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POESIA, POETA,

POEMA
G era rd o M ello M o u rão

C o l e ç ã o

M a p a

IUSEU /A RQ U IV O DA PO ESIA M ANUSCRITA


POESIA, POETA,
POEMA
G era rd o M ello M o u rã o

C o l e ç ã o

M a p a

MUSEU/ARQUIVO DA POESIA MANUSCRITA


© 1999, G erardo Mello Mourão

P ro je to G ra fic o
Fábio Brüggemann

C o n s e l h o E d it o r ia l
Antonio Carlos Secchin
Alckmar Luiz dos Santos
Dimas Macedo
Iaperi Araújo
Iaponan Soares (editor)
Ivone Daré Rabelo
Majela Colares
José Mindlin
Pedro Garcia
Salim Miguel
Ubiratan Machado
Walter Carlos Costa
Zahidé Lupinacci Muzart

C apa
Vinheta do Manual Symbola Heróica,
de M. Claudius Paradinus e Gabriel Simeon, 1567.

MUSEU/ARQUIVO
DA POESIA MANUSCRITA
Diretores
Iaponan Soares e Vera Araújo
Caixa Postal 12 204 - CEP 88075-970
Florianópolis - SC - Brasil
Fone/Fax 0055-048-2443195
POESIA, POETA, POEMA
(Introdução a Dora Ferreira da Silva)

Gerardo Mello Mourão

leitura - ou re-leitura - de Dora Ferreira da


A Silva, nas provas gráficas da edição de sua po­
esia reunida, é um privilégio e uma surpresa. O pri­
vilégio parece óbvio: a fortuna de contemplar um
poeta na perspectiva tridimensional e até prismática
de sua presença demiúrgica, da flor da adolescência
à frutuosa maturidade de seu canto. Assim, na
re-leitura estremecem o enigma e o estratagema da
própria formação do poema permanente e fluvial de
Dora, seu acontecimento heraclítico, sempre outro e
sempre o mesmo, como no prodígio que vai forman­
do a ninfa, a larva, a libélula, o vôo esperado da
inesperada borboleta. A poesia aqui se infiltra e se
produz em sua própria surpresa, na impressão de se
estar lendo pela primeira vez tudo aquilo que a pró­
pria memória já guardava e já sabia. Por isso, queria
Unamuno, toda leitura - sobretudo a re-leitura - deve
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ser meticulosa. Meticulosa - no sentido etimológico,


isto é, cheia de meticuli - pequenos medos, como se
fôssemos entrar por caminhos perigosos, que a cada
momento podem ser novos, podem estar sendo in­
ventados ou reinventados. A criação é a coisa do
poeta, o demiurgo, o que faz a forma das coisas, das
pessoas e dos lugares, formas que não se esgotam
nunca porque sempre que as contemplamos, as en­
contramos de novo. E são, assim, in-ventadas de novo
ao nosso amoroso conhecimento. Inventadas no sen­
tido original da palavra: invenire significa achar, e
inventio - invenção significa achamento.
O oficial do ofício do ouro ou da prata deixa
sempre na peça contrastada a marca de sua lavra. O
poeta, fabbro do poema, deixa também, em cada
verso, o contraste verificador de sua obra inteira.
De certo modo, mesmo quando abandona os proces­
sos iniciais da expressão, do trato com a palavra e
seus nexos, passando a buscar e inventar novas urgías
(demiurgias), o vero e mero poeta repete sempre seu
primeiro poema. O sopro inaugural atravessa todo o
opus poético. Em qualquer coletânea de poesias, as
Fleurs du mal, as Illuminations, a Saison en enfer,
os hinos, as elegias, os cantos, de Baudelaire,
Rimbaud, Hõlderlin, Rilke ou Leopardi, respectiva­
mente, e mais perto no tempo, de Eliot, de Pound e
assim por diante, cada verso é o fragmento, a frase
musical de um mesmo e único poema e traz o con­
traste do quilate da peça inteiriça de ouro e prata nas
sílabas lavradas. Hopkins já notava isso em seus pró­
prios versos e nos de S. João da Cruz. Só os poetas
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autênticos sabem guardar esta identidade. E esta é a


primeira impressão da re-leitura da obra reunida neste
volume de Dora, com um texto musical que se es­
tende de 1948 até 1998. Ela inventa uma frase musi­
cal, que repete incessantemente, na flauta incessan­
te, em todos os tons.
Já se disse que “ur pictura poesis”. A poesia se
compõe como a pintura. E assim como os peritos iden­
tificam, mesmo sem assinatura e sem documentos,
um texto de cores e formas de Rembrandt, os que
estão aderidos ao santo vício de ler poesia, identifi­
cam com freqüência um verso perdido ou encontrado
inesperadamente, dos poetas a cuja voz se habitua­
ram. Como se identifica até na corrupção sonora do
telefone a voz de uma pessoa amiga. Assim é que se
ouve sempre a mesma voz, nestas centenas de pági­
nas, em que. a poesia de Dora se implanta e se instaura
como um indivíduo arquitetônico único, o mesíiio da
primeira à última página, em que o primeiro verso de
Andanças (1948) - “vim rolando nas águas como pe­
dra solta” - ressoa nos últimos versos do derradeiro
canto (1997), em que õ poema aparece também rolan­
do “no concerto ou desconserto do mundo” .
Por isto mesmo, será melhor dizer, não “ut
pictura”, mas “ut musica poesis” . O opus poético se
compõe e se rege segundo a clave e a escala da par­
titura musical. A arte de escrever, prosa ou poesia,
chamava-se antigamente Gramática. Os que pratica­
vam o sagrado ofício de escrever eram chamados
gramáticos, os que se ocupam do Grama, isto é, da
letra - e é bom lembrar que as letras do alfabeto, a
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escritura, foram inventadas por um poeta, Linos, fi­


lho de Apoio com uma de suas Musas. Pois a pri­
meira, a mais antiga das Gramáticas do Ocidente,
cem ou duzentos anos antes de nossa era, é a Gramá­
tica de Dionísio, o Trácio, que aponta, em seu pri­
meiro capítulo, a leitura e a crítica da poesia como
“a coisa mais difícil para o estudioso que trata com
as letras.” Explica por que: - “porque a poesia é a
coisa de um sopro” . Ensina Descartes que é mais
fácil entender o espírito do que o corpo. Um dia um
Deus soprou uma imagem de barro, e daí contomou-se
o corpo do homem. Outro Deus soprou uma vez uma
flauta, e as serpentes e as pedras e os animais e as
árvores, os homens e as mulheres começaram a aven­
tura da dança no chão e no ar, o verbo infinitivo, o
supino, o gerúndio, e o gerundivo de formas, gestos,
corpos que de si mesmo se incorporam e
desincorporam. Não é difícil entender o sopro onipo­
tente e genesíaco que parte de um deus, e é capaz de
formar um corpo. O que é difícil é entender a gema
viva desse corpo. Como Orfeu, o poeta é o senhor do
sopro, mas o corpo criado se desprende do mito cria­
dor, como a criança que se desprende do seio mater­
no, na expressão de Rilke, e passa a ser a estrela viva
de uma constelação inesperada, na galáxia a que se
integra para sempre. Assim, o poema é a gema do
mito, o mitologema. Este é o saber poético de Dora:

... Não há maestro. Tudo o segue o


improvisado tema de uma gota de água de um grilo
ou das cigarras
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no fim da tarde. A natureza é sua camação a


alma seu módulo invisível e invenção...

. . . Um POEMA.

Neste canto, que se intitula exatamente O PO­


EMA, Dora traz à poesia de nosso tempo aquela cla­
ra e límpida voz que, como relembram sempre Michel
Déguy, Godofredo Lommi e Edi Simmons, o
Musolepto, faz de Hõlderlin o poeta por excelência,
“o poeta do poeta, o poeta do Poema”. Ainda neste
texto (O POEMA), epílogo do livro Poemas em fuga,
está dito, no primeiro verso, que “poema não ensi­
na: é pedra, flor ar e terra/fogo também, não esco­
lhido mas colhido entre coisas de passagem/pelas
mãos de um andarilho.”
1. A. Richards, em seu temerário ensaio “How
does a poem know when it is finished?” lembra que
o próprio Poema, desde que é um Poema, tem cons­
ciência de si mesmo. E que, embora o poema não
seja uma pessoa, a metáfora de sua consciência pró­
pria - o “self-conscious poem” a que se refere Michael
0 ’Neil - leva à sustentação de Coleridge, diante da
Ode a uma urna grega, de que este poema “sabe
mais do que Keats” . Aqui, vale a pena sugerir que
uma das famosas invenções de Heidegger pode ser
audaciosamente diagramada: tanto faz dizer que o
ser é a morada da palavra, como entender que a pa­
lavra é a morada do ser. Pois, também o Poema é a
morada do Poeta, como o Poeta é a morada do Poe­
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ma. E não se pode ungir o poeta com uma sagração


maior do que esta de conhecer e re-conhecer, diante
desta obra reunida de Dora Ferreira da Silva, que
seu poema sabe mais do que o Poeta. Sabe mais e
vive mais. Pois o poeta só há de durar enquanto dure
seu Poema. E o Poema dura para sempre, para lá da
história, quanto o momento genesíaco que lhe deu a
forma e a liberdade de seu corpo se situa também
para lá da história, no regaço do mito, no território
numinoso da aurora dos tempos e dos seres, quando
os vivos saúdam os mortos e os mortos saúdam os
vivos, e a vida e a morte se cantam no mesmo tom
na viola d ’amore do poeta.
O princípio da poesia, na aventura lírica de
Dora, como em toda aventura poética, é o princípio
da hospitalidade. “Le principe de la poésie est le
principe de 1'hospitalité” (Michel Déguy). O Poeta
é hóspede do Poema, e os dois são hóspedes e hospe­
deiros da Poesia. Como o Apoio délfico, a Poesia e
o Poeta não ensinam nada. Mas proferem o oráculo,
o Poema. Como a Pítia sagrada, o Poema - óraculo
do Poeta e da Poesia - também não ensina. Faz mais
do que isto: revela. E revela tudo, pois revela a Be­
leza. A Beleza é, então e finalmente, a coisa do Po­
eta, a coisa da Poesia, aquela “espressione riuscita”
invocada por Croce, das coisas, dos lugares, das
pessoas, das circunstâncias do espaço e do tempo. É
certo que o conhecimento lógico, que se limita e se
esgota na epiderme conceituai da realidade, não con­
segue pisar aquelas zonas meduláres do conhecimento
mágico, intuitivo, onde dorme a fremente beleza de
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todas as coisas vivas, rastro dos tempos aurorais do


mito, esquecidos pela história, mas lembrados subi­
tamente pelo meticuloso entusiasmo do Poeta, curador
da memória genealógica da criação. A lembrança
brota do esquecimento, pois, como advertia Platão,
a gente só se lembra daquilo que esqueceu. O poeta
é o alquimista das alquimias da memória e ressuscita
a beleza inaugural de todas as circunstâncias da vida.
Assim é que para o homem aderido ao conhecimento
conceituai, o encontro da beleza se circunscreve à
aparência benevolente da fantasia hedonista. Mas o
poeta vai buscar a beleza no fundo do mar, no oco
do mundo, nas alamedas do Olimpo ou nos abismos
do inferno. Ariosto proclama a beleza das feridas no
peito dos guerreiros, o Dante canta a beleza do des­
file dos condenados, como Virgílio canta a beleza do
incêndio horroroso de Tróia e Shakespeare a beleza
da ímpia morte dos amantes sepultados em vida. E
assim por diante. Ninguém melhor que a alquimista
Dora mostraria as belezas ocultas ao comum dos
mortais, em momentos de inigualável conhecimento
mágico, desde os primeiros cantos de Andanças e a
suite pungente das Tapeçarias.
Como nas duas passagens de H õlderlin,
evocadas por Heidegger no pequeno e cristalino en­
saio sobre a essência da poesia - a mais inocente e,
ao mesmo tempo, a mais perigosa das ocupações -
assim é a Beleza. Certa vez, num encontro em Lon­
dres, Brancusi perguntou a Pound o que buscava o
poeta em seu trabalho. “Beauty” - respondeu o Poe­
ta. Procurava a Beleza, trabalhava a Beleza. Oficial
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do mesmo ofício, o famoso escultor romeno fechou


os olhos, sacudiu pensativamente a cabeça e disse:
“Beauty is difficult” . A Beleza é difícil, a mais difí­
cil das caças ousadas pelo “homo Venator”, na cobi­
ça litúrgica e sacramental que está dentro de todo ser
que mamou em peito de mulher. A Beleza é difícil,
mas é também a mais fácil das coisas. E a única
coisa inconfundível que se pode achar no mundo. E
impossível não a reconhecer nos breves cantos da
suite órfica dos textos finais do último poema, deste
livro, com o desfile das deusas, a Grande Mãe, as
duas Artemis, Afrodite, Perséfone, Hécate, Tálida.
Talvez existam os trezentos e sessenta modos
de escrever poesia, referidos por Kipling, lembra­
dos até por T. S. Eliot. Essa suposta pluralidade
não elide a natureza singular da poesia, uma e úni­
ca. Afinal, não sabemos muita coisa sobre a poesia
e sobre o próprio Poema que, como adverte Michael
0 ’Neill, há de ser sempre uma metáfora, e ainda
assim, com o risco de transformar-se num enigma.
Mas isto basta para a alegria de encontrar a Poesia
e o Poema ao longo da obra aqui reunida de Dora.
Nosso século assistiu a uma salubre inquietação po­
ética, da qual resultaram fecundas aberturas, mas
também estéreis paroxismos e desvios erráticos, no
campo das letras e das artes em geral. A lucidez de
um dos maiores artistas contemporâneos, Picasso,
em seu Segundo Manifesto, chamava a atenção para
o risco que podia comprometer os protagonistas da
renovação estética. Faziam-se pesquisas da mais alta
qualidade, mas um grande número de artistas co­
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meçava a divulgar e impor o esboço didático das


pesquisas como obra conclusa. Começou a rarear o
número de poetas, artistas plásticos e músicos, subs­
tituídos por pesquisadores, nem sempre aparelha­
dos, da linguagem poética, da linguagem plástica e
da linguagem musical. De um modo geral, os poe­
tas em voga começam, bem ou mal, em nome de
uma fé (para não dizer de uma doutrina, o que seria
pior, como ocorreu com o grupo surrealista, que
colocaria a poesia a serviço da revolução, cuja fi­
gura mais coroada seria o poeta Aragon, levado no
fim da vida a uma confissão melancólica: “eu perdi
meu tem po”).
O que importa notar é que muitos dos con­
temporâneos - o que é uma pena - ignoram a adver­
tência de Rimbaud, de que é preciso sempre e abso­
lutamente “ser moderno” . Em vez disso, fazem ques­
tão de ser “ modernistas “ , o que é outra coisa. Fica­
ram enclausurados em suas experiências, no futuris­
mo, no dadaísmo, no cubismo, no surrealismo, no
ultraísmo, no construtivismo, no criacionismo, no
concretismo etc., etc., etc. Imolaram tudo ao pro­
cesso. Mas a poesia não se exaure no processo. Ela
é uma forma, com “o ” aberto, não uma fôrma com
“ô” fechado. A fôrma, o molde, é exatamente a marca
da composição morta, da composição acadêmica, que
ignora a invenção e a liberdade próprias da Poesia
de todos os tempos. A revolução da linguagem poé­
tica teve uma de suas palavras de ordem: a salutar
advertência de Verlaine, de que é preciso torcer o
pescoço da eloqüência.
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últimos tempos. E estranhou porque Borges era, anos


antes, protagonista do ultraísmo espanhol. Borges
explicou-se: “é que eu evoluí” . - “Evoluiu como?” -
“Evoluí para Boileau”. Apesar das dimensões da
poesia do velho clássico francês, e apesar da nota de
humor desse diálogo precioso, evoluir para Boileau
seria evoluir para Homero, para Virgílio, para o
Dante. É ainda da sabedoria de Borges a observação
de que a poesia “é, especialmente, seu tom” . Su tono.
Na verdade, quando lemos Hõlderlin, parece que
ouvimos o tom de sua voz. Todo poeta acredita co­
nhecer o tom da voz de Rilke. E assim de Baudelaire.
E assim de Rimbaud. Mas ninguém conhece a voz
dos fazedores de versos falsos. Eles ficaram afônicos
ao ancorarem nalgum dos “ismos” oportunos a seu
tempo. Precisam evoluir como Borges. “Hacia
Boileau” . Pois, como dizia o grande poeta português
Miguel Torga, “está a faltar-lhes o tom”.
O Poema de Dora sustenta seu tom do princí­
pio ao fim. Não porque seja elaborado e escandido
segundo as regras dos compêndios de Arte Poética.
Não adianta aprender as regras, se é que as há, rigo­
rosamente, como querem os fundamentalistas. O rit­
mo está mesmo é no sopro do poeta. Mas, assim
como o músico que sabe apenas tocar de ouvido, e
não consegue, só com a graça de seus recursos natu­
rais, elevar-se à partitura do “opus” bachiano ou
mozartiano, o poeta de ofício precisa, para a lavra e
o lavor do poema duradouro, cultivar também os
caprichos de sua matéria-prima - a palavra e seu jogo
dentro de uma sintaxe lírica especial. Aí se identifi­
15

ca, por exemplo, a grandeza revolucionária de Bau-


delaire, talvez o primeiro grande poeta “moderno”
de sua língua. Dele disse Thibaudet que “Baudelaire
escrevia a poesia de Sainte-Beuve, mais a poesia.
Alguns sabem a poesia de Sainte-Beuve, a que está
nas regras de Sainte-Beuve - ou de Croce, ou de
Horácio - mas não sabem a poesia propriamente dita.
Outros sabem a poesia, mas não sabem a poesia de
Sainte-Beuve. Tocam de ouvido, mas não alcançam
a grande música. Dora Ferreira da Silva dá o tom da
poesia, o seu tom, mais o tom da poesia elaborada,
com a sabedoria aprendida, como os que foram ensi­
nados ao trato das uvas no lagar, para o religioso
fermento do vinho nobre nas dornas silenciosas. Isto
fica claro, muito vivamente quando alguns de seus
poemas visitam a música e a pintura (Satie, Mahler
etc.) “Le parfum, la couleur et le son se répondent” .
Seus poemas sempre respondem com palavras a to­
dos os sentidos. Por que não o sabor? O bruxo José
Lezama Lima lembra que a poesia de Keats é um
pêssego. O pêssego responde ao tato, ao sabor, ao
perfume e à forma que lhe são hereníes e in-herentes.
E Raul Young queria, segundo leis de Efrain To­
más, que o corpo do Poema fosse como o corpo do
homem e da mulher na leitura erótica e agônica do
tálamo flexível e maduro, banhado por luares de lâm­
padas mudas e aromas estudiosamente aveludados
na pele, ao murmúrio de vozes” moribundas. Isto
não quer dizer que devamos - e até não podemos -
cometer o incesto de reproduzir em palavra e cor, as
linhas de um quadro e o som de uma sonata. Mallarmé
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reagiu com desgosto, e até com indignação, à tenta­


tiva de musicalização de “L ’après-midi d ’un faune” .
Dora freqüenta, com devoção romeira, os lu­
gares sagrados da Grécia. É um hábito, talvez uma
segunda natureza de todos os que têm o vício egré­
gio de conviver com mitos, com a circunstância inau­
gural daquele mundo vicioso (vicioso, no sentido
quinhentista da palavra, isto é, abundante), vicioso
de ninfas e de fontes, de deuses e de musas. O cuba­
no Lezama Lima lembra que Goethe, o mais “mo­
derno” dos alemães e dos europeus de seu tempo,
partiu certa vez para uma peregrinação a Assis. Que­
ria orar e meditar nos lugares sagrados do Poverello
Francisco e de Santa C lara. A meio caminho
encontrou-se com as ruínas de um velho templo
etrusco de Minerva - a Palas de Atenas, a padroeira
dos tocadores de flauta - interrompeu a viagem e
ficou ali durante dois dias em oração fervorosa à
deusa de olhos garços. Como o Poema, a Grécia é
hóspede e hospedeira permanente do Poeta. Para
nosso mundo ocidental heleno-judaico-cristão, de seus
montes, de suas grutas, da espuma de suas ondas nas
praias de Poseidon, veio o primeiro canto que apren­
demos no grande poema inaugural de Hesíodo, que
canta os tempos aurorais em que os deuses e deusas
viviam no meio dos homens e com eles se confundi­
am suas próprias linhagens familiares, no leito das
Musas e dos pastores que sabiam soprar a avena de
cinco furos. Por isso, o primeiro verso da cantata
pastoral de Hesíodo, o mais antigo dos que nos res­
tam do mundo grego, começa com convite irresistível
17

a todos os poetas: “antes de qualquer outra coisa,


vamos cantar as musas helicônias”. E ali que a poe­
sia recebe a sagrada semente no útero sagrado em
que o Poema assume forma e expressão: aquele ne­
gócio de Zenão de Eléia, para quem o Poema é o
“Logos” , e o “Logos” é a Beleza. Esta Beleza tem,
ensina o eleata, uma dimensão, um “metros” . A re­
petição do “Logos” , uma palavra, mais outra, mais
outra e mais outra, gera a configuração do “Pachos”
- palavra que significa “espessura”. Esta espessura
configura a forma e a expressão da Beleza, as pala­
vras, uma atrás da outra, sobre a outra, debaixo da
outra, com uma força dominadora, destruindo para
construir, na ânsia da grande ternura genesíaca. A
ternura da flor que se destrói para consumar o fruto.
A poesia de Dora alcança o “corpus” do poema exa­
tamente assim, neste rito eleata da dimensão e da
espessura da palavra.
Já se disse que a pintura é o landscape, a pai­
sagem, enquanto a poesia é o in-scape. A palavra
in-scape foi introduzida na poesia inglesa por Gerard
Manley Hopkins, consumando a expressão, a medi­
da do ser, no momento em que o homo se ergue no
húmus da gruta bendita para ser forma. Klee, sob
grande influência de Heidegger, queria isto de sua
arte: não ser um produto, mas uma expressão
genesíaca. Nestes tempos indigentes em que a defi­
ciência ou a depravação do saber se tornou incapaz
do conhecimento mágico, quando a cultura vai sen­
do tratada como uma “indústria” , o Poema e a obra
de arte em geral começam a ser destituídos da
18

taumaturgia e da demiurgia de sua origem erótica,


no leito de folhas ou de areia em que os deuses se
entregavam às ninfas e às musas, e os pastores de
abelhas ou de ovelhas seduziam com o canto de sua
flauta as deusas peregrinantes. Naquele tempo, as
fêmeas dos bosques e das ondas arrastavam com sua
voz os homens inocentes para a prática do milagre e
da mágica em que se criava um momento de beleza.
Hoje já são poucos os que ainda cultivam, como uma
religião secreta, um mistério órfico, a mágica de criar
a Beleza, o Poema, que dura para sempre. Os tem­
pos corruptos empenham-se em “fabricar” a Beleza
apenas como um “produto cultural” .
Mas estas notas não são um texto crítico. Mui­
to menos um texto de crítica acadêmica ou ortodoxa.
O poeta que as redige não é um crítico de ofício.
Não dispõe do equipamento laboratorial de que se
servem os críticos de ofício para o exame de uma
obra como esta, do volume de Poesia Reunida da
Dora Ferreira da Silva. Outros escritores, estes sim,
críticos competentes já o fizeram, e aqui mesmo, no
final dos textos poéticos, estão os ensaios de escrito­
res como Euryalo Cannabrava, Vilém Flusser,
Cassiano Ricardo, Gilberto de Melo Kujawski, o
saudoso Nogueira Moutinho, Constança Marcondes
César, Cassiano Ricardo, Ivan Junqueira, José Pau­
lo Paes, além de uma carta comovida de Agostinho
da Silva, profeta de nossa língua e de nossos reinos e
impérios. Como se vê, uma fortuna crítica que não é
pequena. Para Agostinho da Silva, a poesia de Dora,
ao mesmo tempo em que exige o relatório de um
19

crítico de gênio, suportaria também o testemunho de


um poeta. É este testemunho que me atrevo a trazer
aqui, resultado de um convívio demoroso com esta
poesia única na literatura de nossa língua e na litera­
tura contemporânea de qualquer outra língua. Não
é, pois, um ensaio, muito menos um ensaio crítico,
que deveria selecionar e citar versos, referir livros e
datas e dar conta das traduções exemplares a que a
autora se dedicou, de Hõlderlin a Rilke, a Lawrence,
nomes em cuja linhagem lírica se inscreve seu pró­
prio nome. Todos sabem como são füteis e provinci­
anas as dimensões de grandeza comparativa com que
às vezes se qualificam os escritores. Más uma coisa
parece certa: não há e não houve neste país mulher
alguma de presença tão viva e de voz tão alta, na
história de nossa escritura poética e de nossa escritu­
ra em geral, como Dora Ferreira da Silva. E não falo
de homens, porque diante destes poemas, não se pode
falar senão da Musa propriamente dita. E assim como
aqueles foram os funerais de Heitor, esta é a introdu­
ção ao poema de Dora, com o temor e o tremor dos
olhos e dos ouvidos “doraleptos” para sempre.
23

RONDÓ DA PRISÃO DE CAMÕES


NO PÁTIO DO TRONCO

Pelas bandas do Rossío


numa taberna de vinhos
guitarras e violões
levaram um dia preso
um Luís Vaz de Camões.

Foi preso por umas rixas


na Porta de Santo Antão
entre alguazis taberneiros
e fêmeas de ocasião.

Luís de Camões, Luís


fora à taberna da praça
tomar uns vinhos do Douro
dar ares de sua graça

e quem sabe mais o quê.


Foi contar suas histórias,
seus trabalhos nunca usados
Aljubarrotas e rotas
sonhadas, depois vividas
a Calicuts e Goas
por Chinas Africas índias
de mares e terras boas

... e quem sabe mais o quê...

... beber seus vinhos do Douro


e quem sabe mais o quê...

Entre dois soldados d'armas


levado ao Pátio do Tronco
recebeu voz de prisão
do meirinho Sancho Bronco.

Quiseram tirar-lhe as armas


para deitá-lo no chão:
saltou à frente dos biltres
com sua espada na mão.

Passaram o pôr em termos


o processo da prisão,
à luz de fachos acesos
perguntou-lhe um escrivão
as perguntas de costumes
que fazem na ocasião:

Qual seu nome seu estado


sua idade e profissão
onde morou onde mora
se tem pai se tem irmão
se é solteiro se é casado
ou se vive amancebado
com alguma barregã,
onde perdeu um dos olhos,
que coisa veio fazer
na Porta de Santo Ántão.

“O que outros não navegaram


por terra e mar naveguei
e num mar de sangue em Ceuta
cinqüenta mouros matei
na ponta de alfange mouro
um de meus olhos deixei.

Perguntem meu nome ao Tejo


e às águas que vou cruzar
português de Portugal
morei nas léguas do mar
elas conhecem meu nome
elas o sabem cantar.

Idade, tenho a que tenho


mais a idade que terá
o reino de Portugal:
enquanto eu mesmo existir
este reino existirá
se morrer um de nós dois
o outro também morrerá.

Escrivão de suas lendas


curador de seus defuntos
destino meu e do reino
é viver e morrer juntos.
Moro no mar e na terra
nem casado nem solteiro
sou servido em meus serviços
pelas sereias do mar.

De profissão fui soldado


e marinheiro do rei
e o reino sempre chegou
onde eu primeiro cheguei.
Hoje sou cantor das ondas
das velas em seus veleiros
das armas de Portugal
e seus barões cavaleiros” .

Perguntado por seus bens


disse que tinha uma espada
uma lira uma guitarra
e um copo para beber
e que estes bens - sua espada,
o copo e a lira - sabia
manejar como ninguém,
nas índias na Costa d’África
ou nas tascas de gaudérios
entre o Restelo e Belém.

De tudo isso vão dar conta


umas rumas de papel
que irá trazer de Macau
molhadas no sal das águas
em naufrágio no Mecongo;
27

com seus versos de dez sílabas


limados em boa lima
na língua melhor da terra
de estrofes de oitava rima.

Tinha também umas glosas


em sonetos escandidos
sôbolos rios e mares
na língua de Portugal
e nestes versos guardava
o seu melhor cabedal

e o nome de uma senhora


dona de seu coração
mas não diria este nome
diante duma ralé
no pátio de uma prisão.
“Agora saiam da frente
que a espada que matou mouros
mata qualquer alguazil”.

E pela porta de pedra


abriu caminho entre os biltres,
o fero ferro na mão;
saiu cantando, de volta
à Porta de Santo Antão,
onde esperavam jograis
e vinhos verdes do Dão
os marinheiros das índias
e as fêmeas de ocasião.

Fortaleza, 10.12.98
LAURÊNCIA

De minha tia Laurência


de tantas boas lembranças,
aos vinte anos de idade
herdei herdades e heranças.

Deixou-me uns contos de réis


no Banco Melo em Lisboa
e um sobrado no arrabalde
por bandas da Madragoa.

E ainda umas terras verdes


no Concelho do Mourão
com seus vinhedos e as uvas
melhores da região.

Deixou uma quinta a meias


com minha prima Celeste
junto às várzeas cultivadas
pelo Senhor Arcipreste.
E também uma terrinha
na Quinta-Flor de Olivença
herdada de um tio padre
segundo cartas de avença.

E lá na serra da Estrela
da velha tia Lourença
dez borregos vinte ovelhas
e os queijos feitos na prensa.

E nos bons ares do Algarve


um plantio de sobreiros
uns olivais em Valença
de azeites e lagareiros.

Meu tio Antônio Ribeiro


dos Reguengos do Ramalho
deixou-me sua paixão
pelos naipes do baralho.

Deixou-me um punhal de ouro


mais um baralho francês
e eu passei a morar junto
com damas valetes reis.

Volto aos vales do Alentejo


por norte sul e nordeste
ali sou rico e feliz
bem que nada mais me reste
a não ser os ares puros
da paisagem agreste
e uma lembrança dos olhos
de minha prima Celeste

e da brisa das colinas


a suave recendência
do doce e querido nome
de minha tia Laurência.

Copacabana, 12.1.1999
« f

GERARDO MELLO MOURÃO

Nasceu no Ceará em 1917. Jornalista, ensaísta, ficcionista


e poeta, com alguns de seus livros editados no exterior.
Sua obra literária se caracteriza pela originalidade, tanto
do ponto de vista formal quanto pela temática. E autor, en­
tre outras, das obras poéticas Cabo das Tormentas, O País
dos Morõés e Invenção do Mar, do romance Valete de Es­
pada, do livro de contos Piero delia Francêsca ou as Vizi­
nhas Chilenas e do volume de ensaios Invenção do Saber.
Este livro foi composto no estúdio da
editora Letras Contemporâneas e impres­
so na Indústria e Editora Gráfica Agnus
COLEÇÃO MAPA

Wilson Martins - Mallarmé e os dicionários


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