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EDUCAÇÃO, GÊNEROS E
SEXUALIDADE
Educação, gêneros
e sexualidade

Sumário

EDUCAÇÃO PARA A SEXUALIDADE ....................................................................... 3

BASE LEGAL QUE SUSTENTA A EDUCAÇÃO PARA A SEXUALIDADE ................ 6

ACERCA DO CONCEITO DE SEXUALIDADE ........................................................ 10

Sexo e sexualidade .................................................................................................. 11

ORIENTAÇÃO SEXUAL X EDUCAÇÃO SEXUAL ................................................... 14

Contextualização da orientação sexual e educação sexual...................................... 14

A importância da Educação para a Sexualidade na escola ...................................... 16

O papel do/a professor/a na Educação para a Sexualidade ..................................... 21

EDUCAÇÃO SEXUAL: COMO ENSINAR NO ESPAÇO DA ESCOLA ..................... 25

METODOLOGIA DE ENSINO DA SEXUALIDADE .................................................. 27

REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 44

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EDUCAÇÃO PARA A SEXUALIDADE

Atualmente a abordagem de educação para a sexualidade vem ocupando


significativos espaços dentro e fora da escola, inclusive nos meios de comunicação,
tornando-a centro de discussões em diversos espaços sociais, visto que o tema
envolve valores e crenças, históricos e socialmente construídas.
A escola é um espaço social e de formação do indivíduo e como tal, traz
complexidades ao discutir e vivenciar temas polêmicos e tidos como tabu. Cabe a
ela orientar os alunos e esclarecer as dúvidas a esse respeito. Sendo assim, a
Educação para a Sexualidade quando utilizada na área educacional, se propõe a
organizar um espaço de reflexão e questionamentos sobre, tabus, crenças e valores
a respeito da sexualidade.
Para tanto, trabalhar a Educação para a Sexualidade na escola é um
processo incessante em constante desenvolvimento, pois muitas questões precisam
ser resolvidas, começando pela formação dos professores, na qual já foram sujeitos
investimentos de diferentes ordens desde a década de 1990, visando preparar
professores/as para lidar com as questões de sexualidade nas escolas, sabendo-se
que os/as professores/as vão trabalhar com essa temática e, consequentemente,
terão que lidar com dúvidas, perguntas, brincadeiras, preconceitos e etc. Por isso, é
necessária uma formação específica e continuada, tratando o tema com postura
consciente, tornando a sala de aula um espaço de reflexões sobre valores e
preconceitos.
O tema da sexualidade passou a ser mais amplamente discutido na escola
nos anos 90 devido a crescente preocupação com o comportamento de jovens e
adolescentes. Principalmente com a crescente disseminação da AIDS, gravidez
precoce, abusos sexuais e outros casos discriminatórios e preconceituosos. A partir
disso, algumas políticas públicas foram criadas através do Ministério da Educação e
Cultura (MEC), como a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN),
que incluiu a orientação sexual, sexualidade e identidade de gênero como temas
transversais. E logo, foi incorporada às Diretrizes Curriculares Nacionais que visam
estabelecer Bases Nacionais Comuns Curriculares (BNCC) para a educação.

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Atualmente as escolas continuam enfrentando problemas por falta da


efetivação de uma política educacional para trabalhar a Sexualidade na escola. Quer
sejam problemas da demanda dos estudantes, da formação docente ou do apoio
pedagógico institucional.
Nos últimos anos tem sido notório o crescimento de casos de gravidez na
adolescência nesta escola entre jovens, com idades de 11 a 16 anos. Elas são
surpreendidas com a responsabilidade prematura de serem mães, tratam-se de
crianças que antes mesmo de traçarem planos para seu futuro, já devem se
preocupar em cuidar, educar e dar suporte a outras crianças.
Outro fato que surpreendeu foi a ocorrência com uma menina de 13 anos que
foi flagrada praticando atividade sexual oral, com cerca de mais cinco meninos. Esta
pratica sexual ocorreu no horário do intervalo em um dos ambientes da escola,
pouco ocupado, onde não há supervisão de funcionários. Conforme relatado pela
escola, a aluna “praticava sexo oral em um dos meninos, enquanto o seguinte
aguardava sua vez na fila”. Após flagrante a aluna foi encaminhada à direção que
tomou a decisão radical de expulsão somente da menina.
Nos casos relatados evidencia-se a postura de cunho machista da nossa
sociedade refletida no ambiente escolar, pois trata a gravidez de responsabilidade
da menina e a punição no segundo caso ocorreu exclusivamente com a menina
envolvida, enquanto que os meninos permaneceram na escola, sem sofrer qualquer
advertência.
Além disso, a escola se omitiu de qualquer ação pedagógica que se
remetesse a avaliar sua conduta com relação a sua Educação para sexualidade
tendo em vista seu cotidiano.
Outro aspecto que vale ressaltar é a postura de alguns docentes frente a
esses casos, quando afirmam que “não é necessária uma abordagem acerca de
Sexualidade na escola, pois os alunos conhecem mais dos ‘assuntos’ do que os
próprios professores”, dessa forma os educadores também tentam se esquivar da
responsabilidade de orientar sobre questões tão importantes na formação daqueles
indivíduos como a sexualidade.

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Por outro lado, percebe-se que o fato desta escola estar situada em área
periférica, pode possibilitar que os indivíduos sejam tratados de forma menos
comprometida do que se fossem de outra classe social mais favorecida. Obviamente
estes casos citados podem também acontecer em classes mais altas da sociedade,
porém como as famílias contam com recursos, suportes e infraestruturas,
econômicas, sociais e culturais, favorecem uma possível resolução do problema.
Diante disso, surgiu a curiosidade de compreender como a escola pode
contribuir de forma pedagógica e preventiva para que essas ocorrências sejam
solucionadas da melhor forma possível dentro da escola, sem constrangimento e de
forma educativa.
Sendo assim, pergunta-se: Qual a importância de um Educação para a
Sexualidade na escola? Como os/as professores/as podem desenvolver
metodologias para trabalhar a sexualidade na escola? Como as pesquisas têm
evoluído para a compreensão da sexualidade na escola? Qual o papel da Educação
para a Sexualidade na formação social do indivíduo?
A partir desta perspectiva, este estudo se propôs a uma pesquisa bibliográfica
e documental para compreender a partir dos estudos já realizados e das políticas
públicas como uma Educação para Sexualidade pode contribuir para a formação
social do indivíduo e para o cumprimento do papel da escola.
Para tanto, este estudo teve como objetivo geral analisar as abordagens
teóricas sobre a Educação para a Sexualidade no ambiente escolar a partir de
conceitos sobre a sexualidade e políticas públicas que garantam a inserção desse
tema na escola. Especificamente, buscou-se definir e conceituar sexualidade;
contextualizar a Educação para a Sexualidade a partir da análise de nomenclaturas;
referenciar a importância da abordagem de uma Educação para a Sexualidade no
contexto escolar e na formação docente analisar o marco legal das políticas públicas
que regulamentam a orientação sexual na escola.
Compreende-se que para discutir sobre a sexualidade é preciso desconstruir
algumas concepções culturais, sociais e religiosas. É preciso compreendê-la como
natural e pertencente ao ser humano.

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A escola como ambiente de socialização de jovens e adolescentes, em fases


de desenvolvimento e descobertas sobre as suas sexualidades, é um espaço que
requer preparação e formação para lidar com essas questões, proporcionado o
desenvolvimento do indivíduo de maneira positiva, sendo função do/a professor/a
mediar discussões pertinentes ao tema. Para isso é necessário inicialmente o
interesse por parte da equipe pedagógica em ampliar seus conhecimentos, buscar
formação e desenvolver metodologias para trabalhar a Educação para a
Sexualidade de maneira que os aproximem do mundo e das vivencias dos/as
seus/suas alunos/as. Além disso, é de suma importância que as políticas públicas
sejam efetivadas de forma eficaz.

BASE LEGAL QUE SUSTENTA A EDUCAÇÃO PARA A SEXUALIDADE

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é uma exigência colocada para o


sistema educacional brasileiro, tem a finalidade de orientar os sistemas para uma
elaboração ativa de suas propostas curriculares. A BNCC trata-se de um
documento/proposta política que encontra-se em plena construção. Espera-se que a
BNCC seja um documento normativo, funcionando como referência para que as
escolas e os diferentes sistemas de ensino elaborem seus currículos. Para isso a
BNCC necessita de um trabalho em conjunto com outras políticas e ações, sejam
elas federais, estaduais ou municipais, possibilitando a efetivação de seus objetivos.
Assim, o objetivo da BNCC é o de apontar aquilo que todo o estudante
brasileiro precisa aprender desde a educação infantil até o ensino médio. Para a
BNCC (2016) ”A educação, compreendida como direito humano, individual e
coletivo, habilita para o exercício de outros direitos, e capacita ao pleno exercício da
cidadania.”.
A Constituição Federal é a lei mais importante do país, compreendendo que
todas as outras leis devem ser organizadas a partir dela. Como pode ser observado
o gráfico abaixo:

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Figura 1 - Construção BNCC e Políticas Educacionais.


Extraído de: BNCC, 2016.

Na figura acima pode-se perceber como Constituição Federal teve papel


fundamental para a Base Comum Curricular, por tratar-se de um documento em que
estão inseridos um conjunto de regras, que tem por objetivo organizar a vida de uma
sociedade lhes garantindo direitos e determinados deveres a serem cumpridos.
Em nosso país ela passou a ser instituída no ano de 1988, proporcionando a
garantia de direitos iguais a todas as pessoas sem diferenças de classe, religião,
cor, etnia, identidade de gênero, orientação sexual, ou seja, uma constituição cidadã
que respeita todas as diferenças do povo brasileiro.
De acordo com Constituição Federal (1988) art. 1º o Estado Democrático de
Direito, unido de forma indissolúvel aos Estados, Munícipios e Distrito Federal, tem
como fundamentos “a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os
valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, o pluralismo político”.

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Para garantir todas estas questões citadas anteriormente a Constituição


Federal de 1988 em seu art. 210 assegura que serão fixados conteúdos mínimos
para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e
respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais.
Alguns anos depois a BNCC foi prescrita na Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDBEN) nº 9394/96, que é a lei geral da educação. Ela é
responsável por ditar as diretrizes e as bases da organização do sistema
educacional. Segundo seu art. 26., ensino referente aos currículos da educação
infantil, do fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser
complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar,
por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da
sociedade, da cultura, da economia e dos educandos.
A Educação se constituiu como dever do Estado e direito de todas as
crianças, desde o nascimento, a partir da Constituição Federal (1988) e sua inclusão
nos sistemas de ensino, como primeira etapa da Educação Básica, foi normatizada
pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
A Lei de Diretrizes e Bases (1996), estabelece as diretrizes e bases da
educação nacional, em seu art. 1º entende que a “educação abrange os processos
formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no
trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e
organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”.
Com isso, ela passa a ser discutida em diversos âmbitos sociais e
incorporada ao Plano Nacional da Educação (PNE), que determina as diretrizes, as
metas e as estratégias para serem inseridas na política educacional, promovendo a
garantia das oportunidades educacionais.
O Ministério da Educação trabalha de forma articulada com o PNE,
direcionando seu trabalho aquilo que é orientado pelo PNE. Como foi o caso dos
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), que foram elaborados para difundir o
currículo e orientar os professores na busca de novas abordagens e metodologias.
Eles traçam um novo perfil para o currículo escolar e incentivam os professores a
contextualizarem de maneira interdisciplinar, com os conteúdos transversais.

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Figura 2 - Estrutura dos PCN para ensino fundamental

Na figura acima pode se observar a estrutura dos PCN e como a Orientação


Sexual era prevista neste modelo de organização. Atualmente os PCN estão em
desuso, porém vale citar como proposta inicial oferecida pelo MEC para inserir a
orientação sexual como temas transversais na educação. A partir dele serão
discutidas as questões sociais no currículo escolar, construindo novas ideias e
buscando soluções didáticas para solucionar as dificuldades existentes em nossa
sociedade. Segundo os PCN (1998):
A Orientação Sexual na escola deve ser entendida como um processo de
intervenção pedagógica que tem como objetivo transmitir informações e
problematizar questões relacionadas à sexualidade, incluindo posturas, crenças,
tabus e valores a ela associados. Tal intervenção ocorre em âmbito coletivo,
diferenciando-se de um trabalho individual, de cunho psicoterapêutico e enfocando
as dimensões sociológica, psicológica e fisiológica da sexualidade. Diferencia-se
também da educação realizada pela família, pois possibilita a discussão de

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diferentes pontos de vista associados à sexualidade, sem a imposição de


determinados valores sobre outros. (PCN, 1998, p. 38)
Os PCN foi elaborado visando a qualificação do ensino fundamental de nosso
país, alguns anos depois ocorreu a Conferencia Nacional de Educação (Conae)
evento que visava discutir a implementação do Plano Nacional de Educação (PNE) e
sua articulação no sistema nacional de educação, o resultado final do Conae foi um
documento que contribuirá para a construção de políticas para a educação nacional,
que de maneira articulada irão garantir a efetivação do direito social à educação,
como qualidade para todos.
Esse documento é a Base Nacional Comum da Educação que pretende
assegurar que todo/a estudante brasileiro/a, em todas as regiões do país, tenham a
garantia do acesso à aprendizagem de conhecimentos fundamentais, promovendo
equidade e maior coerência em todo o sistema educacional.
Nela é garantido aos/as alunos/as direitos a aprendizagem e ao
desenvolvimento que se afirmam em relação aos princípios éticos, De acordo com a
Base Nacional Comum Curricular (2016, p. 34) crianças, jovens e adultos tem direito,
ao respeito e ao acolhimento na sua diversidade, sem preconceitos de origem, etnia,
gênero, orientação sexual, idade, convicção religiosa ou quaisquer outras formas de
discriminação, bem como terem valorizados seus saberes, identidades, culturas e
potencialidades, reconhecendo-se como parte de uma coletividade com a qual
devem se comprometer;
A BNCC (2016) defende a ampliação dos conhecimentos conceituais,
defendendo a importância de que os/as jovens sejam bem informados, para que
saibam se posicionar e tomar decisões acerca das questões que surgem no mundo
atual. Garantem os conhecimentos referentes as diversas áreas, traçando objetivos
e métodos próprios para cada disciplina, dentre eles, a sexualidade ampliando a sua
inserção no currículo das escolas, aproximando os/as jovens de forma adequada
acerca dessas discussões.

ACERCA DO CONCEITO DE SEXUALIDADE

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Sexo e sexualidade

Dificilmente irá se encontrar um significado único para o termo sexualidade,


sua definição está além do nosso corpo, para uma compreensão mais profunda da
sexualidade humana é preciso definir a sua
constituição, o seu “ser”.
Figueiró (2009) declara que para se compreender a
Sexualidade é necessário ter clareza sobre a
diferença do sexo e da sexualidade. O primeiro está
relacionado diretamente ao ato sexual e à satisfação
da necessidade biológica de obter prazer sexual,
necessidade essa que todo ser humano traz consigo
desde que nasce. Sexualidade, por sua vez, inclui o
sexo, a afetividade, o carinho, o prazer, o amor ou o
sentimento mútuo do bem querer, os gestos, a
comunicação, o toque e a intimidade.
Conforme o dicionário Kury (2010) sexo é a diferença física ou conformação
especial que distingue o macho da fêmea, os órgãos genitais externos, ou seja, é o
conjunto de características fisiológicas. Para Jesus (2008, p. 34):
O sexo genético estabelecido na fecundação determinará a ação dos
hormônios que promoverão a diferenciação e o desenvolvimento da genitália, tanto
interna quanto externamente, bem como as características sexuais secundárias
(pelos pubianos, barba ou mama, entre outras). Podemos afirmar então que
nenhum/a de nós nasce de fato homem ou mulher, mas que, estritamente do ponto
de vista da biologia, somos machos ou fêmeas. E nisso somos semelhantes às
plantas e aos animais.
Assim sendo, o sexo é uma expressão biológica que define um conjunto de
características anatômicas e funcionais (genitais e extragenitais), enquanto a
sexualidade é entendida de forma bem mais ampla.
Para Chauí (1984), “a sexualidade é polimorfa, polivalente, ultrapassa a
necessidade fisiológica e tem a ver com a simbolização do desejo. Não se reduz aos

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órgãos genitais”. A sexualidade é algo desenvolvido pelo ser humano e permeia


todas as fases de sua existência, ela é a própria vida.
A sexualidade é um fenômeno amplo que se constrói, é a parte integrante do
desenvolvimento da personalidade, onde tudo é relativo e se manifesta de maneira
intrínseca. Na adolescência as experiências com a sexualidade acontecem de forma
intensa, inclusive decorrente da mudança no corpo físico, hormonal e nas relações
sociais.
Em relação à puberdade, as mudanças físicas incluem alterações hormonais
que, muitas vezes, provocam estados de excitação difíceis de controlar, intensifica-
se a atividade masturbatória e instala-se a genitalidade. É a fase de novas
descobertas e novas experimentações, podendo ocorrer as explorações da atração
e das fantasias sexuais com pessoas do mesmo sexo e do outro sexo. A
experimentação dos vínculos tem relação com a rapidez e a intensidade da
formação e da separação de pares amorosos entre os adolescentes. (PCN, 1997, p.
296)
Por isso, durante a adolescência a sexualidade torna-se mais evidente,
segundo Zimerman (1997) a etimologia da palavra adolescência é composta pelos
prefixos latinos ad (para frente) e dolescere (crescer com dores), possibilitando a
compreensão deste período confuso, caracterizado pelo conjunto de transformações
psicofisiológicas, onde surgem as primeiras descobertas sexuais.
Na adolescência o sujeito manifesta suas características sexuais, através do
desenvolvimento de sua maturação, iniciando a preparação para vida sexual, é uma
fase típica do desenvolvimento humano, porém não é reconhecida ou não recebe
grande destaque em todas as culturas e sociedades.
Cada sociedade tem sua forma diferenciada de conceber esta etapa da vida.
Para a Organização Mundial de Saúde (OMS) a adolescência é o período
compreendido entre 10 e 19 anos de idade. No caso brasileiro desde a Constituição
Federal de 1988 os adolescentes passaram a ter prioridade sendo considerados
legalmente como sujeitos de direitos em fase de desenvolvimento. Em 1990 foi
aprovado sob a Lei 8.069/90 o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

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reafirmando os seus direitos formalmente. De acordo com este documento,


adolescente é a pessoa que tem entre 12 e 18 anos de idade.
A humanidade tem atribuído conceitos para explicar a sexualidade, através de
contextos históricos, biológicos e culturais vivenciados em diferentes períodos.
Esses diferentes conceitos funcionam como norteadores nas relações, bem como
afirma Foucault (2009), “a sexualidade é uma interação social, uma vez que constitui
historicamente a partir de múltiplos discursos sobre sexo, discursos que regulam,
que normatizam e instauram saberes que produzem verdades”.
O ser humano vive em um ambiente “sexualizado” e os discursos sobre a
sexualidade tecem todos os domínios da vida cotidiana, ainda para Foucault (2009)
a sexualidade é compreendida como sendo um produto das relações de poder
existentes entre homem e mulher, pais e filhos, professores e alunos etc.
Jesus (2008) concorda que em função de nossa natureza biológica,
nascemos “machos” ou “fêmeas”, o que é simbolizado pelo fato de chegarmos ao
mundo com uma vagina ou um pênis.
O diálogo acerca do sexo, precisam se expandir, ser posto em evidência.
Para Foucault (2009), a liberdade de se expressar sexualmente pode demorar a se
manifestar, por meio de algum tipo de repressão ou por respeito ao poder reprimido.
O sexo não se julga, apenas administra-se, isto é, o sexo é uma historicidade,
que foi modificando-se com o passar dos séculos, e não nos cabe julgá-lo, apenas
administrá-lo, educa-lo perante a nossa sociedade capitalista (FOUCALT, 2009, p.
10).
Durante muito tempo vigorou a crença de que a sexualidade de homens e
mulheres já estava totalmente programada antes mesmo do nascimento, entretanto
a partir da década de 1960, com a revolução sexual houve uma reviravolta de
costumes, com a descoberta da pílula anticoncepcional, já é possível praticar sexo
sem engravidar.
A partir surgiram novas discussões, dentre elas a busca da compreensão da
identidade de gênero e da diversidade sexual. Que determinam um processo
complexo de cada pessoa.

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A identidade de gênero se estabelece a partir de um processo dinâmico e


complexo, que envolve aspectos genéticos, culturais e sociais, no qual as pessoas
passam a se identificar com o masculino ou o feminino, não importando o seu sexo
biológico. Uma pessoa nascida com o sexo masculino ou feminino pode formar uma
identidade feminina ou masculina. (JESUS, 2008, p.17).
A identidade de gênero é, portanto, a maneira do individuo se sentir e se
apresentar para si e para os outros, sem possuir qualquer conexão com o sexo
biológico.
Com isso, muda-se o pensamento de que a sexualidade estaria meramente
ligada a reprodução sexual. Cruz (2010) define que o conceito de sexualidade é
muito mais amplo do que reprodução, é como uma dimensão da vivência humana
que sofre grandes alterações ao longo dos anos. É fonte de comunicação, troca de
afeto e de prazer é forma de expressão da afetividade.
Sexualidade é uma característica geral experimentada por todo o ser humano
e não necessita de relação exacerbada com o sexo, uma vez que se define pela
busca de prazeres, sendo estes não apenas os explicitamente sexuais.

ORIENTAÇÃO SEXUAL X EDUCAÇÃO SEXUAL

Uma contextualização acerca das nomenclaturas Orientação e Educação,


ambos os termos são utilizados atualmente para se especificar as abordagens da
temática sexualidade em sala de aula, porém compreende-se o significado mais
amplo dessas expressões orientação/educação sexual.

Contextualização da orientação sexual e educação sexual

No Brasil, a inserção da educação sexual na escola operou-se nos anos 20 e


30, a partir de um deslocamento no campo discursivo sobre a sexualidade de
crianças e adolescentes, os problemas de “desvios sexuais” deixam de ser
percebidos como crime para serem concebidos como doenças. A escola passa a ser
tida como um espaço de intervenção preventiva, transmitindo a importância da

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higiene, devendo cuidar da sexualidade de crianças e adolescentes a fim de produzir


comportamentos “normais”.
Altmann (2001) esclarece que a educação sexual não surge na escola a partir
dos PCNs. Todavia, este tema é inserido na escola dentro de um contexto histórico
e demandas atuais, sendo reinscrito como orientação sexual na escola, este que por
sua vez trabalha a temática da sexualidade de maneira mais aberta e flexível.
Leôncio (2013) considera a educação sexual informal realizada no meio
familiar, que reproduz nos jovens os padrões, valores morais e éticos dominantes na
sociedade. A educação sexual, consiste num processo de socialização em que as
pessoas transmitem a cultura sexual às novas gerações com o objetivo de integrá-
las ao contexto cultural de seu grupo.
Para Vitiello (1997) a Orientação Sexual implica em um mecanismo mais
elaborado segundo o qual, baseando-se na experiência e nos seus conhecimentos,
o orientador ajuda a analisar diferentes opções, tornando os indivíduos aptos a
descobrir novos caminhos.
A orientação sexual dentro dos PCN aborda três eixos fundamentais que
auxiliam na intervenção dos professores: O corpo como matriz da sexualidade,
propiciando o conhecimento e o respeito ao próprio corpo; as discussões sobre
gênero e o trabalho de prevenção as doenças.
É importante ressaltar que cabe à família viabilizar o conhecimento acerca do
tema sexualidade aos seus filhos, por meio de informações adequadas, permeadas
pelo diálogo; contudo, não é o que se verifica na maioria das famílias, às vezes o
assunto não é tratado em casa, nem na escola e as crianças e adolescentes tomam
conhecimento da sexualidade de forma irresponsável.
Partindo desse pressuposto compreende-se que a Família está envolvida
neste processo desde a concepção e deve iniciar o processo de educação sexual
desde o nascimento da criança. Sendo, então, de responsabilidade primária da
família a processo de educação sexual, devendo depois ser articulado com a escola
e assessorado por esta, já que por ter a função de formadora, a escola deveria
saber como continuar esta educação sexual da forma a desenvolver um indivíduo
saudável.

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Através de estudos acerca da conceituação das terminologias adotadas no


espaço acadêmico Figueiró (1996) define os termos educação/orientação sexual
como sinônimos na construção de uma linguagem comum de conceitos teóricos.
O termo usado, não interfere se é educação ou orientação sexual, para Jesus
(2008) independente do termo usado, educação ou orientação sexual, a ação
poderá ser a mesma, caso a postura do educador e seus objetivos sejam os
mesmos, ou seja, se a pessoa for vista como sujeito, livre para pensar, sentir e agir
frente aos novos conhecimentos, durante as ações educativas.
Sabe-se também que atualmente o termo Orientação Sexual é utilizado
também para especificar o sentimento de atração afetiva ou sexual que pode existir
entre uma ou várias pessoas, podendo este sentimento ser expressado pelo sexo
oposto, pelo mesmo sexo ou por ambos os sexos.
Porém neste trabalho preferiu-se a utilização do termo Educação para a
Sexualidade por conter uma série de requisitos que garantem de maneira clara e
objetiva a inserção da temática de sexualidade nas escolas, proporcionando aos/as
alunos/alunas um conjunto de informações referentes a cada indivíduo,
reconhecendo as diferenças e propondo discussões livres, ou seja, um processo
espontâneo que reproduz valores e respeito a sexualidade.

EDUCAÇÃO PARA A SEXUALIDADE: PORQUE UMA ABORDAGEM


NECESSARIA?

Este estudo trata de forma geral de uma análise sobre a importância do


processo de inserção de uma Educação para a Sexualidade nas escolas brasileiras
a e de se trabalhar o tema da Sexualidade no contexto escolar, ressaltando o papel
da escola e a importância da capacitação e formação docente.

A importância da Educação para a Sexualidade na escola

A Educação para a Sexualidade no Brasil surge através do combate à


masturbação e as doenças venéreas. Em 1928 a aprovação da proposta de

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educação sexual nas escolas pelo Congresso Nacional foi significativa, porém com a
interferência da Igreja, sua efetivação não foi possível.
Segundo Souza (2002), nos primeiros anos da década de 1960, antes da
Ditadura militar, o Brasil vivia um clima de renovação pedagógica e foi justamente
nesse período que o tema da Educação para a Sexualidade retornou para o discurso
pedagógico.
Logo mais com o aparecimento da ditadura militar se iniciou um regime de
controle de mobilização dos costumes, a educação sexual foi de fato banida, se
extinguindo discussões pedagógicas sobre sexualidade nas escolas. Todavia, entre
as décadas de 1970 e 1980 através de lutas contra a ditadura, pela
redemocratização do país e os movimentos sobre os direitos das mulheres,
conseguiram burlar o controle e a educação sexual foi tomada como um dos marcos
educacionais.
Foucault (2009) ressalta que a educação do sexo sempre esteve presente
nas escolas brasileiras, ora “proibida” e “ameaçada”, como no período da ditadura
militar brasileira, ora nomeada nos currículos e diretrizes curriculares.
Após todas essas lutas e transformações sofridas em nossa sociedade,
atualmente a Educação para a Sexualidade nas escolas é considerada um processo
educativo onde os conhecimentos e experiências referentes a temas de sexualidade,
são transmitidos formalmente. Maio (2012) diz que a escola possui a função social e
que é um espaço privilegiado para a apresentação dos saberes universais. Na
escola ocorre cotidianamente cenas, eventos, gestos, palavras, conversas,
referentes à sexualidade em todos os níveis educativos. A sexualidade é algo
inerente à saúde e a vida, que se expressa desde muito cedo no ser humano.
No cotidiano da sala de aula surgem frequentemente questões relacionadas
sobre sexualidade, nesse sentido, cabe a escola ofertar um espaço em que possam
ser esclarecidas suas dúvidas e desmistificar os tabus que envolvem o tema da
sexualidade.
A escola deve informar e discutir os diferentes tabus e preconceitos,
desconstruindo as crenças e atitudes existentes na sociedade, buscando levar o
aprimoramento das concepções de sexualidade.

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A sexualidade é um dos temas mais abordados em nosso meio social, para


Pinto (1999), no período atual não se faz mais sentido lidar com sexualidade de
forma velada; "se queremos um mundo mais maduro e esclarecido, não se pode dar
preferência ao implícito em detrimento da explicitação das questões relativas à
sexualidade".
A escola é um ambiente social, rodeado por questões polêmicas e atuais. Seu
principal proposito deve ser o de orientar e esclarecer as dúvidas, de maneira
natural e imparcial. Não é função da escola ditar regras e tão pouco interferir na
atitude de seus alunos.
Abordar a educação sexual na escola para Figueiró (2004, p. 38 apud MAIO
2012, p. 216) ainda é um processo difícil e que ocupa:
Posição marginal na qual esteve e ainda está colocada a educação sexual, e
tem sido caracterizada por diversas formas: 1) Não é considerada uma questão
prioritária na educação escolar; 2) Não é colocada em prática na maioria das
escolas brasileiras; 3) É praticada em um número restrito de escolas, por iniciativa
de alguns professores isoladamente; 4) É praticada em algumas escolas de rede
pública, por iniciativa, principalmente, de órgãos oficiais da educação ou da saúde,
as quais, depois de um pequeno número de anos, interrompem o apoio efetivo; 5) É
criticada por uma parcela pequena, porém efetivamente significativa de professores
e elementos da comunidade como um trabalho não da escola, mas da família.
Educar sexualmente significa oferecer aos diferentes indivíduos condições
para conhecerem e assumirem sua sexualidade e seu corpo de maneira positiva,
livres de preconceitos, culpas, vergonha e medo. Atualmente são vistos casos
frequentes de dominação da heteronormatividade, esse tipo de conduta pode causar
sérios danos emocionais a vida dos/as alunos/as não heterossexuais. O discurso
promove a humilhação e a violência.
Consentida e ensinada na escola, a homofobia expressa-se pelo desprezo,
pelo afastamento, pela imposição do ridículo. Como se a homossexualidade fosse
“contagiosa” cria-se uma grande resistência em demonstrar simpatia para com os
sujeitos homossexuais: a aproximação pode ser interpretada como uma adesão a tal
prática ou identidade”. (LOURO, 2010, p.29).

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Educação, gêneros
e sexualidade

Segundo Gonçalves (2010), em nossa sociedade, a sexualidade não tem sido


explorada e/ou dialogada de modo que as pessoas sejam educadas a conhece-la e
aprender que o seu exercício não é feio e pecaminoso, culminando, nesse sentido,
em uma deseducação sexual.
Conforme Rangé (2001), a falta de informação sexual, as distorções dos
ensinamentos (seja por preceitos religiosos ou sociais) ou a estimulação excessiva
podem determinar os mais variados distúrbios na atividade sexual. A ausência do
diálogo sobre o assunto desencadeia em uma situação de risco para o indivíduo,
como uma gravidez indesejada, contagio por doenças sexualmente transmissíveis,
traumas emocionais e psicológicos que são resultado de experiências sexuais
frustrantes.
Corresponde a família e a escola a responsabilidade pela formação do
indivíduo, cabe a ambos possibilitar uma educação emancipatória e sadia,
promovendo a autonomia, o desenvolvimento crítico em entender seu próprio
comportamento e o do outro, ressaltando a valorização da vida e o respeito mutuo
aos demais.
É importante que a Educação para a Sexualidade se inicie em casa e tenha
sua continuidade na escola, pois é na escola onde serão repassadas as informações
reais e condizentes com o cotidiano. De acordo com PCN (1998), a escola possibilita
discussões de diferentes pontos de vista associados à sexualidade, sem a
imposição de determinados valores sobre outros.
Caberá à escola trabalhar o respeito às diferenças a partir da sua própria
atitude de respeitar as diferenças expressas pelas famílias. A única exceção refere-
se às situações em que haja violação dos direitos das crianças e dos jovens. Nesses
casos específicos, cabe à escola posicionar-se a fim de garantir a integridade básica
de seus alunos — por exemplo, as situações de violência sexual contra crianças por
parte de familiares devem ser comunicadas ao Conselho Tutelar (que poderá manter
o anonimato do denunciante) ou autoridade correspondente. (PCN, 1998, p. 305).
Para Figueró (2009) o contexto escolar desempenha um papel importante na
orientação dos/as estudantes, porém, existem instituições que reprimem certos

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Educação, gêneros
e sexualidade

comportamentos dos jovens e que nem sempre os/as educadores/as enfrentam com
serenidade e com tato necessário, brincadeiras e comportamentos de ordem sexual.
A Orientação Sexual na escola deve ser entendida como um processo de
intervenção pedagógica que tem como objetivo transmitir informações e
problematizar questões relacionadas à sexualidade, incluindo posturas, crenças,
tabus e valores a ela associados. Tal intervenção ocorre m âmbito coletivo,
diferenciando-se de um trabalho individual, de cunho psicoterapêutico e enfocando
as dimensões sociológica, psicológica e fisiológica da sexualidade. (PCN, 1998, p.
34)
Segundo Foucault (2009) o final do século XVIII foi marcado com o
nascimento de novas tecnologias do sexo, com isso, o sexo deixou de ser uma
questão leiga, por meio da pedagogia, da medicina e da economia, passou a fazer
parte do Estado. Naquele período a sexualidade se desenvolvia ao longo de três
eixos, dentre eles o da pedagogia, tendo como objetivo a sexualidade da criança; o
da medicina, com a fisiologia das mulheres e, por fim, a demografia, com o objetivo
da regulação espontânea ou planejada dos nascimentos.
A escola sofre mudanças de acordo com os momentos históricos. As
constantes mudanças sociais ocorridas no mundo indicam que a escola deve
contemplar as exigências impostas pelas novas demandas da sociedade.
Atualmente, as escolas vivenciam diversas transformações e desafios que pedem
práticas educativas inovadoras e um trabalho coletivo.
O tema da Educação Sexualidade é abrangente que acompanha os diferentes
contextos históricos, ela nos remete a busca de diferentes perspectivas, além de
auxiliar na construção de ideias acerca da questão sexual. Assim inserir a Educação
para a Sexualidade na escola é importante para sanar todos os problemas já citados
anteriormente que o/a aluno/a adquire devido a falta de informação, ocasionando a
desmistificação de tabus de maneira responsável, possibilitando o conhecimento de
seu próprio corpo, gozar de sua sexualidade e respeitar a sexualidade do outro
respeitando as diferenças.

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Educação, gêneros
e sexualidade

O papel do/a professor/a na Educação para a Sexualidade

O MEC cria os Parâmetros Curriculares Nacionais – Temas Transversais,


Pluralidade Cultural e Orientação Sexual no ano de 1997, visando auxiliar os/as
educadores/as para uma educação sexual nas escolas, capaz de instruir crianças e
jovens sobre os sentimentos e as reações do corpo, dando-lhes condições para
obter uma vida adulta saudável e satisfatória.
Discutir a temática de sexualidade nas escolas gera ainda um certo receio por
parte dos educadores, percebeu-se que a maioria das práticas escolares foca nas
questões técnicas, abordando temas relacionados a assuntos biológicos e
reprodutivos. Segundo Abramovay (2004), “A conversa informal é uma das medidas
adotadas por algumas escolas, em outras, sexualidade é tema principalmente
tratado nas aulas de ciências, associando-se essa pulsão à constituição do corpo
humano”.
Para Figueró (2009) os professores seriam as pessoas mais indicadas para
tratar desses assuntos, por terem mais facilidade de propor debates e diálogos,
permitindo que os exponham seus sentimentos, dúvidas e ansiedades. Mais do que
falar sobre sexualidade, o foco da Educação para a Sexualidade quando inserida na
escola deve ser de discutir e interagir os diferentes saberes, abordar questões

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Educação, gêneros
e sexualidade

relacionadas ao tema, diferenciando-se da educação oferecida pela família, pois


possibilita uma visão crítica, sem a imposição de determinados valores,
preconceitos, informações erradas e tabus.
A educação sexual quando ministrada nas escolas possibilita aos alunos
desenvolverem atitudes coerentes, conhecerem sua própria sexualidade e eleger
valores através de seu próprio entendimento. Formando indivíduos críticos e
conhecedores de sua sexualidade.
Para se inserir a educação sexual nas escolas, precisará de cautela e muita
segurança, pois é um assunto difícil, delicado e polêmico. É um processo que ainda
está em luta, começando pela formação dos professores que vão trabalhar com esta
temática, que terão que lidar com dúvidas, preconceitos, brincadeiras e
questionamentos. Maio (2012) afirma que, para se trabalhar a orientação sexual no
ambiente escolar de maneira satisfatória ainda terá que se percorrer um longo
caminho para que se faça presente um projeto pedagógico coerente e adequado.
Os professores também precisam estar atentos às diferentes formas de
expressão dos alunos. Muitas vezes a repetição de brincadeiras, paródias de
músicas ou apelidos alusivos à sexualidade podem significar uma necessidade não
verbalizada de discussão e de compreensão de algum tema. Deve-se então
satisfazer a essa necessidade. (PCN, 1997, p.303)
No trabalho com crianças, é pertinente os conteúdos favorecerem a
compreensão de que o ato sexual é uma manifestação relacionada à sexualidade de
jovens e de adultos, não de crianças. Normalmente jogos sexuais infantis têm
caráter exploratório, de autoconhecimento.
Os Parâmetro Curriculares Nacionais (1997, p. 303) ressaltam que: Com
relação às brincadeiras a dois ou em grupo que remetam à sexualidade, é
importante que o professor afirme como princípios a necessidade do consentimento
e a aprovação sem constrangimento por parte dos envolvidos. Para a prevenção do
abuso sexual, é igualmente importante o esclarecimento de que essas brincadeiras
em grupo ou a dois são prejudiciais quando envolvem crianças ou jovens de idades
muito diferentes, ou quando são realizadas entre adultos e crianças. Além disso, os

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e sexualidade

alunos devem saber que podem procurar ajuda de um adulto de sua confiança, no
caso de serem envolvidos em situação de abuso.
No processo educacional o/a professor/a permite a busca de conhecimento
do/a aluno/a e entrega os seus conhecimentos, permitindo simbolizar, guardar,
mostrar e ressignificar seus conhecimentos. Juntos eles constroem a aprendizagem.
E para que esta aprendizagem ocorra o/a professor/a deve ter algumas
características, tais como: ser bem informado, respeitar o/a aluno, transmitir
confiança, ser aberto ao diálogo, entre outros. O processo de orientação sexual deve
estar inserido na escola, e realizada por docentes, esses profissionais devem ser
dinâmicos, multiculturais e reflexivos. É necessária sua constante busca pelo saber,
para o desenvolvimento de suas práticas pedagógicas e a aquisição de novos
conceitos, não é permitido ao professor emitir opiniões pessoais.
Os professores (e as demais pessoas), mesmo sem perceber, transmitem
valores com relação à sexualidade no seu trabalho cotidiano, inclusive na forma de
responder ou não às questões mais simples trazidas pelos alunos. Por exemplo, se
um professor disser que uma relação sexual é apenas a que acontece entre um
homem e uma mulher após o casamento para ter filhos, estará afirmando valores
específicos: sexo heterossexual após o casamento, com o objetivo da procriação.
(PCN, 1998, p. 302).
De acordo como os PCN (1998), os professores precisam desenvolver-se
como profissionais e como sujeitos críticos na realidade em que estão, isto é,
precisam poder situar-se como educadores e cidadãos, e, como tais, participantes
do processo de construção da cidadania, de reconhecimento de seus direitos e
deveres, de valorização profissional.
O professor não pode abordar a orientação sexual de forma aleatória, sem um
objetivo educacional. Independente da área de formação deve contribuir para que
suas abordagens sejam positivas no que se refere ao desenvolvimento da
sexualidade de seu alunado. Para Suplicy (1999), o objetivo da educação sexual na
escola consiste em colocar professores com um preparo adequado para ajudar os
educandos a superarem suas dúvidas, ansiedades e angústias em relação à
temática.

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Educação, gêneros
e sexualidade

A sexualidade envolve pessoas e, consequentemente, sentimentos, que


precisam ser percebidos e respeitados. Quando bem estruturada e planejada, a
orientação sexual na escola desencadeia para uma formação equilibrada e sadia
dos/as alunos/as em relação a sua própria sexualidade, formando sujeitos
competentes e capazes de solucionar seus conflitos individuais.
Dessa maneira, o processo de Educação para a Sexualidade dentro da
escola, é uma estratégia de ensino e aprendizagem que tem por objetivo vincular a
teoria e a prática, provocando a necessidade de desenvolver um trabalho em
conjunto com o educando e o educador/a, incluindo a temática da sexualidade como
um caminho para a formação da cidadania.
Silva (2004) defende que deve-se fazer críticas de que estabelecido buscando
novas compreensões. Só assim os/as educadores/as serão capazes de proporcionar
uma educação globalizante e que emancipe os indivíduos. Estimulando-os a
fazerem uma reflexão em torno de sua própria sexualidade para que tenham
autonomia para efetuarem suas escolhas.
A impressão é que os adolescentes, ainda não bem seguros na vivência de
sua própria sexualidade, costumam confundir ou não ter bem diferenciado o que é
desejo sexual, prazer, fertilidade e prevenção. A sensação ate então desconhecidas
e o pouco espaço propiciado aos jovens para discutir abertamente as questões
ligadas à sexualidade, facilitam para que encontrem no plano imaginário a saída
para as dificuldades com que se defrontam. (FERREIRA, 2000 apud SILVA, 2004,
p.15).
Os PCN (1998), afirmam que as manifestações sobre a sexualidade surgem
em todas as faixas etárias; ignorar, ocultar ou reprimir são as respostas mais
habituais dadas pelos profissionais da escola e tais práticas se fundamentam no
conceito de que o tema deva ser tratado exclusivamente pela família. De fato, cabe
à família realizar a educação sexual dos/as filhos/as, por meio de informações
adequadas, permeadas pelo diálogo; contudo, não é o que se verifica na maioria das
famílias; o assunto não é tratado em casa, nem na escola e as crianças e
adolescentes tomam conhecimento da sexualidade de forma deturpada e

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e sexualidade

irresponsável. Dessa forma, o trabalho o profissional da educação deve ser ético e


isento de preconceitos.
É necessário considerar a totalidade das relações, com o propósito de
compreender a realidade social entendendo seus significados, os atos, as
expressões das pessoas. O/a professor/a deve estar sempre atento aos
acontecimentos cotidianos, buscando sempre se atualizar para acompanhar a
evolução da sociedade. Desta forma poderá desenvolver projetos políticos e intervir
na realidade social de forma efetiva.

EDUCAÇÃO SEXUAL: COMO ENSINAR NO ESPAÇO DA ESCOLA

A Educação Sexual vem sendo reconhecida, pela maioria dos professores,


como necessária e importante no processo formativo dos alunos. Muitos deles se
preocupam e se sentem, em vários momentos, inseguros e até temerosos, diante
dessa tarefa. Sabemos que todo o processo formativo dos professores, tanto no
Magistério, quanto nas licenciaturas, não os tem preparado para abordar a questão
da sexualidade no espaço da escola. Portanto, é compreensível o sentimento de
insegurança e a preocupação.
Qual seria o papel do professor que se dispõe a falar sobre sexualidade no
espaço da escola? Alguns pais se preocupam, justamente, por temer que os
professores passem, para seus filhos, os valores que eles, professores, defendem.

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Educação, gêneros
e sexualidade

Assim, por exemplo, pais conservadores, que defendem a virgindade até o


casamento (para as filhas, na maioria das vezes), temem que professores possam
pregar valores divergentes, incentivando, no caso, o sexo antes do casamento. O
contrário também pode acontecer, ou seja, pais que pretendem que seus filhos
sejam livres para decidir, com responsabilidade, sobre sua vida sexual, temem que
professores conservadores venham lhes incutir ideias de pecado. Teriam direito, os
professores, de influenciar seus alunos com seus valores pessoais sobre o que
consideram certo ou errado? Certamente não; cabe a eles criar oportunidades várias
de reflexão, para que os alunos pensem e discutam com os colegas, a fim de que
formem sua própria opinião sobre sexo pré-matrimonial, masturbação,
homossexualidade e aborto, entre outros. Cabe também ao professor fazer com que
os alunos tenham acesso a informações claras, objetivas e científicas sobre a
sexualidade.
Inicialmente, é preciso que tenhamos clareza sobre o significado do sexo e da
sexualidade. O primeiro está relacionado diretamente ao ato sexual e à satisfação
da necessidade biológica de obter prazer sexual, necessidade essa que todo ser
humano, seja normal ou com necessidades educacionais especiais, traz consigo
desde que nasce. Sexualidade, por sua vez, inclui o sexo, a afetividade, o carinho, o
prazer, o amor ou o sentimento mútuo de bem querer, os gestos, a comunicação, o
toque e a intimidade. Inclui, também, os valores e as normas morais que cada
cultura elabora sobre o comportamento sexual. Apesar da abrangência maior da
sexualidade, merecem ser devidamente considerados o papel e o valor do sexo;
para isso, recorro a Machado (1995) que o define como “um modo de as pessoas se
encontrarem e fazerem deste encontro um momento muito agradável e prazeroso,
cheio de atos carinhosos e tornando as pessoas muito íntimas e ligadas entre si.”
(op. cit., p. 60)
Atualmente, muitas são as publicações com a finalidade exclusiva de propor
técnicas de ensino da sexualidade e este texto não pretende esgotar os modelos
existentes, mas apresentar um apanhado geral das várias possibilidades, para
pensá-las a partir do contexto da escola inclusiva, buscando a reflexão dos

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e sexualidade

elementos norteadores fundamentais na seleção de uma dada estratégia, bem como


de alguns princípios que devem anteceder a própria busca por estratégias.

METODOLOGIA DE ENSINO DA SEXUALIDADE

Conforme já é sabido pelos professores,


segundo os PCNs, a Educação Sexual deve
ser inserida como um tema transversal, ou
seja, como um assunto ministrado no interior
das várias áreas de conhecimento,
perpassando cada uma delas. Assim, ela
pode ser ensinada nas aulas de Língua
Portuguesa, História, Geografia, Matemática,
Ciências Naturais, Arte, Educação Física e Língua Estrangeira. Importante relembrar
todo o conjunto dos temas transversais, que envolvem ética, educação ambiental,
“orientação sexual”, pluralidade cultural, saúde e trabalho e consumo.
De acordo com a proposta dos PCNs, a Educação Sexual, pode ser incluída
do 1º ao 9º ano, de duas formas:
a) “dentro da programação”: o conteúdo de sexualidade proposto é
organizado, planejado e dividido entre os professores de cada série. Pode ser que,
numa série, sejam os professores de Português, História e Ciências que se
considerem capazes e queiram ensinar sobre sexualidade e, assim, ensinarão o
conteúdo dentro de suas próprias aulas. Em outra série, pode ser a professora de
Matemática e a de Educação Física, por exemplo. Quando a professora é a única da
sala, como acontece nas séries iniciais, necessita organizar-se para ensinar os
conteúdos estipulados dentro de algumas áreas de conhecimento, nas quais houver
condições de inserir.
b) como “extra-programação”: todo e qualquer professor, sem
planejamento prévio, aproveita uma situação, um fato que acontece
espontaneamente, para, a partir daí, ensinar sobre sexualidade, ou transmitir uma

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e sexualidade

mensagem positiva sobre a mesma; aproveita, enfim, para educar sexualmente.


(BRASIL, 1998 e 2000)
Além das duas formas de fazer a transversalidade, de acordo com os PCNs,
cada escola poderá criar, de 6º ao 9º ano, espaço e horário próprios para que os
alunos tenham, semanal ou quinzenalmente, por exemplo, aula específica de
Educação Sexual. Pode ser dentro do horário regular, ou em horário extra, ou seja,
num período no qual os alunos não tenham aula. Em cada escola, os profissionais
analisarão qual a melhor forma de trabalhar e quais professores poderão
comprometer-se com o ensino planejado da sexualidade.
Se os professores levarem a sério os novos Parâmetros, com certeza, têm
como trabalhar todas as propostas dos temas transversais, além do conteúdo da
própria disciplina. Porque “casa”. Não precisa nem você buscar muita coisa! A
própria disciplina traz o tema para a sala. (FIGUEIRÓ, 2001b, p.47)
As duas formas de se ensinar sobre sexualidade, propostas pelos PCNs,
correspondem aos dois tipos de Educação Sexual estabelecidos por Werebe (1981):
a Educação Sexual formal, que equivale a ensinar “dentro da programação”, fazendo
planejamento prévio e a Educação Sexual informal, que equivale à “extra-
programação”, isto é, aproveitar, de forma espontânea, um fato, uma pergunta, uma
situação ocorrida e, ensinar a partir daí.
Diante da instrução de alguns estudiosos da Educação Sexual de que só se
deve responder ao que a criança pergunta,
satisfazendo a curiosidade do momento,
afirmando que, não basta responder, é preciso
conversar. Portanto, uma pergunta feita por uma
criança pode ser uma “porta” para um bom e
proveitoso bate-papo sobre sexualidade.
Observe que nos exercícios dos livros
didáticos não se encontra nenhuma palavra ligada à sexualidade. Não é por acaso
que isso acontece. Poderiam constar, por exemplo, palavras como: espermatozoide,
menstruação, óvulo, útero, cesariana e assim por diante. Poderiam estar contidas
nos grupos de palavras em que se pede ao aluno para separar as sílabas, procurar

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e sexualidade

palavras no dicionário, formar frases com um conjunto de palavras, etc. Seria um


meio de instigar os alunos a perguntarem; seria criar oportunidades para conversar
sobre o assunto. Seria, também, uma forma de mostrar aos alunos que os adultos
consideram estas palavras tão naturais como as outras de nosso vocabulário. Mas a
verdade é que a maioria não consegue encarar assim.
Vitiello (1997) sugere a dinâmica da “dessensibilização pela palavra”, que
consiste, justamente, em criar oportunidades para que os educandos pronunciem,
em situação de grupo, as terminologias científicas e, em especial, os apelidos
ligados aos órgãos sexuais, assim como todas as palavras que têm a ver com sexo.
Na sequência dessa dinâmica, é importante dar espaço para que cada um possa
refletir e falar sobre os sentimentos que as palavras mobilizaram durante exercício
ou vem mobilizando em sua vida cotidiana. Pode ser funcional com educandos das
várias faixas etárias, assim como com professores em situação de formação.
Isso desmistifica e parece diminuir a ansiedade e o interesse em ficar usando
termos “pesados”, muitas vezes, para provocar a professora. Outros autores, como
Guirado (1997) e Paiva (2000), apoiam a ideia de exercitar a pronuncia de apelidos
e palavrões para dessensibilizar.
Risos podem acontecer durante este exercício, ou mesmo em outros, e é
natural que aconteçam. O professor não deve inibir a espontaneidade do riso, mas
propiciar que se manifeste, pois é uma forma de extravasar o constrangimento que,
comumente, acompanha o falar sobre o assunto. Se permitidos, aos poucos, os
risos esvanecem significativamente.
Deve ficar claro é que todos educamos sexualmente nossos alunos, mesmo
que não tenhamos consciência, através da forma como lidamos com as situações do
dia-a-dia. Com a nossa postura, contribuímos para que o aluno forme uma imagem
positiva ou negativa do corpo, da sexualidade e do relacionamento sexual. E, cada
uma das situações, das pequenas perguntas feitas, é uma oportunidade para o
aprendizado “extra-programação”, como propõem os PCNs.
Quanto à realização da Educação Sexual formal, ou seja, quanto ao trabalho
“dentro da programação” e que exige planejamento prévio, pode-se recorrer a várias
estratégias de ensino, as quais devem estar ancoradas nos seguintes princípios:

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e sexualidade

- Educar sexualmente é muito mais que ensinar os conteúdos de


biologia e fisiologia da sexualidade;
- Educar sexualmente é criar oportunidades para o aluno expressar seus
sentimentos, angústias e dúvidas, refletir sobre suas atitudes e rever preconceitos;
- Para educar sexualmente é preciso saber ouvir;
- O aluno deve ser visto como sujeito ativo no processo ensino
aprendizagem e deve ter muito espaço para falar e ouvir seus colegas;
- O professor deve ser a pessoa que cria as condições para o aluno
aprender, ao invés de ser um simples transmissor de conhecimentos.
Uma postura básica, que vem complementar estes princípios, consiste em o
professor estimular a espontaneidade da garotada e, antes de iniciar, ou mesmo
aprofundar um assunto e dar todas as respostas, começar com as dúvidas que o
grupo tem e com o que já sabe sobre o assunto. Assim, antes de explicar sobre a
AIDS, por exemplo, o professor pode propor que façam uma redação sobre o tema;
ou dividir os alunos em grupos para relacionar o que pensam e associam com a
AIDS; ou, ainda, solicitar que façam uma lista sobre os meios da transmissão da
doença que já conhecem. Deste modo, consegue-se trabalhar com as dúvidas que
os alunos têm, na forma como elas estão na cabeça deles. (PAIVA, 2000)
Ao começar um trabalho sobre métodos contraceptivos, pode-se pedir aos
alunos que relacionem quais métodos já conhecem, os que acreditam ser os mais
seguros e quais se disporiam, ou não, a usar e por quê.
O ensino da sexualidade não pode limitar-se à aula expositiva, embora, em
vários momentos, ela pode fazer-se necessária, pois há conteúdos básicos que
requerem explanação teórica por parte do professor. Mesmo assim, é preciso
cuidado para que não seja um monólogo, onde apenas ele exponha, mas, pelo
contrário, que consiga desenvolver uma aula expositivo-dialogada, conforme
defendem Ronca e Escobar (1984), na qual o aluno é envolvido, ativamente, no
processo de explicação do conteúdo, seja por perguntas que lhe são lançadas, seja
por exemplos que lhe são solicitados e pela possibilidade de participar com opiniões,
colocação de dúvidas e expressão de sentimentos.

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e sexualidade

Muitos professores mostram-se surpresos ao constatar o quanto os alunos


participam ativamente, se lhes é dada a oportunidade de falar, de perguntar e de
expressar o que pensam e o que sentem. Isto deixa o professor mais tranquilo e à
vontade, enriquece a aula e gera um trabalho descontraído e espontâneo, sem
comprometer a seriedade e a qualidade. Esta forma de ensinar faz fugir, então, do
padrão tradicional de aula dogmática, puramente expositiva.
Assim sendo, a aula expositiva é indicada neste campo, desde que se leve
em conta a espontaneidade dos alunos, que se dê espaço para as dúvidas e que
possa ser combinada com outras estratégias.
Uma segunda e importante estratégia para ser usada em Educação Sexual é
o chamado debate aberto, já reconhecido como eficaz nas experiências pioneiras no
Brasil, na década de 1970. Consiste em dispor os educandos, na classe como um
todo, para debater e trocar ideias com seus colegas sobre o tema em estudo. É isto
que possibilita aos alunos entrarem em contato com diferentes posicionamentos
para, a partir daí, formar suas próprias opiniões e se preparar para tomar decisões
próprias.
Camargo e Ribeiro (1999), de uma forma muito interessante, dão mostras de
que o debate pode também se dar entre crianças pequenas, quando o assunto é
sexualidade. Particularmente, os exemplos de bate-papo entre crianças de cinco
anos, apresentados pelas autoras, uma vez que, muitas educadoras de crianças de
sete a dez anos, aproximadamente, relatavam sobre a dificuldade de levá-las ao
debate; creio que a questão deve, então, estar na forma de condução e
coordenação do mesmo, bem como no processo do envolvimento do grupo no
trabalho, o que, por sua vez, depende do clima de descontração e confiança que se
consegue criar.
Denari (1997), por sua vez, demonstrou, em sua pesquisa, a possibilidade de
bons debates num grupo de adolescentes com necessidades especiais que, apesar
da deficiência mental moderada, conseguiram engajar-se tanto em discussões,
quanto em dinâmicas de grupo variadas.
A fim de conduzir ao debate, o professor tanto pode
partir de uma pergunta por ele lançada, como de uma ou

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e sexualidade

mais perguntas que os próprios alunos tenham apresentado. Pode, ainda, fazer uso
de questões planejadas, anteriormente, para este fim. É interessante seguir alguns
passos: primeiro, propor as questões para que o aluno pense individualmente,
podendo registrar por escrito sua resposta; num segundo momento, os alunos
procedem a um bate-papo, em grupos de duas a quatro pessoas; por último, passa-
se ao debate aberto. O uso das questões para fazer pensar pode ser feito antes de
se começar a estudar um tema, durante o andamento do estudo do tema, ou mesmo
em seu encerramento. Como exemplo desse tipo de questão, podemos citar: “O que
você pensa sobre a virgindade para rapazes e moças?

Quais são as condições necessárias para alguém iniciar a sua vida sexual? O
que você pensa sobre o ‘ficar’?” Tanto no livro de Wusthof (1994), quanto de Suplicy
(1988), há vários exemplos dessas questões, nos variados temas.
O debate aberto pode ser usado para complementar uma aula expositivo-
dialogada, ou um trabalho feito com outras técnicas de ensino.
Outra estratégia que também tem se mostrado fundamental e imprescindível,
na Educação Sexual, é a dramatização. Como exemplo, pode-se pedir aos alunos
para dramatizarem a conversa entre duas amigas, no qual uma delas está em
dúvida se concorda em transar ou não com o namorado; a situação de uma garota
tendo que contar para o namorado e, depois para a mãe, que está grávida; a
situação de alguém que transou sem camisinha e está apavorada, ou apavorado,
diante da possibilidade de estar com AIDS, ou diante da possibilidade de estar
grávida, ou ter engravidado a namorada; e assim por diante.

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e sexualidade

É útil repetir a encenação com as pessoas trocando de papéis e, sempre ao


final de uma dramatização, tanto os atores, quanto os alunos que assistiram, devem
ter oportunidade para falar sobre como se sentiram e que pensamentos elaboraram
durante o momento em que a encenação ocorreu.
Paiva (2000), em seu livro “Fazendo arte com camisinha”, defende a riqueza
do trabalho com cenas, isto é, com dramatizações, a ponto, porém, de colocar em
segundo plano, ou mesmo desdenhar o valor do debate em grupo. Diz a autora: o
drama torna a conscientização de si mesmo e das conversas culturais que
bloqueiam a encenação da vontade muito mais significativa, bem mais carregada
emocionalmente do que a falação em grupo. Uma cena viva tem mais legitimidade
para um público com pouca paciência para escutar discursos conceituais ou que tem
pouca prática de refletir sobre o próprio “texto” (ou fala). (op. cit., p. 212)
Fica destacada a supremacia da dramatização, quando a autora esclarece
sobre as possibilidades que a cena abre, ao dizer que a partir das cenas podemos
criar um laboratório onde eles [os atores] se experimentam como sujeitos sexuais e
criam soluções para cada obstáculo. É um exercício que facilita a colaboração dos
educadores – em oposição à pregação, modelagem ou ao receituário – porque a
participação é sempre muito mais espontânea. (PAIVA, 2000, p. 211)
Concordo com esta ideia e defendo o uso, sempre que possível, da
dramatização, bem como de outras dinâmicas, porém, acredito que haverá
momentos, na sala de aula, em que o tempo que se dispõe não é o suficiente e,

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e sexualidade

portanto, às vezes, tem-se que contar com estratégias de ensino menos morosas.
Penso que um bom debate aberto, tanto quanto uma boa aula expositivo-dialogada,
podem ser proveitosos e alcançarem seus objetivos, se conduzidos adequadamente.
Uma experiência desenvolvida na Universidade Estadual de Londrina, por
Ferreira (2002), mostra que, através do teatro, da encenação, adolescentes com
Síndrome de Down conseguem refletir, discutir, enfim, trabalhar temas ligados ao
namoro e à sexualidade, além de outros ligados à vida social como um todo.
Referir-se à dramatização como estratégia de ensino nos possibilita
reconhecer a necessidade de buscar, sempre que possível, métodos que
revalorizem o diálogo, o autoconhecimento e a integração entre pensar, sentir e agir
e que, também, criem um ambiente de confiança e de reflexão. Desta forma,
também é funcional fazer uso de dinâmicas de grupo, desenho, modelagem, assim
como recorte e colagem.
Em se tratando de dinâmicas de grupo, podemos encontrar farto material
bibliográfico. Entre eles, cito alguns: Barroso e Bruschini (1985), Paiva (2000), Peres
et al. (2000), Rena (2001), Serrão e Baleeiro (1999) e Vitiello (1997). O livro de
Serrão e Baleeiro (1999) tem uma característica que o diferencia dos demais,
porque traz uma grande variedade de dinâmicas de grupo aplicáveis ao ensino de
todos os temas transversais propostos pelos PCNs. Segundo essas autoras, as
dinâmicas são recursos para facilitar a construção de conhecimentos e a elaboração
de sentimentos e precisam estar integradas a um objetivo maior, o que significa que
devem ser usadas como um meio e não como um fim em si mesmas. Para elas, é
preciso observar dois cuidados fundamentais: cuidar do processo reflexivo e
educativo contido na dinâmica, evitando ficar restrito apenas aos aspectos lúdicos
da atividade realizada; não esperar resultados imediatos, já que em trabalhos de
desenvolvimento pessoal e social muitas vezes os resultados se consolidam a médio
e longo prazo. (SERRÃO; BALEEIRO, 1999, p. 63). Com relação ao uso do desenho
como estratégia de ensino, dois exemplos podem ser inseridos. Numa aula com
crianças pequenas em que se vai falar sobre de onde vêm os bebês, pode-se pedir
a elas que desenhem, primeiramente, o que sabem a respeito. Na sequência, o
professor dá oportunidade para as crianças falarem sobre seus desenhos, exporem

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o que pensam e, depois, complementa e corrige as ideias enviesadas. Como


segundo exemplo, numa aula em que se vai falar sobre o corpo humano, pode-se
pedir aos alunos para fazerem um desenho do menino e outro da menina,
nomeando as várias partes do corpo. Ou, então, a classe pode ser dividida em duas
e, uma metade faz um cartaz com o desenho do corpo masculino, e a outra metade,
do feminino. É comum que se coloque uma folha grande no chão, alguém deita
sobre o papel e o grupo desenha acompanhando o contorno do corpo do colega.
Caso os alunos não desenhem o órgão sexual, deve-se perguntar por que não o
fizeram, pedir para fazer e colocar o nome. Se insistirem em não desenhar,
aproveitar para conversar sobre essa dificuldade.
Na experiência já comentada, em que Ferreira (2002) trabalhou com jovens
portadores de Síndrome de Down, através do teatro, também foi pedido a eles que
desenhassem o que pensavam ou sabiam sobre namoro, sexo e casamento.
Numa primeira observação, podia-se inferir
que as ilustrações nada tinham a ver com
sexualidade, ou até mesmo que não tinham
significado algum. Isto por serem desenhos
precários, decorrentes da deficiência mental e/ou
da incoordenação motora dos atores, que podem
limitar a representação, com alta resolução gráfica,
do que pensam, percebem e sentem acerca da
questão. Mas, certamente, a dificuldade de fazer a leitura de seus desenhos não
poderia prejudicar a mensagem neles contidas. (op. cit., p. 51)
Nesta situação, segundo a autora, foi a oportunidade dada aos atores de falar
sobre sua representação gráfica que fez com que se pudesse aproveitar o conteúdo
expresso através do desenho.
Para ilustrar o uso da modelagem como estratégia de ensino, tanto com
crianças, quanto com adolescentes ou jovens, podemos solicitar que façam uma
escultura da figura humana, usando argila. Rena (2001), que desenvolveu um
conjunto de oficinas com adolescentes, comenta sobre o uso dessa dinâmica e
relaciona algumas questões que propôs aos alunos, após terminarem sua escultura:

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“Estou satisfeito com o que fui capaz de fazer? Por quê? O que foi mais difícil nesta
tarefa? Que sentimentos e sensações experimentei durante o trabalho? Qual o sexo
da figura que construí?” (op. cit., p. 96-7).
Como atividade com recortes e colagem, temos o
exemplo de um trabalho inicial, em que se pede ao
adolescente que recorte gravuras de revistas dispostas na
sala e monte um cartaz com figuras que demonstrem o
que pensa sobre o sexo; na sequência, cada aluno fala,
ao grupo todo, sobre seu cartaz.
Complementando a relação de estratégias de
ensino, podemos citar o uso de recursos como filmes,
músicas, cenas de novelas, livros de literatura, pesquisas, manchetes de revistas e
de jornais. Creio que comentários sejam dispensáveis, pois os professores sabem
como explorar, de maneira construtiva, o uso desses recursos.
Ribeiro (1996) relata sua experiência com crianças da Educação Infantil e
mostra como o educador pode fazer uso de música, história, poesia, filmes e
desenhos, para ensinar num clima de descontração. A autora preocupa-se, também,
em propor atividades que permitam conhecer o que a criança já sabe, o que ela tem
construído de conhecimento sobre de onde vêm os bebês, sobre relações de gênero
e outros assuntos, a fim de ensinar a partir daí.
O livro de Camargo e Ribeiro (1999) traz excelentes exemplos de como
professores da Educação Infantil e de 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental podem,
por meio de projetos organizados, tratar de uma ou várias temáticas da sexualidade
de maneira diversificada e envolvendo o
aluno de forma ativa e prazerosa, em todo o
processo de aprendizagem.
Entrevistar pessoas sobre questões
ligadas à sexualidade costuma ser, também,
uma atividade proveitosa. Pode-se entrevistar
avós, tios e pais sobre como era o namoro no
tempo deles, ou sobre como foi que

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aprenderam sobre de onde vêm os bebês, quem foi que lhes ensinou etc. O material
colhido nas entrevistas é levado para a sala de aula e explorado. Um outro lado
positivo deste exercício, apontado pelos próprios professores, é a possibilidade que
traz de abrir espaço de comunicação entre a criança e a família sobre este tema tão
pouco abordado em casa.
Um exercício, denominado “questionário”, de fácil aplicação em sala de aula,
tem se mostrado funcional, porque, além de envolver o aluno de maneira ativa no
aprendizado, ajuda a identificar, de antemão, o que ele já sabe a respeito do
mesmo. Trata-se de uma relação com vários itens (aproximadamente vinte), alguns
falsos, outros verdadeiros, sobre um tema, e o aluno deve assinalar,
individualmente, em sua folha, se concorda ou discorda do enunciado. Para ilustrar
alguns enunciados que fazem parte do questionário sobre masturbação, citam-se:
✓ a masturbação é uma atividade sexual normal para homens e mulheres
de todas as idades;
✓ o hábito de se masturbar prejudica o relacionamento com pessoas de
outro sexo;
✓ muitas pessoas que se masturbam sentem-se culpadas; - com a
masturbação a mulher nunca chega ao orgasmo.

No questionário, que trata de verificar os conhecimentos básicos, alguns dos


itens aos quais o aluno deverá assinalar, se acha certo ou errado, são:
✓ se tiver uma relação sexual durante a menstruação, a mulher
dificilmente engravida;
✓ o impulso sexual de uma mulher é tão forte quanto o de um homem;
✓ é necessário um pênis grande para que a mulher tenha satisfação;
✓ existem apenas alguns dias do mês nos quais a mulher pode
engravidar.
Neste exercício, depois que o aluno assinala suas respostas, abre-se para o
bate-papo dois a dois, ou três a três, e, na sequência, inicia-se o debate aberto. No
livro de Barroso e Bruschini (1985), de onde foram retiradas as frases acima,
encontramos vários modelos de questionários, de temas variados.

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Há, ainda, recursos próprios de educação moral e que podem ser adaptados
para a Educação Sexual. Será destacada aqui, a estratégia de clarificação de
valores, proposta por Buxarrais (1997), que abrange três técnicas:
❖ “Diálogos clarificadores”: consiste de perguntas feitas ao aluno, na ocasião
em que está expondo uma ou mais opiniões e que o ajudam a aprofundar
nas suas reflexões. Exemplos:
✓ Você está de acordo com esta opinião?
✓ Pode explicar as suas razões para ser contra (ou a favor)?
✓ Você saberia apontar uma outra razão importante no caso?
✓ Alguém saberia apontar uma outra razão?
❖ “Frases inacabadas”: pede-se aos alunos para completarem algumas
frases, depois, discuti-las em pequenos grupos e, finalmente, no grande
grupo. Pode-se, também, recolher todas as frases completadas e distribuí-
las, anonimamente, para análise e discussão posterior. Cada frase é
preparada de acordo com o tema em estudo. Como exemplo, citam-se:

✓ Para mim, a primeira vez de um garoto ou garota


ser...............................................;
✓ Se um dos parceiros não tem intenção de iniciar-se sexualmente, o
outro deve...............;
✓ A anticoncepção é responsabilidade da(o).............................;
✓ Eu penso que masturbação..........................;
✓ Na minha opinião, a pessoa homossexual.....................

❖ “exercícios auto-expressivos”: pode ser, por


exemplo: carta pessoal que o aluno escreve a um
amigo invisível, ou a um profissional, falando de
dúvidas, medo, preocupação ou angústias
relacionados a sexualidade. É possível montar um
esquema no qual as cartas são distribuídas de

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forma anônima e depois discutidas pela classe; alguém pode assumir o


papel de amigo, que responde a carta.
Um trabalho diferente também pode ser feito com o uso de cartas ou
depoimentos de adolescentes encontrados, geralmente, em revistas teens. O livro
“Conversando sobre sexo”, de Suplicy (1983), traz uma infinidade de trechos de
cartas de adolescentes. Em sala de aula, pode-se dar para os alunos lerem, darem
sua opinião e depois fazerem um bate-papo a dois e, por último, o debate aberto. Se
houver tempo suficiente, na sequência, pode-se fazer uma dramatização, em que
algum aluno faria o papel do autor da carta, indo para o centro do círculo, e os
demais colegas dariam conselhos. Segundo Paiva (2000), o “exercício de dar
conselhos” é importante para levar o jovem a sair da postura de acusação, para a
postura de ajuda e solidariedade.
Num texto em que se dispõe a refletir sobre como ensinar o assunto
sexualidade, a atenção acaba voltando-se, também, para quais conteúdos ensinar.
Os PCNs os organizam em três blocos:
✓ Corpo, matriz da sexualidade;
✓ Relações de gênero;
✓ Prevenção às Doenças Sexualmente Transmissíveis/AIDs. (BRASIL,
1998 e 2000)
Ter relações de gênero como um dos blocos de conteúdo é imprescindível
para assegurar o êxito da Educação Sexual. Tal conteúdo merece ser considerado o
esteio de todo o processo educativo voltado às questões da sexualidade, pois como
aponta Paiva (2000), dificilmente o sexo seguro, com o uso da camisinha, é
incorporado se não forem trabalhadas as relações de gênero durante a atividade
educativa de prevenção. Afonso (2001) reforça esta posição ao afirmar que um
melhor aproveitamento e uso das informações sobre sexualidade estão diretamente
relacionados com representações igualitárias de gênero.
Integrando o bloco “corpo, matriz da sexualidade”, há toda uma gama de
temas a serem trabalhados, tais como: concepção, gravidez, parto, métodos
contraceptivos, masturbação etc. No que diz respeito à seleção e sequenciação dos
temas, é oportuna a afirmação de Peres et al. (2000), de que

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O ideal é não trabalhar com uma programação prévia e fechada dos temas a
serem desenvolvidos. Nada impede que o educador acrescente temas, desde que
estejam relacionados com os interesses dos adolescentes. É sempre mais produtivo
organizar seu trabalho a partir do levantamento de temas e expectativas do grupo.
(op. cit., p. 24)
Sobre esta questão, no entanto, Egypto (1985) oferece uma outra
contribuição, quando afirma que, embora seja muito importante trabalhar a partir de
temas dos interesses dos educandos, há temas que são indispensáveis e que os
educadores precisam abordá-los, mesmo que não solicitados.
Um cuidado especial no ensino da sexualidade merece ser registrado. Trata-
se de atentar para a necessidade de recapitulação e de retomada dos conteúdos
que já foram trabalhados. Os alunos precisam ter várias oportunidades de ver, rever,
discutir e tornar a discutir um tema, pois educar sexualmente é um processo
formativo, portanto longo. É por isso que os PCNs propõem que seja de forma
sistemática, no decorrer de todas as séries escolares, a começar pela Educação
Infantil. Este modo de trabalhar pode contribuir para erradicarmos, de vez, das
escolas, a ideia de que se faz Educação Sexual chamando profissionais para
ministrar palestras aos alunos.
Se temos como princípio norteador a concepção de que o aluno deve ser
visto como ativo em todo o processo de aprendizagem, é necessário atentar,
também, para a possibilidade de busca, por ele mesmo, de conhecimento, de ideias
e de informações, como forma de completar todo aprendizado que ocorre no espaço
da sala de aula, planejado e coordenado pelo professor. No caso da busca pelos
alunos, além da pesquisa, a leitura deve ser encarada como uma estratégia de
excelência.
O potencial dinamizador da Educação Sexual poderá ser explorado em toda a
sua extensão, se for aliado a um trabalho de instrumentalização do educando, para
que seja um sujeito ativo em todo o processo de aprendizagem. Uma das melhores
e mais completas formas de se chegar a isso é através da formação do leitor. À
medida que o professor desenvolve no aluno o gosto pela leitura e o ajuda a encarar
os livros como fontes de informação, onde ele pode buscar, além do conhecimento e

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entretenimento, respostas para muitas dúvidas, o estará instrumentalizando para


que possa continuar se auto-educando e se atualizando constantemente, ao longo
de sua vida. (FIGUEIRÓ, 2001a, p. 161)
Vários livros de Educação Sexual escritos para adolescentes podem ser
usados como recursos complementares, sem, no entanto, dispensar o
diálogo entre educador/educando e, principalmente, os debates. Entre eles, citam-
se, como exemplos: Aratangy (1998), Confort e Confort (1980), Suplicy (1983, 1988),
Vasconcelos (1985) e Wusthof (1994). Aponto sempre para os professores que é
muito bom, para eles próprios, lerem este tipo de livros, pois os ajuda em sua
preparação e, principalmente, os ajuda a repensar a sua visão sobre a sexualidade.
Como já vimos, a Educação Sexual tem a ver com o direito de toda pessoa de
receber informações sobre o corpo, a sexualidade e o relacionamento sexual e,
também, com o direito de ter várias oportunidades para expressar sentimentos, rever
seus tabus, aprender, refletir e debater para formar sua própria opinião, seus
próprios valores sobre tudo que é ligado ao sexo. No entanto, ensinar sobre
sexualidade no espaço da escola não se limita a colocar em prática estratégias de
ensino. Envolve ensinar, através da atitude de educador, que a sexualidade faz
parte de cada um de nós e pode ser vivida com alegria, liberdade e
responsabilidade. Educar sexualmente é, também, possibilitar ao indivíduo o direito
a vivenciar o prazer. Isto nos leva, diretamente, a pensar na questão da
masturbação.
Até mesmo muitos professores de escolas regulares não sabem o que pensar
e como proceder diante da masturbação; carregam consigo séries de tabus e de
preconceitos sobre ela. Pensam, às vezes, que o aluno se masturba devido a
problemas psicológicos; em alguns casos, têm a infeliz atitude de chamar os pais,
contar-lhes que seu filho se masturba e pedir-lhes, geralmente, que o levem a um
psicólogo. Nada disso tem fundamento e a única atitude a tomar é dizer,
particularmente, ao aluno, que o que ele está fazendo é saudável e bom, mas que
deve fazê-lo num ambiente de privacidade. A masturbação é positiva para o
indivíduo, faz bem à saúde e é parte do processo de conhecer-se e sentir seu corpo.
Se praticada sem repressões, é um bom treino para a vida sexual futura, a dois.

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Se uma criança masturba-se excessivamente – e é difícil dizer o que é


excessivo neste comportamento –, a masturbação deve ser vista não como um
problema, mas como um sinal de algo que não está bem no campo emocional e
afetivo dela; desta forma, talvez esteja precisando de ajuda psicológica. Outras
vezes, pode não ser isso; a criança pode estar bem emocionalmente. É o que
acontece em alguns casos, quando o aluno, ou aluna, continua a masturbar-se dia
após dia, mesmo depois de a professora haver lhe sinalizado que isto é para ser
feito em ambiente privado. É necessário então, conversar com ele ou ela em
particular, e falar-lhe da importância de consultar um médico, pois às vezes, tem
algum corrimento ou coceira, que pode ser consequência de má higiene ou de
alguma infecção ginecológica. Neste caso, é preciso explicar-lhe que sua mãe será
requisitada, a fim de participar dos encaminhamentos a serem tomados.
Em se tratando de indivíduos deficientes mentais, precisamos ter claro que a
masturbação é tão saudável e necessária quanto para as pessoas em geral. O
comportamento masturbatório, muito frequente, às vezes, em pessoas deficientes
mentais não significa que possuem a sexualidade exacerbada; sua sexualidade em
nada difere das demais pessoas; é que, para muitos, é uma das poucas formas de
obter gratificações e prazer, já que suas demais possibilidades de consegui-los são
extremamente limitadas. Facion (apud FERREIRA, 2001) defende a necessidade de
ser reconhecido o direito dos indivíduos deficientes de poder viver o prazer sexual,
precisando para isso que o adulto deixe claro os locais onde ela é possível de ser
praticada; fala em colocar limites, mostrar que é uma atividade positiva, que pode
ser praticada, porém, de forma privativa. O autor propõe, ainda, que, nos casos de
deficiência mental severa, os pais ensinem seus filhos a masturbar-se, para que não
se machuquem e, se necessário, que até forneçam-lhes modelos.

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Lidar tranquila e positivamente com uma situação de masturbação, ou com


qualquer outra forma de manifestação da sexualidade, é também estar ensinando,
no espaço da escola, pois a postura correta do educador leva o aluno a elaborar
uma visão positiva sobre a sexualidade. No entanto, para conseguir lidar com
tranquilidade, o professor precisa ter a oportunidade de rever o que sabe, o que
pensa e o que sente sobre masturbação e outras questões.
Quando falamos em direito a vivenciar o prazer, isto nos faz pensar em um
outro aspecto também ligado a esta questão. Trata-se de informar a criança sobre a
existência e a importância do prazer, na vida das pessoas. Quando, com muita
sorte, uma criança ou adolescente consegue encontrar um adulto que o ajude a
aprender sobre os mistérios da sexualidade, no caso em especial, sobre como se dá
a concepção, esse adulto, geralmente, vai falar da relação sexual como algo feito
para ter filhos. É preciso comentar também, com a criança, que o casal faz sexo
para dar e receber prazer, carinho e afeto e, não apenas para ter filho. Em muitas
situações, o que os professores falam é sobre o processo da concepção/reprodução,
de forma técnica, ou seja, que o espermatozoide se encontra com o óvulo e assim
por diante, deixando de abordar a relação sexual em si.
O aluno espera muito mais do que uma aula informativa e se envolve muito
pouco e aprende muito pouco quando a forma de ensinar restringe-se a isso.

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