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A IMPORTÂNCIA DO "RAPPORT" IMA ENTREVISTA MÉDICA

Alcides Asmar Kobbaz*

" R a p p o r t " é uma palavra de origem francesa e que significa relacionamento, caracterizado por
uma finalidade emocional.
Trata-se da ligação do médico com o paciente, desde o seu primeiro contato, com as primeiras
palavras e com as primeiras explicações.
O médico deve agir com amabilidade, mostrar-se interessado nos problemas do paciente e estar
sempre preparado para ouvi-lo. É quando deverá mostrar-se calmo e seguro, procurando incutir con-
fiança no paciente.
O "rapport" é mais ligado especificamente à atuação em Psiquiatria, em Psicanálise e em Hip-
niatria, mas deveria ser valorizado também em qualquer especialidade médica, devendo assim sei- enca-
rado com muita seriedade.
É preciso que o profissional, ao fazer o "rapport", náo se preocupe com o tempo gasto, pois de-
le depende grande percentual do êxito clínico. Deve ter paciência e saber ouvir o doente com muita
tranquilidade, não se esquecendo que isso não é perder tempo.
Com o " r a p p o r t " bem dirigido, consegue-se uma cooperação do paciente, obtendo-se uma
anamnese mais detalhada, que muitas vezes, por si só, nos fornece elementos capazes de nos levar a
um diagnóstico certo.
É de maior proveito que durante o " r a p p o r t " não haja interrupções c om o sejam, recados, tele-
fonemas, afim de não desviar a atenção do médico e também do paciente.
A l é m da habilidade e do bom senso, deve o médico usar de psicologia e agir como se fora um
detetive. Sondar o que o doente pensa a respeito da sua doença e o que tenta esconder, consciente ou
inconscientemente.
N o consultório aparecem os mais diversos tipos de pacientes e com sintomatologias as mais va-
riadas. Assim, aparecem os ansiosos, os agressivos, os hiperemotivos, os tCmidos, os oligofrênicos, os
histéricos, os desconfiados, os maliciosos, etc.
Há os que procuram o médico apenas para pedir conselhos. Alguns, levados por parentes, per-
manecem em completo mutismo, tecusando-se até a dizer o seu nome. Outros, ao avistarem o médico
têm verdadeiras crises de choro. Para tudo isso há sempre um motivo e cabe ao profissional, com sua
maneira própria e habilidade, extrair a causa.

Secretário da S B H M .

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É preciso ver em cada paciente uma individualidade independente. Analisar o grau de cultura e
o grau de sugestibilidade, para agir conforme a personalidade traçada. Usar uma linguagem simples e
persuasiva, acessível ao paciente, tendo-se em conta principalmente a sua capacidade de apreensão.
Com os oligofrênicos já o " r a p p o r t " é mais trabalhoso, e se o paciente apresenta ideia de suicídio já
a situação torna-se mais delicada.
Durante o "rapport" não deve haver insinuações, para nâb desviar o raciocínio do paciente,
permitindo que este discorra livremente sobre a história da sua doença.
É de boa política, de início, não discordar com o ponto de vista do paciente, para posteriormen-
te, quando já se adquiriu a confiança deste, argumentar pró ou contra, dependendo do caso.
Muitas vezes, o paciente apresenta-se em franca logorréia, prolixo, e noutras vezes, mau humora-
do e em grande mutismo.
É importante saber dirigir as perguntas e se preciso for, até mesmo desviar do método rotineiro.
Quanto a isso, conta-nos um colega, que certa vez foi ao seu consultório uma paciente que falava pou-
co e respondendo por monossílabos. Percebeu que ela procurava proteger-se do médico, pouco escla-
recendo ou informando. Imediatamente ele mudou de tática, fazendo-lhe perguntas sobre outros
assuntos que não diziam respeito ao seu estado de saúde. Assim, perguntou se gostava de cinema, de
teatro, de música e de que cidade viera. Conhecendo essa cidade, aproveitou para falar dos pontos pi-
torescos, dos costumes e dos alimentos típicos daquela região. Daí a pouco tempo estavam numa con-
versa bem animada e puderam entrar no assunto que a levou à consulta. Tratava-se, nesse caso, de pro-
blemas familiares e conjugal, os quais por timidez ou vergonha procurava esconder.
Ficou assim, mais uma vez, provado o valor do "rapport".
Partindo do princípio de que quase todos os pacientes que nos procuram são ansiosos, muitos
dos quais tentam se esconder por traz dos mais variados disfarces, deve o médico, com suas palavras
bem dosadas, pesquisar suas apreensões, para poder então tranquilizá-los.
Cabe aqui o velho aforisma: — "Cumpre ao médico curar alguns, aliviar a muitos e consolar a
todos". "
Como já foi dito, a ansiedade é rica em disfarces e se manifesta nos pacientes com as mais varia-
das expressões, como sejam: "sinto-me tenso, fraco, desequilibrado, nervoso, irritado, apreensivo,
etc." A esse tipo de pacientes, é de utilidade falar sobre a sua ansiedade e dar-lhe oportunidade para
contar porque se sente assim. Essa tensão pode se manifestar sob a forma de tristeza, de agressivida-
de, de cefaléia, de opressão torácica, etc. A agressividade poderá estar ligada à sua doença ou poderá
ser decorrente de um fato recente. Outras vezes, poderá tratar-se unicamente de uma forma de pro-
teção.
O médico experiente, deparando-se com um paciente desse tipo, estrategicamente deixa-se ser
agredido, pois, geralmente após essa descarga o doente cai em si, percebendo a atitude grosseira co-
metida indevidamente, e como que para corrigir essa atitude, entra num relaxamento, tornando-se
mais cortês.
Há os que procuram o médico mais como um conselheiro e querem dele soluções para seus pro-
blemas conjugais, para a educação dos filhos ou para certos vícios que possuem. Às vezes, fazem per-
guntas que aparentemente são feitas ao acaso, mas que no fundo, foram premeditadas.
Mais de um terço dos pacientes que nos procuram padecem de distúrbios psicossomáticos e são
curáveis pela psicoterapia, lembrando-se que o " r a p p o r t " traz no seu bojo muito dessa conduta.
Os sintomas apresentados são agravados ou mesmo provocados pela tensão emocional, cujos
problemas podem estar no trabalho, na escola, no meio familiar, proveniente de um amor frustado,
por motivo sexual, por razões económico-financeiras ou por outras causas mais.
O paciente deve ser encarado no seu todo, pois não devemos esquecer que o conceito moderno
de saúde não é apenas ausência de doença física e mental, mas exige também um estado de completo
bem estar social. O homem deve estar bem adaptado ao meio em que vive.
Na sociedade atual, estabelece-se grande número de conflitos emocionais, ligados a desajustes fa-
miliares, económicos, profissionais e sociais.
O médico deve observar o paciente nos seus mínimos detalhes e desde o primeiro momento. De-
ve ver o modo como ele se apresenta à consulta, como está vestido, a sua expressão fisionómica, se fu-
ma muito, se tem o olhar f i x o ou se pisca muito, se esfrega muito as mãos ou se torce os dedos, se roe
as unhas, se balança continuadamente as pernas, etc.
A maneira de c om o é feito o " r a p p o r t " varia se a consulta está se realizando no consultório
particular, na residência do paciente, no ambulatório ou no hospital. Varia também se o paciente se
locomove ou se encontra-se acamado.
Nas doenças de evolução lenta e com o correr do tempo, o paciente entra em depressão. É mui-
to oportuno e é o momento em que o médico deve apresentar uma grande dose de otimismo.
Há uma peculiaridade a ser observada no emprego do " r a p p o r t " : é quando o profissional se
encontra somente com o doente ou se perto de familiares ou de acompanhantes, pois há ocasiões em
que o paciente desejaria contar ao médico fatos particulares e íntimos, mas que na presença de outras
pessoas fica inibido e se cala.
O médico, deve estar atento para esse conjunto de variantes e saber agir conforme o momento.
Nunca se esquecer que pode estar atendendo a um psicótico, um neurótico, um religioso obsecado ou
místico e, até mesmo, a um criminoso.
Há os hipocondríacos, que já se consultaram com dezenas de médicos e sempre acham que esse
último é o que irá resolver os seus problemas.
Quando o paciente for uma criança, geralmente levada pelos pais, o médico deverá tirar destes o
máximo de informações, para depois fazer o " r a p p o r t " c o m a criança. Já então, sabedor dos hábitos
familiares, das doenças da primeira infância, das condições do parto e do motivo que a levou à consul-
ta, encontrará maior facilidade de comunicação.
É interessante observar que mesmo no convívio social diário praticamos o ' " r a p p o r t " sem que
dele percebamos, pois ele é extremamente humanizante.
Infelizmente, a socialização da Medicina muito prejudicou esse relacionamento, onde se pensa
mais em termos de quantidade do que de qualidade, não havendo tempo para a prática do "rapport".
O paciente é representado por um número, raramente conhecido pelo seu nome, o mesmo acontecen-
do com o médico. Isso não oferece oportunidade para que haja uma ligação afetiva com os pacientes.
Na realidade, o que foi dito até agora nada tem de novidade, mas deve ser relembrado, conside-
rando ter caído no esquecimento da grande maioria dos profissionais, talvez pela correria em que vive
atualmente, tendo dois ou mais empregos, além do consultório particular. Por outro lado, a comenta-
da socialização da Medicina pelos Institutos de Previdência e outros sistemas semelhantes fazem do
médico um consultor mecânico. O importante é ter conhecimento, oferecer um bom padrão de aten-
dimento e manter-se dentro da ética profissional.

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