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23º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental

III-250 – AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO DE CAMADAS DE COBERTURA


INTERMEDIÁRIAS E FINAIS EM CÉLULAS EXPERIMENTAIS DE
DISPOSIÇÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS

Hosmanny Mauro Goulart Coelho(1)


Engenheiro Civil pela Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestrando
do Programa de Pós-graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da UFMG, Belo
Horizonte, MG, Brasil.
Liséte Celina Lange
Química, Doutora em Tecnologia Ambiental pela Universidade de Londres – Inglaterra, Profª. Adjunta do
Departamento de Engenharia de Sanitária e Ambiental da UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.
Gustavo Ferreira Simões
Engenheiro Civil pela UFMG, Doutor em Engenharia Civil pela PUC-RIO, Prof. Adjunto do Departamento de
Engenharia de Transportes e Geotecnia da UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.
Cynthia Fantoni Alves Ferreira
Engenheira Civil. Especialista em Gestão Ambiental. Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos
Hídricos pela UFMG. Doutoranda em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela UFMG e
pesquisadora vinculada ao Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, Belo Horizonte,
MG, Brasil.
Danielle Fernandes Viana
Química e Técnica em Saneamento, pesquisadora vinculada ao Departamento de Engenharia Sanitária e
Ambiental da UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil.

Endereço(1): Av. do Contorno, 842 - 7º andar - Sala 717 - Centro - Belo Horizonte - Minas Gerais - CEP: 31110-
060 - Brasil - Tel: +55 (31) 3238-1039 - Fax:: +55 (31) 3238-1879 - e-mail: hosmanny@hotmail.com

RESUMO
O desenvolvimento de alternativas tecnológicas que viabilizem o aumento da longevidade dos aterros de
disposição final de RSU e a diminuição na demanda por material utilizado nas camadas de cobertura, se
mostra de extrema importância. Este trabalho objetiva avaliar a influência dessas camadas de cobertura na
degradação dos RSU e na geração e características físico-químicas dos lixiviados (pH, DQO, DBO). Os
experimentos vêm sendo realizados em 4 células experimentais de 27,0m3 construídas no aterro de RSU do
município de Catas Altas, Minas Gerais, e, preenchidas com os resíduos da coleta diária municipal ao longo
de um período de aproximadamente 3 meses. Para possibilitar comparações entre as células, diferentes
configurações de camadas de cobertura foram executadas. A pesquisa envolveu também o monitoramento dos
recalques das células, a coleta e análise dos lixiviados das células, obtenção de dados climatológicos
(temperatura, precipitação) e elaboração de balanço hídrico. Os trabalhos realizados até o momento
possibilitaram verificar que as camadas de cobertura finais realizadas não apresentaram diferenças
significativas no que se refere à infiltração de água de chuva e que as camadas intermediárias interferem nos
parâmetros físico-químicos dos lixiviados. Além disso, os recalques observados vêm revelando uma
similaridade entre as células experimentais. A pesquisa continua sendo realizada e os resultados serão
finalizados em dezembro de 2005.

PALAVRAS-CHAVE: Resíduos Sólidos Urbanos, Disposição de Resíduos, Camadas de Cobertura,


Cobrimento de Resíduos, Células de Resíduos.

INTRODUÇÃO
De acordo com TCHOBANOGLOUS e O’LEARY (1994), os aterros sanitários se referem a uma técnica de
engenharia para a disposição de resíduos sólidos urbanos (RSU), sendo projetados e operados com o objetivo
de minimizar os impactos ambientais e à saúde pública. O termo célula é usado para descrever o volume de
material depositado em um aterro durante um determinado período de operação. Dentre os procedimentos
operacionais de um aterro sanitário se inclui a execução de camadas de coberturas intermediárias e finais
sobre os RSU dispostos nesses locais.

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As camadas de cobertura intermediárias, realizadas ao longo do processo de preenchimento do aterro com os


RSU, têm como funções principais o controle dos seguintes problemas: proliferação de vetores de doenças
(insetos, roedores, etc.); emanação de odores; combustão espontânea; ação do vento ao provocar
espalhamento ou escape dos resíduos do interior das células de aterramento; proteção contra pássaros;
minimização do afluxo de águas pluviais para o interior do maciço de resíduos.

Já as camadas de cobertura finais, executadas na finalização de uma célula de aterramento, têm como
finalidade evitar a infiltração de águas pluviais, que podem resultar em um aumento do volume de líquidos
lixiviados, e impedir que gases gerados na degradação da matéria escapem para a atmosfera. Além disso,
favorecem a recuperação final da área e a revegetação.

Geralmente, o solo é o material mais utilizado para a execução dessas camadas, porém, nem sempre a área do
aterro sanitário possui quantidade disponível do mesmo que seja suficiente para cobrimento dos resíduos ao
longo de toda vida útil do aterro. Dessa forma, faz-se necessária à exploração de jazidas de solo, que após
serem exploradas não são, muitas vezes, recuperadas tornando-se grandes passivos ambientais.

Camadas de cobertura, especialmente as intermediárias, executadas em grandes espessuras demandam muito


material e podem diminuir o volume disponível para aterramento e, conseqüentemente, reduzir a vida útil do
aterro. Além disso, as camadas de cobertura intermediárias e finais podem influenciar diretamente os
parâmetros de degradação dos resíduos como, por exemplo, o teor de umidade, ao estabelecer, no interior da
massa de resíduos, zonas com características distintas, também conhecidas como bolsões.

Os processos de degradação ou decomposição dos RSU são, em essência, processos de nutrição e respiração
(aeróbia, em presença de oxigênio livre, e anaeróbia, na ausência deste) dos microrganismos. Durante a vida
de um aterro, as fases de degradação anaeróbia (hidrólise, metanogênese etc.) não são muito bem definidas.
Isto ocorre na medida em que sempre há o aterramento de novos resíduos sólidos, causando uma grande
variabilidade na idade do material disposto e, conseqüentemente, gerando a possibilidade de se encontrar
diferentes fases ocorrendo simultaneamente em um único aterro.

Essas fases de degradação podem ser avaliadas indiretamente por meio de parâmetros físico-químicos e
biológicos dos líquidos lixiviados, bem como dos resíduos aterrados e, também, pelo monitoramento dos
recalques do maciço de resíduos.

Os recalques identificados em aterros sanitários são devidos a movimentações verticais da massa de resíduos e
das camadas de cobertura intermediária e final. Tais movimentações, muitas vezes causadas pela degradação
dos RSU e rearranjo dos resíduos internamente ao maciço, geram reduções de volume e aumento da
capacidade de armazenamento e, conseqüentemente, da vida útil desses aterros. Determinando-se os recalques
remanescentes pode-se projetar a utilização do aterro depois de encerrada sua vida útil (SIMÕES, 2000).

Sendo assim, o desenvolvimento de alternativas tecnológicas que viabilizem o aumento da longevidade dos
aterros de disposição final de RSU e a diminuição na demanda por material utilizado nas camadas de
cobertura intermediárias e finais, especialmente por solo, se mostra justificado e importante.

Logo, o presente trabalho, inserido no âmbito do Programa de Pesquisa em Saneamento (PROSAB), tem
como objetivo avaliar a influência de diferentes configurações de camadas de cobertura intermediárias e finais
na degradação dos resíduos sólidos urbanos e nas características físico-químicas dos líquidos lixiviados, a
partir da implantação, operação e monitoramento de células experimentais de disposição final de resíduos
sólidos urbanos.

MATERIAIS E MÉTODOS
Inicialmente o trabalho envolveu aspectos construtivos, operacionais e monitoramento, como também a
realização de balanço hídrico das células experimentais, conforme descrito a seguir.

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ASPECTOS CONSTRUTIVOS DAS CÉLULAS EXPERIMENTAIS


Para a execução da pesquisa foram construídas em campo, 4 células de 27m3 cada uma, dotadas de sistema de
impermeabilização da base e laterais constituídos de manta asfáltica e geotêxtil; drenos testemunhos para
detecção de vazamentos pelas camadas de impermeabilização; sistema de drenagem de gases; sistema de
drenagem e captação dos líquidos lixiviados, além de poços de monitoramento desses líquidos (Figura 1).

Figura 1: Planta e Detalhe do Perfil Típico das Células Experimentais.


TUBOS PARA ADIÇÃO DE ÁGUA CE4 CE3
DRENO DE GÁS
COBERTURA
FINAL TUBOS PARA
ADIÇÃO DE ÁGUA
MANTA
ASFÁLTICA TUBO DE
DRENAGEM DE
GEOTÊXTIL RSU TANQUE DE

300 cm
LIXIVIADOS
COLETA DE
DRENO DE GÁS LIXIVIADOS POÇO DE
MONITORAMENTO
DRENAGEM DE 300 cm
LIXIVIADOS i=2% i=2%

300 cm
10 cm

CAMADA DE CÉLULA
EXPERIMENTAL
DETECÇÃO DE 300 cm
VAZAMENTOS CE1 CE2

Após a construção, as células foram preenchidas com resíduos sólidos provenientes da coleta diária do
município de Catas Altas, Estado de Minas Gerais. Tais resíduos sofreram compactação mecânica até a
obtenção de peso específico de 500kgf/m3. Durante o preenchimento das células os resíduos foram
caracterizados por meio da realização do ensaio composição gravimétrica (Figura 2), além dos ensaios físico-
químicos de determinação do teor de umidade, sólidos voláteis e capacidade de campo (Tabela 1).

Figura 2: Composição Gravimétrica dos RSU Aterrados nas Células Experimentais (Base Úmida).
matéria orgânica putrescível
1%
0%3% 1% plástico
13% papel/papelão
vidro
1%
metal ferroso
38%
metal não ferroso
10% pano/trapo/couro/borracha
madeira
1% contaminante biológico
2% contaminante químico
0% pedra/terra/cerâmica
13%
diversos
serviços de saúde
18%

Tabela 1: Características físico-químicas dos resíduos sólidos aterrados.


Parâmetro Valor Médio Obtido
(%)
Teor de Umidade 55
Sólidos Voláteis 77
Capacidade de Campo 70

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PROCEDIMENTOS OPERACIONAIS DAS CAMADAS DE COBERTURA DOS RSU


Antes da execução das camadas de cobertura intermediárias e finais nas células experimentais, foram
realizados ensaios de caracterização geotécnica do solo utilizado, segundo os critérios apresentados pelas
normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) relacionadas a cada análise específica. Abaixo
são listadas as análises realizadas, bem como os valores médios obtidos em 5 amostras ensaiadas do mesmo
material:

• Teor de umidade: 24,2%;


• Massa específica dos grãos: 2,62 g/cm3;
• Granulometria: 80% silte, 13% argila, 6% areia e 1% pedregulho;
• Limite de Liquidez (LL): 41%;
• Limite de Plasticidade (LP): 24%;
• Compactação: massa específica seca máxima de 1,68g/cm3 e umidade ótima de 16%.

Para possibilitar a avaliação das camadas intermediárias foram executadas 3 configurações diferentes de
camadas nas células experimentais, a saber:

• nas células experimentais (CE1 e CE2), não foi realizada camada de cobertura intermediária dos resíduos
aterrados. Entretanto, para facilitar comparações, este procedimento foi denominado (I1);
• na célula experimental CE3, foi executada uma camada intermediária constituída por capim (função
suporte e separação entre o solo e os resíduos) de aproximadamente 2 cm de espessura e solo compactado
com 5cm de espessura; este procedimento foi denominado (I2);
• na célula experimental CE4, foi executada uma camada intermediária constituída apenas por solo
compactado com 10cm de espessura, este procedimento foi denominado (I3).

É importante salientar nas células que receberão camada intermediária, estas foram executadas à altura de
1,50m a partir do fundo da célula, sendo compactadas manualmente com soquete de 9kg.

Já para permitir a avaliação das camadas finais foram executadas 2 configurações diferentes de camadas nas
células experimentais, da seguinte maneira:

• na célula experimental (CE1), foi executada uma camada de 40cm de solo compactado a um grau de
compactação de 90%, realizada com soquete manual de 9kg;
• nas demais células experimentais (CE2, CE3 e CE4), foi executada uma camada de 40cm de solo
compactado a um grau de compactação de 100%, realizada com compactador mecânico (tipo sapo).

Um resumo esquemático dos procedimentos operacionais referentes às camadas de coberturas intermediárias e


finais realizadas na pesquisa é apresentado na Figura 3.

Figura 3: Resumo Esquemático das Camadas de Cobertura Realizadas nas Células Experimentais.

h GC1 h GC2 h GC2 h GC2

Intermediária - I1 Intermediária - I1 Intermediária - I2 Intermediária - I3

CE1 CE2 CE3 CE4

MONITORAMENTO E ANÁLISE LABORATORIAIS


Para o monitoramento dos recalques das células experimentais foram instaladas placas de aço (base = 20 x 20
cm e haste = 30 cm), uma em cada célula e executados níveis de referência próximos às células experimentais.
Os recalques foram monitorados quinzenalmente com início correspondendo ao 98º dia de aterramento dos
RSU, sendo a medição realizada por meio de um nível de mangueira.

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Os líquidos lixiviados coletados no poço foram quantificados e amostrados para realização de análises físico-
químicas, segundo o Standard Methods of Chemical Analysis (APHA, 1992), dos seguintes parâmetros: pH,
alcalinidade, demanda química de oxigênio (DQO), demanda bioquímica de oxigênio (DBO), nitrogênio total
(NTK), nitrogênio amoniacal (NH3-N), cloretos (Cl-), fósforo total, além da determinação de metais pesados
(Fe, Cd, Pb, Zn e Cr) por meio de espectrofotometria de absorção atômica.

BALANÇO HÍDRICO
O balanço hídrico das células experimentais pode ser dividido em duas etapas: balanço hídrico da camada de
cobertura final, armazenamento e fluxo de umidade na massa de RSU. Para obtenção da geração teórica de
lixiviados nas células foi realizado o balanço hídrico quinzenal entre o período de setembro de 2004 a março
de 2005. A vazão de água percolada pela camada de cobertura final foi estimada e o lixiviado gerado foi
medido. Após estimar estes parâmetros, foi possível avaliar a quantidade de água remanescente no interior das
células experimentais e o teor de umidade total dos RSU.

Para estimar a percolação de água através da camada de cobertura final foi desenvolvida uma planilha
eletrônica utilizando o procedimento descrito por KOERNER e DANIEL (1997), que é baseado nas
publicações de THORNTHWAITE e MATHER (1957), FENN et al. (1975) e KMET (1982). A
evapotranspiração potencial foi calculada pelo método de THORNTHWAITE e MATHER (1957), sendo
obtida a partir de correlações empíricas que envolvem a média mensal de temperatura do ar.

Dados diários de precipitação foram inicialmente obtidos na estação climatológica mais próxima (operada pela
Agência Nacional de Águas – ANA), localizada a 15km do aterro (ANA, 2005). A partir de dezembro, um
pluviômetro foi instalado no aterro, possibilitando a obtenção das precipitações diárias do local. Dados da
temperatura mensal média (baseada em um histórico de 30 anos) foram obtidos na estação meteorológica mais
próxima (operada pelo Instituto Nacional de Meteorologia – INMET) que possuía esses dados arquivados e
disponíveis, localizada a 118 km do aterro na cidade de Belo Horizonte.

RESULTADOS
MONITORAMENTO DOS RECALQUES
A Figura 4 apresenta os recalques observados ao longo do tempo em cada uma das células experimentais.

Como se pode observar na Figura 4 as células experimentais apresentaram um perfil similar de variação de
seus recalques, destacando a célula experimental CE3 cujos abatimentos se mantiveram ligeiramente acima
dos valores observado nas demais células.

Figura 4: Recalques das células experimentais em função do tempo.

10
Recalque (cm)

15

20

25
CE1 CE2 CE3 CE4

30
90 110 130 150 170 190 210 230 250 270
Tempo de aterramento (dias)

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Dessa forma, pode-se dizer que as diferentes configurações de camadas de cobertura intermediárias e finais
não apresentaram, no período de observação, influência no que tange a ocorrência dos recalques nas células
experimentais.

ANÁLISES LABORATORIAIS DO LIXIVIADO


A Figura 5 apresenta a evolução do pH em função do período de aterramento, cujo 1º dia foi dia 01 de julho
de 2004.

Figura 5: Evolução do pH ao Longo do Tempo.

8,5

8,0

7,5

pH 7,0

6,5

6,0
CE1 CE2 CE3 CE4
5,5
80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280
Tempo de aterramento (dias)

Ao longo dos 181 dias de monitoramento (do 91º ao 272º dia de aterramento) as células experimentais
apresentaram valores de pH na faixa de 5,6 a 8,0, compatíveis com o estudo realizado por PESSIN et al.
(2003) cujos valores mínimo e máximo de pH obtidos no monitoramento de aterros experimentais foram,
respectivamente, 5,3 e 8,0.

Os valores de pH (Figura 5) de todas as células experimentais apresentaram valores similares até o 153º dia de
aterramento. A partir desse dia a célula nº4 apresentou valores menores que o das outras células. Como
justificativa, pode-se supor que a camada de cobertura intermediária utilizada na célula nº4 esteja conferindo
uma maior resistência à percolação de água pelos resíduos e conseqüentemente, gerando uma característica
atípica em relação as demais células.

Verifica-se também que a partir do 118º dia de aterramento os valores pH alcançaram a faixa acima de 6,5 e
próximas a pH neutro (7,0) favorecendo assim, o desenvolvimento da fase metanogênica.

A Figura 6 apresenta o perfil de variação dos valores de DQO ao longo do tempo. Observa-se uma queda
contínua dos valores de DQO a partir do 153º dia de monitoramento em todas as células experimentais. A
partir do 188º de aterramento a célula nº 4 apresentou menores valores de DQO ao longo do tempo, o que
pode ser correlacionado com os valores de pH.

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Figura 6: Evolução da DQO ao Longo do Tempo.

100.000

10.000
DQO (mg/L)

1.000

CE1 CE2 CE3 CE4


100
80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280
Tempo de aterramento (dias)

A Figura 7 apresenta a evolução dos valores de nitrogênio total (NTK) ao longo do tempo.

Figura 7: Evolução do NTK ao Longo do Tempo.

1500

1250

1000
NTK (mg/L)

750

500
CE1
CE2
250
CE3
CE4
0
80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280
Tempo de aterramento (dias)

Na Figura 7, todas as células experimentais apresentaram elevação nos valores de nitrogênio total até o 153º
dia de aterramento, a partir desta dia a célula nº 4 sofreu uma diminuição maior em relação ao padrão
observado nas as demais células. A partir do 180º de aterramento os valores de NTK situaram abaixo de
500mg/L.

A Figura 8 apresenta a evolução dos valores de nitrogênio amoniacal (NH3-N) ao longo do tempo. Pode-se
observar que entre os dias 111º e 153º de aterramento os valores de nitrogênio orgânico oscilaram entre 550 e
950 mg/L. A partir do 153º de aterramento a célula experimental nº4, analogamente ao ocorrido com o
nitrogênio total, sofreu uma diminuição maior que as demais células.

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Figura 8: Evolução do NH3-N ao Longo do Tempo.

1000

800
N-NH3 (mg/L)

600

400
CE1
200 CE2
CE3
CE4
0
80 100 120 140 160 180 200 220 240 260 280
Tempo de aterramento (dias)

Salienta-se ainda que a partir do dia 153º as chuvas tornaram-se bastante intensas na área de aterramento,
podendo ter, a partir desse período, influenciado diretamente em determinados parâmetros analisado como a
DQO, nitrogênio total e amoniacal.

BALANÇO HÍDRICO DAS CÉLULAS EXPERIMENTAIS


A Tabela 2 apresenta os resultados do balanço hídrico realizado para a camada de cobertura final dos RSU de
40 cm de espessura de solo compactado.

Tabela 2: Balanço Hídrico.


Dias Mês P (mm) EP(mm) I (mm) ES (mm) AS ER (mm) PER (mm) VPER (L)
(mm)
15-30 set/04 0 39 0 0 44 18 0 0
01-15 out/04 53 47 53 0 50 47 0 0
16-31 out/04 14 47 14 0 38 27 0 0
01-15 nov/04 48 48 48 0 38 48 0 0
16-30 nov/04 121 48 121 0 111 48 0 0
01-15 dez/04 230 51 230 0 120 51 170 1533
16-31 dez/04 340 51 340 0 120 51 289 2605
01-15 jan/04 38 54 38 0 104 54 0 0
16-31 jan/04 117 54 117 0 120 54 47 428
01-15 fev/04 134 49 134 0 120 49 85 763
16-28 fev/04 75 49 75 0 120 49 26 232
01-15 mar/04 221 51 221 0 120 49 170 1538
16-31 mar/04 51 51 51 0 120 51 0 0
TOTAL 7099
Em que:
P = precipitação;
EP = evapotranspiração potencial;
I = infiltração;
ES = escoamento superficial, desprezado em função dos recalques ocorridos, que favoreceram a acumulação
de água no topo das células;
AS = altura de água armazenada na camada de cobertura final, considerando uma capacidade de campo do
solo de 300mm H2O/m solo (ROCCA et al., 1993 apud FIRTA E CASTILHOS JUNIOR, 2003);
ER = evapotranspiração real;
PER = percolação de água pela camada de cobertura final;

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VPER = volume de água percolada pela camada de cobertura final acumulado no período de 15 dias de cada
uma das células experimentais.

Entre os dias 15 de setembro de 2004 e 31 de março de 2005, cada uma das células experimental gerou um
volume médio de aproximadamente 4050 litros de lixiviado. O volume total estimado de água que percolou a
camada de cobertura final foi de 7099 litros em cada célula ao longo do mesmo período. Dessa forma, do
volume estimado, 3049 litros de lixiviado estariam retidos no interior das células de aterramento, cuja
umidade atual estimada seria de 69%, isto é, as células já teriam atingido valores de teor de umidade próximos
a capacidade de campo dos resíduos de 70%.

CONCLUSÕES
Com base no trabalho realizado, concluiu-se que:

A utilização do capim como componente de uma camada intermediária favoreceu a compactação do solo de
cobertura possibilitando a utilização de uma camada de apenas 5 cm de espessura, e , conseqüentemente,
minimizando a quantidade de material demandado para o cobrimento intermediário dos resíduos aterrados.

Provavelmente a camada intermediária realizada na célula experimental 4, constituída por 10cm de solo
compactado está interferindo nos parâmetros físico-químicos dos lixiviados e, conseqüentemente, na
degradação dos RSU ali aterrados. Além disso, a geração de lixiviados se apresenta um certo atraso em
relação as demais células no que se refere ao efeito da chuva.

Não foram observadas variações significativas entre as camadas de cobertura finais que justifiquem a
utilização de grau de compactação de 100% contraponto a 90%, uma vez que ambas as configurações
desempenharam suas funções adequadamente, se comportamento de forma bastante similares.

As estimativas de geração de lixiviados indicam que as células experimentais já apresentam teor de umidade
próximos da capacidade de campo de 70%.

Finalmente, pode-se dizer que com a continuidade do monitoramento que se estenderá até o final de dezembro
de 2005, juntamente com a análise estatística que será realizada, ter-se-á possibilidades de melhor
compreensão das possíveis diferenças de comportamento existentes entre as células experimentais.

AGRADECIMENTOS
Agradecemos ao Programa de Pesquisa em Saneamento (PROSAB) pelo financiamento deste trabalho, a
CAPES e ao CNPq pelas bolsas cedidas, a Prefeitura de Catas Altas/MG, e as alunas Ramille Araújo Soares,
Cristiane Fernanda da Silva e Kenya Gonçalves Millard.

Agradecemos à VIAPOL, na pessoa do Sr. Gercino Eustáquio Tavares, pela doação das mantas asfálticas e à
BIMIG, na pessoa do Sr. Oldac César Elias, pela doação das mantas geotêxteis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. APHA (1992) Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater, 17th Edition. American
Public Health Association, Washington, DC.
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120p.
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processos de degradação de resíduos sólidos urbanos. In: CASTILHOS JUNIOR, A.B. (Org.). Resíduos
Sólidos Urbanos: Aterro Sustentável para Municípios de Pequeno Porte. Rio de Janeiro: Rima ABES, 2003,
294p.
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generation from solid waste disposal sites. U. S. Environmental Protection, 1975.

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(Org.). Resíduos Sólidos Urbanos: Aterro Sustentável para Municípios de Pequeno Porte. Rio de Janeiro: Rima
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Resources, Madison, WI, 1982.
7. KOERNER, R. M., DANIEL, D. E. Final covers for solid waste landfills and abandoned dumps.
Virginia: American Society of Civil Engineers, 1997.
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Tese de Doutorado, PUC-Rio, 2000.
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pequeno porte. In: CASTILHOS JUNIOR, A.B. (Org.). Resíduos Sólidos Urbanos: Aterro Sustentável para
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principles and management issues. Mc. Graw – Hill, 1993, 978 p.
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ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 10