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A teoria freudiana e suas relações com a cultura: contribuições para se pensar a

educação

Considerando a amplitude e a importância do tema, é preciso abordá-lo inicialmente


pelo viés epistemológico, de modo a propiciar uma reflexão sobre o impacto das idéias
sustentadas por Freud - ao tratar de noções como o inconsciente, o complexo de Édipo, as
pulsões e a causalidade psíquica – sobre o pensamento ocidental. Para, em seguida, ensejar
uma discussão sobre a atualidade dessas noções, sobretudo se considerarmos os impasses
da subjetivação contemporânea e da educação na atualidade.
A identificação da razão subjetiva com a consciência parece ter constituído por muito
tempo uma convicção inabalável da filosofia moderna. Garcia-Roza afirma, em seu livro
“Freud e o inconsciente” (1988), que a filosofia moderna tornou possível “duvidar da
existência do mundo e até mesmo da existência de Deus, mas nada pode ameaçar a certeza
inabalável do cogito” (p.19). “Quase três séculos depois de Descartes”, sustenta o autor,
“ainda é em torno dessa certeza que gira o pensamento filosófico”(p. 19). Acrescenta,
ainda, ironizando a pretensão onipotente do pensamento ocidental de tudo abarcar e tudo
dominar pela via da consciência: “Nesse mundo cartesianamente concebido e conduzido, o
ideal narcísico de uma consciência idêntica a si mesma é plenamente atingido” (p.20).
Não se pode esquecer que o próprio Freud considerou suas descobertas como sendo
responsáveis pela terceira grande ferida narcísica sofrida pelo saber ocidental, ao sustentar
o descentramento da razão e da consciência. As outras duas teriam sido produzidas por
Copérnico e Darwin. Apesar de Freud ter enfrentado longos anos de solidão na comunidade
científica da época, sabe-se do reconhecimento internacional que adquirira em vida,
atestado tanto pelo prêmio Goethe que recebeu devido à qualidade literária da narrativa de
seus casos clínicos, quanto pela expansão do novo conhecimento no plano internacional. Há
que se reconhecer, ainda, o grande prestígio adquirido pela prática clínica gerada pela teoria
psicanalítica, que se mantém até hoje - a despeito das pressões, sobretudo da indústria
farmacêutica, para comprovar sua eficácia a partir de parâmetros quantitativos e
observáveis - além de se constituir em um dos objetos do conhecimento dos mais
debatidos no mundo contemporâneo. No campo da educação, embora muito se tenha
investigado a respeito das contribuições psicanalíticas, pouco se tem avançado no sentido
de repensá-la, como práxis, considerando a participação dos afetos – conscientes e
inconscientes - nos campos do ensino e da aprendizagem.

A propósito do descentramento do sujeito...

Analisemos o descentramento do sujeito e a cisão da subjetividade envolvidos na


formulação do conceito de inconsciente.
A teoria freudiana sustenta duas teorias sobre a tópica psíquica: a primeira, pautada
pela distinção entre Inconsciente, Pré-consciente e Consciente, e a segunda, que distingue
três instâncias: Id, Ego e Superego.
Antes de analisarmos a hipótese freudiana sobre o inconsciente, apenas uma observação
sobre o termo "tópica". Segundo Laplanche, "é o terreno para uma verdadeira estratégia, no
sentido guerreiro do termo, com movimentos de ataque e contra-ataque"(1992, p. 120).
Significa teoria dos lugares, ou como Freud o empregou para compreender a teoria do
trauma (em que a lembrança mesma adquire estatuto traumático) e a própria teoria da

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formação do Ego, concebido como o grande terreno de para-excitação interna que se erige
contra o ataque pulsional.
Com o desenvolvimento da 1a tópica freudiana, a subjetividade deixa de ser entendida
como um todo unitário, identificado com a consciência e conduzido pela razão, para ser
compreendido como sendo composto por dois grandes sistemas - o inconsciente (referente
aos conteúdos recalcados) e o (pré) – consciente (o inconsciente latente). Já na 2a tópica, o
termo inconsciente, embora seja concebido como parte integrante do Id - o campo das
paixões movidas pelas pulsões de vida e de morte - é empregado mais como qualidade das
instâncias Ego e Superego.
A segunda tópica, ao desenvolver uma concepção estrutural do aparelho psíquico,
complexifica as teses iniciais, uma vez que não faz mais coincidir os polos do conflito
psíquico com os sistemas definidos: como por exemplo, o recalcado com o inconsciente e o
ego com o sistema pré-consciente. Essa segunda teoria faz intervir três instâncias: o id, o
polo pulsional; o ego como representante dos interesses da pessoa, dotado de investimento
narcísico; e o SE (superego), o herdeiro do Complexo de Édipo, como resultado da
identificação com as figuras parentais, e responsável pelo julgamento e crítica moral (em
que se destacam a consciência moral, o ideal de ego e a auto-observação). Todas elas
atravessadas por conteúdos inconscientes. Salienta ainda as relações de dependência entre
as instâncias, como ocorre por exemplo com o ego, que até em suas realizações adaptativas
satisfazem exigências pulsionais.
Quanto ao descentramento do sujeito, será uma discussão introduzida por Lacan, a
propósito dos efeitos do inconsciente no campo do saber, que vai por em questão o cogito
cartesiano como sendo o lugar da verdade. Embora Freud, já tivesse sustentado a idéia de
que o Eu seria antes de tudo um lugar de desconhecimento, Lacan irá questionar-se sobre a
pretensa transparência e unidade do discurso do sujeito (perseguida pelo cartesianismo).
Nesse sentido, o sujeito do enunciado não coincidiria com o sujeito da enunciação, uma vez
que o primeiro produz o desconhecimento deste último. Daí a conhecida inversão da
máxima de Descartes feita por Lacan: "Penso onde não sou, portanto sou, onde não
penso"(cf salienta Garcia-Roza, 1988, p. 23). Na verdade, aqui o autor está dando uma
outra formulação à idéia freudiana de causalidade psíquica, que aponta para a determinação
inconsciente do pensamento e do próprio conhecimento.
O problema é saber em que medida a descoberta da dimensão inconsciente do psíquico
põe em questão a dimensão objetiva da razão e se haveria como redimensioná-la, tomando
em consideração que faz parte do humano ser atravessado por paixões e desejos
inconscientes, o que garantiria, ao contrário do que se pensa usualmente, um pensamento
imparcial, em que a interferência dos afetos seria minimizada.

Quando a paixão (edipiana) é expurgada da razão...

Sérgio Paulo Rouanet (1987), em seu belíssimo artigo “Razão e Paixão”, analisa a
tragédia de Eurípedes, As bacantes, em que tal interação é especialmente rica.Centra sua
atenção sobre os discursos de Dionísios, Penteu (o sucessor do trono de Tebas) e do velho
sábio Tirésias. Considera que o primeiro representa a própria vontade de poder, associada
ao culto do êxtase e da paixão; já o segundo, a vertente arrogante da pseudo-razão
esclarecida (“razão louca”), reduzindo-se a um simulacro de razão, uma vez que expulsa de
si a paixão dionisíaca; e, finalmente o terceiro, é portador de uma razão mais rica e mais
crítica do que a de Penteu, ao considerar insensata a razão que elimina a dimensão

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passional. Esta última seria a “razão sábia”, que admite a complexidade do humano e é
capaz de contemplar a participação do afeto, da sensibilidade e da racionalidade, tanto na
construção do saber, como da autonomia moral.
Aliás, Diderot advertira, em suas Obras Filosóficas, quão absurdo seria conceber uma
razão sem a participação das paixões.Em tom irônico, observa: “É o cúmulo da loucura
propor-se a ruína das paixões. Belo projeto aquele que um beato que se atormenta como um
louco para nada desejar, nada amar, nada sentir, e que acabaria por tornar-se um verdadeiro
monstro, se saísse bem sucedido!”(Diderot, Ediouro, s/d, p.88).
Rouanet (1987), com o objetivo de estabelecer uma interlocução entre essas reflexões
de natureza filosófica sobre a razão e as descobertas freudianas, esclarece que a paixão
reprimida e expurgada da razão ocidental, nada mais é do que o drama edipiano. O autor
sustenta que Penteu - diferentemente de Édipo, que realiza o incesto – é marcado pela
frustração, por não ter acesso à mãe, que se deixara levar pelo culto dionisíaco, e é seduzido
pela idéia de “voltar nos braços da mãe”, conforme lhe sugerira Dionísios, sendo, então,
mutilado por Agavé, sua mãe, que representa a figura do pai castrador. Com essa
interpretação da tragédia de Eurípedes, Rouanet amplia, ao mesmo tempo em que sugere
uma multiplicidade de configurações possíveis do Complexo de Édipo.
Mas, analisemos a importância da descoberta do Complexo de Édipo no interior das
formulações da teoria freudiana.
Freud organiza e compreende as descobertas sobre seu passado reconstruídas a partir
de sua auto-análise, procurando universalizá-las e delas depreender uma estruturação
simbólica. Segundo Didier Anzieu, em seu livro “L’auto-analyse de Freud et la découverte
de la psychanalyse”( ed .em 1959 e reeditado em 1998), a descoberta do Complexo de
Édipo, embora ancorada em suas lembranças de infância, adquire, para Freud, estatuto
universal quando o reconhece no mito encarnado na tragédia grega. Em carta dirigida a
Fliess (15/outubro de 1897), pouco tempo depois da famosa carta 69, onde Freud abandona
sua neurótica (teoria da neurose baseada no trauma de sedução real), afirma :
“Descobri, também, em meu próprio caso o fenômeno de me apaixonar por mamãe e
ter ciúme de papai, e agora o considero um fenômeno universal do início da infância,
mesmo que não ocorra tão cedo quanto nas crianças que se tornam histéricas...Se assim for
podemos entender o poder de atração do Édipo Rei (peça de Sófocles), a despeito de todas
as objeções que a razão levanta contra a pressuposição do destino” ( Correspondências, ,p.
273).
Anzieu salienta como Freud, em sua obra, “A interpretação dos sonhos”(1900), no
item “O sonho da morte de pessoas queridas” (cap.V, seção IV), deixa claro como a peça
literária cuja trama remonta aos mitos universais, funciona do mesmo modo que os sonhos,
como realização dos desejos. Édipo Rei, uma das tragédias mais bem votadas na Grécia
Antiga por seu alto poder de verossimilhança (com o mito), tem o valor de elucidar o drama
central do Ser Humano, mas cujo sentido universal sucumbe ao esquecimento, tal como
Freud o explicita neste texto:
“Édipo que mata seu pai e se casa com sua mãe apenas realiza um dos desejos de
nossa infância ...O poeta, ao revelar o crime de Édipo, nos obriga a olhar para nós mesmos
e a reconhecer estes impulsos que, embora reprimidos, estão sempre presentes...Como
Édipo, vivemos inconscientes dos desejos que ferem a moral e aos quais a natureza nos
constrange. Quando tais desejos nos são revelados, preferimos desviar nosso olhar das
cenas de nossa infância”(Freud, 1900,p. ).

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Trata-se de um mito que elucida tanto o enigma das neuroses, como o enigma de
todo homem. É nesse sentido que Freud interpreta as raízes inconscientes da tragédia de
Shakespeare, Hamlet: movido pelo sentimento de culpa devido aos dois desejos
(incestuosos em relação a sua mãe e homicidas em relação ao substituto de seu pai),
permanece paralisado em sua vida, em suas ações e sentimentos. Não consegue nem
corresponder ao amor de Ofélia, nem realizar a vingança, que lhe incumbiu o fantasma de
seu pai, sobre seu tio, o amante de sua mãe. Acaba, no final, infligindo a ele mesmo a
mesma sorte que tivera seu pai, ao ser envenenado pelo mesmo rival.
Mas será através da análise de seus pacientes que a evidência edipiana irá se impor:
a análise das jovens histéricas que lhe revelará, por meio do simbolismo de seus sonhos, o
modo de constituição do desejo feminino; enquanto que a análise de um jovem obsessivo
lhe evidenciará, ao lado do desejo incestuoso, o desejo de morte em relação à figura
parental do mesmo sexo.
O problema de Édipo remete à questão da filiação, ao se perguntar de quem é filho.
- Quem sou eu? De onde veio o homem? . Perguntas semelhantes às levantadas por toda
criança: - De onde vêm as crianças? Mas, cuja resposta vai depender que duas diferenças
fundamentais sejam reconhecidas: a dos sexos e a das gerações.
Freud afirma que a criança, entre os 3 e os 5 anos, a criança chega à organização
fálica da libido – ou genital infantil – de sua libido (e isto vale para ambos os sexos).No
caso do menino, a excitação sexual se organiza em torno do pênis. Por isso, este órgão
recebe uma extraordinária valorização narcísica. E é nesta etapa fálica de sua evolução
libidinal, que o menino deseja a mãe e odeia o pai, rival que lhe impede a satisfação de sua
paixão incestuosa. Ele luta contra a interdição do incesto, que o separa da mãe. Quer matar
o pai, seja como rival, seja como representante da Lei da Cultura.
O Édipo representa a última etapa de um progressivo e doloroso processo de
separação: corte do cordão umbilical, o desmame e, por fim, a proibição do incesto no
plano da genitalidade infantil. Mas, adverte-nos Freud, em seu artigo “O desaparecimento
do Complexo de Édipo”(1924), nada é comparável ao complexo da castração
experimentado pelo menino diante da interdição dos desejos incestuosos. E é neste
momento que se colocam as condições para a destruição e abolição do Complexo de Édipo.
Ou seja, na medida em que a satisfação amorosa incestuosa pode custar o pênis do menino,
impõe – se - lhe um conflito entre seus interesses narcísicos e o investimento libidinal dos
objetos parentais. Daí a renúncia ao Édipo, cuja conseqüência é a constituição do superego.
Para que este se forme, os investimentos objetais são abandonados e substituídos pela
identificação com a figura que antes fora seu rival. A autoridade e severidade do pai,
proibindo o incesto, vão constituir o núcleo do SE. As tendências libidinais do Complexo
de Édipo são dessexualizadas e sublimadas (graças a este processo ocorre o enriquecimento
egóico e a complexificação da estrutura psíquica).
A destruição do complexo de Édipo far-se-á por meio de uma repressão diferente das
demais, pois enquanto que nas posteriores a repressão vai se fazer com o auxílio do SE,
desta vez o SE ainda está em constituição.
Mas, e quanto às meninas? Haveria também uma organização fálica e um complexo
de castração?
Freud considera que as meninas não conhecem outra sexualidade na infância, a não
ser a masculina. O equivalente do pênis para a menina seria o clítoris, embora quando esta
observe o pênis do menino sinta-se em desvantagem, desenvolvendo um sentimento de
inferioridade. Mesmo supondo que a mulher adulta seja dotada de um genital masculino,

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grande e completo, a menina aceita a castração como fato consumado. Ao contrário do
menino, para quem a castração é a condição de saída do Édipo, para a menina, a castração é
a condição de sua entrada no Édipo. Segundo Freud, excluído o receio da castração, deixa
de haver, para a menina, um forte motivo para a construção do SE e para a demolição da
organização genital infantil. Desse modo, a menina desenvolveria um Édipo inequívoco e
prolongado, esperando receber um filho do pai.
Embora a formulação freudiana sobre o Édipo masculino seja amplamente aceita, não
ocorre o mesmo com relação à menina (cuja sexualidade seria organizada tb// de modo
fálico), o que tem levado diversos autores a contestar as teses falocêntricas em torno das
quais Freud teria pensado a questão edipiana e a própria sexualidade masculina e
feminina.(como elucida bem Jacques André, em seu livro, As origens femininas da
sexualidade,1996).

Como se articula a teoria do Complexo de Édipo ao debate sobre o indivíduo e a


cultura na teoria freudiana?

Uma das aquisições do Complexo de Édipo – o superego - aponta para a mediação


psíquica da cultura. Na conferência XXXI, Freud deixa claro que se trata de compreender
como o cultural externo (os pais, a família e, generalizando, as regras da sociedade) vai se
metamorfosear no cultural interno, uma introjeção da cultura, que se tornará uma realidade
psíquica. O ego não só é dirigido por um outro, o Superego, como também esse outro é
espelho da exterioridade cultural. O erro do louco está na regressão. Enquanto que o
daqueles considerados sãos, normais, consiste em assumir como sua, a voz do outro. E é
por meio dessa voz do outro, da cultura, que o Ego reprime aquilo que é: uma massa de
pulsões. Nesse sentido, o ego não só executa as ordens de sua consciência moral (uma das
instâncias do SE), sem saber por que, mas ignorando também que, obedecendo a essas
ordens, ele obedece na verdade, à realidade exterior (mediada pelo superego de seus
próprios pais, educadores e outros ídolos).
Por meio da teorização do superego, Freud esboça, portanto, toda uma teoria da
alienação do mundo psíquico, apontando-o como sendo responsável pelo falseamento da
percepção externa e interna, assim como sendo determinante da heteronomia, no registro da
moralidade. Ao mesmo tempo, considera o SE como a instância de preservação da tradição
cultural e dos valores. Salienta que os pais demonstram-se rigorosos e exigentes na
educação de seus filhos, esquecendo-se de que um dia forma crianças, porque seguem os
preceitos de seu próprio superego, garantindo assim a perpetuação dos valores:
“Assim, o superego da criança não se edifica na verdade segundo o modelo de seus
progenitores, mas segundo o superego destes; apresenta-se com o mesmo conteúdo,
tornando-se portador da tradição, de todos os valores perduráveis que se tem reproduzido
pelo caminho ao longo das gerações” (Freud, 1933/32, p. 62).
Esboça-se aí uma teoria desalienante em Freud, ao denunciar as dificuldades interpostas
pelo SE às transformações, sustentando que o SE cede apenas lentamente às mudanças do
presente.
Essa discussão é apresentada por Freud como forma de pensar sobre os rumos da
civilização ocidental em duas de suas obras em que teoriza a temática da cultura: Futuro de
uma ilusão(1927) e Mal estar na cultura (1929/30).
Em Futuro de uma ilusão (1927), Freud inicia o texto, levantando duas preocupações
centrais:

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- quanto às origens e vias de desenvolvimento da cultura e da civilização (tema do Mal
estar na cultura);
- quanto ao destino desta cultura a médio e longo prazo e por quais transformações ela terá
que passar.
Em o Futuro de uma ilusão (1927), ressalta ainda quão difícil é esta dupla tarefa, uma
vez que poucos têm consciência sobre o passado e mesmo sobre o presente, quanto mais
sobre o futuro (condenado à incerteza). Freud está denunciando algo que será tematizado
por Walter Benjamin, em O narrador (escrito em 1936 e publicado pela 1a vez em 1969) e
Experiência e pobreza (1933), ou seja, a experiência em declínio - pessoal e coletiva - o
que estaria mergulhando as pessoas na mais absoluta ingenuidade, além de dificultar que se
tome a civilização como objeto de reflexão.
Não se pode esquecer que o Futuro de uma ilusão (1927) prepara o caminho para a
elaboração do Mal Estar na Cultura (1929/30). Por isso mesmo apresenta, logo no início,
sua conceituação de cultura: tudo aquilo que nos distancia da vida animal e que apresenta
duas faces – de um lado, engloba todo o conhecimento adquirido pelo Homem para
dominar as forças da natureza e delas obter os bens necessários à satisfação das
necessidades humanas; de outro, compreende os dispositivos necessários à regulamentação
das relações entre os homens e à divisão dos bens entre os mesmos.
São dois aspectos interligados, que encontram sua contrapartida no potencial de
hostilidade dos indivíduos à cultura; ou mesmo na utilização da ciência e da tecnologia para
a destruição da mesma civilização para cujo desenvolvimento havia contribuído.
No Mal estar da cultura (1929/30), uma das questões essenciais apontadas é a tese de
que o acesso à realidade não está dado desde o início, mas é fruto de um trabalho penoso,
de uma conquista. O discernimento, a discriminação de si em relação à realidade, a
capacidade de julgar e de pensar (como preâmbulo da ação) são uma conquista e têm como
requisito a montagem de todo um aparato psíquico que capacita o indivíduo para tanto. A
partir de como evitar a dor e o desprazer, o aparelho psíquico vai se estruturando e
instaurando as funções do juízo, do pensamento e do raciocínio. Resta, porém, todo o
problema de como diminuir o fardo devido aos sacrifícios pulsionais exigidos pela
civilização. Dando continuidade aos argumentos de o Futuro de uma ilusão, salienta as
inúmeras estratégias de que o sujeito se vale para disfarçar e evitar o conjunto de decepções
que a vida oferece. E diz ser função da religião realizar tal disfarce, criando uma das ilusões
(porque sustentada no plano do desejo) das mais eficazes, que proporciona aos indivíduos a
solução mais acabada, ao propiciar a aceitação total da dolorosa finitude e de todos os seus
malefícios com a esperança de que no futuro se beneficiará da “gloriosa infinitude” tão
almejada.
Na mesma perspectiva de uma teoria desalienante, Freud critica mais de uma vez a
técnica religiosa de evitação do sofrimento, uma vez que esta o faz, impondo a todos, um
mesmo comportamento e uma mesma forma de amar: “ um amor que não discrimina, perde
aos nossos olhos boa parte de seu valor, pois comete uma injustiça em face do
objeto”(Freud, 1929/30, p. 100). Sugere, ainda, que nem todos mereçam ser amados! Com
isso, prepara o caminho para a tese da dialética das pulsões de vida e de morte como
motores da civilização.
Em seguida, aponta para as inúmeras tensões que atravessam a relação entre os
indivíduos e a sociedade, até mesmo quando se analisa a própria gênese do amor essencial à
cultura: tanto o genital, quanto aquele que fora desviado para fins civilizatórios.

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Os argumentos vão sendo conduzidos no sentido de demonstrar que há, na verdade, um
verdadeiro divórcio entre amor e cultura. Ao mesmo tempo, sustenta uma ambivalência em
relação à civilização construída em bases repressivas: pois, se de um lado, a civilização
começa quando a satisfação completa e imediata das pulsões é abandonada; de outro,
considera que a história do homem é a história de sua repressão, causando, nesse sentido,
infelicidade aos homens.
Mais do que isso, sustenta que uma civilização construída exclusivamente em bases
repressivas, propicia o incremento do sentimento de culpa, que em última instância, será
responsável pela destruição das bases da civilização. No capítulo VII, esclarece essa
questão pelo modo como a dialética das pulsões de vida e de morte participam da
construção e destruição da cultura. Sustenta que fazem parte dos desígnios da cultura unir
os Homens , vinculando-os através de laços libidinais. A cultura seria, pois, um processo
posto a serviço da pulsão de vida (Eros). Acontece que, para que isso ocorra, é preciso que
a Pulsão de Morte (Tanatos) seja posta a serviço de Eros. E se o processo repressivo
enfraquece Eros, porque incide prioritariamente sobre a libido, Tanatos se fortalecerá. A
destrutividade dela decorrente se voltará contra os próprios homens, incrementando o
sentimento de culpa e tornando-se, assim, uma das maiores fontes de insatisfação humana
com a própria civilização que contribuiu para criar.
É, portanto, através da história de formação do SE, e de seu corolário, o sentimento de
culpa, que Freud esclarece o modo como a cultura age para coibir a agressão que lhe é
antagônica, com o objetivo de torná-la inofensiva ou até mesmo de eliminá-la:
“A agressão é introjetada, internalizada, devolvida na realidade ao lugar de onde
procede: é dirigida contra o próprio ego, incorporando-se a uma parte deste, que em
qualidade de superego se opõe à parte restante, e assumindo a função de consciência moral,
descarrega no ego a mesma dura agressividade que o ego, de bom grado, haveria satisfeito
em indivíduos estranhos” ( Freud, 1929/30, p.119).
Mas, no final, deixa claro que, se o sentimento de culpa é cada vez mais alimentado pela
cultura repressiva, chegará o momento em que os indivíduos não mais a suportarão,
devolvendo a agressividade à realidade externa e, desse modo, contribuindo para a
destruição da própria civilização.
Portanto, à semelhança de Rouanet, Freud defende uma razão sábia, esclarecida, porém
capaz de contemplar a dimensão pulsional (ou passioanal) do ser humano, caso contrário
concorrerá para sua própria destruição. E isto está presente tanto em suas obras relativas à
teoria da cultura, quanto em suas reflexões sobre a psicanálise, como método de tratamento
analítico.
Mesmo quando trata de questões relativas ao tratamento psicanalítico, é possível
depreender indicações a respeito do que seria, por exemplo, uma “educação inspirada na
psicanálise” (como se pode depreender do caso do pequeno Hans), na mesma linha de sua
teoria desalienante sustentada em suas obras de teoria da cultura.
Analisemos, então, no que consistiria uma educação psicanaliticamente orientada, em
que a paixão não é expurgada da razão, como diria Rouanet.

A atualidade da noção de sexualidade infantil e de complexo de Édipo para se


repensar a educação em novos moldes

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O caso do pequeno Hans (1905) foi o único caso de neurose infantil acompanhado por
Freud (embora indiretamente, uma vez que o fez dando instruções ao pai da
criança).Tratava-se de um caso de fobia de animais (neurose de angústia), que Freud
esclarece estar intimamente vinculada à neurose infantil, fundada na trama edipiana. O
autor, por meio do relato de um caso de psicanálise infantil, não apenas confirma suas teses
sobre a sexualidade perversa e polimórfica sustentada nos “Três ensaios sobre a
sexualidade” (1905), como as articula ao Complexo de Édipo (em sua dimensão
fantasmática), ao mesmo tempo em que aponta o papel da sedução materna na erotização
da infância, estimuladora tanto da curiosidade intelectual da criança, quanto de sua
necessária neurose infantil (porque atravessada pelo Édipo). Com isso, deixa claro que
Hans não é nenhum degenerado, mas que simplesmente pode falar com liberdade de seus
desejos e fantasias infantis.
Esclarece, no final que o garoto não tinha nada de anormal, simplesmente a sua
curiosidade sexual estava intimamente relacionada com sua curiosidade intelectual. E, o
fato de ter sido criado com liberdade para expor suas idéias, pode ter contribuído para sua
angústia ter se manifestado abertamente. Sem medo de punições ou mesmo sem estar
movido pela “má consciência” (quando ainda não se internalizou a consciência moral e se
faz “coisas erradas”, escondidas da autoridade parental), pôde manifestar e tratar de suas
angústias (de castração, sobretudo). Esclarece algo essencial para a nossa reflexão aqui: a
análise não anula o recalque, mas apenas o substitui no que há de excessivo e automático,
por um controle mais equilibrado dos instintos exercidos com o auxílio de instâncias
psíquicas mais desenvolvidas.Temos pois aqui preciosas indicações de como seria uma
educação infantil psicanaliticamente orientada.
Em um artigo sobre a psicologia do escolar (1914), Freud faz um alerta ao
educador, lembrando da importância da personalidade do professor, à qual o estudante
tende a associar suas relações de amor e ódio por tal ou qual disciplina, pouco importando o
conteúdo do que estivesse sendo ensinado.Considera que os professores exerceriam o papel
de pais substitutos, sendo tratados inicialmente com o respeito que se tinha pelo pai
onisciente de primeira infância, para depois serem desidealizados, tornando-se objeto da
mesma ambivalência (de amor e ódio), anteriormente dirigida aos pais.
Acontece que hoje, diante das mudanças estruturais ocorridas em nossa sociedade,
com os valores mais fluidos e a pouca diferenciação entre as gerações, os jovens temem
mais esse encontro com o mundo adulto, até mesmo por não encontrar nele o apoio
necessário para experimentar suas angústias e ambivalências sem a ameaça da perda do
objeto (uma vez, que não é rara a ameaça de abandono, subjacente ao amor narcísico - uma
relação especular onde não há lugar para a alteridade - entre pais e filhos).Circunstâncias
estas que tem imprimido uma qualidade de relação dos adolescentes com o universo
escolar bastante tensa, marcada muitas vezes por uma verdadeira recusa1 de intercâmbio
com o mundo adulto.

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Recusa foi um termo utilizado pro Freud, particularmente em seu artigo sobre o fetichismo (Freud, 1927),
para se referir a uma falha na relação do eu com a realidade, fundada em uma espécie de percepção clivada de
natureza sexual (da realidade da castração), que em ultima instância remete ao não reconhecimento da
diferença entre os sexos. No caso do adolescente é como se ele se recusasse a percepção da castração e, com
isso, se mantivesse onipotentemente alheio à sua dependência do outro, o que compromete não só seu
processo de identificação ainda inacabado, como a eleição de objeto.

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É preciso ponderar, ao mesmo tempo, sobre a atualidade do conceito de Édipo, até
para se ter uma visão crítica dos chamados funcionamentos-limite presentes na
adolescência - em que as inibições neuróticas de natureza sexual são substituídas por
sintomas ligados à fragilidade dos laços familiares e sociais, cujas dificuldades emocionais
são marcadamente difusas, associadas a problemas genéricos de relacionamento com os
outros ou consigo mesmos, com a presença de depressões sem densidade, comportamentos
destrutivos, somatizações, etc. Portanto, uma subjetividade leve, sem contornos, tão
característica das chamadas tendências neo-narcísicas do mundo contemporâneo (Cf
Lipovetsky,1993), que parece ser determinante, não apenas na construção/desconstrução da
subjetividade da nova geração, como do mundo adulto, incluindo a de pais e professores.
Mesmo diante dessas novas configurações psíquicas, o debate em torno do Édipo
permanece sendo central, na elucidação do que falta, do que não se constituiu, ou que se
constituiu de forma precária, tal como afirma o psicanalista francês Philippe Jeammet a
propósito dos sérios problemas de estruturação psíquica enfrentados na adolescência hoje.
Deixa claro o que seria central para que o adolescente tivesse acesso à autonomia tão
almejada nesta idade, mas que tem sido prejudicada pelo processo anti-introjetivo em curso
nas condutas pautadas pelo “acting-out” (atuação-limite)2. Considera que, além das bases
narcísicas, outro fator interfere na capacidade de autonomia do sujeito: o grau de
diferenciação das estruturas internas do psiquismo. Uma diferenciação essencial que, por
meio de deslocamentos sucessivos, serve como para-excitação, impedindo a descarga
direta. Refere-se às duas imagos parentais totais e diferenciadas, além de uma boa base
narcísica. Mas, adverte-nos, a existência de tais imagos supõe que o Édipo tenha exercido
um papel estruturante em torno do reconhecimento da dupla diferença entre os sexos e entre
as gerações e que tenha existido uma neurose infantil.
Esse debate suscitado pela psicanálise da adolescência torna-se fundamental para que
se tenha uma compreensão ampliada da noção de limite na educação dos jovens
adolescentes na atualidade. Muito se fala de adolescentes sem limites, referindo-se, muitas
vezes à necessidade de uma educação mais rígida para que possam ter parâmetros mais
claros para suas condutas.Mas pouco se menciona que, na verdade, essa falta de limites está
relacionada muito mais a uma falha nos contornos psíquicos internos e à pouca delimitação
das imagos parentais, o que significa que pode ter havido problemas no processo de
identificação com o pai e a mãe,como resultado do comprometimento do papel estruturante
do Complexo de Édipo. Muitas vezes, em razão da falta de substância de vida dos próprios
pais, ou de um relacionamento mais significativo com os filhos, ou mesmo por se
encontrarem sem rumos quanto a valores e ideais a serem transmitidos.
Estou me referindo a toda uma discussão levantada por alguns especialistas franceses
- psicanalistas e psiquiatras – sobre o tratamento de jovens, considerados sem limites, ou
simplesmente problemáticos, mas que estão deixando de ser exceção para ser a regra. O

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O termo “acting-out”, ou atuação-limite, é empregado no sentido de uma espécie de atuação do mundo
psíquico no mundo externo ou no próprio corpo, sem se encontrar acompanhada de elaboração mental,
podendo referir-se seja a uma atuação do mundo psíquico no limite entre o mundo interior e o mundo exterior
(típico dos casos-limite), seja a uma passagem ao ato (próprio ao funcionamento psicótico). Pode traduzir-se
por sérios distúrbios alimentares (anorexia e bulimia),por comportamentos anti-sociais, ou ainda por meio de
ações violentas contra o outro ou contra o próprio sujeito.Cumpre acrescentar que P.Jeammet (2005)
contrapõe esses comportamentos considerados patológicos a outra formas de atuação presentes entre os
adolescentes que, a despeito da fragilidade narcísica subjacente, podem cumprir o papel de dar uma “virada
criativa” na vida do jovem.

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Prof. Philippe Jeammet ( 2005) levanta uma questão que me parece essencial para se pensar
as transformações pelas quais está passando a estruturação emocional do jovem de hoje.
Salienta que não se pode negar a presença de uma maior liberalização dos usos e costumes,
assim como a diminuição das barreiras e proibições entre as gerações, ao lado do
crescimento considerável das exigências de performance e de sucesso individual. Sugere
que a atenuação das regras e interdições aparece refletida no aumento da dependência
mútua e da usurpação do poder nas relações entre sujeito e objeto (entre pais e filhos, entre
namorados, ou entre marido e mulher, ou mesmo entre professores e alunos). Como o
apetite sexual-objetal é imenso nas relações amorosas estabelecidas entre os adolescentes e,
como estamos vivendo numa época em que as carências narcísicas também são enormes,
impõe-se ao jovem uma espécie de paradoxo inelutável, que, por sua vez, o induz a expor
suas necessidades emocionais por meio de uma série de atuações (actings-out). O jovem
encontra-se pressionado, de um lado, pela necessidade do objeto para concluir seu processo
de identificação (necessário para sua autonomia) e de outro, pelo receio de ver ameaçada
essa mesma autonomia, caso fique evidenciada a dependência do objeto. Tal situação
paradoxal poderá levá-lo à sua auto-destruição ou a desenvolver comportamentos hetero-
agressivos, ambos marcados pelo negativismo (ou seja, pela recusa do intercâmbio com o
mundo objetal e, em última instância, com o mundo da cultura, tão presente na “atuação
sem limites”, mencionada anteriormente).
Na verdade, esse novo padrão de intercâmbio entre as gerações, marcado por relações
mais fluidas, cujas marcas identificatórias tornam-se esmaecidas, nos faz pensar em uma
dimensão repressiva de novo tipo da civilização contemporânea, muito diversa da que fora
objeto de análise e de crítica de Freud em o Mal-estar na Cultura (1929/30).Levanto a
hipótese, inclusive, de que a re-interpretação das teses freudianas, feita por Marcuse nos
anos 60, em Eros e Civilização, formulada particularmente em torno da tese da
“dessublimação repressiva” refira-se a um processo que esteja sendo conduzido ao extremo
na atualidade.Ou seja, uma forma padronizada de liberação das pulsões que se coloca a
serviço do status quo e que, ao mesmo tempo, oblitera a verdadeira sublimação das pulsões,
subjacente a todo processo criativo de produção da cultura.
O problema é que a escola pública, sobretudo, parece não estar acompanhando tais
mudanças, pois ao insistir em um ensino tradicional (conteudista), que se limita a ensinar,
sem levar em consideração que a subjetividade e a cultura dos jovens tem outras referências
além da família e da escola3 – o que confere, por sua vez, novos contornos ao campo das
relações entre as gerações, assim como à participação e expressão juvenis ou mesmo ao
interesse do jovem pelo conhecimento – acaba se tornando palco muito mais de confronto e
mal-estar do que de um intercâmbio propriamente enriquecedor.
O que a psicanálise poderia contribuir para reverter esse estado de tensão reinante no
ambiente escolar?
O legado da psicanálise freudiana aponta para o papel fundamental do professor na
construção do desejo de saber entre os alunos, assim como das bases para sua autonomia
moral, sobretudo se pensarmos em sua importância como modelo identificatório. Para que
se possa resgatar esse papel fundamental do professor na formação dos alunos, é preciso
que a cultura escolar passe a admitir o campo intrincado de constituição do desejo como
fazendo parte dos processos socializadores a que estão sujeitos professores e alunos

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Cf. Fanfani,E.T. Culturas jovens e cultura escolar.In: Seminário “Escola jovem: um novo olhar sobre o
ensino médio”, 2000, Brasília, MEC,2000.

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(movida, portanto, pela razão sábia), ao mesmo tempo em que deve estar atenta às
tendências atuais da totalidade social, em particular, às condições de subjetivação e
dessubjetivação, oferecidas pelo mundo contemporâneo.

Bibliografia:

Fanfani, E.T. Culturas jovens e cultura escolar.In: Seminário “Escola jovem: um novo
olhar sobre o ensino médio”, Brasília, MEC, 2000.
Freud,S.31a Conferência. La descomposicion de la personalidad psíquica.In: Nuevas
conferencias de introducción al psicoanálisis (1933/32).Obras Completas. Vol.XXII.
Buenos Aires, Amorrortu Editores, 2001, pp.53-74.
__________. Tres ensayos de teoria sexual (1905).Obras Completas. Vol.VII. Buenos
Aires, Amorrortu Editores, 2001, pp.109-222.
__________. El porvenir de una ilusión (1927). Obras Completas. Vol.XXI. Buenos Aires,
Amorrortu Editores, 2001, pp.1-55.
__________ . El malestar em la cultura (1930/29). Obras Completas. Vol.XXI. Buenos
Aires, Amorrortu Editores, 2001, pp.57-140.
__________ . O desaparecimento do complexo de Édipo

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