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UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI - URCA

CENTRO DE HUMANIDADES - CH
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: HISTÓRIA DO BRASIL COLÔNIA
DOCENTE: DR. MARIA LUCÉLIA DE ANDRADE
DISCENTE: MIRIAN MARCELINO DA SILVA

RUSSELL-WOOD, A.J.R. O Brasil Colonial: O Ciclo do Ouro, c. 1690-1750 In:


História da América Latina Colonial. Vol. II. São Paulo: EDUSP; Brasília: FUNAG,
2004. p. 471-525.

O texto O ciclo do ouro (1670-1750), escrito pelo historiador estadunidense A.


J. R. Russell-Wood, tem como objetivo tratar sobre os aspectos e fatores relacionados
à implantação do trabalho minerador na América Portuguesa. O texto também fala
sobre como a coroa portuguesa saiu ganhando com essa exploração, e em
contrapartida, como os colonos, em sua maioria, saíram perdendo com a mineração,
e assim foram impedidos de desfrutar uma idade do ouro.
Desde a chegada dos portugueses em solo brasileiro, histórias e notícias
relacionadas ao ouro são relatadas à Coroa, sendo a grande maioria desses relatos
meras invenções. Algumas dessas notícias, no entanto, eram verdadeiras, apesar da
pouca atenção a princípio dada a elas. Esses achados eram provenientes de um
grupo de exploradores que, a pedido da coroa ou não, saíam do litoral em busca de
metais preciosos e índios para o trabalho escravo. Esse grupo, os chamados
Bandeirantes, encontraram ouro em Minas Gerais e assim despertaram o interesse
da Coroa para as atividades mineradoras.
Em 1560, por exemplo, foi encontrado ouro em São Vicente, capitania do
donatário Martim Afonso de Sousa. Posteriormente, também foi encontrado ouro em
Curitiba, Espírito Santo, Paranaguá e Pernambuco.
Embora esses achados não pudessem ser ignorados, a Coroa Portuguesa
tinha receio de que ocorresse uma corrida do ouro para essas regiões, o que
acarretaria consequências negativas para outras atividades econômicas, além do
receio de ataque de corsários/contrabandistas. Além do mais, a Coroa não estava
tão confiante na produtividade e na potencial riqueza que tais jazidas produziriam,
mesmo as Minas Gerais, e também havia o receio de que outras nações europeias
se engajassem nessa exploração. Os fazendeiros não podiam competir com os
mineiros por conta destes poderem pagar melhor os escravos. Os gêneros
alimentícios tiveram aumentos de preços abruptos, levando muitas famílias à
bancarrota, impelindo algumas dessas pessoas a tentar a sorte nas minas.
Para combater essa corrida do ouro e as consequências econômicas
negativas, uma série de medidas foram adotadas, medidas essas que se mostraram
ineficazes.
Dois exemplos dessas medidas são as adotadas em 1701 e 1704. Em 1701, o
rei proibiu o transporte de gênero alimentício da Bahia para "As minas de São Paulo".
Em 1704, a coroa proibiu a reexportação de gêneros alimentícios para essas
localidades. O rei também proibiu a abertura de novas estradas em direção a Minas
Gerais.
Um dos motivos do porquê essas medidas não funcionaram está na distância
entre metrópole e colônia, o que tornou difícil a comunicação e fiscalização das
medidas implantadas.
Apesar do caminho para as áreas de mineração ser íngreme, perigoso,
submetido à ameaça de ataque indígena, somado às intempéries advindas do
ambiente, vários indivíduos de dentro e fora da colônia arriscaram-se em busca de
riquezas. Apesar das multas e burocracias, muitas pessoas saiam da metrópole em
direção às minas.
Com relação às pessoas que se arriscaram a explorar as minas, não há registro
suficiente para que se tenha certeza acerca do perfil delas. Apesar dos registros
esparsos, é possível identificar que os migrantes eram oriundos de vários locais, em
sua maioria homens.
Os perigos do caminho até às minas não diminuíram nos acampamentos.
Embora muitos alimentos fossem enviados a regiões mineradoras, poucos chegavam
ao local e em bom estado. A insuficiência alimentar era uma coisa corriqueira. Muitas
pessoas não tinham o preparo físico e psicológico adequado para essa tarefa.
Diante dos avanços para área de mineração, a Coroa precisou estabelecer
algumas medidas para tentar conter a anarquia nesses locais.
Buscava-se com isso promover um governo eficiente, capaz de ter maior
controle das áreas de mineração, efetivando a arrecadação do quinto e assim
evitando a prática do contrabando.
Sendo defensor da fé por meio do Padroado Real, a Coroa também deveria
impor medidas que coibissem atos de libertinagem e o não pagamento do dízimo.
Uma das formas encontradas para exercer esse controle foi a elevação de
algumas localidades à condição de Vila. Em Portugal, o município representa a
estabilidade, a manutenção jurídica e a presença da coroa. A ordenação real de 1698
permitiu que o governo-geral fundasse vilas no interior. Algumas vilas subiram de
categoria, passando a serem consideradas cidades. Esses locais tornavam-se
centros administrativos e comerciais.
Com o crescimento das áreas de mineração e a elevação de localidades à
condição de vilas e cidades, o foco do controle passou a ser regiões a oeste. Por este
motivo, em 1765, a capital do vice-reinado foi transferida para o Rio de Janeiro,
decisão que teria consequências importantes para o arranjo geopolítico das regiões
do Brasil posteriormente. Essa decisão produziu insatisfação e confusão no que
concerne à jurisdição desses locais.
Para conter rebeliões, combater a corrupção, aplicar a justiça, fiscalizar o
contrabando e receber o pagamento dos tributos, a Coroa criou alguns órgãos. Entre
esses órgãos estão as Juntas de julgamento, Comarcas e os Tribunais de Apelação.
A história da comarca da Bahia do Sul exemplifica a dificuldade que a coroa
enfrentava para estabelecer uma institucionalidade firme e livre da corrupção. Apesar
dos esforços, essa tentativa de implantar a justiça e aumentar a fiscalização não teve
êxito, sobretudo em relação a delimitação dos espaços de poder e responsabilidades.
Muitos magistrados acabavam fazendo coisas que não eram de sua jurisdição, o que
comprometia a qualidade do serviço jurídico.
Ainda que muitos magistrados fossem realmente leais e imparciais nas suas
tarefas, outros tantos estavam mais preocupados em realizar transações comerciais
ou contrair matrimônios, coisas não permitidas sem a licença real. Problemas
relacionados aos salários e encargos pesados sobre os magistrados ocasionaram a
escassez de advogados nos acampamentos mineiros, dificultando o julgamento de
criminosos. Uma solução mais administrativa do que jurídica foi adotada, a
contratação dos chamados juízes de fora.
Não só os serviços jurídicos enfrentavam dificuldades crônicas, mas também
os serviços policiais. Havia uma terra muito vasta, pouco mapeada e com uma
guarnição insuficiente. Por conta dessa limitação, a força policial tinha outras
prioridades a frente da manutenção da lei e da ordem, tais como a escolta de mineiros,
impedir rebeliões e o tráfico ilegal de ouro. Essas forças policiais eram na verdade
milícias contratadas pelos governadores, cujo destaque fica por conta dos chamados
dragões. As atividades escravas também necessitavam de fiscalização. Para impedir
a fuga dos escravos, era requerida a ação do capitão-do mato.
As ordens religiosas que atuavam nas minas também eram vistas com
desconfiança. A fragilidade institucional refletia nas atividades da Igreja Católica e na
corrupção de alguns de seus integrantes. Houve dificuldades na criação de bispados.
Alguns governadores comunicavam-se com o rei avisando sobre os frades que
estavam envolvidos com mulheres e que adoravam a "Igreja Mineral". Esses
governadores tinham receio de que a maior facilidade de deslocamento das ordens
religiosas servissem como meio de contrabandear ouro.
A segunda parte da obra aborda o crescimento demográfico e as
consequências de tal aumento. Com as dificuldades encaradas pelos colonos,
aumentou o contrabando, os conflitos internos, a insatisfação e o não pagamento do
quinto e demais taxas.
O ouro tornou-se a base da economia dessas regiões. A mão de obra utilizada
era essencialmente escrava, embora a mão de obra indígena também tenha sido
empregada. Os escravos da região vinham da "Baía da Beninge" também conhecida
como "Costa da Mina".
Esses negros eram tidos como mais fortes em comparação a outros. Porém,
independente do local que viessem, a média de vida de um escravo empregado na
mineração era baixa, variando entre sete e doze anos.
Os métodos de cobrança com relação ao ouro variaram no espaço/ tempo.
Primeiro foi empregado a captação, posteriormente o quinto, onde seria descontado
nas casas de fundição a parte pertencente à coroa. Todas essas medidas foram
implementadas para conter o contrabando e tirar o máximo possível de lucro do que
era obtido. A insatisfação dos colonos, principalmente daqueles que faiscavam
sozinhos ou tinham poucos escravos, era de que a quantidade de pagamentos para
coroa era exorbitante. Isso fez crescer as tentativas de contrabando, aparecendo na
forma de casas de cunhagem e fundição ilegais, na adulteração do ouro em pó e no
transporte do quinto sem passar pelas casas de fundição oficial.
O tesouro real, portanto, aumentou substancialmente em decorrência da
mineração. Porém, a população mineira não desfrutou dessa extração. As
consequências foram desastrosas para o povo comum. Mesmo com essas
consequências, alguns fatores positivos podem ser tirados dessa atividade e de toda
organização que se construiu em torno dela. Alguns desses fatores, por exemplo,
foram o estímulo à urbanização brasileira, a migração, o início de uma economia
monetária e a criação de centros de consumo e produção.
Ou seja, embora a mineração tenha causado transtornos no início de sua
introdução e nos anos subsequentes, ela foi a propulsora necessária para o
crescimento da região Sudeste. Dentro de um contexto amplo pode-se perceber a
importância da mineração para o fortalecimento político da Colônia, que culminaria
com a sua emancipação política em 1822. Todavia, não se pode perder de vista que
os ganhos chegaram apenas para uma parcela restrita. A maioria da população
continuava tendo que lutar contra as agruras do local e os órgãos de controle que não
tinha por interesse melhorar a vida do povo, apenas tirar o máximo de proveito daquilo
que era produzido.