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A POLÍTICA RUSSA NO ESPAÇO PÓS-

SOVIÉTICO: A influência do Neo-Eurasianismo e


dos Recursos Energéticos

Autor: Frederico Augusto Brugnara


Orientador: Professor Doutor Pedro Fonseca
Coorientadora: Professora Doutora Maraluce Custódio

Dissertação para obtenção de grau de Mestre


em Ciência Política

LISBOA
2015
I

FREDERICO AUGUSTO BRUGNARA

A POLÍTICA RUSSA NO ESPAÇO PÓS-


SOVIÉTICO: A influência do Neo-Eurasianismo e
dos Recursos Energéticos

Dissertação de Mestrado apresentada ao 2º ciclo de


estudos em Ciência Política pelo Instituto Superior
de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de
Lisboa, como requisito parcial à obtenção do título
de Mestre em Ciência Política.
Orientador: Professor Doutor Pedro Fonseca
Co-Orientadora: Professora Doutora Maraluce
Custódio

LISBOA
2015
II

FREDERICO AUGUSTO BRUGNARA

A POLÍTICA RUSSA NO ESPAÇO PÓS-SOVIÉTICO:


A influência do Neo-Eurasianismo e dos Recursos Energéticos

Dissertação de Mestrado submetida ao Instituto de Ciências Sociais e Políticas da


Universidade de Lisboa, como requisito parcila para a obtenção do título de Mestre em
Ciência Política e aprovada pela seguinte banca examinadora:

_______________________________________________________
Professor Doutor Pedro Fonseca (orientador)
ISCSP - Universidade de Lisboa

_______________________________________________________
Professora Doutora Maraluce Custódio (co-orientadora)
Escola Superior Dom Helder Câmara

_______________________________________________________
Professora Doutora Maria Cristina Montalvão Marques Sarmento
ISCSP - Universidade de Lisboa

_______________________________________________________
Professora Doutora Sandra Maria Rodrigues Balão
ISCSP - Universidade de Lisboa

LISBOA
2015
III

DEDICATÓRIA

Dedicado aos meus pais e ao meu irmão, com


amor e gratidão pelo infinito apoio e inexorável
encorajamento.
IV

AGRADECIMENTOS

Uma vez me disseram que o processo de produção de uma dissertação é um trabalho


bastante solitário, mas graças às seguintes pessoas e Instituições eu não me senti sozinho:
Em primeiro lugar, agradeço aos meus pais Ricardo e Edna, por terem sido os maiores
apoiadores e patrocinadores deste sonho, pelo amor investido, pelo exemplo de caráter,
honestidade e simplicidade, e por nunca terem me deixado pensar na possibilidade de desistir;
Agradeço ao meu irmão Ricardo, por ter sido minha fonte de inspiração intelectual,
sempre muito companheiro, solícito e íntegro, e igualmente à sua esposa Michele;
Agradeço aos meus familiares, que sempre me apoiaram e torceram pelo meu sucesso;
Agradeço à Anna Paula, pela atenção, carinho, dedicação e paciência despendida ao
longo desta trajetória;
Agradeço à Profª. Drª. Maraluce M. Custódio, pela orientação e valorosa amizade;
Agradeço ao Prof. Dr. Pedro Fonseca, pelo tempo dedicado a mim e igual orientação;
Agradeço aos muitos colegas que passaram pela minha vida nestes anos de estudos em
Belo Horizonte, Coimbra e Lisboa, onde fiz preciosas amizades;
Agradeço às instituições Centro Universitário de Belo Horizonte, Universidade de
Coimbra, Escola Superior Dom Helder Câmara e Universidade de Lisboa e aos seus
respectivos professores, que ajudaram na minha formação acadêmica e cidadã;
Agradeço em especial ao Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas na figura
dos seus funcionários, pela qualidade e presteza dos serviços;
Agradeço à República Portuguesa, pela oportunidade de ter sido residente e estudante
neste país e por ter me acolhido de forma a me fazer sentir um cidadão integrado à sociedade;
Agradeço à amada Instituição Cruzeiro Esporte Clube, pelos emocionantes jogos em
todos estes anos que o acompanhei de Portugal, mas principalmente pelas glórias
conquistadas em 2013 e 2014 e por não ter sucumbido ao vergonhoso rebaixamento em 2011;
E por último, agradeço às muitas bandas de rock ouvidas, às xícaras de café bebidas e
a todo incentivo material que colaborou neste período, seja no aspecto acadêmico ou
simplesmente ajudando a suportar o peso da saudade de casa.
O fim deste percurso acadêmico significa também o fim de cinco anos de estudos no
estrangeiro e o desejo de conclui-lo é proporcional ao desejo de retornar para casa.
V

RESUMO

A dissertação de Mestrado pretende estudar o surgimento e a influência do Neo-


Eurasianismo na prática política da Federação Russa face aos acontecimentos que envolvem o
país e a vizinhança pós-soviética nos últimos anos, principalmente após a anexação da
Península da Crimeia pela Rússia. A dissertação considera também a importância que os
recursos energéticos exercem dentro do espaço eurasiático no sentido de impulsionar a Rússia
para uma posição de superpotência global semelhante à ocupada anteriormente pela URSS.
Neste sentido, pretendemos demonstrar que os recursos naturais russos servem como um
instrumento de aplicação da política neoeurasianista do Kremlin para manutenção de Poder e
influência regional. Para tanto, esta dissertação foi estrategicamente dividida em quatro
capítulos, procurando estabelecer e descrever os elementos-chave que compõem o argumento:
a geografia, as particularidades identitárias russas, a Geopolítica e o elemento energético.
Com base no estudo das teorias e observação dos acontecimentos, concluímos que existe, até
certo ponto, influência direta da corrente neoeurasianista nas ações perpetradas pelo Kremlin,
mas que, por outro lado, algumas situações refletem apenas a oportunidade e o momento em
questão, não significando o resultado de um projeto geopolítico anterior.

PALAVRAS-CHAVE: Neo-Eurasianismo, Pós-Sovietismo, Política Externa,


Crimeia, Geopolítica Russa, Recursos Energéticos.
VI

ABSTRACT

The master‟s dissertation intends to study the emergence and the influence of the Neo-
Eurasianism in the Russian Federation political practice in face of the incidents involving the
country and the post-Soviet space in recent years, mostly after the Crimea Peninsula
annexation by Russia. The dissertation also considers the importance that energy resources
exert within the Eurasian space in order to propel the Russia to a global superpower position
similar to the formerly occupied by the USSR. In this sense, we intend to demonstrate that the
Russian natural resources serves as an implementing tool of the neoeurasianism policy by the
Kremlin for power maintenance and regional influence. Therefore, our study was divided into
four chapters, trying to establish and describe the argument key elements: Geography, the
Russian identity particularities, the Geopolitics and the energy question. Based on the study of
theory and on the events observation, we conclude that there are, to some extent, direct
influence of the neoeurasianism ideas in the actions perpetrated by the Kremlin, but, on the
other hand, some situations reflects only the opportunity of the moment, not resulting from a
previous geopolitical project.

PALAVRAS-CHAVE: Neo-Eurasianism, Post-Sovietism, Foreign Policy, Crimea,


Russian Geopolitics, Energy Resources.
VII

ÍNDICE

DEDICATÓRIA ......................................................................................................... III


AGRADECIMENTOS ............................................................................................... IV
RESUMO ...................................................................................................................... V
ABSTRACT ................................................................................................................ VI
ÍNDICE DE MAPAS, TABELAS E GRÁFICOS ................................................... IX

INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 10

1. O REFERENCIAL GEOGRÁFICO ................................................................ 18

1.1. O Espaço Geográfico Eurasiático ................................................................. 19


1.2. O Espaço Geográfico Russo ........................................................................... 20
1.2.1. As Características Físicas ............................................................................. 23

2. A ANÁLISE IDENTITÁRIA ............................................................................ 26

2.1. A Rus de Kiev e as Etnias Eslavas ................................................................ 27


2.2. O Cristianismo Ortodoxo como Dogma Oficial ........................................... 30
2.3. Os Invasores Mongóis .................................................................................... 31
2.4. O Principado de Moscóvia se Destaca .......................................................... 33
2.5. A Influência Ocidental de Pedro, o Grande (1682-1725) ............................ 36
2.6. Ásia ou Europa? O Debate entre Eslavófilos e Ocidentalistas ................... 39
2.6.1. Da Identidade à Geopolítica: O Eurasianismo ............................................. 41

3. A GEOPOLÍTICA E NEOEURASIANISMO ................................................. 47

3.1. Sir Halford J. Mackinder e a Teoria do Heartland Eurasiático ................. 49


3.2. Karl Haushofer e as Pan-Regiões da Geopolitik Alemã .............................. 51
3.3. O Neoeurasianismo e as Escolas Geopolíticas Russas ................................. 54
3.3.1. O Ocidentalismo de Dmitri Trenin ............................................................... 57
3.3.2. O Civilizacionismo de Gennady Zyuganov e Nikolai Nartov ...................... 59
3.3.3. O Geoeconomicismo de Vladimir Kolosov e Nikolai Mironenko ............... 61
3.3.4. O Expansionismo Eurasiático de Alexander Dugin ..................................... 63
VIII

3.4. A Comunidade dos Estados Independentes (CEI) ............................................ 65

4. A ENERGIA COMO INSTRUMENTO DE PODER ..................................... 71

4.1. O Protagonismo dos Recursos Naturais ........................................................... 73


4.2. A Nova Rússia e a Crise dos Anos 1990 .......................................................... 75
4.3. Vladimir Putin e o Surgimento do Império Energético .................................... 77
4.3.1. O Energy Power Russo ................................................................................. 81

4.4. A (Inter)Dependência Russa ............................................................................. 86


4.4.1. A Euromaidan e seus desdobramentos ......................................................... 88
4.4.2. Ações e Consequências para Moscovo ......................................................... 90

CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................... 94

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 98


IX

ÍNDICE DE MAPAS, TABELAS E GRÁFICOS

Mapa 1: O Espaço Eurasiático ...................................................................................... 19


Mapa 2: Mapa político da Federação russa em 2015 (não contempla a península
anexada) ................................................................................................................................... 21
Mapa 3: Mapa da expansão russa de 1533 a 1894 ........................................................ 22
Mapa 4: Moscovo e os rios da Rússia Europeia (1460-1860) ...................................... 25
Mapa 5: A Rus de Kiev (880-1054) ............................................................................. 28
Mapa 6: A Conquista da Rússia pelos Mongóis (1219-1241) ...................................... 32
Mapa 7: A Ascensão de Moscovo (1261-1533) ........................................................... 34
Mapa 8: Populações e Províncias na Rússia em 1724 .................................................. 38
Mapa 9: O êxodo russo (1917-1923) ............................................................................ 42
Mapa 10: Mapa do Heartland Eurasiático de Halford J. Mackinder ............................. 50
Mapa 11: Mapa do mundo multipolar. Quatro zonas – quatro polos ............................ 53
Mapa 12: Círculos Concêntricos Geoeconômicos de Kolosov e Mironenko ............... 62
Mapa 13: 15 Estados Independentes de Março de 1990 a Dezembro de 1991 ............. 66
Mapa 14: A Comunidade dos Estados Independentes .................................................. 67
Mapa 15: O Irã como fornecedor extra para a Europa face à Rússia ............................ 86
Mapa 16: Russos na Ucrânia em porcentagem ............................................................. 89

Tabela 1: Taxa de Crescimento anual do Produto Interno Bruto da Federação Russa . 76

Gráfico 1: Projeção de Crescimento Populacional Global ............................................ 75


Gráfico 2: Preço do barril de petróleo em US$ ............................................................. 92
10

INTRODUÇÃO

A dissolução do Império Comunista em 1991, alterou significativamente a


configuração do sistema político internacional. Extinguiu-se o bipolarismo ideológico que
persistia desde o fim da II Guerra Mundial permitindo que o modelo político-ideológico dos
Estados Unidos prevalecesse. A nível regional, o abalo nas repúblicas que constituíam a ex-
URSS foi iminente: uma série de desafios internos de carácter étnico, institucional e
econômico, relacionados principalmente à perda da administração centralizada do Kremlin,
puderam ser verificados nas várias unidades independentes que se formavam uma após a outra
(MARCU, 2007; TSYGANKOV, 2003). Neste sentido, destaca-se o desafio individual da
Federação Russa, antigo centro do poder soviético, que viu-se na incumbência de retomar o
controle em sua zona de influência estratégica por se encontrar diante de uma situação de rara
ambiguidade: das 15 novas repúblicas, a Rússia absorveu da extinta URSS a maior parte do
território, da população e dos recursos energéticos, mas lhe faltava unidade em termos de
identidade comum.
De posse das riquezas do subsolo, dos armamentos nucleares soviéticos e das
instituições mais ou menos fortalecidas, o cenário internacional oscilante não permitiu, até os
anos 2000, que o país retomasse sua condição de potência global. Enquanto isso, o mundo
Ocidental passava pelo processo de globalização de mercados com a criação de blocos
econômicos regionais que se expandiam cada vez mais pelos vários continentes, a exemplo da
APEC, MERCOSUL e NAFTA1, sem contar a fortalecida União Europeia. Por outro lado, a
questão identitária vai se tornar mais latente quando as relações entre três novos Estados,
Rússia, Ucrânia e Bielorrússia, que compartilham a mesma origem eslava oriental e que se
interligam por condutoras de gás dentro de um fluxo geoeconómico necessário para conexão
da produção energética russa ao consumidor final europeu, se desenvolver nos anos seguintes.
Dentro desta miscelânea étnica, política e econômica, vai surgir uma ideologia que, baseada
no Eurasianismo do início do séc. XX, será adaptada à realidade dos anos 1990 e receberá o
nome de Neoeurasianismo. Convém, entretanto, descrever o movimento inicial para
posteriormente entendermos o segundo.
O Eurasianismo foi uma teoria que teve grande repercussão e aceitação entre
intelectuais russos exilados durante os eventos que envolveram a Primeira Guerra Mundial, a

1
Asia-Pacific Economic Cooperation (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico), fundado em 1989; o
Mercado Comum do Sul, fundado em 1991; e North American Free Trade (Tratado Norte-Americano de Livre
Comércio), que entrou em vigor em 1994.
11

Revolução de 1917 e a Guerra Civil que se seguiu até 1921. Contrários ao bolchevismo que
estava em plena escalada no país, um grupo de notáveis personalidades acadêmicas e
artísticas, principalmente, desenvolveu um modelo ideológico alternativo que se centrava na
ideia de que a Rússia, com suas características geográficas particulares (principalmente o fato
de estar presente em dois continentes e absorver tanto da cultura europeia quanto asiática, por
exemplo), deveria ser governada por um líder que administrasse imperialmente, estivesse
atento às necessidades dos russos étnicos dentro e fora do império e que cuidasse das
fronteiras nacionais (DANKS, 2009; KENNEDY & DANKS, 2001; LARUELLE, 2008).
Trata-se de um pensamento essencialmente autocrata e imperialista, ligado às elites mais
conservadoras do país e que viam nos objetivos internacionalistas do comunismo soviético
um desprestígio à ontologia do povo russo. Estes notáveis, que se concentravam
principalmente nas capitais europeias, também não viam com bons olhos uma aproximação de
Moscovo ao mundo Ocidental porque acreditavam que a Rússia possuía atributos culturais
muito específicos que não lhe fazia totalmente europeia nem asiática, mas um Estado híbrido
e que estas particularidades deveriam ser valorizadas em detrimento da cultura “impura” do
Ocidente.
Nos anos 1990, novamente em um momento de agitação política após o fim da URSS,
questões vitais como o papel da Rússia e do povo russo no mundo ou quais estratégias e
objetivos deveriam ser alcançados a partir de agora, eram frequentes e careciam de urgente
solução. À medida que os novos Estados iam surgindo, afinidades étnicas e geográficas
reorientavam as relações dentro do espaço pós-soviético: Na Ásia Central prevaleciam as
repúblicas com identidade nacional e estatal ligada à espiritualidade islâmica (Cazaquistão,
Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão), na região dos Balcãs, Estônia,
Letônia e Lituânia tinham suas atenções mais voltadas à possibilidade de se integrarem ao
bloco europeu e participarem mais ativamente do mundo Ocidental, outros países
encontravam-se num enclave entre a influência russa e a opção Ocidental como a Armênia e a
Geórgia2. A Federação Russa, por outro lado, tornou-se um “problema geográfico”. Perdida a
identidade imperial nos anos 1920 e agora, também, a identidade soviética, uma nova crise
expressa na dificuldade em definir seus valores existenciais diante da nova conjuntura
internacional recaiu sobre a sociedade eslava. Pela primeira vez em muitos séculos, a Rússia
2
As 15 repúblicas surgidas a partir da dissolução soviética em 1991 são comumente agrupadas em 5
grupos distintos: As Repúblicas Bálticas, compostas pela Estônia, Letônia e Lituânia; As Repúblicas da fronteira
Ocidental, com Bielorrússia, Moldávia e Ucrânia; as Repúblicas do Cáucaso Sul, com Armênia, Azerbaijão e
Geórgia; as Repúblicas da Ásia Central, com Cazaquistão, Quiguistão, Tajiquistão, Turcomenistão e
Uzbequistão; e o caso específico da própria Federação Russa que é comumente associada à Bielorrússia e
Ucrânia devido ao berço eslavo comum.
12

não se encontrava em condições de rivalizar em igualdade com as potências Ocidentais e a


desintegração daquilo que o povo estava acostumado ao longo dos séculos como única
realidade possível deu início a um grande processo de transformação identitária.
Diante deste cenário, o Eurasianismo dos anos 1920 vai ganhar novo fôlego
principalmente com o professor de Geopolítica Alexander Dugin, famoso por aplicar os
conceitos da geopolítica clássica de Halfod J. Mackinder e Karl V. Haushofer à ideia
eurasianista russa dos anos 1920, contribuindo para fazer surgir a Escola Neoeurasianista, ou
seja, sua forma moderna. Embora Dugin não seja o fundador desta corrente de pensamento,
ele está entre as personalidades mais influentes na vida política e acadêmica russa e é mais
internacionalmente conhecido devido principalmente à radicalidade, polêmica e nacionalismo
exacerbado presente em suas ideias. Importa destacar, também, que a ideologia em si recebe
influência variada de outros pensadores russos que a ela acrescentam elementos que a torna
ora mais nacionalista ora mais imperialista. A componente energética é um destes elementos
que permitem dar sustentação ao neoeurasianismo e fazê-lo avançar sobre outros pensamentos
que não tiveram a mesma aceitação pública e política. Por isso, neste estudo, abordaremos três
correntes neoeurasianistas distintas e uma corrente que se contrapõe a todas elas para que
possamos observar que o neoeurasianismo não é uma ideologia estática.
Nos últimos anos, o Kremlin tornou-se tema de intensa discussão internacional quando
teve início o conflito entre Rússia e Ucrânia, em novembro de 2013, resultando na anexação
da península da Crimeia pela Rússia e no violento combate no leste ucraniano entre
insurgentes pró-Moscovo e militares orientados por Kiev. Alegando a defesa dos russos
étnicos que residem na península, Moscovo apoiou e reconheceu o resultado favorável de um
referendo convocado por políticos e moradores pró-Moscovo para que aquele território
voltasse a fazer parte da Rússia3. No leste da Ucrânia, ainda que o Kremlin afirme não apoiar
militarmente os insurgentes, contrariando opiniões internacionais4, o mesmo discurso de
salvaguarda dos russos étnicos já foi levantado para se referir à necessidade de intervenção
naquela região que, hoje, encontra-se ocupada e sem previsão de resolução. O Ocidente,
optando por uma ação mais assertiva e pragmática sobre o caso, promoveu encontros entre os

3
A Península da Crimeia possui uma particular e extensa história que envolve desde uma guerra
internacional (a Guerra da Crimeia de 1853-1856) à ocupação nazista entre 1941-1994, deportação das etnias
locais sob alegação de terem contribuído com a ocupação dos inimigos alemães e inserção de russos étnicos por
Josef Stalin, além de sua transferência para a RSS da Ucrânia por Nikita Khruschev em 1954, obtenção da
condição de autonomia em 1991 e posterior integração à República da Ucrânia. Estrategicamente, em Sebastopol
localiza-se a mais importante frota naval russa desde muitos séculos.
4
Disponível em <http://www.independent.co.uk/news/world/europe/ukraine-crisis-moscow-denies-it-
has-troops-in-ukraine-as-200-empty-russian-aid-lorries-cross-back-over-the-border-9687852.html>. Último
acesso em 06/06/2015.
13

dois países para suspender as hostilidades na região, porém, os acordos de cessar-fogo foram
constantemente violados5. Optaram então pela aplicação de um pacote de sanções econômicas
a várias personalidades russas que se acreditavam ter algum envolvimento com o ocorrido.
Assim, as sanções visavam políticos, empresários e amigos pessoais do presidente Vladimir
Putin, e tinham o objetivo de demover a anexação da península ucraniana e frear a violência
no leste do país. Tanto a Crimeia quanto o leste ucraniano concentram a maior parte dos
russos étnicos que vivem na Ucrânia e, conhecendo o berço histórico comum dos dois países e
a diáspora russa no espaço pós-soviético, os Estados vizinhos e o Ocidente, como um todo, se
questionam sobre as reais intenções de Vladimir Putin e quais serão (ou se haverá) os
próximos passos do Kremlin na região6.
Feita a exposição iniciação do estudo, o objetivo geral do nosso trabalho consiste em
averiguar o contexto histórico da formação identitária russa que deu razão ao surgimento do
Neoeurasianismo e as suas implicações para os fenômenos que estão ocorrendo no espaço
pós-soviético. Partimos, então, de duas perguntas para dar início ao nosso estudo:

 As ações e intervenções do Kremlin dentro do espaço pós-soviético, com


destaque para o caso ucraniano, seguem uma orientação política
neoeurasianista?
 A aplicação desta orientação política neoeurasianista se deve, em algum nível,
à relação de interdependência energética?

Para a consecução do nosso objetivo geral, definimos como objetivos específicos a


apresentação da gênese identitária russa e o berço eslavo comum que envolvem russos,
ucranianos e bielorrússos; a compreensão da influência da Escola Geopolítica Clássica na
formação da Escola Geopolítica Neo-Eurasinista russa; e o entendimento do papel que os
recursos energéticos russos exercem na economia nacional e, em particular, na sua política
nacional e exterior.
As perguntas que referimos surgem da hipótese de que as redes geoeconômicas que
ligam os recursos energéticos russos, os países trânsito e o consumidor final da energia russa,
exercem influência significativa e notável na condução administrativa do presidente Vladimir
Putin, que visa consolidar cada vez mais o poder russo na região através de ações que de
alguma forma refletem a ideologia neoeurasianista. Esta hipótese, por sua vez, surge do fato
5
Disponível em <http://sputniknews.com/europe/20150411/1020747941.html>. Último acesso em
06/06/2015.
6
Disponível em <http://www.spiegel.de/international/europe/germany-worried-about-russian-influence-
in-the-balkans-a-1003427.html>. Último acesso em 06/06/15.
14

de o já referido professor, Alexander Dugin, ter sido o responsável pela fundação de vários
partidos e organizações políticas entre os anos 1980 e 2000 e servir como uma espécie de
conselheiro não-oficial para assuntos geopolíticos do chefe do parlamento russo, Serguei
Naryshkin (embora tenha exercido o cargo oficialmente durante os anos 1990) que pertence,
coincidentemente, ao partido Rússia Unida, fundado pelo presidente Vladimir Putin.
A dissertação de Mestrado se justifica, em nosso entender, a partir da necessidade de
aprofundar os estudos relativamente à prática política russa, uma vez que a sua discussão é
fundamental para compreender os fenômenos que estão em andamento, repercutem
globalmente e podem ter implicações irreversíveis na política internacional. Além disso, este
estudo pretende ser um contributo para a produção de mais fontes referenciais sobre o tema,
visto que, por se tratar de um fato recente e distante dos centros ocidentais, a literatura em
língua portuguesa que versa sobre ele é incipiente, mais ainda quando nos referimos
excecionalmente à luz da Ciência Política.
A produção desta dissertação de Mestrado é fruto do fascínio pelas questões políticas
que compreendem o subcontinente eurasiático e que foi adquirido durante os anos de estudos
de graduação em Geografia Humana no Brasil e em Portugal. Sempre foi do nosso interesse a
temática que envolve a relação do Poder com o Espaço, e nos últimos anos o foco desta
relação tem sido direcionado justamente à Eurásia. Ainda que não nos fosse possível conhecer
pessoalmente a zona a qual trabalhamos, os anos de estudo em Portugal nos permitiu ter uma
visão espacial muito mais ampla do que poderíamos ter tido estudando apenas no Brasil
porque os estudos neste país, diferentemente daquele, são orientados a um contexto muito
mais global do que regional, e esta particularidade nos deixou muito mais a vontade para
trabalhar a política russa mesmo sem ter qualquer contato étnico ou histórico com o país.
A principal dificuldade deste trabalho foi tentar colocá-lo dentro de um contexto que
não ultrapassasse as barreiras da Ciência Política invadindo as competências de outras
disciplinas uma vez que este Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas possui limites
disciplinares muito bem definidos, contudo, reafirmamos que o tema a ser trabalhado
enquadra-se perfeitamente dentro do campo de estudo da Ciência Política ao definirmos que o
objeto de estudo desta disciplina é o universo dos fenômenos políticos e os acontecimentos
implicados na luta pela aquisição, manutenção e exercício do Poder na sociedade,
considerando ainda o que o Professor António de Sousa Lara (2011), afirma sobre tal,

[…] o objeto principal desta disciplina [Ciência Política] são as ciências políticas, no
sentido amplo, o que significa que se tenha de ir buscar temas à História,
Antropologia Cultural, à Sociologia Política, a algumas áreas do Direito Público, à
Geopolítica, à Ecologia, à Psicologia Social
15

Portanto, ao considerar que o poder político é a força, a coação, a hierarquia, a


organização, ou seja “o tal conjunto de meios capazes de coagir os outros a um determinado
comportamento” (LARA A. D., 1995, p. 99), relativamente ao Estado, percebemos que a
influência dos recursos energéticos com o objetivo de garantir a manutenção do poder político
em um determinado espaço geográfico configura, de fato, um tema da Ciência Política.
Assim, se assumimos desde já que o estudo que aqui procuramos conduzir carrega uma forte
componente interdisciplinar e que se debruça sobre uma realidade dinâmica que nos conduz à
necessária busca por ensinamentos em diferentes áreas do conhecimento científico,
sublinhamos mais uma vez, a sua inserção no domínio da política, posto debruçar-se sobre a
relação entre o pensamento político (neoeurasianismo) e o seu impacto e influência nas
relações de poder.
Tendo em conta que as características do estudo que procuramos desenvolver estão
inseridas dentro da matriz multidisciplinar no qual se baseia o ensino e a investigação deste
Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, cuja objeto de estudo, dada complexidade,
exige uma confluência de saberes provenientes de diversas áreas científicas e sem os quais o
resultado final desta produção poderia ser severamente prejudicado, para esta pesquisa
utilizamos o método dialético através de um estudo qualitativo de base documental e da
observação e descrição da dinâmica dos fatos. A pesquisa bibliográfica inclui o recurso a
monografias, artigos científicos publicados em revistas especializadas e notícias mediáticas,
além de informações oficiais de órgãos públicos e privados disponíveis na internet. Para
ilustrar alguns aspetos geográficos ou econômicos, fizemos o uso de mapas, gráficos e tabelas
que nos ajudarão a compreender as situações a serem exploradas.
Antes de adentrar à divisão prática do trabalho, cumpre ressaltar dois pontos: em
primeiro lugar, a variedade de informações em idioma estrangeiro utilizada nesta dissertação,
principalmente em relação ao nome de cidadãos russos e localizações geográficas, podem
resultar em alguma confusão de grafia pelo fato de não ter sido possível encontrar alguns
termos transliterado ao idioma português, sendo mantido, então, referências nominais em
idioma estrangeiro sem o risco de afetar o desenvolvimento, a compreensão e qualidade do
trabalho. A outra questão se refere ao fato de que as referências numéricas utilizadas neste
trabalho respeitam o sistema português de escrita e, portanto, aquilo que seriam bilhões no
Brasil fica grafado como mil milhões e sucessivamente, como em Portugal.
A divisão capitular deste estudo foi feita em quatro partes para que pudesse conduzir
mais organizadamente as nossas ideias aos objetivos propostos. No primeiro capítulo fizemos
uma apresentação sucinta das características geográficas do subcontinente eurasiático e, em
16

particular, da Federação Russa, demonstrando os elementos naturais do território nacional que


permitiram ao Estado se desenvolver, fortalecer e disputar a hegemonia do poder regional e
global. Esta curta, porém necessária, apresentação é relevante para o conjunto do trabalho na
medida em que os fatos relatados mais acima estão inseridos dentro de uma configuração
territorial historicamente mutável e específica, logo, acreditamos na relevância de
localizarmos geograficamente o teatro de ações políticas ao qual nos referimos.
No segundo capítulo, demos mais atenção aos aspetos identitários e ontológicos do
povo russo bem como às características que estão ligadas a sua formação como a relação
embrionária com a cidade de Kiev, a influência exercida pela Igreja Ortodoxa, os anos de
domínio Mongol e a contribuição singular do Czar Pedro, o Grande, para a modernização e
debate sobre a identidade do povo russo. Esta parte do trabalho aborda temas históricos e,
consequentemente, exigiu uma descrição mais laboriosa para elencar os referidos elementos
que estão na formação identitária russa.
O terceiro capítulo deste estudo é voltado exclusivamente à questão Geopolítica. Neste
momento já teremos os elementos geográficos e identitários, dos capítulos anteriores,
devidamente fundamentados para perceber de que maneira o Eurasianismo dos anos 1920 se
converteu no Neoeurasianismo nos anos 1990. Apresentaremos também duas Escolas
Geopolíticas Clássicas que dão sustentabilidade à corrente russa: a teoria do Heartland
Eurasiático de Halford J. Mackinder e as Pan-Regiões de Karl V. Haushofer. A não inserção
de outras Escolas Clássicas não acarreta prejuízos ao entendimento da teoria russa. Ainda,
sendo o Neoeurasianismo uma ideologia dinâmica e que recebe variada contribuição
científica, neste capítulo apresentaremos três Escolas específicas e uma que se contrapõe à
esta ideologia. A escolha das escolas aqui apresentadas foi feita com base nos estudos de
TSYGANKOV (2003), RANGSIMAPOR (2006) e MARCU (2007).
O quarto capítulo é o mais desafiador de todo o trabalho, porém, aquele que vai fazer a
ligação entre todos os elementos trazidos até aqui: o espaço geográfico, as características
identitárias e as escolas geopolíticas. Nesta parte do trabalho adicionaremos a componente
energética na figura dos recursos naturais russos como o elemento que permite à Moscovo
exercer poder e influência dentro do espaço eurasiático. É neste capítulo, também, que
faremos a apresentação dos eventos que ocorrem na Ucrânia desde novembro de 2013 e que
mobilizaram a Comunidade Internacional, mas que não possui resolução até o momento. Este
capítulo representa o fechamento do argumento central após terem sido apresentados todos os
elementos que envolvem nosso problema dentro das situações factuais que verificamos. É,
17

portanto, o capítulo que nos dará embasamento suficiente para nos lançarmos a uma análise
conclusiva posteriormente.
Por fim, destacamos que o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da
Universidade de Lisboa deixa claro no documento institucional intitulado “Regulamento
Geral dos Cursos do 2º Ciclo de Estudos”, que não adota nenhum livro de estilo específico,
contudo, é obrigatório que se utilize um para ser seguido em tudo o que não estiver previsto
no Anexo B “Normas de Redação” do referido documento. Neste sentido, adotamos duas
obras como referenciais de estilo e metodologia, e que as normas que foram seguidas estão de
acordo com a Associação Brasileira de Normas e Técnicas (ABNT): Como se faz uma tese em
ciências humanas, de Humberto Eco, Lisboa, Editorial Presença, 1977 – 4ª Ed. 1988, e
Apresentação de trabalhos acadêmicos: normas e técnicas, de José Maria da Silva e Emerson
Sena da Silveira, Petrópolis, Editora Vozes, 20007.
18

1. O REFERENCIAL GEOGRÁFICO

O território é o elemento físico imprescindível para a existência do Estado junto do


elemento humano (população), do elemento administrativo (estruturas autônomas de governo)
e do elemento político (relacionamento externo)7. Como elemento físico, o território delimita
as características geográficas do Estado e permite o domínio sobre os recursos ali existentes.
O território é, portanto, “a base física, a porção do globo ocupada por ele […] é o país
propriamente dito” (AZAMBUJA, 2008, p. 36). Ainda que para Yves Lacoste8 a Geografia
sirva, “em primeiro lugar para fazer a guerra”, o conhecimento das potencialidades e
deficiências geográficas do Estado permite ao governante a implementação de um
ordenamento territorial específico que se aplicará tendo em conta os elementos que o Direito
Internacional Público delimita como pertencentes ao território nacional, quer seja o solo, o
subsolo, o espaço aéreo, o mar territorial (quando se aplicar) e a plataforma submarina quando
for banhado pelo mar9.
Neste sentido, todo o ordenamento ficará restrito às fronteiras territoriais, sejam elas
naturais ou convencionais, que delimitará ainda o âmbito geográfico da competência dos
organismos políticos do Estado e a respetiva aplicação de suas leis nacionais,
obrigatoriamente respeitadas em seus limites internos (FERNANDES A. , 2008, p. 86). Além
disso, concordamos com Brzezinski (1997, p. 38, nossa tradução), quando afirma que a
“localização geográfica é o ponto de partida para as definições das prioridades externas dos
Estados-nação e o tamanho do território representa um dos principais critérios de status e
poder.”
Isto posto, daremos início à construção do nosso argumento localizando
geograficamente a macroregião eurasiática e, mais especificamente, a Federação Russa onde
se encontra, levando em consideração aspetos importantes da sua constituição física natural e
apontando sucintamente os vetores geoestratégicos que a tornam uma potência global.

7
No exposto, levamos em consideração o artigo 1º da Convenção sobre Direitos e Deveres dos Estados
de 1933. Disponível em <http://www.fd.unl.pt/docentes_docs/ma/FPC_MA_16053.pdf>. Último acesso em
08/04/2015.
8
Cf.: A Geografia: Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, de Yves Lacoste; tradução de
Marília Cecília França, Campinas/SP. Editora Papirus, 1988 – 17º Ed. 2010.
9
Nestes termos, a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) de 1982, em seus
artigos 2º e 3º, estabelecem que a soberania do Estado costeiro sobre o seu território e suas águas interiores
estende-se a uma faixa de mar com dimensão de até 12 milhas marítimas, aproximadamente 1.850 metros.
Disponível em <http://www.fd.uc.pt/CI/CEE/OI/ISA/convencao_NU_direito_mar-PT.htm>. Último acesso em
08/04/2015.
19

1.1. O Espaço Geográfico Eurasiático

Mapa 1: O Espaço Eurasiático10

Ao observar um mapa mundi alguns detalhes como o imenso espaço terrestre que opõe
o mundo Ocidental à Ásia, o Mar Báltico ao Mar de Okhotsk ou ainda, a Europa da Índia
saltam aos olhos. Esta imensa massa terrestre corresponde a aproximadamente 1/3 de toda a
terra emersa do planeta, sendo a maior e mais populosa área terrestre contígua do mundo.
Ainda, este supercontinente possui cerca de 3/4 das fontes energéticas de que se tem notícia e
recursos naturais de valores inestimáveis. Além disso, dois dos três mais influentes centros de
poder da política mundial estão nesta região: A União Europeia (UE) e o Extremo Oriente.
Não obstante, 60% do Produto Interno Bruto (PIB) global advém desta região 11, em termos
geoestratégicos a Eurásia é igualmente relevante. Para Brzezinski (1997, p. 31, nossa
tradução), “o poder que dominar a Eurásia controlará duas das três regiões mais avançadas e
economicamente produtivas do mundo”. Em 1904, o geógrafo britânico, Sir Halford J.
Mackinder, já alertava a coroa britânica para a importância desta região,

10
A linha pontilhada mais escura delimita o espaço eurasiático que vai da cidade de São Petersburgo na
Rússia, passa por Iraque, Irã, Mongólia e termina no norte da China. Cf.: (BARREAU & BIGOT, 2007, p. 156).
11
Dados do Banco Mundial para o PIB de 2013 indicam que do total de US$ 75,6 triliões produzidos,
US$23 triliões são oriundos apenas da UE e Ásia Central, sem citar outras economias igualmente relevantes da
região. Disponível em <http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD/countries/1W-
Z7?display=graph>. Último acesso em 08/04/2015.
20

O conceito de Euro-Asia ao qual atingimos é o de uma terra contínua cercado por


gelo no norte e por água em outros lugares, medindo 21 milhões de milhas
quadradas ou mais que três vezes a área da América do Norte; cujo centro e norte,
que medem 9 milhões de milhas quadradas ou mais de duas vezes a área da Europa,
não possui rios navegáveis para o oceano, mas por outro lado e exceto pelas
florestas do subártico, são bastante favoráveis para a mobilidade de homens
montados a cavalos ou camelos. O leste, sul e oeste deste heart-land são regiões
marginais […] acessíveis à navios (MACKINDER, 1904, p. 431, nossa tradução,
nossa ênfase)

Neste sentido, este supercontinente torna-se um importante cenário para os jogos


políticos mundiais. De acordo com Brzezinski (1997), na eurásia encontram-se a maioria dos
Estados politicamente ativos e dinâmicos do mundo incluindo seis das maiores economias do
mundo e os seis maiores investidores em armamento militar, depois dos Estados Unidos da
América (EUA). Todas as potências nucleares conhecidas (exceto os EUA), são eurasiáticas.
Os dois países mais populosos e aspirantes a hegemonia mundial e que exercem grande
influência regional também estão neste continente. Em suas palavras,

a Eurásia, no entanto, mantém sua importância geopolítica. Não só na sua periferia


Ocidental – a Europa ainda é o local de grande parte do poder econômico e político
no mundo - mas a Ásia Oriental tem se tornado ultimamente um centro vital de
crescimento econômico e um risco para a influência política (p. XIII, nossa
tradução).

Dada a quantidade de interesses e disputas na região, o autor descreve o espaço


eurasiático como um tabuleiro de xadrez onde vários jogadores, e não apenas dois, com
quantidades diferentes de poder, disputam força e influência.

1.2. O Espaço Geográfico Russo

Do supercontinente eurasiático destacamos a Federação Russa e observaremos alguns


elementos que compõe a sua geografia. Relativamente à sua territorialidade, como Estado,
sempre lhe faltaram limites fronteiriços que pudessem ser facilmente observados. Em sua
porção mais europeia ela é composta por uma vasta e monótona planície sem cadeias de
montanhas ou outras barreiras naturais que a divida em distintos setores ou a separe
fisicamente dos vizinhos. Este fator garantiu lhe garantiu uma situação particular: em períodos
históricos em que o país esteve fragilizado a natureza deu-lhe proteção, mas quando cresceu e
foi forte, haviam poucas barreiras que a impedisse de projetar o seu poder para todas as
direções12. Nos tempos modernos, por exemplo, a maioria das invasões que os russos

12
Alguns analistas consideram que a histórica preocupação russa com a segurança advém justamente
deste fator e que esta condição permitiu, também, que o país se expandisse facilmente para a formação de um
império continental ao invés de um império ultramarino como no caso britânico. Cf.: (SEGRILLO, 2012b, p.
26).
21

sofreram vieram do Ocidente e representaram reais ameaças à soberania nacional13. O fato de


quase ter caído em mãos inimigas e de em 1941, os alemães terem chegado a 20 km de
Moscovo serviu de aviso ao Kremlin (TRENIN, 2001, pp. 41-42).

Mapa 2: Mapa político da Federação russa em 2015 (não contempla a península anexada) 14

Por outro lado, as estepes asiáticas sem fim, na porção mais Oriental ofereceram amplo
corredor para os invasores asiáticos em direção à Europa. De Hunos a Mongóis, estes povos
mantiveram a Rússia sob seu domínio por quase 250 anos a partir do séc. XIII e a ameaça
histórica destas memórias continuam presentes na psique coletiva russa. Portanto, a ausência
de barreiras naturais para proteção fez com que a Rússia adotasse a estratégia militar de
ataque ao inimigo e expansão territorial como condição básica à sobrevivência. A partir do
séc. XV, então, o requisito “ganhar espaço” torna-se uma necessidade vital (TRENIN, 2001,
p. 42). Embora a Rússia do séc. XXI, sucessora natural da União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas (URSS), possua apenas metade do território que pertencia à URSS e 70% da sua
população dentro de uma área de 17.098.242 km2, ainda é o maior Estado do mundo e o maior
em dilatação longitudinal.

13
Os poloneses invadiram o Império Russo no séc. XVII, os franceses no séc. XIX e os alemães no
século seguinte.
14
Disponível em <http://eurasiangeopolitics.com/russia-maps/>. Último acesso em 21/05/2015.
22

Mapa 3: Mapa da expansão russa de 1533 a 189415

O ápice territorial russo foi atingido em 1850, durante a Guerra da Crimeia quando o
Império Russo se estendia da Polônia ao Alasca16. Naquele tempo, o único Império
fisicamente maior que o russo era o britânico que controlava cerca de 25% da superfície
mundial contra 17% dos russos. Além disso, em 1913, pouco antes da explosão da I Guerra
Mundial, o Império Britânico detinha 13% do Produto Interno Bruto global, contra 8,5% dos
russos. A partir do fim da II Guerra Mundial em 1945, a influência da URSS se expande para
a Europa Oriental, Cuba e partes do Sudeste da Ásia e África, tornando-a um importante
player político ao lado dos EUA, Reino Unido e França (BLINNIKOV, 2011, pp. 121-122).
Ainda assim, a União Soviética era um Estado fisicamente menor que o Império Russo

15
Disponível em <http://ssociologos.com/2014/09/01/rusia-la-inseguridad-como-sentimiento-nacional>.
Último acesso em 21/05/2015.
16
A Guerra da Crimeia (1853-1856), foi um conflito que opôs os impérios Otomano, Francês, Britânico e
o Reino da Sardenha (Itália) contra o Império Russo. Sob o pretexto de proteger regiões consideradas sagradas
aos cristãos ortodoxos e ao mesmo tempo expandir seu território, o Czar Nicolau I acionou o exército e a frota
naval do Mar Negro em dezembro de 1852 para invadir territórios que pertenciam ao Império Otomano na
Moldávia e Romênia. Derrotado pelo Czar, o Sultão otomano aceitou o apoio das potências europeias em troca
da permissão da entrada de capital Ocidental na região, além de manter seus interesses protegidos do Czar. Em
1854 os russos foram expulsos, mas os ingleses acreditavam que a base naval de Sebastopol, na Crimeia,
representava uma ameaça futura e, para impedir o reagrupamento das forças czaristas, dominaram a cidade em
1856. Em março daquele ano, o Tratado de Paris selou o fim do conflito com o compromisso de que o novo
Czar, Alexandre II, restituiria parte do território conquistado ao Império Otomano e abdicaria de qualquer
pretensão sobre os Balcãs, sendo impedido, ainda, de manter bases ou forças navais no Mar Negro. Cf.:
(MILLAR, 2004, pp. 343-344).
23

porque dela não fazia parte o Alasca, a Finlândia e a Polônia, mas se expandiu para a Ásia
Central e o Cáucaso.
Para Trenin (2001), sobre a dimensão continental da Rússia e se um país europeu,
asiático ou uma mistura de ambos, a Geografia é primordial para determiná-la um país
eurasiático e isto traz implicações importantes segundo o autor,

(…) para muitos europeus isto significa não um de nós. O presidente checo Vaclav
Havel, por exemplo, utiliza esta característica para argumentar que a Rússia nunca
poderia pertencer à Europa. Para praticamente todos os asiáticos não há dúvidas
sobre a Rússia ser um país da Ásia. Para um número de tradicionalistas russos, no
entanto, esta posição especial dá à Rússia uma licença para exercer uma “terceira
via”, nem Europeu e nem asiático. (p. 44, nossa tradução, ênfase do autor).

Contudo, ele afirma ainda que apenas a Geografia, embora necessária, não é
determinante para este tipo de definição e que à ela deve ser acrescentada discussões relativas
aos aspetos culturais locais. Estes aspetos serão vistos com mais detalhes no capítulo seguinte.

1.2.1. As Características Físicas

No que respeita às características físicas e adotando a divisão territorial proposta por


Segrillo (2012b, p. 26), a Rússia pode ser dividida em cinco zonas de vegetação distribuídas
em sentido norte-sul (CHURRO, 2013, pp. 50-51; PIPES, 1995, p. 03; SEGRILLO, 2012b, p.
26):

 Tundra, no extremo norte acima do Círculo Ártico e imprópria para


assentamentos humanos;
 Taiga, zona de coníferas e pinheiros com a maior floresta do mundo17;
 A região plana das estepes onde os solos são férteis e a planície favorece a
exploração pecuária de grande porte;
 As zonas áridas, semidesérticas e desérticas que avançam gradualmente a leste;
 E finalmente a região montanhosa do Sul no Cáucaso, bastante ensolarada.

Em relação ao solo, a Rússia se divide em duas zonas (PIPES, 1995, pp. 03-05):

17
A Floresta Amazônica é a maior floresta tropical do planeta e está distribuída em oito países da
América do Sul com uma área de aproximadamente 5,5 milhões de km 2. A Taiga Siberiana ou Floresta de
Coníferas (ou ainda, Floresta Boreal), por outro lado é, de fato, a maior floresta do mundo, cerca de três vezes a
dimensão da Floresta Amazônica. A confusão se deve, naturalmente, à biodiversidade presente na floresta sul
americana que é muito maior do que na floresta russa já que o clima muito frio, a baixa humidade e a reduzida
incidência solar, não propiciam o desenvolvimento de um bioma muito diversificado.
24

 Na zona de florestas o tipo de solo predominante é o podzol, típico de coníferas


e impróprio para cultivo;
 Na zona das estepes predominam os solos de terra negra (chernozem), que
possuem um alto teor de fertilidade, resultado da decomposição das gramíneas
características desta região.

O clima predominante é o continental, isso quer dizer que as temperaturas são bastante
elevadas no verão e extremamente baixas no inverno. A precipitação, porém, segue um
comportamento diferente do que prevalece na distribuição do solo e da vegetação. Pipes
(1995), argumenta que a precipitação russa,

é mais generosa onde o solo é mais pobre […] outra peculiaridade da precipitação
russa é que tende a chover mais pesado na segunda metade do verão. Na região de
Moscovo, os dois meses mais chuvosos do ano são julho e agosto, quando o
calendário de distribuição de chuvas pode significar uma seca na primavera e início
do verão, seguido de desastrosas tempestades durante a colheita. Na Europa
Ocidental a precipitação em si se distribui muito mais uniformemente por todo o ano
(p. 04, nossa tradução).

Com essa composição física era de se esperar que o Estado russo não chegasse a
atingir um desenvolvimento considerável, porém, Pipes (1995, p. 05), argumenta que a
localização de Moscovo entre dois importantes rios russos, o Volga e o Dnieper, foi o grande
trunfo do Estado russo. Segundo o autor, antes de se tornar um Império, a única maneira que
os russos tinham de aceder a mares e oceanos de forma rápida e eficaz era pelos rios.
Acontece que a grande maioria dos cursos d‟água que passam em seu território desaguam em
mares fechados como o Cáspio, o Aral e o Negro ou eram inacessíveis para navegação como
o Mar Ártico.
Outra característica negativa é que os grandes rios Volga, Dvina, Don e Ienissei
possuem direção latitudinal sendo que nenhum deles faz percursos longitudinais. Entretanto,
os muitos afluentes que estes grandes rios possuem e, devido a grande parte do território russo
ser uma planície e as nascentes não se originam em montanhas, mas pântanos e lagos, eles
possuem inclinação muito delicada. Este fato, especificamente, permitiu que a Rússia
desenvolvesse uma rede de transportes fluviais de navegação facilitada composta pelos
grandes rios e seus numerosos afluentes. Se não fosse este modelo de navegação, afirma o
autor, a vida na Rússia teria sido praticamente impossível acima do nível da subsistência até o
advento do transporte ferroviário.
Neste sentido, importa destacar o papel do comércio marítimo para o fortalecimento
do principado moscovita e respetiva hegemonia sobre os demais principados eslavos (assunto
25

que será abordado mais adiante), visto que a localização de Moscovo permitiu criar um eixo
de rios entre os mares Báltico, Negro e Cáspio, fazendo a ligação comercial entre o Norte e o
Sul europeu com o Oriente asiático. Em outras palavras, se o pequeno principado moscovita
conseguisse dominar as rotas comerciais que eram realizadas por este eixo, possuiria uma
vantagem política e estratégica que se equipararia às potências ocidentais dos séculos XIII e
XIV. Não por acaso as forças empreendidas por Ivã, o Terrível, na tentativa de controlar o rio
Volga (CHURRO, 2013, p. 55).

Mapa 4: Moscovo e os rios da Rússia Europeia (1460-1860) 18

Dado o movimento histórico e constante de contração e expansão do imenso território


russo, não seria surpreendente se esta situação criasse algum tipo de conflito entre as várias
etnias que por vezes se encontravam dentro da geografia russa e em outros momentos estavam
fora. No próximo capítulo vamos analisar os aspetos culturais dos quais Trenin (2003) se
referia anteriormente e que estão na gênese da formação étnica russa.

18
Na box lê-se: “A força de Moscovo após 1462 deriva em grande parte de sua posição no centro dos
sistemas fluviais da Rússia europeia. A viagem de Moscovo para os mares Báltico, Branco, Kara, Negro e
Cáspio pode ser feita inteiramente por rios usando portagens curtas. Ao ganhar o controle do Volga superior,
essencial para a entrega de grãos à Novgorod, Moscovo foi capaz de destruir o poder rival. Durante 400 anos
estas rotas fluviais foram o ponto fulcral de todas as comunicações, fossem para comércio, fixação, guerra ou
revoltas”. Cf.: (GILBERT, 1993, p. 27).
26

2. A ANÁLISE IDENTITÁRIA

Em russo existem duas palavras para denominar os habitantes deste grande Estado
eslavo: russkii e rossiyanin19. O primeiro termo faz referência ao russo étnico filho de pai ou
mãe russa, enquanto que o segundo remete a qualquer pessoa que tenha nascido ou que viva
em território russo, mas não é necessariamente de etnia russa (SEGRILLO, 2012b, p. 13)20.
Até o séc. XV os russos chamavam a si mesmos de Rus e ao seu território, a cidade de Kiev,
compreendia muitas regiões que hoje não estão inseridas nas fronteiras da Federação Russa,
nascida em 1991. Desde o princípio da história russa houve povos de nacionalidade não-russa
e nem eslava que conviviam harmoniosamente naquele espaço. No desenvolvimento histórico
do povo russo alguns elementos culturais vão forjar uma compreensão identitária com base no
surgimento nem sempre pacífico de uma grande riqueza cultural ao mesmo tempo em que
ecoarão intermináveis debates sobre as origens e fundações da consciência nacional.
A formação da Rússia, tal qual a conhecemos atualmente, está intimamente ligada à
formação dos Rus de Kiev (entre os séculos IX e XIII), expulsão dos invasores mongóis no
séc. XIII e o fortalecimento do principado de Moscóvia nos séculos seguintes. Destes eventos
surgem os russos modernos (grão-russos) através de um ramo independente das demais etnias
eslavas orientais que era composta também pelos pequenos russos (ucranianos) e os russos
brancos (bielorrussos). Acontece que durante a existência da Rus de Kiev, estas três etnias
formavam um povo único, apenas no século seguinte é que a divisão entre elas vai se tornar
latente, em termos linguísticos e culturais, e pouco a pouco os particularismos nacionais e
religiosos de afirmação identitária vão se consolidar (SEGRILLO, 2012b, p. 126). Neste
sentido, é possível falar da existência de três Rússias surgidas a partir de uma matriz comum
que a história veio, por vezes, a unir ou a separar. Somente nos séculos XIX e XX é que as
distinções entre os grupos étnicos russos vão se tornar relevantes, tendo o próprio Lenine
condenado o orgulho grão-russo21, dando-nos uma prova irrefutável da existência das
discussões identitárias no seu tempo (CARRILLO, 2012, pp. 19-20).

19
No plural, russkie e rossiyane, respectivamente. Cf.: (SEGRILLO, 2012b, p. 13).
20
Esta distinção é útil para compreender o recente conflito que envolve Rússia e Ucrânia, onde forças
pró-Moscovo lutam no leste do país ucraniano para se verem livres da administração de Kiev. Uma parte
considerável da população ucraniana é de origem étnica russa (russkii) e se concentra principalmente no leste do
país e ao sul, na península da Crimeia. Quando a crise da Ucrânia teve início entre 2013 e 2014, Vladimir Putin
levantou a necessidade de atuação no país para proteção dos russos étnicos que lá vivem porque Moscovo
considera-os cidadãos russos, além de outros interesses difusos não divulgados publicamente. Cf.:
(MIEINICZUK, 2006; ARUTUNYAN, 2014, pp. 351-352).
21
“Lenine descreveu o Império Russo como uma prisão de nacionalidades e acreditava que, após a
Revolução Bolchevique, as nacionalidades tornar-se-iam irrelevantes com o internacionalismo proletariado
fornecendo uma base sólida para o novo Estado soviético”. Cf.: (DANKS, 2009, p. 13, nossa tradução).
27

Portanto, e pela complexidade dos elementos de formação étnica russa e os fatos


históricos que ao longo dos séculos ajudaram e ainda ajudam a forjar sua consciência
nacional, faz-se necessário abordar as componentes principais que estão ligadas ao
desenvolvimento dos russos e que vão nos permitir compreender de que maneira várias
culturas que compartilhavam o mesmo território se unificaram e criaram um povo com
características bastante singulares. Ainda, tentaremos perceber em que medida se ligam
historicamente russos, ucranianos e bielorrussos para clarificar os eventos que assistimos hoje
no continente eurasiático.

2.1. A Rus de Kiev e as Etnias Eslavas

A história dos russos modernos está intimamente relacionada com a fundação de uma
unidade social e política conhecida como Rus de Kiev, precursora da Rússia atual. Rus era o
nome que os habitantes desta região davam a si mesmos e Kiev era sua capital. Em termos
geográficos, a Rus de Kiev abarcava toda a Bielorrússia, a metade setentrional da Ucrânia e o
centro e noroeste da Rússia. Neste território três grupos étnicos se destacariam: os eslavos
orientais, os ocidentais e os meridionais. Ao longo dos séculos estas etnias vão se
autonomizar e dentro do grupo dos eslavos orientais vai surgir uma divisão étnica que
formará, mais tarde, aqueles que conhecemos atualmente como russos.
O surgimento do Estado de Kiev se concentra em muitas lendas e controvérsias,
contudo, o registro histórico mais fiel que se tem notícia é a Crônica Primária, única fonte
escrita que detalha a origem daquela unidade22. Nela, o autor afirma que por volta do ano 850
algumas tribos eslavas orientais convidaram três irmãos varengos23 para os governarem. O
convite parte de uma necessidade de liderança adequada para que estes pudessem manter a
independência diante dos inimigos externos, já que os varengos eram tidos como bons
guerreiros. Após a morte de dois irmãos, Rurik, o mais velho, passou a governar sozinho a
partir de Novgorod (uma das províncias de Kiev) e deu início à dinastia Rurikovich, que vai
governar a região até o séc. XVI (BUSHKOVITCH, 2014, p. 27; SEGRILLO, 2012b, p. 99).

22
Este documento é referido também como Crônica de Nestor, Crônica Primeira e Crônica Primeira de
Rus, entre outros termos. Cf.: (BUSHKOVITCH, 2014, p. 27; CARRILLO, 2012, p. 24).
23
Varengo era um dos termos utilizados no Império Bizantino para designar os povos escandinavos,
principalmente os suecos, mas também designava os viajantes do mar (vikings), comerciantes e piratas. Cf.:
(BUSHKOVITCH, 2014, p. 27).
28

Mapa 5: A Rus de Kiev (880-1054) 24

O fato de os príncipes escandinavos terem sido convidados pelos eslavos para serem
seus governantes reforça a ideia de que os vários impérios na história russa teriam sido
construídos muito mais por aproximação amigável e alianças políticas por parte dos nativos
do que pela imposição de força, como foram no caso da construção dos impérios coloniais
ocidentais (SEGRILLO, 2012b, p. 101). Ainda, temos que considerar que por volta do ano
950, a configuração global era muito diferente da configuração que existia entre os séculos

24
Na box lê-se: “A Rus de Kiev foi governada pelos descendentes do norueguês Rurik. Durante 200 anos,
apesar de curtos períodos de dissensão, seu governo foi principalmente unificado e expansionista. Pouco antes do
ano 1000, a Rus de Kiev adotou o cristianismo na sequência do casamento de Vladimir com uma irmã do
imperador bizantino. O primeiro código de leis russo foi compilado durante o reinado de Yaroslav”. Cf.:
(GILBERT, 1993, p. 19).
29

XV e XVI, que retratam a Europa Renascentista. Bushkovitch (2014) nos traz um panorama
do cenário político daquele tempo,

A Europa Ocidental era uma coleção empobrecida de pequenos reinos frágeis e


dinastias locais [...] as grandes potências e centros de civilização eram o Califado
Árabe e o Império Bizantino [...] o Califado abássida em Bagdá era agora o centro
deste mundo [...] a civilização bizantina era complexa, uma sociedade cristã com
uma rica cultura monástica e ao mesmo tempo a herdeira da Antiguidade clássica.
(p. 29-30).

Sobre este período, Segrillo (2012b, p. 101), argumenta que “[a Rus de Kiev] não
ficava atrás, em termos de avanço cultural ou econômico, da Europa Ocidental”, sua relevante
posição geográfica, no centro das trocas comerciais entre Ocidente e Oriente, através dos rios
Volga e Dniepre, lhe garantia uma importante condição estratégica para a época. Contudo, o
que impediu que os russos continuassem avançando como outros centros econômicos e
políticos foi o período de dominação Mongol entre os séculos XIII e XV, que impediu
inclusive que passassem por uma Revolução Renascentista semelhante a que a Europa
Ocidental vinha experimentando em termos científicos, tecnológicos e econômicos.
Ressalta-se também que no séc. X Kiev não chegava a ser exatamente um Estado25,
mas se assemelhava mais a uma assembleia de tribos ou uma confederação de principados
governada pelo Grão-Príncipe da dinastia Rurikovich. Cada príncipe mantinha um sistema de
governo semelhante à vassalagem com o povo russo, que era composto em sua maioria por
agricultores espalhados pelas florestas e que não serviam a outros senhores além dos seus.
Este modelo descentralizador de poder, em momentos de guerra, por exemplo, refletia na
frequente desunião diante de ameaças comuns. O domínio mongol, que falaremos a seguir,
vai ser apontado por alguns especialistas como possível apenas em razão deste carácter
inconvergente divergente do poder em Kiev (BUSHKOVITCH, 2014, p. 30; SEGRILLO,
2012b, p. 102). A adoção da religião cristã, ainda no séc. X, vai ser crucial tanto na história
dos russos, quanto no favorecimento de um poder centralizado local26.

25
Algumas estimativas apontam que entre 1054 e 1224 não mais que 64 principados existiam na Rus de
Kiev. Cf.: (BLINNIKOV, 2011, p. 70).
26
Esta situação de descentralização do poder e o sistema de vassalagem aos príncipes de Kiev, representa
a origem de uma característica ambivalente que os russos sempre tiveram com a figura do Estado, percebendo-o
de duas maneiras distintas: se por um lado vão criar a consciência de que somente um Estado forte e centralizado
é capaz de garantir segurança e defesa, por outro, acreditam que ao Estado não devem qualquer sentimento de
lealdade e obediência. Sobre a questão da defesa e segurança durante o Império Russo, Rego (1999), afirma que
“diversos autores como Richard Pipes, Anatole Leroy Beaulie e Nicolas Karamzine, salientam que a autocracia e
o despotismo eram as únicas fórmulas capazes de manter o controlo e a defesa de tão extenso território” (p. 126).
E como sabemos, por longos períodos históricos a Rússia teve a autocracia como forma de governo. Cf.:
(DANKS, 2009, p. 71).
30

2.2. O Cristianismo Ortodoxo como Dogma Oficial

Em 998 o Grão-Príncipe de Kiev, Vladimir, o Grande (958-1015), converteu-se ao


cristianismo bizantino e passou a se identificar com os dogmas e crenças daquela religião.
Inclusive, após a queda de Roma no séc. V e de Constantinopla, sua sucessora cristã, no séc.
XV, lentamente a Igreja Católica russa vai reclamar para Moscovo o status de Terceira
Roma27 (SEGRILLO, 2012b, p. 113). Até a conversão do Grão-Príncipe de Kiev os russos
não possuíam uma religião comum e a maior parte da população cultuava diferentes deuses
pagãos que variavam de acordo com a região dentro de um dogma animista28. A adoção de
uma religião oficial monoteísta seria um importante fator de integração e centralização do
poder em Kiev e o Grão-Príncipe Vladimir tinha consciência disso: quando assumiu o
cristianismo ortodoxo de Constantinopla como religião oficial29, Vladimir colocou Kiev sob a
influência da civilização europeia mais avançada até aquele momento, recebendo
constantemente a visita de missionários gregos que introduziam material religioso traduzido
ao idioma eslavo. O acesso aos vários livros sagrados da Igreja Católica Oriental
potencializou o avanço cultural russo, mas também os afastou da Igreja Católica Ocidental30,
uma vez que as duas Igrejas utilizavam, respetivamente, o grego e o latim como idiomas
litúrgicos31.
A adoção do cristianismo de Constantinopla por Vladimir teve consequências
relevantes porque deu início à unificação dos povos eslavos em Kiev e que até então não
comungavam uma crença completamente comum. Além disso, seu casamento com Ana, irmã

27
A ideia messiânica de da Terceira Roma é um conceito que simboliza a consequência natural de que
haveria uma sucessora ao Sacro Império Romano, tendo sido Constantinopla, capital do Império Bizantino, a
Segunda Roma. Quando Constantinopla caiu em mãos otomanas, no séc. XV, o principado moscovita que já
havia se convertido ao cristianismo no séc. IX, reivindica para si, através de Ivan III, o status de herdeira do
Império Bizantino e consequente protetora da fé cristã oriental. Cf.: (MARTIN, 2007, pp. 395-397; MILLAR,
2004, pp. 1319-1320).
28
O Animismo é uma crença que se baseia em espíritos expressos sob a força da natureza. Os eslavos
antigos acreditavam em vários deuses, masculinos e femininos, e cada tribo tinha um mais importante. Ídolos de
madeira eram comumente erigidos em locais de sacrifício como bosques sagrados próximos a nascentes ou na
confluência entre dois rios. Algumas divindades mantinham claro paralelo com os deuses mitológicos greco-
romanos, enquanto outros eram únicos: Perun, deus do trovão; Dazbog, deus da fertilidade e da luz do sol;
Svarog, deus ferreiro; Khors, deus do sol, são alguns exemplos. Cf.: (BLINNIKOV, 2011, p. 71).
29
Pela cristianização dos russos de Kiev, Vladimir foi canonizado pela Igreja Católica e no local onde foi
realizado seu batismo cristão existe atualmente a Catedral de São Vladimir, na cidade que leva o nome do Grão-
Príncipe, a 200 km de Moscovo.
30
O surgimento de uma Igreja Cristã Ocidental e uma Igreja Cristã Oriental (ortodoxa), está relacionado
ao Grande Cisma de 1054 que dividiu a cristandade em suas vertentes latina e grega. Cf.: (SEGRILLO, 2012b,
pp. 103-104).
31
Este afastamento vai contribuir também para a visão do Ocidente de que os russos são “os outros”,
tanto quanto vai privar os eruditos de Kiev de conhecerem a cultura da Antiguidade clássica, ficando de fora do
movimento renascentista que viria a acontecer séculos depois na Europa. Cf.: (CARRILLO, 2012, p. 25).
31

dos imperadores bizantinos, em 988, possibilitou o surgimento de uma poderosa aliança entre
bizantinos e eslavos, abrindo perspectivas positivas em relação à defesa mútua,
enriquecimento cultural e o desenvolvimento de uma relação mercantil. Ainda, esta conversão
“de cima para baixo”, por ordem do Grão-Príncipe, seria paradigmática nas relações Igreja-
Estado na Rússia: assim como em Bizâncio, Igreja e Estado estiveram imbricados
historicamente dentro de uma relação simbiótica onde predominava a figura do monarca
temporal. Com exceção do período soviético no séc. XX, a influência da Igreja Ortodoxa
russa vai se fazer sentir fortemente por muitos séculos, atravessando o período pós-Kieviano,
o domínio Mongol (veremos a seguir que os mongóis não interferiam na vida pessoal dos
povos sob seus domínios), o Império Czarista e a atual Federação Russa (BLINNIKOV, 2011,
p. 70; BUSHKOVITCH, 2014, pp. 30-34; SEGRILLO, 2012b, pp. 103-105).

2.3. Os Invasores Mongóis

Entre os séculos XIII e XV, Kiev esteve sob domínio Mongol. Construído pelos
sucessivos Khans32, o Império Mongol tornou-se o maior império contíguo da história (com
33 milhões de km2), segundo maior império geral (atrás apenas do Império Britânico
ultramarino, com 33,7 milhões de km2) e o último império nômade formado nas estepes
eurasiáticas. O sucesso das campanhas mongóis é atribuído à elevada capacidade que tinham
em equilibrar as vantagens da sociedade nômade com os benefícios das civilizações
sedentárias que dominavam. Segrillo (2012b), desconstrói o argumento comum de que os
mongóis teriam sido um povo selvagem de conquistas territoriais baseadas apenas no uso da
força,

simplesmente eles não teriam número para conquistar apenas pela força. Sua
população, no auge, chegava a apenas um milhão. Além de suas habilidades como
guerreiros […], tinham uma grande capacidade intelectual de recolher o que havia
de mais adiantado nas tecnologias e formas organizacionais dos povos avançados e
utilizá-las para a conquista e administração burocrática eficiente. (p. 113).

Neste sentido, as tropas que avançavam em nome do Khan não eram compostas
exclusivamente por guerreiros de etnia mongol, já que cada povo dominado contribuía com
um tributo financeiro e cedia soldados para o exército33. Os conquistadores exigiam apenas a
submissão política, mas pouco se envolviam no dia-a-dia da sociedade conquistada e permitia

32
Khan ou Cã (na grafia portuguesa), era o título atribuído ao supremo líder mongol, sendo o mais
famoso deles Genghis Khan (1162-1227), responsável pela ocupação da China entre 1211 e 1227.
33
A maior parte dos soldados que avançaram e dominaram Kiev era de origem tártara, um povo de etnia
otomana. Por isso diz também que este foi um período de dominação tártara ou tártaro-mongol.
32

que mantivessem seus líderes, religiões e culturas inalteradas. A cada conquista o exército
aumentava, extraía-se o melhor da tecnologia, dos artesãos e das técnicas dos povos sob seu
império. Trata-se de um exército bastante sofisticado para a época e que chegou a dominar até
mesmo a China, em 1211, onde aprenderam técnicas militares de infantaria como o uso de
foguetes, catapultas e outras armas de sítio. Por volta de 1237 a expansão do Império atingiu
Kiev, que sucumbe completamente em 1242 (SEGRILLO, 2012b, pp. 15-16).

Mapa 6: A Conquista da Rússia pelos Mongóis (1219-1241) 34

Nos séculos que se seguiram à invasão35, a vida manteve-se basicamente inalterada


para o povo: as cidades e igrejas devastadas nas campanhas começaram a ser reconstruídas,
enquanto os príncipes continuavam suas disputas por terras e poder. O tributo que a Horda
Dourada36 impunha aos dominados deveria ser um fardo econômico, mas não tanto quanto
pudesse impedir a recuperação das áreas devastadas.

34
Cf.: (GILBERT, 1993, p. 22).
35
O Império Mongol na Ásia durou aproximadamente 250 anos, entre 1237 e 1480, quando foram
derrotados definitivamente por Ivan III, o Grande.
36
A dimensão do Império Mongol tornava difícil sua administração por isso ele era dividido em quatro
vastos domínios, sendo que o da estepe oriental, responsável pelo domínio de Kiev, ficou conhecido como Horda
Dourada, um Estado nômade cujo centro localizava-se no baixo Volga próximo de onde viria a ser construída a
cidade de Stalingrado (atual Volgogrado). A grande maioria dos soldados da Horda, como dito anteriormente,
pertenciam a etnia tártara que compunha um dos clãs principais dentro do Império Mongol. Cf.:
(BUSHKOVITCH, 2014, pp. 44-45).
33

O julgo tártaro-mongol deixou importantes heranças culturais e político-


administrativas para Kiev. A administração à distância permitiu que os eslavos se adaptassem
perfeitamente ao sistema político e modus vivendi tártaro e mais do que isso, conseguissem
reciclar o despotismo mongol para acrescentar uma ordem política própria, de origem eslava,
ao império czarista que viria a surgir e se consolidar nos séculos seguintes. Ainda, a
permissão da manutenção da fé cristã garantiu ao povo dominado a sua sobrevivência física e
moral, mesmo que sob alguma submissão e humilhação por terem sido conquistados
(ZHEBIT, 2009, p. 168). Por outro lado, o afastar nas relações com o Ocidente impediu Kiev
de acompanhar o desenvolvimento europeu e passar também por uma Revolução
Renascentista, considerada “ponto fulcral do salto para a modernidade” (SEGRILLO, 2012b,
p. 116). Ainda, Segrillo (2012b) argumenta que o período de dominação mongol na Rússia
teria paralelos com as invasões bárbaras no Império Romano do séc. V que deu início à Idade
das Trevas feudal e atrasou o desenvolvimento europeu em alguns séculos da mesma forma
que as invasões mongóis teriam atrasado os russos.

2.4. O Principado de Moscóvia se Destaca

Enquanto Kiev era uma confederação tribal florescente, mas com vassalagem ao
Grande-Príncipe e descentralizada, a província de Moscóvia, mais modesta, porém
centralizada, vai se transformar na sucessora natural de Kiev após a derrota dos tártaros e o
embrião do Estado russo moderno. Inicialmente uma cidade secundária e de pouca
importância, fundada por volta do ano 114737, o Grão-Ducado de Moscóvia teve atuação
bastante astuta durante o domínio mongol. Segrillo (2012b) afirma que os príncipes
moscovitas não apenas colaboraram com os mongóis,

mas também passaram a fazer isso frequentemente em detrimento das suas rivais
eslavas. Ao conseguir a confiança dos conquistadores, atuaram até como
intermediários entre os mongóis e outras cidades eslavas mais rebeldes. Chegaram a
recolher tributos de outras cidades. Assim, Moscovo foi aumentando sua influência,
enfraquecendo seus inimigos e conquistando sua hegemonia sobre outros centros de
poder. (p. 117).

Zhebit (2009, p. 168), por outro lado, atribui a ascensão de Moscóvia a outros fatores
como a localização privilegiada entre os rios Dniepre e Volga (na rota comercial entre

37
O forte de moscovia localizava-se em um monte elevado próximo a uma floresta de pinheiros,
carvalhos e outras madeiras nobres acima do rio Moscovo. As madeiras serviam como excelentes abrigos para os
moscovitas. O frio, porém reduzia o potencial agrícola, mas cevada, aveia, trigo e outros cereais eram cultivados
vivamente. A carne consumida vinha de javalis, ursos, alces e bisontes que pastavam naquela região. Cf.:
(BLINNIKOV, 2011, pp. 70-71).
34

Ocidente e Oriente); a tranquila sucessão do Grão-Príncipe que não teve problemas para
chegar ao trono como em outros principados; ao sistema de herança de pai para filho que
criava dinastias mais duradouras e unidas; e a relação cooperativa com a Igreja Ortodoxa.

Mapa 7: A Ascensão de Moscovo (1261-1533) 38

Reunidos estes fatores, no séc. XIV, Moscóvia já se encontrava numa posição segura
para dominar o poder na região e desafiar os mongóis: ela tinha incorporado uma série de
pequenos principados vizinhos e exercia hegemonia sobre quase todos os demais. A queda de
Constantinopla em 1453 e a anexação do principado de Novgorod, em 1487, culminaram num

38
Na box lê-se: “A cidade de Moscovo se tornou proeminente em 1147. Entre 1261 e 1533, os
principados russos caíram de vez sob seu controle. Em 1310, Moscovo se tornou a Sé da Igreja Ortodoxa. Em
1380, Dmitri derrotou a Horda Dourada em Kulikovo e, por volta de 1480, o domínio mongol chegou ao fim.
Novgorod foi conquista em 1487, Viatka em 1489, Pskov em 1510 e Riazan em 1521. A primeira vitória contra
os lituânios e a reconquista de Smolensk aconteceu em 1514”. Cf.: (GILBERT, 1993, p. 25).
35

processo que triplicou o território moscovita original e impulsionou o principado para a


libertação do julgo tártaro em 1480, sob o reinado de Ivan III, o Grande (1465-1505)
(SEGRILLO, 2012b, p. 28).
Após derrotar os mongóis, os russos começaram a reconquistar as terras eslavas
perdidas para a Horda Dourada. Quando Ivan IV, o Terrível (1530-1584) assume o trono, tem
início a construção do império russo a partir da anexação de regiões tradicionalmente não
eslavas. Ivan IV avança sobre o Volga e conquista o condado de Kazan em 1552 e Astrakhan
em 1556. Bushkovitch (2014, p. 72) afirma que “a conquista destes territórios apresentou uma
situação nova para os russos, pois nunca antes havia existido uma população não cristã
substancial dentro de suas fronteiras”. A expansão continua e no séc. XVII atinge o Leste na
Sibéria e Oeste até o rio Dniepre. No séc. XVIII, Pedro, o Grande (1682-1725), conquista o
Norte no Mar Báltico (conseguindo uma saída para o Oceano), enquanto que Catarina II, a
Grande (1762-1796), conquista a Península da Crimeia ao sul, atingindo o Mar Negro. No
séc. XIX a Geórgia foi incorporada em 1801, Finlândia (1809), as montanhas do Cáucaso Sul
e a Ásia Central muçulmana, finalizando o processo de construção do Império Czarista
(SEGRILLO, 2012b, p. 124).
Ivan IV foi o primeiro monarca russo a ser coroado oficialmente Czar, termo russo
equivalente a César ou Imperador39. Como seus pais morreram enquanto ainda era uma
criança, os assuntos relacionados ao governo eram tratados pelos príncipes na Duma (uma
espécie de assembleia de nobres russos que tradicionalmente cuidava dos aspetos
administrativos do Estado russo). Os nobres regentes governaram até que ele fizesse 16 anos e
pudesse assumir o trono, assim, durante este período, os boiardos (nobres moscovitas),
conseguiram algum poder sobre a vida política de Moscóvia e Ivan IV sentia-se manipulado
por eles. Quando atingiu a maturidade, Ivan rompeu com os boiardos e reduziu-os à
impotência por medidas extremas, inclusive com a execução de alguns deles, insatisfeito por
não terem apoiado a sucessão de seu jovem filho quando uma doença lhe acometera em 1553
(BUSHKOVITCH, 2014, p. 74; SEGRILLO, 2012b, p. 124).
Com sua morte, em 1584, e sem um herdeiro para o trono, uma vez que seu
primogênito havia morrido anos antes, em 158140, um período de grande instabilidade política

39
Ivan III criou o termo “Czar” e foi o primeiro a utilizá-lo para referir a si próprio como imperador de
todos os russos, contudo, seu sucessor foi o primeiro a ser coroado como tal.
40
O comportamento de Ivan IV era bastante assustador. Talvez pela criação que tivera, o monarca sentia-
se perseguido todo o tempo e travava guerras muitas vezes inúteis apenas para exibir poder. Além disso, o Czar
eliminava quem quer que o desafiasse e não havia segurança nem mesmo entre os membros de sua família, que
se sentiam ameaçados pela paranoia que o consumia. Numa das fúrias do Czar ele teria agredido a nora grávida,
fazendo-a abortar. O filho do Ivan, interpelando-o, foi vítima de um golpe mortal do monarca que, em um ataque
36

e social acometeu o Estado russo. Conhecido como Período das Desordens (1598-1613), esta
fase da história russa se caracterizou por uma série de lutas sucessórias, rebeliões e guerras
externas que só viria a ter fim com a coroação de Miguel Romanov, em 1613 em uma
assembleia geral composta pelos boiardos41.
Passado o obscuro Período das Desordens, a Rússia voltaria a ter paz e uma nova
dinastia no governo. As duas décadas que se sucederam a este período viram a reestruturação
da ordem social e política que havia existido antes, porém a servidão ainda era uma base
sólida que determinava a vida da maioria dos cidadãos russos e desacelerava, mas não
impedia, o crescimento econômico. Além disso, houve um acréscimo substancial da
população que permitiu que o campo se recuperasse da maior parte dos danos sofridos no
Período das Desordens, causados pelos conflitos entre príncipes e nobres. Estas
transformações rapidamente alçaram Moscovo à condição de uma cidade importante tendo
atingido, dentro de suas muralhas, aproximadamente 100 mil habitantes, metade fazia parte do
exército e complexo administrativo do palácio, enquanto a outra metade compunha o restante
da população urbana e se dividia entre clero, pedintes e trabalhadores assalariados
(BUSHKOVITCH, 2014, pp. 83-101). A coroação de Pedro, o Grande, em 1682, vai marcar
outro momento importante para a construção da identidade russa.

2.5. A Influência Ocidental de Pedro, o Grande (1682-1725)

O reinado de Pedro, o Grande, marcou um momento sui generis na história russa que
reflete ainda hoje nas discussões sobre o destino do povo russo: afinal, a Rússia é um Estado
europeu, asiático, uma mistura da cultura dos dois continentes ou nenhum deles? Se durante a
existência da Rus de Kiev os laços culturais estavam ligados à Bizâncio, no Oriente, com a
administração petrina a Rússia vai experimentar uma aproximação ao Ocidente sem
precedentes. Convencido de que Moscovo estava muito atrasada em relação às capitas
europeias, o Czar deu início a um processo de ocidentalização forçada de base regente
autocrática. Sobre seu governo, Green (1994), afirma que,

Pedro é bem conhecido, pela modernização e ocidentalização da Rússia, mas deve-


se reconhecer que esta modernização era apenas técnica e instrumental. Não havia
nenhuma intenção de introduzir ideias liberais ou limitar o poder da autocracia. Pelo
contrário, Pedro tinha toda a intenção de fortalecer e centralizar seu poder e usar da
autocracia para forçar a modernização russa” (p. 03, nossa tradução).

de ódio, deu fim à própria linha sucessora. Cf.: Engineering an Empire: Russia [Construindo um Império:
Rússia]. Direção de Sarah Hutt e Mark Cannon. Escrito por Sarah Hutt. The History Channel, 2006. DVD.
41
Miguel Romanov I deu início à dinastia dos Romanov que governou a Rússia até a Revolução
Bolchevique de 1917.
37

Durante seu governo, Pedro viajou anonimamente à Europa para viver e trabalhar por
um período e quando voltou trouxe consigo cerca de 750 técnicos e artesãos holandeses.
Influenciado pela viagem e pela revolta conservadora quando retornara, Pedro deu início a um
processo de modernização aos moldes Ocidentais na Rússia. Sob sua tutela, uma série de
novas manufaturas e indústrias mercantis foram criadas; recrutou mais técnicos europeus e
enviou trabalhadores russos para períodos de intercâmbio no Ocidente; alterou a Assembleia
russa substituindo a Duma boiarda por um senado nomeado por ele e dividiu o país em oito
macrorregiões administrativas. Em 1703 deu início à construção de São Petersburgo 42, futura
nova capital do Império próxima ao Mar Báltico e que viria a ser conhecida como a “janela
para o Ocidente” (SEGRILLO, 2012b, pp. 132-133; ZHEBIT, 2009, pp. 172-173). Entre
outras medidas implantadas por Pedro estão as conquistas e reordenação territorial do
Império, a criação de um exército regular e o estabelecimento da Tabela de Patentes 43. Com
estas ações, o Czar consolidava o princípio centralizador do poder em dois sentidos: controle
absoluto da vida pública dentro do Império e a liberdade de expansão territorial nos assuntos
relacionados à política externa.
Pedro modificou significativamente a estrutura de poder na Rússia ao introduzir um
modelo de Estado absolutista que substituía a ideologia bizantina de império eclesiástico
ortodoxo pelo regime civil ao estilo romano. Com isso, desferiu um duro golpe na ontologia
tradicional de Moscovo como a “Terceira Roma”, mas ao mesmo tempo transformou-a em
uma potência equivalente aos grandes centros de poder europeu (ZHEBIT, 2009, p. 174). A
carga de toda essa mudança, obviamente, recaiu sobre o campesinato e prolongou o processo
de servidão à medida que o absolutismo se consolidava. Entre avanços e retrações, as
reformas petrinas44 não foram capazes de extinguir a corrupção endêmica da burocracia russa,
visto que o sistema político não se baseava necessariamente em um ambiente de transparência
política, mas num regime autocrata em que qualquer esforço anticorrupção esbarrava,
automaticamente, nos favoritismos e protecionismos daqueles que estavam no poder45.

42
São Petersburgo foi capital do Império Russo de 1713 a 1728 e novamente entre 1732 e 1918, quando a
Revolução Russa estabeleceu Moscovo novamente como capital. Entre 1914 e 1924 a cidade chamou-se
Petrogrado e entre 1924 e 1991 era conhecida como Leningrado.
43
A Tabela de Patentes, criada em 1722, era um código meritocrático que substituía o arcaico sistema
patriarcal de hierarquias na estrutura do Estado russo o que alterava significativamente o status da nobreza. Cf.:
(ZHEBIT, 2009, p. 173).
44
Para uma leitura mais profunda sobre as muitas reformas de Pedro. Cf.: (ASNISIMOV, 1993; COHEN,
1998, pp. 45-49; DIXON, 1999, pp. 07-24).
45
A questão da corrupção política foi um problema que assolou não apenas o Império Russo, mas a União
Soviética sofria deste mal e mais recentemente a Federação Russa também é vítima de um sistema facilmente
corrompível e que veremos a seguir quando tratarmos da Rússia Pós-Soviética. Cf.: (STUERMER, 2009, pp.
100-101).
38

Mapa 8: Populações e Províncias na Rússia em 172446

Já no séc. XIX, alguns intelectuais ligados principalmente à aristocracia russa


argumentavam que o país, com seu tipo de governo, religião, cultura, formação étnica e
afastamento geográfico das capitais europeias, deveria desenvolver políticas isolacionistas
que o mantivesse distante de influências exteriores. Outros, porém, influenciados pelo
liberalismo ocidental, discordavam desta opinião e preconizavam que a Rússia, nascida na
Europa Oriental e herdeira da cultura e religião de Bizâncio, deveria integrar-se plenamente
ao Ocidente. Este era o debate identitário russo no séc. XIX que opunha eslavófilos e
ocidentalistas.

46
Na box superior lê-se: “St. Petersburgo: escolhida como local da nova capital por Pedro, o Grande em
1703 e construída com grande custo humano, São Petersburgo tornou-se a sede do governo em 1712. Membros
da corte e da nobreza foram obrigados a se mudar para a cidade a partir de 1725. Em 1788 a cidade possuía uma
população de 200 mil habitantes”. Na box inferior lê-se: “Foi Pedro, o Grande, que primeiro dividiu a Rússia em
províncias (conhecidas como „Gubernii‟ ou Governos). Estas divisões administrativas serviam para propósitos
militares, financeiros e judiciais. Elas permitiam à Pedro supervisionar todo o Império delegando ele mesmo as
responsabilidades aos Governos. Mais tarde, Catarina, A Grande, dividiu essas províncias em unidades menores.
O estabelecimento de administrações provincianas levou a um rápido aumento da burocracia e a uma complexa
hierarquia senhoril local. A população da Rússia em 1724 era acima de 15 milhões, dos quais apenas 1/2 viviam
nas cidades”. Cf.: (GILBERT, 1993, p. 38).
39

2.6. Ásia ou Europa? O Debate entre Eslavófilos e Ocidentalistas

A administração petrina favoreceu o surgimento e desenvolvimento do debate


identitário russo devido às novas ideologias políticas implementadas pelo Czar que
transformaram a Rússia num Estado nacionalista secular (TSYGANKOV, 2010, p. 04).
Ainda, a Primeira Carta Filosófica (1836) de Chaadaev (1794-1856)47, vai tocar em questões
profundamente sensíveis à sociedade e cultura russa e o papel que os russos deveriam
desempenhar no mundo. Chaadaev, um filósofo russo que lutou ao lado das forças
napoleônicas e havia tido a oportunidade de viajar por toda a Europa, dizia que a Rússia havia
trilhado um caminho histórico errático a começar pela adoção do cristianismo ortodoxo da
“miserável bizâncio”, que excluía os russos da florescente civilização europeia que se
desenvolvia a leste do país. O autor argumentava que a rápida solução para modernizar a
Rússia era enterrar o barbarismo e atraso cultura que se verificara no Império Czarista
(LEMONTE, 2013, p. 02). Chaadaev (apud SEGRILLO, 2012b) escreveu dizia que,

[...] posicionado entre duas das principais partes do mundo, Oriente e Ocidente [...],
deveríamos fundir em nós os dois grandes princípios da natureza espiritual – a
imaginação e a razão – e combinar, em nossa civilização, a história do mundo
inteiro. Mas tal papel não foi determinado a nós pela providência [...]. Solitários no
mundo, não demos nada ao mundo, nada lhe ensinamos. Não introduzimos nenhuma
ideia na massa de ideias da humanidade, não contribuímos para o progresso da razão
humana [...]. Não pertencemos a nenhuma das grandes famílias da raça humana. Não
somos nem Ocidente, nem Oriente e não temos as tradições de nenhum deles.
Colocados como que fora do tempo, a educação geral do gênero humano não nos
alcançou. (p. 134).

O Czar Nicolau I ficou enfurecido com as palavras de Chaadaev48, que ao mesmo


tempo jogava combustível no debate que dividia a intelectualidade russa. Assim,
influenciados por Chaadaev e também pelo idealismo alemão de Hegel (1770-1831) e
Schelling (1775-1854), os ocidentalistas louvavam os esforços de modernização da cultura
russa através do caminho europeu iniciado por Pedro, o Grande. Na visão deste grupo,
replicar o modelo de desenvolvimento que dava certo nas capitais europeias era o primeiro
passo para a criação de um ambiente auspicioso onde, posteriormente, a cultura autóctone se
responsabilizaria sozinha por ditar os moldes desenvolvimentistas a serem aplicados. Entre os
ocidentalistas a representatividade da Igreja Ortodoxa como instituição política e cultural era
praticamente desconsiderada, segundo Danks (2009),

47
Chaadaev escreveu, ao todo, oito cartas entre 1926-1931. Seus escritos, inclusive, não podiam circular
na Rússia, mas tinham trânsito livre em outros países europeus.
48
O teor das cartas de Chaadaev lhe causou censura e a constatação de que era clinicamente louco e
necessitava de vigilância médica constante. Cf.: (MALTEZ, 1993, p. 103).
40

a ortodoxia era assunto de pouco importância para os ocidentalistas; alguns eram


ortodoxos em sua fé individual, mas outros eram agnósticos e até mesmo ateístas
militantes. Os ocidentalistas pregavam uma reforma política que incluía até o fim da
autocracia, a adoção de uma constituição e o estabelecimento de um parlamento. (p.
96, nossa tradução).

Do outro lado da discussão encontravam-se os eslavófilos que, diferentemente dos


ocidentalistas, valorizavam as singularidades russas, a cultura regional e a história nacional,
além de condenarem o fracasso social do país e atribuí-lo às ideias modernas importadas pelo
Czar e que eram consideradas destrutivas à nação eslava. Danks (2009), nos diz que o
eslavofilismo,

estava centrado em uma crença de superioridade natural e na missão histórica da


ortodoxia e da Rússia. Os eslavófilos retratavam a sociedade e a cultura ocidental
como assuntos separados e o Racionalismo como uma raiz do mal. […] Eles foram
grandes oposicionistas da noção individualista do Ocidente e, consequentemente, do
parlamentarismo e constitucionalismo. (p. 96, nossa tradução).

O debate sobre a missão ontológica do povo russo se estendeu de tal forma que
Dostoiévski (1821-1881) deixou sua contribuição para a discussão ao registrar que a “na
Europa somos escravos, na Ásia somos senhores, na Europa somos tártaros, na Ásia somos
europeus” (apud, GASPAR, 2011, p. 72). Para os europeus, ainda no séc. XIX, os russos eram
vistos muito mais como uma parte da cultura asiática do que propriamente Ocidental de forma
que sua história de imperialismos consecutivos impunha algum receio aos ocidentais. Isto
ficou particularmente registrado quando escritores franceses retratavam o governo russo
apenas em seu especto negativo: despótico e brutal49. Suas razões recaíam sobre o fato de uma
grande parcela de poloneses terem sido forçados a migrar (e muitos escolhiam a França como
destino final) na altura das Revoluções Liberais de 1830, quando os insurgentes nacionalistas
poloneses foram violentamente massacrados pelo Czar Nicolau I50. Contudo, a seguir à
Guerra Franco-Prussiana (1879-1871), que culminou com a emergência de um Império
Germânico como ameaça maior às soberanias europeias, a ideia Ocidental de se unir contra o
Império “asiático” russo se dissipou, permitindo uma reaproximação entre as duas culturas.
No séc. XX a discussão não cessou. O destino ontológico e a identidade do povo russo
ainda eram temas amplamente debatidos entre intelectuais que buscavam respostas históricas,
políticas e filosóficas para explicar o caos identitário nacional que se mantinha a séculos.
Neste período muitos estudiosos excursionaram pelas capitais europeias e tiveram contato

49
“Estas imagens eram descritas na Europa Ocidental durante o século XIX por autores viajantes
franceses como Astolphe-Louis, Marquis de Custine, e historiadores como Henri Martin”. Cf.:
(SHLAPENTOKH, 2013, p. 450, nossa tradução).
50
Cf.: (HOBSBAWN, 1962, pp. 153-181).
41

com outros povos, idiomas, culturas e realidades sociais distintas. Este intercâmbio cultural
foi extremamente importante porque foi o responsável por fazer surgir, por volta dos anos
1920, entre as comunidades de russos exilados sobretudo em Paris, Praga, Sofia e Belgrado e
contrários ao regime bolchevique que havia se instalado na pátria-mãe, as primeiras linhas do
movimento Eurasianista.

2.6.1. Da Identidade à Geopolítica: O Eurasianismo

A persistência do debate sobre a ontologia e identidade do povo russo nos anos 20 do


século passado deram origem ao desenvolvimento de duas correntes de pensamento baseadas
nas discussões entre Ocidentalistas e Eslavófilos do século anterior e que rivalizavam entre si
sobre qual deveria ser o caminho a percorrer para o progresso nacional e respectiva correção
dos atrasos culturais: Os Ocidentalistas mantinham o argumento da necessidade de
aproximação russa aos Estados europeus com o objetivo de modernizar o país que vinha de
uma série de crises econômicas e sociais, fruto das políticas imperialistas do início do século
que acabaria por culminar com a Revolução Russa de 191751. Por outro lado, os Eurasianistas,
herdeiros diretos dos Eslavófilos, não eram apenas contra a aproximação exclusiva ao
Ocidente como também preconizavam uma atenção maior à cultura Oriental e diziam que a
Geografia russa obrigava o Estado a ter uma atuação mais consistente tanto na Europa quanto
na Ásia.
Entender as propostas dos Eurasianistas clássicos passa, necessariamente, pela
compreensão de que sua ideologia trata, na verdade, da síntese do pensamento das elites
russas em relação às dicotomias culturais Rússia-Europa que se enquadra dentro de uma
narrativa identitária cujo contexto histórico, muito mais amplo e diversificado, engloba outras
narrativas nacionalistas do início do séc. XX52. Isto posto, torna-se fácil perceber as razões
pelas quais esta filosofia só pôde surgir entre a intelectualidade russa expatriada. Laruelle
(2008), afirma que,

Analisar o Eurasianismo através de suas influências Ocidentais pode nos ajudar a


entender como as ideias dos emigrados russos eram fundamentalmente, uma
filosofia de exílio [...] Eurasianismo também era uma filosofia de exílio porque suas
ideias [...] só poderiam surgir entre os intelectuais que consideravam difícil aceitar

51
A Rússia do final do séc. XIX e início do séc. XX, governada pelo Czar Nicolau II, era um gigante
territorial e populacional com aproximadamente 140 milhões de habitantes, extremamente atrasada e com 85%
da população vivendo no campo. Por outro lado, os nobres viviam cercados de luxo e conforto, além de
dominarem o funcionalismo público lhe garantindo vantagens sob os demais. Para um panorama da situação do
povo russo entre os séculos. XIX e XX cf.: (BUSHKOVITCH, 2014, pp. 227-245; GIOVANA & MACHADO,
2007, pp. 20-23).
52
Cf.: (HOBSBAWM, 1990, pp. 125-157).
42

serem arrancados de sua terra natal e que estavam passando por um processo de
alienação [referência ao conceito de self-estrangement de Karl Marx que significa,
primordialmente, quando uma pessoa está alienada a si mesma, a outros, à sociedade
ou ao trabalho]. (p. 16, nossa tradução, nossa ênfase).

Mapa 9: O êxodo russo (1917-1923) 53

Neste sentido, ainda que o debate identitário dentro da recém-surgida URSS não fosse
repreendido pelos bolcheviques, ele encontrou terreno fértil fora dela e se manteve vivamente
entre os mais de dois milhões de russos exilados e contrários ao regime. Estes, dividiam-se
em muitas fações políticas, de ultraconservadores e monarquistas a liberais, socialistas e
anarquistas que editavam e publicavam uma série de material anti-bolchevique
(BARBASHIN & THOBURN, 2014).
Ainda que alguns intelectuais expatriados chegassem a admirar o alcance geopolítico
que a União Soviética começava a estabelecer e sinalizavam timidamente com alguma
simpatia pela liderança comunista, como N. Ustryalov (1890-1937) que defendia, entre outras
coisas, que a Rússia leninista possuía um modelo político que permitia a construção de uma
meritocracia e favorecia a movimentação entre os estratos sociais, a grande maioria dos
exilados rechaçavam qualquer intenção de retorno à Grande Mãe Rússia sob domínio
comunista, entre estes, os Eurasianistas (LEMONTE, 2013, p. 04).

53
Na box lê-se: “Os Bolchviques aprisionaram mais de 80 mil russos entre 1917 e 1919, dos quais até 10
mil foram executados. Mais de um milhão de russos foi para o exílio entre 1917 e 1923”. Cf.: (GILBERT, 1993,
p. 107).
43

Várias correntes ideológicas nacionalistas surgiram entre os exilados, mas o êxito do


Eurasianismo é considerado especificamente por ter sido capaz de reunir uma intelectualidade
de alto nível e das mais diversas áreas do conhecimento científico, proporcionando uma
interação única e multidisciplinar entre Geografia, Economia, Linguística, Filosofia, História
e conhecimentos da cultura oriental. Portanto, dentro da síntese do discurso Eslavófilo do séc.
XIX, os Eurasianistas acrescentaram elementos positivistas e generalistas que elevava o
discurso ao patamar de uma ideia essencialmente geopolítica (MALTEZ, 1993, p. 112),
justificando seu pensamento na necessidade de uma Rússia mais próxima da Ásia e menos da
Europa, estabelecendo a ortodoxia como religião Oriental, mantendo, porém um sentimento
de apreciação pelo misticismo e fundamentalismo54 das religiões originalmente orientais
como o Islamismo, Budismo e Hinduísmo.
Com este discurso, o Eurasianismo vai se caracterizar por uma mentalidade
iconoclástica ocidental que emerge da ambígua posição cultural russa em relação à Europa.
Seus fundadores vão defender o “olhar para o Oriente” não apenas por questões de exotismo,
mas de maneira que as singularidades russas pudessem ser evidenciadas ante ao Ocidente. Na
verdade, os Eurasianistas, na tentativa de encontrar uma solução para o caos identitário do
Império, vão exaltar a alteridade oriental porque percebem nela um mundo de estabilidade,
conservadorismo e religiosidade dentro de um pensamento baseado na totalidade, no Estado e
na vida espiritual ao invés do que percebiam no Ocidente, um mundo em constante mudança,
racional, mecanicista, materialista e centrado nas individualidades ao invés do coletivo55. Em
outras palavras, da confluência de diferentes áreas de estudo e pontos de vistas distintos
baseado na vontade de aproximação à cultura Oriental, vai emergir uma ideologia não apenas
regional, mas de ambição global e de lógica interna fundamentada no conceito eurasiático
(LARUELLE, 2008, pp. 18-19).
São considerados fundadores do Eurasianismo o geógrafo e economista P. Savitsky
(1895-1968), o etnógrafo N. Trubetzkoy (1890-1938), o filósofo da religião G. Florovsky
54
O termo fundamentalismo, muito associado hoje a atos terroristas ligados principalmente a religiosos
islâmicos, não possuía esta conotação entre os Eurasianistas, mas sim ao conjunto de doutrinas religiosas
fielmente seguida por seus aderentes.
55
Ainda hoje a sociedade russa é tida como um povo pouco coletivista. Arutunyan (2014, pp. 357-358)
diz que “quando se procura uma identidade nacional russa, encontram-se mais fatores de divisão da sociedade do
que fatores de união [...] a falta de comunicação – que leva à falta de participação – surge como um problema
central”. A autora afirma que durante o período soviético houve uma tentativa de coletivização para remediar o
problema, “note-se que a própria palavra „coletivização‟ pressupõe a falta de um coletivo, sugerindo que precisa
ser imposto pela força” (p. 358, ênfase da autora). Segrillo (2012b) confirma a visão de que havia um projeto
soviético neste sentido ao descrever um caso em que, no último ano de existência da URSS, estudantes
brasileiros em Moscovo foram interpelados por um professor russo que pediu para que apresentassem cinco
características marcantes dos russos (russkie). A primeira, e mais citada característica percebida pelos estudantes
foi a de que os russos eram introvertidos. Cf.: (SEGRILLO, 2012b, pp. 16-18).
44

(1893-1979) e o crítico literário P. Suvchinsky (1892-1985). Como marco histórico de


surgimento, o lançamento de uma coletânea intitulada “Iskhod k Vostoku”, de 192156. Os
textos desta obra versam sobre a ideia de que o destino russo se encontrava primordialmente
em sua Geografia e que qualquer que fosse seu governante deveria pensar imperialmente,
estar atento às necessidades populares, garantia de suas terras e ao reconhecimento dos
perigos que margeavam as fronteiras russas57. Trubetzkoy, altamente conservador, entendia
que mesmo que a Rússia estivesse ressurgindo fortemente após a Revolução de 1917, seria
eternamente uma potência diferente das demais por não ser considerada nem europeia, nem
completamente asiática, mas híbrida, um Estado sui generis ou, na melhor das hipóteses, um
Estado eurasiático, e discordava do projeto comunista por considera-lo ocidentalizado e
irrealista em relação às especificidades russas. Em suas palavras: “A Europa não é nossa mãe
(…), a senda do nosso evidente destino dirige-se para o Oriente (…), a Rússia cometeu o
pecado de menosprezar o seu orientalismo e de se deixar ludibriar por ilusões ocidentais”
(apud MALTEZ, 1993, p. 122). As críticas Eurasianistas ecoavam fortemente dentro e fora da
URSS, mas à medida que o poder do regime se consolidava, a ideia Marxista tornou-se a
única aceitável de maneira que as demais discussões sobre identidade e nacionalismos foram
publicamente silenciadas pelos bolcheviques (CARRILLO, 2012, pp. 72-73).
Para Lenine, o grande líder da Revolução de 1917, a questão identitária tinha pouca
importância comparada com a necessidade de mobilização e união da classe trabalhadora
industrial contra a autocracia czarista. Na verdade, o próprio discurso ideológico Marxista
pouco falava sobre nacionalismos e identidade, Marx e Engels tratavam o tema como
questões “periféricas, acessórias, e as diferenças culturais entre sociedades como fatores de
complicação que distraíam a metodologia e o programa essencial de estabelecimento do
socialismo” (REGO, 1999, p. 93). Entretanto, Lenine tinha consciência de que para garantir o
sucesso da Revolução era necessário se ligar ao potencial dos nacionalismos para extinguir
tanto os impérios coloniais europeus quanto o império czarista. Assim, estrategicamente,

56
LARUELLE (2008), traduz a obra russa para o inglês como “Exodus to the East” e completa: “os
autores brincaram com o duplo significado da parava russa iskhod que significa tanto „êxodo‟ ou „saída‟ como
„resultado‟ ou „solução‟.“ (p. 20, nossa tradução).
57
A fundação do Eurasianismo como ideologia tem um caracter não apenas identitário, mas
essencialmente Geopolítico, como falado anteriormente, e vai servir de base para políticas futuras que vão quase
todas em direção à necessidade de reconstruir uma Rússia regionalmente forte e capaz de abarcar uma variedade
de etnias, culturas e religiões que são possíveis apenas dentro do arcabouço espacial eurasiático. O Eurasianismo
é o avanço das ideias Eslavófilas do séc. XIX, mas se torna um dos pilares da política externa russa no fim do
séc. XX e início do séc. XXI.
45

Lenine se apega ao princípio da autodeterminação dos povos58, adotado pelo Conselho Geral
da Primeira Internacional Comunista e formalizado no programa da Segunda Internacional em
198659. Em um de seus artigos consta a “necessidade urgente de evitar a influência crescente
da Rússia na Europa, assegurando à Polônia o direito à autodeterminação, que pertence a
todas as nações e dando a este país, mais uma vez, base social e democrática” (REGO, 1999,
p. 93).
Em 1917, em outra ação estratégica, o Congresso do Partido Comunista aprovou uma
resolução que conferia direito a todas as nações que formavam a Rússia de se separarem
livremente e criarem um Estado independente. Lenine acreditava que rapidamente as nações
criadas, mesmo as menores, perceberiam os benefícios de fazer parte de uma unidade política
e territorial de dimensões globais e logo optariam pela reincorporação à Rússia. Desta forma,
a estratégia do mandatário soviético consistia, num primeiro momento, na cooperação
(Sblizhenie) e, posteriormente, na união (Sliyanie). Na Constituição de 1918, adotou-se o
regime federal de organização do Estado, indicando que Lenine passaria a encarar a
organização de um estado multiétnico como assunto relevante. No ano seguinte, foi proposta a
união de estados federados, dando origem ao sistema soviético (REGO, 1999, p. 95).
Contudo, consumida a Revolução, Lenine recuou na defesa da autodeterminação
incondicional e voltou sua atenção à necessidade de consolidação da solidariedade proletária.
Isto porque, afirma Rego (1999, pp. 44-45), o objetivo de Lenine era o de resolver a questão
nacional de forma a acalmar os ânimos das minorias exaltadas e evitar os nacionalismos
combativos que pudessem prejudicar o estabelecimento do regime socialista.
Nos anos 1930, sob o a liderança de Joseph Stalin, teve início nas repúblicas não-
russas o processo de russificação (ou sovietização) das culturas autóctones com a vigorosa
promoção da língua russa nas escolas na tentativa de fortalecer a União e destruir as
nacionalidades menores. No período da Segunda Guerra Mundial, a propaganda soviética
esteve banhada de um simbolismo russo patriótico no qual o Estado e o povo russo eram
apresentados como o grande irmão das outras Repúblicas, chamadas comumente de pequenos
irmãos por Stalin (DANKS, 2009, p. 13). No vigésimo Congresso do Partido Comunista da
União Soviética (PCUS) em 1956, altura da nomeação de Nikita Khurushchov como
Secretário Geral do Partido, houve uma mudança em relação às políticas nacionalistas de

58
A ideia de Lenine era de internacionalizar o socialismo soviético e por isso as questões nacionalistas
tinham pouca importância porque logo seriam absorvidas pela “ideologia maior”.
59
As Associações Internacionais dos Trabalhadores eram organizações supranacionais que reuniam
operários ligados às mais variadas ideologias e que desenvolvia um trabalho de apoio a greves, sindicatos e ao
trabalhador como um todo.
46

Stalin. Um certo grau de autonomia fora dado às Repúblicas no ano seguinte através das
Sovnarkhorzy, uma espécie de conselhos econômicos que davam poderes substanciais às
várias regiões nas grandes e pequenas Repúblicas. Khurushchov iria reiterar o papel do
Partido no florescimento das nações, encorajando a cooperação (sblizhenie) entre elas,
contudo, não perdeu a oportunidade de expandir a cultura russa entre cidadãos não-russos: a
partir de 1958 o idioma russo voltaria a ser fortemente promovido e, por volta de 1979,
metade da população não-russa já se comunicava no idioma do grande irmão (REGO, 1999,
p. 98).
Somente nos anos 1980 é que o Eurasianismo vai voltar, timidamente, a ser debatido
em âmbito nacional já que até aquele momento as discussões encontravam-se restritas a
pequenos círculos da elite mais conservadora russa. O PCUS60, presidido por Gennady
Zyuganov, começou a publicar uma série de pensadores russos que não pactuavam com a
ideia comunista, entre eles alguns eurasianistas como Lev Gumilev61 e Trubetzkoy. Alexander
Prokhanov, editor do semanário nacionalista Den62, mantinha uma área em seu jornal
dedicada exclusivamente aos temas eurasiáticos que propunha ser um fórum de discussão
entre russos e muçulmanos (KENNEDY & DANKS, 2001, p. 40). Entretanto, a grande
transformação e consolidação do pensamento eurasianista como uma ideia geopolítica vai
acontecer no início dos anos 1990, final da Guerra fria, e que será abordada detalhadamente
no próximo capítulo.

60
Precedido pelo Partido Comunista da Federação Russa (PCFR), em 1993.
61
Lev Gumilev (1912-1992), foi um antropólogo eurasianista que criou o termo etnogênese para definir
um grupo étnico específico. Em sua visão, o superetnos russo abarcava uma mistura de culturas eslavas com
elementos ortodoxos, turcos e muçulmanos completamente diferente do outro superetnos formado na Europa
Ocidental entre os povos romano-germânicos que rivalizaram historicamente com os russos. A este respeito, cf.:
(DANKS, 2009, p. 98; KENNEDY & DANKS, 2001, pp. 39-40; TISHKOV, 1997, pp. 01-07). A influência
eurasianista de Gumilev pode ser verificada na criação da Universidade L. N. Gumilev em Astana, capital do
Cazaquistão, pelo presidente Nursultan Nazarbayev em maio de 1996.
62
Em russo “Dia”. Posteriormente, em 1993, o semanário teria seu nome alterado para Zavtra, ou
“Amanhã”.
47

3. A GEOPOLÍTICA E NEOEURASIANISMO

O surgimento da Geopolítica como ciência é atribuído ao jurista sueco Rudolf Kjellén


(1846-1922), que empregou o termo pela primeira vez em um ensaio intitulado “As Grandes
Potências” (Stormakterna. Konturer kring samtidens storpolitik), em 1905. Kjellén
preocupava-se quanto ao que deveria ser o Estado, entendendo que o conceito jurídico de que
dispunha na época já não era mais suficiente e que a relação do Estado com questões como o
Poder e o território não podiam mais ser desprezadas. Assim, para expressar sua conceção, o
jurista cria um novo termo dentro de um ramo autônomo da Ciência Política, distinguindo-o
da Geografia Política de Friedrich Ratzel, que considerava um sub-ramo da Geografia. Onze
anos mais tarde, Kjellén reafirma as bases deste novo conhecimento na obra “O Estado como
forma de vida” (Der Staat als Lebensform), onde define a Geopolítica, em termos gerais,
como o estudo do Estado considerado como “um organismo geográfico ou ainda como um
fenómeno espacial, quer dizer, como uma terra, um território, um espaço ou mais exatamente
ainda, um país” (apud DEFARGES, 2012, p. 39). Neste sentido, o Estado para Kjellén
transforma-se num organismo biológico que “nasce, cresce, e morre em meio de lutas e
conflitos biológicos, dominado por duas essências principais (o meio e a raça) e três
secundárias (a economia, a sociedade e o governo)” (apud COSTA, 1992, p. 56).
Contudo, a Geopolítica de Kjellén não surge como um estudo isolado sobre a relação
Estado-Espaço-Poder, mas como complemento às teorias do geógrafo alemão Friedrich Ratzel
(1844-1904), dentro do contexto político da segunda metade do séc. XIX. Naquele tempo,
com a emergência da figura dos Estados-Nação e a promoção do colonialismo europeu, havia
também uma preocupação em responder às exigências da Revolução Industrial que se iniciou
no século anterior (CHURRO, 2013, p. 28). Além disso, o expansionismo alemão e a
elevação da Prússia de Bismarck à condição de potência continental, estão na gênese da mais
importante teoria de Ratzel: O Determinismo Geográfico63, onde ele tenta demonstrar que
Espaço é Poder, dando origem a uma ciência que vai utilizar a Geografia como instrumento
político: a Geografia Política.
Além do Determinismo Geográfico, Ratzel apresenta ainda, dentro da Geografia
Política, a teoria do Espaço Vital (Lebensraum), onde Espaço (Raum) e Posição (Lage) são

63
“A conceção que Ratzel possui da geografia deve muito a Humboldt e Ritter, que estudou atentamente,
mas ela é estruturada por uma visão darwinista. Ratzel procura estabelecer as leis gerais que regem a influência
do meio sobre os grupos humanos: dedica-se ao estudo das relações que se desenvolvem, por assim dizer
„verticalmente‟ entre as sociedades e o ambiente em que vivem [...], o que o leva também a interessar-se pelos
fenómenos de circulação ou, se quiser, pelas relações „horizontais‟ que as sociedades desenvolvem de um ponto
da Terra a outro”. Cf.: (CLAVAL, 2006, pp. 73-77).
48

sinônimos de Poder e o Estado que possuir mais espaço e em melhor posição possuirá,
consequentemente, mais poder. Por Espaço Vital, Ratzel entendia ser toda parcela territorial
necessária para que um país fosse forte, seguro e respeitado pelos seus semelhantes. Neste
sentido, nas batalhas travadas pelo domínio de pequenos ou grandes espaços terrestres apenas
o Estado mais forte poderia resistir e vencer suas disputas (CHURRO, 2013, p. 28). Para
provar sua teoria, o geógrafo64 alemão analisou a fundação do II Reich alemão, a China
Imperial e os EUA como exemplos onde o Determinismo Geográfico pudesse ser observado e
de que essas entidades, em virtude das grandes aquisições territoriais (e de serem as principais
potências à época), tornaram-se autossuficientes e capazes de rivalizar com o Império
Britânico. Ratzel não enumera apenas o Espaço e a Posição como fatores determinantes do
Poder, mas o Sentido do Espaço (Raumsinn) tem igual importância. Ainda que nunca fosse
possível demonstrar cientificamente e por se tratar de uma conceção puramente subjetiva a
cada grupo social, o Sentido do Espaço relaciona-se à aptidão natural de um determinado
povo para se mobilizar, organizar e se desenvolver no espaço que ocupa (CHURRO, 2013, p.
129). Sobre o Raumsinn, Ratzel explica que,

assim como há homens que nascem mais inteligentes que outros, ou como há
indivíduos que vêm e ouvem melhor que outros, também há raças que comunicam
melhor com o espaço que habitam, que o entendem e que, por isso, têm maior
capacidade para captar as suas forças criadoras e dinamizá-las. (apud ALMEIDA,
2012, p. 132).

As diferenças que Kjellén estabeleceu entre a sua Geopolítica e a Geografia Política de


Ratzel dizem respeito principalmente à abordagem de cada uma. Se na Geografia Política
existe uma ênfase geográfica mais ligada à relação homem/natureza, na Geopolítica é a
política que se torna enfatizada diante da perspectiva do Estado perante a dimensão espacial
da sua atuação. Ainda, Kjellén procurou direcionar sua ciência para um eixo que comporte a
Ciência Política, a Geografia Política, a estratégia militar e a teoria jurídica do Estado,
garantindo-lhe uma posição interdisciplinar. Essas distinções, contudo, foram bastante
questionadas por vários geógrafos como Yves Lacoste, Paul Claval, Vidal de La Blache e
outros que viam na Geopolítica tão somente a Geografia Política “aplicada”. A este respeito,
Vesentini (2005) lembra-nos que os grandes nomes da Geopolítica mundial, com a notável
exceção de Halford J. Mackinder, nunca foram geógrafos de formação, mas estrategistas
militares cuja preocupação não estava no conhecimento sobre um aspeto da realidade, mas no

64
Ratzel tinha por formação acadêmica não a Geografia, mas Farmácia e Zoologia. Além de ter sido
jornalista na América e na África, Ratzel foi soldado das tropas alemãs contra a França de Napoleão III em 1870.
Almeida (2012) atribui à esta experiência militar e multidisciplinar o ingresso quase que natural de Ratzel à
Geografia. Cf.: (ALMEIDA, 2012, pp. 130-131).
49

estabelecimento de bases para que o Estado se fortalecesse no cenário internacional


(VESENTINI, 2005, p. 16).
Polêmicas à parte, a Geopolítica se difundiu bastante na primeira metade do séc. XX.
Com o relativo declínio do Império Britânico como potência mundial, a partir da segunda
metade do séc. XVIII e em quase todo o séc. XIX, as disputas pela hegemonia mundial se
multiplicaram. Numerosos pensadores se engajaram na tarefa de compreender o equilíbrio de
forças mundiais e as condições que determinavam um Estado como potência global,
assumindo os fatores militar e geográfico como valiosos elementos dessas disputas. Neste
sentido, analisaremos sucintamente duas teoria: O Heartland Eurasiático, do geógrafo
britânico Halford J. Mackinder e a Geopolitik alemã, de Karl V. Haushofer para,
posteriormente, trabalharmos com o conceito geopolítico russo65.

3.1. Sir Halford J. Mackinder e a Teoria do Heartland Eurasiático

Embora nunca tenha utilizado o termo “Geopolítica” em seus trabalhos, o geógrafo


britânico, Halford John Mackinder (1861-1947) é considerado um dos pioneiros na
formulação das teorias globais do Poder. Tendo acompanhado de perto a situação do Império
Britânico em momentos bastante peculiares como a transição do séc. XIX para o séc. XX e as
rivalidades imperialistas que culminariam com a Primeira Grande Guerra (1914-1918),
Mackinder apresentou, em 1905, um trabalho à Real Sociedade Geográfica baseado nas
confrontações destes e outros eventos histórico-geográficos que denunciavam o
comportamento dos Estados no sistema internacional. Em The Geographical Pivot of History,
o britânico construiu uma teoria que tem a Geoestratégia como chave para a hegemonia
mundial. Em suas palavras,

O decénio atual [início do séc. XX] coloca-nos pela primeira vez em condições de
tentar, de maneira relativamente completa, uma correção entre as generalizações
mais vastas da história e da geografia. Pela primeira vez podemos entrever uma
parte da relação real entre os acontecimentos políticos e as características
geográficas à escala do mundo; podemos igualmente procurar uma forma que
exprima, pelo menos sob certos aspectos, a causalidade geográfica na história
universal. (apud DEFARGES, 2012, p. 46).

Mackinder concluiu que mares e oceanos cobrem cerca 3/4 da superfície terrestre e que
nas terras emersas, onde vivem os povos e existiam os Estados, destacava-se um

65
Não serão abordados nesta dissertação outros geopolitólogos clássicos categorizados na geopolítica do
poder aéreo como Giulio Douhet, Alexander P. Seversky, marítimo como Alfred T. Mahan e Julian S. Corbett ou
do poder terrestre como Nicholas J. Spykman, uma vez que a sustentação desta dissertação se faz apenas com a
adoção das duas abordagens já referidas, sem mencionar que também não haveria condições técnicas de incluir
tantas abordagens neste estudo.
50

“supercontinente” composto pelos continentes africano, europeu e asiático que abrange 58%
do total terrestre. Logo, procurou hierarquizar estes espaços como se cada um tivesse um
valor intrínseco e permanente para o Poder mundial. A este grande bloco de terra (o “Velho
Continente”), deu o nome de “Ilha Mundial” (World Island), onde teriam ocorrido as maiores
guerras e disputas da humanidade. Dentro da Ilha Mundial haveria uma Área Pivot entre o rio
Volga e a foz do Yangtze, da cordilheira dos Himalaias ao Círculo Ártico, que seria a região
geoestratégica do planeta por natureza, ao qual ele daria o nome de Heartland e cuja posse
seria a condição básica para a hegemonia mundial (VESENTINI, 2005, pp. 18-19).

Mapa 10: Mapa do Heartland Eurasiático de Halford J. Mackinder66

O Heartland mackinderiano assenta em três componentes básicas: a planície mais


vasta do globo terrestre; a existência de longos rios navegáveis; e uma imensa zona de
pastagem que assegura aos nômades uma mobilidade perfeita. Assim, pelas defesas e
vantagens naturais que possui, o Heartland eurasiático seria praticamente inacessível a
qualquer que o tentasse subjugá-lo, residindo então o conceito de que “quem controla o
Heartland, domina a Área Pivot e quem domina a Área Pivot controla a Ilha Mundial e quem
controla a Ilha Mundial domina o mundo” (apud VESENTINI, 2005, p. 19). A partir da teoria
do Heartland, Mackinder criou outros dois conceitos: o de “Crescente Interno” (Inner
Crescent) e o “Crescente Externo” (Outer Crescent), semicírculos concêntricos que tinham a
função de proteger o Heartland. Sobre as defesas estratégicas do Crescente Interno,
66
Disponível em <http://www.eurasianet.org/node/63677>. Último acesso em 21/05/2015.
51

[é um] cinturão protetor do Heartland (vazio hostil da Sibéria; cadeia dos Himalaias;
o Gobi e os desertos do Tibete e do Irão), ainda assim com uma pequena malha
aberta: a planície eurasiática, que se estende do Atlântico ao centro da Ásia.
(DEFARGES, 2012, p. 49).

A noção do Crescente Externo, porém, se relaciona com o mundo oceânico (ou


insular), que também servia de zona protetora, mas neste caso, principalmente às potências
marítimas como o Império Britânico. Para Mackinder, “constituem agora um anel de bases
exteriores insulares para o poder marítimo e o comércio que são inacessíveis para o poder
terrestre da Eurásia” (apud, GUIMARAIS, 2007, p. 22). Para efeitos práticos, o Heartland,
quando proposto por Mackinder, seria a região ocupada pelo Império Russo e Mackinder
sabia que naquele eixo eurasiático, com base nas invasões vindas do Oriente nos últimos mil
anos, a Rússia possuía características favoráveis que poderiam conduzi-la à hegemonia
mundial. Sua preocupação era tamanha que considerava o Império Russo czarista o
equivalente ao Império Mongol, carregado de intenções expansionistas para as áreas
adjacentes que estavam exatamente na região amortizadora do Crescente Interno, ou seja,
Turquia, Irã, Índia, China e a própria Europa (ALMEIDA, 2012, pp. 186-189; GUIMARAIS,
2007, p. 22).

3.2. Karl Haushofer e as Pan-Regiões da Geopolitik Alemã

A partir dos anos 1920 e 1930 uma série de publicações em Geografia Política vão
refletir os acontecimentos histórico-geográficos principalmente do pós-Guerra. Entre elas,
destaca-se a Revista de Geopolítica (Zeitschrift für Geopolitik), editada na Alemanha entre
1924 e 1944 e coordenada pelo veterano da Primeira Guerra Mundial e professor de
Geografia, General Karl Von Haushofer (1869-1946), que vai colaborar para difundir os
conhecimentos de geopolítica de uma maneira nunca antes vista.
Nascido em Munique, durante a formação do II Reich alemão, Haushofer participou
como militar nas frentes ocidentais e orientais da Primeira Guerra tendo se retirado em 1912,
por motivo de doença, altura em que as discussões em torno de questões geopolíticas estavam
a todo vapor, como vimos no início do capítulo. Haushofer lê Ratzel, Kjellén e Mackinder e
decide que, a partir do conceito dado pelo jurista sueco, encontraria uma adaptação que se
aplicasse especificamente ao caso geopolítico alemão. Contextualmente, em 1918, três
acontecimentos marcaram a Alemanha: a rendição aos Aliados no pós-Guerra; o fim do
Império Germânico; e a chegada ao poder do partido nacional-socialista (nazismo). Em outras
palavras, era o desfecho do conflito militar em seu aspeto externo e das pressões políticas que
tencionavam uma revolução em ambiente interno (COSTA, 1992, p. 116).
52

A Alemanha estava humilhada, derrotada e debilitada com o resultado da Guerra e as


ciências geográficas pareciam, num primeiro momento, o ponto de partida para a preservação
da integridade nacional e, posteriormente, para expansão e desagravo (ALMEIDA, 2012, p.
147). Haushofer se convenceu de que a Guerra serviu apenas para a tentativa dos aliados em
aniquilarem o Império Alemão e por isso objetivava, novamente, uma Alemanha como
potência mundial. Em 1918, o general começou a lecionar Geografia e História Militar na
Universidade de Munique. Em 1922, coincidentemente o ano de morte de Rudolf Kjellén,
assume a cátedra de Geografia daquela Universidade e funda, dois anos depois, a Revista de
Geopolítica. Até 1933 a Revista focou apenas na Alemanha já que visava a recuperação do
poder germânico67. Neste sentido, Haushofer e sua equipe debatiam qualquer informação que
pudesse ser relevante no tratamento desta matéria e a Escola de Munique, criada por ele,
influenciou de tal modo que de acordo com Almeida (2012),

em 42 universidades alemãs, austríacas e suíças, chegaram a funcionar, no mesmo


ano lectivo, centenas de seminários sobre geografia com mais de 6.000 inscritos, dos
quais 245 preparavam seu doutoramento dessa matéria. (p. 149).

Assim, na tentativa de elaborar um saber que ajudasse a Alemanha a recuperar o lugar


que considerava ter direito na Europa e no mundo, a Escola de Munique vai, com base nas
teorias ratzelianas e mackinderianas, criar os pilares de sustentação da Geopolitik Alemã68.
Seu livro mais conhecido, “Geopolitik der Pan-Ideen” (1931), refere à ideia de uma ordem
mundial na qual o mundo estaria dividido em quatro grandes regiões autossuficientes em
população, recursos e acesso ao mar (CHURRO, 2013, p. 35). Dois critérios sustentavam as
teorias das Pan-Regiões de Haushofer: o critério da geografia econômica e o da geografia
política. De acordo com o primeiro, as Pan-Regiões se estenderiam ao longo dos meridianos
abarcando uma variedade de condições climáticas que permitiriam a autossuficiência em
recursos que dependessem dessas condições bem como a alta probabilidade de possuírem
recursos estratégicos necessários para garantir a sua autonomia. O segundo critério assenta na
análise dos tipos de Estados existentes segundo suas economias: autônomos, produtores
agrícolas, industriais ou financeiros. O autor entendia que a unificação destes modelos

67
Embora contemporânea da ascensão do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, a
Revista de Geopolítica da Escola de Munique e o próprio Haushofer não possuíam qualquer compromisso com
os nazistas. Mesmo antes de Hitler chegar ao poder, em 1933, presume-se que o contato de Haushofer com o
Estado-Maior alemão tenha acontecido apenas na condição de oficial general especialista em geopolítica. Além
deste registro não há outros que comprovem uma conexão direta entre o exército e o partido antes de Hitler se
tornar o Füher. Cf.: (ALMEIDA, 2012, p. 150; DEFARGES, 2012, p. 80).
68
Geopolítica que, por conseguinte, vai sustentar também a ideologia expansionista do III Reich e sua
consequente agressividade a partir de 1934.
53

económicos e políticos em um só espaço eliminaria a tendência expansionista dos mais ativos


e criaria uma paz estável de base econômica (ALMEIDA, 2012, p. 157).
A partir destas definições, Haushofer dividiu o mundo em quatro macroregiões,
resultado de uma aliança desejável entre Alemanha, Rússia e Japão contra Inglaterra, França,
China e sem muito envolvimento com os EUA (VESENTINI, 2005, p. 21). A primeira região
possui influência alemã, compreende a Europa, a África e o Oriente Médio; a segunda, de
influência russa, abarcava a URSS, o subcontinente Indiano, o Afeganistão e a zona leste do
Irã; a terceira zona, influenciada pelos japoneses, incluía o Extremo Oriente, o Sudeste
asiático e a Oceânia; por fim, a zona de influência dos EUA englobava todas as terras do
Alasca à Patagónia e algumas ilhas próximas ao Atlântico e Pacífico Norte (ALMEIDA,
2012, p. 157; VESENTINI, 2005, p. 26).

Mapa 11: Mapa do mundo multipolar. Quatro zonas – quatro polos69

As Pan-Regiões de Haushofer obedeciam um fundamento em que competia a apenas


um Estado a hegemonia regional enquanto aos outros caberia a submissão à administração do
mais forte. Ao escolher determinados Estados como hegemônicos e outros como meros
seguidores (algumas vezes autônomos, pelas características que possuíam), Haushofer

69
Disponível em <http://evrazia.org/modules.php?name=News&file=article&sid=1884>. Último acesso
em 21/05/2015.
54

deixava clara sua noção ideal de justiça após a assinatura do Tratado de Versalhes (1919)70,
“premiando” Estados que foram aliados aos alemães e desprezando os possíveis e históricos
rivais. Não seria de se estranhar, portanto, uma associação do pensamento de Haushofer à
política expansionista da Alemanha nazista entre 1930 e 1940.
Em desgraça, o próprio se matou após duro processo de julgamento no pós-Segunda
Guerra em 1946, deixando uma carta-testamento na qual isentava a Escola de Munique de
qualquer responsabilidade pelas atrocidades e políticas expansionistas do III Reich, porém, a
dissociação se tornava bastante difícil quando nos próprios mapas publicados pela Revista
mais da metade da Europa era apontada como territórios “naturalmente” germânicos71, sob
critérios baseados no superlativismo da raça ariana e na intelectualidade superior destinada a
comandar e ser uma grande potência mundial (VESENTINI, 2005, p. 25). Contudo, não existe
consenso sobre a participação das teses de Haushofer no projeto nazista, mesmo porque ele
foi contra a invasão da URSS, em 1941, e a abertura de uma nova frente de guerra. Por outro
lado, é indiscutível que sua Revista explorou, repercutiu e ajudou a divulgar a ideologia da
“raça ariana superior” e a necessidade do Espaço Vital mackinderiano para o futuro da
Alemanha.

3.3. O Neoeurasianismo e as Escolas Geopolíticas Russas

Em dezembro de 1991, quando Mikhail Gorbachev anunciou a dissolução da URSS


em cadeia nacional, a mensagem que o líder soviético transmitia era a de que as medidas
adotadas anos antes para a reestruturação (perestroika) econômica e abertura (glasnost)
política haviam, definitivamente, fracassado. Indubitavelmente, o colapso soviético insere-se
como um dos fenômenos políticos mais importantes do último século. Não se tratou de um ato
repentino, mas no fim de um processo que, carregado de indícios, demonstrava que a
integridade da União estava comprometida. Eventos anteriores como a explosão do reator
nuclear de Chernobil em 1986, a assinatura do Tratado de Forças Nucleares de Alcance
Intermédio com os EUA em 1987, a retirada das tropas russas do Afeganistão em 1988, e a

70
O Tratado de Versalhes (1919) foi um tratado de paz assinado ao fim da Primeira Guerra Mundial.
Entre vários pontos os mais polêmicos abordam a determinação de que a Alemanha aceitasse as
responsabilidades por ter causado a Guerra e que reparasse as nações da Tríplice Entente com uma compensação
financeira. Entregar parte do seu território às nações fronteiriças e reduzir o contingente militar nacional também
eram obrigações que tocavam diretamente na soberania nacional, tanto que o Tratado foi considerado humilhante
para a população alemã e, de certa forma, contribuiu para a popularidade do Partido Nacional Socialista.
71
Mesmo regiões não-europeias onde havia a presença de povos de origem germânica como Santa
Catarina e em parte do Rio Grande do Sul, no Brasil, eram consideradas por Haushofer parte dos territórios que
deveriam ser entregues ou conquistados pelos germânicos. Cf.: (VESENTINI, 2005, p. 23).
55

queda do Muro de Berlim em 1889, comprovaram as sucessivas derrotas que o modelo


comunista soviético vinha sofrendo.
A Rússia, que desde o séc. XVII fora reconhecida como uma potência imperialista
continental de vocação messiânica (Terceira Roma), destinada à proteção da cristandade
oriental e salvaguarda da decadência espiritual72, manteve o status imperial durante o séc. XX
sob a égide de uma nova ideologia universalista de projeções sem precedente. Neste segmento
histórico, porém, nunca houve lugar entre os russos para a conceção Ocidental de noção
cívica e Estado nacional, por isso, o desmembrar soviético não transformou a Rússia, de
imediato, em um Estado convencional como os Estados Ocidentais. Ainda que alguns possam
considerar o desmanchar da União como um cataclismo tranquilo, Rego (1999, p. 33), afirma
que este fato provocou uma crise duradoura na identidade nacional e abriu caminho para o
surgimento de novas ideologias e pensamentos geopolíticos profundamente marcados por um
sentimento saudosista, imperialista e antiocidental (GASPAR, 2011, p. 70).
Com efeito, a dissolução do marxismo-leninismo na Eurásia, além das implicações
instantâneas quanto ao término do bipolarismo ideológico internacional e o desaparecimento
do último grande império da história, evidenciou a existência de um ambiente político e social
interno fortemente instável, culminando a um alto nível de insegurança e ao surgimento de
uma série de conflitos na periferia russa. Tsygankov (2003), enumera quatro tipos distintos
que surgiram na Rússia nos anos seguintes à dissolução: o primeiro tem característica étnica;
um segundo tipo se relaciona ao controle dos recursos energéticos; um terceiro ligado às
constantes violações dos direitos humanos; e o quarto vincula-se à instabilidade das fronteiras
russas73. O autor diz,

O primeiro diz respeito à base étnica doméstica e conflitos militares internacionais,


especialmente no Cáucaso, Moldávia, Tadjiquistão e Chechênia. O segundo tipo
inclui conflitos econômicos sobre o Mar Cáspio, as questões de competição pelos
recursos e dependência energética das ex-Repúblicas soviéticas como os novos
Estados independentes da Geórgia, Quirguistão, e Tadjiquistão. A terceira categoria
de conflitos foi gerada por acordos políticos e regimes dos antigos Estados
soviéticos e sua incapacidade frequente de garantir proteção ao direito dos cidadãos.
A repressão contra a oposição liberal e religiosa em países como Azerbaijão,
Cazaquistão e Uzbequistão e as crescentes ameaças de terrorismo na Ásia Central e
no Cáucaso são continuação direta dos arranjos políticos internos destes Estados.
Por fim, deve-se observar a instabilidade das fronteiras com os países da antiga
URSS e os problemas surgidos da imigração ilegal e tráfico de entorpecentes
especialmente nas fronteiras entre China e Rússia e Tadjiquistão e Afeganistão. (p.
104).

72
A decadência espiritual, neste sentido, é referida por Gaspar (2011) exclusivamente ao que os
soviéticos consideravam os “malefícios morais da democracia liberal”. Cf.: (GASPAR, 2011, p. 70).
73
Para uma leitura mais detalhada e exemplificada sobre os conflitos referidos, cf.: (MARCU, 2007).
56

Para os russos, a emergência destes conflitos e o desaparecimento daquilo que


constituía um senso de identidade comum tornou-se um desafio fundamental. A relevância e
persistência destas questões nos anos que se seguiram à dissolução estimularam o
aparecimento de modelos geopolíticos que fossem capazes de lidar com a nova realidade do
Estado recém-surgido e responder satisfatoriamente às dificuldades sociais, políticas e
econômicas. Várias teorias teriam surgido e se colocado em lados opostos da discussão:
ocidentalistas contra eslavófilos, reformistas contra reacionários, liberais contra
conservadores e democratas contra comunistas (MARCU, 2007). Na realidade, as correntes
geopolíticas pós-soviéticas russas apontavam ora para uma ligação mais estreita com o
Ocidente, ora com o Oriente74. Assim, ainda que os soviéticos creditassem à geopolítica o
título de ciência burguesa e reacionária, ela teve campo fértil para se desenvolver diante do
cenário que se apresentava.
Neste sentido, o Eurasianismo nascido nos anos 1920, que refletia as perceções
elitistas da necessidade de uma Rússia culturalmente e geopoliticamente independente na
Eurásia, ressurge com novo fôlego no pós-sovietismo diante da substituição da ideia russa
pela grande pergunta russa numa tentativa de encontrar a unidade nacional (MARCU, 2007).
Desta forma, a necessidade de reorganização do espaço russo traria de volta o interesse pelos
estudos em estratégia e geopolítica, além do surgimento de jornais acadêmicos que
proliferavam feito cogumelos e abriam espaço para discussões sobre o tema. A disciplina se
institucionalizou e uma quantidade imensa de estudos surgiram afim de dar respostas aos
anseios pós-soviéticos. Entre os intelectuais o discurso era de que os desafios enfrentados no
pós-URSS eram fruto exclusivamente da dissolução da União e teriam como razão a
desorganização do espaço eurasiático e a perda de influência que Moscovo exercia sobre a
região. Assim, perseguiam estratégias regionais abrangentes ao invés de buscarem soluções
individuais que atacassem cada conflito isoladamente (TSYGANKOV, 2003, pp. 104-105;
INGRAM, 2001, p. 1030).
Ainda que alguns acadêmicos apresentem este Neoeurasianismo como um reflexo
integral e uniforme do pensamento antiocidental camuflado pelo desejo de restauração de uma
Rússia Imperial, Tsygankov (2003), argumenta que diante de características tão distintas entre
os pensadores, é mais produtivo observar o movimento Neoeurasianista como uma
manifestação intelectual e política heterogênea. Neste sentido, ele identifica cinco grupos

74
Gaspar (apud FERNANDES, S., 2011, p. 136), afirma que “a Rússia pós-Soviética e pós-Imperial
oscilou entre tendências divergentes de „normalização‟, pós-Imperial, de reestruturação neoimperial e de
isolacionismo, numa sucessão de fases de abertura, de retração ou paralisia”.
57

distintos dentro do movimento: os Ocidentalistas, os Geoeconomicistas, os Estabilizadores,


os Civilizacionistas e os Expansionistas75. Rangsimapor (2006), por outro lado, descreve três
interpretações possíveis para o Eurasianismo pós-soviético: o Eurasianismo Pragmático, que
percebe a identidade russa como legitimadora dos interesses do Estado tanto no Ocidente
como no Oriente; o Neoeurasianismo, que possui uma orientação mais nacionalista e advoga
uma postura de alinhamento da Rússia com outras potências orientais em um discurso
antiocidental76; e os Intercivilizacionistas, que embora não se concentrem em uma visão
pragmática da posição geográfica privilegiada da Rússia no coração da Eurásia, enfatizam o
pepel intervencionista nos dois continentes, naquilo que seus defensores consideram um
caldeirão único de diferentes culturas e grupos étnicos. E Marcu (2007), refere a três Escolas
do atual pensamento geopolítico russo: a Escola Ocidentalista, liderada por Dmitri Trenin; a
Escola Civilizacionista de Gennady Zyuganov (Presidente do PCFR) e Nikolai Nartov; e a
Escola Expansionista de Alexander Dugin.
Com tantas classificações possíveis e organizações, explorar a fundo cada uma delas
ou analisar todas as obras não caberia nesta dissertação. Talvez em um futuro projeto de
doutoramento a análise detalhada de algumas obras (visto que existem livros importantes de
cada Escola que nunca foram traduzidas para outro idioma), possa ser realizada, mas neste
estudo escolhemos algumas mais representativas, seja pela importância que possuem no meio
acadêmico e mediático ou pelo fato de seus principais teóricos serem mais influentes que
outros. Portanto, discutiremos um pouco mais sobre a Escola Civilizacionista de Gennady
Zyuganov e Nikolai Nartov, Geoeconomicista de Vladimir Kolosov e Nikolai Mironenko e
Expansionista de Alexander Dugin. Antes, porém, apresentaremos o contraponto às Escolas
Neo-Eurasianistas em que prevalece o pensamento Ocidentalista de Dmitri Trenin.

3.3.1. O Ocidentalismo de Dmitri Trenin

Tal qual os intelectuais do séc. XIX, os Ocidentalistas do séc. XXI percebem como
único caminho civilizacional possível (e progressista) para a Rússia a aproximação com o
Ocidente, defendendo que Moscovo apenas será capaz de responder aos desafios econômicos
e políticos da Eurásia através da incorporação de instituições ocidentais e trabalhando em

75
Tsygankov (2003) observou a existência de várias outras correntes de pensamento Neo-Eurasianista,
mas argumenta que embora todas elas vissem a Rússia como o coração do Heartland eurasiático ou o Estado
responsável pela reorganização do espaço pós-soviético, nem todas se apoiam nas teorias geopolíticas de Halford
J. Mackinder.
76
O alinhamento russo com os países da Ásia Oriental é visto pelos Neo-Eurasianistas (e também os
Expansionistas) como contrapeso necessário ao poder global dos EUA.
58

conjunto com as potências Atlânticas. A obra de Trenin “O Fim da Eurásia” (2001), apresenta
uma proposta liberal para os projetos tradicionalmente conservadores da Rússia. Trenin segue
a linha de pensamento de geopolitólogos norte-americanos e britânicos como Richard Pipes,
Colin Gray, Henry Kissinger e Zbigniew Brzezinski, para argumentar que, como o nome do
livro afirma, o papel da Rússia como o centro da gravidade política na região eurasiática
deixou de existir. Se a Eurásia sempre foi a zona de influência preferida do poderio russo (seja
pela ação dos czares moscovitas ou pelos líderes soviéticos), a partir da dissolução comunista,
os Estados Ocidentais substituíram a posição russa e começaram a exercer uma influência
muito maior, lançando Moscovo na fronteira entre dois mundos: o do pensamento geopolítico
tradicional imperialista e o de um mundo globalizado, obrigando o Kremlin a fazer uma
escolha decisiva (TSYGANKOV, 2003). Neste sentido, Trenin entende que a opção mais
positiva para a Rússia seria um modelo de cooperação ocidental porque além de ser uma
tendência natural (devido a sua origem “europeia”), seria benéfico para ajustar o Estado ao
séc. XXI,

A Rússia está no limite entre o pós-moderno e o moderno e mesmo o mundo pré-


moderno. É preciso fazer uma escolha. A única opção racional é ressaltar totalmente
a identidade europeia da Rússia e preparar a sua integração gradual à Grande Europa
[…] isto pode evitar o isolacionismo e, mais importante, uma escolha evidentemente
pró-Europa facilitaria a modernização do país e a sua adaptação ao séc. XXI […] A
Rússia deveria primeiro “construir a Europa” dentro de suas fronteiras. A
incapacidade de integração significa a marginalização russa e, possivelmente, sua
desintegração. Não há opção além de se retirar da ‘Eurásia’ (p. 319-320, nossa
tradução, nossa ênfase).

O autor entendia também que ao invés de tentar estabilizar a Eurásia (envolvendo-se


nos conflitos citados anteriormente) ou integrá-la dentro das fronteiras russas, Moscovo
deveria buscar uma alternativa “criativa” para se enquadrar nas mudanças e exigências que a
transição dos anos 1990 para os anos 2000 exigiam. Tsygankov (2003) argumenta que a falha
principal no pensamento de Trenin é o de não ter observado os desafios russos numa
perspectiva holística de forma que as recomendações que fazia para cada tipo de conflito
exigia uma abordagem diferenciada em diferentes partes da Eurásia, não sendo capaz de
conectar o raciocínio dentro de uma visão conjuntural,

no sul, ele diz, a Rússia precisa trabalhar para estabilizar sua periferia por meio da
reconstrução chechena, estabilizando o mecanismo de partilha de poder no
Daguestão e dando início a um programa econômico que inclua toda a região e não
enfatize questões territoriais. Na Ásia Central, Trenin recomenda que as prioridades
da Rússia estejam ligadas à segurança militar, em vez de estabilização política, e
inclui a definição da linha de perímetro de segurança para reduzir a ameaça islâmica
e do Talibã afegão. E no Extremo Oriente, ele insiste, as soluções não se
encontram nas áreas de estabilização política ou de segurança, mas principalmente
59

na área do desenvolvimento econômico desta terra rica em recursos, mas atrasada.


(p. 114, nossa tradução, nossa ênfase).

Sobre a crise entre Rússia e Ucrânia, Trenin afirma que a posição russa no conflito do
leste ucraniano causou uma rutura nas relações Moscovo-Ocidente e que a partir de 2014 elas
dificilmente serão as mesmas77. Com a queda no preço do barril de petróleo e as sanções
aplicadas por Bruxelas e Washington, Trenin acredita que mesmo abalados os acordos, Rússia
e Europa não podem deixar de ter um relacionamento pacífico principalmente no quesito
segurança eurasiática. Se ele já havia afirmado em 2014 que a Crise da Crimeia poderia levar
o mundo a uma “segunda Guerra Fria”78, mais recentemente, porém, o autor acredita que em
virtude da celebração dos 40 anos do Acordo de Helsinque entre os membros da Organização
para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), o momento exige uma conversa séria
sobre a agenda de segurança regional, já que as previsões para a Rússia no ano de 2015 em
relação à economia, inflação e desemprego, são alarmantes para o país79.
A proposta de Trenin não se verificou na prática quando o país viveu o boom
econômico dos primeiros anos de 2000, altura em que o preço do barril de petróleo atingiu
elevadas cifras e favoreceu as exportações energéticas russas. Mais recentemente, a proposta
de “afastamento criativo” do autor também não se confirma uma vez diante das sanções
econômicas aplicadas pelo Ocidente, Moscovo se virou para o mercado do Oriental e acorda
contratos milionários com Pequim, mantendo o Ocidente distante da Eurásia, se associando a
um parceiro regional importantíssimo e minimizando os efeitos das sanções.

3.3.2. O Civilizacionismo de Gennady Zyuganov e Nikolai Nartov

A Escola Civilizacionista defende a criação de um Império Russo dentro das fronteiras


da extinta URSS. Autor de “A Geografia da Vitória: Introdução à Geopolítica Russa”80
(1999), além de presidente do PCFR, Gennady Zyuganov apelou a um público eleitoreiro para
enviar sua mensagem de reformulação dos interesses geopolíticos e geoestratégicos russo,

77
Disponível em <http://carnegie.ru/2015/02/09/kremlin-perspective/i2rw>. Último acesso 27/02/2015.
78
Disponível em <http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/mar/02/crimea-crisis-russia-ukraine-
cold-war>. Último acesso 27/02/2015.
79
“Uma combinação de três forças está atingindo o país violentamente: problemas de estrutura
econômica; sanções Ocidentais; e a queda no preço do petróleo. Como resultado, o PIB russo tenderá a se
contrair entre 5% e 7%, a inflação pode subir 15% a 20%, o desemprego atingir 7% e a fuga de capitais chegar a
US$130 mil milhões com o teto em US$150 mil milhões. Desde o último verão, o rublo perdeu quase a metade
do valor contra as moedas principais”. Disponível em <http://www.german-
times.com/index.php?option=com_content&task=view&id=44166&Itemid=25>. Último acesso 27/02/2015.
80
Cf. Geografiya pobedi: Osnovi rossiyskoi geopolitiki, 1999, Unknown publisher. Moskva.
60

enquanto que Nikolai Nartov, autor de “Geopolítica”81, escreve para estudantes universitários
e propaga a mesma mensagem de Zyuganov: a necessidade de desenvolver uma unidade
autossuficiente em economia, política e cultura no centro da Eurásia.
Ambos defendem uma visão de civilização russa eurasiática independente que apenas
poderá sobreviver se proteger das influências “nocivas” ocidentais, discutindo a necessidade
de uma geopolítica mundial que possa garantir estabilidade e equilíbrio para que o mundo não
esteja suscetível às “ambições predatórias do Ocidente”. Zyuganov faz referências à
Huntington ao afirmar que um dos maiores conflitos do futuro acontecerá entre civilizações
antes dos conflitos econômicos e ideológicos (MARCU, 2007). Neste sentido, os
civilizacionistas escrevem com um sentimento nostálgico do antigo Império comunista e
advogam características “naturais” e “históricas” da geopolítica russa para se contrapor às
divisões fronteiriças do pós-sovietismo impostas pelo Ocidente através de acordos obscuros
(TSYGANKOV, 2003, p. 121). Marcu (2007), argumenta que Zyuganov e Nartov foram
influenciados pelas teorias eurasianistas de Nikolai Danilevski (1822-1885), Konstantin
Leontiev (1831-1891), Petr Savitski (1895-1968) e Nikolai Gumilev (1912-1992):

de Danielevski, Zyuganov toma a ideia de que a Europa e a Rússia são civilizações


distintas, o que provoca uma alienação europeia à Rússia. De Leontiev vem a ideia
de que a Rússia é uma mistura única de grupos étnicos que compartilham a missão
de „pacificar‟ o espaço eurasiático. De Savitski e Gumilev, absorve a teoria de que a
Rússia, por ser uma civilização única, diferente da Europa e com uma localização
geográfica privilegiada, deve permanecer distante, longe da civilização ocidental
para manter sua identidade. (Nossa tradução).

Outra dimensão marcante nesta teoria refere à capacidade militar. Os civilizacionistas


enxergam o mundo como uma competição pelo equilíbrio militar e somente a capacidade
bélica russa poderá preservar sua supremacia na Eurásia, permitindo a (re)organização da
região de acordo com seus interesses e valores estratégicos. Zyuganov acredita também que
somente a reunificação da Rússia com as ex-Repúblicas soviéticas, nos moldes da antiga
URSS, poderá fazer frente àquilo que ele chama de “ações desestabilizadoras do Ocidente”
(MARCU, 2007).
A capacidade bélica, referida pelos autores, ainda se verifica como um instrumento
importante do poderio russo desde a dissolução da URSS, quando a Federação Russa
absorveu o contingente nuclear soviético. Além disso, o país não se priva de demonstrar sua
qualidade militar: No início de maio de 2015 a parada pelos 70 anos da vitória sobre os
nazistas na II Guerra Mundial levou para as ruas (e céus) de Moscovo parte do que a indústria

81
Cf.: Geopolitika, 1999, Iuniti, Moskva.
61

bélica russa tem de melhor, desfilando sua força e orgulho militar82. A julgar apenas por esta
dimensão, o equilíbrio de forças globais se manterá por bastante tempo.

3.3.3. O Geoeconomicismo de Vladimir Kolosov e Nikolai Mironenko

A obra “Geopolítica e Geografia Política”83 de Kolosov e Mironenko se encaixa dentro


de um pensamento eurasianista que Tsygankov (2003) classifica como Geoeconomicista.
Embora estejam de acordo com Trenin sobre Moscovo abandonar a “velha e obsoleta”
geopolítica russa, os geoeconomistas argumentam que as estratégias econômicas, entendidas
como os meios de controlar os padrões globais de produção e fluxos de recursos,
prevaleceram em detrimento de qualquer outra estratégia de dominação global. De acordo
com os autores, vários fluxos geoeconômicos encontravam-se na URSS e atores como o
próprio Ocidente, a China e a Ásia-Pacífico, ainda possuem interesses fundamentais na
Eurásia. Portanto, para não perder a influência na região, Moscovo deve tomar partido das
vantagens de sua localização no Heartland e desenvolver uma “política de cooperação” com
estes principais polos geoeconômicos ao invés de confrontá-los. Neste sentido, o Kremlin
deveria se preparar para tomar decisões geoeconômicas importantes para transnacionalizar a
economia e quebrar o padrão de “aproximação” do mundo exterior (TSYGANKOV, 2003, p.
115).
Kolosov e Mironenko, diferem de Trenin, entretanto, por não verem a identidade russa
em termos de associação apenas com um outro significativo (neste caso o Ocidente), mas
propõem a compreensão da autoimagem e dos interesses do país como relativos à sua
localização, evidenciando a relevância da Geografia. Para os autores, a Rússia continua a ser a
“maior potência transcontinental, com um impressionante cinturão de países vizinhos e que
tem uma localização intermediária entre a Europa e a Ásia” (apud TSYGANKOV, 2003, p.
116). Ou seja, se a desintegração soviética não modificou a localização geográfica russa, ela
alterou significativamente as condições nas quais o país deve operar em termos políticos e
econômicos. Ao invés de verem a vizinhança russa primordialmente em termos de polos
geopolíticos ou da manutenção de influência de um polo específico, propõem um sistema de
círculos concêntricos geoeconômicos sobrepostos, nos quais,

os dois primeiros, a União Europeia e a China, circundam a Rússia nos lados


Ocidental e Oriental, e o terceiro inclui Japão e Estados Unidos como maiores

82
Disponível em <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2015-05/russia-comemora-
vitoria-na-2a-guerra-mundial-com-parada-militar>. Último acesso em 19/05/2015.
83
Cf.: Geopolitika i politicheskaia geografiya, 2001, Aspekt Press, Moskva.
62

economias, influenciam a Rússia de uma distância maior e através dos dois


primeiros atores geoeconômicos. (TSYGANKOV, 2003, p. 116, nossa tradução).

Mapa 12: Círculos Concêntricos Geoeconômicos de Kolosov e Mironenko84

Assim, no perigoso caminho de ser absorvido pelas economias externas que até os
anos 2000 eram esmagadoramente maiores que a russa, os autores argumentavam que
Moscovo precisava urgentemente de uma estratégia de integração de longo prazo ao mundo
político-económico e, se esta estratégia não visar um desenvolvimento geoeconômico,
garantiam, não poderia haver segurança para a Rússia atual (TSYGANKOV, 2003, pp. 115-
117).
A previsão de que a economia russa poderia ser absorvida por economias externas não
se confirmou nos anos seguintes. Entre 2000 e 2003 o preço do petróleo aumentou
substancialmente e favoreceu a economia nacional que vinha patinando nos anos 1990 e que
deriva, em grande parte, das exportações energéticas. Além disso, a União Econômica
Eurasiática, que entrou em vigor em 01 de janeiro de 201585, só foi possível porque o país
encontra-se fortalecido economicamente e pôde ser vista como uma tentativa de criação desta
vizinhança econômica, cooperativa e segura, ainda mais se a ela se somar os acordos
bilaterais que o país vem realizando com a China desde as sanções Ocidentais. No próximo
capítulo será abordado com mais detalhes a questão da relevância dos recursos energéticos na
economia e na prática política russa dentro do espaço eurasiático.

84
Nossa produção.
85
Disponível em <http://exame.abril.com.br/economia/noticias/russia-cazaquistao-e-belarus-criam-a-
uniao-euroasiatica>. Último acesso em 19/05/2015.
63

3.3.4. O Expansionismo Eurasiático de Alexander Dugin

A Escola Expansionista é a mais polêmica de todas. Considerada a mais conservadora,


ultranacionalista e adotada por patriotas russos hard core (BARBASHIN & THOBURN,
2014), ela acolhe aquilo que há de mais reacionário e polêmico dentro do neoeurasianismo.
Por vezes esta Escola é considerada um movimento neofascista, ainda que seus autores nunca
tenham afirmado como tal, porém, as inspirações em Carl Schmitt (1888-1985) e Oswald
Spengler (1880-1936) são marcantes em suas obras (INGRAM, 2001, p. 1034). Contudo e
cercada de controvérsias, é a Escola que mais possui atenção mediática e grande influência
em círculos políticos e agitadores populares principalmente após a dissolução soviética. Seus
defensores enxergam uma Rússia culturalmente antiocidental e um império em constante
expansão territorial. O acumulo de poder através de movimentos expansionistas é considerado
como o único comportamento apropriado dentro de um mundo caracterizado pela constante e
eterna competição entre duas unidades geopolíticas distintas: as forças marítimas,
representada pelos Estados Atlantistas (ou a civilização do comércio), contra as forças
terrestres, cujo centro principal é justamente Rússia. Assim, neste “tabuleiro mundial”, a
missão russa é a de contenção das forças marítimas86 e consequente expansão do seu território
e influência para sua própria segurança.
Alesander Dugin ocupa uma posição particular e violentamente rejeitada entre os
neoeurasianistas (LARUELLE, 2004, p. 126)87. Em “Os Fundamentos da Geopolítica”88,
Dugin apresenta respostas conservadoras do movimento neoeurasianista aos dilemas que a
Rússia enfrenta no pós-Sovietismo, buscando reintroduzir temas da geopolítica clássica ao
contexto do pós-Guerra Fria e justificar a expansão generalizada do território russo resgatando
teorias e conceitos do britânico Halford J. Mackinder e do alemão Karl V. Haushofer. Com
base nestes autores, o professor argumenta que a Rússia deve tirar proveito da sua localização
espacial estratégica e mobilizar recursos, experiências e vontade para estabelecer e controlar
totalmente a Eurásia. O que o autor, entende por “Eurásia” se estende além da antiga fronteira
soviética e apresenta uma agenda de controle muito mais expansiva do que as propostas de
Zyuganov e Nartov.

86
Organizações Internacionais como a OTAN e a UE também são parte daquilo que os Expansionistas
consideram como forças Atlantistas/Marítimas.
87
A influência de Dugin entre os políticos da Duma é tamanha que suas obras em Geopolítica chegaram a
ser incluídas no currículo escolar nacional. Cf.: (INGRAM, 2001, p. 132; LARUELLE, 2004, p. 126).
88
Cf. Osnovi geopolitiki, 2000, Mislit‟ prostranstvom. Arktogeia-tsentr, Moskva
64

A ascensão de Alexander Dugin como geopolitólogo russo tem algumas características


que o distingue dos demais pensadores neoeurasianistas. Entre 1985 e 1990, Dugin era um
agitador político favorável ao conservadorismo de “direita” eurasianista. Em 1988, ele se
junta à organização ultranacionalista antissemita Pamiat, mas não encontra terreno fértil para
suas ideias e é deixado à “esquerda” dela. No início dos anos 1990 participa da fundação de
várias instituições políticas89 e se aproxima de Zyuganov no PCFR, tornando-se colaborador
do Den. Nesta época suas teorias foram bastante disseminadas entre os círculos
neoeurasianistas, tendo sido apoiado inclusive por Prokhanov90. Entre 1993 e 1994, Dugin se
afasta do espectro comunista e se torna o ideólogo do Partido Nacional Bolchevique (PNB).
Em 1995, se candidata à Duma pelo PNB, mas não se elege (LARUELLE, Aleksandr Dugin:
A Russian Version of the European Radical Right?, 2006, p. 02). Em 1998, deixa o PNB e se
torna conselheiro do porta-voz da Duma, o comunista Gannady Seleznev, tornando-se
presidente da seção de assuntos geopolíticos do Conselho de Segurança da Duma e fundando,
em 2002 o Partido Eurasia (Evrazia). Laruelle (2006) reafirma o sucesso das ideias de Dugin
entre políticos e intelectuais russos:

“A entrada de Dugin nas estruturas parlamentares foi, em grande medida, devido à


publicação (em 1997) da primeira versão de sua obra mais influente, Os
Fundamentos da Geopolítica: Futuro Geopolítico da Rússia. Ele é considerado um
importante estudo geopolítico e é, muitas vezes, apresentado como obra fundadora
da escola geopolítica russa contemporânea. Em 2000, o trabalho já estava na quarta
edição e tornou-se um grande panfleto político, desfrutando de um número grande
de leitores nos círculos acadêmicos e políticos. Na verdade, Dugin sempre esperou
influenciar jovens intelectuais bem como políticos e militares importantes. Ele
afirmou que seu Centro de Estudos Geopolíticos poderia rapidamente tornar-se um
„instrumento analítico ajudando a desenvolver uma ideia nacional‟ para os poderes
executivos e legislativos”. (p. 02, nossa tradução).

A ideia central no pensamento duginiano assenta no fato de que todas as grandes


potências tiveram a ambição de dominar a Eurásia em algum momento da história, logo, sua
posição geográfica privilegiada, experiência de dominação na região e suas vantagens em
recursos energéticos, justificam a participação russa na luta pelo poder junto dos EUA. Dugin
argumenta que somente uma integração continental na Eurásia, com Moscovo no controle,
poderá garantir soberania genuína para todos os povos e Estados do subcontinente, e refuta o
pensamento de Zyuganov e Nartov em relação à noção civilizacional espacial como unidade
geográfica, econômica e culturalmente estável: para o autor, somente um novo império

89
A respeito da biografia de Dugin e do seu envolvimento com movimentos religiosos, acadêmicos e
políticos, cf.: (UMLAND, 2010).
90
Aleksandr Prokhanov enquanto editor do Den, seguia tendências eurasianistas, porém, Danks (2002, p.
99), afirma que por volta de 1996 ele já não era mais um devoto desta Escola geopolítica.
65

Eurasiático pode controlar este espaço, derrotar as forças atlantistas e, posteriormente,


dominar o mundo (MARCU, 2007).
A orientação de poderes de Dugin, é guiada pelos conceitos teóricos da geopolítica
clássica e consistem em opor forças Eurasianistas com representatividade para a Rússia,
Alemanha, Irã e, em menor escala, o Japão, contra os poderes Atlantistas representados pelo
EUA e Reino Unido, convencendo-se de que Moscovo precisa reconstruir o antigo Império
russo perseguindo novas políticas domésticas reformistas e estabelecer alianças geopolíticas
externas como estratégia para fundar as bases para o controle continental. Os recursos étnicos
e a religião ortodoxa, para Dugin, devem ser valorizados para a criação de um ambiente
multicultural e também uma relação mais próxima com Alemanha, Irã e Japão, que
possibilitaria a criação de três projetos essenciais para a Rússia: a Pan-Europa, a Pan-Ásia e o
Pan-Pacífico, cinturões geopolíticos que manteriam a segurança e soberania russa, claramente
inspirados nas Pan-Regiões de Karl V. Haushofer (TSYGANKOV, 2003, p. 124).

3.4. A Comunidade dos Estados Independentes (CEI)

No fim da década de 1980, Gorbachev vinha claramente perdendo o controle da URSS,


não apenas por suas decisões equivocadas, mas também pelas escolhas equivocadas dos
líderes do passado. Como vimos anteriormente, as políticas de reestruturação econômica e
abertura política para modernizar o país, foram insuficientes para conter o melancólico
destino do império comunista. Ao mesmo tempo, uma onda de nacionalismos explodia nos
países Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), muito mais interessados na independência do
que propriamente nas reformas da União e, apoiados pelas Repúblicas da Ásia Central,
criaram dificuldades para os projetos reformistas de Gorbachev (BUSHKOVITCH, 2014, pp.
465-466). A esta altura, Boris Ieltsin que surgiu na política soviética na mesma época que
Gorbachev emergiu à liderança do PCUS em 1985, apesar de um caminho sinuoso na política,
foi eleito presidente da Duma em 1989. De uma relação inicial de cooperação entre o líder da
União e o camarada russo, a incompatibilidade de objetivos e insatisfação com as lentas
reformas de Gorbachev colocaram em lados opostos os dois líderes. Porém, o
descontentamento não era exclusividade de Ieltsin e em dezembro de 1991, dias antes do
anúncio oficial do fim da União Soviética, um encontro entre os representantes russo,
66

ucraniano e bielorrusso ajudou a selar o destino final do bloco 74 anos depois de sua
fundação91, alavancando Ieltisin ao poder.

Mapa 13: 15 Estados Independentes de Março de 1990 a Dezembro de 199192

91
As outras Repúblicas soviéticas não foram consultadas nesta reunião pois tratava-se de um movimento
isolado entre os três países. A crise que assolava a União Soviética era tão forte que os estados bálticos e a
Geórgia já haviam conseguido suas independências antes mesmo do anúncio oficial do fim da URSS. Cf.:
(BUSHKOVITCH, 2014, p. 465).
92
Na box lê-se: “Em 1922 a República Socialista Federativa Soviética da Rússia, RSFSR, formava o
núcleo central da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou União Soviética. Ao todo, quinze novas
Repúblicas foram criadas, incluindo os três Estados Bálticos anexados à União Soviética em 1940. O Partido
Comunista governava de Moscovo, onde predominavam os russos étnicos. Em março de 1990, Lituânia foi a
primeira República a se declarar independente seguida pela Estônia em março de 1991. Com o colapso do
Partido Comunista da União Soviética após o golpe falhado de agosto de 1991, as Repúblicas remanescentes
declararam suas independências, sendo a última o Cazaquistão em 16 de dezembro de 1991. Cf.: (GILBERT,
1993, p. 158).
67

A Comunidade dos Estados Independentes (CEI), foi projetada no dia 08 de dezembro


de 1991 como uma comunidade de Estados eslavos entre Rússia, Ucrânia e Bielorrússia,
históricos parceiros ligados por uma etnia comum, porém, diante da solicitação de outras ex-
Repúblicas que acabavam de declarar suas independências, a CEI aumentou substancialmente
de três para onze membros e foi lançada oficialmente no dia 25 de dezembro daquele ano93.

Mapa 14: A Comunidade dos Estados Independentes94

93
Destaca-se que os Estados Bálticos nunca fizeram parte da CEI e a Geórgia, que entrou apenas em
1994, saiu formalmente da Comunidade em 2008, enquanto o Turcomenistão preferiu passar do status de
membro efetivo para observador em 2005.
94
(GILBERT, 1993, p. 158)
68

Muito mais do que uma relação de interesses econômicos com os novos Estados,
Moscovo aspirava dois objetivos principais com a criação da CEI: Manter o Ocidente distante
da sua zona de influência estratégica e garantir exclusividade em acordos geopolíticos com os
países vizinhos. Para Moscovo, o estrangeiro próximo possui uma relevância geopolítica vital
pois era o teatro de ações do Kremlin para o exercício de influência política e econômica
(ADAM, 2011, p. 42). Entretanto, havia um problema: como convencer os membros da CEI e
a Comunidade Internacional, como um todo, de que este acordo não se tratava de uma
tentativa de recriar um império russo? Assim, Moscovo respondeu permitindo que desde a sua
fundação a sede administrativa da CEI seria em Minsk, capital bielorrussa95.
Apesar do ânimo inicial, a CEI rapidamente perdeu fôlego e em grande medida devido
à crise multidimensional que a Rússia e (também as novas repúblicas) atravessavam no início
dos anos 1990, impedindo-a de exercer a liderança necessária para articular a estrutura
herdada da URSS96. Na primeira década de vida a situação, que já era complicada a nível
interno, tornou-se pior devido aos acontecimentos sucessivos daquele período, referidos
anteriormente, e que tinham como gênese a dissolução soviética: Disputa entre Rússia e
Ucrânia pela retomada da Crimeia (que havia sido entregue aos ucranianos por Nikita
Khrushchov em 1954), a Guerra do Kosovo97, a crise econômica de 1998 e a retomada do
Conflito da Chechênia, alçaram Moscovo a uma situação de forte instabilidade resultando em
trocas sucessivas de primeiro-ministro e minando o poder de Ieltsin. Tomé (2007, p. 04),
afirma que a CEI sempre se manteve estruturalmente fraca e que as relações entre seus
membros funcionavam com base em uma ordem bilateral, em fóruns complementares ou
competitivos. A própria composição da Comunidade, afirma o autor, esteve muitas vezes
ameaçada quando Ucrânia, Moldávia, Geórgia e Azerbaijão se opunham a algumas iniciativas
originalmente propostas pela Rússia.
As relações de Moscovo com a CEI viriam a mudar significativamente com a eleição
de Vladimir Putin à presidência russa em março de 200098. Rapidamente o novo mandatário
reorganizou a ordem política e herdou uma presidência constitucionalmente forte, fruto da

95
Danks (2009, p. 356), diz que nenhuma nova república pretendia se tornar parte de um novo império
russo com exceção talvez da Bielorrússia, que enxergava apenas vantagens em se associar ao parceiro eslavo.
96
Cf.: (MASSANSALVADOR, 2002).
97
O conflito no Kosovo ameaçava as boas relações que tinham Rússia e Sérvia, que via a independência
da província como um barril de pólvora pois se aquele território conseguisse sua independência, abriria um
precedente para que outros grupos étnicos também lutassem pela liberdade. Cf: (STUERMER, 2009, pp. 58-59).
98
Boris Ieltsin renunciou à presidência pouco antes do fim de seu segundo mandato e Vladimir Putin
assumiu o governo russo interinamente em janeiro de 2000. No dia 26 de março, apoiado por Ieltsin, Putin
venceu as eleições contra o candidato comunista Gennady Zyuganov.
69

reforma promovida por Ieltsin em 199399, mais do que isso, Putin conseguiu criar um partido
pró-governo que o apoiasse na Duma, a Rússia Unida. A partir de então, dois objetivos foram
estabelecidos: na política doméstica, a implantação do sistema vertical de poder100 e em
âmbito externo, a retomada da condição russa de grande potência no sistema internacional. A
CEI via agora uma Rússia mais assertiva e pragmática do que antes, muito mais atuante e
dominante fazendo uso não apenas do poderio econômico que havia se reerguido com o
aumento do preço do barril de petróleo no início dos anos 2000, mas da constante
interferência e mesmo manipulação de conflitos para alcançar seus objetivos (CHURRO,
2013, p. 159). Basicamente, Putin pretendia uma CEI estabilizada e de onde não surgissem
ameaças à preponderância moscovita em diversos setores, principalmente na política e
economia. A cooperação entre os membros vai se tornar, então, o objetivo maior a ser
buscado em benefício de todos (FREIRE, 2011, p. 113). Porém, as Revoluções Coloridas101
no espaço pós-Soviético causaram grande desconforto em Moscovo. Para a Rússia, os efeitos
negativos dessas revoluções somente foram contidos com a eleição de Viktor Yanukovich102
em fevereiro de 2010 na Ucrânia e Almazbek Atambayev, em outubro de 2011 no
Quirguistão, claramente apoiantes da política moscovita.
Sob o governo de Medvedev (2008-2012), as prioridades da CEI se mantiveram
praticamente inalteradas como durante a gestão de Vladimir Putin. No documento intitulado
“Conceitos de Política Externa” de 2008, o presidente sublinhava os princípios do mesmo
documento lançado pelo ex-presidente em 2000 e, sobre a CEI, frisava a relevância da
cooperação dentro do espaço comum, especialmente no quadro da Organização do Tratado de

99
As insatisfações com a situação do país nos primeiros anos após a dissolução soviética colocou o
Parlamento russo contra o presidente. Entre tentativas de golpe de estado fracassada e acusações de que a
oposição queria reimplantar um estado comunista, Ieltsin venceu o conflito e logo tratou de minar os poderes do
parlamento reescrevendo a constituição para dar mais poderes ao presidente. Cf.: (BUSHKOVITCH, 2014, pp.
467-468).
100
A verticalização do poder implementada por Putin no seu primeiro governo tinha como objetivo
centralizar as decisões políticas em Moscovo com o objetivo de colocar em evidência o poder do presidente e de
poucas figuras de confiança deste. Porém, em 2005, o ex-primeiro-ministro de Putin, Mikhail Kasianov,
denunciou o processo de verticalização argumentando que as características essenciais do estado democrático
moderno haviam desaparecido na Rússia e que o sistema vertical de Putin nada mais era do que a falsa ideia de
que os processos sociais e políticos deveriam ser mantidos sob controle do Governo. Cf.: (KASIANOV, 2005, p.
01).
101
Refere-se a uma série de Revoluções de carácter liberal que ocorreram na Geórgia em 2003
(Revolução Rosa), na Ucrânia em 2004 (Revolução Laranja) e no Quirguistão em 2005 (Revolução das Tulipas),
e que conflituavam diretamente com os interesses regionais de Moscovo uma vez que eram manifestações
políticas influenciadas diretamente por Bruxelas e Washington.
102
Yanukovich foi o pivot do conflito iniciado em 2013 entre Rússia e Ucrânia. Este tema será melhor
abordado no próximo capítulo.
70

Segurança Coletiva (OTSC)103, considerado instrumento fundamental para a manutenção da


estabilidade e segurança na área comum. Neste sentido, o documento reconhece a diversidade
presente na Comunidade e os desafios que representam às assertividades políticas moscovitas
que responde, por sua vez, ora com instrumentos de soft, ora de hard power (FREIRE, 2011,
p. 119). Tomé (2007), afirma que ainda hoje a CEI é uma peça chave para o Kremlin não
apenas pelas raízes históricas e culturais comuns entre os membros, mas principalmente pelos
objetivos geopolíticos e estratégicos da Rússia que estão diretamente envolvidos ao seu
estrangeiro próximo, e enumera as seguintes prioridades:

“a) proteção das minorias e dos interesses russos; b) a restauração e consolidação de


uma certa ordem imperial (influência, tutela ou mesmo domínio) a partir de
Moscovo; c) o estabelecimento de um „cordão de segurança‟ e a estabilização de
suas fronteiras; d) a limitação de influências externas, nomeadamente ocidentais,
mas não só; e) e a utilização deste espaço como mecanismo catalisador de
reemergência da Rússia como superpotência regional na Europa e na Ásia e como
grande potência mundial” (p. 38).

Outro fator de relevância da CEI é a sua importância para a política e geoeconomia


russa, ao passo que a diversidade existente neste território, ao nível das riquezas energéticas,
constitui um desafio que tem exigido políticas de reajustamento e atração por parte de
Moscovo. Tanto os primeiros governos de Vladimir Putin nos anos 2000 quanto a atual
gestão, passando também pela administração de Medvedev, concentram a primazia política
russa no objetivo de assegurar uma estratégia que tem a energia como papel fundamental em
dois sentidos: primeiro porque os recursos energéticos garantem ao Kremlin significativas
cifras, permitindo a manutenção de uma posição econômica internacional favorável, e em
segundo lugar porque a energia se converteu em um instrumento com o qual Moscovo pode
subjugar seus rivais e ganhar influência tanto no espaço pós-Soviético quanto na própria
União Europeia (ORTEGA, 2009, pp. 04-06). Esta particularidade sobre o uso da energia
como instrumento de poder por Moscovo será o tema de discussão do próximo capítulo.

103
Criada em 2002, a OTSC é a evolução do Tratado de Segurança Coletiva assinado em 1992 por
Armênia, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão e Uzbequistão. A OTSC organiza exercícios militares
frequentemente e um dos princípios de sua carta de fundação reside no fato de que um ataque a um membro da
Organização significa um ataque a todos os membros. Além disso, a OTSC é membro observador na Assembleia
Geral das Nações Unidas. Cf.: (TOMÉ, 2007).
71

4. A ENERGIA COMO INSTRUMENTO DE PODER

A Ciência Política é, por excelência, a ciência encarregada de estudar os Fatos


Políticos dentro das sociedades em que estão inseridos. Por Fatos Políticos adotaremos a
definição maquiavélica que compreende todo evento que esteja relacionado a aquisição,
manutenção e o exercício do Poder Político (LARA A. D., 2011, p. 19). Neste sentido, em
termos científicos, o Poder é o objeto de estudo desta disciplina cujos limites são
extremamente fluidos e dependem necessariamente das tradições acadêmicas assumidas por
seus autores (LARA A. D., 2011, pp. 34-35; MOREIRA, 1993, pp. 70-72). Ainda que uma
relação de Poder possa ser facilmente visualizada, sua definição é significativamente mais
complexa. Nye (2009, p. 74), por exemplo, descreve que o Poder, “assim como o amor, é
mais fácil de sentir do que definir ou medir”. Em termos gerais, assumiremos a proposta do
professor Adriano Moreira para o qual o Poder “é a capacidade de um sujeito influenciar,
condicionar e/ou determinar o comportamento de outro dentro de uma relação entre vontades
conflituosas”, em que os agentes farão uso dos instrumentos e recursos que dispõem para
atingir metas e objetivos desejados (MOREIRA, 1996, pp. 197-207).
Na verdade, Moreira (1996, pp. 197-198), denuncia que “o Poder não é uma coisa
mensurável em termos quantitativos, o poder é sempre uma relação”. Logo, o poder é a força
que um homem exerce sobre outro sempre que estes vivam em sociedade (portanto, distante
do estado Hobbesiano), quer dizer, é a capacidade de conseguir que os outros façam aquilo
que de outra forma e por vontade própria não fariam. Numa determinada relação onde o Poder
está distribuído desigualmente entre agentes ou grupos104, sua manifestação será caracterizada
pela capacidade de atuação autônoma do exercício de influência ou de controle sob o agente
menos poderoso. Frisamos aqui a relevância do eixo autonomia-influência que não pode ser
desconsiderado nas relações de poder visto que em qualquer situação onde se verifica este
fenômeno, o agente mais poderoso não é apenas aquele que decide o funcionamento da
interação social, mas também o que o faz de maneira emancipada e independente de qualquer
outra vontade. O agente passivo, por outro lado, ainda que tenha a opção de tomar sozinho
suas próprias decisões, estará sob a influência do agente ativo e de fatores que vão
condicionar a relação de Poder, seja ela social, laboral, econômica, política, militar e outras105.

104
As desigualdades são produtos diretos do exercício do Poder, como explica Boaventura de Sousa
Santos, “(…) como qualquer relação social regulada por uma troca desigual (…) a sua persistência reside na
capacidade que ela tem de reproduzir desigualdades”. Cf.: (SANTOS, 2000, p. 248).
105
DIAS (2005, pp. 219-253), descreve em detalhes os fatores relacionados ao poder no âmbito da
Geopolítica nacional, enumerando fatores físicos (relacionados à dimensão territorial), humanos (ligados à
72

A relevância do Poder é tema de exaustiva discussão desde a antiguidade, quando os


teóricos políticos debatiam este tema junto de outras definições igualmente importantes como
a Justiça, a Igualdade e o bom governo, ao passo que defendiam o Poder como a base
necessária para aquisição destes valores. Em Política, Aristóteles fundamenta o conceito da
distribuição do Poder como critério para a distinção entre Governos, ou seja, o Poder
manipulado por um (autocracia), por poucos (oligarquia) ou muitos (democracia). Maquiavel
(O Príncipe), igualmente, dedicou parte de sua bibliografia para explicar os usos e
mecanismos do Poder ao passo que Hobbes (Leviatã) mantinha uma visão do Poder
concentrado nas mãos de uma Soberania. Locke e Montesquieu, por outro lado,
desenvolveram arranjos institucionais sobre o Poder em aspetos como sua divisão e separação
de maneira que não houvesse concentração nas mãos de apenas um indivíduo, grupo ou
instituição. No séc. XX o debate sobre o Poder evoluiu consideravelmente e passou a abarcar
aspetos variados como suas fontes, formas, manifestações, usos e efeitos. Surge neste período
o conceito de capacidade que vai condicionar as relações de Poder quer sejam sobre as
características individuais, sociais, materiais ou políticas e que acumuladas, podem garantir
autonomia e/ou cooperação. Weber (Economia e Sociedade), por exemplo, analisa o carisma
individual como um instrumento da capacidade pessoal para o exercício do Poder (KURIAN,
2011, pp. 1330-1331).
Nas relações entre Estados, a capacidade militar é um exemplo de um instrumento de
Poder que pode assegurar autonomia e segurança a uma Soberania. Sobre este tema ressalta-
se porém, as distinções que Arendt (Da Violência), estabelece sobre o exercício do Poder e o
uso da violência, o trabalho de Schelling (Arms and Influence), que demonstra as eficácias e
limitações do uso da violência como instrumento de influência (KURIAN, 2011, pp. 1330-
1331), enquanto o professor Adriano Moreira (1996, p. 200), afirma que “o poder procura em
regra o consentimento obtido pela razoabilidade, e que apenas excecionalmente recorre à
coação que pode ser finalmente militar”. Portanto, na lista dos objetivos a serem perseguidos
pelos Estados encontram-se valores fundamentais como independência nacional,
autopreservação, manutenção da segurança interna, integridade territorial, promoção do bem-
estar de seus cidadãos, desenvolvimento de princípios de honra e prestígios a níveis nacionais
e internacionais e a preservação da paz e ordem interna. Por conseguinte, para tentar garantir
estes e outros objetivos nacionais, os administradores públicos farão uso de suas capacidades
que podem ser classificadas em atributos tangíveis, como as matérias-primas (na figura dos

população em aspetos demográficos e étnicos), de recursos naturais, de circulação, tecnológico e de estrutura de


governo.
73

recursos naturais), o território, a população e as facilidades industriais e militares, além dos


recursos econômicos e financeiros, ou intangíveis, como a qualidade de liderança, a índole
nacional, o moral, a estabilidade política, a cultura e outros ativos pertinentes (RODRIGUES,
2013, p. 61)106.

4.1. O Protagonismo dos Recursos Naturais

Os recursos naturais, entendidos dentro de uma perspectiva cuja relevância deriva


essencialmente de sua abundância ou escassez, necessidade e distribuição, podem ser
categorizados como recursos críticos, essenciais e estratégicos. Os recursos energéticos como
o petróleo, o gás natural e o carvão mineral, por sua vez, satisfazem todas essas qualidades.
Uma superpotência energética não é apenas aquela que seu território possui grande riqueza
em hidrocarbonetos, se assim fosse, a maldição do recurso107 não seria uma realidade
verificável. Neste caso, poderíamos nos questionar sobre as razões de grandes produtores de
petróleo como a Arábia Saudita, o Kuwait e a Venezuela não possuem o mesmo status que
outros produtores como os EUA, a China e a Rússia. O fato é que não basta apenas ser um
grande produtor e possuir imensas reservas, mas a combinação de outros setores estratégicos e
políticos como instituições públicas fortalecidas, posição geoestratégica que garanta uma
política de coalizão comunitária, além da boa gestão dos recursos, são primordiais no cálculo
das superpotências108. Neste sentido, a Federação Russa se destaca como superpotência
energética justamente por ter bem definida as suas estratégias políticas e por manter uma
gestão dos recursos de maneira que lhe garantam uma posição internacional favorável
contrastante com a Rússia dos anos de Ieltsin e mais próxima dos anos de pujança econômica
da URSS de 1950 e 1960.

106
Morgenthau apresenta um capítulo inteiro dedicado aos elementos do poder nacional e cita estes e
outros ativos tangíveis e intangíveis. Cf.: (MORGENTHAU, 2003).
107
A Maldição do Recurso (Resource curse) é um princípio que refere aos países que possuem
abundância de algum recurso natural, normalmente não-renovável (como os derivados de hidrocarbonetos, o
ouro, o cobre, o diamante e outros), e que se torna dependente da renda que este recurso provém, falhando em
estruturar uma economia diversificada, enfraquecendo as instituições governamentais e se tornando susceptível a
conflitos civis ou não pelo controle deste mineral. As razões para a ocorrência destes eventos são várias e desde
os anos 1990 os estudos que envolvem conflito e recursos evoluíram bastante ao ponto de algumas pesquisas
concluírem que alguns deles tiveram importante participação na origem, prolongamento e financiamento de
conflitos civis na África, Ásia e América do Sul, principalmente. Cf.: (IAN & COLLIER, 2003; LE BILLON P. ,
2001; LE BILLON P. , 2008).
108
Ainda incipiente e associado à maldição do recurso, existem estudos sobre a interferência dos recursos
naturais nas formas de governo de alguns países. Os estudos se debruçam na interferência que os recursos
energéticos provocam principalmente em sistemas democráticos, demonstrando a facilidade de se lançarem em
regimes ditatoriais. Cf.: (ROSS, 2001; CORRALES, 2006; HABER & MENALDO, 2011).
74

Com o fim da Guerra Fria houve uma mudança significativa na crença política
internacional em relação aos parâmetros de poder e influência. Se no passado o poder
nacional era pensado exclusivamente como a posse de poderosos arsenais de guerra e a
manutenção de um extenso sistema de alianças militares internacionais109, agora estava
associado ao dinamismo econômico e ao cultivo de inovações tecnológicas. Para exercer uma
liderança política a partir dos anos 1990, portanto, esperava-se que os Estados possuíssem
uma vigorosa economia doméstica e que superassem seus rivais no desenvolvimento e
exportação de bens tecnológicos. Ainda que o potencial militar fosse considerado essencial
para a segurança nacional, a balança geoestratégica agora precisava ser equilibrada com uma
economia forte e vibrante (KLARE, 2002, p. 07).
Portanto, reconhecer a relevância110 que os recursos energéticos possuem na busca
pelo equilíbrio entre segurança política e econômica é essencial. Para quase todos os Estados
mundiais ou pelo menos àqueles cujas indústrias dependem fortemente de matérias-primas, a
preocupação com a proteção dos recursos tornou-se uma política fundamental no planeamento
da segurança energética nacional111. Além disso, alguns materiais possuem valor bastante
elevado no mercado internacional, como os que derivam de recursos energéticos fósseis, e sua
posse e exploração pode ser considerada uma batalha pela qual vale a pena lutar (KLARE,
2002, pp. 14-15). Outro fator de preocupação reside no aumento da demanda global pelos
recursos que é impulsionada consideravelmente pelo dramático crescimento da população
mundial. Se em 1950 contabilizávamos 2.5 bilhões de seres humanos, em 2011 atingimos a
expressiva marca de 7 bilhões112 (conforme gráfico a seguir). Consequentemente, a
necessidade por comida, roupas, energia, aquecimento e outras diligências essenciais
aumentaram substancialmente ao passo que o consumo de eletrônicos como televisores,
computadores, refrigeradores e materiais similares tiveram igual crescimento. É fácil concluir,

109
Como as alianças militares da Primeira e Segunda Guerra Mundial e também da Guerra Fria.
110
Prova da relevância dos temas econômicos no fim da Guerra Fria é o discurso de Bill Clinton na
Georgetown University, em 12 de dezembro de 1991, quando o candidado à presidência dos EUA no ano
seguinte declarou: “Now we’ve entered a new era and we need a new vision and the strength to meet a new set of
opportunities and threats. (…) Our economic strength must become a central defining element for our national
security policy (…), we must organize to compete and win in the global economy”. Disponível em: <
http://www.ibiblio.org/pub/academic/political-science/speeches/clinton.dir/c28.txtp>. Último acesso em
17/03/2015.
111
O conceito de Segurança Energética está relacionado ao estado dito “ideal” onde um país ou
determinada região detém a quantidade necessária de energia que lhe seja suficiente para manter um nível de
crescimento econômico e desenvolvimento razoável, mantendo ou melhorando progressivamente a qualidade de
vida da sua população. Cf.: OLIVEIRA (2012, p. 82).
112
Cf.: <http://www.worldometers.info/world-population/#pastfuture>. Último acesso em 17/03/2015.
75

portanto, que a demanda por recursos continuará a aumentar nas décadas que virão, quando as
estimativas populacionais atinjam mais de 9.5 mil milhões de pessoas em 2050.

Gráfico 1: Projeção de Crescimento Populacional Global113

Com a necessidade aumentando constantemente, é inevitável que colida com outras


variáveis bastante relevantes na equação dos recursos: o fato de que aqueles que derivam dos
hidrocarbonetos como o petróleo, o gás natural e o carvão mineral serem altamente valiosos
no mercado internacional e, além da sua distribuição geográfica desigual, o suprimento
mundial é limitado, dando uma vantagem a mais aos Estados que os possui.

4.2. A Nova Rússia e a Crise dos Anos 1990

Diante deste cenário de exiguidade energética global, a Federação Russa se viu


favorecida no processo de desintegração soviética em 1991. Desde a década de 1960 o bloco
comunista mantinha comércio regular de exportação de energia para a Europa através de
várias condutoras que ligavam a URSS aos Estados Ocidentais, e utilizava sua produção
também para alimentar o complexo industrial e militar nacional, os signatários do Pacto de
Varsóvia e outros satélites ideológicos influenciados por Moscovo. Com o findar do conflito
ideológico e toda a reorganização territorial da ex-URSS, a Federação Russa herdou a maior

113
Disponível em
<http://www.census.gov/population/international/data/worldpop/table_population.php>. Último Acesso em
23/05/2015.
76

parte das reservas naturais, do aparato industrial e tecnológico e da expertise científica


soviética necessária em toda a cadeia de produção ligada ao setor energético:

No momento da transição, a vitalidade econômica do Estado russo descansou sua


base sob os recursos naturais e o recurso mais potente nesta cesta foi o gás. Ainda
hoje isso é verdade. Em 1991, o petróleo e o gás respondiam sozinhos por 80% de
todas as exportações russas e os números atuais não diferem muito disso. Como
resultado, com a Federação Russa como maior e mais bem sucedido Estado sucessor
da União Soviética, a Gazprom tornou-se a maior empresa de gás natural do mundo
em virtude do fato de que o próprio país possui cerca de 30% das reservas de gás
natural mundial. (ROSNER, 2006, p. 09, nossa tradução)

Contudo, as benesses energéticas não foram os únicos espólios deixados pela URSS à
nova Rússia: a burocracia estatal, a corrupção nacional e um Estado debilitado em autoridade,
fragilizado economicamente e sem capacidade de arrecadação financeira, são outros legados
absorvidos pela nova República. Boris Ieltsin foi incapaz de alavancar a economia nacional e
a adesão do país ao modelo capitalista Ocidental não trouxe, de imediato, os frutos esperados,
ao passo que as empresas russas assistiam ao mercado internacional ser inundado por recursos
provenientes de outras fontes (principalmente de países do terceiro mundo), comercializados a
valores abaixo do praticado no mercado, derrubando o preço das commodities e afundando a
economia russa na recessão (RUTLAND, 2014, p. 08)114. SEGRILLO (2012b) afirma:

De 1992 a 1998 todos os anos (com apenas uma exceção) foram de crescimento
negativo da economia. Para se ter uma ideia da imensa crise da década, basta dizer
que o Produto Interno Bruto da Rússia caiu mais do que o dos EUA na época da
Grande Depressão dos anos 1930. (p. 259).

Tabela 1: Taxa de Crescimento anual do Produto Interno Bruto da Federação Russa115

ANO 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002
% -19 -8,7 -12,7 -4,1 -3,5 0,8 -4,6 5,4 9,0 5,0 4,7
ANO 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
% 7,3 7,2 6,4 6,7 8,1 5,5 -7,8 4,0 4,3 3,4 1,3

Privatizar a indústria energética foi uma das saídas propostas pelo economista e
primeiro-ministro de Ieltsin, Yegor Gaidar, para tentar avançar na transição para a economia

114
A nível de comparação da dimensão da crise que acometia o país nos anos 1990, atualmente, com a
economia global sob uma nova crise econômica e o preço do petróleo em constante queda, o barril do tipo brent
pode ser comprado a 55,51 US$, em 1998 o mesmo tipo chegou a marca de 12 US$ o barril. Disponível em
<http://br.investing.com/commodities/brent-oil-historical-data>. Último acesso em 19/03/2015.
115
Cf.: (SEGRILLO, 2012b, p. 249). Disponível em
<http://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.KD.ZG/countries/RU?display=graph>. Último acesso em
23/05/2015.
77

de mercado. A primeira fase da terapia de choque116 russa começou entre 1992-1993 e


avançou numa segunda fase mais predatória em 1995. Este segundo período de privatizações
ficou conhecido por loan for shares (ou “empréstimos por ações”), e consistia no
arrendamento (ou privatizações, honestamente falando) de ativos industriais, incluindo ações
de empresas estatais e do setor energético, através de leilões a dinheiro que eram emprestados
pelos bancos ao governo moscovita. Basicamente, era a saída que Ieltsin encontrara para
enfrentar o grave deficit fiscal, melhorar a arrecadação e investir nos fundos para as eleições
presidenciais de 1996, na qual foi reeleito.
Acontece, porém, que não houve uma real competição e os leilões, além de
manipulados, não possuíam concorrência. Grande parte dos “vencedores” eram homens de
negócio favorecidos politicamente por Moscovo e que fizeram fortuna com a dissolução da
URSS, até cupões que poderiam ser trocados por ações das companhias públicas eram
distribuídos. Desta Forma, algumas estatais foram absorvidas por conglomerados
internacionais enquanto outras se mantiveram sob o domínio de uma oligarquia regional fiel
ao Kremlin (RUTLAND, 2014, p. 08; GOLDMAN M. I., 2004)117. Por outro lado, a indústria
do gás foi poupada da privatização selvagem e a Gazprom, anos mais tarde, tornar-se-ia o
trunfo político-económico que Moscovo precisava.

4.3. Vladimir Putin e o Surgimento do Império Energético

Com a decisão de unificar os Ministério do Petróleo e do Gás em 1989, Gorbatchev


criou a Gazprom (Gaznovaya Promyshlennost), que foi parcialmente privatizada em 1993
pela onda neoliberal de Ieltsin junto das outras indústrias do setor energético. No caso da
Gazprom o Estado manteve o controlo sobre 39,4% da companhia e era o responsável por
indicar a maioria dos diretores do seu corpo de membros. Ainda assim, a companhia não foi
capaz de estimular o crescimento econômico russo que mantinha-se deficitário e em 1998 o

116
A terapia de choque de Ieltsin consistia numa saída desesperada para continuar a transição para o
sistema capitalista, recuperar a economia russa e reduzir a pressão que a oposição comunista vinha fazendo.
Assim, em janeiro de 1992, Ieltsin liberou os preços que antes eram tabelados pelo governo e gerou uma inflação
de 2,58% naquele ano. Em seguida, deu início ao processo de privatizações das industrias russas. Até junho de
1993, 60 das 200 mil empresas estatais foram vendidas. Disponível em
<http://oglobo.globo.com/cultura/livros/os-impasses-da-russia-nos-30-anos-que-separam-mikhail-gorbachev-
vladimir-putin-15653905>. Último acesso em 25/03/2015.
117
O relacionamento das oligarquias com o Kremlin funcionava na base de trocas políticas por vantagens
econômicas que atendia aos dois lados. Segrillo (2012a), afirma: “Yeltsin tinha uma relação muito próxima aos
oligarcas (…), aquele propiciava um ambiente favorável a estes nas privatizações, e estes, em contrapartida,
apoiavam Yeltsin no campo político em sua batalha contra a oposição comunista. A maioria dos oligarcas
exercia sua influência de maneira indireta, sem saírem de sua esfera econômica, mas alguns chegaram a atuar
diretamente na política” (p. 114).
78

país atravessava uma grave crise econômica. Entre março de 1998 e agosto de 1999, Moscovo
assistiu à tomada de cinco primeiros-ministros118 quando Vladmir Putin se fixou no cargo. O
ambiente político e econômico da Rússia naquele período eram pouco promissores119. No ano
em que assumiu, Putin viu-se obrigado a combater os insurgentes islâmicos no Daguestão e
na Chechênia. Com o sucesso da operação militar e sua popularidade em alta, Ieltsin resolveu
lançar seu primeiro-ministro sucessor nas eleições presidenciais de 2000.
Por ser candidato do presidente em exercício, esperava-se que Vladimir Putin desse
continuidade ao projeto de governação liberal que vinha sendo aplicado no país desde 1992,
no qual Ieltsin valorizava uma intervenção mínima do Estado para alavancar a economia
russa. Porém, vencendo as eleições, com ampla margem de votos, Putin seguiu por um
caminho inverso ao liberalismo econômico do ex-presidente. Doutor em economia e ex-
agente de campo do serviço de inteligência soviético (antiga KGB) durante a Guerra Fria, o
novo presidente orientou sua administração como um estrategista militar e mapeou as
necessidades nacionais detalhadamente antes de efetivamente avançar à ação.
Em sua tese de doutorado, defendida em 1997120, Putin contrasta sua visão com a da
maioria dos economistas russos que acreditavam que as privatizações e a redução do controle
do Estado na economia seria o melhor caminho para incentivar o crescimento econômico
nacional. Pelo menos no que diz respeito aos recursos naturais, a tese de Putin defende a
intervenção estatal como necessária para alimentar a economia e inibir a exploração
irresponsável por investidores estrangeiros e oligarcas pouco comprometidos com os avanços
do país. Em artigo publicado em 1999 (VLADIMIR, 2006), ele afirma que,

em termos de uma conclusão geral, segue-se que a condição socioeconômica e


também estratégia existente para a saída da Rússia de sua profunda crise e
restauração de sua antiga força […] para resolver muitos problemas sociais e toda
uma série de fatores que determinam o futuro da Federação Russa, dependem
esmagadoramente da racionalidade e bem pensada exploração responsável do
potencial das riquezas naturais nacionais.” (p. 54, nossa tradução).

118
Os primeiros-ministros do período de crise do fim dos anos 1990 da Rússia foram: Sergei Kiriyenko
(de 23 de março de 1998 a 23 de agosto de 1998), Viktor Chernomyrdin (de 23 de agosto de 1998 a 11 de
setembro de 1998), Yevgeny Primakov (de 11 de setembro de 1998 a 12 de maio de 1999), Sergei Stepashin (de
12 de maio de 1999 a 09 de agosto de 1999) e Vladimir Putin (de 08 de agosto de 1999 a 07 de maio de 2000).
119
O Estado russo, naquele período, estava completamente entregue a homens de negócios e políticos
envolvidos em escândalos e ligados direta ou indiretamente a organizações criminosas. Cerca de 40% das
empresas privadas, 60% das empresas estatais e 50% dos bancos nacionais eram controlados por essas redes.
Cf.: (GOLDMAN M. , 2008, pp. 14-16; STUERMER, 2009, pp. 58-59; TOMASSONI, 2013, pp. 12-13).
120
Há muita discussão a respeito da originalidade da tese do presidente Putin. Alguns institutos de
pesquisa apresentam provas concretas de que Vladimir Putin plagiou grande parte da sua tese e que isso seria
parte de um problema endêmico da cultura acadêmica do país. Cf.: Disponível em
<http://www.washingtonpost.com/blogs/answer-sheet/wp/2014/03/18/russias-plagiarism-problem-even-putin-
has-done-it/>. Último acesso em: 05/04/2015.
79

Putin acreditava que os recursos naturais não apenas garantiriam o desenvolvimento da


economia russa como também serviriam de instrumento de afirmação política internacional e
colaborariam no sentido de recolocar a Rússia no cenário das superpotências globais
(KLARE, 2009, pp. 92-93). O presidente entendia também que o livre comércio e o interesse
das empresas privadas não iriam coincidir com o que ele julgava ser o interesse nacional, e
delimitou que os recursos naturais representariam o setor estratégico de sua política, até certo
ponto, nacionalista. Também não via com bons olhos o envolvimento de homens de negócios
na política russa (como era comum na gestão de Ieltsin)121 e estava decidido a revisar o rumo
econômico e político do país tendo a Gazprom como instrumento preferencial de ação.
Em 2001, Vladimir Putin indicou dois aliados como CEO e presidente da companhia,
Alexei Miller e Dmitri Medvedev122, respetivamente. Em junho do mesmo ano, o Estado
começou a investigar as companhias privadas que detinham 62% das ações da empresa e
encontrou indícios de evasões fiscais, gestão mafiosa, violações de leis fiscais e ambientais e
até tráfico de influência. Muitos oligarcas foram presos por Putin, outros fugiam do país
levando parte de suas divisas enquanto outros abriram mão de suas ações em troca de
benefícios políticos. O caso mais emblemático da perseguição de Putin aos oligarcas foi o da
petroleira Yukos123, cujo proprietário, Mikhail Khodorkovsky, acabou preso (PEREIRA &
PEDONE, 2013, pp. 7-8). Em 2005, início do seu segundo mandato presidencial e com a
direção da Gazprom completamente aparelhada e dominada por uma elite leal, a empresa
decidiu vender 10,7% da sua parte para o governo russo, que aceitou, comprou e se tornou o
investidor majoritário da companhia (KLARE , 2009, pp. 96-98).
Vladimir Putin assumiu pessoalmente a responsabilidade com a gestão da Gazprom e
começou a articular um plano mirando os contratos de exploração dos recursos estabelecidos
nos anos 90 entre Ieltsin e os conglomerados estrangeiros. O objetivo era, mais uma vez,
reduzir a participação dos setores privados nos lucros oriundos da exploração nacional e

121
Putin começou um processo de substituição dos antigos oligarcas na administração do Estado ao
colocar homens de sua confiança e que partilhavam das mesmas visões que ele. Trouxe colegas com quem
trabalhou em São Petersburgo e outros que conviveu durante o período na KGB e em sua sucessora, FSB
(Federal'naya sluzhba bezopasnosti Rossiyskoi Federatsii). Na verdade, Vladimir Putin ajudou a criar uma nova
oligarquia, mas que lhe fosse fiel ao contrário da já existente dos tempos de Ieltsin. Cf.: SEGRILLO (2012a).
122
Vladimir Putin indicou Dmitri Medvedev como seu candidato ao governo russo em dezembro de 2007
pelo partido Rússia Unida, fundado por si em 2001, para o mandato 2008-2012. Eleito com 71,2% dos votos,
Medvedev retribuiu o favor de Vladmir Putin, escolhendo-o como seu Primeiro Ministro.
123
No processo de troca de ativos das empresas russas por empréstimos privados, como era de se esperar,
o Estado não cumpriu sua parte e automaticamente quem emprestou alguma quantia ao Kremlin se tornou
proprietário de partes das companhias nacionais. Apenas Mikhail Khodorkovsky, que era proprietário do banco
Menatep, emprestou 309 US$ milhões ao Kremlin e quando o governo falhou nos pagamentos ele se tornou o
dono da Yukos. Cf.: (YERGIN, 2011, p. 30).
80

colocar a Gazprom no papel dominante tanto na exploração quanto na produção e


comercialização das reservas nacionais, mas neste momento a estratégia voltava-se
especificamente contra as empresas estrangeiras. Antes, Putin avançou para a maior
petrolífera da Sibéria, a Sibneft, do milionário Roman Abramovich124. Por 13 bilhões de
dólares Moscovo, que já havia assumido o controlo da Gazprom e Rosneft, assumia também o
controle da Sibneft (ou 1/3 produção russa) e figurava agora na 15ª posição internacional de
produção de petróleo. Desde a sua reeleição, em 2004, a intenção do presidente Putin ficou
muito clara: transformar a Gazprom na força motriz capaz de alavancar a Rússia no ranking
das superpotências mundiais (KLARE, 2009, p. 97). Após aquisição da Sibneft e
fortalecimento do setor energético, era hora de avançar sobre as companhias estangeiras como
a BP, Royal Dutch Shell e Exxon Mobil. Para isso, um plano ainda mais meticuloso foi
colocado em prática.
Em setembro de 2006, o Ministério do Ambiente e dos Recursos Naturais acionou o
órgão responsável pela supervisão das explorações minerais para suspender a permissão
ambiental que um consórcio liderado pela Shell e pelas japonesas Mitsui e Mitsubishi
possuíam para exploração de gás e petróleo na costa leste da Rússia (projeto Sakhalin-2).
Estimativas do departamento de energia dos EUA, à época, apontavam que essas reservas
possuíam 12 mil milhões de barris de petróleo e 90 biliões de pés cúbicos de gás natural
(energia equivalente a 16 mil milhões de barris de petróleo). A partir da suspensão da
permissão e alegação de múltiplas violações ambientais por parte deste conglomerado, a
burocracia moscovita dificultou a aquisição da documentação que permitiria regularizar as
ações para que o consórcio voltasse a operar (STUERMER, 2009, p. 176). Pressionado,
incapaz de conseguir a licença e assistindo ao prejuízo aumentar a cada tentativa, em
dezembro daquele mesmo ano o consórcio desistiu da exploração e resolveu vender uma parte
dos negócios ao Estado125. Moscovo adquiriu então 51% das ações do consórcio a um valor
incrivelmente abaixo do estipulado pelo mercado internacional e as ações da Shell, que eram
de 55%, caíram para 27,5%, e as da Mitsui e Mitsubishi de 25% e 20%, caíram para 12,5% e

124
Roman Abramovich fez fortuna com todo tipo de transação econômica e emprestou ao governo cerca
de 100 US$ milhões. Quando o governo falhou nos pagamentos, Abramovich tornou-se dono da Sibneft.
Atualmente, radicado no Reino Unido, a lista de empresas que pertencem integralmente ou parcialmente a
Roman Abramovich incluem desde o clube de futebol inglês Chelsea Football Club e o russo CSKA Moscovo, à
empresa sueca Tetra Pak, multinacional de embalagens para alimentos. Cf.: (YERGIN, 2011, p. 32).
125
O fato curioso desta história é que a Rússia sempre teve problemas com o ativismo ambiental por
conta de sua exploração predatória das reservas minerais pouco amigável ao ambiente e aparentemente arriscada
ao ecossistema, principalmente para espécies animais e vegetais que já corriam sério risco de extinção, mas o
Kremlin nunca deu atenção a estas questões exceto neste caso em específico, no qual tratou de perseguir e
culpabilizar as empresas estrangeiras pelos eventuais danos causados ou que poderiam ser causados.
81

10%, respetivamente (KLARE, 2009, pp. 98-100). Quando questionado posteriormente sobre
os problemas regulatórios encontrados pelo Ministério e que causaram a suspensão da licença,
o presidente Vladimir Putin foi taxativo e disse apenas que haviam sido resolvidos126.

4.3.1. O Energy Power Russo

Em artigo publicado em março de 2015, no website da revista Foreing Affairs127,


Michael T. Klare explica o Energy Power como um exercício de poder alternativo e
intermediário entre o soft e o hard power, e define:

“É a exploração das vantagens de um Estado em produção energética e tecnológica


para promover seus interesses globais e minar o de seus rivais [...] providenciar
energia para amigos e aliados que se tornam fortemente dependente de suprimentos
fornecidos por uma potência hostil [...], o energy power pode ser utilizado para
reforçar os laços com um parceiro geoestratégico [...] ou para punir vizinhos
recalcitrantes”

Atualmente, a posição consolidada da Gazprom no mercado internacional deve-se


graças ao monopólio que exerce desde a exploração à exportação dos hidrocarbonetos russos
passando pela produção, armazenagem, processamento e transporte. Em 2013, A Federação
Russa ocupava o 2º lugar em reserva de gás natural com 16,8% do estoque mundial, atrás do
Irã com 18,2%; 8º lugar em reserva de petróleo com 5,5% da disponibilidade global; e 2º
lugar em reservas de carvão mineral com 17,6%, atrás apenas dos EUA, com 26,6%128.
Somente a Gazprom e suas subsidiárias129 detém 72,7% das reservas e 72,9% da produção do
gás natural russo. Em termos globais, 16,6% das reservas de gás natural são controladas pela
companhia e 13,5% é a quantidade de gás que ela produziu em 2013130. Admitindo tais
posições, podemos considerar que os negócios que forem bons para a Gazprom são
igualmente positivos para o Kremlin e vice-versa. Em outras palavras, “as estratégias da
Gazprom coincidem com as estratégias da Rússia… ou será o contrário?” (STUERMER,
2009, p. 171).

126
Disponível em <http://www.nytimes.com/2006/12/22/business/worldbusiness/22shell.html>. Último
acesso em 19/03/2015.
127
Disponível em: <https://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/2015-03-03/hard-power-soft-
power-and-energy-power>. Último acesso em 21/05/2015.
128
Disponível em <http://www.bp.com/content/dam/bp/pdf/Energy-economics/statistical-review-
2014/BP-statistical-review-of-world-energy-2014-full-report.pdf>. Último acesso em 31/03/2015.
129
A Gazprom possui participação em mais de 200 empresas ligadas a todos os setores da economia russa
e internacional, de bancos e empresas prestadoras de serviço a indústria de desenvolvimento tecnológico. Uma
lista com o nome e a participação da estatal pode ser verificada no site da própria companhia. Disponível em
<http://www.gazprom.com/about/subsidiaries/by-type/>. Último acesso em 31/03/2015.
130
Disponível em <http://www.gazprom.com/f/posts/00/463337/gazprom-in-figures-2009-2013-en.pdf>.
Último acesso em 31/03/2015.
82

Sem qualquer sombra de dúvida, as atividades da Gazprom são conduzidas por


Moscovo como uma espécie de quarto poder nacional. Internamente, a companhia exerce
domínio sobre os produtores independentes regulando o acesso ao sistema das condutoras de
gás (as pipelines ou gasodutos) da empresa131 ou influenciando-os pela autoridade e fatia de
mercado que possui (POUSSENKOVA, 2009, p. 06). Dentro do país, o gás natural é utilizado
nas residências desde o preparo dos alimentos ao aquecimento dos cômodos internos e
responde por 50% da eletricidade consumida nacionalmente (RUTLAND, 2014, p. 07).
Contudo, a produção russa supera em muito a demanda nacional e a exportação do superavit é
outro aspecto que garante a força da Gazprom. Esta quantidade excedente segue uma política
de exportação energética que alimenta as ex-Repúblicas soviéticas e os membros da UE. Por
exemplo, somente em 2013 a Rússia produziu 604.8 mil milhões de m3 de gás e consumiu
413,5 mil milhões de m3, deixando 191.3 mil milhões de m3 livres para abastecer o mercado
internacional. No caso do petróleo, no mesmo ano, 10.788 barris diários foram produzidos e o
consumo foi de 3.313 mil barris por dia132. Nesta conta, mais de 7 mil barris de petróleo
estiveram disponíveis para comercializar133, o que torna o país um dos maiores vendedores
desta commoditiy.
Do ponto de vista político, as exportações do gás russo são bastante significativas
quando relacionadas ao mercado europeu e às antigas repúblicas soviéticas, seus principais
parceiros. Desde os anos 1970 esta região está conectada por uma série de gasodutos que
transportam o gás da Sibéria e de outras partes do território russo. Atualmente, as mesmas
condutoras (sendo a maioria de propriedade da Gazprom), providenciam uma parte
substancial do gás que é consumido na Europa. Em 2012 os russos respondiam por 24% do
das importações energéticas dos países do leste europeu, 24% na Alemanha e 19% na
Turquia, para citar alguns exemplos134. Os países do leste europeu, principalmente, possuem
pouca ou nenhuma alternativa a curto prazo para substituírem a forte dependência russa. Nem
as reservas africanas ou do Oriente Médio produzem tanto quanto as russas e também ao nível

131
A lei nacional que rege o mecanismo de condutoras de gás natural garante à Gazprom a exclusividade
de exploração. Disponível em <http://www.gazprom.com/about/marketing/europe/>. Último acesso em
31/03/2015.
132
A nível de comparação, apenas os 191.3 mil milhões de m3 de gás disponíveis para exportação na
Rússia alimentariam, em todo o ano de 2013, a Índia (que consumiu 51,4 mil milhões de m 3), o Brasil (37,6 mil
milhões de m3), a Espanha (29 bilhões de m3) e o Reino Unido (73,1 bilhões de m3). Disponível em:
<http://www.bp.com/content/dam/bp/pdf/Energy-economics/statistical-review-2014/BP-statistical-review-of-
world-energy-2014-full-report.pdf>. Último acesso em 05/04/2015.
133
Embora não seja o carro chefe de sua economia, as exportações de carvão mineral complementam a
condição russa de superpotência exportadora de energia.
134
Disponível em <http://www.eia.gov/countries/analysisbriefs/Russia/russia.pdf>. Último acesso em
31/03/2015.
83

logístico os russos estão muito a frente para alimentar a necessidade consumidora do mercado
europeu. Uma das propostas apresentadas pelos europeus com o apoio dos EUA, para redução
da dependência russa, foi o projeto Nabucco, que consistia na criação de condutoras que
transportariam o gás diretamente do Mar Cáspio para a Europa sem passar pelo território
russo, diversificando as fontes que alimentam o bloco, garantindo a segurança energética
europeia e principalmente reduzindo a dependência da Gazprom. Contudo, diante de
inviabilidades orçamentárias e a concorrência com outros empreendimentos economicamente
mais rentáveis, como o Nord e South Stream, o projeto foi abandonado135.
O transporte do gás russo para a Europa é um tema recorrente e que merece atenção
especial nas relações energéticas russas. Como dito, desde os tempos soviéticos as Repúblicas
estiveram conectadas por condutoras dentro de um sistema doméstico centralizado e
comandado por Moscovo. Quando a URSS se desfez, os novos Estados esperavam contar
com a mesma fonte de energia e nos primeiros anos isso correu bem, com Moscovo
providenciando combustível com desconto aos antigos parceiros à espera de que sua esfera de
influência fosse mantida. Na medida em que alguns países foram se distanciando da órbita
russa, Moscovo começou a aplicar pressão principalmente sobre o valor da energia,
reservando os descontos apenas aos clientes mais leais do Kremlin e aplicando as taxas de
mercado em qualquer parceiro que ameaçava seguir um caminho independente ou mais
próximo dos centros Ocidentais (KLARE, 2009, pp. 108-109).
Este modelo de política energética, obviamente, fez surgir uma série de conflitos com
os antigos parceiros soviéticos136. O mais marcante ocorreu na Ucrânia, em 01 janeiro de
2006, quando a estatal russa cortou o fornecimento de gás no ponto alto do inverno ucraniano.
O fato se deu após Kiev negar a assinatura de um novo contrato com a Gazprom cujo preço
do combustível entregue seria aumentado em quatro vezes. É bem verdade que Kiev já
comprava energia a um valor muito abaixo do que o mercado comercializava137 e se favorecia
das políticas de redução de tarifa do Kremlin. Alguns autores referem, entretanto, que o
substancial aumento da taxa de importação da Gazprom à Kiev foi uma represália à
Revolução Laranja ucraniana que derrotou o candidato preferencial de Moscovo nas eleições

135
Disponível em <http://blogs.reuters.com/great-debate/2014/05/01/dont-cry-for-the-nabucco-pipeline/>.
Último acesso em 31/03/2015.
136
A título de curiosidade, durante a Guerra Fria a União Soviética nunca interrompeu o abastecimento de
gás europeu por razões políticas, na verdade o comércio com a URSS era considerado mais confiável do que
com outros distribuidores europeus como a Noruega, por exemplo, cuja entrega de gás foi comprometida várias
vezes por discordâncias trabalhistas. Cf.: (KRICKOVIC, 2015, p. 10).
137
Kiev pagava 50 US$ por mil m3 de gás russo enquanto que a mesma quantidade custava 200 US$ no
mercado internacional. Cf.: (KLARE, 2009, p. 109).
84

presidenciais de 2004. A vitória do pró-europeu Victor Yushchenko, não foi vista com bons
olhos por Moscovo que tratou de elevar os preços até chegarem ao nível crítico de janeiro de
2006138. Porém, como as condutas de gás que abastecem o mercado europeu passam pelo
território da Ucrânia, os ucranianos encontraram uma saída “criativa” para responder ao corte
simplesmente desviando o gás dos europeus para satisfazerem suas necessidades. Klare
(2009), afirma que para a Rússia esta política teve apenas efeitos negativos:

foi uma dupla catástrofe nas relações públicas para os russos: Não só foram
acusados de utilizar a energia como instrumento político para punir ex-vassalos que
ousou desafiar a sua autoridade, mas sua confiabilidade futura como fornecedor para
os consumidores mais importantes da Europa Ocidental foi colocada em causa.
(p.109-110, nossa tradução).

Diante do dilema, Moscovo trabalhou rapidamente em um acordo provisório que


reestabeleceu o fornecimento de gás à Ucrânia três dias após o corte. No fim daquele mesmo
ano, Geórgia e Bielorrússia também sentiram a força do energy power russo139: No primeiro
caso, desde a dissolução soviética a Geórgia tem melhor relacionamento com Washington do
que Moscovo e tenta constantemente se afastar da esfera de influência russa. A Revolução
Rosa de 2003, seguindo o mesmo script da Revolução Laranja ucraniana, elegeu ao governo
georgiano o opositor russo Mikhail Saakashvili. A partir daí as relações entre os dois países
pioraram substancialmente. No caso da Bielorrússia a pressão que Moscovo exerceu sobre
Minsk foi vista com alguma surpresa pela Comunidade Internacional já que o país sempre foi
um histórico parceiro russo e Alexander Lukashenko, no governo desde 1994, era tido como
confiável e amigo de Vladimir Putin. Contudo, Klare (2009, p.110), afirma que alguns
observadores concluíram que naquele momento a funcionalidade de Lukashenko para o
Kremlin havia simplesmente acabado. Tanto a Geórgia quanto a Bielorrússia, sem saída,
aceitaram os novos termos da Gazprom (ou seriam os termos de Moscovo?), que aumentava o
preço do gás fornecido, em dezembro de 2006.
Em 2009, um novo corte na entrega de gás foi realizado sob alegações de dívidas não
pagas por Kiev à Moscovo. Durante os últimos dias de dezembro do ano anterior, as
discussões relativamente aos débitos da empresa ucraniana Naftogaz com a russa Gazprom e
os valores do novo acordo sobre o preço do fornecimento para o ano seguinte, não avançaram

138
Os acordos de gás que Moscovo estabelece com Kiev são assinados normalmente em contratos de dois
ou três anos de vigência e cujo vínculo pode ou não ser renovado entre as partes.
139
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1812200615.htm>. Último acesso em
01/04/2015.
85

e o Kremlin anunciou que no primeiro dia de janeiro enceraria o transporte140. Embora


Moscovo tenha garantido que o abastecimento à Europa continuaria sendo realizado através
das condutoras que passam pelo território ucraniano, a simples ameaça de suspensão do
fornecimento já criava um certo pânico em Bruxelas que foi vítima das consequências de um
conflito semelhante três anos antes. Não obstante, Romênia, Hungria, Polônia e Bulgária
acusaram a redução na pressão do gás recebido pelas condutoras ucranianas141.
Seguindo o mesmo roteiro do conflito de 2006, a estatal russa acusou a ucraniana
Naftogaz de pilhagem do gás para alimentar seu complexo industrial, exatamente como
acontecera na crise anterior. A empresa ucraniana, entretanto, negou veementemente e acusou
a Gazprom de não enviar o mínimo acordado para manutenção básica. Apenas no dia 20 de
janeiro o abastecimento foi reestabelecido, mas com consequências para a Ucrânia e a UE,
principalmente no que refere à confiança entre consumidores ucranianos e europeus que se
viam, mais uma vez, vítimas das pressões exercidas pelo Kremlin. Não há consenso sobre as
razões que motivaram este novo corte no gás, mas a principal delas recai sobre o fato de
Moscovo ter tentando afastar a seu vizinho de uma possível adesão à OTAN e/ou UE, já que
em 2008 uma série de acordos de cooperação estratégica foram assinados entre Kiev,
Washington e Bruxelas142.
Se por um lado Moscovo exerce seu poder energético para manter sua zona de
influência e afastar os rivais Ocidentais, por outro, a experiência demonstrou que o atual
sistema de condutas dependente dos países trânsito representam um risco para os acordos
estabelecidos principalmente com a UE. Se o projeto Nabucco foi uma saída buscada pela
União Europeia para reduzir sua dependência russa, Moscovo logo apresentou projetos que
igualmente buscariam reduzir a dependência dos países trânsito como a Ucrânia e a
Bielorrússia, transportando o gás diretamente para o consumidor final europeu. Neste sentido,
dois projetos são primordiais: o Nord Stream e o South Stream. O primeiro, concluído em
2011, tem como principal objetivo contornar o território ucraniano passando pelo Mar Báltico
conectando a produção russa diretamente ao recetor alemão, de onde o gás seria redistribuído
para a Europa. O segundo, previsto para ter início ainda este ano, parte de Anapa na Rússia,
atravessa 931km pelo Mar Negro e chega em Varna na Bulgária de onde seguiria a
redistribuição europeia. Estes foram os principais projetos que impediram o avanço do projeto

140
Disponível em <http://uk.reuters.com/article/2008/12/31/russia-ukraine-gas-
idUKLV43959420081231?sp=true>. Último acesso em 13/04/2015.
141
Disponível em <http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/7809450.stm>. Último acesso em 13/04/2015.
142
Disponível em <http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=367750>. Último acesso em
13/04/2015.
86

Nabucco143 e que garantiram a manutenção da hegemonia russa na comercialização de gás


para a Europa.

Mapa 15: O Irã como fornecedor extra para a Europa face à Rússia144

4.4. A (Inter)Dependência Russa

Quando falamos da posição consolidada e favorecida que a Gazprom possui no


mercado energético internacional e o quanto esta posição pode retornar em políticas positivas
para Moscovo, um aspeto não pode passar despercebido e merece atenção quando se discute
segurança energética é que a relação entre UE e Rússia trata-se, na verdade, de uma
interdependência simétrica145, ou seja, a União Europeia é tão dependente da energia russa
quanto a Rússia depende do mercado europeu e qualquer distorção nesta relação pode
provocar consequências inimagináveis. Se atentarmos somente para o comércio que envolve

143
Muitos outros fatores estão relacionados ao fracasso do projeto europeu-norteamericano, com peso
maior para fatores políticos do que propriamente comerciais. Cf.: <http://blogs.reuters.com/great-
debate/2014/05/01/dont-cry-for-the-nabucco-pipeline/>. Último acesso em: 02/04/2015.
144
Neste mapa estão expostos tanto as condutoras que passam pelo território ucraniano e bielorrusso,
quanto o Nord Stream e os projetos South Stream e Nabucco, que foi abandonado. Disponível em
<http://www.lemonde.fr/planete/infographie/2014/06/02/les-principaux-gazoducs-en-
europe_4430317_3244.html>. Último acesso em 25/05/2015.
145
Cf.: (NYE, 2009, pp. 256-259).
87

os dois players internacionais, 78% das exportações de petróleo e 70% do gás natural russo
tiveram a comunidade europeia como destino em 2013, representando 25% do PIB russo
(KRICKOVIC, 2015, p. 09). Ao contrário do que se poderia pensar, esta interdependência não
cria posições confortáveis em Bruxelas nem em Moscovo, e o surgimento desta relação é
muito importante para compreender como a interdependência entre os dois parceiros chegou a
tal ponto.
Durante a Guerra Fria a Europa Ocidental era muito menos dependente do gás
soviético. Dentro do próprio continente havia suprimento alternativo suficiente da Holanda e
Noruega para alimentar o mercado interno e complementar o abastecimento em caso de corte
soviético. Contudo, as reservas europeias têm-se reduzido bastante nos últimos anos e a
constante expansão do bloco às antigas Repúblicas soviéticas tem absorvido Estados
fortemente dependentes do gás russo aumentando gradualmente a dependência da
comunidade como um todo. Somente em 2007, 100% do gás utilizado nos países bálticos,
98% na Eslováquia, 78% na República Checa e 60% na Hungria eram provenientes de fontes
russas (KRICKOVIC, 2015, pp. 09-10).
Portanto, conhecedora desta dependência, Moscovo nunca se furtou em utilizar a seu
favor a necessidade que a UE mantém do gás russo e por muitos anos Bruxelas ignorou a
possibilidade de que o Kremlin pudesse utilizar o monopólio das condutoras como
instrumento de política externa. Nos últimos anos, entretanto, qualquer sinal de desagravo na
relação é um motivo pelo qual o Kremlin ameaça fechar as torneiras russas, deixando
milhares de cidadãos europeus sem abastecimento. Foi assim diante de uma série de
acontecimentos nos últimos anos como o projeto de instalação dos escudos de defesa
antimíssil em território polonês e checo e o alargamento da OTAN próximo às fronteiras
russas, como referido anteriormente (FREIRE, 2011a, pp. 162-163).
Ao mesmo tempo que a Rússia se vê necessariamente conectada à economia europeia,
as relações de interdependência também atingem os negócios que envolvem o gigante
energético e os países trânsito. Para a Bielorússia, além da utilização da energia russa no
consumo interno, uma parte da fonte de renda do país reside justamente da revenda do gás
barato que recebe de Moscovo a preços mais elevados para outros países europeus. É uma
dependência que atende perfeitamente aos objetivos do Kremlin ao passo que mantém um
aliado local. Além disso, o acordo com o gás russo e a cooperação financeira de Misk com
Moscovo são responsáveis por manter a economia bielorrussa num patamar que permite a
continuidade do governo de Lukashenko (ROSNER, 2006a). Por outro lado, a relação com a
88

Ucrânia se tornou um assunto ainda mais complexo em 2013 do que nos conflitos de 2006 e
2009.

4.4.1. A Euromaidan146 e seus desdobramentos

Em novembro daquele ano, a União Europeia viu-se derrotada diante da negativa de


assinatura de um novo acordo de associação com a Ucrânia. De repente, o presidente Victor
Yanukovch recuou em relação ao acordo que significava o passo inicial para uma futura
adesão ao bloco europeu. Em Moscovo a rejeição foi comemorada como uma vitória política
para os planos de Vladimir Putin, a negativa ucraniana esbarra necessariamente nas pressões
exercidas pelo Kremlin. Arutunyan (2014), afirma que,

A razão desta atitude era clara desde o princípio: se assinasse, a Ucrânia não poderia
aderir à União Eurasiática [...] a Ucrânia era, em todo caso, crucial para a União
Eurasiática, num plano simbólico, como berço da cultura e civilização russas [...].
Também houve outra razão, mais prática, para o sucedido, uma razão bem mais
importante e talvez até existencial para Putin do que visões grandiosas de império:
ele precisava de assegurar que a NATO ficasse fora da Ucrânia. (pp. 348-349).

Neste sentido, Moscovo utilizou a inevitável ameaça de elevação do preço do gás e


ofereceu uma compensação financeira de cerca de 15 US$ milhões caso Kiev entrasse em
acordo com Moscovo ao invés de Bruxelas. Yanukovich, seduzido por Putin e pressionado
por um governo corrupto, recuou no acordo com a UE e provocou o início das manifestações
da praça Maidan, em Kiev. O movimento contra o presidente teve grande adesão
principalmente na capital e na região mais a Oeste do país. Quando Yanukovich ordenou que
os policiais dispersassem os manifestantes pró-UE, o protesto transformou-se em um
movimento pela sua derrubada. Se antes os militantes eram compostos em sua maioria por
estudantes ucranianos insatisfeitos com a aproximação de Kiev à Moscovo em detrimento de
Bruxelas, diante da brutalidade exercida pela polícia, filmada e divulgada para todo o mundo,
movimentos da extrema-direita ucraniana como o Svoboda e o Pravy Sektor foram atraídos
para a Euromaidan. Arutunyan (2014) descreve o cenário de guerra civil em Kiev:

após meses de impasse entre os manifestantes e o Berkut [polícia de intervenção do


Governo], começaram os confrontos violentos. Foram arrancados paralelepípedos do
chão, construíram-se barricadas com pneus e arame farpado, apareceram os cocktails
molotov e, depois, as armas, embora ninguém percebesse bem como eram
fornecidas, nem por quem (p. 350).

146
Euromaidan foi como ficou conhecido o evento ocorrido a partir de novembro de 2013, quando o
presidente ucraniano, Victor Yanukovich, se recusou a assinar um acordo com a UE e milhares de pessoas foram
para a praça principal de Kiev se manifestar contrários ao ocorrido.
89

Sob pressão, Yanukovich dixa Kiev e uma junta parlamentar pró-Ocidente assumiu o
controlo do país. Ávido para acalmar os ânimos, a primeira ação do novo governo foi a
tentativa de revogar uma lei de 2012 que equiparava o idioma russo ao ucraniano, porém,
dava uma impressão de que o idioma local fosse quase uma língua secundária. A simples
menção a esta proposta (que fatalmente atingiria o currículo escolar e prejudicaria a grande
quantidade de russos que vivem no leste e sul do país, mas não têm o ucraniano como
primeira língua), foi o estopim para irritar os russos de Donetsk, Lugasnk e da península da
Crimeia, dando início a uma nova frente de manifestações no país, mas favoráveis à Moscovo.

Mapa 16: Russos na Ucrânia em porcentagem147

Na República Autônoma da Crimeia, tudo ocorreu muito rápido no curto espaço de um


mês: Em 23 de fevereiro os protestos se iniciaram em Simferopol, capital da península.
Políticos locais ligados ao Kremlin invadiram edifícios governamentais e proclamaram um
novo governo, elegendo Sergei Aksyonov como novo primeiro-ministro. Em 16 de março,
com total apoio de Moscovo, um referendo local sobre o status da região foi realizado e mais
de 90% dos cidadãos responderam que desejariam unificar o território à Federação Russa. No
dia 19 de março Vladimir Putin anunciou a anexação oficial da Crimeia à Rússia.
147
Dados referentes ao último censo realizado na Ucrânia, em 2001. Está confirmado, desde 2013, a
realização de uma nova pesquisa nacional em 2016. Disponível em
<http://www.rferl.org/contentinfographics/map-ukraine-percentage-who-identify-as-ethnic-russians-or-say-
russian-is-their-first-language-/25323841.html>. Último acesso em 26/05/2015.
90

Internacionalmente, a anexação foi recebida com alguma surpresa, porém certa


conformidade principalmente pelos Estados Ocidentais que interpretaram a ação como um
sinal das políticas de carácter imperialista de Moscovo. Contudo, a interdependência entre UE
e Rússia em relação ao comércio de gás fez com que os Ocidentais adotassem medidas mais
assertivas no tratamento da situação como a aplicação de sanções econômicas a empresas e
políticos ligados diretamente ao presidente Vladimir Putin. Dois meses depois, estourou os
conflitos de Donetsk e Lugansk, duas regiões do extremo leste ucraniano que igualmente
autoproclamaram suas independências e solicitam anexação à Rússia. Esta situação,
diferentemente da primeira, dá início a um violento conflito armado entre as duas regiões
separatistas e Kiev, ainda sem resolução e com uma escalada de violência e quebra de acordos
de cessar-fogo constante nos últimos meses. A Comunidade Internacional, contudo, não
reconhece as duas novas Repúblicas, tampouco a Crimeia, como partes integrantes do Estado
russo.

4.4.2. Ações e Consequências para Moscovo

Se até a metade de 2013 a Rússia não era presença constante nos noticiários
internacionais, a partir da anexação da península da Crimeia e início dos conflitos no leste
ucraniano, quatro situações mudaram radicalmente o panorama político nacional e que podem
ser divididas em dois grupos: situações danosas e situações promissoras.
Situações danosas:

 A primeira foi a resposta imediata do Ocidente à interferência russa na Ucrânia


com a aplicação de um pacote de sanções a empresários e políticos russos;
 A segunda situação está relacionada a queda livre do preço internacional do
petróleo que automaticamente depreciou a moeda russa;

Situações promissoras:

 O primeiro momento é o acordo histórico assinado entre Moscovo e Pequim


para a comercialização de gás por pelo menos uma década a partir de 2018;
 O segundo momento foi a entrada em vigor, em 01 de janeiro de 2015, da
União Econômica Eurasiática (UEE);

Todas essas situações são causadas exclusivamente pelos acontecimentos na Ucrânia,


mas possuem alguma relação com o conflito e falaremos sucintamente sobre cada uma delas.
91

Buscando opções mais pragmáticas para isolar a Rússia e responder à anexação da


Crimeia, Washington emitiu, em 17 de março de 2014, um documento oficial148 que
sancionava sete indivíduos que a Casa Branca considerava responsável pela situação na
Crimeia tão logo o referendo de anexação da península foi aprovado, em 16 de março daquele
ano149. Em abril150 a União Europeia, junto dos EUA, decidiu bloquear um total de 48
indivíduos e empresas russas, entre elas as petrolíferas Rosneft e Transneft e bancos russos151.
Como respostas às sanções Ocidentais, o Kremlin respondeu com um embargo de 365 dias a
produtos europeus, norte-americanos, australianos e a “todos os países que decidiram impor
sanções econômicas sobre pessoas físicas ou jurídicas [russas] ou que se juntaram a tais
ações”152. Até agosto de 2015 as empresas de aproximadamente 32 países deixarão de vender
carne, peixe, vegetais, frutas, laticínios e outros produtos para o mercado russo153.
Com relação ao preço do petróleo, este vem caindo desde junho de 2014, quando
registrou um pico de US$ 115 o barril, vindo de uma média de US$ 100 a US$ 120 desde
2001. Em janeiro de 2015 o barril era comercializado abaixo de US$ 50. É a pior queda desde
a crise econômica internacional de 2008 e a justificativa para este cenário está relacionada a
uma conjuntura de fatores, mas os principais seriam o aumento da produção do petróleo de
xisto nos EUA e uma demanda pelo produto abaixo do esperado pela Europa e Ásia. Em
novembro de 2013 havia excesso de oferta e recusa dos países da Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (OPEP) em reduzir a produção independentemente do preço no
mercado internacional. A posição da OPEP foi devida justamente ao fato da produção de xisto
ter aumentado substancialmente nos EUA nos últimos anos, provocando a queda no preço
desta commodity. A intenção da Organização seria, então, a de abaixar ainda mais o preço
para retirar do mercado outros produtores ou inviabilizar a exploração de rivais como o
EUA154. Em outubro de 2014, Thomas Friedman sugeriu que a queda no preço do petróleo
trata-se, na verdade, de uma “guerra silenciosa” provocada pelos EUA e Arábia Saudita
contra Rússia e Irã, cujo objetivo seria semelhante ao da OPEP que é a tentativa de

148
Disponível em <https://www.whitehouse.gov/the-press-office/2014/03/17/fact-sheet-ukraine-related-
sanctions>. Último acesso em 26/05/2015.
149
Disponível em <http://brasil.elpais.com/brasil/2014/03/16/internacional/1394974142_352878.html>.
Último acesso em 26/05/2015.
150
Disponível em <http://www.dw.de/uni%C3%A3o-europeia-e-eua-ampliam-
san%C3%A7%C3%B5es-contra-Moscovo/a-17599594>. Último acesso em 26/05/2015.
151
Disponível em <http://expresso.sapo.pt/internacional/uniao-europeia-pressiona-a-russia-com-
sancoes-e-os-eua-vem-a-seguir=f889249>. Último acesso em 26/05/2015.
152
Disponível em <http://en.kremlin.ru/events/president/news/46404>. Último acesso em 26/05/2015.
153
Disponível em <http://www.publico.pt/mundo/noticia/russia-anuncia-embargo-total-a-importacao-
de-alimentos-dos-eua-e-ue-1665698>. Último acesso em 26/05/2015.
154
Disponível em <http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/01/entenda-queda-do-preco-do-petroleo-
e-seus-efeitos.html>. Último acesso em 26/05/2015.
92

enfraquecer produtores orientais ao mesmo tempo em responderiam à interferência russa na


Ucrânia155.

Gráfico 2: Preço do barril de petróleo em US$156

Em se tratando das situações promissoras, enquanto Moscovo assistia (e respondia) ao


Ocidente aplicando as referidas sanções econômicas e a queda vertiginosa do preço do
petróleo no mercado internacional, um histórico acordo entre dois ex-parceiros soviéticos foi
assinado em maio de 2014. Após uma década de negociações, o tratado que envolve a
comercialização de gás da estatal russa Gazprom com a Corporação Nacional de Petróleo da
China (CNPC), prevê o fornecimento de 38 mil milhões de m3 de gás russo por ano a partir de
2018, o que representa 25% dos mais de 160 mil milhões de m3 consumidos pela UE em
2013157. Os valores do acordo não são públicos, mas estima-se que possa chegar a US$ 420
mil milhões158, e internacionalmente a parceria entre duas das maiores economias mundiais
foi visto como um golpe certeiro na política de Vladimir Putin.
O último grande evento que envolve o país desde o conflito com a Ucrânia foi a
entrada em vigor da União Econômica Eurasiática (UEE) em janeiro de 2015. Concebida a
155
Disponível em <http://www.nytimes.com/2014/10/15/opinion/thomas-friedman-a-pump-
war.html?_r=0>. Último acesso em 26/05/2015.
156
Disponível em < http://www.dailyfx.com/crude-oil>. Último acesso em 26/05/2015.
157
Disponível em <http://www.publico.pt/mundo/noticia/acordo-de-gas-entre-russia-e-china-visto-
como-vitoria-politica-de-putin-1636876>. Último acesso em 26/05/2015.
158
Disponível em <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/05/china-e-russia-assinam-acordo-
historico-de-gas-natural.html>. Último acesso em 26/05/2015.
93

três anos e ratificada em 2014, o bloco cria um espaço comum entre Rússia, Bielorrússia,
Cazaquistão, Armênia e Quirguistão. O acordo, que estabelece uma área de livre circulação de
bens, produtos, serviços, capitais e trabalhadores, pretende rivalizar com a União Europeia no
mercado global, reforçar a presença russa no espaço pós-soviético e, igualmente importante,
impedir o avanço Ocidental às ex-Repúblicas Soviéticas. A entrada da Ucrânia era primordial
para os projetos do bloco e tida como vital para a sua ignição. Contudo, diante da crise entre
Moscovo e Kiev, Vladimir Putin deixou de lado esta necessidade, valorizando os parceiros
que já fazem parte do bloco e que futuramente poderão fazer159.
Para a Rússia, muito mais do que estreitar laços com parceiros históricos, esta nova
aliança eurasiática representa um importante passo na retomada do poder de Moscovo na
região. Se por um lado o acordo significa ganhos econômicos para as empresas parceiras, para
a Rússia, ele se traduz primordialmente no exercício de força política e na inquestionável
disputa pelo poder global. Apenas se considerarmos que o acordo atinge mais de 180 milhões
de cidadãos, um PIB conjunto de mais de 5,5 biliões de euros, 1/5 das reservas mundiais de
gás natural e quase 15% das reservas de petróleo disponíveis, a União Eurasiática pode ser
vista, de partida, como um novo player no tabuleiro dos jogos de poder.
Em que pese as respostas estratégicas às dificuldades dos últimos anos, Moscovo
sentiu os efeitos práticos de suas ações na Ucrânia. Em abril de 2015, o primeiro-ministro
Dmitri Medvedev, em discurso ao Parlamento russo, afirmou que por conta das sanções do
Ocidente, da queda constante do preço do petróleo e consequente desvalorização do rublo, o
país perdeu, em 2014, 25 mil milhões de euros ou 1,5% do PIB nacional e que as expectativas
para 2015 eram de que as perdas continuariam: apenas no primeiro quarto do ano a economia
russa já se contraiu em 2%. Ainda assim e, diante de previsões de recessão econômica, ao
assumir as dificuldades que o país enfrenta e vai continuar a enfrentar, Medvedev fez um
discurso entusiasmado sobre a “restauração histórica da justiça”, ao se referir à anexação da
península da Crimeia, deixando claro, em outras palavras, que embora a ação geopolítica
tenha sido danosa à economia nacional, Moscovo desconsidera qualquer hipótese de voltar
atrás.

159
Disponível em <http://pt.euronews.com/2015/05/23/uniao-economica-eurasiatica-a-resposta-de-leste-
a-uniao-europeia/>. Último acesso em 01/06/2015
94

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A construção da identidade nacional russa é um trabalho em modelagem constante.


Desde a fundação da primeira unidade política eslava no séc. IX até o fim da União Soviética
nos últimos anos do séc. XX, os russos sempre se olharam como parte integrante de um
império global que ora se expandia, ora se retraía consoante o momento histórico que
atravessavam. Porém, tudo mudou a partir dos anos 1990 quando a URSS, melancolicamente,
chegou ao fim. Este, um dos eventos mais importantes do séc. XX, trouxe inúmeras
implicações para os russos pois foi quando a identidade nacional se viu mais dissociada dos
interesses do Estado. Aquela unidade política que antes representava um player altamente
participativo no sistema político internacional acabara por se tornar um Estado debilitado,
corrupto, vacilante e pouco influente. Não obstante, uma série de conflitos eclodiram dentro e
fora da Federação Russa chegando mesmo a ameaçar a integridade territorial do país e os
próprios cidadãos russos. Problemas com o tráfico de drogas, o terrorismo internacional,
disputas pelo controle dos recursos energéticos e rivalidades étnicas e religiosas eram
constantes na Rússia dos anos 1990, e toda aquela identidade comum que vinha sendo
trabalhada por muitos séculos estava se perdendo aos poucos.
Diante deste cenário identitário caótico, uma série de intelectuais, políticos e
acadêmicos estudavam propostas e opções que pudessem ajudar a reestruturar o Estado,
salvaguardar a identidade e a cultura russa, além de fornecer as bases para um projeto de
retomada da condição de superpotência global. Entre as muitas ideologias debatidas neste
período, o neoeurasianismo se destacou porque soube associar as teorias geopolíticas clássicas
que valorizavam a condição de dominação do Heartland eurasiático, ao antigo desejo de
reestabelecer o poder que Moscovo já tivera. Contudo, por muitos anos esta teoria foi
praticamente esquecida, já que o cenário político-econômico dos anos 1990 simplesmente não
contribuiu para levar adiante os anseios imperialistas de uma grande parcela da população,
enquanto Moscovo assistia a uma depressão econômica internacional que parecia não ter fim,
culminando com a impressionante crise de 1998. Tudo vai mudar, porém, com a eleição de
Vladimir Putin em 2000 e o substancial aumento do preço das commodities no mercado
internacional no início de seu primeiro mandato presidencial.
O fim da era Ieltsin e início da era Putin, com um intervalo temporal entre 2008-2012,
quando Dmitri Medvedev assumiu a presidência e Vladimir Putin foi seu primeiro-ministro,
viu nascer um presidente de personalidade pragmática, muito mais assertivo politicamente e
que conseguiu criar alguma estabilidade em ambiente interno e externo, favorecendo o
95

ressurgimento do orgulho e do patriotismo nacional. Muito mais do que reestabelecer a


economia e segurança do país, o caminho que Putin trilhava visava a recuperação da
influência que Moscovo havia perdido dentro do espaço pós-soviético e também a nível
global, obtendo muito sucesso. Se nos anos de Ieltsin a Rússia passava por uma recessão
assombrosa, na década de Putin, o país começou a ter um crescimento contínuo e a impressão
que se tinha era de que aquele era o homem certo, no momento certo para resolver os
problemas nacionais e colocar o país novamente no cenário político internacional.
Se a ideia neoeurasianista foi importante para fazer ressurgir o sentimento de que a
Rússia poderia voltar a ser poderosa e influente como fora no passado e também para nortear
as políticas do Kremlin neste sentido, igualmente foi importante a gestão acertada dos
recursos energéticos nacionais que, sob o governo de Vladimir Putin, tiveram papel
primordial na condução de uma política que lhe fosse favorável. A indústria do gás natural,
praticamente absorvida pelo Estado, tornou-se uma arma política com a qual o Kremlin, nos
últimos anos, utilizou exaustivamente para convencer, subjugar ou mesmo premiar os países
do estrangeiro próximo de maneira a manter sua influência e afastar, ao mesmo tempo, os
rivais Ocidentais daquilo que Moscovo considera a sua zona de influência exclusiva. No
decorrer do quarto capítulo deste trabalho discutimos diversos momentos em que o energy
power russo foi colocado à prova e as consequências de cada ação russa neste sentido. Vimos
que em momentos em que a Rússia se sentiu ameaçada pela presença Ocidental, seja na figura
da OTAN, da União Europeia ou mesmo quando algum parceiro local se mostra pouco
comprometido com as políticas do grande irmão, Moscovo não se furta de cortar o
fornecimento de gás nos acordos que tem estabelecidos e, como não poderia deixar de ser,
esta ação acarreta sérias implicações quer sejam na vizinhança pós-soviética, quer sejam no
espaço europeu.
Durante a condução do nosso trabalho discutimos também que o neoeurasianismo,
diferentemente do pensamento que lhe antecedeu no início dos anos 1920, não é uma teoria
uniforme. Embora a primazia da valorização da identidade nacional se mantenha em todas as
correntes aqui estudadas, não há consenso sobre a maneira como isso pode acontecer. Se
atentarmos apenas para as Escolas descritas neste trabalho, temos que Zyuganov e Nartov
defendem a criação de um novo império russo dentro das fronteiras da antiga URSS e que seja
baseado em aspetos culturais e históricos para garantir segurança e proteção às influências do
Ocidente; Kolosov e Mironenko, por outro lado, acreditam que os aspetos econômicos são
substancialmente mais relevantes nas estratégias de dominação global e que, por esta razão,
Moscovo deveria trabalhar com parcerias econômicas ao invés de rivalizar com possíveis
96

adversários como China, UE, Japão e etc. Por fim, Alexander Dugin, defende a expansão
territorial russa na Eurásia no sentido de garantir cada vez mais poder e influência para
rivalizar e até mesmo destruir as potências atlantistas já que, em sua visão, existe uma
rivalidade eterna entre as forças continentais (representadas principalmente pela Federação
Russa) e as potências marítimas (na figura dos EUA e seus aliados).
Sendo o objetivo geral do nosso trabalho, averiguar o contexto histórico da formação
identitária russa e que deu razão ao surgimento do Neoeurasianismo e também as suas
implicações para os fenômenos que ocorrem atualmente no espaço pós-soviético, acreditamos
que ainda que o presidente russo, Vladimir Putin, estivesse em um caminho favorável para a
retomada da posição internacional que um dia pertenceu à URSS. Os acontecimentos na
Ucrânia, a partir de novembro de 2013, que resultaram na anexação da Península da Crimeia e
no conflito civil ainda em andamento no leste do país, praticamente denunciaram a influência
do pensamento neoeurasianista no Kremlin. Em uma manobra política rápida no espaço curto
de 30 dias e sem derramamento de sangue, Moscovo, afirmando proteger os russos étnicos,
anexou um território que já lhe pertenceu no passado, indo de encontro às teorias mais
expansionistas do movimento neoeurasianista.
Ainda, ao retornarmos às indagações responsáveis pela condução da nossa pesquisa (1)
As ações e intervenções do Kremlin dentro do espaço pós-soviético, com destaque para o
caso ucraniano, seguem uma orientação política neoeurasianista? (2) A aplicação desta
orientação política neoeurasianista se deve, em algum nível, à interdependência energética?,
podemos dizer que há uma orientação neoeurasianista em curso nas políticas russas dentro do
espaço pós-soviético. Contudo, uma ressalva: durante nossa pesquisa não encontramos fontes
que afirmassem que anexação da Crimeia estivesse dentro de um plano anterior de expansão
territorial. Ainda que o objetivo fosse alargar o espaço dominado dentro da eurásia, não
encontramos registros documentais de quais espaços deveriam ser adquiridos a priori e quais
deveriam ser deixados a posteriori. Isto leva-nos a acreditar que, julgando pela anexação
praticamente pacífica, houve, neste caso, uma ação muito mais oportunista por parte de
Moscovo do que propriamente o resultado bem sucedido de um qualquer plano imperialista.
Um claro sinal de que a ideia neoeurasianista serve como opção e não agenda política
ao Kremlin, pode ser verificado em razão das consequências do envolvimento russo na
Ucrânia. Quando a Comunidade Internacional (frise-se, os Estados Ocidentais), respondeu a
Moscovo aplicando um pacote de sanções econômicas, pouco tempo depois Vladimir Putin e
Xi Jinping assinaram um acordo milionário de comercialização de gás natural entre a Rússia e
a China (o que responde à segunda indagação desta pesquisa). Este fato evidencia, mais uma
97

vez, uma ação oportuna diante das circunstâncias em que Moscovo se encontrava: com o
mercado Ocidental pouco favorável ao comércio com os russos, o país virou-se,
estrategicamente, para o mercado Oriental, favorecido por suas redes geoeconômicas na
tentativa de evitar perdas maiores em sua economia. Ou seja, esta viragem à leste aponta o
caráter eurasiático sui generis da Federação Rússa que tanto os neoeurasianistas afirmam (e os
eurasianistas antes deles). Contudo, não fossem as sanções aplicadas, o acordo com a china,
engavetado por uma década, poderia simplesmente não ter sido assinado naquele momento.
Nos parece claro que o neoeurasianismo é um tema de conhecimento do Kremlin, mas a sua
aplicação depende de uma série de contextos e alguns deles são praticamente inesperados,
como o conflito civil na Ucrânia que permitiu a anexação da península da Crimeia.
Nos parece lógico, também, que diante de um cenário completamente desfavorável
internacionalmente, o Kremlin não poderá continuar exercendo uma política externa
expansiva baseada no discurso de preservação dos russos étnicos espalhados pelo espaço pós-
soviético. Se atentarmos à significativa diáspora russa nas ex-Repúblicas soviéticas, este
discurso torna-se insustentável. Na verdade, quando as repúblicas bálticas manifestaram
preocupação com a sua soberania diante do caso da Ucrânia, tratava-se apenas de uma reação
natural, já que os três países (Estônia, Letônia, Lituânia), embora sejam membros da União
Europeia, possuem uma grande quantidade de russos étnicos em seus territórios. Sendo assim,
acreditamos que qualquer situação parecida com a que ocorre na Ucrânia seria impensável
nestas repúblicas. Mesmo nas outras partes que compõem o espaço pós-soviético, não nos
parece claro que haverá novas anexações e expansões territoriais aos moldes da que houve na
Crimeia. Com relação ao conflito que se segue no leste ucraniano, acreditamos que o litígio
que envolve os dois países poderá criar uma das duas situações geográficas seguintes: um
enclave russo em território ucraniano (já que a região se encontra dominada por brigadistas
pró-russos) ou uma região autônoma com um governo independente de Kiev, porém, parte
integrante da Ucrânia (como era a Crimeia antes da anexação).
Ainda em relação ao futuro, é difícil afirmar os rumos da situação entre os dois países
e principalmente da atuação russa no espaço pós-soviético como um todo, mas entendemos
que considerar tanto o neoeurasianismo (em todas as suas divergências e convergências),
quanto as ligações geoeconômicas em qualquer análise que se faça, apoiado ainda em uma
observação atenta e constante dos acontecimentos, pode nos dar pistas das intenções da
política russa. Neste momento, a única certeza que temos é de que na condução do projeto de
consolidação da Rússia como superpotência global o Kremlin não parece interessado em
voltar atrás.
98

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