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Breve história da moderna Psicologia Social

A psicologia social psicológica, segundo a definição de Gordon Allport (1954), que se


tornou clássica procura explicar os sentimentos, pensamentos e comportamentos do
indivíduo na presença real ou imaginada de outras pessoas. Já a psicologia social
sociológica, segundo Stephan e Stephan (1985), tem como foco o estudo da experiência
social que o indivíduo adquire a partir de sua participação nos diferentes grupos sociais
com os quais convive. Em outras palavras, os psicólogos sociais da primeira vertente
tendem a enfatizar principalmente os processos intraindividuais, enquanto os da
segunda tendem a privilegiar as coletividades sociais. A psicologia dos povos de Wundt
exerceu influência principalmente sobre a psicologia social sociológica, em virtude da
ênfase atribuída à questão da determinação sócio-histórica do indivíduo e ao uso da
metodologia não experimental. Duas obras, publicadas no ano de 1908, irão marcar a
fundação oficial da psicologia social moderna: Uma introdução à psicologia social, de
William McDougall, e Psicologia social: uma resenha e um livro texto, de Edward Ross
(Pepitone, 1981). Edward Ross: caracterizou a psicologia social como o estudo das
uniformidades de pensamentos, crenças e ações decorrentes da interação entre os seres
humanos, os fenômenos subjacentes a essa uniformidade são a imitação, a sugestão e o
contágio, o que explicaria a rápida uniformidade verificada entre as emoções e as
crenças das multidões. McDougal: Sua obra gira em torno do conceito de instinto,
ressaltando a importância de certas características inatas e instintivas para a vida social.
Segundo ele, os instintos apresentam três componentes: a percepção, que leva o
indivíduo a prestar atenção aos estímulos relevantes a seus instintos; o comportamento,
responsável por levar o indivíduo a manifestar condutas destinadas a satisfazer seus
instintos; e a emoção, que faz com que os instintos estejam associados a estados
emocionais positivos ou negativos. Com a Ascenção do bahaviorismos, os psicólogos
sociais progressivamente abandonam as explicações do comportamento social em
termos de instintos, bem como o uso da introspecção, passando a adotar uma psicologia
social eminentemente experimental e focada no indivíduo. Consequentemente, a divisão
entre psicologia social psicológica e sociológica aprofunda-se na medida em que a
psicologia passa a ser vista muito mais como uma ciência natural do que como uma
ciência social. A Segunda Guerra Mundial para a psicologia social desenvolvida nos
Estados Unidos influencia sobremaneira os novos rumos tomados pela psicologia social
psicológica no período que vai da década de 1930 à década de 1950. Nesse sentido, os
psicólogos europeus trarão para a psicologia norte-americana a perspectiva do
gestaltismo, que substituirá o behaviorismo até então dominante. Consequências do
período pós-guerra para a psicologia social psicológica norte americana: 1°
Consequência: O período do pós -guerra constituiu -se em uma fase de intensa produção
pelos psicólogos sociais da época, estimulada pela continuação dos esforços de
cooperação empreendidos durante a guerra e pela constatação por parte das entidades
militares e governamentais de que as ciências sociais e comportamentais estavam
preparadas para colaborar no gerenciamento dos complexos problemas humanos
daquele período. 2° Consequência: Outra consequência do período do pós-guerra foi o
ressurgimento do interesse pela pesquisa sobre atitudes. Enquanto na primeira fase da
pesquisa sobre o tema o foco era a mensuração das atitudes, conforme já apontado,
nessa nova fase os psicólogos sociais se concentrarão na investigação experimental da
mudança de atitudes 3° Consequência: Uma terceira consequência do pós--guerra foi o
impulso que as investigações sobre grupos receberam, especialmente pelas mãos de
Solomon Asch (1907 -1996), que anteriormente havia realizado estudos sobre a
formação de impressões, e Leon Festinger. A crise da psicologia social ou “era das
dúvidas” surgiu, portanto, em consequência da excessiva individualização da psicologia
social psicológica e dos movimentos sociais ocorridos nos anos de 1970 (como o
feminismo, por exemplo), tendo se caracterizado pelo questionamento das bases
conceituais e metodológicas da psicologia social psicológica até então dominante, no
que tange à sua validade, relevância e capacidade de generalização (Apfelbaum, 1992).
No início do século XX, porém, os sociólogos sentiram a necessidade de se diferenciar
dos psicólogos sociais que, no contexto da psicologia, passaram a adotar o behaviorismo
como paradigma e a praticar uma psicologia social psicológica que aos poucos se
tornava cada vez mais individualista. Surge então a psicologia social sociológica, cuja
principal vertente é o interacionismo simbólico e que tem, nas figuras de Charles
Cooley (1864 -1929) e George Mead (1863 -1931) seus mais notáveis precursores. As
principais perspectivas teóricas de George Mead (1863-1931) para a psicologia social
sociológica foram suas aulas de psicologia social foram posteriormente compiladas no
livro A mente, o eu e a sociedade: do ponto de vista de um behaviorista social,
publicado após a sua morte. Em síntese, para Mead, o indivíduo é produto do
desenvolvimento das pessoas em sociedade e estrutura - se por meio do processo de
interação simbólica, que leva as pessoas a tomarem consciência de si próprias, mediante
a perspectiva dos demais membros de seu grupo social. Ele situa, portanto, a formação
da identidade no campo das relações interpessoais, da organização social e da cultura ao
postular que o sujeito se apropria do conjunto de padrões comuns a diferentes grupos
socioculturais para desenvolver seu próprio. A escola de Chicago costuma ser
identificada com a abordagem qualitativa de pesquisa, talvez porque Blumer fosse da
opinião que o estudo do comportamento humano deveria ser conduzido por meio de
métodos próprios que, em vez de impor estruturas ao indivíduo, fossem capazes de
captar as realidades subjetivas construídas em cada situação. Segundo ele, o uso da
expressão derivou-se da ênfase na compreensão do modo pelo qual as pessoas
interagem com as outras usando símbolos. Desse modo, o interacionismo simbólico
pode ser visto como uma forma sociológica de psicologia social iniciada em Chicago
por Blumer, a partir de sua interpretação da obra de Mead. Segundo Blumer (1969), os
principais pressupostos do interacionismo simbólico são os seguintes: a pessoa
interpreta o mundo para si própria, atribuindo -lhe significado; o comportamento não é
uma reação automática a um dado estímulo, mas sim uma construção criativa derivada
da interpretação da situação e das pessoas que nela se encontram; a conduta humana é
imprevisível porque os significados e as ações dependem de cada situação, enquanto a
interpretação das situações e a construção do comportamento são processos que
ocorrem durante a interação social.
A Teoria das Representações Sociais

o interesse de Moscovici pelo conhecimento cotidiano surgiu de um problema que


afetou fortemente sua geração e que depois se tornou “o problema da modernidade” foi
o papel da ciência. Durante a primeira metade do século, estava em ebulição a crença de
que a ciência seria a “salvação do mundo”, aquela que traria o bem-estar e a felicidade
para a humanidade. Ao lado dessa crença, desenvolveu-se todo um corpo de interesses e
de preocupações com vistas a compreender, de forma mais sistemática, qual seria o
impacto da ciência sobre as mudanças históricas, o pensamento e os projetos sociais.
Esta era uma questão que permeava, sobretudo os debates dos jovens que naquele
momento foram atraídos pelo marxismo. Duas correntes claras acerca da ciência, no
período da Segunda Guerra, segundo Moscovici: A primeira era aquela sustentada pelos
marxistas e com a qual ele próprio estava bastante familiarizado, já que em sua
juventude, no início da guerra, alistou -se no partido comunista romeno. A segunda
corrente, representada por aqueles que Moscovici denominou de “iluminados”,
pressupunha que o papel do conhecimento e do pensamento científicos era o de dissipar
a ignorância, os preconceitos ou os erros desencadeados por um conhecimento não
científico. A forma de dissipar essa visão “equivocada” das coisas e do mundo seria
através da educação. Em última instância, visava -se a transformar todos os homens em
cientistas, levando a pensar racionalmente. O que se observa é que essas duas posições,
que se dizem em oposição, acabam convergindo, já que, paradoxalmente, ambas
consideram que a popularização do conhecimento científico, difundido na esfera
pública, resultaria em uma desvalorização ou inclusive em uma deformação do
conhecimento científico. Ou seja, não se pode socializar a ciência sem que ela seja
deturpada, pois a população leiga seria incapaz de assimilá-la tal como os cientistas.
Moscovici opõe-se definitivamente a tais visões e tenta redimensionar o conhecimento
cotidiano, o qual se configura, a seu ver, como fundante da vida, da linguagem e das
práticas cotidianas. Moscovici acreditava que estaria introduzindo um terceiro elemento,
o senso comum, que ao lado da ideologia e da ciência representaria as raízes da
consciência social, e que também estaria estabelecendo uma relação entre consciência e
cultura, levando -se em conta as práticas e os costumes presentes na vida cotidiana.
Pode -se dizer que a teoria das representações sociais, centrada nos modos de
funcionamento do pensamento cotidiano, tem suas raízes tanto na sociologia e na
antropologia (Durkheim e Lévy -Bruhl) quanto na psicologia construtivista, sócio
-histórica e cultural (Piaget e Vygotsky). Para dar conta do conhecimento cotidiano,
Moscovici (1989) retoma e ressignifica o conceito de representações, tentando, ao
mesmo tempo, colocar em evidência a especificidade da psicologia social, na medida
em que, com esse conceito, ele a situará na intersecção do individual e do social. O
desafio percorrido pela teoria das Representações Sociais tal qual ocorreu com a física e
a biologia molecular era superar o enfoque individualista da psicologia e o enfoque
coletivista da sociologia e da antropologia, utilizando essas mesmas ciências como
auxiliares. Representações Sociais podem ser entendidas de acordo com Denise Jodelet
Como uma forma de conhecimento corrente, dito “senso comum”, caracterizado pelas
seguintes propriedades: 1. socialmente elaborado e partilhado; 2. tem uma orientação
prática de organização, de domínio do meio (material, social, ideal) e de orientação das
condutas e da comunicação; 3. participa do estabelecimento de uma visão de realidade
comum a um dado conjunto social (grupo, classe, etc.) ou cultural. Os três aspectos das
Representações Sociais :

a) Comunicação: Comunicação porque as representações oferecem às pessoas “um


código para suas trocas e um código para nomear e classificar, de maneira unívoca, as
partes de seu mundo, de sua história individual e coletiva”

b) (Re)construção do real: (Re)construção do real porque é na constante dinâmica


comunicação -representação que os sujeitos reconstroem a realidade cotidiana.

c) Domínio do mundo: Domínio do mundo porque as representações são entendidas


como um conjunto de conhecimentos sociais, que têm uma orientação prática e que
permitem ao indivíduo situar -se no mundo e dominá-lo.

As 4 diferentes funções que as Representações Sociais assumem na dinâmica das


relações e práticas sociais cotidianas:

1- Como saber do senso comum, as representações sociais permitem aos indivíduos


compreender e explicar a realidade por meio da construção de novos conhecimentos. Ao
integrar a novidade a saberes anteriores, eles a transformam em algo assimilável e
compreensível.

2- As representações também têm por função situar os indivíduos e os grupos no campo


social, permitindo-lhes a elaboração de uma identidade social e pessoal gratificante.

3- Como saber do senso comum, elas ainda orientam os comportamentos e as práticas:


intervêm na definição da finalidade da situação e antecipam ou prescrevem práticas
“obrigatórias”, na medida em que definem o que é aceitável em dado contexto social.

4- Por fim, as representações sociais permitem justificar, a posteriori, os


comportamentos e as tomadas de posição.

A perspectiva psicossociológica adotada pelas Representações Sociais e o que tais


pressupostos a qual permite explicar o processo de construção e gênese das
representações sociais e, sobretudo, implica um comprometimento com pressupostos
teóricos e epistemológicos claramente definidos no bojo da teoria. Esses pressupostos
rompem com os critérios de verdade difundidos pelos cânones científicos que
desconsideram as relações entre o sujeito e um objeto que faz parte de seu universo
pessoal e social, passando a situá-los na funcionalidade q os conhecimentos inerentes a
essa realidade assumem na vida cotidiana. Podemos deduzir que o estudo de uma
representação social pressupõe investigar o que pensam os indivíduos acerca de
determinado objeto (a natureza ou o próprio conteúdo da representação), por que
pensam (a que serve o conteúdo de uma representação no universo cognitivo dos
indivíduos) e, ainda, a maneira como pensam os indivíduos (quais são os processos ou
mecanismos psicológicos e sociais que possibilitam a construção ou a gênese desse
conteúdo). Seus Conteúdos São capturados dos discursos coletivos e individuais, das
opiniões e atitudes, das práticas, e circulam na sociedade por meio de diversos canais,
como nas conversações e nas mídias. Quando se diz que uma representação social é
também um processo, supõe -se a existência de um mecanismo psicossociológico de
pensamento que, por um lado, rege a gênese, a organização e a transformação de um
conteúdo e, por outro, torna possível sua funcionalidade social. Os conceitos de
objetivação e ancoragem segundo Moscovici (1976): A Objetivação torna concreto
aquilo que é abstrato. Ela transforma um conceito em imagem, retirando-o de seu marco
conceitual científico. Já a ancoragem corresponde exatamente à incorporação ou à
assimilação de um novo objeto em um sistema de categorias que são familiares e
funcionais aos indivíduos e que lhes estão facilmente disponíveis na memória.

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