Você está na página 1de 73

POLIGAMIA MÓRMON – UMA

HISTÓRIA

Por:
Richard S. Van Wagoner

Traduzido por:
Rafael Silva

Publicação Original em Inglês:


1989

Publicação em Português:
2020
Apresentação:
Essa não é a tradução de todo o livro do Sr. Wagoner, eu apenas traduzi do
capítulo 13 (aqui chamado de 1) em diante. Fiz isso pois essa é a parte principal do
livro no qual não há muitas informações em português. O livro em seus primeiros
capítulos fala de quando veio a “revelação” acerca da poligamia, e como ela era
praticada, depois fala da situação da igreja após a morte de Joseph Smith, e depois
chega onde começamos, que é na publicação do Manifesto de 1890.
Se você leitor, não conhece a história anterior a 1890, recomendo que leia os
livros como “A História da Igreja na Plenitude dos Tempos”, o volume 2 do livro
“Santos”, e outros, mas desde já prometo que essa não será a única tradução e
publicação sobre o tema, já que planejo traduzir alguns livros de um importante
historiador do fundamentalismo mórmon no futuro.
Enfim, espero que desfrutem desse livro que traduzi e espero que ele possa
trazer algumas informações novas para pesquisas sobre esse obscuro momento da
igreja mórmon e de suas seitas fundamentalistas.

Rafael Silva
Tradutor

2020

Sobre o Autor:

Richard S. Van Wagoner nasceu em 26 de julho de 1946, em Lehi, Utah, sendo


ele membro de uma família que a cinco gerações era membro da igreja mórmon. Na
década de 1960 ele serviu como missionário da igreja nos estados centrais dos EUA,
ao retornar para casa em 1970 ele se gradua mestre na BYU. Ele começou a escrever
sobre a história mórmon, e seus mais importantes livros foram a biografia de Sidney
Rigdon publicado em 1994 e esse livro que se encontra em suas mãos publicado em
1989. Ele também publicou vários artigos em revistas e jornais tanto sobre a história
da igreja mórmon quanto do próprio estado de Utah. No final da década de 1980 ele
foi detectado com otosclerose, uma doença que o fez declinar nos estudos e na
escrita. Ele morreu em sua cidade com 64 anos em 10 de Outubro de 2010.

Figura da Capa: Família de Joseph F. Smith (que está ao centro), sexto


presidente da igreja mórmon, no início dos anos de 1900.
Índice:
Capítulo 1 – O Manifesto de Wilford Woodruff (5)
Capítulo 2 – Interpretando Woodruff (13)
Capítulo 3 – A Poligamia Pós-Manifesto (22)
Capítulo 4 – A Igreja em Destaque: As Audiência de Smoot (31)
Capítulo 5 – Fundando o Fundamentalismo Mórmon (42)
Capítulo 6 – Cruzada contra o Princípio (53)
Capítulo 7 – Polígamos nas Notícias (62)
Bibliografia (71)
Capítulo 1
O Manifesto de Wilford Woodruff
Os autores do projeto de lei Edmunds-Tucker pretendiam que sua lei destruísse o
sistema teocrático mórmon. Embora a poligamia tenha sido o grito de guerra desses e
de outros parlamentares, um artigo de 15 de fevereiro de 1885 no [jornal] Salt Lake
Tribune mostra como motivação mais básica a oposição ao casamento plural. "O
princípio essencial do mormonismo não é poligamia", alertou o jornal, "mas a
ambição de uma hierarquia eclesiástica para exercer soberania; governar as almas e
vidas de seus súditos com autoridade absoluta, sem restrições de qualquer poder
civil". O governador não-mórmon de Utah, Caleb West, ecoou esse ponto em uma
carta de 1888: "Na política mórmon estabelecida e governando o povo deste território
desde seu estabelecimento, a unidade da Igreja e do estado é perfeita e indissolúvel. É
baseada no controle completo e absoluto de um sacerdócio. Esse sacerdócio não
apenas governa a Igreja, mas também governa o estado."[1]
Os regulamentos do projeto de lei Edmunds-Tucker declararam que os
casamentos não registrados publicamente eram criminosos, e que as esposas eram
colocadas como testemunhas contra maridos e que filhos de casamentos plurais eram
deserdados. O sufrágio feminino foi abolido, e um julgamento de teste foi
administrado por todos os polígamos e [esses foram] proibidos de prestar serviços no
júri ou em carga política. Uma estipulação mais séria do projeto, no entanto, foi uma
ameaça de dissolver uma entidade legal da corporação da igreja e confiscar todas as
propriedades da igreja maiores que 50.000 dólares.
Em 30 de julho [de 1887], um dia após o enterro do Presidente John Taylor, o
governo iniciou as medidas legais necessárias para destruir a base econômica da
igreja. O procurador-geral dos EUA entrou com uma ação no Supremo Tribunal de
Utah contra a corporação da igreja e a Perpetual Emigrating Fund Company. A igreja
respondeu às ações afirmando que seu status como corporação já havia sido
dissolvido em 1 de julho de 1862 pela Lei Anti-Bigamia de Morrill. A igreja
testemunhou que John Taylor havia descartado todas as propriedades da igreja, exceto
o suficiente para pagar suas dívidas, em ou antes de 28 de fevereiro de 1887. Essa
propriedade, com exceção da Praça do Templo, o escritório do presidente da igreja, a
fazenda da igreja em Salt Lake City e várias fazendas dos índios, havia sido
secretamente doada a várias pessoas de confiança em toda a igreja.
Quando as audiências sobre o assunto começaram em 17 de outubro de 1887, a
igreja tentou, sem sucesso, forçar o caso à Suprema Corte dos EUA. Enquanto isso,
em 5 de novembro, o marechal Frank H. Dyer foi nomeado recebedor da propriedade
da igreja e começou imediatamente a assumir a propriedade roubada.
Os líderes da igreja, espalhados por grande parte do oeste dos Estados Unidos e
do México, estavam confiantes de que, uma vez que o caso fosse apresentado à
Suprema Corte dos EUA, a propriedade seria devolvida. Enquanto isso, eles
continuaram seus esforços para alcançar o [status de] estado [para] Utah. Em janeiro
de 1888, a legislatura territorial de Utah promulgou um projeto de lei proibindo a
poligamia e exigindo que todos os casamentos fossem registrados publicamente no
escritório do secretário do condado apropriado. Pressões para abandonar a poligamia
[eram feitas], tanto de dentro como de fora da igreja. Alguns santos argumentaram
que, se os líderes da igreja de fato haviam interrompido a aprovação de casamentos
plurais, um anúncio público de tal prática deveria ser feito pelo seu valor em relações
públicas.
Amigos não mórmons da igreja aconselharam o abandono da poligamia. L. John
Nuttall, secretário da Primeira Presidência, anotou em seu diário de 19 de dezembro
de 1888 uma carta ao Presidente Woodruff de "amigos do Oriente", pedindo aos
membros da igreja que "adaptassem suas vidas às Leis do Congresso". A carta
procurou mostrar "razões pelas quais a igreja deveria renunciar abertamente à prática
da poligamia no futuro, [ou] até chegar a hora em que os santos possam praticar
novamente esse princípio de sua religião sem serem molestados". Após uma longa
discussão no Quórum dos Doze, "os irmãos foram muito enfáticos ao se oporem ou
aceitarem tal medida, [que] eles sentiram que não tinham vindo da fonte correta".
Woodruff então disse: "Você falou corretamente. Se tivéssemos aceitado essa
proposição, o Senhor teria nos rejeitado". Em palavras que ecoam na revelação de
1886 do Presidente John Taylor, Woodruff acrescentou: "A doutrina do casamento
plural veio para sempre" (John Henry Smith Journal, 20 de dezembro de 1888). [2]
O Presidente Woodruff estava confiante de que a situação seria resolvida por
uma decisão favorável da Suprema Corte ou pela conquista de um estado. Em uma
carta de 26 de fevereiro de 1889 a James Q. Broadhead, consultor jurídico da igreja,
Woodruff comentou o resumo jurídico que Broadhead havia preparado em defesa da
posição da igreja: "Eu nunca li um argumento mais forçado e sem resposta em minha
vida sobre qualquer. Certamente vai exigir algo mais do que sofismo de homens sem
princípios para anular o baluarte de ferro da lei constitucional e fundamental que você
colocou diante deles." Woodruff estava convencido de que a Suprema Corte não
poderia, em face de um argumento inatacável, "tentar enganar e confiscar as
propriedades reais e pessoais dos santos dos últimos dias. Se o fizerem, eu temo pelo
meu país".
Woodruff escreveu sobre sua esperança do Estado de Utah a seu bom amigo
William Atkin em 18 de março de 1889: "Agora somos, politicamente falando, uma
dependência ou ala dos Estados Unidos; mas, na qualidade de Estado, estaríamos
livres dessa dependência; e possuiria os poderes e a independência de um Estado
soberano, com autoridade para fazer e executar nossas próprias leis". O Presidente
Woodruff então refletiu sobre sua expectativa de que o governo federal entraria em
colapso em breve: "Em caso de perturbação do governo geral, seríamos
independentes de todos os poderes terrestres e vestidos com autoridade legal e divina
para assumir a posição na terra que Deus projetou ou pode nos projetar para
preencher esse evento." [3]
Apesar de toda a firmeza de suas esperanças, Woodruff, diferentemente de seu
antecessor John Taylor, não desejava antagonizar o governo por meio de ações
desafiadoras ou retórica pública inflamatória enquanto a questão do Estado estava
sendo debatida. A questão foi tão sensível durante seu governo que ele repreendeu o
historiador assistente da igreja Andrew Jenson em 6 de agosto de 1887 por publicar
uma lista das conhecidas esposas plurais de Joseph Smith. "Não achamos que seja um
passo sábio dar esses nomes ao mundo atualmente, da maneira que você fez neste
'Registro Histórico'. Pode-se tirar vantagem de sua publicação e, em alguns casos, do
prejuízo, talvez, de famílias ou parentes daqueles cujos nomes são mencionados".
Woodruff, embora não participou da Conferência Geral de abril de 1888, chegou ao
ponto de instruir o presidente dos apóstolos, Lorenzo Snow, que "se alguém tentasse
falar sobre poligamia para jogar seu chapéu nele"[cortá-los]. Snow esqueceu ou
ignorou o conselho, e o popular Rudger Clawson, recém-libertado da prisão,
defendeu a doutrina antes dos [outros] participantes da conferência [falarem].
"Ficamos consideravelmente irritados", escreveu Woodruff mais tarde a dois líderes
da igreja, "para não dizer humilhado, pela falta de cuidado que se manifestou ao
advertir os irmãos que falaram em não tocar em tópicos que, atualmente,
provavelmente despertariam o preconceito" (Woodruff á Richards por Penrose). [4]
Em seus esforços para reduzir ainda mais os atritos contra Utah, Woodruff
começou a recusar a permissão para casamentos plurais logo após organizar a
Primeira Presidência em abril de 1889. Ele não informou seu primeiro conselheiro,
George Q. Cannon, dessa decisão até o outono. Perguntado pelo presidente da estaca
sobre o que fazer com o casamento plural, Cannon registrou em seu diário de 9 de
setembro que Woodruff disse: "Sinto que não é apropriado que nenhum casamento
desse tipo seja realizado no território no momento". Cannon então observou que
Woodruff "sugeriu, no entanto, que tais casamentos poderiam ser solenizados no
México ou no Canadá". Cannon escreveu que essa foi a "primeira vez que algo desse
tipo foi proferido ao meu conhecimento, por alguém portando as chaves [do
sacerdócio]" (Quinn 1985, 36).
Um sentimento estava se desenvolvendo entre muitos de que a igreja estava
finalmente se curvando às exigências do governo em relação à poligamia. Esse
sentimento foi acentuado em 20 de outubro de 1889, quando Woodruff foi citado no
Salt Lake Tribune dizendo: "Recusei-me a dar recomendações para a realização de
casamentos plurais desde que fui [colocado como] presidente (...) e instruí que eles
não deveriam ser casados em solenidades." Uma semana depois, o jornal Salt Lake
Herald, de 27 de outubro de 1889, perguntou a Woodruff: “Qual é a atitude da igreja
em relação à lei que proíbe a poligamia?". Woodruff respondeu: "Pretendemos
obedecê-la. Não pensamos em evitá-la ou ignorá-la. Reconhecemos as leis como
obrigatórias para nós. Recusei-me a dar recomendações para a realização de um
casamento plural desde que fui presidente."
John W. Young e outros indivíduos influentes procuraram, durante esse período
tenso, influenciar Woodruff a fazer um anúncio oficial mais direto de que ele não
estava mais autorizando casamentos plurais. Depois que Young se encontrou com
Woodruff e os advogados da igreja, pelo menos um indivíduo temeu que o presidente
da igreja tivesse sido convertido para a posição de Young. L. John Nuttall, secretário
da Primeira Presidência, observou em seu diário de 24 de novembro [de 1889]:
"Quando o Presidente Woodruff começou a conversar comigo esta noite, senti que ele
havia se convertido e [eu] realmente tremia [,] porque sabia que isso não acontecia
aos sentimentos do Pres. Woodruff antes". Woodruff procurou orientação de seus
conselheiros, mas ambos se recusaram a aconselhá-lo sobre o assunto. O apóstolo
Abraham H. Cannon escreveu em seu diário de 19 de dezembro de 1889 que
Woodruff "colocou o assunto diante do Senhor". "A resposta veio rápida e forte",
observou ele na revelação de Woodruff, em 24 de novembro: "A palavra do Senhor
era que não produzíssemos uma partícula daquilo que Ele havia revelado e
estabelecido. Ele havia feito e continuaria a cuidar de Seus trabalhos e aos santos que
eram fiéis, e não precisamos ter medo de nossos inimigos quando estávamos no
cumprimento de nosso dever. Temos a promessa de redenção e libertação se
confiarmos em Deus e não no braço da carne".
No oitavo quarto aniversário do nascimento do profeta Joseph Smith, em 23 de
dezembro de 1889, os mórmons observaram um dia de jejum e oração em toda a
igreja, buscando a intervenção de Deus em favor deles. Os líderes da Igreja apelaram
à nação por maior compreensão e tolerância. O Presidente Woodruff, visto por alguns
de seus colegas como um pescador melhor que administrador, estava profundamente
ciente da posição precária da igreja no final de 1889. Ele escreveu em seu diário na
véspera de Ano Novo: "Assim termina o ano de 1889. A palavra do Profeta Joseph
Smith está começando a ser cumprida de que toda a Nação se voltaria contra Sião e
faria guerra contra os Santos. A nação nunca esteve tão cheia de mentiras contra os
Santos até o Dia. 1890 será um ano importante para Santos dos Últimos Dias e [para
a] nação [norte-]americana " (Kenney 9 [31 de dezembro de 1889]: 74).
A declaração de Woodruff foi profética. Em 19 de maio de 1890, a decisão da
Suprema Corte em The Late Corporation da Igreja de Jesus Cristo vs Estados Unidos
confirmou a apreensão de propriedades da igreja pelo governo federal. Talvez
sentindo que os dias da poligamia estavam contados, Woodruff secretamente
autorizou pelo menos 23 casamentos plurais entre dezembro de 1889 e 7 de junho de
1890 (Quinn 1985, 41). Ao mesmo tempo, os líderes da igreja iniciaram várias táticas
destinadas a promover o [território em] estado e, assim, salvar a igreja dos efeitos das
manobras legais do governo. Seguindo o conselho dos líderes de ambos os principais
partidos políticos dos EUA, as autoridades da igreja começaram a dissolver o Partido
Popular patrocinado pela igreja e incentivaram os santos a se dividirem ao longo das
linhas partidárias nacionais. Nas eleições realizadas em fevereiro, o Partido Liberal
não-mórmon local conquistou a maioria das cadeiras de Salt Lake City. Pela primeira
vez na história de Salt Lake City, o controle político da cidade mórmon caiu em mãos
"gentias".
A igreja sofreu um golpe impressionante no final do mesmo mês, quando a
Suprema Corte confirmou a constitucionalidade do juramento de teste em Idaho, que
privou os mórmons de Idaho. Os liberais de Utah [que não eram mórmons]
imediatamente procuraram a privação de todos os mórmons em seu território,
enviando Robert Baskin para a capital do país com um documento rapidamente
elaborado com base na lei de Idaho. Essa legislação, que ficou conhecida como
Projeto Cullom-Strubble, teve como objetivo retirar de todos os mórmons de Utah
seus direitos como cidadãos [norte-]americanos.
Os líderes da igreja rapidamente formularam oposição ao projeto de lei Cullom-
Strubble. Em abril, Woodruff declarou que nenhum casamento plural poderia ocorrer
"mesmo no México, a menos que as partes contratantes ou pelo menos a mulher
decidisse permanecer naquele país" (Abraham H. Cannon Journal, 10 de abril de
1890), [5] e em 3 de maio o jornal Deseret Evening News publicou que "a prática da
poligamia foi suspensa mas não suprimida". Além da retórica, foi organizado um
fundo de defesa, e George Q. Cannon chefiou uma delegação a Washington para fazer
lobi contra a aprovação do projeto de lei. Os lobistas profissionais e juízes Jeremiah
M. Wilson e A. B. Carlton, ex-presidente da Comissão de Utah, também foram
contratados para defender a posição da igreja. Frank J. Cannon, um emissário pessoal
de seu pai, George Q., procurou audiência com vários republicanos influentes. O
secretário de Estado James G. Blaine, amigo de Cannon, concedeu-lhe uma
entrevista. "O Senhor dá e tira", comentou Blaine profeticamente na conclusão da
discussão. "Não seria possível ao seu povo encontrar uma maneira , sem
desobediência aos mandamentos de Deus, de se harmonizar com a lei e as instituições
deste país?" "Acredite em mim", acrescentou o político astuto, "não é possível que
pessoas tão fracas em número quanto a sua se estabeleçam superiores à majestade de
uma nação como essa. Podemos conseguir desta vez impedir sua privação de
liberdade; mas nada permanente pode ser feito até você entrar na fila". [6]
Blaine redigiu uma declaração que ele instou os líderes da igreja a adotar. O
apóstolo Abraham H. Cannon observou em seu diário de 12 de junho que Woodruff
"me mostrou um documento que o secretário de Estado, Blaine, havia preparado para
as principais autoridades da Igreja assinarem, renunciando virtualmente ao casamento
plural". Cannon descobriu que seus "sentimentos se revoltaram ao assinar esse
documento". Outros aparentemente se sentiram da mesma maneira, e o documento
não foi endossado pelos líderes da igreja. Enquanto isso, a Comissão de Utah, que
recomendou a exclusão de todos os mórmons, sejam eles polígamos ou não, e emitiu
um "Relatório Anual" de 22 de agosto de 1890 ao Departamento do Interior,
apontando que a negação "autorizada e explícita" da poligamia havia sido feita por
líderes da igreja. A comissão considerou que essas declarações seriam aceitas pela
maioria dos mórmons sem questionar e em breve seria alcançado um "acordo a muito
discutida 'questão mórmon'". Mais desconcertantemente, no entanto, o relatório
observou que "quarenta e um homens ... entraram na relação poligâmica, em seus
vários distritos, desde a revisão de junho de 1889".
Este documento foi um problema para os líderes da igreja que declararam
publicamente que não estavam mais aprovando casamentos plurais. E o tempo estava
acabando em Washington. Frank J. Cannon retornou da capital e informou o
Presidente Woodruff que havia repetido a importantes líderes do congresso a
promessa que seu pai havia feito de que "algo será feito". Ele enfatizou que foi a
promessa de George Q. Cannon que tornou possível que o projeto Cullom-Strubble
fosse "retido, com a certeza de que nunca se tornaria lei se encontrássemos a nação
no meio do caminho". "Para ser muito claro com você", disse o jovem Cannon ao
presidente da igreja, "nossos amigos esperam, e o país insistirá, que a Igreja ceda à
prática do casamento plural". "Eu esperava", respondeu Woodruff tristemente, "não
teríamos que enfrentar esse problema dessa maneira. Você sabe o que isso significa
para o nosso povo. Eu esperava que o Senhor pudesse abrir a mente do povo desta
nação para o verdade (...) Nossos profetas sofreram como os da antiguidade, e eu
pensei que as perseguições a Sião eram suficientes - para que trouxessem outra
recompensa além desta" (Cannon e Higgins 1911, 103-11).
Em 3 de agosto de 1890, o Presidente Woodruff e vários outros iniciaram uma
viagem de 2.400 milhas para visitar os santos em Utah, Wyoming, Colorado, Novo
México e Arizona. O líder de 83 anos conseguiu ver em primeira mão as terríveis
circunstâncias dos santos poligâmicos. Pouco depois de voltar dessa extensa viagem,
Woodruff e George Q. Cannon deixaram Salt Lake City para a Califórnia. O Partido
Republicano chegou recentemente ao poder com a eleição de Benjamin Harrison, e os
líderes da igreja discutiram a posição mórmon com os intermediários republicanos do
poder em San Francisco. Eles conversaram com o juiz Morris M. Estee, presidente
nacional republicano, e em algum momento o agente da igreja Isaac Trumbo, o
senador dos EUA Leland Stanford, Henry Biglow, do San Francisco Examiner, e
vários outros. As reuniões foram cruciais não apenas para a igreja, mas para
funcionários do Partido Republicano que conheciam os mórmons e mantinham um
potencial equilíbrio de poder político em vários estados do oeste. Estee prometeu
apoio republicano ao estado de Utah, mas afirmou que "mais cedo ou mais tarde" a
igreja teria que fazer um anúncio oficial "a respeito da poligamia e a retirada dela".
George Q. Cannon, escrevendo os comentários de Estee em seu diário de 12 de
setembro de 1890, preocupou-se com a "dificuldade de escrever um documento assim
- o perigo que haveria de dizermos muito ou pouco" (Quinn 1985, 43).
Woodruff e Cannon chegaram de volta a Salt Lake City e encontraram um
telegrama dos agentes da igreja em Washington em 18 de setembro, informando-os
de que o relatório desfavorável da Comissão de Utah ao Secretário do Interior
provavelmente resultaria na aprovação de projetos de lei mais explícitos. O
documento compeliu uma resposta decisiva. Três dias depois, em 24 de setembro,
Woodruff e Cannon se encontraram com o conselheiro Joseph F. Smith e três
membros do Conselho dos Doze "para um assunto importante". Um membro do
Bispado Presidente, John E. Winder, disse mais tarde que, quando Woodruff entrou
na reunião, comentou que não dormira muito durante a noite. "Eu lutei a noite toda
com o Senhor", ele relatou, "sobre o que deve ser feito sob as circunstâncias
existentes da igreja". Colocando alguns papéis em uma mesa, ele disse: "Aqui está o
resultado". George Q. Cannon acrescentou em seu diário de 24 de setembro: "Esse
assunto está no próprio caso do Presidente Woodruff. Ele se sentiu fortemente
impelido a fazer o que tem [que fazer] e falou com grande clareza aos irmãos a
respeito da necessidade de algo desse tipo que está sendo feito, ele declarou que o
Senhor havia deixado claro para ele que esse era seu dever, e ele sentiu perfeitamente
claro que era a coisa certa".
Frank J. Cannon, que aparentemente foi convidado para a reunião do dia 24 de
setembro, descreveu mais tarde o cenário. "Os retratos em óleo dos presidentes
mortos, mártires e profetas da Igreja nos olhavam da fachada de uma pequena
galeria." Parado contra o pano de fundo das pinturas, Woodruff parecia ser "tão velho
e de outro mundo", observou Cannon, "que ele já parecia mais o círculo deles do que
o nosso. (...) Ele chamou os irmãos (ele disse) para submeter uma decisão à
consideração deles, e ele desejou deles uma expressão de sua disposição em aceitá-la
e cumpri-la".
[Então] Woodruff forneceu uma breve história dos sofrimentos dos santos
polígamos em oposição aos regulamentos do governo e declarou que os tribunais
haviam decidido "contra nós". Ele então apontou, de acordo com o relato de Frank
Cannon, que "o irmão George Q. Cannon, o irmão John T. Caine e os outros irmãos
que estiveram em Washington descobriram que a situação da igreja era crítica. O
irmão Franklin S. Richards havia avisado que nossa última defesa legal havia caído."
Com "espírito quebrado e contrito", o Presidente Woodruff havia buscado a vontade
do Senhor, e o Espírito Santo havia revelado que era necessário que a igreja
abandonasse a prática daquele princípio pelo qual os irmãos deram suas vidas."
Após um breve período de silêncio, Woodruff pediu ao grupo reações
individuais. "O assunto agora está diante de você", ele disse: "Quero que você fale
enquanto o Espírito o move." Quando ninguém falou, Woodruff pediu ao conselheiro
George Q. Cannon que o respondesse. Após seus comentários de apoio, vários
homens fizeram perguntas. Esta decisão significou a cessação absoluta do casamento
plural? Eles seriam obrigados a interromper o convívio com suas esposas e famílias?
De acordo com o relato de Frank J. Cannon, a resposta para essas duas perguntas foi
afirmativa.[7] Woodruff explicou que os agentes da igreja em Washington não viam
outra solução para o problema e "que era a vontade do Senhor; que devemos nos
submeter". " "Vi seus rostos corarem e depois lentamente empalideceram novamente
- e [então] a tempestade estourou", relatou Cannon. "Um após o outro, eles se
levantaram e protestaram, com voz rouca, na voz de lágrimas, que estavam dispostos
a sofrer 'perseguição até a morte' em vez de violar os convênios que haviam feito 'em
lugares sagrados' com as mulheres que confiavam neles."
Depois que cada homem teve a oportunidade de se expressar, George Q. Cannon
se dirigiu novamente ao grupo. Ele analisou os esforços mal sucedidos do
departamento jurídico da igreja e concluiu que, como "cidadãos de uma nação,
éramos obrigados a obedecer às leis. E quando descobrimos, pela mais alta
interpretação judicial de estatuto e constituição, que não tínhamos fundamento para
nosso pedido de imunidade religiosa, tínhamos apenas a alternativa de desafiar o
poder de toda a nação ou de nos submeter à sua autoridade". Cannon declarou-se
"disposto a fazer a vontade do Senhor. E como o Profeta de Deus, após um longo
período de oração, havia submetido essa revelação como a vontade do Senhor, estava
pronto para o sacrifício" (Cannon e Higgins 1911, 96-98).
Naquela tarde, Woodruff enviou um comunicado a imprensa ao jornal
Associated Press em Chicago. No dia seguinte, ele enviou um telegrama semelhante
ao delegado do congresso de Utah, John T. Caine, e ao secretário da Primeira
Presidência L. John Nuttall, em Washington. Nuttall trabalhou na semana seguinte
para imprimir e distribuir mais de mil cópias do comunicado de imprensa ao
"Presidente, Gabinete, Senado e Câmara dos Representantes e outros líderes".
Negando o relatório da Comissão de Utah de que os casamentos plurais ainda
estavam sendo incentivados e solenizados, Woodruff anunciou a mudança de política
que há muito tempo era procurada por funcionários do governo: 'Na medida em que
as leis foram promulgadas pelo Congresso proibindo casamentos plurais, cujas leis
foram declaradas constitucionais em última instância, declaro minha intenção de me
submeter a essas leis e de usar minha influência com os membros da Igreja sobre os
quais presido que eles façam o mesmo. (...) E agora declaro publicamente que meu
conselho aos santos dos últimos dias é abster-se de contrair qualquer casamento
proibido pelas leis da terra".
Notas:
1 – Carta de Caleb West ao Departamento de Interior, outubro de 1888.
2 – Na dedicação do Templo de Manti, UT, em 17 de maio de 1888, Woodruff proclamou que
"não vamos parar a prática do casamento plural até a vinda do filho do homem" (John Henry Smith
Journal).
3 – [O lago] Atkin, base de uma vila unifamiliar em Bloomington (perto de St. George), Utah,
em várias ocasiões deu a Woodruff refúgio para escapar dos marechais dos EUA. Grace Atkin
Woodbury lembrou que Woodruff, um ávido homem ao ar livre, para escapar da detecção
costumava caçar com uma touca e vestido de [uma mulher] chamada Hubbard. Durante um período
de três meses em casa, em 1887, o apóstolo de oitenta anos fez mais de quarenta visitas ao lago
Atkin. Este pântano perto do rio Virgin, cercado por taboas e juncos, não só servia para boa pesca e
caça ao pato, mas também servia como um excelente esconderijo quando os delegados federais
estavam nas proximidades. Em uma dessas ocasiões, Woodruff foi alertado e a família local
rapidamente o carregou, com seu rolo de cama, comida e água, livros e seu equipamento de pesca
em um barco grande. Grace Woodbury lembrou que "quando o perigo passou, William [Atkin] saiu
para o lago, fez um barulho como um pato e Woodruff gritou em resposta" (Mulder e Mortensen
1958, 411-15).
4 – Clawson anunciou corajosamente em sua conferência que "se o evangelho vale alguma
coisa para nós, vale tudo. Não há sacrifício que possamos fazer por isso que deve ser muito grande.
Devemos estar dispostos a ir para a prisão pela verdade". (Deseret News, 17 de abril de 1888.)
5 – Angus M. Cannon, irmão de George Q. Cannon e presidente da Estaca de Salt Lake, em
1888, testemunhou ante um comissário americano e explicou que a igreja não mais "sancionava"
casamentos plurais. Quando perguntado quando essas práticas foram descontinuadas, ele respondeu:
"Acho que deve demorar um ano, quase um ano, não muito, já que as pessoas que se inscreveram
foram recusadas". Para a pergunta: "Essa recusa ocorre apenas desde a morte do Presidente Taylor",
Cannon respondeu: "Entendi que ela existia antes da morte dele, mas não tinha consciência disso.
Não tive ocasião de assinar nenhum casamento recomendado por algum tempo "(Relatório da
Comissão de Utah, 24 de setembro de 1888).
6 – O relato de Frank J. Cannon nesta declaração é retirado de Cannon e Higgins, 1911.
Cannon, embora amistoso com o mormonismo na época, foi excomungado em 14 de março de 1905
por "conduta e apostasia não cristã". Como editor do Salt Lake Tribune, Cannon lançou uma série
de editoriais críticos contra os líderes da igreja, mais particularmente contra o Presidente Joseph F.
Smith. Para detalhes sobre a vida de Frank J. Cannon, veja Van Wagoner e Walker 1980, 44-48.
7 – Se Cannon relatou corretamente a resposta a esta segunda pergunta, os líderes da igreja
logo mudaram de posição. Seis dias após o lançamento do Manifesto, durante uma reunião do
Quórum dos Doze, o apóstolo Francis M. Lyman disse: "Eu apoio o Manifesto e sinto que ele fará o
bem. Eu pretendo viver e ter filhos com minhas esposas, usando a sabedoria que Deus me deu para
evitar ser capturado pelos oficiais da lei". E durante uma reunião do quórum de 1º de outubro, o
apóstolo John Henry Smith disse: "Não consigo dizer que o Manifesto está certo ou errado. Pode ser
que as pessoas não sejam dignas do princípio e, portanto, o Senhor o retirou. Não posso consentir,
deixar de viver com minhas esposas, a menos que eu esteja preso "(Abraham H. Cannon Journal,
30 de setembro e 1 de outubro de 1890). Para uma discussão mais aprofundada sobre a questão não
resolvida da coabitação pós-Manifesto, veja ainda neste livro sobre 19 de outubro de 1891.
Capítulo 2
Interpretando Woodruff
A reação mórmon ao "Manifesto de Wilford Woodruff", quando o comunicado à
imprensa ficou conhecido posteriormente como confusa. O apóstolo Abraham H.
Cannon observou em seu diário de 26 de setembro de 1890 que havia "consideráveis
comentários e descobertas de falhas entre alguns dos santos". Muitos membros de
longa data da igreja, mergulhados na filosofia de que o casamento plural era essencial
para o mais alto grau de exaltação, se perguntavam sobre as conseqüências eternas do
anúncio. Apenas quatro anos antes, George Q. Cannon, em um poderoso editorial de
1 de maio de 1885 no jornal The juvenile Instructor, havia advertido contra a
"esperança vã e ilusória" de que o "povo de deus" renunciasse ao casamento plural.
"Cumprir o pedido de nossos inimigos", argumentou firmemente, "seria desistir de
toda esperança de jamais entrar na glória de Deus, o Pai, e Jesus Cristo, o Filho".
Cannon denunciou a "barganha cara" que os santos foram convidados a fazer: "Essa
doutrina preciosa está tão intimamente entrelaçada com a exaltação de homens e
mulheres no grande futuro que não pode ser abandonada sem abrir mão de toda a
esperança de glória imortal".
A ausência das assinaturas dos conselheiros da Primeira Presidência George Q.
Cannon e Joseph F. Smith no Manifesto também preocupou alguns santos. Outros se
perguntaram por que o documento começou com o incomum "A quem possa
interessar", em vez do autoritário "Assim diz o Senhor", geralmente associado a
pronunciamentos reveladores. O ceticismo fora do mormonismo, considerando as
dificuldades do passado, não era surpreendente. O Salt Lake Tribune de 26 de
setembro de 1890 comentou: "Não podemos resistir ao pensamento de que isso não
foi solicitado pelo Presidente Woodruff, mas que foi solicitado por homens astutos da
Igreja e que o objetivo é puramente político". O mesmo editorial acusou George Q.
Cannon teria provavelmente convencido Woodruff a emitir o Manifesto como uma
cortina de fumaça que "daria ao país a idéia de que abandonamos a poligamia por
causa de nosso respeito pelas leis". Em 27 de setembro, o Salt Lake Tribune declarou
que o "manifesto não era para ser aceito como um comando pelo Presidente da Igreja,
mas como um pouco de esquiva inofensiva para enganar o povo do Oriente".
O governador territorial Arthur L. Thomas, um forte crítico da poligamia
mórmon, também viu o Manifesto com ceticismo. "O sentimento geral é uma
esperança de boa fé", ele foi citado no Deseret News de 30 de setembro, “pois muitas
coisas levam a dúvidas". Ele observou que a declaração "não vem no canal usual" e
que, embora a submissão à lei tenha sido aconselhada, "não há liminar para obedecer
às leis". Ele acrescentou que o Manifesto não abordou a questão da coabitação ilegal,
nem disse se "a poligamia está errada ou a lei está certa". O Tribune de 2 de outubro
resumiu a reação: "Nenhum gentio em Utah acredita que [o Manifesto] seja o que
pretende ser ou o que o mundo exterior acredita que seja".
Mas, para a imprensa da igreja, o significado do Manifesto era claro. "Qualquer
pessoa que chamar a linguagem da declaração do Presidente Woodruff” como
"indefinida", como descreveu o jornal [da igreja] Deseret Evening News em 30 de
setembro "deve ser extremamente densa ou determinada a encontrar falhas. É tão
definitivo que seu significado não pode ser confundido por qualquer pessoa que
entende inglês simples". Em 3 de outubro, o jornal acrescentou: "Nada poderia ser
mais direto e inequívoco do que a linguagem do Presidente Woodruff". Quanto à sua
parte no comunicado de imprensa, Woodruff escreveu em seu diário de 25 de
setembro: "Cheguei a um ponto da história de minha vida como Presidente da Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, onde estou sob a necessidade de agir
pela salvação temporal da Igreja. O governo dos Estados Unidos tem tomado uma
posição e aprovou leis para destruir os santos dos últimos dias sobre a subjeição da
poligamia ou ordem patriarcal do casamento. E depois de orar ao Senhor e me sentir
inspirado por seu espírito, emiti a seguinte proclamação, sustentada por meus
conselheiros e os 12 apóstolos". (Kenney, 9 [25 de setembro de 1890]: 113-14).
Quanto ao texto, o Manifesto continha várias declarações incorretas. Por
exemplo, os casamentos plurais reivindicados pela Comissão de Utah e negados no
texto do Manifesto já foram bem documentados. E havia apenas três apóstolos
presentes na reunião do conselho de 24 de setembro para sustentar a declaração do
Presidente Woodruff: Marriner W. Merrill, F. D. Richards e Moses Thatcher
(Marriner Wood Merrill Journal, 6 de outubro de 1890). [1] A aceitação total da
Primeira Presidência e do Quórum dos Doze não ocorreu até 2 de outubro e somente
após três dias de prolongado debate. O apóstolo John Henry Smith relatou que os
apóstolos Lorenzo Snow, Franklin D. Richards, Moses Thatcher e Francis Lyman
imediatamente aprovaram o Manifesto quando o quórum completo se reuniu em 30
de setembro. Mas outros, incluindo o próprio Smith, "não foram muito claros" (John
Henry Smith Journal, 30 de setembro de 1890). O apóstolo John W. Taylor, apesar de
reconhecer "a mão do Senhor" na ação, permaneceu inquieto sobre o assunto. "Meu
pai, quando presidente da Igreja", disse ele, "procurou encontrar uma maneira de
escapar do conflito entre os santos e o governo na questão do casamento plural, mas o
Senhor disse que era uma lei eterna e imutável e deveria permanecer" (Abraham H.
Cannon Journal, 30 de setembro de 1890).
Uma questão especialmente difícil de resolver foi a questão da coabitação
continuada com esposas plurais. Frank J. Cannon achou que Woodruff inicialmente
via o Manifesto como uma proibição futura de coabitação, mas George Q. Cannon,
durante uma reunião de 7 de outubro de líderes da igreja, enfatizou que "um homem
que atuará como covarde se aceitar o Manifesto e abandonar seus casamentos plurais
e as suas esposas forem condenadas." O próprio Woodruff acrescentou: "Este
Manifesto refere-se apenas a futuros casamentos e não afeta as condições do passado.
Eu não podia, nem prometia [à nação] que vocês abandonariam suas esposas e filhos.
Isso você não pode fazer em honra" (7 de outubro de 1890).
Outra questão não resolvida foi se o Manifesto deveria ser apresentado aos
santos para um voto de apoio na Conferência Geral. Abraham H. Cannon observou
em seu diário de 2 de outubro que "alguns achavam que o consentimento da
Presidência e dos Doze no assunto era suficiente sem comprometer o povo por seus
votos a uma política que eles poderiam no futuro descartar". Esta controvérsia não foi
resolvida até 5 de outubro. Abraham H. Cannon observou em seu diário que um
telegrama do representante John T. Caine foi lido para os líderes da igreja, indicando
que o governo "não podia aceitar o Manifesto do Presidente Wilford Woodruff sem
sua aceitação pela conferência como autoritativa contra as declarações do Comissão
de Utah e governador A. L Thomas."
No dia seguinte, George Q. Cannon, ao se dirigir aos santos reunidos na
Conferência Geral, usou Doutrina e Convênios 124:49 como base para seu pedido de
que o Manifesto fosse aceito pela igreja. Ele argumentou eloqüentemente que quando
Deus dá um mandamento e os santos são impedidos de cumpri-lo por "seus inimigos"
- nesse caso, o governo dos Estados Unidos -, então é para Deus aceitar sua oferta e
exigir que eles não vivam mais o mandamento. Depois que Cannon falou, Woodruff
assumiu a posição e garantiu a seus seguidores que ele não havia agido
apressadamente no assunto. "O passo que dei ao emitir o Manifesto não foi realizado
sem fervorosa oração diante do Senhor. (...) Não é prudente fazer guerra contra
sessenta e cinco milhões de pessoas. Não é prudente prosseguirmos cumprindo esse
princípio contra as leis da nação e receba as conseqüências. Isto está nas mãos do
Senhor e Ele o governará e controlará "(Cowley 1909, 570-71).
Após as observações de Cannon e Woodruff, Orson F. Whitney, um talentoso
poeta, músico e futuro apóstolo, leu o Manifesto para os santos reunidos. O silêncio
prevaleceu até que alguém da galeria pedisse uma segunda leitura. Após a solicitação,
o presidente do Quorum dos Doze, Lorenzo Snow, propôs que a declaração fosse
aceita como "autoritária e obrigatória". Muitos dos milhares presentes se abstiveram
de votar. O apóstolo Marriner W. Merrill observou em seu diário de 6 de outubro que
a moção foi "levada por uma voz fraca, mas aparentemente unânime". Eventos
futuros deveriam mostrar que o consentimento dos líderes e leigos da igreja era tudo
menos unânime, no entanto. "Ficamos todos muito surpresos", lembrou a esposa
plural Lorena Eugenia Washburn Larsen. “Parecia impossível que o Senhor voltasse a
um princípio que causara tanto sacrifício, dor de cabeça e provação.” Descrevendo o
que deve ter sido a angústia de muitos santos, ela acrescentou: “Eu pensava que se o
Senhor e a igreja as autoridades haviam voltado a esse princípio, não havia nada em
nenhuma parte do evangelho. Imaginei poder ver a mim e aos meus filhos, e muitas
outras mulheres esplêndidas e suas famílias à deriva, e nosso único objetivo ao entrar
nela era servir mais plenamente ao Senhor. Afundei-me na cama e desejei,
angustiada, que a terra se abrisse e engolisse eu e meus filhos. A escuridão parecia
impenetrável "(Bergera, 1977).
Outros, no entanto, evidentemente sentiram que a luz finalmente chegara. Annie
Clark Tanner, que, como muitas outras mulheres, sofreu um casamento infeliz como
segunda esposa, registrou que, quando ouviu falar do Manifesto pela primeira vez,
"um grande alívio veio sobre mim. (...) Naquele momento, comparei meus
sentimentos de alívio com o experiência que se tem quando o primeiro raiar do dia
vem depois de uma noite de cuidadosa vigilância sobre um paciente doente. Nessas
horas, a luz do dia nunca é mais bem-vinda; e agora o amanhecer estava surgindo
para a Igreja enfim, que se nossa Igreja tivesse algo que valesse a pena para a
humanidade, seria melhor trabalhar com o governo de nosso país do que contra ele"
(Tanner 1976, 130).
A questão de saber se o Manifesto era uma manifestação divina ou um ardil
político destinado a "derrotar o diabo em seu próprio jogo" tem sido objeto de debate
há muito tempo. George Q. Cannon, durante a Conferência Geral de 6 de outubro,
explicou aos santos: "Esperamos que o Senhor se movesse no assunto; e no dia 24 de
setembro, o Presidente Woodruff decidiu que escreveria algo, e ele tinha o espírito
disso. Ele orou sobre isso e rogou a Deus repetidamente para lhe mostrar o que fazer.
Naquele momento o Espírito veio sobre ele, e o [Manifesto] foi o resultado"
(Conference Reports, outubro de 1890). O próprio Woodruff, em uma reunião da
Primeira Presidência em 20 de agosto de 1891, advogados da igreja e alguns
apóstolos, disse: "Irmãos, você pode chamar isso de inspiração ou revelação, ou o que
quiser; quanto a mim, estou satisfeito de que é do Senhor "(Quinn 1985, 50).
Mas muitos líderes da igreja viam o Manifesto como uma proclamação
puramente política. O apóstolo Marriner W. Merrill, por exemplo, observou em seu
diário: "Não acredito que o Manifesto tenha sido uma revelação de Deus, mas foi
formulado pelo Presidente Woodruff e endossado por Seus conselheiros e pelos Doze
Apóstolos por conveniência" (em Bitton Guide 238). E o conselheiro Joseph F. Smith,
respondendo à pergunta de Heber J. Grant em 21 de agosto de 1891 sobre se o
Manifesto era uma revelação, respondeu: "Não". Smith explicou que considerava o
documento inspirado, dadas as condições impostas pelo governo à igreja. Mas "ele
não acreditava que fosse uma revelação enfática de Deus abolir o casamento plural"
(Quinn 1985, 83). No entanto, Woodruff, apesar das ações contraditórias
subseqüentes, disse em 21 de outubro de 1891 que "o manifesto era tão autoritário e
obrigatório como se tivesse sido dado na forma de 'Assim diz o Senhor'".
O que quer que tenha inspirado o documento, o Manifesto não produziu a
mudança abrupta na posição da igreja que os Mórmons hoje tendem a imaginar. John
Taylor e Wilford Woodruff já haviam começado a autorizar menos casamentos
plurais. Woodruff declarou em 19 de outubro de 1891 em testemunho a corte:
"Depois que fui nomeado presidente da Igreja, examinei a questão e (...) estava
convencido de que (...) o casamento plural teria que ser interrompido nessa igreja
completamente; que estavam sofrendo, mas uma grande parte do povo, que não havia
entrado nela". Ele testemunhou ainda que "depois que fui nomeado presidente da
igreja - eu não advoguei o princípio (...) foi por esse motivo que dei esse manifesto,
por dizer, como o via, por inspiração: eu acreditava nisso era meu dever".
Woodruff, talvez mais pragmático e certamente menos combativo que John
Taylor, reconheceu a necessidade de mudar a posição pública da igreja sobre a
poligamia. A oposição contínua ao governo era claramente imprudente. O governo
tinha o poder e a determinação de destruir a influência da igreja no território, se não
capitulasse publicamente a questão da poligamia.
Woodruff defendeu suas ações em várias declarações públicas. Seu sermão a um
grupo de santos em Logan, relatado no Deseret Evening News de 7 de novembro de
1891, colocou a questão na forma de uma pergunta: "Qual é o caminho mais sábio
para os santos dos últimos dias seguirem - para continuar a tentar praticar casamento
plural com as leis da nação contra ela e a oposição de sessenta milhões de pessoas, e
ao custo do confisco e da perda de todos os templos e da interrupção de todas as
ordenanças nelas, tanto para os vivos quanto para os mortos, e a prisão da Primeira
Presidência e dos Doze e os chefes de família na igreja ou depois de fazer e sofrer o
que temos através de nossa adesão a esse princípio para cessar a prática e nos
submeter à lei?" Woodruff insistiu que o Senhor havia lhe mostrado "por visão e
revelação exatamente o que aconteceria se não parássemos essa prática. Ele me disse
exatamente o que fazer, e qual seria o resultado se não o fizéssemos." O presidente da
igreja foi inflexível quanto à natureza revelada da decisão: "Eu deveria ter deixado
todos os templos sair de nossas mãos; eu deveria ter ido para a prisão sozinho e
deixar todos os outros irem para lá, se o Deus do céu não tivesse me mandado fazer o
que eu fiz."
A antecipação de Woodruff ao milênio, sem dúvida, influenciou seu tempo na
emissão do Manifesto. Ele estava convencido de que manter os templos da igreja,
onde as ordenanças dos vivos e dos mortos podiam ser realizados, era "mais
importante do que continuar a prática do casamento plural para o presente" (Marriner
Wood Merrill Diary, 6 de outubro de 1890).[2] Os mórmons tinham há muito tempo
ensinado que Joseph Smith estabeleceu o "Reino de Deus" para se preparar para a
iminente segunda vinda de Cristo. O reino político, incorporado no Conselho dos
Cinqüenta, havia deixado de funcionar. Se Woodruff permitisse que o reino espiritual,
a igreja, fosse sacrificado pelo casamento plural, não haveria organização para
preparar a vinda de Cristo.
Ainda havia dimensões políticas definidas também no Manifesto. Em
declarações públicas, a Primeira Presidência aconselhou em particular que o
casamento plural não deveria ser abandonado, nem os polígamos deveriam
interromper os relacionamentos concubinais com suas esposas plurais. Embora
alguns líderes da igreja, como Lorenzo Snow, começaram a viver com apenas uma
esposa, a maioria continuou a violar o estatuto de coabitação ilegal. E até 1904
dezenas de novos casamentos plurais foram autorizados e realizados no México,
Canadá e até nos Estados Unidos.
Byron Harvey Allred foi evidentemente um dos primeiros indivíduos
autorizados a se casar com uma esposa plural após o Manifesto. Ele e sua primeira
esposa trouxeram para a conferência de outubro de 1890 uma mulher que ele
pretendia tomar como esposa plural. A adoção do Manifesto os colocou em uma
posição difícil, e eles procuraram aconselhamento da Primeira Presidência. O
Presidente Woodruff explicou que, devido ao acordo firmado pelo Manifesto,
nenhum casamento mais plural seria solenizado nos Estados Unidos e sugeriu que
Allred fosse onde a poligamia pudesse ser praticada sem violar a lei. Joseph F. Smith,
que também estava presente, aconselhou Allred que "muitos santos já haviam se
mudado para o México com esse mesmo objetivo, e outros estavam indo" (Allred,
1968, 199).
Embora a poligamia fosse ilegal na área do México onde os mórmons se
estabeleceram, as autoridades mexicanas, como observado anteriormente, não
aplicaram tais regulamentos. [3] Como presidente da igreja, Joseph F. Smith explicou
mais tarde como o Presidente Woodruff evitou duplicidade na autorização de novos
casamentos plurais fora de os Estados Unidos. Em um telegrama de 11 de abril de
1911 ao senador Reed Smoot, Smith, que serviu na Primeira Presidência por mais
tempo do que qualquer outro homem, verificou que: "O Presidente Cannon foi o
primeiro a conceber a idéia de que a Igreja poderia consistentemente aceitar a
poligamia além dos limites da república onde não havia lei contra isso e,
conseqüentemente, ele autorizou a solenização de casamentos plurais no México e no
Canadá após o manifesto de 1890 "(Coleção Smoot). [4] Walter M. Wolfe, ex-
membro do corpo docente da Academia Brigham Young, em depoimento perante o
Comitê do Senado Eleições e Privilégios, durante as audiências de Reed Smoot de
1904, explicou como o sistema funcionava. Por exemplo, Ovena Jorgensen, uma
estudante da Brigham Young Academy em 1898, foi com seu possível marido,
William C. Ockey, para solicitar a permissão do Presidente Woodruff para se casar
poligamicamente. Afastando-os com um aceno de mão, o presidente da igreja disse
que "ele não teria nada a ver com o assunto, mas os encaminhou ao presidente
George Q. Cannon". Eles receberam uma carta de Cannon ao presidente Anthony W.
Ivins, da Estaca Juarez no México, e foram posteriormente casados por ele no México
(Procedimentos 4:11).
Aparentemente, vários casamentos plurais realizados no México foram
aprovados pelo Presidente Woodruff no mês seguinte ao anúncio do Manifesto. Mas
em novembro ele parou temporariamente de assinar as recomendações porque, de
acordo com o diário de Abraham H. Cannon, em 2 de novembro de 1890, "um jovem
[Christian F. Olsen] que recentemente teve esse privilégio, voltou e permitiu que o
conhecimento fosse divulgado, e põe assim a igreja em perigo." No entanto, algumas
declarações do próprio presidente da igreja, bem como de outros membros da
Primeira Presidência, promoveram a coabitação continuada e novos casamentos
plurais na igreja. Durante uma reunião conjunta da Primeira Presidência e do Quórum
dos Doze, em 2 de abril de 1891, por exemplo, Woodruff anunciou que "o princípio
do casamento plural ainda será restaurado para esta igreja, mas como ou quando não
posso dizer" (Quinn 1985, 61).
Posteriormente, durante uma reunião de 7 de outubro de 1891 de líderes da
igreja com presidentes de estaca e bispos, Joseph F. Smith aconselhou: "Deus não
perdoará você se expulsar sua família e se insultar aos olhos de todos os homens de
bem. Nós não queremos que vocês deixem suas esposas por causa do Manifesto. Diga
ao seu povo para cuidar de suas famílias como sempre fizeram" (Abraham H.
Cannon Journal, 7 de outubro de 1891). Cannon observou ainda os trabalhos de uma
reunião conjunta do Quórum dos Doze e da Primeira Presidência no mesmo dia.
"Chegamos ao ponto em que percebemos que a poligamia não é mais uma lei da
igreja", escreveu ele, "e no que diz respeito às nossas famílias atuais, devemos apoiá-
las e honrá-las; embora, se vivermos com elas, seja por nossa conta e risco ".
As autoridades da igreja e os membros leigos, familiarizados com as declarações
particulares da Primeira Presidência, ficaram chocados ao lerem o testemunho de
outubro de 1891 de seus líderes perante o Juiz na Corte. Buscando obter o retorno das
propriedades tomadas da igreja, Woodruff, Cannon e Smith, todos testemunharam
que não apenas a poligamia havia cessado, mas a coabitação foi interrompida. O
testemunho de Woodruff foi particularmente aguçado. Questionado sobre qual era seu
"objetivo e propósito na emissão do manifesto", ele testemunhou que "era para
anunciar ao mundo que o casamento plural havia sido proibido pela igreja e que não
poderia ser praticado posteriormente". Seu testemunho foi explícito: "Pergunta:
Declare se seria contrário à lei da igreja, para qualquer membro da igreja entrar ou
contrair um casamento plural. Resposta: Seria contrário às leis da igreja. P: Qual seria
a penalidade R: Qualquer pessoa que entre em casamento plural após essa data será
excomungado da igreja. P: Você entende que essa declaração deveria ser expandida e
incluir uma declaração adicional de viver ou se associar no casamento plural por
aqueles que já estão no status? R: Sim, senhor; eu pretendia que a proclamação
cobrisse [todo] o terreno, mantivesse as leis, para obedecer à lei eu mesma, e
esperava que as pessoas obedecessem à lei. P: O manifesto pretendia aplicar-se à
igreja em todos os lugares? R: Sim senhor. P: Em todas as nações e todos os países?
R: Sim senhor; tanto quanto eu tinha um conhecimento sobre o assunto. P: Em
lugares fora dos Estados Unidos e também nos Estados Unidos? R: Sim senhor, não
temos liberdade para entrar nisso em qualquer lugar. P: A coabitação ilegal, como é
chamada e mencionada, também deve parar, bem como os futuros casamentos
polígamos? R: Sim senhor, essa tem sido a intenção. P: E essa tem sido sua opinião e
explicação sobre isso? R: Sim senhor, essa foi a minha opinião."
Charles Walker, um poeta de St. George, comentou o testemunho de Woodruff
em seu diário de 20 de outubro de 1891: "Este anúncio dele como Presidente da
Igreja, causou um sentimento desconfortável entre o povo, e alguns pensam que ele
voltou a Revelação sobre o casamento plural e seus convênios e obrigações " (Larson
and Larson 1980, 2: 723). Vários líderes da igreja encararam a situação da mesma
forma. Mas em uma reunião de 12 de novembro de líderes da igreja, Woodruff
explicou sua posição. O apóstolo Abraham H. Cannon registrou em seu diário que
Woodruff disse que "ele foi colocado em uma posição no banco das testemunhas que
não poderia responder além dele. No entanto, qualquer homem que deserte e
negligencie suas esposas ou filhos por causa do Manifesto deveria ser tratado em sua
comunhão." Cannon concluiu que "nossa conversa se resolveu com isso [:] que os
homens devem ter cuidado para não se exporem a prisão ou condenação por violação
da lei e, no entanto, não devem quebrar seus convênios com as esposas". [5]
A interpretação pública do Manifesto da Primeira Presidência diferia
consistentemente de seus sentimentos particulares. Em uma entrevista de 5 de
fevereiro de 1899 com o New York Herald, o presidente George Q. Cannon explicou
que se a esposa de um homem era estéril, ele poderia "ir ao Canadá e se casar com
outra esposa. Ele não estaria violando nossas leis e não estaria em perigo de
acusação, a menos que a primeira esposa o siga lá de Utah e prefira uma acusação de
bigamia contra ele. Ele pode ir ao México e ter uma cerimônia religiosa unindo-o a
outra que não viole nossa lei". Mas a questão envolveu mais do que "esposas
estéreis". Discutindo um caso específico ante o Quórum dos Doze no ano seguinte,
Cannon revisou qual era a postura da igreja em relação à "nova poligamia" após o
Manifesto. "Quando o Manifesto foi lançado", explicou, "não nos comprometemos a
abandonar nossas esposas plurais, nem mesmo deixamos de realizar casamentos
plurais fora do governo; e quando nosso povo tem a idéia de que nos vinculamos ao
mundo inteiro eles manifestam ignorância. Um homem pode ir a alguns países e não
violar suas leis casando-se com uma esposa plural e vivendo em casamento plural "
(JH, 16 de agosto de 1900). O secretário da Primeira Presidência, George F. Gibbs,
escreveu posteriormente que "o manifesto do Presidente Woodruff (...) não pretendia
aplicar-se ao México, e não o fez, pois a igreja não estava lidando com o governo
mexicano, mas apenas com nosso próprio governo" (Quinn 1985, 49).
A retórica dos líderes mórmons era obviamente auto-protetora. Como guardiões
da igreja, eles foram motivados a defender a instituição religiosa e seus princípios,
incluindo o casamento plural, a todo custo. Esse compromisso com o casamento
plural ditava repetidamente respostas situacionais a dilemas éticos desde o início da
década de 1830. O apóstolo Matthias F. Cowley, em testemunho perante o Quórum
dos Doze em 10 de maio de 1911, articulou a justificativa para tais duplicidades: "Eu
sempre fui ensinado que, quando os irmãos estavam em um momento apertado, não
seria errado mentir para ajudá-los. Um membro da Presidência da Igreja fez a
declaração há alguns anos de que ele mentiria como o inferno para ajudar seus irmãos
"(Atas).
Se a inspiração ou a conveniência política ou, mais provavelmente, ambos
motivaram o Manifesto, a ação diminuiu as tensões com o governo e apressou [a
constituição d]o estado [de Utah]. Com a igreja que se opunha publicamente à
poligamia, o governo não tinha motivos para continuar a punir os poligamistas. O juiz
Charles S. Zane, que havia processado tão firmemente os polígamos antes do
Manifesto, demonstrou em suas decisões judiciais que ele pretendia defender a lei,
mas não realizar uma vingança contra a igreja. Ele adotou uma política de clemência
com as que lhe foram apresentadas e apoiou a anistia geral para os condenados
anteriormente.
Um polígamo que se beneficiou do relaxamento da acusação do governo foi
Charles L. Walker. Respondendo ao juiz James A. Miner em 13 de setembro de 1892,
ele ouviu o funcionário ler a acusação "acusando-me do crime de coabitação ilegal
contra a paz e a dignidade do povo dos EUA". Walker se declarou "culpado da
acusação", mas prometeu obedecer à lei no futuro, após o que o juiz observou: "Sr.
Walker, eu vou denunciar seu caso com custos". Walker disse que estava "em
circunstâncias embaraçadas e não podia pagar os custos". O juiz respondeu que iria
considerar o caso da noite para o dia e pronunciar a sentença pela manhã. Diante do
juiz no dia seguinte, Walker detectou "um brilho brusco nos olhos", que ele
interpretou como "um presságio do bem". "Sr. Walker", declarou o juiz, "eu
considerei seu caso e vou absolve-lo com uma multa de 6 centavos". Caminhando
para a mesa do funcionário, o homem aliviado depositou um centavo. Quando
disseram que não havia mudança, Walker respondeu: "mantenha os 4 centavos em
interesse contra os EUA". (Larson and Larson 1980, 2: 749-50).
Tais decisões judiciais brandas contra os polígamos mórmons perturbaram
muitos dos inimigos da igreja. Mas a ação finalmente deu início a uma nova era de
relacionamentos mórmons positivos com não mórmons. Grande parte da atmosfera
política aprimorada pode ser atribuída diretamente à recém-formada lealdade dos
líderes da igreja ao partido republicano e à disposição de muitos gentios de aceitar o
mormonismo sem a poligamia.

Notas:
1 – O Manifesto também estava incorreto em vários outros pontos. Embora Woodruff possa
não estar ensinando ou advogando a poligamia, seus conselheiros e vários apóstolos o fizeram.
Como o Salt Lake Tribune em 3 de outubro de 1890, observou ironicamente: "Nossa lembrança é
que [Woodruff] diz que não sabe nada sobre esses casamentos. Ou seja, ele pessoalmente não deu
seu consentimento por escrito a eles. Ele não esteve presente nos casamentos. Ninguém lhe disse
desde então. Por isso, ele não sabe nada deles."
Em relação à explicação do Manifesto sobre por que a Casa das Investiduras foi demolida, o
Tribune de 2 de outubro [de 1890] observou corretamente que a alegação de que a "Casa das
Investiduras foi demolida porque não havia mais casamentos plurais, mas ninguém acreditava;
porque, a propósito, de fato, a Endowment House havia sido invadida por marechais dos Estados
Unidos e foi considerada contaminada. Estava em terreno perigoso e passível de ser apreendida pelo
receptor nos casos de fraude. Tão público que era impossível continuar os negócios sem perigo de
descoberta e, já que entretanto, o Templo de Logan havia sido concluído. Por fim, como foi
testemunhado nos casos perante o juiz Anderson no outono passado, esse lugar não era necessário
para a celebração de casamentos plurais". Além disso, o trabalho gerado pela demolição do prédio
serviu como um projeto eficaz de obras públicas para os mórmons desempregados levados à cidade
para melhorar a posição dos mórmons nas pesquisas de voto.
Talvez a afirmação mais interessante de Woodruff na declaração fosse que ele estava se
submetendo às leis da terra que proibiam a poligamia. A Suprema Corte dos EUA em 1879 havia
declarado constitucional a legislação anti-poligamia. Onze anos se passaram antes que a igreja
começasse a professar obediência à lei.
2 – Woodruff é considerado o "Pai do Trabalho no Templo Mórmon".
3 – O presidente da Igreja Heber J. Grant observou numa carta de 15 de novembro de 1935 a
Katherine H. Allred que "por um período de tempo após a emissão do manifesto, casamentos plurais
foram realizados no México, [com] os funcionários do governo mexicano expressando o desejo que
mais filhos mórmons deveriam nascer naquela república, pois os mórmons eram os melhores
cidadãos do México ".
4 – Em 21 de abril de 1911, George F. Gibbs, secretário da Primeira Presidência, informou a
Smoot que "o uso do [Canadá] foi um erro de nossa parte, por favor, avise-o, pois a palavra
'México' só deve ser usada" (Coleção Smoot).
5 – Woodruff sempre manteve essa visão. Em uma carta de maio de 1882 a Moses Franklin
Farnsworth, ele havia aconselhado: "Em relação a suas famílias, acho que seria sensato que nossos
irmãos tivessem uma esposa debaixo do teto onde ele mora, se suas circunstâncias permitirem. Mas
não pretendemos rejeitar nossas esposas e filhos por causa do projeto de lei de Edmunds ou de
qualquer outro projeto de lei, mas exercitar a prudência e a sabedoria que pudermos nesses
assuntos" (Carter 1958-75, 3: 194-96). Em seu diário de 3 de outubro de 1885, Woodruff escreveu:
"Prefiro ser morto a tiros nas ruas ou atingido por um raio do que abandonar meus filhos. Quebrar
meus convênios e transformar minhas esposas [em moradoras de] rua" (Kenney, 8 [3 de outubro de
1885]: 337 ).
Capítulo 3
A Poligamia Pós-Manifesto
Antes de 1890, quando o presidente Woodruff se reuniu com líderes
republicanos em San Francisco, a maioria dos mórmons apoiava o partido democrata
em questões nacionais. Mas, em meados da década de 1880, durante o governo
democrata do presidente Grover Cleveland, George Q. Cannon advertiu em uma carta
ao emissário George L. Miller [do governo] de Cleveland que a dureza com que seu
governo estava lidando com os mórmons "agiria desastrosamente sobre as
perspectivas futuras do partido." Cannon enfatizou que os mórmons eram "com muito
poucas exceções, democratas" e que detinham o poder político em Utah, Idaho e
Arizona e "não deveriam ser menosprezados em Nevada e Colorado". Lembrando às
autoridades que os mórmons totalizavam quase 250.000 [membros], Cannon esperava
que os democratas "valorizassem seu valor" e buscassem seu favor em vez de oprimi-
los (Lyman 1981, 60-61).
A esperança mórmon para o apoio democrata ao estado de Utah diminuiu
gradualmente. Depois que Cleveland assinou, em 27 de fevereiro de 1889, o projeto
de lei que impedia a constituição de Utah como estado, o congressista John T. Caine
de Utah lamentou a ação em uma carta a George L. Miller. "Acredito que o Partido
Democrata, por sua covardia na questão mórmon, por se recusar a admitir Utah com
uma constituição anti-poligamia, perdeu o controle de quatro estados que o povo
mórmon poderia ter lhe concedido, a saber: Utah, Idaho, Arizona e Wyoming ". Os
mórmons "sempre foram fiéis ao partido democrata", acrescentou Caine, "mas o
partido quando estava no poder não os apreciou e falhou em tirar proveito da força
que eles poderiam ter dado a ele" (Lyman, 223-24).
No início de 1890, o Presidente Woodruff enviou seu conselheiro George Q.
Cannon a Washington, DC, para tentar novamente obter apoio democrata para o
estado de Utah. Os democratas não forneceram apoio. Cannon, que durante o seu
serviço no Congresso sentou-se no lado democrata do plenário, mudou sua lealdade
ao partido republicano. O filho de Cannon, Frank, um republicano ardente,
conseguiu, em meados de maio de 1890, obter apoio republicano para a rejeição do
projeto de lei Cullom-Strubble. Cannon estava otimista de que o "Partido
Republicano estava cada vez mais impressionado com a importância de garantir votos
e influência mórmon" (Diário de Abraham H. Cannon, 10 de julho de 1890). Um
político astuto, Cannon começou imediatamente a pressionar outros líderes da igreja
para apoiar os republicanos. Seu filho Abraham observou em seu diário de 31 de
julho de 1890: "Os democratas, quando tinham o poder de nos fazer o bem, estavam
com medo e nos traiu, de modo que agora sentimos como se o partido republicano
deveria ser tentado para ver se seria justo para conosco."
Quando os presidentes Woodruff e Cannon retornaram da Califórnia em
setembro de 1890, com o apoio dos líderes republicanos, a lealdade da igreja logo
mudou para esse partido. Dois dias antes da dissolução do Partido Popular controlado
pelos mórmons, em 10 de junho de 1891, o apóstolo Abraham H. Cannon se
preocupou em seu diário com o "perigo de todo o nosso povo [dando sua lealdade
aos] democratas". Considera-se que os esforços deveriam ser feito para instruir nosso
povo no republicanismo e, assim, conquistá-lo para esse partido".
Cannon também registrou o comentário revelador feito por seu colega na
Primeira Presidência Joseph F. Smith de que "recebemos a mais forte advertência de
nossos amigos republicanos de que não devemos permitir que este território se torne
fortemente democrático". Anunciando que os líderes da igreja "favoreceram a retórica
de John Flenry [Smith], de modo a convencer as pessoas de que um homem poderia
ser republicano e ainda ser santo", [1] segundo conselheiro Joseph F. Smith
admoestou: "Desejo mais dos apóstolos [que] pertenciam a esse partido e assinariam
os papéis. Os republicanos apoiarão seus amigos, o que os democratas não fizeram e
acredito que ainda nos concederão anistia se os encorajarmos a acreditar que isso
pode se tornar um estado republicano. Conheço muitos homens proeminentes deste
partido que hoje são nossos amigos e que estão trabalhando em nossos interesses,
mas não conheço um único democrata que esteja nos ajudando: homens como Blaine,
Clarkson, Stanford e Estee estão profundamente interessados em nossos interesses e
assuntos e desejo de fazer-nos bem "(ibid., 9 de julho de 1891). [2]
Os líderes da Igreja exortaram publicamente os santos a se unirem ao partido
político de sua escolha. Flowever, para contrabalançar a força democrática no
território, as autoridades decidiram que "homens de alta autoridade que acreditavam
nos princípios republicanos deveriam sair entre o povo, mas que aqueles de alta
autoridade que não pudessem endossar os princípios do republicanismo deveriam
permanecer calados" (ibid 15 de junho de 1891). [3]
O partido republicano respondeu a essa nova lealdade mórmon pressionando
pela anistia dos santos poligamistas condenados sob os atos de Edmunds e Edmunds-
Tucker. Durante o verão de 1891, uma petição elaborada por Joseph F. Smith e seu
primo John Henry Smith foi enviada ao presidente republicano dos EUA, Benjamin
Harrison. Assinado pela Primeira Presidência e dez membros do Quórum dos Doze, o
jornal explicava a origem do Manifesto e dizia que o povo Mórmon tinha "da maneira
mais solene que o aceitou como a regra futura de suas vidas. Como pastores de
ovelhas e de pessoas que sofrem", e concluía a petição, "pedimos anistia por eles e
prometemos fé e honra ao futuro" (Clark 1965-75, 3: 229-31).
Uma proclamação de anistia foi proferida em 4 de janeiro de 1893. Depois de
citar as várias leis anti-bigamia, o relatório da Comissão de Utah e o perdão anterior
dado a alguns indivíduos culpados de coabitação ilegal, o Presidente Harrison
concedeu uma anistia e perdão completos a todas as pessoas "sujeito às penalidades
do referido ato por motivo de coabitação ilegal sob a cor do casamento polígamo ou
plural, que, desde 1º de novembro de 1890, se absteve de tal coabitação ilegal". Ele
especificou, no entanto, que a anistia se baseava na condição de que, no futuro,
aqueles que haviam sido perdoados devessem obedecer à lei ou ser "vigorosamente
processados" (Procedimentos 1:19).
A Comissão de Utah continuou a tendência de liberalização em 19 de julho,
determinando que os poligamistas reformados seriam novamente autorizados a votar.
Pouco tempo depois, a propriedade da igreja retirada foi devolvida. O presidente
Grover Cleveland, eleito para um segundo mandato, acabou ampliando a
proclamação da anistia de Benjamin Harrison. No entanto, os oficiais da igreja logo
demonstraram que mantinham a prática do casamento plural em maior estima do que
sua promessa ao governo. Com exceção de Lorenzo Snow, que coabitava apenas com
sua esposa mais nova, nem um único apóstolo ou membro da Primeira Presidência
interrompeu os relacionamentos conubiais com esposas plurais.
O apóstolo Abraham H. Cannon registrou vários comentários em seu diário a
partir de uma discussão de 1 de abril de 1892 sobre a petição de anistia proposta. De
acordo com Cannon, Lorenzo Snow afirmou que "quando o Manifesto foi lançado,
não tínhamos idéia de que seria para coabitar com nossas esposas, mas o Presidente
Woodruff e seus irmãos que estavam na testemunha perante o juiz, foram forçados
para ir mais longe em seu testemunho do que o previsto, ou estaríamos em uma
posição pior do que estávamos antes da publicação do Manifesto". O apóstolo Moses
Thatcher acrescentou: "Ainda não encontrei o primeiro homem entre todos os
eminentes homens com quem conversei sobre nossa questão, que considera que
nossas relações familiares anteriores devem ser interrompidas".
Heber J. Grant, que mais tarde se tornaria presidente da igreja, descreveu
claramente a situação, como novamente observado na entrada do diário de Cannon,
em 1º de abril de 1892. "Lembro-me do Presidente Woodruff dizendo que o
Manifesto nunca se aplicaria à nossa vida com nossas esposas, e ele as veria
condenadas e no inferno antes de concordar em deixar de viver com suas esposas ou
aconselhar qualquer outra pessoa a fazê-lo." Grant, pessoalmente, achava que "se
tivéssemos assumido a posição de homem e disséssemos que continuaremos a viver e
honrar nossas esposas atuais, mas deixaremos de nos casar no futuro, teríamos nos
saído melhor; mas agora não vejo nenhuma chance nossa sendo permitido viver com
nossas esposas em liberdade novamente".
Embora o pedido de anistia de 1891 não tenha prometido especificamente
conformidade com a lei, as concessões de anistia dos presidentes Harrison e
Cleveland assumiram claramente esse fato. [4] Ainda assim, onze Autoridades Gerais,
incluindo Heber J. Grant, tiveram setenta e seis filhos por 27 anos com esposas
plurais durante os anos 1890-1905 (Cannon 1978, 31). Embora Grant tivesse filhos
de apenas uma esposa depois de 1890, ele se declarou culpado de uma acusação de
coabitação ilegal em 1899 e foi multado em 100 dólares (Salt Lake Tribune, 9 de
setembro de 1899). Além disso, mais tarde ele teria pedido permissão ao Presidente
Joseph F. Smith para se casar com Fanny Woolley como uma esposa no plural pós-
manifesto. [5] Smith recusou o pedido de Grant. Assim, o futuro presidente da igreja
tornou-se um dos poucos membros da alta hierarquia que não tomou uma esposa
plural no pós-manifesto nem selou outros em casamentos plurais. [6]
Poucos casamentos plurais autorizados ocorreram durante os primeiros três anos
após o Manifesto. [7] Muitos membros da igreja que continuaram a acreditar que o
casamento plural era essencial para sua exaltação procuraram o Presidente Woodruff,
solicitando que fossem feitas exceções em seus casos. A maioria dos peticionários foi
informada simplesmente de que a Primeira Presidência não poderia fazer nada por
eles no momento. Mas a poligamia foi autorizada para aqueles que estavam dispostos
a viajar para o México. A autorização era geralmente dada por George Q. Cannon,
que inicialmente propusera que os casamentos plurais continuassem a ser realizados
no México. Woodruff, agora com quase noventa anos, evidentemente preferia um
sistema de "negação plausível", em que ele permitia que seus conselheiros mais
jovens dirigissem a nova poligamia para que, como presidente da igreja, ele não
pudesse estar diretamente ligado às atividades. [8]
George Q. Cannon e Joseph F. Smith enviaram casais que desejam se casar para
os líderes da igreja mexicana Alexander F. MacDonald ou apóstolo George Teasdale.
Em 1895, a Primeira Presidência chamou Anthony W. Ivins para substituir Teasdale
como oficial de casamento e para servir como o primeiro presidente de estaca em
Colonia Juarez. Embora ele próprio fosse monogâmico, Ivins foi autorizado durante
as reuniões de junho de 1897 com a Primeira Presidência a realizar selamentos
plurais. Foi discutida uma carta que, quando apresentada a Ivins por um casal,
indicava a aprovação da Primeira Presidência para selar o casamento. Mais tarde,
relatando a reunião a um filho, Ivins explicou que George Q. Cannon o havia deixado
de lado e disse: "Agora irmão Ivins, se você tiver ocasião de conhecer Porfio Diaz,
Presidente do México, queremos que você diga a ele que NÃO praticamos a
poligamia no México" (HG Ivins, 5). [9]
Além disso, George Q. Cannon também deu a Matthias Cowley permissão para
se casar com casais poligamicamente. Os selamentos de Cowley geralmente
aconteciam nos Estados Unidos. "Nunca fui instruído a ir a uma terra estrangeira para
realizar esses casamentos", relatou Cowley mais tarde: "O Presidente Cannon me
disse para fazer essas coisas ou eu nunca as faria" (Ata do Quórum dos Doze, 10 de
maio de 1911). O número total de casamentos plurais aprovados pela igreja entre
1890 e 1904 era de pelo menos duzentos e cinqüenta, mas o número anual
aparentemente nunca foi maior que os trinta e três realizados em 1903 (Cannon 1983,
29).
Um aumento definitivo de casamentos plurais ocorreu após a concessão a estado
de Utah, em 1896. Os líderes mórmons queriam convencer o governo de que a igreja
estava desistindo da poligamia. Mas, uma vez atingido o estado, eles esperavam que
o casamento plural pudesse ser praticado abertamente de acordo com leis estaduais
indulgentes ou modificadas. O apóstolo John Henry Smith discutiu isso em uma carta
de 3 de abril de 1888 a seu primo, Joseph F. Smith. "Parece-me", escreveu ele dois
anos antes do Manifesto, "como se a única chance nesse sentido [estado] fosse doar
todo o negócio [casamento plural], renunciando à nossa fé, por cerca de cinco anos e
depois renovando-a novamente uma vez estando dentro do grande governo". Mas os
planos dos líderes da igreja foram antecipados e frustrados. A constituição de Utah,
redigida em 1895, proibia a poligamia "para sempre", nomenclatura retirada da Lei
de Habilitação de Utah aprovada pelo Congresso. O comitê de redação estadual
também considerou necessário inserir uma cláusula de emenda que mantivesse em
vigor após o estado a lei anti-poligamia territorial de 1892.
Embora o número de casamentos plurais sancionados após [a criação d]o estado
fosse pequeno em comparação com as práticas anteriores a 1890, o conflito entre o
endosso dos líderes da igreja à nova poligamia e suas garantias públicas anti-
poligamia começou a causar maiores dificuldades. A discrepância levou os
legisladores de Utah em 1898 a incluir um estatuto no código criminal que proibia a
coabitação ilegal. Mais perturbador ainda para os líderes da igreja foi um novo ataque
da imprensa, que acusou a igreja de má fé em não cumprir suas promessas.
Wilford Woodruff morreu em 2 de setembro de 1898. Seu sucessor, Lorenzo
Snow, enviou mensagens sobre a nova poligamia que, para muitos mórmons, era
quase tão confusa quanto as declarações públicas e privadas de Woodruff.
Previsivelmente, o resultado foi uma divisão caótica dentro do Quórum dos Doze e
entre a igreja em geral. Antes de realizar um casamento plural de Joseph Morrell em
outubro de 1898, o apóstolo Matthias Cowley pediu a permissão de Snow e depois
relatou que o presidente da igreja "simplesmente me disse que não iria interferir no
trabalho do irmão Woodruff e Cannon" (Atas do Quórum dos Doze, 10 de maio de
1911). No entanto, Snow enviou o apóstolo John Henry Smith ao México em 1901
para dizer a A. F. MacDonald que "se ele estava selando esposas plurais para homens,
sua posição na Igreja estava em perigo" (John Henry Smith Diary, 27 de maio de
1901). Smith entregou a mensagem, ameaçando MacDonald com excomunhão se ele
não interrompesse a prática. Mas MacDonald, como Anthony W. Ivins e Matthias
Cowley, estavam recebendo instruções diferentes dos presidentes Cannon e Smith.
Joseph F. Smith, através de um apóstolo visitante, enviou uma mensagem a
MacDonald em setembro, aconselhando-o a ignorar as ameaças de Snow e continuar
a selar casamentos plurais, o que ele fez.
O Presidente Snow parecia estar se movendo lentamente na direção de
abandonar a poligamia. "A Igreja abandonou positivamente a prática da poligamia
(...) neste e em todos os outros estados", explicou ele em um editorial da Deseret
News em 8 de janeiro de 1900. "Ninguém tem autoridade alguma", acrescentou, "para
formar um casamento plural ou entrar em tal relação". Mas vários apóstolos,
incluindo Marriner W. Merrill e George Teasdale, "apoiaram-se firmemente a favor
da poligamia" quando o assunto foi discutido numa reunião dos apóstolos dois dias
depois (John Henry Smith Diary, 10 de janeiro de 1900). [10]
A dissensão nas fileiras da alta hierarquia sobre a nova poligamia foi complicada
quando uma investigação do congresso de 1900, instigada a impedir o Élder B. H.
Roberts de tomar seu assento na Câmara, produziu evidências de que Roberts e
outros líderes da igreja haviam ignorado suas promessas ao governo. Os jornais
atacaram os mórmons por voltarem atrás em suas palavras. Essas acusações
perturbaram Lorenzo Snow, de 66 anos. Para esclarecer sua posição para outros
líderes da igreja, ele anunciou em 1º de janeiro de 1900 que qualquer homem que
morasse com suas esposas plurais estava violando a lei.
Mais tarde naquele mês, durante uma reunião com o Quórum dos Doze, Snow
expressou medo de que casamentos plurais fossem sancionados na igreja, apesar de
sua oposição. "Sem referência a ninguém presente", relatou a reunião, ele "disse que
havia irmãos que ainda pareciam ter a idéia de que era possível sob sua administração
obter uma esposa plural e selá-la a ele. Ele autorizou e pediu aos irmãos presentes
que corrigissem essa impressão onde quer que a encontrassem. Ele disse
enfaticamente que isso não poderia ser feito". George Q. Cannon, o líder mais
responsável pela poligamia [estava] "contrariado", como Carl Badger [que] mais
tarde seria o secretário de Reed Smoot, sentiu que o pronunciamento de Snow fosse
"destacado como a mente e a vontade do Senhor" (ibid., 11 de janeiro 1900).
Um ano depois, Snow reafirmou seus sentimentos anti-poligamia dizendo ao
apóstolo Brigham Young, Jr.: "Deus removeu esse privilégio do povo e, até que ele o
restaure, não consentirei que qualquer homem se case com uma esposa plural. Não há
qualquer um dos apóstolos tem o direito de selar esposas plurais a homens por causa
de concessões anteriores feitas a eles pela Presidência? Não senhor, esse direito deve
vir de mim e nenhum homem será autorizado por mim para violar a lei da terra"
(Brigham Young, Jr. Journal, 13 de março de 1901). [11] Mórmons que acreditavam
que nenhum casamento plural havia sido autorizado pelos líderes da igreja depois que
o Manifesto encontrou apoio nas declarações do Presidente Snow. Mas aqueles que
tinham conhecimento da conversa oficial anterior consideravam a retórica de Snow a
mesma coisa: uma necessidade de proteger sua vida doméstica.
Embora o registro de casamento de Anthony Ivins na Biblioteca da Sociedade
Histórica do Estado de Utah mostre uma diminuição de casamentos realizados
durante a administração de Snow, os apóstolos Matthias F. Cowley, John W. Taylor,
Brigham Young Jr., George Teasdale, Abraham O. Woodruff, Marriner W. Merrill,
John Henry Smith, Anthon H. Lund e talvez até George Q. Cannon e Joseph F. Smith
estavam envolvidos no selamento de casamentos plurais, não apenas no México, mas
também no Canadá e nos Estados Unidos durante esse período. [12]
Inúmeras mudanças abalaram o mormonismo durante [o ano de] 1901. George
Q. Cannon morreu em abril. Seis meses depois, em 10 de outubro, Lorenzo Snow
morreu. Enquanto isso, os líderes da igreja tentaram, sem sucesso, anular a seção de
coabitação ilegal do código criminal de Utah. Uma medida elaborada pelo
proeminente mórmon do condado de Utah, Abel John Evans, passou pelas duas casas
do estado, mas acabou sendo vetada pelo governador Heber M. Wells, um dos trinta e
sete filhos do conselheiro da Primeira Presidência Daniel H. Wells. "Eu tenho todos
os motivos para acreditar", alertou o governador Wells, "sua promulgação seria um
sinal para uma demanda geral ao Congresso Nacional por uma emenda constitucional
dirigida exclusivamente contra certas condições aqui; uma exigência que, nessas
circunstâncias, certamente seria cumprida." (Procedimentos 1:11).
Joseph F. Smith, que em 1906 se declararia culpado por violar a lei
antipoligamia do estado de Utah, tornou-se o sexto presidente da igreja em 17 de
outubro de 1901. Smith não só tinha conhecimento dos casamentos pós-manifestos
autorizados, como evidenciado em 1890 em conselhos a Byron Harvey Allred, Sr., e
seu telegrama de 11 de abril de 1911 a Reed Smoot [13], ele mesmo pessoalmente
havia realizado pelo menos um desses casamentos antes de se tornar presidente da
igreja. Smith foi fortemente crítico das restrições de poligamia da igreja. "Não tenho
nenhuma simpatia", escreveu ele a Anthony W. Ivins em 6 de fevereiro de 1900,
"com o sentimento predominante que parece estar levando alguns ao estabelecimento
de apostas e fixação de encontros e limites aos propósitos e políticas da providência
em de maneira a estabelecer dificuldades quase intransponíveis que podem surgir
para incomodá-las e a outras pessoas no futuro". Em agosto de 1900, Smith e o Élder
Seymour B. Young estavam em Colonia Diaz durante o selamento do presidente da
Academia Brigham Young, Benjamin Cluff Jr., a uma esposa plural, Florence
Reynolds. Cluff anteriormente apelou sem sucesso a Anthony W. Ivins para casar
com ele e Reynolds sem a aprovação da Primeira Presidência. Mais tarde, ele disse a
uma filha que "o irmão Joseph F. Smith me disse que eu poderia me casar com tia
Florence". Outro relatório descreveu o casamento: "Estava muito escuro e o irmão
Clawson não pôde ver quem realizou a cerimônia. A voz, no entanto, soou
exatamente como a do Presidente Smith" (LeBaron 1981, 3940).
As rígidas restrições que Lorenzo Snow impusera à nova poligamia foram
bastante relaxadas durante os primeiros três anos do governo de Joseph F. Smith. De
1902 a abril de 1904, pelo menos sessenta e três casamentos plurais foram selados em
toda a igreja. Anthony W. Ivins realizou 29 deles (Cannon 1983, 29). Numa carta de 7
de março de 1911 a seu filho, Ivins defendeu seu papel nos casamentos pós-
manifesto: "Não era fácil ajustar as condições que existiam há quase 40 anos à nova
ordem das coisas. Os laços familiares haviam sido estabelecidos, foram feitos
convênios do caráter mais sagrado, e pensava-se que, em casos excepcionais, onde
tais condições existissem e as pessoas estivessem no México, os casamentos
poderiam ser solenizados". Ele acrescentou um importante pós-escrito: "Você pode
depender disso. Nunca realizei uma cerimônia de casamento sem a devida
autoridade". Outra evidência de que Ivins estava agindo sob autoridade de Salt Lake
City foi sua carta de 1932 a uma mulher que havia sido excomungada por se tornar
uma esposa plural depois de 1904. "Estou falando claramente", escreveu Ivins, "para
que você possa conhecer o verdade (...) a diferença entre essas pessoas [aqueles que
advogam a poligamia após 1904] e eu e outras pessoas é que agimos com autoridade
da Igreja" (HG Ivins, 6-7).
Que essa "autoridade" incluía não apenas George Q. Cannon, mas também
Joseph F. Smith, está documentada no diário de Orson Pratt Brown, um bispo nas
colônias mexicanas. Brown relatou que, durante uma visita a Salt Lake City, levou os
registros de casamento de seu sogro, Alexander F. MacDonald, que havia realizado
casamentos [plurais] pós-manifesto no México, ao Presidente Smith. Depois de
folhear o livro, Smith disse a Brown: "todo esse trabalho que o irmão MacDonald
realizou foi devidamente autorizado por mim". Ele então deu instruções para Brown
manter o registro no México, para que os delegados federais não pudessem pegar o
documento (Brown Journal, 39-40). Além do relato do bispo Brown, os documentos
pessoais de Joseph F. Smith nos Arquivos SUD incluem vários formulários assinados
semelhantes aos usados por George Q. Cannon para autorizar Ivins e outros a realizar
casamentos plurais.
Alguns meses após a posse de Joseph F. Smith, o fato de a poligamia continuar
começou a causar novos problemas para a igreja. Já em março de 1902, os esforços
do Congresso estavam em andamento para aprovar uma emenda constitucional
proibindo a poligamia e a coabitação poligâmica nos Estados Unidos. Os líderes da
igreja temiam esse movimento e enviaram uma carta circular aos presidentes de
estaca em toda a igreja solicitando informações estatísticas para apoiar sua posição de
que o número de santos polígamos estava diminuindo. [14] A Primeira Presidência
também enviou o apóstolo John Henry Smith e Ben E. Rich para fazer lobby contra a
proposta. Eles foram encorajados pelo Presidente Theodore Roosevelt, que lhes disse
que achava "a emenda constitucional proposta não deveria passar" (Pusey 1982, 187).
Outras figuras republicanas, contando com o apoio político futuro em Utah, também
forneceram garantias de que a emenda não seria aprovada.
Enquanto isso, o Presidente Smith continuou o padrão familiar, estabelecido em
Nauvoo, de negar publicamente o que estava sendo praticado em particular. Assim,
durante uma reunião da Primeira Presidência e do Quórum dos Doze composta
predominantemente por homens que se casaram com esposas pós-manifesto ou
selaram outros em tais relacionamentos, Smith poderia dizer que nenhum novo
casamento plural "estava ocorrendo ao seu conhecimento na igreja, também. nos
EUA ou em qualquer outro país". Além disso, ele explicou: "é completamente
entendido e há anos que ninguém está autorizado a realizar tais casamentos"
(Brigham Young, Jr. Diary, 5 de junho de 1902). Durante uma reunião do Quórum
dos Doze em 19 de novembro de 1903, ele afirmou que "não havia dado seu
consentimento a ninguém para solenizar casamentos plurais" e "não conhecia
nenhum desses casos" (JH, 19 de novembro de 1903). "A Igreja Mórmon soleniza ou
permite casamentos plurais?", no 3 de dezembro de 1903, o Salt Lake Tribune,
perguntou a Smith. "Certamente não", respondeu ele. "A igreja não realiza ou
sanciona, ou autoriza, o casamento de qualquer forma que seja contrária às leis da
terra. A afirmação de que mórmons importantes praticam a poligamia é
evidentemente feita para enganar o público".
Apesar das garantias de Smith de que a igreja não apoiava oficialmente novos
casamentos plurais, o anúncio do apóstolo monogamista Reed Smoot de 1902 de sua
candidatura ao Senado dos EUA forneceu um foco conveniente para o sentimento
anti-poligamia. A Associação Ministerial de Salt Lake objetou que um apóstolo no
Congresso violasse o princípio da separação entre igreja e estado. Apesar do tumulto,
Smoot ganhou a indicação e seguiu para o leste. Quando chegou a Washington, no
entanto, uma campanha nacional contestando seu direito de estar sentado [no senado]
havia sido montada contra ele. Encarregado de ser o líder da alta hierarquia mórmon
que "controlava as eleições e a economia de Utah" e "secretamente continuava a
pregar e permitir casamentos plurais", Smoot enfrentou uma árdua luta para ser
confirmado [como candidato]. Embora Smoot tenha sido autorizado a se sentar
enquanto aguardavam os resultados da investigação, o assunto não foi resolvido por
quase trinta meses.
As mais de três mil páginas de testemunho de testemunhas, incluindo do
Presidente Joseph F. Smith e vários apóstolos, que colocaram a igreja numa situação
extremamente ruim. O senador eleito Smoot resumiu a posição mórmon de
constrangimento agudo numa carta de 22 de março de 1904: "[Nós] como povo, em
todo o tempo, não vivemos estritamente de acordo com o governo e essa falta de
sinceridade de nossa parte vai mais longe para nos condenar aos olhos do público da
nação do que o mero fato de alguns novos casos de poligamia ou um polígamo antes
do manifesto que vive no estado de coabitação ilegal". (Smoot para Jesse M. Smith).

Notas:
1 – A Primeira Presidência havia organizado um comitê para promover o republicanismo no
território. John Henry Smith foi chamado numa missão pessoal para se engajar nessa atividade, mas
o apóstolo democrata Moses Thatcher se opôs às atividades de Smith. Defendendo sua posição,
Smith anunciou que estava "promovendo a obra do Senhor", descartando "a teoria de que este
território pertencia aos democratas por direito divino" (Abraham H. Cannon Journal, 9 de julho de
1891).
2 – Para informações sobre o Partido do Povo, veja a entrevista de Wilford Woodruff e George
Q. Cannon em 23 de junho de 1891 no Salt Lake Times.
3 – Os democratas Moses Thatcher, B. H. Roberts e Charles Penrose ignoraram esse conselho
e acabaram sendo censurados por suas campanhas democratas. As diferenças políticas de opinião
em 1896 resultaram na breve desassociação de Roberts e na expulsão de Thatcher do Quórum dos
Doze (ver Van Wagoner e Walker 1980, 243-44, 368-70).
4 – Ver Proclamação no. 42, em 4 de janeiro de 1893 e a Proclamação no. 14, em 25 de
setembro de 1894. Para detalhes completos sobre as etapas que levam à anistia, consulte G. Larson
1971, 291-92.
5 – Ver ata do Quórum dos Doze, 10 de maio de 1911; também Heber J. Grant a Heber
Bennion, 2 de maio de 1929, Grant Letterbooks.
6 – O Presidente Wilford Woodruff, [e os apóstolos] John W. Taylor, Brigham Young, Jr.,
Matthias F. Cowley, George Teasdale, Marriner W. Merrill, Abraham H. Cannon e Abraham O.
Woodruff eram polígamos pós-manifesto. Além disso, George Q. Cannon, Joseph F. Smith, John
Henry Smith, Anthon H. Lund e Heber J. Grant aprovaram ou realizaram casamentos plurais após
1890.
7 – Os registros familiares de Byron Harvey Allred, Sr., Calvert Lorenzo Allred e Anson Call
documentam três desses casamentos (Arquivos Genealógicos SUD).
8 – O Apóstolo Matthias F. Cowley relatou em 1911: "O Presidente Cannon me disse que
tinha a autoridade do Presidente Woodruff e o irmão Joseph F. Smith me disse em duas ocasiões que
o irmão Cannon tinha autoridade e o irmão Woodruff não queria ser conhecido sobre ele "(Ata do
Quórum dos Doze, 10 de maio de 1911). Respeitando sua própria posição na realização de
casamentos pós-manifesto, Cowley relatou: "O Presidente Cannon me disse para fazer essas coisas.
O Presidente Snow não o fez, ele simplesmente me disse que não iria interferir no trabalho do irmão
Woodruff e Cannon".
A influência dos conselheiros de Woodruff durante seu governo [na igreja] foi tornada pública
durante uma declaração de 1895 do apóstolo John W. Taylor. Abraham H. Cannon observou em seu
diário em 3 de dezembro de 1895 que, durante uma conferência da Estaca Davis (Utah), Taylor "fez
algumas observações pouco adequadas sobre a condição mental e física do presidente Woodruff,
que, segundo ele, não podia fazer "o trabalho da Igreja sem a ajuda de seus conselheiros: 'Um bebê
pode ser colocado à frente da Igreja como o Presidente Woodruff, sem a ajuda dos Presidentes
Cannon e Smith'."
9 – Ver também Stanley S. Ivins para Juanita Brooks, 25 de fevereiro de 1955, cópia em poder
do autor.
10 – Merrill chegou ao ponto de dizer: "Estou ciente do sentimento crescente entre as pessoas
de que famílias plurais são impopulares. Elas [as famílias plurais] estão crescendo menos. [Mas]
Elas nunca desaparecerão. Este princípio nunca será retirado da terra (...) Alguns pensam que a
Igreja está voltando ao princípio e digo que não é assim" (Anthon H. Lund Journal, 9 de janeiro de
1900).
11 – Referindo-se a "antigas concessões feitas pela Presidência", Carl A. Badger citou Joseph
F. Smith em seu diário de 26 de março de 1904 dizendo que "a Igreja não autorizou tais coisas, mas
que alguns dos irmãos que detêm a autoridade fazer essas coisas se recusam a abrir mão de seu
poder".
12 – O governo canadense, diferentemente do governo mexicano, impôs rigidamente sua
oposição à poligamia. Por essa razão, o casamento plural nunca foi tão visível no Canadá como era
no México.
Capítulo 4
A Igreja em Destaque – As Audiências de Smoot
As Audiências de Smoot (de janeiro de 1904 a fevereiro de 1907) examinaram
muito mais do que as acusações específicas apresentadas contra Smoot. Toda a
estrutura da igreja Mórmon foi examinada de perto pelo Comitê de Privilégios e
Eleições do Senado. Muita atenção foi dedicada às atividades comerciais e políticas
da igreja, embora a poligamia pós-manifesto tenha sido o anel central durante toda a
investigação.
O Presidente Joseph F. Smith, a primeira testemunha convocada pelos que
protestavam contra Smoot, foi intimada a comparecer à comissão de investigação no
início de março de 1904. Seus cinco dias de testemunho, juntamente com o de outras
autoridades da igreja, confirmaram as acusações de críticos que alegavam os líderes
da igreja violavam as leis contra atividades dos polígamos. Os membros da hierarquia
admitiram infrações graves à igreja e ao direito civil. O Presidente Smith, defendendo
sua coabitação ilegal com suas cinco esposas, pediu compreensão. Ele explicou que
preferia "enfrentar as conseqüências da lei em vez de abandonar meus filhos e suas
mães; e eu coabitei com minhas esposas - não abertamente, isto é, não da maneira que
eu pensava que seria ofensiva para meus vizinhos, mas eu os reconheci; e os visitei
"(Procedimentos 1: 129).
Apesar da defesa emocionada de Smith de suas ações ilegais, os investigadores
acharam seu comportamento indesculpável. Eles o lembraram das promessas que ele
havia feito para garantir sua anistia pessoal e ficaram sabendo que ele foi pai de onze
filhos pós-manifesto. Eles desaprovaram a racionalização do presidente da igreja de
sua coabitação pós-Manifesto em sua declaração de que "desde a admissão do estado
[como parte dos EUA] havia um sentimento existente e predominante em Utah de
que esses antigos casamentos seriam, em certa medida, tolerados. Eles não foram
considerados como ofensivos, mas realmente como violadores da lei; em outras
palavras, eram considerados um fato existente e, se [as autoridades da igreja] viam
algo errado, simplesmente piscavam" (ibid., 1:130).
Embora admitisse sua própria coabitação ilegal, Smith insistiu firmemente que,
desde o Manifesto "nunca houve, que eu saiba, um casamento plural realizado com o
entendimento, instrução, conivência, conselho ou permissão das autoridades
presidentes da igreja, em qualquer forma" (ibid. 1:129). Os investigadores
subseqüentemente reviraram a igreja para ligar Smith diretamente à nova poligamia,
mas as evidências se mostraram inconclusivas.
O casamento plural pós-manifesto mais comentado em Washington durante as
audiências foi a união de junho de 1896 do apóstolo Abraham H. Cannon com Lillian
Hamlin. George Q. Cannon ficou profundamente triste com a morte de seu filho, o
missionário David. Sua tristeza era mais pungente, porque o jovem ainda não havia se
casado e, portanto, não estaria reino no futuro. Lembrado das práticas leviáticas do
Antigo Testamento, George Q. Cannon falou com seu filho Abraham sobre "pegar
uma boa garota e levantar sementes dela para meu irmão David. Ele me disse para
pensar sobre o assunto e falar com ele mais tarde. Uma cerimônia como essa poderia
ser realizada no México, então Presidente Woodruff disse. 'Mais tarde, Abraham
sugeriu a seu pai, na presença de toda a Primeira Presidência e de seu tio Angus
Cannon, que a esposa substituta fosse sua prima Annie Cannon, filha de Angus.[1]
Mas o irmão de Abraham, Frank J. Cannon, mais tarde, indicou que era a noiva de
Davi, Lillian Hamlin, que era casada com Abraham no "cumprimento da instrução
bíblica de que um homem deveria levar a esposa de seu irmão morto" (Cannon e
Higgins 1911, 176).
Abraham H. Cannon morreu de meningite um mês após o casamento com
Hamlin, por isso estava fora do alcance dos investigadores de [Reed] Smoot. Mas
eles estavam atrás de uma jogada maior com Joseph F. Smith, e sua suposta
cumplicidade no casamento de Cannon e ofereceu uma maneira de alcançá-lo. A
esposa plural de Abraham, Wilhelmina, que o ameaçou com o divórcio em várias
ocasiões, disse ao comitê do Senado que seu marido havia admitido a ela no início de
junho de 1896 sua intenção de se casar com Hamlin. De acordo com o testemunho de
Wilhelmina, Cannon deixou Salt Lake City [e foi] para Los Angeles de trem em 18 de
junho de 1896 com Joseph F. Smith, Lillian Hamlin e outros. Ele voltou a Salt Lake
City em 1º de julho, gravemente doente. Mas antes de sua morte, em 19 de julho,
Wilhelmina disse que ele admitiu a ela seu casamento com Hamlin.
As investigações sobre Smoot focaram-se na questão de quem tinha casado
Abraham H. Cannon e Lillian Hamlin. Investigadores do governo suspeitaram de
Joseph F. Smith. O presidente da igreja negou envolvimento no assunto. Quando o
editor do Salt Lake Tribune, Patrick H. Lannon, solicitou a John Henry Smith que
perguntasse a seu primo em particular se as acusações eram verdadeiras, a resposta de
Joseph F. foi novamente um enfático "Não senhor" (Pusey 1982, 189). Quando o
comitê do Senado perguntou ao presidente da igreja se havia casado o casal, ele disse
que não sabia, mas presumiu que o casamento havia acontecido "porque eles estavam
vivendo juntos como marido e mulher". Quando perguntaram qual inquérito ele havia
feito sobre a situação, disseram aos investigadores frustrados: "Eu não fiz nenhuma
investigação". "Você não tinha interesse em descobrir" se houve um casamento,
insistiu o advogado Robert W. Tayler. "Não menos importante" respondeu Smith
(ibid.).
Até Reed Smoot estava nervoso com o curioso testemunho de Smith. Depois que
o presidente da igreja retornou a Utah em abril de 1904, Smoot escreveu a ele que
uma Sra. Stanley iria declarar perante o comitê que Lillian Hamlin lhe disse que "foi
casada com Abram H. Cannon pelo Presidente Joseph F. Smith, em março etc." Em
resposta, Smith informou Smoot em 9 de abril: "Ela simplesmente mentiu. (...) Uma
de suas amigas mais íntimas me contou que ela nega ter contado uma história
dessas". Para acalmar a preocupação de Smoot com a viagem, Smith explicou que
"não me lembro de um momento em que estava na presença da sra. Cannon que
minha esposa não estava conosco. Minha esposa estava enjoada ao atravessar o canal
para a Ilha Catalina e eu estava com ela durante a viagem". Smith sugeriu que as
condições da viagem não permitiam o casamento; a viagem "não ocupou mais de
duas horas e dificilmente tanto, eu acho. O barco estava cheio de excursionistas e
todos nós fizemos a passagem pelo convés (...) Hugh J. Cannon, um irmão de
Abraham, também estava em nosso grupo e foi uma testemunha de todos os nossos
passatempos e prazeres".
Apesar da explicação, Smoot mantinha-se reservado sobre o assunto. Dois anos
depois, ele parecia estar bancando o advogado do diabo numa carta de 10 de maio de
1906 ao Presidente Smith. "[O senador Beverage] disse que acabava de ler seu
testemunho em relação ao casamento de Abram H. Cannon", escreveu Smoot. "Ele
não entendeu como você, um membro da Primeira Presidência da Igreja, poderia
viajar com A. H. Cannon e ser apresentado a uma jovem como esposa [dele] e fazer
com que ocupassem a posição de marido e mulher um com o outro, seis anos após a
emissão do Manifesto (...) e não reclamar de um dos apóstolos agindo assim, e de
nenhuma ação ser tomada pela Igreja, a menos que a Igreja tenha aprovado novos
casamentos ou pelo menos os tenha permitido".
Embora a tradição da família Cannon credite a Joseph F. Smith o casamento de
Lillian Hamlin com Abraham H. Cannon fora da jurisdição dos EUA durante a
excursão à Ilha Catalina, evidências recentes tendem a sugerir uma possibilidade
alternativa. O historiador D. Michael Quinn, em sua análise de 1985 dos casamentos
pós-manifesto, apresenta evidências circunstanciais intrigantes de que, em 17 de
junho de 1896, no templo de Salt Lake, Joseph F. Smith selou Lillian Hamlin ao
falecido e anteriormente solteiro David H. Cannon (pág. 84). Abraham H. Cannon foi
procurador de seu irmão na cerimônia e, aparentemente, também atuou como
procurador no cumprimento do pedido de seu pai, George Q. Cannon, de que ele
"levantasse sementes" para David. Oito meses após a morte de Abraham, Lillian
Hamlin deu à luz uma filha "Marba" (Abram soletrado de trás para frente). Embora a
criança tenha sido nomeada benfeitora do patrimônio terreno de Abraham H. Cannon,
no esquema mórmon, ela seria filha de David no futuro.
Assim, Joseph F. Smith pode ter sido sincero, se não completamente sincero, ao
negar as alegações de que ele casara o casal em alto mar. Embora ele possa ter
realizado o casamento, poderia ter sido por uma procuração unindo um morto e sua
noiva. [2] Mas os investigadores do governo estavam compreensivelmente frustrados
com o testemunho de Smith. O próprio Smith sentiu que havia feito pouco para
aumentar as chances de Smoot estar sentado permanentemente [no senado]. Após o
testemunho do presidente da igreja em 22 de março de 1904, o secretário de Smoot,
Carl Badger, registrou em seu diário que Smith dizia repetidamente ao advogado da
igreja F. S. Richards: "Sinto muito por Reed. Sinto muito por Reed" (ver também
Bergera 1983).
Outros também se preocuparam com o testemunho prestado nas audiências.
Badger escreveu a um amigo: "Espero que nosso povo olhe para esse assunto sob sua
verdadeira luz; precisamos aprender nossas lições e, em vez de gritar sobre a
oportunidade que tivemos de ensinar nossa fé ao mundo, devemos para destacar o
fato desagradável, mas óbvio, de que a lição que o mundo está aprendendo com o
testemunho até agora apresentado é de que não cumprimos nossa palavra. Eu gostaria
que nosso povo chegasse à conclusão de que essa investigação não foi inteiramente
digna de crédito para nós" (Badger para RS Collett, 21 de março de 1904).
Assim que o Presidente Smith voltou a Utah, começaram a surgir pressões para
que ele fizesse uma declaração sobre a nova poligamia. [3] Reed Smoot, em uma
carta de 22 de março de 1904 a seu colega E. H. Callister, desejou que "o Presidente
Joseph F. Smith visse que seu caminho é claro para anunciar, na próxima conferência
de abril, que desde sua visita a Washington, ele aprendeu que o sentimento público
fora do estado de Utah se opõe a um homem que vive em coabitação ilegal". Smoot
esperava que "o conselho do Presidente Smith", a seguir, fosse ao povo mórmon para
organizar seus negócios de modo a obedecer à lei e, além disso, que ele próprio
pretendesse fazê-lo. “É minha opinião que se isso não for feito, haverá problemas
consideráveis pela frente para o nosso povo".
Callister respondeu cinco dias depois que ele não achava que fazer tal declaração
seria "muito sábio". "Acho que não teremos mais nenhum manifesto sobre o assunto
da poligamia", relatou ele, "enquanto Joseph F. estiver à frente". Mas Callister
interpretou mal a situação. Em 2 de abril, o advogado da igreja Franklin S. Richards
instou o Presidente Smith a dizer algo "à Conferência em relação às investigações em
Washington" (Anthon H. Lund Journal, 2 de abril de 1904). Dois dias depois, Lund
observou em seu diário que "tivemos uma reunião de advogados em que discutimos a
sabedoria de dizer algo para pacificar o país. Rawder Clawson temia que isso não
servisse de nada, mas faria muitos corações doerem. Ele achava que seria um
segundo manifesto e já tivemos manifestos o suficiente." Mas Lund "preferiu que os
santos soubessem do nosso status, pois começaram a duvidar de nossa sinceridade ou,
antes, da do Presidente Smith diante do comitê de investigações". No início de abril,
o Quórum dos Doze decidiu "que falamos à conferência sobre nossas condições
atuais e solicitamos que o Presidente Smith fizesse uma declaração oficial de que não
se deveria celebrar casamentos plurais, e quem deveria se comprometer a fazê-lo
estaria sujeito a ser isolado da Igreja. O irmão Owen [Woodruff] opunha-se muito a
qualquer coisa contra o princípio que lhe dera à luz e que tenderia a destruí-lo "(ibid.,
6 de abril de 1904).
No domingo, 7 de abril, o Presidente Smith realmente apresentou um "Segundo
Manifesto" aos santos para seu voto de apoio. "Visto que existem numerosos relatos
em circulação de que casamentos plurais foram contrários à declaração oficial do
Presidente Woodruff, de 26 de setembro de 1890", ele começou: "Eu, Joseph F.
Smith, (...) afirmo e declaro que nenhum desses casamentos foi solenizado com a
sanção, consentimento ou conhecimento da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos
Últimos Dias." O Presidente Smith foi enfático em sua declaração de que os
casamentos plurais eram proibidos: "Se qualquer oficial ou membro da igreja
presumir solenizar ou entrar em um casamento desse tipo, ele será considerado uma
transgressão contra a igreja e será passível de tratamento de acordo com suas regras e
regulamentos e excomungados a partir daí".
Referindo-se às acusações de que os líderes da igreja estavam "sendo desonestos
e falsos com a nossa palavra" a respeito da anistia de 1891, Smith caracterizou isso
como "absurdo". O presidente pediu a sanção da declaração pela igreja: "Quero ver
hoje se os santos dos últimos dias que representam a igreja nesta assembléia solene
não selarão essas acusações como falsas pelo voto". A votação da conferência, como
a de 6 de outubro de 1890 no Manifesto de Wilford Woodruff, apoiou a medida
(Roberts 1930, 6: 401).
Embora o Manifesto de 1904 tenha buscado e obtido a confirmação mórmon das
declarações do Presidente Smith antes das audiências de Smoot, a maioria dos santos
sabia pouco da poligamia secreta pós-manifesto que os líderes da igreja estavam
apoiando. A aprovação pública das declarações do Presidente Smith provou que os
membros da igreja estavam dispostos a "seguir o Profeta", mas um estudo minucioso
mostra que o Manifesto de Smith não disse nada de novo. O pronunciamento, como o
Manifesto de Woodruff, não proibiu especificamente casamentos plurais fora dos
Estados Unidos nem esclareceu a questão da coabitação ilegal. [4] O Segundo
Manifesto foi, nas palavras do próprio Presidente Smith, apenas uma "reconfirmação
do Manifesto de Wilford Woodruff" (JH, 6 de abril de 1904, 6).
No entanto, as duas declarações foram interpretadas de maneira diferente. O
manifesto de Wilford Woodruff não teve a intenção, por quem o publicou, de
interromper a poligamia. Praticamente todos os líderes da igreja, por ação ou
consentimento, desconsideraram o Manifesto das Woodruff. O próprio Presidente
Woodruff pode ter se casado com pelo menos uma esposa pós-manifesto (Quinn
1985, 62-65). Carl Badger analisou sucintamente a declaração de 1890 depois de
ouvir o testemunho de Joseph F. Smith em Washington. "A verdade da questão",
escreveu ele em uma carta, "é que muito poucas pessoas estão dispostas a admitir que
o Manifesto foi uma revelação". Ele observou ainda que "as principais autoridades
não incentivaram essa visão, mas que as necessidades da causa obrigavam que
desistíssemos abertamente daquilo em que nos apegamos secretamente" (Badger a
Ed Jenkins, 18 de março de 1904). Embora o Manifesto Smith de 1904, como o
Manifesto Woodruff, tenha sido apresentado como política da igreja, e não como
revelação, os violadores logo descobriram que catorze anos de ambigüidade no
assunto haviam terminado; a igreja estava agora comprometida com o fim do
casamento plural. [5]
O primeiro passo oficial após a conferência de abril foi reunir os apóstolos
ausentes na declaração recente. O presidente do Quórum Francis M. Lyman enviou
cartas idênticas em papel de carta da Primeira Presidência a John W. Taylor, John
Henry Smith, Reed Smoot e, sem dúvida, outros em 5 de maio de 1904, informando-
os da declaração oficial e solicitando sua "cooperação em enfatizar o mesmo em suas
conversas e conselhos privados, bem como em suas declarações públicas, a fim de
que não haja mal-entendido entre nosso povo a respeito de seu escopo e significado;
mas, pelo contrário, que todos possam ser dados para entender claramente que as
infrações das leis relativas ao casamento plural são transgressões contra a Igreja
puníveis por excomunhão" (Lyman Letterbooks). [6]
A carta de Francis M. Lyman, de 9 de julho, ao polígamo recalcitrante e apóstolo
George Teasdale foi ainda mais destacada: "Todo membro de nosso conselho deve
sustentar a posição assumida pelo Presidente Smith e não deve falar nem agir de
maneira contrária ao Profeta. O que já foi feito para abalar a confiança dos santos dos
últimos dias. Somos considerados duplos e insinceros. Não devemos ficar nessa luz
diante dos santos ou do mundo". Lyman então anunciou o início de uma cruzada anti-
poligamia: "A Presidência me responsabiliza por garantir que os membros de nosso
conselho sejam minuciosamente informados de que não seremos tolerados em nada
fora de harmonia com a posição do Presidente Joseph F. Smith perante o Comitê do
Senado sobre o casamento plural. Devemos apoiar suas mãos e defender a Igreja"
(Lyman Letterbooks). [7]
Apesar dos esforços da igreja para harmonizar as declarações oficiais com a
postura privada de seus líderes, o governo não estava investigando Reed Smoot. Suas
audiências foram estendidas em 1905 e 1906, na esperança de que testemunhas
importantes como John W. Taylor, Matthias F. Cowley, Marc W. Merrill, Anthony W.
Ivins e George Teasdale pudessem ser persuadidos a testemunhar. Smoot escreveu ao
Presidente Smith que vários senadores estavam perguntando por que a igreja não
forçou Anthony W. Ivins a fazer a viagem. Embora Ivins tenha participado da feira
mundial em Saint Louis em setembro de 1904, ele se recusou a testemunhar em
Washington. Vários anos depois, ele disse a um filho por que não havia ido: "Não é
da conta do Senado o que os mórmons estavam fazendo no México e, além disso, eu
me recusei a me perdoar" (H. G. Ivins, 5). [8].
Os apóstolos John W. Taylor e Matthias Cowley estavam no topo da lista dos
mais procurados pelo governo. Carl Badger culpou muitas das dificuldades de Smoot
nos dois. "Os apóstolos Taylor e Cowley devem vir a Washington", afirmou ele a um
amigo. "Acho que somos muito gratos a [Taylor] por todo esse 'desagrado', se você
pode se referir a um escândalo nacional como tal" (Badger to Ed Jenkins, 16 de
março de 1904).
O Presidente Smith enviou a Taylor um telegrama em Raymond, Alberta,
solicitando que ele fosse a Washington. Ele recusou: "Preciso pedir que você me
desculpe de atender ao seu pedido, tanto por causa dos meus interesses comerciais
quanto por minhas próprias inclinações positivas para fazê-lo". Observando que ele
era um sujeito do governo canadense, Taylor acrescentou em sua carta de 16 de
março de 1904: "Nos meus trabalhos oficiais como apóstolo na Igreja, eu me
mantenho inteiramente sujeito às suas instruções, mas em um assunto tão pessoal e
puramente político, inventado com o objetivo de bisbilhotar as relações domésticas
de homens que não são de modo algum receptivos a essa classe de golpistas, nem
mesmo ao departamento do governo dos EUA representado por esse honorável
comitê, devo pedir que seja dispensado de participar de um tarefa tão humilhante."
Carl Badger estava profundamente ciente da situação da igreja sobre a recusa de
muitos mórmons importantes em comparecerem em Washington. Badger disse a
Smoot que estava desanimado com os líderes da igreja e expressou sua opinião de
que "algo deve ser feito com aqueles que violaram a promessa contra a tomada de
novas esposas". Smoot, convencido de que a nova poligamia foi aprovada pela igreja,
respondeu: "Nada será feito; creio que eles foram autorizados a levar as esposas"
(Badger Journal, 18 de dezembro de 1904). Mas o perceptivo Badger reconheceu que
o governo não ficaria satisfeito até que alguém pagasse o preço pela violação de seus
compromissos pelos líderes da igreja. O jovem secretário estava especialmente
preocupado com a posição em que a igreja se encontraria se Taylor e Cowley não
testemunhassem logo. Ele escreveu a Ed Jenkins em 24 de março de 1904 que
"estamos em um péssimo lugar (...) Não hesito em dizer que será uma vergonha e
uma desgraça se eles não vierem" (Coleção Badger).
Os líderes da igreja enviaram o apóstolo John Henry Smith ao México para
trazer de volta Cowley, que era conhecido pelo pseudônimo de "Westlake". O
apóstolo rebelde não pôde ser encontrado. Irritado, Smith ordenou que os líderes da
igreja no México "seguissem Westlake imediatamente". No dia seguinte ele apareceu.
Após uma longa conversa com John Henry, "Westlake decidiu que não iria comigo",
relatou o apóstolo Smith (Pusey 1982, 192). Francis M. Lyman foi enviado em uma
missão semelhante ao Canadá para trazer de volta John W. Taylor. Ele também
retornou de mãos vazias. [9] O Presidente Smith, ao saber que Cowley e Taylor se
recusaram a testemunhar em Washington, escreveu a Smoot em 9 de abril que "os
élderes Taylor e Cowley declararam seus próprios casos e terão que cumprir com os
resultados [disso]". (Coleção Smoot). [10]
O status dos dois apóstolos foi tão discutido nas reuniões do quórum [tanto]
quanto em Washington. O advogado da igreja Franklin S. Richards exortou o
Presidente Smith a partir de 18 de abril de 1904 a não apresentar os nomes de Taylor
e Cowley para um voto de apoio na próxima conferência, aconselhando que "se eles
não viessem e assumissem total responsabilidade pela conduta para cortá-los do
Quórum e, se necessário, excomungá-los" (Badger Journal, 18 de abril de 1904).
Badger observou em seu diário de 12 de fevereiro de 1905 que "de tudo o que posso
aprender, se alguma coisa for feita com Cowley e Taylor, pelos líderes da Igreja, será
porque eles são forçados a fazer alguma coisa".
Smoot sofreu muita pressão de seus colegas senadores. "Se a Igreja não é
culpada de nova poligamia, por que os apóstolos estão evitando intimações", ele foi
perguntado, "por que eles estão se escondendo agora?" "Por que a Igreja os sustenta
em suas posições?" Carl Badger reconheceu que algo teria que acontecer em breve
para aliviar a pressão sobre Smoot. "Se nada for feito [sobre Cowley e Taylor] na
conferência de outubro", escreveu a sua esposa Rose, em Utah, em 9 de abril de
1905, "eu não estaria no lugar do senador Smoot por um milhão em dinheiro vivo,
para ser sincera, eu agora não" (Coleção Badger). Smoot, obviamente chegando à
mesma conclusão que seu secretário, decidiu não apoiar Cowley e Taylor na
conferência de outono, quando seus nomes foram apresentados aos santos para um
voto de apoio.
A posição de Smoot em relação a Cowley e Taylor foi apoiada por muitos líderes
da igreja, incluindo Cowley e Taylor. John Henry Smith observou que ele e outros
"favoreciam Taylor e Cowley fazendo algo para aliviar o sentimento do público em
casa e no exterior" (Pusey 1982, 1992). De acordo com a esposa de Taylor, Nellie,
Cowley e Taylor concordaram em apresentar suas demissões em um gesto altruísta,
projetado para ajudar Smoot e a igreja. "Era melhor acalmar as coisas com o
governo", disse ela, "manter Smoot no Senado (...) [Ao] depor Cowley e Taylor.
Então, quando as condições eram mais favoráveis, os dois poderiam ser
restabelecidos." Esta moção foi votada por unanimidade pelo Quórum dos Doze, de
acordo com seu testemunho (Samuel W. Taylor, 8 de janeiro de 1936, em entrevista
com Nellie E. Taylor, Coleção Taylor). Anthony W. Ivins, reconhecendo as
implicações políticas das renúncias de Taylor e Cowley, escreveu a Heber J. Grant
quando soube da ação: "Tudo bem se enganar alguém, exceto a nós mesmos. Seremos
os únicos enganados" (Quinn 1985, 103).
Embora Cowley e Taylor tenham apresentado suas renúncias em 28 de outubro,
os líderes da igreja decidiram esconde-los até o momento mais vantajoso para
divulgá-las publicamente.[11] A Primeira Presidência fez Smoot ciente de que as
renúncias poderiam ser usadas para melhorar sua posição, se necessário. Smoot
escreveu ao secretário da Primeira Presidência, George F. Gibbs, em 6 de dezembro
de 1905: "Se você decidir usar demissões, não as tornará públicas até que eu peça
conselhos sobre o melhor momento para fazê-lo" (Coleção Smoot). No dia seguinte,
Smoot foi notificado de que "se você acha que o caso será aberto novamente ou é
provável que seja expulso por todos os meios, reter as demissões e não mencioná-las
a ninguém. F. M. Lyman estará aqui amanhã quando telegrafarmos." Às 15h55, em 8
de dezembro, Gibbs ligou "F. M. Lyman está aqui. Quando você se convencer de que
a ação não pode mais ser adiada, avise-nos. "Doze minutos depois, Gibbs ligou
novamente:" Os irmãos que começam a sentir que John W. Taylor e Cowley não
devem ser sacrificados, a menos que exigido pelo Comitê em privilégios e ejeções
para salvar você" (Coleção Smoot) .[12]
Smoot informou no dia seguinte que achava que não seria expulso. Ele também
informou a Primeira Presidência: "Concluí que o anúncio público das renúncias [de
Cowley e Taylor] feitas neste dia atrasado teria um efeito desfavorável sobre o país e
os senadores", mas que ele queria se reunir com o presidente dos Estados Unidos e
"falar com ele com confiança e, talvez um ou dois amigos no comitê e peça seus
conselhos". Smoot não se sentia à vontade para que seus companheiros apóstolos se
tornassem bodes expiatórios para "salvar minha expulsão [do senado] ou me salvar".
"Se Taylor e Cowley não fizeram nada errado", ele ligou para a Primeira Presidência,
"e seus atos se encontram com a aprovação dos Irmãos pelo amor de Deus, não os
tratamos, mas vamos assumir as conseqüências" (Coleção Smoot).
O presidente do quórum, Francis M. Lyman, escreveu uma semana depois, em
15 de dezembro, para aconselhar: "Você tem total liberdade de usar as renúncias (...)
onde você precisar usá-las. Elas não foram dadas para seu benefício, mas para o
alívio da igreja" (Lyman Letterbooks). Smoot voltou a Utah para as férias de Natal e,
em 1 de janeiro de 1906, encontrou-se com o Presidente Smith. Juntos, eles
concordaram que, ao retornar a Washington, ele diria ao Presidente Roosevelt que,
durante as investigações [os membros do] Quorum dos Doze Taylor e Cowley,
haviam admitido ter esposas plurais desde o Manifesto, mas que isso fora feito fora
dos Estados Unidos. Em sua viagem de trem de quatro dias de volta à capital, Smoot
mudou de idéia. "Se eu fosse ao presidente Roosevelt e dissesse a ele que Taylor e
Cowley haviam admitido sua culpa", ele escreveu mais tarde ao presidente Smith", o
presidente, à sua maneira franca, honesta e pessoal, perguntaria imediatamente se
haviam sido excomungados e se não, porque não". Então Smoot, reconhecendo que
Roosevelt ficaria "descontente com a política adotada", decidiu não discutir a
situação com o presidente.
No início da primavera, quando a Conferência Geral se aproximava, o influente
apóstolo Charles W. Penrose escreveu a Smoot em 9 de março, pedindo que ele
tentasse estender as investigações de Washington até depois da conferência. "Poderão
ser tomadas medidas [,] e creio que serão, que devem ser colocadas de maneira
legítima no registro do seu caso" (Smoot Collection). Dois dias depois, Smoot
recebeu uma carta, datada de 7 de março de 1906, do apóstolo Heber J. Grant, que
estava em Liverpool, Inglaterra. "Tem sido minha oração sincera e constante",
escreveu o futuro presidente da igreja, "que os irmãos Taylor e Cowley sejam
preservados das flechas do inimigo. Tenho certeza de que, se eles fossem
sacrificados, haveria apenas mais uma concessão e que em um futuro próximo algo
mais seria exigido" (Coleção Smoot).
Durante o final de semana da conferência, as renúncias de Taylor e Cowley
foram oficialmente aceitas, alegando que os dois apóstolos estavam "em desarmonia"
com seus irmãos. As renúncias desapontaram muitos santos que reconheceram o
envolvimento da maioria das Autoridades Gerais na nova poligamia e não aceitaram a
explicação "fora de harmonia". Eles viram os apóstolos muito amados como
cordeiros de sacrifício. Anthony W. Ivins observou que no México se acreditava
comumente "que os irmãos Taylor e Cowley foram retirados apenas por razões
políticas" (Ata do Quórum dos Doze, 10 de maio de 1911). Durante uma reunião do
Quórum dos Doze em 22 de julho de 1909, alguns apóstolos também se mostraram
abertamente céticos quanto a Cowley e Taylor estarem "fora de harmonia". Orson F.
Whitney relatou que "os santos não consideram que estavam fora de harmonia, mas
[foi] simplesmente um sacrifício necessário". Rudger Clawson modificou um pouco
essa visão. "Os irmãos Taylor e Cowley se ofereceram para se harmonizar com o
quorum", explicou ele, "eles admitiram que estavam fora de harmonia, mas se
ofereceram para se recompor". Após considerável discussão, o presidente do quórum
F. M. Lyman retrucou: "Quero que esse corpo de homens entenda que não se
harmonizou com o quorum" (Joseph Musser Journal, 22 de julho de 1909). [13]
Após as demissões de Taylor e Cowley, os eventos pareciam fluir mais
suavemente para a igreja e para o senador Smoot. Embora a Comissão de Privilégios
e Eleições do Senado recomendasse sua expulsão, todo o Senado, influenciado pelo
Presidente Roosevelt, se recusou a agir de acordo com a recomendação. Smoot foi
senador por trinta anos e tornou-se presidente do poderoso Comitê de Finanças do
Senado.
Enquanto isso, a igreja começou a difícil tarefa de convencer a população
mórmon e não-mórmon de que a poligamia era história passada. Em 1907, a Primeira
Presidência, com a aprovação unânime dos santos na Conferência Geral, publicou
uma declaração intitulada Uma [Carta] Endereçada a: A Igreja de Jesus Cristo dos
Santos dos Últimos Dias para o Mundo. Este documento de dezesseis páginas
reafirmou as crenças básicas da igreja e afirmou que os mórmons não pretendiam
misturar política com religião, eram politicamente leais aos Estados Unidos e não
apoiavam a poligamia. Foi acrescentado um esclarecimento de que os poucos
indivíduos que continuaram a praticar o casamento plural estavam desafiando não
apenas a lei civil, mas também a lei da igreja. No entanto, esses poucos renegados
seriam um problema perpétuo para uma igreja ansiosa em convencer uma América do
século XX de que os mórmons eram tão anti-poligâmicos tanto quanto qualquer um.

Notas:
1 – Veja detalhes dessa situação no Abraham H. Cannon Journal, de 2 de novembro de 1890 e
19 e 24 de outubro de 1894.
2 – Joseph Musser relatou uma reunião de 16 de fevereiro de 1914 em seu diário com o
apóstolo F. M. Lyman, que esclarece a situação de Cannon-Hamlin. Analisando suas crenças de
poligamia, Musser comentou que "ouviu um dos membros da 1ª Presidência (já morto) justificar seu
filho a entrar na relação". "Sim", respondeu Lyman, "George. Cannon trouxe reprovação à igreja ao
deixar Abraham H. Cannon entrar nela. Ele era responsável pelo ato de Abraham. Abraham não
precisava da garota que ele tinha uma família numerosa, e ele destruiu sua utilidade na igreja.
Homens como ele, George Q., Apóstolos Merrill, Teasdale, Cowley, Woodruff e Taylor (...) não
censuram a igreja e fizeram algo errado".
3 – Stanley S. Ivins observou em seu diário de 29 de novembro de 1934 os comentários
preocupados de uma esposa plural pós-manifesto sobre o testemunho de Smith: "Eu conheci K. K.
Steffenson no almoço [cerca de um mês atrás] e começamos a conversar sobre a poligamia pós-
manifesto. Sua irmã era uma mulher casada com um polígamo. Ele disse que tinha se recusado a se
casar com alguém, exceto se o Presidente Smith o casasse com ela no templo de Salt Lake. Quando
ele mais tarde testemunhou na investigação de Smoot que não havia casamentos autorizados após o
manifesto, ela ficou chateada e mandou seu irmão, K. K., ir ao Presidente Smith falar sobre isso.
Ele disse a K. K. para dizer à irmã que o casamento dela estava ok, mas ele teve que dizer o que fez
em Washington para proteger a Igreja".
4 – Os líderes da igreja obviamente pretendiam continuar vivendo com suas esposas plurais.
Carl Badger relatou em seu diário que depois que Smoot escreveu a Primeira Presidência na última
parte de 1904, pedindo que "a coabitação ilegal fosse abandonada", ele foi instruído a "deixar essas
coisas em paz" (22 de dezembro de 1904).
5 – Evidências convincentes de que alguns membros da igreja no México foram avisados da
declaração iminente de Smith e mudaram suas datas de casamentos plurais em conformidade são
discutidos por Jorgenson e Hardy 1980, 26.
6 – Nesse mesmo dia, Lyman também informou a vários apóstolos que a permissão para
realizar selamentos fora dos templos também foi retirada. Em uma carta separada a John W. Taylor
e George Teasdale, ele escreveu: "Como vocês sabem até alguns anos atrás, o costume prevaleceu
no Canadá, Arizona e México de se casar por tempo apenas devido à inconveniência e a despesa de
participar de uma viagem a um templo. O Presidente Woodruff e o Presidente Snow, cada um de seu
tempo, autorizaram alguns apóstolos, e talvez outros, a realizar selamentos por tempo e eternidade
em favor dos jovens casais daqueles lugares, e que esta autoridade tenha sido exercida com bastante
liberdade até esse momento". Lyman anunciou a mudança de política: "O conselho da Primeira
Presidência e dos Apóstolos considerou oportuno e sábio retirar essa autoridade daqueles irmãos,
deixando-a unicamente nas mãos de quem detém as chaves, e uma resolução para esse efeito foi
aprovada por unanimidade pelo conselho "(Lyman Letterbooks).
7 – Teasdale foi uma figura-chave nos casamentos plurais pós-manifesto. Ele não apenas se
casou com pelo menos duas esposas plurais (ver Marriner W. Merrill Journal, 17 de maio de 1900;
Anthon H. Lund Journal, 24 de janeiro de 1904; e Orson Pratt Brown Journal, 39), ele incentivou e
realizou muito mais casamentos. Se não fosse por sua idade e problemas de saúde (ele morreu em
1907), ele provavelmente teria sido retirado do quorum junto com Taylor e Cowley.
8 – Reed Smoot, em uma carta sem data para Joseph F. Smith, sugere que Ivins
provavelmente foi aconselhado a não ir a Washington. "Parece-me imprudente", escreveu o senador,
"ter o irmão Ivins vindo aqui para testemunhar, e ele é o único que poderia testemunhar sobre esse
ponto [as alegadas cartas de autorização de George Q. Cannon para Ivins]" (Smoot Coleção).
Abraham O. Woodruff e George Teasdale foram definitivamente instados pelo Presidente Smith a
permanecer fora do país durante as audiências (ver Quinn 1985, 100; George F. Gibbs a George
Teasdale, 20 de agosto de 1904 e 6 de janeiro de 1905; Primeira Presidência [ Smith, Winder, Lund]
a Teasdale, 2 de novembro de 1905 - todos em Joseph F. Smith Letterbooks).
9 – As evidências sugerem, no entanto, que John W. Taylor, como Ivins, Woodruff e Teasdale,
foram instruídos a não ir a Washington. Vários relatos sugerem que, quando F. M. Lyman estava em
Alberta, Canadá, tentando trazer Taylor de volta, ele foi instruído em um sonho a não insistir no
testemunho de Taylor diante do comitê do Senado. Veja a entrevista de Samuel W. Taylor em 8 de
julho de 1937 com Raymond, presidente da estaca de Alberta; H. S. Allen e George Henry Budd a
Nellie Todd Taylor, 5 de maio de 1932, ambos na coleção de Samuel W. Taylor. O diário de Carl A.
Badger em 8 de setembro de 1905 também verifica o incidente de Lyman.
Independentemente de Taylor e/ou Cowley terem sido aconselhados a não testemunhar, Smoot
ficou aliviado por não terem vindo a Washington. Em uma carta de 10 de maio de 1906 a Joseph F.
Smith, ele escreveu: "A partir das sugestões que recebi, acho que seria bom que Cowley e Taylor
continuassem fora do caminho até o adiamento do congresso. Burrows and Owens acha que se o
caso fosse reaberto e Taylor fosse intimado, ele poderia esclarecer muitos pontos" (Coleção Smoot).
10 – Alguns dias depois, em 15 de abril, Smith escreveu para Julius C. Burrows, presidente da
Comissão de Privilégios e Eleições do Senado: "É com pesar que eu o informei da minha
incapacidade de conseguir a presença dos Srs. John Henry Smith, George Teasdale, Marriner W.
Merrill, John W. Taylor e Matthias F. Cowley perante o Comitê de Privilégios e Eleições do
Senado." Explicando que a "doença" tornou impossível eles testemunharem, Smith concluiu: "Não
tenho poder para exercer mais do que persuasão moral nas premissas" (Clark 1965-75, 4: 85-86).
11 – Cópias de ambas as demissões estão na coleção de Smoot.
12 – Usando nomes de código, Gibbs enviou uma carta explicando ainda mais essa ação e
advertindo: "Se você deixar de lado para sempre todo o pensamento de fazer um sacrifício de
zoantropia [Taylor] e choramingar [Cowley], começará a ver seu caminho se iluminar, para tanto
nada pode ser feito simplesmente na esperança de evitar uma legislação drástica, nem com o
objetivo de convencer os amigos de que o ziamet [presidente] é honesto" (9 de dezembro de 1905,
coleção Smoot).
13 – De acordo com a ata oficial, o apóstolo Charles W. Penrose fez o que pode ser
considerado uma visão pós-1904 da questão da "harmonia" durante uma reunião do Quórum dos
Doze em 10 de maio de 1911: "Foi feita a acusação de que os irmãos Taylor e Cowley estavam fora
de harmonia com os Doze no que se refere ao casamento de esposas plurais e a incentivar outros a
tomarem esposas plurais. Eles [Taylor e Cowley] disseram que responderiam se tivessem cinco
minutos para conversar com o Presidente Smith, o Presidente Smith se recusou a conversar com
eles e portanto, eles se recusaram a dizer se haviam tomado outras esposas. A questão do escopo do
manifesto [Woodruff] também foi discutida. Os outros irmãos do quórum sustentaram que ele
abrangia todos os lugares e eles [Taylor e Cowley] alegaram que ele se referia Estados Unidos. Em
seguida, surgiu a questão de sua demissão. Eles estavam em desordem em relação aos casamentos
plurais e renunciaram, o assunto foi mantido em silêncio por vários meses com a esperança de que
eles mais tarde, reconciliar-se com os irmãos. Eles pareciam entender que tinham o direito de seguir
em frente e que isso estava fora de harmonia".
Para ser justo com Taylor e Cowley, no entanto, eles não estavam em desacordo com o
quorum anterior a 1904. Anthony W. Ivins apontou isso em uma carta de 29 de janeiro de 1923 a
Price W. Johnson: "O ponto de vista foi de que o manifesto se aplicava apenas aos Estados Unidos,
e não ao México ou outros países estrangeiros" (Ivins Letterbooks, LDS Archives) Além disso, como
discutido anteriormente, a maioria do quórum anterior a 1904, bem como a Primeira Presidência,
apoiou em particular a poligamia pós-manifesto. O único apóstolo de 1890 a ver o Manifesto de
Woodruff com aplicação mundial foi F. M. Lyman, que liderou os esforços da hierarquia pós-1904
para eliminar a poligamia da igreja. Joseph Eckersley explicou em seu diário de 2 a 6 de setembro
de 1903 que, depois que o presidente da estaca Joseph Robinson havia escrito à Primeira
Presidência solicitando esclarecimentos sobre os casamentos pós-manifesto, eles enviaram o
apóstolo Matthias Cowley para conduzir uma conferência. Eckersley notou uma conversa particular
com Cowley, que o informou do "sentimento das autoridades respeitando o 'Manifesto Woodruff' e
que o apóstolo Lyman ficou sozinho na construção de seu significado e não estava em harmonia
com o resto dos apóstolos sobre esse assunto."
Capítulo 5
Fundando o Fundamentalismo Mórmon
As Audiências de Smoot e o testemunho de 1891 de Wilford Woodruff, George
Q. Cannon e Joseph F. Smith ante o tribunal haviam demonstrado que os líderes da
igreja eram capazes de ocultar detalhes para proteger a igreja e a si mesmos. Na
conclusão das Audiências Smoot, Carl Badger refletiu sobre sua decepção com a
casuística dos membros da hierarquia mórmon. "Acredito que nossa honra é mais
para nós do que qualquer coisa na terra", escreveu ele em uma carta pessoal. "Se,
como povo, tivéssemos observado estritamente o Manifesto, acredito que nosso
exemplo teria desafiado a admiração do mundo; mas pensamos que há algo mais alto
do que a honestidade, e contemplamos nossa confusão". Badger ansiava por
"honestidade simples, os fatos eram um remédio do qual recuamos, mas rezo pela
última vez, gostaria que fosse possível atirar nos dentes do mundo a acusação e o
orgulho: enquanto vocês foram cruéis, fomos honestos " (Badger para "Meu Querido
Charlie", 22 de junho de 1906).
Badger não foi o único a ver com decepção o testemunho dos líderes da igreja.
Muitos lembraram a crença do apóstolo John Henry Smith, mais tarde retratada, de
que "o Manifesto [de Woodruff] é apenas um truque para derrotar o diabo em seu
próprio jogo" (Procedimentos 4H3) [1] e viram o Manifesto de Joseph F. Smith de
1904 e as declarações oficiais subseqüentes como do mesmo tipo. Diante das
inconsistências passadas nas declarações e ações dos líderes da igreja, o poderoso
presidente do Quórum dos Doze, F. M. Lyman, liderou a força-tarefa de 1904 que
tentava convencer os santos e outros que a igreja agora pretendia suprimir a
poligamia.
Durante uma conferência de 8 de dezembro de 1906 em Colonia Juarez, coração
do país da poligamia pós-manifesto, Lyman advertiu "aqueles que sentem que seus
direitos são reduzidos e que não podem obter os privilégios que lhes pertencem. Não
queremos que os homens nos incomodem. O bispo e o Conselho Superior devem
cuidar de tais personagens, se necessário excomungá-los. Não são permitidos
casamentos plurais. Nenhum homem no mundo está autorizado a solenizar esses
casamentos" (Anthony W. Ivins Journal, 8 de dezembro de 1906). Lyman sempre
advertiu os membros de seu quórum que "era dever dos 12 instruir as pessoas que
visitamos que cessaram os casamentos plurais" (ibid., 7 de julho de 1909). Ele
chegou ao ponto de trazer um exemplo público de um amigo que, imprudentemente,
alegou ter entrado em um casamento plural não autorizado. O presidente do quórum
instigou ações civis e eclesiásticas que resultaram na excomunhão e prisão do
homem.
Em 1909, as autoridades da igreja estabeleceram um comitê composto pelos
apóstolos Lyman, John Henry Smith e Heber J. Grant para investigar a nova
poligamia. [2] O grupo foi autorizado a "convocar o conselho" para qualquer pessoa
suspeita de incentivar o casamento plural (Diário de George F. Richards, 14 de julho
de 1909). A maioria das testemunhas convocadas não colaborou e evazaram. Lyman
comentou durante um desses interrogatórios que "ele responde exatamente como os
outros irmãos que estão na mesma posição (...) Alguém poderia pensar que esses
irmãos haviam ensaiado seus discursos" (Joseph Musser Journal, 22 de julho de
1909). Mas alguns falaram o que pensavam. O bispo da ala de Grantsville (Utah), por
exemplo, argumentou que "não importa que política a igreja possa adotar se o Senhor
revelar a um homem que ele deve ter uma esposa plural e indicar o modo como ele
pode entrar nela, está tudo bem para ele levá-la" (Anthony W. Ivins Journal, 20 de
setembro de 1909).
Em meados de 1910, os líderes da igreja haviam reconhecido a necessidade de
uma política oficial para lidar com os novos polígamos. Numa reunião do Quórum
dos Doze em 8 de setembro, Reed Smoot propôs que "todos os novos casos fossem
excomungados da igreja e que medidas fossem tomadas de uma só vez. Além disso, a
igreja não deveria reter qualquer homem que tivesse uma esposa plural após o
Manifesto em um posição da igreja onde as pessoas foram convidadas a apoiá-lo"
(Smoot Journal, 8 de setembro de 1910, na Coleção Smoot). Smoot propôs
novamente o plano em 27 de setembro. Mas seus colegas apóstolos "pensaram que
não deveria ser feito um abate por atacado daqueles que foram induzidos a tomar
esposas plurais por Taylor, Cowley, Woodruff e Merrill antes da declaração do
Presidente Smith em abril de 1904, mas abandoná-los o mais rápido que as condições
permitirem sem fazer uma grande comoção" (ibid., 27 de setembro de 1910).
Joseph F. Smith, que estava doente, não havia se envolvido em reuniões de
quórum nas quais foram discutidas medidas disciplinares para novos polígamos.
Smoot visitou o presidente da igreja em 28 de setembro e instou-o a fazer uma
declaração pública na próxima Conferência Geral "para provar ao nosso povo que
somos sinceros em nossa oposição à nova poligamia" (ibid., 28 de setembro de 1910).
Durante uma reunião de quórum em 5 de outubro, os apóstolos passaram duas horas
discutindo o que fazer com conhecidos polígamos pós-manifesto. Smoot novamente
propôs retirá-los de suas posições na igreja, mas sua argumentação não foi aceita. O
conselheiro da Primeira Presidência, Anthon H. Lund, sugeriu pelo menos que eles
não fossem apresentados para um voto de apoio na próxima Conferência Geral a
liderança das organizações auxiliares da igreja, a fim de "evitar apresentar tal
pessoa". O quórum concordou com a redação de uma carta circular a ser enviada a
todos os presidentes de estaca instruindo a excomunhão a qualquer pessoa "que
aconselha ou incita qualquer pessoa a contrair um casamento plural (...) assim como
aqueles que solenizam esses casamentos ou aqueles que entram em uniões tão ilegais
"(Clark 1965-75, 4: 210).
O [jornal] Salt Lake Tribune de 8 de outubro provocou uma onda de choque ao
listar mais de duzentos homens mórmons, incluindo seis apóstolos, que haviam
tomado esposas pós-manifesto. O Presidente Anthon H. Lund, dirigindo-se à
Conferência Geral mais tarde naquele dia, chamou a atenção para os numerosos
relatos de nova poligamia sendo relatadas. Ele enfatizou que o casamento plural era
contrário às leis da igreja e depois leu a carta de instruções que o quorum havia
preparado para os líderes da estaca. Joseph F. Smith, falando depois de Lund, citou
seu manifesto de 1904. "Depois que a Igreja falou claramente", disse ele, "tomamos
como certo que nenhum de seus membros seria encontrado desobedecendo sua voz.
Mas, diante dessa ação, enfatizada repetidamente em público e em particular por nós
e também pelos apóstolos, descobrimos agora que algumas pessoas assumiram
autoridade para solenizar casamentos plurais e que homens e mulheres entraram em
relações poligâmicas por terem se casado sob tal pretensa autoridade." Sem fornecer
nomes, ele anunciou que "alguns dos violadores dessa ação oficial da Igreja foram
julgados por sua irmandade e foram excomungados. Mas existem rumores à tona (e
alguns desses rumores parecem bem fundamentados) de que ainda existem outros
igualmente culpados, e é nesses casos que desejamos direcionar nossa atenção "(ibid.,
217-18).
No fim de semana, a procura pelo [jornal] Saturday Tribune foi tão grande que o
jornal reeditou a lista de novos polígamos na segunda-feira com alguns nomes
adicionais. O editor do jornal explicou sarcasticamente que desejava publicar a lista
revisada de duzentos e vinte nomes "para chamar a atenção do apóstolo Francis M.
Lyman, que em [cidade de] Logan declarou recentemente guerra eclesiástica contra
essa classe de homens, a quem ele designou como 'skullduggers' (furadores de
crânios)." "Somente nesta lista" continuou o jornal "é fornecido o suficiente para
manter o presidente dos doze ocupados disciplinando e excomungando enquanto
procuramos mais alguns casos para ele." O jornal considerou os esforços da igreja
para eliminar a poligamia insincera. "O pequeno alarde recente de indignação do
apóstolo Lyman não passou de um blefe, que não enganou ninguém em particular, e
muito menos o The Tribune".
As acusações do jornal de Salt Lake City eram uma preocupação especial para
Reed Smoot, que logo teria que retornar a Washington e enfrentar o presidente e
outros líderes do governo. Embora a Primeira Presidência e o Quórum dos Doze em 8
de novembro tenham decidido retirar das posições eclesiásticas os homens que
haviam tomado esposas pós-Manifesto, Smoot se preocupava com o apoio menos
entusiasmado das medidas do Presidente Smith (John Henry Smith Journal, 8 de
novembro 1910). Em 15 de novembro, o Smoot e F. M. Lyman se reuniram com a
Primeira Presidência para esclarecer a questão. Smoot observou em seu diário que os
líderes da igreja estavam em concordância essencial de que "todos os casos entre o
manifesto de Woodruff e o de 1904 deveriam ser tratados de acordo com as
circunstâncias e, se contraídos [o casamento plural] pelos apóstolos, eles seriam
excomungados, e seriam aliviados de todas as posições na Igreja". O Presidente
Smith reteve sua aprovação a esse respeito até o dia seguinte, mas depois pareceu
concordar.
Dois dos novos polígamos listados no Salt Lake Tribune de 8 de outubro eram
os ex-apóstolos Matthias Cowley e John W. Taylor. No momento de suas demissões,
os dois homens presumiram que, quando a tempestade passasse, eles seriam
restabelecidos em suas posições anteriores. Uma das esposas plurais de Taylor disse a
um filho que, em 1905, Joseph F. Smith havia dito aos dois homens: "Vocês são
chamados a fazer esse sacrifício, mas não perderão nada com isso. Quando as coisas
se acalmarem, você será restabelecido" (Entrevista de Samuel W. Taylor com Nettie
M. Taylor, 15 de janeiro de 1936, [6], Coleção Taylor). Cowley expressou o mesmo
entendimento para outro filho de Taylor em 1937: "Quando estávamos no conselho
em relação aos nossos problemas, o irmão [Charles W.] Penrose comentou: 'Esses
irmãos (Taylor e Cowley) não estão sendo julgados nem cometeram nenhum crime,
ofensa, mas se eles estiverem dispostos a oferecer o sacrifício e suportar o
constrangimento, nós os admitiremos de volta depois que a situação melhorar'"
(Raymond W. Taylor para Samuel W. Taylor).
Mas a oposição dos apóstolos F. M. Lyman, Reed Smoot e colegas de Smoot no
Senado tornou impossível retornar os dois ao quórum. Carl Badger observou em uma
carta de 21 de fevereiro de 1907 a sua esposa que Smoot disse que "se Taylor e
Cowley forem trazidos de volta e colocados no quórum dos apóstolos, nada nos
salvará da ira do povo americano". Badger concordou: 'Pensar nisso como possível é
tornar a Igreja uma fraude hipócrita" (Coleção Badger).
Cowley, menos combativo que John W. Taylor, inicialmente não nutria
sentimentos negativos em relação a outros líderes da igreja. "Não tenho culpa de
encontrar, oposição, de chutar, de resmungar", escreveu a Jessie N. Smith em 1906.
"Amo todos os meus irmãos, embora haja momentos em que acho que alguns deles
não conhecem o meu coração, e estão trabalhando com um mal-entendido das causas
e motivos que levaram ao meu caso." Cowley foi particularmente gentil com "nosso
amado líder, o Presidente Joseph F. Smith. Ele não é responsável pelas condições
infelizes que nos foram impostas. Eu sei que ele está sendo terrivelmente julgado.
Deus o abençoe e proteja para sempre" (Smith, 1953, 462). John W. Taylor sentiu-se
menos generoso com seus irmãos. Visitado no México pelos apóstolos John Henry
Smith, Francis M. Lyman e Anthony W. Ivins, Taylor acusou a igreja de covardia em
desistir do casamento plural diante da pressão do governo.
O fracasso em restabelecer Cowley e Taylor no Quórum dos Doze Apóstolos,
conforme prometido, os afastou ainda mais de outros líderes da igreja. Por terem
participado e recebido esposas plurais adicionais e encorajado outras pessoas a fazê-
lo, foram convocados a comparecer perante o Quórum dos Doze em 13 de outubro de
1910. Nenhum dos dois compareceu e Francis M. Lyman fez outra convocação para
Taylor em 15 de fevereiro de 1911. Três dias depois, Taylor invadiu o escritório da
Primeira Presidência, ordenou a saída do Presidente Lund e do Patriarca John Smith e
exigiu uma entrevista com o Presidente Joseph F. Smith e seu conselheiro John Henry
Smith. Por mais de duas horas, ele teria gritado ameaças (George Albert Smith
Letterbooks, 18 de fevereiro de 1911). No entanto, o julgamento de Taylor antes de
seus ex-membros do quórum começou em 22 de fevereiro de 1911. Durante todo o
interrogatório, Taylor manteve uma atitude arrogante e não penitente, dizendo que
nunca mais desejaria estar associado ao quorum no tempo ou na eternidade. Em 28 de
março, ele foi excomungado por "insubordinação ao governo e disciplina da Igreja".
Reed Smoot, que esteve em Salt Lake para o julgamento de Taylor, estava
convencido de que o aumento da oposição à nova poligamia era resultado dos
inúmeros artigos de jornais e revistas que inundavam o país. Ele reiterou sua posição
de longa data de que, para diminuir as críticas externas, as ações da igreja deveriam
ser tomadas contra todos os casos de poligamia pós-1890. "A igreja ou as autoridades
da igreja não podem ou não acreditarão", argumentou ele, "se os homens que
violarem as regras (...) forem mantidos como oficiais da igreja" (Smoot Journal, 16
de março de 1911).
Depois de retornar a Washington, Smoot enviou um telegrama em 31 de março a
Joseph F. Smith, repetindo sua recomendação de remover os novos polígamos dos
cargos da igreja. O senador expressou decepção com a resposta do Presidente Smith.
"Ele não entende o sentimento do povo", escreveu Smoot em seu diário em 2 de abril
de seu líder da igreja; "o país não aceitará desculpas e não considerará humilhante
que um homem o castigue pelo mesmo. É evidente que nenhuma ação contra as
pessoas que tomam esposas poligâmicas antes de 1904 seja tomada".
Cinco dias depois, o Presidente Smith solicitou que Smoot providenciasse a
divulgação de uma declaração pela Associated Press preparada para a Conferência
Geral. Esta declaração respondeu às acusações de nova poligamia feita por vários
artigos de notícias. Para decepção de Smoot, a declaração não mencionou que novos
poligamistas seriam libertados de suas posições. Preocupado que o Presidente
Roosevelt não ficasse satisfeito, Smoot ligou para instruções mais específicas. "Se o
presidente indaga sobre a nova poligamia", Smith escreveu em 11 de abril "diga a
verdade, diga que o Presidente Cannon foi o primeiro a conceber a idéia de que a
Igreja poderia consistentemente aceitar a poligamia além dos limites da república
onde não havia lei contra ela e, conseqüentemente, ele autorizou a solenização de
casamentos plurais no México e no Canadá após o manifesto de 1890." Cuidadoso
para não expor seu próprio envolvimento em casamentos pós-manifesto, Smith
defendeu os polígamos pós-manifesto como indivíduos que "se casaram de boa fé".
"Nestas circunstâncias", Smith perguntou a Smoot, "poderíamos consistentemente
esperar humilhá-los liberando-os?"
Aqueles que se casaram com esposas plurais após abril de 1904 ou que
incentivaram outros a fazê-lo eram um assunto diferente na mente dos líderes da
igreja. John W. Taylor e muitos outros novos polígamos foram excomungados. Mas
Matthias Cowley, embora tenha mais influência na realização de casamentos pós-
manifesto do que Taylor, não teve o mesmo destino. Aparecendo ante o quórum em
10 de maio de 1911, Cowley era muito menos desafiador do que Taylor, embora seu
testemunho não fosse menos revelador. Ele culpou seus "casamentos plurais
clandestinos por seus 'líderes de arquivos'", dos quais ele alegou ter recebido
autoridade. Ele também via os "anúncios dos presidentes como 'blefes' para o mundo
e não como tirando a autoridade já conferida" (Charles A. Penrose Journal, 10 de
maio de 1911).
Cowley, ao contrário de Taylor, queria permanecer na igreja. "Quero que vocês
irmãos", disse ele, de acordo com a ata oficial, "provem a John W. Taylor [que é] um
falso profeta quando ele disse que eu seria excomungado da Igreja. Se houver algo
que eu possa fazer para honrar nossa honra perante a nação e para os santos, estou
disposto a fazê-lo. Eu quero que vocês saibam que não sou rebelde e nunca fui e se
errei, foi por causa dessas circunstâncias e do exemplo de meus irmãos e estou em
harmonia com vocês e gostaria que vocês me colocassem em minha honra de fazer
isso de bom no futuro. Prefiro morrer a ser excomungado da Igreja."
Cowley, "privado do direito e da autoridade para exercer qualquer uma das
funções do Sacerdócio", permaneceu em um estado de limbo até assinar uma
declaração preparada pela Primeira Presidência em 1936. "Fui enganado", começou a
declaração, "e onde e quando eu aconselhei ou tomei medidas contrárias aos
princípios, regras e regulamentos da Igreja, adotados pela Igreja e em vigor, cometi
muitos erros de aconselhamento, e minhas ações foram nulas e sem efeito. Agora vejo
claramente e confesso livremente, e humildemente e com um espírito contrito de
verdadeiro arrependimento peço perdão" (Deseret News, 1 de abril de 1936). Embora
tenha sido aceito em plena comunhão, Cowley aparentemente assinou a declaração
por outros motivos que não a confissão. Ele admitiu a um filho de John W. Taylor que
"eles nos sustentaram, aos olhos dos membros leigos da igreja e da nação, como os
"líderes do anel" quando, na verdade, não éramos mais culpados do que aqueles que
supostamente tomou medidas contra nós" (Raymond Taylor para Samuel W. Taylor, 3
de maio de 1937).
Cowley e Taylor não estavam em desacordo com os líderes da igreja de 1890 a
1904. Embora possam ter sido "cordeiros de sacrifício" quando renunciaram às suas
posições de quorum por envolvimento na poligamia pós-manifesto, a ação contra os
membros da igreja. Os dois ex-apóstolos interpretaram a declaração de Joseph F.
Smith de 1904 de maneira diferente dos outros líderes da igreja. Taylor, em seu
julgamento de 22 de fevereiro de 1911, explicou sua opinião de que "o Senhor estava
ansioso por colocar todos sob sua responsabilidade e assumir a responsabilidade da
Igreja".
Cowley e Taylor foram apenas dois de muitos que interpretaram a declaração de
1904 dessa maneira. Vários destacados patriarcas de Salt Lake e do condado de Davis
também foram excomungados por manter essas opiniões e por realizar casamentos
plurais. Quando recebeu a notícia do envolvimento dos patriarcas, o Presidente Smith
emitiu outra diretiva para toda a igreja e aos presidentes de estaca. "Tendo motivos
para acreditar que alguns membros da Igreja estão secretamente engajados em
aconselhar e encorajar outros a entrar em casamentos não autorizados e ilegais",
alertou ele, "direcionamos sua atenção especial a eles, solicitando que qualquer
informação recebida por vocês de periodicamente casos relacionados a esse caráter
sejam acompanhados e investigados com o objetivo de que essa classe de infratores
seja julgada por sua comunhão na Igreja, pois os consideramos igualmente culpados
pelos ofensores reais" (Clark 1965-75, p. 4:301).
Os poligamistas mórmons que hoje racionalizam o casamento plural com o
argumento de que a poligamia pode ser corretamente mantida por uma dispensação
especial da autoridade do sacerdócio independente da organização da igreja,
geralmente se referem a si mesmos como fundamentalistas. A maioria dos
fundamentalistas atribui sua autoridade ao presidente John Taylor, que, no subsolo da
casa de John W. Woolley em Centerville, Utah, em setembro de 1886, supostamente
"perguntou ao Senhor se não seria correto, nessas circunstâncias, interromper o
casamento plural." O filho de Taylor, John W., afirmou que encontrou entre os papéis
de seu pai após a morte a resposta a essa pergunta: "uma revelação dada a ele pelo
Senhor, e que agora está em minha posse, na qual o Senhor lhe disse que o princípio
do casamento plural nunca seria superado" (Abraham H. Cannon Journal, 29 de
março de 1892). Em seu julgamento de 22 de fevereiro de 1911, ante o Quórum dos
Doze, o jovem Taylor explicou que várias pessoas, incluindo Joseph Fielding Smith
(que mais tarde se tornaria presidente da igreja), pegaram o documento e fizeram uma
cópia dele. [3]
Os fundamentalistas insistem que o Presidente Taylor secretamente encomendou
vários portadores do sacerdócio para continuar a prática do casamento plural como
indivíduos e não como representantes da igreja. O filho de John W. Woolley, Lorin C.
Woolley, em um relato de 1912 dos eventos na casa de Woolley relatou uma
experiência visionária do Presidente Taylor, na qual ele supostamente disse a Woolley
[seu pai] e outros uma manhã que "tive uma conversa muito agradável a noite toda
com o Profeta Joseph." Em relação a um documento proposto que acabaria com o
casamento plural, Woolley disse Taylor: "Irmãos, farei com que minha mão direita
seja cortada antes de assinar tal documento".
Em 1922, o fundamentalista Joseph W. Musser registrou vários relatos orais da
revelação de 1886 de Lorin Woolley e Daniel Bateman, outro indivíduo que
compareceu à reunião de 1886. Musser juntou esses relatos e organizou sua
publicação em 1929, na qual se tornou a versão padronizada do evento, aceita pela
maioria dos fundamentalistas. Enquanto o relato de 1912 se referia apenas ao mês de
setembro de 1886, o de 1929 data especificamente o incidente entre 26 e 27 de
setembro de 1886. Essa conta expandida detalha uma visita a Taylor não apenas de
Joseph Smith, mas também de Jesus Cristo. Diz-se que uma reunião de oito horas foi
realizada em 27 de setembro os presentes John Taylor, George Q. Cannon, L. John
Nuttall, John W. Woolley, Samuel Bateman, Charles H. Wilkins, Charles Birrell,
Daniel R. Bateman, Samuel Seden, George Earl, Julia E. Woolley, Amy Woolley e
Lorin C. Woolley, teriam sido colocados sob “convênio de que defenderiam o
princípio do casamento celestial ou plural e que consagrariam suas vidas, liberdade e
propriedades para esse fim” (Joseph Musser Journal, 12 de março de 9 de abril, 14 de
junho, 5 de julho e 6, 7, 10, 13 de agosto de 1922).
Musser registra que o Presidente Taylor reuniu-se com Samuel Bateman, Charles
H. Wilkins, George Q. Cannon, John W. Woolley e Lorin C. Woolley e deu a eles
autoridade para realizar cerimônias de casamento plural e para ordenar outros com
autoridade para realizar casamentos polígamos, assegurando, assim, que os filhos
nascerão de pais polígamos todos os anos depois do milênio. O relato relaciona uma
das declarações proféticas mais importantes da história fundamentalista. "No tempo
do sétimo presidente desta Igreja", afirmou Taylor, "a Igreja entraria em cativeiro
tanto temporal como espiritualmente e naquele dia (...) o Poderoso e Forte
mencionado na 85 Seção da Doutrina e Convênios viriam." [4]
Numerosos fundamentalistas se declararam o Poderoso e o Forte (D&C 85). Tais
alegações tornaram-se uma preocupação suficientemente séria durante o governo do
Presidente Joseph F. Smith, pelo fato de a Primeira Presidência publicar uma longa
discussão sobre o assunto no Deseret News, em 13 de novembro de 1905. Aqueles
que se proclamavam “Um Poderoso e Forte" foram declarados "homens vaidosos e
tolos" que afirmam "reforçar seus caprichos de especulação e, em alguns casos, suas
pretensões a grande poder e altos cargos que queriam alcançar na Igreja". Durante
uma reunião especial do sacerdócio em 8 de abril de 1912, o Presidente Smith
anunciou que o "Poderoso e Forte a cumprir conforme referido nos D&C 85 não tem
aplicação na Igreja atualmente" (AW Ivins Journal, 8 de abril de 1912). [5]
O Presidente Smith fez um total de nove declarações públicas denunciando nova
poligamia durante seu governo (Clark 1965-75, 5: 194). Seu sucessor, Heber J. Grant,
sétimo presidente da igreja, não teve menos dificuldades. Grant era pragmático e
movia-se em círculos ricos e poderosos, onde o casamento plural era a principal
pedra de tropeço que impedia a entrada dos mórmons na corrente [religiosa] principal
da América. Durante a Conferência Geral de abril de 1931, Grant acrescentou uma
nova dimensão à sua campanha para erradicar a poligamia mórmon. Além da
excomunhão "o limite da jurisdição da Igreja", ele anunciou ainda que, "temos estado
[...] totalmente dispostos a prestar a assistência jurídica que legitimamente pudermos
no processo criminal de tais casos". Explicando a necessidade de distanciar os
mórmons ortodoxos dos polígamos, ele acrescentou: "Estamos dispostos a chegar a
tais limites (...) Pois desejamos fazer tudo humanamente possível para tornar nossa
atitude em relação a esse assunto tão clara, definitiva e inequívoca que permita
nenhuma dúvida possível disso na mente de qualquer pessoa" (ibid., 292).
Durante uma entrevista de 25 de julho de 1937, realizada em Londres, Grant
expandiu sua visão de que as exigências da lei substituíam qualquer mandamento de
viver a poligamia. "Nunca acreditamos que a poligamia estivesse errada", disse o
presidente da igreja, "e nunca entenderemos". Apesar de Grant ter violado seu acordo
de anistia com o governo em 1891, ter tentado, sem sucesso, tomar Fanny Woolley
como uma esposa plural pós-manifesto, e ter sido considerado culpado de "coabitação
ilegal" em 1899, ele declarou em sua entrevista ao jornal que "uma das principais
regras da Igreja é obedecer à lei. Enquanto a poligamia for ilegal, nós mesmos
aplicaremos rigorosamente a lei" (Salt Lake Tribune, 26 de julho de 1937).
O Presidente Grant tinha um conselheiro bem qualificado para ajudá-lo a
suprimir a poligamia. J. Reuben Clark, Jr., respeitado jurista, tinha uma vasta
experiência com o governo federal como consultor do Departamento de Estado e
como embaixador no México. Clark, como muitos jovens mórmons de sua geração,
supôs que o Manifesto de Wilford Woodruff de 1890 encerrasse a questão da
poligamia de uma vez por todas. Mas as investigações sobre a nova poligamia
revelaram que o apóstolo John W. Taylor, marido de um das primas de Clark, havia se
casado com várias esposas plurais pós-manifesto. Outra prima havia se tornado a
esposa pós-manifesto de um patriarca de Salt Lake City. A tia de Clark, Fanny
Woolley, que havia sido cortejada após o Manifesto por Heber J. Grant, mais tarde se
tornou a esposa do presidente da estaca George C. Parkinson em uma cerimônia em
1902 no Colorado realizada pelo apóstolo Matthias Cowley. O bispo da ala de Clark
em Grantsville, Utah, também se casou com uma esposa plural em 1900 e, em 1909,
estava advogando que "se [as pessoas] encontraram uma maneira de entrar, seria bom
ter uma esposa plural." A pílula polígamo mais amarga para Clark engolir foi a
revelação de que seu venerado tio, o patriarca John W. Woolley, havia sido
excomungado em 1914 por realizar casamentos plurais. [6]
Essas descobertas de poligamia tão perto de casa, especialmente aquelas que
mancharam o nome de solteira de sua mãe, causaram um forte embaraço a Clark.
Embora relativamente familiarizado com os argumentos a favor da nova poligamia
devido à sua quase constante ausência em Utah, Clark, como membro da igreja,
elaborou uma declaração anti-poligamia de 1923 que esperava que a Primeira
Presidência adotasse na Conferência Geral do outono. Embora o Presidente Grant não
tenha adotado o mandato de Clark, ele já estava fazendo uma campanha contra os
fundamentalistas, particularmente o primo de Clark, Lorin C. Woolley. Grant rejeitou
as alegações de Woolley de autoridade especial, insistindo que o homem era um
"mentiroso patológico" e garantiu que foi excomungado por "falsidade perniciosa"
em janeiro de 1924 (Anderson 1979, 146).
Depois da nomeação de Clark em abril de 1933 para a Primeira Presidência,
Lorin C. Woolley tentou vincular seu primo de várias maneiras às suas reivindicações
fundamentalistas. O presidente Clark finalmente encerrou os rumores, após a morte
de Woolley, afirmou que "se [Lorin] sabia que ele estava dando falsas argumentações,
eu não sei, mas ele não disse a verdade" (Quinn 1983, 183).
Uma das designações iniciais de Clark ao ingressar na Primeira Presidência foi
escrever um longo documento descrevendo a oposição da igreja à poligamia. Este
documento de posição foi aprovado pelos outros membros da Primeira Presidência e
publicado como uma "Declaração Oficial". "Quanto a essa pretensa revelação [de
1886]", dizia a declaração, publicada na Seção da Igreja no Deseret News de 18 de
junho de 1933, "os arquivos da Igreja não contêm tal revelação; nem nenhuma
evidência que justifique a crença de que tal revelação tenha sido [dada] alguma vez".
Do conhecimento pessoal de alguns de nós, da lembrança uniforme e comum dos
quóruns presidentes da Igreja, da ausência nos arquivos da Igreja de qualquer
evidência que justifique a crença de que tal revelação foi dada, somos justificados em
afirmar que não existe tal revelação". Involuntariamente ou não, a afirmação de Clark
mostrou-se incorreta em praticamente todos os aspectos. Embora os líderes da igreja
não tivessem a revelação original, eles possuíam a cópia que John W. Taylor dera a
Wilford Woodruff em 1887. Além disso, Heber J. Grant estava presente na reunião do
Quórum dos Doze em 22 de fevereiro de 1911, quando a revelação de 1886 foi
discutida e exarada em ata.
Um mês após a declaração da Primeira Presidência, Frank Y. Taylor doou a
revelação manuscrita original de 1886 à Igreja. Um ano depois, o conselheiro e primo
do Presidente Grant, Anthony W. Ivins, escreveu numa carta de 1934 a esposa do
líder fundamentalista Rulon C. Allred: "A revelação de John Taylor não tem posição
na Igreja. Eu procurei com cuidado, e tudo o que pode ser encontrado é um pedaço de
papel encontrado entre os efeitos do Presidente Taylor após sua morte: estava escrito
a lápis e com apenas alguns parágrafos [e] não tinha assinatura nenhuma. Era
desconhecido para a Igreja [e] até [para] os membros de sua própria família que
alegou tê-lo encontrado em seus documentos. Nunca foi apresentado ou discutido
como uma revelação pelas autoridades presidentes da Igreja" (Anthony W. Ivins
Papers, 10 de fevereiro de 1934, Arquivos da Igreja SUD). [7]
Embora a posição mórmon seja de que a autenticidade da revelação de 1886 não
tenha sido verificada, a Primeira Presidência nunca divulgou o artigo [a revelação]
para um exame crítico. Mesmo que os testes provassem que o documento estava nas
mãos de John Taylor, a posição oficial mórmon ainda seria que a revelação não foi
submetida à aprovação da Conferência Geral dos Santos e, portanto, não era
vinculativa. Os fundamentalistas argumentariam que, quando Deus fala, Ele não
precisa do voto de confirmação da igreja. Eles também apontariam que a igreja
suprimiu sistematicamente documentos críticos relacionados à revelação de 1886.
Não apenas a cópia manuscrita original, mas os diários de George Q. Cannon, John
Taylor e Francis M. Lyman, bem como partes dos diários de L. John Nuttall, foram
rigorosamente controlados pela Primeira Presidência. Até mesmo estudiosos sérios
mórmons têm acesso negado a esses documentos.
"A supressão dos registros da Igreja no passado", argumentou o escritor
fundamentalista Fred Collier em 1981, "especialmente de maneira seletiva ao negar
àqueles que acreditam nas antigas formas de acesso dos Arquivos Gerais criou uma
grande suspeita para a Igreja nas mentes de milhares de pessoas fundamentalistas que
acreditam que o problema não está numa genuína falta de evidência existente, mas
em sua inacessibilidade nas mãos daqueles cujos propósitos a verdade não serviria
(...) O verdadeiro problema não é tanto a falta de evidência para demonstrar sua
veracidade [por exemplo, a revelação de John Taylor em 1886], mas como ocorre
com os problemas que ela cria para a Igreja se aceita como autêntica " (pág. 2, 12).

Notas:

1 – Durante esse período, atenção considerável foi dada à autoria do Manifesto de Woodruff.
George Reynolds, secretário da Primeira Presidência, testemunhou nas Audiências de Smoot que
ele, Charles Penrose e John R. Winder editaram o trabalho para publicação (Proceedings 2: 52-53).
Thomas J. Rosser, numa declaração juramentada, descreveu uma reunião em 24 de maio de
1908 em Bristol, Inglaterra, onde uma variedade de perguntas foi feita a Penrose. Quando
perguntado se o Manifesto era uma revelação, ele respondeu: "Irmãos, eu responderei a essa
pergunta, se vocês a mantiver sob seus chapéus. Eu, Charles W. Penrose, escrevi o Manifesto com a
assistência de Frank J. Cannon e John White. Wilford Woodruff assinou para vencer o diabo em seu
próprio jogo" (Newson 1956, 6-8).
O envolvimento de Penrose com a redação do Manifesto é apoiado por uma declaração de
Matthias F. Cowley, que declarou durante uma reunião do Quórum dos Doze em 10 de maio de
1911: "O irmão Penrose me disse uma vez na cidade do México que havia escrito o manifesto, e foi
feita para que não significasse nada e o Presidente [Joseph F.] Smith me disse o mesmo." D.
Michael Quinn documentou as etapas de edição nas quais o manifesto manuscrito de 510 palavras
de Woodruff foi reduzido para 356 palavras em 24 de setembro de 1890. Naquela manhã, a Primeira
Presidência estava ocupada com outros assuntos e perguntou a George Reynolds, Charles W.
Penrose e John R Winder para "pegar o documento e organizá-lo para publicação". Depois que esse
grupo trabalhou por um tempo, George Q. Cannon "sugeriu várias emendas, que foram adotadas".
Às 14h30 o trabalho revisado foi lido na reunião da Primeira Presidência e três apóstolos, e "uma ou
duas pequenas alterações foram feitas nele". Posteriormente, George Reynolds incorporou o
documento num telegrama e a versão publicada do Manifesto de Wilford Woodruff (Quinn 1985,
44-45).
2 – George F. Richards mais tarde se tornou membro desse comitê e serviu como secretário.
Ver Richards Journal, 14, 15, 22 de julho, 22 de setembro de 1909.
3 – Os Documentos de John Taylor nos Arquivos da Igreja SUD contêm uma cópia
datilografada da revelação com a anotação: "Revelação dada a John Taylor, 27 de setembro de
1886, copiada do manuscrito original de Joseph F. Smith Jr, 3 de agosto de 1909." Quinn observou
que em 1887 John W. Taylor entregou ao Presidente Wilford Woodruff uma coleção de artigos de
John Taylor, incluindo a revelação de 1886, que foi depositada na Coleção Joseph F. Smith nos
Arquivos da Igreja SUD. Quinn salienta que John W. Taylor estava correto em 1911 quando disse
que tinha a revelação original de 1886 em seu poder. O irmão de Taylor, Frank Y. Taylor, doou à
Primeira Presidência em 18 de julho de 1933 (1985, 28-29).
4 – Para uma discussão sobre esse evento de 1886 a partir de uma perspectiva mórmon
predominante, consulte M. Anderson 1979. Um estudo comparável do ponto de vista
fundamentalista é Collier 1981.
5 – Para uma discussão aprofundada da questão [sobre o] "Um Poderoso e Forte", veja
Wright 1963, 27-50.
6 – Para detalhes sobre essas situações, ver Quinn 1983, 180-81; Parkinson 1967, 251; Ata do
Quórum dos Doze, 10 de maio de 1911; e A. W. Ivins Journal, 20 de setembro de 1909.
7 – O trabalho mórmon mais significativo no contexto da revelação de 1886 é M. Anderson
1979; ver também Jessee 1959.
Capítulo 6
Cruzada Contra o Princípio
Em conversas com um não-mórmon logo após o lançamento da declaração de
1933 da Primeira Presidência, J. Reuben Clark Jr, explicou que eles haviam
divulgado o comunicado ao público porque "alguns pássaros velhos de espírito carnal
estão dizendo que a Igreja não é sincera sobre o assunto e estavam piscando com a
situação" (Quinn 1983, 184). O pronunciamento oficial de 1933 pacificou os
mórmons tradicionais e outros que há muito se opunham à poligamia. Mas também
não intencionalmente serviu como catalisador para unificar as várias facções do
movimento fundamentalista.
A designação de J. Reuben Clark como principal executor dos esforços anti-
poligamia da igreja tinha sido anteriormente a designação do apóstolo James Talmage
e antes dele Francis M. Lyman. Clark cumpriu sua missão vigorosamente, sua
experiência anterior na supervisão das atividades da Primeira Guerra Mundial do
Departamento de Justiça dos EUA contra subversivos suspeitos, serviu-o bem ao lidar
com novos polígamos. Ele era a favor de um juramento de lealdade em toda a igreja
que, segundo ele, seria fundamental para os fundamentalistas de dentro das fileiras
mórmons. Dezenas de mórmons foram conseqüentemente excomungados devido à
sua recusa em assinar tais declarações. [1]
Para fortalecer a bateria legal na guerra contra a nova poligamia, os legisladores
de Utah, em 14 de março de 1935, aprovaram um ato "Tornando a coabitação ilegal
um crime e fornecendo que todas as pessoas, exceto o acusado, devam testemunhar
em seus procedimentos". [2] Respondendo a este e outras ações de poligamia da
época, o líder fundamentalista Joseph W. Musser, que planejava uma publicação
clandestina há anos, iniciou um periódico mensal em junho de 1935. A Verdade
(Truth), dedicada à defesa fervorosa do casamento plural, continha inúmeras
declarações de mórmons importantes da passado defendendo a poligamia como
essencial para a exaltação, uma lei eterna que nunca seria eliminada.
Para combater a crescente força dos fundamentalistas, Clark, no final dos anos
30, começou a autorizar os mórmons leais a conduzirem vigilância sobre as pessoas
que participavam de reuniões nas casas de fundamentalistas conhecidos em Salt Lake
City. Ele pediu à biblioteca de Salt Lake City que excluísse a literatura
fundamentalista e, em 1940, solicitou ao diretor dos correios de Salt Lake City que
proibisse o envio de folhetos fundamentalistas. Em março de 1940, durante uma
reunião com os presidentes de estaca do Condado de Salt Lake, foi discutida a
acusação de polígamos. Um presidente da estaca observou que o promotor distrital
"era um bom santo dos últimos dias e processaria criminalmente os 'novos polígamos'
se fosse considerado sábio". Clark ordenou que esse processo iniciasse
imediatamente (ibid., 185).
Os líderes da igreja também procuraram suprimir a ascensão do
fundamentalismo por outras vias. Durante uma reunião da Estaca Pioneira de Salt
Lake City, em 5 de junho de 1939, o presidente da estaca Paul C. Child teria instruído
seus bispos que todos os polígamos "estão em circunstâncias muito humildes, são
praticamente carentes e, se os ajudarmos, estamos ajudando a sustentar famílias
plurais." Ele instruiu os bispos a impedirem o alívio da igreja de tais famílias (Truth 5
[agosto de 1939]:59). Pouco tempo depois, a sede do Bispado Presidente enviou uma
circular em toda a igreja (Boletim da Igreja, nº 223) a todas as presidências de estaca
e bispados da ala, aconselhando que os filhos de ascendência poligâmica fossem
negados aos ritos batismais até a idade suficiente para "repudiar o princípio que lhes
deu nascimento".
Apesar da oposição de oficiais da igreja e da lei, ou talvez por causa disso, o
movimento fundamentalista continuou a se espalhar. Muito desse crescimento pode
ser atribuído ao trabalho editorial de Joseph W. Musser com o [jornal] 'A Verdade'.
Filho de um ex-historiador assistente da igreja, Musser teve acesso a documentos
sensíveis nos arquivos da igreja. Ele alegou que o Manifesto de Wilford Woodruff foi
emitido apenas por conveniência política e encheu as colunas de 'A Verdade' de
incidentes após incidentes de casamento plural autorizado após o manifesto.
Alegando que a igreja havia se desviado ao abandonar a "ordem do casamento de
Deus", ele alegou que os fundamentalistas detinham a autoridade para continuar o
casamento plural.
[O jornal] Truth era tão irritante para os líderes mórmons que, em 1944, foram
empreendidos esforços para silenciar a publicação e prender os principais líderes
fundamentalistas, incluindo Musser. Por volta das 6:00 da manhã de 7 de março de
1944, um ataque a Salt Lake City, coordenado por agentes do FBI, delegados dos
EUA, delegados-xerife e policiais de Salt Lake City, rendeu quarenta e seis suspeitos
fundamentalistas. Sem mandados de busca, os agentes da lei confiscaram publicações
de 'A Verdade' e documentos adicionais que consideravam poderem ser usados como
prova contra os indivíduos.
Quinze dos réus foram condenados por "coabitação ilegal" e/ou "conspiração"
para promover a prática de "coabitação ilegal". Trinta e quatro foram indiciados
unicamente pela última acusação, que se referia ao envio de 'A Verdade' pelo correio.
A acusação alegava que o periódico era "obsceno, lascivo, lascivo, indecente e
imoral, porque as ofensas sexuais contra a sociedade, isto é, os casamentos plurais,
deviam ser e foram defendidos e exortados, tendendo assim a depravar e corromper a
moral daqueles cujas mentes estavam e estão abertas a tais influências e em cujas
mãos a 'Verdade' poderia cair" (Salt Lake Tribune, 8 de março de 1944).
A Primeira Presidência, composta por Heber J. Grant, J. Reuben Clark e David
O. McKay, aplaudiu as prisões. "Desde que o Manifesto do Presidente Woodruff foi
adotado pela Igreja", os três homens observaram em um comunicado oficial
publicado no Salt Lake Tribune, em 8 de março "a primeira presidência e outras
autoridades gerais emitiram repetidamente avisos contra um grupo apóstata que
persistia na prática de casamentos polígamos". "Elogiamos e defendemos o governo
federal", concluiu a declaração, "em seus esforços através do escritório do procurador
distrital dos Estados Unidos e das agências de assistência para levar perante o tribunal
os que violaram a lei." [3]
Os líderes da igreja não desejavam estar diretamente envolvidos na "Cruzada
Boyden", como foi chamado o ataque de 1944. Mas durante a audiência, uma
testemunha testemunhou que David O. McKay recebeu um chamado eclesiástico para
espionar suspeitos dos fundamentalistas e coletar informações para a acusação. A
igreja foi relutantemente atraída para o caso por uma carta do novato apóstolo Mark
E. Petersen para Murray Moler, o gerente local do escritório da United Press, que foi
lida nos autos do processo. Petersen, ex-editor do Deseret News, solicitou que Moler
imprima "outra declaração ou duas que estabeleçam a posição da Igreja" sobre a
poligamia, para que as recentes prisões não sejam conectadas a mente do público com
a Igreja Mórmon. Petersen queria que soubesse que "Todos os sectaristas não são ex-
membros da Igreja. Alguns foram recrutados de várias religiões protestantes. Todos
os sectaristas que mantiveram membros da Igreja SUD foram excomungados pela
Igreja, alguns deles, como Joseph Musser, o líder da seita, foi excomungado há
muitos anos. A Igreja tem ajudado ativamente as autoridades federais e estaduais na
obtenção de provas contra os sectaristas e ajudando a processá-los, de acordo com a
lei. Entre as testemunhas da acusação estão homens que foram nomeados pela Igreja
para procurar os sectaristas, entregando informações que elas coletam para a
acusação para uso; esses homens também foram nomeados pela Igreja para fazer todo
o possível para combater a propagação da poligamia. A Igreja se opõe à prática e ao
ensino do casamento plural desde a adoção de um Manifesto numa conferência
oficial da Igreja realizada em Salt Lake City, em 6 de outubro de 1890, e
excomungou membros desde aquela data que ensinaram ou praticaram isto. Os
sectaristas usam o nome de fundamentalistas que é considerado pela Igreja como um
nome impróprio. Eles não são fundamentalistas no sentido de se apegar às doutrinas
fundamentais da Igreja, pois as doutrinas fundamentais da Igreja agora se opõem à
poligamia. O uso desse nome causou confusão na mente do público e tendeu a dar a
impressão (que é o que os sectaristas procuravam) de que eles são mórmons da linha
antiga, o que não são”.
As acusações de conspiração feitas contra os fundamentalistas individualmente
foram rapidamente anuladas, mas as violações da Lei Mann (os maridos atravessaram
as fronteiras do estado com várias esposas) e as acusações de sequestro de três
indivíduos que transportaram uma esposa grávida e plural através das linhas do
estado para dar ao bebê o benefício de um nascimento legítimo, foram mantidas,
resultando na prisão de quinze homens.
Sob o protesto de Brigham E. Roberts, que liderou os esforços de acusação
contra os fundamentalistas, o conselho estadual de perdão decidiu libertar os quinze
homens, cada um dos quais cumpriu um período de sete meses, para que pudessem
estar em casa para o Natal. Mas havia condições rígidas a serem cumpridas antes e
durante a liberdade condicional. Esperava-se que os polígamos perdoados vivessem
"apenas com suas esposas legais, em casas separadas das ocupadas por suas cônjuges
e filhos plurais". Eles tiveram que "fazer um esforço sincero para apoiar as outras
mulheres e as dezenas de filhos menores". O perdão oficial também estipulou que os
ex-polígamos não participavam de "reuniões que defendiam a poligamia".
Joseph W. Musser, Rulon C. Allred, Albert E. Barlow, Edmund F. Barlow,
Ianthus W. Barlow, John Y. Barlow, Oswald Brainich, Heber K. Cleveland, David B.
Darger, Joseph Lyman Jessop e Alma A Timpson foram libertados em 15 de
dezembro de 1944. Arnold Boss, Morris Q. Kunz, Louis Alma Kelsch e Charles F.
Zitting não foram libertados até mais tarde porque se recusaram a assinar o
compromisso, uma ação que os tornou heróis entre os fundamentalistas
independentes.
O procurador distrital B. Roberts questionou a sabedoria de libertar os homens
antes de cumprirem os cinco anos completos de suas sentenças. Em uma carta ao
comitê de perdão, ele chamou a atenção para artigos recentes em Truth que
"elogiavam os prisioneiros como mártires e elogiavam os presos por 'sustentarem a
prática do casamento plural". Ele acusou os "sectaristas" de ainda advogarem a
poligamia em suas reuniões e insistiu que a única maneira de a prática ser
"eliminada" era manter os líderes na prisão. "Eu questiono a boa fé de suas
promessas", acrescentou. "Essas pessoas praticam a poligamia há anos sabendo que é
contra a lei. No entanto, agora para sua própria conveniência e vantagem, estão
dispostas a fazer essa promessa. Nenhuma segurança é dada para que a promessa seja
mantida." Roberts ressaltou que "essas pessoas retornarão para suas famílias e seitas,
e será novamente necessário que as agências policiais levem um caso contra elas. Isso
levará muito tempo e dinheiro" (Salt Lake Tribune, 27 de Novembro de 1945).
Embora a previsão de Roberts se mostrou profética, o esforço e as despesas de
construir outro caso contra os polígamos não foram o ônus de Utah, mas do Arizona.
Short Creek, Arizona, foi fundada em 1913 pelo não-polígamo J. M. Lauritzen, na
fronteira Arizona-Utah. Os primeiros polígamos na área, Price W. Johnson, Edner
Allred e Carling Spencer, reconheceram a localização estratégica do lugar da cidade
para os polígamos em fuga. Situada na parte do condado de Mohave, conhecida como
"faixa do Arizona", uma área geográfica isolada do resto do estado pelo Grand
Canyon, essa comunidade a 48 quilômetros ao sul de Hurricane, Utah, ficava a 600
quilômetros da região do condado de Mohave, sede de Kingman, Arizona.
Em 1935, Short Creek era uma pequena cidade de vinte casas, mais uma loja
combinada e um posto de gasolina, com uma agência dos correios servindo clientes
em dias alternados. Várias famílias mórmons poligâmicas se mudaram para a área e
se uniram a outras famílias plurais em uma organização cooperativa projetada para
construir a comunidade como "a primeira cidade do milênio". Isso preocupou alguns
dos antigos colonos mórmons não poligâmicos, que relataram a ação aos oficiais da
igreja. O ex-senador Reed Smoot, membro do Quórum dos Doze, foi enviado a
Hurricane [Utah] a pedido do presidente da estaca Zion Park, Claude Hirschi. Vinte e
um membros do Ramo Short Creek foram excomungados por se recusarem a assinar
o seguinte compromisso: "Eu, o membro do Ramo Short Creek da Ala Rockville da
Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, declaro e afirmo que [,] sem
qualquer ressalva, apóio a presidência da igreja, e que eu repudio qualquer sugestão
de que algum membro da Presidência ou apóstolos da Igreja esteja vivendo uma vida
dupla e que repudio aqueles que os acusam falsamente, e que eu denuncio a prática e
a defesa do casamento plural como estando em desacordo com os princípios
declarados da Igreja no presente momento".
A excomunhão foi o mais longe que os líderes da igreja Mórmon puderam [fazer
para] reduzir a poligamia em Short Creek, mas eles também encorajaram ações legais
contra os agressores. As autoridades do condado de Mohave notaram que os registros
de assistência social do condado frequentemente mostravam várias mulheres de Short
Creek casadas com o mesmo homem. Em setembro de 1935, o procurador do
condado Elmo Bollinger e o xerife do condado visitaram Short Creek para investigar
a situação. Eles prenderam Price W. Johnson e seu primo Carling Spencer. Trazidos
perante o juiz de paz de Short Creek, J. M. Lauritzen, os dois foram libertados por
falta de provas. Mais tarde, depois de obter informações mais conclusivas, os
policiais tentaram prender os dois novamente. Mas eles, juntamente com a esposa
plural de Spencer, Sylvia, se refugiaram em uma caverna próxima, onde
permaneceram por sete dias. Em 28 de setembro, renderam-se em Kingman sob
acusações de "coabitação aberta e notória". Comentando as prisões, Bollinger relatou
que "os oficiais da Igreja regular (mórmon) estavam ajudando a prender e condenar
os polígamos" (Truth, 1 [1 de outubro de 1935]: 50). [4]
[Os moradores de] Short Creek não conseguiam entender por que não foram
deixados sozinhos. "Por que subir 600 quilômetros até a 'faixa do Arizona' do deserto
para atacar uma comunidade cristã pacífica, trabalhadora e esforçada, suspeita apenas
de ter mais mulheres casadas do que homens?" Joseph Musser escreveu em 1 de
outubro de 1935 no [jornal] Verdade: "Certamente o grande Estado do Arizona, ótimo
em sua atmosfera ocidental e ampla tolerância, não está tão isento de delinqüências
morais que justifique seus funcionários deixando as seções mais populosas do Estado
para treinar sua artilharia legal nesta pequena comunidade" para "quebrar" constroem
lares e prendem dificuldades irracionais a homens e mulheres, com seus filhos, cuja
única ofensa, se é que é ofensa, é fazer da virtude sexual um ponto culminante em
suas vidas".
Os funcionários do Condado de Mohave não viam a situação dessa maneira. Os
três réus foram considerados culpados das acusações em dezembro de 1935 e
receberam uma sentença de dezoito a vinte e quatro meses de prisão. A sentença de
Sylvia Spencer foi suspensa por causa de sua gravidez avançada, mas seu marido e
Price Johnson, depois de passar um mês na prisão do condado de Kingman, foram
enviados à Penitenciária Estadual do Arizona em Florença. Prisioneiros modelo, eles
foram nomeados curadores após o terceiro dia de prisão e passaram a duração de seus
onze meses de encarceramento trabalhando no jardim da prisão, curtume e laticínios.
Voltando para casa em Short Creek após sua libertação em 8 de novembro de 1936,
Spencer e Johnson, como os mais de 1300 homens e mulheres mórmons que haviam
sido "prisioneiros por causa da consciência" durante a década de 1880, foram
aclamados como heróis populares.
A população de Short Creek continuou a crescer. No início dos anos 50, a
comunidade contava com quase quatrocentos cidadãos, quase todos polígamos. Os
problemas relacionados à poligamia na área voltaram à tona quando os fazendeiros de
Utah com direitos de pastoreio na área de Short Creek começaram a reclamar que
suas taxas de pastoreio eram usadas para apoiar a educação de crianças de polígamos.
A legislatura do estado do Arizona secretamente destinou US $ 10.000 para empregar
a Agência de Detetives Burns de Los Angeles para investigar a poligamia de Short
Creek. Dizia-se que os líderes da igreja em Salt Lake City haviam feito uma oferta
permanente de US $ 100.000 às autoridades do Arizona se o Estado erradicar a
colônia de Short Creek. Os bispos mórmons em Phoenix e Mesa começaram
pesquisas silenciosas de suas congregações para determinar quais casas poderiam
acomodar mais crianças.
[Os habitantes de] Short Creek foram avisados do ataque iminente. O aviso
prévio da ação publicada nos jornais de Salt Lake City foi telefonado para Short
Creek. Às 4:00 da manhã, no domingo de manhã, no dia 26 de julho de 1953, com a
lua em pleno eclipse, mais de cem policiais fortemente armados chegaram à praça da
comunidade de Short Creek, sirenes de carros tocando, luzes vermelhas piscando,
luzes brilhando. O pelotão era acompanhado por guardas nacionais, procurador-geral
do Arizona, juízes superiores e juvenis, policiais, enfermeiras, médicos, vinte e cinco
carregamentos de jornalistas e doze agentes de controle de bebidas. Eles esperavam
encontrar a comunidade dormindo. Em vez disso, eles encontraram a maioria dos
membros da colônia agrupados em torno do mastro da cidade, cantando "América"
enquanto a bandeira americana estava sendo içada.
Ao amanhecer, a cidade inteira estava sob lei marcial. Cada casa foi
cuidadosamente revistada. A literatura e os objetos pessoais foram confiscados pelos
oficiais. Mulheres e crianças foram reunidas enquanto a guarda nacional montou
bloqueios de estradas, cozinhas de campo, uma estação de rádio e uma unidade
médica. Testemunhas familiarizadas com os membros da comunidade começaram o
processo de identificação dos líderes do "Plano de Esforço Unido" em comum. O
governador J. Howard Pyle alcançou o clímax dos mais de dois anos de planejamento
lançados no ataque, emitindo uma reportagem de rádio de que Short Creek estava
"dedicado à teoria perversa de que toda menina que amadurece deve ser forçada à
escravidão de [ser] uma esposa múltipla de homens de todas as idades com o único
propósito de criar mais filhos para serem criados para se tornarem mais bens móveis
dessa empresa sem lei". Ele defendeu a ação policial necessária para reprimir uma
"insurreição contra o estado do Arizona" e acabar com "uma comunidade dedicada à
produção de escravos brancos". Ele acusou a comunidade de "conspiração para
cometer estupro, adultério, bigamia, coabitação aberta e notória, casando-se com a
esposa de outro e vários outros crimes" (Salt Lake Tribune, 27 de julho de 1953).
Embora as autoridades do Arizona esperassem violência da comunidade, o
ataque foi, nas palavras de um repórter do Salt Lake Tribune, "como uma festa no
gramado de uma igreja do país". Os prisioneiros mais novos brincavam sobre sua
situação, posavam ansiosamente para fotos e conversavam prontamente com
jornalistas e policiais. Mas os líderes da comunidade de Short Creek não viam a ação
policial como uma "festa no gramado". LeRoy Johnson, líder do grupo, disse que o
ataque foi o "ato mais covarde já cometido nos Estados Unidos". Jeremiah C. Jessop
objetou que "esse ataque é um dos atos mais flagrantes, profanos e dramáticos já
realizados. Se o governador Pyle quisesse que estivéssemos em um determinado
lugar e em um determinado momento, estaríamos lá, não havia necessidade de gastar
dinheiro dos contribuintes nisso. Era para nós ou para um show para o público? "
(ibid).
Independentemente das motivações por trás do ataque, as autoridades
rapidamente começaram o processamento legal dos [moradores de] Short Creek. A
sala da escola dominical da comunidade tornou-se uma câmara temporária. Após a
conclusão do trabalho legal necessário, os prisioneiros do sexo masculino foram
levados a carros particulares e levados para a prisão em Kingman. As mães se
recusaram a deixar seus filhos, todos levados a enfermarias do estado, e levou quase
uma semana para que a confusão de crianças e esposas pudesse ser esclarecida pelas
autoridades. As mulheres e 263 crianças foram carregadas em cinco ônibus grandes
para a viagem de 400 milhas a Kingman.
Os ônibus mal haviam descarregado sua carga humana antes que críticas à
"Operação Short Creek" fossem lançadas na imprensa do Arizona. Violações
flagrantes dos direitos civis foram apontadas e perguntas sondadoras foram feitas.
"Em que extensão da imaginação as ações das crianças de Short Creek podem ser
classificadas como insurreição?" perguntou o [jornal] República do Arizona em 28 de
julho de 1953. "Aqueles adolescentes jogando vôlei no pátio da escola inspiravam
uma rebelião?" perguntou o jornal. "Insurreição? Bem, se sim, uma insurreição com
fraldas e vôlei!" o editor concluiu. "Odious and Un-American" [Odiosas e Anti-
Americanas] e "circuslike" [Parecidas a Circos] eram as críticas típicas publicadas em
outros lugares.
Perguntas difíceis sobre o custo de toda a operação foram seguidas. O
financiamento inicial para o ataque foi secretamente apropriado pelo legislador
estadual de um fundo especial criado para lidar com emergências como "dar feno
para gado em perigo" ou "no caso de Elk Hunters se perder". Mas os custos
aumentaram rapidamente. O departamento de assistência social do estado incorreu
em despesas de mais de 500 dólares por dia no atendimento às mulheres e crianças
que estavam confinadas nas casas da área de Phoenix. Além disso, os editores do
Arizona Free Press salientaram que os advogados dos 107 réus de Short Creek
estavam exigindo julgamentos separados para cada réu. As despesas legais para os
107 julgamentos seriam proibitivamente altas para o condado, onde uma mudança de
local havia levado os julgamentos.
A reação em Utah foi mais favorável. Em 27 de julho, o Deseret News publicou
um editorial intitulado "Ação policial em Short Creek". "Os cidadãos cumpridores da
lei de Utah e Arizona", começou o jornal, "devem uma dívida de gratidão ao
governador do Arizona, Howard Pyle, e a seus policiais que, no domingo, invadiram
o assentamento polígamo de Short Creek e reuniram seus líderes para julgamento. A
existência dessa comunidade em nossa fronteira havia sido uma vergonha para o
nosso povo e uma mancha na reputação de nossos dois grandes estados". O Deseret
News expressou a esperança de que "o governador Pyle cumpra sua promessa de
erradicar as práticas ilegais conduzidas lá" antes que elas se tornem um tipo de câncer
que está além da esperança de reparo humano". Conectando à Igreja, o editorial
apontou que os polígamos estavam vivendo violando as leis civis e da igreja. Como
um de seus “princípios fundamentais" declarou o jornal "a Igreja ensina que seus
membros acreditam 'em obedecer, honrar e apoiar a lei.'"
Os 6 mil dólares da "Operação Short Creek" não conseguiu erradicar a
poligamia da comunidade. Em menos de dois anos, as crianças, muitas das quais
foram colocadas em lares adotivos, voltaram com suas mães para Short Creek. Os
homens retornaram de suas sentenças de prisão para suas esposas e filhos com
crescente determinação em "viver o princípio" da poligamia. Típico da determinação
demonstrada pelos presos foi o discurso de Price W. Johnson perante o conselho de
liberdade condicional. Um mês após sua prisão, uma de suas esposas pediu sua
libertação. O conselho estava disposto a atender à solicitação, desde que Johnson
"assinasse uma declaração concordando em resolver os assuntos de sua família" e
"em conformidade com a lei no futuro". Ele ficou diante do grupo e proclamou que
"ter mais de uma esposa (...) é uma parte essencial da minha crença religiosa, e
acredito firmemente que, se cumprir os convênios que fiz com essas mulheres e com
meu deus, terei-os no mundo eterno após o término desta vida; e antes que eu quebre
esses convênios, permaneceria nesta prisão pelo resto da minha vida; sim, antes de
quebrar esses convênios, iria para aquela câmara de gás ali" (Baird e Baird 2:27).
O ataque a Short Creek em 1953 foi a última operação em larga escala contra os
polígamos nos EUA [até a publicação deste livro em 1989, pois houve uma maior em
2007 contra os membros da igreja FLDS (grupo de Jeffs)]. Mas um ano depois, o juiz
distrital de Utah, David F. Anderson, presidiu um processo judicial que acabou com a
remoção de oito filhos da casa em Utah de Vera Black, esposa plural de Leonard O.
Black, marido de três esposas e pai de 26 filhos. O caso Black foi baseado na
premissa de que o exemplo dos pais polígamos contribuiria para a delinqüência de
seus filhos. Portanto, foi cobrado que as crianças fossem removidas daquele
"ambiente imoral" e colocadas em lares adotivos. Quando Black se recusou a assinar
uma declaração juramentada prometendo "abster-se de ensinar poligamia a seus
filhos, obedecer às leis de Utah sobre poligamia e ensinar seus filhos a obedecer o
mesmo", o tribunal removeu as crianças de casa em 4 de junho de 1954. Os
advogados de defesa imediatamente entraram com uma ordem de habeas corpus e o
juiz de Provo, William S. Dunford, decidiu que os filhos deveriam ser devolvidos à
custódia de seus pais, aguardando um apelo do casal à Suprema Corte. Em 3 de
dezembro de 1956, Vera Black recebeu ordem de se preparar para entregar seus filhos
ao Escritório Estadual de Serviços para Crianças.
O Deseret News, de propriedade da igreja, publicou que, embora “separar os
filhos de seus pais seja algo de partir o coração e difícil de fazer”, nesse caso, era
justificado: “O ensino continuado de crianças para violar a lei é uma provocação
extrema. A prática por parte dos pais, tanto quanto o abandono ou a negligência,
justifica a intervenção do Estado, tanto para o bem-estar das crianças quanto da
sociedade". O jornal considerou que a remoção das crianças vale a perturbação do lar,
se "a prática da poligamia puder ser totalmente encerrada entre aqueles que ainda a
praticam".
Muitos cidadãos de Utah ficaram surpresos que uma igreja que por mais de
cinqüenta anos se opôs aos estatutos anti-poligamia pudesse apoiar a remoção de
crianças de um lar poligâmico. Juanita Brooks, uma importante historiadora do St.
George, e mórmon, foi a voz principal na oposição à decisão da corte e à posição da
igreja. Mantendo que "é um assunto sobre o qual não posso ficar calada e manter meu
respeito próprio", Brooks escreveu sobre os "juízes da Suprema Corte de Utah" em
29 de janeiro de 1956. Argumentando que era difícil ver como a poligamia durante [a
época de] Joseph Smith ou como nos dias de Brigham Young era diferente do
presente, Brooks concordou que "isso foi tornado ilegal agora. Certamente as pessoas
não devem mais viver isso. Mas quando alguns, motivados pelas mesmas convicções
que nossos avós tiveram, continuarão desafiando a lei, cometeremos um crime maior
do que o deles na tentativa de forçar a conformidade?" (Truth, 21 de fevereiro de
1956: 311).
Numa carta de 1 de fevereiro de 1956 aos editores do Deseret News, Brooks
expressou consternação com o editorial do jornal em 28 de janeiro. "Fiquei chocada e
entristecida", escreveu ela, "de que o órgão oficial da Igreja de Jesus Cristo dos
Santos dos Últimos Dias aprovasse algo tão cruel e perverso como a retirada de
crianças pequenas de sua mãe". Brooks achava que a injustiça era de proporções
históricas: "Desde os dias da escravidão negra, os filhos não foram arrancados dos
pais que os amavam e os queriam e os proveram. Isso é tão obscuro que nos
envergonhará por muito tempo." Leonard e Vera Black finalmente assinaram um
compromisso anti-poligamia e as crianças foram devolvidas à sua custódia.
A oposição pública ao tratamento do caso Black e ao ataque a Short Creek em
1953, além da carga financeira inaceitável para os contribuintes, evidentemente
alterou a maneira como muitos norte-americanos, principalmente os mórmons, viam
as acusações de poligamia. Em 1955 e 1956, os extensos esforços de aplicação da lei
nos condados de Davis e Salt Lake, em Utah, prenderam apenas quatro polígamos. O
[jornal] News Week de 21 de novembro de 1955 atribuiu as prisões à "pouca
cooperação dos simpáticos cidadãos de Utah". A revista acrescentou que "os cidadãos
estavam irritados pelo fato de que a iniciativa contra a seita fundamentalista estava
sendo financiada por uma dotação de 20.000 dólares feita pelo legislador de 1954,
uma apropriação secreta nunca revelada à imprensa e ao público". O periódico
encontrou a mão mórmon quando observou que "muitos mórmons de Utah se
orgulham dos seus antepassados polígamos e tendem a ser indulgentes com os
fundamentalistas".
A última tentativa concertada em Utah de bater de frente com a poligamia
ocorreu em 1960. Após seis meses de interrogatório de testemunhas, um grande júri
indiciou quinze pessoas sob várias acusações. Um único indivíduo foi sentenciado
por coabitação ilegal, mas ele escapou da prisão. [5]

Notas:
1 – Cópias de tais declarações podem ser vistas na Coleção de 'A Verdade', Stanley S. Ivins, 1
de março de 1936: 128.
2 – Esse ato foi redigido por Hugh B. Brown, um advogado de destaque que mais tarde se
tornou membro da Primeira Presidência.
3 – Hugh B. Brown, presidente da missão européia, escrevendo para explicar a ação da igreja
contra os polígamos, disse: "Muita publicidade tem sido dada recentemente à acusação de certos
membros de um grupo de apóstatas que supostamente praticam a poligamia, mas a maioria os
documentos foram justos o suficiente para apontar que esse grupo não tem nenhuma ligação com a
Igreja. De fato, a Igreja ajudou a obter as informações que levaram às acusações, e um 'Élder
Mórmon' é o advogado de acusação" (MS, 106 [julho de 1944]: 795).
4 – O Apóstolo Melvin J. Ballard, que havia sido o presidente da missão de John Y. Barlow
[um dos líderes poligâmicos] na Missão dos Estados do Noroeste, comentou as ações do líder dos
Fundamentalistas de Short Creek em uma entrevista de 11 de novembro de 1935 no Kansas City
Times: "[John Y. Barlow] estava seguindo sua ocupação como fazendeiro na primavera passada,
quando as autoridades da igreja instaram as autoridades do Arizona a agir contra ele e seus
seguidores".
5 – Na década seguinte ao ataque a Short Creek, treze prisões relacionadas à poligamia em
Utah resultaram em nove condenações (Hilton 1965, 73-74). Esse pequeno número é digno de nota
quando se considera o número de polígamos em Utah durante esse período.
Capítulo 7
Polígamos nas Notícias
Durante as décadas seguintes ao ataque a Short Creek, muitas mudanças
ocorreram dentro do mormonismo. Hoje a igreja se deleita no respeito e admiração
que tanto desejava no início do século XX. Sua expansão internacional tem sido
fenomenal. As tensões raciais do final dos anos 1960 e início dos anos 1970 causadas
pela recusa da igreja em permitir que o sacerdócio se dissipassem rapidamente após o
anúncio do presidente da igreja Spencer W. Kimball, em 1978, de que todos os
homens dignos, independentemente da raça, poderiam ser oriundos do sacerdócio
mórmon.
Apesar das dramáticas mudanças nos programas sociais e de uma nova ênfase
mundial, incluindo o proselitismo em áreas onde a poligamia é uma tradição aceita, a
igreja ainda se opõe oficialmente à prática. Um pronunciamento de Kimball em 1974
alertou contra "as chamadas seitas de poligamia que se desviariam. Lembre-se de que
o Senhor pôs fim a esse programa há muitas décadas através de um profeta que
proclamou a revelação ao mundo. As pessoas fora [nessas seitas] se enganarão e trará
lhes muita tristeza e remorso. Não temos nada a ver com aqueles que se desviarão. É
errado e pecaminoso ignorar o Senhor quando ele fala. Ele falou forte e
conclusivamente" (Conference Reports, outubro de 1974, p. 5). ). [1]
Embora alguns mórmons discordem da interpretação histórica do Presidente
Kimball sobre o Manifesto, poucos conseguiram desembaraçar com sucesso o
complicado labirinto de indivíduos e doutrinas que sustentam as "seitas da
poligamia". Mas esse estudo é, de fato, essencial para entender a poligamia moderna.
O primeiro grupo fundamentalista de sucesso foi organizado em 1929, quando Lorin
C. Woolley, reivindicando autoridade direta do Presidente John Taylor, ordenou J.
Leslie Broadbent, John Y. Barlow, Joseph W. Musser e Charles F. Zitting como
"sumos sacerdotes e apóstolos para compor o Conselho dos Amigos". Quando
Woolley morreu, em 19 de setembro de 1934, Broadbent tornou-se o presidente
[desse Conselho]. Após sua morte, no ano seguinte, John Y. Barlow, o membro sênior
do conselho, assumiu a posição de liderança. Joseph W. Musser assumiu o comando
após a morte de Barlow em 29 de dezembro de 1949.
Durante a presidência de Musser, alguns pequenos grupos independentes se
separaram, mas em 1951 ocorreu um grande cisma na organização fundamentalista,
uma divisão que resultou nos dois principais grupos que sobreviveram até o presente.
No início de 1949, Musser sofreu o primeiro de uma série de derrames que resultaram
em sua morte em 29 de março de 1954. Esses problemas de saúde comprometeram
sua liderança. O conselho entrou em crise em 18 de setembro de 1951, quando
Musser ordenou Rulon C. Allred como sumo sacerdote e apóstolo e o nomeou seu
"segundo ancião". Foram levantadas objeções à ordenação de Allred, bem como à
ordenação de uma indígena mexicana, Margarita Bautista. Quando o conselho se
recusou a aceitar as ações de Musser, declarando-o mentalmente incompetente, ele
dissolveu o conselho e organizou um novo com Allred em segundo como sênior.
A maioria dos membros leigos continuou a apoiar o conselho original, embora o
grupo tivesse dificuldade em manter um líder. Charles F. Zitting, membro sênior do
conselho, morreu apenas quatro meses após a morte de Musser. Os dois homens
sênior seguintes, LeGrand Woolley e Louis A. Kelsch, não tiveram seu "sumo
apostolado de sacerdócio" confirmado e, portanto, recusaram a posição de liderança.
LeRoy Johnson, de Short Creek, finalmente concordou em assumir o cargo, que
ocupou até a morte de 1987, quando foi sucedido por Rulon T. Jeffs, contador de
Sandy, Utah. Rulon C. Allred manteve a liderança no segundo grupo, conhecido
como Irmandade Apostólica Unida (AUB), até seu assassinato em 1977, após o qual
seu irmão Owen assumiu a posição.
Antes da formação do movimento fundamentalista por Lorin C. Woolley, havia
vários grupos polígamos pequenos e pouco unidos em Utah. O primeiro deles,
organizado no início de 1900 por Josiah Hickman, teve pouco sucesso. [2] Outro foi
iniciado por John Tanner Clark, excomungado em Provo, Utah, em 18 de maio de
1905 por circular cartas que declaravam o Manifesto de Woodruff era um "pacto com
a morte e um acordo com o inferno". Clark alegou receber revelações e em uma
ocasião relatou que "uma voz do céu [disse] a ele que ele era o descendente mais
literal de Jesus Cristo que vivia na terra". Além disso, os membros de sua organização
colocaram Clark como o "poderoso e forte" mencionado na seção 85 de Doutrina e
Convênios. Joseph Musser, membro do grupo por curta duração, ajudou Clark a
publicar um livreto intitulado "O Poderoso e o Forte".
Um terceiro grupo relativamente obscuro foi liderado por Nathaniel Baldwin,
um inventor que afirmou durante a Primeira Guerra Mundial ter recebido uma
revelação que o orientava a construir um aparelho de rádio superior a qualquer coisa
no mercado. Ele acabou construindo uma fábrica em Salt Lake City e defendeu a
poligamia entre seus funcionários. A empresa expandiu-se rapidamente até Baldwin
encontrar dificuldades com a lei, após as quais o grupo gradualmente se dissolveu.
Moses Gudmundsen, professor de violino na Universidade Brigham Young,
juntou-se a um grupo poligâmico de aproximadamente 120 fiéis na década de 1920.
Por fim, assumindo a liderança do grupo, Gudmundsen convenceu sessenta membros,
incluindo um corpo de "separatistas de Springville", a estabelecer sede numa fazenda
seca no oeste de Utah, perto de Eureka. O grupo, alegando ser o povo escolhido de
Deus, estabeleceu uma ordem cooperativa. Gudmundsen cresceu uma longa barba
branca e usava uma túnica branca para ministrar ao seu povo.
Um grupo fundamentalista mais proeminente e ainda existente é a Sociedade
Cooperativa do Condado de Davis. Em 1935, Elden Kingston, que alegou ter sido o
"segundo ancião de Leslie Broadbent", organizou a cooperativa depois que suas
reivindicações de liderança no grupo fundamentalista primário não foram
reconhecidas. O grupo de Kingston, com mais de quinhentos membros, evoluiu
financeiramente até que seus lucros foram estimados em mais de 50 milhões de
dólares (Bradlee e Van Atta 1981,167). Ironicamente, os membros deste grupo evitam
a riqueza. Inicialmente, os adeptos do sexo masculino usavam apenas macacões azuis
com um barbante amarrado na cintura. As mulheres, para mostrar sua renúncia ao
mundo e sua ênfase na não aquisição de riqueza, usavam vestidos azuis lisos, sem
bolsos, para guardar seus pertences. Este traje foi abandonado mais tarde por roupas
mais modernas.
Hoje, a comunidade Kingston, descrita pelo tenente de um xerife do condado de
Salt Lake como "um grupo polígamo inexpugnável e muito unido", expandiu seus
interesses comerciais além do condado de Davis (ibid). Atualmente, a cooperativa
possui mais de trinta empresas em Utah, além de várias fazendas, uma fazenda de
gado leiteiro de 300 acres em Woods Cross, uma fazenda de mil acres em Tetonia,
Idaho e uma grande fazenda de gado em Emery County, no centro de Utah. Sua maior
operação é uma mina de carvão em Huntington Canyon, Utah. Embora os líderes do
grupo afirmem hoje que não praticam mais a poligamia, numerosos membros da
cooperativa que viviam ao redor da mina de Huntington Canyon foram
excomungados durante o início da década de 1960 por motivos de convivência
poligâmica (Hilton 1965, 40-41).
Recentemente, a Igreja dos Primogênitos da Plenitude dos Tempos recebeu mais
notoriedade do que qualquer outro grupo fundamentalista. Esta organização foi
constituída em Salt Lake City em 21 de setembro de 1955 por três irmãos: Joel, Ross
e Floren LeBaron. Ao contrário da maioria das outras facções fundamentalistas, a
Igreja dos Primogênitos não reivindica autoridade [através] de Lorin C. Woolley. Em
vez disso, eles afirmam que Joseph Smith secretamente passou a presidência do
Sumo Sacerdócio, ou o Direito do Cetro Primogênito em Israel, a seu amigo íntimo
Benjamin F. Johnson em Nauvoo, Illinois. Johnson, por sua vez, supostamente
conferiu essa autoridade a seu neto, Alma Dayer LeBaron. Assim que seus filhos
"puderam entender as coisas", o mais velho LeBaron começou a contar aos filhos
sobre Benjamin F. Johnson. Ele lhes disse que em Salt Lake City, na década de 1920,
que a forma angelical de Johnson apareceu para ele e lhe contou sobre a missão que
ele deveria cumprir. LeBaron prometeu um dia passar a "autoridade" ou "manto de
Joseph Smith" para os mais dignos de seus filhos.
Apesar da excomunhão de LeBaron em 1924 por poligamia, seus sete filhos
permaneceram mórmons enquanto crescia em Colonia Juarez, no México. Mas os
ensinamentos de seu pai haviam se firmado. Benjamin, o mais velho, afirmou em
1933 que seu pai havia lhe dado o "manto". Dentro de dois anos, ele começou a
proclamar que era o "Poderoso e Forte" que "colocaria a casa de Deus em ordem" e
reconciliaria a igreja Mórmon com os Fundamentalistas. Os apoiadores mais fortes de
Ben eram seus irmãos Ervil e Alma. Mas aqueles próximos ao filho mais velho de
LeBaron notaram episódios de comportamento irracional. Em momentos
inapropriados, ele soltava um rugido alto para provar que era o "Leão de Israel". Em
uma ocasião, ele se esticou no movimentado cruzamento de Salt Lake City na 33rd
South e State Street, onde manteve o tráfego [desviado] por meia hora fazendo
duzentas flexões de braço. "Veja", disse ele ao policial perplexo que veio para
desembaraçar o trânsito, "ninguém mais pode fazer isso. Isso prova que eu sou o
Poderoso e Forte" (Van Atta, 1977).
Quando Ben acabou internado no Hospital Mental do Estado de Utah em 1953,
mesmo seus irmãos, que foram excomungados em 1944, não acreditavam mais em
suas alegações. Os meninos mais novos dos LeBaron já haviam estabelecido uma
sociedade comunitária em sua fazenda, sob a direção de Margarita Bautista, a líder
mexicana do grupo de Rulon Allred. Mas o atrito se desenvolveu entre os dois
grupos. Numa viagem a Salt Lake City em 1955, Joel e Horen afirmaram seu apoio
contínuo ao grupo de Allred. Posteriormente, no entanto, eles, juntamente com o
irmão Ross, apresentaram documentos de incorporação para sua própria organização.
A briga começou imediatamente entre os LeBarons. Ross alegou que foi sua idéia
incorporar e que Joel concordou em liderar a organização "até a vinda de Um
Poderoso e Forte". Quando Joel anunciou que era o "Poderoso e Forte", Ross se
separou e formou sua própria Igreja dos Primogênitos.
Quando Joel e Horen retornaram ao México, eles conseguiram converter Ervil e
Alma, assim como sua mãe. Após anos de trabalho missionário sob a direção de
Ervil, o grupo reivindicou a adesão de mais de quinhentas pessoas. O influxo mais
importante para a organização fora da família LeBaron foi a conversão de 1958 de
vários missionários mórmons na França. William Tucker, conselheiro do presidente
da missão francesa, era o líder do grupo. Depois de ler a literatura fundamentalista
antes de sua missão, ele aparentemente se converteu a alguns de seus pontos de vista,
principalmente os do sacerdócio, e começou a espalhar secretamente os ensinamentos
a outros missionários.
Quando o companheiro de missão de Tucker, David T. Shore, terminou sua
missão e retornou a Utah em janeiro de 1958, ele obteve uma cópia do [livreto] "O
Sacerdócio Retirado" de Ervil LeBaron e o enviou a Tucker. Com sua influência entre
outros missionários, Tucker reuniu em torno de si um pequeno núcleo de
simpatizantes, incluindo J. Bruce Wakeham, Stephen M. Silver, Daniel Jordan,
Ronald M. Jarvis e Marilyn Lamborn. O presidente da missão Milton Christensen
descobriu as atividades de seus missionários e providenciou para que Tucker, Silver e
Wakeham fossem entrevistados pelos apóstolos mórmons [que estavam] na Europa
para a dedicação do Templo de Londres em 8 de setembro de 1958. Todos os esses
missionários na França foram intimamente questionados sobre suas crenças. Por fim,
nove missionários franceses foram excomungados e enviados para casa: Tucker,
Wakeham, Silver, Jordan, Lamborn, Neil Poulsen, Loftin N. Harvey, June Abbott e
Nancy Fulk. Além disso, os missionários Ron Jarvis, Harvey Harper e Marlene
Wessel retornaram por conta própria sem serem excomungados.
Sete dos ex-missionários, quatro anciãos e três irmãs, ingressaram no
movimento LeBaron no México e nunca mais retornaram à igreja SUD. Tucker (que
morreu em 1967), Silver, Jordan (que foi assassinado em 1987) e Wakeham serviram
como apóstolos na Igreja dos Primogênitos da Plenitude dos Tempos. Marilyn
Lamborn e Nancy Fulk casaram-se com Tucker e June Abbott casou-se com
Wakeham. Shore também se juntou a seus ex-amigos missionários no México, mas
depois ficou desiludido e redescobriu sua fé na igreja SUD, assim como Harvey,
Poulsen, Jarvis, Harper e Wessel (Mehr 1988, 27-45).
Membros do "Grupo Francês", enquanto proselitistas dinâmicos da Igreja dos
Primogênitos dominada pelos LeBaron, finalmente deixaram o movimento, os
LeBarons continuaram a atrair crentes, no entanto, muito do sucesso da Igreja do
Primogênito pode ser atribuído a Joel LeBaron. Seguidores e membros da família o
descreveram como "semelhante a Cristo". Mas Ervil foi o porta-voz não oficial da
igreja e autor da maior parte da literatura da igreja, que enfatizava princípios como o
conceito de duas grandes cabeças do sacerdócio, autoridade do sacerdócio, a doutrina
de Deus Adão-Deus e a teoria de que Joseph Smith era o Espírito Santo. O grupo
também reivindicou supremacia sobre outras organizações fundamentalistas, que
apenas prepararam uma para ser membro da organização superior. Joel acabou vendo
o instável Ervil como uma ameaça para a organização e expulsou-o da igreja. Ervil,
em troca, disse que a ação de Joel despojou os líderes dos Primogênitos de sua
autoridade. A disputa se transformou em derramamento de sangue. Em agosto de
1972, por instrução de Ervil, Joel foi morto a tiros. Ross relatou em Salt Lake que a
ação se resumia a "uma luta pela primogenitura, assim como na Bíblia" (Van Atta,
1977).
Ervil perseguiu essa [luta pela] primogenitura com paixão. Na primeira metade
de 1975, cinco pessoas associadas a [Joel] LeBaron e seu bando de seguidores foram
mortas. Vários outros escaparam por pouco da morte. O primeiro ato de violência
conhecido durante esse período ocorreu em Los Molinos, México, um pequeno
povoado fundado por Joel LeBaron alguns anos antes. Os "Cordeiros de Deus" de
Ervil, como gostavam de ser chamados, lideraram um ataque noturno à comunidade,
bombardeando casas e matando moradores. Quinze pessoas ficaram feridas; dois
homens morreram. Quando testemunhas pareciam testemunhar sobre o envolvimento
de Ervil no ataque, elas foram baleadas com uma espingarda enquanto aguardavam
do lado de fora do tribunal em Ensenada.
Alguns dias após o incidente em Los Molinos, Neomi Zarate, esposa de um dos
seguidores de Ervil, desapareceu e foi tida como morta por ordem de Ervil. Robert
Simons, um polígamo excêntrico em Grantsville, Utah, foi encontrado desaparecido
após ser visto pela última vez com alguns dos capangas de Ervil. [3] O desertor Dean
Vest, foi morto a tiros em National City, Califórnia, por Vonda White, uma das
esposas plurais de Ervil. [4]
Ervil, condenado por cumplicidade no assassinato de Joel em 1972, cumpriu
apenas oito meses de sua sentença de doze anos antes de ser libertado por um tribunal
de Mexicali por "falta de provas". O frenesi de assassinatos no início de 1975 o
colocou novamente na lista de procurados de autoridades mexicanas e
estadosunidenses. Um policial mexicano finalmente o prendeu em 2 de março de
1976. Enquanto ele estava preso em Ensenada, membros de uma organização de
fachada chamada The Society of American Patriots distribuíram sua literatura de uma
caixa postal em South Pasadena, Califórnia. Com uma retórica raivosa, a sociedade
denunciou poligamistas rivais, impostos do governo, imprensa, programas de
assistência social e controle de armas. Eles ameaçaram uma invasão do México e
criticaram a candidatura presidencial dos EUA de Jimmy Carter, anunciando:
"Preferimos que a pena de morte seja aplicada a Jimmy Carter, do que vê-lo
prosseguir" (LeBaron 1981, 271).
O principal antagonista de Ervil no movimento fundamentalista era Rulon C.
Allred. Ervil LeBaron acusou Allred no outono de 1975 de "se envolver numa guerra
psicológica contra um dos principais campeões da liberdade de todos os tempos
[LeBaron]". Sua carta foi encerrada com um aviso: "Temos métodos impressionantes
de fazer com que os direitos dos homens honoráveis sejam reconhecidos e
respeitados" (Bradlee e Van Atta 1981, 215). Ter Ervil escondido numa prisão
mexicana forneceu uma pequena medida de segurança para aqueles que o conheciam
e o temiam. Mas a paz deles foi abalada quando ele foi libertado no início de
novembro de 1976 por "falta de provas" e com suspeita de suborno. Ervil e uma de
suas esposas plurais se mudaram para Yuma, Arizona.
No início da primavera, ele ordenara o assassinato de uma [de suas] filhas
rebelde, Rebecca LeBaron. Durante uma reunião de seguidores em 20 de abril de
1977 em Dallas, Texas, ele anunciou que o Senhor queria que os membros do grupo
se preparassem para uma missão em Utah. Decretou que, em 3 de maio, haveria um
funeral em Salt Lake City, no qual seu irmão Verlan LeBaron deveria ser morto. Além
disso, anunciou Ervil, o funeral seria de Rulon Allred. O autoproclamado profeta de
Deus anunciou que o assassinato de Allred deveria ser realizado pelas duas mulheres
mais bonitas do grupo. A palavra foi aberta a indicações e duas jovens foram
escolhidas (ibid., 232-36).
Rulon C. Allred, que era um naturopata por profissão, tratando distúrbios de
saúde prescrevendo dietas especiais de sol, massagem e exercícios. Nascido numa
família poligâmica de destaque no estado mexicano de Chihuahua em 1906, ele com
71 anos tinha pelo menos onze mulheres era o líder espiritual de milhares de
fundamentalistas em 1977. Às 16:45 de 10 de maio 1977, Allred estava terminando o
dia em seu escritório em Murray, Utah, quando duas moças mais tarde identificadas
como Rena Chynoweth e Ramona Marston entraram no prédio onde Allred, sua
esposa e assistente Melba, e vários pacientes permaneciam. "Oh meu Deus! Meu
Deus!" testemunhas ouviram Allred gritar quando Chynoweth teria atirado várias
balas em seu corpo.
A suspeita inicial do assassinato foi centrada em Alex Joseph. Os jornalistas
adoravam o humor e a sinceridade citáveis de Joseph e sua vontade de ser
fotografado com suas esposas atraentes. Ele havia recebido ampla cobertura da mídia
em publicações nacionais e locais. O polígamo altamente visível havia saído do favor
de Allred em 1970 devido a divergências financeiras. Mas Joseph negou ter matado
Rulon Allred. Seu melhor palpite, informou os policiais, era que Ervil LeBaron havia
orquestrado o assassinato.
Os serviços funerários de Allred foram realizados em 14 de maio de 1977 no
auditório da Bingham High School - a única instalação na área grande o suficiente
para acomodar os milhares de pessoas que o aguardavam. Câmeras de televisão e
repórteres estavam por toda parte. Verlan LeBaron, sentado no fundo da sala, não
descobriu até muito tempo depois que a presença massiva da mídia e a forte
segurança policial haviam salvado sua vida. Um esquadrão de ataque, enviado por
Ervil para assassinar Verlan, não ousou tentar a ação depois de examinar a situação.
Após quatro meses de investigação minuciosa, o promotor David Yocum e os
oficiais de investigação Dick e Paul Forbes se reuniram com um juiz de Salt Lake
City e apresentaram suas evidências. O juiz assinou queixas contra onze pessoas por
assassinato, conspiração para cometer assassinato e tentativa de assassinato. Em 23
de setembro de 1977, mais de cem agentes da lei invadiram simultaneamente dez
locais diferentes em Denver e Dallas. A operação obteve apenas quatro dos princípais
[suspeitos], e Ervil LeBaron não estava entre eles. Foi em 6 de março de 1979 que o
tão aguardado julgamento do assassinato começou, com apenas quatro dos acusados
presentes: Rena, Mark, Victor Chynoweth e Eddie Marston. Após duas semanas de
depoimento, o júri considerou todos os quatro réus inocentes.
Ervil LeBaron só foi detido pelas autoridades mexicanas em 25 de maio de
1979. Ele foi a um tribunal dos Estados Unidos pela primeira vez na segunda-feira,
12 de maio de 1980. Depois de ouvir mais de duas semanas de testemunho, o júri se
retirou para deliberar. O capataz Andrew Smith logo pediu uma votação sobre a
acusação mais séria que "no dia 10 de maio de 1977 ou aproximadamente [Ervil
LeBaron] solicitou, comandou, incentivou ou ajudou intencionalmente outras pessoas
a causar a morte intencionalmente ou conscientemente de Rulon Clark Allred", um
assassino em primeiro grau. A votação era onze para uma por condenação. A decisão
exigiu unanimidade. Depois de mais três horas, o júri voltou ao tribunal. O grupo
considerou LeBaron culpado pelo assassinato de Rulon Allred e culpado de conspirar
para assassinar seu próprio irmão, Verlan LeBaron.
Muitos cidadãos de Utah ficaram surpresos ao ouvir notícias em 16 de agosto de
1981 de que Ervil LeBaron havia sido encontrado morto às 5:30 da manhã em sua
cela de segurança máxima na Prisão Estadual de Utah. Causa da morte: um ataque
cardíaco maciço. Dois dias depois, Verlan LeBaron, a quem Ervil ordenou o
assassinato em pelo menos duas ocasiões, encontrou sua morte em uma colisão
frontal [de carro] perto da Cidade do México. As cenas finais da saga Ervil LeBaron
pareciam ter terminado em 21 de agosto, quando o Salt Lake Tribune relatou que
Anna Marston, uma das quatorze esposas do autoproclamado "Poderoso e Forte",
reivindicou o corpo de seu marido e ela o enterrou no cemitério Resthaven em
Bellaire, Texas.
Mas a influência de LeBaron logo se estenderia além do túmulo. Antes de sua
morte, ele compilou uma "lista de ocorrências" de pessoas que, segundo ele, o traíram
durante sua prisão. Gravados num "Livro das Novas Alianças", esses indivíduos
foram escolhidos para execução, aparentemente por alguns dos filhos de LeBaron. O
primeiro alvo da justiça divina de LeBaron foi Leo Evoniuk, que em uma luta pelo
poder havia matado Arturo, filho de LeBaron. Em maio de 1987, em Watsonville,
Califórnia, as autoridades encontraram os dentes de Evoniuk numa poça de sangue
com várias carcaças de uma pistola de 9 mm espalhada. Presume-se que o homem
morreu, embora seu corpo não tenha sido recuperado. O caso permanece sem
solução.
Daniel Jordan, um dos "missionários franceses", conheceu sua morte cinco
meses depois, em 16 de outubro de 1987, enquanto caçava cervos com nove de suas
esposas e vinte e um de seus filhos no condado de Sanpete, Utah. Um assaltante
desconhecido o matou. Aaron LeBaron, o filho de vinte anos de Ervil, estava caçando
com o grupo. Horas após o funeral de Jordan em Bennett, Colorado, o jovem
LeBaron se declarou novo patriarca do clã com as "chaves do poder civil",
essencialmente o poder da vida e da morte dos membros da família. Aterrorizados, os
membros da família de Jordan prenderam LeBaron, acusado de fazer ameaças. As
acusações foram posteriormente julgadas improcedentes, e ele deixou o estado,
levando consigo outros oito filhos de Ervil LeBaron, que haviam sido colocados em
lares adotivos do Colorado.
Em 27 de junho de 1988, perto das 16 horas, o 144º aniversário da morte de
Joseph Smith, os "Cordeiros de Deus" atacaram novamente. Numa operação
coordenada, o ex-capanga de LeBaron, Duane Chynoweth, e sua jovem filha Jennifer
foram mortos a tiros numa caminhonete estacionada em frente a uma casa vazia em
Houston, Texas. O irmão de Chynoweth, Mark, genro de Ervil LeBaron, foi
assassinado simultaneamente perto de sua loja a cerca de 16 quilômetros de distância,
enquanto que a 350 quilômetros de distância, Eddie Marston, um dos enteados de
LeBaron, também foi morto.
O corpo de Ervil LeBaron mal estava frio em seu túmulo no Texas antes que
outras histórias de expiação pelo sangue, conspiração e poligamia voltassem às
bancas. Na noite de 24 de julho de 1984, um jovem marido e pai, Allan Lafferty
voltou para casa do trabalho e descobriu os corpos cortados de sua esposa Brenda e
da filha de quinze meses Erica. Os esforços de investigação dos policiais resultaram
na prisão de dois dos irmãos dele, Ronald W. e Daniel C. Lafferty, e dois supostos
cúmplices. Havia rumores de que a poligamia estava no fundo dos assassinatos.
Os três irmãos encontraram e seguiram Bob Crossfield, um profeta
autoproclamado que recentemente se mudara com suas esposas plurais do Canadá
para Genola, Utah. Crossfield recebia revelações há vinte anos, muitas das quais ele
havia encaminhado aos oficiais da igreja Mórmon em Salt Lake City. Em 1979, ele
foi ordenado por Deus para mudar suas famílias para Utah, onde queria restabelecer a
"Escola dos Profetas" originalmente instituída por Joseph Smith. As visões
milenaristas de Crossfield foram rapidamente aceitas pelos irmãos Lafferty.
Os membros da "Escola dos Profetas" acreditavam que uma "cidade de refúgio"
seria estabelecida em Salem, Utah, perto da entrada de uma mina controversa, criada
em 1894, quando seu fundador relatou que ele havia sido direcionado ao local por um
anjo. [5] Segundo Dan Lafferty, parte dos planos visionários da "Escola dos Profetas"
incluía o restabelecimento da Ordem Unida e do Conselho dos Cinqüenta. O
casamento plural era uma parte importante desses planos. Os membros da "Escola
dos Profetas", de acordo com Dan Lafferty, acreditavam que "numa existência pré-
mortal precoce todos foram criados com uma alma gêmea do sexo oposto, uma
companheira eterna. Para todo homem havia uma mulher, mas houve uma guerra no
céu em que um terço das almas de todos homens se rebelaram contra Deus e foram
expulsos, deixando a maioria das mulheres sem companheiros. Para resolver o
problema, as mulheres extras foram designadas como companheiras plural para os
homens restantes". Lafferty elaborou que "enquanto o dever de todo homem neste
mundo é viver da melhor maneira possível, para se santificar, o objetivo principal de
toda mulher é encontrar o homem a quem ela foi designada na preexistência" (Nelson
1984 8).
As dificuldades para Ron Lafferty, de acordo com uma fonte, começaram
quando ele teve problemas para convencer sua esposa de que ele deveria ter esposas
plurais. Aparentemente, quando ela estava entusiasmada com o conceito, a cunhada
dele, Brenda Lafferty, a convenceu. A articulada Brenda, que havia trabalhado como
apresentadora de um programa de revista na KBYU-TV, era a força anti-poligamia
mais formidável da família Lafferty.
Algumas semanas após a dupla morte, os irmãos foram capturados em Nevada e
retornaram a Utah, onde ambos foram considerados culpados. Dan foi condenado à
prisão perpétua e. Ron, cujo julgamento foi adiado por causa de uma tentativa de
suicídio, foi condenado à morte, apesar da estratégia dos advogados de defesa de
convencer os juristas de que ele estava sofrendo de "ilusões paranóicas e acreditava
que ele recebeu um imperativo moral "dado por Deus para assassinar.
Fora sua prática de poligamia, a maioria dos fundamentalistas são cidadãos
cumpridores da lei. Poligamistas de alto perfil, como os Laffertys e LeBarons, são
retrocessos ao mórmonismo do final do século XIX, quando a oposição ao governo
federal era um emblema de coragem e honra. Os líderes de grupos pequenos, embora
às vezes não menos bizarros geralmente mantêm perfis mais simples.
Certamente, o capítulo final sobre poligamia mórmon ainda não foi escrito. Suas
raízes se espalharam por toda parte, e o casamento plural provavelmente será
praticado nas próximas gerações pelos grupos dissidentes mórmons. O assunto, por
muito tempo e foco de acalorado debate no passado, continuará sendo controverso
para muitos mórmons. No entanto, se os mórmons e os não-mórmons sempre
entenderam a herança de uma das religiões nativas mais bem-sucedidas dos EUA,
parece importante que eles comecem a perguntar por quê da poligamia.

Notas:
1 – O presidente da Igreja, Spencer W. Kimball, sabia que foi em 1904 e não em 1890 que a
igreja oficialmente interrompeu a poligamia. Entrevistado por Gary L. Shumway em 1972 como
parte do Programa de História Oral, James M. Moyle, Kimball, ao explicar o casamento pós-
manifesto de Fannie Woolley com George C. Parkinson, disse: "Era por volta de 1902, não sei
justamente quando o Manifesto se tornou operacional em todo o mundo, incluindo o Canadá e o
México, mas a tia Fannie se casou antes do falecido presidente Joseph F. Smith 'trancar o portão'."
2 – Para discussões sobre esses vários grupos, ver Hilton 1965; Shields 1982; Wright 1963;
Jessee 1959; e Rich 1967.
3 – Simons foi visto pela última vez vivo em 23 de abril de 1975 na companhia de Lloyd
Sullivan. De acordo com o testemunho posterior de Sullivan, Simons foi morto naquela noite perto
de Price, Utah, por Eddie Marston e Mark Chynoweth. O corpo de Simons foi exumado de sua
sepultura improvisada em 31 de março de 1978. Marston, o único indivíduo levado a julgamento
neste caso, foi posteriormente considerado inocente (Bradlee e Van Atta 1981, 1981-91, 288-92).
4 – Este tiroteio ocorreu em 16 de junho de 1975. White foi considerado culpado do
assassinato em 14 de maio de 1979 e recebeu uma sentença de prisão perpétua (Bradlee e Van Atta
1981, 1992-202, 328-29).
5 – A Mina fica na montanha a nordeste de Salem, Utah, no vale de Utah. Em 1894, o bispo
mórmon Koyle reivindicou uma visão na qual um mensageiro celestial lhe apareceu em três noites
separadas, mostrando-lhe vastas reservas de moedas de ouro e minério rico nas profundezas da
montanha que, segundo se dizia, teriam o objetivo de "salvar" a Igreja. Centenas de milhares de
dólares foram contribuídos pelos mórmons para o empreendimento de mineração. Milhares de pés
de eixo foram afundados e, eventualmente, Koyle foi excomungado por procurar apoio financeiro,
apesar dos conselhos dos líderes da igreja para abandonar os esforços.
Bibliografia
ANDERSON, Jerry. "Polygamy in Utah." Utah Law Review 5 (Spring 1957):
381-89.
ANDERSON, Max. The Polygamy Story: Fiction and Fact. Salt Lake City:
Publishers Press, 1979.
BAIRD, Mark J., and Rhea A. [Kunz]. Reminiscences of John W. and Lorin
C. Woolley. 4 vols.
BERGERA, Gary J. "Men and Women of Mormondom: Lorena Eugenia
Washburn Larsen." Unpublished paper, 1977.
______"The Church and Plural Marriage." 7th East Press, 12 Oct. 1982.
______"Secretary to the Senator: Carl A. Badger and the Smoot Hearings."
Sunstone 8 (Jan.-April 1983): 36-41.
BISHOP, Lynn L., and Steven L. BISHOP. The Truth About John W. Woolley
and Lorin C. Woolley and the Council of Friends. Draper, UT: N.p., 1972.
BRADLEE, Ben Jr., and Dale Van ATTA. Prophet of Blood - The Untold
Story of Ervil LeBaron and the Lambs of God. New York: G. P. Putnam's Sons,
1981.
BROOKS, Juanita. "A Close-up of Polygamy." Harper's Magazine, Feb. 1934,
299-307.
CANNON, Oa J. Denominations That Base Their Beliefs on the Teachings of
Joseph Smith. 2nd ed. Salt Lake City: Daughters of the Utah Pioneers, 1969.
CANNON, Frank J., and Harvey J. HIGGINS. Under the Prophet in Utah.
Boston: G. M. Clark Publishing Co., 1911.
CLARK, James R., ed. Messages of the First Presidency of the Church of
Jesus Christ of Latter- day Saints. 6 vols. Salt Lake City: Bookcraft, 1965
COLLIER, Fred C. The Church of the Firstborn: Part 1. West Jordan, UT:
Mormon Underground Press, 1977.
_______ Unpublished Revelations of the Prophets and Presidents of the
Church of Jesus Christ of Latter-day Saints. Salt Lake City: Collier's Publishing
Co., 1979.
_______ "Re-Examining the Lorin Woolley Story." Doctrine of the
Priesthood 1 (Feb. 1981):1-17.
HILTON, Jerald A. "Polygamy in Utah and Surrounding Area Since the
Manifesto of 1890." M.A. thesis, Brigham Young University, 1965.
JESSEE, Dean C. "A Comparative Study and Evaluation of Latter-day Saint
and 'Fundamentalist' Views Pertaining to the Practice of Plural Marriage." M.A.
thesis, Brigham Young University, 1959.
JORGENSEN, Victor W., and B. Carmon HARDY. "The Taylor-Cowley Affair
and the Watershed of Mormon History." Utah Historical Quarterly 48 (Winter
1980): 4-36.
LARSON, Andrew Karl. Erastus Snow: The Life of a Missionary and
Pioneer for the Early Mormon Church. Salt Lake City: University of Utah Press,
1971.
LYMAN, Leo Edward. The Mormon Quest for Utah Statehood." Ph.D. diss.,
University of California at Riverside, 1981.
MEHR, Kahlile. "The Trial of the French Mission." Dialogue: A Journal of
Mormon Thought 21 (Summer 1988): 27-45.
MULDER, William. "Prisoners for Conscience Sake." In Thomas E. Cheney,
ed. Lore of Faith and Folly. Salt Lake City: University of Utah Press, 1971.
MUSSER, Joseph W. The New and Everlasting Covenant of Marriage an
Interpretation of Celestial Marriage, Plural Marriage, Polygamy. Salt Lake City:
Truth Publishing Co., 1934.
_______ Celestial or Plural Marriage: A Digest of the Mormon Marriage
System as Established by God Through the Prophet Joseph Smith. Salt Lake
City: Truth Publishing Co., 1944.
NEWSON, Robert C. Is the Manifesto a Revelation? N.p.: n.p., 1956.
PARKINSON, Preston Woolley. The Utah Woolley Family. Salt Lake City:
Preston W. Parkinson, 1967.
PUSEY, Merlo J. Builders of the Kingdom-George A. Smith, John Henry
Smith, George Albert Smith. Provo, UT: Brigham Young University Press, 1982.
QUINN, D. Michael. "Organizational Development and Social Origins of the
Mormon Hierarchy, 1832-1932: A Prosopographical Study." M.A. thesis,
University of Utah, 1973.
________ "The Mormon Hierarchy, 1832-1932: An American Elite." Ph.D.
diss., Yale University, 1976.
________ J. Reuben Clark - The Church Years. Provo, UT: Brigham Young
University Press, 1983.
RICH, Russell. Those Who Would Be Leaders. 2nd ed. Provo, UT: Brigham
Young University Extension Publications, 1967.
ROBERTS, Brigham H. A Comprehensive History of the Church of Jesus
Christ of Latter-day Saints. 6 vols. Salt Lake City: The Church of Jesus Christ of
Latter-day Saints, 1930.
________ Life of John Taylor. Salt Lake City: Bookcraft, 1965.
SHIELDS, Steven L. Divergent Paths of the Restoration. 3rd ed. Bountiful,
UT: Restoration Research, 1982.
TANNER, Obert C., A Mormon Mother: An Autobiography by Annie Clark
Tanner. Salt Lake City: Tanner Trust Fund/University of Utah, 1976.
VAN ATTA, Dale. "LeBaron Chronicle Echoes Biblical Stories." Salt Lake
Tribune, 17 June 1977.
VAN WAGONER, Richard S. and WALKER, Steven. A Book of Mormons.
Salt Lake City: Signature Books, 1982.
WRIGHT, Lyle O. "Origins and Development of the Church of the Firstborn
of the Fulness of Times." M.A. thesis, Brigham Young University, 1963.

*A bibliografia citada é apenas a citada nessa tradução, não contendo os jornais


e diários citados no texto.

Você também pode gostar