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Oralidade e cinema: pensando entre narrativas

Formato: 10/07/2021 (sábado), de 18h às 19h (Duração: 1 hora)


Mediação: Morgana Gama de Lima (LAF/Póscom/UFBA)

Para citar esse material:


LIMA, Morgana Gama de. Oralidade e cinema: pensando entre narrativas (minicurso), Mostra
[em]Curtas. 10 de julho de 2021. Uberlândia, Minas Gerais: Universidade Federal de Uberlândia,
2021.

1. Apresentação
Este minicurso é fruto da parceria da Mostra [em]Curtas, projeto organizado pela Universidade Federal
de Uberlândia (UFU), com o Laboratório de Análise Fílmica (LAF), grupo de pesquisa vinculado ao
Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom), da
Universidade Federal da Bahia (UFBA) e é oferecido de forma gratuita com o fim de valorizar a
pesquisa e a produção científica no âmbito das universidades públicas, sobretudo, na área de cinema
e audiovisual.

2. Ementa
Abordar Relações possíveis entre oralidade e narrativa cinematográfica especialmente àquelas que
usam registros de tradições orais (contos ou cantos) como fonte de constituição de suas narrativas.

3. Justificativa
A relação entre cinema e oralidade remonta a um período anterior ao advento do cinema sonoro, em
virtude da presença de comentadores durante as projeções, mas ainda são poucas as investigações
nos estudos teóricos de cinema que abordam a articulação entre as tradições orais e a narrativa
cinematográfica.

Geralmente utilizadas como fonte de informações históricas, sobretudo no contexto de sociedades


em que a escrita está associada ao domínio colonial ou é restrita a determinados grupos, as tradições
orais também se tornaram fontes de inspiração para a composição de narrativas cinematográficas.
Além disso, assim como a narrativa fílmica, a narrativa oral traz consigo as características de uma
expressão artística multimidiática em que o ato de contar e cantar vai além do signo verbal, mas envolve
performance, gestualidade, música e a mobilização de diferentes recursos com o objetivo de provocar
uma interação (direta ou indireta) com a audiência.

Por isso, a proposta do minicurso é abordar não somente a influência das tradições orais sobre as
histórias contadas através dos filmes, mas sobre a sua composição estética, interferindo sobre modos
de encenação, conteúdo da história e construção da narrativa.

4. Objetivo
O minicurso tem o objetivo de por meio da apresentação de um breve panorama, incentivar a
produção de filmes tenham como ponto de partida as diversas possibilidades provenientes da
oralidade incluindo o seu potencial de evocar memórias da cultura popular no cinema e incentivar a
produção de novas interpretações acerca de documentários etnográficos e antropológicos,
observando-os não apenas como fontes históricas, mas como fontes de tendências estéticas,
narrativas e retóricas para o cinema.
5. Conteúdo
Tanto o conto, quanto o canto são vistos como resultantes da performance da voz no cinema e serão
considerados como produções artísticas provenientes da tradição oral que, uma vez inseridas na
composição da narrativa, configuram uma estratégia capaz de novas formas de engajar o espectador
e também ressignificar a cultura popular através do cinema.

De modo geral, a relação entre cinema e oralidade advém antes mesmo do desenvolvimento do
cinema sonoro, quando a atuação dos bonimenteurs (comentadores) era fundamental para a
interpretação das imagens exibidas durante a projeção fílmica, dando origem ao que veio a ser
chamado de “cinema oral”.

Le voyage dans la lune (Viagem à lua, 1902, França), de Georges Méliès (com bonimenteur) :
https://www.youtube.com/watch?v=eTic1BOEC_s

No entanto, em pesquisas mais recentes, tal expressão passou a ser usada para se referir às diferentes
“práticas orais do cinema” (LACASSE, 2011), comportando não somente os filmes mudos
comentados, mas a influência da oralidade no próprio processo de enunciação fílmica. Por isso,
mesmo que o recurso ao comentário e à narração tenham se tornado as formas mais convencionais
de discutir a influência da oralidade na narrativa fílmica, tais investigações tem impulsionado os
estudos teóricos de cinema a pensar a oralidade no filme para além do verbo, mas enquanto prática
que remete ao legado deixado por diferentes culturas populares ao redor do mundo, e merece ser
considerada não somente pelos seus aspectos semânticos ou sonoros, mas como sua presença
engendra novos olhares acerca da concepção de narrativa, ou seja, formas de se contar uma história
no cinema.

A apropriação ou uso da oralidade não se restringe à mera adaptação de contos para o cinema ou
pela reprodução de cânticos tradicionais, mas que incorpora esse legado cultural como forma de
moldar discursos sobre a situação contemporânea. Mais do que transmitir histórias, é uma estratégia
retórica em que a sobreposição de histórias e memórias servem como meio de alcançar o engajamento
do espectador com o filme.

Wakaliwood - Melhores cenas de Who killed Captain Alex


(Quem matou Capitão Alex?, 2019, Uganda):
https://www.youtube.com/watch?v=ArnMZYnl8og

Por essa razão, em nosso minicurso trazemos uma abordagem panorâmica de como a questão da
oralidade já foi tratada no cinema, adotando como base teórica o pensamento de cineastas e autores
africanos, buscando avaliar como essa apropriação da oralidade no cinema pode oferecer novas
percepções sobre a presença da voz contribui para configurar um discurso através da narrativa
cinematográfica.

É preciso lembrar que, de modo geral, inicialmente as tradições orais surgiram nas produções
audiovisuais para fins de estudos etnográficos e antropológicos, a exemplo dos diversos
documentários realizados por Jean Rouch. Um cenário de produções em também se começa a
questionar: como o cinema poderia retratar as tradições e rituais sem interferir na espontaneidade da
sua performance? Ocorre que, a despeito da importância de o cinema estudar fenômenos humanos
em vias de desaparecimento (como é o caso de muitas tradições orais), o audiovisual ainda tinha suas
próprias limitações para representar o “real”. Razão pela qual, após anos de produção de
documentários etnográficos, Rouch vai inaugurar o que veio a ser denominado como etnoficção1,
dado o regime de tensão entre o real e sua representação no cinema.

Como já diria Djibril Mambéty (1999), cineasta senegalês, “a tradição oral é uma tradição de imagens”,
ou seja, a aproximação entre narrativas da tradição oral (contada ou cantada) vai além dos seus agentes
(os contadores/cantores) mas se caracteriza pela instauração de novos modos de narrar, em que a
performance oral, mais do que um termo acessório para transmitir histórias é um meio de evocar
imagens, logo, um meio de se dirigir diretamente à imaginação de seus interlocutores/espectadores.
Com isso, Mambéty sugere que, antes da invenção do dispositivo cinematográfico, a “projeção de
imagens” já estava pressuposta nos contos disseminados pelas tradições orais, oferecendo uma nova
percepção sobre os cinemas africanos e também sobre a influência da oralidade no processo de
constituição da narrativa.

Essa característica faz com que os aspectos textuais sejam privilegiados na análise da narrativa, em
detrimento de outros elementos que, apesar de não-textuais, permeiam o ato de contar e são peças
fundamentais na composição da narrativa. Elementos que tendem a se tornar mais evidentes em
situações de oralidade – performance, gestualidade, música, etc. – e que são apropriados, adaptados,
pela narrativa cinematográfica como forma de interagir com suas audiências.

É assim que, para além da simulação das técnicas e sua adaptação para o cinema, um dos maiores
legados das narrativas orais é colocar em relevo o “princípio figural das imagens”, o que nos termos
de Jacques Aumont (1993, p. 253) pode ser definido como “uma espécie de contaminação do verbal
pelo icônico”.

Em termos de composição da narrativa cinematográfica, pode-se dizer que a oralidade pode exercer
influências, desde a utilização de histórias provenientes da tradição oral, até a forma de usos da voz.
Desde a voz que conta (narração) em seu potencial de evocar imagens no espectador, por uma relação
predominantemente semântica com as palavras, até a voz que canta (canção ou música vocal), operando
um movimento de invocar emoções, sentimentos, sensações, através da narrativa.

O relato afirma que, dada a natureza interdisciplinar das tradições orais em sua relação com diversas
áreas do conhecimento – história, linguística, etnologia, musicologia, arqueologia, etc. – a sua
adaptação para os meios audiovisuais poderia ser uma importante estratégia para assegurar seu
registro e disseminação, sobretudo pela transmissão de línguas e músicas.

Apesar do uso da oralidade não se manifestar necessariamente de forma acústica, sonora, mas
afetando o modo de se contar uma história, as narrativas cinematográficas também têm demonstrado
que é possível criar novas formas de contar explorando ou subvertendo convenções associadas ao
uso da voz no cinema. Geralmente se associa a voz como portadora da linguagem, dado aspecto
significativo de suas sonoridades, mas a palavra é apenas a função mais evidente da voz, não a única
(ZUMTHOR, 1993, p. 21).

Assim, a oralidade no cinema, também pode contribuir para a composição da narrativa, explorando
aspectos acústicos da voz, relativizando o aspecto semântico da fala vigente no cinema
(verbocentrado) e pondo em relevo a escuta do som da voz e associada às emoções de um sujeito
que a produz.

1 Para uma discussão mais ampla sobre o assunto cf. Coelho (2013).
Aplicação: Cantos de Trabalho no Cinema

Série Brasilianas de Humberto Mauro (1955):


Canto de Pilão, Canto de Barqueira e Canto de Pedra:
https://www.youtube.com/watch?v=KY5ww1e_ZuU&t=13s

Barravento (Glauber Rocha, 1962)


https://www.youtube.com/watch?v=wwafGWnYL8A

Trilogia dos Cantos de trabalho de Leon Hirszman


Entre 1974 e 1976, Leon Hirszman realizou três documentários produzidos pelo MEC sobre os
cantos entoados pelos trabalhadores rurais nordestinos. Na trilogia há a documentação dos cantos de
trabalho em diferentes regiões: Cana-de-açúcar (1975), em Feira de Santana (Bahia); Mutirão (1975),
em Chã Preta (Alagoas) e Cacau (1976), em Itabuna (Bahia).

Cacau (Leon Hirszman, 1976)


https://www.youtube.com/watch?v=DHJl7HOx-9o

Questões :
• Como transmitir o legado das tradições orais através do audiovisual?
• Pode a oralidade no cinema evocar memórias relacionadas à cultura popular?
• Em que medida a aproximação as tradições orais podem servir de inspiração estética para
produções cinematográficas?

Referências

COSTA, T. G. C. Cantos de trabalho no cinema brasileiro: uma análise das obras de


Humberto Mauro e Leon Hirszman. 2015. 112 f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-
Graduação em Meios e Processos Audiovisuais, Escola de Comunicação e Artes, Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2015.

AUMONT, Jacques. A imagem. Trad. Estela dos Santos Abreu e Cláudio C. Santoro. Campinas,
SP: Papirus, 1993. (Coleção Ofício de Arte e Forma)

CHION, Michel. The voice in cinema. Trad. Claudia Gorbman. New York: Columbia University
Press, 1999.

LACASSE, Germain; BOUCHARD, Vincent; SCHEPPLER, Gwenn. Pratiques orales du


cinéma (Textes choisis). Paris: Editions l’Harmantan, 2011.
LIMA, Morgana. Entre narrativas: cinemas africanos e cultural oral. In. GOMES, Tiago Castro.
Clássicos Africanos: a primeira geração de cineastas da África do Oeste (Catálogo). Rio de
Janeiro: LDC, 2019 (p. 49-64). Disponível em:
https://www.academia.edu/41184640/Entre_narrativas_cinemas_africanos_e_cultura_oral_Betwe
en_narratives_african_cinemas_and_oral_tradition_

MAMBÉTY, Djibril Diop. The Hyena’s Last Laugh. [Entrevista concedida a] Nwachukwu Frank
Ukadike, Transition 78 (vol.8, n. 2 1998), pp. 136-153. Disponível em:
http://www.jstor.org/stable/2903181. Acesso em: 20 out. de 2019.

SESC – Serviço Social do Comércio. Sonoros ofícios: cantos de trabalho: circuito 2015/2016. –
Rio de Janeiro: Sesc, Departamento Nacional, 2015.