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Marcos Roberto Rosa 13/05/2009


Faculdade Municipal de Palhoça
Ciências Políticas Prof. Emerson Martins

Roteiro de estudos – “O Federalista”. WEFFORT (v. 1, pp. 245-255)

“O Federalista” é fruto da reunião de uma série de ensaios publicados na imprensa de


Nova York em 1788, com o objetivo de contribuir para a ratificação da Constituição pelos Estados.
Obra conjunta de três autores, Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, os artigos eram
assinados por Publius.
Os nomes dos três autores estão fortemente associados à luta pela independência dos
Estados Unidos, figurando entre aqueles que tiveram participação destacada em eventos capitais.
Hamilton foi o primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos e um dos principais conselheiros
políticos do presidente George Washington, a quem também esteve ligado John Jay, o primeiro
presidente da Corte Suprema. Madison, junto com Jefferson, liderou a formação do Partido
Republicano, pelo qual veio a ser eleito o quarto presidente dos Estados Unidos em 1808.
O acordo entre os autores de “O Federalista” não era absoluto e esteve diretamente
relacionado aos objetivos dos artigos: a defesa da ratificação da Constituição. Não concordavam
entre si em vários pontos, como também, em pontos específicos, tinham reservas quanto a
Constituição proposta. Concordavam, no entanto, que a Constituição elaborada pela Convenção
Federal oferecia um ordenamento político incontestavelmente superior ao vigente sob os Artigos da
Confederação. Por partilharem deste diagnóstico, e por considerarem urgente para a sorte do país a
adoção da nova Constituição, os autores de “O Federalista” projetaram escrever uma série de artigos
onde a nova Constituição seria explicada e ao mesmo tempo, refutadas as principais objeções de seus
adversários.
Em seus artigos, os autores de “O Federalista” explicitam a teoria política a
fundamentar o texto constitucional. A filosofia política da época, em especial a exposta por
Montesquieu, era evocada pelos adversários da ratificação para fundamentar o questionamento que
faziam do texto constitucional proposto. O desafio teórico enfrentado por “O Federalista” era o de
desmentir os dogmas arraigados de uma longa tradição. Tratava-se de demonstrar que o espírito
comercial da época não impedia a constituição de governos populares e, tampouco, estes dependiam
exclusivamente da virtude do povo ou precisavam permanecer confinados a pequenos territórios.
O moderno federalismo:
“Se não houver penalidade associada à desobediência, as resoluções ou ordens que
pretendem ter força de lei serão, na realidade, nada mais que conselhos ou recomendações.”
A única forma de criar um governo central, que realmente mereça o nome de governo,
seria capacitá-lo a exigir o cumprimento das normas dele emanadas. Para que tal se verificasse, seria
necessário que a União deixasse de se relacionar apenas com os Estados e estendesse o seu raio de
ação diretamente aos cidadãos.
A Constituição proposta defendia a criação de uma nova forma de governo, até então
não experimentada por qualquer povo ou defendida por qualquer autor. O federalismo nasce como
um pacto político entre os Estados, fruto de esforços teóricos e negociação política. Um pacto
político fundante, pois, por seu intermédio, se constituía os Estados Unidos enquanto nação.
Inspirados na reflexão de Montesquieu, calcada na história européia, ao
“Antifederalistas” apontavam para os riscos à liberdade inerentes a um grande Estado, cujas
características os levava a se transformar em monarquias militarizadas. Hamilton, ao contrário,
detectava nesta proposta o germe da competição comercial entre as diversas confederações. Para

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evitar as rivalidades comerciais, estas sim as causadoras da militarização e do fortalecimento do


executivo, defendia o pacto federal.
A separação dos poderes e a natureza humana:
“Mas afinal, o que é o próprio governo senão o maior de todos os reflexos da
natureza humana? Se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governo.” Esta afirmação
de Madison, feita em “O Federalista” n. 51, resume a concepção sobre a natureza humana a
fundamentar as reflexões contidas em “O Federalista”. Uma visão realista, quando não pessimista, do
comportamento dos homens, exposta em um sem-número de passagens.
Trata-se de um recurso de argumentação utilizado para justificar a necessidade de
criação do Estado e do estabelecimento de controles bem definidos sobre os detentores do poder – o
tema central de “O Federalista”. As estruturas internas do governo devem ser estabelecidas de tal
forma que funcionem como uma defesa contra a tendência natural de que o poder venha a se tornar
arbitrário e tirânico.
A defesa da aplicação deste princípio encontra-se construída a partir de medidas
constitucionais, garantias à autonomia dos diferentes ramos do poder, postos em relação um com os
outros para que possam se controlar e frear mutuamente, referidas, em última análise, às
características nada virtuosas dos homens, seus interesses e ambições pessoais por acumular poder.
A adoção do princípio da separação dos poderes justifica-se como uma forma de se
evitar a tirania, onde todos os poderes se concentram nas mesmas mãos. Os diferentes ramos de
poder precisam ser dotados de força suficiente para resistir às ameaças uns dos outros, garantindo
que cada um se mantenha dentro dos limites fixados constitucionalmente.
Para as repúblicas, o legislativo se constitui na maior ameaça à liberdade, já que é a
origem de todos os poderes e, em tese, pode alterar as leis que regem o comportamento dos outros
ramos de poder. Daí porque sejam necessárias medidas adicionais para frear o seu poder. A
instituição do Senado é defendida com este fim, uma segunda câmara legislativa composta a partir de
princípios diversos daqueles presentes na formação da Câmara dos Deputados, afim de que a ação de
uma leve a moderação da outra.
Outra forma de deter o poder legislativo se obtém pelo reforço dos outros poderes. O
judiciário, necessariamente o ramo mais fraco porque destituído de poder de iniciativa, merece
cuidados especiais para que sua autonomia seja garantida.
As repúblicas e as facções:
“O Federalista” n. 10, de autoria de James Madison, é considerado o artigo mais
importante de toda a série. A razão desta celebridade encontra-se em sua discussão a respeito do mal
das facções e das formas de enfrentá-lo. Madison inova ao defender que a sorte dos governos
populares não depende de sua eliminação, mas sim de encontrar formas de neutralizar os seus
efeitos.
Se as facções são inevitáveis, o problema passa a ser o de impedir que um dos
diferentes interesses ou opiniões presentes na sociedade venha a controlar o poder com vistas à
promoção única e exclusiva de seus objetivos. Madison está a advogar a causa de uma nova espécie
de governo popular, uma república representativa.
A distinção entre as repúblicas e as democracias puras traz vantagens à primeira em
dois pontos capitais. Primeiro, fazendo com que as funções de governo sejam delegadas a um
número menor de cidadãos e, segundo, aumentando a área e o número de cidadoas sob a jurisdição
de um único governo.

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Como afirma o próprio Madison, à segunda característica distintiva das repúblicas


deve-se a principal contribuição para evitar o mal das facções. Sob um território mais extenso e com
um número maior de cidadãos cresce o número de interesses em conflito, de tal sorte que ou não
existe um interesse que reúna a maioria dos cidadãos, ou, na pior das hipóteses, será difícil que se
organize para agir.
A preocupação central da legislação moderna é a de fornecer os meios para a
coordenação dos diferentes interesses em conflito. Levar à coordenação dos interesses é a marca
distintiva das repúblicas por oposição à violência do conflito entre facções características das
democracias populares. Ante o bloqueio mútuo das partes, a coordenação aparece como a única
alternativa para a decisão dos conflitos, o interesse geral se impondo como a única alternativa.