Você está na página 1de 48

MANUAL

CD
89 –
Jogo
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

INDICE 1

Frase de Abertura …………………………………………………………………………………………… 2


Objetivos ………………………………………………………………………………………………………... 3
1- Conceito de jogo ……………………………………………………………………………….…. 4
2- Tipos de jogos (regras, simbólicos, sensórios-motores, tradicionais) ……. 9
3- A história e a evolução dos jogos ………………………………………………………… 16
4- Jogos tradicionais portugueses …………………………………………………………….
20
5- Objetivos e finalidades dos jogos ………………………………………………………...
28
6- As idades em que cada tipo de jogo pode ser aplicado ………………………...
32
7- Planeamento e construção de jogos ……………………………………………….……
39

Frase de Fecho …………………………………………………………………………………………….….


43
Bibliografia ………………………………………………………………………………………………….… 44
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Frase de Abertura 2

“Que os pais e educadores profissionais percebam que, o saber observar,


falar e atuar pelo jogo e pelo trabalho precede e é, portanto mais
importante que o ler e escrever. Sem saber ver e descrever, não se pode
aprender a ler”.
João dos Santos (1983)
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Objetivos 3

•Reconhecer a história dos jogos.


•Identificar os jogos tradicionais portugueses.
•Identificar os diferentes tipos de jogos e as idades em que se aplicam.
•Realizar uma atividade em seja utilizado um jogo.
•Construir um jogo.
•Elaborar um portefólio de jogos.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

1- Conceito de jogo

A palavra “JOGO” vem do latim locu, significando gracejo, foi empregue no lugar
de ludu: brinquedo, divertimento, passatempo. No entanto, esta palavra não é
utilizada com o mesmo significado em todas as civilizações. Tal como nos
idiomas alemão, português, espanhol e muitos outros, a língua francesa adota
apenas uma palavra – jeu – para designar jogo e brincadeira (game e play, em
inglês). É possível solucionar o problema através da seguinte forma:
inicialmente devemos admitir que jogos e jogo podem designar duas realidades
totalmente distintas. Assim, jogo é a instituição, fragmento de jogos; jogos são
atitude existencial, forma particular de abordar a vida que se pode aplicar a
tudo e não se liga a nada especificamente.
A palavra e a noção de jogo foi-se construindo pelas diversas civilizações, não
tendo sido definida por nenhuma em particular numa mentalidade científica,
mas numa “mentalidade criadora”. Nesse contexto, a palavra e a ideia
encontrada para exprimir a noção de jogo é diferente em algumas línguas.

Em todos os povos encontramos o jogo, e sob formas extremamente


UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

semelhantes, mas as línguas desses povos diferem muitíssimo, em sua conceção 5


de jogo, sem o conceber de maneira tão distinta e ampla como a maior parte
das línguas europeias.
Encontramos vários termos para definirmos jogo: jogo, competição e atividade
lúdica; desta forma, distingue civilizações que se aproximam de conceito de jogo
por ele definido e as variações etimológicas determinadas pelas civilizações.
Assim, identifica civilizações que utilizam termos distintos para designar jogo e
competição (ex: gregos) de civilizações que associam a palavra ludus à de jogo
como é o caso do português “jogo”, do francês “jeu” ou do italiano “gioco”.
Portanto, nestas civilizações ludus e jogo têm o mesmo significado.

Jogar e/ou brincar é uma das formas mais comuns de comportamento durante a
infância, tornando-se uma área de grande atracão e interesse para os
investigadores no domínio do desenvolvimento humano. Nesse sentido, o
estudo do jogo e do desenvolvimento da criança podem ser considerados no
âmbito da investigação científica, como uma área de exclusiva abordagem.

A atividade lúdica é expressa quando o prazer que se sente com a resolução de


uma dificuldade tão propriamente criada e tão arbitrariamente definida, que o
facto de a solucionar, tem apenas a vantagem de satisfação íntima de o ter
conseguido. No pensamento grego, a etimologia da palavra jogo era associada
ao jogo de crianças, apresentando associado ao termo um carácter de
infantilidade. Por esse motivo, tornou-se necessário criarem-se novos termos,
como competição ou passatempo, para referir o “jogo de adultos”. Podemos
encontrar algumas culturas onde a abstração de um conceito geral de jogo foi
“tão tardia e secundária como foi primária e fundamental a função do jogo. Um
dos indícios disso, poderia ser a ausência de uma palavra indo-europeia comum
para o jogo, ou das diferentes designações germânicas indicando o mesmo
objeto jogo. A representação do jogo apresenta dificuldades ao encontrar um
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

termo que tenha o mesmo significado em todas as civilizações. As barreiras 6


impostas por várias línguas (vocabulário escasso) têm contribuído na confusão
do conceito de jogo com algumas das suas características, enfraquecendo a
ideia de jogo.

Presente nas mais distantes civilizações, subsistindo até aos tempos de hoje, o
jogo, na sua génese, sempre se revelou uma importante estrutura de suporte às
relações humanas sob a forma de diversão, ritual, trabalho ou festa. No decurso
histórico surgem vários autores e correntes que focam a atenção do seu estudo
na atividade lúdica.

Com base no pressuposto de que o jogo é uma categoria primária da vida, é


aceite formular o conceito de Homo Ludens, defendendo que a atividade lúdica
está na base do surgimento da civilização, assim como o raciocínio esteve na
base do surgimento do Homo Sapiens, ou o fabrico no surgimento do Homo
Faber.
O jogo surge como qualquer outra atividade social, delimitada no tempo e no
espaço, seguindo um conjunto de regras, simultaneamente consentidas, mas
obrigatórias, com um fim determinado e acompanhado de tensão e alegria.
O jogo é um dos pilares centrais das sociedades humanas. Ao contrário das
brincadeiras dos outros animais, o ser humano é o único que, conscientemente,
joga toda a vida para obter prazer. É no jogo e através dele, que as civilizações
surgem e se desenvolvem. Os desafios que hoje se deparam a uma
aprendizagem de sucesso são vários. A humanidade criou momentos e espaços
diferentes, mais ambiciosos, mais rápidos, mais intensos e exigentes, ou seja,
ser professor no século XXI pressupõe assumir que o conhecimento e os alunos
se transformam a uma velocidade maior à que estávamos habituados e que
teremos de fazer um esforço redobrado para continuar a aprender.
A escolaridade básica é um suporte do processo educativo e da formação ao
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

longo da vida. Se o jovem possui uma base escolar sólida, ele torna-se mais apto 7
a enfrentar autonomamente e de forma crítica, os desafios da sociedade atual.
O jogo é uma pura assimilação que consiste em modificar a informação de
entrada de acordo com as exigências do indivíduo. O jogo é uma escola de
aprendizagem ativa e árdua e um terreno fértil para trabalhar certos costumes e
valores sociais.

Podemos encarar o jogo como um meio pelo qual o homem pode desenvolver
plenamente as suas potencialidades. Ao abandonar o mundo das necessidades
e das técnicas, que o limita e o restringe, o individuo liberta-se das imposições
do exterior, do peso das responsabilidades, para criar mundos de utopia. O jogo
tem um papel primordial no desenvolvimento da criança, é por intermédio
deste que a criança desenvolve e deixa florescer as suas potencialidades
virtuais.
Jean Piaget foi um autor que se debruçou sobre o conceito de jogo. No entanto,
Piaget não estudou o jogo em si mesmo, mas interessou-se pelo fenómeno, por
ser uma privilegiada atividade espontânea, que lhe permitiu observar a
evolução da capacidade semiótica, o desenvolvimento moral e social da criança,
considerando que o jogo tem a função de equilibrar o sujeito frente à agressão
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

do meio, ou seja, constitui um mecanismo de autoconstrução e organizador 8


semelhante ao da vida embrionária.
O jogo é um instrumento de desenvolvimento e um processo de interação entre
a criança, meio ambiente, perceção e movimento, que leva a criança a aprender
os valores do grupo no confronto e no respeito de ideias e vontades dos outros;
na interação com os pares adquire as destrezas sociais necessárias para a vida
adulta e a sua integração na sociedade que o rodeia.
O jogo procura satisfazer uma necessidade não material pois o ser que joga está
à procura do prazer do que simplesmente sobreviver. Logo se definir “o ser” já é
necessário um empenho significante, definir “a busca do prazer não-material do
ser” torna-se uma tarefa impossível.
Há quem defenda o jogo como um fenómeno cultural. Podemos considerá-lo
como sendo: uma atividade livre, conscientemente tomada como ‘não – séria’ e
exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de
maneira intensa e total. É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse
material, praticada dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo
uma certa ordem e certas regras. Neta linha o jogo é encarado como um
alicerce do pensamento, da capacidade do sujeito se descobrir a si próprio,
podendo experimentar, modificar o mundo imaginário do próprio jogo.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

9
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

10

2- Tipos de jogos (regras, simbólicos, sensórios-motores, tradicionais)

Chateau elabora uma classificação bem ampla dos jogos: jogos funcionais, jogos
hedonísticos, jogos de destruição, jogos de desordem e euforia, jogos solitários,
jogos figurativos, jogos de construção, jogos de regras arbitrárias, jogo de
competição, jogos de cerimónias e danças.
A variedade de jogos conhecidos como faz-de-conta, simbólicos, motores,
intelectuais ou cognitivos, individuais ou coletivos, metafóricos, de palavras, de
adultos, de animais e inúmeros outros, mostra a multiplicidade de fenómenos
incluídos na categoria jogo.
A perplexidade aumenta quando observamos diferentes situações receberem a
mesma denominação, por exemplo, um tabuleiro com piões é um brinquedo
quando usado para fins de brincadeira, mas teria o mesmo significado quando
vira recurso de ensino, destinado à aprendizagem de números? É brinquedo ou
material pedagógico?
A variedade de fenómenos considerados como jogo mostra a complexidade da
tarefa de defini-lo.
Revela-se bastante complexa a tarefa de compreender o porquê de um
conjunto de sentidos se configurar como jogo, tendo em vista a diversidade de
definições. No entanto, a palavra jogo é de origem latina – “ludus”, que,
posteriormente, foi substituída por “jocu”, que significa desenvolvimento e
também pode-se considerar a atribuição de responsabilidade a uma pessoa que,
por sua vez se atribui a outra. No sentido etimológico, portanto, expressa um
divertimento, uma brincadeira, um passatempo sujeito a regras que devem ser
observadas quando se joga. Significa também balanço, oscilação, astúcia,
manobra, como um elemento da cultura, relacionado com os aspetos sociais,
considerando que não é apenas uma perspetiva psicológica, sociológica ou
antropológica.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

O jogo define-se como: Uma ação ou uma atividade voluntária, realizada 11


segundo uma regra livremente consentida, mas imperativa, desprovida de um
fim em si, acompanhada por um sentimento de alegria e tensão e por uma
consciência de ser diferente do que se é na vida real.
Huizinga identifica algumas características dos jogos particulares e/ou sociais
que tentam definir o que é o jogo:
● O jogo é uma atividade voluntária. Sujeito a ordens, deixa de ser jogo,
podendo no máximo ser uma imitação forçada. Desta forma, segundo o autor, o
jogo é uma atividade livre, em que o jogador participa de sua livre vontade.
Tanto a criança como o adulto têm a liberdade de jogar, interromper ou adiar a
atividade, em qualquer momento.
● O jogo não é vida corrente nem vida real. Trata-se de uma evasão da vida real
para uma esfera temporária de atividade com orientação própria. Como refere
o autor, realiza-se num espaço definido e a fantasia é fundamental nessa
atividade, nada podendo interferir ou alterar o seu estado de fantasia. Desta
forma, o jogo é real somente para o jogador, no momento em que joga.
● O jogo é desinteressado. O autor considera que o jogo representa uma
atividade de cariz temporário com uma finalidade autónoma, ou seja, apresenta
um fim na própria atividade. O jogo é também visto como um “intervalo” na
nossa vida quotidiana.
● O jogo é uma atividade isolada e limitada. Deverá ser jogado até ao fim,
dentro de certos limites de tempo e espaço. Enquanto se joga, tudo é
movimento, mudança, alternância, sucessão, associação, separação. Quando
chega ao fim, o jogo para, delimitado pelo tempo. O jogo acabou. Mas, mesmo
depois do jogo ter chegado ao fim, ele permanece como uma criação nova do
espírito, um tesouro a ser conservado pela memória. É transmitido, torna-se
tradição. Considera também que é uma atividade em que há regras de
funcionamento essenciais para o seu funcionamento.
● Reina dentro do domínio uma ordem específica e absoluta. Ele cria ordem e é
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

ordem. Segundo o autor, o jogo exige uma ordem suprema e absoluta e 12


qualquer desobediência poderá “deteriorar” o jogo.
● Todo o jogo tem regras. Os tipos de jogos estão sujeitos a regras que devem
ser respeitadas pelos jogadores.
Assim sendo, Huizinga considera que todos os jogos deverão estar sujeitos a
regras. Se considerarmos a regra como uma limitação ao jogo, e no seu
desenrolar, poderemos definir que não existem jogos sem regras. Por exemplo,
se uma criança inicia um processo de imitação de uma atividade de um adulto,
ela também se limita a determinadas regras que constituem o jogo; da mesma
forma que, se uma criança ao embalar uma boneca para que ela durma, ela
nunca a irá segurar pelos cabelos ou deixar cair, porque existe uma regra
implícita que rege como a “criança” (boneca) deve estar confortavelmente
instalada para dormir. Neste sentido, a criança não tem consciência da regra
subjacente ao jogo (compreensão), mas age como se tal regra determinasse a
ação. É como se a regra representasse uma convenção e, assim sendo, a criança
não teria o poder de a questionar ou modificar. No entanto, uma característica
importante do jogo é a possibilidade de mudança de regras em comum acordo
com os outros jogadores, antes de iniciar uma jogada ou de terminar um jogo.
Para que tal aconteça, é necessário que a criança tenha consciência das regras e
as discuta com os seus adversários de jogo, constituindo o que podemos
denominar regra social.

Podemos considerar como características fundamentais nos jogos a capacidade


de absorver o participante de maneira intensa e total, realizando- se num clima
de arrebatamento e entusiasmo, predomina no jogo uma atmosfera de
espontaneidade, limitações de espaço e existência de regras.
Enumerando os elementos constituídos do jogo podemos perceber que não
existe razão para contrapor o trabalho ao jogo, assim como não existe oposição
entre “atividade lúdica e atividade séria”.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Para Piaget, o que distingue a atividade lúdica da não-lúdica é apenas uma 13


variação de grau nas relações de equilíbrio entre o eu e o real, ou melhor entre
a assimilação e a acomodação. Dentro dessa conceção o jogo começa quando a
assimilação predomina sobre a acomodação.
Os jogos e as brincadeiras fazem parte do cotidiano das pessoas que sejam elas
crianças que sejam elas adultas, algumas brincadeiras como o futebol agrada a
todos. Às vezes adultos e crianças brincam juntos. Alguns consideram os jogos e
brincadeiras não-sérias, outras levam tão à sério quanto o trabalho, mas o
importante é que todos jogam, todos brincam.

A classificação dos jogos não é uma regra definitiva a qual todos tenham que
seguir cada autor, através das suas observações e registros, entrevistas e
estudos das classificações de outros autores, elaborou a sua própria
classificação de acordo com os critérios por eles adotados. Para nós eles ficam
como orientação para o nosso trabalho e não com regras, ficam como
parâmetros para nossas atividades educacionais e não como uma norma.
Como foi dito anteriormente o ser humano possui uma tendência lúdica. Mas,
como se manifesta essa tendência ao longo do processo do desenvolvimento
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

humano? Piaget fez um estudo profundo sobre a evolução do jogo na criança, e 14


verificou este impulso lúdico já nos primeiros anos meses de vida predomina
sob a forma de jogo simbólico, para se manifestar, através de prática do jogo de
regra na etapa seguinte. Na elaboração de sua “classificação genética baseada
na evolução das estruturas” como ele diz, cada uma das três classes de jogos
correspondem as três fases do desenvolvimento mental.
Os autores dos vários correntes de Psicologia parecem concordar com esta linha
evolutiva, apenas diferem quanto à terminologia: ao que Piaget quanto de jogo
de exercício sensório-motor, Buhler e Jean Chateau designam de jogo funcional
enquanto Stern usa o termo “jogo de conquista do próprio corpo e das coisas”,
o que Piaget chama de jogo simbólico, Buhler chama de jogo de ficção e
Chateau de jogo de regras, está na classificação de Buhler dentro da categoria
“jogos coletivos”.
Portanto, basicamente existem três formas de atividade lúdica que caracterizam
a evolução do jogo na criança de acordo com a fase do seu desenvolvimento.
Mas estas três formas de atividades lúdicas podem coexistir de forma paralela
no adulto.

Jogo de exercício sensório-motor


A atividade lúdica aparece sob forma de simples exercícios motores,
dependendo para a sua realização exclusivamente da maturação do aparelho
motor. Seu objetivo é simplesmente o próprio prazer do funcionamento. Quase
todos os esquemas sensórios-motores dão lugar a um exercício lúdico. Esses
exercícios motores consistem na repetição de gestos e movimentos simples,
com o valor exploratório. Nos primeiros meses de vida, o bebê estica e recolhe
as pernas e braços, agita as mãos e os dedos, toca os objetos e os sacode
produzindo ruídos ou sons. Esses exercícios têm valor exploratório, embora os
exercícios sensório-motores constituam a forma inicial do jogo na criança, eles
não são específicos dos sois primeiros anos ou da fase de condutas pré-verbais.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Eles reaparecem durante toda a infância e mesmo no adulto, sempre que um 15


novo poder ou nova capacidade são adquiridos.
Jogo Simbólico
O jogo simbólico, isto é jogo de ficção, ou imaginação, e de imitação, é a forma
lúdica que predomina no período compreendido entre os dois e os seis anos.
Nesta categoria estão incluídos a metamorfose de objetos e o desempenho de
papeis. O jogo simbólico se desenvolve a partir dos esquemas sensório-motores
que a medida que são internalizados, dão origem a imitação depois de
representar a função desse tipo de atividade lúdica de acordo com Piaget.
Consiste em satisfazer o eu por meio de uma transformação do real em função
dos desejos. A criança que brinca de boneca refaz sua vida, corrigindo-a a sua
maneira, e revive todos os prazeres ou conflitos, resolvendo-os, compensando-
os, ou seja, completando a realidade através de ficção. Assim sendo o jogo
simbólico tem como função assimilar a realidade, através da liquidação de
conflitos, da compensação de necessidades não satisfeitas, ou de inversão de
papéis. O jogo simbólico é tanto uma forma de assimilação do real e um meio
de autoexpressão, reproduzindo situações reais por ela vivenciadas.

Jogo de Regras
A terceira forma de atividade lúdica a surgir é o jogo de regras, que começa a se
manifestar por volta dos cincos anos, mas se desenvolve predominante na fase
que vai dos sete aos doze anos, predominando durante toda a vida do
individuo. Os jogos de regras são jogos de combinações sensórios-motores
(corridas, jogos de bola de gude ou com bolas etc.) ou intelectuais (cartas,
xadrez, etc.) com competição dos indivíduos (sem o que a regra seria inútil) e
regulamentos que por um código transmitido de gerações em gerações, que por
acordos momentâneos. A regulamentação por meio de um conjunto sistemático
de normas que asseguram a reciprocidade dos meios empregados, é o que
caracteriza o jogo de regras. É uma conduta lúdica que supõe relações sociais ou
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

interindividuais, já que a regra é uma regularidade imposta pelo grupo. Essa 16


forma de jogo pressupõe a existência de parceiros, bem como de certas
obrigações (as regras), o que lhe confere um caráter social. O jogo de regras é a
atividade lúdica do ser socializado e começa a ser praticado em torno dos sete
anos, quando a criança abandona o jogo egocêntrico das crianças mais
pequenas, em proveito de uma aplicação efetivo de regras e do espírito de
cooperação entre os jogadores. Percebemos o jogo na criança, à princípio
egocêntrico e espontâneo, vai se tornando cada vez mais uma atividade social,
na qual as relações interpessoais são fundamentais.

Jogos Tradicionais
Os jogos tradicionais são uma forma de passatempo, descanso e divertimento,
mas sobretudo em veículo privilegiado para o desenvolvimento da motricidade
infantil. Podemos entender o jogo tradicional como forma de vida, quer nas
crianças em que ele é ativamente dominante, quer nos adolescentes e adultos
em que vai da projeção do trabalho ao divertimento, parece ser uma ideia a
sustentar. Ao observarmos as crianças que brincam, num recreio de uma escola,
num jardim infantil ou no local onde habitam, verificamos que vivem com
alegria e praticam uma forma de atividade global, lúdica, dispensando as regras
dos adultos.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

17

3- A história e a evolução dos jogos

Dois interessantes trabalhos destacam a história dos jogos educativos


mostrando o seu aparecimento. Rabecq-Maillard, Histoire dos Jeux Éducatif
(1969) mostra o gradual aparecimento dos jogos educativos na história
ocidental, a partir do século XVI, e Brougère, La notion de Jeu Éducatif dans
l’école maternelle française au début du XXème siècle (1987), a penetração da
ideia do jogo educativo na escola maternal francesa. Embora Rabecq-Maillard
aponte o século XVI como contexto em que surge o jogo educativo, os primeiros
estudos em torno do mesmo situam-se na Roma e Grécia Antiga.

Platão, em Les Lois (1948), comenta a importância do “aprender brincando”, em


oposição à utilização da violência e da repressão. Da mesma forma Aristóteles
sugere, para a educação o uso de jogos que imitem atividades sérias, de
ocupações adultas, como forma de preparação para a vida futura dos jovens.
Mas, nessa época, ainda não se discute o emprego do jogo como recurso para o
ensino. Entre os romanos, jogos destinados à preparação física voltam-se para a
formação de soldados e cidadãos obedientes e devotos e a influência grega
acrescenta-lhes cultura física, formação estética e espiritual.

O interesse pelo jogo aparece nos escritos de Horácio e Quintiliano, que se


referem à presença de pequenas guloseimas em forma de letras, produzidas
pelas doceiras de Roma, destinadas à aprendizagem das letras. No entanto, o
jogo sofre grandes preconceitos referentes ao seu valor ético, sociopolítico e
epistemológico com o advento do Cristianismo. Na época medieval não havia
condições para a expansão dos jogos, com a exceção dos jogos das festas
religiosas, pois eram “considerados delituosos, à semelhança da prostituição e
embriaguez.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

No contexto de todas as formas de exclusão do jogo, para julgar o jogo é preciso 18


compreender quais são as suas funções e os seus efeitos no conjunto das
atividades humanas. Todavia o aparecimento de novos ideais traz outras
conceções pedagógicas que reabilitam o jogo.

Durante o Renascimento, a felicidade terrena, considerada legítima, não exige a


mortificação do corpo, mas o seu desenvolvimento. Desta forma, a partir do
momento em que o jogo deixa de ser objeto de reprovação oficial, incorpora-se
no quotidiano dos jovens, não como diversão, mas como tendência natural do
ser
humano. O jogo de cartas adquire, nessa época, o estatuto de jogo educativo
pelas mãos do padre franciscano, Thomas Murner, cativando os alunos numa
aprendizagem mais dinâmica. É nesse contexto que Racbeq-Maillaird situa o
nascimento do jogo educativo.

O grande acontecimento do século XVI que coloca em destaque o jogo


educativo é o aparecimento da Companhia de Jesus. Ignacio de Loyola
compreende a importância dos jogos de exercícios para a formação do ser
humano e preconiza a sua utilização como recurso auxiliar do ensino.
Ao pôr em prática, em larga escala, os ideais humanistas do Renascimento, o
século XVII provoca a expansão contínua de jogos didáticos ou educativos,
nomeadamente com o avanço dos estudos matemáticos, Leibniz permite que
uma nova visão de jogo seja resgatada provocando uma reavaliação intelectual
do jogo. Multiplicam-se, assim, jogos de leitura, bem como diversos jogos
destinados à tarefa didática nas áreas da História, de Geografia, de Moral, de
Religião, entre outras.

Os jogos popularizam-se, antes restritos à educação de príncipes e nobres,


tornam-se posteriormente, veículos de divulgação e crítica. Jogos de trilha
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

contêm a glória dos reis, suas vidas e ações; jogos de tabuleiro divulgam 19
eventos históricos e servem como instrumento de doutrinação popular. Com o
advento da revolução francesa, o início do século XIX traz inovações
pedagógicas. Há um esforço para colocar em prática princípios de Rousseau,
Pestalozzi e Froebel. Seguindo o contexto filosófico do jogo assumido pelos
pensadores, Rousseau deu um novo sentido à filosofia de Kant que certamente
influenciou Schiller na perspetiva lúdica. Esses pensadores apoiavam a ideia que
o jogo, à sua maneira,
oferecia uma aprendizagem da vida e o desenvolvimento do ser humano de
forma indissociável.
A partir de Schiller, surgem algumas transformações, com a marcante frase da
décima quinta das cartas da obra Cartas para a educação estética do homem,
segundo a qual “ o homem só é de facto homem quando joga”. O jogo é
considerado por Schiller como vetor de harmonia, de beleza e de equilíbrio.
Assim, o jogo revela-se como princípio de unidade e também como princípio de
liberdade e legalidade.

Além de exercitar o corpo, os sentidos e as aptidões, os jogos também


preparam para a vida em comum e para as relações socias.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Mas é com Froebel que o jogo, caracterizado pela liberdade e espontaneidade, 20


passa a fazer parte da história da educação, permitindo que o aluno construa
representações do mundo, já que o jogo, nas mãos do educador, é um
excelente meio de formar o aluno. Com a expansão dos novos ideais de ensino
crescem experiências que introduzem o jogo com vista a facilitar tarefas de
ensino. Paralelamente, o desenvolvimento da ciência e da técnica constitui
fonte propulsora de jogos científicos e mecânicos.

Surgem jogos magnéticos para ensinar História, Geografia e Gramática. A


expansão dos jogos na área da educação dar-se-á no início do século XXI
estimuladas pelo crescimento da rede de ensino infantil e pela discussão sobre
as relações entre o jogo e a educação. Salienta-se que nem sempre o jogo no
ambiente escolar foi aceite ou visto como didático, deparando-se ainda hoje
com muita resistência em relação à sua aplicação.

O jogo não pode ocupar o lugar de lições morais e não deve absorver o tempo
de estudo, ou seja, o jogo não se presta para a formação moral, nem mesmo
colabora para o desenvolvimento cognitivo. No entanto, a utilização do jogo e a
sua importância para a educação já foram estudadas por importantes teóricos,
que mostram a importância dele para o desenvolvimento afetivo, cognitivo,
social e motor ao proporcionar a descentralização individual, a aquisição de
regras, a expressão do imaginário e a apropriação do conhecimento.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

21

4- Jogos tradicionais portugueses

O conceito de jogo encontra várias definições na literatura. É descrito como


uma atividade livre, incerta, delimitada e regulamentada, um veículo
privilegiado para a motricidade infantil, uma atividade polissémica que abrange
várias áreas de conhecimento e um património cultural que preserva as
tradições dos povos. Deste legado lúdico e cultural fazem parte os jogos
tradicionais enquanto meio educativo de elevada função pedagógica e
formativa.

Os jogos tradicionais podem ser definidos como atividades lúdicas, recreativo


culturais praticadas por crianças, jovens e adultos, as quais são perpetuadas ao
longo de gerações pela oralidade, observação e imitação. Estes jogos são
patrimónios lúdicos que pertencem à história das ideias, das mentalidades e das
práticas sociais, revelando a expressão graciosa da alma popular e tradicional
que se traduz na necessidade do lazer e a alegria do trabalho.

Face ao exposto, tendo em conta que os jogos tradicionais desempenham um


papel fundamental no desenvolvimento psicomotor da criança é apresentado
de seguida o estado da arte que enquadra os jogos tradicionais no âmbito deste
trabalho. Os jogos tradicionais têm acompanhado várias épocas e culturas,
funcionando como um espelho que reflete o perfil coletivo de um povo e a
maneira de ser e de viver das gentes. Basicamente, representam uma das mais
espontâneas e belas formas de expressão da alma popular, chamando para si
um património lúdico e cultural com marcada relevância social. Estes jogos
podem ser classificados de acordo com a idade, o género, o número de
jogadores, os acessórios, os materiais utilizados, o espaço onde se realizam e
pelas capacidades que desenvolvem.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Os jogos tradicionais encontram a sua origem no trabalho, principalmente rural, 22


embora alguns apresentem uma estrutura compósita, com elementos provindos
da imaginação estimulada em tempo de lazer, e outros, mormente os
caracteristicamente infantis, tenham a ver com a fantasia desencadeada por
processos inconscientes. Estes chegaram até nós, transmitidos de geração em
geração ao longo do tempo, com as características próprias de cada região. Por
exemplo, na região do Douro é atribuída grande importância aos jogos
associados à vindima, tais como a corrida de cestos, jogo do barril e
levantamento de pipos, entre outros.

Para além de serem populares, considera-se que os jogos que se desenvolvem


como forma de intervenção cultural são também tradicionais. Quer isto dizer
que os mesmos reconstituem uma prática lúdica, desenvolvida por várias
gerações ao longo dos tempos. Este facto pode ser facilmente comprovado pela
etnografia e pela história destes jogos. Os jogos infantis são um ótimo
instrumento pedagógico para desenvolver as suas capacidades psicomotoras, o
domínio corporal, a organização espácio-temporal, o desenvolvimento
preceptivo e motor e a integração sócio motora da criança.

Os jogos tradicionais constituem uma atividade extraordinariamente rica para o


desenvolvimento integral da criança, potenciando o desenvolvimento de várias
competências psicomotoras, tais como: integração em grupo; orientação
espacial; sentido rítmico; enriquecimento da linguagem; e formação da
personalidade.
Os jogos tradicionais apresentam semelhanças com os jogos desportivos
coletivos. Por exemplo, podemos comparar o serviço por baixo usado no
voleibol com o jogo da pelota, bem como o passe por cima do ombro em
andebol e basquetebol com o jogo do mata. Para os mesmos autores, este tipo
de abordagem permite desenvolver as capacidades motoras, de ritmo e outras.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Os jogos têm um papel primordial na educação, daí que os professores de 23


Educação Física, de acordo com os programas escolares, organizem, para além
da ginástica, jogos de voleibol, basquetebol, andebol, entre outros desportos.
Os jogos tradicionais permitem abordar diferentes conteúdos programáticos
que estão associados a movimentos ou habilidades motoras desenvolvidas nas
aulas de Educação Física.
Todavia, não obstante a importância atribuída aos jogos tradicionais, ao
analisarmos detalhadamente o programa do 1.º CEB, constatamos que os
mesmos não se encontram contemplados nos conteúdos programáticos,
existindo apenas alusão nas orientações programáticas ao bloco: Jogos. Assim,
parece que não é reconhecida a devida importância aos jogos tradicionais num
documento elaborado pelo Ministério da Educação.

Na nossa opinião, com a inclusão dos jogos tradicionais no programa do 1.º CEB,
a área de Expressão e Educação Físico Motora podia ver reforçado o seu leque
de competências motoras, fazendo com que, provavelmente, os docentes deste
nível de ensino os lecionassem ou promovessem com maior frequência em
ambiente educativo.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Podemos considerar que o jogo tradicional faz parte do quotidiano escolar das 24
crianças e representa um veículo primordial para o desenvolvimento integral
das suas capacidades psicomotoras. Deste modo, compete aos professores e
educadores, usufruírem das valências lúdicas, formativas e pedagógicas do
mesmo e trabalhá-lo para desenvolver a motricidade infantil. Especificamente
sobre os jogos tradicionais no 1.º CEB, parece-nos ser uma prioridade transmiti-
los às gerações vindouras, perpetuando o seu legado e património cultural ao
longo dos tempos.
Os jogos tradicionais:
- fazem parte do nosso legado cultural e representam um património
vivo que tem perdido força, expressão e notoriedade ao longo dos tempos;
- desempenham um papel fundamental no desenvolvimento
psicomotor da criança;
- representam um meio privilegiado de iniciação desportiva, contendo
vários gestos e movimentos que são transversais a diversos jogos desportivos
coletivos
- merecem uma maior atenção por parte das instituições de formação
de Professores, tendo em conta que, embora os professores atribuam
importância aos jogos tradicionais, a sua dinamização nas escolas do 1º CEB
ocorre de forma pontual e, como tal, na maioria dos casos, fora do contexto
letivo. Este aspeto merece investigação futura, na medida em que poucos
professores deste nível de ensino incluem estes jogos nas aulas de Expressão e
Educação Físico Motora.

O Jogo Tradicional é definido no trabalho realizado por Huizinga como “ação ou


atividade voluntária, realizada dentro de determinados limites fixados de tempo
e de lugar, de acordo com uma regra livremente aceite mas completamente
imperiosa, provida de um fim em si mesma, acompanhada, por um sentimento
de tensão e de alegria e de uma consciência de ser algo diferente da vida
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

corrente. 25
Os Jogos Tradicionais sempre estiveram associados a festas populares e à
ocupação de tempos livres, tendo transitado, pela via oral, de geração em
geração. Os Jogos Tradicionais são como que um espelho que reflete uma
civilização, uma vez que são praticados em todo o mundo e desde há séculos,
logo são determinados pela herança do passado.

Grande parte dos Jogos Tradicionais Portugueses assemelham-se, quer pelo


nome, quer pelos objetivos e regras que os caracterizam aos jogos praticados
não só no continente europeu, como também nos outros continentes, sendo,
pois, Universais. Embora apresentem outras lengalengas, rituais, ritmos, formas
de jogar ou utilizem materiais distintos, e variem de acordo com as
características étnicas dos grupos de população, com a sua língua, religião,
costumes e com os locais de prática e as maneiras de agir e de comunicar.

Os Jogos Tradicionais ilustram a cultura local e o seu resgate é muito importante


para a manutenção do património lúdico, mas apesar de os Jogos Tradicionais
caracterizarem uma cultura local, é interessante a existência de certos padrões
lúdicos universais, mesmo quando se observam diferenças regionais, como
variações nas designações, e nas regras e suas formas de utilização.

O elemento lúdico tem grande importância no comportamento dos homens,


mas em Portugal, antes de 1974, o estudo do jogo era feito apenas no quadro
restrito dos comportamentos individuais ou de grupo, sem qualquer ligação
com o meio envolvente. O ambiente cultural não dava grande importância às
práticas lúdicas, comparativamente com as atividades humanas da esfera
laboral, sempre dominadas pelos princípios do rendimento e da produtividade.
Assim, durante esse período, o “estudo do jogo” remete-nos para pesquisa de
carácter etnográfico, na qual esta atividade surgia em monografias locais, para
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

ajudar a caracterizar melhor os usos, costumes e tradições dos portugueses. 26


A mudança operou-se a partir da década de 70 quando surgiram diversos
grupos culturais e recreativos que, através de um grande movimento de
animação cultural, ultrapassando inclusivamente os quadros escolar e
desportivo, passaram a integrar nos seus programas de atividades inúmeros
projetos de dinamização das populações através do jogo.
Também as universidades, com recurso a meios específicos, aprofundaram
teorias e métodos a utilizar na pesquisa e estudo dos jogos na sociedade e
cultura portuguesa. Os órgãos de comunicação social também passaram a
desempenhar um papel predominante na divulgação das iniciativas, que até
então nunca tinham obtido a expressão merecida, pois eram ofuscadas pelas
manifestações desportivas da atualidade, como por exemplo o futebol.

Nos últimos anos, começou-se a ter a noção da importância da preservação e da


valorização do Património Cultural dos portugueses. Neste âmbito, os nossos
Jogos Tradicionais constituem um importante património cultural que chegou
aos nossos dias através da tradição oral, daí as pequenas diferenças que surgem
nos jogos quando relatados por povos vizinhos.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Os Jogos Tradicionais transmitiram-se no passado, quer oralmente, quer através 27


da sua prática. Do mesmo modo, o jogo popular, pela sua singeleza é uma das
mais espontâneas e belas formas de expressão da alma popular. Nela se
exprime a necessidade do lazer, a alegria do trabalho transfigurado em festa e a
imaginação enriquecida por uma experiência secular.

Os Jogos Tradicionais contribuem de modo saudável para a utilização das horas


livres dos trabalhadores, uma vez que depois de satisfeitas as necessidades
fundamentais, o Homem tende a canalizar para a prática de jogos com os quais
sente prazer, sem qualquer interesse material, o que lhe sobra de tempo
disponível.

O homem é mais livre e independente no jogo do que na vida. Este facto atribui
ao jogo um importante papel na formação da personalidade do indivíduo,
desempenhando, para além disso, uma importante função prática e biológica.
O mesmo se passa em relação à criança, já que a criança não só aprende algo,
como adquire uma experiência societária de completa significação para o
desenvolvimento da sua personalidade. Os elementos do folclore infantil que
constituem grande parte do património lúdico das crianças são todos
tradicionais, o que quer dizer que são valores vindos do nosso passado, do
período da nossa formação, constituindo o ambiente moral em que nos
formamos.
Há quem veja os Jogos Tradicionais como uma forma especial da cultura
folclórica, em oposição à cultura escrita, oficial e formal. O Jogo Tradicional
infantil é a produção espiritual do povo, acumulada através de um longo
período de tempo, é uma das formas mais comuns de comportamento durante
a infância.

A modalidade “Jogo Tradicional infantil” possui características de anonimato,


UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

tradicionalidade, transmissão oral, conservação, mudança e universalidade. 28


Para além disso, o Jogo Tradicional tem um papel fundamental como
instrumento para o desenvolvimento das capacidades físicas, motoras, sociais,
afetivas, cognitivas e linguísticas das crianças.
Desta forma, as crianças aparecem como transmissoras desses jogos, ajudando
a explicar o facto de os Jogos Tradicionais terem sobrevivido por séculos e de
serem semelhantes no mundo todo.

O Jogo Tradicional é memória, mas é também presente. Se observarmos em


detalhe o jogo da criança de hoje em comparação aos jogos infantis do começo
do século, constataremos que existem grandes diferenças. A televisão e a
tecnologia dos brinquedos modernos mudaram, sem dúvida, a brincadeira
infantil. A falta de espaço e de segurança nas ruas também modificaram
algumas brincadeiras.

Brincar na rua é em muitas cidades do mundo uma espécie em vias de extinção.


As mudanças sociais ocorridas nos últimos 20-30 anos alteraram
significativamente a estrutura de vida familiar. Os hábitos quotidianos
transformaram-se radicalmente, os ritmos e as rotinas das crianças também. O
tempo espontâneo, da imprevisibilidade, da aventura, do risco, do confronto
com o espaço físico natural, deu lugar ao tempo organizado, planeado,
uniformizado. Do estímulo ocasional passou-se a uma hegemonia do estímulo
organizado, tendo como consequência a diminuição da autonomia das crianças,
com implicações graves na esfera do desenvolvimento motor e emocional. Sem
a imunidade que lhe é conferida pelo jogo espontâneo, pelo encontro com
outras crianças num espaço livre, onde se brinca com a terra, se inventam jogos,
se vivem aventuras, a criança revela menos capacidade de defesa e
adaptabilidade a novas circunstâncias.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

29

5- Objetivos e finalidades dos jogos

Com o jogo, conseguiremos:


- canalizar a nossa criatividade;
- libertar tensões e emoções;
- orientar positivamente as angústias quotidianas;
- refletir;
- aumentar o número de amizades e relações;
- divertir-nos;
- aumentar o grau cultural e o compromisso coletivo;
- ter predisposição para realizar outros afazeres;
- obter integração intergerações quando se possibilitam oportunidades.

Assim, as crianças e os jovens demonstram, de forma regular, uma sistemática


necessidade de atividade motora em diversos contextos da sua vida quotidiana
em dinâmicas formais e informais, que são decisivas em todo o processo de
desenvolvimento e aprendizagem de habilidades motoras e capacidades físicas,
apresentando um significado profundo em termos de necessidades biológicas,
sociais e culturais, sendo realizadas com grande prazer e entusiasmo.

O jogo concebe-se, assim, como um sistema fictício, com regras obrigatórias,


porém aceite livremente por todos. A sua prática traz ao participante múltiplos
sentimentos e experiências diferentes das que está acostumado no dia-a-dia e,
com uma clara função de utilidade. A atividade associada ao desenrolar destas
ações, conferem a exercitação da função e sentido de intencionalidade que,
sendo imediatas, permitem ao ser humano uma relativa e confortável
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

capacidade de adaptação ao longo da vida em relação aos desafios do seu 30


envolvimento físico, social e cultural. Desta forma, podemos definir a atividade
do jogo como uma utilidade, porque é livre, sem obrigações nem coações de
tipo algum; restrita, limitada no espaço e no tempo; Incerta, dependendo tanto
da sorte como das qualidades do participante; improdutiva, sem fins lucrativos;
codificada, estando regulada de antemão pela legislação vigente; fictícia, mais
ou menos afastada da realidade; espontânea; supérfluo, a sua necessidade só se
faz sentir na medida em que o prazer que dele se retira em tal o transforma e é
feito à vontade no tempo livre.

O jogo possui ainda um conjunto de funções, tais como:


(i) estética: jogar significa, simultaneamente, construir, inventar, por
conseguinte, criar;
(ii) (ii) cultural: jogar permite satisfazer os ideais de expressão e de
socialização;
(iii) (iii) social: jogar é sentir o prazer em compartilhar uma atividade
comum que conviria prolongar, além do espaço lúdico;
(iv) (iv) psicológica: o jogo permite esta instância, combate o
aborrecimento, estabelece novos contactos no seio de uma equipa,
incentiva o gosto pela ação e compensa a falta de atividade
profissional. Promove, assim, a saúde física, emocional, mental e
espiritual ao longo da vida, aquilo que define como o
desenvolvimento da criança e do jovem como um todo. Incentiva a
comunicação construtiva e o sentimento de pertença a um grupo.
Criando uma atmosfera encorajadora, agradável e lúdica, utilizando
diferentes formas de expressão.

A atividade lúdica assume-se, assim, como forma de promoção de ações


destinadas a preencher de forma criativa e autónoma o tempo livre. O jogo
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

pode ser um meio precioso que permite a realização dos seus desejos e 31
necessidades, partindo sempre de uma cultura, com os seus valores,
experiências, técnicas e costumes, que são adquiridos através da aprendizagem
e herança social. A forma como as crianças e os jovens ocupam os seus tempos
livres, tal como as suas preferências, mudam em cada geração, consoante os
seus interesses, desenvolvimento e as ofertas que a sociedade lhes proporciona.

Os tempos livres das crianças são aqueles que lhes restam depois de retirados
os tempos ocupados com a alimentação, higiene pessoal, tarefas escolares e
sono. Neste sentido, as crianças e os jovens, de acordo com o seu
desenvolvimento, necessitam de dar às suas vidas algo mais que preencha a
parte criativa que está intimamente relacionada com a inteligência humana. A
atividade lúdica surge, assim, como uma manifestação frequente e espontânea
no comportamento infantil e juvenil, sendo uma atitude natural e indispensável
ao seu desenvolvimento.

Desta forma, o jogo apresenta-se, de facto, como uma atividade lúdica mais
utilizada pela criança para se recrear e conhecer os seus limites pessoais e
sociais. O tempo livre da criança é, assim, entendido como um período de
tomada de decisões, só ou em comunhão com os pais, sobre o tipo de práticas a
realizar, quer se trate de uma decisão que implique um momento ou uma
prática sistemática, mesmo quando orientada. O jogo, como atividade natural,
assume especial importância na vida das crianças e dos jovens, pelo seu
carácter formativo e lúdico. O jogo é uma recreação da vida humana, uma
transformação simbólica e imaginária da realidade em que as crianças elegem
livremente um tema, um argumento, os materiais, o contexto, e os resultados,
para interpretar, assimilar e adaptar-se mais facilmente ao mundo em que vive.

Nesta perspetiva, os objetivos do jogo vão dar livre curso a todos os gestos de
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

que o corpo é capaz, fazendo sair o indivíduo de si próprio para se abrir às 32


relações com os outros, promovendo em certa medida uma parte do bem-estar
da pessoa. Desta forma, permitir capacitar as criança e os jovens, através da sua
aprendizagem em ambientes diversificados, para serem capazes de tomar nas
suas vidas decisões que o sustentem em tudo o que fizerem, na sua vida
pessoal, nas suas relações e nas decisões que tomarem acerca dos outros e do
ambiente que os rodeia.

As crianças e os jovens são consideradas como privilegiados nas condições de


acesso ao lazer, muitas vezes afirmando-se até que sejam os únicos grupos
capazes de poderem desfrutá-lo na sua íntegra. Por isso, muitas vezes, não
conseguimos compreender porque é que crianças e os jovens se desinteressam
muito rapidamente da prática de certas atividades. O que é importante e
necessário é oferecer-lhes, sem pressões nem imposições, o modo e o meio
para ocupar e desfrutar o seu tempo livre. Os jogos nos recreios devem ser
escolhidos pelas crianças e jovens. Se for dada oportunidade a estas de realizar
várias atividades, jogos e brincadeiras feitas em contextos físicos que favoreçam
essas práticas e se existirem equipamentos necessários ao jogo, a crianças e o
jovem pode optar entre as várias ofertas disponíveis. Assim o uso do espaço e
equipamentos para o jogo e tempo livre deve ser reconsiderado de acordo com
as mudanças e razões de mobilidade das populações. Estas mudanças têm
implicações nos estilos de vida das crianças e jovens e também ao nível das
oportunidades para a prática das atividades desportivas e do jogo.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

33

6- As idades em que cada tipo de jogo pode ser aplicado

O jogo é o processo de dar liberdade ao indivíduo, principalmente à criança, de


exprimir a sua motivação intrínseca e a necessidade de explorar o seu
envolvimento físico, social e cultural sem constrangimentos. Jogar, brincar,
quando se é adulto, enquadra-se, também, naqueles mitos e estereótipos que
advogam que jogar, brincar é coisa de criança. Grande erro, o desejo de brincar
acompanha-nos toda a vida, mas os nossos diferentes papéis sociais assumidos
distraem-nos da prática regular de brincar, o que não eliminou, no entanto, o
nosso desejo de fazê-lo. O jogo, quer em crianças, em adultos ou em idosos é
uma das melhores formas de comunicação e diversão intergeracional. Nesta
perspetiva, é a melhor estratégia para um aproveitamento do tempo livre. O
jogo é, assim, uma atividade fundamental para crianças, jovens ou adultos, para
todos os seres humanos, o seu carácter livre e simultaneamente regulamentado
e simbólico, onde se conjuga a permanente inovação com a tradição, converte-o
numa espécie de emblema total da nossa vida.

Jean Piaget acabou por se especializar em estudos do conhecimento humano,


sendo o seu foco direcionado para o desenvolvimento da criança. Através de
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

um trabalho que realizou num colégio em França apercebeu-se que, crianças da 34


mesma faixa etária cometiam o mesmo erro nas respostas ao teste de
inteligência. Com estes dados Piaget colocou a hipótese de que o pensamento
infantil seria muito diferente do pensamento adulto. Piaget tornou-se
mundialmente reconhecido pela sua teoria epistemológica, que analisa as
relações com o sujeito e com o objeto no processo de construção do
conhecimento, mostrando como o conhecimento se desenvolve.

Desta forma e de acordo com Piaget não se pode, com efeito, senão indagar se
toda a informação cognitiva emana dos objetos e vem de fora informar o
sujeito.
A cognição refere-se ao conhecimento, e o desenvolvimento cognitivo à
aquisição de conhecimento. No desenvolvimento cognitivo incluem-se todos os
aspetos da inteligência humana que utilizamos para compreendermos e nos
adaptarmos ao mundo, ou seja processos como a compreensão, o raciocínio, a
aprendizagem, o pensamento, a conceptualização, a resolução de problemas, a
classificação e a recordação.

No desenvolvimento cognitivo, o indivíduo em questão é um sujeito ativo neste


processo e na interação com o objeto. Nesta abordagem Piaget pretendeu
perceber quais os mecanismos que o indivíduo utiliza para explorar e
compreender o mundo externo. O desenvolvimento psíquico (mental), que se
inicia com o nascimento e termina na idade adulta é comparável ao crescimento
orgânico: tal como este, consiste essencialmente numa marcha para o
equilíbrio. Tal como o corpo está em evolução (crescimento e maturidade dos
órgãos), também a vida mental evolui em direção a uma forma de equilíbrio
final (espírito adulto). De certa forma, o desenvolvimento é uma equilibração
progressiva e crescente. No jogo ou na maneira de raciocinar encontramos um
mundo de diferenças em relação ao adulto, podendo afirmar que «a criança não
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

é um adulto em ponto pequeno». Mas considerando os móbiles gerais de 35


conduta e do pensamento, existem funcionamentos constantes, comuns a todas
as idades: em todos os níveis, a ação pressupõe uma necessidade psicológica,
afetiva ou intelectual que a desencadeia, e que tenta compreender ou explicar.
A necessidade é comum a todos os estádios, mas com diferentes interesses,
dependendo do grau de desenvolvimento intelectual. Depois de casar e de ser
pai, Piaget, é através do estudo e observação minuciosa dos seus três filhos e de
outras crianças ao nível do desenvolvimento cognitivo, que estruturou a Teoria
Cognitiva, onde propõe a existência de quatro estádios que servem de marcos
de referência no que se refere ao desenvolvimento cognitivo do ser humano: o
sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal.

De acordo com Piaget, a criança constrói as suas ideias e a sua vida afetiva a
partir dos estádios de desenvolvimento cognitivo. A par das funções constantes,
as estruturas variáveis são as formas de organização da atividade mental
(motora ou intelectual, afetiva), bem como segundo as dimensões individual e
social (interindividual).

Distinguindo estádios de desenvolvimento que marcam o aparecimento destas


estruturas sucessivamente construídas:
I. Estádio Sensório-Motor (do nascimento aos dois anos) – dividido em três
sub-estádios: o estádio dos reflexos ou montagens hereditárias, bem como das
primeiras tendências instintivas e das primeiras emoções; o estádio dos
primeiros hábitos motores e das primeiras perceções organizadas e primeiros
sentimentos diferenciados; o estádio da inteligência sensório-motora ou prática
(anterior à linguagem), das regulações afetivas elementares e das primeiras
fixações exteriores da afetividade.
II. Estádio Pré-Operatório (dos 2 aos 7 anos) – O estádio da inteligência
intuitiva, dos sentimentos interindividuais espontâneos e das relações sociais de
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

submissão ao adulto. 36
III. Estádio das Operações Concretas (dos 7 aos 11-12 anos) – O estádio do
início da lógica e dos sentimentos morais e sociais de cooperação.
IV. Estádio das Operações Formais (a partir dos 12 anos) – O estádio das
operações intelectuais abstratas, da formação da personalidade e da inserção
afetiva e intelectual na sociedade dos adultos.

Cada um dos estádios é caracterizado pelo aparecimento de estruturas


originais, cuja construção o distingue dos estádios anteriores. Toda a estrutura é
essencial, é a base de novas construções.

Cada fase obriga, pois, a criança a resolver problemas específicos, sempre mais
difíceis do que os anteriores. Apenas se pode alcançar um estádio depois de ter
dominado o que o antecede: as possibilidades da criança crescem e a sua lógica
desenvolve-se pouco a pouco, para se tornar progressivamente apta a
raciocinar como um adulto. Ao contrário das construções que subsistem, em
cada um dos estádios também se formam caracteres momentâneos e
secundários, que são alterados pelo desenvolvimento seguinte em função das
necessidades de uma melhor organização. Desta forma, cada estádio é uma
forma de equilíbrio particular, em que a evolução mental realiza-se no sentido
de um equilíbrio cada vez maior.

Os mecanismos funcionais comuns a todos os estádios são toda e qualquer


ação,
movimento, pensamento ou sentimento que responda a uma necessidade.
Existe sempre uma necessidade que nos move e nos faz agir. Esta necessidade é
uma manifestação de um desequilíbrio, algo se modificou e é preciso reajustar-
se em função dessa alteração. Por exemplo, a criança ao encontrar um objeto
exterior fará despoletar a necessidade de brincar, a sua aplicação em fins
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

práticos, existirá a necessidade de um reajuste. E esta ação termina quando se 37


satisfaz a necessidade, ou seja, quando se restabelece o equilíbrio entre o que é
novo e que desencadeou a necessidade, e como a nossa organização mental se
apresentava anteriormente. Poderá dizer-se que a ação é constantemente
desequilibrada pelas alterações do mundo (exterior ou interior), e cada nova
conduta vai para além de restabelecer o equilíbrio, tende para um equilíbrio
mais estável que o anterior.

Este reajustamento, equilibração, é um mecanismo contínuo e perene que


constitui a ação humana. Contudo, este mecanismo não explica o conteúdo ou a
estrutura das diferentes necessidades, pois depende do nível a considerar.
Sendo assim, os interesses de uma criança podem diferir em relação ao de
outras, pois dependem do conjunto de noções que adquiriu e das suas
disposições afetivas, visto propiciarem um melhor equilíbrio. De acordo com
Piaget todo o conhecimento deve ser tomado como relativo a um estado
anterior de menor conhecimento e suscetível de dar lugar a um estado de
conhecimento mais avançado.

Em qualquer um dos estádios de desenvolvimento a criança é capaz de


selecionar, interpretar, transformar e reconstituir experiências de forma a
adequá-las às suas estruturas mentais. Antes de abordar exaustivamente o
desenvolvimento é importante especificar, no que respeita às necessidades e
interesses, qual a forma geral de equilíbrio comum a todas as idades. Neste
sentido pode dizer-se que toda a necessidade tende, primeiro, a integrar as
pessoas e as coisas na atividade própria do sujeito, a realizar a «assimilação» do
mundo exterior às estruturas já construídas, e, segundo, reajustar as estruturas
já construídas em função das transformações sofridas, ou seja «acomodá-las»
aos objetos exteriores.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

A inteligência é para ele o resultado de uma interiorização da ação, a 38


assimilação e a acomodação constituem as duas noções de base de tal edifício.
Assimilamos constantemente a informação, os dados, as perceções a que é
necessário que nos acomodemos. Portanto, só há acomodação quando «o meio
age sobre o organismo» e, por conseguinte, este último sente-se obrigado a
reorganizar-se.
Desta forma, a acomodação é a capacidade que a criança tem de se adaptar ao
ambiente. Este estabelece exigências sobre a criança, e ela terá de se mudar
para estar à altura. Por exemplo, se um objeto estiver no meio da estrada onde
um carro passa, a criança ao retirá lo encontra a solução.
A criança é, segundo Piaget, um sujeito cultural ativo que passa por dois
momentos de adaptação no processo de desenvolvimento: a assimilação e a
acomodação. De acordo com Piaget, o conhecimento é o equilíbrio entre
assimilação e acomodação. Ou seja, a assimilação é a inclusão de descobertas
reais nos esquemas já existentes, é o processo em que as ideias, as pessoas, os
costumes são integrados na atividade do sujeito.

A acomodação é a transformação dos esquemas existentes com novos


elementos. A assimilação é a capacidade de a criança mudar o ambiente, de
forma a adaptar-se à sua imaginação. Com a ideia do que pretende, a criança
modifica o ambiente para o conseguir assimilar. Por exemplo, a criança finge
que uma régua é a espada. Mas também pode ser a criança a modificar o
ambiente fisicamente. Por exemplo, escavando um buraco no jardim para
construir um castelo. “Em termos não técnicos isto designa-se por «brincar»”.

No jogo simbólico (imaginativo), a criança transforma os objetos de modo a


enquadrar o seu próprio imaginário. A ação e o pensamento, ao assimilar os
objetos através da sua perceção e movimento, são obrigados a acomodar-se a
eles, ou seja, a reajustar-se a cada variação do exterior. Ao equilíbrio destas
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

assimilações e acomodações pode chamar-se «adaptação», a forma geral de 39


equilíbrio psíquico, surgindo o desenvolvimento mental na sua organização
progressiva, como uma adaptação cada vez mais precisa ao real.
Um equilíbrio pode ser visual ou intelectual e é caracterizado pela mobilidade e
pela estabilidade, quer no espaço quer no tempo. Através da equilibração a
criança consegue organizar e regular. Esta autorregulação permite-lhe o
contrabalanço em reação aos estímulos exteriores. Mas este equilíbrio não dura
muito, pois o processo de desenvolvimento cognitivo é instável e facilmente é
desequilibrado por um acontecimento novo.

Embora todas as crianças sejam diferentes, existem três pontos na infância em


que ocorre uma reorganização mental (por volta do fim do segundo ano, por
volta dos 6 ou 7 anos e por volta dos 11 ou 12 anos).
O que define a Teoria Cognitiva de Piaget não é a ideia de que as crianças mais
velhas sabem mais que as mais novas, mas sim que conhecem a realidade de
uma maneira mais correta, organizada e estruturada. A idade em que atingem
estes pontos pode variar, mas a sequência não, uma criança não se pode
encontrar num estádio mais avançado sem ter passado pelos anteriores.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

40

7- Planeamento e construção de jogos

É urgente um bom planeamento para que a construção aconteça. Podemos


adiantar que existem basicamente oito etapas na construção de jogos. Assim
temos:
Etapa 1: Conceito
Esta fase inicial ocorre quando é elaborada uma ideia de jogo, uma
funcionalidade básica, a história, o enredo básico, a viabilidade de forma geral,
os custos, etc. Esta etapa termina quando se toma a decisão de começar a
planear o projeto de jogo. O ideal, neste ponto, é gerar um documento de
conceito de jogo. São sugeridos os seguintes componentes:
•Premissa: ideia geral do jogo, que deve ter uma ou duas frases. Estas são
endereçadas ao seu jogador e provavelmente serão aquelas usadas para
mostrar o diferencial do seu jogo, além de uma futura divulgação.
•Motivação do jogador: nesta componente devemos responder às perguntas:
Como o jogador vence? Qual é a motivação para o jogador?
•Diferencial: neste momento, surgem as perguntas: O que o seu jogo traz de
diferente em relação aos outros jogos semelhantes que já existem? O que o
torna especial? Tem um visual mais atrativo? Porque razão certas pessoas
abandonariam um jogo para jogar aquele que nós criamos?
•Público-alvo: quem jogará o nosso jogo? Que idade vai ter? Qual é o seu
género? Em qual país e qual língua? A ideia, aqui, é definir o provável perfil de
jogador e, dessa forma, conseguir apresentar soluções mais adequadas ao jogo.
No futuro, essa informação poderá ser usada para definir a campanha de
marketing.
•Classificação etária: a classificação etária deve ser analisada de acordo com o
conteúdo do seu jogo.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

•Plataforma-alvo e requisitos de hardware: o jogo poderá ser distribuído para 41


PC, Windows, MAC e Linux? Será desenvolvido para Tablet? Android e IOs?
•Licença: este é o momento em que devemos indicar quando pretendemos
fazer um jogo que envolva licença de terceiros. Por exemplo, para um jogo de
futebol (em suporte digital) você precisa da licença de uso das equipas, dos
jogadores etc.).
•Objetivos: o que está além da "diversão" do jogo? Qual a sua expectativa
quanto à experiência do seu jogador? Que sensações queremos tentar
produzir? Suspense, medo, desafio, humor, tristeza etc.
•Custo financeiro: Custará quanto? como se dará o retorno financeiro?

Etapa 2: Pré-produção ou planeamento


Nesta fase é detalhado o jogo, qual é o estilo de arte, o plano de produção, a
história, mecânicas de jogo etc. Este momento termina com a criação de um
documento a parte, é a espinha dorsal do jogo. Ele é a referência durante todo
o projeto.

Etapa 3: Protótipo
Nesta etapa, podem ser usados, além de protótipos digitais, protótipos no
papel, no quadro etc. Também é possível desenhar no papel ou com auxílio de
um software. A dica, nesta fase, é sair um pouco do digital para se atentar ao
jogo e não a questões de tecnologia etc. Um dos elementos mais importantes
do protótipo é ter um feedback, não só da equipa, mas de possíveis
interessados no jogo. Afinal, os jogos são projetados para jogadores.

Etapa 4: Produção
Esta é a etapa em que o jogo é produzido, o que leva em torno de tempo que se
estende de acordo com a sua complexidade. Este período pode variar, pois é
quando são obtidas as licenças necessárias para a comercialização dos títulos.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Apesar de o documento de design estar concluído, ainda são feitos alguns 42


ajustes.

Etapa 5: Alfa
Nesta fase, o jogo é jogável do início ao fim. Assim, a equipa de qualidade valida
o jogo, em todos os módulos, à procura de melhorias e defeitos. Os problemas
são registados num banco de dados. Neste ponto, já devem estar concluídos:
•Percurso completo (ou seja, ele é jogável do começo ao final);
•Texto no idioma básico;
•Interface básica, com documentação preliminar (se aplicável);
•Requisitos mínimos do sistema testados;
•Maioria das interfaces manuais testadas quanto à compatibilidade;
•Arte e áudio temporários (se aplicável);
•Recursos multiplayer testados (quando aplicáveis);
•Rascunho do manual do jogo.

Etapa 6: Beta

Nesta fase, a ênfase está na correção de problemas. São chamados testadores.


Neste momento, devem estar concluídos:
•Código;
•Conteúdo;
•Texto em diferentes idiomas;
•Navegação pelo percurso do jogo (se aplicável);
•Interface do usuário;
•Elaboração do manual;
•Manual do jogo.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

43

Etapa 7: Ouro
Após passada a fase beta, o jogo é enviado para a fabrico, quando, geralmente,
é embalado junto com manuais e os outros itens.

Etapa 8: Pós-produção
Nesta etapa, são corrigidos algumas “deficiências” que ainda surja normalmente
referentes a problemas pontuais. Também são disponibilizadas atualizações ou
expansões. O objetivo, neste ponto, é conseguir dar maior longevidade ao jogo.
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Frase de fecho 44

“O que oferece dificuldade para o conceito de jogo é o emprego de vários


termos como sinónimos. Jogo, brinquedo e brincadeira têm sido utilizados
com o mesmo significado. ( … ) O sentido usual permite que a língua
portuguesa referende os três termos como sinónimos. Esta situação reflete o
pouco avanço dos estudos na área.”

Kishimoto (1994)
UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Bibliografia 45

Assembleia da Nações Unidas (1959). Declaração dos Direitos da Criança.


Consult. 27 Set 2007, disponível em:
http://afilosofia.no.sapo.pt/cidadania1a.htm

Brandes, Donna et all. (1986). Psicologia e Pedagogia: Manual de Jogos


Educativos. (Vol.III). Lisboa: Moraes Editora.

Bruner, Jerome. (1986). Accíon, Pensamiento y Language. Madrid: Alianza


Editorial.

Cabral, A. (1985). Jogos Populares Portugueses. Porto: Ed. Domingos Barreira.

Cabral, A. (1991). Jogos Populares Infantis. Porto: Ed. Domingos Barreira.


Caillois, R. (1990). Os Jogos e os Homens. Lisboa: Ed. Cotovia.

Costa, José P. (1997). Actividades Lúdico: Festivas na Freguesia de Sortelha.


Guarda. Dissertação de Monografia apresentada à Escola Superior de Educação
do Instituto Politécnico da Guarda.

Crespo, J. (1990). Os Jogos Tradicionais em Portugal. Os Caminhos da


Investigação, in Cameira Serra et al. (Org.), Actas das Jornadas de reflexão “Os
Jogos Tradicionais em Portugal”. Guarda: Instituto Politécnico da Guarda –
Escola Superior de Educação e Direcção Geral do Desporto, Guarda, 1990, pp.
51-62.

Durão, Maria T. B. (2001). Jogos Tradicionais Transfronteiriços. Guarda.


UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Dissertação de Monografia apresentada à Escola Superior de Educação do 46


Instituto Politécnico da Guarda.

Friedmann, A. (1995). Jogos Tradicionais. Publicação: Série Idéias n. 7. São


Paulo: FDE, pp. 54-61. Consult. 4 Set 2007, disponível em:
http://www.crmariocovas.sp.gov.br/dea_a.php?t=017.

Guedes, M.G.S. (198-?). Jogos Tradicionais Portugueses. Estudos e Investigação.


Lisboa: Instituto Nacional dos Desportos.

Guedes, M.G.S. (1995). Editorial. Revista da Educação Física Universidade


Estadual de Maringá. Volume 6. Nº 1. Consult. 12 Nov 2007, disponível em:
http://www.def.uem.br/revista/revista_06/editorial_r_06.htm

Martins, E. F. (1997). Os Jogos Tradicionais e Aprendizagem Motora. Guarda.


Dissertação de Monografia apresentada à Escola Superior de Educação do
Instituto Politécnico da Guarda.

Monteiro, José Peres (1990). Educação e Tecnologia, 6. p. 50.

Neto, C. (1997). Jogo & Desenvolvimento da Criança. Lisboa: Edições Faculdade


de Motricidade Humana.

Neto, C. (2000). O Jogo e Tempo Livre nas Rotinas de Vida Quotidiana de


Crianças e Jovens. Lisboa: Faculdade de Motricidade Humana Universidade
Técnica de Lisboa. Consult. 5 Nov 2007, disponível em:
http://www.fmh.utl.pt/Cmotricidade/dm/textoscn/ojogoetempolivre.pdf

Serra, M. C. (1999). Os Jogos Tradicionais em Portugal As Relações entre as


UFCD 4289 – O Jogo ___________________________________________________________

Práticas Lúdicas e as Ocupações Agrícolas e Pastoris. Volume I. Vila Real. 47


Dissertação do Doutoramento apresentada Universidade de Trás-os-Montes e
Alto Douro.

Silva, C. e Morais, M.M. (1967). Jogos Tradicionais Portugueses. Lisboa:


Ministério da Educação Nacional, Direcção Geral do Ensino Primário, 2ª Edição.

Sousa, C. M. (1997). Os Jogos Tradicionais como Unidade Didáctica do Programa


de Educação Física. Guarda. Dissertação de Monografia apresentada à Escola
Superior de Educação do Instituto Politécnico da Guarda.