Você está na página 1de 7

A problemática dos processos de construção de identidades coletivas 

Reflexões a respeito das relações entre os processos de construção de


identidades coletivas, e a utilização dos patrimônios culturais como recurso de
manutenção das identidades.  
  
Grupo de Trabalho (11) 
Grupo de Trabalho (07) 
  
Resumo
O trabalho a seguir é o início de um projeto de pesquisa que sugere uma reflexão a respeito
dos processos de construções identitárias e da utilização dos processos de patrimonialização
como recurso de afirmação e manutenção destas identidades, abordaremos, portanto,
conceitos que interligam e colaboram na produção destes sistemas, como o dever de memória,
e os bens culturais que permeiam o processo construtivo destas identidades e as relações
pouco questionadas entre os agentes que compõem este cenário.
  
Palavras-chave: Identidade, patrimônio, memória .
  
Abstract
This work is a research project that suggests a reflection about the processes of identity
constructions and the use of patrimonialization processes as a resource for affirmation and
maintenance of these identities. Therefore, the work will aproach concepts that interconnect
and collaborate in the production of these systems, as the duty of memory, the cultural goods
that permeate the constructive process of these identities as well as the little questioned
relations among the stakeholders that compose this scenario.

  
Key-words:Identity, patrimony, memory.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando as práticas, os valores e os costumes de determinado grupo de indivíduos passam a
ser reconhecidos pelo próprio grupo como um movimento relevante, é possível
que essa tomada de consciência gere nos indivíduos que protagonizam as vivências, a ideia de
uma identidade coletiva. Ao terem consciência de
sua condição os integrantes do grupo, induzidos pelo dever
de memória, certamente necessitaram de recursos que garantam a manutenção dessa
identidade cultural coletiva que surge. Este resumo é o início de um projeto de pesquisa que
sugere uma reflexão a respeito dos processos de construções identitárias e da utilização dos
processos de patrimonialização  como recurso de afirmação e manutenção destas identidades,
abordaremos, portanto,  conceitos que interligam e colaboram na produção destes 
sistemas, como o dever de memória, e os bens culturais que permeiam o processo
construtivo destas identidades. Tomando como
referência os textos de teóricos como Michel Argier, Paulo Peixoto, e Stuart Hal, que
produziram estudos que nos fornecem estrutura para nortear pesquisas
no campo,  contribuem nesta ocasião  para uma reflexão crítica a respeito da criação
destas identidades na área da museologia que é um campo que lida de forma direta com
abordadas neste trabalho.    
 

Identidades culturais coletivas  


O conceito de identidade no campo dos bens culturais e museológicos está bastante
relacionado ao dever de memória e a preservação de práticas e costumes de grupos de
indivíduos que partilham de experiências comuns, a consciência desta condição, de que suas
histórias trazem consigo uma singularidade plena de valores necessários de salvaguarda, 
e também a possibilidade de que os processos de patrimonialização possam sugerir o
surgimento de novas identidades coletivas são questões que pretendemos compreender nesta
pesquisa. 
 
Os processos que desencadeiam
nas construções de identidades coletivas, são moldados por valores e costumes de uma cultura
pré-existente e que geralmente são acrescentadas de velhos e novos esquemas dos grupos de
indivíduos que tomando consciência da relevância de sua cultura, passam a reclamar o
reconhecimento dessas identidades. Assim, as identidades coletivas surgem a partir da soma
dos costumes, hábitos, valores e experiências absorvidos como a realidade social
de grupos que compartilham dos mesmos sentimentos relacionados a sistemas específicos,
experimentados em um meio comum, onde se faz possível que um povo ou um grupo
possa ser considerado singular, e assim se diferenciar entre os outros. 
As propostas museológicas e as políticas dos bens culturais sugerem a estes grupos a
necessidade da preservação de seus hábitos para evitar o desaparecimento de sua cultura,
assim, a construção e o fortalecimento de identidades coletivas se apoiando no dever de
memória, utilizam como estratégia para a resistência dessa cultura a identidade cultural
coletiva, que por sua vez se apoia nos processos da indústria de bens culturais
para garantir sua manutenção. 
A respeito da concepção de identidades culturais coletivas, o texto Distúrbios identitários em
tempos de globalização, de Michel Agier nos ajuda a compreender a dinâmica
desse conceito e então ter condições de relacionar com os demais
conceitos elencados,  o autor explica que  toda identidade individual ou coletiva é
inacabada, instável e ao relacionar-se com outras identidades distintas modificam os
pertencimentos originais referentes a regiões e etnias, ocasionando a problemática
e a transformação da cultura ( Agier, 2001) Diante disso, reconhecemos rapidamente a
fragilidade das estruturas que alicerçam os processos de patrimonialização que se apoiam nas
performances identitárias. 
Para pensarmos a problemática das relações Inter identitárias ou as possibilidades de
construção,  entendendo neste caso o termo construção como edificação ou mesmo criação de
algo novo, algo que não existia anteriormente -   ainda no texto de Agier temos o exemplo de
sua pesquisa relacionada à fundação do Grupo carnavalesco Ilê Aiyê da Bahia, onde podemos
experimentar de fato um processo de construção identitária e as consequências que
movimentos como estes podem causar na cultura, seria talvez este tipo de problema e
transformação a qual Agier se referia, onde a cultura poderia ser acometida por danos
causados pelos processos de construção de identidades culturais coletivas. 
   

Dever de memória  
O modo de vida das sociedades contemporâneas motiva os indivíduos dos grupos sociais
a aderir a prática do registro de seus hábitos e vivências, sentimo-nos por vezes, obrigados a
manter vivas, memórias dos mais diversos aspectos da nossa existência, essa prática sai do
reduto pessoal e individual, se estende ao âmbito familiar e chega na camada coletiva onde os
grupos sociais "organizados", reivindicam seu direito a memória. Quando
chegam às camadas coletivas, os problemas que estas questões envolvem
podem ocasionar transformações importantes e graves em diversos âmbitos das relações
sociais. Importantes escolhas são feitas e como em todos os casos e por mais que seja real o
desejo de manter viva toda a memória que permeia nossa existência, sem nos darmos
conta, por diversas vezes estamos fazendo um importante exercício de curadoria, costurando
assim, a narrativa que contará a história de nossas vidas. Ao acolher equipamentos culturais
como objetos representantes de uma identidade ou cultura, os indivíduos devem estar atentos
se estes equipamentos realmente estão sendo utilizados a favor do grupo representado, e
lembrar que existem os casos em que o patrimônio cultural não estará a serviço das
identidades culturais.  (PEIXOTO, 2004) 

Processos de patrimonialização
Desde que o conceito da palavra patrimônio se expandiu deixando de corresponder apenas a
um conjunto de bens transmitidos de uma geração a outra, a expressão passa a ter usos
diversos e entre eles designa a noção de "patrimônio cultural", este conceito permite
que qualquer indivíduo que se reconhece pertencente a uma cultura, se veja representado por
determinados bens culturais. O que acontece é que nem todos os casos em que patrimônios
são nomeados ou elegidos com bens culturais de grupos específicos dentro de uma sociedade,
nem todos os indivíduos pertencentes a um mesmo núcleo cultural se sentirão
representados ou nutrirão um sentimento de pertencimento por esse bem, isso se deve ao fator
da possibilidade de que um único indivíduo possua mais de uma identidade. (HALL,2002)
Quando se trata, então, de relacionar os bens culturais aos processos que se dá durante
a construção das identidades culturais coletivas, esta é uma das problemáticas que traz
consigo a noção do patrimônio cultural. Outra situação de conflito é a forma de produção
destes patrimônios e das identidades, pois quando determinada prática, costume ou até mesmo
bem material é acrescentado de signos, valores e memórias, é possível que isto suscite em
grupos sociais a identificação este ou aquele bem fazendo com que estes grupos se apoiem em
torno do patrimônio, o reconhecendo como patrimônio cultural representante de suas culturas
e identidades coletivas, no entanto o percurso feito tanto pelas identidades coletivas
quanto pelos patrimônios culturais é uma via de mão dupla, pois na mesma medida em que o
patrimônio servirá aos integrantes dos grupos identitários como garantia de reconhecimento e
afirmação de suas identidades no meio social, por outro lado possa também as identidades ser
utilizadas como ferramentas a serviço do surgimento de novos bens culturais. A
terceira possibilidade é à proposta por Paulo Peixoto em seu texto A identidade como recurso
metonímico dos processos de patrimonialização, onde ele diz o seguinte: 
"Patrimônio e identidade aparecem frequentemente como termos de uma mesma equação. Um
patrimônio faz prova da existência de uma determinada identidade. Uma identidade insinua-se
e justifica-se na medida em que se revela caucionada por um patrimônio." 
(PEIXOTO,2004, p. 183) 
 
 
A partir dessas considerações compreendemos que mesmo sendo estreita a relação entre
patrimônio e identidade, os processos de patrimonialização nem sempre irão assegurar que a
identidade será representada da forma esperada, tanto como as construções identitárias
algumas vezes também não darão conta de socorrer os patrimônios. Sabendo que o patrimônio
e a identidade apoiam-se um no outro para alcançar seus objetivos como objetos do campo
dos bens culturais que são, observamos que nem todas as práticas que produzem identidades
são abraçadas pelos patrimônios, pois o mesmo geralmente pretende alcançar espaços
distantes dos alvos dos processos identitários. 
Sendo assim, o trabalho sugere investigações empíricas sobre as relações entre os patrimônios
culturais e os grupos sociais que são representados por estes equipamentos na cidade, para
testar as referências teóricas utilizadas neste trabalho no campo museológico da cidade do
Recife.  

Referências Bibliográficas 
AGIER, Michell. DISTÚRBIOS IDENTITÁRIOS EM TEMPOS DE
GLOBALIZAÇÃO. Mana [online]. 2001, vol.7, n.2, pp.7-33. ISSN 0104-9313.  
DESVALLÉES, André; MAIRESSE, François. Conceitos-chave de Museologia. Tradução:
Bruno Brulon Soares, Marília Xavier Cury. ICOM: São Paulo, 2013. Disponível em:
<http://icom.museum/fileadmin/user_upload/pdf/Key_Concepts_of_Museology/Conceitos-
ChavedeMuseologia_pt.pdf>. Acesso em: set.2017 

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 7ª ed. Rio de Janeiro: DP&A,


2002.  

Você também pode gostar