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28/11/2020 arquitextos 196.

01 história: Utopia e produção arquitetônica | vitruvius

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196.01 história ano 17, set. 2016

Utopia e produção arquitetônica


Archigram, uma nova forma de teoria
Victor Borges e Tarcísio da Silva Cyrino

196.01 história
sinopses
como citar

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original: português

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196
196.00 história
O porto do Rio de
Janeiro no contexto das
reformas urbanas de fin
du siècle (1850-1906)
Paulo Cesar dos Reis
196.02 restauro
Casa Bonomi
Atemporalidade
arquitetônica
Fábio Chamon Melo
196.03 cinema
De outros cinemas
Oasis Collage, Archigram, Ron Herron Ellen de Medeiros Nunes
Imagem divulgação [Archigram Archives]
196.04 urbanismo
Habitação social como
Imersos em um Universo prático em que as atenções teimam em se voltar urbanismo
para a execução e fotografar o que já fora polido e permanece de pé, as Proposta pedagógica
ideias parecem encafuar-se junto às fundações para lá perdurarem para um mestrado
enquanto, sobre seus ombros tortos escoram as vigas e vidraças límpidas a profissional em desenho
refletir as esparsas nuvens no céu ou as tempestades chuvosas a que não urbano
deixam de estar sujeitos os engenhos. O presente artigo busca, nas Zeca Brandão
próximas páginas, trazer à superfície tais ideias e sujeitá-las às
intempéries do tempo, situando-as no contexto arquitetônico e social 196.05 tipologia
sobre o qual cresceram e a que deram origem. Numa breve amostra deste Niemeyer e o modelo do
objetivo, elegemos o grupo Archigram (1), famoso pela radicalidade semi-duplex
análoga à sua época (1960’s) e cerne de ideais claramente utópicos e Uma inovadora proposta
desmembrados da responsabilidade construtiva, para reter seu peso e habitacional na década
avaliá-lo quanto aos dias de hoje (2010’s). dos cinquentas
Alejandro Pérez-Duarte
Archigram Fernández e Talita
Silvia Souza
O homem pisa na lua, é possível avistá-lo do sofá de casa. Capacete 196.06 reciclagem
grande, roupa branca, um tanto desajeitada, a abrigar numerosos tubos e Preexistência
conectores, uma bandeira em mãos e algo indecifrável ao fundo, designado industrial-ferroviária
“Módulo Lunar Apollo XI”. Na imensidão negra em que tais imagens se à margem de Ouro Preto
projetam, a certeza vinda da TV a cores de que o futuro se adiantara para Da fábrica de tecidos
o presente. Dentro dos limites atmosféricos, sons de guitarras elétricas ao museu de Paulo
e pedaleiras passam a ecoar com mais frequência e a rebeldia juvenil Mendes da Rocha
ganha novos cortes de cabelo, trajes circenses e sapatos plataforma. A Bruno Tropia Caldas
Terra parece girar um tanto mais rápido que na década anterior. Os
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28/11/2020 arquitextos 196.01 história: Utopia e produção arquitetônica | vitruvius
Beatles, que até então, entoavam “Love Me Do” vestidos de terno e 196.07 urbanismo
gravata, dão lugar a excentricidade psicodélica de “Lucy In The Sky With Desenho ambiental e
Diamonds” aposentando o paletó e a candura infantil. forma urbana
O caso do bairro de
Riverside
Evy Hannes
196.08 critic
Architectural Zeitgeist
in Latin America
And its architecture of
gravity
Andrés Felipe Calderón

A Room For Yourself, Archigram, Ron Herron


Imagem divulgação [Herron Archives]

A Archigram, revista de cunho arquitetônico e revolucionário, emerge na


mesma cena. Idealizada por um grupo de jovens arquitetos britânicos para
ser uma ferramenta crítica do que fora construído até então, com
publicações ousadas, trazendo edificações e contextos urbanos
extravagantes, comumente aparentados inexequíveis, busca não mais que o
rompimento dos limites terrenos para uma nova sombra em que se projeta a
imaginação, o futuro, que se tornara tangível durante a década de 1960.

Composta por Peter Cook, Ron Herron, David Greene, Dennis Crompton,
Michael Webb e Warren Chalk, dentre outros contribuintes esporádicos, a
revista se apresentou entre 1961 e 1974 munida de uma estética semelhante
à Pop Art, movimento artístico pós-moderno dos anos 60, caracterizado
pelas cores vibrantes e aspecto massivo de ênfase publicitária, e
inúmeras ideias doidivanas, tais como as “Walking Cities”, mistos de
cidades-robôs, dotadas de inteligência própria e incríveis recursos
tecnológicos a lhes permitir transitar sobre oceanos e conectarem-se,
metamorfoseando dentre pequenos arraiais tecnológicos às extravagantes
megalópoles móveis, idealizadas por Ron Herron (1930-1994) ou a “Plug-in
City”, projetada pelo principal expoente do Archigram, Peter Cook (1936),
uma megaestrutura em constante mutação, enraizada nas lógicas capitalista
e “high-tech” que expandiam-se de modo vertiginoso, agregando valores
individuais e a trivialização do consumo orientado para a rápida
obsolescência dos produtos às novas gerações. Assim como Herron, Cook
expandira junto à “Plug-in City” (1964), o conceito nômade segundo o
qual, o futuro deverá ser nada mais que um composto de lapsos temporais,
cada vez mais curtos, a serem constantemente repaginados para dar espaço
ao novo. Suas estruturas são transitórias e flexíveis baseadas em módulos
de encaixe, facilmente substituídos. No entanto as ideias futurísticas
carregam, além da clara influência mercantilista, uma inspiração física
recente. Em seu livro Archigram: arquitetura, sem arquitetura (2) Simon
Sadler, professor da Universidade da Califórnia, sugere que “A estética
do incompleto, evidente em todo o sistema plug-in, e evidente nas
megaestruturas precedentes, pode ter derivado das obras de construção que
acompanharam a reconstrução econômica da Europa”.

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Instant City is here, Archigram, Ron Herron, agosto de 1970


Imagem divulgação [Herron Archives]

Tal como “Os Jetsons”, série animada de televisão produzida no início da


mesma década a fantasiar sobre um universo futurístico saturado em
eletrônicos e eletrodomésticos arrojados e sobretudo eficientes, ainda
que carregasse em suas ilustrações inevitáveis influências do contexto
real, a Archigram tinha, acima de qualquer outra coisa, um compromisso
com o devaneio que sobrepunha qualquer necessidade de diálogo com a
realidade ou a projeção de algo factível. Não há, no grupo pretensão em
edificar de fato, um futuro tal qual as linhas projetuais propõem na
pequena revista colorida. Toda produção equivale a um novo holofote
apontado para experiências que superam a reprodução, até então, incontida
de um modelo saturado, meramente racional e consciente fruto da difusão
cartesiana, da lógica máxima: “Penso, logo existo” para a subsequente
lacaniana induzida por Freud “Penso onde não sou, logo sou o que não
penso”. Todos os projetos e representações nos propõem a reabilitação
para a condição mutante, até então escamoteada na reprodução rígida da
arquitetura moderna alicerçada no ideal humano matemático já suplantado
por Nietzsche no século 19 que nomeara o homem como “vontade de potência”
(alemão: “Willie zur Macht”) e a justificação da vida como produção
exclusivamente estética. Por tais motivos, o grupo surge como norte
filosófico e estilístico de um processo cuja a voz regente é nada mais,
se não, tão somente o desejo (3). A utopia na revista não se revela para
a realidade, pelo contrário, se dá por ela mesma. Ideologia sabiamente
disparatada que se desnuda logo no terceiro ou quarto traço em autêntico
devaneio. Ordinária despretensão além do papel que não clama por
militância e muito menos flerta com o divino, ao contrário, ostenta
transfigurações excêntricas e não menos babélicas.

Ideias traçadas como um emaranhado de fantasmagorias delirantes que não


pedem juízo de valor, apenas marcam presença em folhas e esperam por elas
perecer, revelam, ainda que despropositadamente, novas estradas por onde
transitaram as obras high-tech produzidas por Renzo Piano, Richard
Rogers, Nicholas Grimshaw, Norman Foster e Michael Hopkins na década de
1970, a arquitetura metabolista, dos japoneses Kiyonori Kikutake, Kisho
Kurokawa, Fumihiko Maki e tantos outros cuja atuação esteve intimamente
relacionada ao crescimento urbano exponencial, à escassez de espaços e à
ideia ilustrada pela Archigram de desenvolvimento orgânico contemplado
com estruturas flexíveis e facilmente ampliáveis.

Apesar da aparente abstenção ideológica, os projetos se situam o


espectador intuitivamente em um tempo futuro não muito distante do tempo
em que foram publicadas. Uma análise do estudo “Plug-in City” por
exemplo, nos revela uma perspectiva deslumbrante, quiçá pueril diante do
modo como a industrialização era interpretada e exaltada com tenras
promessas de otimização do cotidiano social. O projeto baseado em uma
cidade construída sobre a base de um sistema de trilhos e guindastes,
responsáveis pelo seu eterno movimento e construção permitiria a
adaptação instantânea de novas tecnologias e mobilidade especial a
pressionar o limite do que, até então, se entendera por arquitetura,
sugerindo uma transfiguração de seu conceito rígido e estático para novos
ideais de “máquinas de morar”. O estudo fora calcado em uma série de
projetos individuais, para habitação, escritórios, universidades, espaços
livres e, não obstante, planos para a transição de cidades já
consolidadas no modelo móvel “Plug-In”.

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Instant City, Archigram, Ron Herron e Dennis Crompton


Imagem divulgação [Peter Cook Collection / Archigram Archives]

. David Greene, Warren Chalk, Peter Cook, Mike Webb, Ron Herron e Dennis
Crompton, Grupo Archigram
Imagem divulgação [Archigram Archives]

Construídas como módulos de subsistir, habitações teriam acesso livre


entre cidades plugadas, transitando entre seus complexos e conectando-se
ao sistema de transporte a trilhos incumbido de carrear os recursos e
peças necessários à manutenção da cidade. Os redutos urbanos seriam, por
conseguinte inteiramente vinculados, ainda que indeterminados
geograficamente num tempo extenso. Tal perspectiva funcionalista de Cook
projeta em nós o estranhamento em ter uma heterogênea gama de ambientes
recebendo novas e alternativas fachadas reconstruídas em torno de suas
finalidades de desempenho. Não há, no projeto, qualquer ideal perene. O
todo é substituível e imprevisível, seu “existir”, tal como a vida,
reside em movimento e recriação.

Os universos ilustrados, tão caóticos quanto eficientes, expõem a


“modernidade líquida” de Zygmunt Bauman (4), conceito desenvolvido pelo
sociólogo nos anos 2000 evidenciando a desfragmentação da rigidez
fotográfica, da integralidade de um estado para um eterno “remodelar”.
Nada na contemporaneidade pode ser, tudo está. Da mesma forma, os
universos arquitetônicos da revista não se conformam em si mesmos, são
redes maleáveis que se agitam com os bipes apressados dos até então,
recém-chegados relógios digitais. Para além de Bauman, a Cidade Plug-In
mostra-se inteiramente atada ao arquétipo desconstrutivista,
ressignificando espaços e rompendo conceitos sociais imanentes, tais como
as fronteiras físicas, aniquiladas pelo modelo móvel proposto na
magazine.

Plug-In Office Stacks And Housing For Charing Cross Road, Archigram, Peter
Cook, 1963
Imagem divulgação [Archigram Archives]

Plug-in City, Archigram, Peter Cook


Imagem divulgação [Archigram Archives]

Jacques Derrida (1930-2004) apresenta como fundamento embrionário de sua


filosofia da década de 1960, o estudo sobre o texto e sua obscuridade,

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revelando a interpretatividade do discurso e os infinitos significados
sob os quais se podem transitar em uma mesma “verdade”. Nasce a partir de
então o intento desconstrutivista, replicado fortemente pelo grupo
Archigram, segundo o qual objetos de estudo recebem novos significados e
são recaracterizados mantendo seu fim existencial e trazendo à luz
paradoxos e contradições ocultas, que ampliam seus sentidos e revelam
novos usos. O sitio urbano, desta forma, até então entendido como espaço
delimitado, estático e relacionado à terra se engrandece diante das novas
regras às quais se submete, dotadas de um novo significado que fora
adiado antes e infindáveis significados a serem adiados posteriormente,
compreendida por tanto no conceito de “diferência” elucidado por Derrida
(5).

Apesar de o movimento arquitetônico desconstrutivista datar da década de


1980, posterior à Archigram, e possuir características um tanto distintas
às promulgadas pela revista futurista, seu conceito intrínseco,
questionável pela própria filosofia desconstrutivista que admite o
significado ou a verdade como mera interpretação, aponta para as bases do
grupo. O desconstrutivismo arquitetônico, no entanto, o é pela
ressignificação das superfícies e formas pré-definidas para determinado
uso díspar às produções de Cook e seus parceiros, preocupados em lançar
novos sinônimos à experiência de vida do meio urbano tecnocrata.

Plug-in City, Archigram, Peter Cook


Imagem divulgação [Archigram Archives]

Completadas mais de uma década de ilustrações e ideologias arquitetônicas


sui generis, a Archigram lança sua ultima edição em 1974, dissolvendo-se
pouco depois, junto à ascensão de uma nova era europeia diversa à
efervescência cultural advinda dos anos 1960 em que o grupo foi criado. O
Estado de bem-estar social inicia seu declínio adjunto à crença
tecnicista para dar lugar a políticas um tanto quanto conservadoras, em
meio a novas crises que abalavam as práticas consumistas em voga desde a
ascensão do capitalismo pelos EUA pós-segunda guerra mundial. Simbolizado
na Inglaterra pela Era Thatcher, o novo momento despia a sociedade da
ilusão fantástica de uma estação de criatividade e recursos abundantes
para uma realidade de apuros econômicos e relativização do poderio
científico. Os avanços tecnológicos, apesar de presentes no cotidiano
coletivo, falharam ao romper com preceitos básicos do corpo social (6).

Ainda que não tenham erguido nenhum edifício ou habitado oceanos durante
o período da Archigram, Peter Cook e Ron Herron executaram obras um tanto
quanto extravagantes em memória à revista, patenteando a exequibilidade
do imaginário como forma palpável. Cook, professor de arquitetura, ainda
em atividade na Universidade de Harvard, reuniu-se em 2006 com Gavin
Robotham, idealizador do projeto de interior do Magna Center em
Rotherham, para dar origem ao Studio CRAB – Cook Robotham Architectural
Bureau (7). Dentre suas obras mais peculiares destaca-se o museu
Kunsthaus Graz, projetado em 2003, antes da união com Gavin, na cidade de
Graz na Áustria, a incorporar grande parte do espírito da magazine em
suas curvas blob ferozmente destoantes do entorno plácido e regimental
sobre o qual parece se expandir. Herron, também catedrático, na
University of East London, apesar de não entoar em suas obras posteriores
o espírito tecnológico sob o qual idealizou “Walking City”, manteve em
seus trabalhos a estética orgânica e indefinida trabalhada pela
Archigram. Em sua edificação mais aclamada, “Imagination Headquarters”,
Ron ergue, sobre uma escola de fachada vitoriana, em tração inusual, uma
cobertura tencil, promotora de uma conversa entre as linhas eruditas e o
ideal contemporâneo plástico que parece flutuar trespassado pela luz que
se contem ao encarar as paredes.

Declaradamente influenciados pelos protótipos da revista, os arquitetos


Renzo Piano (1937) e Richard Rogers (1933) amparados pelo engenheiro Ove
Arup (1895-1988), ergueram em 1977, o centro cultural francês Georges
Pompidou, um dos mais notáveis símbolos do movimento high-tech, aclamado
por seu ineditismo e complexidade a recuperar grande parte das ideias
ilustradas pela Archigram. Arup, apesar de permanecer contido entre os
bastidores da obra, foi figura recorrente e de enorme peso em projetos
semelhantes tal como o Lloyds Building (1986), também projetado por
Rogers. Seu escritório, Arup Group Limited, fundado em 1946 e sediado em
Londres, permanece, mesmo após seu falecimento, a exercer forte
influência em projetos posteriores de enredamento semelhante, quiçá mais
complexos, tal como o londrino 30 St Mar Axe (2004) de Norman Foster ou a
sede CCTV projetada por Rem Koolhaas e erguida em 2008 na cidade de Hong
Kong.

Walking City, Archigram, Ron Herron


Imagem divulgação [Herron Archives]

Uma nova revista, uma nova teoria

https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.196/6221 5/7
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É nítida a proliferação de inúmeras vanguardas artísticas e
arquitetônicas, no século XX, que tinham como escopo, manifestos e
eventos a sublinhar e definir as propostas e os ideais de cada novo grupo
artístico. A Archigram, no entanto, surge como pivô na suspensão desse
rito fazendo do projeto, método estritamente objetivo, o roteiro
principal na promoção de uma utopia crítica e abstrata.

Ainda que trabalhassem com texto e ilustrações, o núcleo discursivo da


revista situava-se no desenrolar de suas linhas projetuais, iluminando a
intenção acadêmica por trás do desenvolvimento utópico e estimulando a
evolução dialética em congressos e eventos de foco urbano/arquitetônico.
A expressão através da técnica salienta, no grupo, o corpo funcional de
suas intenções.

A linguagem informal e popular dos projetos, influenciada pelo movimento


Pop Art e as revistas em quadrinhos, entretanto, demonstra a crítica por
trás da execução projetual arquitetônica trazendo-as à mesa da população
leiga, porém usufrutuária da composição urbana.  Ao proporcionar a união
entre elementos estéticos comuns e representações essencialmente
funcionais, a Archigram aproxima obra e expectador, tornando-o agente da
cidade convidado a imergir nas propostas e devanear sobre novas rotas
possíveis e impossíveis.

Como Peter Cook colocou em uma recente entrevista à publicação egípcia


Zawia:

“Retornando à Archigram, penso que nós fomos, todos, muito


interessados na arquitetura, em promovê-la e para que produzisse
coisas melhores. Foi isso. Nossa utopia, se é que se pode chamar
assim, era alavancar a arquitetura para fazer algo mais. Para ser
mais inclusiva do que aquilo quê estava à sua volta. Nos
divertimos com isso pensando desta forma, nos divertimos dizendo:

Não se trata de mais uma pomposidade debatida na academia. Vamos


lá  mostrar o que podemos fazer!” (8).

Conclusão

Tendo em vista o trabalho do grupo inglês, nos voltamos ao questionamento


chave deste artigo: quais as relações entre utopia e produção
arquitetônica?

A resposta, entretanto, advém da conclusão de que a questão fora mal


posta. Não haveria acepção em procurar o elo entre duas partes de um
mesmo objeto. A utopia é, como ilustrado pela Archigram, uma forma de
produção arquitetônica. Sua inviabilidade construtiva pode fazer com que
seja relegada ao campo teórico, no entanto ela permanece como parte ativa
do processo.

Em seu livro Utopia e arquitetura lançado em 2005, Coleman aborda


quimeras e produções projetuais como modelos positivos de informação, não
restritivos, absolutos ou impossíveis (9). A utopia na Archigram está,
não na sua inexequibilidade, mas na ousadia proposta ao idealizar
melhores condições de vida calcadas em uma completa e exagerada
reestruturação social.

A utopia, como apontado por Reinhould, não se vale de seu fim, mas de seu
meio (10). A fantasia por trás das experiências teóricas propostas por
grupos arquiteturais, dentre eles o Archigram, apontam para um percurso
possível, sem destino final e limitações práticas. O campo da teoria, por
onde caminham, revela-se demasiadamente plástico, dispensa limites
executórios e materiais, é exclusivamente desejo e pretensão. Sua causa
está, não na linha de chegada, mas cá, antes do traço de partida, um
esboço por onde se pode caminhar.

Como coloca Reinhould, a utopia não é lugar nenhum ao mesmo tempo que é
todo lugar. Esse período de experimentações utópicas que não se limita à
Archigram, se compreende em tentativas de traçar caminhos para o momento
histórico que viviam. E por isso entendemos a direção para o qual o homem
apontará seus anseios e tentará alcançar. Sua inexequibilidade é a
consequência do ideal e ainda que não tenha erguido aparatos físicos, foi
de importância fundamental para que agentes do espaço, posteriores, o
fizessem, abraçando seus princípios. Logo, a repercussão de ideais
teóricos e práticos não está à margem da arquitetura, e sim num misto de
elementos que compreendem seu núcleo e nos permitem reinventá-la numa
indagação perene.

Instant City Visits Bournemouth, Archigram


Imagem divulgação [Archigram Archives]

notas

https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/17.196/6221 6/7
28/11/2020 arquitextos 196.01 história: Utopia e produção arquitetônica | vitruvius
1
Sobre o Archigram, ver: UNIVERSITY OF WESTMINSTER. The Archigram Archival
Project. Disponível em: <http://archigram.westminster.ac.uk/>; ARCHIGRAM,
Grupo. A Guide to Archigram 1961-1974. Londres, Academy Editions, 1994; SILVA,
Marcos Solon Kretli da. Redescobrindo a arquitetura do Archigram. Arquitextos,
São Paulo, ano 04, n. 048.05, Vitruvius, maio 2004
<www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.048/585>.

2
SADLER, Simon. Archigram: Architecture Without Architecture. Cambridge, MIT
Press, 2005.

3
NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos póstumos. Rio de Janeiro, Forense, 2012;
MARTINS, Jason da Silva. A vida como fenômeno estético: Schiller e Nietzsche.
Revista Humus, São Luís (Maranhão), v. 2, n. 6, 2012
<www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/revistahumus/article/view/1553>.

4
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001.

5
Sobre Jacques Derrida, ver: DORFMAN, Beatriz Regina. Arquitetura e
representação: as casas de papel, de Peter Eisenman e textos da desconstrução,
de Jacques Derrida, anos 60 a 80. Tese de doutorado. Orientador Fernando Fuão.
Porto Alegre, FA UFRGS, 2009.

6
CABRAL, Cláudia Piantá Costa. Cadernos de Arquitetura e Urbanismo, Belo
Horizonte, v. 11, n. 12, , dez. 2004 p. 247-263.

7
CRAB Studio. Projects/About. Disponível em <www.crab-studio.com>.

8
COOK, Peter. In GAMAL, Ahmed; SHAWKY, Ahmed; HAMMOUDA, Kareem; ABDULKARIM,
Mazin; FAISSAL FARID, Moataz. Zawia, v. 2, n. 1 (Utopia) Cairo, 2013. Tradução
dos autores. Texto original: “Back to Archigram, I think we were all people
that were very interested in architecture and pushing it forward and for it to
do better things and that was it. OUR Utopianism, if that’s what it was, was
pushing architecture to do more. To be more acquisitive of what was around. We
enjoyed enjoying that! We enjoyed saying: That is not just some highfalutin
thing discussed in academia. Lets go out there and show what we can do!”.

9
COLEMAN, Nathaniel. Utopias and Architecture. Nova York, Routledge, 2005.

10
REINHOLD, Martin. In NESBITT, Kate (org.). Uma nova agenda para a arquitetura.
São Paulo, Cosac Naify, 2010.

sobre os autores

Victor Augusto de Oliveira Borges e Tarcísio da Silva Cyrino são estudantes de


Arquitetura e Urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

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