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Guilherme Giotti Sichelero – 23 de julho de 2021

Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito


Muhammad Ali e a tentativa de
industrialização do Egito
Guilherme Giotti Sichelero1
O modo de produção capitalista, assim como conhecemos,
surgiu na Europa entre os séculos XIV-XVI, vivendo um
amplo período de maturação, entre os séculos XIV-XVIII,
sob o domínio do capital comercial e convivendo com o
feudalismo e formas pré-capitalistas, até o advento da
indústria e o seu apogeu durante o século XIX, a era do
capitalismo industrial e livre-cambista. Durante esse
período, de maturação e apogeu do capitalismo (XVI-XIX),
ocorreram somente dois casos de industrialização fora da
Europa, um vitorioso e outro fracassado2. A Revolução Meiji
de 1868, no Japão, que levaria o país asiático ao
desenvolvimento industrial-capitalista e, mais tarde, ao
pequeno círculo de potências imperialistas, e o Egito da
primeira metade do século XIX, “a primeira tentativa de
uma sociedade atrasada não ocidental de construir uma
economia industrial moderna, por decreto e de cima”
(LANDES, 1995, p. 499).
O economista egípcio Samir Amin (2010, p. 221-228) dividiu
a história da luta de classes e do desenvolvimento econômico
do Egito Moderno em quatro períodos principais: a) uma
primeira onda ascendente (1803-1882), que representou
uma tentativa de desenvolvimento capitalista no Egito que
acabou sendo frustrada, a partir de meados da década,

1Formado em Licenciatura em História pela Universidade Federal do Rio Grande


do Sul (UFRGS). Contato: guilhermesichelero@gmail.com.
2 Nesse trabalho, sigo a linha de interpretação sobre o capitalismo – baseado na

tradição marxista, mais especificadamente de V. Lenin e L. Trotsky – segundo o


qual, a grosso modo, o capitalismo passou por três etapas principais: a) a era do
capitalismo comercial e da transição do feudalismo ao capitalismo, séculos XIV-
XVIII; b) a era do capitalismo industrial ou livre-cambista, apogeu do
capitalismo, século XIX; c) a era do capitalismo monopolista ou do imperialismo,
período de decadência do capitalismo, séculos XX-XXI.
1|Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do
Egito
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devido a ação inglesa e as limitações da economia egípcia; b)
um período de refluxo (1882-1919), em que o Egito viveu sob
protetorado britânico e passou por um processo de
espoliação econômica e financeira, subordinando-se, no
mercado internacional, como economia exportadora; c) uma
segunda tentativa egípcia (1919-1967) em que,
aproveitando-se das debilidades e das crises entre as
potências imperialistas, sob as bandeiras da “democracia,
independência nacional, progresso social” (AMIN, 2010, p.
223), um movimento de massas de caráter nacionalista-
popular acabou se cristalizando na revolução egípcia de
1952-54 e nos governos do general Gamal Abdel Nasser; d)
período de longo refluxo (1967-2010), de enquadramento
geopolítico do Egito com as potências imperialistas, que se
manifestou no fim do “pacto nasserista” e na adoção do
neoliberalismo.
Na passagem do século XVIII para o XIX, o Egito
encontrava-se a cerca de três séculos como vassalo de um
decadente Império Turco-Otomano. Durante o século XVIII,
o Egito estava sob o domínio dos mamluks (mamelucos) que,
através de tributos, explorava as massas de felás, os
camponeses que sustentavam o Egito desde os tempos
faraônicos, contudo na passagem do século dois
acontecimentos tirariam o Egito de seu longo marasmo. Em
1798, as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram o país
buscando sobretudo controlar o comércio do oriente que
unia a Inglaterra com o seu império na Índia, mas também
buscava estabelecer um Império francês na região através de
alianças regionais, sobretudo com os turcos. Também havia
um interesse científico-cultural por parte de Napoleão, o que
se atesta pela “invasão” de cientistas franceses que
acompanharam as tropas. A vitória francesa havia
demonstrado o atraso militar dos mamelucos perante os
europeus. A resistência popular (devido ao secular aumento
de impostos), as doenças e pestes desconhecidas pelos
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franceses, a intenção de Napoleão de não entrar em conflito
com o Sultão turco e o cerco inglês levou a experiência
francesa a ser derrota ainda em 1801 (WOLF, 1982;
COGGIOLA, 2016).
Em 1803, Muhammad Ali (Mohammad Ali, Mohamat Ali ou
ainda Mehemet Ali) – um aristocrata albanês que havia feito
sucesso em sua região com o comércio de fumo, como líder
militar e que havia ajudado a derrotar os franceses – liderou
suas tropas contra a retomada dos mamelucos, de modo que
conquistou o controle do Egito e um vice-reinado sob
suserania otomana. Fazia parte da política provincial
otomana mudar seus vice-reis de região com o objetivo de
que não estabelecessem raízes, contra isso Muhammad Ali
iniciou uma guerra contra os turcos e passou a transformar a
economia e o estado egípcio em sua propriedade particular
(LANDES, 1995; WOLF, 1982; COGGIOLA, 2016). O que
diferencia Muhammad Ali de outros “déspotas orientais” da
época, é que o governante egípcio buscou se adequar às novas
condições que vinham da Europa, isto é, nesse sentido
buscou o desenvolvimento econômico capitalista e
“ocidentalizar” o Egito. Como afirmou Wolf (1982),
“O Egito foi uma das primeiras regiões do
Império Otomano a estabelecer laços
comerciais com o Ocidente e, ao fazê-lo,
tornou-se o primeiro exemplo de uma nação
não-européia a tentar 'acerta o passo' com
a industrialização e a comercialização da
Europa” (WOLF, 1982, p. 345)
Muhammad Ali estabeleceu no Egito um modelo de
desenvolvimento capitalista autônomo que buscava a
modernização do país num sentido amplo3. Esse emergir do

3 “Muhammad Ali concebeu o desenvolvimento como um processo global,


abrangendo avanços na agricultura e na indústria, novas tecnologias,
inovações na educação (o que um economista chamaria de treinamento de
3|Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do
Egito
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Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito
Egito, para utilizar a expressão de Amin (2010), se baseava
no estabelecimento da cultura do algodão, em detrimento da
produção camponesa para subsistência, e de sua exportação
para a indústria têxtil europeia, sobretudo inglesa. Os lucros
e dividendos advindos da exportação do algodão e demais
matérias-primas e alimentos, por sua vez, seriam utilizados
no investimento manufatureiro-industrial, no
desenvolvimento da infraestrutura e no poderio militar.
Tudo isso promovido pelo estado que possuía o monopólio
de várias industrias, terras e serviços, assim como do
comércio exterior – o que incomodava muito a burguesia
livre-cambista europeia (WOLF, 1982; LANDES, 1995;
HOBSBAWM, 1962; COGGIOLA, 2016).
A primeira mudança substancial do governante egípcio foi
diminuir drasticamente com a produção camponesa para
subsistência, isto é, com os resquícios do modo de produção
asiático-tributário. A partir de então buscou-se instalar no
Egito a produção agrária para exportação, principalmente a
exportação do algodão. Essa nova cultura de exportação foi
feita através do estabelecimento da grande propriedade que
foi distribuída entre o governante e os membros importantes
da burocracia (WOLF, 1982; COGGIOLA, 2016). Entre 1818
e 1844, os camponeses que anteriormente possuíam cerca de
90% da área produtiva, passaram a ter somente 56% durante
esse período (WOLF, 1982, p. 346). Em contrapartida, os
camponeses serviriam como força de trabalho para essa nova
produção através de todo tipo de formas de exploração pré-
capitalista, sobretudo a já amplamente difundida corveia.
O estabelecimento do tripé latifúndio, monocultura de
exportação e mão-de-obra forçada acarretaria graves
problemas ao Egito, visto que reforçava, a longo prazo, seu
papel subalterno na divisão internacional do trabalho, como

capital humano), mas também, infelizmente, programas de rearmamento e


inculcação de virtudes militares” (LANDES, 1995, p. 497).
4|Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do
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mero país de exportação de matérias-primas e alimentos. Se,
de um lado, significou um avanço em relação às formas
asiáticas-tributárias de produção agrária, por outro lado, não
estava em consonância com o desenvolvimento capitalista e
industrial, visto que mantinha formas pré-capitalistas de
produção e a grande propriedade que, num contexto de
desenvolvimento capitalista, não significava outra coisa do
que barrar a criação de um mercado interno e de uma
produção agrária mais diversificada. O atraso era superado
pelo atraso!
Os capitais advindos da exportação do algodão e outras
matérias-primas eram investidos em infraestrutura, nas
forças militares e na nascente indústria – aqui reside o
caráter progressista e essencial do governo de Muhammad
Ali. O governante egípcio, buscando a “ocidentalização”,
importou engenheiros e técnicos europeus, com grande
destaque para os saint-simonianos que por simpatia a causa
egípcia, ajudaram muito no desenvolvimento da
infraestrutura do país. Louis-Alexis Jumel, fabricante
francês de algodão, ajudou no desenvolvimento de um novo
tipo de algodão, que hoje leva seu nome, que tinha a fibra
longa, era mais resistente e qualificado para a produção
industrial de tecidos mais refinados (LANDES, 1995).
Ferdinand de Lesseps, diplomata e construtor francês,
ajudou na construção do Canal de Suez – principal herança
econômica do Egito –, embora o canal tenha contribuído,
mais tarde, para a decadência do país4. Além disso,

4 A construção do Canal de Suez, realizado através de empréstimos externos,


embora tenha contribuído para o desenvolvimento da infraestrutura do país, a
longo prazo acabou ajudando no processo de endividamento e perda da
autonomia. Segundo Rosa Luxemburgo (1913), “As operações do capital francês,
que executou tanto a obra do Nilo, com sua inutilidade, como o canal de Suez,
foram talvez os modelos mais peculiares da acumulação de capital europeu à
custa de populações primitivas. Em nome das vantagens do canal, que o
comércio europeu-asiático faria passar diante do nariz do Egito, o país se
obrigou, em primeiro lugar, a fornecer o trabalho gratuito de 20.000
camponeses durante anos; em segundo lugar, a subscrever 70 milhões de
5|Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do
Egito
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Muhammad Ali promoveu uma ampla reforma das redes e
canais de irrigação, necessário na região para o aumento da
produção agrária, e a instituição de escolas de ensino técnico,
para a formação de engenheiros e mão-de-obra qualificada,
além de enviar estudantes para a Europa (WOLF, 1982;
COGGIOLA, 2016; HOBSBAWM, 1962; LINHARES, 1982).
Na esfera militar, Muhammad Ali buscou desenvolver um
exército que tivesse como base não mais os pouco confiáveis
mercenários albaneses, mas sim os camponeses egípcios
(WOLF, 1982). Buscou, nesse sentido, a formação de uma
força armada moderna, de tipo ocidental, auxiliado pela
produção interna ou importação de armamentos, escolas
técnicas militares e a imitação de métodos europeus. A
expansão egípcia durou pelo menos até o final dos anos 1830,
nesse tempo ocorreram várias vitórias militares, como a
conquista do Sudão e da Síria e a pacificação dos wahabistas
na península arábica, assim como o e o cerco de Istambul e
as vitórias sobre o Império Otomano. Há quem argumente
que o processo de modernização egípcia não tenha servido
para outra coisa senão para auxiliar o desenvolvimento
militar e a expansão egípcia (HOBSBAWM, 1962; LANDES,
1995; LINHARES, 1982).
A produção industrial do Egito se baseava, sobretudo, na
indústria de bens de consumo não-duráveis, como a
indústria têxtil e de açúcar que ocupavam o papel dominante.
Em volta de 1838, o Egito havia investido “a considerável
quantia de 12 milhões de libras na indústria, que
empregava talvez 30 ou 40 mil trabalhadores”
(HOBSBAWM, 1962, p. 185). O maquinário, alguns muito
deteriorados, eram importados ou contrabandeados
sobretudo da Inglaterra, embora predominasse em algumas
marcos em ações da Companhia, que equivaliam a 40% do capital total. Esses
70 milhões foram a base da enorme dívida pública do Egito. Dívida que, vinte
anos mais tarde, teve por consequência a ocupação militar do Egito pela
Inglaterra” (LUXEMBURGO, 1913, p. 377).
6|Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do
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Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito
indústrias de caráter familiar a utilização de força animal,
com os bois puxando os fusos de algodão. Ao lado da força de
trabalho assalariada, convivia-se com uma mão-de-obra
escrava5, nos primeiros momentos, e, mais tarde, com
camponeses forçados a trabalhar através da corveia. Esse
tipo de composição da força de trabalho gerou formas de
resistência atrasadas, como o suicídio, a automutilação e a
destruição de fábricas, numa espécie de “ludismo pré-
capitalista” (LANDES, 1995; COGGIOLA, 2016).
Até o final dos anos 1830 o governo egípcio colocou em
prática uma política protecionista que impedia produtos
indústrias britânicos de invadirem o mercado nacional –
através de taxas alfandegárias –, ao mesmo tempo que
favorecia a exportação algodoeira e das demais matérias-
primas, assim como dos seus produtos manufatureiros. O
papel do monopólio estatal do comércio era imprescindível,
na medida que comprava o algodão e demais commodities
das fazendas por preços artificialmente baixos e revendiam
no mercado internacional por preços mais altos, assim como
realizava a mesma operação com produtos importados de
outros locais, vendendo mais caro do que o preço de compra,
além de impedir que comerciantes estrangeiros atuassem no
mercado interno 6 (LANDES, 1995; LUXEMBURGO, 1913).
Portanto, a busca pela industrialização ocorria através da
utilização dos recursos internos e da superexploração dos
5 Os escravos acabaram por serem substituídos, no decorrer do processo, devido
à alta mortalidade, como consequência das péssimas condições de trabalho
(LANDES, 1995).
6
“Mehemet Ali, o criador do Egito moderno, empregava nesse sentido, até 1830,
um método de simplicidade patriarcal: comprava dos felás, cada ano, por conta
do Estado, toda a colheita, para vender-lhes depois, mais caro, o mínimo de que
necessitavam para sua subsistência e para a sementeira. Ao mesmo tempo
trazia algodão da índia, cana-de-açúcar, anil e pimenta da América, e
determinava oficialmente ao felá a quantidade que tinha que plantar de cada
um desses produtos; algodão e anil eram declarados monopólio do Governo e
só podiam ser vendidos a ele; só ele, também, podia revendê-los. com esses
métodos, introduziu-se no Egito o comércio de mercadorias” (LUXEMBURGO,
1913, p. 376).
7|Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do
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felás e dos trabalhadores, sem a necessidade de empréstimos
estrangeiros, contudo isso começaria a mudar a partir da
década de 1840.
Após conquistar a Síria e o Sudão, pacificar a Arábia e se
indispor com o Império Otomano, Muhammad Ali buscava
fazer do Egito uma potência militar-industrial da região,
contudo os países europeus preferiam um decadente Império
Turco a um emergente Egito, que mesmo que não lhes
representassem nenhum grande perigo a curto prazo, era
desobediente em relação à sua posição no mercado
internacional, na medida que não tolerava que os europeus
controlassem a sua economia! Diante da derrota militar
frente aos europeus em 1839-1840, o Egito foi obrigado a
ceder suas conquistas militares, reduzir seus exércitos e a
abrir seu comércio aos mercadores estrangeiros, assim como
a adotar uma política de laissez-faire, em troca de um vice-
reinado hereditário e autônomo sob suserania otomana
(TOUSSAINT, 2016; COGGIOLA, 2016; HOBSBAWM,
1962). A partir de então, a economia egípcia começaria a ser
estrangulada pelo “mercado” através dos empréstimos
estrangeiros e da dívida pública, a forma por excelência da
dominação colonial indireta7.
A imposição do livre-comércio trouxe ao Egito a
possibilidade dos empréstimos estrangeiros, que somente
reforçaram a sua posição subalterna na divisão internacional
do trabalho através do endividamento. Inicialmente, esse
“modelo de desenvolvimento” parecia dar certo na medida
que, com o auxílio de capitais externos, foi construído o
Canal de Suez, entre 1859 e 1869, assim como outros
empreendimentos, e, devido à guerra civil nos Estados
Unidos, os preços do algodão aumentaram drasticamente,

7“No caso do Egito e da Tunísia, a dívida constituiu a arma mais poderosa das
potências europeias para assegurar o seu domínio e conduzir à submissão total
de Estados até então independentes” (TOUSSAINT, 2016, s/p).
8|Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do
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visto que os estados do sul, grandes produtores de algodão,
saíram do mercado. Com o algodão representando cerca de
70% da renda do país, o resultado foi buscar por mais
empréstimos por parte dos descendentes de Muhammad Ali,
que havia falecido em 1848. Contudo, quando as boas
condições no mercado internacional acabaram, as divisas
acumuladas pelo Egito permitiram-lhe contrair ainda novos
empréstimos, com taxas de juros altíssimas. A normalização
do preço do algodão e o fim de qualquer tentativa de
industrialização deixaram o Egito totalmente nas mãos dos
bancos e dos credores europeus (TOUSSAINT, 2016;
COGGIOLA, 2016; LUXEMBURGO, 1913).
Na década de 1870 o Egito já era um estado endividado8. Em
menos de 15 anos, entre 1863-1876, a dívida havia
aumentado de 3 milhões para 68 milhões de libras esterlinas,
com dois terços dos rendimentos do estado sendo destinados
ao pagamento da dívida pública. Novos empréstimos eram
feitos para pagar os antigos empréstimos e os seus juros.
Nesse contexto, a privatização do Canal de Suez e demais
propriedades estatais, a transformação da economia egípcia
numa praça especulativa para os bancos europeus9, aumento

8 Rosa Luxemburgo (1913) é sintomática ao afirmar como, nesse período,


sobretudo através da dívida pública, o Egito, em outras palavras, a
superexploração dos camponeses egípcios, auxiliou no processo de acumulação
de capitais europeus. Como afirmou o historiador equatoriano Agustín Cueva, em
seu clássico El dessarollo del capitalismo en America Latina, a acumulação
(primitiva ou não) de capitais europeus é, ao mesmo tempo, o processo de
desacumulação primitiva de capitais nos países subalternos.
9 “Pressionado pelos credores, o soberano Ismail Pacha, khédive do Egito,

começou a partir da década de 1870 a vender as infraestruturas e a conceder


diversas concessões, a fim de obter a liquidez necessária ao pagamento da
dívida. Pela mesma razão teve de aumentar os impostos repetidas vezes. Após
uma quinzena de anos de endividamento externo (1862-1875), a soberania
egípcia estava alienada. [...] Em 1875, apertado pelos credores, o Estado egípcio
cede ao governo do Reino Unido a sua participação na Companhia do Canal do
Suez, que tinha sido inaugurado em 1869. O produto da venda das 176.602
acções Suez detidas pelo Egito – ou seja, cerca de metade do capital da
companhia – ao governo britânico em finais de novembro de 1875 destinou-se
em grande parte a cumprir os prazos de pagamento da dívida em dezembro de
9|Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do
Egito
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Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito
dos impostos e o desmoronamento da economia camponesa,
gerou um clima de acirramento da luta de classes e
descontentamento geral. A inadimplência da dívida e,
sobretudo, a revolta nacionalista de 1881-1882, contra os
europeus e o governo, levaram os ingleses a transformar o
Egito em seu protetorado, em 1882 (TOUSSAINT, 2016;
WOLF, 1982; HOBSBAWM, 1975; LUXEMBURGO, 1913).
Como afirmou Hobsbawm (1975),
“O Egito estava, portanto, integrado na
economia européia como um fornecedor de
produtos agrários. Os banqueiros, através
dos pashas, extorquiam o povo egípcio, e
quando o Khedive10 e seus pashas não mais
podiam pagar os juros dos empréstimos que
haviam aceitado com tanto entusiasmo – em
1876 eles totalizavam quase metade da
receita para aquele ano –, os estrangeiros
impuseram controle. Os europeus teriam
talvez ficado contentes apenas em explorar
um Egito independente, mas o colapso do
boom econômico, assim com o da estrutura
política e administrativa do governo do
Khedive – minado pelas forças econômicas e
tentações que os dirigentes egípcios não
entendiam nem conseguiam manejar –
tornava esta independência difícil. Os
ingleses, cuja posição era mais forte e cujos
interesses estavam envolvidos de forma
muito mais crucial, emergiram como os
novos dirigentes do país na década de 1880.”
(HOBSAWM, 1975, p. 133).

1875 e janeiro de 1876, que eram particularmente pesados” (TOUSSAINT, 2016,


s/p)
10 Título dos governadores do Egito autônomo, e posteriormente dos reis do Egito

independente da dinastia de Muhammad Ali (1805-1952).


10 | M u h a m m a d A l i e a t e n t a t i v a d e i n d u s t r i a l i z a ç ã o d o
Egito
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Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito
Há um amplo debate sobre os motivos do fracasso da
tentativa de industrialização do Egito durante o governo de
Muhammad Ali. Os historiadores se dividem entre aqueles
que acreditam numa conspiração europeia, sobretudo
inglesa, e naquelas que enfatizam o caráter atrasado da
economia egípcia e sua total incapacidade de se
industrializar11 (LANDES, 1995). Esse trabalho buscou
enfatizar, a todo momento, o profundo atraso da economia
egípcia durante o período em questão. É evidente que formas
pré-capitalistas subsistiam em todos os setores da economia,
além disso haviam alguns limites à industrialização do país
como a falta de recursos naturais (como carvão e madeira), o
raquitismo do mercado interno, a inexistência de uma
burguesia independente e forte, a falta de mão-de-obra
qualificada, o maquinário precário, etc. – em suma, a
ausência de um processo de acumulação primitiva de
capitais12. Contudo, não há como negar a atuação europeia,
principalmente anglo-francesa, contra a autonomia e
desenvolvimento do Egito. De qualquer modo, como um
Egito industrializado iria ao encontro dos interesses do
capitalismo europeu?! Como afirmou Amin (2010),
“A análise do seu fracasso [da tentativa de
industrialização egípcia] não pode ignorar
a violência da agressão externa da maior
potência do capitalismo industrial central

11 Landes (1995) divide esses autores entre “otimistas” – majoritariamente


estudiosos progressistas, nacionalistas e anti-imperialistas, que buscam
interpretar o papel do emergente imperialismo no fim do projeto egípcio; e os
“pessimistas”, ao qual ele se encontra, que buscam enfatizar a incapacidade e a
fraqueza da economia egípcia para promover a industrialização.
12 Analisando as limitações internas da industrialização egípcia, afirmou Coggiola

(2016): “A epopeia de Mehmet Ali demonstrou a força, e também as limitações


históricas, da nascente nação egípcia, de seu Estado e de sua nova classe
economicamente dominante, uma proto burguesia baseada na exportação de
produtos primários e na exploração do campesinato, não numa
industrialização visando a consolidação do mercado interno” (COGGIOLA,
2016, p. 97).
11 | M u h a m m a d A l i e a t e n t a t i v a d e i n d u s t r i a l i z a ç ã o d o
Egito
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Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito
da época – a Grã-Bretanha. Duas vezes em
1840, depois nos anos 1870 (através da
tomada do controle das finanças do Egito
Kedival) e, por último, pela ocupação
militar (em 1882), a Inglaterra prosseguiu
com obstinação o seu objetivo: impedir a
emergência de um Egito moderno” (AMIN,
2010, p. 221-222)
Se o Egito iria tornar-se uma potência industrial, assim como
afirmou Hobsbawm (1975), é impossível de saber, contudo
negar a atuação do emergente imperialismo europeu é ser
omisso diante da história mundial dos últimos 200 anos.
Afinal de contas, parafraseando Bertold Brecht13, a cadela do
imperialismo está sempre no cio!
Porto Alegre. 23 de julho de 2021.
Referências Bibliográficas
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(DF), ano 10, n.20, jul./dez. 2010.
COGGIOLA, O. A Revolução Árabe e o Islã: entre Pan-
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HOBSBAWM, E. E Era do Capital 1848-1875. São Paulo:
Paz e Terra, 2015 [1975].

13Bertold Brecht (1898-1956), dramaturgo e socialista alemão, afirmou sobre o


fascismo: “A cadela do fascismo está sempre no cio”.
12 | M u h a m m a d A l i e a t e n t a t i v a d e i n d u s t r i a l i z a ç ã o d o
Egito
Guilherme Giotti Sichelero – 23 de julho de 2021
Muhammad Ali e a tentativa de industrialização do Egito
LANDES, D. La riqueza y la pobreza de las naciones:
Por qué algunas son tan ricas y otras tan pobres.
Versão EPUB LIBRE, 1998 [1995].
LINHARES, M. Y. Oriente Médio e o Mundo dos
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instrumento-de-conquista-colonial-do-egito/43856>.
WOLF, E. A Europa e os Povos sem História. São Paulo:
Editora da USP, 2005 [1982].

13 | M u h a m m a d A l i e a t e n t a t i v a d e i n d u s t r i a l i z a ç ã o d o
Egito