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As emoções no seu aspecto mais abrangente encerram, em paralelo, aspectos

comportamentais positivos e negativos, conscientes e inconscientes, e podem


equivaler semanticamente a outras expressões, como a afetividade, a
inteligência interpessoal, a inteligência emocional; a cognição social; a
motivação, a conação, o temperamento e a personalidade do indivíduo, cuja
importância na aprendizagem e nas interações sociais é de crucial importância
e relevância.
As emoções são adaptativas porque preparam, predispõem e orientam
comportamentos para experiências positivas ou negativas, mesmo
comportamentos de sobrevivência e de reprodução. As emoções fornecem
informações sobre a importância dos estímulos exteriores e interiores do
organismo, e também, sobre as situações-problema onde os indivíduos se
encontram envolvidos num determinado contexto.
Em função das necessidades, interesses e motivações das pessoas, as
emoções fornecem dados fundamentais para imaginar e engendrar ações e
para satisfazer os seus objetivos. No ser humano, ao longo da sua evolução, e
na criança, ao longo da sua trajetória desenvolvimental, todas as ações e
pensamentos (como sinônimo de cognição), são coloridas pela emoção.
Porque os seres humanos são animais sociais e dispõem de cognição social e
de inteligência emocional (valor das expressões faciais e da comunicação não-
verbal), não surpreende que as emoções arrastem uma dinâmica interpessoal
muito profunda, a própria relação professor-aluno, tão primordial às
aprendizagens escolares, não se concebe fora dela.
As emoções são uma fonte essencial da aprendizagem, na medida em que as
pessoas (crianças, adolescentes, adultos e idosos) procuram atividades e
ocupações que fazem com que elas se sintam bem, e tendem, pelo contrário, a
evitar atividades ou situações em que se sintam mal.
As emoções dão sentido à vida humana enquanto nos adaptamos,
aprendemos, temos sucesso e fazemos amizades, mas igualmente elas
também emergem enquanto enfrentamos episódios, eventos e situações que
nos esmagam, magoam, ridicularizam e nos frustram e entristecem, por tudo
isto, as emoções e as expressões faciais e gestuais fornecem informações
adaptativas de enorme relevância para a aprendizagem, elas são
fenomenológicas porque são subjetivamente experienciadas e vivenciadas.
As emoções fazem parte da evolução da espécie humana e, obviamente, do
desenvolvimento da criança e do adolescente, constituindo parte fundamental
da aprendizagem humana. Sem dispor de funções de auto-regulação
emocional, a história da Humanidade seria um caos, e a aprendizagem da
criança e do adolescente, um drama indescritível, as emoções tomariam conta
das funções cognitivas e os seres humanos só saberiam agir de forma
impulsiva, excitável, eufórica, episódica e desplanificada. Eis a razão porque o
cérebro humano integra inúmeros e complexos processos neuronais de
produção e de regulação das respostas emocionais.
Embora não seja possível desenvolver neste artigo, por limitações de espaço,
as relações das emoções com o humor e com o estresse, convém desde já,
sumariamente, diferenciá-los.
A emoção ou afeto refere-se a sentimentos que envolvem, perante estímulos
ou situações ambientais, não só a avaliação subjetiva dos mesmos ou das
mesmas, como também, processos somático-corporais e crenças culturais.
O humor, por outro lado, consiste no conjunto de estados emocionais
duradouros (positivos ou negativos) que influenciam a cognição e a ação ou o
comportamento do indivíduo.
Por último, o estresse pode ser definido como o padrão de respostas
comportamentais ou psicossomáticas do indivíduo, a eventos ou tarefas, que
se adequam, ou excedem, as capacidades do seu organismo para engendrar
uma resposta adaptativa às exigências colocadas.
Muitos problemas de saúde mental na escola podem decorrer de estressores
crônicos e de sofrimento emocional, porque muitos alunos com dificuldades de
aprendizagem não conseguem corresponder às expectativas sociais porque a
sua neurodiversidade não é respeitada nem é compatibilizada com as
exigências das aprendizagens escolares.
Crianças sujeitas a muitos estresses provocados pela escola podem vir a sofrer
de problemas emocionais, como ansiedade, depressão, desmotivação,
vulnerabilidade, baixa produtividade, etc., que podem interferir com o seu
rendimento escolar presente e futuro. As relações das emoções com as
aprendizagens escolares são muito íntimas, daí a necessidade de explorar
algumas das suas implicações recíprocas.
Em síntese, a aprendizagem, que é o conteúdo principal do presente texto, tem
muito a ver com o papel que jogam, no seu êxito ou sucesso, as interações
íntimas neurofuncionais das emoções com o humor e com o estresse, tudo
passa efetivamente pelas dinâmicas interpessoais profundas entre o professor
e o aluno, e entre este e os seus pares.
Em termos de substratos neurológicos responsáveis pelas funções emocionais,
incluindo necessariamente as funções afetivas e sociais, falamos
particularmente do sistema límbico (córtex relacional, social, emocional ou
paleomamífero, também conhecido como circuito de Papez), uma região
subcortical mais profunda e central do cérebro, e envolvida, digamos assim,
desde os primórdios evolucionistas dos mamíferos mais antigos, nas relações
do organismo com o seu envolvimento social e objetivo, presente e passado
(imediato, curto e longo prazo).
O sistema límbico, sendo uma região subcortical envolvida na relação do
organismo com o seu envolvimento presente e passado, integra estruturas
nervosas muito importantes para a memória e para a aprendizagem, como a
amígdala, o hipocampo, hipotálamo, a insula, o córtex cingulado, o núcleo
accumbens e os corpos mamilares.
Embora o funcionamento emocional ocorra em todo o cérebro, e não
meramente no sistema límbico (cérebro paleomamífero), pois está em causa
um processo neuronal colaborativo com outras áreas cerebrais, particularmente
o córtex pré-frontal e orbito-frontal, as funções emocionais estão obviamente
interligadas com as funções cognitivas e as funções executivas.
O seu impacto na sobrevivência, na adaptabilidade, na sociabilidade e,
sobretudo, na aprendizagem é inquestionável, quer nos seus aspectos
positivos, quer nos seus aspectos negativos, quer nas suas dimensões
conscientes, quer inconscientes.
Nos aspectos positivos, porque o envolvimento emocional e motivacional e o
engajamento conativo do indivíduo auxiliam, efetivamente, as funções
cognitivas e executivas a operarem de forma integrada e internalizada, a
imagiologia cerebral comprovam-no claramente. As emoções mobilizando as
funções da memória de curto prazo e de trabalho a engendrar processos de
memória de longo prazo consubstanciam a evidência que a adaptabilidade e a
aprendizagem são operadas no cérebro objetivamente. A aprendizagem,
podendo ser vista como uma associação particular de estímulo-resposta que
pode ser premiada ou castigada (dimensão interacional e emocional), gera,
como consequência da experiência e da prática investida, modificabilidades
comportamentais de competências e habilidades. A aprendizagem ao ocorrer
adequadamente estabelece circuitos neuronais no cérebro do indivíduo,
transformando a sua mente e o sentimento de si próprio.
Nos aspectos negativos, porque as situações, os desafios ou as tarefas de
aprendizagem não devem gerar no indivíduo qualquer vestígio emocional de
ameaça, de desconforto, de insegurança, receio ou medo, pois neste caso a
acessibilidade às funções cognitivas superiores de retenção, de planificação,
de tomada de decisão, de execução e de monitorização e verificação ficam
bloqueadas e comprometem o funcionamento mental adaptado que retrata o
processo de aprendizagem na sua fase final de fluência e de automaticidade.
O sistema emocional humano funciona dentro dum espectro comportamental
que pode ir da atração magnética impulsiva e curiosa por pessoas, eventos,
situações, tarefas, problemas ou desafios, ao seu evitamento imediato (luta ou
foge da expressão em inglês "fight or flight"), podendo passar, igualmente, pela
sua tolerância adaptativa necessária.
De fato, para que a aprendizagem ocorra, pela importância que tem a emoção
na cognição (como sinônimo de razão), é necessário que se crie à volta das
situações ou desafios (tarefas, propostas, atividades, etc.) de aprendizagem
um clima de segurança, de cuidado e de conforto, algo que distingue a
cognição social nos humanos, exatamente porque se operou, ao longo da
evolução, uma grande expansão cerebral nas regiões temporais e frontais
responsáveis pela percepção social e pela comunicação.
Dado que a aprendizagem subentende um processo inicial de tentativas e de
imperícias (lembrar que o ser humano nasce imperito e é inicialmente imperito
face a qualquer aprendizagem não familiar), o cérebro imaturo do ser
aprendente (aqui significando também a criança, o aluno, o estudante, o
iniciado, o formando, o estagiário, etc.) precisa de segurança dada pelo cérebro
maturo de seres experientes para assumir riscos, incluindo os de cometer erros
e de engendrar inadaptações iniciais às tarefas ou aos problemas propostos.
Só num clima de segurança afetiva o cérebro humano funciona perfeitamente,
só assim as emoções abrem caminho às cognições.
Num clima de ameaça, de opressão, de vexame, de humilhação ou de
desvalorização, o sistema límbico, situado no meio do cérebro, bloqueia o
funcionamento dos seus substratos cerebrais superiores corticais, logo das
funções cognitivas de input, integração, planificação, execução e output, que
permitem o acesso às aprendizagens simbólicas e à resolução de problemas
complexos exclusivos da espécie humana.
Por alguma razão, a espécie humana é a única que ensina intencionalmente,
algo só possível com uma cognição social e uma inteligência emocional
transcendentes.
Perante ameaças o indivíduo em situação de aprendizagem reage
inconscientemente antes de reagir conscientemente.
Em apenas décimos de segundo, o ritmo cardíaco acelera, a pressão
sanguínea altera-se, os suores emergem nas palmas da mão, a resposta
galvânica da pele pode ser estimada, a respiração torna-se ofegante e ansiosa
e os estados corporais ou somáticos, interoceptivos e proprioceptivos, de
ansiedade, medo, impotência ou vulnerabilidade, disparam sinais do sistema
nervoso automático para a mente que algo está mal. Vários pesquisadores
nesta área também reportam que as ameaças provocam alterações nos fluxos
dos hormônios e dos neurotransmissores (serotonina, dopamina, etc.), pois
afetam os estados emocionais e de humor.
As respostas instintivas, viscerais e homeostáticas, ditas de sobrevivência e de
raiz evolucionista14 e profundamente somáticas, ao serem desencadeadas
interferem com os estados de alerta, de atenção, de processamento de
informação e de planificação e execução de respostas do cérebro, porque
estes opera emocionalmente antes de funcionar cognitivamente.
As emoções guiam e suportam as funções atencionais, e estas guiam as
funções cognitivas de processamento perceptivo, simbólico e lógico, assim
como as funções executivas de resolução de problemas.
As emoções capturam a atenção e ajudam a memória, tornando-as mais
relevantes e claras, a sua ativação ou excitação somática desencadeia
vínculos que fortalecem as funções cognitivas, ao contrário do que se pensava
no passado.
O processamento de informação do ser humano não é igual ao processamento
de informação do computador, ele avalia a mesma numa perspectiva
emocional e não meramente racional ou algorítmica, ele dá colorido afetivo
instantâneo à informação e orienta-a subjetivamente para tomar decisões.
Sentimentos positivos ou negativos, humor positivo ou negativo interferem,
assim com os processos mentais mais complexos, como a tomada de decisão
e a monitorização executiva dos comportamentos.
Damásio sugere que as funções cognitivas, como o pensar, o induzir, o
raciocinar e o tomar decisões, são guiadas pela emoção e pela avaliação e
julgamento das consequências das ações. Este neurocientista português
chegou mesmo a criar uma teoria original de marcadores somáticos, propondo
que as ações e as decisões exageradamente autorreguladas podem ser
afetadas por reações corporais quando estimamos os seus resultados.
Quando refletimos sobre uma ação, por exemplo, a resposta a um problema de
matemática ou a execução de um exame, experienciamos reações emocionais
baseadas na nossa expectativa sobre as soluções que demos e sobre as
nossas experiências passadas, algo que joga também com aspectos históricos
autobiográficos, por isso aprendemos com os resultados passados e, a partir
deles, regulamos os nossos comportamentos futuros. Uma vez mais se
confirma que existe uma estreita conexão entre a emoção e a cognição e entre
esta e a motivação.
As emoções como estados mentais, positivos ou negativos, conscientes ou
inconscientes, têm assim um impacto muito relevante nas funções cognitivas e
executivas da aprendizagem, podem transformar experiências, situações e
desafios difíceis e complexos, em algo de agradável e de interessante, ou pelo
contrário, em algo aborrível, fastiento, enfadonho ou detestável.

A cognição sem a emoção não é possível de conceber-se quando se considera


que o cérebro do indivíduo, opera e atua sistemicamente num todo funcional
harmonioso e melódico.
As emoções conferem, portanto, o suporte básico, afetivo, fundamental e
necessário às funções cognitivas e executivas da aprendizagem que são
responsáveis pelas formas de processamento de informação mais humanas,
verbais e simbólicas.
É nas emoções que o processamento de informação humano se distingue do
processamento de informação dos computadores, que a processam, analisam,
armazenam, categorizam e classificam com mais velocidade e eficácia.
Por alguma razão, o processamento de informação nos humanos e nos
computadores é distinto, os humanos possuem disposições de humor e de
afeto, motivam-se, apaixonam-se e acasalam, fogem de predadores e
tornaram-se caçadores. Os computadores não se acasalam nem têm
predadores, a diferença de processamento de informação com os humanos é,
portanto, substancial em termos emocionais e sociais, pois possuímos
sentimentos subjetivos muito profundos que condicionam o nosso
comportamento e a nossa aprendizagem.
As emoções estão mesmo intrinsecamente envolvidas nas funções de atenção,
de significação e de relevância e valor social, relacional e motivacional que
atravessam as várias fases do processo de aprendizagem, dado que este não
se opera de forma isolada ou espontânea, mas sim de forma compartilhada e
continuada e em três fases principais.
Tais processos emocionais transientes são mais importantes nos processos
iniciais e intermediários da aprendizagem, por serem mais dependentes das
interações com os seres experientes, logo de coemoções empáticas e
compartilhadas, e requintam-se e aprofundam-se nos seus processos finais,
por serem mais independentes, autônomos e auto-organizados nos seres
aprendentes.
Só com prática deliberada (segundo as neurociências mais de 10.000 horas de
experiência) o inexperiente ou o ser aprendente atinge o patamar de
experiente. Emergem, então, no seu cérebro circuitos neuronais de velocidade,
precisão, automaticidade, fluência, mestria e excelência, que ilustram qualquer
tipo de aprendizagem, seja não verbal, como a música e a dança, seja verbal,
como a leitura e a escrita.
As emoções, hoje universalmente reconhecidas, assumem um papel
fundamental nas interações sociais, que contextualizam qualquer tipo de
aprendizagem. Porque não nascemos ensinados, temos que aprender num
contexto social e emocional, numa dimensão de dois sujeitos em interação, que
compartilham cultura, um experiente que ensina, e outro inexperiente que
aprende.

É assim nas relações mãe-filho, em relação à autossuficiência de alimentação,


higiene e de vestuário, e será também assim, nas relações professor-aluno, no
que diz respeito às aprendizagens simbólicas e escolares.
Prestar atenção, estar motivado e envolvido cognitiva e continuadamente são
funções do cérebro emocional humano (o tal cérebro límbico e paleomamífero
já referido), para que se harmonizem neurofuncionalmente no processo de
aprendizagem.
É preciso dar tempo ao tempo, dado que o processo de aprendizagem ocorre
microgeneticamente, ou seja, de passo a passo, de emoção em emoção. Sem
prática deliberada, sem muitas horas de experiência corpórea (o dito treino), as
funções emocionais não se estruturam no indivíduo nem se estabilizam para
dar suporte eficaz às funções cognitivas hierarquicamente mais complexas do
cérebro cognitivo (o neocórtex e córtex pré-frontal).
A componente emocional ou afetiva da aprendizagem pode, na sua dimensão
positiva, encorajar, reforçar e aprofundar as funções motivacionais, cognitivas e
executivas atinentes, mas, em contrapartida, na sua dimensão negativa, pode
intimidá-las, adiá-las, bloqueá-las, descontrolá-las, e até mesmo, interrompê-
las e dissuadi-las.
É a componente emocional que de certa forma reconecta e religa o cérebro
com o fim de o acomodar continuamente ao processo contínuo que é a
aprendizagem.
Em termos evolucionista, na espécie humana, e em termos evolutivos, na
criança humana, a emoção está antes e vai a par com a cognição, porque esta
não dá em nada quando aquela domina. As emoções são assim sábias guias
das funções cognitivas da aprendizagem, mas para tal é preciso integrá-las,
contê-las e regulá-las, porque os seus excessos ou carências tendem a
perturbá-las
A emoção dirige, conduz e guia a cognição, não se pode compreender a
aprendizagem sem reconhecer o papel dela em tão importante função
adaptativa humana. A interdependência da emoção e da cognição no cérebro é
demonstrada pelas novas tecnologias de imagiologia do nosso órgão de
aprendizagem e de interação social. Ao longo da evolução humana e ao longo
da educação da criança, ambas co-evoluíram e co-evoluem, elas são
neurofuncionalmente inseparáveis.
Pela relevância que ela desempenha numa aprendizagem bem sucedida e com
sucesso, a emoção é crítica para a aprendizagem logo para o aluno (ser
imaturo, inexperiente, aprendente ou discente), mas também para o ensino,
logo para o professor (ser maturo, experiente ou docente).
Para se poder aprofundar a importância das emoções na aprendizagem, temos
que necessariamente equacionar a sua importância no ensino, algo único da
espécie humana, uma vez que ensinar é uma das suas especificidades mais
singulares e que envolve processamento de emoções em dois sujeitos em
interação intencional e transcendente.
Em termos humanos, a aprendizagem é inseparável do ensino, não há
docência sem discência, visto tratar-se de um processo de transmissão cultural
intergeracional, que subentende uma dinâmica interpessoal profunda que
mencionamos anteriormente, logo de um processo social e intersubjetivo, pois
envolve, simultaneamente, as emoções de um ser inexperiente com as de um
ser inexperiente.
Cabe assim ao professor a criação, a gestão, o planejamento e gestão do
envolvimento social da sala de aula (ou do ecossistema pedagógico) para que
se criem condições emocionais e afetivas ótimas para que a aprendizagem,
como ato cognitivo construído e co-construído, aconteça efetivamente.
É impossível pensar em separar a emoção da aprendizagem ou a emoção da
cognição ou da razão, ou conceber, exclusivamente e friamente, na
individualidade do aluno ou no sujeito aprendente, pois temos que pensar
também na individualidade do professor ou do sujeito docente, porque alunos e
professores interagem socialmente e aprendem uns com os outros. Logo, quer
a emoção, quer a cognição, devem ser enquadradas num contexto social e
obviamente cultural.
A aprendizagem não é um ato isolado nem neutro afetivamente, só pode ser
concebida num contexto de transmissão intencional e de atenção e interação
emocional compartilhada, o que só por si integra emoções e cognições, leitura
de faces e de mentes, exibição de sinais não verbais e corporais de tristeza,
alegria, desgosto, surpresa, zanga, medo, etc.
As emoções não podem continuar a ser separadas das cognições nas escolas
e nas salas de aula do século XXI, como o foram no passado. A aprendizagem
significativa e motivadora é o resultado da interação entre a emoção e a
cognição, ambas estão tão conectadas a um nível neurofuncional tão básico,
que se uma não funcionar a outra é afetada consideravelmente.
As emoções afetam todas as aprendizagens, quanto mais envolvidas forem
com elas, mais mobilizadas são as funções cognitivas da atenção, da
percepção e da memória, e mais bem geridas e fortes serão as funções
executivas de planificação, priorização, monitorização e verificação das
respostas.
Quando o input emocional é adicionado à experiência de aprendizagem, o
cérebro capta e processa os estímulos de forma mais significativa e profunda,
facilitando a sua retenção e recuperação e, consequentemente, a elaboração e
regulação das respostas. A emoção guia a atenção e esta, por sua vez, guia a
memória e a aprendizagem.
As práticas educacionais que ocorrem numa instituição como a escola ou numa
sala de aula não são neutras, não se concebem sem estar embebidas,
encaixadas e incorporadas socialmente e emocionalmente, as neurociências
têm vindo a demonstrá-lo cada vez mais.
As neurociências ensinam-nos que as emoções desempenham um papel
formativo na cognição e na aprendizagem, é consensual que o funcionamento
do cérebro na aprendizagem coloca a emoção incrustada na cognição, só em
pacientes cerebrais as duas funções podem ser separadas (célebre caso de
Phineas Gage e outros casos com alexitimia estudados por Damásio.
Sem uma adequada regulação emocional nenhuma competência cognitiva
superior ou racional, como aprender a tocar violino ou aprender a ler e a
escrever, pode ser construída e produzida em termos comportamentais com
fluência e expressividade.
Os ensinamentos das neurociências, ao aproximar as emoções do processo
ensino-aprendizagem, dão-nos inúmeras ajudas para pôr em prática
estratégias e experiências de interação emocionalmente significativas que
melhoram, não só o ensino, como a aprendizagem nas escolas.
Parece óbvio que as emoções não só facilitam a construção e a co-construção
de comportamentos adaptados presentes e futuros (papel da interação
experiente-inexperiente em Fonseca), como certamente são facilitadoras do
desenvolvimento do processo de aquisição de novas informações e de novos
conhecimentos, pois ao contrário do que habitualmente se pensa, as emoções
não são apenas funções auxiliares ou secundárias da aprendizagem, são parte
integrante do seu processo total.
A EMOÇÃO E A COGNIÇÃO INCORPORAM-SE NA APRENDIZAGEM
A emoção envolve, portanto, processos de atenção, sensação, apreensão,
excitação, propensão, inclinação, predileção, gosto, sensibilidade, focagem,
intuição, preferência, impressão, receio, suspeição, susceptibilidade,
pressentimento, ideação, premunição, consciencialização, porque joga com
ganhos e perdas, desafios ou ameaças, logo desencadeia respostas
somáticas, corporais e motoras de antecipação muito importantes para o
processo de aprendizagem.
A vida emocional e ou afetiva humana, dita automática, não verbal e não
simbólica é, evolutivamente, um fato psíquico primordial, ela decorre em
primeiro lugar em comparação com a vida cognitiva, voluntária, racional e
lógica, dita verbal e simbólica, tendo em consideração a hierarquia dos
substratos neurológicos do cérebro.
A emoção e a afetividade ocorrem em primeiro lugar na espécie humana e no
desenvolvimento da criança, a emoção é uma premissa psicofisiológica e
psicomotora da vida afetiva da criança.
Este autor identifica a emoção como um fato psíquico inicial, onde se dá uma
fusão ou simbiose primordial e uma integração sistêmica entre o biológico e o
social.
Ao longo da infância é a emoção que abre o caminho à cognição, a lenta
emergência da conscientização de si ou o sentimento de si (em termos
psicomotores, é sinônimo de noção do corpo ou de somatognosia) na criança
faz emergir a sua cognição, ou seja, as funções cognitivas superiores das
aprendizagens humanas mais complexas, que se vão construindo e
reconstruindo face à dinâmica das suas reações comportamentais emocionais
e afetivas, evoluem a partir da integridade antecipatória das funções
emocionais.
A dialética da ontogênese põe em desafio, portanto, a emoção e a cognição,
uma é inseparável da outra, nenhuma delas se pode conceber isoladamente,
daí a importância das emoções na aprendizagem, sem emoção a
aprendizagem é debilitada e comprometida.
A maturação do cérebro humano e, consequentemente, todo o
neurodesenvolvimento da criança que suporta as suas aprendizagens
prospectivas, reforçam o papel da afetividade e da harmonia das interações
emocionais precoces.
Vários autores, como Wallon, Spitz, Bowlby, Winnicott e outros, chamam
atenção para a importância do papel da vinculação e do apego ("attachment")
nos primeiros meses de vida, pois as carências afetivas, a privação ou
perturbação das relações mãe-filho comprometem todo o desenvolvimento
mental futuro da criança.
Da mesma forma, se a relação precoce professor-aluno (ou professora-aluno
ou aluna) não for facilitadora, mediatizadora e acolhedora, as aprendizagens
escolares iniciais podem evocar sofrimento emocional, e hoje em muitas
escolas, sabemos que há muitas crianças e jovens nessa situação.
A emoção e a cognição juntam-se para produzir aprendizagem, exatamente
porque a emoção emanada do organismo, ou seja, do corpo (múltiplas
sensibilidades) e da sua motricidade (múltiplas motricidades) por interação com
o envolvimento, gera uma multiplicidade de fenômenos psíquicos complexos, a
importância das emoções e da afetividade nas aprendizagens é obviamente
inquestionável
A emoção por ser menos objetiva e menos mensurável que a cognição,
exatamente por ser uma característica e um dom da subjetividade da criança
em situação de aprendizagem, tem sido menos estudada, mas ela faz parte do
desenvolvimento da criança e é parte integrante das suas aprendizagens.
Nos primeiros anos, as crises emocionais são mais frequentes e veementes,
por ilustrarem que elas funcionam como pedestal das funções cognitivas
posteriores.
Mas se surgirem crises emocionais ao longo dos processos de aprendizagem
mais diferenciados, como no aprender a ler, escrever, calcular e resolver
problemas, a socialização da criança e as suas dificuldades e transtornos de
personalidade podem ficar irremediavelmente comprometidos.
Possuir um sistema cerebral operativo em termos emocionais e sociais é
essencial para o desenvolvimento integral e holístico das crianças, nele cabem
competências emocionais e sociais fundamentais para o seu sucesso escolar e
seu sucesso na vida futura.

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