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JOSÉ DE SEABRA DA SILVA E A SUA FAMÍLIA: ICONOGRAFIA E MOBILIDADE SOCIAL NO

ANTIGO REGIME
Por Miguel Gorjão-Henriques1

Introdução

Objecto deste trabalho é a figura de José de Seabra da Silva, personagem maior e


algo controversa da política portuguesa nos reinados de Dom José I e de Dona Maria I. O
leitor perdoará certamente, espero, a ousadia da intromissão de um jurista e académico,
para mais especialista em questões pós-históricas ou quase-históricas da integração europeia
(dependendo dos sucessos futuros da periclitante União Europeia) e do direito da
concorrência nestas áreas, mas é um tributo que a leitura há longos anos dos trabalhos do
Prof. Doutor Nuno Espinosa Gomes da Silva me fez querer prestar e que, muito
recentemente, mais se acentuou depois de ler o notabilíssimo artigo sobre a primeira
invasão francesa e, de modo particular, o papel de Ricardo Raimundo Nogueira no tempo
de Junot, onde a figura de José de Seabra da Silva, por quem desde sempre nutro uma
suspeita e algo incompreensível afeição, se insinua amiúde e com um destaque que filtra as
“médicas” (por ausência de formação jurídica) afirmações de Luz Soriano2. Além disso,
olhando já para o objecto deste trabalho, a figura incontornável de José de Seabra da Silva,
impõe-se realçar que não tive oportunidade de desenvolver várias das questões e tratar
múltiplas variáveis da personalidade e acção política deste notável português do século
XVIII e início do século XIX, que teve a capacidade de sobreviver aos céus e infernos
deste mundo em que transitoriamente estamos, durante o reinado de Dom José I (ou,
diriam alguns com certa ironia, de Dom Sebastião3… José de Carvalho e Melo), para
regressar, após a descida da secretaria de Estado e do estatuto de braço direito do Marquês

1 Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Sócio fundador da Sérvulo &


Associados – Sociedade de Advogados, RL e Advogado Especialista em Direito Europeu e da Concorrência.
2 O prof. Doutor Nuno Espinosa Gomes da Silva já se tinha ocupado noutras ocasiões de Ricardo
Raimundo Nogueira, como por exemplo em «Um pequeno manuscrito de Ricardo Raimundo Nogueira,
contendo considerações a favor e contra a Constituição, prometida por D. João VI, em 1823», Direito e Justiça,
Tomo 3, Vol. 13 (1999), pp. 15-37; sobre o período de Junot debruçou-se em «Reflexões sobre a génese do
chamado Projecto de Constituição de 1808, a outorgar por Napoleão a Portugal», Direito e Justiça, Vol. 18, n.º
2, 2004, pp. 39-186; «Apostila às “reflexões sobre a génese do chamado ‘projecto’ de constituição de 1808, a
outorgar, por Napoleão, a Portugal», Estudos em homenagem ao Professor Doutor Marcello Caetano: no centenário do seu
nascimento, 2006, II, pp. 405-440; sobre Ricardo Raimundo Nogueira se debruçou em 1999 e de forma
monográfica, o prof. Pedro Caridade de Freitas na sua dissertação de mestrado (Um testemunho na transição para
o século XIX: Ricardo Raimundo Nogueira, Almedina, Coimbra, 2005), com exaustivas indicações bibliográficas.
Ricardo Raimundo Nogueira foi figura maior da sociedade política, além de lente da Universidade, Reitor do
Colégio dos Nobres (2 de Junho de 1802) e Governador do Reino no tempo de Junot, Conselheiro de
Estado, etc, tendo morrido, aparentemente, a 7 de Maio de 1827.
3 Conta-se que um fidalgo terá ido para a prisão por ter comentado, em dia de nevoeiro, em resposta a
questão sobre se estaria à procura de D. Sebastião no nevoeiro em frente, que D. Sebastião já tinha
chegado… No entanto, parece-nos que Dom José não era uma personalidade despida de inteligência, mas de
voluntas de intervenção directa. Com efeito, basta atentar na descrição que dele faz o Cardeal Mendóça, que foi
seu contemporâneo: «Era El Rey de estatura mais que ordinaria, Corpo groço sem disporporção, branco do Rosto, Olhos
grandes, dentes alguma couza sahidos; muito agradavel no particular, Magestozo no publico; Vestia com mais Riqueza que
gosto; No comer não era parco; no trato magnífico; nas funçoens, e jornadas grandioso; Na conversação modesto, e erudito; e em
tudo prudente, e Sabio. (….) Nesta Certeza, tendo El Rey huma clara comprehenção de todos os Negocios; hum delicado
discernimento, huma Rectidão inflexível, hum juízo prudencial, huma // Liberalidade de Soberano; huma conversação erudita,
huma piedade grande, não uzava della, nem das outras excellentes qualidades, com que a Natureza o dotou; porque entregue a
Sebastiam Jozé, o deixava obrar como entendia, persuadido de que dispunha tudo com justiça, e com Segurança da sua Pessoa e
Estado…» - D. Filipe Folque de Mendóça, O Cardeal-Patriarca de Lisboa Dom José de Mendóça – o homem e o seu
tempo (1725-1808), Universidade Lusíada Editora, dissertação de Mestrado, 2010, pp. 443-444).

1
de Pombal aos infernos das prisões angolanas, às alturas mundanas da secretaria de Estado
da rainha Dona Maria I, num exemplo claro da suavidade da Viradeira por esta Rainha
introduzida, passando pelos seus últimos anos de vida, em que passou sem mácula visível,
ao contrário do que sucedeu com outros membros da sua Família, pelo período do “Rei
Junot”, acabando os seus dias em 1812, já com o Reino restituído à sua soberania4, mas
então já em progressiva tutela estrangeira da qual, na verdade, nunca se libertou
completamente até hoje (exceptuando porventura algum período no chamado Estado
Novo).
Este trabalho é também, por isso e antes do mais, um trabalho de cariz
jurídico com uma componente genealógica fundamental, necessária para demonstrar um
exemplo de mobilidade social no contexto da sociedade portuguesa do Antigo Regime,
pelo que, de forma significativa, foge bastante aos cânones tradicionais dos Estudos em
Homenagem aos mais ilustres lentes da universidade portuguesa, mas que, na minha
opinião, se justifica plenamente pela circunstância de o Senhor Professor Doutor Nuno
Espinosa Gomes da Silva ter dedicado muito do seu labor à análise crítica e profunda sobre
o período em causa, de que retemos com extrema gratificação a leitura recente de um
profundo e interessantíssimo ensaio sobre o tempo de Junot e o papel de Ricardo
Raimundo Nogueira, onde José de Seabra da Silva é também referido.

A Família de José de Seabra da Silva

Duas breves notas servem para explicar qual era a Família de José de Seabra da
Silva e o estatuto social e político da mesma na sociedade em que o mesmo viveu. A meu
ver, estas notas justificam-se quer pela falta de informação que hoje existe sobre estas
matérias, quer porque a Família de José de Seabra é particularmente portadora de uma
inequívoca dinâmica intergeracional de progressiva ascensão social ao longo das diversas
categorias ou estratos da sociedade portuguesa do Antigo Regime (período que para este
efeito compreende pelo menos o período histórico que termina com o advento do
“liberalismo”) e a instauração entre nós do regime constitucional (1834-1910) da 5.ª
dinastia, de Saxe-Coburgo Gotha de Bragança, que só por preconceito político já
incompreensível não é considerada como tal na História que na Escola se ensina aos
nossos filhos e nos foi ensinada5.
Primeiro, no Antigo Regime e mesmo na sociedade política do liberalismo
monárquico (1834-1910), o conceito jurídico-sociológico de Família corresponde em

4 Recorde-se que a primeira invasão francesa terminaria na sequência das batalhas da Roliça e do
Vimeiro e que entre Setembro e Outubro de 1808 Junot já se tinha retirado, terminando a sua curta mas
dolorosa invasão – sobre o assunto a bibliografia é imensa, mas citamos o menos conhecido estudo de João
Pedro Tormenta/Pedro Fiéis, A Primeira Invasão Francesa – as batalhas da Roliça e do Vimeiro, Nova Galáxia,
Caldas da Rainha, 2005, pág. 91. A segunda invasão, dirigida por Soult, também não teve sucesso e,
finalmente, na sequência da Batalha do Bussaco (27 de Setembro de 1810), onde aliás morreu um dos filhos
de José de Seabra da Silva, Massena foi definitivamente derrotado e saiu do País (uma descrição
contemporânea das invasões consta das memórias do 1.º Duque de Palmela, recentemente publicadas –
Memórias do Duque de Palmela, transcrição, prefácio e edição de Maria de Fátima Bonifácio, D. Quixote, 2011,
pp. 103-135).
5 Com efeito, não é este o momento azado para tratar deste assunto, mas sempre se dirá que (i) o
estabelecimento no trono de Dona Maria II foi fruto, quer se queira quer não, de uma ruptura constitucional,
pois não há continuidade entre as regras de sucessão ao trono e a Carta Constitucional; (ii) a subida ao trono
de Dona Maria II, ainda que – e isso pode cobrar enorme relevo jurídico – se considerasse que teve o
assentimento inicial do seu tio o Infante Dom Miguel (futuro Rei Dom Miguel I), implicou a alteração, pela
primeira vez, da varonia dos Reis portugueses, que passou a ser “Saxe-Coburgo”; (iii) tratou-se de uma
dinastia fruto de uma Guerra Civil, em que a Rainha Dona Maria I ganhou fruto do apoio também da
“quádrupla aliança”.

2
grande medida à ideia de pertença a uma mesma linhagem varonil legítima, não só porque
uma pessoa não pode ter tantas famílias quanto o número de ascendentes que tem (o que
faria de cada pessoa membro de todas essas Famílias, do mais diverso estatuto social,
político e económico) mas sobretudo porque a pertença a uma Família era relevante para a
determinação do estatuto social e político de uma determinada pessoa, e daí decorriam
diversas consequências jurídicas, sociais e, porventura, até económicas. O conceito de
Família, para efeitos jurídico-nobiliárquicos, confundia-se então com o de varonia legítima6.
Na expressão de Nuno Gonçalo Monteiro, «a pertença a uma linhagem decorria da varonia,
ou seja, da ascendência por linha masculina»7. Só não era assim, porventura, para as
Famílias que beneficiassem das raras distinções nobiliárquicas hereditárias (ditas de juro e
herdade), factor aliás relevante quando se analise a Família de José de Seabra da Silva (na sua
descendência). Assim, embora tivesse este (como qualquer pessoa) 2 pais, 4 avós, 8 bisavós,
16 trisavós e 32 quartos avós, e por aí em diante (porventura todos provindos de troncos
diferentes, como então se escrevia), a sua Família era a Família Seabra, com origem na zona
de Viseu e identificada desde o princípio do século XVII nas freguesias de Fail e Lobão8,
hoje muito próximas da cidade de Viseu, e o seu estatuto social e político era aquele que a
sua linhagem foi construindo (ou não).
Segundo para notar, em termos que adiante desenvolveremos, que a história da
Família de José de Seabra da Silva é também uma história demonstrativa da forma como,
na sociedade portuguesa pré-constitucional ou do Antigo Regime se processava a ascensão na
pirâmide social. Assim, José de Seabra da Silva era bisneto, por linha varonil e legítima, de
Domingos de Seabra, tronco mais afastado desta linhagem, pois só se poderá chegar à sua
ascendência com outro tipo de fontes, designadamente notariais, visto ter recuado até ao
primeiro livro de registos paroquiais do Fail e de Lobão, no Concelho de Viseu. Segundo
os dados publicados por seu neto António Coutinho Pereira de Seabra e Sousa em 18689, terá
sido proprietário e, com grande probabilidade, lavrador, e casou com Maria Antunes da
Silva10, que não era de Fail, mas de “orlacham”11, e filha de Silvestre Antunes da Silva,

6 Para uma Família que não obteve títulos hereditários ou bens da Coroa transmissíveis com dispensa
na Lei Mental, a noção de Família confunde-se com a de varonia legítima, à maneira romana mas não com
esse fundamento nem nos mesmos termos: «a verdadeira família romana era composta pelos agnati, pessoas
descendentes do mesmo tronco masculino, estavam directamente sujeitas aos amplos direitos que a lei
conferia ao paterfamilias» (Marquês do Funchal, «Títulos nobiliarchicos», Trabalhos da Academia de Sciencias de
Lisboa, pág. 109). António Manuel Hespanha falaria, mais tarde, numa «concepção alargada da família,
fundada em princípios generativos e linhagísticos – e a que era sensível, sobretudo, o grupo nobiliárquico»
(História de Portugal – O Antigo Regime, José Mattoso (dir)/António Manuel Hespanha (Coord.), IV Volume,
Editorial Estampa, 1998, pág. 246). Assim, é «neste sentido mais habitual de família [que] era o de linhagem»
(idem, pág. 251) que as diferenciações de estatuto jurídico essencialmente se produziam. Claro que há outros
conceitos de Família, quase todos distantes dos nossos modernos conceitos de Família (idem, pp. 251-252),
pois, na linguagem comum se utilizava até com «contornos muito vastos, nela se incluindo agnados e
cognados, mas ainda criados, escravos e, até, os bens» (idem, pág. 250).
7 «Embora com restrições» continua este reputado Autor, mas os casos que dá reconduzem-se, a final,
numa ainda maior exigência, com a necessidade de prova de nobreza estendida «aos quatro costados» - Nuno
Gonçalo Monteiro, «Casa, casamento e nome: Fragmentos sobre relações familiares e indivíduos», in História
da Vida Privada em Portugal – A Idade Moderna, José Mattoso (Dir.)/Nuno Gonçalo Monteiro (Coord.), Temas
& Debates/Círculo de Leitores, 2011, pág. 136.
8 Nas Memórias Paroquiais de 1758, o vigário de Lobão, chamado Luís de Seabra, dá nota de ser filho da
terra Lucas de Seabra da Silva, pai de José de Seabra da Silva.
9 Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José de Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional,
1868, pág. 70.
10 É referido, o que não parece de comprovar, que teria casado a 20 de Março de 1652 com D. Maria
Correia de Loureiro, herdeira (António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Resposta ao Senhor Simão José da Luz
Soriano acerca de José de Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868, pág. 79.
11 Segundo testemunha na habilitação de sua bisneta D. Bernarda Antónia de Moraes Seabra. É de
notar, aqui, que todas as testemunhas que naquele processo a dizem ter conhecido lhe chamam Maria
Antunes.

3
também proprietário em Lobão, como escrevia o Conde de Castro e Solla12, ou seja,
porventura um pequeno ou médio lavrador, vivendo de pelo menos algumas fazendas
próprias e, talvez, do arrendamento de terras de outrem. Foram estes pais, pelo menos, de
Gregório de Seabra da Silva13.
Este Gregório da Silva14, como também aparece nomeado, foi baptizado na
freguesia de Fail, em Viseu, a 19 de Março de 166515. Dizia-se ter sido Capitão-mor dos
Privilegiados de Lobão, Santa Ovaya, e instituidor do morgado de Lobão em 26 de
Setembro de 1722, a partir de «bens que possuíam no Fail e em Villa Chã, que se diziam vinculados
por seu avô paterno; mas como no seu testamento feito em 1598 não fallasse em tal vinculação, fez-se novo
vinculo n’ aquella data, e que ainda foi reformado a» 16 de Janeiro de 172516. Na habilitação de sua
neta, António da Silva Vieira diz que foi «Capitão da ordenança de uma das companhias do
Conselho de Besteiros, que vivia de suas fazendas nobremente e que também conhecera Manuel Ribeiro e
sua mulher Pais da sobredita Antónia Ribeira». Os demais testemunhos corroboram esta versão.
Casou Gregório Seabra em Lobão, a 29 de Novembro de 169317, com Antónia Ribeira
Pinto, nascida em Várzea de Cavalos (S. João de Lobão), herdeira do vínculo de Lobão, por
ser filha única de Manuel Ribeiro, juiz ordinário do concelho de Besteiros, e de sua mulher
(casaram, porventura, em 15 de Novembro de 1658) Isabel João (Joana18) Pinto da Veiga,
herdeira do vínculo de Lobão; e era neta paterna de Tomé Figueira e de Antónia Ribeiro,
que terão casado em 4 de Janeiro de 1636. Na habilitação do Santo Ofício de sua neta diz-
se que Gregório de Seabra da Silva e D. Antónia (aqui sintomaticamente já com o “Dona”
que os paroquiais contemporâneos não lhe davam) «viveram sempre dos rendimentos de suas
fazendas, com estimação e crédito sendo das principais famílias daquelas freguesias»19. Eram moradores
em Várzea de Cavalos, à data de nascimento de seu filho.
Não sei se Gregório e Antónia tiveram muitos ou poucos filhos. Documentado
está, certamente, que deles descende o primeiro grande vulto desta Família, o Doutor
Lucas de Seabra da Silva, que foi lente em Coimbra e juiz dos nossos tribunais superiores.
Nasceu Lucas de Seabra (nome aliás que na família se repetiu mais tarde, sendo o nome de
seu neto paterno que teve altas funções antes e na época das invasões francesas) no lugar
da Várzea, na freguesia de S. Julião de Lobão, onde foi baptizado (Besteiros, comarca de
Viseu, actual concelho de Tondela), a 18 de Outubro de 169420 e morreu em Lisboa, não
sabemos nem que paróquia nem podendo por isso ter a data por certa, a 12 de Dezembro

12 Cerâmica Brazonada, Of. Graf. «Museu Comercial», Lisboa, II vols., 1928, Vol. I, pág. 85.
13 Assim é sempre chamado no processo de habilitação junto do Santo Ofício de sua neta D. Bernarda
Antónia de Moraes Seabra, com vista à aprovação do seu próximo matrimónio com Luís Ozorio Beltrão, o
que veio a suceder.
14 Assim aparece no assento de baptismo de seu filho Lucas de Seabra da Silva.
15 Foi seu padrinho «Manuel Siabra», que creio, pela consulta dos paroquiais, ser irmão de Domingos
Seabra (foi madrinha Antónia ..., mas não decifrei ainda o seu apelido, julgo que "Mendes"). Trata-se do
primeiro livro de paroquiais desta freguesia, pelo que julgamos ser improvável, por esta via, prosseguir na
averiguação da ascendência Seabra desta família.
16 Testamento de sua nora, D. Josefa Teresa, de 11.5.1750 – e António Coutinho Pereira de Seabra e
Souza, Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José de Seabra da Silva, cit., pág. 77.
17 Arquivo Distrital de Viseu, Registos paroquiais de Lobão, Liv. 1 (?), fl. 226 v. O assento está transcrito
no processo do Santo Ofício de sua neta, nos seguintes termos: «Em os vinte e seis dias do mês de Novembro de mis
seiscentos e noventa e três se receberam em minha presença Gregório da Silva, filho que ficou de Domingos Seabra e sua mulher
Maria Antunes do lugar do Fail deste Bispado com Antónia Ribeira, filha de Manuel Ribeiro e de Isabel João do lugar de
Várzea desta freguesia. Foram testemunhas Manuel Fernandes de Carvalho seu filho, Manuel de Oliveira do lugar de Vila
(…) e António Pinto e seu irmão Fernando do lugar da Várzea de Cavalões e muitas mais testemunhas (…)».
18 Conde de Castro e Solla, Cerâmica Brazonada, vol. I, pág. 40.
19 TT, Habilitações para o Santo Ofício – proc. de Luís Ozorio Beltrão, Maço 16, dil. 345, diligências relativas a
sua noiva D. Bernarda Antónia de Moraes Seabra, fl 4.
20 O assento de baptismo, que se reproduz, não diz quando nasceu, mas é corrente ter tal acontecido a
6 de Outubro de 1694.

4
de 1756, há quem diga que por desgosto resultante de processo que adiante melhor
tentaremos contar.

Assento de baptismo de Lucas de Seabra da Silva (1694)

Cremos que Lucas de Seabra da Silva terá sido o filho varão primogénito ou pelo
menos, o que logrou perpetuar a sua descendência, pois todas as fontes disponíveis e o
património que seus filhos e netos possuíram demonstram que terá sido herdeiro dos bens
vinculados por seus Pais. Cavaleiro professo na Ordem de Cristo (Alvará de 6 de Junho de
1730), «foi o primeiro desta família que teve o fôro» de Fidalgo Cavaleiro (Alvará régio de 30 de
Abril de 174521). Esta circunstância não é de todo de desprezar, no contexto da sociedade
política do Antigo Regime pois, como escrevia o Dr. Luís da Silva Pereira Oliveira, na
conhecida Obra Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, “as pessoas condecoradas com
estes Foros constituem a principal Nobreza depois dos títulos”22, e, como recordou recentemente
a Mestra Maria Inês Versos, só aos filhados na “primeira classe” da nobreza (com um dos
chamados “foros grandes”), «subdividida numa hierarquia que se iniciava com o foro de moço
fidalgo, seguindo-se fidalgo escudeiro e fidalgo cavaleiro, se reconhecia verdadeiramente o
estatuto de fidalgo»23.

21 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 35, fl. 396.
22 Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, offerecidos ao Excellentissimo Senhor Marquez de Abrantes, D. Pedro
de Lencastre Silveira Castello Branco Vasconcellos Valente Barreto de Menezes Sá e Almeida pelo seu Author Luiz da Silva
Pereira Oliveira Cavaleiro Professo na Ordem de Christo Corregedor da Comarca de Miranda do Douro, natural de Fontellas e
Socio da Real Academia das Sciencias de Lisboa¸1806, pág. 231, que se pode consultar em.
http://books.google.com/books?id=1_dHAAAAMAAJ&pg=PA44&dq=privil%C3%A9gios+da+nobreza&
hl=pt-PT.
23 E daí que as provas da Ordem de Malta, a partir do séc. XVII e até ao século XIX, exigissem prova
por documento autêntico dos “foros grandes” dos 4 avós, como ensina Maria Inês Versos, Os Cavaleiros da
Ordem de S. João de Malta em Portugal de Finais do Antigo Regime ao Liberalismo, Dissertação de Mestrado em
Sociologia e Economia Históricas, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa, 2003, policopiado, pp. 221-223, 232-239 e 253, seguindo aqui também o mesmo Luís da Silva Pereira
Oliveira, Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, cit., pp. 221-222, onde dizia: que «deu ele [o Rei Dom
Sebastião] Regimento ao Mordomo-mor, datado de três de Janeiro de 1572, e nele ordenou que os Cavaleiros
Fidalgos fossem em diante nomeados Fidalgos Cavaleiros, e que os Escudeiros Fidalgos passassem à

5
Instituiu o Morgado de Vilela, no campo de Coimbra (testamento de 8 de Fevereiro
de 175624), 2.º senhor dos morgados de Lobão e Fail. A sua carreira jurídica foi muito
relevante.

Matrícula e assinaturas de Lucas de Seabra da Silva na U.C.25

Licenciou-se Lucas Seabra da Silva em Leis na Universidade de Coimbra, onde foi


depois Doutor em Leis, Lente de leis e Lente de Prima («de todas as cadeiras da faculdade de
leis»26) da Universidade de Coimbra, como depois se escreveu. Habilitou-se para os lugares
de letras em 172927, o que logrou, tendo sido no mesmo ano nomeado Desembargador da
Relação do Porto (Carta de 3 de Dezembro de 172928) e, também nesse ano,
Desembargador Honorário da mesma Relação (Provisão de 30 de Dezembro de 172929).
Em 1730, com a mercê do hábito de cavaleiro professo, teve mercê de tença de 12$000 reis
com hábito de Cristo (Carta de 6 de Julho de 1730)30 e de tença de 8000 reis (Carta de 11
de Julho de 1730)31.

Gazeta de Lisboa, n.º 19, de 13 de Maio de 1734, pág. 216

denominação de Fidalgos Escudeiros; e não havendo nisto mais diferença que a de antepor o vocábulo
Fidalgo ao de Cavaleiro, ou de Escudeiro, há contudo hoje uma notável distinção e desigualdade entre uns e
outros, e vem a ser: que o Fidalgo Escudeiro, ou Cavaleiro, é verdadeiro Fidalgo, e o Escudeiro, ou Cavaleiro Fidalgo não o é
e// e fica diferindo tanto um do outro, como o ouro do dourado» (itálico do próprio Autor, que cita “palavras de Moraes
de Execut. Liv. 44.c.8. n. 68. V. Ferreir. Supr. pag. 39”). Sobre os foros e suas particularidades, v. Nuno Gonçalo
Pereira Borrego, «Mordomia-Mor da Casa Real», in Mordomia-Mora da Casa Real – Foros e ofícios – 1755/1910,
Tomo I, Tribuna da História, 2007, pp. 19-69, em especial pp. 56-63; ou, na mesma Obra, a notável
«Apresentação» de D. Luís da Costa de Sousa de Macedo (Mesquitela), pp. 13-16, que chamava a atenção de
que, «[n]uma sociedade estratificada em que a nobreza de cada um se media pelo lugar que tinha na Casa Real,
[tanto a detenção de um foro como, até] o acrescentamento do foro era matéria melindrosa e altamente
apetecível, como bem sublinha Ferreira de Vera ao afirmar “que entre os mais aventajados he grande ventaje
na honra ter mais real de foro” e acrescenta: “He tanto assim, que Fernão de Magalhães…por se lhe não
querer acrescentar hum tostão mais em sua moradia… se agravou de tal maneira que se passou para o
Imperador Carlos V…” “com os resultados históricos conhecidos…”» (pág. 15).
24 O que não conseguimos ainda confirmar nem consultar, apesar de referido em vária documentação
secundária.
25 AUC, Livro de Matrículas - 1702 – 1704, IV-1ªD-1-3-38 - fl. 229.
26 Testamento do próprio, escrito em 8.2.1756 – António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Resposta
ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José de Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868, pág.
74.Sobre o assunto, vide também o trabalho de José Manuel Subtil.
27 Lucas de Seabra da Silva, Leitura de Bacharéis - Habilitações, 1729, Maço 18, n.º 7; 1729, Maço 2, n.º 21.
28 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59.
29 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59.
30 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59.
31 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59v.

6
Desembargador Honorário da Casa da Suplicação com Exercício em férias (Carta
de 7 de Junho de 1734)32, teve também mercê de um lugar de Conservador da Nação
Inglesa na cidade de Coimbra (Alvará de 2 de Setembro de 173433) e de Juiz do Fisco de
Coimbra (Alvará de 8 de Outubro de 173434).

Notícias referentes a Lucas de Seabra da Silva na Gazeta de Lisboa:


de 26 de Dezembro de 1726, n.º 52, pág. 416 (esq.) e de 3 de Abril de 1738, n.º 14, pág. 167 (dir.)

Uns anos depois, teve mercê do lugar de Desembargador Honorário dos Agravos
da Casa da Suplicação (16 de Abril de 173835). Provedor do Hospital Real, em Coimbra
(1741) e responsável pela instalação do Hospital da Convalescença, gerido pela
Misericórdia36. Teve o Título do Conselho (2 de Janeiro de 174537), como Conselheiro da
Fazenda (4 de Fevereiro de 174538), tendo sido nomeado Lente de Prima na Universidade
de Coimbra (5 de Maio de 1748)39, de que foi Jubilado, na Cadeira de Prima e Leis, a 14 de
Dezembro de 1752. Antes, nos anos de 1749/1750 e 1750/1751, foi Provedor da
Misericórdia de Coimbra40. Foi depois nomeado Desembargador do Paço (3 de Junho de
175341). Foi ainda Deputado da Bula da Cruzada, em data que não pudemos determinar,
além de outros cargos e funções, que porventura poderá ter exercido.
O Desembargador Lucas de Seabra da Silva veio a ser parte da pequena história
quando, em 1756 e já no reinado de Dom José I, terá sido encarregado por El-Rei de
«proceder a um inquérito sobre a vida e costumes de Francisco Xavier de Mendonça, irmão do Marquês de
Pombal»42, em particular sobre o seu «comportamento» (Jacome Ratton43).
32 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59v.
33 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59v.
34 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 26, fl. 105.
35 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 26, fl. 105.
36 Maria Antónia Lopes, A governança da Misericórdia de Coimbra em finais de Antigo Regime, s.d., pp. 10-11.
37 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 35, fl. 396.
38 TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 26, fl. 105v.
39 No mesmo ano publicou Allegação de direito a favor de D. José de Mascarenhas, marquez de Gouveia,
opponente da sucessão da caza e estado d’Aveiro.
40 Maria Antónia Lopes, A governança da Misericórdia de Coimbra em finais de Antigo Regime, s.d., pp. 10-11.
41 TT, Registo geral das mercês de D. José, Liv. 5, fl. 61.
42 João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva – A sua Política e o seu Destêrro, Coimbra, Imprensa da
Universidade, 1933, pp. 8-9. Este texto tem o interesse, no mínimo, inerente à circunstância de não ser
referido pelo prof. Nuno Gonçalo Monteiro na sua notável biografia de D. José (D. José, Temas & Debates,
2008).
43 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a
Setembro de 1810, 4.ª edição, Fenda, 2007, pág. 160. Obra cuja primeira edição foi publicada em Londres, em

7
Já para o prof. Nuno Gonçalo Monteiro, quando vários fidalgos intentaram depor
Sebastião José de Carvalho e Melo. Seja qual for o motivo, será interessante seguir, neste
ponto, a visão expressa na recente biografia do Rei D. José44, que segue de perto umas
Memórias citadas por Jardim de Vilhena e que este (Vilhena) atribuía, erradamente, ao
Principal Mendonça, irmão de Pombal45, quando o Autor está nos antípodas políticos, pois
é o Principal Mendóça, como hoje se escreve, que foi, com D. Maria I, Cardeal Patriarca de
Lisboa: «Em curso estava, desde o início do ano de 1756, pelo menos, uma conspiração
contra Carvalho, da qual se não conhecem senão alguns contornos, mas que parece ter tido
como desenlace final o afastamento de Diogo de Mendonça Corte Real. A iniciativa terá
partido de Martinho Velho Oldemberg46, filho do homem da companhia da Ásia, e, entre
outros, do advogado Francisco Xavier Teixeira de Mendonça, que há pouco intentara uma
acção de revista num processo judicial em nome de um primo seu contra Sebastião José.
Foi aquele advogado o autor em Fevereiro de 1756 de um notável repositório contra o
ministro de D. José, ao qual adiante se regressará. Parece que os conspiradores tinham
apostado inicialmente em José Galvão de Lacerda47. De acordo com os relatos mais
plausíveis, “com ocasião do Terramoto sempre memorável passou Martinho Velho para a
cerca dos padres Barbadinhos Italianos, no sítio de Santa Apolónia, onde fez grandes
barracas, e nelas Conventículos, em que além dos […] referidos eram mais assistentes [dois
religiosos] daquele reformado convento, que aproveitando-se da calamidade daquele
tempo, iam repetidas vezes às barracas das Pessoas Reais, que acreditavam as suas fingidas
virtudes por verdadeiras. Tinham também o favor do Secretário de Estado Diogo de
Mendonça, sempre desunido e oposto a Sebastião José. […] intentaram pois formalizar os
capítulos contra Sebastião José, e entregarem-nos nas mãos de El-Rei que, vendo-os, e
persuadido justamente que sobre eles devia tomar as informações necessárias; encarregou
estas ao Desembargador Lucas Seabra da Silva, recomendando-lhe localmente o segredo, e
averiguação”. Entretanto, “os capitulantes (…) escreveram de Roma a António Freire de
Andrade Encerrabodes, Enviado na Corte de Roma, e a José Galvão de Lacerda na de
Paris; e já supondo-se Ministros, e validos, principiaram a tratar Negócios da Corte, que
não eram encarregados, nem jamais se encarregaram pessoas das suas qualidades”, ao
mesmo tempo que os Jesuítas dirigiam outros capítulos ao Conselho Ultramarino contra o

1813, e a 2.ª em Coimbra, em 1920, por iniciativa do prof. Teixeira de Carvalho, na Imprensa da Universidade
– Alfredo Duarte Rodrigues reproduz o prefácio dessa primeira reedição, além de outras considerações
interessantes, em O Marquês de Pombal e os seus Biógrafos – Razão de ser de uma revisão à sua história, Lisboa, 1947,
pp. 49-53 (volume que possuo e havia sido oferecido pelo Autor ao ilustre olisipógrafo Gustavo de Matos
Sequeira).
44 Nuno Gonçalo Monteiro, no seu D. José, Temas & Debates, 2008, pág. 111.
45 «Capítulo 67.º: – “A vaidade de Martinho Velho da Rocha Oldemberg só achava igualdade em Manuel António de
Carvalho e Francisco Xavier Teixeira, este inimigo descoberto de Sebastião José, este o que fez a petição de revista a seu primo
Gonçalo Cristóvão em que saindo dos limites do direito atacou a sua ascendência com termos pouco praticados. Aqueles ofendidos
de não ter El-Rei eleito a José Galvão de Lacerda (então enviado a Paris) Secretário d’Estado em que fundavam as suas
esperanças. Tinham eles o favor de Diogo de Mendonça, Secretário d’Estado, sempre desunido e oposto a Sebastião José. Além
deste favor, tinham o favor dos jesuítas a quem este tinha cortado o comércio do Pará com a liberdade dos Índios e com o Governo
do seu irmão Francisco Xavier de Mendonça: intentaram pois formalizar uns capítulos contra Sebastião José e entregarem-nos
nas mãos d’El-Rei que vendo-os e persuadido que sobre eles devia tomar as informações necessárias, encarregou estas ao
Desembargador Lucas Seabra da Silva, recomendando-lhe vocalmente o segredo e a averiguação. O informante usou tão mal da
recomendação de El-Rei, que buscou a Sebastião José para dizer-lhe se achavam na sua mão os capítulos que lhe apresentava e
que visse ele o que queria que informasse. Sebastião José revestido da honra com que sempre serviu e da autoridade de Ministro
d’Estado lhe estranhou severamente o mal que executava as recomendações de El-Rey a quem logo deu parte pedindo uma exacta
e rigorosa averiguação. Passados poucos dias morreu Lucas de Seabra, assentando-se que por desgosto do referido sucesso» – apud
J. Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva, cit., pág. 10 (D. Filipe Folque de Mendóça, op. Cit., pp. 397-398).
46 Sua Mãe, Dona Francisca Antónia da Rocha, mulher de Feliciano Velho Oldenberg, morreu em
Lisboa, na freguesia da Madalena, a 7 de Dezembro de 1740 (Livro 1 de Óbitos, reformado, fls.15-15v.).
47 Cuja ascendência estudámos a propósito de outra investigação em publicação na revista Armas &
Troféus.

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irmão de Carvalho governador no Maranhão. O que precipitou as coisas parece ter sido o
facto de Lucas de Seabra, pai de José Seabra da Silva, provavelmente atemorizado, ter
mostrado os “capítulos” a Carvalho, o qual, “revestido da autoridade de Ministro de
Estado e da honra com que sempre serviu, lhe estranhou severamente o mal que executava
as recomendações de El-Rei, a quem logo deu parte, pedindo uma exacta e rigorosa
averiguação”, tendo pouco depois morrido “por desgosto do referido” Lucas Seabra»48.
Esta versão diverge da do Cardeal Mendoça e daqueloutra dada por Jacome Ratton, mas
coincide quer na atitude de Lucas de Seabra de dar conta do encargo a Sebastião José, quer
das demais consequências. Jacome Ratton, que conta o episódio por testemunho de ouvir
dizer, «de pessoa fidedigna»49, diz que «veio o dito Desembargador comunicar ao Conde
[impropriamente, pois que ainda não era Conde…] a ordem que tinha recebido d’El rei e
pedir-lhe as suas instruções. Esta inconfidência irritou sobremaneira [Sebastião José],
estranhando e repreendendo asperamente o dito Desembargador, mostrando-lhe a falta de
lealdade e obediência ao seu Soberano; pois que lhe vinha comunicar uma coisa que só ele
e Sua Majestade deviam saber»50. Seja como for, e tal como na descrição dada pelo prof.
Nuno Gonçalo Monteiro, também Ratton nos diz que «[e]sta repreensão produziu tal
efeito no dito Lucas de Seabra da Silva que, chegando a casa, se meteu na cama e morreu
de paixão em pouco tempo»51, assim se demonstrando que não se morre apenas por
desgosto de amor, mas também por desgosto de serviço...
O Doutor Lucas de Seabra da Silva, então já professor em Coimbra, habilitado para
os lugares de letras52 e provido como Desembargador da Relação do Porto, como acima se
deu conta, logrou já casar com uma importante morgada da região de Coimbra, mais
concretamente na freguesia de Vilela, a 25 de Novembro de 1731, de seu nome Dona
Josefa-Tereza de Moraes Ferraz (Freire53), que terá nascido em Torre de Vilela, no
concelho de Coimbra, a 23 de Fevereiro de 1707, aonde foi baptizada a 3 de Março de
170754 e que morreu em Coimbra, em freguesia a determinar, a 5 de Junho de 1750, tendo
feito testamento a 11 de Maio de 1750. Era esta já a 6.ª administradora do morgadio de
Figueiró dos Vinhos instituído por Francisco de Moraes, em 18 de Maio de 162355, por
sucessão de sua mãe, D. Bernarda Teresa de Moraes Ferraz, que terá nascido em Eiras, a 20
de Agosto de 1668 e fôra 5.ª administradora do morgado de Figueiró dos Vinhos, e de seu
marido o Dr. Manuel Velho da Costa Marmeleiro (Manuel Velho Marmeleiro da Costa),
que morreu em 1733. Sobre estes se pronunciaram as testemunhas nas inquirições feitas
aquando da habilitação para matrimónio de D. Bernarda de Seabra (infra) com Luís Ozorio
Beltrão, onde o informante António de Figueiredo e Abreu concluiu, paradigmaticamente,

48 Nuno Gonçalo Monteiro,: D. José – na sombra de Pombal, Temas & Debates, 2008, pág. 111.
49 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a
Setembro de 1810, cit., pág. 159.
50 Grafia actualizada – v. Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em
Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 160.
51 Grafia actualizada – v. Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em
Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 160.
52 Como nota António Manuel Hespanha, «Os poderes, os modelos e os instrumentos de controlo –
Os modelos normativos. Os paradigmas literários», in História da Vida Privada em Portugal – A Idade Moderna,
cit., pág. 60: «O regime de admissão nas carreiras letradas (…) mostra que a distinção baseada nas letras,
favorecida naturalmente pelos próprios letrados, recebe uma ratificação cada vez mais nítida por parte da
Coroa».
53 António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José de
Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868, pág. 15. O assento de matrimónio de seu neto não inclui
referência a este apelido “Freire”.
54 Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC), Registos Paroquiais de Torre de Vilela, Livro Mistos 1614-
1751, fl. 62v.
55 António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José de
Seabra da Silva, cit., pág. 77.

9
que «a sobredita habilitanda por seu Pay e avós paternos é in-/teira e legítima Cristã-Velha e limpo
sangue e geração/ sem que em tempo algum houvesse a mínima fama ou/ rumor em contrário».

Esq: Assento de matrimónio do Doutor Lucas de Seabra da Silva com D. Josefa Teresa de Moraes Ferraz
Dir.: Assento de baptismo de D. Josefa

Do matrimónio do Doutor Lucas de Seabra da Silva com D. Josefa Teresa de


Moraes Ferraz terão nascido os seguintes onze filhos, cinco rapazes e seis raparigas:

1. José de Seabra da Silva, que segue


2. Luiz de Moraes de Seabra (da Silva). Nasceu a 3 de Outubro de 1733, tendo sido
baptizado em Torre de Vilela, no concelho de Coimbra, a 20 de Outubro de 1733.
Moço-Fidalgo com mil reis de moradia e um alqueire de cevada por dia «que se
costuma dar aos filhos dos Desembargadores do Paço», e Fidalgo Cavaleiro por sucessão de
seu Pai (Alvará de 20 de Setembro de 1753)56, depois acrescentado o foro de Moço-
Fidalgo a Fidalgo Escudeiro com mais 600 reis de moradia e logo também
acrescentado a Fidalgo Cavaleiro com mais 400 reis de moradia, perfazendo o total
de 2000 reis de moradia e um alqueire de cevada por dia (Alvará de 2 de Outubro
de 1754)57. Provedor dos Órfãos e Capelas por três anos (Carta de 3 de Setembro
de 175358). Desembargador da Relação da Casa do Porto (Carta de 18 de Maio de
175859) e Cavaleiro professo da Ordem de Cristo (22 de Setembro de 1759)60. Smn.

56 TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434.


57 TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434-434v.
58 TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434.
59 TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434.
60 NB: Habilitações nas Ordens Militares – Séculos XVII a XIX – Ordem de Cristo L-Z, Tomo III, Guarda-Mor, 2010,
pág. 21: «Luís de Morais Seabra e Silva, Desembargador da Relação do Porto (irmão de José de Seabra da
Silva, Desembargador, COX), filhos de Lucas de Seabra da Silva, Desembargador, COX, e de s.m. D. Josefa
Teresa de Morais Ferraz. Em 22.09.1759 (m. 3, n.º 2).»

10
Gabinete Histórico, Tomo XVII, pág. 120, referindo, porventura, por erro, um irmão de nome Francisco, mas
que cremos seja Lucas de Seabra

3. D. Bernarda Antónia de Moraes Seabra. Foi baptizada em Torre de Vilela, no


concelho de Coimbra, a 8 de Novembro de 1734 e terá morrido em 1751.
Habilitou-se no Santo Ofício (174861) para casar62, como sucedeu em Coimbra (S.

61 No processo de seu irmão aparece o seguinte traslado: «E outrossim certifico que na margem do dito/Livro
à frente do Registo da dita Provisão está/uma cota do teor seguinte = por Carta do Se-//Secretário do Conselho geral de cinco
de Outu-/bro de mil setecentos e quarenta e oito consta/ serem aprovadas as diligências de D. Bernarda/Antónia de Morais
Seabra, futura mulher des-/te Familiar Luis Ozorio Beltrão, hoje 10 de Ou-/tubro de 1748 = Joseph Baptista. O que tudo/
consta do livro que me reporto (…) 26 de Agosto de 1752/ anos/ João Correa Xavier». Consultámos directamente o
processo de D. Bernarda Antónia de Moraes Seabra, anexo ao processo de seu noivo. As habilitações
relativas à sua varonia foram feitas em Lobão e Fail. Em Lobão, testemunharam o Pd. António Fernandes,
Cura da Freguesia, o Pd. Manuel Mendes, o Pd. Pedro Lopes e o Pd. Silvestre de Figueiredo. No lugar de
Fail, testemunharam o Pd. Luíz Paz Ferreira, o Pd. Cura (Jacinto) José de Bastos, Sebastião Ferreira, Manuel
Mendes, João Fernandes, o velho, e Manuel Coelho. Em Eiras e Vilela, testemunharam Manuel de Almeida, o
Capitão João de Campos, FSO, Maria Marques, Maria Lopes e Luísa Marques. Em Coimbra testemunharam
o Pd. Luís de Oliveira, ecónomo na Igreja de Santa Justa, José Álvares, contínuo da Universidade, João da
Costa, relojoeiro e sineiro da Universidade, o Licenciado Francisco Ramos, Notário do Santo Ofício. Em
Vilela, a ordem é Manuel de Oliveira, Maria Rodrigues, mulher de Manuel de Oliveira, João Marques, natural
de Marmeleira do Botão, freguesia de Souselas, Manuel Ribeiro Marques, lavrador, Manuel Marques, lavrador,
Simão Roiz, lavrador, Isabel Francisca, mulher de Simão Roiz, Isabel Francisca, viúva de Manuel Lopes,
lavrador, Francisco Lopes, lavrador, António Simões, lavrador, Joana Simões, mulher de Manuel Ribeiro
Marques, e Maria Pereira, viúva de Manuel Simões. Em Eiras, a ordem é Francisco Marques, capitão da
ordenança da dita vila de Eiras, natural e morador em Eiras, Manuel Marques Rocha, que vive de suas
fazendas e daí natural e morador, Salvador Marques, Bernarda Teresa, viúva de José Peyxoto Soares, Manuel
Marques Carasco, tenente reformado de Infantaria, que vive de suas fazendas, João Pereira, que vive da sua
fazenda, …., Manuel de Bastos Mesquita, que vive de suas fazendas, Ana Cardoza, viúva de Manuel
Fernandes Bruxeyro (?), trabalhador da enxada, Marta Leite, viúva de João…, José de Macedo Varela,
Escrivão das (…) de Aveyro, natural da quinta do …., com cinquenta e um anos, o Pd. Manuel Marques da
Costa, presbítero do Hábito de São Pedro, e Manuel Gomes de Almeida, que vive de sua fazenda. Em Lobão
testemunharam António da Silva Vieira, Cavaleiro professo da Ordem de Cristo, que era amigo desde rapaz
do pai da habilitanda, Manuel Gonçalves, que vive de suas fazendas (afirma ter conhecido os avós, sendo que
Gregório de Siabra da Silva fora capitão da ordenança, vivia de suas fazendas nobremente e fora juiz
almoxarife e que também conhecera a Manuel Ribeiro e a sua mulher Isabel João, pais da sobredita Antónia
Ribeira), Domingos Fernandes Rocha, Presbítero do Hábito de S. Pedro (também diz a mesma coisa,
designadamente quanto a conhecer os pais da avó Antónia Ribeira e a Gregório ser Capitão da ordenança e
viver «à lei da nobreza»), o Pd. Silvestre de Figueiredo, presbítero do hábito de S. Pedro, Manuel Henriques,
presbítero do Hábito de S. Pedro, o Pd. Pedro Lopes, também do mesmo hábito, Manuel Fernandes

11
Pedro), a 29 de Setembro de 174863 com o Doutor Luís Osório Beltrão64 de
Lacueva e Sousa, Senhor da Casa e Solar de Sobral, 3.º Administrador do morgado
dos casais de Pena Verde e Moreira, que em certidão constante do processo de
habilitação para FSO de seu cunhado José de Seabra da Silva aparece referido
constar «da fl. 213 v. do Livro 12 das Criações dos Ministros e Oficiais do Santo Ofício (…)
copiada uma Provisão do Ex.mo Senhor Cardeal da Cunha Inquisidor Geral passada em Lisboa
aos/três dias do mês de Março de mil setecentos e/trinta anos pela qual consta crear o dito Luis
Ozorio Beltrão Juiz de Fora de Nisa, solteiro, filho de José Ozorio Beltrão, Familiar do Santo/
Ofício, natural do lugar de Sobral Pichorro (?) ter-/mo da vila de Algodres e Bispado de Viseu,
de cu-/jo cargo tomou juramento aos vinte e sete dias do/mês de Janeiro de mil setecentos e trinta e
um/anos (…)» - Coimbra, 26.8.175265). Dona Bernarda faleceu cedo pois, em 21 de
Julho de 1752, já o seu marido e viúvo, Luís Ozorio Beltrão, então Provedor da
Comarca de Coimbra, apresentava ao Santo Ofício o pedido de realização das
provanças de sua futura noiva e segunda mulher, D. Joana Quezada Barreto66, viúva
de Joseph Barreto Perdigão de Vilas Boas67, natural de Viana. Smn.
4. Joaquim de Seabra da Silva. Fontes credíveis referem-no, mas não encontrámos
qualquer registo oficial comprovativo. Smn.
5. Lucas de Seabra da Silva. Baptizado em Coimbra, na freguesia de São Pedro, a 13
de Maio de 1737. Smn.

Cabarnais, o velho, lavrador, Manuel Mendes, Presbítero do Habito de S. Pedro, Bruno Fernandes, que vive
de sua fazenda, de 75 anos «pouco mais ou menos», o Rev. Pd. António Fernandes, cura na paroquial de S.
Julião de Lobão, de 63 anos (conheceu ainda Maria Antunes, mãe de Gregório de Seabra; diz ter sido
coadjutor de seu tio Manuel de Seabra da Silva em cuja residência assistiam), o Licenciado Manuel Henriques,
natural do lugar do casal, de 51 anos, o Pd. João Roiz, de 52 anos, o Pd. Paulo de Almeida Andrade, de 65
anos (que diz ter conhecido o bisavô Domingos de Siabra e sua mulher Maria Antunes), João Fernandes, que
vive de suas fazendas, de 83 anos, pouco mais ou menos (diz também ter conhecido Domingos de Seabra, ele
natural daí, e sua mulher Maria Antunes, ela natural de “orlacham” (?), Manuel Francisco, de 51 anos,
almocreve, José Cardozo, que vive de suas fazendas, com 51 anos, Manuel Mendes, de 54 anos, viúvo que
vive de suas fazendas, José Mendes, lavrador de 53 anos, João de Almeida, de 55 anos, Dionísio Ferreira, que
vivia de suas fazendas e tinha 75 anos (diz ter conhecido Domingos de Siabra), Isabel Fernandes, viúva de
António de Figueiredo e com 75 anos, Domingas Ferreira, terceira mulher de Manuel de Figueiredo, de 65
anos (diz também ter conhecido Domingos de Seabra) e Natália Mendes, de 65 anos e viúva
62 Assim aparece na habilitação para F.S.O. de seu irmão José de Seabra da Silva. O seu processo,
bastante volumoso, está junto ao de seu noivo Luís Ozorio Beltrão (TT, Habilitações para Familiar do Santo
Ofício, Maço 16, Dil. 345.
63 AUC, Registos Paroquiais de Coimbra, S. Pedro, Liv. C, de 1707 a 1772, fl. 101v.-102. Eis o modo como
o pároco se refere aos Pais da nubente: «filha legítima do Desembargador Lucas de Seabra da Silva cavaleiro da Ordem
de Cristo, fidalgo da Casa de Sua Magestade e do seu Conselho e Conselheiro da Real Fazenda e Lente de Prima de Leis na
Universidade e de sua mulher D. Josefa Teresa de Moraes Ferraz».
64 Aparece apenas como Luís Osório Beltrão no assento de matrimónio.
65 Certidão passada por João Correa Xavier, Notário do Santo Ofício da Inquisição de Coimbra.
66 Filha de Martim Quezado Jácome Villas Boas e de D. Maria Ferreira Villas Boas, neta paterna de
Marca Quezado Jácome de Villas Boas e de sua mulher D. Maria Correa Felgueira; neta materna de António
Ferreira Villas Boas e de sua mulher D. Catarina da Rocha Barreto, todos da vila de Viana.
67 Natural de vila de Goes.

12
6. D. Maria de Seabra da Silva. Terá nascido em 1738 e morrido em 1754, no
Mosteiro do Lorvão, com opinião de pessoa mui virtuosa. Smn.
7. D. Teresa Micaela de Seabra da Silva, que morreu de tenra idade68
8. D. Josefa de Seabra da Silva. Foi baptizada em Torre de Vilela, a 7 de Outubro
de 1741 e terá morrido de tenra idade, como se escrevia no assento.
9. Lucas de Seabra da Silva. Foi baptizado em Torre de Vilela, a 15 de Outubro de
1742 e morreu entre 1807 e 181169. Já não temos a certeza de ser ele ou o seu
irmão, que foi baptizado em Coimbra, em 1737 mas deduzimos que seu irmão terá
morrido novo, como normalmente sucede quando há irmãos homónimos
sucessivos.

Começou por ser Guarda-Marinha mas depois seguiu os estudos jurídicos e a


magistratura70. Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo (24 de Abril de 1779), onde
é identificado como Desembargador dos Agravos da Casa da Suplicação e Moço-
Fidalgo da Casa Real71. Recebeu Beca, servindo no lugar de Provedor dos Órgãos e
Capelas (1771), Desembargador da Casa da Suplicação (29 de Agosto de 1771),
Ajudante do Procurador da Coroa (31 de Outubro de 1771), Carta de Privilégio de
Desembargador (13 de Julho de 1785), Conselheiro do Conselho Ultramarino (20
de Dezembro de 1790), Chanceler da Casa da Suplicação (19 de Fevereiro de 1799),

68 Parece ser a que foi madrinha, por procuração, em Coimbra (Vilela), a 5.10.1749.
69 Tínhamos indicação de que teria morrido em 1807. Contudo, José Manuel Louzada Lopes Subtil, O
Desembargo do Paço (1750-1833), Vol. II, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1994, pp. 86, documenta-o em
1811.
70 Sobre a sua carreira jurídica, José Manuel Louzada Lopes Subtil, O Desembargo do Paço (1750-1833),
Vol. II, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1994, pp. 86.
71 Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Habilitações nas Ordens Militares – Séculos XVII a XIX – Ordem de
Cristo, Guarda-Mor, 2008, Tomo III, pág. 44, referindo o Maço 12, n.º 1.

13
Desembargador do Paço (20 de Fevereiro de 1799), do Conselho da Corte e do
Conselho da Fazenda e, cremos, Intendente Geral da Polícia da Corte e Reino
(Mafra, 9 de Março de 1807)72. Casou com sua sobrinha D. Josefa Emanuela de
Almeida Beltrão73, filha de sua irmã D. Francisca. Fez testamento em 17 de Abril de
1763, «vinculando todos os seus bens ao dito morgado [Lobão?], de que era administrador seu
irmão José de Seabra». C.g. até pelo menos ao século XX74
10. D. Josefa Teresa de Seabra da Silva. Terá nascido em 1744 e morrido em 1807,
na casa de seu irmão primogénito. Smn.
11. D. Francisca Luísa de Seabra da Silva. Foi baptizada em Torre de Vilela, a 3 de
Novembro de 1745. Casou, não sabemos ainda onde nem quando, com Miguel
António de Almeida Pacheco Beltrão, FCR, senhor do morgado de Cassurrães,
capitão de cavalos em Moura, Mestre de campo em Castelo Branco,
superintendente da coudelaria de Linhares, etc. C.g.75

José de Seabra da Silva: traços biográficos

Imagem pouco conhecida na iconografia de José de Seabra da Silva76, propriedade de seus descendentes

José de Seabra da Silva77 nasceu em S. Martinho da Torre de Vilela, em Coimbra, a


1 de Novembro de 1732, onde foi baptizado em 17 de Novembro de 173278).

72 TT, Registo geral das mercês de D. João VI, Liv. 9, fls. 90v.
73 D. Manoela Beltrão, segundo Felgueiras Gayo (Manuel José da Costa), Nobiliário das Famílias de Portugal,
tomo XII, pág. 213.
74 Foram pais, entre outro, de Manuel de Almeida Beltrão de Seabra Osório, que casou com D.
Edwiges do Carmo A. e Silva. Deste matrimónio nasceu Lucas de Almeida Beltrão de Seabra, n. 21.1.1827 e f.
24.1.1907, Sr. da Casa de Cassurrães, etc, que casou com (Luís Moreira de Sá e Costa, S.J., Descendência dos 1.os
Marqueses de Pombal, Tip. Costa Carregal, Porto, 1937, pág. 161) D. Maria Francisca Pais de Sande e Castro (filha de
Manuel Paes de Sande e Castro, Moço-Fidalgo da Casa Real, Governador e Capitão General de S. Paulo,
Senhor do Morgado do Cabo, e de sua mulher D. Leonor Maria Correia de Sá (Asseca)). A descendência
deste casal, até à década de 30 do séc. XX, pode encontrar-se no mesmo Pd. Luís Moreira de Sá e Costa, pp.
161-165.
75 Conde de Castro e Solla, Cerâmica Brazonada, Vol. I, pág. 85.
76 Quadro a óleo (séc. XVIII) – Colecção particular.
77 Sobre a sua vida, em termos laudatórios, Manuel Francisco da Silva e Veiga, Elogio do Ilustríssimo e
Excellentissimo Senhor José de Seabra da Silva, do Conselho de Sua Magestade Fidelíssima, seu Ministro, e Secretário de
Estado, Lisboa, Regia Officina Typográfica, 1772, e Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho Leal, Portugal
Antigo e Moderno – Dicionário geographico, Estatistico, Chorographico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico de todas
as cidades, villas e freguezias de Portugal e de Grande Número de Aldeias – Se estas são notaveis, por serem patria d’homens célebres, por

14
Assento de baptismo de José de Seabra da Silva (1732)

Nascendo no termo de Coimbra, onde brilhou na Faculdade e iniciou uma carreira


notabilíssima, veio a morrer em Lisboa (S. Sebastião da Pedreira), a 12 de Março de 1813,
na sua Quinta de S. Sebastião da Pedreira, «com todos os sacramentos» e «sem testamento»,
como diz o seu assento de óbito. Disse o Marquês de Resende, no seu elogio fúnebre, que
«morreu, tão placidamente como quem pega no sono» e que «no dia seguinte foi o seu corpo levado entre
lágrimas à Igreja de S. Sebastião da Pedreira, onde a sua bela alma dera tantas mostras da sua piedade
esclarecida».

Assento de óbito de José de Seabra da Silva

batalhas ou outros factos importantes que n’ellas tiverem logar, por serem sollares de familias nobres, ou por monumentos de qualquer natureza, alli
existentes – Noticia de muitas cidades e outras povoações da Lusitânia de que apenas restam vestígios ou sômente a tradição, Lisboa, Liv.
Editora de Mattos Moreira & Companhia, 1873, pp. 609-613. Sobre a sua carreira jurídica, José Manuel Louzada
Lopes Subtil, O Desembargo do Paço (1750-1833), Vol. II, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1994, pp. 60.
78 Foram padrinhos Frei Miguel de Távora, eremita de St.º Agostinho, lente de teologia da UC
(Doutorado em Teologia a 17.5.1711 – AUC, Actos e Graus, fl. 19), filho dos segundos marqueses de Távora, e
sua tia-avó D. Maria de Moraes, tocou por ela seu cunhado Dr. Manuel Velho Marmeleiro, avô do baptizado.
Contudo, Em sentido diverso, quanto à identidade do padrinho, José Lacerda Nápoles, «Família Correia
Baharem de Seabra de Lacerda e suas alianças», Beira Alta, 1996, pp. 474. Frei Miguel de Távora «he conductario
com privilégios de Lente por provisão de 24. de 8bro de 1712, de que/ tomou posse em 14. de Novr.o do dito anno, e igualado à
Cadeira/ grande de Escritura por provisão de 29. de Janr.º de 1726. He/ irmão de Henrique Vicente de Távora (...)» -
Francisco Leytão Ferreira, Alphabeto dos Lentes da Insigne Universidade de Coimbra desde 1537 em diante, por Ordem
da Universidade de Coimbra, 1937, pág. 51.

15
Teve José de Seabra da Silva muitas e variadas mercês e galardões. Um dos
primeiros que lhe descobrimos, embora com um destino incerto, foi a mercê régia do
Hábito de Cristo, para professar como Cavaleiro na Ordem de Cristo, a qual contudo, foi,
em 1750, objecto de estranho parecer negativo, não baseado na falta de qualquer qualidade
de sangue (da «pureza») mas na falta de idade («o impedimento de menoridade»), em
termos que nos parecem esdrúxulos, sobretudo quando confrontados, no seu rigor, com o
liberal parecer exarados noutros processos muito nossos conhecidos, como o de Bernardo
Coutinho Pereira, no século anterior79, no qual se dispensavam sem problemas 4 anos e
meio de impedimento de menoridade: «Senhor, [à margem, no topo da folha]. Está bem.
Lisboa, 26 de Junho de 1750] Foi V. Mag.de servido fazer mercê do Há-/bito da Ordem de Cristo a
Joseph/ de Seabra e Sylva, e de suas provanças/constou ter a qualidade e lim-/peza necessária. Porém, que
é /menor de dezoutto anos, por ter somente dezassete e meyo/ de idade, e por este impedimentos /julgou não
estar capaz de entrar/ na ordem, de que se dá conta a /V. Mag.de como Governador e perpétuo ad-
/ministrador dela na forma /que dispõem os Definitórios Lisboa/dez de Junho de mil setecentos/ e
cinquenta. P. Lc. Marquês de Valenças, José Ferreira de Horta, Philippe de (…),/Joseph Simões
Barboza de Azambuja/ Manuel da Costa Mimoso/Joseph Rebello /do Vadre/ …. Negrão/Manuel
Ferreira de Lima»80. Não sabemos por isso se chegou a professar como Cavaleiro na Ordem
de Cristo logo em 1750 pois, embora se indique que fez as provanças e a habilitação de
acordo com os definitórios81, nada mais consta dos registos que consultámos. Do processo
de seu irmão Lucas consta, no entanto, que, em 1759, José de Seabra da Silva já era
Cavaleiro da Ordem de Cristo, de que veio a ser Grã-Cruz, décadas depois. Em 1752,
obteve carta de Familiar do Santo Ofício (FSO – 2 de Setembro de 1752)82, sendo que,
segundo testemunho do Padre Manuel Frazão Pires, à data «se trata lim-/pa e abastadamente
com tratamento/ muito distinto, e que sem embargo,/de que ao presente não tem ocupação/alguma,
contudo como tem feita nes-/ta Universidade actos grandes enten-/de e ouve dizer o seu intento é des-
/pachar-se para ser Ministro, e outrossim/disse que como o dito habilitando é filho/ familiar nam saber os
bens que terá de/ seu mas que o Pai tem grandes rendas83 não só//não só em bens patrimoniais mas
por/mais empregos que tem». Teve o foro de Moço-Fidalgo com mil reis de moradia e um

79 Nestoutro caso estava em causa o avô paterno da mulher de José de Seabra da Silva, e publica-se
apenas para que o leitor comprove as flutuações de cariz pessoal existentes na prática decisória das nossas
instituições, em todos os tempos. Bernardo Coutinho Pereira foi Cavaleiro da Ordem de Cristo, sendo
bastante interessantes as suas “provanças”. O Rei concedeu-lhe a mercê, mas ordenou que fizesse as
provanças. Obteve mercês de 12$000 e de 48$000 reis de tença, a cada ano, em vida com o Hábito de Cristo
(Cartas de padrão de 21.10.1681). Consultada a Mesa da Consciência e Ordens, foi por esta dito que «na sua
pessoa concorre a qualidade e limpeza necessária» mas foi afirmado o impedimento da idade, visto que tinha dez anos
e era, por isso, menor de dezoito anos, como era requerido (Lisboa, 14.7.1682). Em Agosto de 1682,
Bernardo Coutinho Pereira requereu a dispensa do impedimento, «alegando ser já de treze anos de idade, como
constava da certidão do seu baptismo que oferecia». Fez-se consulta ao Tribunal, que assim respondeu: «Pareceu que V.
A. deve ser servido dispensar/ com o Supp.e por ser pessoa de qualidade/filho de Manuel Coutinho Pereira, Mestre/ de Campo
dos Auxiliares da Comarca de Coim-/bra,; constar por certidão do seu Baptismo/ que já fez treze anos completos (…)
entrado/nos quatorze com que são muito poucos/ os que lhe faltam para os dezoito que se requerem/ E ter exemplos a Seu
favor. Lisboa, 26/ de Agosto de 1682. Montr.o (…)/ Luis Vieira da Sylva/Martim (…) Paim/ Cristóvão Alz. Coelho» -
vide Torre do Tombo, Registo Geral de Mercês de D. Pedro II, Liv. 1(1), fl. 61v. e 66; e TT, Chancelaria da Ordem de
Cristo, Liv. 73, fl. 116v. (sublinhados nossos).
80 O processo nada mais contém, nem sequer as provanças.
81 TT, Habilitações para a Ordem de Cristo, Maço 99, n.º 35, de 10.6.1750 – v. Nuno Gonçalo Pereira
Borrego, Habilitações nas Ordens Militares – Séculos XVII a XIX – Ordem de Cristo G-J, Tomo II, Guarda-Mor, 2008, pa´g.
419.
82 TT, Habilitações para Familiar do Santo Ofício (FSO), Maço 66, n.º 1014 (MF 1793/A). A habilitação
anterior é de José de Horta e Figueiredo Moniz, de Setúbal. Foram testemunhas, no processo de José de
Seabra da Silva, em Coimbra, o Padre Manuel Pires Frazão, Bacharel formado em Cânones (diz que o
conhece de “mínimo pelo ver/ e ser seu vizinho”), o Beneficiado Frutuoso dos Santos e Silva, o Padre Luís
de Oliveira, sacerdote do hábito de S. Pedro, o Padre Caetano da Cruz Correa, natural de Penacova.
Habilitação aprovada a 5 de Setembro de 1752 por Simão José Silveira Lobo.
83 Outra testemunha dirá “rendas grossas”.

16
alqueire de cevada por dia «que se costuma dar aos filhos dos Desembargadores do Paço», tendo
depois a mercê de Fidalgo Cavaleiro por sucessão de seu Pai (Alvará de 20 de Setembro de
1753)84, depois de acrescentado o foro de Moço-Fidalgo a Fidalgo Escudeiro com mais 600
reis de moradia e logo também acrescentado a Fidalgo Cavaleiro com mais 400 reis de
moradia, perfazendo o total de 2000 reis de moradia e um alqueire de cevada por dia
(Alvará de 2 de Janeiro de 1754)85.
Como escreveu João Jardim de Vilhena, insuspeito de qualquer proselitismo face a
José de Seabra da Silva, «[i]ncontestavelmente, José de Seabra era um dos homens mais inteligentes do
seu tempo»86. Eis algumas notas mais sobre a carreira87 de José de Seabra da Silva:

a) Bacharel em Leis pela UC, depois de se ter matriculado na faculdade de leis em


1 de Outubro de 1744, ainda com onze anos88(!!);
b) Doutor em Leis a 24 de Abril de 1751 com dezanove anos (!), tendo realizado o
o exame vago com «o maior e raro esplendor», em 1 de Março de 1752)89, a que
assistiu pessoalmente o Marquês de Pombal, como acima se escreveu;
c) Desembargador Extravagante da Relação do Porto (Carta de 29 de Maio de
1754), tendo em consideração a «especial capacidade literária que (…) mostrou ter no
exame vago», tendo obtido na mesma mercê o lugar de Desembargador
Extravagante da Casa da Suplicação (Carta de 29 de Maio de 1754)90;

84 TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434.


85 TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434-434v.
86 João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva, cit., pág. 11.
87 Sobre a sua vida, v. Marquês de Resende, Elogio histórico de José de Seabra da Silva antigo ministro dos
negócios do Reino e sócio da academia real das Ciências de Lisboa pronunciado na sessão pública da mesma academia em 10 de
Março de 1861, Lisboa, Tipografia da Academia Real de Ciências de Lisboa, 1861; João Jardim de Vilhena, José
de Seabra da Silva – a sua política e o seu desterro, cit., 1933; Manuel Francisco da Silva e Veiga, Elogio do Ilustríssimo
e Excelentíssimo Senhor José de Seabra da Silva, do conselho de Sua Magestade Fidelíssima, sem Ministro e Secretário de
Estado, Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1772. A Rainha D. Maria passou-lhe carta de Privilégios de
Dezembargador a 26 de Novembro de 1792. Sobre a sua carreira jurídica, seguimos também José Manuel
Louzada Lopes Subtil, O Desembargo do Paço (1750-1833), Vol. II, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1994,
pp. 59.
88 E não doze, como escrevia João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva, cit., pág. 11.
89 TT, Leitura de Bacharéis, letra L, maço 2, n.º 22. Habilitado a 2.6.1751. Ou será, Maço 2, n.º 31, ano de
1769 (não tive oportunidade de voltar a verificar).
90 TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 435v.

17
91

d) Chanceler da Casa da Suplicação (11 de Novembro de 1756);


e) Procurador Fiscal da Companhia do Grão-Pará e Maranhão (Alvará de 20 de
Abril de 175792);
f) Fiscal da Junta do Comércio (Carta de 3 de Julho de 175893);
g) Executor da Fazenda da Rainha D. Maria Ana Vitória (carta de 10 de Maio de
1760);
h) Procurador da Fazenda no Conselho da Fazenda (Repartição do Ultramar) (3
de Julho de 176094);
i) Procurador da Coroa (24 de Abril de 176595);

91 Santa Barbara, António Joaquim de, ca 1838-1864 - Jozé de Seabra da Silva [Visual gráfico / S. tª
Bárbara lith.. - [S.l. : s.n., 1861]. - 1 gravura: litografia, p&b. - Tít. constituído por ass. fac.. - Dim. da comp.
sem letra: 14,5x13 cm. - Soares, E. - Dic. icon., n.º 2917 B).
92 TT, Registo geral das mercês de D. José, Liv. 6, fl. 435v.
93 TT, Registo Geral de Mercês de D. José, Liv. 12, fl. 515.
94 Gabinete Histórico: XV: 87.
95 Como dá nota José Subtil («Capítulo IX – Os desembargadores em Portugal (1640-1820)», in Optima
Pars – Elites Ibero-Americanas no Antigo Regime, Nuno G.F. Monteiro/Pedro Cardim/Mafalda Soares da Cunha
(Orgs.), ICS, 2005, pág. 264), os procuradores da Coroa «tratavam dos negócios da Coroa por terem o
mandato e a procuração do monarca», sendo «[d]e assinalar, por exemplo, que os últimos procuradores da
Coroa do Antigo Regime foram personalidades de grande relevância, como Paulo José Correia, Bartolomeu
José Nunes Cardoso Geraldes de Andrade, José de Seabra da Silva, João Pereira Ramos de Azevedo
Coutinho e João António Salter de Mendonça». Embora não o tenhamos conseguido consultar, o Autor
refere ainda em nota que «[e]sta importância pode ser testemunhada, por exemplo, no papel desempenhado
por José de Seabra da Silva» (cf. José Subtil, «O político mais notável do século XVIII», Revista da Escola
Superior de Educação de Viana do Castelo, n.º 4, 2002, pp. 285-298)» .

18
j) Guarda-Mor do Arquivo da Torre do Tombo (29 de Abril de 1766 e 3 de
Setembro de 1768), cargo no exercício do qual redescobriu a carta de Pêro Vaz
de Caminha a Dom Manuel I, que se achava perdida96;
l) Desembargador do Paço (25 de Janeiro de 1770).

À esq.: mais um exemplo para a iconografia oficial de José de Seabra da Silva


(miniatura sobre marfim 32mm x 21 mm); À dir.: Capa da Dedução Chronologica e Analytica

O ano de 1771 marca o fim da primeira fase da sua carreira, sobre a qual escrevia o
insuspeito Jardim de Vilhena97: «Em todos os Tribunais por onde passou, promoveu muitos assentos e
leis, glosando sentenças com grande crédito da sua literatura. Defendeu na Casa da Suplicação e no
Desembargo do Paço os direitos e regalias da Coroa, como já as havia defendido na Dedução Cronológica
[que Jardim de Vilhena, portanto, atribui plenamente a José de Seabra]. No Desembargo tinha
ele grandes discussões com o mais versado em leis que nesse tempo pontificava, Manuel Gomes de Carvalho,
e era Seabra quem o levava de vencida e como aquele era sempre contra a Coroa, foi por ordem régia
exilado para a sua quinta de Loures! Como Guarda-mor da Torre do Tombo, reduziu a método fácil a
investigação para se achar qualquer documento e nas sessões da Junta das Confirmações gerais era tal a sua
memória que em um instante dizia o texto e a data das mais antigas doações régias». Ainda sem
podermos fornecer datas concretas, sabe-se ainda que foi Executor da Bula da Cruzada e
Sócio honorário da Academia Real das Ciências de Lisboa. No seu tempo de ministro
pombalino, é impossível não o ligar à autoria da obra que forneceu a justificação
doutrinária para a expulsão dos Jesuítas do Reino, a chamada Dedução Chronologica e
Analytica, apesar de, no seu elogio histórico na Academia das Ciências (1861)98, o Marquês de

96 Terá isso acontecido em 1773, segundo informação constante de


http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/pero-vaz-de-caminha/pero-vaz-de-caminha.php, acedida a 18 de
Novembro de 2011.
97 Op. cit., pág. 11.
98 Marquês de Resende [António Telles da Silva Caminha e Menezes], Elogio Historico de José de Seabra da
Silva Pronunciado na Sessão Pública da Academia Real das Sciencias de Lisboa em 10 de Março de 1861, Lisboa, Tip.
Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1861.

19
Resende ter assegurado que José de Seabra da Silva disse não haver na Dedução Cronológica
«uma única palavra sua», isto apesar do livro ter sido publicado sob o seu nome99.

Painel de Columbano Bordalo Pinheiro na Sala dos Passos Perdidos, na Assembleia da República, representando o Conde de
Castelo Melhor (privado de Dom Afonso VI), D. Luís da Cunha, o Marquês de Pombal e José de Seabra da Silva100

José de Seabra da Silva atingiu um primeiro cume na sua existência política com a
ligação ao Governo do Marquês de Pombal. O que o fez chegar aí é controvertido. Alguns
escrevem, como parece ter sido o caso de Jacome Ratton, ter sido o «remorso» do Marquês,
que «triste com o sucedido» [vide o que antes se contou sobre o inquérito de 1756, envolvendo

99 Alfredo Duarte Rodrigues dá também conta da nota bibliográfica de Teófilo Braga na sua História da
Universidade, que pelo interesse a este propósito reproduzimos: «No prefácio das Cartas de Luiz António
Verney e António Pereira de Figueiredo aos Padres da Congregação do Oratório de Goa, publicadas por J. H.
da Cunha Rivara, em 1857, na Imprensa Nacional de Goa, diz ele: “que o padre Pereira declara positivamente na
Carta 3.ª ser o marquez de Pombal o auctor da Deducção chronologica e analytica”, acrescentando: “É verdade que a
tradição sempre atribuiu ao marquês esta obra, sem embargo de trazer à sua frente o nome de José de Seabra.
Mas a tradição pode interpretar-se como significando dera o plano da obra e vigiara a sua execução. É
verdade que no Diário (inédito) do bispo de Beja, ao depois arcebispo de Évora, D. frei Manuel do Cenáculo,
havíamos lido: - Dia tantos do tal – N’este dia me deu o senhor marquez a sua Deducção chronologica – Todavia este
modo de dizer do bispo de Beja podia admitira aquela primeira interpretação. Faltava-nos pois um
testemunho directo e positivo, que excluísse totalmente a José de Seabra, e conferisse ao marquês toda a
glória ou todo o ódio que daquela memorável publicação tem resultado. Este testemunho directo e positivo
achamo-lo agora na presente colecção» (itálicos do Autor – grafia actualizada - O Marquês de Pombal e os seus
Biógrafos – Razão de ser de uma revisão à sua história, cit., pág. 197, em nota).
100 Reprodução de
http://www.parlamento.pt/VisitaVirtual/Paginas/PPerdidosPainelColumbano3.aspx. É de notar que o 1.º
Visconde da Bahia, filho primogénito de José de Seabra, veio a casar com uma descendente do Conde de
Castelo Melhor e do Marquês de Pombal, pelo que este quadro representa 3 dos antepassados dos seus
descendentes.

20
o Pai de José de Seabra da Silva] e talvez «repêso do seu gesto desabrido» [a censura “áspera” ao
Desembargador Lucas de Seabra da Silva e subsequente morte deste], resolveu chamar para
si «o filho do finado e protegendo-o com tantas e tão sucessivas provas de bondade fez com que o Rei o
nomeasse Ministro e Secretário de Estado ajunto à sua pessoa!»101. Não é esta, contudo, a versão que
o próprio Marquês de Pombal contou no interrogatório que lhe foi movido após a sua
deposição, no qual, no quesito 15.º, afirmou expressamente, que «desde que o ouviu fazer o
exame vago ou de jure aperto lhe conheceu o distinto engenho que lhe deu motivo para ficar observando os
seus passos em estudos e seu procedimento, que havendo correspondido aos seus desejos o sucesso das suas
indagações o foi chegando a si e admitindo-o dentro dos gabinetes em que minutava os papéis de menos
segrêdo no serviço real, que passou a fazê-lo seu ajudante de Estado e seu amanuense, e pelo que pertencia à
probidade, meditou criar nêle um ajudante de secretaria de estado, que o aliviasse em vida e lhe sucedesse por
morte, que assim o representou muitas vezes ao Senhor D. José e com tanto gôsto que chegou a dizer ao
Eminentíssimo Cardial da Cunha que tinha um segundo filho em José de Seabra da Silva»102. Esta
mesma influência do Marquês de Pombal é coonestada por Jácome Ratton que diz, de modo
expresso, que «achava-se José de Seabra da Silva nos empregos de Procurador da Coroa e Guarda-mor
da Torre do Tombo quando o Marquês de Pombal o pediu a El Rei para seu ajudante na Secretaria de
Estado dos Negócios do Reino. Já a este tempo lhe tinha feito a mercê da Casa e Quinta, situada entre
muros junto a S. Sebastião da Pedreira; e se achava casado com D. Ana Felícia, herdeira muito ilustre e
rica da casa dos Coutinhos de Coimbra, e tudo por influência do Marquês»103.
Em conclusão, estas versões, de Sebastião José de Carvalho e Melo e de Jácome
Ratton são, aliás, confirmadas pela circunstância de o próprio José de Seabra da Silva se ter
matrimoniado em Oeiras, a 8 de Junho de 1764, no próprio Palácio do Marquês de
Pombal, alguns anos antes da sua subida ao ministério, na presença de Paulo de Carvalho e
Mendonça, irmão do Marquês, e e tendo como testemunhas outro irmão do Marquês e
Secretário de Estado (Francisco Xavier), o Reitor reformador da Universidade de Coimbra
(Gaspar de Saldanha de Albuquerque) e o Desembargador responsável pelo julgamento dos
regicidas (Pedro Gonçalves Cordeiro Pereira104). Notável conjunto de personagens, há que
admitir!

101 João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva, cit., pág. 9; e Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton
sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 160. É de comum
evidência notar que João Jardim de Vilhena não mostra especial simpatia por José de Seabra da Silva, ao
longo da sua Obra. Sem querer influenciar o leitor, limitemo-nos a dizer que Jardim de Vilhena trata 15 anos
como se fossem dois dias (vai no mesmo parágrafo do acontecimento de 1756 até à nomeação como
Secretário de Estado), dá a entender que José de Seabra da Silva esteve sempre junto do Marquês, quando é
certo que, sendo jurista notável, exerceu diversas funções durante todo este período; diz que seu o neto o
defendeu «como pode e soube», expressão interpretável
102 Nas Memórias de que João Jardim de Vilhena publicou excertos em 1933 (pág. 8), atribuindo-as ao
Principal Mendonça, o irmão do Marquês, o que é erro, pois as Memórias eram as do futuro Cardeal Patriarca
de Lisboa, como hoje sabemos, com a sua publicação por D. Filipe Folque de Mendóça.
103 Grafia actualizada – v. Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em
Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 246.
104 Membro do Tribunal da Inconfidência, foi também Chanceler-mor do Reino.

21
Cópia do assento de matrimónio de José de Seabra da Silva e Dona Ana Felícia Coutinho Pereira de Sousa, na
Ermida do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras, com a presença de impressionantes personagens, como
a letra tremida do procurador da noiva parece testemunhar!

Só praticamente sete anos mais tarde é que ascendeu a adjunto do Marquês de


Pombal, cargo que ocupou durante cerca de dois anos e meio, desde 6 de Junho de 1771105,
«cujas funções exercitava como se tivesse sido proprietário do lugar e não ajudante»106 até

105 O Cardeal Dom José de Mendóça refere ter sido a 6 de Junho de 1770, no capítulo 12.º das suas
memórias (D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pp. 226-230).
106 Jacome Ratton, op. cit., pág. 246.

22
ao aziago dia de 17 de Janeiro de 1774107. Durante esse tempo, cresceu o seu prestígio e
influência ao ponto de sobre ele se escrever, nas citadas Memórias, que «pela afabilidade com
que falava às partes, concorriam para sua casa, achando-se a do Marquês muitas vezes
deserta. Sua mulher exercitava o mesmo acolhimento, tem em pouco tempo grande séquito
de Senhoras e de Ministros, motivo porque entrando o Marquês, no ciúme de que Seabra
era mais bem visto de todos, principiou a não o atender. Sucedeu a prolongada moléstia do
Marquês e passar a Oeiras a convalescer, e onde repetindo-lhe, esteve alguns meses. Nestes
concorreram todos os pretendentes a Seabra e alguns se despacharam de que o Marquês
não gostou. Tomou Seabra suas medidas para ficar substituindo o Marquês, supondo [que]
não melhoraria; e não sucedendo assim e vindo para Lisboa conheceu por factos e
mexericos as ideias de Seabra»108.

Foi neste período que José de Seabra da Silva foi membro da Junta de Providência
Literária que adoptou o Compendio Historico para a reforma da Universidade de Coimbra,
com a consequente expulsão dos jesuítas, de que eram presidentes o Cardeal da Cunha e o
próprio Sebastião José de Carvalho e Melo, sendo também membros o Bispo de Beja, José
Ricalde Pereira de Castro, Francisco António Marques Giraldes de Andrade, João Pereira
Ramos de Azevedo Coutinho, Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, Reitor da
Universidade (e mais tarde Bispo-Conde, de Coimbra e Arganil, respectivamente), e
Manuel Pereira da Sylva109. Tenha sido ou não marcado por uma forte veia anti-jesuítica, o

107 Substituiu-o no cargo Ayres de Sá e Mello, nomeado por Decreto de 15 de Fevereiro de 1775, que
continuou a servir na Secretaria de Estado no reinado de Dona Maria I, até morrer (D. Filipe Folque de
Mendóça, op. cit., pág. 226).
108 Apud Jardim de Vilhena, cit., pág. 12.
109 D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pág. 337. O Compendio Histórico foi recentemente republicado –
Marquês de Pombal – Junta de Providência Literária, Compêndio Histórico da Universidade de Coimbra, Manuel
Ferreira Patrício (Apresentação)/José Esteves Pereira (Pósfácio)/José Eduardo Franco/Sara Marques Pereira
(Introdução e Coordenação), Campo das Letras, 2008. Sobre a reforma do ensino jurídico universitário, com

23
certo é que José de Seabra da Silva, como extensão de Pombal ou mesmo com ambições
próprias já algo antagónicas face ao Marquês110, participou na concepção e,
indiscutivelmente, na concretização e execução jurídica da fundamentação anti-jesuítica ou,
vista de outro prisma, da consolidação de um Estado regalista emancipado da influência de
forças externas, ainda que religiosas, tomando a Sociedade de Jesus como principal objecto
dessa desafeição jurídica e política. Assim, além de lhe ser imputada a autoria da Dedução
Chronologica e Analitica, também lhe são imputáveis, sem que a tal se possa subtrair, a
participação na reconstrução do edifício académico universitário e a luta contra diversas
formas de afirmação da independência das ideias religiosas face à tutela ideológica do
Estado que serviu. Mas essa análise, certamente útil e importante, excede os objectivos do
presente trabalho.

Livro atribuído a José de Seabra da Silva, sobre o sigilismo

Seja como for, a 17 de Janeiro de 1774 «caíu sobre ele a mais horrível e extraordinária
calamidade», sem que ainda hoje se saibam verdadeiramente as razões, porquanto José de
Seabra da Silva não foi objecto de processo, Não foi ouvido, não foi formulada acusação,
nem objecto de julgamento ou de sentença condenatória! Ganha por isso relevo como

ampla análise e profundas indicações bibliográficas, Rui Manuel de Figueiredo Marcos, A Legislação Pombalina
– alguns aspectos fundamentais, Almedina, Coimbra, 2008, pp. 160-169.
110 Alfredo Duarte Rodrigues reproduz Teófilo Braga, que diz que, nos apontamentos secretos do
Bispo de Beja, aquando das sessões da Junta da Providência Literária, se lia já em 1771 « “Seabra é a alma
deste negócio que faz as trancinhas com eles e com o Regedor para conduzir o Marquês, que vai de boa fé,
no que um deles propõe, e os outros fazem-se de novas e confirma, e assim vão levando o Marquês, como
querem e vão zombando e rindo com muita pena minha”. O sério bispo não considerava esta duplicidade ou
ingratidão digna de um secretário de estado e acrescenta, confrontando o comportamento de Seabra com o
não menos pérfido Cardeal da Cunha: “…basta-lhe a zombaria com que sempre tem tratado o Marquês, o
que é certo, indubitável e fora de toda a dúvida, como tem feito com mais reserva o Cardal da Cunha, ainda
que nos factos se tenha sempre unido ao Marquês…”. Como a doença de Pombal se prolongara, os seus
inimigos, atenta a sua longa idade, esperavam que se não restabelecessem e voltavam-se para adulação do
novo astro; José de Seabra da Silva, para criar partido, fazia acreditar que o marquês estava dementado; o
decreto de 13 de Abril de 1773, reintegrando o desembargador Francisco Raimundo de Morais Pereira,
processado por efeito de uma sindicância ordenada pelo vice-rei da Índia o marquês de Távora, só porque
este nome de Távora servira para despertar em Pombal os seus sangrentos rancores, revela quanto José de
Seabra da Silva se atrevia a abusar da confiança do seu protector. O marquês de Pombal deveria ter, mais
cedo ou mais tarde, conhecimento das sobrancerias de Seabra, e esperou o momento para lhe vibrar o golpe
de ruína» (Teófilo Braga, História da Universidade, apud O Marquês de Pombal e os seus Biógrafos – Razão de ser de
uma revisão à sua história, cit., pp. 225-227, em nota). Por nós, não concordamos com esta visão, não só porque
Seabra ainda este três anos ao serviço do Marquês e do Rei; não só porque os rancores aos Távoras não eram
certamente tão grandes (recorde-se que o próprio Marquês promoveria o matrimónio de filhos seus com
Távoras); mas também porque os testemunhos do Marquês e de José de Seabra discordam, além de que uma
neta do Marquês, bem poucos anos depois, casaria com um neto de José de Seabra.

24
razão a existência de motivos inconfessáveis para e pelo poder régio, designadamente a
apontada intriga urdida pelo Cardeal da Cunha111 (seria esse o entendimento do próprio,
bem como aquele expressado pelo Marquês de Pombal, em interrogatório posterior112) ou a
oposição de Seabra da Silva – ou a inconfidência em relação a ela que terá cometido com a
Rainha – relativa à alegada intenção de Pombal (e de D. José?) em afastar a Princesa D.
Maria da sucessão do trono, que passaria para seu filho D. José. A nosso ver, têm por isso
menos peso alegadas falhas graves no comportamento de José de Seabra da Silva, enquanto
Ministro113, que, embora pudessem – e foram-no, certamente – ser postas a circular interna
e internacionalmente, sempre poderiam ser objecto de processo, julgamento e condenação
e que, de qualquer forma, e isto para nós é decisivo, nunca foram comprovadas em
processo, devendo por isso ser irremediavelmente afastadas, até demonstração em
contrário (mesmo que historiográfica...). Não tendo por isso nós qualquer certeza,
limitemo-nos portanto à descrição dos factos ocorridos nesse período, necessariamente
simplificados. Em 17 de Janeiro de 1774, ao despedir-se da Família Real, que partia numa
galeota para Salvaterra, pediu ordens a D. José, que, em vez de lhe ordenar que o
acompanhasse, lhe disse «vá recebê-las do Marquês de Pombal». Este comunicou-lhe que estava
demitido e desterrado, tendo aparentemente dito que «com o mais profundo pesar executo as
terminantes e positivas ordens de El-Rei meu Amo e Senhor». Ratton dirá que o Marquês o recebeu
tratando-o por “Excelência” para logo depois o tratar por “Vossa Mercê dizendo-lhe (…)
[que] como o Snr. Doutor Jose de Seabra da Silva foi traidor a El Rei, Manda o Mesmo
Senhor que Vossa Mercê em 24 horas saia de Lisboa e se retire para a sua Quinta do Canal
(…) aonde esperará novas ordens”114. De qualquer forma, o próprio Seabra da Silva terá
ilibado o Marquês da autoria da sua desgraça, em nota confidencial ao Conde de Rio Maior,
Pai de sua nora («o Marquês de Pombal não foi o autor da minha desgraça, foi o executor por
infelicidade sua e minha»), e indicando mesmo, como escreve Jardim de Vilhena, «que na
ocasião do embarque, o Rei chamou Seabra por duas vezes e lhe apertou as mãos, muito
comovido, parecendo que tinha alguma coisa que o mortificava»)115. Contudo, estas ideias são, como
bem nota Jardim de Vilhena, absolutamente contrárias ao teor da carta que transcreve116,

111 António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José
de Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868, pp. 24-25.
112 Sobre o tema, monograficamente, o texto de seu neto António Coutinho Pereira de Seabra e Souza,
Replica á Refutação do senhor Simão José da Luz Soriano ácerca de José de Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871.
113 João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva – a sua política e o seu desterro, Coimbra, Imprensa da Universidade,
1933, pp. 14-19, que cita umas Memórias do Marquês de Pombal contendo extractos dos seus escritos e da sua
correspondência diplomática inédita, escrita por John Smith, secretário do Marechal Marquês de Saldanha (também
ele neto de Pombal, sublinhe-se), e publicada em Lisboa em 1872 (mas que não vimos), dizia que Walpole,
ministro britânico em Lisboa, comunicava assim para Londres a queda de Seabra da Silva: «Seabra tinha a seu
cargo a expedição e jurisdição dos negócios eclesiásticos e, segundo se diz, parece que em 2 anos e 4 meses
que foi Ministro d’Estado passou sem conhecimento de Sua Magestade 2922 licenças para ordenação de igual
número de padres…tendo recebido por cada um, 10 moedas». Trata-se, no entanto, do “diz que disse”, de
boatos que até hoje não foram confirmados. Já o embaixador francês, Marquês de Chermon, em 11 de Junho
de 1771, escrevia: «Transgrediu a lei que não permitia aos Bispos a confirmação de eclesiásticos sem
beneplácito régio e desobedeceu a el-rei dando uma ordem para fazer entrar num convento um morgado,
fazendo suceder no vínculo um colateral» (Jardim de Vilhena, cit., pág. 17). Trata-se contudo de alegações
nunca comprovadas, sempre existentes em relação a quem ocupa cargos públicos! É certo que este Autor
também cita o Chevalier Dezoteux de Comartim, que em Administration de Sebastien Joseph de Carvalho e Melo, Comte
de Oeiras, marquis de Pombal, em 4 vol., Amsterdam, 1787 (Tomo IV, pág. 33), referia a já também mencionada
questão da sucessão de D. José. Jardim de Vilhena, admirador de Pombal apesar da “terrível série de
arbitrariedades que empana a altiva figura do Marquês” (pág. 22), acaba no entanto por concluir, numa
demonstração da sua desafeição pela Família, que a causa última seriam as inconfidências de Seabra da Silva,
«uma tara de família que não soube vencer» (pág. 19).
114 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a
Setembro de 1810, op. cit., pág. 247.
115 A citação e o sublinhado são de Jardim de Vilhena, op. cit., pp. 12-13.
116 Op. cit, pág. 14.

25
em que Pombal, quatro dias depois da demissão de Seabra da Silva (portanto, de 21 de
Janeiro de 1774), escreve ao seu filho, o Conde de Oeiras: «Filho do meu coração. A certeza da
feliz viagem com que Suas Magestades chegaram a essa vila me trouxe toda a consolação de que necessitava
o amargo dissabor com que depois do trabalho de muitos anos que perdia na ideia de que formaria em José
de Seabra um Ministro, que bem servisse e ajudasse o Nosso Augustissimo e Amabilíssimo Amo e Senhor
Clementíssimo; me achei diante dos meus olhos com o mais vil, mais ingrato, mais pérfido e mais infame
Homem, entre os destas péssimas qualidades que se lêem nas histórias, para escândalo e aviso dos leitores.
Acho-me, porém, muito tranquilizado com a reflexão, de que o conhecimento de um tal monstro vai bem o
pesar que me custou, porque se tardasse mais tempo em se descobrir, faria neste Reino danos irreparáveis.
Estimo que tenhas passado tão bem como vi da tua carta; e que toda a nossa família ausente goze da
mesma felicidade, que Deus Nosso Senhor nos continua a conceder. Ao Conde de São Payo, e que é
(ilegível) podes segurá-lo assim; confiando-lhe o horrendo caso, que acima refiro; e dizendo-lhe que pode
sossegar-se; porque eu me acho já inteiramente desafogado e satisfeito de ver o serviço e alta reputação de Sua
Magestade livre de tal fera. (…)». Resta apenas dizer que, no Interrogatório, já transcrito, Pombal
reafirma as suas anteriores esperanças em Seabra da Silva, mas deixa um eloquente silêncio
sobre os motivos da sua queda e o juízo que sobre este faz. Seja como for, importa notar
que, em 1804, o filho primogénito de Seabra da Silva casa com a neta do Marquês de
Pombal, unindo para sempre ambas as Famílias, e que, como pode constatar-se da leitura
da carta que, a cerca de um mês do matrimónio, foi escrita pelo Conde de Rio Maior, genro
de Pombal, a Dona Ana Felícia Coutinho, mulher de José de Seabra da Silva, com grande
empenho por parte do Conde de Rio Maior.
Voltando aos factos, é de interesse conhecer o teor da ordem que em 17 de Janeiro
de 1774 inicia o que terá sido o período pessoalmente mais duro da vida de José de Seabra
da Silva, conquanto não o único período crítico da sua vida política (em 1799 enfrentaria o
próprio príncipe Dom João, futuro Dom João VI, e isso custar-lhe-ia um exílio...interno):
«Cumpre ao meu Real serviço que haja como hei por escuso de todos os empregos que n’elle ocupou o doutor
José de Seabra da Silva, e lhe ordeno que no termo de quarenta e oito horas haja de sahir da cidade de
Lisboa e seu termo, e no de quinze dias peremptorios se apresente no Valle de Bésteiros para d’elle não
sahir até segunda ordem minha. O Marquez de Pombal, do meu conselho d’Estado e secretario e ministro
dos negocios do Reino, o tenha assim entendido e faça executar (...). Palácio de Nossa Senhora da Ajuda
em 17 de Janeiro de 1774»117.
Ao fim de três meses, nova ordem, escrita pelo punho do Marquês, datada de 26 de
Abril, manda prendê-lo, entrando no Castelo de S. João do Porto (ou S. João da Foz) a 4 de
Maio. A 4 de Outubro, sem nada, é metido num navio com destino ao Rio de Janeiro, de
onde é levado para Luanda (Angola), onde chega a 1 de Março de 1775. Foi depois para o
Presídio de Pedras Negras (ou Pungo Andongo), «o desterro mais cruel, mais brutal, que n’essa
ephoca se podia dar»118. Dirá o futuro Cardeal Patriarca de Lisboa que «os trabalhos que este infeliz
Ministro experimentou [na prisão e desterro], não cabe o expelica-los (sic) no abreviado desta narração:
Viveo por especial milagre da Omnipotencia até chegar a Redençaõ de o mandar recolher a Rainha Nossa
Senhora»119.
Tradicionalmente, diz-se que regressou ao Reino e foi reabilitado após a morte de
D. José, mas parece que tal sucedeu a quatro meses da morte do Rei D. José (a qual
ocorreu a 22 de Fevereiro de 1777), sendo ainda Ministro o Marquês de Pombal, quando, já
doente D. José, a Rainha D. Maria Victória assumiu a regência do Reino (15 de Dezembro
de 1776), tendo a ordem sido dada ainda antes desta assunção da regência. O decreto que
ordena que o Governador de Angola D. António de Lancastre providenciasse o regresso

117 Há aqui uma inconsistência na descrição de Ratton, que diz que foi desterrado para a Quinta do
Canal, o que mostra a confusão que fez face ao desterro a que D. João VI, então príncipe regente, submeteria
mais tarde o mesmo José de Seabra da Silva, em 1799.
118 Conde de Castro e Solla, Cerâmica Brazonada, vol I, pág. 38.
119 D. Filipe Folque de Mendóça, op. Cit., pág. 228.

26
ao Reino de José de Seabra da Silva dizia que aquele devia tratar Seabra da Silva «com todas
as honras que merece um ministro do seu carácter e estimação, fazendo-o conduzir ao Reino com todas as
comodidades e despesas que for preciso para o seu transporte, por tudo ser do meu real agrado»120.
Ainda no Brasil, escreveu ao secretário de Estado Martinho de Mello e Castro, com
data de 6 de Fevereiro de 1778, uma carta que o Cardeal Patriarca Dom José de Mendóça
reproduz nas suas Memórias e na qual dá conta do seu estado de espírito perante o que lhe
sucedeu:
«Illmo. E Exmo. Senhor
Devendo eu a V. Exca. a expedição das benigníssimas Ordens de Sua Magestade, que Deos
Guarde, que me pozerão na liberdade de sahir de Affrica; e de passar ao Reino: me persuado, que
tambem a tinha para significar a V. Exca. a minha sincera, e fiel gratidão, pella parte que V.
Exca. teve neste beneficio; o maior que eu podia receber na minha situação; Segurando a V.
Exca. que nesta encerro os limites da minha liberdade; sem me adiantar a escrever a minha
mulher, nem a meu Irmão, que sei há poucos dias, que ainda vivem./
No principio de Outubro chegou ao Prezidio das Pedras a minha redempção; prepareime como
melhor pude, para chegar nos fins de Novembro a Loanda, donde parti a 20 de Dezembro, depois
de pagar o devido tributo da carneirada, com que esta Cidade hospeda aos mais robustos; e aportei
a esta Bahia, com quarenta dias de Viagem.
A necessidade de roborar hum pouco as forsas, e de me prover de quazi todo o preciso para me
transportar com menor// incommodidade, me fará demorar aqui mais dias, do que desejo; ainda
considerando a ventagem de salvar o Inverno nas costas de Portugal.
Tendo que ahi chegar, há V. exca. de sabello; e dezejara eu, que V. Exca. quisesse mandar-me
insinnuar a bordo; o modo, o tempo, e lugar de desembarque; porque a experiencia me tem
ensinnado; muito á minha custa, que tinha abelidade para errar todoss os passos, que governo
pella minha má cabeça.
Depois de desembarcar a onde, quando, e para o lugar, que V. Exca. me há de ordenar;
continuarei a minha peregrinação como deve, até o lugar a onde ella teve principio.
Permita-me V. Exca. que lhe confesse entre tanto; que a debilidade da minha filosofia, pella
dureza do meu coração, e por falta da christandade, que a devia vigorar: me até agora a
conformidade, que eu devia ter, mara me ser menos sensivel a desgraça, de ser Reprezentado ao
meu Soberano, e meu Bem feito, como o mais infame, e mais abominável ingrato; e como tal
despedido ignominiosamente do Real Serviço, separado da minha triste familia; encerrado em huma
prizão; della tirado, para ser transportado ao Ryo// de Janeiro; dali a Loanda; e de Loanda ao
Prezidio das Pedras: Levado para o suplemento da falta quazi total de tudo; as severas ordens, de
que só via a execução, na parte que se derigia a ser tido por morto na Europa, e empestado na
Affrica, e tudo sem Sentença, nem Processo; por que não tive audiencia, a menos para me dizer a
culpa. Se todos os meus sucessos fossem restrictos a ser despedido do Serviço, e mandado retirar
para a minha caza: nada diria, porque me havia parecer extraordinário, que hum Monarcha
necessitasse de mandar fazer huma demanda, para despedir do eu Serviço hum creado, que se lhe
reprezentasse ou não, ou inutil, ou desagradável: Mas as demonstraçoens contra mim, passarão
muito adiante; com o fatal esquecimento de me dar audiencia, quem quer que se empenhou em me
fazer tão famozo delinquente na Real Prezença.
Releve V. Exca. este desafogo, na substancia, e no modo; porque até me falta há quatro Annos o
uzo de falar, e de escrever; mas não falta o dezejo efficaz de me justificar, sem saber de que; para
viver o tempo que me resta, satisfeito, descançado//com antigo conhecimento, confirmado por
custozas experiencias, e serias reflexoens, de não prestar para outra couza, e menos para as em que
fui metido violentamente, e contra a minha vocação nos tempos passados.
E ultimamente Exmo. Sr. Cheguei até aqui; e ainda vacillo, se será atrevimento, rogar a V.
Exca., que por mim (que não posso ter esta felicidade) queira beijar a Mão a Sal Magestade,

120 Apud Aníbal de Mattos, «Venturas e desventuras de um grande senhor – José de Seabra da Silva –
Senhor da Quinta do Canal – Protegido do Marquês de Pombal», O Figueirense, 2.10.1998, pág. 2.

27
pella Piedade, e Clemencia, que comigo uzou, permitindo-me que eu veja ainda ao menos, a minha
Patria, e familia. Se isto poder ser, eu o confiro do antigo favor, que devo a V. Exca.; e se não
poder ser, eu que V. Exca. mesmo, há de desculpar nesta occazião a hum Affricano rude e
groceiro, que não quer certamente retribuir offenças, e atrevimentos por benefícios.».

Chegando a Lisboa, onde foi alegadamente recebido de forma entusiástica, a


seguirmos Pinho Leal e Dom José de Mendóça, que disse assumiu uma vida pacata, junto da
Família de quem tinha estado ausente, sem prejuízo para as diligências que veio a tomar no
sentido da sua reabilitação formal, o que foi objecto de Decreto da Rainha D. Maria I,
datado de 21 de Outubro de 1778. Parece feliz a descrição que dá este último prelado:

«Da Cidade da Bahia escreveo ao Secretario de Estado Martinho de Mello, (…); e chegando a
esta Corte// a (…) foi esperado de todos com o maior alvoroço, principalmente do Conde da
Calheta, que tendo-lhe prevenido hum quarto para sua acomodação, e de sua mulher, os hospedou,
e acompanhou com aquelle affecto poucas vezes praticado. Passou depois para a sua Quinta de São
Sebastião da Pedreira [então nos subúrbios de Lisboa…]; e concorreo outra vez toda a Corte a
vizita-lo: os particulares não vinhão muito satisfeitos, por que não erão recebidos com atenção; e
havendo muita murmuração, e pouca esperança, de que tornasse a tornar no Ministerio; logo a
caza se vio deserta: Conservou-se na Corte até alcançar da Rainha Nossa Senhora as Mercez, que
dos Decretos adiante copiados constão; com ellas se recolheo á sua Quinta do Canala a honde a
prezente vive.»121.

121 D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pág. 228.

28
.
José de Seabra da Silva não ficou reduzido a uma vida privada, sendo chamado,
durante o reinado efectivo de D. Maria, e igualmente durante a regência do Príncipe D.
João (D. João VI), a uma importante actuação política.

Pormenor de peças de dois dos três serviços de companhia-das-índias encomendados por José de Seabra da
122
Silva

122 Eis a descrição que do primeiro brasão faz o excelente livro de Nuno de Castro, A Porcelana Chinesa e
os Brasões do Império, Civilização, Porto, 1987, pág. 168: «Armas: Seabra. Escudo oval: de vermelho, cadeia de oiro, em

29
Após o seu regresso, a Rainha D. Maria concedeu-lhe a Comenda de S. Miguel de
Oliveira de Azeméis na Ordem de Cristo (carta de 15 de Maio de 1779), «recebendo pelo
Erário Régio, enquanto a comenda não tivesse rendimento, a quantia de dois contos e quatrocentos mil réis
por ano», soma muito significativa.

Em 1784 foi nomeado Presidente da junta ordinária de revisão e censura do novo


código penal (12 de Janeiro de 1784), em substituição de Dom Tomás Xavier de Lima
Teles da Silva, Visconde de Vila Nova de Cerveira (1727-1800, que seria elevado a
Marquês de Ponte de Lima), com a curiosidade de o alvará de mercê do Título de Marquês
de Ponte de Lima e do ofício que o comunicou, ambos de 17 de Dezembro de 1790, terem
sido assinados pelo próprio José de Seabra da Silva123. Entretanto, encontrámos o rasto de
José de Seabra da Silva e sua mulher como padrinhos em S. Sebastião da Pedreira, em 15
de Agosto de 1787124.

Assinatura de José de Seabra da Silva, então Secretário de Estado dos Negócios do Reino (1793)

Foi só em 1788, no entanto, e «poucos dias depois do falecimento do Bispo de


Tessalónica»125 que Seabra da Silva voltou ao ministério, nas funções de «Ministro e»126
Secretário de Estado dos Negócios do Reino127, lugar que ocupou de 15 de Dezembro de
1788 a 15 de Julho de 1799.
Durante esse período teve outras mercês, como a Carta do Conselho, com
4286$000 reis de moradia por mês (Carta de 10 de Julho de 1792)128 a Grã-Cruz da Ordem
de Cristo (6 de Junho de 1796), de que tivera mercê do hábito em 1750, como vimos129, e
mais uma comenda na mesma Ordem, no caso a da Torre Deita, no bispado de Viseu (21
de Junho de 1796), bem como a nomeação como Conselheiro de Estado (3 de Julho de
1796). Testemunho da sua integridade, neste período da sua vida, é aquele contado pela
investigadora Maria Antónia Lopes, referindo-se ao tempo em que José de Seabra servia

pala, tendo no chefe S de Azul, acompanhada de dois leões afrontados de oiro. Coronel de onze pérolas. Palmas cruzadas e
atilhadas».
123 TT, Viscondes de Vila Nova de Cerveira, cx. 32, n.º 27.
124 De Mariana, filha de Manuel de Sá e Vasconcelos e de D. Luísa Maria Joaquina, mas representados
por procuradores, pelo que não deveriam estar à época em Lisboa, respectivamente Francisco de Macedo
Pereira Forjás (sic) e Roque de Macedo Pereira Forjás (sic).
125 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a
Setembro de 1810, op. cit., pág. 247. Na mesma altura entrou também para secretário de Estado Luís Pinto de
Sousa, depois Visconde de Balsemão, este para o lugar de Ayres de Mello e Sá, que havia falecido (idem, cit.,
pág. 261).
126 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a
Setembro de 1810, op. cit., pág. 247.
127 V. António Manuel Hespanha, História de Portugal – o Antigo Regime, cit., pp. 159-161, com a referência
aos gabinetes de Secretários de Estado entre 1736 e 1808.
128 TT, Registo geral das Mercês de D. Maria I, Liv. 23, fl. 120.
129 Embora sem estar esclarecida a questão da dispensa do impedimento da menoridade, por seis meses
(!).

30
como Secretário de Estado da Rainha Dona Maria I: «Terá ocasião, por esses anos, de
intervir no funcionamento interno da Misericórdia de Coimbra nomeando o provedor e o
escrivão da Misericórdia, ordenando que daí em diante as Mesas fossem trienais e que os
mesários eleitos não careciam de pertencer á irmandade (Carta de aviso de 5 de Agosto de
1793). Mas nem por isso obteve tratamento privilegiado quando, em Dezembro de 1795 e
com a sua autorização, a esposa, que era devedora da Santa Casa por ser herdeira de seu
pai, requereu rebate dos juros. Embora o provedor e o escrivão fossem os indivíduos que
José de Seabra havia nomeado, a Mesa e Junta de Definitório da Misericórdia indeferiram
o pedido tão importante para os interesses financeiros de José de Seabra da Silva»130.

Está documentado ter sido José de Seabra um conhecido protector de Elmano, que lhe retribuiu em versos

Enquanto Secretário de Estado dos Negócios do Reino, ministério que abrangia a


justiça, os assuntos eclesiásticos e as obras públicas, realizou uma obra notável131 mas,
curiosamente, e apesar de tudo o que se escreve e descreve no presente artigo, Simão José
da Luz Soriano imputa-lhe a segunda vaga de destruição do que restava das “prerrogativas
da nobreza”132. Assim, embora extravase do âmbito deste trabalho e mereça uma

130 Maria Antónia Lopes, A governança da Misericórdia de Coimbra em finais de Antigo Regime, s.d., pp. 10-11,
indicando como fonte Arquivo da Misericórdia de Coimbra, Acordãos 5º, fls. 70-71.
131 A sua biografia, incluindo a sua actuação como Ministro, pode ser encontrada em
http://www.arqnet.pt/dicionario/seabrasilvaj.html, onde Manuel de Amaral transcreve a entrada que foi
publicada no Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico,
Volume VI, págs. 775-777.

132 No culminar de um processo de centralização régia que, a seu ver, se tinha iniciado com, pelo
menos, o Rei Dom Duarte I: « Finalmente ficará completo o quadro das causas que produziram a mina e total decadencia
do estado da nobreza, se ás já mencionadas se acrescentar a união que D. João III. o Piedoso, fez á coroa in perpctuum, para si e
seus successores, dos mestrados das ordens militares por bulia do papa Julio III em l5ol, medida com que os nobres acabaram de
ficar dependentes do rei para delle obterem as já ditas commendas e honras annexas que tiveram de mendigar junto d'elle, como se
acaba de dizer. Muito debeis foram os reinados de D. João III e de D. Sebastião, e todavia estes dois monarchas contavam já os
nobres entre os seus mais doceis e mais humildes servidores. E o que não seria depois que toda a flor da nobreza, que nasceu com

31
abordagem específica e monográfica, foi grande o apoio que deu à cultura e às ciências,
tendo fundado a Biblioteca Nacional de Lisboa, e empreendido importantes obras
públicas, como a abertura de canais no Mondego e em outros rios (Sado, Guadiana, barra
do Porto, etc), além do início da estrada Lisboa-Porto, entre outras determinações a que se
refere um pouco mais detidamente o Marquês de Resende, no elogio fúnebre que em 1864
pronunciaria na Academia Real das Ciências. Jácome Ratton dá bem conta da sua Obra, ao
referir que José de Seabra foi, de alguma forma, um percursor do fontismo, pois «durante
o segundo Ministério de José de Seabra, se fez a nova estrada de Lisboa até Coimbra
passando por Leiria». É certo que Ratton, como mais tarde Luz Soriano, criticaram a
«sumptuosidade desnecessária133, somas com as quais se poderia ter construído até à cidade do Porto; e
então haveria viandantes em grande número; visto as muitas relações que há entre Porto e Lisboa».
Também no seu ministério «houve um projecto de se fazer uma nova estrada de Lisboa a
Sacavém»134, fez-se «a utilíssima estrada da cidade do Porto para a Foz do Douro, debaixo da direcção

a casa de Aviz, se perdeu na mal concebida e peior Jadada jornada de Africa? D'este modo se vê que D. João 1 foi o que deu a
sentença contra os grandes senhores; D. Duarte notificou-a; D. Affonso V preparou os meios da sua execução, a qual foi depois
consummada por D. João II e por D. Manuel; e por conseguinte a nobreza não pode resistir a tantos e tão fortes ataques,
acabando desde então de facto ou ficando desde então alterada. (…). O marquez de Pombal, que de similhante classe se reputa
ou pode reputar tirado para o logar de primeiro ministro e valido de el-rei D. José, acabou de arruinar a consideração dos nobres,
já fazendo esmagar em vida sobre a ignominia de um patibulo o coração de alguns dos mais illustres membros da primeira
nobreza do paiz, com que humilhou a todos, e já extinguindo muitos vinculos por insignificantes, permittindo só a instituição dos
mui rendosos. Todavia foi por elle abolida a lei de Filippe II, encorporada nas ordenações do reino, que prohibia a união de dois
ou mais morgados em um só descendente, o que nada embaraçou a progressiva decadencia de uma classe, que pela opinião do
seculo ia rapidamente marchando á sua total aniquilação, concorrendo tambem bastante para este fim a nova organisação e
regulamento do exercito, que se democratisou, a lei das confirmações e a abolição da hereditariedade dos officios e outras
similhantes medidas. Desde então tudo cedeu e ficou á inteira discrição da realeza, e se algum ou alguns ousaram resistir, bispos,
ordens religiosas, curia romana, grandes e plebeus, todos absolutamente sofreram, mediante o emprego de doceis e submissos
magistrados, condescendentes sempre para tudo quanto os passados governos lhes ordenavam', a pena condigna a trama. /(…)
Atrás do marquez de Pombal veiu o reinado de D. Maria I, no qual o seu ministro José de Seabra da Silva acabou de destruir o
quasi nada que ainda restava das prerogativas da nobreza; por lei de 19 de julho de 1790 uniformisou elle o systema militar e o
financeiro, sem exceptuar o judicial, entrando por este meio todas as terras dos donatarios no plano geral da administração do
reino, recebendo-se ali magistrados iguaes em nome e auctoridade aos das outras terras. Por aquella lei apenas aos donatarios de
maior vulto ficou a regalia de nomearem os corregedores e juizes de fora para os seus senhorios, ao passo que outros só tiveram a
faculdade de os propor, ficando assim todos elles sem mais ingerencia alguma na administração da justiça. Por este modo foi a
classe media, pela revolução da intelligencia e pelo seu credito e riqueza, approximando-se successivamente da classe nobre, e esta
approximando-se tambem d'aquella, pela gradual e progressiva perda que foi tendo nas suas prerogativas e riquezas. Uma das
causas que tambem muito concorreu para a desconsideração da classe nobre foi a profusão, que se foi vendo dos differentes titulos,
desde a elevação da casa de Bragança ao throno, e particularmente durante o reinado de D. João VI, que os prodigalisou muito
mais do que os seus antepassados tinham feito, o que tambem praticou com as insignias das differentes ordens militares,
concedidas a quem muito bem lhe pareceu, sem que a maior parte dos agraciados tivessem recommendação alguma para taes
mercês em qualquer carreira publica. Ultimamente a restauração do governo constitucional em 1834 arruinou ainda mais o que
ainda faltava para desmoronar as recordações historicas da antiga nobreza». (sublinhado nosso) – Simão José da Luz
Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar, compreehendendo a historia militar,
diplomatica e política desde 1777 até 1834, Primeira Epocha, Tomo I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1866, pp. 141-
143.

133 Ratton escreveu mesmo: «Também não posso deixar de notar aqui a desnecessária sumptuosidade
dos marcos das léguas: tratou-se de marcar as léguas, coisa absolutamente necessária; mas em lugar de se
marcarem com um marco de pedra, que enterrado dois ou três palmos do chão, sobressaísse três ou quatro, e
com um letreiro que indicasse simplesmente o n.º de léguas e o lugar donde partisse a estrada, e para onde se
dirigia, ou esse letreiro fosse pintado a óleo, ou gravado na pedra fizeram-se uns magníficos obeliscos, que só
a despesa de um dava para se marcarem todas as estradas (…)» )(grafia actualizada) – Jacome Ratton,
Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág.
249. Mudam os tempos mas nem tudo muda….
134 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a
Setembro de 1810, op. cit., pág. 249.

32
do Engenheiro francês Reinaldo Oudinot»135, e «a estrada do Alto Douro»136. Embora seja citado um
seu discurso no ministério a defender a assunção da regência pelo Príncipe Dom João, face
à doença da Rainha sua Mãe, Dona Maria I, o certo é que a solução primeiramente
adoptada foi a de colocar Dom João a administrar os negócios do Reino, administrando o
Reino sempre em nome de sua Mãe (10 de Fevereiro de 1792) e, depois, quando a questão
da regência se colocou, José de Seabra ter-se-á oposto a essa assunção da regência sem
convocação prévia das Cortes o que, num País que não conhecia Cortes há mais de 100
anos e que acabara de assistir aos estados gerais em França (i.e. à Revolução Francesa ainda
em curso137), acabou por determinar, a 15 de Julho de 1799, a sua demissão e o desterro
interno para a sua Quinta do Canal, junto à Figueira da Foz, com proibição de voltar à
Corte, onde nunca mais assumiu qualquer cargo público. Como descreve José Norton138,
«José Seabra da Silva foi afastado e já não assistiu ao beija-mão que o príncipe concedeu
para cimentar a sua regência. Por uma vez o príncipe usava o seu poder sem hesitações
nem delongas, apeando um secretário sem esperar a sua morte. Teria sido uma vitória do
“partido aristocrático”, um primeiro passo para reduzir os secretários à sua antiga
subalternidade? (…)»139.

135 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a
Setembro de 1810, op. cit., pág. 252.
136 Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a
Setembro de 1810, op. cit., pág. 253.
137 São explicações dadas por Simão José da Luz Soriano na obra aqui citada e que me parecem
particularmente plausíveis (op. Cit., pp. 446-447).
138 Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, cit., pág. 34.
139 E continua dizendo: «Não deixa de ser curioso que Alorna, em privado, se tenha congratulado com
a saída de Seabra da Silva. Escreveu nessa altura a sua irmã Leonor: ‘Finalmente fez-se o que devia ser há
muito tempo’. Nessa altura, quando muita gente se movimentou para colocar no governo em substituição de
Seabra quem mais lhe interessava, também pela cabeça da irmã de Pedro deve ter passado a ideia de o ver
secretário de Estado, tirando partido da sua intimidade com Carlota Joaquina. Contudo Alorna dissuadiu-a,
negando quaisquer ambições políticas: ‘Tenho calculado que para arranjar os meus filhos (garantir o futuro da
sua Casa) basta-me ir andando na marcha em que estou… parece-me isto mais seguro do que meter-me em
danças altas’» (citando Ângelo Pereira, D. joão VI – Príncipe e Rei, 4 vols., Lisboa, Vol. 1, 1953-958, pp. 62-63 -
Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, cit., pág. 35).

33
Despacho da demissão de José de Seabra da Silva e descrição feita pelo seu mais feroz crítico, Simão José da
Luz Soriano140, que considerou por exemplo uma obra desnecessária a determinação da construção de uma
estrada Lisboa-Porto, o “encanamento do Mondego”, sinais porventura de uma pre-figuração do fontismo

Durante esse período, e após súplica a D. João feita por sua mulher, foi autorizado
a ficar na quinta de S. João da Ribeira, estando nas Caldas em 1802141 (o que se manteve
até 30 de Março de 1804, pelo que não assistiu ao matrimónio de seu filho o Visconde da
Bahia com a filha do 1.º Conde de Rio Maior (e neta do próprio Marquês de Pombal,
então já falecido). Junot, ao invadir Portugal, sabendo que estava «no desagrado da Corte», tê-
lo-à convidado para Ministro do Interior, «a que se recusou, como bom português» (Pinho Leal),
tendo mesmo sido um dos promotores da «sociedade restauradora», em 5 de Fevereiro de
1808. Por um lado, parece-nos que as afirmações de Simão José da Luz Soriano (op. cit., pp.
333-335) são puramente insultuosas142, pois que não têm qualquer testemunho ou
documento que o comprove e, ao invés, pretendem levar o leitor a concluir que é
explicável por qualquer comparticipação ou apoio ao governo de Junot a circunstância de
um homem afastado do governo pelo príncipe regente (há 8 anos, então) e já com mais de

140 História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal comprehendendo a historia
diplomatica, militar e política d’este reino desde 1777 até 1834, Primeira épocha, Tomo II, Imprensa Nacional,
Lisboa, 1867, pp.294-295. Ao invés, há que reconhecer que dá algum mérito a outras medidas,
designadamente o reforço dos correios e sua anexação ao Estado (nacionalização, dir-se-ia), entre outras
medidas, como a estrada do Porto para a Foz ou do Porto para o Alto Douro, bem como a estrada para
Sacavém ao longo do Rio Tejo. Mas tudo isto é matéria para outros e próximos estudos.
141 Em 10 de Novembro de 1802, foi denunciado à Inquisição por Fr. Aleixo do Coração de Jesus, por
alegadamente ter dito que não acreditava “na Religião de Malta [a Ordem de Malta], por ser contra o
Evangelho” – TT, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Lisboa, proc. 16677. O processo, de pouquíssimas
páginas, não terá tido qualquer seguimento. Eis o excerto relevante da queixa:

142
Sobre a polémica entre o neto de José de Seabra da Silva e Luz Soriano, vide Alfredo Duarte Rodrigues, O
Marquês de Pombal e os seus Biógrafos – Razão de ser de uma revisão à sua história, cit., pp. 225-228.

34
75 anos não ter sido escolhido pelos Governadores do Reino para altas funções após a
saída do invasor. Mas por outro lado, há que reconhecer alguns elementos de difícil
interpretação. Assim, por um lado, Pinho Leal acentua que tanto Seabra da Silva como os
seus filhos sustentaram vultuosamente a resistência aos franceses, dizendo mesmo que os
seus dois únicos filhos varões «assentaram praça no exército português, combatendo sempre, e com
distinção, em defesa da sua pátria, e como seu pai, em razão da sua provecta idade e padecimentos, não
podia fazer parte do exército libertador, ofereceu ao Estado, enquanto durasse a guerra com os franceses, os
rendimentos das comendas da casa da Bahia (3:000$000 reis anuais) e ele os seus filhos deram ao exército
real muito fardamentos e, por várias vezes, cavalos para a cavalaria, e muares para a artilharia (só de uma
vez lhe deram 30 e tantos), além de outros valiosos donativos. Seu filho António, já senhor de vários
prazos, forneceu, à sua custa, e abundantemente, a nau Martim de Freitas. Depois marchou para Trás-os-
Montes a unir-se às tropas leais do benemérito General Silveira (depois 1.º Conde de Amarante (…))».
Contudo, por outro lado, não podem ser desprezados testemunhos que permitem pôr em
causa um claro apoio – designadamente por seu filho secundogénito – à causa anti-
-francesa, mormente em literatura de cariz maçónico (v., a história da maçonaria do mação
prof. A. H. de Oliveira Marques) ou anti-maçónico (Paul Siebert, D. Miguel e o seu Tempo, 1986),
onde se expressa um posicionamento favorável deste aos franceses. Na mesma linha, o
senhor prof. Nuno Espinosa Gomes da Silva publicou dois importantes estudos que procuram
demonstrar que José de Seabra da Silva seria o grande conselheiro, mas sempre na
penumbra, de Junot, aquando dos acontecimentos ocorridos em Portugal após a primeira
invasão francesa. Contudo, é finalmente de notar que A. H. de Oliveira Marques, ao fazer a
sua monumental história dos pedreiros livres, não refere José de Seabra da Silva como
membro de tais associações ou de qualquer das suas lojas. Julgamos, no entanto,
atendendo ao que os elementos futuros demonstraram, que, mesmo a ter existido uma
afiliação maçónica “francesa”, designadamente de seu filho secundogénito (aliás, morto
pelos franceses na Batalha do Bussaco), rapidamente a Família se orientou para a causa
nacional, como o demonstram as mercês que Dom João VI, ainda regente, concedeu no
Brasil ao Visconde da Bahia, a elevação a Conde da Bahia pelo Rei Dom Miguel I, no
tardio 1833 e, sobretudo, a circunstância de o 1.º Visconde da Bahia e Conde da Bahia ter
dado a sua própria vida pela causa da legitimidade, em Santarém. Ademais, diga-se apenas
que, após o triunfo da dinastia brasileiro-austríaca dos Saxe-Coburgo Gotha de Bragança, a
Família se manteve integralmente fiel a Dom Miguel e aos seus herdeiros, nada pedindo ou
obtendo do Estado monárquico ou mesmo da República.

35
Sendo varão primogénito, José de Seabra da Silva sucedeu nos bens vinculados de
seus Pais e, ao longo de toda a sua vida foi construindo um significativo património,
sobretudo a partir da decida de 1760 e após o seu matrimónio com a rica fidalga D. Ana
Felícia. Entre as muitas propriedades que foi adquirindo, e de que não se fez ainda qualquer
levantamento exaustivo, sempre se dirá que foi, por mercê régia, senhor da quinta e palácio
do Duque de Aveiro, em Lisboa, em S. Sebastião da Pedreira143, e da Quinta do Canal (sita

143 Sigamos Gustavo de Matos Sequeira: «Passada a quinta e terras do Poceiro (que foram mais tarde do
Principal Deão Azevedo. (…), e mais tarde de um tal Carlos Joaquim, vindo finalmente para às mãos do
Seabra) avultava à esquerda, o palácio, com seus belos jardins e magnífica quinta, que fora do Duque de
Aveiro. Extinta a casa ducal, depois da misteriosa tentativa de 1759, passou a propriedade para um tal
António Vaz Coimbra e depois (em 1767) para José de Seabra da Silva (…)/. José de Seabra parece ter tido a
ideia de formar à roda do seu grandioso palácio um dos mais extensos domínios de que havia memória às
abas de Lisboa, o qual, sob o nome de Terras do Seabra, chegou quase intacto as nos dias. Em 1770 vê-mo-lo

36
no Campo de Coimbra), que vagara com a proscrição dos jesuítas (Carta de 20 de Maio de
1769144), e de mais quatro «geiras de terra no Campo de Bollão, que forão da extincta casa de Aveiro,
para se unirem de jure e herdade às mais fazendas que já possuía na cidade de Coimbra, como consta dos
decretos e portarias de 21 e 22 de Março de 1769 e de 10 de Junho de 1791»145. Era ainda
proprietário da Quinta de St.ª Eufémia (perto de Montemor-o-Velho, adquirida em 1 de
Março de 1782, por 3 000$00 reis). Comprou, autorizado por Decreto régio de 1 de Abril
de 1796, «um casal composto de vários foros no sítio de Campolide pelo preço de dois contos e trezentos mil
réis»146. Obteve nomeação de «juiz privativo com jurisdição ordinária para a medição, demarcação e
tombo das propriedades de que é senhor e possuidor no sítio de S. Sebastião da Pedreira e do Casal de
Campolide contíguo, que ultimamente comprou, precedendo as necessárias licenças e solenidades jurídicas, às
Religiosas do Mosteiro de S. Dinis de Odivelas» (Decreto régio de 13 de Julho de 1796)147.
José de Seabra da Silva de Morais148, como é nomeado no seu assento de
matrimónio, casou, como referimos acima, em Oeiras, na Ermida de Nossa Senhora das

adquirir uma propriedade constituída por bens de capela, a qual era administrada pelos religiosos do convento
da Estrela e que pegava com a quinta do Noviciado; em 1786 compra a quinta da Rabequinha e, ao começar o
século XIX, ei-lo já de posse da propriedade dos jesuítas e da quinta e casas de Carlos Joaquim (antiga quinta
do Poceiro) que tinham sido dos herdeiros do Principal Azevedo (…). /José de Seabra tinha todas estas
propriedades por sua conta e habitava no palácio Aveiro. Apenas no segundo semestre de 1779 vejo alugar a
velha moradia ducal ao marquês de Niza que, por sinal, pagava de renda 250$000 réis. Em 1805 José de
Seabra habitava-a e com ele quatro criados, quatro parelhas e quatro cavalos de sela». Em 1832, o visconde
seu filho residia na quinta de Entremuros. (…) «Meado o século XIX, o vasto domínio dos Seabras
desmembrou-se, vindo entretanto a maior parte dele parar às mãos do falecido capitalista José Maria Eugénio
de Almeida» (G. de Matos Sequeira, Depois do Terramoto – Subsídios para História dos Bairros Ocidentais de Lisboa,
Volume IV, Academia das Ciências de Lisboa, 1967, p. 503-505).
144 TT, Registo geral das mercês de D. José, Liv. 22, fl. 422.
145 Conde de Castro e Solla, Cerâmica Brazonada, vol.: I, pág. 37.
146 TT, Registo geral das mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 243. O casal havia sido herdado pelo Mosteiro de
S. Dinis de Odivelas, cabeça da herança de D. Catarina de Figueiredo.
147 TT, Registo geral das mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 307. Nesse mesmo ano, a 16 de Maio,
encontramo-lo a testemunhar, em Lisboa, em Santa Isabel, juntamente com o Duque de Cadaval, o
matrimónio de Dom Pedro Norberto de Sousa da Silva Padilha e Seixas com Dona Ana José Maria de Santo
António e Silva.
148 TT, Registos Paroquiais de Oeiras – Nª Senhora da Purificação, Liv. 3 (1760-1803), fl. 81v., que aqui
reproduzimos. Aparece no assento com o nome que aqui lhe damos. Curiosamente, o assento de matrimónio,
por razão que desconhecemos, foi mais tarde (1791) transcrito nos Livro 8-C de Lisboa (St.ª Isabel), a fls. 6 e
6v., com o seguinte teor, que reproduzimos com o maior rigor possível, excepto alguma actualização
ortográfica, que o leitor perceberá: «Francisco de Sales Pároco nesta freguesia/de Nossa Senhora da Purificação da vila de
Oeiras/certifico que aos oito dias do Mês de Junho de mil/setecentos sessenta e quatro na Ermida de Nossa/Senhora das
Mercês desta vila em/ presença do Ex.mo e R.mo Senhor Paulo de Carvalho/e Mendonça do Conselho de Sua Magestade e do ge-
/ral do Santo Ofício Vedor da Fazenda da Rainha /nossa Senhora e Presidente do seu Conselho comis-/sário geral Apostólico
da Bula da Santa Cruza-/da e D. Prior da Insigne e Real Colegiada de Gui-/marães, pelas cinco horas da tarde se casaram
por/palavras de presente José de Seabra da Silva de/Morais, filho de Lucas de Seabra da Silva, e de sua /mulher Dona Josefa
Teresa de Morais Ferraz na-/tural do lugar de Vilela, e baptizado na fregue-/sia de São Martinho da Torre, Bispado de
Coimbra,/e morador na freguesia de Santa Isabel da cidade/ de Lisboa, Com Dona Ana Felícia Coutinho/Pereira de Sousa,
filha de Nicolao Pereira Cou-/tinho de Sousa e Menezes, e de sua mulher Do-/na Francisca Maria de Sousa e Castro, na-
/tural e baptizada na freguesia da Sé da cidade/ de Coimbra, donde é moradora; e a dita contra-/ente constituiu seu procurador
e deu especial/comissão para efeito de celebrar este ma-/trimónio com o sobredito Contraente, a seu tio/Bernardo Coutinho
Pereira. Ambos os con-/traentes foram dispensados nos banhos e-/ mais papéis de estilo pelo Ex.mo e R.mo Se-/nhor Cardial
Patriarca de Lisboa, que jun-/tamente lhes concedeu licença e especial/ comissão ao dito Ex.mo e R.mo Senhor Paulo//Paulo de
Carvalho e Mendonça para os re-/ceber na sobredita Ermida do seu Palácio/ desta vila celebrou também este casa-/mento em
minha presença e das testemunhas/abaixo assinadas e em tudo se guar-/dou o Sagrado Concílio Tridentino, e constitui-/ções
deste Patriarcado, e Decreto de Sua/ Eminência de cinco deste presente mês. Foram/ testemunhas presento o Il.mo e Ex.mo
Senhor/ Francisco Xavier de Mendonça Furtado do/Conselho de Sua Mag.de e seu Ministro, e Secre-/tário de Estado e o Il.mo
e R.mo Senhor Gaspar /de Saldanha de Albuquerque Reitor Reforma-/dor da Universidade de Coimbra, e Pedro Gon-/çalves
Cordeiro Pereira, Desembargador do Paço/ e Juiz da Inconfidência de que fiz este termo que /todos assinamos die ut supra.
Paulo de Carvalho/e Mendonça, como procurador da contraente Ber-/nardo Coutinho Pereira = Francisco Xavier de
/Mendonça Furtado= Gaspar de Saldanha de Al-/buquerque Pedro Gonçalves Cordeiro Pereira/o Pároco Francisco de Sales
= E não se continha/mais no dito assento, que vai lavrado no livro/6 dos casamentos a fls. 81 v. ao qual me reporto Oei-/ras

37
Mercês, no Palácio dos Marqueses de Pombal, a 8 de Junho de 1764 com Dona Ana
Felícia Coutinho Pereira de Souza149 Tavares Cerveira e Horta150, naquele ambiente
certamente impressivo acima descrito, e representada por seu tio Bernardo Coutinho
Pereira. Senhora de uma vasta Casa e fortuna, a mulher de José de Seabra da Silva era
provinda de uma Família muito distinta e poderosa da fidalguia da província, descendente
do 1.º Capitão donatário da Bahia-de-todos-os-Santos (Carta de 5 de Abril de 1534 e
Apostilha de 26 de Agosto de 1534)151, o infortunado Francisco Pereira Coutinho, que
criou a primeira povoação no Brasil e morreu comido pelos índios.

8 de Junho de 1764 = O Par.co Francisco de Sales./É o que continha uma certidão que me /foi apresentada em o primeiro dia
do mês de De-/zembro de mil setecentos e noventa e um an-/nos, juntamente com um despacho do Ex.mo e R.mo/ Senhor Cardial
Patriarca com data de vinte e dois/ de Novembro deste presente ano, em que man-/da abrir este assento cujo despacho fica
neste/Cartório Lisboa, o 1.º de Dezembro de 1791./ O Prior Francisco José Marques de Payva».
149 Assim aparece nomeada no seu próprio assento de matrimónio.
150 Assim aparece nomeada no assento de matrimónio de seu filho Manuel.
151 TT, Chancelaria de D. João III, Liv. 7, fls. 110v-112v. e fls. 146v.-147v. – o texto da doação e do foral
da Capitania da Bahia de Todos os Santos foi transcrita e publicada por Maria José Mexia Bigotte Chorão,
Doações e Forais das Capitanias do Brasil 1534-1536, Torre do Tombo (?), 1999, pp. 43-57.

38
Excerto inicial da Carta de Visconde da Bahia para o filho de José de Seabra da Silva e de D. Ana Felícia,
invocando expressamente a vida e carreira pública de Francisco Pereira Coutinho, 1.º Donatário da Capitania
da Bahia de Todos os Santos e fundador da «primeira Povoação da América, a que deu o nome de Vila ou
cidade de Pereira» e que «naufragou voltando da Capitania dos Ilhéus para a Bahia, e foi morto e comido
pelos Gentios»

Dona Ana Felícia Coutinho Pereira de Sousa, havia sido baptizada em Coimbra (Sé
Nova), a 14 de Agosto de 1745152 e morreu em Lisboa (S. Sebastião da Pedreira), a 26 de
Março de 1807, causando profundíssimo desgosto a José de Seabra. Era ela filha de
Nicolau Coutinho Pereira de Sousa Menezes da Horta Amado e Cerveira153 – que nasceu
em Soutelo do Douro, a 27 de Abril de 1720, sendo Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e
Senhor da Casa dos Coutinhos de Coimbra e do morgado de Soutelo (Trancoso), além de
10.º senhor do morgado e do juro real da Redízima da Bahia-de-todos-os-Santos154, e
Moço Fidalgo com exercício no Paço – e de sua mulher D. Francisca Maria de Távora e
Sousa (Dona Francisca Maria de Sousa e Castro155), esta que dizem nascida em Lisboa, na

152 Foi padrinho José Felix da Cunha, da cidade de Lisboa.


153 No assento de seu neto, aparece nomeado como «Nicolau Pereira Coutinho de Sousa e Menezes, baptizado
na vila de Soutelo, Bispado de Lamego».
154 Compensação resultante de um importante litígio entre a Coroa e o filho de Francisco Pereira
Coutinho, que a Coroa retirou o carácter hereditário da capitania mas deu em compensação o direito à
percepção de um juro fixo anual sobre a “redízima” da capitania.
155 Com este nome aparece nomeada no assento de matrimónio de seu filho José de Seabra da Silva.

39
freguesia dos Anjos156, onde terá sido baptizada157, e morreu em Coimbra (Sé Nova), a 26
de Outubro de 1748158. Para demonstração, do estatuto social da Mãe de Dona Ana Felícia,
basta reproduzir ao leitor o seu assento de óbito e, sobretudo, a notícia que sobre o
mesmo evento foi publicada na Gazeta de Lisboa:

Assento de óbito da Mãe de D. Ana Felícia e sogra de José de Seabra, Dona Francisca Maria de Sousa e
Távora, em Coimbra (Sé Nova), a 26 de Outubro de 1748 (1746-1774, fl. 11v. – página anterior) seguida da
notícia da sua morte, tal como foi dada pela Gazeta de Lisboa, n.º 45, de 5 de Novembro de 1748

Dona Francisca terá sido herdeira de parte da herança de sua Mãe e era filha de
Dona Leonor Maria de Brito e Castro e de seu marido159 o Doutor Alexandre de Sousa
Freire.

156 Assim consta expressamente do assento de baptismo de seu neto o 1.º Visconde da Bahia.
157 Dizem que a 3 de Outubro de 1714 – não encontrei o respectivo assento nos índices de livros
paroquiais dos Anjos.
158 Memória Genealógica e Biográfica dos tres Tenentes Generais Leites da Casa de S. Thomé d’Alfama, Lisboa, 1838, Vol. I, pág.
64, citando a Gazeta de Lisboa, de 5 de Novembro de 1748.
159 Matrimoniaram-se em Lisboa, na freguesia das Mercês, a 1 de Novembro de 1699, tendo ela nascido
no Brasil, na Bahia, mais concretamente na freguesia de N.ª Sr.ª da Ajuda, filha herdeira de André de Brito de
Castro, FSO (1690), Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Provedor da Alfândega da Bahia, Senhor de muitos
engenhos e terras, e de sua mulher D. Francisca Maria Leite.

40
Assento de matrimónio de Alexandre de Sousa Freire e de D. Leonor Maria de Castro (dir.); índice da
habilitação para FSO do Pai de D. Leonor (esq.)

Este Alexandre de Sousa Freire foi baptizado em Lisboa (Igreja das Chagas, creio que na
paróquia de St.ª Catarina), certamente por volta de 1665, habilitou-se para a Ordem de
Cristo, juntamente com seu irmão Manuel de Sousa de Távora, sendo feita consulta sobre
as suas provanças a 27 de Abril de 1686160. Moço-Fidalgo (11 de Março de 1715); morreu
na sua Quinta da Charneca, no termo de Lisboa, em data próxima, mas anterior, a 10 de
Novembro de 1740161; foi Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, Colegial de S. Paulo
(entrou em 28 de Janeiro de 1697) e «muy dado à poesia» Membro nobre da Mesa da
Misericórdia de Lisboa, em 1721, conforme a relação publicada na Gazeta de Lisboa. Mestre
em Artes e Doutor em Teologia, Alexandre de Souza Freire, cuja gravura se pode
encontrar no livro Memórias dos Tenentes-Generais Leytes162, largou a vida académica pela vida
militar. Foi depois Mestre de Campo de um Terço na Bahia, Governador e Capitão-
General do Maranhão (nomeado em Março de 1727, tomou posse em 1 de Junho de 1728,
ocupando ainda o cargo, pelo menos, a 22 de Junho de 1730). A resolução de D. João V
foi tomada a 29 de Março de 1727, em consulta do Conselho Ultramarino. Em 20 de
Março de 1728 fez Alexandre de Souza Freire preito e homenagem ao Rei, tendo jurado a
14 de Maio de 1728. Foi ainda do Conselho de El-Rei e, como vimos, foi, pelo seu
matrimónio, Provedor proprietário da Alfândega da Bahia, «que houve em dote de casamento com
muitos outros herdamentos»163. Diga-se ainda que este era filho de Bernardino de Távora e
Sousa Tavares – Bernardino de Távora Tavares164 ou, no seu assento de matrimónio,

160 Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Habilitações nas Ordens Militares – Séculos XVII a XIX – Ordem de Cristo L-Z,
Tomo III, Guarda-Mor, 2010, pág. 230 – Maço 46, n.º 39 “Manuel”.
161 Memória Genealógica e Biográfica dos tres Tenentes Generais Leites da Casa de S. Thomé d’Alfama, Lisboa, 1838, Vol. I, pág.
47, citando a Gazeta de Lisboa, de 10 de Novembro de 1740, n.º 45.
162 Memória Genealógica e Biográfica dos tres Tenentes Generais Leites da Casa de S. Thomé d’Alfama, cit., pág. 47.
163 Memória Genealógica e Biográfica dos tres Tenentes Generais Leites da Casa de S. Thomé d’Alfama, cit., pág. 47.
164 Assim identificado no assento de matrimónio de seu filho Alexandre de Sousa Freire.

41
Bernardino de Távora de Sousa Freire Tavares, que foi comissário da Cavalaria na
Província do Alentejo, Senhor de Mira, Comendador de S. Tiago de Alfaiates na Ordem de
Cristo, para a qual se habilitou165, Tenente-General de Cavalaria Governador e Capitão-
General de Mazagão e do Reino de Angola, onde morreu166, e que teve diversas mercês
régias monetárias, que podem ser consultadas na Chancelaria de Dom Afonso VI – e de sua
mulher e sobrinha Dona Maria Josefa Madalena de Sousa Freire167 (ou, como também
aparece, D. Maria Madalena Josefa de Sousa168), os quais casaram em Alenquer, na
freguesia da Ventosa, a 3 de Junho de 1668, dispensados no primeiro e segundo grau de
consanguinidade169. D. Maria Madalena Josefa de Sousa era a única filha legítima e por isso
herdeira de outro Alexandre de Sousa Freire, comendador de Cristo, meio-irmão de seu
marido, Governador de Beja, Governador de Mazagão e Governador do Brasil, etc, e de
sua mulher e prima D. Joana de Távora e Lima. Quanto à ascendência paterna, a mesma
será objecto de outro estudo, a carecer de ser ainda completado, e que nos desviaria ainda
mais da figura de José de Seabra da Silva.
Retornando assim a José de Seabra da Silva, diga-se que este, por força do
matrimónio com D. Ana Felícia, passou a ser senhor de toda a Casa dos Coutinhos de
Coimbra e do Morgado do Soutelo, em Trancoso, 11.º senhor do Morgado de Juro da
Redízima da Bahia, etc.., e foram pais tardios de dois filhos rapazes170: (1) Manuel Maria da
Piedade Coutinho Pereira de Seabra e Souza Tavares Horta Amado Cerveira e Távora; e
(2) António Coutinho de Sousa Seabra. O segundo filho nasceu e foi baptizado em Lisboa,
na freguesia de São Sebastião da Pedreira, a 12 de Abril de 1787171, tendo sido «[t]omado no
foro de Moço-Fidalgo da Casa Real com mil reis de moradia por mês e um alqueire de cevada pró dia paga
segundo ordenança e é foro e moradia que pelo dito seu Pai lhe pertence» (Alvará de 12 de Maio de
1790)172. Como tal aparece, aliás, referido no Diccionario Aristocrático do Visconde de Sanches de
Baêna, tendo sido Cavaleiro da Ordem de Malta (antes de 1804) e morrido à frente da sua
companhia, o Regimento n.º 8 na Batalha do Bussaco, de 27 de Setembro de 1810. José de
Seabra ainda o tinha tentado mudar da infantaria para a cavalaria, conforme consta de carta
autógrafa que a 8 de Março do mesmo ano havia então dirigiu ao Visconde de Juromenha,
para que apresentasse o assunto ao Marechal [Beresford] mas sem sucesso.

165 TT, Habilitações para a Ordem de Cristo, Maço 1, dil. 3.


166 Códices de Dom Flamínio de Souza, BGUC, Rolo 1, fl. 54-v.
167 Assim identificada no seu próprio assento de matrimónio.
168 Assim identificada no assento de matrimónio de seu filho Alexandre de Sousa Freire.
169 Foram testemunhas do matrimónio José Furtado de Mendonça e Sebastião da Costa Côrte-Real
(MF 2154-1).
170 Teve ainda, fora do matrimónio, uma filha de seu nome D. Delfina Victorina de Seabra, mas não
temos por certo ser filha legítima de José de Seabra da Silva e de Dona Ana Felícia, pois não encontrámos o
respectivo assento de baptismo e no de casamento diz-se apenas que era “irmã do “Excelentíssimo Visconde
da Bahia”. Não sabemos quando nasceu, sendo certo que era viva em 1861, indicando as fontes que vivia em
Tomar. Casou em Lisboa (S. Sebastião da Pedreira), a 16 de Maio de 1811170, no oratório da casa de seu
irmão, onde aliás vivia, com José Mouzinho de Sousa Juzarte da Silveira, natural e baptizado na freguesia de
Nossa Senhora da Flora da Rosa (Crato), e filho de Gaspar Mousinho de Sousa Gumide da Silveira, e de D.
Francisca Doroteia Gomes de Brito, Administrador de um vínculo (Flor da Rosa, Crato). Do matrimónio
foram testemunhas o Conde de Rio Maior, cunhado do Visconde da Bahia, e o Tesoureiro da Igreja de S.
Sebastião da Pedreira, o Padre Domingos Manuel de Castro Araújo. Smn.
171 Foi baptizado, no oratório da casa de seu Pai com licença do Cardeal Patriarca eleito, por Fr. Manuel
Peixoto Portugal e foram seus padrinhos “o Ex.mo Arcebispo de Tessalónica, Confessor de Sua Magestade e Inquisidor
Geral, por seu Procurador o Ex.mo Manuel da Cunha de Menezes, e por Madrinha tocou com uma prenda de Nossa Senhora
da Luz, o Ex.mo Visconde de Anadia”. Assinou o assento o Prior José Bernardo do Amaral.
172 TT, Mordomia mor da Casa Real, Liv. 4, fl. 148.

42
43
Excertos da carta de José de Seabra da Silva a António de Lemos Pereira de Lacerda, que viria a ser o 1.º
Visconde de Juromenha, procurando, sem sucesso, convencer o Marechal Beresford a transferir o seu filho
António da infantaria para a cavalaria, durante a guerra contra os franceses em 1810

Premonitoriamente, por certo, pois, pouco depois, seu filho António morreria na Batalha
do Bussaco, morto pelos franceses. Era o seguinte o teor da participação da sua morte,
pelo tenente-coronel Douglas, comandante do 8.º Regimento português173, a seu Pai: «Il
sera de quelque satisfaction à la famille de mr. de Seabra da Silva de savoir que mr. Antonio Coutinho de
Seabra est mort dans l’exécution de son devoir à la tête de sa compagnie. L’ action était vive, et beaucoup

173 O tenente-coronel Douglas foi ferido nas operações – Adrião Pereira Forjaz de Sampaio, Memorias
do Bussaco seguidas de uma viagem á Serra da Louzan, 3.ª edição, Porto e Coimbra em Casa da Viuva Moré -
Editora, 1864, pág. 162, acessível em
http://books.google.pt/books?id=LXsYAAAAYAAJ&dq=douglas%20%20Portugal%20Bussaco&hl=pt-
PT&pg=PR3#v=onepage&q&f=false.

44
de braves gens sont allés à Dieu – A son excelence mr. de Seabra da Silva = Douglas, lieutenant coronel
du regiment d’ infantarie nº 8»174.

Por último, olhemos para o percurso da Família na etapa seguinte, através do filho
primogénito de José de Seabra da Silva. É preciso notar que, com ele, a Família de José
de Seabra da Silva deu outro salto qualitativo importante. Como vimos, a Família Seabra
começou por ser uma Família de pequenos lavradores e proprietários para, por
sucessivos acrescentamentos patrimoniais e académicos, ir subindo paulatina mas com
firmeza a escada social. Assim, com o Desembargador e Doutor Lucas de Seabra da Silva,
esta gente passou à nobreza civil e, por vias das letras175, uma das principais vias
nobilitantes ainda, a integrar a classe da nobreza hereditária do Reino. Tratava-se, no
entanto, de uma Família olhada pela velha nobreza palaciana e de Corte, que se orgulhava
de raízes profundas na dinastia de Aviz e que suscitava um profundo desprezo – mas em
todas as épocas isso acontece – por parte da antiga nobreza, que se gloriava de recuar até
ao Africano (Dom Afonso V -1439-1481), como dá nota assertiva o Marquês de Alorna e
se pode ler num texto recentemente publicado176.

174 António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Breve Traços Biographicos do Ultimo Senhor da Casa da
Bahia, Lisboa, Tip. Mattos Moreira, 1889, pág. 77.
175 Como recorda o prof. António Manuel Hespanha, in «Os poderes, os modelos e os instrumentos de
controlo – Os modelos normativos. Os paradigmas literários», in História da Vida Privada em Portugal – A Idade
Moderna, cit., pág. 67, «no plano das distinções sociais, a ciência produz a nobreza. Ao tratar das fontes, a
nobreza política, um dos mais interessantes (embora dos menos utilizados hoje) tratadistas portugueses desta
época, João de Carvalho, enumera, naturalmente a ciência (ao lado da milícia, do ofício e do privilégio). Trata-
se da ciência em geral. Mas logo uma das primeiras citações localiza mais as coisas – “meritum scientiae Juris
civilis ipso jure redit peritum nobilissium”. Assim, a ciência do direito nobilitava os juristas, sem mais e ao mais alto
grau, tornando-os credores de todas as honras por parte dos príncipes (…). Nobreza escalonada, decerto. No
primeiro grau, os doutores aprovados na universidade, para o que se encontrava disposição expressa no
direito português e castelhano. Acima destes, ainda, os lentes há mais de vinte anos, decorados, mas apenas
pelo direito comum, com a dignidade condal (…). Depois, os licenciados, que gozavam, pelo menos, de
alguns dos privilégios da nobreza (privilegia favorabilia, mas não dos odiosa, i.e., de que podiam resulta ofensa de
direitos de outrem) (…). Já quanto aos bacharéis em geral, duvidava-se da sua nobreza (…); mas se fossem
advogados, esta dúvida desaparecia, pois exerciam um ofício nobre (…) que enquanto tal conferia nobreza».
Nobreza política ou nobreza civil, entenda-se, i.e. não hereditária. «Do mesmo modo, os advogados não
letrados, “rábulas”, vulgarmente chamados “procuradores do número” (…), não gozariam de qualquer
nobreza, nem o seu ofício se deveria considerar nobre, antes vil e ínfimo. De entre os advogados, a maior
honria ia para os da corte e do fisco; mas todos eles gozavam de privilégios da nobreza, semelhantes aos dos
doutores» (idem, in «Os poderes, os modelos e os instrumentos de controlo – Os modelos normativos. Os
paradigmas literários», cit., pág. 67).
176 Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, Tribuna da História, 2008, pp.89-
93.

45
Iconografia do filho primogénito de José de Seabra da Silva, Manuel Maria Coutinho Pereira de Seabra e
Sousa, apresentado como 1.º Visconde da Bahia, de juro e herdade (dir.), e como Conde da Bahia (esq.),
177
Ajudante às Ordens do Rei D. Miguel I, durante a guerra civil

O filho primogénito de José de Seabra, baptizado como Manuel mas que usava o
nome de Manuel Maria da Piedade Coutinho Pereira de Seabra e Souza Tavares Horta
Amado Cerveira e Távora (ou Manuel Maria Coutinho Pereira de Seabra e Sousa178), nasceu
e foi baptizado em Lisboa (S. Sebastião da Pedreira), a 26 de Outubro de 1785179, tendo
morrido em Santarém, a 24 de Outubro de 1833, julgamos que em operações militares ao
serviço do Rei Dom Miguel I.

Excerto do assento de baptismo do 1.º Visconde da Bahia

177 Quadros ilustrativos do 1.º Visconde e Conde da Bahia – Colecção particular.


178 Assim aparece no seu assento de matrimónio.
179 TT, Registos Paroquiais de S. Sebastião da Pedreira, Baptismos, Liv. , fl. 295-295v. Foi baptizado «na Ermida
das Casas do Excelentíssimo José de Seabra da Silva, sita no destrito desta freguesia de S. Sebastião da Pedreira, Frei Manuel
Peixoto, com licença do Eminentísimo Senhor Cardeal Patriarca, baptizou (…)». Foi padrinho o Marquês de Castelo
Melhor tendo tocado o Avô Nicolau e por madrinha «invocaram a Virgem Nossa Senhora da Piedade».

46
«Tomado no foro de Moço-Fidalgo da Casa Real com mil reis de moradia por mês e um alqueire
de cevada pró dia paga segundo ordenança e é foro e moradia que pelo dito seu Pai lhe pertence» (Alvará
de 12 de Maio de 1790) 180. Foi o 1.º Visconde da Bahia (de juro e herdade, com duas vidas
fora da Lei Mental – Decreto da Rainha D. Maria I de 16 de Junho de 1796181), obtendo
depois o aposentamento correspondente ao título (Carta de 5 de Julho de 1796)182. foi mais
tarde feito 1.º Conde da Bahia pelo Rei D. Miguel I, no mesmo mês em que morreu
(Decreto do Rei D. Miguel I, 2 de Outubro de 1833)183.
Cavaleiro da Ordem de Cristo, de que teve o Hábito (Carta de profissão, de 23 de
Junho de 1796)184. Comendador de N.ª Sr.ª da Conceição de Vila Viçosa (Carta de 12 de
Dezembro de 1825)185. Comendador de St.ª Maria de Torre Deita da Ordem de Cristo no
Bispado de Viseu, em duas vidas, «além de outras [razões], em memória do seu Avô primeiro
donatário [da Capitania da Bahia-de-Todos-os Santos] a quem representa» (Alvará de 21 de
Junho de 1796186, na sequência de Despacho régio de 13 de Maio de 1796)187, e de duas
vidas na Comenda de São Miguel de Oliveira de Azeméis (Alvará de 21 de Junho de
1796)188. Participou nas Cortes de 1828 que aclamaram Dom Miguel I no Braço da
Nobreza, nos termos da relação que se junta:

180 TT, Mordomia mor da Casa Real, Liv. 4, fl. 148.


181 TT, Registo geral das mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 276v-277v.; TT, Chancelaria de D. Maria I, Liv. 42,
fl. 77v.-79.
182 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.18, fl.282.
183 Em www.geneall.pt é indicada a data de 3 de Setembro de 1833. Ainda não encontrámos o decreto
e a carta respectiva. São as seguintes as armas dos Condes da Bahia: «Escudo cortado, tendo o campo superior
novamente cortado: 1.º, de Coutinhos, e 2.º partido – 1, de Pereiras, e II, de Hortas; e o inferior partido, sendo a 1.ª partição
(correspondente ao 3.º quartel dum esquartelado) cortada – 1, de Seabras, e II, de Sousas (do Prado), e a 2ª (correspondente ao
4.º quartel) cortada – 1, de Amados e II, de Cerveiras. Elmo aberto, gradeado, posto de perfila e encimado por uma coroa de
Conde. Timbre: dos Coutinhos. Suportes: dois leões» – TV: 1950: II: 74.
184 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 28, fl.58.
185 TT, Registo Geral de Mercês de D. João VI, Liv. 21, fl.87. Segundo a Gazeta de Lisboa, n.º 180, de 1 de
Agosto de 1818, foi feito Comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição por Despacho régio de 13
de Maio de 1818, dia de aniversário do Rei Dom João VI, juntamente com, entre outros, o Marquês de
Torres Novas, o Marquês de Valada, o Conde dos Arcos, o Conde de Parati ou o Ministro Plenipotenciário
José Correia da Serra.
186 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.28, fl.99v.
187 TT, Registo geral das mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 277v.
188 Que seu Pai já tinha em duas vidas. Mas o Alvará determina uma vida mais, cumprindo o Visconde
da Bahia a primeira vida – TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.18, fl.277v.

47
Gazeta de Lisboa: Relação dos representantes pelos Braços do Clero e da Nobreza nas Cortes de 1828
que aclamaram Dom Miguel I, incluindo, entre outros, o Visconde da Bahia (por si e como procurador de
vários titulares)

12.º Senhor do Morgado da Redízima da Bahia, 20.º morgado de S. João da Ribeira


(Santarém), 4.º morgado de Lobão e de Fail, 8.º morgado de Figueiró dos Vinhos, 9.º

48
senhor do morgado dos Coutinhos de Coimbra e senhor do morgado dos Hortas, em
Setúbal.

Relatório do Conde de S. Lourenço, Comandante em Chefe do Exército em Operações, publicado


na Gazeta de Lisboa de 13 de Abril de 1833, referindo o Visconde da Bahia pai, Ajudante às Ordens do Rei, e o
Visconde da Bahia filho, Cadete do 1.º Regimento de Cavalaria de Lisboa

Capitão de Cavalaria do Exército, condecorado com a medalha das 3 campanhas da


Guerra Peninsular, foi Oficial do Exército do Rei D. Miguel e seu Ajudante de Ordens, etc.
Sucedeu na opulenta Casa de seus Pais e na Administração da Casa de sua mulher. Esteve
no Rio de Janeiro em 1818189. Deve dizer-se que, no decreto de criação do viscondado da
Bahia, D. Maria II expressamente o fundamentava, igualmente, nos «serviços e trabalhos de (...)
José de Seabra da Silva, ministro e secretário de estado dos negócios do reino».

189 Aí chegou a 20.4.1818, no navio Canoa, estando com a Corte, tendo escrito a sua mulher a 24 do
mesmo mês, carta cuja cópia possuímos. Na mesma altura, com ele estavam o Conde de Rio Maior, os
Condes da Ponte e Família, e os Viscondes de Santarém.

49
Outro excerto da Carta de Visconde da Bahia, onde a Rainha se refere aos serviços de José de Seabra da Silva
e à “representação” pelo seu filho do 1.º Capitão Donatário da Bahia de Todos os Santos

Como já vimos, a Casa Bahia tinha bons rendimentos e vários vínculos190. Quanto
aos rendimentos, podemos dizer que, no ano de 1829, os rendimentos previsíveis, só em
rendas, eram superiores a 10:049$820 reis, sendo que os rendimentos mais significativos
provinham de Coimbra (4000$000 reis). Em 1830 e 1831, a Casa estava sob administração,
porventura devido à situação de guerra e ao serviço que o Visconde da Bahia prestava, que
o impedia de estar à frente da Administração da sua Casa. Disso são exemplos dois
anúncios publicados na Gazeta de Lisboa de 1830 (páginas 710 e 1108).

190 Quanto a estes, vide em anexo, no fim do presente título, a cópia do esquema que, ainda no séc.
XIX, foi publicado por António Coutinho Pereira de Seabra e Sousa.

50
Gazeta de Lisboa, de 27 de Julho de 1830 e de 18 de Novembro de 1830, página 1108

O Conde da Bahia deu a sua vida pela causa legitimista, sendo a sua acção ainda
louvada no Relatório de operações que o General Galvão Mexia apresentou a 31 de
Outubro de 1833, como foi publicado, pelos liberais, em termos que aqui se recordam:

Excertos da Ordem do Dia do Exército legitimista, de 26 de Outubro de 1833, publicada na Chronica


Constitucional de Lisboa, n.º 115, de 6 de Dezembro de 1833, pp. 641-643, referindo o Conde da Bahia

51
Assento de matrimónio do 1.º Visconde da Bahia com D. Ana Isabel de Saldanha de Oliveira (Rio Maior, dos
Morgados de Oliveira) (1803)

Como se verá, ao subir à titulatura, e logo de juro e herdade, a Família de José de


Seabra deu outro salto para o nível mais elevado, em termos formais, da nobreza
hereditária portuguesa. Mas, culminando o processo, José de Seabra da Silva logrou que
seu filho transpusesse o último reduto, ao ligar-se matrimonialmente a uma das mais
antigas e notáveis Famílias portuguesas, os “Saldanha de Oliveira e Sousa”, Família ilustre
na varonia Saldanha por actos notáveis na guerra desde o famoso António de Saldanha, o
da Aguada191, no início do século XVI, mas que sucedia em vários dos mais importantes e
rendosos vínculos portugueses, como o morgadio de Oliveira, cujo poder económico e

191 António de Saldanha, o da Aguada, foi Comendador de Casével na Ordem de Cristo, Capitão de
Sofala (1505), passou à Índia por cinco vezes (a partir de 1503). Capitão-mor das naus de carreira (1521 e
General da Armada que D. João III enviou em auxílio do Imperador Carlos V, contra Tunes, ocupada pelo
corsário Barbaroxa: por, no dizer do cronista de D. João III (Andrada), a sua «nobreza, esforço & pratica & e
experiencia nas cousas da guerra, pollos muytos seruiços que fez a ElRey &e a este Reyno nas partes da India, se podia
seguramente fiar a honra & e credito deste reyno num negocio taõ pubrico & de tanta importancia». Morreu com 78 anos,
em 1553. Dele dizia um poeta: ««Antonio invicto, que rasgando os mares,/«Só com o seu nome espanta/«Arabes, Persas,
Rumes, Malabares.../«Oh quantas vezes, trovejando horrendo,/«Neptuno ao vello, de temor cortado,/«No fundo se escondeo no
mar salgado!». Casou três vezes, a última das quais com Joana de Mendonça, filha legítima de Aires de Sousa,
de varonia real, e de sua mulher D. Violante de Mendonça, descendendo deste casal esta Família.

52
antiguidade era tão notável que basta dizer que, quando Dom João II mandou o seu filho
natural o Senhor Dom Jorge para a Corte, para ser educado junto a seu irmão o Príncipe
Dom João, após a morte da Princesa D. Joana (Santa Joana, Princesa), «forão ao Paço, em
que ElRey então estava naquella Cidade, e erão as casas de João Mendes de Oliveira, Morgado de
Oliveira», como nos diz Dom António Caetano de Souza, na sua monumental História
Genealógica da Casa Real Portuguesa.192

192 De igual modo, também não foi por acaso que o Marquês de Pombal quis casar uma das suas três
filhas com o morgado de Oliveira – assim o conta nas suas Memórias o Cardeal Patriarca Dom José de Mendoça:
«Seguiu-se o cazamento da terceira filha, com o Morgado de Oliveira. Fidalgo illustrissimo, que se achava
despachado, por ter seu Pay falecido sem Mercê dos bens de Coroa e ordens, que logo obteve com
importantes cahidos, e muitas vantagens para a sua Caza, com a Chavee da Camara do Infante D. Pedro (…)»
(in D. Filipe Folque de Mendóça, op.cit., pág. 215).

53
Excertos da carta enviada pelo 1.º Conde de Rio Maior a D. Ana Felícia Coutinho, mulher de José de Seabra
da Silva, relativamente ao ajuste do matrimónio de sua filha D. Ana Isabel com o 1.º Visconde da Bahia

Assim, numa altura em que José de Seabra da Silva estava desterrado da Corte por
se ter oposto à assunção da regência pelo Príncipe Dom João sem recurso às Cortes
Gerais, o seu filho casou, na freguesia de São José, em Lisboa, a 8 de Setembro de
1803193, com D. Ana Isabel Zeferina Antónia Domingas Vicência de Saldanha de
Oliveira194 e Daun, que havia nascido em Lisboa a 26 de Agosto de 1783 e
baptizada na freguesia de S. José a 3 de Setembro de 1783195 (morreu em 24 de

193 Foram testemunhas «o Ex.mo António Coutinho Seabra Sousa, Cavalheiro recebido na Sagrada Religião de
Malta, e o Ex.m Lucas de Seabra da Silva, do Conselho de S.A.R. o Príncipe Regente Nosso Senhor, Seu Desembargador do
Paço e Chanceler da Casa da Suplicação». O seu Pai estava então proscrito na Quinta do Canal e não assistiu ao
matrimónio (TT, Registos Paroquiais de Lisboa, S. José, Liv. 13-C, fl. 174v.).
194 Assim aparece nomeada no seu assento de matrimónio.
195 Os nomes próprios constam todos do assento de baptismo – TT, Livro de Baptismos de S. José, fl. 6.

54
Março de 1853)196, filha de João Vicente de Saldanha de Oliveira e Sousa Juzarte
Figueira 16.º Morgado de Oliveira e depois 1.º Conde de Rio Maior – que nasceu a
22 de Maio de 1746, tendo sido baptizado em Lisboa, na paróquia da Encarnação, a
29 de Maio do mesmo ano197 e morreu a 26 de Janeiro de 1804, com 57 anos;
Moço-Fidalgo com Exercício no Paço, logo acrescentado a Fidalgo Escudeiro
(Alvarás de 18.4.1771198 e de 27.4.1771); 1.º Conde de Rio Maior, por ocasião do
baptismo do Rei Dom Miguel (Decreto de 19 de Novembro de 1802, publicitado
na Gazeta de Lisboa de 30 de Novembro, e Carta de 8 de Janeiro de 1803199); 16.º
senhor do Morgado de Oliveira e do Val de Sobrados200 e Senhor do morgado de
Barcarena, da Quinta da Azinhaga, «do Conselho de Estado, Grã-Cruz da Ordem de
Cristo, Gentil-Homem da Câmara de S.A.R. o Príncipe Regente Nosso Senhor e Inspector Geral
do Terreiro de Lisboa»201; Cavaleiro professo na Ordem de Cristo, de que teve carta de
hábito e alvarás de Cavaleiro e de profissão a 2 de Junho de 1769202; sucessor de seu
Pai e Avós nas Comendas de Santa Maria da Torre, da Prelazia de Tomar, por nova
mercê régia, por se ter extinguido «a última vida que tinha a sua Casa na Comenda
de Santa Maria da Torre, na Prelazia de Tomar da Ordem de Cristo» (mercê de 4 de
Junho de 1769203; teve depois carta régia de 2.10.1770204; passando exactamente o
mesmo com as Comendas de S. Martinho de Santarém (carta de 4 de Junho de
1769205; Carta de 2.10.1770206) e de Santa Maria de África (4 de Junho de 1769; carta
de 2 de Outubro de 1770207), todas da Ordem de Cristo; tença de 100$000 reis num
dos almoxarifados do Reino e uma vida mais (?) na dita tença (Portaria de 3.7.1788
e Carta de Padrão de 31.7.1788208); teve depois 500$000 reis de tença com uma vida
mais na dita tença (Portaria de 25.2.1790209); o mesmo ano, em Novembro, teve
mercê da Comenda de S. Salvador de Fornelos no Arcebispado de Braga (Alvarás
de 13.11.1790210 e de 12.3.1791), obtendo ainda mercê de uma vida nas três
comendas de que teve mercê (Alvará de 13.11.1790211); em 1793, teve o título de
Conselho (Carta de 11.1.1793212); em 1795, obteve mercê da Comenda de S.
Salvador de Maiorca na Ordem de Cristo, no Bispado de Coimbra, em substituição
da de S. Salvador de Fornelos (Alvará de 21.4.1795213 e Cartas de 2.3.1796 e de
11.4.1796214); Grã-Cruz da Ordem de Cristo, Deputado da Junta Provisória do
196 Encontra-se no jazigo dos Condes da Bahia, no Cemitério dos Prazeres – Ruy Dique Travassos Valdez,
Subsídios para a Heráldica Tumular Moderna Olisiponense, 2.ª ed., Porto, 1994 (1.ª ed.: 1950), vol. II, pág. 74.
197 Foram padrinhos cremos que seu Avô D. Luís José de Portugal e D. Maria Inês de Saldanha, por
seu procurador o Conde de Castelo Melhor, D. José de Vasconcelos.
198 TT, Registo Geral de Mercês de D. José I, Liv. 24, f. 318.
199 Luís Moreira de Sá e Costa, S.J., Descendência dos 1.os Marqueses de Pombal, cit., pág. 191.
200 Uma listagem dos foros que pertencem aos morgados de Oliveira e Vale de Sobrados em 1811
consta do Arquivo da Casa Rio Maior, na Torre do Tombo (Maço 47: doc. 10).
201 Assim aparece nomeado no assento de matrimónio de sua filha D. Maria Ana Isabel.
202 TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 292, fls. 215-216v.
203 TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 292, fl. 239-240v., invocando João de Saldanha Oliveira e
Sousa em favor de nova mercê «as grandes ruínas que o terramoto do primeiro de Novembro de 1755 causou
na sua Casa e dos encargos que nela ficaram não poderia conservar a sua Casa com a conveniente decência.».
A comenda havia vagado por morte de seu Pai, que era nela comendador.
204 TT, Registo Geral de Mercês de D. José I, Liv. 22, f. 386.
205 TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 292, fl. 240v.-241.
206 TT, Registo Geral de Mercês de D. José I, Liv. 22, f. 384.
207 TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 292, fl. 241-242.
208 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.23, f. 339.
209 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.23, f. 341v.
210 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.23, f. 342.
211 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.23, f. 342.
212 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.22, f. 111v.
213 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.27, f. 346v.
214 TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv.19, f. 358.

55
Erário Régio e Inspector-Geral do Terreiro Público (após o falecimento do anterior
titular, o Conde de Valadares, a 17.11.1792) – e de sua mulher, com quem se
matrimoniou em Lisboa, na freguesia da Ajuda, a 10 de Setembro de 1769215, D.
Maria Amália de Carvalho e Daun, n. Lisboa (Ajuda), a 15.8.1756 e f. 16.9.1812,
filha legítima de Sebastião José de Carvalho e Melo, 1.º Conde de Oeiras e 1.º
Marquês de Pombal, etc. e de sua segunda mulher D. Leonor Ernestina Eva
Volfanga Josefa von und zu Daun auf Sassenheim und Callaborn216, Condessa de
Daun. 217 Os 1.os Viscondes da Bahia foram pais de onze filhos, cinco rapazes e seis
raparigas.

Assinatura de João de Saldanha e Oliveira e Sousa, morgado de Oliveira,


no assento de matrimónio de D. Diogo de Mendonça Côrte-Real com D. Maria Bernardina de Sousa Tavares
(1796)

Notícia do matrimónio na Gazeta de Lisboa, n.º 37, de 17 de Setembro de 1803

Conclusões sobre a evolução do estatuto social da Família de José de Seabra da


Silva

A evolução social da Família Seabra é paradigmática da forma e vias tradicionais da


ascensão social na sociedade portuguesa do Antigo Regime. Começando por ser uma
família do povo (geração de Domingos de Seabra), passa na geração seguinte a viver “à
lei da Nobreza”, situação que significava antes do mais uma emulação do modo de vida
das classes ou grupos sociais superiores, mas que não significava qualquer
reconhecimento jurídico de uma ascensão social mas, quando muito, o reconhecimento

215 Foram testemunhas o Conde da Ponte e D. José de Portugal.


216 Marquês de São Paio, O Tenente-General 1.º Marquês de São Payo (1762-1841), Academia Portuguesa de
História, Lisboa, 1958, pág. 11-12 (informação que agradecemos ao Dr. Miguel Nuno de Saldanha Melo e
Alvim).
217 LMSC: 1937: 191, 240, 169, 353, 372, 389, 422, 5, 224, 192 e 171 e 193.

56
fáctico de uma ascensão económica e, se social, apenas em regra no contexto local
(geração de Gregório da Silva). Na terceira geração, dá-se o primeiro salto qualitativo. Ao
formar-se em Coimbra, seguir os lugares de letras e ingressar na magistratura, Lucas de
Seabra da Silva passa a integrar a nobreza civil ou, de modo muito claro, o “estado do
meio” de que se falava218, mas acederia ele próprio ao nível seguinte da nobreza política
do Estado, o da nobreza hereditária ou natural, através, em particular, da sua
incorporação como fidalgo do livro, como depreciativamente chamavam alguns (livros estes
– livros de matrículas de moradores da casa real, ou mordomia-mor – nos quais, contudo,
todos faziam, até ao liberalismo, questão em estar). É certo que as categorias, apesar de
alguma fluidez, conheciam aqui uma separação conceitual clara, mesmo dentro da
geralmente chamada “nobreza”, separação esta entre a nobreza civil (conceito jurídico
extinto com o sistema constitucional) e a nobreza hereditária (conceito que o sistema
constitucional, no século XIX, veio a manter com o conteúdo puramente honorífico219 e
que a República extinguiu).

218 Sobre o ponto, Nuno Gonçalo Monteiro, «Poder Senhorial, Estatuto Nobiliárquico e Aristocracia»,
História de Portugal – O Antigo Regime, cit., pp. 298-299, que fala no «conceito de “nobreza civil ou política” (por
oposição a nobreza natural), já perfeitamente incorporado na literatura jurídica, e não só, do século XVII./A
adopção deste conceito não deixou de deparar com resistências, desde logo no plano dos princípios. (…) A
prazo, porém, aquele conceito acabará paulatinamente por se impor na prática de muitas instituições,
contribuindo não apenas para a distinção entre nobreza e fidalguia (mais restrita), mas ainda para a efectiva
“banalização” das fronteiras da nobreza portuguesa, tornadas das mais difusas da Europa». Como mais
recentemente sintetizava Francisco de Vasconcelos: «Quanto a Portugal, podemos configurar o universo
(mais ou menos) nobiliárquico antes do Liberalismo como bastante vasto e abrangendo dois círculos, o
primeiro dos quais englobava todos os que tinham alguns privilégios da nobreza ou eram nobres a título
pessoal, como os “privilegiados” da nobreza civil ou da “simples nobreza”, por vezes também chamada
“estado do meio”, e da qual faziam para os oficiais do exército, doutores, advogados, desembargadores,
professores régios, negociantes matriculados na Junta do Comércio, cavaleiros e escudeiros./Todos estes, e
ainda os que “viviam à lei da nobreza” constituíam aquilo a que em Espanha se chamava a “nobreza de posse
de estado” e em França a nobreza pessoal, que assentava nos cargos ou modo de vida e só durava enquanto
eles se mantivessem» (Francisco de Vasconcelos, A nobreza do Século XIX em Portugal, cit., pp. 26-27).
219 O conhecido e notável livrinho de Philippe du Puy de Clinchamps chama à nobreza do século XIX
a “nobreza decorativa” (La noblesse, Que Sais-Je?, Puf, Paris, 1959, pág. 73), por contraposição à “vraie
noblesse” du Ancién Regime (cit., pág. 7).

57
Vínculos da Casa Bahia no séc. XIX, pelo lado Seabra da Silva,
“pois não há fidalguia sem comedoria, dizia o povo”!

Assim, de um lado estava a chamada nobreza civil, que era uma nobreza
essencialmente meritocrática e baseada – e portanto, no limite do meu tempo, sem
exaustividade – na detenção de qualificações académicas (os letrados e a conhecida
nobreza de toga), no desempenho de determinadas funções régias ou até junto das
instituições políticas (por exemplo, certos ofícios camarários, como vereadores,
almotaçés, etc., alguns até hereditários220), religiosas (a presença nas mesas das
misericóridas como “membros nobres” ou como “membros honrados”), militares ou até
na obtenção de determinadas honrarias (como os Hábitos das Ordens religiosas de cariz
militar, como as Ordens de Cristo, Aviz e Sant’iago). Esta nobreza tinha uma significativa
ascendência social e fáctica na sociedade e um grande prestígio pessoal e político (basta
recordar que, nos períodos em que se realizaram cortes gerais em Portugal – o que não
foi o caso da época em que viveu José de Seabra da Silva e, de todo, a época sobre a qual
aqui se escreve – os Conselheiros de Estado efectivos e os Desembargadores integravam
o braço da nobreza). Integravam esta categoria, por definição, os Bacharéis, os Lentes da
Universidade portuguesa e os altos comandos militares (Dona Maria I veio mesmo a
estabelecer que a mera promoção ao posto de General dava direito a requerer um foro
grande da Casa Real e assim ingressar na nobreza hereditária, bastando requerê-lo... mas
era necessário que se requeresse).
Mas do outro lado estava a nobreza hereditária, a qual, por seu turno, se distinguia
em três grandes níveis, do ponto de vista legal221, que os Autores depois classificam de

220 Sobre estes cargos e a mobilidade social inerente, v. Nuno Gonçalo Monteiro, «Elites locais e
mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime», in Análise Social, Vol. XXXIII (141), 1997, 2.º,
pp. 335-368; António Manuel Hespanha, A Mobilidade Social na Sociedade do Antigo Regime, 2006 (disponível em
http://www.scielo.br/pdf/tem/v11n21/v11n21a09.pdf).
221 Já a concluir este trabalho topámos com o recentíssimo artigo do prof. António Manuel Hespanha,
A Nobreza dos Tratados Jurídicos dos Seculos XVI a XVIII, que pode ser consultado em
https://sites.google.com/site/antoniomanuelhespanha/home/textos-selecionados.

58
forma diversa e com mui diverso aparato e categorias, tentando navegar na
indeterminação formal da legislação avulsa ou sistemática que foi sendo produzida desde
pelo menos o século XVI, com o novo regimento dado em 3 de Janeiro de 1572 pelo Rei
Dom Sebastião. No seu topo estavam os titulares (onde ascendeu o filho de José de
Seabra) e, creio, também os alcaides mores e os senhores de terras com jurisdição. Deve
dizer-se que, embora as Alcaidarias mores e os Senhorios de terras com jurisdição fossem
em geral hereditários (ainda que sujeitos, porventura a confirmação régia), já os títulos
distinguiam-se entre títulos em vida (onde se integravam quase todos ou, pelo menos,
mais de 90%222) e a categoria excepcional dos títulos de juro e herdade, que contou sempre
pouquíssimos exemplos nos 767 anos (1143-1910) da monarquia portuguesa (sendo que
um deles foi justamente o concedido ao filho de José de Seabra da Silva). Num segundo
nível estavam os Fidalgos, que na sua classificação mais simples se dividiam pelos seus
“Foros”223 entre (i) Moços-Fidalgos (o grau menor mas o mais apetecido, pois podiam ter
“exercício no Paço”, junto ao Rei, com os benefícios porventura daí inerentes – como
vimos, era o foro que se dava aos filhos dos Desembargadores, que José de Seabra teve)
(ii) os Fidalgos Escudeiros224 e, no topo deste segundo nível (iii) os Fidalgos Cavaleiros (o
chamado “foro grande”, que a Família Seabra da Silva teve, na pessoa do Desembargador
Lucas de Seabra da Silva, pai de José de Seabra, e que se transmitia aos filhos e netos
paternos por via legítima sem necessidade de qualquer consulta ao Rei, por mero
requerimento junto do Mordomo-Mor, instruído com a documentação comprovativa)225.
No contexto da sociedade política do Antigo Regime, como escrevia o Dr. Luís da Silva
Pereira Oliveira, na conhecida Obra Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, “as pessoas
condecoradas com estes Foros constituem a principal Nobreza depois dos títulos”226, e,
como recordou recentemente a Mestra Maria Inês Versos, só aos filhados na “primeira
classe” da nobreza (com um dos chamados “foros grandes”), «subdividida numa
hierarquia que se iniciava com o foro de moço fidalgo, seguindo-se fidalgo escudeiro e
fidalgo cavaleiro, se reconhecia verdadeiramente o estatuto de fidalgo»227.

222 Francisco de Vasconcelos, A nobreza do século XIX em Portugal, diss. Mestrado, Centro de Estudos de
Genealogia, Heráldica e História da Família da Universidade Moderna do Porto, 2003, pág. 18.
223 Vide Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Mordomia-mor da Casa Real – Foros e Ofícios 1755/1910, Tomo I,
pp. 56-63.
224 Em que eram em regra acrescentados os Moços-Fidalgos, aos 14 anos - Nuno Gonçalo Pereira
Borrego, Mordomia-mor da Casa Real – Foros e Ofícios 1755/1910, Tomo I, pág. 58.
225 Entre os fidalgos, havia ainda distinções em função da moradia que tinham, ordinária (a de Fidalgo
Cavaleiro era de 1600 reis por mês e um alqueire de cevada por dia, mas podia ir a 7250 réis, no caso de
Fidalgos de grande qualidade, como eram o Duque Mordomo-Mor ou os Marqueses de Ferreira, entre
outros; a de Moço-Fidalgo era de 1000 réis e a de Fidalgo Escudeiro era de 1250 réis) ou acrescentada (Nuno
Gonçalo Pereira Borrego, Mordomia-mor da Casa Real, cit., pp. 60-62), e, claro, da sua antiguidade. Não se diga
que a moradia era coisa despicienda, conquanto a partir de meados do século XVI deixasse de ser cobrada, a
não ser pelos fidalgos que prestassem serviço na Corte. Assim, Ferreira de Vera (apud D. Luís da Costa de
Sousa de Macedo, «Apresentação», em Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Mordomia-mor da Casa Real – Foros e
Ofícios 1755/1910, Tomo I, pág. 15, afirmava que «entre os mais aventajados he grande ventaje na honra ter mais real de
foro», acrescentando que “He tanto assim, que Fernão de Magalhães…por se lhe não querer acrescentar hum tostão mais em
sua moradia…se agravou de tal maneira que se passou para o Imperador Carlos V»….
226 Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, offerecidos ao Excellentissimo Senhor Marquez de Abrantes, D. Pedro
de Lencastre Silveira Castello Branco Vasconcellos Valente Barreto de Menezes Sá e Almeida pelo seu Author Luiz da Silva
Pereira Oliveira Cavaleiro Professo na Ordem de Christo Corregedor da Comarca de Miranda do Douro, natural de Fontellas e
Socio da Real Academia das Sciencias de Lisboa¸1806, pág. 231, que se pode consultar em.
http://books.google.com/books?id=1_dHAAAAMAAJ&pg=PA44&dq=privil%C3%A9gios+da+nobreza&
hl=pt-PT.
227 E daí que as provas da Ordem de Malta, a partir do séc. XVII e até ao século XIX, exigissem prova
por documento autêntico dos “foros grandes” dos 4 avós, como também dá conta a mesma Maria Inês
Versos, Os Cavaleiros da Ordem de S. João de Malta em Portugal de Finais do Antigo Regime ao Liberalismo, Dissertação
de Mestrado em Sociologia e Economia Históricas, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, 2003, policopiado, pp. 221-223, 232-239 e 253, seguindo aqui também o

59
E, finalmente, num terceiro nível, que consoante as perspectivas estava dentro ou
fora da categoria dos “Fidalgos”, estavam, por ordem crescente, os (i) Escudeiros228, (ii)
os Cavaleiros d’El-Rey e os Cavaleiros confirmados229, os (iii) Moços da Câmara, os (iv)
Escudeiros-Fidalgos e (v) os Cavaleiros-Fidalgos. Fora desta hierarquia mas também
integrando a nobreza hereditária estavam também os titulares (ou sucessores por varonia
legítima) de uma Carta de Brasão d’Armas (de que há vários tipos, mas de que aqui não
tratamos). O que conferia à nobreza um leque muito variado de posições no concerto
social e na posição relativa de cada um dentro dos estratos superiores da sociedade. À
qualificação dos membros deste nível era só aparentemente equívoca, pelo menos quanto
ao estatuto de fidalguia, pois que quanto à sua integração na nobreza hereditária julgamos
não haver dúvidas sérias.
Claro que, ao contrário do preconceito que depois se instalou e como o percurso da
Família Seabra demonstra, as diversas classes ou grupos sociais eram relativamente
abertos230, isto é, uma pessoa podia aceder de um estrato social a outro mais elevado231. É

mesmo Luís da Silva Pereira Oliveira, Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, cit., pp. 221-222, onde dizia:
que «deu ele [o Rei Dom Sebastião] Regimento ao Mordomo Mor, datado de três de Janeiro de 1572, e nele
ordenou que os Cavaleiros Fidalgos fossem em diante nomeados Fidalgos Cavaleiros, e que os Escudeiros
Fidalgos passassem à denominação de Fidalgos Escudeiros; e não havendo nisto mais diferença que a de
antepor o vocábulo Fidalgo ao de Cavaleiro, ou de Escudeiro, há contudo hoje uma notável distinção e
desigualdade entre uns e outros, e vem a ser: que o Fidalgo Escudeiro, ou Cavaleiro, é verdadeiro Fidalgo, e o Escudeiro,
ou Cavaleiro Fidalgo não o é e// e fica diferindo tanto um do outro, como o ouro do dourado» (itálico do próprio Autor,
que cita “palavras de Moraes de Execut. Liv. 44.c.8. n. 68. V. Ferreir. Supr. pag. 39”).
228 A categoria dos Escudeiros integra na nossa opinião a nobreza hereditária, mas começou a perder
peso a partir do séc. XV, principalmente a partir de D. Afonso V, que, no dizer de Pascoal de Melo, «quis que
se chamassem nobres principalmente aqueles que ele mesmo inscreveu num livro de nobres especiais, os quais se chamam
propriamente fidalgos», em categorias que D. João III e D. Sebastião desenvolveram e reformaram. No entanto, é
certo que o estatuto de “Escudeiro da Casa” era um inequívoco signo de pertença à nobreza hereditária. A
perda de peso, porventura, levou a que alguns Autores já pusessem em dúvida a sua pertença à nobreza, nos
séculos de XVI e XVII (assim, Armando de Castro, A estrutura Dominial Portuguesas dos séculos XVI a XIX
(1834), Lisboa, Caminho, 1992, pág. 26, apud Maria Margarida de Sá Nogueira Lalanda, A sociedade micaelense
no século XVII (Estruturas e comportamentos), FCG, 2002, pág. 275, nota 190). Na época de José de Seabra da
Silva, de qualquer forma, este foro tinha caído praticamente em desuso.
229 Tal como o Escudeiro, também o estatuto de Cavaleiro se enquadrava na nobreza hereditária, na época
a que nos referimos. As Ordenações, no seu Livro Segundo (Título XXXVIII), impunham que o gozo dos
privilégios de Cavaleiros dependia do preenchimento cumulativo de vários requisitos: (i) o ter sido feito
Cavaleiro pelo Rei ou por um dos Capitães do Rei em África (os governadores das praças militares africanas;
também na Índia, mas com algumas especificidades) e possuir o respectivo alvará «de como os fizeram Cavaleiros
por seus merecimentos e posto que tenham cavalos e armas»; (ii) No caso de ter sido feito Cavaleiro por um Capitão de
África, ser titular de «Carta de Confirmação Nossa [entenda-se, régia], assinada por Nós e asselado do Nosso Selo
Pendente»; (iii) o requerimento de confirmação pelo Rei devia ser acompanhado de «certidão assinada por cada um
dos Capitães do Lugar d’África onde foram feitos cavaleiros, de como serviram com cavalos e armas, e com elas estiveram
continuadamente servindo seis meses ao menos, a qual certidão seja feita pelo Escrivão dos Contos do Lugar onde estiver, e
assinada pelo Capitão como dito é». Mas além disto, a Confirmação pelo Rei dos «privilégios e qualidades dos
Cavaleiros» impunha ainda que os requerentes se fizessem ainda acompanhar dos dados anteriores em forma
de «Instrumento público dado por Autoridade de Justiça, convem a saber, do Corregedor da Comarca onde viverem ou de onde
forem naturais, de cujos filhos são e das qualidades das pessoas de seu Pai e Mãe e deles mesmos cujos criados são, se criação de
algumas pessoas tiverem; porque pelas certidões de todo o aqui conteúdo certificado os Mandaremos despachar como Nos bem
Parecer, nem esta prova, se consigo logo a não trouxerem, não lha havemos de mandar receber em outra parte». Em suma, a
confirmação régia dependia sempre da soberania do Rei, que, podia concedê-la ou não, de acordo com o Seu
critério, no qual entravam igualmente considerações sociais e não apenas militares e económicas.
230 Faz parte da essência da dinâmica social necessária a todas as sociedades – assim, P. Du Puy de
Clinchamps escreverá, em 1959 (La noblesse, cit., pág. 11), que «Jamais, et par sa nature même, l’ordre de la noblesse ne
será fermé».
231 E não eram exclusivos, embora o fossem tendencialmente – uma importante excepção foi a de
Henrique Dias, homem negro e valente, a quem Dom João IV concedeu em 1653 o foro de Fidalgo
Cavaleiro, porque no Brasil «obrou feitos de preclaro varão nos postos de Sargento-mor e de Mestre de
Campo de um Regimento de pretos, que fez importantes proezas, e de qual se não sabia nada para além dos
seus merecimentos» - Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Mordomia-mor da Casa Real – Foros e Ofícios 1755/1910,

60
certo que, em geral, essa ascensão social se fazia degrau a degrau, como escreveu o prof.
António Manuel Hespanha, mas também há casos excepcionais de subidas abruptas
(historicamente, há centenas de casos, mas um dos que nos parece mais ilustrativo é o do
Doutor João das Aregas ou João das Regras, em retribuição dos seus serviços no
estabelecimento da dinastia dita de Aviz). Mas se se podia por todas estas vias – e mais
algumas, pois não pretendo nem posso ser aqui exaustivo – entrar na nobreza também da
mesma se poderia sair. Como se escreveu em todos os tempos e fez notar, para França
Du Puy de Clinchamps, da nobreza tanto se podia entrar como sair232. A saída poderia ser
determinada por diversas razões, como a prática de certos crimes infamantes ou contra a
pessoa do Rei, mas também pela incapacidade de viver “à lei da Nobreza”233, expressa
exemplarmente na derrogação resultante da assunção de ofícios mecânicos234.

Tomo I, pág. 59. Também aqui Portugal se antecipou em muito à companhia de negros da Guerra da
Secessão dos Estados Unidos, que o cinema recentemente transformou em ícone, com as participações
notáveis de Morgan Freeman e Denzel Washington.
232 O mesmo Du Puy de Clinchamps diria, na obra citada na nota anterior, que «au cours de ces longs
services et de cette longue opposition, la noblesse, nous l’avons dit, recrutera constamment de nouvelles familles pour remplacer les
races mortes et celles redescendues dans l’obscurir´du petit peuple».
233 Du Puy de Clinchamps caracterizava esta realidade, mas no sentido inverso, do seguinte modo: «La
montée d’une famille vers la noblessee était une longue marche. Partie de l’obscurité, une race peu à peu a gagné ce q nous
appelons aujourd’hui de la «surface». Elle n’est pas encore noble devant la loi mais elle déjà dans les faits, puisque son mode de
vie est identique à celui des autres familles de son bailliage, de sa province. Selon le parleur du temps, on dit d’elle qu’elle ‘vit
noblement’» (op cit., pág. 34).
234 Parafraseando o notável artigo do prof. Hespanha (A mobilidade social no Antigo Regime, pág. 137),
«Também por obras se podia perder a nobreza. Os fundamentos da perda da nobreza eram o reflexo, em
negativo, dos fundamentos da sua aquisição. Assim, a nobreza perdia-se por fatos que infirmassem a
presunção de virtude, que produzissem a infâmia (como a prática do crime de lesa-majestade) ou que
prejudicassem a reputação pública (como o exercício do comércio sórdido ou de profissão vil).»

61
Excerto da lista de mortos e cativos de membros da nobreza imemorial, e não só, na Batalha de Alcácer Quibir,
republicada por José de Seabra da Silva na sua Deducção Chronológica e Analítica, de 1768: exactamente na
passagem da página 25 para a página 26 é referido o Morgado de Oliveira, com cuja filha casou o filho
primogénito, já feito Visconde da Bahia e de juro e herdade

No caso da Família Seabra da Silva, depois da descrita subida paulatina em três


gerações, primeiro dentro da classe popular ascendendo à vida “à lei da nobreza” (duas
primeiras gerações), passando à nobreza civil e logo aí à nobreza hereditária com o foro
de Fidalgo Cavaleiro (terceira geração, do Desembargador Lucas de Seabra da Silva), para
o serviço régio directo (como ajudante do Marquês de Pombal e mesmo como Secretário
de Estado – quarta geração, José de Seabra da Silva) e daí para a titulação (com o filho de
José de Seabra, Visconde e Conde da Bahia), inclusivamente de juro e herdade (Visconde da
Bahia), o certo é que a política de alianças matrimoniais desta Família, que em cada
geração conseguiu acrescentar peso histórico à sua linhagem, levou a que esta Família
superasse ainda um último obstáculo, ao ligar-se matrimonialmente à velha nobreza
quinhentista e seiscentista, em resposta à acrimónia que antes esta tinha mostrado face
aos novos nobres e à crescente transição de poderes na administração régia, com a
ultrapassagem das antigas Famílias de nobreza dita imemorial235 pelos togados de nova

235 Já no tempo de Dom Manuel I, Rui de Melo, o Punho, dizia ao Rei que «Dos Escudeiros como
aquele pode Sua Alteza fazer duques; mas de fidalgos como eu só Deus os pode fazer»; igualmente, respondia
um criado do Rei a D. Estêvão da Gama, governador da Índia e filho de Vasco da Gama, que lhe chamava
escudeiro: “Senhor, dos escudeiros se fazem os condes” [Vasco da Gama recebeu o título de Conde da

62
nobreza236, como nos explica Nuno Gonçalo Monteiro237 dão conta notavelmente as palavras
duríssimas que D. Pedro de Almeida Portugal, Marquês de Alorna deixa aos Secretários
de Estado e às novas elites nas suas Memórias Políticas238, pequeno mas interessantíssimo
livro que José Norton nos ofereceu - «há cinquenta anos que se trabalha em desautorizar
esta Classe [Nobreza], e não porque os Agentes se persuadam que ela é má, mas porque
desejam subir para ela de repente sem que dê nos olhos o contraste da antiguidade de
serviços com a modernice das operações Químico-políticas que fazem de repente»239 – e
na ligação que faz da Nobreza ao serviço contínuo e à dependência face ao Rei – os
mesmos factores que para Soriano já eram sintomas da sua decadência… – desde tempos
imemoriais:
«A Nobreza de Portugal algum dia alcançava-se passo a passo, e cada grau de
elevação recaía sobre facto marcado com o cunho da utilidade do Estado; e para não
deixar adormecer sobre os loiros, houve a cautela de conservar os Nobres sempre na
dependência e necessidade de servir (…). E como havia grande economia na concessão
de Honras, ainda que estava aberta a estrada para chegar a todas, não bastava uma vida a
correr, e eram precisas muitas Gerações antes que uma Família chegasse às maiores
distinções./À vista disto a Nobreza antiga, isto é, a que vem desde o Rei D. Afonso V, ou
mais de trás, representa uma grande massa de serviços feitos a Portugal. Por
consequência uma fidelidade absoluta aos interesses de Portugal deve achar-se
infalivelmente nos representantes destas Famílias»240.
Este fenómeno de progressiva assimilação da Família de José de Seabra da Silva na
elite muito restrita das Famílias portuguesas em tempo de monarquia ainda mais se
acentuou com a geração seguinte, pois a filha primogénita dos 1.os Viscondes da Bahia
(tendo-se extinguido toda a descendência dos filhos varões e tendo presente que o título
era de juro e herdade e com dispensas na Lei Mental, revogada duas vezes, em 1832 e 1848)
casou com um membro da Família Almeida e Silva, um ramo secundogénito da Casa dos
primitivos Condes de Avintes que então eram Condes de Oliveira dos Arcos, e de quem
descende hoje, e é seu Chefe, um vulto incontornável da cultura portuguesa, o escultor
prof. Doutor D. João Charters de Almeida e Silva, da Família do Prior do Crato D. João
Fernandes de Almeida, privado do Rei D. João II, e irmão, entre outros, de Dom
Francisco de Almeida, 1.º Vice-Rei da Índia, ou do Bispo de Coimbra Dom Jorge de
Almeida e Silva.
Em suma, na descrição da sociedade portuguesa, julgamos exemplar o caminho
percorrido pela família de José de Seabra da Silva à luz dos paradigmas de ascensão social

Vidigueira] - Autor Anónimo, Ditos portugueses dignos de memória (História íntima do século XVI comentada por
José Hermano Saraiva), Publicações Europa-América, 2.ª Edição, s.d., pág. 227 e 257.
236 Muitos autores salientam isto, aliás verificando a tendência desde períodos mais recuados – Pedro
Cardim, «Política e identidades corporativas no Portugal de Filipe I», Estudos em Homenagem a João Francisco
Marques, pág. 292 (disponível em http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2837.pdf).
237 «Poder Senhorial, Estatuto Nobiliárquico e Aristocracia», in História de Portugal – O Antigo Regime,
José Mattoso (Dir.), cit., pág. 332: «O notório exclusivismo social da nobreza da corte parece, assim, ter
constituído uma condição para que se pudesse preservar como a componente mais estável da elite de poder
da monarquia. O período pombalino, se não modificou drasticamente a composição do grupo, apesar das
numerosas perturbações que introduziu, constituiu uma etapa fundamental na modificação da estrutura e do
funcionamento da administração central (…). Representou ainda uma manifestação violenta da supremacia da
realeza, nunca completamente esquecida. Apesar da aparente inversão de tendência do início da “Viradeira”, a
verdade é que os representantes das velhas casas foram sendo remetidos cada vez mais para funções
decorativas [como aliás também os reis, diga-se]. O reforço das secretarias de Estado tendeu a esvaziar os
pólos tradicionais de decisão. Aliás, ao longo da segunda metade de Setecentos foram mais numerosos os
ministros que se tornaram Grandes do que os Grandes feitos ministros».
238 Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, Tribuna da História, 2008, pp.89-
93.
239 Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, cit., pp. 109-110.
240 Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, cit., pág. 109.

63
estabelecidos na sociedade portuguesa do Antigo Regime. A abertura social aqui existente
– ainda que tímida ou até ridícula, se olhada no prisma dos conceitos sociais hoje vigentes
– era no entanto muito glosada pelos mais diversos autores. Assim, se numa lógica de
exaltação da nova nobreza de toga, Jerónimo da Cunha (século XVIII241) chamava a atenção
para a circunstância de ser “mais importante ser princípio de nobreza do que fim dela”,
mais recentemente, Jacinto d’ Albuquerque de Andrade Bettencourt dizia que, se pode dizer que
a palavra Fidalgo, (...) diz-se de todo aquele que conta de remotas eras os seus antepassados e cuja
genealogia faz parte integrante da história do paiz. O Fidalgo não tem culpa de o ser: é-o, porque o
destino assim o quis, e se ele não deslustrar a memória dos seus ascendentes», mas o mesmo Autor
muito justamente recorda-nos que é sumamente mais importante saber, em relação a cada
pessoa, «de que obras são Pais» do que «de que Pais são filhos». E permitam-nos ainda
acrescentar a tão longínqua como verdadeira advertência de Aristóteles, na sua Retórica: «a
nobreza é uma dignidade transmitida pelos antepassados. Também comporta uma certa
tendência para o desprezo, mesmo em relação àqueles que são semelhantes aos seus
antepassados, porque a distância torna as mesmas coisas mais veneráveis do que a
proximidade, e presta-se mais à gabarolice. Por “nobre” entendo aquele cujas virtudes
são inerentes a uma estirpe; por “de nobre” carácter entende aquele que não perde as
suas qualidades naturais».

Miguel Gorjão-Henriques

241 Arte de bachareis, ou prefeito juiz : na qual se descrevem os requesitos, e virtudes necessárias a hum ministro /
author Jeronymo da Cunha. - Lisboa : na Officina de João Bautista Lerzo, 1743. - [22], 210 p. ; 28 cm,
disponível na Biblioteca Nacional digital em http://purl.pt/22273/2.

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