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CURSO NOVA HUMANIDADE Huberto Rohden

Aula 4
Origem e Evolução do Homem
19/04/77

Teilhard de Chardin esteve 20 anos lá na Ásia, lá na China, do outro lado da terra,


escavando camadas geológicas e esqueletos humanos; e encontrou o esqueleto de um homem pré-
histórico que ficou com o nome de Sinantropos. Sina - palavra latina para China, - antropos=
homem. O homem da China. Viveu muito tempo antes dos tempos históricos.
Teilhard de Chardin levou o esqueleto do Sinantropos para a Europa e escreveu o seu
livro: O Fenômeno Humano. Temos a tradução em português. Neste livro Teilhard de Chardin diz:
“O homem é uma descontinuidade da vida na continuidade da vida.” Misterioso! Nós somos uma
continuidade da vida através da continuidade da vida. Quer dizer, a vida já existia antes de nós, mas
conosco começou uma coisa nova, uma descontinuidade, um novo princípio enxertado na vida
velha que já existia.
Então, Teilhard de Chardin diz: “O homem atravessou um itinerário evolutivo de
muitos milhares de anos e conduz este itinerário através de quatro estágios”. Cientistas só usam
palavras gregas, por isso vamos usar palavras gregas e depois vamos traduzir.
O primeiro estágio da evolução humana é Hilosfera.
O segundo estágio é Biosfera.
O terceiro estágio é Noosfera.
O quarto estágio é Logosfera
Esfera todos sabem o que é. Hilos quer dizer matéria. A esfera da matéria, a zona mineral
propriamente. Depois de muitos e muitos milhões de anos o homem entrou na segunda esfera.
Biosfera. Bios, palavra grega para vida. Porque a matéria parece que não é muito viva ainda. Veio a
esfera da vida , o segundo estágio da nossa evolução. Depois de muitos milhões e milhões de anos
entramos no terceiro estágio evolutivo que Teilhard de Chardin chama Noosfera. Noos em grego
quer dizer inteligência. Noos, muitas vezes contraídos dá Nous. Também é inteligência. Então, o
terceiro estágio da evolução do homem, a esfera da inteligência. E aí nós estamos agora. Nós ainda
não saímos do terceiro estágio. Ainda estamos na Noosfera: a esfera da inteligência dominante.
Tudo hoje em dia é inteligência, inteligência, inteligência... precisam estudar, estudar,
estudar...função da inteligência. Estudo analítico da física, da química, da biologia, da geografia, da
eletricidade, eletrônica. Tudo é Noosfera. Fomos até à lua sob as asas da Noosfera. E se não
tivéssemos muita inteligência não teríamos feito viagem até a lua. Nós vamos muito mais longe, é
claro, e sempre sob o Noos.
E agora? Lá bem em cima Logosfera. Logos é razão, mas eu já disse na primeira aula, não
me confundam inteligência com razão. Nós não podemos confundir inteligência com razão, mas
todo mundo confunde. E porisso nós não podemos fazer filosofia, por causa da confusão. Até nas
Universidades confundem-se inteligência com razão. É racionalista e acabou-se. O homem mais
avançado, a nova humanidade é absolutamente racionalista.
Nós agora somos intelectuais. Se fôssemos bastante racionais e estivéssemos na logosfera e
não apenas na Noosfera, nossa vida aqui na terra seria um paraíso, mas não é. Muitas vezes é
inferno. Não haveria guerra, não haveria crimes, não haveria defraudações. Só haveria trabalho
gostoso. Fraternidade universal dos homens. Isto seria a Logosfera.
Teilhard de Chardin diz que o homem não chegou até lá. De vez em quando aparece uma
exceção esporádica.Um homem racional que entrou na Logosfera, mas são exceções. Talvez algum
Buda, talvez um Jesus. Talvez um Gandhi estivesse na Logosfera. Mas o grosso da humanidade não
está lá. 99% não está na Logosfera. Estão mais ou menos na Noosfera, na intelectualidade. Quando
nós nascemos estávamos na biosfera, na vitalidade. A criança não está na Logosfera.

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Potencialmente, sim, atualmente, não. O animal parece que nunca vai chegar a Logosfera. A
Noosfera, a inteligência humana não é inteligência biológica. O animal também tem inteligência
biológica, mas isto ainda não é Noosfera. E abaixo do animal, o mundo está na Hilosfera. O mundo
mineral está na Hilosfera. O mundo vegetal e animal estão na Biosfera. E o mundo hominal que
somos nós, nós não conhecemos outra humanidade por enquanto, na terra. Provavelmente existem
outros mundos, mas aqui, não. Aqui nós somos a única Noosfera.
E quando aparece alguém da Logosfera, nós olhamos estupefatos para ele: É um homem
Divino. É de outros mundos que apareceu aqui. Alguém que não pensa como nós. Alguém que
manda amar a todos, até os inimigos. Nós não vamos fazer isto. Amamos os nossos amigos e
odiamos os nossos inimigos. Isto é Noosfera, mas isto não é Logosfera. Então vêm estes fenômenos
e dizem que devemos fazer bem aos que nos fazem o mal, que devemos amar aos que nos odeiam.
Não se usa falar isto na Noosfera. Não se usa, aqui entre nós, não. São exceções. Talvez
antecipações de uma nova humanidade.
Mahatma Gandhi chegou muito perto da Logosfera. No fim da vida perguntaram a Mahatma
Gandhi: “Você que é um homem muito espiritual, perdoou todas as ofensas que recebeu durante a
sua longa vida?” “Não,” disse Gandhi, “não perdoei nada a ninguém.” “Mas você devia perdoar
as ofensas”. “Não devo perdoar porque nunca ninguém me ofendeu.” Ora dizer tal coisa que nunca
ninguém o ofendeu que não tem que perdoar nada. Não é matéria para perdão. Porque sim, perdoa
aquele que se sente ofendido, mas como ele é bom, não vai vingar. Vai perdoar de alto a baixo.
Então ele diz: “Não eu não tenho nada que perdoar, porque nunca ninguém me fez nenhuma
injustiça, nunca ninguém me ofendeu”.Se o homem pode falar assim sem mentir, e ele não mentia.
Este homem já é um predecessor, um precursor da Logosfera. Porque na Logosfera a gente podia
pensar assim, mas na Noosfera é difícil pensar assim. Nós achamos que é muita coisa para sermos
capazes de perdoar. Nós sentimos que somos heróis porque perdoamos aquela velha dívida que nos
ofendeu lá embaixo, mas nós somos sujeitos muito avançados, impingimos perdão de alto a baixo.
Achamos que é grande coisa. Virtuosidade para nós é a coisa mais alta que existe. Mas, para a
Logosfera, virtuosidade não é coisa muito grandiosa. Sabedoria é muito mais alta que toda
virtuosidade, para uso da Logosfera. Sabedoria é não se sentir ofendido. Virtuosidade é sentir-se
ofendido, mas perdoar.
No dizer de Teilhard de Chardin nós ainda não estamos no quarto estágio da
Logosfera. Para explicar isto vou primeiro me referir a este desenho aqui. Aqui eu fiz um desenho:

Infinito Finito
Imanência

Uma linha vertical e uma horizontal cruzando dá o que nós chamamos cruz. Mas, a cruz
nada tem a ver com religião. A cruz é um sinal antiqüíssimo da Índia, e um sinal antiqüíssimo do
Egito. Quando eles queriam simbolizar o infinito faziam o sinal da cruz: norte, sul, leste e oeste- os
pontos cardeais. Isto os antigos filósofos da Índia, da China e do Egito chamavam o Infinito ou o

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Absoluto, o Eterno, a Divindade, Brahman, Ra, Tao, Yaveh. Ou qualquer outro nome para a
Divindade, eles usavam este sinal simbólico para o infinito. E quando queriam desenhar o finito
faziam um círculo. O círculo na Índia, e no Egito, era símbolo do finito, porque o finito termina lá
onde começou. O fim coincide com o princípio.
Eles representavam o círculo em forma de uma serpente que mordia a sua própria cauda.
Aqui estava a cabeça da serpente. E a cauda da serpente estava dentro da boca da serpente. Eles
diziam: “Isto é o finito porque o finito acaba lá onde começou”. O princípio coincide com o fim.
Este é o finito, mas, na linha reta não há regresso. A linha reta não volta sobre si mesmo. Ela vai
para o infinito, para cá, para lá...em todos os sentidos. Então, eles usavam este outro sinal que eu
pus aí. O infinito dentro dos finitos e os finitos dentro do infinito.
Imagine agora esta cruz como o símbolo do Infinito, do Uno. E os círculos como o verso.
Então, este pequeno círculo está inscrito dentro da cruz. Um pequeno finito dentro do Infinito.
Depois este segundo círculo, também um finito dentro do Infinito. Terceiro círculo, um outro finito
dentro do Infinito... Dentro de todos estes círculos têm uma parte do Infinito. A cruz atravessa todos
os círculos. Logo, o Infinito está dentro de todos os finitos. E todos os finitos estão dentro do
Infinito. Todos os círculos estão dentro da cruz e a cruz está parcialmente em todos os círculos.
Todo o finito está totalmente no Infinito, e o Infinito está parcialmente em qualquer finito.
Compreenderam? Olhando para este desenho?
Isto nós chamamos a imanência do Infinito em todos os finitos. Imanere - em latim, estar
dentro. Daí veio a palavra imanência. Quando o Infinito está dentro de todos os finitos: do finito
mineral, do finito vegetal, do finito animal, do finito hominal e de outros finitos, então dizemos: “O
Infinito está imanente (morando dentro) em todos os finitos. E, por outro lado, os finitos estão todos
imanentes no Infinito”. Mas, o Infinito também é transcendente a todos os finitos. Esta parte que
está fora do círculo nós chamamos, transcendência. O que está passa além é transcendente. O que
está dentro é imanente.Podemos dizer: “O Infinito é transcendente a todos os finitos, é maior que
todos os finitos, mas apesar disto, todos os finitos estão dentro do Infinito”.
Estou convidando vocês para subirem comigo para além da estratosfera. Quando a gente voa
muito alto dizemos que estamos voando para a estratosfera. A estratosfera é mais ou menos 10.000
m acima da terra. 10 km. E quando a gente tem que pensar muito alto, intensamente, então dizemos
que pensamos estratosfericamente. Isto para muitos já é pensamento estratosférico.
Poder pensar que todas as coisas finitas estão inteiramente dentro do Infinito e que o Infinito
está dentro de todos os finitos, apesar do Infinito estar também além de todos os finitos, já é pensar
estratosfericamente. O Infinito geralmente é chamado Deus, mas, nós não usamos a palavra Deus na
filosofia porque é muito perigoso. É melhor usar outra palavra. Usar: Infinito, Eterno, Absoluto,
Transcendente ou qualquer outra coisa. Porque infelizmente, as nossas teologias abusaram tanto da
palavra Deus, que entendem por Deus uma pessoa ou indivíduo qualquer que mora do outro lado
das nuvens.
Bem, nós na filosofia não podemos falar com a palavra Deus deste modo, porque isto é idéia
completamente errada. Uma pessoa não pode estar dentro de todos os finitos. Isto seria
absolutamente absurdo. Mas, o Infinito pode estar dentro de todos os finitos. A Divindade infinita
pode estar dentro de qualquer átomo, mas também está fora do átomo. Pode estar dentro de
qualquer planta, mas também está fora de todas as plantas. Pode estar dentro de qualquer animal,
mas também está fora de todos os animais, porque não é uma pessoa. É uma realidade. É uma
energia. É uma consciência. É o puro espírito. O Infinito não é nenhuma personalidade, não é
nenhuma individualidade. É a realidade em si mesmo. Estou dizendo isto para que compreendam o
que vou dizer sobre o homem.

Bem agora vamos usar esta outra figura.

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Logosfera
Noosfera
Biosfera
Hilosfera


Este sinal lá embaixo é um oito, mas em forma horizontal. É um sinal usado na matemática
para Infinito. Parece uma garrafa assim: ∞. Bem, agora estou usando este sinal em vez da cruz. E
por cima deste sinal eu tracei diversas linhas para cima. Uma linha no meio, muito alta, muito
grande, e algumas linhas menores, do lado e outras menores. Na linha mais baixa eu escrevi
Hilosfera (vida material). Na segunda altura eu escrevi Biosfera (vida animal). E na terceira linha
eu escrevi Noosfera (inteligência). E bem em cima eu escrevi Lógosfera (mundo da razão), que em
grego é Logos.
Então, agora vamos considerar a linha do meio, que somos nós. A linha alta do meio é o
homem este desconhecido, este fenômeno. Este misto de grandezas e de misérias como diz Pascal.
Então, esta linha do meio, somos nós. Isto aqui é o mundo mineral, isto é o mundo vital (plantas e
animais) e isto aqui é o mundo intelectual. Nós hoje em dia chegamos até aqui. E viemos de onde?
A célebre pergunta. Donde veio o homem este desconhecido?
Há duas teorias sobre a origem do homem. Uma muito antiga e outra muito recente. A teoria
mais antiga sobre a origem do homem é a seguinte: O homem veio diretamente de Deus, ou do
infinito, como eles dizem interpretando mal as palavras do Gênesis. Quando Deus tinha terminado
tudo, quando tinha acabado o mundo mineral, o mundo vital e outros mundos, então Deus disse:
“Agora vamos fazer o homem segundo a nossa imagem e semelhança.” Está no Gênesis. O Gênesis
não está errado. A nossa interpretação é que está errada.
Um dos maiores homens de toda a história da humanidade, Moisés, depois de 40 anos de
meditação, escreve o Gênesis, lá na solidão da Arábia. O Gênesis foi escrito na Arábia, no ano 1500
AC, por Moisés, depois que ele tinha meditado durante 40 anos, não 40 dias. Moisés esteve na
Arábia dos 40 anos até os 80 como pastor. E quando ele estava sentado altas horas da noite, no meio
dos rebanhos de seu sogro Ietro; ele se deixou invadir pela consciência cósmica do Universo. Ele se
esvaziou do ego consciência humana e fez de si um canal vazio e se tornou tremendamente
intuitivo.
Intuição recebe inspiração e revelação. A mesma coisa. Intuição, inspiração e revelação só
nos vêm quando nós nos esvaziamos de todo conteúdo humano. Não pensamos nada, não queremos
nada. Estamos completamente esvaziados da egoconsciência. Então, nós somos canais vazios. E,
quando o homem faz de si um canal vazio vai acontecer uma coisa grandiosa.
Ele vai ser plenificado pela plenitude da Alma do Universo. Toda vacuidade provoca uma
plenitude. O ego-esvaziamento provoca uma cosmoplenificação. Isto é o que Moisés fez. Os
grandes iniciados sempre fizeram isto, pois eles procuravam a solidão. Jesus ficou 40 dias na
solidão. Moisés no alto do Sinai ficou 40 dias na solidão. Elias no fundo da solidão, ficou 40 dias na
solidão. Francisco de Assis ficou 2 meses na solidão, no alto do Monte Alverne, onde falou com
Deus. Mahatma Gandhi passava toda 2a. feira em completo silêncio. Nunca recebia visita na 2a.
feira.Nunca fazia visita na 2a- feira. Encerrava-se no seu pequeno Ashram, e se esvaziava dos
conteúdos do seu ego humano.
Moisés fez isto durante 40 longos anos na solidão da Arábia, onde ele era pastor de
rebanhos de seu sogro Ietro. Os pastores como já disse, guardam os seus rebanhos de noite. Não
dormem de noite, é perigoso. As feras, hienas, chacais e lobos atacam os rebanhos de noite, porque

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são animais noturnos. Então, os pastores vigiam os rebanhos sob a luz das estrelas. De dia eles
dormem, porque de noite é muito perigoso. Então, Moisés noites inteiras vigiando os seus rebanhos
que estavam dormindo tranqüilamente e se tornou terrivelmente intuitivo. Recebeu mensagens do
além. Mensagens da alma do Universo. E depois ele escreveu o que nós chamamos o Gênesis.
Escreveu o que ele viu.A origem do mundo foi assim.
E depois de ter narrado a origem do mundo ele começou a escrever a origem do homem.
Então ele disse que no fim de tudo, quando tudo estava creado, quando o mundo material estava
pronto, o mundo vegetal e o mundo animal, finalmente os Elohim (ele não fala em Deus), as forças
cósmicas disseram: “Agora vamos fazer o homem à nossa imagem e semelhança.” Isto está lá, está
certo, mas a nossa interpretação não entendeu nada, porque não pensamos intuitivamente. Nós
pensamos analiticamente e análise é muito fraca. A intuição é poderosa, mas a análise intelectual é
muito fraca.

Parte 2

Nós só operamos com a inteligência exotérica e não entendemos nada o que ele quis dizer.
Porque Moisés falou em parábolas. Todo o Gênesis é uma parábola, é um símbolo. E nós tomamos
isto ao pé da letra. Então nós inventamos que Deus teria feito o homem do modo seguinte: Quando
estava tudo pronto, Deus disse, “Agora vou fazer o Homem”. Pegou um punhado de barro, fez um
bonequinho daquilo e depois soprou nele. Então, o boneco ficou homem. Isto é o que nós
inventamos. Isto não está no Gênesis. Isto é invenção de nossa ignorância, mas não é da sabedoria
do Gênesis, e nós somos como crianças. Imaginem se vocês entregassem a uma criança de 6 anos
na escola primária, um dos grandes livros da humanidade. Vamos dizer, vocês entregam a uma
criança de 6 anos a Divina Comédia de Dante, ou o Fausto de Goethe. Ou um dos dramas de
Shakspeare. Vocês vão pedir a opinião de uma criança de 6 anos o que elas pensam da Divina
Comédia de Dante? Ou do Fausto de Goethe? Ou do drama de Shakspeare? A criança não vai
entender absolutamente nada. Ela vai dizer : Esta capa do livro é mais bonita que a outra. Ah! Isto
não interessa. Outra vai dizer: Esta letra deste livro é mais bonita que a outra.
Mas eu não quero saber de capa do livro e da letra. Eu quero saber do conteúdo intelectual
da Divina Comédia, ou do Fausto, ou do Drama de Shakspeare. Assim somos nós, uma humanidade
muito infantil. Nós não entendemos o que os grandes gênios da humanidade queriam dizer. Nós não
entendemos nada do Gênesis. Nós não entendemos nada do Evangelho. Não entendemos nada do
Apocalipse. São três grandes livros da humanidade, porque todos estes livros foram escritos em
estado de inspiração intuitiva. Não foram excogitados pela inteligência humana. Foram inspirados
pelo gênio cósmico.
O Gênesis é um livro inspirado. O Evangelho é um livro inspirado. O Apocalipse, último
livro da Bíblia, é um livro inspirado, terrivelmente misterioso. E nós que somos crianças
praticamente analfabetas em face da inspiração, não entendemos nada. Então, nós entendemos que
Deus pegou um punhado de barro, fez um bonequinho daquilo, soprou nele e disse: aqui está o
homem. Pronto! Adão, Pronto! Mas isto Moisés não quis dizer. Isto é uma parábola. Felizmente os
grandes inspirados como Teilhard de Chardin e outros, já interpretaram de outro modo.
Teilhard de Chardin, já disse: “O homem veio através da matéria, através da vida, através
da inteligência e vai chegar até à razão”. Através é um canal, é um encanamento. Ele fluiu através,
e onde está a fonte? A fonte não é a matéria. A fonte não é a vida . A fonte não é a inteligência.
Antes do através está a fonte. A fonte é isto aqui (sinal de Infinito).
A matéria veio do Infinito. A vida veio do infinito. A inteligência veio do Infinito e a razão
veio do Infinito. Tudo que é finito veio do Infinito. Isto é razoável. Todos os finitos fluem do
Infinito. Se não houvesse o Infinito, os finitos não existiriam. O canal só pode canalizar a água se há
uma fonte. Vocês podem construir o maior encanamento do mundo. Se forem bons engenheiros, vão
construir encanamentos. E, se vocês não têm uma nascente, uma fonte, adianta construir

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encanamentos? O encanamento não vai produzir água. Nunca um engenheiro fez uma fonte; o
engenheiro faz encanamentos; mas se ele não ligasse o encanamento a uma nascente, daí a pouco
acabava a água. Ele pode ligar a caixa d’água, mas a caixa d’água não é nascente. A caixa d’água
também recebeu, mas nenhum engenheiro pode fazer uma fonte de água permanente. A natureza
faz. Nós ligamos os nossos encanamentos com alguma nascente, com algum rio que nunca acabou,
que já existe há milhares e milhares de anos e não vai acabar tão depressa.
Então, isto aqui são encanamentos, tudo isto que eu construí em forma de linhas, vocês
devem considerar como canais, que recebem o seu conteúdo de uma fonte. Uma fonte só pode ser o
próprio Infinito. Uma fonte que não seja o Infinito não é fonte, é um canal, ou uma caixa d’água. A
caixa d’água não é fonte porque não produz água. Ela recebe água de uma fonte.
Então, Teilhard de Chardin sabia que todo o mundo material veio de uma fonte infinita e que
todo o mundo vital, biosfera, veio de uma fonte infinita e que todo mundo intelectual veio da
mesma fonte infinita, e o mundo racional também veio da mesma fonte. Então ele diz: “O homem
fluiu através de canais materiais, através de canais vitais (vegetais e animais), e através de canais
intelectuais, como está agora”. Porque o intelecto também é um canal. E nós vamos chegar algum
dia até uma coisa muito superior ao intelectual, ao racional. Os outros chamam, de espiritual, mas
nós não usamos a palavra espiritual na filosofia que é uma palavra teológica e não filosófica. Em
vez de espiritual, nós usamos sempre racional. É a palavra exatamente usada na filosofia grega,
desde os tempos antigos.
Então, ele deu aqui uma síntese da origem e da evolução do homem. Todas as coisas finitas
vieram do Infinito e o homem faz parte destas coisas finitas que vieram do Infinito. Mas ele não
veio do Infinito diretamente como pensam certos teólogos. Ele veio do Infinito indiretamente
através de muitos outros finitos. Por isso Teilhard de Chardin disse: “Nós somos uma
descontinuidade da vida baseado na continuidade da vida”.Muitos nunca compreendiam estas
palavras dele. Daqui em diante nós somos descontínuos, mas daqui para baixo nós somos contínuos.
Antes de nós éramos vivos. A nossa humanidade não é um novo início de vida. É uma continuação
da humanidade que já existia antes de nós.
A vida animal, a vida vegetal e mesmo a vida mineral, porque os minerais também são
vivos, em última análise; não são mortos como nós pensamos. O átomo não é morto. O átomo
também é vivo. Estas vidas já existiam. A vida mineral já existia antes de nós. A vida vegetal já
existia. A vida animal já existia e nós fomos enxertados, por assim dizer. Enxertados no tronco de
outras vidas anteriores a nós. Até isto chegou mais ou menos a nossa ciência hoje.
A teologia pensa que nós saímos diretamente de Deus, sem nenhum intermediário. E os
darwinistas desde o século passado pensam que nós não precisamos disto, do Infinito. Os
darwinistas pensam que basta o mineral, basta o vegetal, basta o animal para explicar o homem. Isto
chama evolucionismo. E os teólogos pensam: “Não, não houve nenhum evolucionismo. O homem
caiu diretamente do céu. Tal qual, prontinho”. Bem, nós sabemos que isto não é verdade. O nosso
corpo fluiu através de muitos outros organismos. O nosso espírito, sim, veio diretamente do Infinito,
mas o nosso corpo, não. O nosso invólucro material passou por milhares e milhares de anos através
do mundo mineral, através do mundo vegetal, através do mundo animal e por cima disto veio a
descontinuidade da vida, mas ela está baseada na continuidade da vida. A vida (mineral, vegetal e
animal) é uma continuidade. E depois disto veio um novo andar, por assim dizer, construído sobre a
vida de continuidade, veio uma descontinuidade. Isto, ainda vamos falar, em outra ocasião.
Pensar que nós também pelo corpo viemos diretamente do Infinito não é aceitável. Porque é
que nós temos todos os órgãos iguais aos dos animais? Todo o nosso corpo é exatamente igual ao
corpo dos mamíferos superiores, dos primatas.
Quando os estudantes de medicina querem estudar cirurgia, eles têm que saber muito bem
onde estão as veias, os nervos e todos os órgãos do corpo, senão não podem fazer operação. Matam
o homem em vez de curar. Então o que fazem? Primeiro vão ao necrotério e pedem licença para
fazer estudo nos cadáveres que estão lá no necrotério. Onde é que vai esta veia, este nervo, este

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osso. E, depois até fazem estudo em animais vivos, pobres cobaias que têm que morrer por causa
disto. Não há jeito. Eles fazem estudo em cobaia... Como é que funciona este órgão, como é que
funcionam os pulmões, o estômago, o coração... E depois aplicam no homem. Se não houvesse
semelhança entre o corpo animal e o corpo humano seria inútil fazer um estudo dos corpos de
animais. Quer dizer, o nosso corpo é inteiramente igual ao corpo de qualquer animal superior.
Daí concluíram os darwinistas e outros: Nós não precisamos de nada senão só de um
organismo animal para explicar o homem. Disto nós ainda vamos falar em outra ocasião. Nós não
podemos derivar o homem total dos animais. Nós podemos derivar o homem corporal dos animais,
mas não podemos derivar aquilo que não está no corpo animal. Isto é coisa diferente. Então, para
isto nós precisamos disto: Tudo está no Infinito, mas nem tudo está nos finitos.
A diferença que há entre o animal e nós... que por enquanto se chama inteligência e algum
dia se vai chamar razão. Nós não chegamos lá ainda. Esta diferença e razão não está aqui, mas está
aqui. No infinito está a nossa inteligência, no infinito está também a nossa razão. Uma forma muito
mais perfeita do que nós temos. De maneira que nós precisamos de 2 coisas: creação e evolução.
Os teólogos só querem creação sem evolução.
Os cientistas querem evolução sem creação.
E nós queremos os dois.
Nós fazemos uma síntese entre os teólogos e os cientistas. Os teólogos dizem: “O homem foi
creado por Deus” e os cientistas dizem: “O homem é uma evolução do animal”. E nós dizemos:
“Ambos têm 50% de razão, mas ninguém tem 100% de razão”. Nós queremos ter 100% de razão.
Nós queremos dizer: “O homem realmente foi creado pelo Infinito, mas ele fluiu também através de
muitos finitos.”
Então nós fazemos uma síntese entre creação e evolução. Aceitamos tanto a creação como
também a evolução, porque os dois são fatos. Fomos creados e evolvidos também. Somos tanto
produto duma creação, como somos os produtos duma evolução. Nós não fomos creados
diretamente, mas fomos creados indiretamente. Precisamos tanto da creação que é a relação entre o
finito e o nosso Infinito; e precisamos da evolução que é um processo multimilenar de um
organismo para outro. Mas, o organismo inferior não pode produzir um organismo superior dotado
de inteligência, sem que apelemos para a fonte. Na fonte está tudo, nos canais não está tudo. Eu sei
que isto é difícil para muitos, por isto faz favor de ruminar isto, até a próxima 3a. feira.
O principal na filosofia é ser bom ruminante, como as vacas. Se vocês apenas engolem
vocês não podem digerir isto. A vaca come o capim, quase tudo sem mastigar. Engole, engole
rapidamente, porque elas têm que arranjar muito capim no pasto e depois ela engole o capim para o
1o. estômago. Quando o estômago está cheio, ela se deita à sombra de uma árvore e o capim volta à
boca. Aí ela começa a mastigar vagarosamente, filosoficamente, porque agora não há mais perigo
de concorrência. Lá no pasto é muito perigoso, porque as outras vacas também comem, não é?
Precisa arranjar bastante capim. Enche o primeiro bucho com o capim quase cru, porque não havia
tempo para mastigar. As outras vacas também estavam lá.
Depois então elas entram em sossego. Agora ninguém mais pode roubar o capim. Depois ela
manda vir á boca. Mastiga filosoficamente, calmamente. Parece pura filosofia. Horas inteiras
ruminando, ruminando. Depois de bem mastigado vai para outro estômago, porque elas têm outro
estômago. Aí vem a digestão.
Isto é o que vocês têm que fazer com a nossa filosofia. Em casa vocês têm que ruminar estas
coisas para poder assimilar. Não basta devorar. É preciso assimilar. Filosofia não pode ser devorada.
Não pode assimilar. E isto é ruminar. Aqui vocês têm que devorar por enquanto, mais tarde ruminar.

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