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Afrânio Coutinho A literatura das Américas na época colonial

A literatura das Américas na época colonial

Afrânio Coutinho
COUTINHO, Afrânio. O processo de descolonização literária. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1983. A literatura das Américas na época colonial.

Comentário: Jaime Ginzburg (UFSM)

A LITERATURA DAS AMÉRICAS NA ÉPOCA COLONIAL


Os novos métodos da historiografia literária baseados na periodização estilística proporcionam
ao historiador maiores possibilidades de compreensão da literatura do passado.
Uma das primeiras conseqüências da sua aplicação é a que nos leva a abordar o passado
literário não no sentido vertical, pelas divisões em literaturas nacionais descritas na ordem
cronológica, mas no sentido horizontal, ou por cortes transversais, em que os fatos são apresentados
por épocas estilísticas.
Assim encarado, o período literário é, como ensina René Wellek, "uma seção de tempo dominado por
um sistema de normas, padrões e convenções literárias". O período é do minado por um conjunto de
idéias reguladoras de natureza estético-literária, que formam um estilo, ou por outras palavras, o
período é um sistema de normas literárias expressas num estilo. Para caracterizar uma época
estilística é mister que ocorra, num mesmo momento, a confluência de qualidades comuns a várias
obras e autores. E o que é mais interessante é que esses traços de estilo individual, semeados nas
diferentes expressões pessoais, são também perceptíveis nas demais artes, e mesmo em outras
formas de vida. Esse conjunto de peculiaridades formais, expresso na literatura, música, arquitetura,
pintura, religião, psicologia coletiva, política, costumes, vestuário, etc., constitui o que chamamos uma
época ou período histórico. Assim, do estilo individual passa-se ao estilo de uma época, e descrever
uma época é proceder à definição e caracterização do estilo que lhe emprestou fisionomia própria e
inconfundível. Aí reside a mais viva e orgânica historiografia literária, adequada à própria natureza do
fenômeno literário, pois se dirige ao que ele tem de mais íntimo e intrínseco. Por outro lado, é a que
vai ao encontro da idéia do paralelismo e confronto da literatura com as outras artes, em busca da
mútua elucidação, idéia esta que também domina o pensamento crítico e historiográfico moderno.
Em vez de unidades temporais, os períodos, consoante esse novo conceito, são unidades tipológicas,
articuladas em profundidade ou por camadas. Por sua vez, não se compreende mais a sucessão dos
períodos como se fossem blocos estanques, com limites exatos, sujeitos a datas fixas, começando e
terminando em momentos precisos. Ao contrário, os períodos estilísticos podem imbricar-se,
interpenetrar-se, entrecruzar-se, superpor-se, coincidir no tempo; entre uns e outros podem formar-se
zonas fronteiriças, intermediárias, de transição, nas quais se situam muitos escritores aparentemente
inclassificáveis.
Estuda-se num período determinado as características estilísticas que o dominaram; os
princípios estéticos e críticos que constituíram o seu sistema de normas; as relações da atividade
literária com as demais formas de atividade, de que ressalta a unidade do período como
manifestação geral da vida humana; as relações dentro de um mesmo período entre as diversas
literaturas nacionais; as causas que deram nascimento e morte ao conjunto de normas próprias do
período; a análise das obras individuais em relação com o sistema de normas estético-estilísticas do
período.
O centro de uma época ou período estilístico é ocupado por uma idéia do homem ou o conjunto
de concepções que o homem faz de seu destino, de si próprio, da vida futura, de Deus. O melhor
estilo para um período é aquele que se mostra mais adequado a dar expressão estética a essa visão
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do mundo e do homem. E ao falarmos hoje em "homem romântico" ou "homem barroco" ou "homem
renascentista", queremos significar que as épocas histórico-literárias a que essas normas
correspondem possuem uma idéia dominante do homem e do mundo, o tipo ideal do, homem
característico daquela época. Numa palavra, um estilo de época alia um estilo e uma ideologia, um
estilo que traduz uma concepção do homem e da vida.
Ao estudar a literatura produzida nas Américas durante a fase em que o continente novo se dividia
em colônias da Espanha, de Portugal e da Inglaterra, o primeiro passo é registrar que essa produção
literária dos três séculos coloniais pode ser enquadrada em três estilos diversos: o renascentista, o
barroco e o rococó neoclássico, este último já se misturando com os traços do iluminismo e do
romantismo.
Há diferenças a considerar entre as três regiões: as Américas Inglesa, Espanhola e
Portuguesa. Esta, aliás, é, outra noção posta em relevo pela periodologia estilística. Os estilos de
época, se, por um lado, constituem uma unidade - como a época barroca, a época romântica, a
época renascentista - por outro lado, as épocas estilísticas variam de localização cronológica de
conformidade com os povos ou regiões onde ocorrem. Assim, o romantismo ou estilo romântico é
mais precoce em alguns povos do que noutros.
Por outro lado, há regiões mais ricas do que outras em manifestações de determinado estilo.
Nas literaturas das Américas há que assinalar a abundância de manifestações de cunho
renascentista na área dominada pelos espanhóis, enquanto as duas outras se revelam pobres,
podendo-se mesmo afirmar que o Brasil não teve Renascimento, tendo passado da Idade Média para
o Barroco, no dizer de Sérgio Buarque de Holanda. . . .
Outro ponto a mencionar é que o período barroco, no Brasil, prolonga-se muito além de seus
limites cronológicos aparentes, penetrando adentro do século XIX.
A vida cultural da América Espanhola inicia-se muito antes que em qualquer das outras regiões
do continente. Ainda bem não terminava o século XV e dava início à polêmica em torno da justiça da
colonização e da escravidão dos índios, tema central do pensamento hispano-americano do século
XVI. Era a própria transplantação cultural espanhola que se realizava desde os albores do século
XVI, desenvolvendo o processo de criollización, quando nas colônias inglesa e portuguesa terá que
aguardar ainda cerca de meio século.
As formas renascentistas de cultura foram as que mantiveram, no primeiro século colonial, a
pureza européia no seio da minoria dominadora. Permaneceram isoladas, sem participação no
movimento colonizador e de aculturação que se desenvolveu intensamente no contato entre a gente
importada e a autóctona. Elas visavam à pequena elite adventícia através de gêneros de seu gosto e
que traduzissem a sua concepção da vida. Eram o lirismo horaciano, a epopéia ao modelo do
Orlando Furioso de Ariosto, o diálogo latino, o humanismo cultural, a pastoral lírica, o petrarquismo
italianizante. Apesar de cultivadas nas colônias mexicana, peruana e caribenha, essas formas não
penetram na alma popular e são expressões de cultura aristocrática. Mas tiveram em Hispano-
América um grande papel, certamente devido ao grau intenso e largo da vida cultural hispano-
americana no século XVI.
Essas formas importadas vinham na bagagem espiritual dos homens que foram impulsionados à
aventura marítima que se abre com o Renascimento. Vinham em busca de um paraíso terrestre e de
um homem ideal, feliz e puro na sua vida natural, duas idéias de que surgiram os numerosos livros de
relatos de viagens, relações de naufrágios, roteiros de aventura, crônicas de conquista; em que se
misturavam o mítico, o fantástico e o aventuresco, sob a inspiração do espírito renascentista e
pertencentes ao ciclo dos descobrimentos. Assim, aqui se classificam os documentos dos primeiros
cronistas das novas terras - Cristóvão Colombo, Las Casas, Oviedo, Hernán Crotés, Diáz del Castillo,
Cabeza de Vaca, Carvajal, Quesada, Miranda, para as colônias espanholas, a que se devem juntar
alguns nomes dentre os primeiros narradores da empresa anglo-saxã na Virgínia e Nova Inglaterra,
como o capitão John Smith, William Strachey, Henry Norwood, George Alsop, William Penn, William
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Byrd e outros ingleses, suecos, holandeses que à temática renascentista aliavam a preocupação
religiosa e reformista. No Brasil, também, essa cultura renascentista procurou infiltrar-se, embora sob
forma rudimentar, nos roteiros de viagens e informações sobre a nova terra, literatura de europeus
para leitores europeus, destinada a valorizar a conquista aos olhos do mercantilismo econômico.
Essa literatura no estilo renascentista ficou artificial e epidérmica. A única manifestação de real
valor que ela produziu em todo o continente americano foi o poema épico La Araucana, de Alonso de
Ercilla Y Zuniga (1534-1594), cujas três partes apareceram em 1569, 1578 e 1589.
Enquanto no Brasil o espírito épico no gênero renascentista só teve expressão na Prosopopéia de
Bento Teixeira, mofina imitação do camonismo, é La Araucana um produto humanista em terras
americanas que não envergonha o espírito criador. Relatando os feitos heróicos de um grupo de
homens que atravessaram os Andes do Peru ao Chile, combatendo a tribo feroz dos araucanos, o
poema tem valor documental, mas também literário, e sua influência foi grande na literatura hispano-
americana tanto na linha épica quanto na lírica.
Não é possível entrarmos em minúcias, no presente trabalho.
Sobretudo temos que passar a considerar o que, nessa literatura produzida na época colonial,
constitui a melhor contribuição, justamente aquela que se enquadra no estilo hoje denominado
barroco.
Em primeiro lugar, para a compreensão melhor do problema, devemos tentar fixar a definição e
caracterização do fenômeno do barroco, especialmente em literatura.
A literatura do século XVII, excetuada a parte do chamado classicismo francês ou época de
Luís XIV, sempre foi julgada, até o final do século XIX, como uma expressão inferior, degenerada, de
decadência, caracterizada pela preocupação formal e pelo uso excessivo da ornamentação retórica e
da obscuridade. Dizia-se que ela procurava esconder o pensamento ou a ausência de sentido pelo
contorcionismo verbal e riqueza ornamental. Criaram-se, então, diversos termos, para designar as
variedades nacionais dessa literatura: conceptismo e culturanismo, preciosismo e marinismo,
eufuísmo e gongorismo. Essas denominações, criadas em obediência ou de conformidade com a
teoria neoclássica, possuíam um sentido pejorativo, de condenação daquela produção literária,
considerada como uma forma inferior ou degenerada em relação ao classicismo e ao renascentismo.
Com esse sentido pejorativo, igualmente, a crítica de arte até o final do século XIX usava como
termo definidor a palavra barroco. Esse uso remonta aos séculos XVI e XVII quando começou a
aplicar-se o termo à definição da arte seiscentista, como sinônimo de bizarro, extravagante, artificial,
ampuloso, monstruoso, sentido esse que se originou do vocabulário filosófico em que a palavra
significava um modo de raciocínio confundindo o falso e o verdadeiro, uma argumentação estranha e
viciosa, evasiva e fugidia, tendente a subverter as regras do pensamento. A própria etimologia do
termo reforça esse sentido pejorativo, pois segundo a teoria mais corrente, a palavra tem origem
medieval portuguesa ou espanhola designando uma pérola de superfície irregular. Assim, o conceito,
neste significado pejorativo, teve curso sobretudo no terreno das artes plásticas e visuais, para
designar a arte e a estética do período subseqüente ao do renascimento, concebida como uma forma
degenerada, e expressa na perda da clareza, pureza, e elegância de linhas, substituídas essas
qualidades pelos ornatos e distorções, que teriam resultado num estilo impuro, alambicado e obscuro.
Todavia, deve-se a dois famosos historiadores da cultura e da arte, Burckhardt e Wölfflin, a
partir do final do século passado, a reformulação interpretativa da arte e da literatura seiscentistas, à
luz de novos princípios críticos e filosóficos, do que resultou, de um lado, a reavaliação de toda a
época, pondo termo à interpretação pessimista até então vigente, e, do outro lado, a liquidação do
conceito pejorativo do termo barroco e a sua difusão e generalizada aplicação como rubrica
definidora da arte e da literatura seiscentista.
Passou-se a compreender então que aquelas formas de arte, outrora vistas como manifestações de
degene rescência do renascentismo, constituíam, ao contrário de um declínio, um desenvolvimento
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natural, uma forma diversa, um estilo próprio, diferente do clássico, de sentido menos táctil do que
visual, arte de dissimulação e profundidade, aberta e não fechada, de claridade relativa e não
absoluta. Verificou-se que o período constituído por esse estilo oferece perfeita unidade, expressa
não somente no paralelismo entre as várias artes e a literatura, mas também as diversas outras
formas de vida, o que levou os historiadores da cultura a adotar o termo barroco como etiqueta para
designar o conjunto da civilização do século XVII nas suas variadas manifestações, passando-se a
falar inclusive no homem barroco, o tipo de homem característico da época, tal como se fala no
homem romântico que viveu a época romântica.
Se a arte renascentista caracterizou-se pelo predomínio da linha reta e pura, pela clareza e nitidez de
contornos, pela harmonia e medida, o estilo barroco de seiscentos, tanto o literário quanto o artístico,
obedecem a normas estéticas diversas, de conformidade com um novo ideal de vida para o qual a
conciliação, a incorporação, o fusionismo são as tendências dominantes postas em curso pela
estratégia da Contra-Reforma. É de todos sabida a influência poderosa exercida pela Contra-Reforma
na maneira de viver e pensar do homem pós-renascentista. No intuito de combater o moderno
espírito desencadeado pelo Renascimento - o humanismo, o gosto das coisas terrenas, as
satisfações mundanas e carnais -, a Contra-Reforma tentou restaurar o ideal medieval, espiritual e
supraterreno. Mas, reconhecendo não ser possível fazer o homem renunciar aos valores trazidos pelo
Renascimento, imaginou toda uma política de conciliação, entre o renascimento e o medievalismo.
Surgiu daí um novo estilo de vida que traduz essa tentativa de conciliação, através de um caráter
dilemático, através de contradições e de extorsões (sic.), sinais de uma alma dilacerada por forças
contraditórias que a atraem para os extremos. Em arte, religião, literatura, essa alma se traduz
igualmente e o estilo que lhe corresponde é o que hoje denominamos Barroco.
Originário, pois, da história e crítica de artes, o termo incorpora-se à crítica e à historiografia literárias,
como um conceito de conteúdo estético, destinado a resolver o problema da classificação e da
avaliação da literatura seiscentista, diversa da renascentista e da neoclássica, e que outrora passava
por inclassificável. O Barroco preenche as sim a finalidade de designar aquele período entre o
renascimento e o classicismo, definindo obras diversas das que se subordinam a conceituação,
neoclássica ou renascentista, e que refletem o estado de espírito comum a todas as literaturas
nacionais modernas.
De um simples epíteto pejorativo, a palavra evoluiu, portanto, para um conceito avaliativo,
baseado na análise e descrição de traços específicos, de natureza intrínseca e estilística;
encontrados em manifestações artísticas e literárias da época seiscentista. Hoje o conceito aplica-se
também à definição de todo o período da cultura ocidental, equivalente ao século XVII e designando
as artes, ciências e vida social compreendidas no seu âmbito.
Há que assinalar contudo que, se o seu núcleo está no século XVII, não são regulares os seus
limites, pois há variantes locais de iniciação e término, as formas barrocas se realizando em alguns
lugares, antes que em outros, e prolongando-se mais nestes que naqueles.
Em suma, o barroco é a adequação de um estilo ao clima espiritual e ao conteúdo ideológico
de uma época, o século XVII: este é o barroco histórico, concreto, estão estético e estilo histórico-
cultural, ao qual deu lugar a dinâmica espiritual desencadeada pela Contra-Reforma.
O estilo artístico e literário, o estilo de vida, dominantes no período compreendido entre o final do
século XVI e o século XVIII, com limites iniciais e terminais diferentes de acordo com os países, mas
de que participaram todos os povos do Ocidente, com uma atmosfera cultural comum, é o que
denominamos hoje o Barroco. É um termo único, abarcando manifestações variadas, outrora co
nhecidas como conceitismo, culteranismo, marinismo, seiscentismo, eufuísmo, preciosismo, muitas
delas formas imperfeitas ou não desenvolvidas do mesmo barroco.
O barroco é assim um estilo identificado com uma ideologia, é um conjunto de atributos morfológicos
traduzindo um conteúdo espiritual. Quanto à ideologia, já vimos que foi fornecida pela Contra-
Reforma e pelo Concílio de Trento, como uma contra-reação às tendências humanistas e pagãs do
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Renascimento, numa tentativa de reencontrar o fio perdido da tradição cristã, procurando exprimi-la
sob novos moldes intelectuais e artísticos. Foi um duelo entre o elemento cristão, legado da Idade
Média, e o elemento pagão, racionalista e humanista, instaurado pelo Renascimento. São, por isso, o
dualismo, a oposição ou as oposições, contrastes e contradições, o estado de tensão e conflito,
oriundos do duelo entre o espírito cristão antiterreno, teocêntrico, e o espírito secular, racionalista,
mundano, que caracterizam a essência do espírito barroco. Daí uma série de antíteses - ascetismo e
mundanidade, carne e espírito, sensualismo e misticismo, religiosidade e erotismo, realismo e
idealismo, naturalismo e ilusionismo, celestial é terreno, verdadeiras dicotomias ou conflitos de
tendências antitéticas, tradutoras da tensão entre as formas clássicas e cristãs, entre as tradições
medievais e o crescente espírito secularista inaugurado pelo Renascimento. A alma barroca é
composta desse dualismo, desse estado de tensão e conflito, exprimindo uma gigantesca tentativa de
conciliação de dois pólos considerados inconciliáveis e opostos, a razão e a fé. Diante do conflito
entre o ideal de fuga e renúncia do mundo, em vez da impossível destruição, tentou a época barroca
a conciliação, a incorporação, a absorção. Era essa uma tendência possivelmente geral, que a
Contra-Reforma captou e tentou dirigir, e de que o espírito jesuíta é a encarnação.
A Contra-Reforma, pela sua revanche dinâmica, reinspirou no homem da época a religiosidade
medieval redespertando os terrores do inferno e as aspirações da eternidade, para o que utilizou os
artifícios artísticos da pomposidade, do ornamentalismo, do luxo. A reação já se processava desde
1520 na Espanha, e se acentuou com a fundação da Companhia de Jesus em l540 e com a
instalação do Concílio de Trento, de 1545 a 1563. Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola,
unindo o misticismo e a escolástica, constituíram o código da nova mentalidade. Ajustando-se
maravilhosamente aos seus propósitos e necessidades, o estilo barroco prestou-se a veicular a
mensagem do movimento, sob a forma de edifícios eclesiásticos, esculturas, pintura e literatura. Era a
estética barroca que se prestava com a sua linguagem de emotividade, de transcendentalismo, de
ambigüidade, e com sua pompa, a falar a linguagem de dinamismo e exaltação da Contra-Reforma.
Assim, o barroco foi a expressão formal da energia religiosa e espiritual brotada da Contra-Reforma.
É ele que procura exprimir o ideal tridentino de reaproximar o homem de Deus, o celestial do terreno,
o religioso do profano, conciliando as duas heranças medieval e renascentista. Daí o dualismo e o
contraste formarem o eixo espiritual e formal do barroco. Sendo dominada por forças polares,
antagônicas e contrastantes, a época só podia expri mir-se por um estilo também antitético e
retorcido. Atraída pelo heroísmo e pelo ascetismo, pelo misticismo e pelo erotismo, esses elementos
misturam-se nas suas várias expressões artísticas e culturais, seja nos hábitos ou maneiras de viver
e agir, seja na própria tessitura da vida social, seja nas expressões artísticas. Em qualquer dos
grandes poetas da época, um Gongora, um Donne, um Marino ou um Gregório de Matos, nota-se a
mistura de religiosidade e sensualismo, de erotismo e misticismo, de espiritualidade e naturalismo
sensual, do fator erótico-religioso, do fator heróico. Em outros, a preferência pelos aspectos cruéis,
dolorosos, sangrentos, repugnantes, terríveis, no intuito de sugestionar o leitor ou ouvinte, através
das impressões sensoriais, convencendo pelos sentidos. Nesta linha se enquadram os dramas de
sangue, e as cenas sanguinolentas e horripilantes, muito usadas no teatro jesuítico e na oratória da
época, como em Anchieta e em Antônio Vieira.
Apontadas assim algumas das características gerais da arte e da literatura barroca, cabe à
crítica apontar ainda os elementos do estilo, pois no barroco produz-se a soma de ideologia e forma,
de espírito e atributos morfológicos e estilísticos, aos quais muito deve a unidade interna do período
manifestada em todas as artes - pintura, escultura, arquitetura, música e literatura. De maneira geral,
a arte barroca em qualquer de suas manifestações é caracterizada por uma constelação de sinais e
artifícios, e não por este ou por aquele isoladamente. Pretendendo traduzir um estado de conflito ou
tensão espiritual do homem, o estilo barroco especializa-se no uso de elementos apropriados,
artifícios e figuras, como antíteses, paradoxos, contorções, preciosismos, metáforas, imagens
emblemáticas, assíndetos, simbolismos sensuais, sinestesia, hipérboles, catacreses. Distingue-o a
abundância de ornatos, a elaboração formal, o abuso do conceito e da agudeza, o excessivo trabalho
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do estilo, a riqueza de figuras, entre as quais a antítese, o assíndeto, a antimetábole, o oxímoro, o
paradoxo e a hipérbole.
Os escritores barrocos aproveitaram a revolta anticiceroniana, isto é, a reação contra o domínio dos
modelos ciceronianos existentes no Renascimento. Este movimento anticiceroniano sacudiu a história
das idéias literárias na segunda metade do século XVI, redundando na criação de um novo tipo de
estilo, que viria prevalecer no século XVII. Este anticiceronianismo desenvolveu-se na prosa a partir
do diálogo Ciceronianos de Erasmo, publi cado em 1563, consolidando-se com Muret, e encontrando
em Montaigne, Bacon e Lipsio os grandes disseminadores do novo ideal estilístico, para o qual
Sêneca e Tácito seriam os modelos. Ao grande estilo, ou genus nobile, redondo, periódico, oratório,
no modelo ciceroniano peculiar ao renascimento, sucedeu o chamado genus humile, estilo menor,
forma epigramática e sentenciosa, tersa e assimétrica, estilo de pensamento correspondente à
influência dos escritores latinos da era de prata, Tácito e Sêneca. Suas características eram: a
brevidade ou concisão aliada à obscuridade; a maneira picante, espasmódica, abrupta, desconexa,
aguda, sentenciosa, antitética, metafórica, dando preferência às figuras de pensamento ou meios de
persuasão dirigidos à mente, como a antítese, o paradoxo, a anáfora, o aforismo. Este genus humile,
ou senecan amble, é o tipo de estilo que hoje conhecemos como barroco, adequado à expressão do
estado de tensão interior do homem, do conflito entre convicções contrárias ou tendências opostas.
Seu princípio essencial é a busca da união do desunido, daí o recurso à antinomia, à assimetria, ao
paradoxo, à antítese, à expressão irregular, ao claro-escuro, à flexibilidade e movimento da prosa, ao
emprego de ornatos e figuras, ao uso da pontuação por ponto e vírgula e dois pontos.
Tais atributos morfológicos configuram o barroco, unindo-se à ideologia tridentina para imprimir
à época uma fisionomia peculiar, ornamental e trágica, dilacerada e melancólica.
Compreendido desta forma o novo período estilístico, ser-nos-á fácil verificar que nele se
enquadra a maior e melhor produção literária das Américas na era colonial. Mais do que isso, toda a
vida caracteriza-se pela uniformidade estilística e pela comunidade de espírito, podendo falar-se,
pois, na era barroca na América, abrangendo as diversas manifestações artísticas, entre as quais
primou a arquitetura, como a forma que mais alto se elevou, e todas as outras atividades de vida. Há
um livro de Irving Leonard (Baroque Times in Old Mexico, Ann Arbor, 1959) sobre a era barroca no
México, mui rico de sugestões sobre o que poderá ser livro semelhante dedicado ao Brasil. Outra
obra magistral no particular é a do ensaísta venezuelano Mariano Picón Salas, antigo embaixador de
seu país no Brasil, e que constitui um modelo de estudo sobre a época barroca na América
espanhola, De la conquista a la independencia. Os principais dados do problema estão, assim,
lançados, restando apenas ajuntá-los em trabalho que dê idéia do conjunto. A qui somente cabem os
lineamentos gerais e os marcos essenciais.
O Barroco apresenta-se diferentemente nas três áreas de colonização européia. Na América inglesa,
a tonalidade geral é religiosa, dada pelos pensadores e teólogos puritanos, ou então por prosadores e
poetas que, sobretudo nas colônias da região sulina, durante todo o século XVII, se entregavam a
descrições de aventura ou relatos históricos em estilo conceituoso e elaborado à imagem do
eufuísmo e dos poetas metafísicos, precisamente os representantes ingleses do barroco, um John
Donne, um Herbert, um Crashaw. São escritores que se destacam pelo gosto dos anagramas, das
figuras torturadas, dos conceitos, e há nomes que, embora não se destaquem muito acima da
mediania, merecem a menção por que representam na colônia inglesa a mês ma tendência estilística
e ideológica do barroco: William Bradford, Thomas Morton, John Winthrop, Mary Rowlandson, na
prosa histórica; Thomas Shepard, Roger Williams, John Davenport, a dinastia dos Mather, Nathaniel
Ward, Thomas Hooker, Samuel Sewal, Jonathan Edwards, na prosa religiosa, jurídica ou política; Ann
Bradstreet, Michael Wigglesworth, Edward Taylor, na poesia de influência metafísica e puritana.
Enquanto aguarda o advento da literatura revolucionária e iluminista do século XVIII, a literatura
norte-americana, nesse período colonial da história, não se mostra de grande relevo, e as suas
poucas manifestações, presas, em grande parte, do misticismo e do moralismo puritanos, denotam o
mesmo clima que na Metrópole era responsável pela arte poética dos famosos poetas metafísicos,
hoje englobados como os representantes ingleses do barroco. A literatura que produziam aqueles
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pregadores e cronistas era de cunho utilitário, visando a louvar o reino de Deus e defender a pureza
do paraíso terrestre que, para eles, era a terra da promissão da América. De qualquer modo, essa
produção literária é de conhecimento fundamental para a compreensão de muitas características
posteriores da literatura norte-americana, pois ela veiculou alguns elementos importantes da herança
européia.
Em Hispano-América, é tão intenso o complexo barroco que dá lugar a um verdadeiro estilo geral de
vida com manifestações poderosas no mundo da arte: O colono hispano-americano vive em estilo
barroco, desde a segunda metade do século XVI até o século XVIII, logo depois que cessou a energia
renascentista que dirigiu o espanhol na aventura da descoberta e da conquista. O estilo de vida
barroco identifica-se e coincide com a fase mais avançada da vida colonial, quando esta se torna
mais sedentária e urbanizada.
Frades e colonos, administradores e soldados, nobres e reinos, mestiços, indígenas e
europeus, ricos e pobres; toda uma variada população se mistura numa sociedade semiprimitiva em
que a avidez de riquezas e o sensualismo mais desenfreado são colocados diante dos censores
inquisitoriais e da violência freqüente dos funcionários da Corte.
No Brasil, amálgama idêntico propiciou o mesmo clima que caracterizou a sociedade colonial e
que constituiu, aqui como nas colônias espanholas, o estilo barroco de vida.
O mais importante a assinalar é que esse estilo, nas áreas de colonização espanhola e
portuguesa, fomentou o vasto processo de mestiçamento cultural ou aculturação, a que se deve a
independência intelectual e, mais do que isso, a caracterização das peculiaridades de nossa
psicologia coletiva e de nossa fisionomia artística.
Foi o Barroco, na sua tendência sincretista e conciliadora, que provocou a aproximação entre os
valores da cultura européia e os elementos indígenas. A própria idéia da conquista e cruzada cristã
criou uma das armas desse mestiçamento, ao serem levados os colonizadores e evangelizadores a
aprender os idiomas indígenas, para melhor agir sobre os espíritos dos silvícolas. Os padres
missionários tornaram-se instrumentos inconscientes desse processo de criollización ou de
mestiçagem cultural, de que nasceram as nossas variadas culturas latino-americanas, e de que
deriva o íntimo parentesco e certo grau de unidade existente entre elas.
Por isso, quem deseje conhecer na sua essência essas culturas tem que mergulhar no Barroco,
valorizando a produção artística e literária da época, pois aí estão as raízes do que as diferenciou. Aí
é que devemos buscar a explicação de muitas de nossas características culturais. Aí é que devemos
procurar o momento em que a nova terra capturou a imaginação do homem ocidental, levando-o a
tentar exprimir as suas emoções primeiras no contato da nova experiência. Aquela arte e aquela
literatura são o testemunho desse estado de americanismo nascente, nem sempre expresso à luz de
padrões estéticos superiores, mas com a importância de serem o primeiro registro de uma alma nova
que surgia e que, através de poesia e teatro, exprimia o espírito, as emoções e as idéias de uma
nova comunidade humana. Era um homem novo que nascia; falando um idioma próprio, com
sentimentos diferentes provocados pelo impacto da nova geografia e do novo sistema de convivência
social. A literatura que produziram não era mais a que escreviam os seus irmãos da Metrópole. Eram
outros os animais com que tinham que lidar, diferentes os frutos que comiam, diversas as situações
que a vida lhes defrontava. Com tal experiência nova, também novos deveriam ser o seu canto, os
seus contos e lendas, a sua poesia, a sua língua.
E realmente foi diferente a literatura que produziram. Como foi precoce o aparecimento de formas
mestiças, artes e letras, sob o manto do Barroco, fazem-se de logo mestiças. O Barroco, no Brasil e
na América Espanhola, é um instrumento, ao mesmo tempo, de mestiçagem e de independência e
peculiaridade cultural. Esta, aliás, decorrência natural daquela.
Não há como negá-lo.
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Se examinarmos o nosso Barroco, quer nas igrejas do chamado estilo jesuítico, de Ouro Preto ou da
Bahia, quer no fabuloso mundo da talha negra baiana e das pinturas de forros de igrejas, quer na
torêutica também baiana, quer na poesia amorosa, religiosa ou satírica de um Gregório de Matos ou
um Caviedes, não nos escapará o caráter de novidade que tudo isso nos mostra em relação aos
cânones do Barroco europeu. Não há dúvida que as lições vinham da Europa, e que é na Igreja de
Jesus, de Roma, que se deve buscar modelo de nossos templos coloniais. É verdadeiro que toda a
poesia da América Espanhola e Portuguesa, na era barroca, é inspira da nos arquétipos gongorinos e
quevedianos.
Mas tudo isso passa por um banho de mestiçagem ao chegar às plagas americanas, sofre um
processo de adaptação, no fabuloso laboratório de caldeamento que é a sociedade colonial.
E, às vistas atuais, não será difícil salientar nitidamente a diferença dessa produção plástica ou
literária relativamente aos seus modelos europeus.
Como não compreender que não seria possível permanecer idêntica, se a situação histórica,
social e geográfica era tão profundamente diferente? Seria negar a própria vida, preferir acentuar as
semelhanças, que são inegáveis e inevitáveis, subestimando ou negando as diferenças e a novidade,
que são ainda mais flagrantes e maiores.
Em toda a colônia hispano-americana e na portuguesa, ao templo barroco, que tem o papel da
fortaleza ou dos castelos feudais na conquista dos espíritos pelo volume, pela grandiosidade
ornamental e pela ostentação de riqueza, corresponde a poesia e a prosa, marcadas pela mesma
estética da decoração, do artificialismo, do alegorismo, do exagero metafórico, da obscuridade. Os
gêneros cultivados são, na generalidade, os mesmos no Brasil e nas colônias espanholas: a poesia
lírica, a sátira, o emblema, a narrativa alegórica, os panegíricos religiosos e os hagiológicos, a mística
e o profetismo, sem falar na historiografia e na preocupação científica, uma ciência que se misturava
com a superstição, astronomia com astrologia.
As influências eram as mesmas, os deuses Gongora e Quevedo, mes tres do lirismo obscuro, cultista
e arrevesado, e da sátira burlesca, ao lado de Gracián, o teorizador do conceito e da agudeza.
A poesia barroca hispano-americana começa com o bispo Bernardo de Balbuena, autor da Grandeza
mexicana, de 1604, poema destinado a cantar as belezas da colônia na linguagem contorcida e
metafórica típica dos gongorinos. Outros autores, como Diego de Hojeda, a poetisa peruana que se
assina Amarilis, o erudito mexicano Carlos de Siguenza y Gongora, e o peruano Pedro Peralta y
Barnuevo, o crítico literário mestiço peruano Juan de Espinosa Medrano, o poeta jesuíta colombiano
Hernando Domínguez Camargo, o argentino Luís de Tejeda, o peruano Frei Juan de Ayllón são
figuras que prolongam a linhagem de Gongora, mostrando como o Barroco é um estilo unitário,
invadindo com os seus processos e artifícios o púlpito, às cátedras, os livros de direito, a filosofia, a
teologia, a erudição e a história, fato este que ocorreu também no Brasil das Academias e da
literatura erudita dos séculos XVII e XVIII.
Dois casos literários merecem destaque nessa excursão sumária pela literatura barroca
hispano-americana: é Juan del Valle Caviedes, o extraordinário poeta lírico, religioso e satírico do
Peru, aonde chegou menino vindo da Espanha e onde viveu uma carreira em tudo semelhante à de
nosso Gregório de Matos, na luta contra os ignorantes, os pretensiosos, os reinos, usando a sátira de
terrível poder agressivo.
O segundo é o de Sor Juana Inés de la Cruz, monja mexicana que é a personalidade mais complexa
e mais curiosa de toda a literatura barroca hispano-americana. Poetisa aberto a todas as curiosidades
intelectuais, fosse no terreno da filosofia, fosse no campo das ciências. Sua cultura já assombrava os
mexicanos quando ainda em plena adolescência. Além da poesia, escreveu teatro e prosa. Famosa é
a sua autobiografia contida na resposta a um sacerdote que a aconselhou a abandonar as letras
profanas. Não menos importante foi a sua discussão com o Padre Antônio Vieira. Mas, acima de
tudo, há que sublinhar o valor de sua poesia, no mais legítimo estilo barroco e ao modelo gongorino
das Soledades, como no poema Primeiro Sueño, peça autobiográfica em que relata sua sede de
Afrânio Coutinho A literatura das Américas na época colonial
conhecimentos, através de cerca de mil versos, misturando latinismos, neologismos, metáforas,
tropos, alusões mitológicas, uma poesia rica de beleza e sempre intelectualizada. Também barrocos
são os seus autos sacramentais, ao molde de Calderón, de sorte que essa grande artista foi a figura
de maior relevo da literatura barroca hispano-americana, quiçá de toda a literatura do continente novo
nessa era.
No Brasil, quadro idêntico se esboça.
A literatura colonial é literatura barroca. No Brasil a literatura nasceu sob o signo do Barroco,
pela mão barroca dos jesuítas. E foi ao gênio plástico do Barroco que se deveu a implantação do
longo processo de mestiçagem, que constitui a principal característica da cultura brasileira,
adaptando as formas européias ao novo ambiente à custa de "transculturação" de que fala Fernando
Ortiz, conciliando os mundos europeus e autóctone.
O estudo da época colonial oferece o maior interesse para a compreensão da cultura brasileira. Ne
de sorte que essa grande artista foi a figura de maior relevo da literatura barroca hispano-americana,
quiçá de toda a literatura do continente novo nessa era.
No Brasil, quadro idêntico se esboça.
A literatura colonial é literatura barroca. No Brasil a literatura nasceu sob o signo do Barroco,
pela mão barroca dos jesuítas. E foi ao gênio plástico do Barroco que se deveu a implantação do
longo processo de mestiçagem, que constitui a principal característica da cultura brasileira,
adaptando as formas européias ao novo ambiente à custa de "transculturação" de que fala Fernando
Ortiz, conciliando os mundos europeus e autóctone.
O estudo da época colonial oferece o maior interesse para a compreensão da cultura brasileira. Ne la
se processou o impacto inicial das culturas no novo ambiente, e a mescla imediatamente iniciada
constituiu a base de nossa cultura. Sem falar na constituição de costumes e formas de organização
social, da fixação de valores de vida e sistemas éticos e legais, traços de psicologia individual e
coletivas, vivências estéticas. Os problemas da origem brasileira confundem-se com os da cultura
que atuava naquele período, o Barroquismo, de que decorreram inclusive características permanente,
na oratória, no gosto da retórica e da "frase", que contaminaram até a poesia lírica e a prosa de
ficção.
Mas a importância da época ainda sobressai do fato de haver proporcionado a expressão local
de um estilo universal, a que emprestou qualidades bastante diferenciadas, sobretudo nas artes
plásticas, em que o "estilo jesuítico" produziu o melhor de nossa arquitetura colonial, que encontrou o
apogeu na figura do Aleijadinho da arte mineira, bem como na arte barroca da Bahia, a arte feérica de
suas igrejas dominadas pelo "mundo trágico de talha negra", às quais o céu parece ter descido, como
disse Godofredo Filho.
Nas letras, porém, há que ressaltar, sobretudo, as contribuições dos jesuítas, Anchieta à frente, de
Antônio Vieira na parenética, a que se seguiu uma larga descendência, da poesia de Gregório de
Matos e Botelho de Oliveira. A narrativa de ficção é escassa na época, mas o exemplar que a
representa pertence ao Barroco: o Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira. A literatura
barroca brasileira não se prendeu ao século de seiscentos, e seus elementos vão encontrar-se
durante o século de setecentos, nas academias literárias, na oratória e poesia. Terá uma agonia
lenta, através de longo processo de degenerescência, de mumificação, em que a estética se
transformou em virtuosismo do estilo empolado, do exagero da figura, do trocadilho, do retorcimento
da construção. Se as manifestações literárias barrocas nem sempre têm, no Brasil, valor estético,
importam sobremodo como expressões locais do fenômeno estilístico.
Julgada em bloco, a literatura jesuítica brasileira é uma típica manifestação barroca, evidenciada nos
temas, ideologia, estrutura, intenção. Literatura de missão, buscava servir o ideal religioso e
pedagógico da conversão e da catequese. Procurava infundir nos espíritos uma concepção lúgubre e
pessimista quanto à vida terrena, mera transição para a eternidade; o sentimento da vaidade e
Afrânio Coutinho A literatura das Américas na época colonial
inanidade da vida, de contraste entre a luz (celestial) e a escuridão (terrestre), entre a grandeza e a
humildade, o espírito e a carne, a salvação e a danação; a noção da presença da morte e do inferno,
da desilusão (desengano) e horror das coisas terrenas, do poder destruidor do pecado, expresso pela
corrupção física; da transitoriedade do tempo, fluindo implacavelmente diante do susto do homem,
que tem nisso a impressão da própria incapacidade de deter a marcha para a decadência e a
dissolução. O medo impera nessa literatura, medo da morte, da decadência, do inferno, da passagem
do tempo, ao contrário da alegria e prazer de viver, do gosto da ação e do mundo, da claridade
renascentista. Arte mais para os sentidos que para a inteligência, era pelos sentidos e pela
imaginação, e não pela razão, que o Barroco conquistava o homem. Daí o uso que os jesuítas
fizeram, no teatro e na arquitetura, da grandiloqüência e da suntuosidade, do luxo e da pompa, do
aparatoso e do espetaculoso, do gigantesco e do terrorífico, dos artifícios que intimidavam e
impressionavam os sentidos, penetrando por eles na mente.
Com Antônio Vieira a estética barroca atinge o seu ponto alto em prosa, no Brasil. Aliando a
essência do estilo senecano "coupé" e sentencioso, à ênfase, à sutileza, ao paradoxo, ao contraste, à
repetição, à assimetria, ao paralelo, ao símile, ao manejo da metáfora, o grande orador sacro
produziu páginas que são tesouros da eloqüência sagrada em língua portuguesa. É o exemplo típico
do que afirma Alfonso Reys: "La lírica gongorina, donde algunos ven la hija del púlpito, devuelve la
herencia y se transforma en oratoria sagrada (...e) algunos oradores sagrados comenzaron a
transportar al púlpito los recursos de aquel estilo poetico".
Gregório de Matos constitui, em meio a seus companheiros da "escola baiana", a expressão
individual mais forte da poesia barroca da Colônia. A despeito do muito que deveu aos grandes
escritores espanhóis da época, sobretudo Quevedo e Gongora, - a deste último é geral e profunda na
América Latina, como demonstraram Emílio Carrila e Sílvio Julio -, sua poesia é bem a primeira
manifestação eloqüente da mestiçagem cultural que se implantou no Brasil.
Pela temática e pela técnica estilística, a obra de Gregório enquadra-se à perfeição no Barroco. Sua
alma era dominada pelo dualismo barroco: mistura de religiosidade e sensualismo, de misticismo e
erotismo, de valores terrenos e carnais e de aspirações espirituais. É bem um exemplo da alma
barroca, com sua situação polar, seu estado de conflito e de contradição espiritual. Na sua poe sia,
como em toda a poesia barroca, juntam-se o sensual e o religioso, a mística e a licenciosidade, o
jovial e o ridículo, o grave e o satírico, o profano e o sagrado, o mundo e o Céu, a carne e o espírito, o
fogo do amor místico, a consciência do pecado, a noção da penitência, tudo isso expresso numa
imageria de cunho sensitivo e numa constelação de figuras e artifícios - ecos, assonâncias, antíteses,
paradoxos, oxímoros -, típicos do Barroco.
Foi tão forte a impregnação barroca na cultura brasileira colonial que dela não escaparam mesmo os
livros estranhos à literatura no sentido estrito. Além da vasta literatura de panegíricos, que enche a
produção das academias do século XVIII, o Barroco é o instrumento estilístico da literatura de cunho
moralizante e religioso, de devoção e ascetismo, sobretudo da vasta produção parenética, tão impor
tante na Colônia, e de tão grande alcance popular, até mesmo depois da Independência. Mas a ele
não fugiu, tão pouco, a literatura política e jurídica, e de administração, tanto quanto a prosa
historiográfca e de conhecimento da terra, desde muito cedo, com Frei Vicente do Salvador e Rocha
Pita, acostumada ao culto da retórica barroca.
Ao terminar estas considerações, uma última idéia crítica é mister ressaltar.
Alguns historiadores literários continuam a rotular a produção literária dos três primeiros
séculos americanos como "literatura colonial".
Tal denominação, por imprópria, deve ser riscada do vocabulário crítico e historiográfico.
O qualificativo "colonial" tem um sentido político, inteiramente ina dequado à caracterização do
fenômeno literário. Em literatura, nada ele diz que caracterize e defina a produção que pretende
enquadrar. É uma simples etiqueta para designar o período em que as regiões do Continente novo
faziam parte do império colonial das nações européias.
Afrânio Coutinho A literatura das Américas na época colonial
Em historiografia literária moderna, procuram-se termos de conteúdo estético para definir os
períodos. É o que pretende a periodização estilística ao propor os conceitos de Maneirismo, Barroco,
Impressionismo, Rococó, para figurar ao lado dos antigos de Classicismo, Romantismo, Realismo.
Como acabamos de ver, a produção literária das Américas no período colonial pertence aos estilos
renascentista e barroco. Durante o século XVIII, assistimos à decadência do Barroco à medida que se
desenvol vem outras formas, como o neoclassicismo arcádico, hoje definido como Rococó literário. É
esta uma arte amaneirada, de elegância sofisticada, afetada, frívola e refinada, de linguagem
melodiosa e graciosa, cultivando o sentimentalismo e a lascívia, elevando ao máximo o gosto da
natureza e da vida pastoral e campestre. Teve sua expressão típica na dança do minueto e na poesia
dos árcades, de que, no Brasil, Tomás Antonio Gonzaga foi o representante típico e mais elevado. É
uma arte de transição, exprime a passagem da época cortês para a sociedade burguesa. Ao mesmo
tempo que o neoclassicismo Rococó, no século XVIII começa a crescer o iluminismo, preparando o
advento do Romantismo. Há, pois, no século XVIII, uma confusão de tendências, que se cruzam e
entrecruzam dando-lhe o aspecto de transição.
A corrente barroca perdura durante todo o século, penetrando, no século XIX, até mesmo no
Brasil, contaminando com suas formas as primeiras manifestações românticas.
Por tudo isso, podemos considerar o Barroco, durante os três séculos da Colônia, o principal
veículo de expressão do novo espírito americano.
No Brasil, o Barroco ainda teve, a meu ver, um aspecto digamos político de não menor significado. É
que, sendo um fenômeno demarcado colorido espanhol, pela origem e influências, o espírito
português, possivelmente em reação à dominação espanhola, foi-lhe sempre infenso, não havendo
em Portugal grandes manifestações barrocas. Ao contrário, o Brasil teria encontrado no Barroco uma
motivação para reforçar as suas tendências nativistas. Daí, a sua maior autenticidade entre nós e as
expres sões do estilo no Brasil de maior valor que em Portugal.
Por tudo isso, o Barroco constitui a essência da cultura brasileira, ainda hoje com efeitos
profundos em nossa alma.

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