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Estudo de

Caso

Contexto sócio-histórico da
Bíblia
Professor Me. Saulo Henrique Justiniano Silva
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Quando tratamos de história recente do Oriente Médio, invariavelmente, concei-


tos como terrorismo ou conflitos religiosos saltam aos olhos. Quando se trata dos
embates entre Israel e Palestina, a questão não é diferente. Semanalmente noticiá-
rios, virais, opiniões em redes sociais, mostram, a partir de um lado, acontecimentos
envolvendo conflitos na região. Infelizmente o imediatismo das informações
impede as análises profundas dos fatos, ou impulsionam opiniões pouco funda-
mentadas dos verdadeiros motivos.
Quando trata-se de Israel, nos meios religiosos sempre surgem explicações
espirituais sobre a legitimidade do povo que ocupa a região. Os judeus remon-
tam a narrativa bíblica do bereshit, primeiro livro da Torá, em que Abraão assumiu
Canaã por desígnios de Deus. Já os árabes asseguram a sacralidade da Terra, pela
conquista empreendida pelos muçulmanos no século VII e pelo episódio conhe-
cido no Al Corão como Viagem Noturna, na qual Muhammad (Maomé) teria, com
seu cavalo, ascendido aos céus. Para os islâmicos, a ascensão aconteceu a partir do
Domo da Rocha em Jerusalém, que, segundo a tradição judaica, teria sido o lugar
onde Abraão quase sacrificou Isaac e também o Santo dos Santos do Templo de
Salomão.
Do ponto de vista religioso, os cristãos também têm a Terra de Israel e, prin-
cipalmente, Jerusalém como sagrada, afinal foi ali que se deu o ministério de
Jesus. Durante quase 200 anos, entre os anos de 1096 a 1272, movimentos cha-
mados de Cruzadas, organizadas pelos Papas tiveram como objetivo apossar a
Terra Santa, que na época estava sob domínio muçulmano, para a cristandade. O
saldo das cruzadas não foi positivo para os cristãos, que venceram apenas uma
dentre as nove expedições militares oficiais. Desde então, a Terra Santa, poucas
vezes foi objeto de interesse direto cristão. Apesar de não negar sua importância
histórica e espiritual, os cristãos aguardam a segunda volta de Cristo e elevação
dos salvos à outra Jerusalém, a celestial.
A narrativa bíblica se passa, em sua maior parte, na região que hoje chama-
mos de Palestina – este nome deriva do latim Terra dos Filisteus e remonta à época
da dominação romana sobre a região. Lá se fixou Abraão, Isaac, Jacó (também
chamado Israel) e seus filhos (que deram origem às tribos) antes de irem para o
Egito, onde, segundo a narrativa bíblica, foram escravos. Retornaram de lá, após
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cerca de 400 anos com a libertação liderada por Moisés.


As tribos de Israel se fixaram na região, após empreender diversas batalhas
contra os povos que habitavam a localização. As batalhas foram constantes ao longo
de toda narrativa veterotestamentária. Filisteus, Jebuseus, Midiãnitas, Cananeus,
Assírios e Babilônicos dividiram a região com o povo da Bíblia, por isso assegurar
que a Palestina sempre foi dominada pelos hebreus é um tanto quanto perigoso.
O que diferenciou o domínio hebreu de outros povos? O forte componente re-
ligioso implícito na dominação da terra. Não há possibilidade de pensar história
hebraica sem considerar questões como terra, templo e lei.
A presença hebraica na região foi por algumas vezes interrompida no tempo
do exílio egípcio, durante a dominação assíria, durante o cativeiro babilônico e,
principalmente, seguramente o maior hiato, após a expulsão empreendida pelos
romanos no ano 70.
Durante a diáspora, período em que os hebreus (na realidade os judeus e os
benjamitas, visto que os israelitas do Norte desapareceram durante a dominação
assíria) se dispersaram pelo mundo, surgiram duas grandes vertentes judaicas, os
askhenazitas, que fixaram na Europa Central e os sefaraditas, situados no norte
da África e Península Ibérica. Além dessas regiões, outros grupos judaicos se es-
tabeleceram em outras regiões do mundo, como os falashas, judeus africanos, ou
mesmo na Península Arábica.
Os judeus obtiveram direito de retornar à Terra Santa em 1947, com a funda-
ção do Estado de Israel pela Organização das Nações Unidas (ONU). O nascimento
de um país eminentemente judaico foi a forma encontrada de suprimir as perse-
guições antissemitas que se avolumavam na Europa desde tempos imemoriais e
que alcançou seu auge com a política nazista, vitimando cerca de 6 milhões de is-
raelitas na Europa central e no leste europeu.
Antes da fundação do Estado e ao longo de quase 1900 anos em que estiveram
dispersos, alguns judeus retornaram à Terra Santa, no entanto, outros - a maioria
- não eram encorajados à tal empreitada, pois já estavam acostumados à vida no
exílio. Muitos acreditavam que a volta à Terra era uma tarefa que seria empreendi-
da nos dias do Messias, que viria e salvaria o povo de Deus, reconstruiria o Templo
Sagrado e restauraria a dinastia davídica.
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Neste ínterim, principalmente no século VII, os árabes muçulmanos ocupa-


ram a Palestina e fizeram de Jerusalém a terceira cidade mais importante do Islã.
Sucessivos califados, unidades de liderança política se estabeleceram na região.
Desde o califado Rashidun até o Otomano, que chegou ao fim em 1920, a popu-
lação na palestina era majoritariamente muçulmana. Mesmo entre 1920 e 1948,
durante o Mandato Britânico da Palestina, a população era árabe.
Em 1947 a ONU recomendou a implementação do plano de partilha da Palestina,
que ocorreu em 14 de maio de 1948. A ação criou dois estados nacionais; Israel,
ocupado por judeus, e o Palestino, por árabes, em sua grande maioria muçulma-
nos. O Estado de Israel ocupou 53% da região, com cerca de 700 mil habitantes,
dos quais a maioria imigrava de países do leste europeu, e o Estado Palestino
ocupou 47% da região, com mais de 1 milhão de habitantes.
A população palestina não aceitou a partilha como foi proposta. Alguns pontos
nos permitem compreender os motivos, como o fato de seus ancestrais habitarem
a terra a mais de mil anos e de ter ficado com a parte menor e menos favorecida
da região após 1948.
Desde então, vários conflitos envolvendo israelenses e palestinos ocorreram.
Hoje, após vários conflitos, a Palestina tornou-se território integralmente judaico
e os árabes que lá habitam devem respeito às leis e normas do Estado judeu.
Longe de validar o terrorismo na região e a maneira como diversos grupos,
tanto do lado palestino quanto judaico, agiram ao longo destes anos é importante
esclarecer que não se trata de um conflito religioso, como muitos atribuem, mas
de uma conjunção de fatores de ordem territorial.
Pensamos que dificilmente a crise envolvendo israelenses e palestinos será
resolvida sem que a questão da terra seja realmente levada em consideração, par-
tilhando equanimemente a região.