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PEDIJLOGIA: BASE PARA DISTJNÇAO
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Vii AMBIENTES
CLASSIFICAÇÃO E GEOGRAFIA DE SOLOS

Tabela 7.L - Classificação das práticas agrícolas em práticas de redução e práticas de


convivência. Estão excluídos os fatores biológicos (pragas, doenças etc.), geográficos
7.3.3. Práticas de Convivência
,
(localização, transporte etc.) e socioeconômicos, Os fatos apontados anteriormente trouxeram algumas surpresas. A primeira
Limitações ( ) Práticas de Redução Práticas de Convivência delas é que, identificada a importância do agricultor de baixa renda e decidindo-se
Nutrientes, I'IN Adubação, calagem, Espécies e variedades seleciona das, estudar a melhor forma de se fazer alguma ação, vem a surpresa: pesquisadores,
aplicação de gesso, agricultura nômade com pousio e extensionistas e talvez até as agências creditícias estão despreparadas para enfrentar
adu bação verde etc. queima esse novo desafio. .
Água,I'IA Irrigação, "mulch'"?", Espécies e variedades selecionadas, Talvez essa dificuldade venha abrir uma nova perspectiva: a de que os técnicos
terraços, sulcos lavoura-seca, plantas de ciclo curto e
mencionados possam desenvolver novos caminhos para esse problema. No que se
época de plantio, culturas em faixas,
"mulch" refere ao pesquisador, há aí uma riqueza de informações e experiências dignas de
Oxigênio, 1'10 Drenagem, enleiraruento Espécies (arroz) e variedades
serem investigadas!". Ninguém vive e sente melhor todo o sistema agrícola do que
selecionadas o agricultor e, em particular, o agricultor de baixa renda. A insistência do agricultor
ErosãO,I'IE( Tcrracearnento, cordões Semeadura em curvas de nível, em determinadas práticas pode ser muito significativa!".
em contorno, terraços em culturas em faixas, cobertura do
\ patamar, banco ou escada; terreno, cultivos alternados, renques de 7.4. Geografia de Solos
banquetas individuais; vegetação cerrada, agricultura nômade
enleiramentos permanentes; - pequenos talhões, consorciação de A distribuição geográfica do recurso solo no Brasil e seus problemas relativos
valctarncnto; coveamento e culturas à utilização serão abordados muito sucintamente a seguir. Este item objetiva mais
encordoamento do mato
diretamente a síntese sobre alguns padrões gerais, já mostrados pelos trabalhos
Mecanização, 6M Pouco usadas: Ajuste dos irnplcmentos cada vez mais
de levantamento de solos, principalmente os realizados pelo SNLCS (CNPS) e
sistematização do terreno, leves até a tração animal e mesmo
preparo de terraços, retirada RADAM.
implemcntos manuais, conforme o
de pedras, construção de agravamento do desvio, ajuste do
7.4.1. Domínio Pedobíoclímático!" da Amazônia
patamares, destruição de implemento (tamanho de rodas, por
terrniteiros exemplo) Área coberta por florestas equatorial e tropical (Figura 7.A). Inclui a floresta com
Tempcratura.AT "Mulch", sombreamento, Espécies e variedades selecionadas, muitas palmeiras (babaçu'"), que começa na divisa do AMIPA, para leste. Há cerrado
combate à geada, estufa, época de plantio, profundidade de nas transições, nas divisas do Brasil ao norte e em direção ao Planalto Central ao sul.
estufim (fermentação plantio, exposição da encosta
de material orgânico e
cobertura plástica) 17SNosistema complexo de limitações, sem viabilidade de grandes melhoramentos, e enfatizando as
práticas de convivência, o pequeno agricultor ajusta-se convergentemente ao contexto. Isto é fonte
Luminosidade, I'IL Estufas, sombreamento, Espécies e variedades selecionadas,
valiosa dc informações para a compreensão das relações sociedade/natureza,
pintura em cor branca. época de plantio, sombrearnento 176Aspráticas de agricultura nômade, a consorciação de culturas etc. são alguns dos exemplos que só
Gás Carbônico, I'IC Direcionamento, Espécies, variedades e espaçarnento mais recentemente estão sendo reconhecidos como tecnicamente fundamentados.
decomposição biológica 177Usou-se aqui a expressão domínio pcdobioclimático em vez da expressão original de Ab'Saber
Vento, 1'1V
(1970) - domínio morfoclimático - por duas razões: (I) por considerar-se solo como um corpo
Quebra-vento, alinhamento Espécies e variedades selccionadas,
tridimensional; e (2) a ênfase é na geografia de todas as características do solo, e não apenas na da
tratos conforme hora do dia pedoforrna. A expressão domínio pedobioclimático, por outro lado, cnfatiza a base do tetraedro ecológico
(Figura l.A), o que nos parece mais harmônico com o escopo deste texto.
"'A palmeira babaçu tOrbignia martianaí existe distribuída na Amazônia; eom a queimada ela se
174Mulch: Qualquer material tal como palha, serragem, folhas, solos solto, plástico, etc., que é espalhado expande. Essa, supõe-se, é a origem da mata dos cocais no Maranhão. O babaçu é pouco exigente 110
à superficie do terreno, com a finalidade de proteger o solo c as raizes das plantas dos impactos diretos que se refere às condições de solo: ocorre em solos ricos, pobres e de drenagem variável. A competição
das gotas de chuva e raios do sol, evitando encrostamento do solo, congelamento, evaporação, ete. eom floresta, eliminada pela queima, e a participação de alguns animais na distribuição das sementes
contribuem para a expansão dessa palmeira.
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PEDOLOGIA: BASE PARA DISTINÇÃO DEAMBIENTES CLASSI1<1CAÇÃO E GEOGRAFIA DF: SOLOS

São comuns Latossolos Amarelos (Latossolos Amarelos distrocoesos) e Poclzólicos desde que se lhe apliquem cerca de 50 kg de P Ps
ha', após cinco anos da instalação
Amarelos (ArgissolosAmarelos), frequentemente plínticos, álicos (alta saturação por da pasragem!" (SERRÃO et aI., 1978). O uso de reservas extrativistas, no entanto,
AI), pobres em Fe e de baixa capacidade de troca catiônica. Nas áreas de ruptura do parecc ser o mais adequado para muitas áreas, e quase a única opção para algumas

deelive das elevações e nos locais de drenagem mais deficiente são comuns os solos outras (RESENDE; PEREIRA, 1988).
com plintita. Há solos ricos no Acre, nos aluviões dos rios que são influenciados pelos 7.4.2. Domínio do Subárido Nordestino
sedimentos dos Andes, nas áreas de intrusões de rochas máficas e em alguns locais
Essa é uma área rebaixada em relação às chamadas serras, como
da ilha de Marajó.
Martins, Araripe etc. O Seridó do Rio Grande do Norte e da Paraíba é um
bom exemplo. Nesse domínio (Figura 7.B) percebem-se duas pedopaisagcns
distintas: a de ~ntensa remoção de sed~m~!1!'!s, associada aos afíoramentos d~
rochas (inselbergues) e elevações menores, em nível abaixo deles; e a outra
-pedopaisagem, que expressa acúmulo de' sedimentos,
. - estando mais próxima
ao piso do vale. Os Necssolos Litólicos!" e Luvissolos Crômicos"" formam
a primeira pedopaisagem, enquanto.g segunda está associada a solos com horizonte
.....li textural,_~c_ol!levi@}!9!élii...Qehidromorâsmo.jrtualmente B plânico. Pastagem e '
extrativismo na caatinga são os usos principais. A cultura de vazantes, inclusive
com o capim-andrequicé [Echinochlea colunum (L.) Link], é um exemplo
marcante dc convivência com as condições regionais. O capim-panasco (Aristida
adscensionis L.) é bastante comum nos Luvissolos Crômicos, Os solos são rasos
e pedregosos.
A falta de água controla a produção mas, mesmo aí, a fertilidade do solo é
~~~I
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AMAZÔNIA fundamental. As elevações (chapadas ou serras) de~~ª-regiãº- com solos menos férteis
constituem transição das áreas de caatinga (superfície rebaixada) para o cerrado de
Planalto Central (Araripe) ou para o domínio dos Mares de Morros Florestados, já
mais próximo do litoral (Borborema).
Figura 7.A - Domínio pedobioclimático da Amazônia (AB'SABER, 1970).
I80Pastagens na Amazônia: a deficiência de nutrientes e a alta pressão de ocupação pela vegetação
Os Latossolos e Argissolos são tipicamente cauliníticos e goethíticos e possuem nativa, nos lugares mais pluviosos, torna difieil a manutenção de pastagens; o fogo, por exemplo, no
um horizonte A pouco espesso. A riqueza química encontra-se ligada à vegetação caso do capim-colonião, enfraquece a pastagem por acelerar a exportação daquilo que tende a estar em
mínimo - os nutrientes - mesmo nos lugares suavemente declivosos.
(fitotessela), A queima faz aumentar temporariamente!" o teor de nutrientes na I&lOS Ncossolos Litólicos podem ter um horizonte A diretamente sobre a rocha; ou, o que é mais comum,

supcrficic; as colheitas decrescem a níveis não compensadores a partir do terceiro ano. °


existe um horizonte C pouco espesso entre horizonte A e a rocha (R). Quando a soma dos horizontes
Plantas perenes nativas ou culturas especiais, como pimenta-do-reino, é que se A e C dá mais de 50 em, tem-se um Neossolo Regolítico.
'''Luvissolos Crômicos - solos comuns nas áreas de rochas cristalinas das regiões subáridas brasileiras.
têm mantido melhor. As pastagens dc braquiárias (exceção ao braquiarão, mais exigente São solos pouco profundos, tem horizonte A arenoso, frequentemente cascalhento, sobre horizonte B
em nutrientes) têm-se saído bem. No Sul do Pará o colonião vai razoavelmente bem, textura], tendo alta atividade de argila, apresentando cerca de 50 em de espessura.
18] A área das caatingas tem (pelas condições atmosféricas, céu limpo por boa parte elo tempo e alta

radiação) grande variação de temperatura entre dia e noite. A condição de subaridez reduz substancialmente
I790S nutrientes no ecossistcma (ecotcsscla), podem estar em maior quantidade no solo (pedotessela) - as pragas e doenças de plantas e animais. O gado, por exemplo, é praticamente isento de parasitas (bernes,
como na área das caatingas - ou na vegetação (fitotessela) - como na Amazônia. A derrubada c queima da carrapatos ctc.) tão comuns em outras áreas do Brasil. Além desse quadro ambiental peculiar, afetando
vegetação expõem toda a riqueza de nutrientes à superfície, no caso da Amazônia; no caso do subárido, a vida, li! uma intensa renovação dos solos, liberando os nutrientes. A produção de hortifrutíferas e de
a ecotesscla ainda tem grande reserva em nutrientes, mesmo após queima c erosão. pequenos criatórios, ambos subsidiados por pequena irrigação, são muito promissores .
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. CLASSIFICAÇÃO E GEOGRAFIA DE SOLOS
PEDOLOGlA: BASE PARA DISTlNÇÃO DEAMBTENTES

são, no entanto, comuns em áreas mais íngremes, em razão do contraste entre o horizonte
B, argiloso, estreito, e o horizonte C, muito profundo, pouco coerente, muito siltoso, com
grandes lâminas (silte e areia) de caulinita. Pastagens (capim-gordura) e lavouras de café,
nos solos mais pobres, e pastagens de jaraguá e culturas anuais, nos solos melhores (e com
maior M), constituem o padrão geral de utilização. A cana-de-açúcar ocupa alguns desses
solos. Esse domínio pedobioclimático, em função da pluviosidadc maior, mas também
do profundo manto de alteração (maior armazenamento de água), intenso dissecamento,
e com eficiente cobertura vegetal, é muito bem provida de pequenos cursos de água. As
implicações disso para uso ainda não foram devidamente exploradas.

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11111:111CAATINGAS

I?ígum 7.B - Domínio pedobioclimático das depressões interplanálticas subáridas do Nordeste,


revestidas por caatingas (AH' SABER, 1970).

7.4.3. Domínio dos Mares de Morros Florestados


Essa área estende-se por uma faixa ao longo da costa brasileira, desde o extremo
,
sul do país até o Nordeste (Figura 7.C), aí denominada Zona da Mata. A~~
","'''l' MARES DE MORROS
O nome "Mar de Morros" é dado porque a região, vista de uma (\ """'"
(~ FLORESTADOS
posição mais alta, lembra as ondas do mar. A vegetação é dominantemente
subperenifólia. Essa área é tipicamente gnáissico-granltica e os solos apresentam
relevo bastante acidentado. O horizonte C é em geral muito profundo!"
Figura 7.C - Domínio pedobioclimático dos Mares de MOlTOSFlorestados (AB 'SABER, 1970).
e os solos são geralmente pobres em nu_trient~)Apesar do relevo acidentado, os
Latossolos são muito resistentes à erosão (têm permcabilidade acentuada c ainda
7.4.4. Domínio do Cerrado
alguma coerência entre os grânulos (RESENDE, 1985). Os deslizarnentos de terra
No domínio do Cerrado (Figura 7.D) as grandes chapadas e os trechos mais
1"0 horizonte C, quando apresenta evidências da estrutura da rocha, é identificado pelo acréscimo do
suaves são formados por Latossolos com teores de óxidos de Fc c gibbsita maiores que
sufixo r - Cr, Mais próximo da superfície a atividade biológica destrói evidências da estrutura da rocha: os da Amazônia; a penneabilidade e a espessura do horizonte A são também maiores. Os
o horizonte Cr passa a horizonte C. A intcmpcrização das rochas guáissico-grauiticas do Brasil chamou Neossolos Quartzarênicos são também comuns. Nos trechos acidentados, geralmente
a atenção de antigos naturalistas: de Darwin, que passou pelo Rio de Janeiro de 4 de abril a 5 de julho
de 1832 e novamente em 1836, registrando a profundidade e O colorido do horizonte C; de Gardner com substrato de rochas pelíticas pobres, os solos são muito rasos, quase que sem
(1836-1841), que atentou para o barro vermelho, os atuais horizontes C e Cr; assim como de Samucl horizonte A, frequentemente cascalhentos e muito encrostados. O período seco é
Allport, em Salvador (décadas de 1850 a 1860); e Richard Burton, em 1867, que notou o espesso manto
pronunciado, a umidade relativa é baixa c venta muito.
de argila vermelha (horizontes C e Cr) sobre o gnaisse cinzento da Serra do Mar (LEONARDOS, 1970).

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PEDOI,oGIA: BASE PARA DISTINÇÃO DE AMBIENTES
GEOGRAFIA DE SOLOS

pouco profundos, argi lo-siltosos, muito susceptíveis à erosão hídrica e ao


encrostamento, podendo ser considerados os solos de pior potencialidade agrícola
nos cerrados.
..•.". Nas bordas das chapadas ocorre a tapiocanga (petroplintita), muito usada como
<'-~ piso de estrada, cuja presença é muito importante na manutenção dos remanescentes
L;;;;T das chapadas, Ao longo das linhas de drenagem (parte mais baixa da paisagem) existem
'---··4_ fíorestas-galerias'". Nos limites com as regiões mais secas, como no sul do Piauí, há
transições para caatingas 186.

7.4.5. Domínio do Planalto das Araucárias


As matas de araucária e os campos a elas associados ocupam partes do Norte
do Estado do Rio Grande do Sul até o Nordeste do Paraná!" (Figura 7.E).
A temperatura é mais baixa que em outras regiões do Brasil. A deficiência de
I;-"'f-I CERRADO água é também menor. Os solos possuem altos teores de matéria orgânica e altos teores
de AI trocávelnos trechos mais suaves. Nos entalhamcntos dos vales há também solos
muito férteis.
A araucária é mais expressiva em alguns trechos de Santa Catarina (ALONSO,
Figura 7.D - Domínio pedobioclimático do Cerrado (AB'SABER, 1970). 1977), mas há gradações para os campos que lhe estão geograficamente associados.
Nessas áreas, trigo e soja têm sido bastante cultivados. No RS, a araucária tende a
Grandes insumos na forma de corretivos, fertilizantes etc. têm incorporado
ocorrer em cotas altimétricas acima de 600 metros.
muitas áreas de pastagem nativa pobre ao processo 'produtivo. O uso de máquinas
Atualmente, os solos Brunas (Cambissolos, Nitossolos e Latossolos) têm sido
tem, em poucos anos, compactado bastante os solos, principalmente os Latossolos
bastante utilizados com fruticultura subtropical c reflorestamento,
muito argilosos. Há muito "reflorestamento" com eucalipto e plantios de café. Mais
recentemente, a cana-de-açúcar tem ocupado grandes áreas.
185}\ floresta-galeria ocorre ao longo dos cursos d'água em faixa de largura variável, mas bem menor do
A notável transformação agrícola experimentada no domínio do Cerrado,
que a vegetação não florestal das partes mais altas (cerrados e campos). •
particularmente nas chapadas extensas e nos trechos mais suaves da paisagem, '''0 cerrado pode, e111 algumas condições, perder as folhas completamente, tornar-se caducifólio. Isso
é digna de registro. Aqui duas situações extremas merecem ser comentadas, A tende a ocorrer) como esperado, nas áreas trausicionais para as caatingas; são relativamente comuns no
Norte de Minas (.JACOMINE et al., 1979).
primeira refere-se à expansão do sistema de plantio direto, com seus efeitos muito
'''Existem ocorrências esparsas de araucária na parte leste de São Paulo, prolongando-se pejas áreas
favoráveis. A segunda envolve a uti lização de solos muito arenosos (Neossolos elevadas de Minas (C01110 Sul de Minas e região dc Barbacena), até o Vale do Rio Doce, Alguns
Quartzarênicos) para cultivo de grãos, notadamente soja e milho (sistema de exemplares desse pinheiro foram encontrados no fim da década de 1940, no município de Prata,
no Triângulo Mineiro, por Adalgiso Fernandes Corrêa (pai de Gilberto Fernandes Corrêa), então
rotação), com previsíveis impactos negativos na sustentabilidade ambiental. Talvez
comerciante no ramo de madeira. Tsso tudo parece estar no contexto de que o clima do Brasil já
o uso intensivo para lavouras em solos com teor de argila < 15 % (l50g kg') foi mais frio. Plantas do gênero Myroxylon distribuem-se do norte da Argentina ao México; pouco
devesse ser dcsestimulado (não haver financiamento, por exemplo) no domínio presentes na Amazônia, mas frequentes nas serras úmidas (brejos) do Nordeste. A expansão das
plantas desse gênero teria ocorrido durante uma das "marés de lho" no Pleistoceno; com o retorno de
dos cerrados.
temperaturas mais altas) teriam permanecido nos brejos. A araucária também ocupou uma área muito
Os solos mais jovens, como Cambissolos, Ncossolos Plúvicos e solos maior (BIGARELLA; ANDRADE-LlMA; RlEHS, 1975).
hidromórficos associados aos cerrados, frequentemente têm alto teor de AI
trocável, como os da área de Brasília. Os Cambissolos, além de álicos, são

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CLASSIFICAÇÃO E GEOGRAFIA DE SOLOS
PEDOLOGIA: BASE PARA DISTINÇÃO DE AMBIENTES

PRADARIAS

[iJ PLANALTOS DAS


ARAUcARIAS
MISTAS

Figura 7.E - Domínio pedobiociimático do Planalto das Araucárias (AB' SABER, 1970). Figura 7.F - Domínio pedobioclimático das Pradarias Mistas (AB 'SABER, 1970).

7.4.6. Domínio das Pradarias Mistas Apesar de a pecuária constituir a atividade agrícola principal no domínio das
Essa área corresponde à Campanha do Rio Grande do Sul (Figura 7.F). Aí os Pradarias Mistas como um todo, o cultivo de arroz sob inundação nas várzeas e nas
solos apresentam um relevo suave (coxilhas) sendo cobertos por vegetação graminóide áreas planas tem considerável expressão geográfica. A expansão da atividade agrícola e
e matas-galerias subtropicais. Há grandes áreas de solos com problemas de drenagem. do reflorestamento eom pinus, eucalipto e acácias tem modificado consideravelmente a
Há um período seco no verão (janeiro e fevereiro )188. A menor precipitação nessa época flora dessa região (informação pessoal de Jaime Antonio de Almeida a João Carlos Ker).
(a mais quente) e a pouca profundidade do solo trazem problemas acentuados de falta 7.4.7. Mais sobre os Domínios Pedobioclimáticos
de água. Os solos tendem a ser bastante escuros, apresentando com frequência argilas
Obviamente, esses domínios pedobioelimáticos são muito amplos. Há, ainda,
de alta atividade (Vertissolos'", Chernossolos Ebânicos'?" e solos afins). As pastagens
áreas de grande significância que podem apresentar caracteres transicionais entre
extensas usadas para gado de raças europeias e o relativo vazio populacional humano
domínios ou mesmo apresentar características peculiares (Figura 7.G).
são característicos.
Nesse contexto estão as áreas basálticas e areníticas com vegetação original
de floresta, desde o sul do Planalto Central até o domínio da floresta com araucária,
1880fato de o período seco coincidir com meses quentes torna o bioclima muito mais seco; O estresse
hídrico fica mais pronunciado. Além disso, há uma erra ticidade nas precipitações mensais, não detectada nos estados sulinos. Por outro lado, o Pantanal constitui uma unidade à parte, onde o
pelas médias, resultando num bioclirna ainda mais seco. A desertificação, aparentemente anômala pelos período de grande umidade (outubro a março) é alternado com seca pronunciada (abril a
totais de precipitação, pode ter aí um importante contributo.
setembro), e onde à vegetação dos campos (formando as pastagens nativas) adicionam-
'''Vertissolo, do latim, vertere; dá conotação de inversão da massa do solo. Tem muito alta atividade
de argila, apresentando expansão e contração pronunciadas com umcdecimento e secagem, produzindo se paisagens diferentes, identificadas por nomes relacionados às plantas dominantes
superficies de fricção e grandes fraturas, respectivamente. ou muito expressivas - carandazal, paratudal, piuval, buritizal, aeurizal, pindaibal,
190Chorn08s010Ebânico, apresenta horizonte B incipiente ou B tcxtural de cores não muito vivas; nisso
pirizal, pajonal etc. (PEREIRA, 1966). Nesse ambiente, os solos hidromórficos, embora
difere do Chernossolo Argilúvico.

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variáveis no tempo c no espaço quanto ao grau de deficiência de oxigênio, constituem de cerrado (lavrado), apesar de ser um ambiente tipicamente conservador. Porém
a principal expressão pedológica. Outra variação são os campos altimontanos, como localmente, nas áreas de afloramento de rochas cristalinas ácidas, o efeito conservador
os existentes no Quadrilátero Ferrífero, outras porções do Espinhaço e também no do sistema se manifesta e, assim, sob a mesma fitofisionomia, são encontrados solos
Sul de Minas, Serra da Canastra etc. Seus solos são muito pobres e geralmente rasos, solódicos (SCHAEFER et aI., 1993; MELO et aI., 2010).
expressando a pobreza das rochas de origem!", como quartzitos (como o Pico do
Itacolomi) e rochas pelíticas pobres (filitos c micaxistos). Estes últimos de pedoformas 7.4.8. Lições de Geogratla de Solos
mais suaves nos contornos, mesmo quando o relevo (desnível) é muito pronunciado. Adistribuição dos solos nas regiões morfoclimáticas, com suas características,
Mas a ocorrência mais comum é de áreas transicionais para cerrado, floresta e caatinga. inclusive pedoclimáticas, ou mesmo numa área menor, como uma propriedade agrícola,
por exemplo, trazem importantes lições.

Mata-Agreste-Sertão, U11/a sequência agropedoclimática

A sequência de solos da Zona da Mata, passando pelo Agreste, até o Sertão,


na direção leste-oeste no Nordeste Brasileiro, mostra alguns aspectos interessantes
relacionados com ilN e ilA (deficiência de nutrientes e de água, respectivamente). A
parte leste, a Zona da Mata, apresenta maior precipitação pluvial, c seus solos maior
lixiviação de nutrientes, isto é, possuem alto ilN e baixo ilA. Os solos do Sertão, no
outro extremo, apresentam inversamente maior ilA e menor ilN. O Agreste ocupa, a
este respeito, uma posição intermediária: não tão seca como o Sertão, nem tão pobre
em nutrientes como a Zona da Mata (Figura 7.H).

SERTÃO AGRESTE MATA

illIill
AREAS DE
TRANSiÇÃO

Figura 7.G - Áreas de transição entre domínios pedobioclimáticos (AB'SABER, 1970).

Há, sob os critérios de reconhecimento


situação peculiar na parte centro-setentrional
dos domínios pedobioc1imáticos,
de Roraima. Aí as pedopaisagens
uma
se
rr ~---!l>-
Figura 7.H - Tendências de produção das culturas anuais em função de i'J.Aei'J.Nnas zonas da
Mata, Agreste e Sertão. As barras verticais representam as produções máximas e mínimas; a
assemelham, em muitos aspectos, mais ao Pantanal do que à Amazônia. Os solos da linha horizontal a heterogeneidade (variação) de precipitação, na estação de crescimento: maior
região, na maioria distróficos (Latossolos eArgissolos Amarelos), estão sob vegetação no Sertão c mínima na Mata.

101 Além da pobreza química genérica das rochas há, pela cvapotranspiraçãoreduzida e precipitações A Figura 7.11 ilustra alguns aspectos interessantes:
elevadas, uma lixiviação intensa com uma taxa dc intempcrização não tão acentuada; nessa 1. os riscos são menores na Zona da Mata, onde ilA é mínimo, mas, em
circunstância pode ocorrer a presença de mineraisprimários facilmente intemperizáveis (moscovita,
compensação, o valor de ilN está no máximo. A redução de ilN exige muito
por exemplo) num solo com baixa saturação por bases, frequentemente álico (CARVALHO FILHO
et aI., 1991). capital;

198 199

- ~
~

PEDOLOGIA: BASE PARA DTSTINÇÃO DE AMBIF:NTES CLASSIFICAÇÃO E GEOGRAFIA DE SOLOS

2. os riscos são maiores no Sertão, onde I:1Aé o problema maior e I:1Nestá em várias unidades de terra. Por exemplo: o agricultor, numa área do domínio do Mar
mínimo. A redução de I:1A está sendo considerada fora das possibilidades de Morros, pode ter corno melhor solução para o seu problema de forrageira, o
para a maioria dos agricultores; plantio de capineira nos terraços e segmentos côncavos das elevações (forma de
3. o Agreste"? representa a melhor otimização dos deltas. O f1A não é aí tão anfiteatros), deixando as pastagens de capim-gordura nas elevações restantes.
acentuado como no Sertão, nem o f1N tão extremo quanto na maior parte dos Apesar de os solos de terraços c partes côncavas ocuparem uma área pequena, eles
solos da Zona da Mata. podem representar.um papel, dos mais essenciais, no contexto da exploração da
Os fenômenos mencionados sugerem"? que o crédito para a lavoura área como um todo (CURI et aI., 1992). Uma análise geral, baseada no tamanho
deveria ser maior, no montante, para a Zona da Mata; mas com menor tempo de da área de ocorrência de cada solo, por exemplo, tenderia a desconsiderar esses
carência. Deveria, por outro lado, ser menor no Sertão, mas com muito maior aspectos.
tempo de carência. O Agreste ocuparia, nesse contexto, a posição intermediária.
Por outro lado, estudos sobre probabilidade de precipitação!" poderiam sugerir 7.5. Classificação de Solos
a possibilidade de seleção de cultivares com ciclos diferentes para as três zonas.
A classificação é um meio de comunicação. As palavras que identificam uma
Em princípio, prevê-se que quanto mais curto for o ciclo de uma cultura, mais
classe de sol0195(ou de qualquer objeto) representam uma síntese de tudo o que se
adaptável ela será no Sertão (Seridó, por exemplo). Aí a absorção de nutri entes
sabe, sistematicamente, sobre os solos que pertencem àquela classe. As classificações
pode ser elevada, havendo água. Na Zona da Mata, onde o teor de nutrientes é
de solos estão ainda longe da perfeição relativa das classificações botânicas, zoológicas
baixo e os riscos de I:1Asão menores, culturas de ciclo mais longo (cana-de-açúcar,
etc, No entanto grandes progressos têm sido realizados nos últimos anos. E isso pode
p. ex.) passam a ser viáveis.
ter implicações práticas: há um esforço incipiente, mas que desperta muita esperança,
Uso simultâneo de várias til/idades de terra para se estudar a transferência de agrotecnologia de um país para outro, não da Europa
ou dos Estados Unidos para o Brasil, por exemplo, mas entre países situados nas áreas
Além da necessidade de regionalização das linhas mestras de apoio ao agricultor intertropicais (atualmente do Brasi I para o continente africano - Angola, Moçambique),
ou de estudos a esse respeito, deve-se ter em mente a heterogeneidadc a nível mais Percebe-se, pelo que já foi comentado anteriormente, que para tal transferência há que
local.
se considerar uma definição melhor do sistema ecológico. A classificação taxonômica
Em consonância com o que foi visto sobre a necessidade de estratificação de solos é, aí, insubstituível.
(item 7. 1.3.) ao nível de irnp lernentação, ou como subsídio mesmo para
AFAO publicou em 1974, com revisões em 1988 e 1994, o mapa de solos do
programas gerais, há necessidade de, pelo menos, algum exame mais detalhado mundo. Trata-se de um trabalho básico para um mellíor entendimento dos problemas
nos estratos,
da "geografia .da fome". Para esse trabalho usou-se uma classificação especial de
As grandes áreas pedobioclimáticas, por exemplo, são separadas com
solos, a classificação da FAO. O sistema de classificação mais bem trabalhado éo
base na identificação dc conjuntos de paisagens recorrentes (semelhantes, até
dos Estados Unidos (Soi! Taxonomyi, mas este é pouco desenvolvido no que se refere
certo grau), na área toda. Quanto ao aspecto físico, o funcionamento de uma
a algumas classes de solos de domínio tropical. Resultado: cada país tende a ter um
propriedade agrícola depende frequentemente da consideração simultânea das
sistema de classificação próprio que mais se ajuste às suas condições; ao mesmo tempo
procura-se, nas publicações principais, estabelecer relações com as classes dos outros
"'As condições bioclimáticas do Agreste, vegetação relativamente fechada, não ofereciam boas
dois sistemas (FAO e Soil Taxonomyy.
pastagens originalmente, isso ao contrário do Sertão. É provável que isso tenha contribuído para um certo
desinteresse do grande proprietário, O Agreste, em alguns trechos de Pernambuco e da Paraíba, talvez seja
um dos locais de maior densidade rural sustentável no Brasil, pelo menos até agora, (RESENDE, 1992), "'Há, quase sempre, uma dificuldade no uso dos nomes das classes de solo. Parte do problema é porque
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' Esses exemplos representam o que se prevê com base tão somente no que foi relatado anteriormente. os nomes não são familiares: a atribuição de nomes regionais às unidades de mapearnento no Rio Grande
O problema, no entanto, tem muitas Iacetas c exige conhecimentos especialízados, alheios à experiência do Sul (unidade Vacaria, Ercxim, Caxias etc.) propiciou, aparentemente, uma melhoria nesse aspecto.
dos autores, O acervo de informações ambientais contempladas na classe de solo (e unidade de mapeamento) é tão
""As médias de precipitação, mesmo se não muito baixas, acobertam uma grande variabilidade. grande que é uma pena ainda não telIDOS conseguido colocá-lo de forma mais acessível ao usuário,

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