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Contribuições da biomecânica para o esporte

    O corpo humano é um dos principais objetos de estudo do homem. À busca por
compreender o seu funcionamento, contrapõe-se a sua complexidade, levando cientistas e
estudiosos a aprofundar cada vez mais os seus estudos (...). No século XX ocorreram grandes
avanços tecnológicos que se refletiram nos métodos experimentais usados em praticamente
todas as áreas de atuação científica, incluindo a Biomecânica, ocasionando um grande avanço
nas técnicas de medição, armazenamento e processamento de dados, fatos estes que
contribuíram para o estudo e melhor compreensão do movimento humano (1).

    A Biomecânica estuda diferentes áreas relacionadas ao movimento do ser humano e animais,
incluindo: (a) funcionamento de músculos, tendões, ligamentos, cartilagens e ossos, (b) cargas
e sobrecargas de estruturas específicas, e (c) fatores que influenciam a performance (1).

    Biomecânica é uma disciplina, entre as ciências derivadas das ciências naturais, que se
ocupa com análises físicas de sistemas biológicos, conseqüentemente, análises físicas de
movimentos do corpo humano. Estes movimentos são estudados através de leis e padrões
mecânicos em função das características específicas do sistema biológico humano, incluindo
conhecimentos anatômicos e fisiológicos (2). No sentido mais amplo de sua aplicação, ainda é
tarefa da biomecânica das atividades esportivas a caracterização e otimização das técnicas de
movimento através de conhecimentos científicos que delimitam a área de atuação da ciência,
que tem no movimento esportivo seu objeto de estudo (...) (3).

    A Biomecânica se consolidou [principalmente] ancorada pelas demandas do esporte de


rendimento, seja sob o ponto de vista da fundamentação científica para o desempenho
esportivo (4), seja sob a forma da produção de materiais esportivos (...) (5).

    O atual desenvolvimento da Biomecânica é expresso pelos novos procedimentos e técnicas


de investigação, nos quais podemos reconhecer a tendência crescente de se combinar várias
disciplinas científicas na análise do movimento. Nos últimos anos, o progresso das técnicas de
medição, armazenamento e processamento de dados contribuiu enormemente para a análise
do movimento humano. É claro que nenhuma disciplina científica se desenvolve por si mesma.
Para a sua formação, a Biomecânica recorre a um complexo de disciplinas científicas, fato este
que consolida a dependência multidisciplinar na formação de um domínio de conhecimento com
estreitas relações interdisciplinares (2).

    A Biomecânica do esporte integra outras áreas da ciência que, possuem igualmente no
movimento esportivo, a definição do seu objeto de estudo (3). No Brasil, os resultados das
pesquisas em Biomecânica têm influenciado diretamente na Medicina, Ergonomia, fabricação de
equipamentos esportivos e muitos outros aspectos da vida humana (1). Atualmente existem
centenas de estudiosos interessados em Biomecânica. Os resultados das suas pesquisas
contribuem grandemente para aumentar a compreensão sobre os limites do corpo humano. As
suas aplicações ao nível da Medicina, Ergonomia, Desporto e equipamentos, são inúmeras (6).

    Através da Biomecânica e de suas áreas de conhecimento correlatas podemos, portanto,


analisar as causas e fenômenos vinculados ao movimento. Para que possamos entender melhor
a complexidade do movimento humano e explicarmos suas causas, é necessário que outros
aspectos da análise multidisciplinar sejam também considerados (2).

    Estes exemplos ilustram a diversidade da pesquisa Biomecânica e as diferentes contribuições


que os biomecânicos podem dar ao conhecimento do movimento e da performance humana
(7). Ela também pode auxiliar na produção de conhecimento para aquisição de competências
tecno-motoras, que levam em consideração as características dos participantes, do contexto e
sua organização, possibilitando uma efetiva aprendizagem (1).

    O objetivo principal da Biomecânica no desporto é analisar o gesto técnico desportivo e seus
detalhes mais específicos, descobrir possíveis falhas existentes na execução deste gesto e
possibilitar a melhoria do desempenho atlético através da correção e/ou adaptação da técnica
desportiva para uma técnica mais eficaz.

    Um professor [ou técnico] bem sucedido deve tão somente conhecer a proposta do
movimento que está sendo analisado, mas também conhecer os fatores que contribuem para
uma excussão habilidosa do movimento. Uma técnica defeituosa impedirá que o atleta coloque
suas potencialidades físicas (força, flexibilidade, resistência, etc.) crescentes a serviço de uma
performance específica superior (6).

    Visto que o conhecimento de uma técnica específica necessariamente precede qualquer
tentativa de ensinar ou treinar outros a mais altos níveis de conhecimento, desta forma,
admite-se que o conhecimento de Biomecânica deva ser de capital importância (4). Precisa-se
entender que os métodos tradicionais de ensino e treinamento mostram o que e como ensinar,
enquanto a Biomecânica permite entender porque determinadas técnicas são mais apropriadas
do que outras (1).

    Qualquer pessoa interessada nos conhecimentos acerca do mundo da atividade física
humana encontrará na Biomecânica um meio para compreender melhor esta área, já que
usufrui não só de conhecimentos, mas também de diferentes técnicas de medida, registro e
avaliação do movimento humano (8).

    No trabalho com o movimento humano, os biomecânicos examinam a cinemática


[cinemetria] (estudo da descrição do movimento incluindo considerações de espaço e tempo)
do movimento, a técnica ou a forma desempenhada pelo praticante. Uma abordagem
biomecânica também envolve questões concernentes à cinética [dinamometria] (estudo das
forças causadoras ou resultantes do movimento), como a produção de certa quantidade de
força pelos músculos que seja apropriada ao propósito intencional do movimento (7, 2).

    Tendo em vista a utilização da Biomecânica para o estudo e melhoria da técnica desportiva,
vale ressaltar que esta também traz muitas outras contribuições ao esporte. Dentre essas
contribuições, podemos citar: prevenção de lesões, desenvolvimento de equipamentos
esportivos, controle de cargas sobre o atleta e desenvolvimento de métodos de medida e
avaliação. A Biomecânica ainda pode contribuir para o “aperfeiçoamento do processo de
treinamento, aperfeiçoamento e adaptações ambientais, aperfeiçoamento do mecanismo de
controle de cargas internas do aparelho locomotor, aperfeiçoamento de sistemas para
simulação de movimentos, aperfeiçoamento tecnológico instrumental para aquisição e
processamento de sinais biológicos e ao aperfeiçoamento de sistemas (hardware e software)
para análises de movimentos e conseqüentes aplicações práticas” (1).

A Biomecânica é uma área de estudo biológico pelo olhar da mecânica. Buscamos olhar os
seres vivos com atenção às suas estruturas e funções de seus sistemas.

Através desse ponto de vista, mais especificamente pensando em exercício físico, a


biomecânica busca estudar os esforços externos para que exista uma melhor compreensão das
repercussões destes nas estruturas internas.

Por exemplo, quando realizamos o exercício rosca bíceps com um halter de 2kg, qual é o
impacto que essa sobrecarga tem sobre os músculos flexores do cotovelo?

Durante toda a amplitude de movimento a sobrecarga é a mesma? Para responder essas


perguntas e ter maior segurança na hora de selecionar exercícios e escolher cargas é
necessário analisar o exercício do ponto de vista biomecânico.

Biomecânica da corrida na melhora do exercício

Um ciclo de passada é composto por 2 fases principais:

 Fase de contato;

 Fase de balanço.

A fase de contato é aquela em que mantemos o pé em contato com o solo, enquanto a fase de
balanço é aquela que representa a fase aérea.

Durante esta fase é que temos a ação do ciclo-alongamento-encurtamento e a contribuição


mecânica para a propulsão e minimização de energia.

A fase de contato pode ser dividida em contato, apoio e despregue.

O contato é a aterrissagem do calcanhar no solo, gerando uma força contrária ao


deslocamento a frente e é quando existe uma demanda muscular excêntrica para amortecer
as tendências de flexão de joelho e quadril.

É nesse momento que existe o pico de força de reação do solo, que é responsável pelo
desenvolvimento de lesões articulares e fraturas de stress.

A fase de apoio é quando todo o pé está em contato com o solo, esta é uma fase de transição
e absorção de energia mecânica.

Já a fase de despregue é a fase que a musculatura propulsora em membros inferiores é mais


exigida em sua ação concêntrica e é quando existe a transferência de energia elástica
somando-se ao esforço cardiorrespiratório para manter o sistema muscular ativo.

Podemos observar essas duas fases da passada, para buscarem a melhora do padrão mecânico
do nosso aluno de corrida.
Por via de regra um menor tempo de contato é acompanhado de menores tempos de
contração concêntrica, que é bastante dispendiosa, e representa um correr mais econômico.

Além disso, ao aumentar a fase aérea, se tem uma redução da frequência de passada o que
também contribui para uma melhor performance, menor número de passadas e
consequentemente menor número de pico de impacto, reduzindo a sobrecarga articular e o
risco de lesão.

Análise biomecânica da corrida

É necessário fazer uma avaliação biomecânica e postural completa, para poder identificar
como seu aluno corre em relação as fases da passada, ou qual o tipo de pisada que seu aluno
tem.

Na avaliação postural escolha o protocolo que lhe é mais adequado e procure por desvios
posturais que possam interferir no movimento de membros inferiores, alterar o centro de
massa, gerar co-contrações para estabilização dinâmica.

Todos esses desvios podem gerar lesões com as altas cargas de impacto promovidas
pela corrida, além de gerar padrões neuromusculares de ativação que sejam pouco eficientes.

Procure corrigir desequilíbrios musculares, e encurtamentos que possam prejudicar a


amplitude de movimento, e gerar lesões futuras, uma vez que a corrida é uma atividade cíclica
e que sobrecarrega bastante as estruturas corporais.

Fique atento nos:

 Tipos de pisada;

 Desvios em joelhos;

 Amnésia glútea;

 Encurtamento do sóleo e flexores do joelho;

 Síndrome do piriforme;

 Pouca força em transverso e estabilizadores da coluna.

Um sistema sem equilíbrio gasta muita energia para se equilibrar durante a corrida, energia
essa que poderia estar sendo utilizada para melhorar a performance e alcançar benefícios de
saúde.

Outra avaliação importante para que se possa ter uma visão mais específica seria um teste de
corrida.

Filme seu aluno correndo, seja em esteira ou ao ar livre, em torno de 120Hz, para que você
possa analisar o ângulo do pé no contato e despregue, além da trajetória do membro inferior
durante a fase de balanço, o posicionamento do tronco e o movimento de membros
superiores durante a passada.
Benefícios e importância da biomecânica da corrida

Conhecer a biomecânica da corrida e suas diferentes modalidades é de total importância para


estruturar e planejar o treinamento do seu aluno, seja ele atleta ou corredor recreacional.

Procure entender com cuidado os mecanismos e musculações que envolvem a corrida, quais
os músculos mais envolvidos e quais são os determinantes de performance.

Como já dito anteriormente, a biomecânica da corrida realizada de forma adequada traz


benefícios, como:

 Prevenção de lesões;

 Melhora na performance.

Para isso, o profissional de educação física deve estar atento aos pequenos detalhes do padrão
de locomoção do seu aluno.

Cuidados a serem tomados pelo professor

O professor deve:

 Realizar uma avaliação física completa;

 Avaliar o perfil antropométrico;

 Realizar uma anamnese completa;

 Ouvir todas as queixas dos alunos.

Tendo isso em mãos, o professor deve estruturar o treinamento a fim de preencher as lacunas,
ou seja, procurar trabalhar em cima dos desvios, buscando um alinhamento postural para que
exista um menor risco de lesão.

É interessante também realizar uma avaliação cardiorrespiratória.

Existem hoje diversas técnicas de campo e esteira que podem ser realizadas facilmente, para
que possa estimar o primeiro e segundo limiares ventilatórios.

Isso também possibilita o consumo máximo de oxigênio e consegue estabelecer um


treinamento baseado em parâmetros fisiológicos confiáveis que trarão melhores resultados ao
seu aluno.

Num terceiro momento, filme seu aluno correndo e observe cuidadosamente os movimentos
dos membros superiores e tronco.

Pequenas rotações da coluna são comuns, mas deve ficar atento para ver se não estão sendo
acentuadas.

Fique de olho: Se as mãos ultrapassam a linha média do corpo e saem do plano sagital, o seu
aluno pode estar gastando energia à toa e se tornando menos econômico, o que pode
influenciar na sua performance e sobrecarregar a coluna.
Além disso, observe o comprimento e frequência de passada do seu aluno. Uma menor
variabilidade desses parâmetros indica um corredor mais estável e mais econômico.

Passadas com maior comprimento e menor frequência, também são benéficas. Isso ocorre
pois diminui o número de eventos de contato com o solo, reduzindo a sobrecarga sobre as
articulações.

Observe ainda o tempo de contato do pé com o solo, para corredores de longas distâncias é
normal que esse tempo seja maior do que corredores de Sprint.

Mas lembre-se, um tempo de contato muito longo prejudica a eficiência do sistema massa-
mola, e o corredor passa a gastar mais energia metabólica para correr e aproveita pouco da
energia elástica, que é mais econômica.

Conclusão

A biomecânica é o estudo de estruturas e músculos do sistema de seres vivos sobre um olhar


da mecânica.

O estudo de biomecânica da corrida é feito com o intuito de planejar e melhor o treinamento


de seu aluno. Entendendo corretamente as musculações e os mecanismos que envolvem a
corrida é possível planejar um plano ideal para seu aluno, que melhorará consideravelmente
seu desempenho.

Portanto, o professor de educação física deve diagnosticar seu aluno, fazendo:

 Uma avaliação física;

 Anamnese completa;

 Avaliar o perfil antropométrico;

 Acompanhar o desenvolvimento do aluno e suas queixas.

Assim, o estudo da biomecânica da corrida possibilita a criação de um plano perfeito para


auxiliar seu aluno em sua corrida.

Bibliografia

1. TEIXEIRA, Clarissa S.; MOTA, Carlos B. A biomecânica e a Educação Física. Revista


Lecturas Educación Física y deportes, Buenos Aires, ano 12, n. 113, out.
2007. http://www.efdeportes.com/efd113/a-biomecanica-e-a-educacao-fisica.htm.
2. AMADIO, Alberto C.; DUARTE, Marcos. (Coords).  Fundamentos biomecânicos para
análise do movimento. São Paulo: Laboratório de Biomecânica da USP, 1996.
3. AMADIO, A. C.; COSTA, P. H. L.; SACCO, I. C. N.; SERRÃO, J. C.; ARAÚJO, R. C.;
MOCHIZUKI, L.; DUARTE, M. Introdução à Biomecânica para análise do movimento
humano: descrição e aplicação dos métodos de medição.  Revista Brasileira de
Fisioterapia, São Paulo, v. 03, n. 02, p. 41-54, 1999.
4. HAY, James G. Biomecânica das técnicas desportivas. 2 ed., Rio de Janeiro: Ed.
Interamericana, 1981.
5. NOZAKI, Hajime T. Biomecânica. In: GONZÁLEZ, Fernando J.; FENSTERSEIFER, Paulo
E. (orgs). Dicionário crítico de Educação Física. Ijuí: Ed. Unijuí, 2005.
6. GRAZIANO, Alberto da C. L. Biomecânica: fundamentos e aplicações na Educação Física
Escolar. Porto: EDUCA, 2008.
7. HALL, Susan J. Biomecânica Básica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1993.
8. AGUADO JÓDAR, Xavier. Eficacia y técnica deportiva: análisis del movimiento humano.
Barcelona: Inde Publicações, 1993.

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