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Alcídio Matos Pereira

Os triângulos de Olho Vivo

Uma aventura geométrica em duas dimensões

Luxemburgo
Abril de 2019
Sumário

Prólogo 4
Olho Vivo…
…materializa-se 5
…traz um problema 8
…deixa tentar resolver antes de dar a solução 13
…convoca Napoleão Bonaparte 18
…começa a levantar o véu 25
…multiplica as soluções 31
…quer o caminho mais curto 36
…tornou-se adicto das rotações 41
…persevera na busca do caminho mais curto 45
…tem a certeza do caminho mais curto 48
…procura pontos raros 51
…achou uma circunferência 57
…volta a multiplicar as soluções 60
…despede-se com mais problemas 66
Epílogo 75
Glossário 76
Prólogo

Não posso dizer que conheça o homem que se nos apresenta sob a alcunha um tanto
ridícula de Olho Vivo. Surgiu do nevoeiro, persuadiu-me a pôr por escrito um
problemita de geometria que em tempos lhe ocorrera, juntamente com a solução que
diz ter encontrado. Utilizou-me sem nunca ter dado qualquer sinal de querer fazer de
mim um amigo. Desapareceu tal como apareceu, esfumando-se.
Ele mesmo tinha consciência da completa insignificância do seu achado, não o
considerando mais do que um simples desafio sem qualquer outra utilidade que o
divertimento que lhe proporcionou. Mas estava convencido de que tanto o problema
como a solução são descoberta original sua, do que não tenho razões para duvidar.
A mim sempre me atraiu esse tipo de desafios, coisa de que Olho Vivo teve conheci-
mento não sei por que artes. Assim, e também porque encontro algum engenho na
forma como ele resolveu o seu problemita, aqui estou a dar satisfação ao compro-
misso que assumi, sem outra pretensão que a de proporcionar um relato fiel dos meus
encontros com ele e de, assim, dar ao leitor a possibilidade de participar da aventura
e de se medir com o mesmo desafio, se essa for a sua inclinação.
Olho Vivo materializa-se

O homem abordou-me no restaurante onde eu ia jantar com certa frequência. Se um


olhar distraído podia tomá-lo por um maltrapilho, uma observação mais atenta
concluiria pelo culto duma certa marginalidade na maneira de se apresentar. Como
me apercebi depois, esse culto deveria pautar toda a sua vida.
— Posso falar consigo? —perguntou em tom um pouco agreste.
— Já está a falar. Faça o favor de se sentar. Em que posso ser-lhe útil?
— O meu amigo teve num jornal, aqui há uns anos, uma secção com enigmas e
problemas de engenho em que o protagonista dava pelo nome de Olho Vivo, não é
verdade?
— Há que tempos isso foi… Mas qual é o seu interesse tão tardio nessas histórias?
— Eu sou o Olho Vivo!
Tive vontade de despedir sumariamente o homem como um daqueles importunos
que, com álcool ou sem ele, apostam em estragar-nos o serão e muitas vezes
conseguem. Mas, talvez por este incidente emergir passados mais de trinta anos sobre
os enigmas do Olho Vivo, a curiosidade foi mais forte;
— Olhe, senhor … Já agora, como é o seu nome?
— Os que me conhecem tratam-me por Olho Vivo e não uso outro nome.
— Caro senhor Olho Vivo, o meu Olho Vivo é um produto da minha imaginação,
que usei para, através de umas historietas, expor uns quantos enigmas, que até nem
eram originais, com o fim de distrair os leitores do jornal. Não tomei por modelo
alguém que eu conhecesse ou de quem tivesse ouvido falar…
— Talvez não, conscientemente...
— E depois, quem é que me diz que o senhor, depois de ler os enigmas, não tenha
decidido adoptar a alcunha? Também pretende ter sido o herói das historietas do
jornal?
— Vamos por partes. A alcunha já a tenho desde moço; mesmo que se considere
ridícula e lembre até chefes de quadrilha doutros tempos, não me envergonho dela.
A descrição, ainda que vaga, que o meu amigo fez de mim, correspondia à realidade.
E, por estranho que lhe pareça, também vivi essas histórias, com excepção de uma:
apesar de ter sido fumador e de ter passado por muitas dificuldades na vida, nunca
andei a apanhar pontas de cigarros.
Olho Vivo fazia referência a um dos enigmas em que se perguntava quantos cigarros
Olho Vivo fez com 49 pontas, sabendo que precisava de 7 para fazer um cigarro.
Estamos de acordo em que hoje tal problema seria mal visto, mas a resposta continua
a ser 8 cigarros.
— Isso é daquelas coisas em que eu, honestamente, não posso acreditar. E porque é
que me vem agora falar do que já lá vai há tanto tempo?
— Não é nenhum dogma, não tem nenhuma obrigação de acreditar. E também não
venho cobrar nada: de qualquer modo já teria havido prescrição, julgo eu. Se o meu
amigo tiver a amabilidade de me escutar durante uns minutos ficará a saber a razão
de o ter importunado.
Olho Vivo fez então uma exposição rápida da sua vida depois da época em que eu o
teria envolvido nas histórias do jornal. Vivia sozinho, a família nunca quis juntar-se
a ele. Nos tempos livres, frequentava os cafés onde se encontrava com camaradas de
trabalho e outros, mas depressa se cansou. Não ligou nunca a jogos de bola, o que
lhe limitava enormemente os assuntos de conversa. E depois, embora só tivesse feito
a instrução primária, sempre teve gosto por aprender coisas novas, o que também
contribuiu para o deixar cada vez mais à margem dos antigos companheiros.
— Mas se isso o fez afastar de uns, permitiu-lhe juntar-se a outros com outro nível
de conhecimentos —alvitrei eu.
— Aí é que o meu amigo se engana. Não se me abriu nenhuma porta mas, se me
permite, não vou desenvolver.
Todo o conhecimento lhe interessava, mas tinha uma especial predilecção pelo tipo
de problemas e enigmas de que diz ter sido protagonista. Pôs-se a estudar a
matemática elementar, em particular a geometria, que o seduzia pelo seu carácter
visual e pela lógica, que, no seu dizer, lhe saltava aos olhos. Tudo isso lhe foi facilita-
do pela Internet, onde encontrou livros e informações acessíveis ao seu nível de
conhecimentos.
Um dia aconteceu-lhe imaginar um problema de geometria que pensa ser original. À
primeira vista não parece ser fácil de resolver, mas Olho Vivo persistiu e pensa ter
encontrado a solução. Apesar de estar convencido de que é original, não tem qualquer
ilusão de que o problema interesse muita gente e não reivindica qualquer glória; mas
gostaria de que ficasse registado de alguma maneira. Confessa que, apesar de ter
praticado muito a leitura, desleixou por completo a escrita e não seria capaz de fazer
nada de jeito. Por isso, depois de ter tirado algumas informações e se ter assegurado
de que eu era abordável, decidiu arriscar e vir ter comigo.
— Mas quem é que lhe disse que eu sabia escrever e que estava disposto a fazer isso?
— Escreveu no jornal e não é preciso nada melhor do que o que fez lá. De que o meu
amigo esteja disposto a fazê-lo não tenho nenhuma garantia; mas, tanto quanto julgo
saber, continua a ter gosto pela matemática recreativa e pelos quebra-cabeças e o que
eu tenho para lhe mostrar vai interessá-lo.
— Eu não tenho nenhuma pretensão como escritor. Outros com muito mais talento
e assuntos muito mais cativantes não conseguem atrair leitores. Mas suponhamos
que escrevo; que fazemos depois com o escrito?
— Pode parecer-lhe estranho, mas isso não me interessa. Só me interessa que fique
registado. Foi um desafio que me deu muito prazer enfrentar.
— E o problema de que fala tem alguma utilidade prática?
— Não lhe vejo nenhuma. Mas também não tem nenhuma utilidade prática escalar
uma parede, quando se tem ao lado umas escadas ou um elevador, não é verdade?
— E vai-me expor agora o dito problema?
— Só o faço quando decidir pô-lo por escrito, juntamente com a solução. A sua
curiosidade e a sua predilecção por este tipo de coisas devem ser suficientes para o
motivar e fazer aceitar o compromisso.
— Sinto que me está a forçar a mão, só espero que valha a pena.
— Então encontramo-nos aqui na próxima sexta-feira à mesma hora. Está de acordo?
Sentia-me manipulado por Olho Vivo. Mas já não via maneira de não estar de
acordo…
Olho Vivo traz um problema

Olho Vivo foi pontual. Só o tempo de tomar um café e entrou no assunto que aqui
nos reunia:
— Nunca me custou adormecer; desde que me disponho a dormir, bastam alguns
segundos. Mas, naquele dia ou melhor, naquela noite, já lá vão alguns anos, enquanto
o sono vinha, a minha imaginação fez-me ver três pontos ao acaso que deveriam
deslocar-se em linha recta até aos vértices de um triângulo equilátero, percorrendo
todos a mesma distância…
— Para divagação antes de dormir, é, no mínimo, muito original. E o triângulo
equilátero deveria estar no mesmo plano que os três pontos, não é assim? —perguntei
eu mostrando-me entendido.
— Na altura esse pormenor não me ocorreu, pois adormeci logo a seguir. Mas,
quando no dia seguinte voltei ao assunto e comecei a tentar resolver o problema,
decidi que o plano deveria ser o mesmo: inútil complicar, eu não tenho capacidade
para sair do domínio recreativo… talvez algum leitor queira ocupar-se de encontrar
soluções em planos não paralelos.
— Leitores… acha que vamos ter algum?
— Nunca se sabe em que mãos um escrito pode cair.
— Primeiro terá que haver escrito, não é assim?
— Claro, mas o meu amigo vai encarregar-se disso.
E retomou o fio da sua história:
— Decidi também que só me interessava procurar uma solução à moda grega…
— Quer com isso dizer que só se pode utilizar compasso e régua não graduada, não
é?
— Exactamente.
E prosseguiu:
— Com a ideia de um dia o divulgar, tentei arranjar uma roupagem para o
problemita, ligando-o a uma situação da vida real que lhe atenuasse a aridez
geométrica que, como sabe, tem um efeito fortemente repulsivo na maioria das
pessoas.
— Sim, sei. E encontrou alguma coisa?
— Nada que finalmente me satisfizesse. Mesmo assim, conto-lhe as duas que me
ocorreram. A primeira envolvia três crianças a brincar com uma bola no recreio; a
determinada altura, o professor manda-as parar no lugar em que estão e dirigir-se
depois, em linha recta, cada uma para o vértice de um triângulo equilátero, percorren-
do distâncias iguais. Pedia-se que se indicasse às crianças como fazer.
— Dá para se perceber…
— Sim, e até permite variantes: pede-se, para começar, que se encontre um triângulo
equilátero qualquer, mas depois pode exigir-se, por exemplo, que, no caso de existi-
rem vários, a distância a percorrer seja mínima ou ainda que o triângulo esteja
centrado na bola, que pode ter parado em qualquer lugar, mesmo na mão de uma das
crianças antes de se moverem.
— Isso já me parece muito complicado e de abordagem difícil.
— Verá que não é tanto assim e que a abordagem pode ser feita praticamente sem
conhecimentos geométricos prévios.
— Mas então o que é que lhe não agrada nessa história das crianças?
— É demasiado artificial. Por que razão o professor iria dar uma ordem absurda
como essa a crianças que não teriam qualquer possibilidade de lhe obedecer?
— Sei de muitos problemas, mesmo clássicos, com situações muito mais artificiais;
conhece certamente o do lobo, da cabra e da couve, por exemplo. Quem se lembraria
de andar com essas três companhias e ainda por cima ter de usar uma barca onde só
cabem duas delas?
— Lá isso é verdade.
— E a segunda história de que me falou, qual era?
— Essa tem a ver com um cenário em que entra alguma ciência-ficção. Três navios
de guerra, idênticos, encontram-se em manobras no mar alto, situando-se em pontos
aleatórios. Num determinado momento, os seus comandantes recebem a ordem de se
colocarem nos vértices de um triângulo equilátero, para uma experiência com um
dispositivo militar ultra-secreto — que, como é óbvio, não faço a mínima ideia de
qual seja…
— O mar alto é considerado um plano sem obstáculos e os navios também têm que
percorrer a mesma distância em linha recta…
— Sim, o contabilista da Marinha quer que o orçamento dos três para a manobra seja
o mesmo; mas pode ainda exigir que o custo total do combustível seja mínimo, ou
seja que seja mínima a distância percorrida por cada um deles. E a experiência pode
exigir que o triângulo esteja centrado no porta-aviões que pode estar em qualquer
lado, ou ainda que o triângulo tenha umas dimensões determinadas.
— Ainda se complica mais do que com as crianças…
— Os adultos sempre foram mais complicados… E ainda não lhe falei da última
manobra do homem das finanças: move influências para que se desista da obrigação
de percorrer distâncias iguais; para ele é mais razoável que a soma das distâncias
percorridas pelos navios seja a mínima possível.
— E continua a pretender que todas essas variantes se podem resolver sem recurso a
conhecimentos de nível superior?
— Sim, tudo tem solução de nível elementar ou até mesmo trivial como gostam de
dizer os iniciados nessas coisas.
Enquanto esta conversa decorria, sem que o meu interlocutor pudesse ver, executei
no meu computador portátil o desenho seguinte:

Enquanto o deixava descobrir o desenho, executado com bastante precisão,


perguntei:
— É esta a versão mais simples da situação que descreveu, tomando como ponto de
partida os pontos A, B e C?
Olho Vivo olhou a figura com atenção e, sem responder, olhou para mim com ar de
grande perplexidade durante uns escassos segundos, até que o rosto se lhe iluminou
e respirou fundo com ar aliviado:
— Por um momento pensei que já conhecesse o problemita ou então que tivesse
encontrado uma solução de repente…, mas acho que nem uma coisa nem a outra.
— Mas então não encontrei um triângulo equilátero em que cada um dos vértices
está a igual distância de um dos pontos A, B e C?
— Claro que não! O que resolveu foi um problema de tal maneira mais fácil que nem
chega a ser um. Desenhou primeiro um triângulo equilátero e depois dispôs ao acaso
os três pontos, só com a condição de estar cada um deles sobre uma das três
circunferências de igual raio centradas nos vértices do triângulo.
E garatujou na toalha de papel um desenho que depois passei a limpo:

— Continua a justificar a alcunha — disse eu de modo não muito audível. Não ouviu
ou então fez de conta e continuou:
— Isso é muito diferente de serem dados primeiro os três pontos e encontrar o
triângulo depois.
— De acordo, é evidente. O seu desenho mostra também que o mesmo triângulo
equilátero é solução de um número infinito de diferentes configurações de três
pontos.
— O que também é muito diferente de a mesma configuração de três pontos ter um
número infinito de triângulos equiláteros como solução.
— Isso parece-me de tal maneira óbvio que talvez nem valesse a pena tê-lo
mencionado…
— Sabe, às pessoas da minha condição acontece-lhes com frequência afirmarem o
óbvio; talvez por falta de recursos de conversa… ou então porque o interlocutor não
dá muitos sinais de o ter em conta. Mas continue…
— Desculpe, não tive qualquer intenção…
— Sem importância, continue por favor.
— Para mais, dados três pontos ao acaso, não é fácil visualizar, ainda que
aproximadamente, um triângulo equilátero que satisfaça as condições; daí que a ideia
de poder haver uma infinidade deles me pareça desde já absurda.
— Bem, prepare-se para algumas surpresas… Entretanto nada o impede de começar
a exercitar-se e de tentar encontrar a solução.
Combinámos encontrar-nos no mesmo local e à mesma hora nas próximas sextas-
feiras até termos esgotado o assunto. Entretanto, decidi fazer algumas pesquisas para
ver se o problema de Olho Vivo não seria já conhecido e não estaria já resolvido.
Depois de várias tentativas, não encontrei nada parecido, mas, como é evidente, isso
não prova que seja original: pode bem estar escondido num dos milhares de
exercícios em livros de geometria ou constituir um problema de uma qualquer
olimpíada.
A afirmação de Olho Vivo de que todas as variantes se poderiam resolver com
métodos elementares deixou-me curioso e decidiu-me a seguir o seu conselho e
tentar encontrar uma solução.
Olho Vivo deixa tentar resolver antes de dar a solução

Comecei por considerar três pontos em situações particulares, onde a solução fosse
evidente.
A primeira e óbvia situação particular consiste em três pontos já coincidentes com
os vértices de um triângulo equilátero.

O próprio triângulo equilátero é solução, caso em que a distância de deslocamento é


nula. Também é solução qualquer triângulo equilátero que resulte da translação
deste:

Outra solução será qualquer triângulo equilátero que resulte do inicial por uma
ampliação ou redução do inicial (homotetia com centro no centro do triângulo, de
razão positiva, maior ou menor que um, respectivamente):
Nada disto me fez avançar na direcção da solução geral aplicável a todas as configu-
rações, mas permitiu ver que, pelo menos neste caso, o número de soluções é infinito.
Prossegui com a configuração em que os três pontos, identificados nas figuras com
as letras A, B e C coincidem com os vértices de um triângulo isósceles. Encontrei
primeiro esta solução:

E depois esta que, intuitivamente, me pareceu uma solução de distância mínima, sem
ver como o poderia justificar.

E fiquei a desconfiar de que existem muitas mais. Não vou maçar os leitores com os
pormenores das construções, mas os mais curiosos poderão reconstituí-las facilmente
a partir das linhas e figura auxiliares. Considerei um triângulo isósceles em que os
ângulos iguais têm mais de 60°, mas não é difícil fazer construções análogas para
aqueles em que os ângulos iguais têm menos de 60°:

Não vislumbrando maneira de atacar o caso em que os três pontos A, B e C são os


vértices de um triângulo escaleno, passei a considerar o caso em que os pontos são
colineares. E comecei com o caso em que dois deles, por exemplo A e B, são
coincidentes (o símbolo ≡ indica a coincidência):

Também aqui não foi difícil encontrar duas soluções, ambas simétricas em relação à
linha que contém os pontos A, B e C.
O passo seguinte foi naturalmente considerar uma configuração de três pontos
colineares quaisquer. No entanto começava a suspeitar de que os métodos que estava
a utilizar não iriam permitir obter nem que fosse uma só solução para os vértices de
um triângulo escaleno. E também não permitiriam elucidar a questão de quantas
soluções haverá para o caso geral, uma vez que as obtidas para os casos particulares
não têm por que ser as únicas. Quanto às soluções que aparentemente são as mínimas,
o que não está ainda provado, verifiquei que as flechas que ligam os pontos aos
vértices do triângulo equilátero fazem estre si ângulos de 120°. Será interessante
verificar depois se esta é uma característica da solução mínima.
A configuração aleatória de três pontos colineares resistiu às minhas tentativas para
construir uma solução no caso geral; no entanto, foi fácil encontrar uma solução para
o caso particular em que um dos pontos (o ponto B na figura) está a uma distância
de A igual a um terço da distância de A a B:

Embora não tenha sido capaz de a construir, a figura seguinte autoriza a nossa
intuição a concluir que existe uma solução de lados paralelos ao triângulo limitado
pela linha ponteada:

DF é uma mediatriz de AB e EF é uma paralela a CG. D é tal que AF = BD. Nestas


condições, DEF é um triângulo equilátero, que será uma solução quando AF = BD =
CE. Na figura da esquerda, EF está numa posição tal que AF e BD são maiores que
CE. Deslocando continuamente a recta EF, por translação e afastando-se de CG,
obtemos a figura da direita em que AF e BD são menores que CE. Há, portanto, uma
posição de EF tal que AF = BD = CD, o que corresponde à solução.
Mas nada disto me fez avançar na busca da solução geral, o que fez nascer em mim
uma grande curiosidade em conhecer a que Olho Vivo terá encontrado, como diz que
encontrou. Veremos se, no próximo encontro, começa a desvendar o seu método.
Olho Vivo convoca Napoleão Bonaparte

Olho Vivo apareceu pontualmente e pediu para ver o que eu já tinha escrito. Enquan-
to tomava o café fixou-se nas minhas tentativas e no que tinha feito com os casos
especiais do problema.
— Também foi por aqui que comecei e as conclusões foram praticamente as mesmas.
Mas no caso da configuração em que os três pontos são já os vértices de um triângulo
equilátero, o meu amigo esqueceu-se de pelo menos duas possibilidades.
— Ai sim? Quais?
Puxou do lápis e, na toalha de papel, desenhou as figuras seguintes que apresento
passadas a limpo:

— Falou de duas possibilidades, mas eu vejo três figuras…


— A primeira corresponde a uma rotação dos três pontos com centro no centro do
triângulo; as outras duas correspondem à mesma rotação seguida de homotetia com
o mesmo centro e de razão positiva maior e menor que 1, respectivamente.
Já não deveria surpreender-me por Olho Vivo usar palavras como “homotetia”, mas
mesmo assim estranhei um pouco; não por ele as conhecer, mas por ele as usar, uma
vez que se me afigurava avesso a qualquer pretensiosismo. Mas devo reconhecer
que, neste caso, não era fácil evitá-las.
— Sim, estou a ver. Mas também poderia ser homotetia seguida de rotação que o
resultado era o mesmo…
— Pois era.
E continuou:
— Eu ainda fiz mais umas construções complicadas, de que já me não lembro, mas
que, duma maneira ou doutra começaram a orientar-me para um método de
resolução.
— E vai agora dizer qual é o seu método?
— Ainda não. Antes disso temos que ver duas coisas.
— Venham elas — disse eu com alguma impaciência misturada com resignação.
— A primeira: temos que dar ao leitor a oportunidade de enfrentar o desafio e
resolver por si mesmo este problemita. Para lhe servir um pouco de orientação, vou
dar a lista das conclusões a que cheguei, que lhe podem servir de programa:
1. Para cada configuração de três pontos, incluindo a de três pontos colineares, há
um número infinito de soluções.
2. Para todas as configurações, excepto a de três pontos colineares, qualquer ponto
do mesmo plano é centro de pelo menos uma solução.
3. Para todas as configurações há uma solução de distância mínima, fácil de obter.
4. Há pelo menos dois métodos distintos para encontrar soluções.
5. É possível encontrar soluções para uma distância dada de cada um dos pontos ao
vértice do triângulo solução, igual ou maior do que a distância mínima.
6. É possível encontrar soluções para uma medida dada do lado do triângulo
equilátero, a partir de certo limite.
7. Indo além do caso de três pontos, é possível encontrar soluções para o problema
do mesmo tipo constituído por quatro pontos num plano e um quadrado no
mesmo plano.
Isto e mais um ou outro pormenor que vamos encontrar pelo meio.
— Hoc opus, hic labor est — disse eu, impressionado com a extensão do programa.
— Isso cheira-me a latinório e eu disso não percebo nada, não lhe adianta estar a
gastá-lo comigo — tornou-me Olho Vivo ligeiramente irritado.
— Descanse, que também não teria muito para gastar… só que me lembrei de um
professor que tive, que citava muito essa frase juntamente com uma tradução muito
sua: Aqui é que a porca torce o rabo. Mas adiante; e a segunda coisa qual é?
— A segunda tem a ver com uma propriedade curiosa de qualquer configuração de
três pontos descoberta, segundo se diz, por Napoleão Bonaparte. Vamos precisar dela
para o seguimento desta história.
— Está a referir-se ao Teorema de Napoleão? Há quem não acredite que seja dele e
insinue que lhe foi oferecido por um matemático amigo.
— Isso para aqui não tem importância. E, já que o conhece, deixo-lhe o cuidado de
o apresentar resumidamente. Vemo-nos para a semana, na sexta à mesma hora.
E deixou-me a fazer o trabalho de casa.
.oOo.
O Teorema de Napoleão é o seguinte:
Se construirmos triângulos equiláteros sobre os lados de um qualquer
triângulo dado, os centros desses triângulos são os vértices de um triângulo
equilátero, quer os triângulos sejam construídos para o exterior quer para o
interior do triângulo dado.
Para quem estiver interessado, podem encontrar-se na Internet diferentes
demonstrações do teorema assim como das propriedades dos triângulos obtidos.
Ao triângulo resultante da construção para o exterior dá-se o nome de triângulo
exterior de Napoleão:

Ao triângulo resultante da construção para o interior dá-se o nome de triângulo


interior de Napoleão:
Para simplificar as figuras em que intervêm triângulos de Napoleão, vamos passar a
construí-los com base naquilo a que, por analogia com o elemento de arquitectura
que vemos na figura, vamos chamar frontão.

O frontão que vamos utilizar é um triângulo isósceles com ângulos iguais de 30°,
que é, portanto, a terça parte do triângulo equilátero com a mesma base. Damos aos
lados desse triângulo os mesmos nomes que os dos elementos de arquitectura
correspondentes e chamamos cume ao ponto de encontro das empenas.

O cume do frontão coincide com o centro do triângulo equilátero. Fazendo com que
cada lado do triângulo de partida seja a cimalha de um frontão voltado para o
exterior, os cumes dos três frontões definem o triângulo de Napoleão exterior. Do
mesmo modo, os cumes dos frontões voltados para o interior do triângulo de partida
definem o triângulo interior de Napoleão.
A figura mostra, à esquerda o triângulo exterior e à direita o triângulo interior de
Napoleão, construídos agora com a ajuda dos frontões.

É também possível construir os triângulos de Napoleão para uma configuração de


três pontos colineares, os quais não são vértices de nenhum triângulo:

Temos igualmente dois triângulos de Napoleão, simétricos em relação à linha que


contém os pontos A, B e C. Neste caso não faz sentido falar de triângulo exterior ou
interior. No caso de três pontos em que dois são coincidentes, os dois triângulos de
Napoleão são igualmente coincidentes:

Porque vamos precisar dele para uma das propriedades dos triângulos de Napoleão,
vamos relembrar o que é o baricentro ou centro de gravidade de um triângulo.
Chamamos medianas às linhas que, num triângulo, unem cada vértice com o meio
do lado oposto.
As medianas, como outras linhas notáveis dos triângulos (alturas, bissectrizes e
mediatrizes), encontram-se num ponto, propriedade de que se pode ver a prova na
Internet ou em livros de geometria.
O baricentro de um triângulo é o ponto de encontro das medianas, identificado na
figura pela letra O:

Uma das propriedades do baricentro é que a distância a que está de cada vértice é
igual a 2/3 do comprimento da mediana correspondente. Esta propriedade prova-se
rigorosamente nos livros de geometria, mas é possível ver intuitivamente que assim
é, utilizando uma analogia mecânica (que não serve de prova).
Se imaginarmos que nos vértices do triângulo há pesos iguais, podemos, para efeito
de determinação do centro de gravidade, substituir dois deles, por exemplo os
colocados em B e C, por um de peso duplo colocado no ponto médio do lado BC.
Para que haja equilíbrio, a distância de A a O terá então que ser duas vezes maior
que a distância de O ao ponto médio de BC. E o mesmo para os outros lados e
vértices.
Isto permite-nos determinar o centro de gravidade de configurações de três pontos
colineares (em que dois deles podem ser coincidentes), para os quais não se pode
falar de mediatrizes, uma vez que não são vértices de nenhum triângulo.

O centro de gravidade divide a distância entre o ponto médio do segmento AB e o


ponto C na razão 1/3 : 2/3.
Estamos agora em condições de apresentar duas propriedades interessantes dos
triângulos de Napoleão:
Os dois triângulos de Napoleão têm o mesmo baricentro que o triângulo que
lhes deu origem.
A diferença das áreas dos triângulos de Napoleão exterior e interior é igual à
área do triângulo que lhes deu origem.
Ambas as propriedades se estendem ao caso de três pontos colineares; assim,
podemos verificar que sendo nula a área do «triângulo» de origem, os dois triângulos
de Napoleão têm a mesma área.

Termino aqui a incumbência de Olho Vivo de apresentar o teorema de Napoleão.


Uma vez que ele disse que iria precisar dele, tentei ver se me dava alguma pista, mas
nada consegui. Para já, não consigo vislumbrar o que ele pode ter a ver com o
problema de Olho Vivo. A minha curiosidade aumenta…
Olho Vivo começa a levantar o véu

Olho Vivo aprovou a minha exposição do teorema de Napoleão. Confessou mesmo


que não conhecia a propriedade das áreas, o que me fez logo concluir que ela não
intervém na solução.
— Então é hoje que me vai apresentar a solução?
— Vamos começar a trabalhar nela, mas não deve haver tempo para tudo.
— Afinal ela é mesmo complicada…
— Não acho nada complicada; não se esqueça que esteve ao meu alcance, que não
tenho estudos, só muita curiosidade e teimosia. Ela tem é muitos pontos de pormenor
a considerar, se queremos chegar a todas as conclusões que lhe anunciei na semana
passada.
— Vamos então a ela?
Pegou no lápis e, à medida que falava, ia rabiscando a toalha de papel com figuras
que, quando necessário, aqui vou apresentando passadas a limpo.
— Pense em três pontos sobrepostos e num outro ponto a uma certa distância deles.
E desenhou:

— Mas porque é que lhes chamou A’, B’ e C e não simplesmente A, B e C?


— Já vai ver. Se me interrompe assim por cada pormenor destes, então vamos tardar
muito a chegar ao fim…
— Eu tenho que ir compreendendo as coisas à medida que as expõe, senão talvez
acabe por me perder e tenha que lhe pedir para repetir tudo. Certamente que espera
que o relato que me pediu para escrever seja o mais claro possível…
— Bem, continuando: com centro em O rodemos agora o ponto A’ de um terço de
volta, para a esquerda e chamemos-lhe A;
— Diz-se que A é a imagem de A’ pela rotação de centro O e ângulo de +120°. O
ângulo tem sinal positivo se for descrito no sentido contrário ao dos ponteiros do
relógio e negativo de for descrito no sentido dos ponteiros do relógio. E talvez nos
vá dar jeito chamar a esta rotação R1.
— O meu amigo é que sabe dessas coisas… Mas vou esforçar-me por usar a sua
linguagem e não se importe de me corrigir sempre que for o caso. Vamos então agora
determinar a imagem B, de B’ por uma rotação de centro O e ângulo de –120°, que
vamos chamar R2:

Assim obtivemos os pontos A, B e C que são os vértices de um triângulo equilátero:

Se agora aos pontos A e B aplicarmos as rotações inversas que chamaremos R’1 e


R’2, respectivamente, voltamos à situação inicial em que A’, B’ e C são coincidentes.
— É uma evidência; mas ainda não estou a ver onde é que isso nos vai levar.
Olho Vivo, lançando-me um olhar que, de colérico, rapidamente evoluiu para
resignado, acabou por explicar:
— Acabei de lhe mostrar como é que se obtém o triângulo que é a solução do nosso
problema!
Abri a boca de espanto:
— Que problema, se ainda nem sequer tem aí os três pontos de partida?
— Tenha calma, lá vamos. Sejam então três pontos P, Q e R; para começar, vamos
considerar o caso em que eles são vértices de um triângulo. Seja também um ponto
O qualquer mas, para começar e para que seja mais claro, vamos considerar um que
seja distinto dos outros três:

Apliquemos agora a P a rotação R’1 (de centro O a ângulo –120°) e a Q a rotação R’2
(de centro O e ângulo +120°):

Obtemos assim os pontos P’, Q’ e R que formam um triângulo, a que vamos chamar
auxiliar:
— Formam sempre um triângulo, nunca são colineares?
— Podem ser colineares e, portanto, não formarem triângulo, mas é um caso muito
mais raro e a seu tempo falaremos dele.
— E para que é que nos vai servir esse triângulo?
— Lembra-se de que, num triângulo, há um ponto que está à mesma distância de
cada um dos vértices?
— Claro, é o circuncentro do triângulo, ou seja, o centro do círculo circunscrito, que
é o ponto de encontro das mediatrizes.
— Vamos então achar esse ponto, que é muito importante para a nossa solução:

— Noto que não atribuiu nenhuma letra ao ponto que diz ser tão importante; foi de
propósito?
— Foi… para ver se já descobriu para que serve esse ponto. Vamos desenhar umas
flechas que unem cada um dos vértices a esse ponto, que têm todas, claro, o mesmo
comprimento; vamos também imaginar que esse ponto são, de facto três pontos
sobrepostos; e sendo assim, não estranhará as letras que lhe vou atribuir:

Essas letras fizeram-me recordar as figuras e transformações com que Olho Vivo
começou a sua explicação e eis-me muito contente por ser já capaz de continuar a
construção e chegar à solução: segundo a convenção feita anteriormente, vamos
aplicar a rotação R1 a A’, a P’ e, para que a visualização seja mais fácil, também ao
vector P’A’; e vamos aplicar a rotação R2 a B’, a Q’ e ao vector Q’B’:
— Vejo que às minhas flechas chamou vectores…
— Para mim serviam as flechas… é só para usar um nome talvez mais familiar aos
eventuais leitores.
— O mesmo método pode aplicar-se ao caso de três pontos colineares P, Q e R e
centro O qualquer:

Para a semana que vem, temos que ver tudo isto de mais perto, porque há uns
pormenores a discutir.
E, com a figura das soluções sem as construções auxiliares, despedimo-nos até à
próxima semana. Sentia alguma admiração por Olho Vivo e pelo engenho da sua
solução que, de facto, só envolve conhecimentos muito elementares de geometria.
Mas estava um pouco perplexo porque Napoleão, afinal, ainda não foi para aqui
chamado…
Olho Vivo multiplica as soluções

Para o encontro com Olho Vivo preparei a figura seguinte, que me pareceu ir apanhá-
lo em falta, pois no seu programa tinha afirmado que só para uma configuração de
pontos colineares havia certos pontos O em que não havia solução. Aqui, é evidente
que P, Q e R não são colineares; como P’, Q’ e R não formam um triângulo, não há
circuncentro e, portanto, não há solução:

Logo que mostrei a figura a Olho Vivo, resmungou:


— Lá está o meu amigo outra vez a fazer desenhos às avessas…
— A alcunha fica-lhe bem, não haja dúvida — disse bem alto desta vez —; nada lhe
escapa!
— Não foi difícil adivinhar. Eu nunca dei com nenhuma maneira de determinar os
pontos O tais que P’, Q’ e R sejam colineares; e não me pareceu que o meu amigo o
tivesse conseguido desde a semana passada.
— Mas eu também não determinei o ponto O…
— Pois não; o que determinou foi P e Q, depois de ter fixado O, P’ e Q’ (e R na
mesma linha que P’ e Q’), o que não oferece nenhuma dificuldade.
— Tem inteira razão, mas vamos ao que aqui interessa. Não disse antes que só para
três pontos colineares havia pontos que não eram centro de nenhuma solução?
— Disse e mantenho. Volte atrás e veja o que eu disse quando comecei a expor a
solução:
Apliquemos agora a P a rotação R’1 (de centro O a ângulo –120°) e a Q a
rotação R’2 (de centro O e ângulo +120°)
Não vê aqui nada de arbitrário? O que é que nos impede de aplicar a P a rotação R’2
e a Q a rotação R’1? Vamos ver o que dá, na mesma configuração de pontos P, Q e
R que antes nos serviu de exemplo:

— É verdade, dá outra solução! E esta ainda mais difícil de prever que a outra.
— Ainda temos mais que falar sobre isto; mas agora vamos ver o que esta segunda
solução dá com o seu exemplo, em que a primeira conduziu a três pontos que não
formam um triangulo:

— Realmente lá está a solução. Quer isto dizer que salvo casos raros e só para
configurações de três pontos colineares, há pelo menos uma solução centrada em
cada ponto do plano?
— Ainda não lhe mostrei que assim é, mas a conclusão será essa. Veremos isso mais
tarde. Agora temos que voltar ao método de solução, para ver se não houve mais
escolhas arbitrárias. Não quer tentar ver por si?
Depois de olhar atentamente para as figuras correspondentes à primeira e à segunda
soluções, descobri a que é que Olho Vivo se referia:
— A escolha do ponto a que não se aplica nenhuma rotação, no nosso caso o ponto
R, também foi arbitrária! — disse triunfante.
— Exactamente. O meu amigo está em vias de se tornar um especialista deste trian-
gular problema…
Não posso dizer que seja um apreciador do humor bastante pesado de Olho Vivo,
que não dá mostras de grande apreço pelo esforço e tempo que consenti em dedicar-
lhe. Mas, sem qualquer ressentimento, continuei:
— Como se pode escolher, à vez, o ponto que não intervém nas rotações, vamos
então ter para cada ponto O, seis diferentes possibilidades de solução, não é assim?
— Vai ver que não. O melhor é fazer a figura deixando, à vez, um dos pontos sem
intervir nas rotações, a que chamaremos fixo. Comecemos pelos três casos da
primeira solução:

— Aparentemente deu o mesmo triângulo —observei.


— É o mesmo triângulo. Repare no triângulo auxiliar, a verde: de uma figura para a
seguinte faz uma rotação de +120° com centro em O. Se quiser pode divertir-se a
escrever todos os pormenores da prova, que não é difícil, pois salta aos olhos.
— Deixo-a para o leitor, mas tem que se desconfiar das figuras…
— Tem razão, com certeza, mas neste caso elas são límpidas. Dizia eu para reparar
no triângulo auxiliar: em todas as soluções o seu circuncentro é um vértice do
triângulo solução. Agora se, sempre com centro em O, o triângulo rodou +120°, o
seu circuncentro também fez a mesma rotação e o vértice do triângulo solução
igualmente. Mas, como uma rotação de 120° em torno do seu centro não altera o
triângulo equilátero, segue-se que é o mesmo triângulo.
— Estou a ver que a mesma coisa se passa com a segunda solução…
— Exactamente, nem vamos preocupar-nos a fazer a figura.
— Podemos mais uma vez descarregar a tarefa em cima do leitor, como exercício; é
o que se costuma fazer quando a coisa se torna aborrecida…
— O meu amigo lá sabe… Ainda voltaremos a discutir a existência de soluções; mas
queria desde já esclarecer uma coisa: dizemos que não há solução quando, depois
das rotações, os pontos não formam um triângulo…
— Quando o ponto fixo e os dois pontos imagem são colineares.
— Assim é que é, ainda hei-de acabar por falar assim. Mas continuando: há também
casos em que o triângulo solução se reduz a um ponto. Consegue ver um?
Mais um desafio de Olho Vivo… Ao passar a limpo as figuras a semana passada, vi
qualquer coisa que fugazmente me fez pensar nisso. Ah, já sei:
— Se se tentar encontrar uma solução centrada no circuncentro do triângulo de que
os três pontos dados são vértices…
— Eu bem digo…. Exactamente: sendo O o circuncentro do triângulo PQR, os
pontos P’ e Q’ estão também sobre a circunferência circunscrita e isto tanto na
primeira solução, que é a da figura, como na segunda. Assim, o circuncentro do
triângulo auxiliar P’Q’R é o mesmo ponto O.
— Então não há nenhum triângulo solução, não reduzido a um ponto, centrado no
circuncentro.
— Pois parece que não, mas um triângulo reduzido a um ponto é diferente de
triângulo nenhum!
— Há ainda mais pontos com características particulares quanto às soluções?
— Há, e a seu tempo lá chegaremos. Antes, iremos ver se encontramos a maneira de
fazer mínima a distância dos pontos aos vértices do triângulo equilátero. Mas isso
fica para a semana que vem.
Olho Vivo quer o caminho mais curto

— Quando comecei a dedicar-me a este problema — começou logo Olho Vivo ainda
durante o café— tive logo a ideia de encontrar o triângulo equilátero mais próximo
dos pontos dados, ou seja, aquele em que a distância de cada um dos pontos ao vértice
respectivo fosse mínima. Isto, desde que houvesse mais de uma solução, claro.
— Mas cedo deu conta de que havia muitas soluções…
— Antes já desconfiava, mas só tive a certeza quando descobri a maneira de resolver
o problema, que lhe mostrei. Fui experimentando com pontos O nos diferentes
centros do triângulo definido pelos três pontos. Já vimos o que acontece com o
circuncentro; o incentro, centro do triângulo inscrito e o ortocentro, ponto de
encontro das alturas, não sugeriram nada de especial. Mas quando tentei com o
baricentro, notei qualquer coisa de especial. Ora veja a figura.
Olho Vivo exibiu a figura que preparou em casa, que aqui apresento passada a limpo:

— Estas são as duas soluções centradas no baricentro do triângulo definido pelos


pontos P, Q e R — rematou Olho Vivo —; não nota nada de especial?
— Sim, noto que em ambas as soluções o triângulo auxiliar parece ser equilátero e
que, duma solução para a outra, o triângulo auxiliar e o triângulo solução aparente-
mente invertem as posições.
— Olá, a cautela nunca fez mal a ninguém; o meu amigo desconfia mesmo ou das
figuras ou da sua vista, ou de ambos!
— E é de desconfiar. Já ouviu falar de ilusões de óptica, certamente; e também lhe
podia dar exemplos de figuras aparentemente correctas que permitem chegar a
conclusões falsas, como, por exemplo, a de que todos os triângulos são isósceles.
— Já ouvi falar, sim; tanto dumas como doutras. Também não me pude satisfazer só
com o que me parecia, mesmo que tivesse uma forte impressão de que o que parecia,
era (onde é que eu já ouvi isto?). Também me parecia que a primeira solução me iria
dar a distância mínima, mas tudo isso tinha que ser visto com mais cuidado.
— Isso de primeira e de segunda solução para já também tem muito de arbitrário e
terá que ser esclarecido. Tem de definir com mais precisão o que é a primeira e o que
é a segunda solução.
— Vamos a isso antes de que fique esquecido. Devido à arbitrariedade que o
incomoda, temos de fazer uma convenção que a elimine:
Consideremos os três pontos (por vezes, ajuda considerá-los como vértices
dum triângulo) no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio; escolhemos
o primeiro (P, na figura) arbitrariamente e deixamos o terceiro (R, na figura)
como ponto fixo.
Chamamos primeira solução (por vezes também primeira construção) àquela
em que começamos por aplicar uma rotação de centro O e ângulo –120° ao
primeiro ponto (R’1) na figura e uma rotação de centro O e ângulo +120° (R’2
na figura) ao segundo ponto.
Chamamos segunda solução (por vezes também segunda construção) àquela
em que começamos por aplicar uma rotação de centro O e ângulo –120° ao
segundo ponto (R’1 na figura) e uma rotação de centro O e ângulo +120° (R’2
na figura) ao primeiro ponto.

— Isso é suficiente para determinar a primeira solução e a segunda sem dar lugar a
confusão?
— Sim; deixei de lado o caso de três pontos colineares onde a distinção não é
importante. Para o resto, recorda-se certamente que vimos que se pode escolher
arbitrariamente o ponto fixo…
— Desculpe tê-lo interrompido. Por favor continue o que ia a dizer sobre as soluções
centradas no baricentro.
— Vou então dizer-lhe o que aconteceu e pela ordem em que aconteceu, que pode
não ser a mais lógica. Olhando para as soluções, os dois triângulos equiláteros
beliscaram a minha intuição e lembrei-me do teorema de Napoleão e dos seus dois
triângulos, que, como muito bem explicou, estão centrados no baricentro…
— Ah, cá aparece finalmente, o Napoleão…
— Deixe-me continuar. No mesmo triângulo desenhei então os triângulos de
Napoleão:

Senti-me momentaneamente decepcionado, pois os triângulos não coincidiam com


as soluções. Mas rapidamente me dei conta de que se rodasse os triângulos de
Napoleão de 60° em torno dos seus centros obtinha os triângulos solução.
— Pelo menos em aparência, não é? E uma outra maneira de ver é, em vez de
considerar a rotação de 60° (positivos ou negativos) com centro em O, considerar os
simétricos dos mesmo triângulos em relação ao seu centro.
— Pelos vistos nunca ninguém o tratou de enfadonho…
— É o rigor, meu caro, é o rigor.
— Que ainda há-de acabar em rigor mortis…
— Espere lá! Então não disse que não percebia nada de latim?
— E isto é perceber alguma coisa? Saiu-me por acaso, por já ter visto ou ouvido isso
em qualquer lado. Nem sequer sou dos que coleccionam essas coisas para poder
brilhar em sociedade; já lhe disse que sou um bicho um bocado solitário.
— Bem, bem, não se irrite!
— De modo que se se confirmarem todas as aparências, temos que a solução mínima
é o triângulo exterior de Napoleão rodado de 60° em torno do centro; e a distância
mínima é a distância de um vértice do triângulo interior de Napoleão ao seu centro!
— Se eu bem entendi, rodando também o triângulo interior de 60°, os vectores que
unem os seus vértices ao centro são equipolentes dos que unem os pontos primitivos
aos vértices do triângulo solução.
— Usou para aí um palavrão…
— Equipolente quer dizer que tem a mesma direcção, o mesmo sentido e o mesmo
comprimento.
— Ou seja, que é igual, mas que pode estar noutro lado.
— Para aqui serve. Vou fazer a figura em que isso se mostra, apagando as linhas
auxiliares:

— Quando a tirar a limpo verá que ela é tão bonita que só pode ser verdadeira!
— Infelizmente a estética não serve de prova.
— Quem sabe se talvez um dia… Mas, para terminarmos por hoje, veja o que
acontece quando pegamos num triângulo e o rodamos duas vezes de 120° em torno
do baricentro ou, o que dá o mesmo, uma vez de 120° e outra de –120°. E escreva
também uma descrição clara do que vê, pois a mim sai-me sempre uma coisa muito
confusa.

Logo que cheguei a casa fui fazer buscas em livros de geometria e na rede para ver
se a propriedade do baricentro que aqui se manifestava era já conhecida. Não
encontrei nada, o que, evidentemente, não permite nenhuma conclusão.
Olho Vivo tornou-se adicto das rotações

Olho Vivo apareceu animado. Logo que se sentou perguntou:


— Então o que acha da figura do triângulo rodado duas vezes de 120°?
— Fiquei surpreendido, mas, depois de reflectir, vi que ela era previsível a partir do
que tínhamos obtido para as soluções centradas no baricentro do triângulo. Viu-a em
algum livro ou em algum sítio?
— Não, apareceu-me assim ao fazer a rotação do triângulo completo. Conseguiu
escrever a descrição que lhe pedi?
— Se espera uma coisa simples, clara e elegante, não consegui. O que consegui foi
isto:
Consideremos um triângulo qualquer e as suas imagens por duas rotações
sucessivas de 120° com centro no baricentro. Cada vértice juntamente com a
primeira e a segunda imagem dos outros dois, definem triângulos equiláteros.
Se os vértices forem considerados no sentido directo (contrário ao dos
ponteiros do relógio), esses triângulos são imagens por translação do
triângulo interior de Napoleão, rodado de 60° e os seus centros definem um
triângulo que é a imagem do triângulo exterior de Napoleão por uma rotação
de 60°, centrada no baricentro; se os vértices forem considerados no sentido
retrógrado (o dos ponteiros do relógio), os triângulos formados por cada um
e pelas imagens dos outros dois, são imagens por translação do triângulo
exterior de Napoleão e os seus centros definem um triângulo que é a imagem
do triângulo interior de Napoleão por uma rotação de 60° centrada no
baricentro.
— Como eu não consegui nada que se lhe pareça, vamos deixar assim.
— Mas devíamos talvez chamar-lhe Teorema de Olho Vivo…
— Não escarneça de mim, sabe que não tenho quaisquer pretensões nem sequer levo
muito a sério estas brincadeiras geométricas. Mas, seja como for, temos que mostrar
que é verdade o que escreveu e assim confirmar as aparências de que falámos a
propósito da solução que dá o caminho mais curto.
— De facto não temos prova de que o triângulo auxiliar seja equilátero, nem que ele
seja igual ao triângulo interior de Napoleão, nem que o triângulo solução seja igual
ao triângulo exterior de Napoleão, rodados um e outro de 60°.
— É isso que vamos ter de provar.
— E também não temos prova nenhuma de que a primeira solução centrada no
baricentro nos dá a distância mínima.
— Sim, mas isso é outro assunto que só poderemos ver depois. Agora vamos olhar
para o último desenho da semana passada e examinar com atenção a figura da
esquerda, que é a que nos interessa para a solução mínima.
— A outra é de certa forma dual da primeira…
— Não sei bem o que quer dizer com isso, mas, no caso de ser alguma coisa útil,
explica-me mais tarde. A figura da esquerda, um pouco simplificada, mas onde
incluímos agora o triângulo interior de Napoleão ABC, dá isto:

A partir daqui, não deve ser difícil para si dar os passos da prova de que o triângulo
P”Q’R é equilátero e igual ao triângulo ABC.
— Vamos ver:
• O frontão P”AQ” é a imagem de P’CQ’ por uma rotação de centro O e ângulo
120°.
• Como o ângulo P’CQ’ é, por definição de 120° segue-se, pelas propriedades da
rotação, que AP” é paralelo a CQ’ e tem o mesmo comprimento.
• Então, o quadrilátero ACQ’P” é um paralelogramo e, portanto, AC é paralelo e
tem o mesmo comprimento que P”Q’.
• Considerando agora o frontão P”BR” e a sua imagem PCR pela rotação de centro
O e ângulo 120°, mostra-se do mesmo modo que BC é paralelo e tem o mesmo
comprimento que P”R.
• O ângulo RP”Q’ e o ângulo ACB têm então lados paralelos e são ambos agudos;
portanto são iguais.
• Segue-se então que RP” e P”Q’ têm o mesmo comprimento e fazem um ângulo
de 60°; portanto o triângulo P”Q’R é equilátero e os seus lados têm o mesmo
comprimento que os do triângulo interior de Napoleão ABC, ou seja, são iguais.
— O meu amigo deu para aí uns saltos um bocado compridos…
— Nada que os leitores não possam acompanhar, tendo só, talvez, que relembrar as
propriedades das rotações.
— E é claro que para os outros triângulos P’QR” e PQ”R’ se faz da mesma maneira,
mudando o que deve ser mudado.
— Desta vez não lhe deu para o latim, mas essa, por acaso, eu também conhecia.
Mas ainda falta provar que os centros dos triângulos P”Q’R, P’QR” e PQ”R’ são os
vértices de um triângulo igual ao triângulo exterior de Napoleão. Deixo para si os
pormenores a partir da figura seguinte:
— A figura tem muitas letras e parece complicada, mas não me parece difícil indicar
os passos:
• O triângulo VZX é equilátero pois os seus vértices são os centros de triângulos
iguais que são imagens uns dos outros por rotações de centro O e ângulo de
±120°.

• O triângulo STU é o triângulo exterior de Napoleão do triângulo PQR.


• XP” e ZQ são paralelos e têm o mesmo comprimento; portanto, P”QZX é um
paralelogramo e P”Q tem o mesmo comprimento que XZ.
• O frontão P”SQ” é a imagem do frontão PTQ pela rotação de centro O e ângulo
de -120°. Pelas propriedades da rotação, P”S é paralelo e tem o mesmo
comprimento que QT.
• Então, STQP” é um paralelogramo e ST tem o mesmo comprimento que P”Q e
que XZ.
• Os triângulos STU e VZX são ambos equiláteros e os seus lados têm o mesmo
comprimento; são, portanto, iguais.
— Não é mais complicada que a anterior…
— Mas ainda falta provar que cada um deles é a imagem do outro por uma rotação
de 60° ou, o que é equivalente, que são simétricos em relação ao ponto O.
— Bem, eu não sei como é que o quer provar, mas, para mim, dois triângulos
equiláteros iguais com o mesmo centro O e com os lados XZ e ST paralelos, mas não
coincidentes, não podem ser outra coisa…
— Sim, isso sugere a prova que vamos deixar para o leitor, se estiver de acordo.
— Claro que estou e também lhe deixamos a prova para a figura que chamou dual,
que deve poder fazer-se com o mesmo tipo de raciocínio. E por hoje ficamos por
aqui que já estou um bocado cansado, apesar de ter sido o meu amigo quem mais
trabalhou…
Olho Vivo persevera na busca do caminho mais curto

— Hoje vamos começar a ver se conseguimos provar que uma das soluções
centradas no baricentro, mais precisamente a primeira, que nos dá o triângulo
exterior de Napoleão, é a solução de distância mínima — declarou Olho Vivo
enquanto se sentava.
— Nem espera pelo café, entra logo no assunto…
— É que gostaria de ver isto terminado e já começa a tardar. Ainda nos falta ver
umas coisas, se queremos dar uma volta completa ao problema. Repare que eu digo
completa, não digo exaustiva. Eu nunca me julgaria competente para dar o assunto
por esgotado, por muito insignificante que ele seja.
— Pois eu também não. Talvez outros lhe dêem atenção e vejam o que nós não
vimos.
— Voltando ao assunto: quando as soluções centradas no baricentro deram como
triângulos auxiliares triângulos equiláteros, a minha intuição dizia-me que tinha
encontrado a distância mínima, ao considerar o menor deles. Tentei encontrar
argumentos directos que me convencessem de que assim era, mas sem resultado.
Acabei por concluir que tinha de encontrar um método que me desse directamente a
distância mínima, que pudesse depois comparar com a da solução centrada no
baricentro.
— Já sei, a partir do programa que apresentou aos leitores, que encontrou esse
método.
— Sim; suponha que se interessa pelas soluções que estão a uma distância d, e repare
nesta figura:
As circunferências com centros em P, Q e R têm todas raio d. Portanto, um triângulo
que seja solução de distância d tem que ter um vértice em cada uma das circunferên-
cias de raio d. Está a seguir-me?
— Creio que sim. Mas como é que vai achar um tal triângulo?
— Mais uma vez com um truque baseado em rotações. Ora veja:

— Deixe-me ver se eu compreendi. Escolheu na circunferência centrada em P um


ponto C ao acaso e determinou a imagem da circunferência centrada em Q por uma
rotação de +60° com centro em C, que é a circunferência com o mesmo raio centrada
em Q’. Esta circunferência intersecta a circunferência centrada em R nos pontos A’
(figura da esquerda) e B’ (figura da direita). Com a rotação inversa determinamos os
pontos A e B (respectivamente na figura da esquerda e na da direita) sobre a
circunferência centrada em Q. Isto dá-nos dois triângulos solução: CAA’ e CBB’.
— Acho que compreendeu. Mas o que foi escolhido completamente ao acaso foi a
circunferência onde situei o centro de rotação; podia ser qualquer delas e o ângulo
podia ser de ±60° dependendo de qual produziria a intersecção. Já o ponto C, embora
arbitrário, tem de estar dentro de certos limites, senão não há intersecção.
— Mas ainda não estou a ver bem como é que vamos chegar à distância mínima…
— A distância mínima será o raio d tal que, qualquer que seja o centro de rotação
que escolha na primeira circunferência, o melhor que pode conseguir é que a imagem
da segunda numa rotação de ±60° seja tangente à terceira. Qualquer raio menor que
d não corresponde a nenhuma solução.
— Isso é muito claro, mas como é que se determina essa distância d mínima?
— Essa faz-me lembrar a conhecida história em que o engenheiro, a pedido do
lavrador, lhe explica em pormenor como é que funciona o motor de um automóvel;
no fim, quando lhe perguntou se percebeu, o lavrador responde: tudo; só não entendi
é como o carro anda sem ter bois a puxar!
— Bem, agora o escarnecido sou eu.
— Desculpe, foi um bocado despropositado. Vamos construir uma figura que mostra
como é que isso se pode fazer.
Olho Vivo começou por situar o ponto E por forma a que o triângulo EQR fosse
equilátero; depois com raio d igual à terça parte do comprimento EP, desenhou as
circunferências com centro em P, Q, R e D; e, com um raio duas vezes maior, a
circunferência de centro E. Depois explicou:

• Tomei arbitrariamente Q como centro da circunferência de raio d, onde vou situar


o centro da rotação de +60°.
• Seja qual for o ponto dessa circunferência onde situe o centro da rotação, a
imagem da circunferência centrada em R (claro está, com o mesmo raio d) será
tangente interior à circunferência de centro E, de raio 2d, e passará pelo ponto E.
• Para que a imagem da circunferência centrada em R seja tangente à circunfe-
rência centrada em P, também de raio d, esse raio terá que ser a terça parte da
distância de E a P.
— Isso dá-nos a distância mínima, mas não nos permite determinar o centro de
rotação sobre a circunferência de centro Q.
— Já lá vamos. Continuando:
• O ponto A que é o ponto de tangência das circunferências de raio d mínimo com
centro em P e em D, é um dos vértices do triângulo solução.
• A imagem da circunferência de centro em Q pela rotação de 60° centrada em A
é, portanto, tangente à circunferência de centro R.
• O ponto de tangência C é o segundo vértice do triângulo solução. Daqui
determina-se o terceiro vértice B que é o centro da rotação que procurava, sobre
a circunferência de centro Q.
E Olho Vivo rematou:
— Pronto. Cá temos a distância mínima e o triângulo solução correspondente a essa
distância. Agora só temos que mostrar que essa distância mínima é igual à distância
de um vértice do triângulo interior de Napoleão ao seu centro.
— Houve aí uma escolha arbitrária da circunferência de centro Q para começar. O
resultado seria o mesmo se tivesse partido de outra?
— Sim, só há uma distância mínima… Eu sei que o argumento não o convence, mas
eu deixo para si ou para o leitor o encargo de encontrar melhor.
— Deixemos então para o leitor.
Olho Vivo tem a certeza do caminho mais curto

Como era hábito seu, Olho Vivo entrou directamente no assunto.


— Da figura que fizemos a semana passada, vamos deixar só o ponto E, além dos
pontos de partida P, Q e R. Sabemos que EP é igual ao triplo da distância mínima d,
e que EQR é um triângulo equilátero. Determinamos o baricentro O de PQR e
construímos o seu triângulo interior de Napoleão. M é o ponto médio de QR e N,
vértice do triângulo interior de Napoleão, é também o centro do triângulo EQR.

— Aquilo que queremos provar é, então, que a distância do vértice do triângulo


interior de Napoleão ao seu centro, ou seja, a distância de N a O é a terça parte da
distância de E a P.
— Exactamente. Isso validará o nosso método de achar o triângulo de distância
mínima usando os triângulos de Napoleão. Creio-o capaz de indicar os passos da
prova a partir da figura.
— Pelo menos vou tentar:
• A distância de M a P vale três vezes a distância de M a O pois MP é uma mediana
do triângulo PQR e O o baricentro.
• A distância de M a E vale três vezes a distância de M a N pois ME é uma mediana
do triângulo EQR e N o baricentro.
• Temos assim uma homotetia de centro M e razão 3 que transforma NO em EP.
Portanto NO é paralelo a EP e NO é a terça parte de EP que é o que queríamos
provar.
— Muito bem. Podemos então agora confirmar o que antes só tínhamos dito de forma
condicional:
A solução de distância mínima obtém-se com um triângulo centrado no
baricentro dos três pontos. Esse triângulo é o triângulo exterior de Napoleão
rodado de 60° e a distância mínima é igual à distância de um vértice ao centro
do triângulo interior de Napoleão.
E vale a pena voltar a ver a figura que agora sabemos ser verdadeira:

Por ela podemos ver que os vectores que unem os pontos aos vértices do triângulo
equilátero fazem entre si ângulos de 120°, que é uma das características da solução
mínima.
— E acaba-se aqui a relação entre o teorema de Napoleão e o seu problema?
— Não, ainda vamos tropeçar com ele a propósito de outra coisa.
— Acho que ele nunca suspeitou dos estranhos usos que estamos a dar aos seus
triângulos…
— Certamente que não. Até para a semana!
Olho Vivo procura pontos raros

— O que é que ainda nos falta ver? — perguntou Olho Vivo logo de entrada.
— Falta-nos ver o caso das configurações de pontos para as quais há pontos do
mesmo plano que não são centro de nenhuma solução.
— E é tudo? Então podemos acabar hoje! — disse quase eufórico Olho Vivo que
vinha dando cada vez mais sinais de que a sua paciência estava a ser submetida a
rude prova, mesmo cabendo-me a mim a maior parte do trabalho.
— Também não vimos o caso em que há infinitas soluções centradas no mesmo
ponto.
— Já deu conta de que há casos desses? A minha confiança na…
Interrompi-o antes de que saísse um disparate qualquer e reconduzi-o ao assunto:
— Voltando à primeira questão: vimos que em cada ponto há, em princípio, duas
soluções; já vimos também que é possível que uma das construções conduza a três
pontos colineares em lugar do triângulo auxiliar; para que não haja nenhuma solução,
é preciso que a outra também conduza a três pontos colineares.
— Já agora, continue, que vai bem…
— Como muito bem me fez notar há umas semanas, eu não sei determinar a priori
quais são os centros que conduzem a três pontos colineares e, pelos vistos, o senhor
também não… E, nesse caso, ainda menos sabemos como encontrar os centros que
conduzem a três pontos colineares nas duas construções!
— Isso significa que teremos de atacar o problema de outra maneira. Que tal se
começarmos com dois pontos P e Q, escolhermos um centro arbitrário O e tentarmos
depois determinar onde poderá estar o ponto R, de modo que para a configuração
PQR não haja nenhuma solução centrada em O?
— Assim de repente não me parece que os problemas sejam equivalentes.
— Se não ficar satisfeito, depois me dirá. Vamos então partir de uma figura muito
simples:
Determinamos P’, imagem de P pela rotação de centro em O e ângulo –120°; do
mesmo modo, determinamos Q’, imagem de Q pela rotação de centro em O e ângulo
120°. Para que não exista o que seria a primeira solução, o ponto R deverá pertencer
à recta r que passa por P’ e Q’.
— Já estou a ver: P” e Q” pertenceriam à segunda solução. Mas, para que ela também
não exista, R deverá pertencer à recta s definida por P” e Q”. Assim, o ponto de
intersecção das rectas r e s é o ponto R que procurávamos.

— Reparou que R parece estar na mesma linha recta que P e Q…


— Sim, mas se for verdade, tem que se provar.
— Claro!
— E as rectas r e s intersectam-se sempre, não podem nunca ser paralelas?
— Podem; se o ponto O estiver à mesma distância de P e de Q, as rectas r e s são
paralelas. Veja a figura: à esquerda o ponto O é mesmo o ponto médio de P e Q; à
direita está à mesma distância dos dois pontos, mas não está na recta que passa por
eles:

— Não provou que as rectas são paralelas…


— Mas não é difícil; deixe para o leitor.
— E é o único caso em que r e s são paralelas?
— Parece bem que sim. PP’P” e QQ’Q” são triângulos equiláteros com o mesmo
centro. Se forem do mesmo tamanho, há rectas paralelas como as figuras mostram;
mas se não forem, ou seja, se P e Q não estiverem à mesma distância de O, não vejo
como pode haver.
— E descarrega também no leitor os pormenores da prova…
— Se ele estiver para aí virado!
— E como é que devemos interpretar a impossibilidade de determinar o ponto R?
— Como estávamos à procura de um ponto R tal que não houvesse solução para a
configuração PQR, isso significa que, se o ponto O for equidistante de P e de Q,
haverá sempre solução esteja o R onde estiver!
— Espere aí… Mas também há a possibilidade de P’ e Q’ serem coincidentes, tal
como P” e Q”; no primeiro caso a recta r é qualquer uma que passe por P’ e, no,
segundo, qualquer recta que passe por P”.
— Bem visto! E daí?
— Daí que, no primeiro caso, R pode ser qualquer ponto da recta s e, no segundo, R
pode ser qualquer ponto da recta r.
— Temos que ver isso de mais perto. Não se esqueça que R é um ponto tal que a
configuração PQR não tem solução de centro O. Veja a figura correspondente ao
primeiro caso em que P’ e Q’ são coincidentes. Não representei a recta r , pois todas
as que passam por P’, menos uma —estamos no território do Euclides— servem.

Esta do “território do Euclides” surpreendeu-me e fez-me desconfiar de que trazia


água no bico. Olho Vivo sempre me pareceu o oposto de um pedante e desde o
princípio que este problemita é desesperadoramente euclidiano e não leva jeito de
deixar de o ser. Talvez mais tarde eu possa vir a compreender a tirada de Olho
Vivo…
— Agora, —continuou Olho Vivo— vamos considerar um ponto qualquer de s, a
que vamos chamar R e tentar uma solução:

— Vejo que encontrou várias…


— Na realidade, há um número infinito delas. Se reparar bem, verá que qualquer
ponto da recta t que é a mediatriz de P’R, é o vértice de uma solução centrada em O.
Portanto, neste caso, para o ponto R em vez de não haver nenhuma solução há um
número infinito delas. Mas o caso do número infinito de soluções eu tinha pensado
vê-lo mais tarde. Onde é que nós íamos?
— Íamos provar que, para que não haja nenhuma solução, os pontos P, Q e R têm
que ser colineares.
— Vamos então voltar a ver a figura e observar que PP’P” e QQ’Q” definem dois
triângulos equiláteros de centro O.

— Dois triângulos equiláteros com o mesmo centro podem ser os triângulos de


Napoleão de um outro triângulo ou configuração de três pontos — disse eu
triunfante.
— Bravo! E cá temos o Napoleão de volta. Só que não é de um outro triângulo, mas
de três, imagens uns dos outros por rotações de 120°…
— Estou a ver. É por causa da simetria dos triângulos…
— O meu amigo lá sabe… Temos então aqui a mesma figura, sem as construções
anteriores e com os triângulos figurados. O triângulo que nos interessou obter a partir
dos triângulos de Napoleão é o triângulo ABC:

— Estou a ver como lá chegou. E assim temos que a recta que passa por P’ e Q’ é a
mediatriz de BC; e a que passa por P e Q é a mediatriz de AC; e a que passa por P”
e Q” é a mediatriz de AB. As três mediatrizes de um triângulo encontram-se num
ponto, que é o ponto R.
— Podemos então concluir que só para configurações de três pontos colineares há
pontos O do plano que não são centro de nenhuma solução.
— E haverá maneira de saber quais são esses pontos O?
— Isso é para ver para a semana que vem, que o serão já vai comprido.
Olho Vivo achou uma circunferência

Ao mesmo tempo que se sentava, Olho Vivo tirou do bolso uma folha de papel na
qual tinha desenhado a figura que aqui reproduzo, como sempre passada a limpo. E
entrou logo no assunto:
— Esta figura foi feita a partir da anterior de que retirei os triângulos e linhas
desnecessárias para o que se segue.

— Bem, espero que a explicação não seja tão complicada como o desenho.
— Não sei; o meu amigo depois dirá… Queríamos ver se seria possível determinar
quais os pontos O do plano que não são centro de nenhuma solução para a
configuração PQR de pontos colineares.
— Exacto.
— Comecemos então por notar que R é o circuncentro do triângulo ABC, visto que
é ponto de encontro das mediatrizes, e que as posições de A e C são determinadas só
pelas posições de P e Q.
— Sim, isso parece-me claro: APC e AQC são frontões de um vértice do triângulo
exterior de Napoleão e de um vértice do triângulo interior de Napoleão,
respectivamente.
— Então, A e C são fixos, mas o ponto B pode ser qualquer ponto da circunferência
de centro R que passa por A e C. O ponto B assinalado é apenas um exemplo a que
corresponde o centro O da figura anterior.
— Continua cristalino…
— Ainda bem. Os centros O — vou continuar a chamá-los assim — são centros dos
triângulos de Napoleão dos triângulos ABC, que, como se lembra, são os baricentros
de ABC.
— Continuo a seguir…
— Não tenho dúvidas de que também se recorda de que o baricentro, que é o ponto
de encontro das medianas, divide cada uma na proporção 2/3 : 1/3, distando 1/3 do
lado que corresponde à mediana.
— O que quer dizer que, para o triângulo ABC na figura, sendo DB a mediana
correspondente ao lado AC, a distância de D a O é um terço da distância de D a B.
— E assim, para todas as posições de B: a distância de D a O é um terço da distância
de D a B.
— Mas, sendo o conjunto dos pontos B uma circunferência, o conjunto dos pontos
O também é uma circunferência; e posso dizer mesmo que esta circunferência é a
imagem da primeira numa homotetia de centro em D e razão 1/3.
— Eu não diria melhor nem mesmo tão bem… Já agora que tão bem disse, continue
e dê, justificando-os, os passos que permitem traçar a circunferência.
— Ás sua ordens:
• E e F, sendo pontos da circunferência, podem ser determinados pois a distância
de D a F é um terço da distância de D a C e a distância de D a E é um terço da
distância de D a H.
• Por outro lado, pertencendo o centro da homotetia D ao diâmetro da primeira
circunferência, o centro da circunferência imagem também estará sobre o mesmo
diâmetro.
• Assim, podemos traçar a circunferência a partir dos pontos E e F: o centro G da
circunferência imagem é a intersecção da mediatriz de EF com o diâmetro da
primeira circunferência. Também poderíamos determinar G sem recurso aos
pontos E e F, fazendo a distância de D a G igual a um terço da distância de D a
R. Neste caso, G e só um dos pontos E ou F permitiriam traçar a circunferência.
— Vejo que a minha figura podia simplificar-se…
— Mas tenho dúvidas de que, com isso, ficasse mais clara.
— Bondade sua…
— Então a circunferência que obtivemos é o conjuntos dos pontos que não são centro
de nenhuma solução para a configuração PQR…
— Não vá tão depressa… O que podemos dizer é que todos os pontos que não são
centro de nenhuma solução para a configuração PQR se encontram sobre a
circunferência.
— Então, se temos de excluir alguns pontos, esses pontos são o quê?
— Cada um deles é o centro de infinitas soluções: é uma circunferência de nada ou
tudo!
— E podemos ver isso hoje?
— Fica para a próxima; mas começaremos por ver, em geral, quais os pontos que
são centro de um número infinito de soluções. Depois, voltaremos a este caso.
Olho Vivo volta a multiplicar as soluções

— Isto nunca mais acaba! —começou por desabafar Olho Vivo. Sentia-se que a
rotina destes encontros semanais perturbava as suas rotinas secretas.
— É interessante ver como um simples problema nos leva a dar tantas voltas…
— E não as daremos todas, pode ter a certeza. Para não perdermos tempo, vamos ver
já que pontos do plano são centros de infinitas soluções.

— Outra vez o Napoleão a aparecer…


— É. Não nos larga. Repare nos vértices dos triângulos dele, tanto os do exterior
como os do interior.
— Sim; que é que tem?
— Como o ângulo das empenas de cada frontão, como lhe chamou, é de 120°, há
sempre uma rotação de +120° ou de –120° centrada no cume que transforma um
extremo da cimalha no outro.
— Hoje está a falar complicado. É melhor mostrar um exemplo.
— Estou a usar os seus termos, mas seja… Em relação à figura, a imagem de R por
uma rotação de 120° centrada no vértice superior do triângulo exterior de Napoleão
coincide com Q. Como o mesmo centro, uma rotação de –120° faz a imagem de Q
coincidir com R.
— E onde é que isso nos leva?
— Recorda-se certamente de que a construção de cada uma das soluções se faz
considerando, por exemplo, o ponto R e as imagens de P e de Q por rotações uma de
+120° e outra de –120°, que normalmente conduzem, em cada um dos casos, a um
triângulo auxiliar, cujo circuncentro é um vértice da solução…
— Sim. Se R e as imagens de P e de Q não forem colineares.
— Já vimos esse caso. E vimos, lembro-lhe, que quando não existe uma das soluções,
a outra existe, exceptuando a configuração de três pontos colineares para a qual há
pontos de certa circunferência que não são centro de nenhuma.
— Ainda está fresquinho na minha memória…
— O que não vimos, a não ser numa situação em que o meu amigo me fez avançar
antes do tempo, foi o caso em que acabámos só com dois pontos ou, o que dá no
mesmo, com um ponto e dois coincidentes.
— Nesse caso também não há nenhum triângulo auxiliar.
— Pois não; mas há circunferências que passam pelos dois pontos e em número
infinito. Mas o melhor é ver as soluções centradas no ponto do exemplo que lhe dei.

— Não vejo que esta, a primeira, tenha nada de especial…


— E não tem, porque nenhuma das rotações levou a que a imagem de um ponto
coincidisse com outro; mas não se esqueça de que há outra solução…

— Cá está. Aqui só temos dois pontos: P’ e R (que coincide com Q’) —apressei-me
a dizer.
— É preciso que note bem que isto acontece para cada um dos vértices dos dois
triângulos de Napoleão: uma das construções conduz só a dois pontos:
— Olá, esta é complicada…
— Parece complicada porque se representaram vários triângulos solução, assim
como as circunferências associadas. Mas o que é importante é compreender que
qualquer ponto da mediatriz de P’R é o vértice de um triângulo solução centrado em
O.
— Estou a ver, sim; está claro.
— Parece-me que já lhe disse que, a partir de certo limite é possível escolher o
tamanho do triângulo solução… Bem, como vê, o que se pode escolher directamente
é a distância do centro ao vértice.
— Mas essa distância pode relacionar-se com o comprimento do lado.
— Vejo que está mortinho por escarrapachar aí a fórmula… Faça lá o gosto ao dedo!
— Pois aqui vai. Basta usar o teorema de Pitágoras e a propriedade da mediana, que
também é altura:

3 √3
+ℎ = ↔ =ℎ ↔ℎ=
2 4 2
2
= ℎ
3
2 √3 √3
= × =
3 2 3

— Falta falar do limite. É fácil ver que o ponto A, tal que AO é paralelo a P’R é o
ponto da mediatriz de P’R que está mais próximo de O. Então, a distância d tem que
ser igual ou maior que a distância de O a A, o que, como é evidente, também
determina um limite para o lado.
— Que é igual a essa distância mínima multiplicada pela raiz quadrada de três.
— Lá disso percebe o meu amigo… Mudando de assunto: vimos da última vez que
talvez fosse necessário excluir alguns pontos da circunferência que nos apareceu a
propósito da configuração de três pontos colineares. Recorda-se?
— Sim; tinha referido que eram pontos que eram centro de infinitas soluções.
— Acabamos de ver que os centros de infinitas soluções são os seis vértices dos dois
triângulos de Napoleão. Aqui trata-se dos seis vértices dos triângulos de Napoleão
da configuração de pontos colineares P, Q e R; como sabe, no caso de dois dos três
pontos serem coincidentes, ficam reduzidos a três pares de vértices coincidentes. O
que é curioso é que esses vértices situam-se todos sobre a tal circunferência!

— A figura mostra-o; mas como é que o prova?


— Cada um dos triângulos de Napoleão tem um vértice na circunferência: os pontos
F e I, respectivamente. O ponto F apareceu logo na construção da circunferência,
pelo menos na minha versão, recorda-se? E o ponto I é simétrico de E em relação à
recta que passa por P e R, que também é um eixo de simetria da circunferência.
— Mas porque é que os outros também aparecem sobre a circunferência?
— Como o meu amigo muito bem expôs já lá vai algum tempo, os dois triângulos
de Napoleão têm o mesmo centro, que coincide com o centro de gravidade do
triângulo ou da configuração de três pontos colineares. Por outro lado, os dois
triângulos de Napoleão de uma configuração de três pontos colineares são iguais.
Daqui que todos os vértices tenham de estar sobre a mesma circunferência centrada
no centro de gravidade dos pontos P, Q e R. Resta ver se G, que é o centro da
circunferência, é também o centro de gravidade dos pontos P, Q e R.
— Isso eu sei que é! Eu até lhe sugeri que o ponto G se poderia determinar por ser a
distância de D a G igual a um terço da distância de D a R! Mas, sendo D o ponto
médio do segmento PQ, isso faz com que G corresponda à definição do centro de
gravidade de P, Q e R.
— Ora aí está. Para terminar, veja na figura o caso de três pontos, P, Q e R em que
P e Q são coincidentes. Neste caso a circunferência tem só três “buracos”; estão
representadas duas dentre o número infinito de soluções centradas num desses
“buracos”.

— O que acontece se o centro for em P≡Q?


— Faça o meu amigo a figura e veja.
Claro que obedeci; e também representei dois dos triângulos:

Depois, sentindo já uma certa pena por se aproximar o termo desta aventura,
perguntei se estava tudo visto.
— Há ainda mais umas coisitas; mas para a semana acabamos de vez.
Olho Vivo despede-se com mais problemas

Hoje Olho Vivo apareceu contente. Era perceptível o alívio que sentia por ver a tarefa
quase terminada.
— Então o que é que ainda falta ver? —fui perguntando enquanto ele tomava o café.
— Lembra-se, quando no início lhe falei na história dos navios de guerra, que havia
a possibilidade de querer saber a soma mínima das distâncias em vez das distâncias
iguais mínimas?
— Sim, apresentou isso como uma exigência do homem das finanças da Marinha…
— Continuando com essa história, vamos supor que o porta-aviões está em O e que
os navios, inicialmente em P, Q e R, respectivamente, têm que se dirigir para os
vértices dum triângulo equilátero centrado em O, gastando no conjunto o mínimo de
combustível; isso implica que a soma das distâncias percorridas por cada um seja
mínima.
— E vamos conseguir resolver esse problema com o seu método?
— Com uma variante. O que temos feito é utilizar umas rotações apropriadas para
converter o nosso problema noutro que consiste em achar um ponto num triângulo
auxiliar a igual distância de cada um dos vértices, ou seja, o circuncentro. Essa
distância é a distância dos pontos originais ao triângulo equilátero que se obtém por
inversão das rotações.
— Dito assim, parece mais complicado que que na realidade é… e em que consiste
a variante?
— No triângulo auxiliar, em vez do circuncentro, vamos determinar o ponto para o
qual é mínima a soma das distâncias aos vértices.
— Está a referir-se ao ponto de Fermat?
— Eu não sabia nada dessas coisas e tive que procurar informações. E tropecei com
esse tal de Fermat de que já tinha ouvido falar aqui há uns anos por causa de um
teorema.
— Sim, é o mesmo Fermat…
— Mas deve saber que o ponto de Fermat só existe para triângulos em que nenhum
ângulo seja igual ou maior que 120°. Para aqueles que tiverem um ângulo igual ou
maior que 120°, o ponto que minimiza a soma das distâncias aos vértices é o vértice
desse ângulo. Já agora faça aí a figura de como se pode determinar o ponto de Fermat:
o leitor poderá encontrar depois a justificação em livros de geometria ou na Internet.
Apressei-me a satisfazer o pedido. Constroem-se, para o exterior, triângulos
equiláteros sobre os lados do triângulo; depois traçam-se os segmentos de cor azul,
que se encontram num ponto F, o ponto de Fermat. Na prática, basta construir dois
dos triângulos.

— Vamos agora pôr isso em prática —continuou Olho Vivo.


Vê-se, na figura, que o triângulo auxiliar se construiu da forma habitual; em vez do
circuncentro determina-se o ponto que minimiza a distância aos vértices, neste caso
o ponto de Fermat F.
— Mas é também preciso fazer a segunda construção – advertiu Olho Vivo.

Neste caso, o triângulo auxiliar RQ”P” saiu muito estirado: o ângulo RQ”P” tem
mais de 120°, de modo que o ponto que minimiza a distância aos vértices é o ponto
Q”. Nesta solução, o ponto Q é um vértice do triângulo equilátero, ou seja, o navio
em Q não teria que mover-se. Havendo duas soluções pretendentes a distância
mínima, será necessário compará-las para decidir. A distância da primeira solução é
a mínima. Olho Vivo conjectura, mas sem ter aprofundado a investigação, que a
primeira construção produz sempre a soma mínima.
Olho Vivo continuou:
— Determinámos a soma mínima das distâncias, mas, se bem se lembra, só no caso
em que o centro do triângulo solução nos é dado. Se o centro não for dado, conjecturo
que a primeira construção centrada no baricentro dará também a soma mínima das
distâncias, mas não me ocorreu a prova. Haverá certamente leitores que nos irão
corrigir e completar…
— Continua a apostar em que haverá leitores…
— Não aposte nisso! Vamos agora ver outra coisa com que vou rematar esta história
dos triângulos, antes de que, por demasiado longa, se torne enfadonha.
— Venha ela.
— Considere o seguinte problema:
Dados dois triângulos quaisquer, dispô-los no mesmo plano de modo que se
possam unir um a um os vértices dum dos triângulos com os vértices do outro
com segmentos de igual comprimento.
— Pelo que vejo, é um problema parecido com o primitivo; em vez de se pedir, como
solução, um triângulo equilátero pede-se um outro triângulo dado. É, portanto, uma
generalização do problema.
— De certo modo pode ver isso assim. Deixo aqui as construções, primeiro para a
determinação de uma solução com um triângulo que seja apenas semelhante ao dado.
— Que é o triângulo ABC… O outro é o triângulo PQR que tomamos como triângulo
de partida…
— Sim; e não vou dar a justificação da construção. O leitor que nos seguiu será
perfeitamente capaz de compreender. A menos que o meu amigo se queira dar a esse
trabalho…
— A história é sua… Deixemos o leitor descobrir.
— Compreendida esta construção, podemos passar àquela que nos dará o triângulo
igual ao triângulo dado, de que também não vou justificar os passos. Dou só uma
pista: aplicamos a mesma técnica que nos permitiu antes obter uma solução com um
determinado comprimento do lado do triângulo. E deixo duas soluções:

Tendo terminado a viagem pelos triângulos, chegou o momento, prometido por Olho
Vivo, de abordar os quadriláteros, ou, mais precisamente, configurações de quatro
pontos no mesmo plano para os quais há que encontrar um quadrado, no mesmo
plano, cujos vértices se unam com os pontos, um a um, por segmentos de igual
comprimento.
Sabendo que quer terminar tudo hoje, só haverá tempo para a questão ser abordada
superficialmente. Espero, mesmo assim, que Olho Vivo mostre como se podem obter
pelo menos algumas soluções.
— Para quatro pontos, —encadeou imediatamente Olho Vivo —tinha que encontrar
uma transformação que levasse três dos vértices do quadrado sobre o quarto, isto
para usar método similar ao que usei para os triângulos. Aqui está: a rotação R1, de
centro O e ângulo –90° leva P sobre S, a rotação R2, de centro O e ângulo 180° leva
Q sobre S e a rotação r3, de centro O e ângulo +90° leva R sobre S.

Para ver o que isso dava, considerei quatro pontos ao acaso e também um centro O
igualmente ao acaso e apliquei a transformação que Olho Vivo acabava de indicar:
— Obtive um quadrilátero auxiliar; mas não há nenhuma circunferência que passe
pelos vértices SR’Q’P’ desse quadrilátero. Ainda se R’ estivesse na mesma linha que
S e Q’, teríamos um triângulo e já seria possível…
— Olhe que não! Olhe que não!
Olhei melhor e…
— Claro que não, que estupidez a minha!
— Deixe lá, acontece aos melhores. Mas a maneira que encontrei de chegar aos
quadrados tem alguma coisa a ver com a sua confusa ideia. Eu não sei, e não sei se
alguém sabe, determinar o ponto O de maneira que o ponto S e as imagens P’, Q’ e
R’ estejam sobre a mesma circunferência.
— Ou, o que é outra maneira de dizer, que S, P’, Q’ e R’ sejam os vértices de um
quadrilátero cíclico —disse eu numa tentativa desesperada para recuperar a auto-
estima.
— Mas é possível determinar posições do ponto O de maneira que duas das imagens
sejam coincidentes e fiquemos então com um verdadeiro triângulo, para o qual
podemos determinar o circuncentro.
Sublinhou bem o verdadeiro, respondendo assim, bem à sua moda, à minha saída
com o quadrilátero cíclico.

— Noto que escolheu como ponto O o ponto médio de uma das diagonais do
quadrilátero…
— É uma maneira de ver… Se considerar que P, Q, R e S são os vértices de um
quadrilátero convexo, sim, mas se o quadrilátero for estrelado, já é o ponto médio de
um lado! Estas considerações e as permutações de vértices dão algumas soluções,
que o leitor pode divertir-se a encontrar de maneira sistemática. Mas não as dão
todas.
— Se este método as não dá todas, quais são as outras?
— Penso que haverá infinitos pontos onde centrar a transformação de modo a que se
chegue a quadriláteros auxiliares cíclicos, como lhes chamou. Para o caso geral, creio
que estão dispersos no plano, ao contrário do que acontecia com os triângulos.
Encontrei alguns, de forma só aproximada, infelizmente; e mostrou a figura que
trouxe de casa:
Não ousei perguntar como os tinha achado. Em vez disso, vendo que Olho Vivo se
preparava para partir, perguntei:
— Então é o fim, acaba aqui a aventura?
— Acaba sim, meu amigo. Ainda havia uma outra coisa, que é o mesmo problema
no espaço, com quatro pontos quaisquer e um tetraedro regular. Creio ter encontrado
também soluções para ele, mas a toalha já está cheia de rabiscos e não há espaço
suficiente para lhas mostrar. Pode ser que a gente se veja por aí. Adeus.
E partiu, desinteressando-se mesmo do aspecto final que o seu problema tomaria
depois de inteiramente posto por escrito.
Epílogo

Não voltei a ver Olho Vivo. Mas, recentemente, por puro acaso, tive notícias dele.
Estava a jantar em casa de amigos onde havia outros convivas. A dada altura
surpreendi a seguinte conversa entre dois deles:
— Conheces o Olho Vivo, aquele que nunca diz a ninguém o verdadeiro nome?
— Sim, que é que tem?
— Pois eu, há dias, fiquei a saber como ele se chama. Fui ao Consulado para tratar
duns papéis e quem é que eu vejo na sala de espera? O Olho Vivo. A gente agora
inscreve-se à chegada e depois chamam quando chega a nossa vez. Às tantas, ouço
chamar: Sr. Euclides Alexandrino! E quem se levantou?
— O Olho Vivo, claro!
— Vocês já viram que raio de nome ele tem? Euclides! Eu nem sabia que houvesse
tal nome! Não admira que o não queira usar —rematou, dirigindo-se agora a todos
os presentes.
E eu, que não me atrevi a intervir na conversa, pensei: efectivamente não há por aí
nenhum futebolista que assim se chame…
E não pude evitar o sentimento de que tem havido por aí alguém a mangar comigo!
Glossário

As definições que sequem destinam-se unicamente a permitir acompanhar a história


de Olho Vivo a quem já tenha esquecido a geometria elementar da escola ou nunca
tenha passado por ela. Não tem quaisquer intuitos pedagógicos.

Altura
Num triângulo chama-se altura a cada uma das três rectas
que, passando por um vértice, é perpendicular ao lado
oposto a esse vértice.
As três alturas encontram-se num ponto chamado
ortocentro.
A medida da altura h relativa a cada vértice, é a distância
entre o vértice e a intersecção da altura com o lado oposto
ou com o seu prolongamento.

Baricentro
Também chamado centro de gravidade, é, num triângulo,
o ponto de encontro das medianas.
O baricentro divide cada mediana na razão 2/3 : 1/3 entre
o vértice e o lado oposto.

Centro de gravidade (3 pontos colineares)

Para uma configuração de três pontos colineares, é o ponto


G a um terço da distância entre o ponto médio M de dois
deles e o terceiro ponto.
Circuncentro

Num triângulo, é o centro da circunferência circunscrita


ao triângulo.
É o ponto de encontro das mediatrizes

Homotetia
Homotetia de centro O e de razão r é a transformação
geométrica que a cada ponto P faz corresponder um
ponto P' tal que OP′⃗ = × OP⃗.
A flecha denota o segmento orientado ou vector; se o
valor absoluto de r for maior que 1, a homotetia é uma
ampliação; se for menor que 1 é uma redução. Se a razão
r for negativa, OP’ e OP têm sentidos opostos.

Mediana
Num triângulo chama-se mediana a cada um dos
segmentos de recta que unem um vértice ao ponto médio
do lado oposto a esse vértice.
As medianas encontram-se num ponto que é o baricentro
ou centro de gravidade do triângulo. Este ponto encontra-
se à distância de 2/3 do comprimento de cada mediana
em relação ao vértice respectivo.

Mediatriz (segmento de recta)

A mediatriz dum segmento de recta AB é a recta r que


passa pelo seu ponto médio e lhe é perpendicular.
Mediatriz (triângulo)
Num triângulo chama-se mediatriz a cada uma das três
rectas que passa pelo ponto médio de um lado e lhe é
perpendicular.
As mediatrizes encontram-se num ponto a distância igual
de cada um dos vértices do triângulo.

Rotação
Rotação de centro O e ângulo θ é uma transformação que
a cada ponto P distinto de O faz corresponder o ponto P’
tal que o ângulo POP’ é igual a θ.
O ponto O permanece invariável. Se o ângulo θ for
positivo a rotação faz-se no sentido contrário ao dos
ponteiros do relógio; se θ for negativo, a rotação faz-se
no sentido dos ponteiros do relógio.
Os comprimentos dos segmentos e os ângulos que fazem
entre si permanecem invariáveis por rotação.
Uma recta e, portanto, um segmento de recta, determina
com a sua imagem um ângulo igual ao ângulo de rotação.

Segmento orientado
É um segmento de recta no qual se definiu um sentido.
Representa-se por uma flecha.
Na figura um dos segmentos é AB; o segmento BA
seria o mesmo segmento, mas com sentido oposto.
Segmentos orientados paralelos, com o mesmo com-
primento e com o mesmo sentido, dizem-se equipo-
lentes. Na figura, AB e CD são equipolentes.
Segmentos equipolentes representam todos o mesmo
vector.
Simetria axial
Simetria axial, também chamada reflexão, em relação a
uma recta r, eixo de simetria, é a transformação geométri-
ca que a cada ponto P faz corresponder um ponto P’ tal
que a recta r é a mediatriz do segmento PP’.

Simetria central

Simetria de centro O é uma transformação geométrica


que a cada ponto P faz corresponder o ponto P’ tal que O
é o ponto médio do segmento PP’.
É equivalente a uma rotação de centro O e ângulo de
180°.

Translação

Translação associada ao vector ⃗ é uma transformação


geométrica que a cada ponto P faz corresponder um
ponto P’ tal que o segmento orientado PP’ é uma repre-
sentação do vector ⃗.

Vector
Um vector é uma classe de segmentos orientados
equipolentes. Qualquer um desses segmentos é uma
representação do mesmo vector.

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