mobilizados pelos agentes, sugiro a recuperação da dimensão histórica. Nesse
sentido, o caso brasileiro se deu por uma predominância da Igreja Católica
como o paradigma do que é uma religião (GIUMBELLI, 2008; MONTERO,
2009). Desde a separação entre Igreja e Estado, com a constituição republicana
no final do século XIX, a Igreja veio progressivamente adotando uma postura
de “formação das almas” em vez de tentar recuperar o poder estatal (cf. RO-
MANO, 1979). Seguramente diversos foram os momentos em que houve a
busca por um retorno a essa ligação, mas não tem sido a posição dominante
– o que pode ser evidenciado já nos anos 1920 com a recusa de criação de um
partido católico por parte de dom Leme (em contraposição ao leigo Jackson
de Figueiredo, que teve de se contentar com a Liga Eleitoral Católica, como
forma de influenciar o eleitorado para não votar em determinados candidatos).
Essa postura, expandida na figura de seu sucessor Amoroso Lima, vem coroar a
disposição da Igreja em afastar-se da política institucional e optar pela política
societária, pela relação de esclarecimento da população quanto aos verdadeiros
valores e princípios a serem seguidos e defendidos, bem como na denúncia
de determinados candidatos como contrários a esses ideais. Essa postura fica
bem expressa na posição da Igreja em desmontar candidaturas que estão na
posição antagônica aos seus princípios e não na adoção do simples apoio a um
ou outro candidato. Além disso, a Igreja Católica foi um importante agente
na oposição ao regime militar e na luta pelos direitos humanos e políticos (cf.
KADT, 2003; PAIVA, 2003), o que a fez identificar-se com a democracia atual,
aspecto utilizado por ela em suas justificações.
A denúncia e a polêmica que se seguiu estão em consonância com essa postura
histórica. A minha sugestão é a de que a Igreja Católica articulou os termos
“religião” e “política” (e, com isso, formulou um determinado sentido para a

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42 “laicidade”) com base em sua experiência e, mais importante, essa é uma forma
de secularidade que se consolidou ao longo do século XX (cf. DULLO, 2013).
Assim, quero ressaltar os pontos de discordância entre os agentes para tornar
visível a forma secular católica e como ela é entendida como a referência tanto
para o nosso entendimento de “religião” quanto de respeito à “laicidade” do
Estado. A interpretação que ofereço é a de que a Igreja Católica alcançou uma
posição bifronte: ao mesmo tempo que é a referência legítima para o que é uma
religião, ela é a referência de agente secular capaz de fomentar a democracia, po-
sição que é, apenas, reatualizada no presente caso. Enquanto a primeira posição
já foi objeto de análise – como em Giumbelli e em Montero –, a segunda posi-
ção ainda precisa ser elucidada. Vejamos, portanto, uma primeira delimitação.
Nas “orientações” que apresentou aos seus fiéis, a Arquidiocese listou dez di-
retrizes, já citadas. Em sua maioria, elas projetam uma grande abstração, como
afirmações de princípios: “[os candidatos] devem promover o bem comum”,
“o bom governante deve governar para todos”, “seu voto é sua dignidade”,
“não deixe de seguir a campanha”, “fique atento a toda prática de corrupção
eleitoral” e, ainda, “depois das eleições, acompanhe as ações e decisões [...].”
Ao contrastar a orientação católica com a posição denunciada (subentendida
como evangélica), podemos ver que não há referentes concretos, como pautas
específicas pelas quais os católicos deveriam se mobilizar. Não há, tampouco,
a recusa de candidatos, partidos ou pautas – com uma única exceção sobre a
qual voltarei adiante. Essa retórica possibilita um engrandecimento da posição
e uma maior generalização, nos termos de Boltanski (2000), fazendo com que
ela seja mais facilmente aceita na esfera pública. Sua preocupação com o “bem
comum” é característica de toda uma tradição democrática e dificilmente
seria rotulada como “religiosa”. Em suma, todo o folheto está inscrito numa
retórica secular, democrática, de aconselhamento e conscientização daquele
que deve, livremente, realizar a sua escolha. O fiel católico, aqui, não aparece
como sujeitado ao cabresto religioso da Igreja, como na imagem veiculada de
um “curral eleitoral”. A livre escolha, cidadã, é o tom dominante.
Essa posição foi reiterada na afirmação do arcebispo na abertura do “Colóquio”
com os candidatos: “Nós devemos orientar, mas não indicar um candidato.
Escolher o candidato é função do leigo católico e não da Igreja.” Porém, aqui é
importante fazer uma dissociação entre cidadão e leigo. O material veiculado e
as falas dos religiosos católicos marcam sempre a qualificação daqueles a quem
endereçam sua mensagem: são os fiéis, os leigos e não o cidadão indiferenciado.
Essa importante marcação de pertencimento combina-se com o comentário
feito acima acerca das variações do “poder pastoral”. A Igreja Católica opera,
governando e conduzindo seu rebanho, de maneira a que eles sejam agentes pú-

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blicos de uma democracia secular. Nessa posição bifronte, cabe à Igreja Católica

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43
manter-se afastada da “política” enquanto instituição, respeitando a legislação
acerca da “laicidade” estatal. Porém, a presença e a participação de seus fiéis
na esfera pública e nas disputas eleitorais e democráticas fazem parte da lógica
socialmente estabelecida ao longo da experiência brasileira do século XX.
A diferenciação entre ação de leigos e ação da Igreja remonta, no Brasil, ao
final dos anos 1930, em que, com a Ação Católica, Amoroso Lima subscreve
a separação pontuada por Maritain (cf. CROCHET, 2003; VILLAÇA, 1975).
Podemos, assim, ver como o descontentamento expresso pelo arcebispo em
relação ao texto do blog de Marcos Pereira segue nessa direção. Seria o pastor
da IURD, agora um secular coordenador de campanha, que estaria ferindo um
determinado sentido da “laicidade”, ao associar-se a duas instituições que
deveriam ser mantidas em separado? Ou seria uma transgressão a associação
da Igreja Católica por via do Acordo Brasil-Santa Sé? Instada a se defender, a
Arquidiocese assume na “Nota” não apenas a sua própria defesa, o que dimi-
nuiria a força do argumento, mas apresenta-se como defensora da democracia
secular ao acusar o pastor de intolerância religiosa, isto é, de não respeitar
o princípio da tolerância, fundamental na experiência liberal moderna desde
as guerras de religião no século XVII. Sua acusação, como vimos, é a de que é
o pastor, apresentado sempre entre aspas (“[...] o “pastor” [...]”), que fere a
laicidade da política ao ser presidente de um partido e coordenador de uma
campanha eleitoral, postura rechaçada pela Igreja para seus próprios membros
e generalizada como norma – reforçando a posição da Igreja Católica como
paradigmática do conceito de “religião” no Brasil.
Na sexta, ao comentar a mistura entre religião e política na campanha eleitoral
de São Paulo, d. Raymundo foi enfático: “A posição da Igreja Católica, enquanto
instituição, é de que não deve assumir nenhuma posição político-partidária. O papa
Bento 16, numa de suas encíclicas, Deus É Amor, foi muito claro ao dizer que a
Igreja não pode nem deve tomar nas suas mãos a batalha política. Isso é próprio
dos políticos, dos leigos. A igreja não pode ter pretensões de poder.”

Indagado se tal posicionamento deveria valer para outras igrejas, respondeu: “Den-
tro da minha perspectiva, valeria. No mundo democrático, o papel que cabe ao
Estado e aos leigos não é o mesmo da Igreja, cuja função é de orientar o eleitor.”
Ainda segundo o líder da CNBB, não cabe à Igreja assumir papel de protagonista no
campo político”25.

25
“Não se pode instrumentalizar a religião para obter voto”, diz presidente da CNBB. Disponível em:
<http://www.estadao.com.br/noticias/politica,nao-se-pode-instrumentalizar-a-religiao-para-obter-
-voto-diz-presidente-da-cnbb,930783,0.htm>. Acesso em: 14 set. 2012, data da publicação.

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44 Outro fato que corrobora essa posição bifronte da Igreja Católica em relação
à democracia secular está na realização de um “colóquio” com os candidatos a
prefeito no dia 20 de setembro. A opção por “colóquio” em vez de “debate”,
como preferem os jornalistas e muitos políticos, traz, por um lado, a marca
acadêmica de enunciação de posições e, por outro, a ênfase na explicação e
na resposta a perguntas em vez do confronto direto (e sensacionalista) entre
candidatos. Boa parte da imprensa insistiu em chamar o evento de “debate”,
ao que manifestou seu descontentamento com o pouco confronto direto.
Ao colocar os candidatos para responderem a perguntas de dez sacerdotes
católicos a respeito de questões importantes para a promoção social ancorada
nos princípios do evangelho – como a preocupação com os moradores de rua
–, a Igreja reafirma sua prática de constituir a democracia secular a partir de
sua posição de separação entre Igreja e Estado, não ultrapassando os limites
estabelecidos pelo último como necessários para a laicidade.
A conclusão que se torna imperativa é a de que a percepção dominante é a
de que a Igreja Católica não representa uma ingerência na política. A única
modificação digna de nota diante do cenário consolidado é a orientação de
número 9. Transcrevo-a na íntegra:
9. Política, religião e família. Vote em candidatos que respeitem a liberdade de
consciência, as convicções religiosas e morais dos cidadãos, seus símbolos religiosos
e a livre manifestação de sua fé; da mesma forma, apoie candidatos que amparem a
família e a protejam diante das ameaças à sua identidade e missão natural. A cidade
que descuida ou abandona a família herdará muitos problemas.

Essa orientação tem como meta, implícita, informar aos fiéis que há can-
didatos que possuem uma posição moral que difere dos seus princípios e
de suas convicções religiosas cristãs. Isso se tornaria ainda mais grave na
medida em que é “a família” o alvo, pois ela é o ponto de transmissão de
valores, é da família que se “herdam” as benesses ou os “muitos problemas”.
A transformação da família enceta uma dificuldade grande para uma Igreja
que tem se pautado pela via da “formação das almas”, isto é, que atua mais
na política societária que na institucional. Tal decisão eleitoral poderia,
assim, fazer com que o futuro seja contrário ao esperado. Nesse sentido,
vemos que é a única das orientações que traz um tom denunciatório ou de
ameaça. Entretanto, da maneira como foi colocado, o texto sugere ainda
uma relação estreita com a cidadania moderna pela via da responsabilidade,
já que tem em vista possíveis consequências das ações políticas do sujeito.
Além disso, faz valer o princípio secular de liberdade religiosa, pontuando
que se há candidatos que diferem da convicção cristã do fiel, é legítimo que

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ele escolha um que manifeste as mesmas preocupações que ele e, por fim,

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45
que respeite a “livre manifestação de sua fé”.

Conclusão
A controvérsia entre o arcebispo de São Paulo e a campanha de Celso Rus-
somanno se mostrou particularmente instrutiva para que compreendêssemos
como a Igreja Católica se posicionou publicamente diante das fronteiras
traçadas acerca de “religião” e “política”. Vimos que ela se coloca numa sin-
gular posição bifronte: é ao mesmo tempo o paradigma de religião legítima e
de promotora da democracia secular no Brasil. A delimitação dessa posição
só foi possível ao vermos os pontos de discordância perante o denunciado. A
conclusão é a de que existe uma forte concordância entre a formação secular
brasileira, a definição de laicidade e a posição oferecida pela Igreja Católica.
Como é percebida, pelos agentes sociais, a intromissão da religião na política?
Podemos elencar, a princípio, três pontos. O primeiro é o pertencimento de
um indivíduo como membro de uma Igreja e como membro de um partido
político: ser ao mesmo tempo pastor e candidato – posição rechaçada pela
Igreja Católica para seus membros. O segundo é a intolerância religiosa, em
que se evita o “bem comum” e promove a própria fé (particular), incitando
a discórdia e o conflito interno – ofendendo o princípio básico da tolerância,
característico do fim das guerras religiosas e de fortalecimento do Estado.
O terceiro é a condução tutelar do rebanho, fazendo dos templos um local
de propaganda política e apresentando candidatos aos eleitores – o que nos
leva para a conceituação de uma variante evangélica do “poder pastoral” em
detrimento da consolidação do cidadão livre e autônomo, como responsável
pelas suas escolhas.
A reação neste episódio foi tímida e não visou uma autoafirmação de sua
posição, como ocorreu posteriormente com outro caso, o do pastor Marco
Feliciano na Comissão de Direitos Humanos. Percebo, porém, que os dois ca-
sos estão conectados. Há a emergência de um novo paradigma, de articulação
dos termos em disputa, como os três pontos identificados acima permitem
entrever. Nesse novo paradigma, ainda em gestação e indeterminado, não
parece ser problemático que um pastor seja um representante político, nem
parece ser problemático lutar pelos princípios que ancoram a sua fé, ou, ainda,
que o pastor conduza o seu rebanho. Esse paradigma em gestação está num
horizonte de indeterminação e de ameaça de mudança, tanto para o cenário
político quanto para a definição do que cabe no conceito de laicidade.

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VILLAÇA, Antonio Carlos. O pensamento católico no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.

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