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X JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2010 – UFRPE: Recife, 18 a 22 de outubro.

EDWIGES DE SÁ PEREIRA: A PRECURSORA DA VOZ FEMINISTA


NO RECIFE (1920-1932)
Mª Angélica Pedrosa de Lima Silva1, Alcileide Cabral do Nascimento2

Introdução documentos encontrados foi percebido um foco


específico, a importância da líder feminista Edwiges
Durante a segunda metade do XIX, as cidades
de Sá Pereira. A partir daí, houve um aprofundamento
brasileiras prosperaram social e economicamente. A
no âmbito da discussão historiográfica, sobre o Recife
crescente industrialização e o aumento dos índices de
do início do século XX e a sociedade brasileira, bem
alfabetização facilitaram o surgimento de novas ideias
como o aprofundamento das leituras sobre a História
e ideologias. Com o progresso da vida urbana,
das Mulheres.
algumas mulheres que faziam parte da minoria
alfabetizada conseguiram optar por novos caminhos. E A corrente adotada para discussão foi a Nova
foram delas que nasceram as sucessoras que História Cultural, pois é a partir dela que nos
defenderiam a emancipação das mulheres no Brasil. deparamos com desenvolvimento dos estudos sobre as
Como capital do Brasil, o Rio de Janeiro permanecia mulheres e a história dos excluídos. As consideráveis
na liderança econômica e intelectual do país e por isso leituras temáticas iniciadas com Céli Jardim Pinto,
foi o palco das primeiras manifestações de protesto Uma História do Feminismo no Brasil, que aborda de
contra a subordinação feminina. O Recife, o mais maneira geral e cronológica o contexto histórico da
importante centro político e cultural do Norte, trouxe ascensão do movimento feminista até sua luta nos dias
para o início do século XX, na sua construção de de hoje; podemos adicionar June E. Hahner, com
cidade moderna, uma posição de destaque sobre os Emancipação do sexo Feminino, que narra sobre as
escritos de mulheres e composições direcionadas para lutas pelos direitos da mulher no Brasil entre o período
elas. Edwiges de Sá Pereira foi uma grande de 1850 a 1940. A discussão teórica se faz notável nas
personalidade pernambucana a trabalhar o prematuro leituras de Peter Burke, Joan Scott e Raquel Soihet.
pensamento da emancipação feminina e da inserção da Pela pesquisa se inclinar sobre o Recife do início
mulher no espaço público. Para percebermos e do século XX, está sendo imprescindível a construção
identificarmos as conquistas e contribuições que as de uma leitura sobre a cidade nessa época e sua
mulheres obtiveram no Recife, entre os anos de 1900 – organização. A contribuição de autores como Antonio
1932, adentramos no processo de investigação dos Paulo Resende e Raimundo Arrais colaboram para o
discursos e representações de mulheres da época que entendimento do cotidiano da cidade. A tese de
lutaram por uma sociedade mais justa e igualitária. doutorado de Noêmia Maria Pereira da Luz, com o
tema Os caminhos do olhar, retrata um trabalho
extenso sobre a população do Recife entre 1880 - 1914
Material e métodos e permanece em grande colaboração para o
entendimento da capital pernambucana naquela época.
O trabalho proposto faz parte de uma pesquisa mais
Para enfocar mais o trabalho da sociedade numa
ampla denominada “Discursos e Representações do
visão mais geral, foi-se utilizado autores como José
feminino no Recife entre os anos de 1900 a 1932”, em
Murilo de Carvalho, A formação das almas: O
que tem como projeto maior Sexualidades perigosas e
imaginário da república no Brasil por trazer uma
corpos rebeldes: família, honra e relações de gênero no
discussão baseada no processo inicial do Brasil
Recife (1900-1930), coordenado pela Profª Dra.
República e também traz um capitulo direcionado o
Alcileide Cabral.
entendimento da figura feminina na construção da
A pesquisa iniciou-se a partir do segundo semestre república.
do ano de 2009. A metodologia desenvolvida teve
como momento inicial a leitura teórica e temática. Em Resultados e Discussão
seguida teve início a pesquisa documental no recorte
Entre 1920 e 1932, a sociedade pernambucana
temporal dado pelo tema. As instituições examinadas
ainda sofria fortes influências do patriarcalismo e a
foram a Biblioteca Pública, embasada nas Séries Obra
mulher daquela época era atingida, na sua essência,
Rara e Coleção Pernambucana e a Fundação Joaquim
por um sistema repressor e modelador. Mulheres
Nabuco (FUNDAJ), com o acervo pessoal de Edwiges
submissas ao pai e depois ao marido numa resignação
de Sá Pereira. Após um período de leitura dos
silenciosa e sofrida, como se a força da natureza

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1. Primeira Autora é graduanda em Licenciatura Plena em História, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Rua Dom Manoel de Medeiros, s/n, Dois
Irmãos, Recife, PE, CEP 52171-900. Email: angelllita@hotmail.com
2. Segunda Autora é Professora Adjunta do Departamento de História – UFRPE, Universidade Federal Rural de Pernambuco. Rua Dom Manoel Medeiros
s/n – Dois Irmãos CEP 52171-900 Recife/ Pernambuco. Email: alcileide.cabral@gmail.com
Apoio financeiro: Pesquisa Financiada pelo CNPq/FACEPE/UFRPE.
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humana estivesse na complacência do dever de não companheiras/os que compartilharam e contribuíram


existir. [1] para o desenvolvimento deste trabalho.
São fatos assim que ainda faziam as mulheres
continuarem condicionadas aos ideais do homem e Notas
dificilmente alguma ousava contrariar aqueles desejos- [1] INOJOSA, Cristina. Martha de Hollanda: Feminismo e
leis, pelo próprio despreparo de quebrar estruturas ou Feminilidade. Recife: Assessoria Editorial do Nordeste,
de perder o lugar de “rainha do lar”. Isso gerou ainda 1984. p. 29.
mais uma passividade feminina em ser aquilo que a [2] INOJOSA, Cristina. Martha de Hollanda: Feminismo e
sociedade masculina normatizasse. Portanto, foram Feminilidade. Recife: Assessoria Editorial do Nordeste,
poucas as mulheres que na década de 20 e 30, em 1984. p. 30.
Pernambuco, se rebelaram na conquista de seus
[3] CHACON, Dulce. Edwiges de Sá: escritora, acadêmica e
direitos. Raras foram as que lutaram contra princípios professora. Recife – 1958. p. 13-16.
preestabelecidos, aos quais alienavam a mulher e
traíam a sua capacidade de ser. [2] Entretanto, a [4] Livro de Atas de Assembléia Geral e Sessões
Extraordinárias da Federação Pernambucana pelo
minoria que desbravou os caminhos, firmando-se e Progresso Feminino. Disponível no Acervo pessoal
machucando-se na procura de sua autenticidade “Edwiges de Sá Pereira”, na Fundação Joaquim Nabuco.
humana, trouxe vastas contribuições para uma
[5] PINTO, Céli Regina Jardim. Uma História do Feminismo
emancipação social e política feminina. no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo,
As leituras das Obras Raras e da Coleção 2003. Coleção História do Povo Brasileiro. p. 23-25.
Pernambucana recolhidas na Biblioteca Pública de
Pernambuco nos deram uma grande bibliografia dessa Referências
minoria, personalidades femininas do início do século
BURKE, Peter. A Escrita da História: novas perspectivas. São Paulo:
XX que lutaram por voz na sociedade vigente, em que Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.
podemos destacar a poetisa e escritora Edwiges de Sá
Pereira e por que não dizer que foi o mais considerável CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: O imaginário
da república no Brasil. São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1990.
nome para a manifestação do movimento feminista
dentro de Pernambuco? CHACON, Dulce. Edwiges de Sá: escritora, acadêmica e professora.
Ela foi uma precursora na luta pelos direitos da Recife – 1958.
mulher na cidade do Recife. Lutou pela conquista da
HAHNER, June Edith. Emancipação do sexo feminino: a luta pelos
emancipação feminina, tanto através de seus escritos e direitos da mulher no Brasil. 1850/1940. Florianópolis: Ed. Mulheres;
palestras, quanto com atitudes práticas. Defendia o Santa Cruz: EDUNISC, 2003.
divórcio em seus textos. Para ela, nenhuma mulher era
INOJOSA, Cristina. Martha de Hollanda: Feminismo e Feminilidade.
obrigada a viver ao lado de um homem com quem não Recife: Assessoria Editorial do Nordeste, 1984.
se entendesse muito bem. Tornou-se, em 1920, a
primeira mulher imortal da Academia Pernambucana Livro de Atas de Assembléia Geral e Sessões Extraordinárias da
Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino. Disponível no
de Letras. [3] Um dos consideráveis achados sobre Acervo pessoal “Edwiges de Sá Pereira”, na Fundação Joaquim
Edwiges de Sá Pereira foi ter-se descoberto que a Nabuco.
mesma fundou e participou como líder da Federação
LUZ, Noemia Maria Queiroz Pereira da. Os caminhos do olhar:
Pernambucana pelo Progresso Feminino (FPPF), que circulação, propaganda e humor RECIFE, (1880-1914). Tese
teve como cidade sede Recife. Instituição direcionada a (Doutorado) - Universidade Federal de Pernambuco. CFCH. História,
desenvolver um plano de ação social, tendo como um 2008.
dos programas sociais a Escola de Oportunidades,
PEREIRA. Pela Mulher, para a Mulher: Trabalho apresentado ao
onde tinha o propósito de criar meios para as mulheres Segundo Congresso Internacional Feminista. Officinas Graphicas da
recifenses serem inseridas e vistas na sociedade como Boa Imprensa - Recife, 1932.
sujeitos políticos. Essa organização teve bastante
PINTO, Céli Regina Jardim. Uma História do Feminismo no Brasil.
repercussão na sociedade recifense, como se pode São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003. Coleção História
atestar na análise das leituras das Atas das Sessões do Povo Brasileiro.
Extraordinárias e das Assembléias Gerais. São nove
REZENDE, Antônio Paulo. O Recife: história de uma cidade. Recife:
Atas que nos disponibilizam uma ideia dos Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2002.
acontecimentos das reuniões da Federação
Pernambucana. [4] Essa organização era uma filiada SOHIET, Rachel. História das Mulheres. In: CARDOSO, Flamarion;
VAINFAS, Ronaldo (Orgs.). Domínios da História: Ensaios de teoria
da Federação Brasileira para o Progresso Feminino e metodologia. 5ª Ed.Rio de Janeiro: Editora Campus, 1997.
(FBPF), sediada no Rio de Janeiro, no qual foi a mais
importante organização em defesa dos direitos da
mulher do Brasil, da década de vinte, que tinha como
luta central o direito ao voto. [5]

Agradecimentos
Agradeço a minha professora e orientadora
Alcileide Cabral do Nascimento e todas/os as/os
X JORNADA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO – JEPEX 2010 – UFRPE: Recife, 18 a 22 de outubro.

Figura 2: Capa do livro de Atas de Assembléia Geral e


Figura 1: Poetisa, escritora e educadora Edwiges de Sá Sessões Extraordinárias da Federação Pernambucana pelo
Pereira. (Almanak Litterario Pernambucano. Recife - 1909) Progresso Feminino. (Acervo pessoal “Edwiges de Sá
Pereira”, na Fundação Joaquim Nabuco)