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CURSO NOVA HUMANIDADE Huberto Rohden

Aula 19
Campeões da Evolução
13/09/1977

Todo mundo hoje em dia fala em autorrealização. É a grande palavra hoje: ‘realiza-te’. Mas,
talvez nem todos saibam, que os dois homens maiores da história, os dois imortais em corpo são
Moisés e Jesus. São os dois imortais em corpo. Eram os maiores campeões da autorrealização. Não
para si mesmo, mas, também na sua doutrina. O que Moisés disse no Gênesis e o que Jesus disse no
Evangelho é puro programa de autorrealização. Por isso eu vou frisar este ponto.
Moisés fala na falta de autorrealização pela luxúria. Jesus fala na destruição da
autorrealização pela ganância. Os dois focalizam os impedimentos máximos que frustram ou
dificultam e impossibilitam a realização existencial do homem. Muita gente quando lê o Gênesis ou
o Evangelho, que eu considero os dois maiores livros da Bíblia (o Gênesis do Antigo Testamento e
o Evangelho do Novo Testamento)... Muitos quando leem estes livros pensam que os seus autores,
Moisés e Jesus tenham querido moralizar - falar a favor de moralização do homem.
Não é verdade. Nem Moisés é moralizante, nem Jesus é moralizante. Eles não falam da
moralidade do agir, falam da verdade do ser. Eles não falam contra a imoralidade do agir, falam
contra a inverdade do Ser. Isto é muito importante compreender. Aliás, eu disse isto no prefácio do
meu livro ‘Sabedoria das Parábolas’ - porque todo mundo pensa que as trinta e tantas parábolas do
Evangelho sejam um convite para a moralização. Nenhuma parábola convida o leitor para se
moralizar. São todas parábolas defendendo a verdade do Ser e não a moralidade do agir. Porque o
agir é apenas uma consequência do Ser.
Quando alguém está na verdade do Ser, ele automaticamente entra na moralidade do agir.
Neste caso nem é mais moralidade. Passa a ser ética que é muito mais do que moralidade. De
maneira que os grandes mestres da vida, Moisés e Jesus, os dois imortais em corpo... porque
nenhum deles morreu... Moisés se transformou de corpo material em corpo astral no Monte Nebo.
Jesus permitiu que o matassem, mas, ele sempre disse: ninguém me tira a vida. Eu deponho minha
vida quando eu quero, eu retomo a minha vida quando eu quero. Isto só pode falar um imortal em
corpo. E depois... Destruí este templo do meu corpo, mas, em três dias eu vou reconstruí-lo - e o
fez.
Também é um imortal em corpo, porque depois da ressurreição ele não morreu mais. Os dois
imortais em corpo: Moisés que astralizou o seu corpo material e reaparece depois na transfiguração
no Tabor em corpo astral. Ele e Elias aparecem ao lado de Jesus. Quer dizer, os dois maiores
homens da história, (eu considero estes homens os maiores que nós conhecemos neste mundo no
Antigo Testamento de Moisés e no Novo Testamento de Jesus). Os dois são os grandes defensores
da verdade do Ser e não da moralidade do agir, porque toda a moralidade é sempre um derivado.
A moralidade manda como nós devemos fazer, como devemos agir. Isto é moralidade, mas a
verdade do Ser é muito maior do que toda a moralidade do agir. A verdade sobre o Ser é a resposta à
eterna pergunta: ‘Que sou eu’. Isto é verdade do Ser e tanto Moisés como Jesus responderam à
eterna pergunta: ‘que é o homem?’ Não, como ele deve agir, isto é coisa secundária para eles. Mas,
o que é que ele deve ser? O que ele é implicitamente e o que ele deve tornar-se explicitamente - o
que ele já é potencialmente e o que ele deve tornar-se atualmente. Este é o grande tema de Moisés.
Este é o grande tema de Jesus.
Estes grandes homens estão muito mais interessados na verdade do Ser do que na
moralidade do agir. À primeira vista nós solvemos a superfície da moralidade, em Moisés e em
Jesus. Quando a gente vai ao fundo das coisas percebe que eles não falaram na moralidade do agir,
e contra a imoralidade do agir. Eles falam sempre a favor da verdade do Ser e contra a inverdade do
Ser. Por isso, eles são os gigantes da autorrealização, porque o principal na autorrealização não é

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agir, o principal é ter a consciência do Ser. E o que então, destrói a consciência do Ser, isto eles
combatem.
Para Moisés o grande impedimento para a verdade do Ser é o abuso dos gozos corporais.
Para Jesus o grande impedimento contra a verdade do Ser é o abuso dos bens materiais. É a única
diferença entre Moisés e Jesus. Moisés não fala em abusos de riquezas e Jesus não fala em abuso de
sexo. É a única diferença entre eles. Cada um focaliza um aspecto da natureza humana.
No tempo de Moisés, o grande impedimento contra a autorrealização é o abuso das forças
sexuais, por isso todo o Gênesis é uma campanha contra este abuso. Não contra o sexo, mas, contra
o abuso. No tempo de Jesus... Jesus nunca fala neste ponto, é estranho! Vocês não encontram no
Evangelho uma campanha contra luxúria. Não existe no Evangelho, existe no Gênesis. No
Evangelho existe outra coisa. Uma terrível campanha contra a ganância.
O ponto central contra o que Jesus se dirige no Evangelho é ganância. Isto eu chamo luxo.
Não o conforto natural, mas o abuso do conforto e dos bens materiais. Isto vai do princípio até o fim
no Evangelho. Imaginem palavras como estas: ‘ai de vós que sois ricos, mais fácil é um camelo
passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no reino dos céus’. Palavras do Evangelho!
‘Não podeis servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro.’ Sempre isto!
Tem aquela parábola do rico avarento...que foi sepultado no inferno. Toda campanha contra
a ganância, no Evangelho... - porque Jesus considera o apego desmedido aos bens materiais, às
riquezas e ao dinheiro, como o maior impedimento de autorrealização. Porque quem faz dos bens
materiais da vida o número um da natureza humana, o ponto principal que eles devem realizar, ele
não se pode realizar. Porque ele pode realizar o dinheiro, mas, realizando o dinheiro ele não se
realiza a si.
Ele também pode servir-se do dinheiro para se realizar; mas, ele não pode considerar o
dinheiro como um fim. Pode considerar o dinheiro como um meio que lhe dê oportunidade para sua
autorrealização, mas neste caso nunca é abuso, nunca é excesso, sempre é apenas o necessário para
a vida. Isto vai através de todo o Evangelho. No Gênesis não encontramos nenhuma campanha
contra a riqueza, contra o luxo. Encontramos a campanha somente contra a luxúria.
Eu já disse: Moisés é contra a luxúria e Jesus é contra o luxo. Luxúria, lá no antigo
testamento e luxo aqui. No Evangelho ocorre uma única vez uma alusão ao sexo. “Há pessoas que
não casam porque pela natureza não foram feitos aptos, há pessoas que não casam porque foram
mutilados por outros homens; mas há também pessoas que não casam por amor ao reino dos céus”.
Esta a única alusão ao sexo propriamente. Uma coisa muito suave, muito delicada... Nenhuma
campanha - porque Jesus considera o abuso dos bens materiais como o maior impedimento do que o
abuso dos bens sexuais, contra a autorrealização.
Por isso os dois são os grandes campeões da verdade do Ser humano e não os campeões da
moralidade do agir. Se alguém está na verdade do Ser, automaticamente ele entra na moralidade do
agir. Quem sabe ‘ que sou eu’, quem sabe ‘eu e o Pai somos um e as obras que eu faço não sou eu
que as faço, é o Pai que em mim está que faz as obras’ - está garantido contra qualquer falta de
moralidade porque o agir é uma consequência do ser.
Diz o provérbio: ‘ágere sequitur esse’ - o agir segue ao Ser. E quando nós não temos uma
noção nítida do nosso Ser, quando nós nos confundimos com qualquer parte da natureza humana
que nós não somos, com o corpo, com a inteligência ou com as emoções que nós não somos, mas
que nós temos... - nós temos o corpo, nós temos a inteligência, nós temos as emoções... Mas quem
não sabe que isto é o ter, isto não é o Ser, então, ele não se pode autorrealizar. E quando alguém não
se autorrealiza no seu centro, pouco a pouco, ele vai falhar também nas periferias. Ele também vai
falhar na moralidade do agir porque não acertou na verdade do Ser.
Tempos atrás eu mostrei estes desenhos (abaixo) já conhecidos por muitos, sobre a natureza
humana. Eu desenhei assim. Este total representa a natureza humana. Três círculos. Aqui, verde,
inteligência. Vermelho, corpo. Azul, emoções. Aqui se pode representar muito bem, a totalidade da
natureza humana. E o branco no meio. O branco, o incolor representa o nosso Eu, o espírito.

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O vermelho representa o nosso ego físico, o nosso corpo
(sangue). O círculo completo, não só esta parte aqui. E o
verde sempre representa simbolicamente o nosso ego
mental, intelectual. A inteligência é sempre representada
pelo verde. Inteligência, ciência, tudo tem que ver com
inteligência.

Os médicos usam anel verde, como sabem. Os advogados usam anel vermelho porque eles
têm que lutar nesta zona aqui. Os médicos estudam aqui no verde, inteligência. Isto é luta pela vida.
E o azul representa sempre a parte emocional.
Então, temos aqui as três partes componentes da natureza humana: corpo, mente e emoções.
E em parte, um cobre uma parte do outro. Por exemplo, a mente tem uma parte comum com as
emoções. Esta parte aqui é tanto verde como azul. E a mesma mente também tem uma parte em
comum com o todo. O verde com vermelho dá este triângulo aqui. Todos os psicólogos sabem disto:
O que acontece na mente reflete sobre o corpo. O que acontece na mente também reflete sobre as
emoções. Todos sabem disto, hoje em dia. E esta parte aqui em baixo, a emoção, em parte cobre
uma parte do corpo, porque o que acontece na parte emocional se reflete infalivelmente na parte
corporal. E vice-verso, o que acontece no corporal, em parte também acontece no emocional. Quer
dizer, este é o desenho mais completo sobre a natureza humana. Fica um triângulo branco no meio,
onde os três círculos deixam uma área em branco. Que é isto? O nosso espírito, a nossa alma, o
nosso Eu. Este é incolor porque a luz branca é a plenitude das cores. As outras cores são cores
parciais.
Todos sabem que a luz branca contém todas as
cores. Ela se decompõe no prisma e do outro lado do
prisma saem as 7 cores do arco-íris. Mas, a luz entrou
como incolor, no prisma. Dentro do prisma ela se parte e
sai em forma de 7 cores visíveis, tem milhares de outras
cores invisíveis. Mas, nós dizemos que são sete cores.
Então o branco é sempre espiritual. É o que nós
chamamos o espírito, ou quando o espírito está revestido
num corpo nós chamamos alma.
O espírito revestido é a alma. O espírito é uma emanação da Divindade, mas quando ele se
reveste de um corpo material, como aqui...então nós chamamos o espírito, a alma. Mas antes de se
revestir em corpo material o espírito não é alma.
Nós temos alma desde o nosso nascimento. Os nossos pais é que nos deram o invólucro
material, mas, eles não nos deram a alma. A alma é anterior ao corpo. Mas, quando o espírito de
Deus que depois se chama alma... - se o espírito de Deus anima um corpo material, então, se torna
ânima. Palavra latina para alma é ânima. O espírito infundido num corpo material é uma ânima, um
espírito que anima o corpo.
Então, nós chamamos isto o nosso Eu. Isto - se fosse tudo aqui, a nossa natureza, seríamos
todos autorrealizados. Isto é a figura da autorrealização. Onde o espírito está no meio, domina todo
o resto, e penetra tudo isto. Este círculo aqui se reflete nesta parte. Aqui se reflete no vermelho. E
aqui se reflete verde. Então, seria o eu central permeando o eu mental, o eu corporal e o eu
emocional. Isto seria o homem realizado 100%.
Se isto acontecesse com cada um de nós... - mas na falta de autorrealização acontece o
seguinte: nós tiramos o branco do meio e substituímos por uma outra coisa. Quando caímos na
luxúria substituímos provavelmente pelas emoções que são estas aqui. Colocamos o azul no meio
(abaixo-fig. A). Quanto a isto, fala Moisés, quando fala contra o abuso do sexo. Ou, quando
abusamos dos bens materiais...aqui, (fig.B) a matéria para gozar bens materiais ou gozar bens
sexuais... são duas coisas referentes ao corpo. Isto seria talvez luxúria e isto seria ganância. Se

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colocássemos uma destas cores no meio, em vez do branco.., porque quando alguém pensa
exclusivamente em satisfações sensuais do corpo, então, ele não está mais no centro espiritual.

A B C

Domínio das emoções Domínio da matéria Domínio do intelecto

E quando alguém quer só conforto material para o seu corpo, ele puxa o vermelho para
dentro do branco e o branco desaparece. Não se realizou no espírito. Realizou-se na matéria, mas,
isto não é autorrealização. E o intelectualista faz outra coisa. Aqui é o intelectual. Se o intelectual só
pensa em ciência, ciência... - então, ele se esquece do branco, joga fora o branco do seu centro e
coloca o seu verde no meio (figura C). Todos os três se falsificaram. Falsificação pela luxúria.
Falsificação pela ganância do luxo e falsificação pela ciência unilateral.
Todas estas três coisas são boas e podem ser usadas. Podemos usar a inteligência, podemos
usar as emoções e podemos usar os bens materiais. O uso é permitido, mas quem substitui o centro
por umas das três periferias, não está no uso, está no abuso.
E por isso, Moisés e Jesus clamam contra o abuso. Moisés contra o abuso que é mais isto
(gozos corporais). Jesus mais contra o abuso que é isto, (bens materiais). Aqui são bens corporais,
gozos corporais. E aqui são excessivos confortos materiais.
Ninguém falou contra o excessivo, a prevalência do intelectual. Talvez para o futuro ainda
apareça alguém que fale sobre isto. Porque naquele tempo a ciência não estava muito avançada.
Não se pecava muito pela inteligência. Pecava-se mais pela luxúria do corpo, ou pelo luxo das
riquezas. E por isto, os dois grandes campeões da autorrealização só tinham em mente preservar o
homem contra isto... ou contra isto...
Futuramente talvez deva aparecer um grande profeta, além de Moisés e Jesus que deva
mostrar os males da inteligência unilateral. Eu já disse que talvez seja tempo que apareça alguém.
Porque os males causados pela inteligência unilateral eu chamo lixo. São as três palavras: luxúria,
luxo e lixo.
Por que lixo? Porque a nossa inteligência ultimamente fez gigantescas descobertas nas leis
da natureza. Nos últimos 100 anos nós avançamos mais na inteligência do que em todos os tempos
passados. Basta mencionar três pontos da inteligência como: cinema, rádio e televisão. São três
grandiosas descobertas da inteligência humana. Estas três coisas podem ser boas, se são usadas
decentemente. Mas, se são abusadas, então, falsificam completamente a natureza humana.
Infelizmente, nós não temos programas decentes para cinema, para rádio e televisão. 90%
são contra a nossa autorrealização. 90% dos programas do cinema, muito mais de 90%. É muito
modesto dizer 90%. Talvez eu deva dizer 99% de tudo que o cinema apresenta e tudo que rádio e
televisão apresentam são contrários à nossa autorrealização. Porque eles se limitam à inteligência,
depois entram aqui na luxúria, depois entram aqui na ganância.
Vocês devem ter muitos bens materiais, muitos gozos corporais e têm que ter muito uso da
sua ciência, mesmo que seja lixo ou luxo. Porque o que não é compatível com isto é lixo. Se o verde
é compatível com isto, então, não é lixo. Se o azul não é compatível com isto, então é luxúria. Se o
vermelho não é compatível com o branco, então é ganância. Quer dizer, há três coisas: luxúria, luxo
e lixo. Contra isto nós temos uma ideia, em Jesus e contra isto (inteligência) ainda não houve um
grande profeta que falasse das conquistas da inteligência entregues ao abuso da vida humana.
Agora, os dois grandes homens da história, os dois imortais em corpo, queriam um homem
perfeito. Toda a campanha deles é pró-homem integral. O homem integral só se pode realizar pela

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evolução. Não se pode realizar, a não ser subindo. Se o homem quer estagnar ele fica parado no
plano horizontal. Se ele quer involver, em vez de evolver, então, ele involve para baixo. Para baixo
é involução. Para cima é evolução. No meio é estagnação. Nem o homem que estagna no meio, nem
o homem que desce, cumpre a sua missão. Somente o homem que evolve para cima, faz sua
evolução para cima. Este cumpre o destino da humanidade.
E Moisés não quer outra coisa senão fazer com que o homem evolva para as alturas e não
estagne na horizontal, nem involva para baixo, porque senão ele não se realiza. Então, tudo que eles
dizem é contra estagnação e contra involução. Tudo que está no Gênesis e tudo que está no
Evangelho luta contra estagnação e involução e pró-evolução. Quer dizer que são os grandes
campeões da evolução. A evolução produz o homem integral. O homem integral é o ponto final da
evolução.
A estagnação contenta-se com o semi-homem animal. Com o semi-homem. Não é um
homem integral. E a involução é pior do que isto, não se contenta nem com o homem integral, nem
com o semi-homem. Vai ao pseudo-homem, porque o homem que vai abaixo do nível do animal,
não é nem semi-homem, muito menos pleni-homem. É um pseudo-homem. Então, ele se põe contra
o pseudo-homem da involução e o semi-homem da estagnação e a favor do pleni-homem da
evolução.
É preciso ver estes grandes livros através deste prisma para não pensar que eles sejam
moralizadores. Eles não pregam moralidade. Eles pregam a realidade do Ser cuja consequência
depois é a moralidade. E neste caso a moralidade não é moralidade. Nós não usamos mais a
moralidade na filosofia quando queremos dizer que é uma consequência da autorrealização. Quando
alguém entra na moralidade porque saiu da mística da autorrealização, então, não entrou
propriamente na moralidade. Moralidade é uma coisa artificial. É que nós fabricamos as
moralidades.
As moralidades são fabricações dos homens. Isto é moral aquilo é imoral; mas quando
alguém sai da verdade do seu Ser, da autorrealização do seu Ser, e entra no mundo do agir, então,
ele não entra no mundo da moralidade. Nós em filosofia não podemos identificar moralidade com
ética. Os dicionários que não são muito filosóficos dizem que moralidade e ética é a mesma coisa.
Ética é palavra grega e moralidade é palavra latina. É a única diferença nos dicionários. Isto é bom
para escola primária, mas, isto não serve para a filosofia.
Na filosofia nós devemos manter a nítida distinção entre ética e moral. A ética é sempre a
consequência espontânea, infalível da mística. Quem não passou pela mística não entrou na ética,
porque a moralidade não precisa passar pela mística. Nós podemos ser morais sem nenhuma
experiência de Deus. Eu posso ser altruísta, não fazer mal a ninguém, não roubar a ninguém, não
difamar ninguém por motivos simplesmente humanos. Não precisa nenhum Deus para moralidade.
Para ser moral eu não preciso de Deus.
2a parte :
O maior ateu pode ser moral, e muitos são. Há muitos que negam ou duvidam de Deus. Os
agnósticos duvidam e os ateus negam. Muitos agnósticos são profundamente morais, muito
altruístas, muito filantrópicos, muito beneficentes - mas, não estão na ética. Eles estão na
moralidade. A moralidade é uma fabricação puramente humana do ego. O nosso ego fabrica
moralidade e faz bem porque é melhor moralidade do que imoralidade.
Então, nós devemos dizer, moralidade é um produto do nosso ego humano, mas, um produto
bom, mas, não tem nada que ver com a espiritualidade. Pode haver moralidade sem nenhuma
espiritualidade. Porque espiritualidade supõe sempre um ser superior, supõe um poder infinito de
que nós dependemos. Supõe a Divindade, supõe Brahma, supõe Tao, supõe Yahvé, seja o que for.
Supõe o absoluto. E somente dentro da mística e da espiritualidade pode nascer a ética.
De maneira que Moisés e Jesus não eram moralistas. Eram, vamos dizer, realistas,
defensores da realidade humana. A minha moralidade não é a minha realidade. A minha moralidade
se refere aos meus atos externos, visíveis, dentro da sociedade - isto é a moralidade. A minha

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realidade (mística) é a base para todas as minhas moralidades. E se eu não passei pela experiência
mística do meu ser real, eu não sou bastante realista. Eu sou apenas moralista, e também não posso
ser ético, no sentido verdadeiro da palavra, porque a ética é o fruto da mística. Mas a moral não é
fruto da mística.
A moral é um arranjo social para nós podermos viver em paz uns com os outros. A moral foi
inventada para que não haja briga permanente de todos contra todos. Então, quando há certa
moralidade há certa paz na sociedade. Certa paz, não muito grande. Há matanças e roubalheiras por
toda parte, apesar de termos creado tanta moralidade. Porque a moralidade nunca pode ser uma
coisa perfeita. Se houvesse experiência mística, não haveria mais matanças, roubos, e outros crimes
na sociedade. Isto provavelmente nunca vai acontecer - que toda a humanidade tenha experiência da
realidade infinita, Deus. Isto daria uma ética perfeita e não por motivos de prêmio ou castigo,
porque tudo o que nós fazemos por prêmio ou castigo não é ético. É apenas moral.
As religiões ensinam moralidade, mas a religiões não ensinam ética. Ética seria... Eu sou
bom independentemente de qualquer prêmio ou de qualquer castigo, antes ou depois da morte.
Mas, as religiões dizem: ‘não, depois da morte você vai ser premiado se for bom, ou você vai ser
castigado se for mau nesta vida’. Isto é moral. Isto é moralidade, porque tudo que nós fazemos com
esperança de prêmio ou com medo de castigo seja antes ou seja depois da morte, nada disto é ético.
Nada disto é perfeito.
Porque prêmio e castigo são egoísmos; prêmio e castigo supõem egoísmos. E qualquer
prêmio que venha de fora de nós supõe que eu seja egoísta. O egoísta quer ser premiado e não quer
ser castigado. Quer dizer tudo que nós fazemos com esperança de prêmio ou com receio de castigo
é egoísmo.
Bérgson, o grande filósofo francês, (nos últimos tempos, ele esteve em Princeton, pouco
antes do meu tempo, durante a guerra de Hitler) diz em um de seus livros “As duas fontes da moral
e da religião”: “as igrejas todas condenam o egoísmo terrestre, mas, as igrejas recomendam todas o
egoísmo celeste”. O que é que ele chama o egoísmo celeste? Você deve ser bom para entrar no céu.
Isto é esperança de prêmio. Você não deve ser mau para não cair no inferno. Isto também é
egoísmo. Quem age por esperança de prêmio ou medo de castigo antes ou depois da morte, age por
um secreto egoísmo.
Mas, a gente pode agir por outra causa? É o grande problema da educação que eu focalizo
muito no meu livro, que agora está esgotado (estou reformando completamente Educação do
Homem integral)... pode haver algum outro motivo para eu ser bom e para eu não ser mau? Não,
não pode haver um outro motivo. Só pode haver o motivo de prêmio, ou seja na vida presente, ou
seja na vida futura, ou castigo, seja na vida presente, seja na vida futura.
Os governos geralmente não premeiam os bons, mas castigam os maus. Isto é costume no
mundo inteiro. Pode ser bom como quiser - não vai ter nenhum prêmio por parte do governo. Mas,
se ele é mau vai ser multado, vai para a cadeia. Quer dizer, eles só agem por motivo de castigo na
zona civil.
Mas, nas religiões vão um pouco além. Eles dizem: não, se você for bom você vai para o
céu. Pode ser que neste mundo tem que sofrer, mas, a eternidade é para gozar. Isto também é
egoísmo. E se você for mau não é certo que seja castigado na vida presente - dizem as igrejas. Às
vezes você passa perfeitamente bem toda vida apesar de ser mau como aquele rico avarento lá do
Evangelho. Mas, depois você vai ver por toda eternidade, você vai sofrer. Tudo isto são motivos
externos, que não são motivos éticos, são apenas motivos morais. Há moralidade nisto.
Então, perguntam, que outro motivo eu poderia ter para ser bom? E é difícil responder. É
difícil responder, que outro motivo pode haver que não seja prêmio ou castigo. Porque este outro
motivo supõe uma coisa que a maior parte não entende: autoconhecimento. Não há 1% da
humanidade que tenha autoconhecimento. Eles se identificam com o seu corpo que não é
autoconhecimento, ou se identificam com a sua inteligência - não é autoconhecimento. Ou se
identificam com as suas emoções, seus desejos. Não é autoconhecimento.

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Nem 1% consegue identificar-se com sua alma, com seu espírito, com seu Deus imanente,
com seu Cristo interno. Isto seria autoconhecimento. Então, a estes tais que são pelo menos 99% da
humanidade que não têm autoconhecimento, nós não podemos falar de um outro motivo para ser
bom que não seja prêmio que não seja castigo, antes ou depois da morte. Que outro motivo seria
isto?
Seria simplesmente a minha autorrealização. Eu sou homem apenas realizável, eu não sou
homem realizado. Deus não fez nenhum homem realizado. Deus fez somente homens realizáveis.
Nós podemos realizar-nos, mas, nós não somos realizados. Nós somos potencialmente realizados,
isto é, realizáveis, mas nós não somos atualmente realizados. A transição da realização possível para
a realização real corre por nossa conta.
Por isso, diz um grande pensador europeu: Deus creou o homem o menos possível para que
o homem se possa crear o mais possível. Isto é autorrealização. Deus nos deu uma creatividade. O
livre arbítrio é uma creatividade. O livre arbítrio pode tornar-nos melhores do que Deus nos fez ,
mas, pode tornar-nos também piores do que Deus nos fez. Nós somos creadores, não somos só
produtores. A gente produz objetos, mas a gente crea o seu sujeito. No nosso sujeito nós somos
creadores, nos objetos nós somos só produtores.
Muitos se contentam com produção e pensam, tanto vale o homem quanto ele produz. Isto
não é verdade. Nós devemos dizer, tanto vale o homem quanto ele creou em si mesmo. O que ele
creou, valores eternos que ele crea em si - isto é o motivo da autorrealização. Ele pode produzir
objetos, mas, objetos que vão embora amanhã. Valores que ele crea dentro de si são eternos. Objetos
que ele produz fora de si, leva pouco tempo - depois vai tudo embora.
Então, o motivo para ser bom e para não ser mau não devia ser a ideia de prêmio, antes ou
depois da morte, ou de castigo antes ou depois da morte. Isto não são motivos para homens adultos.
São motivos para criança. A criança não pode compreender outra coisa senão prêmio e castigo. E
por isso todo mundo joga com prêmio e castigo. Senão, a criança não aprende, não se comporta
direito.
Mas, para o homem adulto, ele não podia viver tão infantilmente e dizer: eu quero ser bom
para ser premiado, e não quero ser mau não para ser castigado. Bem, isto é infantilismo adulto.
Muitos adultos são crianças, entre 8 e 80 anos. Mas, quando o homem chegou na adultez espiritual,
na adultez real da sua natureza, quando ele entrou na zona branca, aqui, da luz branca, e ele
responde a eterna pergunta, que sou eu? E ele diz: eu sou o espírito finito que emanou do espírito
infinito. A minha alma é uma emanação individual da Divindade universal. Por isso eu devo
realizar plenamente aquilo que é realizável. Não os objetos, isto não interessa, mas o sujeito,
porque o sujeito realizado é eternizado. Os objetos produzidos não são eternos.
Então, quando alguém começa a compreender o verdadeiro motivo do seu ser bom, e não ser
mau, ele entra finalmente na verdade do ser. Ele entra na verdade do Ser sobre si mesmo. E os
grandes chefes dizem: ‘conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará de qualquer ilusão, de
qualquer engano. Somente a verdade do nosso Ser nos pode libertar de toda ilusão, de toda
escravidão e de toda maldade’.
E não há outra coisa no Gênesis, e não há outra coisa no Evangelho, senão a campanha pró
autorrealização. A campanha de autoconhecimento que se transforma em autorrealização. Tudo isto
está entre as linhas dos grandes mestres da história. Quer dizer que podemos dizer: Moisés e Jesus
foram os grandes campeões da autorrealização. Ou, em outras palavras, Moisés no Gênesis, e Jesus
no Evangelho foram os grandes campeões da eugenia humana. Eugenia é um termo moderno - quer
dizer raça boa propriamente. Que a raça humana, a humanidade, o ser humano, seja perfeitamente
bom. Isto seria eugenia.
Os nossos escritores chamam eugenia quando o corpo é perfeito, mas, isto não é eugenia.
Também não é eugenia quando só a inteligência é perfeita. Também não é eugenia quando só as
emoções são perfeitas. Não, eugenia que é palavra grega, quer dizer, quando o homem integral,
completo: espírito, mente, corpo e emoções, estiverem em perfeita evolução e em perfeita harmonia

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entre si. Se um não substituísse o outro, mas que cada um ficasse no seu lugar e o maior iluminasse
os outros.

Se partisse uma luz aqui da zona branca e irradiasse pelo verde,


irradiasse pelo azul, irradiasse pelo vermelho, mente, emoção e corpo,
então, nós teríamos uma perfeita eugenia. Teríamos realizado a nossa
natureza humana, que é propriamente a ideia de eugenia E podem ver
que através de todos os livros sacros, os grandes campeões são a favor
da eugenia e não querem que o homem fracasse. Não querem que o homem estagne na horizontal
ou involva para baixo.
E por que justamente estes dois homens, como Moisés e Jesus? Porque eles já eram assim.
Eles já eram isto e eles querem que nós sejamos, sem doenças. Nunca nenhum destes homens esteve
doente. Ser doente não é muito agradável. Eles não eram sujeitos à morte compulsória porque
nenhum deles morreu realmente, a não ser por vontade própria. Jesus poderia ter evitado, mas, ele
não quis. Depois ele voltou. Esteve morto só três dias. E Moisés nunca morreu, também nunca
tiveram doenças. Também não consta de maldades deles. Quer dizer, é uma perfeita eugenia.
Eu disse isto uma vez, alguém disse: ‘mas Moisés cometeu muitas maldades, imaginem,
matou todos os primogênitos do Egito, numa única noite. Isto não é maldade?’
Meus amigos, se matar fosse maldade, Deus seria o maior dos malvados. Quem mata mais é
Deus. Vocês sabem que Deus é o maior matador que existe? Sabem quantos homens Deus mata
todos os anos? Cinquenta e tantos milhões. Pela estatística morrem em cada ano 52 milhões de seres
humanos. Vamos dizer que morrem de velhice, porque se morrem de acidente não é culpa de Deus.
Se morrerem de doença também não é culpa de Deus - é culpa nossa.
Vamos dizer que morrem de velhice. A velhice é inevitável. Ninguém pode viver
eternamente aqui no mundo. Cedo ou tarde ele tem que passar pela morte, mesmo que nunca esteja
doente, a não ser que ele consiga transformar o seu corpo como Moisés, como Elias e como outros.
Mas, isto não é nem 1%. O grosso da humanidade tem que morrer - queira ou não queira... Vamos
dizer, não por doença, nem por acidente, nem por crime de ninguém, mas, simplesmente velhice.
Mas, a velhice é por conta de Deus. E morrem mais de 50 milhões, então Deus seria o maior dos
malvados porque mata 50 milhões de pessoas no ano?
Não, a maldade não consiste no ato físico de matar. A maldade consiste no motivo porque eu
mato. Consiste no ódio cuja consequência é a matança. Simplesmente o fato físico de destruir uma
vida não é o pecado. O pecado está no motivo de ódio porque eu destruo uma vida. Deus não
destrói por ódio porque as leis naturais não têm ódio. Isto é o curso das leis cósmicas, a velhice. E
isto tem que acontecer, cedo ou tarde.
Então, não podemos acusar Moisés de ser pecador por ter matado os primogênitos. Porque
ele teve ordem de libertar um povo escravizado... 430 anos de escravidão no Egito; e como não
havia outro meio, foi necessário que ele desencadeasse a morte dos primogênitos. Ele mesmo não
matou, mas, o responsável pela matança segundo o Gênesis, foi ele. Mas, não por ódio. Ele não
odiava nenhum destes primogênitos que morreram numa única noite no Egito.
Portanto, não vamos confundir a maldade da morte com o fato físico. Vamos identificar a
maldade da morte com o ódio, mas, se não há ódio, então, não podemos dizer que matar seja
maldade. Então, Deus seria o maior malvado? Porque Deus mata mais do que ninguém.
Bem, então vamos incluir Moisés também nos homens realizados. Aliás, tudo que ele fez e
principalmente até a transformação do seu corpo físico num corpo astral, já é sinal de alto poder
espiritual.

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