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INTRODIUÇÃO-PERCURSO PROFISSIONAL Simone tiveram enorme influência tanto pelas ideias radicalmente

inovadoras que apresentaram, quanto pelo fato de que viveram feministamente. Se a mensagem central era
a de que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, fizeram escolhas pessoais que demonstravam a
possibilidade de modos de vida que escapavam aos padrões tradicionais. Simone, em particular, publicou
muitas reflexões sobre sua vida, suas escolhas profissionais e suas relações pessoais. 
Companheira de Sartre, pode-se dizer que Simone inicialmente viveu um pouco à sua sombra, porque o
mundo intelectual francês reconhecia mais facilmente o brilho de uma inteligência num corpo masculino.
Gradativamente alcançou o reconhecimento de seus próprios méritos, e hoje há quem considere que seu
legado tenha sido maior que o dele. desde o início rompeu com os padrões tradicionais, afirmando com seus
atos e suas escolhas pessoais e profissionais, o direito inalienável de toda mulher de controlar sua própria
vida. E o fez de uma forma plenamente consciente. Nos múltiplos relatos e análises que publicou sobre sua
experiência, tanto na forma de memórias como de romances autobiográficos, esmiuçou em profundidade
tanto os prazeres como a complexidade dos desafios inevitáveis quando alguém decide lançar-se na aventura
da invenção de si mesma.
Beauvoir provocou e engajou o público em debates éticos e políticos que investigaram assuntos tipicamente
considerados fora do domínio do político. Por exemplo, ela investigou os motivos múltiplos (muitos pessoais)
para as ações dos colaboradores; ela trouxe o estupro cometido por soldados franceses contra o militante
argelino, Djamila Boupacha, à luz do público francês em 1960; e ela argumentou que o crime de Robert
Brasillach (um jornalista identificado nazista executado por traição em 1945) foi uma violação contra vítimas
judias corporais específicas, em vez de um crime contra o estado francês. 5  Na verdade, ela nãohesite muito
antes de escrever um livro sobre a mulher: de sua autobiografia fica claro que ela começou a trabalhar na
pesquisa de mitos da feminilidade ao descobrir que para escrever sobre si mesma, ela precisaria explorar a
questão de como ser mulher a afetava mais geralmente (1968: 103). Quer ela ache o assunto irritante ou
não, ela dedicou vários anos de sua vida a ele, e o que ela tem a dizer é realmente novo. Uma mulher amada
e odiada, idolatrada e criticada, mesmo entre as feministas, é o que o nome de Simone de Beauvoir
desperta, mesmo após 34 anos de sua morte. Era o início de sua pensata sobre o aprisionamento que
costumes como o casamento e a responsabilidade pelo lar causam às mulheres. Kirkpatrick narra também
como a educação religiosa que Beauvoir receb... recebeu quando criança a ensinou que meninos e meninas
são iguais aos olhos de Deus, uma faísca para depois considerar-se uma “alma” em nada inferior ao sexo
masculino.
Estudiosas como Nogueira (2001) e Louro (1997) evidenciam que Beauvoir foi uma das pioneiras do
movimento feminista. Bonnici (2007) complementa que o movimento feminista teve sua primeira onda no
século XIX, Simone de Beauvoir, filósofa francesa, feminista e existencialista, deixou sua grande contribuição
em 1949, sendo uma das maiores representantes desse movimento, considerada uma figura de transgressão
social. . Simone de Beauvoir era uma mulher singular e no século XX foi vista como uma ameaça, por fazer
parte de uma revolução feminista, a qual as mulheres pudessem ter voz na sociedade e na história.

A IMPORTANCIA DE BEAUVOIR. mais escritoras interessadas em compreender sua própria existência como
um caminho de construção de uma identidade plural, profundamente comprometida e engajada com as
lutas sociais e políticas de sua época, especialmente com a luta feminista.
a curiosidade que temos sobre a vida das pessoas que admiramos certamente contribuiu para tirar o
feminismo do planeta das utopias e trazê-lo para o terreno das ideias que apontam que um outro mundo é
possível, e demonstram esta possibilidade com a narração de uma vida dedicada à sua aplicação na pratica
cotidiana. Seu trabalho apresentou uma mulher que ousou desafiar os limites sociais prescritos, muito antes
do movimento das mulheres se unir na década de 1970. Beauvoir provocou e engajou o público em debates
éticos e políticos que investigaram assuntos tipicamente considerados fora do domínio do político.  Por
exemplo, ela investigou os motivos múltiplos (muitos pessoais) para as ações dos colaboradores; ela trouxe o
estupro cometido por soldados franceses contra o militante argelino, Djamila Boupacha, à luz do público
francês em 1960; e ela argumentou que o crime de Robert Brasillach (um jornalista identificado nazista
executado por traição em 1945) foi uma violação contra vítimas judias corporais específicas, em vez de um
crime contra o estado francês. Simone teve papel importante na legalização do aborto na França em 1974,
quando a ministra da Saúde, Simone Veil, mudou a legislação, o que facilitaria o acesso à contracepção e
tornava o aborto legal, por meio da Lei Veil (que levaria seu nome). Beauvoir também criou a Liga dos
Direitos das Mulheres, que tinha como objetivo criar uma legislação antissexista e foi por sua causa que a
palavra sexismo passou a figurar no dicionário francês. E defendeu fortemente o divórcio, objetando que ele
não poderia ser uma panaceia, mas que poderia libertar muitas mulheres para descobrirem suas próprias
possibilidades.
Em 1980, surgiu na França o primeiro ministério das mulheres. Beauvoir manteve-se próxima à primeira
ministra da mulher, Yvette Roudy. Simone esperava que o ambiente cultural mudasse e dizia que os homens
eram violentos pois isso estava enraizado em sociedades sexistas e que toleravam a discriminação. Ela dizia
que “não se nasce homem, torna-se homem”, no sentido de que o aprendizado do machismo e da misoginia
eram transmitidos socialmente.

A SIGNIFICANCIA DO SEGUNDO SEXO: Simone de Beauvoir recusa assumir um papel “naturalmente


predestinado” e de subalternidade da mulher, veiculado por uma sociedade patriarcal e de dominação
masculina, na qual a mulher é vista como um segundo sexo. 
Recentemente apresentado no The Times "Os Vinte Livros Acadêmicos que Mudaram o Mundo", O Segundo
Sexo   é um exemplo da obra literária de singularidade imperecível de Simone de Beauvoir.    Alice Schwarzer,
uma feminista contemporânea proeminente, conduziu uma entrevista íntima com de Beauvoir e
descreveu O segundo sexo  como "a bíblia do feminismo ... e a fonte mais vibrante de inspiração para o
movimento feminista". Ainda assim, pensando politicamente com Beauvoir, veremos que O segundo
sexo oferece uma teoria sofisticada e convincente de liberdade situada desafiando várias suposições
prevalentes no cânone mainstream. Seu trabalho sobre liberdade situada e os significados políticos da
corporificação nos levam a entender como a liberdade é sempre situada pelo contexto e pela realidade das
identidades sociais. Esse processo de transformar a mulher em corpo e o homem em mente é documentado
por Beauvoir no primeiro volume de O segundo sexo. Duas das práticas de escrita típicas de Beauvoir, ambos
um desafio à teoria política dominante, emergem nessas linhas de abertura. Primeiro, a voz subjetiva é
reivindicada como a voz da autoridade. Como ela lembra em sua autobiográfica Force of Circumstance :
“Querendo falar sobre mim mesma, percebi que, para isso, deveria primeiro descrever a condição da mulher
em geral”. (1968: 195) o livro que lhe rendeu tanto amor e ódio, considerado a bíblia feminista “O Segundo
Sexo”. Por causa dele, Simone foi chamada de “mãe” da segunda onda do feminismo. Sobre “O Segundo
Sexo” é necessário ressaltar as ressonâncias desse livro desde sua publicação, enfatizando que até hoje é
considerado como de grande importância para o feminismo. Ele fez parte da segunda onda feminista e foi
publicado em 1949, quando Simone tinha 41 anos. Na década de 1940, as mulheres haviam conquistado o
direito ao voto na França, mas ainda não podiam abrir contas bancárias em seus nomes, embora já
estivessem plenamente no mercado de trabalho. Mesmo assim, a palavra feminismo era associada ao
sufrágio e considerada dépassé tanto nos Estados Unidos quanto na França.
O título do livro remete à definição que Beauvoir aplica às mulheres dada pelos homens como Outro, por
serem relegadas ao status de uma casta diferente, sendo consideradas como o segundo sexo. Kirkpatrick
escreve: “Ao dizer que a mulher é o que o homem não é, Beauvoir se inspirou nas ideias de Hegel sobre o
‘Outro’. Como os seres humanos têm uma tendência profundamente arraigada a se opor ao que é o Outro
para eles, os homens se colocam como ‘sujeitos’ livres e definem as mulheres por contraste – como objetos.”
Pensar no feminismo e suas mudanças sociais nos remetem as contribuições desta filósofa francesa., e
Beauvoir (1949) e sua obra O segundo sexo contribuiu para esse acontecimento. Mas, a própria Beauvoir
continua silenciada ou pouco ouvida em muitas áreas institucionais. A obra O segundo sexo (1949) é um
marco para se pensar os impactos do feminismo na sociedade. Nos dias atuais a escritora Beauvoir apesar de
suas contribuições para o movimento feminista parece silenciada ou camuflada em alguns currículos. As
contribuições da obra O segundo sexo (1949) de Simone de Beauvoir para a educação são marcantes devido
a discussão acerca das diferenças pré-estabelecidas entre gênero masculino e feminino, para compreender a
identidade de homens e mulheres. Atualmente as mulheres ainda não conseguiram alcançar totalmente a
igualdade de direitos, existem mudanças em relação ao século XIX, inclusive no âmbito educacional, tais
como o direito ao voto, direito a assumir vagas políticas, no entanto, “nos dias atuais existe uma intenção
maior de fazer com que a “sociedade” acredite que as mulheres não precisam mais lutar por seus direitos ou
a intenção de fazer acreditar que não há mais necessidade de revolução, de mudanças” (NOGUEIRA, 2001).
Simone de Beauvoir apesar de ser um marco no movimento feminista é pouco referenciada no âmbito
educacional.
SEGUNDO SEXO INFLUENCIOU INTERNACIONALMENTE: Potente, O Segundo Sexo transcendeu à época de
seu lançamento. Inspirou e provocou inúmeros trabalhos posteriores de teóricas feministas, de Gayle Rubin
e Monique Wittig nos anos 1970 a Angela Davis nos anos 1980, Judith Butler nos anos 1990 – apenas para
citar alguns nomes – fomentando um rico campo de debate. Ademais,
o Segundo Sexo é considerado precursor do feminismo “da segunda onda”, protagonizado por grupos
organizados de mulheres, em diversas partes do mundo, a partir da década de 1960 ( Piscitelli, 2009: 133).
No Brasil, o livro foi muito importante para a formação das feministas, como afirma Heleieth Saffiotti:
Agora, o que me parece importante é a repercussão desse livro fora da sociedade francesa, em outros países
como o Brasil. Você vê a minha geração (...), todas passamos por esse livro, então ele foi um marco, sem
dúvida nenhuma, abriu muitas cabeças de quem o leu, ele foi muito importante. É um marco histórico,
continua sendo e esse reconhecimento, as reverências foram feitas ainda que se fizessem críticas – sempre
se faziam reverências porque ela continua sendo uma referência e também há que se atentar para sua
precocidade. Naquele momento, o livro foi fundamental e continuou sendo por muito tempo ( Saffioti, 2000: 35).
Setenta anos depois, O Segundo Sexo continua provocando reações tanto na França, seu berço original,
quanto mundo afora, como no Brasil. Se, por um lado, o trabalho da autora segue sendo fundamental para o
desenvolvimento dos estudos feministas e das reflexões acerca das identidades de gênero, estando também
presente como referência para manifestações e protestos de mulheres, por outro lado, Beauvoir é vista,
juntamente com Butler, como a matriz intelectual do que o campo conservador 2 convencionou chamar de
“ideologia de gênero”, sofrendo forte oposição às suas formulações.
A “ideologia de gênero”, como já apontaram Corrêa (2018) , Miskolci e Campana (2017) e Reis e Eggert (2017) , entre
outros, é um termo impulsionado a nível global a partir da reação da cúpula da Igreja Católica à Conferência
Mundial de Beijing sobre a Mulher, em 1995, quando a palavra “mulher” começou a ser substituída por
“gênero” ( Almeida, 2018: 35). Com o passar do tempo, esse discurso foi incorporado por outros setores cristãos e
ganhou capilaridade social em países como Polônia, Hungria, Estados Unidos, França, Colômbia, Peru,
Argentina e Brasil. Aqui, os enfrentamentos mais contundentes em relação a gênero ocorrem na esfera
institucional, tanto no Poder Legislativo quanto no Executivo ( Mano, 2019: 15). A tática mais frequentemente
adotada pelos grupos que se colocam antigênero tem sido a proposição e aprovação de projetos de leis 3 ,
pronunciamentos de parlamentares4 , ministras/os5 e até do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro,
que em sua posse declarou que iria combater a ideologia de gênero, assim como pressão da bancada
religiosa para barrar políticas de Estado específicas. 6
A leitura da obra de Simone de Beauvoir, ainda adolescente, irá marcar as suas posições ideológicas em
matéria de género e determinar a sua visão da realidade
as muitas maneiras pelas quais o Segundo Sexo de   de Beauvoir influenciou a cultura britânica. De Beauvoir
mudou a trajetória do feminismo britânico de um foco na reforma legal por mulheres da primeira onda, para
uma busca intelectual com uma visão social avançada e perspectiva teórica. [2] Um foco no pessoal,
intelectual e político por aqueles na segunda onda encorajou a crítica dos “sistemas culturais de
representação” e o impacto nas vidas das mulheres na esfera social e intelectual. [3] A historiadora feminista
Hilda L. Smith, enfatizando esta mudança direcional: “Cada fase do movimento das mulheres deu crédito às
ideias daqueles que os precederam, com as liberacionistas das mulheres reconhecendo a influência
do Segundo Sexo de Simone de Beauvoir  ”. [
Em 1953, Jonathan Cape publicou a tradução para o inglês de HM Parshey. Embora a influência do livro não
tenha sido totalmente sentida até a década de 1960, ele viu Simone de Beauvoir ganhar "renome
internacional como o expoente feroz da emancipação feminina" [5]   As percepções de Simone de Beauvoir
rapidamente se tornaram "moeda comum nos argumentos feministas britânicos". [6]  Sua doutrina
existencialista e crença de que “ninguém nasce, mas se torna mulher”, penetrou no movimento feminista
britânico. [7] Isso deu às mulheres a consciência de sua posição desigual em uma sociedade socialmente
construída e dominada pelos homens. [8] De Beauvoir expôs a descoberta "magistral e devastadora" de que o
"condicionamento social" transformava as mulheres em objeto de superioridade masculina. [9] De Beauvoir
desnudou a raiz da inferioridade das mulheres: evoluindo de um sistema de 'Outro' e confinamento para um
papel na sociedade. [10]  Isso avançou profundamente os fundamentos teóricos e a importância intelectual
do feminismo no Reino Unido
O Segundo Sexo   atraiu muitas feministas emergentes que encontraram uma linguagem para seu crescente
descontentamento e angústia. [11] Sob a influência de Beauvoir, essas mulheres desenvolveram perfis
distintos e catalisaram a progressão do pensamento intelectual por trás da escrita e do ativismo no
movimento feminista britânico.  na Grã-Bretanha, as idéias de Beauvoir sobre relações de poder e
patriarcado foram usadas pelo jornal feminista Spare Rib, ativistas e acadêmicos em universidades britânicas
a fim de promover a causa feminista. Duas gerações de intelectuais feministas foram influenciadas e tiveram
reações diferentes a suas teorias no contexto britânico. Jean McCrindle, ativista feminista e intelectual,
descreveu a divisão ideológica entre as mulheres que descobriram de Beauvoir desde sua publicação inicial
em 1953, e aquelas cujo envolvimento com o feminismo as apresentou a O segundo sexo . O primeiro
"enfatizou o alívio sentido por ter o problema nomeado", enquanto o último foi "crítico do retrato negativo
das dificuldades de ser mulher". [12] A influência de De Beauvoir foi intergeracional, interpessoal e
interconectadas no correntes do feminismo britânico e sociedade.
giravam em torno da ideologia de esferas separadas e dificilmente questionavam o status das mulheres. [1
orneceu a conexão vital entre as mulheres britânicas e o segundo sexo. De Beauvoir apareceu em quinze
edições da Spare Rib  de 1972-1984. 

O pensamento de Simone de Beauvoir teve destaque na academia britânica, por exemplo, dentro do Center
for Contemporary Cultural Studies (CCCS) da University of Birmingham. O CCCS teve um envolvimento crucial
com os desenvolvimentos intelectuais na academia e com a progressão e direção do pensamento em
círculos ativistas. Muitos dos membros desse centro se engajaram e interpretaram muitos dos argumentos
característicos de Beauvoir. Rebecca O'Rourke juntou-se ao CCCS como estudante de graduação em 1976 e
argumentou que “dentro da minha geração de feministas, Simone de Beauvoir era uma pensadora
influente”. [18] O'Rourke afirmou que as idéias de um modelo de gênero duplo "podem muito bem ter sido
desafiadas por aqueles que leram O segundo sexo ". [19]Maureen McNeil foi um membro proeminente do
CCCS nas décadas de 1970 e 1980 e foi fundamental para enfatizar a importância do feminismo no
departamento. McNeil usou o segundo sexo   como base para fazê-lo e argumentou que o segundo
sexo apresentou um “exame pioneiro dos papéis sexuais na sociedade ocidental”. [20] McNeil equiparou a
influência de Beauvoir a Virginia Woolf, que foi considerada a mais influente feminista, novelista e
modernista britânica do século XX. [21]  Assim, a disseminação da teoria sobre a exposição da subjugação
das mulheres iniciada por de Beauvoir cruzou as fronteiras nacionais e foi perpetuada por acadêmicos na
Grã-Bretanha.

CRITICAS A SIMONE BEAUVOIR: Entre os episódios, destaco um que considero prototípico e que será objeto
de análise neste artigo: a moção de repúdio que Simone de Beauvoir recebeu da Câmara Municipal de
Campinas em 2015. A filósofa, falecida em 1986, foi rechaçada pelo Poder Legislativo na cidade que abriga
este cadernos pagu , após O Segundo Sexo ser tema de questão do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem).
O caso expõe como se constituem as iniciativas contrárias a gênero, quais são as argumentações utilizadas
para sustentá-las e quem são seus atores. A partir dos pronunciamentos dos vereadores e de suas trajetórias
de vida, que serão apresentados abaixo, me questiono se estaríamos diante de um novo pânico moral,
distinto daquele que Beauvoir enfrentou quando lançou sua obra, ou se não há nada de novo
no front daqueles que se opõem aos direitos das mulheres e LGBTQIAs (Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Transexuais, Queer, Intersex e Assexuados).
A reputação intelectual de Simone de Beauvoir não deixava de ser criticada. Alguns jornalistas britânicos da
grande imprensa a viam como adjunta de Sartre e expressavam atitudes sexistas em relação ao sucesso de
seus escritos. Em dezembro de 1954, o Evening Express   declarou que uma 'mulher' havia ganhado o Prix
Goncourt porque era uma “discípula do escritor existencialista Jean-Paul Sartre”. [22] Em 1977, de Beauvoir
descreveu como as reações iniciais ao Segundo sexo   foram "muito hostis ... de todos". [23] De Beauvoir foi a
primeira mulher a politizar e intelectualizar a sexualidade feminina, colocando-se em um "terreno intelectual
não dominado por Sartre". 
Em 1967, Hélène Lazareff, jornalista e fundadora da revista Elle  , estava certa ao sugerir que “daqui a dez
anos ... Simone de Beauvoir ainda será influente”. [26] Quase vinte anos depois, em 1984, Adrienne Blue
elogiou de Beauvoir como a “recruta mais ilustre do movimento feminista.  Essas palavras poderosas
evidenciam o legado da influência de Beauvoir sobre o feminismo britânico. Sejam as respostas hostis ou de
adulação, “pelo próprio ato de se tornarem intelectuais, essas mulheres se tornaram as verdadeiras filhas de
Beauvoir”. [28]De 1950 a 1980, Simone de Beauvoir manteve a reputação de ser uma intelectual
extremamente influente e uma iniciadora de segunda onda na Grã-Bretanha. Acima de tudo, seu “trabalho
fundador do feminismo contemporâneo” influenciou o movimento feminista, acadêmicos e jornalistas na
Grã-Bretanha mais do que anteriormente. 
O livro foi traduzido para a língua inglesa e publicado em 1953. O tradutor da obra era um professor de
zoologia chamado H.M.Parshley, que afirmou que não era um livro feminista nem doutrinário. Os editores do
livro, Blanche e Alfred Knopf, achavam que a autora sofria de verborragia e então o tradutor disse que
cortaria e condensaria passagens do livro e excluiu 15% do que Beauvoir havia dito. Kirkipatrick afirma que
“ele também cortou seções e traduziu partes de uma maneira longe de ser inocente. A seção mais atingida
foi a da história das mulheres, de onde ele excluiu 78 nomes de mulheres e quase todas as referências a
formas socialistas de feminismo. Ele cortou referências à raiva e à opressão das mulheres, mas manteve as
relativas aos sentimentos dos homens. E cortou a análise de Beauvoir sobre o trabalho doméstico”, em que
ela mostrava a desigualdade das tarefas domésticas entre homens e mulheres. Beauvoir ficou insatisfeita
com a tradução, solicitou que ele explicasse a respeito, mas, na apresentação da obra, o tradutor não foi fiel
à sua solicitação. Uma nova tradução em inglês com as partes restauradas foi publicada somente em 2009 na
Grã-Bretanha e em 2010 nos Estados Unidos.
Apesar de “O Segundo Sexo” ter encorajado várias feministas nas décadas de 1960 e 70, muitas delas a
criticaram dizendo que “Simone era cega aos privilégios de sua classe, raça e educação”. Outras disseram que
ela “se equivocara ao universalizar as experiências das mulheres”. Também a criticaram por ter excluído as
mulheres negras e “que se apropriava do sofrimento delas como uma estratégia retórica no interesse do
feminismo branco”.
Apesar de se considerar feminista, foi a partir de 1972 que Beauvoir adotou publicamente esse rótulo e
passou a militar pelos direitos das mulheres. Nessa época, reconheceu que, em seus livros anteriores, havia
ignorado as questões de classe, mas ressaltava que essa luta não emanciparia as mulheres, pois “elas não
eram uma classe diferente, e sim uma casta diferente. As pessoas podem subir ou descer de classes, mas
quando alguém nasce em uma casta, fica nela. Uma mulher não pode se tornar um homem”. E arrematou
que as mulheres eram tratadas como uma casta inferior econômica, política e socialmente.
A primeira edição de O Segundo Sexo , publicada em 1949, perturbou a sociedade francesa. Simone de
Beauvoir recebeu milhares1 de cartas de mulheres agradecendo-a por desvelar sentimentos que antes elas
não conseguiam colocar em palavras, tais como a tristeza e a indignação diante da construção da diferença
entre homens e mulheres. “Eu fiquei transtornada ao constatar que você exprimia com lucidez tão
penetrante algumas coisas que eu mesma sentia, mas sem saber como traduzi-las” (Rouch, 2017:7), dizia
uma leitora.
Foi uma revelação bastante violenta. Primeiro, um despertar muito lento para a dignidade (...) Acredito
sinceramente que estes dois livros me devolveram a razão de viver e, especialmente, de não sofrer
eternamente (Rouch, 2017:8), afirmava outra.
A resposta conservadora também foi contundente. Quando os primeiros capítulos saíram na revista Les
Temps modernes , editada por Jean-Paul Sartre, o escritor François Mauriac declarou ao jornal Le Figaro que
o livro beirava os “limites do abjeto” e convidou a juventude cristã a reagir. Sua fala gerou um debate
público, através da imprensa, sobre a obra. Mesmo entre a esquerda, onde Simone de Beauvoir se localizava
politicamente, houve críticas. A filósofa Jeannette Colombel, por exemplo, que vinha de uma família de
lideranças comunistas, escreveu que
o inimigo não é o homem, mas o capitalismo. Declarar uma rivalidade entre homens e mulheres é se
esquivar do verdadeiro problema: a miséria da classe trabalhadora e a ameaça de guerra (Galster, 2004:12).
Como nos mostra Sylvie Chaperon,, com argumentos muitas vezes semelhantes, círculos de direita e
comunistas, que detêm uma moralidade tradicional, foram os mais agressivos em sua crítica ao livro.
De pedante a libertadora, sendo atacada ou defendida, Beauvoir recebeu todo tipo de qualificativos.
O escândalo causado pela obra é correspondente ao quão impactante é seu conteúdo.
O repúdio a Beauvoir demonstra o quanto seu pensamento, que se firmou no imaginário feminista como
símbolo e referência para a busca pela libertação das mulheres, continua potente. Justamente por isso, é tão
perigoso aos olhos conservadores. Quando Beauvoir escreveu e levantou questões sobre as desigualdades
entre os sexos, a França estava em pleno caos pós-guerra, por isso não havia espaços para tais indagações.
Segundo Motta, Sardenberg e Gomes (2000) “Do ponto de vista de não haver condições para se pensar a
mulher ou pensar as relações entre homens e mulheres” (MOTTA, SARDENGERG, GOMES, 2000, p. 16).
Algumas das críticas referenciadas na época a Simone de Beauvoir justamente apontavam essa questão em
que a filósofa se atentava a fatores não importantes ao momento histórico. O segundo sexo (1949), na
época, e anos depois, não foi traduzido para todos os países e as críticas em torno da obra eram inúmeras,
sua visão um tanto crítica e singular não podia ser bem aceita em uma sociedade patriarcal e androcêntrica
(tendo o homem como centro). Após 1970 outras estudiosas francesas, inglesas e norte - americanas do
movimento feminista atual deixaram Simone de Beauvoir mais apagada em suas 5 pesquisas, inclusive sua
obra marcante O segundo sexo (1949). Para esse movimento, às vezes era presente em temas introdutórios
ou referências de pesquisas, devido ao abandono do existencialismo para o estruturalismo na década de
1960 e também à rejeição da psicanálise lacaniana por Simone de Beauvoir. De acordo com Luisa Lobo
(2001) críticas diretas eram feitas a Simone de Beauvoir por essas estudiosas como, por exemplo, o de uma
feminista da nova geração, chamada: Toril moi: “Agora que Beauvoir morreu, finalmente o feminismo ficou
livre para caminhar para o século XXI” (SPIVAK, 1993, p.141 apud LOBO, 2001, p. 58). Moi discordava dessa
igualdade buscada por Simone de Beauvoir, afinal se as mulheres tivessem a intenção de serem iguais aos
homens, buscariam tornarem-se homens, neste sentido, em sua concepção a busca das mulheres da nova
geração é o reconhecimento de seus próprios valores. Nos dias atuais a escritora apesar de suas
contribuições para o movimento feminista parece silenciada ou camuflada em alguns currículos. às quais
deveria se submeter, com um obra que cumpria rigorosamente todas essas regras.
O caso de Beauvoir é exemplar de como, nesse embate, as ideias são muitas vezes secundárias. A resposta
do campo a O Segundo Sexo veio, em um primeiro momento, na forma de um ataque direto à autora. São já
conhecidas as atitudes de François Mauriac e Albert Camus ao livro. Beauvoir registra em A Força das Coisas
como Camus a acusou, em tom de piada, de desonrar “o macho francês”. Não foi o único macho a se
ressentir: Recebi epigramas, cartas, sátiras, molestações, exortações que me dirigiam, por exemplo
“membros muito ativos do primeiro sexo”. Insatisfeita, frígida, priápica, ninfomaníaca, lésbica, cem vezes
abortada, fui tudo, até mãe clandestina. Ofereciam curar-me a frigidez, saciar meus apetites de gula, me
prometiam revelações em termos grosseiros, mas em nome da verdade e da beleza, do bem, da santidade e
até da poesia, indignamente devastadas por mim... Também Mauriac. Escreveu a um dos colaboradores de
Les Temps Modernes: “Aprendi tudo sobre a vagina da vossa patroa” (Beauvoir, 2010:16). A reação de
Mauriac, um dos principais nomes da direita católica em meados do século XX, entretanto, pode ser
entendida como muito mais do que anedótica: agiu como um guardião do status quo do campo intelectual,
das ideias conservadoras e de forças e processos internos ao campo. Imediatamente, ele iniciou um backlash
contra Beauvoir, escrevendo contra ela artigos de ataque explícito à sua sexualidade, à sua personalidade e
ao existencialismo que ela representava. Evocando a lógica da cumplicidade entre os demais intelectuais do
campo, convocou-os a escreverem contra Beauvoir (Chaperon, 1999). Toril Moi (2008) afirma que a suposta
pretensão de Beauvoir a uma posição como mulher intelectual foi o maior problema. Mas, mais do que isso,
a reação parece ter sido provocada pelo fato de Beauvoir, a partir de sua posição marginal no campo, propor
ideias que o desestabilizavam.
O Segundo Sexo se tornou, assim, o estopim de disputas políticas que, para além da polêmica, colocaram a
autora em uma posição de alvo fácil de críticas. A convocação de Mauriac também foi um sinal de que o livro
deveria ser criticado, atacado fortemente, desqualificado. Em um momento em que o feminismo tinha
praticamente nenhuma influência no campo intelectual, as interpretações que esses intelectuais
apresentavam eram menos importantes do que a postura de ataque. Ao incomodarem um dos grupos mais
influentes do campo, o dos intelectuais homens conservadores e católicos, obra e autora tornaram-se
imediatamente alvos legitimados de críticas. E elas vieram em abundância na forma de ataques pessoais:
frígida, imoral, emotiva nas escolhas políticas, não maternal, dessexualizada, “ingênua e
epistemologicamente impostora”, “boa aluna, mas não intelectual”. A lista é longa e foi mapeada por Toril
Moi (2008).

CONCLUSÃO: Contudo, é Simone de Beauvoir que, pessoalmente, considero incomparável. Sua vida e sua
obra deixaram um legado atemporal que tem como referência o livro “O Segundo Sexo”, mas não apenas
ele. 
O Segundo Sexo é uma Bíblia do Feminismo, resultado de uma extensa pesquisa e produto da capacidade
ímpar de Simone de Beauvoir de articular um denso e diversificado conjunto de teses para produzir sua
própria tese, absolutamente original, e “elucidar a situação da mulher” (BEAUVOIR, 2016a, p. 24).
O pensamento filosófico feminista de Simone foi desenvolvido a partir de um profundo diálogo com o
existencialismo sartriano. Jean-Paul Sartre defendia a liberdade e a autenticidade de cada ser humano como
essenciais. Simone trata dessa mesma liberdade num contexto humano mais desafiador: o da condição
feminina.
É devido a sua abordagem crítica filosófica, como afirmam muitos estudiosos de sua obra que Simone é
considerada uma mulher à frente de seu tempo. E justamente por isso é que seria um erro pensar que suas
obras estão ultrapassadas. Ao contrário, quanto mais se lê Simone de Beauvoir maior é a certeza de que seus
escritos ainda são essenciais para refletirmos e repensarmos nossas ações.
O legado de Simone de Beauvoir tida como pioneira do feminismo (embora não gostasse desse rótulo)
influenciou de forma significativa os estudos e discussões sobre o movimento feminista, contudo penso que
o conjunto de sua obra não deve ser lembrado apenas pelo advento do feminismo, mas sim pela a sua
audácia em expor suas ideias e contraposições de maneira singular defendendo a liberdade de expressão,
bem como os ideais existencialistas em que acreditava e praticava. Segundo sexo (1967) apontando
possibilidades de independência para a mulher que seria a partir do trabalho em condições de igualdade, do
controle da natalidade, a possibilidade do prazer, o direito ao aborto, isonomia de direitos e igualdade
salarial. O fato de ser um ser humano é infinitamente mais importante do que todas as singularidades que
distinguem os seres humanos; não é nunca o dado que confere superioridades: a "virtude", como diziam os
antigos, define-se ao nível do "que depende de nós". Em ambos os sexos representa-se o mesmo drama da
carne e do espírito, da finalidade e da transcendência; ambos são corroídos pelo tempo, vigiados pela morte,
têm uma mesma necessidade essencial do outro; podem tirar de sua liberdade a mesma glória; se 11
soubessem apreciá-la não seriam mais tentados a disputar-se privilégios falazes; e a fraternidade poderia
então nascer entre ambos. (BEAUVOIR, 1967, p. 497). Para a autora, independe de ser homem ou mulher,
ambos devem buscar a fraternidade em suas diferenças. Hoje, sessenta anos depois da publicação do
Segundo sexo suas palavras ainda reverberam. Mulheres ainda lutam por princípios de igualdade de diretos.
Aliás, não apenas as mulheres são minorias, há uma intensa produção de subjetividades na
contemporaneidade.
A desnaturalização do gênero feita por Beauvoir foi ponto de partida para diversas pesquisadoras, incluindo
Butler. Apesar do caráter universal de opressão apresentado, os conceitos de situação, Outro, a criação de
destinos às mulheres parecem ser atuais. E, o mais importante: apesar de mostrar como a situação limita as
possibilidades das mulheres, Beauvoir aponta que é possível a transcendência, não como Sartre de O ser e o
nada que concebeu uma liberdade ontológica, mas mostra que a partir do ponto de vista das mulheres, ao
tentarem definirem-se como sujeitos, podem ultrapassar sua situação.
Em pleno século XXI as mulheres ainda continuam a ser vistas como um segundo sexo.
Continuam a estar sub-representadas em cargos de decisão ou cargos de chefia, tanto na política como nas
empresas. Continuam a ganhar em média menos 16,3% do que os homens.  E a violência contra as mulheres
continua a ser um fenómeno generalizado.
Vivemos no século XXI, por isso temos de assumir uma perspetiva do século XXI na construção de uma
sociedade desprovida de preconceitos e estereótipos.
Uma sociedade que rompa com o determinismo biológico em que o mais importante seja a liberdade e a
possibilidade de escolha. Em suma, uma sociedade “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a
liberdade seja a nossa própria substância.”
Hoje, a importância do feminismo contemporâneo é particularmente relevante em todo o mundo na
necessidade de abordar questões de disparidade salarial de gênero, assédio sexual no local de trabalho e
fora dela, discriminação racial e ataques ao direito de uma pessoa à liberdade sexual. Isso se torna claro no
nível mais básico, quando os políticos eleitos e líderes mundiais continuam a não abordar essas questões. De
Beauvoir não tem a mesma presença na cultura popular britânica e no feminismo contemporâneo como
antes. Embora as ativistas feministas e de direitos iguais possam não creditar diretamente de Beauvoir, ou
protestar com ela em mente, seu papel permanece inegável na motivação inicial do movimento feminista
internacional hoje. Um dos títulos mais simbólicos do movimento feminista – e que é, até hoje, porta de
entrada de muitas mulheres para conhecer mais sobre a s teorias –, foi recebido pela sociedade da época
com indignação e surpresa.
Também permite enxergar o machismo agressivo no fato de o seu nome ser sempre ligado ao de Sartre,
como se Beauvoir fosse uma segunda dele, uma discípula piorada. “Uma das coisas que me fascinaram e que
eu considero atemporal é a definição que ela faz do que é ser mulher: ‘É um ser humano em busca de valor
num mundo de valores’. É uma noção de que muitas mulheres lutam com a vida interna que possuem
porque ela não condiz com as expectativas da família e da sociedade”, acrescenta Kirkpatrick. Para ela,
algumas facetas do feminismo de Beauvoir continuam sendo radicais aos olhos de muitos. “ objetificação do
corpo feminino, que Beauvoir aponta como uma fonte de grande sofrimento para mulheres, ainda acontece
muito. Ela era contra pornografia, por exemplo, por acreditar que isso contribuía para a subjugação feminina.
Naquela época, essa ideia não era aceita e até hoje em dia não juntaria tantos apoiadores homens”, diz.
“Beauvoir escreveu que mudar a lei é muito diferente de mudar a cultura. Algumas legislações sofreram
alterações dramáticas, mas socialmente, em especial quando falamos de vida privada, a mulher ainda
enfrenta hostilidade ao expressar ambição ou demonstrar sua inteligência. Ela mesma teve que lidar com
isso. E algumas de suas reclamações são parecidas com as de amigas minhas hoje”, compara a escrit...
escritora, que, apesar disso, em nenhum momento descreve a perfilada como vítima. ensaio que analisa a
obra “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir, enfatizando a reflexão do conceito de patriarcado sobre o
problema da participação política formal das mulheres, e abordagem de alguns “fatos e mitos” que
contribuem para o jugo das mulheres. A obra foi construída em uma perspectiva fenomenológica existencial
de gênero, portanto ao mostrar a dinâmica das ações femininas focaliza o conceito de “experiência vivida”,
que contribui para compreensão e o “desalinhamento” da perspectiva do status quo. Tal perspectiva pode
ser articulada as redes do conceito de gênero enquanto pauta de estudos das relações sociais
hierarquizadas, conceito defendido por outra teórica, Joan Scott. Consideramos que a leitura sistemática de
“O Segundo Sexo” (1967) de Simone de Beauvoir1 , instigou a reflexão do conceito de patriarcado sobre o
problema da participação política formal das mulheres. Mas, no mesmo ritmo da escrita dessa autora que
aponta “fatos e mitos” subjugando as mulheres e, ao mesmo tempo, interroga estes pontos construidos num
processo de representação da tradição escrita (áreas de conhecimento, histórias etc), e mostra a dinâmica
das ações 1 Simone de Beauvoir (1908-1986) foi escritora, filósofa existencialista e feminista francesa. Era
parceira de Jean-Paul Sartre, também filósofo existencialista que com ela e Maurice MerlauPonty criou a
célebre Revue Les Temps Modernes. Para a teoria feminista “O Segundo Sexo” (1949) se torna um dos
bastiões da crítica à condição de opressão das mulheres.. “O Segundo Sexo”, Difusão Eusopéia do Livro, 2ª
Edição, 1970, volumes 1 e 2,, 1967. REVISTA DO NUFEN: phenomenology and interdiciplinary 8 femininas
dentro da “experiência vivida”, a provocação pautou não só a leitura do “desalinhamento” da perspectiva do
status quo, mas se fortaleceu nas redes do conceito de gênero enquanto pauta de estudos das relações
sociais hierarquizadas, conceito defendido por outra teórica, Joan Scott (1992)2 . Como é sabido, o livro
instituinte dos feminismos modernos foi escrito por uma filósofa que não se considerava feminista, mas uma
intelectual crítica da situação social da mulher de sua época. Se, mesmo já passados 70 anos, suas teses
persistem, pode-se bem imaginar o impacto da obra de Simone de Beauvoir nos idos. dos estudos tendo-se
aprofundado nas questões filosóficas levantadas em O Segundo Sexo e outras obras de Simone, o que
resultou no resgaste de sua originalidade como pensadora e na atualidade de seu conceito de “situação”.

LIBERDADE:Teorizando a liberdade situada das mulheres em seu papel de mães, Beauvoir ilumina como é
difícil para os oprimidos abraçar (ou mesmo desejar) sua liberdade. Sua teoria política exige que priorizemos
a igualdade de condições como o primeiro passo para aumentar a liberdade para todos. Em uma tentativa
desesperada de teorizar a partir de um espaço livre de desejos e realidades dos corpos, os pensadores
masculinos alinham as necessidades, paixões, desejos,e bagunça do corpo tudo com a figura de Mulher. Em
contraste, ela reconhece sua própria perspectiva de vida cotidiana, que é sua situação específica de mulher,
e promete julgar as instituições “do ponto de vista das oportunidades concretas que elas oferecem aos
indivíduos” (ibid.). Igualdade abstrata, como o direito de voto, muitas vezes falha em proporcionar liberdade
concreta às mulheres: Beauvoir julgará de acordo com como as mulheres realmente vivem suas vidas e o que
elas são capazes de fazer - se elas têm dinheiro, educação, liberdade reprodutiva, satisfação e um trabalho
desafiador, por exemplo - para determinar se a liberdade está disponível para ser abraçada. Acima, a
ambigüidade é codificada positivamente. Se pudéssemos afirmar essa tensão contínua, em vez de tentar
superá-la ou resolvê-la, poderíamos abandonar o desejo de subjugar e oprimir. Isso parece muito fácil, uma
resposta ingênua às razões da opressão e da violência, e muito difícil. 20Escrevendo essas dificuldades em
um registro universal, Beauvoir descreve a “ambigüidade trágica” da condição humana (1948: 7): nunca
somos totalmente livres, nunca estamos no controle, sempre em uma teia de relações e contingências,
sujeitos ao tempo, à natureza , e as ações de outros. Essas restrições “humanas” tornam-se ainda mais
desafiadoras quando a opressão de outros se torna uma forma de aqueles que estão no poder mascararem
suas limitações humanas. Podemos concluir que revelar e afirmar a ambiguidade em um mundo permeado
por marcadores sexuais, raciais e outros múltiplos marcadores de opressão é extremamente difícil. No
entanto, Beauvoir mantém a liberdade como o bem supremo, sempre ligada à liberdade dos outros. Como
os indivíduos são constituídos e muitas vezes oprimidos pela situação, a contingência desses significados e
relações,e como a situação constitui e possibilita a liberdade concreta de um indivíduo é o foco da próxima
seção. Para colocá-lo em seus termos mais simples, a liberdade situada descreve a ação auto-escolhida que
sempre está restrita. Essas restrições referem-se à história, às condições sociais, à ideologia, à existência de
outros e à teia de discurso que todos produzem e posicionam os sujeitos (pense novamente na linguagem de
Beauvoir sobre tornar-se mulheres) e suas experiências. Embora Beauvoir sempre baseie suas afirmações
teóricas medindo-as em comparação com as possibilidades encontradas em situações vividas
individualmente, ela argumenta que a transformação política só é alcançada pela ação coletiva, e os
indivíduos só podem ser livres no contexto da liberdade de todos. Comparando a coletividade da vida das
mulheres com a sua, Beauvoir não vê suas próprias realizações como justificadas por sua vontade ou talento
individual.
Em sua atenção aos detalhes e circunstâncias da existência vivida pelas mulheres e à liberdade situada, o
trabalho de Beauvoir em O segundo sexo estende sua visão filosófica inicial de que nenhum indivíduo pode
realizar a liberdade isoladamente, nem as ações de alguém são soberanas ou seus efeitos previsíveis.  28 O
melhor caminho para a ação política progressista, dado esse contexto trágico, é a principal preocupação de
Beauvoir ao longo da vida.
(outros links no outro doc)

FATOS E MITOS: Ao apontar a insuficiência das contribuições da biologia, da psicanálise e do materialismo


histórico para explicar a hierarquia social entre os sexos, a autora lança-se a uma revisão histórica,
etnográfica e dos mitos da humanidade para, diante das experiências de vida concreta das mulheres,
desvelar assim o sistema de produção e manutenção de sua dominação.
Em O segundo sexo. Fatos e mitos, Simone de Beauvoir se debruça na discussão dos mais variados tipos de
mitos e lendas, bem como de uma extensa rede de pesquisa acerca dos saberes científicos, tais como a
biologia, a psicanálise, a antropologia, a literatura etc. Avalia que no decorrer dos tempos e nas mais
diferentes culturas, a mulher sempre foi relegada à categoria de Outro, isto é, considerada sempre relativa
em relação ao sujeito essencial que é o homem. O homem é o ser ideal e absoluto – o padrão –, o exemplo,
enquanto a mulher é o ser relativo porque só é considerada, vista e reconhecida a partir do homem.
Podemos considerar esses mitos, a história e a própria situação da mulher na sociedade como os leões que
devoraram a Santa Blandina e com os quais a “personagem de si” lutou bravamente durante toda a sua vida,
tendo conseguido vencê-los, com as armas de seu ofício – a escrita. O segundo sexo – dependência e
submissão masculina ou social, resignação à precária condição em que se encontram as mulheres –
“destinadas” a 103 castidade e ao casamento – etc. Nas memórias Beauvoir mostra como conseguiu passar
por todas as provações que a odisseia da vida nos expõe, os perigos da existência em uma sociedade
conservadora, que seriam capazes de impedir a conquista de sua autonomia; a busca da singularidade
feminina conquistada por meio da prática da escrita. Mesmo diante das mais diversas e opressoras
condições impostas às mulheres, segundo Beauvoir, elas são sempre livres para se tornarem seres humanos
autênticos ou para se entregarem as facilidades concedidas ao seu sexo, ou seja, não ter que assumir a
preocupação relacionada à própria subsistência e viver na dependência de um marido. Deste modo,
encontramos na presente discussão tecida pela escritora, um dos preceitos fundamentais do existencialismo
– se o ser humano não tem essência, é vazio, é falta de ser e se caracteriza por esta particularidade – seu
nada de ser –, ele é, neste sentido, totalmente livre para se fazer (Sartre)88. Ou seja, para construir seu ser
que sempre deslizará em uma nadificação (negação). A nadificação impede a solidificação do ser no Para-si
(o ser da consciência), em uma identidade que fosse determinadora de suas ações. Assim, não importa a
força e o peso que a família, a educação, a sociedade, o passado e a religião, por exemplo, exerceram ou
exercem sobre nós. O que importa é a forma como nos relacionamos com todas estas coisas que nos foram
impostas. O que faremos ou produziremos com este conjunto que, de certo modo, é limitador de nossa
condição. Somos sempre livres para decidir o que fazer a partir de nossa condição. Somos sempre livres para
agir e criar no meio do mundo a nossa existência.

A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é
considerada um ser autônomo. [...] Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o "sexo"
para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é
absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a
fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro. (BEAUVOIR, 1970,
p. 10). Este é um trecho do livro O segundo sexo de Simone de Beauvoir, que tem sua primeira edição em
1949. Nessa passagem há um questionamento do lugar da mulher na sociedade e o estabelecimento dela
como outro neste lugar. Inicialmente, no texto, a filósofa francesa conta de sua hesitação em escrever um
livro sobre a mulher, que seria algo chato. Compreendia que o tema já havia sido intensamente debatido,
que sua escrita poderia ser enfadonha. Analisando nossa sociedade contemporânea e as diversas
compreensões e construções acerca do conceito mulher, passamos a entender o quanto os argumentos de
Beauvoir ainda a tornam necessária. O livro O segundo sexo é composto por dois volumes: o número 1,
intitulado fatos e mitos, e o número 2, com o título experiência vivida. Juntos formam uma das obras mais
importantes para o feminismo, que irá influenciar a crítica do movimento ao papel da mulher nas sociedades
ocidentais. Este estudo também traz indicações de quais caminhos de aprendizados são traçados pelas
mulheres na construção de um conceito mulher.
No volume fatos e mitos, a autora recai sobre a questão: o que é ser mulher? Como nos tornamos mulheres?
Como foi legado esse papel secundário a mulher na sociedade? O conceito mulher, para Beauvoir, foi
atrelado a uma condição de apêndice do homem em diversas construções sejam elas científicas ou morais.
Mulher passou a ser um termo atrelado ao outro, ou até mesmo a condição de fêmea, com uma relação
pejorativa e em detrimento a condição de macho. Como afirma no trecho, Embora os bens de raiz se achem
em parte abalados, a burguesia apega-se à velha moral que vê, na solidez da família, a garantia da
propriedade privada: exige a presença da mulher no lar tanto mais vigorosamente quanto sua emancipação
torna-se uma verdadeira ameaça; mesmo dentro da classe operária os homens tentaram frear essa
libertação, porque as mulheres são encaradas como perigosas concorrentes, habituadas que estavam a
trabalhar por salários mais baixos. A fim de provar a inferioridade da mulher, os antifeministas apelaram não
somente para a religião, a filosofia e a teologia, como no passado, mas ainda para a ciência: biologia,
psicologia experimental etc. Quando muito, consentia-se em conceder ao outro sexo "a igualdade dentro da
diferença". (BEAUVOIR, 1970, p.17) Destino é outro tema tratado pela filósofa em sua obra, em que são
questionadas as construções da biologia, psicanálise e da história acerca da mulher. Como foi feita, o que
Foucault mais tarde, chamaria de produção discursiva que legitimou que a mulher fosse colocada numa
condição inferior. Anteriormente, já tratamos dessa condição de destino fadário, como algo que deveria ser
naturalizado para a mulher por sua inferioridade. Beauvoir faz uma argumentação de como esse lugar
inferior para a mulher, na sociedade, foi construído pelas ciências de forma geral, em especial pela biologia.
Sendo assim, foi uma longa composição, de diversas camadas, para construir os atrelamentos e
enquadramentos que carregam o conceito mulher. A MULHER? É muito simples, dizem os amadores de
fórmulas simples: é uma matriz, um ovário; é uma fêmea, e esta palavra basta para defini-la. Na boca do
homem o epíteto "fêmea" soa como um insulto; no entanto, ele não se envergonha de sua animalidade,
sente-se, ao contrário, orgulhoso se dele dizem: "É um macho!" O termo "fêmea" é pejorativo, não porque
enraíze a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo. E se esse sexo parece ao homem
desprezível e inimigo, mesmo nos bichos inocentes, é evidentemente por causa da inquieta hostilidade que a
mulher suscita no homem; entretanto, ele quer encontrar na biologia uma justificação desse sentimento.
(BEAUVOIR, 1970, p. 25). 4 Nessa direção biológica há diversas construções que estão atreladas e são
questionadas por Beauvoir como: o termo fêmea, como algo pejorativo e inferior; outro elemento seria uma
repressão sexual feminina por ter vagina e não pênis, as mulheres sofreriam com sua genital desprovida de
algo; e ainda, a concepção de sexo feminino como frágil. Para estas questões a autora vai demonstrando
como foram construídas cientificamente e reinteradas por diversos autores da área. Na psicologia há uma
construção de mulher dependente emocionalmente, sentimental e propensa as influências hormonais. Há
neste ponto, de sua obra, um forte questionamento à psicanálise, de como os estudos sobre o feminino
relegou ao segundo plano à libido feminina em detrimento da libido masculina. Isso demandou a mulher
uma relação quando ao desejo de forma frustrada atrelada a uma concepção de complexo de castração. É
portanto, à luz de um contexto ontológico, econômico, social e psicológico que teremos de esclarecer os
dados da biologia. A sujeição da mulher à espécie, os limites de suas capacidades individuais são fatos de
extrema importância; o corpo da mulher é um dos elementos essenciais da situação que ela ocupa neste
mundo. Mas não é ele tampouco que basta para a definir. Ele só tem realidade vivida enquanto assumido
pela consciência através das ações e no seio de uma sociedade; a biologia não basta para fornecer uma
resposta à pergunta que nos preocupa: por que a mulher é o Outro? Trata-se de saber como a natureza foi
nela revista através da história; trata-se de saber o que a humanidade fez da fêmea humana. Junto às
construções biológicas e da psicanálise estão as do materialismo histórico, que construíram uma relação da
mulher com a capacidade para o trabalho. Para Simone, a humanidade é uma construção histórica, e o lugar
da mulher na sociedade tem influência desse processo. Uma condição que está atrelada é a questão do
trabalho, como durante a Segunda Guerra Mundial, em que foi feita forte propaganda para a mulher ocupar
os postos de trabalho que eram de homens, mas após o término da guerra os discursos de fragilidade voltam
às discussões, porque a mulher não poderia chegar à condição de igualdade com os homens. Como também
argumenta Rocha-Coutinho, Estes discursos contribuem para conformar a subjetividade feminina, fazendo
parte da cultura entendida como lugar de identificação e de criação de sentido e, como consequência, são
reproduzidos, por sua vez, pela própria mulher em seu papel de socializadora e mediadora, em sua função
de reprodutora dos valores e normas que sustentam esta forma de organização social baseada na divisão de
trabalho por sexo. Esta divisão, que tem raízes biológicas na reprodução da espécie, é, no entanto,
transportada para a cultura, onde se cristaliza em valores e instituições, deixando de ser natural 5 para se
transformar em um produto da cultura. Afinal, gênero é uma aquisição cultural. Ele é a forma social que
adquire cada sexo, o que se obtém através do processo de socialização que prepara os sujeitos para que
cumpram adequadamente seu papel, enfim, para que sejam o que se diz que são por natureza. Assim, ‘ser
mulher’ equivale a cumprir com o estereótipo de gênero, mais além das particularidades e potencialidades
individuais e de sexo. (ROCHA-COUTINHO, 1994, p. 40-41). São naturalizados elementos que legitimam esse
discurso acerca da mulher e o mercado de trabalho. Esta argumentação também está presente na profissão
docente, que era um lugar masculino, mas quando as mulheres passam a adentrar seus espaços, o que é
considerado inferior, o trato com crianças menores, é relegado às mulheres por seu instinto de mãe, mas
carregado de uma forte argumentação que afasta a mulher da produção dos saberes e da ciência. O
problema da mulher reduz-se ao de sua capacidade de trabalho. Forte na época em que as técnicas se
adaptavam às suas possibilidades, destronada quando se tornou incapaz de explorá-las, ela volta a encontrar
no mundo moderno sua igualdade com o homem. São as resistências do velho paternalismo capitalista que
na maioria dos países impede que essa igualdade se realize: ela o será no dia em que tais resistências se
quebrarem. Já o é na U.R.S.S., afirma a propaganda soviética. E quando a sociedade socialista tiver dominado
o mundo inteiro, não haverá mais homens e mulheres, mas tão somente trabalhadores iguais entre si.
(BEAUVOIR, 1970, p.75) Ainda tratando da construção histórica, a autora apresenta diversos elementos que
estão em inúmeros relatos e narrativas que demonstram como as mulheres desempenharam os mesmo
papéis que os homens. Um desses exemplos, são as citações de Heródoto sobre as Amazonas do Daomé,
conhecido como o pai da história por ter sistematizado elementos, que mais tarde irão fundamentar a
história como conhecimento científico. Nesses relatos, estas amazonas teriam o mesmo papel na guerra que
os homens, com as mesma atitudes, força, violência e vigor. Para Beauvoir, a história das mulheres foi
contada pelos homens, até o momento de sua escrita, como afirma: “toda a história das mulheres foi feita
pelos homens [...] O próprio feminismo nunca foi um movimento autônomo: foi, em parte, um instrumento
nas mãos dos políticos e, em parte, um epifenômeno refletindo um drama social mais profundo” (BEAUVOIR,
1970, p. 151). Somente após os movimentos causados por esta obra, que a terceira geração de Annales, no
pós 1968, inicia a produção histórica acerca das mulheres. 6 Na terceira parte, do volume um, a autora
centra-se na construção do mito atrelado à mulher. Apresentando como as crenças se perpetuam sobre o
conceito mulher, partindo da ideia de que as argumentações foram construídas dentro de um patriarcado,
que é reforçado pelos cristãos, com seu criador supremo masculino. O patriarcado não se estabeleceu por
toda parte sob essa forma radical. Na Babilônia, as leis de Hamurábi reconheciam certos direitos à mulher:
ela recebe uma parte da herança paterna e, quando se casa, o pai dá-lhe um dote. Na Pérsia, a poligamia é
comum; a mulher é adstrita a uma obediência absoluta ao marido que o pai lhe escolhe logo que ela se
torna núbil. Porém é mais respeitada do que entre a maioria dos povos orientais: o incesto não é proibido e
houve frequentes casamentos entre irmão e irmã. A mulher é encarregada da educação dos filhos até a
idade de sete anos, quando se trata de meninos, e até o casamento em sendo meninas. A mulher pode
receber uma parte da herança do marido no caso de o filho não se mostrar digno dela. Se ela é "a esposa
privilegiada", no caso de lhe morrer o marido sem deixar filho adulto, confiam-lhe a tutela dos filhos
menores e a administração dos negócios. As regras do casamento mostram claramente a importância que
tem para o chefe da família a existência de uma posteridade. (BEAUVOIR, 1970, p. 106). Junto à concepção
do patriarcado vem os diversos outros mitos como a defesa da virgindade feminina, para que a mulher se
guardasse para o casamento, porque essa era uma condição de boa esposa. Assim como, o erotismo, que
deveria ser deixado de lado por conta da maternidade. Além da relação mulher feiticeira, que Corazza (2002)
reintera que as mulheres carregavam o (des)mundo, porque se conectam com elementos da magia e da
feitiçaria e perpassam as construções mitológicas relativas a elas mesmas. Mesmo quando a ideia aparenta
ser algo que potencializa a mulher, na verdade traz enquadramentos como a noção de mulher musa. Porque,
coloca a mulher como alguém que não cria, que os homens fazem por ela. Nunca as mulheres constituíram
uma casta separada: em verdade nunca elas procuraram desempenhar um papel na história enquanto sexo.
As doutrinas que reclamam o advento da mulher enquanto carne, vida, imanência, enquanto Outro, são
ideologias masculinas que não exprimem de modo algum as reivindicações femininas. A maioria das
mulheres aceita resignadamente a sorte sem tentar nenhuma ação; as que buscaram mudá-la não
pretenderam encerrar-se em sua singularidade, nem fazê-la triunfar, mas sim sobrepujá-la. Quando
intervieram no desenrolar dos acontecimentos, fizeram-no de acordo com os homens e dentro das
perspectivas masculinas. (BEAUVOIR, 1970, p.167-168). 7 Mulher também foi atrelada a condição de objeto,
quando decorre a ideia de ter uma mulher, com o casamento a mulher se tornaria uma propriedade,
subordinada a existência do homem. A mulher que questionava ou queria seguir para outro destino era
considerada uma mulher perdida ou aquela que não é mulher. Ao final deste primeiro volume, Beauvoir
(1967) argumenta acerca de que as mulheres precisam assumir um destino autônomo, que precisam ocupar
os postos de trabalho para com isso buscar outras condições para a existência da mulher. É um volume que
preocupa-se em apresentar como foram construídos os argumentos acerca da mulher, que estão
entranhados na sociedade que foi contemporânea a autora.
A primeira parte da obra O segundo sexo – Fatos e mitos - denomina-se “Destino” e contêm os três primeiros
capítulos assim denominados respectivamente: “Dados da biologia”; “Ponto de vista da psicanálise”; e por
fim, “Ponto de vista do materialismo histórico”. O fato de esta primeira parte ser denominada “Destino” é de
extrema importância porque enfatiza como essas três instâncias supracitadas tentam legitimar o discurso da
má fé ao tentar atribuir uma essência a mulher7 e criar um lugar definido, um destino que a determina e fixa
numa situação de não transcendência. Ou seja, ao pretender criar um destino fisiológico, psicológico e
econômico para a mulher. Beauvoir, portanto, identifica e refuta essas três instâncias que tentam bloquear a
liberdade da mulher. Assim, a filósofa inicia a crítica aos dados da biologia ou o que ouso chamar de uma
espécie de sexismo biológico8 . A mulher tem útero, ovários, o homem não tem. O problema reside na
afirmação de que por ter úteros e ovários a mulher seria inferior – em sentido político, moral ou mesmo
intelectual – em relação ao homem. Essas significações hierarquizadas diante das diferenças sexuais colocam
a mulher numa situação de desvalorização permanente perante o homem. Para a biologia, por exemplo, o
termo fêmea prende a mulher ao seu sexo e a conseqüência disso é nunca se libertar de uma situação. Como
cita a teórica,
A mulher? É muito simples, dizem os amadores de fórmulas simples: é uma matriz, um ovário; é uma fêmea,
e esta palavra basta para defini-la. Na boca do homem o epíteto "fêmea" soa como um insulto; no entanto,
ele não se envergonha de sua animalidade, sente-se, ao contrário, orgulhoso se dele dizem: "É um macho!"
O termo "fêmea" é pejorativo, não porque enraíze a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo.
(BEAUVOIR, 1980, p.25). Ou seja, a biologia é utilizada como base para a legitimação da opressão à mulher. É
como se dissessem: “a mulher é isso e não há nada que se possa fazer”. O sentido político e objetivo da
diferença se dá porque a diferença biológica que há produz desigualdade que não é meramente biológica.
Porém, percebe-se, que os dados da biologia incorrem em má fé, porque pela perspectiva existencialista
nenhum ser é aquilo que é, nenhuma substância é absolutamente fixa, é sempre capaz de se transformar em
uma nova substância. A consciência que a mulher adquire de si mesma não seria definida unicamente pela
sexualidade porque a consciência se for fazer jus a sua definição, não pode em nenhuma hipótese estar
fundada na biologia. Em entrevista concedida em 1979 a Margaret Simons e Jessica Benjamin, disse
Beauvoir: “Há, de fato, uma diferença biológica, e que não deveria, mas é utilizada como base da diferença
sociológica”. (BEAUVOIR apud Simons, 1999, p. 18. Tradução minha). É, portanto, à luz de um contexto
ontológico, econômico, social e psicológico que teremos de esclarecer os dados da biologia. A sujeição da
mulher à espécie, os limites de suas capacidades individuais são fatos de extrema importância; o corpo da
mulher é um dos elementos essenciais da situação que ela ocupa neste mundo. Mas não é ele tampouco
que basta para a definir. Ele só tem realidade vivida enquanto assumido pela consciência através das ações e
no seio de uma sociedade; a biologia não basta para fornecer uma resposta à pergunta que nos preocupa:
por que a mulher é o Outro? Trata-se de saber como a natureza foi nela revista através da história; trata-se
de saber o que a humanidade fez da fêmea humana. (BEAUVOIR, 1980, p.57). Biologicamente, os dois traços
que caracterizariam a mulher seriam os seguintes: seu domínio sobre o mundo que seria menos extenso que
o do homem; e sua maior submissão à espécie. Sendo assim, segundo a análise de Beauvoir, a categoria de
gênero não possui fundamento se está fundada na biologia, pois o sexo não é capaz de definir a mulher;
sendo a mulher um indivíduo, ela também se volta ao mundo porque é escolhendo-se por meio do mundo
que o indivíduo se define. No segundo capítulo, Beauvoir assim como Sartre, tece críticas à psicanálise.
Sartre refuta a teoria psicanalítica por considerar sua linguagem coisificante e por ser má fé no sentido de
querer atribuir as falhas do indivíduo ao inconsciente. Para a teórica, não é o caso de tecer críticas a todo o
sistema, mas sim de examinar sua contribuição ao estudo da mulher. Nesta perspectiva, a crítica concentra-
se no fato de que a mulher e a libido feminina foram calcadas segundo um modelo masculino. Mais uma vez
a mulher teria sido vista através do olhar masculino. Ao dizer que a mulher se sente como um homem
mutilado por não ter pênis, a filósofa assinala que esta ideia de mutilação implica numa comparação que
desfavorece a 18 mulher e valoriza o homem. “A ideia de uma “libido passiva” desnorteia porque se definiu a
libido a partir do macho como impulso, energia; mas não se conceberia tão pouco a priori que uma luz
pudesse ser a um tempo amarela e azul: é preciso ter a intuição do verde”. (BEAUVOIR, 1980, p.70). Beauvoir
salienta a importância de Freud ter afirmado que a sexualidade da mulher é tão evoluída quanto à do
homem, porém, observa que o teórico não a estuda, por assim dizer, em si mesma, na sua originalidade. A
mesma reconhece o fato de Freud ter sido o primeiro a salientar que o erotismo masculino localiza-se
definitivamente no pênis, ao passo que há, na mulher, dois sistemas eróticos distintos: o clitoridiano, que se
desenvolve no estágio infantil e o vaginal, que surge após a puberdade. O que significa que quando o jovem
atinge a fase genital, sua evolução está terminada; enquanto que para a jovem será necessário que passe de
uma fase a outra. Há, então, somente uma fase genital para o homem e duas para a mulher que faz com que
ela tenha mais riscos de não atingir o termo de sua evolução sexual, permanecer no estágio infantil, o que
para Freud, pode desencadear o desenvolvimento de neuroses. Ou seja, a sexualidade feminina por ser
“inferior”, não viril (comparativamente com o homem), poderia deixar a mulher neurótica. Ao explicar sobre
o Complexo de Édipo e de Electra, Beauvoir observa que a mãe não é divinizada pelo desejo que inspira ao
filho; enquanto o pai é. O fato de o desejo feminino voltar-se para um ser soberano (o pai) lhe dá um caráter
original, mas a menina não é constitutiva de seu objeto, portanto, ela o sofre. A soberania do pai é um fato
de ordem social e segundo Beauvoir, Freud falha em explicá-lo. Ele (Freud) confessa que é impossível saber
que autoridade decidiu, em um momento da história, que o pai superaria a mãe; essa decisão representa, a
seu ver, um progresso, mas cujas causas são ignoradas. “Não pode tratar-se aqui da autoridade paterna,
porquanto esta autoridade só foi conferida ao pai pelo progresso”, escreve em seu último livro Moisés e Seu
Povo. (BEAUVOIR, 1980, p. 63). (Grifo meu). Essa explicação tautológica freudiana sobre a soberania
masculina - que ignora o fato social e histórico - para Beauvoir assume aspecto de insuficiência; insuficiência
de um sistema que se concentra unicamente na sexualidade para explicar o desenvolvimento da vida
humana, ignorando assim a ordem social e o ponto de vista histórico. O pai é o soberano não porque possui
uma anatomia diferente, mas porque quem possui a anatomia do pai possui um prestígio social. Não se
poderia, portanto, encarar a sexualidade como um dado irredutível, pois a sexualidade seria somente um
dos aspectos da existência e não o aspecto original, e, 19 também, porque o fundamento da sexualidade não
está nela mesma. Sobre o complexo de castração, segundo Beauvoir, novamente encontra-se uma falha, pois
este só poderia ser analisado dentro de um contexto social e não unicamente pela sexualidade. Freud diz
que a menina tem “inveja do pênis”, sente-se castrada, mutilada por não possuir o órgão sexual masculino.
Porquanto, dirá a filósofa, não é a ausência do pênis que provoca o complexo e sim o conjunto da situação.
“A menina não inveja o falo a não ser como símbolo dos privilégios concedidos aos meninos; o lugar que o
pai ocupa na família, a preponderância universal dos machos, a educação, tudo a confirma na ideia da
superioridade masculina”. (BEAUVOIR, 1980, p.64). No ponto de vista da psicanálise o privilégio anatômico
cria um privilégio humano. Porém, aponta, a psicanálise falha em explicar porque a mulher é o Outro, pois
Freud admite que o prestígio do pênis explica-se pela soberania do pai, entretanto, desconhecendo a origem
da supremacia do macho. A psicanálise consideraria femininas as condutas de alienação e viris aquelas em
que o sujeito afirma sua transcendência. Para Beauvoir, é particularmente entre os psicanalistas que o
homem é definido como ser humano e a mulher como fêmea, pois, todas as vezes que ela se conduz como
ser humano, afirma-se que ela imita o macho, está com “pretensões viris” a despeito de sua passividade. A
teórica encontra algumas similitudes entre a psicanálise e o existencialismo, porém apontará uma diferença
crucial: o estudo da situação da mulher para além da sexualidade. O psicanalista descreve-nos a criança e a
moça solicitadas a identificar-se com o pai ou a mãe, hesitantes entre as tendências “virilóides” e
“femininas”; ao passo que nós concebemos a mulher hesitando entre o papel de objeto, de Outro que lhe é
proposto, e a reivindicação de sua liberdade. Assim, concordamos a respeito de certo número de fatos, em
particular quando consideramos os caminhos de fuga inautêntica que se oferecem à mulher, mas não lhes
emprestaremos, em absoluto, a mesma significação que o freudiano ou o adleriano. Para nós, a mulher
define-se como ser humano em busca de valores no seio de um mundo de valores, mundo cuja estrutura
econômica e social é indispensável conhecer; nós a estudaremos numa perspectiva existencial através de sua
situação total. (BEAUVOIR, 1980, p.72). Pode-se dizer da psicanálise, o mesmo da biologia no sentido de criar
um destino e lugar determinado para a mulher, pois se a primeira a define pelo sexo, a segunda a define pela
sua crença na feminilidade baseada na sua sexualidade. Porque, se não basta dizer que uma mulher é uma
fêmea para defini-la como faz a biologia, tão pouco se pode defini-la pela consciência de sua feminilidade
como faz a psicanálise, pois esta consciência é dada no seio da sociedade a qual ela é membro. Sendo assim,
a categoria de gênero também fundada na 20 psicanálise não possuiria fundamento dentro da perspectiva
beauvoiriana, por querer infligir à mulher um caráter de “feminilidade”, passividade e consequentemente
um destino. Em relação ao ponto de vista do materialismo histórico, Beauvoir salienta sua importância em
ter colocado em evidência que a humanidade não é uma espécie animal e sim uma realidade histórica. A
sociedade humana seria, então, uma anti physis, não sofreria passivamente a presença da Natureza. Nesse
sentido a mulher não poderia ser considerada apenas um organismo sexuado, a consciência que a mulher
adquire de si mesma não seria definida unicamente pela sexualidade. Ela refletiria uma situação que
depende da estrutura econômica e social. E, é neste ponto que Beauvoir concentra sua crítica. Para a
filósofa, o marxismo teria deixado uma lacuna por não ter tratado de indivíduos, a noção de objetividade do
marxismo teria impedido que se tratasse de subjetividades. Se o sujeito é livre para tomar suas decisões
nada o pode impedir, nem mesmo a estrutura econômica e social. O que o sujeito vem a ser depende de
suas decisões tomadas livremente, decisões essas que constituem sua substância que, por sua vez, não é
absolutamente fixa, mas sempre capaz de transformarse por meio de uma nova decisão. Nesse ponto
encontra-se a crítica ao absolutismo marxista, o que segundo Beauvoir, paralisava a práxis marxista. E, em
relação à mulher, a crítica concentra-se na crença de que se não existisse mais classes, a opressão da mulher
também deixaria de existir. Para Beauvoir, isso não se justifica porque também do ponto de vista do
materialismo histórico a mulher é o Outro. As coerções do patriarcado ainda existem no marxismo. A
opressão da mulher continua porque mesmo neste sistema a mulher é tida como objeto. A abolição da
família pretendida por Engels em A origem da família, não se cumpre. Não seria possível obrigar diretamente
uma mulher a parir: tudo o que se pode fazer é encerrála dentro de situações em que a maternidade é a
única saída; a lei ou os costumes impõem-lhe o casamento, proíbem as medidas anticoncepcionais, o aborto,
o divórcio. São exatamente essas velhas coerções do patriarcado que a U.R.S.S. ressuscitou; reavivou as
teorias paternalistas do casamento; e com isso foi levada a pedir novamente a mulher que se torne objeto
erótico: um discurso recente convidava as cidadãs soviéticas a cuidarem dos vestidos, a usarem maquilagem,
a se mostrarem faceiras para reter seus maridos e incentivar-lhes o desejo. É impossível, vê-se por esse
exemplo, encarar a mulher unicamente como força produtora; ela é para o homem uma parceira sexual, uma
reprodutora, um objeto erótico, um Outro através do qual ele se busca a si próprio. (BEAUVOIR, 1980, P. 79).
21 1.1 A mulher é o Outro Tomando como ponto de partida a dialética do senhor e do escravo de Hegel,
Beauvoir cunhará o conceito de Outro. Segundo seu diagnóstico, a relação que os homens mantêm com as
mulheres é esta: da submissão e dominação. As mulheres estariam enredadas na má fé dos homens que a
vêem e a querem como um objeto. A teórica demonstra em seu percurso filosófico sobre a categoria de
gênero que, a mulher não é definida em si mesma, mas em relação ao homem e através do olhar do homem.
Olhar este que a confina num papel de submissão que comporta significações hierarquizadas dadas à mulher
através deste olhar masculino. Este olhar funda a categoria do Outro beauvoriano. Beauvoir explica que esta
categoria do outro é antiga e comum, segundo a filósofa, nas mais antigas mitologias e sociedades primitivas
já se encontravam presente uma dualidade: a do Mesmo e a do Outro. Esta divisão não teria sido
estabelecida inicialmente tendo como base a divisão dos sexos, pois a alteridade seria uma categoria
fundamental do pensamento humano. Nenhuma coletividade, portanto, se definiria nunca como Uma sem
colocar imediatamente a Outra diante de si. Por exemplo, para os habitantes de certa aldeia, todas as
pessoas que não pertencem ao mesmo lugar são os “outros”; para os cidadãos de um país, as pessoas de
outra nacionalidade são consideradas estrangeiras. Os judeus são “outros” para o antissemita, os negros
para os racistas norteamericanos, os indígenas para os colonos, os proletários para as classes dos
proprietários. Ao fim de um estudo aprofundado das diversas figuras das sociedades primitivas, Levi Strauss
pôde concluir: “A passagem do estado natural ao estado cultural define-se pela aptidão por parte do homem
em pensar as relações biológicas sob a forma de sistemas de oposições: a dualidade, a alternância, a
oposição e a simetria, que se apresentam sob formas definidas ou formas vagas, constituem menos
fenômenos que cumpre explicar os dados fundamentais e imediatos da realidade social”. Tais fenômenos
não se compreenderiam se a realidade humana fosse exclusivamente um mitsein baseado na solidariedade e
na amizade. Esclarece-se, ao contrário, se, segundo Hegel, descobre-se na própria consciência uma
hostilidade fundamental em relação a qualquer outra consciência; o sujeito só se põe em se opondo: ele
pretende afirmar-se como essencial e fazer do outro o inessencial, o objeto. (BEAUVOIR, 1980, pág. 11- 12).
Percebe-se nesta exposição da hermenêutica do outro o princípio da reciprocidade que tira o sentido
absoluto da ideia de Outro e se descobre a relatividade; “por bem ou por mal os indivíduos e os grupos são
obrigados a reconhecer a reciprocidade de suas relações”. (BEAUVOIR, 1980, p. 11). Como, então, se explica
que entre os sexos esta reciprocidade não tenha sido colocada? Por que um dos sexos se impôs como o
único essencial e com isso 22 negou toda relatividade em relação ao seu correlativo, definindo este sexo
(masculino) como a alteridade pura? A mulher aparece como o negativo, de modo que, toda determinação
lhe é imputada como limitação, sem reciprocidade. Na medida em que a mulher é considerada o Outro
absoluto, isto é — qualquer que seja sua magia — o inessencial, faz-se precisamente impossível encará-la
como outro sujeito. As mulheres nunca, portanto, constituíram um grupo separado que se pusesse para si
em face do grupo masculino; nunca tiveram uma relação direta e autônoma com os homens. (BEAUVOIR,
1980, p.90). “Nenhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como inessencial; não é o Outro que
definindo-se como Outro define o Um; ele é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para
que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio. De onde vem
essa submissão na mulher”? (BEAUVOIR, 1980, p.12). Em primeiro lugar, Beauvoir, não quer negar o “ser
mulher”, pelo contrário, é quase inédito seu esforço em reconhecer a “situação” da mulher (ou a mulher
como situação). Afirma que para se discutir esta situação, é necessário, primeiramente, afirmar-se como
mulher. “Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: “Sou uma mulher”. Essa verdade
constitui o fundo sobre o qual se erguerá qualquer outra afirmação”. (BEAUVOIR, 1980, p.9). Entretanto, para
responder a questão da submissão da mulher, Beauvoir invocará o conceito sartreano de situação. A
situação, para funcionar como tal, se põe diante do homem porque exige do homem sua ultrapassagem que
se dá por meio da liberdade. No caso da mulher, se impõe a ela; o gênero, a mulher como situação,
constitui–se como situação sui generis, mitigando sua liberdade e pondo-se, do ponto de vista da aparência,
como ontologicamente anterior ao para si, determinando-a. O homem funda-se, afirma-se pela liberdade. A
liberdade é o que põe o homem enquanto tal no mundo, sob o horizonte do mundo. A situação para a
mulher é o que a define antes dela poder se colocar como liberdade. Daí a frase “não se nasce mulher, torna-
se”, ou seja, o gênero para a mulher é algo que se impõe a ela e é sempre anterior a ela de modo a
“aparecer” como fundado puramente na exterioridade. Poderíamos dizer que toda situação tem essa
característica: é-nos imposta “de fora”. No caso da experiência feminina do gênero, este é o problema: tal
exterioridade se dá como uma quase interioridade irredutível. O problema central, então, seria esta
diferença radical entre a situação para os homens e para as mulheres. A perspectiva que adotamos é a da
moral existencialista. Todo sujeito coloca-se concretamente através de projetos como uma transcendência;
só alcança sua liberdade pela sua constante superação em vista de outras liberdades; não há outra
justificação da existência presente senão sua expansão para um futuro indefinidamente aberto. 23 Cada vez
que a transcendência cai na imanência, há degradação da existência em “em si”, da liberdade em facticidade;
essa queda é uma falha moral, se consentida pelo sujeito. Se lhe é infligida, assume o aspecto de frustração
ou opressão. Em ambos os casos, é um mal absoluto. Todo indivíduo que se preocupa em justificar sua
existência, sente-a como uma necessidade indefinida de se transcender. Ora, o que define de maneira
singular a situação da mulher é que, sendo, como todo ser humano, uma liberdade autônoma, descobre-se e
escolhe-se num mundo em que os homens lhe impõem a condição de Outro. Pretende-se torná-la objeto,
votá-la à imanência, porquanto sua transcendência será perpetuamente transcendida por outra consciência
essencial e soberana. O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo sujeito
que se põe sempre como o essencial e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial.
(BEAUVOIR, 1980, p. 23). A opressão vivida pela mulher causa questionamentos perturbáveis em relação à
emancipação dela. A filósofa questiona: “Como pode realizar-se um ser humano dentro da condição
feminina? Que caminhos lhe são abertos? Como encontrar a independência no seio da dependência? Que
circunstâncias restringem a liberdade da mulher, e quais pode ela superar? São essas algumas questões
fundamentais que desejaríamos elucidar. Isso quer dizer que, interessando-nos pelas oportunidades dos
indivíduos, não as definiremos em termos de felicidade e sim em termos de liberdade”. (BEAUVOIR, 1980, p.
12). Ou seja, a situação da mulher lhe é infligida assume um aspecto de opressão, de um “beco sem saída”,
como um destino institucionalizado que petrifica a existência dela num modelo de não liberdade. Quando
um indivíduo ou um grupo de indivíduos é mantido numa situação de inferioridade, ele é de fato inferior;
mas é sobre o alcance da palavra ser que precisamos entender-nos; a má fé consiste em dar-lhe um valor
substancial quando tem o sentido dinâmico hegeliano: ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se
manifesta. Sim, as mulheres, em seu conjunto, são hoje inferiores aos homens, isto é, sua situação oferece-
lhes possibilidades menores. (BEAUVOIR, 1980, p. 18). Porém, na construção de seu feminismo
existencialista Beauvoir além de questionar e identificar as barreiras que impedem a liberdade da mulher
oferecerá alternativa à ultrapassagem. Para Beauvoir, a mulher seria definida em si, na sua originalidade,
mas em comparação e detrimento ao homem; é vista e definida pelo olhar masculino que toma um caráter
absoluto e sem reciprocidade; está enredada na má fé dos homens que a quer como um objeto, o que
segundo Beauvoir é um dos maiores crimes: querer destituir outro ser humano de sua própria humanidade.
As “qualidades” da mulher como o Outro são exaltadas e perpassadas pela sociedade como algo definitivo.
Fixa-se a mulher num lugar, o mundo para a mulher não é apresentado como deveria ser a todo ser
existente, com todas as possibilidades, o que faz com que se frustre o projeto humano de autoafirmação e
criação. Como sua situação 24 é radicalmente diferente da do homem, a ultrapassagem se torna mais difícil.
Essas definições para além de significações hierarquizadas sobre a mulher tornam-se opressões no campo
político.
Ao afirmar “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, Simone de Beauvoir abre caminho à teorização das
relações sociais de sexo e da opressão da mulher em função do determinismo biológico, no qual a mulher é
relegada para um papel de subalternidade e vista como um segundo sexo.
A tomada de consciência dos mecanismos sociais na reprodução de estereótipos de género, no que é
suposto “ser ou fazer” em função do determinismo biológico, e assente numa visão dicotómica
homem/mulher ainda está muito presente na nossa sociedade.
O volume I, apropriadamente intitulado “Fatos e mitos”, é uma crítica contundente ao trabalho que homens
de ciência e intelecto produziram sobre o tema das mulheres. A perspectiva filosófica dominante do primeiro
volume estabelece que os homens definiram as mulheres como o Outro, o não essencial e como ser
sexuado, na tentativa de assegurar a posição dos homens como Sujeito, o tipo humano absoluto, o universal.
Estabelecer a mulher em um estado de dependência, sem dúvida, atende aos interesses econômicos dos
homens, mas Beauvoir insiste que isso se adequa às ambições ontológicas e morais dos homens também
(2010: 159). Na relação com as mulheres estabelecidas em seu papel de Outro, os homens são capazes de
contornar as dificuldades e confrontos centrais àqueles entre dois sujeitos. E eles são capazes de prender as
mulheres em sua encarnação enquanto transcendem a sua própria:“Tenta-se congelá-la como objeto e
condená-la à imanência” (2010: 17).
Este aprisionamento das mulheres na imanência e condenação aos seus corpos não é, no entanto, apenas
uma preocupação filosófica. É um obstáculo significativo, mesmo na conversa do dia-a-dia
A mulher é o negativo, a tal ponto que qualquer determinação lhe é imputada como limitação, sem
reciprocidade. A situação das mulheres fornece um bom exemplo para revelar um aspecto particular da
ambigüidade, como estamos sujeitos não apenas às restrições da incorporação universalmente -
envelhecemos, podemos adoecer, morremos - mas, além disso, alguns indivíduos e grupos são interpretados
por meio de “dados” biológicos que são infundidos com um significado político e social. Como diz Beauvoir
das mulheres: “[uma mulher é] como todos os humanos, uma liberdade autônoma, [mas] ela se descobre e
se escolhe em um mundo onde os homens a obrigam a assumir-se como Outro” (2010: 17). O acesso
frustrado ou bloqueado das mulheres às oportunidades de exercer a liberdade certamente se deve em parte
ao seu papel biológico na reprodução, mas não pode explicar totalmente a opressão sistemática das
mulheres. Abaixo de,Cito uma das primeiras descrições da biologia feminina do capítulo de Beauvoir sobre
"Dados biológicos" para ilustrar novamente o estilo de Beauvoir de citar descrições masculinas pejorativas
que às vezes servem para confundir os leitores, bem como mostrar o poder da autoridade biológica e
científica para confinar as mulheres em seus relacionamentos sexuais corpos e negar-lhes agência e
liberdade.15
Essas imagens prendem as mulheres na biologia, fazem disso seu destino e servem para justificar seu acesso
limitado à liberdade. O capítulo de Beauvoir sobre dados biológicos desafia cada pedaço deste quadro, não
argumentando que a biologia não é importante, ou que podemos ir além dela por meio da tecnologia, ou
que mulheres e homens são complementares. Em vez disso, ela demonstra a contingência sem negar a
facticidade da biologia. Primeiro, ela mostra que a divisão da espécie em dois sexos não ocorre
universalmente na natureza, citando multiplicação assexuada, autofertilização, fertilização cruzada e
intersexualidade, e observando que a "superioridade de um sistema sobre outro envolve teorias altamente
contestáveis sobre a evolução ”(2010: 23). No entanto, pensadores como Platão, Aristóteles e São Tomás
consideram a diferenciação sexual como certa, sem tentar explicá-la,enquanto Hegel tenta oferecer
justificativas lógicas. Os mitos sociais há muito penetraram na descoberta científica: por muito tempo se
pensou que as mulheres não tinham nenhum papel ativo na reprodução, apenas carregando e engordando a
semente viva (2010: 25); outras evidências apontam para o papel passivo dos homens (2010: 27).
Os mitos sociais há muito penetraram na descoberta científica: por muito tempo se pensou que as mulheres
não tinham nenhum papel ativo na reprodução, apenas carregando e engordando a semente viva (2010: 25);
outras evidências apontam para o papel passivo dos homens (2010: 27). Ponderando essas contradições,
Beauvoir insiste que “nada garante a universalização dos processos específicos da vida” (2010: 26); além
disso, “se alguém é um pouco escrupuloso, deve-se concordar que é um longo caminho do óvulo à mulher”
(2010: 29). Beauvoir prossegue descrevendo o parto como doloroso e perigoso, às vezes deixando uma
mulher "disforme e envelhecida", a amamentação é considerada uma "servidão exaustiva" e a gestação de
uma criança é como a "espécie que os está devorando" (2010: 42). Essas e outras descrições da biologia das
mulheres foram escolhidas para um intenso escrutínio e crítica, alguns estudiosos classificando Beauvoir
como identificada pelo homem, outros lamentando o fracasso de Beauvoir em reconhecer qualquer
potencial criativo no trabalho reprodutivo. 16Embora esses debates sejam importantes, o ponto que quero
enfatizar aqui é que, em sua descrição de como a biologia influencia o destino das mulheres, Beauvoir
enfatiza continuamente como as forças da biologia recebem significado político por meio de interpretações
que podem ser desafiadas e transformadas. Podemos recordar a frase mais citada de Beauvoir, “não se
nasce, mas torna-se mulher” (2010: 283). 17 Embora essa linha tenha sido lida como uma invenção ou reforço
de uma distinção sexo / gênero, essa dualidade não existe no pensamento de Beauvoir. 18Em contrapartida,
seu trabalho desfaz a distinção, reunindo corpo e seus significados para pensar de forma criativa e renovada
sobre o significado político da biologia. A biologia é claramente um fato humano; estamos corporificados e
sujeitos à natureza e ao tempo, mas também possuímos a liberdade - na verdade a liberdade exige que
assumamos a responsabilidade - de repensar os significados de nossa situação e corporificação. Os homens
exerceram má fé ao negar a ambigüidade ao identificar estritamente as mulheres com os corpos, a
reprodução da espécie e a particularidade, para que os homens possam transcender o corpo como
consciência, liberdade e universalidade.
O capítulo sobre dados biológicos, portanto, oferece apenas um exemplo de como Beauvoir pondera
seriamente a incorporação e o reconhecimento da ambigüidade ao dissecar como os fatos físicos ou
fisiológicos também são políticos. A biologia é especialmente perniciosa para as mulheres porque, embora
mulheres e homens surjam como formações históricas, como Beauvoir faz questão de demonstrar, eles o
fazem de maneira desigual. Enquanto as mulheres se constituem como “outro” sistematicamente, muitos
(não todos) os homens conseguem evitar a experiência da reciprocidade, ou negá-la totalmente, não tendo
que enfrentar ou vivenciar a ambigüidade. 19É importante enfatizar novamente, entretanto, que Beauvoir
não defende simplesmente atribuir as funções biológicas femininas, especialmente o trabalho reprodutivo,
um valor positivo, virando a mesa
O primeiro volume, ela afirma que a biologia não é o destino para as mulheres, muito menos o casamento
ou a maternidade. Ela cita o caso da cientista Marie Curie (1867-1934), primeira mulher a receber o Prêmio
Nobel por suas pesquisas a respeito da radioatividade, e única a ganhar o prêmio duas vezes, como prova de
que não foi a “inferioridade das mulheres que determinou sua insignificância histórica: foi a insignificância
histórica delas que as condenou à inferioridade”. Assim, a mulher não seria uma realidade fixa, mas um
processo de tornar-se mulher.
No primeiro volume, Simone analisa a mulher a partir da biologia, da psicanálise e da história. A respeito da
psicanálise, critica Freud por basear seu conhecimento da sexualidade feminina a partir da sexualidade
masculina e questiona como ele poderia fazer isso não tendo nenhuma experiência com a primeira.
No segundo volume, Beauvoir incluiu descrições de mulheres e de suas experiências e a famosa frase escrita
acima sobre tornar-se mulher havia sido inspirada no filósofo francês Alfred Fouillée (1838-1912), para quem
“não se nasce, mas torna-se livre”. Para ela, além da biologia, da psicologia e da economia, o que
determinava a submissão das mulheres acima de tudo era a civilização.
O corpo feminino foi outro assunto abordado no livro. Para Simone, “a objetificação sexual do corpo das
mulheres desempenha um papel importante na perpetuação de sua opressão”, assim, a mulher ideal era o
objeto de desejo dos homens. A mulher sente uma alienação sobre seu próprio corpo ao reconhecer que
“ele é reduzido a um objeto sexual por certo tipo de olhar masculino – um olhar que a vê como presa para
ser caçada e possuída, e não uma pessoa em processo de devir”. A partir da combinação de vozes de várias
mulheres que descreveram suas experiências de tornar-se mulher por meio da hegemonia dos mitos criados
pelos homens, Beauvoir arremata que “tornar-se mulher é existir para os homens”.
Kirkipatrick acentua que, apesar da abordagem sobre a sexualidade feminina no livro ter sido considerada
escandalosa, foram as ideias de Beauvoir a respeito da maternidade que sofreram ataques prolongados. Ela
achava uma má-fé a contradição entre o desprezo pelas mulheres e o respeito às mães. Em suas palavras: “É
um paradoxo criminoso negar às mulheres qualquer atividade pública, fechar para elas o acesso às carreiras
masculinas, proclamá-las incapazes em todos os domínios, mas confiar-lhes o mais delicado e mais sério de
todos os empreendimentos: a formação de um ser humano”.
Para Simone, as mulheres não deveriam ser reduzidas à função reprodutiva e queria mostrar que a gravidez,
o parto e o maternidade em si eram vivenciados de maneira singular, dependendo da situação de cada
mulher – que eram a revolta, a resignação, a satisfação ou o entusiasmo. Sua pretensão foi abordar dois
equívocos, o de que ser mãe seria suficiente para satisfazer uma mulher e de que uma criança encontraria
felicidade nos braços de sua mãe, pois era improvável que uma criança fosse feliz se sua mãe se sentisse
frustrada e insatisfeita. E, a respeito do primeiro equívoco, muitas mulheres haviam lhe dito que não
queriam que esse fosse seu único projeto de vida
Por essas ideias, foi acusada de “traidora” de seu sexo e de sua nação, já que, no pós-guerra, a indústria
francesa precisava de revitalização e de mais nascimentos. Muitos homens questionaram “como ela se
atrevia a abordar esse assunto sagrado se não era mãe?”. Também foi chamada de insatisfeita, frígida, fálica,
ninfomaníaca e lésbica. Os comunistas a chamavam de “petite bourgeoise”, pois diziam que sua análise não
tinha a ver com as classes trabalhadoras. Também foi classificada como triste, neurótica e frustrada e o
escritor Albert Camus, que era seu amigo, acusou-a de “fazer o homem francês parecer ridículo”. O Vaticano
colocou “O Segundo Sexo” em sua lista de obras proibidas.

CONCLUSAO SOBRE O LIVRO Sua estratégia consiste em reivindicar seu próprio corpo e o de outras mulheres
como a fonte de autoridade (ao invés de um obstáculo para ela) para estabelecer a verdade a partir deste
mesmo fundamento. . Na verdade, a disputa sobre o feminismo está prestes a ser revigorada com a
publicação de The Second Sex, como Beauvoir, já uma figura pública conhecida, provavelmente
suspeita. Portanto, embora Beauvoir empregue o “eu”, ela imita a voz daqueles a quem procura
desacreditar. Lendo essas primeiras linhas no contexto de toda a introdução explicando por que explorar a
vida das mulheres é urgentemente importante, fica claro que Beauvoir não denigre o tópico nem a
exploração feminista dele. Na verdade, ela reivindica a sua própria corporificação e a de outras mulheres,
explora a ambigüidade que a corporificação ilumina e as vincula à liberdade situada que revela a verdade de
nossa existência e o pensamento político que deve resultar dela.

PRIVILEGIO DE SER INTELECTUAL:, ela afirma que “certas mulheres ainda são as mais adequadas para
elucidar a situação das mulheres” (2010: 15). Essas mulheres, mulheres intelectuais como a própria
Beauvoir, são aquelas “afortunadas por terem recebido todos os privilégios do ser humano [e] podem se dar
ao luxo da imparcialidade” (ibid.). As mulheres intelectuais têm suas raízes no mundo feminino, mas também
tinham todas as vantagens de se mover e ser aceitas no mundo masculino, e isso confere a essas mulheres
específicas a autoridade de “elucidar a situação das mulheres”. Conhecer o “mundo feminino mais
intimamente do que os homens porque nele estão as nossas raízes” (ibid.) Será uma vantagem. O que é
notável aqui, em termos de desafiar como os teóricos políticos regularmente reivindicam autoridade,é que
Beauvoir afirma sua autoridade não apenas por meio de pesquisa e interpretação textual (abundante emO
segundo sexo ), mas também em virtude de sua própria experiência, seu conhecimento subjetivo e a
compilação e interpretação de uma multidão esmagadora de anedotas e testemunhos da vida de mulheres
diversamente situadas.

SEGUNDO VOLUME: Trata-se do trecho mais conhecido de O Segundo Sexo , localizado na abertura do Tomo
II, em que Simone de Beauvoir reflete sobre a experiência vivida pelas mulheres e descreve “o fundo comum
sobre o qual se desenvolve toda a existência humana singular” (Beauvoir, 1967:s/p). A sentença está
colocada no capítulo sobre a infância, em que a autora discorre sobre diferenças nas criações de meninos e
meninas a partir de corpos que, ao menos até o início da adolescência, são bastante similares. Apoiada sobre
a doutrina existencialista, Beauvoir apresenta as circunstâncias sociais que se impõem sobre as mulheres
para limitar sua liberdade desde os primeiros anos de vida. Com sua afirmação, ela
procura desvincular a identidade de gênero da identidade natural. Nós não somos por causa do nosso sexo,
mas nos tornamos pelo que nos é ensinado e cobrado, em decorrência do nosso sexo ( Passos, 2000: 44).
A crítica à naturalização de papéis masculinos e femininos aparece com força também em outros trechos do
livro. Ao discorrer sobre a vida em sociedade, Beauvoir nos conduz por um percurso de adornamento
feminino, da saia aos cabelos, da postura aos gestos. A mulher caminha por uma linha tênue para ser
considerada adequada ao matrimônio. Ela não pode provocar demasiadamente o desejo e exacerbar sua
feminilidade, para não ser associada à prostituição, nem exercer uma masculinidade que a coloque próxima
da lesbianidade. A mulher de um pastor, por exemplo, deve se maquiar com leveza, seguir a moda com
discrição e indicar, com o cuidado de seu encanto físico, que “aceita seu papel de fêmea” (Beauvoir,
1967:299).
No capítulo sobre a mãe, o casamento e os filhos são uma prisão para as mulheres, muitas vezes aceita por
elas, que permanecem nesse modelo de relações familiares que impede sua transcendência. A gravidez é
vista como enriquecimento, mas também mutilação. Parasita e, ao mesmo tempo, parte de seu corpo, o
bebê suga as energias femininas, que poderiam ser ocupadas de maneira inventiva ou criativa.
É pela maternidade que a mulher realiza integralmente seu destino fisiológico; a maternidade sua vocação
‘natural’, porquanto todo o seu organismo se acha voltado para a perpetuação da espécie ( Beauvoir, 1967: 248).
Contudo, a sociedade não está “abandonada à natureza”, escreve Beauvoir, e “particularmente, há um século
mais ou menos, a função reprodutora não é mais comandada pelo simples acaso biológico: é controlada pela
vontade” (Beauvoir, 1980:248). Só que, como afirma Andrea Nye ao refletir sobre O Segundo Sexo , “a
opressão das mulheres é ainda mais poderosa naquilo em que é mascarada por trás da natureza, por trás da
crença de que o destino das mulheres é serem passivas” ( Nye, 1988: 108).
Com a compreensão existencialista de que não há essência que preceda a existência, é possível a Beauvoir
afirmar que homens e mulheres são construídos socialmente. “O ‘tornar-se’ fala das interferências da
cultura, mas também do esforço próprio por construir-se”, lembra Elizete Passos (Passos, 2000:46). É um
percurso ao mesmo tempo pesaroso e libertador. Assim,
a partir da ideia sartreana, o tornar-se significa escolher aquilo que se quer ser, de modo que a mulher será
aquilo que se projetou ser. Nós nos tornamos nosso gênero e não nosso corpo ( Passos, 2000: 46).
.
No segundo volume, intitulado experiência vivida, Beauvoir apresenta diversos exemplos de memórias,
literaturas e narrativas que demonstram diversas experiências acerca da formação do conceito mulher, as
diversas atribuições da mulher, a vida social, as fases da vida, a condição de ser mulher e o que a autora
chamou de independência da mulher. NINGUÉM nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico,
psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da
civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.
Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a
criança não pode apreender-se como sexualmente diferençada. Entre meninas e meninos, o corpo é,
primeiramente, a irradiação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão do mundo: é
através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo. (BEAUVOIR, 1967, p.9) Para
Beauvoir, é um longo caminho de formação da mulher, são múltiplos os processos de aprendizagem que nos
fazem aprender as diferenças ao longo da vida entre machos e fêmeas. Durante a infância as meninas são
ensinadas a serem meninas, nos movimentos entre as descobertas do corpo. Depois da infância vem a fase
de transição para a adolescência e as mudanças no corpo ditam sua inferioridade, que chega junto com a
menstruação, que vai carregar durante muito tempo. A menina precisa aceitar sua condição de ser mulher e
preparar-se para seu destino, “a adolescente no momento da puberdade: ela não pode tornar-se adulta sem
aceitar sua feminilidade [...] Sua inferioridade era somente apreendida, a princípio, como uma 8 privação: a
ausência do pênis converteu-se em mácula e em falta” (BEAUVOIR, 1967, p. 65). Durante toda a infância foi a
menina reprimida e mutilada; entretanto, percebia-se como um indivíduo autônomo; em suas relações com
os pais, os amigos, em seus estudos e jogos, descobria-se no presente como uma transcendência: nada fazia
senão sonhar sua futura passividade. Uma vez púbere, o futuro não somente se aproxima, instala-se em seu
corpo, torna-se a realidade mais concreta. (BEAUVOIR, 1967, p. 66). A menina passa a adolescência e aos
poucos vai ocupando o lugar de mulher quando chega ao casamento. A autora traz para as argumentações o
processo de iniciação sexual desde a infância até as implicações carregadas pela virgindade. Situando a
mulher num lugar passivo em relação ao homem. Em certo sentido, a iniciação sexual da mulher, como a do
homem, começa na primeira infância. Há uma aprendizagem teórica e prática que se desenvolve de maneira
contínua desde as fases oral, anal, genital até a idade adulta. Mas as experiências eróticas da jovem não são
um simples prolongamento de suas atividades sexuais anteriores; têm muitas vezes um caráter imprevisto e
brutal; constituem sempre um acontecimento novo que cria uma ruptura com o passado. Todos os
problemas que se apresentam à jovem acham-se resumidos de uma forma urgente e aguda no momento em
que os vive. Em certos casos a crise tem solução fácil, mas há conjeturas trágicas em que ela só se liquida
com o suicídio ou a loucura. De qualquer forma, pela maneira por que reage, a mulher empenha grande
parte de seu destino. (BEAUVOIR, 1967, p. 109). Outra condição da mulher, trabalhada pela autora, é com
relação às lésbicas em que aciona o conceito de forma ousada, para seu tempo, que ainda na
contemporaneidade, tem se construído produções discursivas de forma preconceituosa. Ela questiona o
modelo de mulher macho atribuído a lésbica, por romper com o ideal de mulher. Portanto, para essa mulher
que fugia ao destino era preciso cunhar outro enquadramento para ser. Atrelado a esta construção também
faz um forte questionamento a relação da homossexualidade, vista como perversão. Assim como, não
relaciona o desejo e a satisfação sexual à anatomia masculina, colocando a mulher como protagonista do seu
prazer. Como indica na passagem, De bom grado imaginamos a lésbica com um chapéu de feltro ríspido, de
cabelos curtos e gravata; sua virilidade seria uma anomalia traduzindo um desequilíbrio hormonal. Nada
mais errôneo do que essa confusão entre a invertida e a virago. Há muitas homossexuais entre as 9
odaliscas, as cortesãs, entre as mulheres mais deliberadamente "femininas"; inversamente, numerosas
mulheres "masculinas" são heterossexuais. Sexólogos e psiquiatras confirmam o que sugere a observação
corrente: em sua imensa maioria, as mulheres "danadas" são constituídas exatamente como as outras
mulheres. Nenhum "destino anatômico" determina sua sexualidade. (BEAUVOIR, 1967, p.144) Na segunda
parte, Beauvoir começa a trabalhar o que chamou de situação da mulher, que se movimentava pelo
casamento, maternidade, vida social, maturidade até a velhice. Já visualizava mudanças na sociedade, com
relação ao casamento, em que o modelo tradicional estava sofrendo quebras. A condição de mulher casada
era carregada pelo destino da mulher, a felicidade residia no casamento e no amor ao marido. Atrelado ao
casamento estava a condição de ser mãe. A mulher tem um destino pré-determinado que também perpassa
ter filhos. Diversas questões são geradas com a maternidade e atribui a mulher o status de mãe. Como ser
mulher, até na contemporaneidade, e não ser mãe? A forma tradicional do casamento vem sofrendo
modificações, mas o casamento continua ainda a constituir uma opressão que os dois cônjuges sentem de
maneira diferente. Considerando-se apenas os direitos abstratos de que gozam, são ambos quase iguais
hoje; escolhem-se mais livremente do que outrora, podem muito mais facilmente separar-se, sobretudo na
América do Norte onde o divórcio é comum; há entre os esposos menor diferença de idade e de cultura do
que antes; o marido reconhece com maior boa vontade a autonomia que a mulher reivindica. (BEAUVOIR,
1967, p. 244). Outra condição da mulher seria a mulher burguesa sustentada pelo marido. Um dos caminhos
para a liberdade feminina, apontados por Beauvoir é o trabalho como meio para independência e libertação
dessa construção que incide à mulher o casamento. Além da instituição do matrimônio, essa mulher
burguesa tinha uma preocupação, que era a de mostrar ao outro. A vida social estava permeada pelo ritual
de vestir para as outras mulheres, e não para uma realização pessoal. Como argumenta Beauvoir “a mulher
ocidental moderna almeja, ao contrário, ser notada por outrem como essa dona de casa, essa esposa, essa
mãe, essa mulher. É a satisfação que procurará na vida social” (BEAUVOIR, 1967, p. 294). Aliás, o espaço
público desde a antiguidade não foi destinado à mulher, apenas às prostitutas era permitido uma condição
de independência para frequentar estes lugares. Outra condição da trajetória da vida das mulheres é a
passagem da maturidade à velhice, porque ao contrário dos homens, a mulher envelhece de forma abrupta.
“A mulher é 10 bruscamente despojada de sua feminilidade; perde, jovem ainda, o encanto erótico e a
fecundidade de que tirava, aos olhos da sociedade e a seus próprios olhos, a justificação de sua existência e
suas possibilidades de felicidade” (BEAUVOIR, 1967, p. 343). A mulher carrega nesta fase todo o medo de
envelhecer e entra em crise quando chega a menopausa e tudo que isso causa ao seu desejo. Após esta
jornada entre a infância e a velhice, a mulher, segundo Beauvoir compõe uma engrenagem que a integra
numa coletividade que é governada por homens. A mulher perpassa a vida numa existência privada de
futuro, porque o seu destino vai lhe sendo ensinado. O esforço de suas argumentações no Segundo sexo
(1967) é o de apresentar o conjunto de condicionamentos econômicos, sociais, históricos, que permitem a
construção do feminino. Para a autora o caminho para a libertação da mulher desta condição é construir
ações coletivas para uma evolução econômica da mulher, ao contrário de ações individuais de mulheres, que
não tem encontrado sua libertação, no que chamou de narcisistas, amorosas e místicas. A narcisista tem uma
sexualidade agressiva e insatisfeita, ao passo em que não aceita que o outro pode se apaixonar por ela,
também trata com despeito os que não demonstram interesse. A amorosa é aquela que entende que o amor
é sua própria vida e para isso se dedica de corpo e alma. A mística é aquela que vive um ideal que é irreal, a
liberdade é algo místico. O fervor místico, como o amor e o próprio narcisismo, podem integrar-se em vidas
ativas e independentes. Mas, em si, esses esforços de salvação individual só podem redundar em malogros;
ou a mulher põe-se em relação com um irreal: seu duplo ou Deus; ou cria uma relação irreal com um ser
real. Beauvoir finaliza o
Para explorar a situação das mulheres no Volume II de O Segundo Sexo, Beauvoir penteia centenas de textos,
além de contar com experiências próprias e de outras mulheres, várias delas fictícias, para documentar
milhares de experiências femininas complexas e contraditórias na juventude, adolescência, iniciação sexual,
menstruação, gravidez, maternidade, amor, aborto , romance, menopausa, papéis sociais, trabalho
doméstico, trabalho remunerado, beleza, envelhecimento, flutuações e variabilidade no desejo sexual
influenciado por várias situações e muito mais. São contados de forma anedótica e, embora as experiências
e histórias demonstrem e valorizem a pluralidade de experiências que as mulheres têm ao longo de suas
vidas e em suas diferentes situações, o significado que Beauvoir extrai dessa multidão aponta para o que ela
teorizará como “situação das mulheres. ” Ser humano é desfrutar apenas de liberdade situada, ao invés de
liberdade radical e irrestrita,mas nem todos os indivíduos estão situados igualmente.
O modo como Beauvoir às vezes fala sobre a situação das mulheres pode fazer com que essa categoria
pareça totalmente redutora. Por exemplo, ela fala de “negros”, de “mulheres” e de “homens” como se não
fossem categorias múltiplas e transversais, fato que tem incomodado muitos críticos. Na verdade, Beauvoir é
frequentemente culpada de obscurecer como raça, cultura, classe e localização se cruzam com gênero, e de
não considerar conceitualmente como a pluralidade dessas formas de diferença serve para fragmentar a
subjetividade. Influenciada por Richard Wright, de quem ela fez amizade em sua viagem aos Estados Unidos
em 1947, 21 Beauvoir também frequentemente descreve as experiências das mulheres como análogas às dos
negros nos Estados Unidos. Escrevendo que “Richard Wright mostrou em Black Boyquão bloqueadas desde o
início estão as ambições de um jovem negro americano e que luta ele tem de suportar apenas para se elevar
ao nível em que os brancos começam a ter problemas ”(2010: 736), Beauvoir caracteriza essas lutas como“
semelhantes às encontrados por mulheres ”(2010: 737). Ela lamenta que, para os negros, as “repercussões
morais e intelectuais [da discriminação social] são tão profundas na mulher que parecem brotar de uma
natureza original” (2010: 14).
a generosa indicação de Deutscher sobre o potencial dos escritos de Beauvoir para resistir à separação
conceitual de raça e sexo se considerada à luz de seu trabalho sobre ambigüidade, podemos pensar em
como a teorização de Beauvoir sobre a situação das mulheres é capaz de capturar a dinâmica da opressão de
grupo sem fugir abordar as pluralidades, variedades e contingências das experiências das mulheres. O fato
de Beauvoir escolher nãodesignar mulheres negras, hispânicas e francesas argelinas, por exemplo, como
exibindo respostas previsíveis a suas situações únicas, na verdade serve para preservar a agência individual e
a imprevisibilidade em resposta a tipos sistemáticos de desigualdade e opressão. Ela frequentemente
oferece exemplos da vida de mulheres com várias identidades, mas esses exemplos são dados como
evidências individuais, e não de grupo.
O que revela a situação das mulheres como única em seu reflexo da desigualdade sistemática é como as
mulheres, em vários locais e identidades múltiplas, lutam com os significados atribuídos à feminilidade. Isso
se manifesta de forma muito poderosa em várias experiências de maternidade desde que foia mãe é
considerada o papel mais elogioso que uma mulher pode desempenhar. Ao longo do capítulo, Beauvoir fala
sobre mães que veem sua existência justificada em seus corpos grávidos, aquelas que se sentem mais
eróticas durante a gravidez, algumas que se sentem invadidas pela espécie e outras que fazem disso uma
desculpa para tirar “férias” da responsabilidade e apenas exista. Da mesma forma, ela descreve muitas
respostas contraditórias ao nascimento do bebê. Alguns acham que amamentar é seu destino, enquanto
outros não podem amamentar de forma alguma; alguns se unem imediatamente ao filho, enquanto outros
devem estabelecer laços concretos ao longo do tempo. Algumas mulheres consideram seus filhos tiranos,
outras como extensões de si mesmas; há hostilidade entre a mãe e o filho em crescimento, bem como amor
profundo e duradouro e reciprocidade.
Nenhuma dessas respostas é explicada ou reduzida a um resultado de qualquer situação particular e,
portanto, nada pode ser previsto além do fato de que todas as mulheres devem lutar contra a forte
associação entre feminilidade e várias representações da maternidade. 24Mulheres pobres que não podem
cuidar financeiramente de seus filhos podem ficar muito felizes com o nascimento de um filho, enquanto
uma mulher mais rica se sente sobrecarregada; a mulher que ama seu marido pode sentir repulsa por seu
corpo grávido e a mãe solteira sentir alegria nisso. Embora Beauvoir seja muito sensível às particularidades
distintas da situação de cada mulher, ela não deduz as respostas individuais como previsivelmente
decorrentes dessas situações. Em vez disso, ela procura teorizar a situação das mulheres como constituindo
a luta contra a ideia difusa de que a maternidade constitui a realização pessoal e psicológica das mulheres.
Cada mulher luta e responde a essa situação de maneira diferente, mas nenhuma está livre das expectativas
e fardos psicológicos e físicos que ela impõe.
Ao descrever como isso pode ser diferente, Beauvoir argumenta: “Ter um filho é assumir um compromisso;
se a mãe se esquiva disso, ela comete uma ofensa contra a existência humana, contra uma liberdade; mas
ninguém pode impor isso a ela. A relação dos pais com os filhos, como a dos cônjuges, deve ser escolhida
livremente ”(2010: 566). Mas para que isso ocorra, as mulheres devem se tornar mulheres não por meio de
lutas com os mitos da feminilidade que constituem sua situação atualmente constituída, mas sim mulheres
devem se tornar mulheres em condições de liberdade ampliada. Mas como fazer isso quando as mulheres
são continuamente enganadas pelas tentações da má-fé? Embora seja difícil para qualquer ser humano
abraçar a liberdade, é especialmente árdua para indivíduos que estão habituados aos modos de submissão.A
tentação é sempre alertar para a ação e percorrer o “caminho fácil” para evitar “a angústia e o stress da
existência autenticamente assumida” (2010: 10).
Por todoO Segundo Sexo, há ampla evidência de que, como a felicidade das mulheres é equiparada a certos
tipos de tarefas repetitivas - limpar, cuidar dos filhos, cozinhar - e certos tipos de papéis - mãe, esposa, filha -
as mulheres são sistematicamente encorajadas a abdicar de sua liberdade potencial para alinhar seus
desejos com o que é socialmente produtivo e não destrutivo para o status quo. 25 Esses atos de má-fé são,
como Beauvoir os caracteriza, “uma falta moral se o sujeito consentir; se essa queda é infligida ao sujeito,
assume a forma de frustração e opressão; em ambos os casos é um mal absoluto ”(2010: 16).
Uma mulher individual pode alcançar a liberdade por conta própria ou deve haver uma transformação
coletiva? 26 
A famosa frase “não se nasce mulher, torna-se mulher” está no segundo volume da obra, mas a ideia já é
apresentada no primeiro.

(ver o texto nomeia o patriarcado)