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21/05/2021 Anais Digitais - 13º Encontro SOCINE

Anais Digitais - 13º Encontro SOCINE


ISBN: 978-85-63552-05-1

Instante qualquer, momento pregnante e fotogenia: Jean Epstein vs.


Título
Siegfried Kracauer

Autor Ismail Xavier

Resumo Nos séculos XVIII e XIX, há uma vertente teórica que se volta para o
Expandido problema de como a pintura, como arte do espaço, pode representar o
tempo; a aproximação da obra pictórica à cena teatral, como na estética
de Diderot, por exemplo, se desdobra na proposição de que o quadro
deve buscar a representação do momento pregnante, ou seja, aquela
configuração da cena que toma o momento-configuração representado
como um elo de ligação entre o que acabou de acontecer (passado
imediato) e o que está na iminência de acontecer (futuro imediato).
Gotthold Lessing, contemporâneo de Diderot, resume bem esta exigência
feita à pintura como arte do espaço: “a pintura...deve escolher o momento
mais fecundo e o melhor para fazer compreender os momentos que a
precedem e os que a sucedem”.

Está claro que o quadro não deveria ser a “imagem impressa” de nenhum
instante, mas uma composição da cena mediada por conceitos, produto
de percepção e de idéia, construção de um arranjo de corpos, de gestos
e de fisionomias capaz de produzir esse efeito de coexistência pregnante.
Em seu livro, O olho interminável, Jacques Aumont acentua a diferença
entre o momento pregnante buscado pela imagem (cena) pictórica e o
instante qualquer registrado pela fotografia, este que se imprime na
película foto-sensível como configuração que efetivamente ocorreu. Este
é o dado novo trazido pelo caráter indicial da imagem fotográfica, traço
potencializado pelo cinema como imagem em movimento, capaz de
registrar, em continuidade, o evoluir de fenômenos naturais, de gestos e
de micro-movimentos de uma fisionomia (primeiro plano).

Pela ordem da captação do fugidio, da ocorrência efêmera, cunhou-se


uma idéia do específico cinematográfico que encontrou na noção de
fotogenia sua expressão maior. Por esta via, teóricos como Jean Epstein
condensaram uma leitura do cinema como o lugar de uma revelação do
animismo profundo da natureza, ou da “personalidade” que o mundo dos
objetos mostra possuir, num vigoroso reencantamento do mundo que se
contrapõe à visão mecânica da natureza afirmada pela ciência e pelo
desenvolvimento técnico-industrial que geraram a fotografia o cinema.
Em contraposição, teóricos como Siegfried Kracauer (por exemplo, em “A
fotografia”, texto de 1927), parte do mesmo princípio da indexalidade que
permite captar o instante qualquer, mas lê este registro como a via nova
pela qual nos confrontamos, não com o animismo e as enervações do
espírito dentro da natureza, mas com o mundo desencantado, destituído
de sentido. A fotografia e o cinema, com nuances que cabe discutir,
trariam essa imagem onde se imprime a história natural alheia a sentidos
transcendentes, imagem que não aponta para uma coesão animada por
um princípio espiritual ou uma intenção. Para Kracauer, o fato de que a
imagem indicial (fotografia e cinema) seja correlata a um momento
histórico específico – o capitalismo, a mercadoria, a lógica social

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comandada por abstrações – não é casual e, por isto mesmo, a foto torna
visível justamente este mundo abandonado por tudo o que animou a
representação pictórica teorizada por Lessing e Diderot.

A minha comunicação parte desta questão da indexalidade da imagem


em movimento (de base fotográfica) e analisa a oposição entre a teoria
de Kracauer e a da fotogenia (Epstein), formuladas nos anos 1920. São
duas posições antitéticas que partem da mesma premissa – a
indexalidade da imagem gera algo “novo”, antes invisível – mas uma
caminha na direção da idéia de “um mundo natural onde não se revela
um todo coeso que expressaria intenção, apontaria um sentido”,
enquanto a outra vê na precisão com que o mundo se imprime na
película o caminho real de uma reconexão com a natureza e seus
sentidos soterrados.

AUMONT, Jacques. O olho interminável (cinema e pintura). São Paulo,


CosacNaify, 2004.

EPSTEIN, Jean. Écrits sur le cinéma tome 1: 1921-1947. Paris, Éditions


Seghers, 1974.

GONÇALVES, Aguinaldo José. Laokoon revisitado. São Paulo, EDUSP.


1994.

KRACAUER, Siegfried. “A fotografia” in O ornamento da massa. São


Paulo, CosacNaify, 2009.
Bibliografia
________. Theory of Film: the Redemption of Physical Reality. Princeton,
Princeton Universiy Press, 1997.

TASSINARI, Alberto. "Henri Cartier-Bresson: o instante radiante" in


8xFotografia.Lorenzo Mammi & Lilia Schwarcz (orgs.). São Paulo,
Companhia das Letars, 2008

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