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METODOLOGIA JURÍDICA II

O Método Jurídico Geral


Ficha para a Aula - 2021
O Raciocínio Jurídico
Atente aos extractos:
1. “Noção do Raciocínio Jurídico
a) A definição do raciocínio jurídico
O raciocínio Jurídico define-se como a operação intelectual suscetível de conduzir a
uma solução dos problemas jurídicos como o uso de meios racionais.

b) O objecto do raciocínio jurídico


O raciocínio jurídico tem sempre por objecto confrontar uma situação de facto às
regras de Direito e tem por finalidade procurar a solução jurídica mais adequada. O
problema é: como passar de uma situação de facto à regra de Direito ou da regra de
Direito à situação de facto? Pode-se acreditar que que este relacionamento é
facilmente atingido e que sempre a solução é facilmente procurada; todavia, a
diversidade das situações de facto e dos comportamentos das pessoas não permite
prever ou encontrar sempre uma regra específica e pertinente em cada caso para
solucionar o problema em causa até porque a estrutura abstracta da regra de Direito
não ajuda, as vezes, o prático do Direito, em encontrar facilmente uma solução
concreta.

➢ Assim, pelo raciocínio, o jurista deve procurar, na base de um conjunto de


conhecimentos, o meio de atingir um objectivo. Com efeito, o raciocínio jurídico
apresenta-se portanto como um conjunto de argumentos cujo número, a qualidade e a
organização têm por objectivo de convencer. Mas, neste processo intelectual, o
raciocínio lógico ocupa um lugar relevante. Ele tem por objectivo de garantir a
consistência da ordem jurídica e a segurança na aplicação do Direito. Por outras
palavras, os raciocínios lógicos no Direito permitem dar uma melhor previsibilidade
do Direito o que contribui para constituir uma garantia de segurança jurídica.
2. A lógica formal no raciocínio jurídico.
• Regra geral, pode-se afirmar que a aplicação do Direito funda-se num silogismo de
subsunção, isto é, a conclusão jurídica é o resultado da aproximação de duas
premissas: a premissa maior que representa a questão de Direito e a premissa menor
que representa a questão de facto. Assim, o raciocínio silogístico relaciona as três
proposições cujas duas primeiras chamam-se premissas e a última conclusão. Nos
países de tradição romano-germânica como Moçambique é, as sentenças judiciais
organizam-se sob a forma de silogismos.
Fundamentalmente, nas decisões de Justiça, o silogismo exprime a sujeição do juiz à regra de
Direito. Esquematicamente, o raciocínio silogístico descompõe-se da seguinte forma:
1. Se todos os ladrões são punidos (PREMISSA MAIOR);

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2. e se foi provado que João roubou (PREMISSA MENOR);
então
3. João deve ser punido (CONCLUSÃO).
Como sublinha JEAN-LOUIS BERGEL: “Este rigor lógico garante, ao mesmo tempo, a solidez
do edifício jurídico e a aplicação sistemática da lei”. Todavia, isto não significa que se deve
reduzir o Direito em equações silogísticas. O Direito tem por função de regular a vida social
e não se pode ignorar nem as realidades concretas, nem o movimento dos factos sociais.
Apesar disso, na prática, os raciocínios podem ser invertidos, isto é, se pode partir da
conclusão para legitimar um raciocínio lógico. Por exemplo, um advogado que defende uma
tese, procura os elementos de facto e as regras de Direito susceptíveis de lhe permitir justificar
esta tese ou de atingir um resultado determinado. Até numerosos juízes começam por
determinar “intuitivamente” a solução fundamentando a sua decisão num “manto jurídico”.
Além disso, as premissas do raciocínio jurídico não têm a certeza das premissas do raciocínio
científico. Ver VIRALLY. Algumas vezes, as premissas do raciocínio jurídico não têm a certeza
das premissas do raciocínio “científico”; por exemplo, algumas vezes, ignora-se o que de facto
aconteceu. A prova não é nítida, pode-se ter dúvidas.
No que concerne as regras de Direito aplicáveis numa determinada situação de facto, a sua
escolha e a sua interpretação podem dar lugar a hesitações. Assim, a regra de direito positivo
não resulta do único raciocínio jurídico. Fenómenos sociais podem ter influências (ex. A
policia não executa uma decisão por interesse público).
3. A dialéctica no raciocínio jurídico.
O raciocínio jurídico é um raciocínio dialéctico? Os juristas da Idade Média como os romanos
e os grecos praticavam a dialéctica. Por outras palavras, não iniciavam o estudo de uma
determinada questão pelo uso de um raciocínio dedutivo ou a partir de regras pré-
estabelecidas mas por controvérsias para chegar a conclusões simplesmente verosímil
fundamentada sobre a argumentação.
De facto, este modo de raciocínio existe em Direito. É nas discussões, nos debates e nas
controvérsias que se encontram a crítica e a refutação que caracterizam qualquer reflexão e
particularmente a reflexão jurídica. O raciocínio dialéctica/jurídico apresenta-se como um
conjunto de argumentos cujo número, qualidade e consistência têm por objectivo convencer
os seus destinatários. Dentro do conjunto dos argumentos, alguns têm um “valor
acrescentado”, é, por exemplo, os fundamentados sobre a força obrigatória da lei, das
decisões de justiça e das opiniões doutrinais. É na combinação dos diversos raciocínios
dialéctico e lógico-formais que encontra-se a particularidade e especificidade do raciocínio
jurídico.
B. A flexibilidade e adaptabilidade do raciocínio jurídico Um raciocínio puramente formal e
lógico pode conduzir conclusões injustas ou impraticáveis. O pensamento jurídico deve
recorrer, neste caso, aos valores para evitar esses erros” (CISTAC, Gilles, Curso de
Metodologia Jurídica, pp. 99-104)

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SILOGISMO JURÍDICO

“ O Silogismo Jus positivista: Considerações Críticas e Superação

A lógica é o locus filosófico que se atem ao estudo do complexo pensamento humano e suas
consequências. Não obstante seja possível discorrer sobre importantes reflexões acerca do
pensamento antes de Aristóteles (Zenão de Eléa, Sócrates, Parmênides...), foi com o estagirita que se
forjou um trabalho mais profundo e sistemático sobre essa questão.

A lógica aristotélica silogística tem preponderado desde a Idade Antiga, ganhando importante
densidade teórico-filosófica na escolástica de Santo Tomás de Aquino, até mesmo pela sua adequação
ao conhecimento científico e pelo seu caráter conservador acrítico. Tal lógica é construída com base
em três proposições: uma premissa maior (verdade inquestionável e geral/universal), uma premissa
menor (particularidade) e uma conclusão, esta última inferida daquelas. As premissas são permeadas
pelo termo médio, interligando-as conceitual-lógicamente, possibilitando que se infira uma conclusão,
da qual não participa.

Eis um modelo tradicionalmente trabalhado e que permite compreensão deste silogismo:

Os homens são mortais - premissa maior

Sócrates é um homem - premissa menor

Logo, Sócrates é mortal - conclusão

Desde já, apreende-se que a plausibilidade de tal forma de proceder na construção do raciocínio está
na adequação das premissas. Ou parte-se de premissas verdadeiras ou o silogismo estará
comprometido. Mais do que isso, várias regras são de observância obrigatória para que o silogismo
possa concretizar-se com retidão: tem que ter três proposições; a conclusão não pode ser mais
abrangente do que as premissas; o termo médio deve ser concebido universalmente uma vez; o termo
médio não pode estar na conclusão; duas premissas negativas não chegam a conclusão alguma; duas
premissas afirmativas não podem concluir negativamente; a conclusão seguirá a premissa negativa
ou particular; duas premissas particulares nada concluem. A essas considerações devem-se
acrescentar os sofismas, que são artifícios que forjam raciocínios falsos.

De acordo com essas regras, depreende-se que o silogismo aristotélico é eminentemente formal,
abstraindo-se do conteúdo das proposições relacionadas, das quais se extrai a conclusão. É por essa
razão que Aristóteles definiu este modelo metodológico como o ideal para as ciências da natureza, já
que estas trabalham com a objetificação do seu foco de estudos. Ademais, tamanho emaranhado de
regras formais demonstram a própria falibilidade do silogismo apofântico.” (CORRALO, Giovani (2008)
A Logica Jurídica… p.6009)

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Considerações Finais:

Os profissionais do direito não se limitam a encadear operações mentais dedutivas mas também
a conjugar diversas outras faculdades cerebrais como a intuição, a dedução e a analogia.
Dedução Jurídica:
a) Premissa maior – uma norma em sua forma logico-deôntica.
b) Premissa menor – uma referencia a um caso concreto pertinente a norma jurídica em
questão.
c) Conclusão – Uma decisão aplicada a norma ao caso concreto ou seja subsunção do
caso a norma

Exemplo:
a) Todo o empregado dispensado sem justa causa deve ser indemnizado pelas ferias não
gozadas.
b) Ora, João é empregado dispensado sem justa causa.
c) Logo, João deve ser indemnizado pelas férias não gozadas.
Esquema – Quadro lógico:
Todo M deve ser P
Ora, S é M
Logo, S deve ser P
• Para o Direito interessa apenas a versão processual constituída ou seja para a aplicação
de uma norma jurídica a um caso concreto toma-se em conta simplesmente a versão a
versão processual desse caso. Dai que, a premissa menor do silogismo jurídico deve ser
formulado num enunciado deôntico.
• Se o João foi ou não dispensado sem justa causa é irrelevante para a decisão judicial.
Interessa saber se o empregador consegue levar aos autos do processo elementos que
convençam os julgadores da ocorrência de justa causa na dispensa, ou seja, interessa
saber se, a partir do que consta dos autos, João deve ser considerado um empregado
dispensado sem justa causa.
Assim, o silogismo jurídico deve ser expressa da seguinte forma:
Todo M deve ser P
Ora, S deve ser M
Logo, S deve ser P
Refeito:
a) Todo o empregado que, pelas provas reunidas no processo, for considerado como
dispensado sem justa causa deve ser indemnizado por férias não gozadas.

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b) Ora, João deve ser, pelas provas reunidas no processo, considerado um empregado
dispensado sem justa causa.
c) Logo, João deve ser indemnizado por férias não gozadas.
A conclusão no silogismo jurídico vai além das premissas. A interpretação e a aplicação do
Direito positivo não podem ser feitas sem valorações ou referências a realidade.

➢ Exercícios:
Atente aos factos:
1. Atente o caso: “Cármen e Clésio conheceram-se na infância e desde então são namorados,
uma situação indefinida que durava há mais de oito anos. Os pais da Cármen , agora maior de
idade, exigiram dos dois namorados uma definição da referida situação. Cármen e Clésio
comprometeram-se a contrair o matrimónio e marcaram a data do casamento.
Para celebrar o noivado, a tia da noiva ofereceu um jantar no Kaya Kwanga (cem pessoas). Os
pais do noivo ofereceram uma casa de habitação a futura noiva e os pais da noiva, para não
ficarem atrás, ofereceram uma viatura ao futuro genro.
Entretanto, Clésio enamora-se por outra mulher e resolve romper o noivado. Cármen não
aceita e exige a celebração do casamento prometido”.
(Adaptação in R.White)

a) De acordo com os factos descritos no caso acima, formule os silogismos jurídicos


subjacentes, com base na Lei n.º 22/2019 de 11 de Dezembro – Lei da Família.

@HH

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