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O judas do Sábado de Aleluia

Durante os anos em que permaneceu no Brasil, a convite de D. João VI e D.


Pedro I, o francês Jean Baptiste Debret observou e registrou com textos e imagens
as cenas e os costumes brasileiros no início do século XIX, em sua obra Viagem
Pitoresca e Histórica ao Brasil. Como estes, relativos ao sábado anterior à Páscoa:

O judas no Sábado de Aleluia, no Rio de Janeiro, em cena desenhada e descrita por Debret

O sentimento dos contrastes, que fecunda tão marcadamente o gênio dos povos
meridionais da Europa, encontra-se igualmente no brasileiro, caracterizando-se
pela capacidade de fazer suceder ao espetáculo lamentável das cenas da Paixão
de Cristo, carregadas processionalmente durante a Quaresma, o enforcamento
solene do judas no Sábado de Aleluia.

Compassiva justiça que serve de pretexto a um fogo de artifício queimado às dez


horas da manhã, no momento da Aleluia, e que põe em polvorosa toda a
população do Rio de Janeiro, entusiasmada por ver os pedaços inflamados desse
apóstolo perverso espalhados pelo ar com a explosão das bombas e logo
consumidos entre os vivas da multidão! Cena que se repete no mesmo instante
em quase todas as casas da cidade.

É ao primeiro som do sino da Capela Imperial, anunciando a ressurreição do


Cristo e ordenando o enforcamento do judas, que esse duplo motivo de alegria
se exprime a um tempo pelas detonações do fogo de artifício, as salvas da
artilharia da marinha e dos fortes, os entusiásticos clamores do povo e o
carrilhão de todas as igrejas da cidade.

É preciso confessar que essa oportunidade de um contraste tão marcado, tirado


de um mesmo objeto e que, terminando devotamente a Quaresma, apaga no
espaço de dez minutos, de um modo igualmente engenhoso, a austeridade de
suas formas, constitui o triunfo da imaginação num povo vivo e infinitamente
impressionável.

Passando aos preparativos da cena, vemos a classe indigente, que se presta


facilmente às ilusões, armar um judas enchendo de palha uma roupa de homem
a que se acrescenta uma máscara com um boné de lã para formar a cabeça;
algumas bombas colocadas nas coxas, nos braços e na cabeça servem para
deslocar o boneco no momento oportuno; uma árvore nova trazida da floresta
faz as vezes de uma forca econômica, e o povo do bairro sente-se satisfeito.
Observe-se que é de rigor fazerem-se esses preparativos durante a noite, a fim
de estar tudo pronto pela manhã.

Nos bairros comerciais a ilusão é mais completa, mas também mais dispendiosa.
Os empregados se cotizam para mandar executar, pelo costureiro e fogueteiro
reunidos, uma cena composta de várias peças grotescas, aumentando
consideravelmente o divertimento sempre terminado com o enforcamento do
judas pelo diabo, que serve de carrasco; nec plus ultra da ficção poética e da
imitação dos movimentos do grupo das duas figuras, cujos balanços e oscilações
são provocados e variados pelo arrebentar dos foguetes que os consomem
finalmente, excitando a última bomba o mais ruidoso entusiasmo.

Graças a um concurso de circunstâncias, vimos ressurgir, na Quaresma, esse


antigo divertimento caído em desuso há mais de vinte anos, ou melhor, proibido
no Brasil desde a chegada da corte de Portugal, sempre desconfiante dos
ajuntamentos populares. O temor é perfeitamente justificável ante a
aproximação das novas Constituições liberais, pois três dias antes de minha
partida do Rio de Janeiro, no Sábado de Aleluia de 1831, viu-se nas praças da
cidade um simulacro de enforcamento de algumas personagens importantes do
governo, como o ministro intendente-geral e o comandante das forças militares
da polícia.

Posteriormente, a liberdade favoreceu o desenvolvimento aparatoso desse


divertimento, que permaneceu, é preciso dizer, absolutamente estranho às
alusões políticas e unicamente adstrito ao talento do fogueteiro e do costureiro. E
seus progressos foram tão rápidos que, em 1828, época mais brilhante desse
divertimento renascente, um edital da polícia induzia o fogueteiro a maior
economia, a fim de prevenir prudentemente os incêndios, sobretudo nas
pequenas ruas, e censurava ao mesmo tempo os cidadãos pelo abuso de
despesas tão frívolas e vergonhosas para seu patriotismo. A censura deu
resultado, e as despesas foram moderadas.

Quanto ao detalhe, as peças de que se compõe o fogo de artifício são pequenos


grupos de figuras grotescas, engenhosamente fabricadas com simples folhas de
papel coladas e coloridas, sempre fixadas a um pequeno tabuleiro girando
horizontalmente. A figura indispensável, capital, é a do judas, de blusa branca
(pequeno dominó branco de capuz, usado pelos condenados); suspenso pelo
pescoço a uma árvore e segurando uma bolsa supostamente cheia de dinheiro,
tem no peito um cartaz quase sempre concebido nestes termos: "Eis o retrato de
um miserável, supliciado por ter abandonado seu país e traído seu senhor". Um
diabo negro, o mais feio possível, a cavalo sobre os ombros da vítima, faz as
vezes de carrasco e parece apertar com o peso de seu corpo o laço que
estrangula o desgraçado.
Mais engenhoso ainda é o diabo amarrado pela cintura, de modo a escorregar
pela corda do judas, e suspenso três ou quatro pés acima da cabeça do boneco
por meio de uma outra corda, que se distende repentinamente em conseqüência
do estouro de uma bomba e deixa cair o carrasco a cavalo em cima do pescoço
da vítima. Esse efeito teatral, extraordinário, imita perfeitamente a pantomima
do enforcamento, prolongada durante longo tempo, apresentando o espetáculo
de um horrível grupo agitado sem cessar, entre turbilhões de fumaça, pela
detonação dos petardos encerrados dentro dos dois manequins. Tudo termina
afinal com uma última explosão, que lança para todos os lados mil parcelas
inflamadas, logo reduzidas a cinza.

(Como o tema religioso consiste em fazer do diabo um perseguidor e criminoso,


o dragão que acende o fogo é sempre uma serpente alada que pula do pedestal
de um Lúcifer, suposto ordenador da execução do suplício e que também se
abrasa no fim. Reproduzo dois grupos desses belos fogos de artifício, com essa
diferença, entretanto, que no mais complicado dos dois, naquele em que o diabo
cai em cima do judas, o costureiro se mostrou imitador mais fiel na
representação do diabo - carrasco negro todo acorrentado, como se vê nas
execuções judiciárias - Nota do autor).

Imagine-se essa obra-prima do fogueteiro suspensa a quarenta ou cinqüenta pés


de altura a uma árvore colossal, cujos galhos guarnecidos de fitas a coroam vinte
pés mais alto, e ter-se-á uma idéia dessa cena imponente, que provoca, não sem
certa razão, os clamores de alegria do povo apinhado nas ruas e os aplausos dos
espectadores dos balcões.

O judas no Sábado de Aleluia, no Rio de Janeiro, em cena desenhada e descrita por Debret

Malhação do Judas. Você lembra?


Publicado em 27/04/2009 por Redação, nas categorias - Folclore, Almanaque Brasil
Cultura, Cultura, Destaquese com as tags Cultura,História.
Cidades brasileiras, tradição vai
diminuindo a cada ano. Costume trazido pelos portugueses e espanhóis para toda a
América Latina, a malhação do Judas no sábado de Aleluia aos poucos vai
desaparecendo das grandes cidades, restringindo-se cada vez mais ao interior do Brasil:

Malhar o Judas.

Tradição folclórica que exterioriza emoções

Dia de malhar Judas. Seja na forma de um político – Collor, Zélia e seu plano
econômico não vão sair ilesos -, de um dirigente, da fofoqueira do bairro ou qualquer
pessoa que incomode, os bonecos vão subir aos mastros dos postes e, ao meio-dia, serão
malhados a pauladas, explodidos, queimados, atropelados, enfim, eliminados. Como
bodes expiatórios, é neles que o povo vai extravasando a sua insatisfação com a situação
reinante.

No começo, o boneco representava a figura do Judas Iscariotes; aos poucos, outras


personagens foram substituindo o traidor de Cristo, numa manifestação folclórica
tradicional, da qual participa toda a comunidade, do avô ao neto. Os nossos Judas
aparecem em postes, amarrados em carros, deitados nas ruas e, em muitos casos,
deixam até testamentos. Além disso, às vezes, o ato da malhação é realizado ao som de
músicas especialmente compostas para a ocasião.

A malhação de Judas está incorporada aos costumes dos povos de quase todo o mundo.
Segundo a folclorista Meire Berti Gomiero Fonseca, que vem pesquisando o assunto há
alguns anos junto com equipes formadas por seus alunos, a queima do Judas parece se
relacionar ao rito pagão do Fogo Novo, herdado dos hebreus, sobrevivendo entre os
povos civilizados. Na Córsega, no século XIX, era costume um grupo de rapazes
percorrer no Sábado de Aleluia as comunas da ilha gritando “Fogo Novo”; na Lorena
Francesa, esse fogo era feito com palma benta dos anos anteriores na porta do cemitério;
na Alemanha, vestiam um menino de Judas, para depois sofrer a prova do fogo sendo
balançado pelos mais fortes e altos por cima da fogueira.

Cada lugar incorporou a queima de Judas de uma forma. Em Mittelbron e Nelling, os


bonecos eram queimados em frente aos cemitérios e igrejas; no Alto Reno, queimavam-
se vestimentas e ornamentos eclesiásticos no cemitério, bem como velhas cruzes e
caixões. Na Suíça, o Judas era morto com fuzil, queimado, havendo o costume de
quebrar louças sobre ele, enquanto em Portugal era submetido a julgamento, depois
enforcado e queimado, o que provocava estouros de bombinhas colocadas dentro do
boneco.

Há países em que a queima do Judas representa um repúdio às forças do mal e, por isso,
o ato é praticado no início ou no fim das colheitas, para espantar os demônios que
esterilizam as plantações. No Brasil, por sua vez, sabe-se sobre a malhação de Judas
desde o século XVIII, quando, no Rio de Janeiro, os bonecos traziam fogos de artifício
presos no ventre, que eram acesos no Sábado de Aleluia, e ardiam sob os aplausos
frenéticos do povo, como uma vingança à morte de Jesus.

Ainda segundo Meire Berti, as primeiras descrições desse evento no Brasil foram feitas
pelo gravurista Jean Baptiste Debret. De acordo com ele, o Judas era confeccionado
com roupa e tecido de palha, com máscara e boné de lã que lhe formava a cabeça.
Também eram colocadas bombas nas juntas para melhor dilaceração das partes na hora
da queima, que era precedida pelo enforcamento.

“Na dinâmica do folclore, a figura do Judas Iscariotes foi substituída por críticas à
situação reinante”.

O Judas de antigamente não é mais o mesmo. O traidor de Cristo de hoje veste roupas e
sapatos modernos, usa gravata e chapéu e tem, até mesmo, companheira, que vai para a
fogueira junto com ele. O Judas de hoje não pode falar, mas muitas vezes seu recado
vem através de uma tabuleta, onde quem o executa extravasa toda a sua insatisfação.
Além disso, em muitos lugares no Brasil, faz-se até o seu julgamento e, antes da
malhação, lêem o seu testamento, que, na maioria das vezes, é apresentado na forma de
versos.
. A Brincadeira da Malhação do Judas era feito no sábado de Aleluia, isto

é, no sábado anterior a páscoa.

Tudo começa na noite de sexta feira quando se pendurava em um poste da ELFFA


(celesc) perto de casa um boneco representando o Judas. Para se confeccionar o
Judas usava-se :

” Uma calça masculina, um par de meias masculinas, uma camisa

de mangas compridas, luvas mas se não tiver pode usar meias

masculinas também e um saco para fazer a cabeça do Judas.”

Tudo isso era costurado ligando uma peça a outra, na camisa se costuravam a
calça, as luvas, o saco para a cabeça, nas pernas da calça se costuravam as meias para
se fazer os pés. Tudo isso era preenchido com palha, serragem ou restos de papéis,
para ficar parecido com uma pessoa. Depois de pronto amarrava-se o Judas noposte.
Em geral dava-se a ele o nome de uma pessoa da comunidade ou de um político. Uma
placa pendurada no pescoço ostentava o nome que jocosamente lhe era dado.

No Sábado o Judas já amanhecia pendurado no poste. Conforme as crianças iam


acordando, já vinham reunir-se junto ao poste à espera da brincadeira. Em geral,
eles se armavam com um pedaço de pau, sarrafo de cerca ou algo parecido. Lá
pelas 9 ou 10 horas da manhã alguém descia o judas do poste, amarrava uma corda
no pescoço ou por baixo dos braços do Judas, para poder puxar sem ele se partir.

Ao grito de ” vamos malhar o Judas” um pegava na corda e saía correndo com o


Judas amarrado e o resto da turma ia correndo atrás com o pedaço de pau a bater no
Judas, faziam isso ate que o Judas começasse a se desfazer por causa das pancadas, ai
então ateava- se fogo ao Judas e saia correndo com ele novamente, até que não

sobrasse mais nada. Só sobrava a corda e muitas vezes ela também era incendiada.

A tradição é amarrar os bonecos nos postes. Muitas vezes, eles são enforcados, mas, em
outras, eles aparecem pendurados nas casas, deitados no meio da rua – caso observado
ano passado, quando ao lado de um defunto existia uma tabuleta com as palavras Cruz
Aids – ou sentados ao redor de uma mesa – na época da Diretas Já, foram encontrados,
bonecos que focalizavam políticos confabulando numa mesa de negociação. O que o
brasileiro põe dentro dos bonecos, para estourar ou queimar, também é muito variado:
uns usam estopa embebida em querosene, outros fabricam até pólvora artesanal para
explodir dentro dos Judas.

Na hora da malhação, é característico, entre as crianças e adultos, usar paus com pregos
e a exteriorização dos sentimentos através de frases do tipo: “Maldito! Traidor! Vamos
matar esse patife! Vamos queimar essa porcaria! Um dia da caça, outro do caçador!” e
muitos ouros. “Além da aceitação coletiva, pois toda a comunidade participa na
confecção e malhação do Judas, essa tradição folclórica popular deve ser vista dentro de
um contexto muito mais rico, já que nele encontramos um pouco e tudo: literatura (nos
testamentos), provérbios folclóricos e música. É lógico que não em todos os lugares.