Você está na página 1de 204

Tendências em

Psicologia Hospitalar
A psicologia hospitalar é o campo de atuação que mais se desenvolve na
psicologia. Entre as inúmeras possibilidades de desenvolvimento profis�
sional, é nela que certamente se encontram as maiores perspectivas.

Escrito com base em capítulos publicados em outras obras do autor,


este livro trata das tendências atuais da psicologia hospitalar e seus
significativos avanços em conjunto com outras áreas da saúde. O
objetivo do livro, entre outros, é ampliar e enriquecer os debates em
torno dessa fascinante área.

Aplicações
Destina�se aos estudantes de Psicologia, Medicina, Enfermagem,
Filosofia e Pedagogia, nas disciplinas psicologia hospitalar, psicologia
da saúde, psicologia institucional, teorias e técnicas em psicoterapia e
psicopedagogia. Obra indispensável àqueles que se interessam pelos
avanços da psicologia em todos os seus desdobramentos.

ISBN 852210411-5

1.
T@íbhoteta jf reullíana

Visite nossos sites:


THOIVISON thomsonlcarning.com.br
www.

www.thomsonlcarning.com , "" " '


Sobre o autor

Psicoterapeuta Existencial. Pro�


fessor de pós�graduação em
Psicologia da Saúde na PUC�SP.
Professor do curso de Psicoterapia
Fenomenológico�Existencial na
PUC�MG. Coordenador do Centro
de Psicoterapia Existencial e Pro�
fessor de Psicologia da Saúde da
UFRN. Autor com o maior número
de livros publicados em Psicologia
do Brasil e também livros adotados
nas universidades de Portugal, do
México e do Canadá.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Angerami-Camon, Valdemar Augusto, 1950-

Tendências em psicologia hospitalar I Valdemar Augusto

Angerami-Camon. - São Paulo : Pioneira Thomson Learning,

2004.

Bibliografia.

ISBN: 85-221-411-5

1. Doentes em fase teirninal - Aspectos psicológicos 2.

Doentes - Psicologia 3. Hospitais - Aspectos psicológicos

4. Pacientes hospitalizados- Psicologia 5. Suicidio- Pre­

venção I. Titulo.

04-2821 CDD-362.11019

Índices para catálogo sistemático:

1. Hospitais : Psicologia 362.11019

2. Hospitais : Serviços psicológicos 362.11019

3. Psicologia hospitalar 362.11019

4. Serviços hospitalares psicológicos 362.11019


VALDEMAR AUGUSTO ANGERAMI- (AMON

TENDÊNCIAS EM

Psicologia
Hospitalar

THOMSON
*

Austrália Brasil Canadá Cingapura Espanha Estados Unidos México Reino Unido
THOMSON

Gerente Editorial: Produtora Editorial: Editoração Eletrônica:


1\dil•,on Pereira Ligia Cosmo Cantarelli Macquete Produções
Gráficas
Editor de Copidesque:
Desenvolvimento: Danae Stephan Criação da Capa:
M.ucio Coelho Evandro Linhares Angerami
Revisão:
Supervisara de Marcos Vianna Van Acker Arte-final da Capa:
Produção Editorial: e Regina Elisabete Barbosa Ana Lima
I' o� I ricia La Rosa

I t li'YRIGHT © 2004 de Pioneira Todos os direitos reservados. Dados Internacionais de


I hotnson Learning Ltda., uma Nenhuma parte deste livro Catalogação na Publicação
dlvi•,;1o da Thomson Learning, poderá ser reproduzida, sejam (CIP)
hu. I homson Learning™ é quais forem os meios (Câmara Brasileira do
""'" marca registrada aqui uti­ empregados, sem a permissão, Livro, SP. Brasil)
lit.HI.t sob licença. por escrito, da Editora. Angerami- Camon, Valdemar
Aos infratores aplicam-se as Augusto, 1950-
111tpl Psso no Brasil. sanções previstas nos artigos Tendências em psicologia
l'l lllil'd in Brazil. 102, 104, 106 e 107 da hospitalar /Valdemar Augusto
I I i 4 06 OS 04 Lei n" 9.610, de 19 de Angerami - Camon. -
fevereiro de 1998. São Paulo : Pioneira Thomson
H11o1 lraipu, 114- 3" andar Learning, 2004.
l'••tdizes- CEP 0123S-OOO Bibliografia.
.,,., l'aulo- SP ISBN: 8S-221-411-S

h•l: (11) 366S-9900 1 . Doentes em fase terminal -

I o! X ( 11) 366S-9901 Aspectos psicológicos


2. Doentes- Psicologia
'ull �othomsonlearning.com.br
3. Hospitais- Aspectos
www. thomsonlearning.com.br
psicológicos 4. Pacientes
hospitalizados - Psicologia
S. Suicídio - Prevenção
I. Título.
04-2821 CDD-362.11019
lndices para catálogo
sistemático:
1. Hospitais : Psicologia
362.11019
2. Hospitais : Serviços
psicológicos 362.11019
3. Psicologia hospitalar
362.11019
4. Serviços hospitalares
psicológicos 362.11019
APRESENTAÇÃO

Foram reunidos nesta obra trabalhos publicados anteriormente em di­


versos livros de psicologia hospitalar. Também estão presentes os capí­
tulos que escrevemos para o livro Psicologia Hospitalar, de 1984, esgo­
tado e fora de circulação.
Tendências em Psicologia Hospitalar resgata assim um pouco da tra­
jetória de publicações em psicologia hospitalar no momento em que
dados divulgados recentemente mostram se tratar da área que mais
cresce dentro da psicologia no Brasil. Dessa forma, esta obra é também
um pouco da vanguarda dos avanços obtidos ao longo das últimas ,dé­
cadas na área hospitalar. Este livro marca também a comemoração dos
50 anos do início da psicologia hospitalar no Brasil, e os 20 anos de
nossa primeira obra que também é a primeira publicação mundial em
forma de livro de temática da psicologia hospitalar.
Uma vida dedicada ao ensino ...

um sonho transpassado aos alunos,

cinqüenta anos de amor, carinho e dedicação .. .

Matilde Neder, a nossa eterna gratidão .. .


SuMÁRIO

CAPÍTULO 1 Sobre a atuação do psicólogo no contexto hospitalar 1

CAPÍTULO 2 A atuação do psicólogo no contexto hospitalar junto a


pacientes mastectomizadas 7

Saga do hospital 19

CAPÍTULO :) Elementos institucionais básicos para a implantação


do serviço de psicologia no hospital 21

CAPÍ'I'ULO 4 Suicídio infantil: o desespero humano na realidade


hospitalar 47

Na terra como no hospital 63

CAPÍTULO 5 O psicólogo no hospital 65

CAPÍTULO 6 Pacientes terminais: um breve esboço 81

Acordes de um réquiem 98

CAPÍTULO 7 Psicologia hospitalar: o pioneirismo e as pioneiras 101

CAPÍ'I'ULO 8 Implantação do serviço de atendimento aos casos


de urgência e suicídio na cidade de São Paulo 143

Estamos no outono 170

CAPÍTULO 9 A ética diante dos casos de suicídio 17 3


S oBRE A ATUAÇÃO oo
PSICÓLOGO NO CONTEXTO
HOSPITALAR1

A atuação do psicólogo no contexto hospitalar, ao menos no Bra­


sil, é uma das temáticas mais polêmicas quando se evocam discus­
sões sobre o papel da psicologia na realidade institucional.
A formação acadêmica do psicólogo é falha em relação aos sub­
sídios teóricos que poderiam embasá-lo na prática institucional. Es­
sa formação acadêmica, sedimentada em outros modelos de atuação,
não provê o instrumental teórico necessário para a atuação nessa rea­
lidade. Torna-se então abismático o hiato que separa o esboço teóri-

1. Este trabalho foi publicado anteriormente no livro Psicologia Hospitalar. A Atuação


do Psicólogo no Contexto Hospitalar. São Paulo: Traço Editora, 1984.

1
2 I TFNDf:NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

co Je sua formação profissional e de sua atuação prática. �penas recente­


mente a prática institucional mereceu preocupação dos responsáveis pelos
programas acadêmicos em psicologia. E, na maioria das vezes, essa prática
institucional, apesar de ser uma alternativa dada ao psicólogo ante o estran­
gulamento do mercado profissional, ainda assim mostra-se precária em sua
estruturação como vertente optativa. A partir disso, pode-se afirmar que os
poucos psicólogos que ousaram atuar na realidade institucional, indepen­
dentemente de terem ou não recebido subsídios teóricos em sua formação
acadêmica, fizeram-no adaptando modelos de atuação em consultório.
Entretanto, as inúmeras tentativas do psicólogo no contexto institu­
cional não foram vãs; ao contrário, deram condições à formação dos elemen­
tos teóricos necessários para a sedimentação dessa prática. Prática essa que
foi permeada por inúmeras contradições, que sofreu ataques inclusive den­
tro das lides da própria psicologia. E apesar de o psicólogo ainda estar ini­
ciando uma prática institucional nos parâmetros da eficácia e do respeito às
condições institucionais que delimitam sua atuação nesse contexto, a busca
de determinantes nessa prática o levou ao encontro de convergências bas­
tante significativas na estruturação teórica dessas atividades.
O contexto hospitalar, por outro lado, além de trazer resquícios e con­
tradições de outras realidades institucionais, por si só apresenta caracterís­
ticas próprias que irão conferir à atuação do psicólogo nesse contexto um
emaranhado de celeumas e controvérsias. E se a formação acadêmica não dá
ao psicólogo condições de atuação no contexto institucional, diante da rea­
lidade hospitalar ele se apequena e vê sua condição agravada na medida em
que a performance da atuação do profissional de psicologia nesse contexto
possui um efeito catártico singular. É inegável o alívio que o psicólogo traz
aos pacientes hospitalizados quando sua atuação é dirigida à minimização
do sofrimento provocado pela hospitalização. E se em outros contextos ins­
titucionais - e não há nenhuma intenção em se negar essa verdade - o
psicólogo tem atuação e participação muitas vezes decisivas, na realidade
hospitalar sua atuação, apesar dos inúmeros hospitais que relutam em acei­
tá-lo, é determinante para o alívio significativo dos pacientes em seu pro­
cesso de sofrimento e dor. É até mesmo causador de mudanças importantes
dessa realidade quando de sua inserção nesse contexto. Ou é possível negar
a importância da intervenção psicológica nos momentos que antecedem
.\'11/ll'r' ,, .1/lloildll rl11fr.1/r ri/111',11 1/fl r 11/1/�\/fl /rrHfl//.i/,1/' I I
-·--···----· .. _-,-- --·------·- - - .,

lima remoção cirúrgica? E o que dizer diante do alívio provocado JWia in­
n:rvenção psicológica quando tudo parece turvo diante do diagnóstico dt:• al­
guma doença incurável?
E se a instituição hospitalar freqüentemente se mobiliza b u scando ca­
minhos que possam levá-la ao encontro de sua humanização, então certa­
mente o psicólogo terá papel decisivo nessa estruturação. A vida que agon i ­
za nos hospitais certamente tem na atuação do psicólogo o bálsamo capaz de
cicatrizar-lhe as chagas, e até mesmo de revitalizá-la. E se a psicologia ca­
minha em direção aos reais anseios da comunidade, seguramente é no cem­
texto hospitalar que as determinantes dessa atuação se fazem concretas.
O psicólogo, no contexto hospitalar, depara de forma aviltante com a
negação de um dos direitos básicos à maioria da população: a saúde. A saú­
de, em princípio um direito de todos, passou a ser um privilégio de poucos
em detrimento de muitos. A precariedade da saúde da população é, sem dú­
vida alguma, grave; irá provocar posicionamentos contraditórios e, na qua­
se totalidade das vezes, irá exigir do psicólogo uma revisão de seus valores
acadêmicos, pessoais e até mesmo sociopolíticos.
O contexto hospitalar dista de forma significativa daquela idealização
feita nas lides acadêmicas quando a prática nessa realidade é desejada. As­
siste-se, nesse contexto, à condição desumana a que a população, já bastan­
te cansada de sofrer todas as formas possíveis de injustiças sociais, tem de se
submeter em busca de um tratamento médico adequado. Ocorrem as mais
lamentáveis situações a que um ser humano pode submeter-se. E o que é
mais grave, tudo passa a ser considerado normal. Os doentes são obrigados
a aceitar como normal todas as formas de agressão com as quais se deparam
em busca da saúde.
Passa a ser normal ficar seis horas numa fila de espera em busca do
atendimento médico, e muitas vezes após vários retornos à instituição hos­
pitalar derivados de encaminhamentos fei,tos pelos especialistas, com exa­
mes realizados especulativamente. Também passa a ser normal o fato de
ser atendido um número imenso de pacientes num período absurdamen­
te curto. E os profissionais que atuam na área da saúde assistem desolados
e conformados a esse estado de coisas. Tornam-se praticamente utópicas
outras formas de atendimento que não as que impiedosamente são impos­
tas à população.
4 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

O psicólogo está inserido nesse contexto da saúde de folma tão emaranha­


da quanto outros profissionais da área, e muitas vezes sem uma real consciên­
cia dessa realidade. E as contradições, inúmeras, se sucedem em todos os níveis
no contexto hospitalar., Se por um lado os hospitais apresentam essas enormes
filas de pacientes que, padecendo nos corredores, minguam por algum tipo
precário de atendimento, por outro apresentam a alta especialização resultan­
te do enorme progresso do conhecimento na área das ciências humanas.
Os profissionais da saúde são altamente especializados. Estão sempre
muito bem informados das técnicas existentes e as utilizam com grande
habilidade. Não são raros os profissionais com especialização nos centros
mais desenvolvidos da Europa e dos Estados Unidos . É possível, por exem­
plo, a utilização do método Sahling de análise do metabolismo do feto,
bem como o acompanhamento eletrônico do eletrocardiograma fetal. Os
avanços na área da obstetrícia permitem ainda a previsão do sexo do feto,
bem como de uma possível má formação congênita. No entanto, em ter­
mos de realidade, temos, segundo relatórios sobre estudos realizados em
várias regiões brasileiras, dados alarmantes informando que 95% dos par­
tos são realizados em casa e sem o menor acompanhamento pré-natal. E o
número de pessoas que recebe algum tipo de assistência é quase nulo. Es­
se contexto contraditório e incongruente recebe o psicólogo, que tem so­
bre si outras co'ntradições que o envolvem diretamente desde as lides de
sua formação acadêmica.
Uma árdua caminhada apresenta-se ao psicólogo na realidade hospita­
lar, e conseguir trilhá-la irá exigir desse profissional um esforço que chega
às raias do sofrimento estóico. Tendo como agravante, na atualidade, as di­
fíceis condições financeiras enfrentadas pelos hospitais.
E o psicólogo percebe no contexto hospitalar que os ensinamentos e lei­
turas teóricas de sua prática acadêmica não serão, por maiores que sejam as
horas de estudo e reflexão sobre a temática, suficientes para embasar sua
atuação. D�scobre que terá de aprender com os pacientes por sua dor, an­
gústia e realidade. O paciente, de modo peculiar, ensina ao psicólogo sobre
a do�nça e sobre como lidar com a própria dor diante do sofrimento. O hos­
pital recebe o psicólogo e permite que em seus cantos a psicologia descubra
a dimensão real da dor humana. E assim é: a psicologia no contexto hospi­
talar tem uma de suas performances mais humanas e verdadeiras.
-
I

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. Existencialismo e Psicoterapia. São Paulo: Traço EditoN,


19�4.

------ . A Psicologia no Hospital. São Paulo: Pioneira Thomaon


Learning, 2003.
A ATUAÇÃO DO
PSICÓLOGO NO CONTEXTO
HOSPITALAR JUNTO
A PACIENTES
MASTECTOMIZADAS1.2

I NTRODUÇÃO

O câncer é uma das temáticas que mais evidenciam celeumas quan­


do de seu questionamento. As atitudes adotadas em relação ao pa­
ciente portador de câncer revestem-se de polêmicas que fazem com
que profissionais envolvidos muitas vezes sequer encontrem pontos
de convergência. O câncer e sua mitificação envolvem a própria rea­
lidade da instituição hospitalar, a ponto de torná-la vulnerável dian-

1. Este trabalho foi publicado anteriormente no livro Psicologia Hospitalar. A Atuação


do Psicólogo no Contexto Hospitalar. São Paulo: Traço Editora, 1984 .
2. Este trabalho teve a participação de Marli Rosani Meleti em sua elaboração e co-au­
toria, a quem agradeço pelo empenho, carinho e dedicação.

7
8 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

tl' de sua ação. o termo câncer foi associado à doença por sua semelhança
com o caranguejo (no Brasil, quando se pronuncia a palavra "câncer" não se

associa de imediato à figura do crustáceo, tal qual ocorre na Europa, onde


l'Ssa definição teve lugar).
Assim, o câncer aprisiona sua vítima tal qual o crustáceo que lhe em­
presta o nome, até a morte. Embora o progresso da medicina seja notório na
;irea de oncologia, havendo inclusive casos nos quais é possível uma atuação
bastante eficaz quando de seu descobrimento precoce, ainda assim, é.difiçil
não se ver no câncer uma enfermidade imediatamente associada ao espectro
da morte.
E assim como ocorreu com outras doenças que igualmente estirpavam e
ceifavam muitas vidas humanas, o câncer certamente ganhará outra denomi­
nação quando for totalmente dominado pela medicina. Um exemplo é a lepra,
que tão logo passou a ser dominada pela medicina, teve sua designação muda­
da para hanseníase, em homenagem a Armauer Gehard Hanse, médico norue­
guês que descobriu o bacilo específico que provocava a doença.
O atendimento psicológico do paciente portador de câncer traz em si to­
das essas contradições, além de abalar a onipotência médica diante da morte.
Esse trabalho apresenta a implantação do Setor de Psicologia no Servi­
ço de Oncologia Ginecológica da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa
de Beneficência, suas implicações e contradições. Também são mostrados al­
guns atendimentos e a performance da psicologia no contexto hospitalar.

Descrição das atividades


O trabalho foi implantado há cerca de quatro anos, e inicialmente era de­
senvolvido a partir da atuação de alunos ultimoanistas do curso de Psicolo­
gia da Clínica Psicológica Objetivo. Desde sua implantação até o presente
momento, o trabalho sofreu mudanças significativas em sua estruturação.
Inicialmente, os alunos depararam com uma equipe médica que, ape­
sar de prestar total apoio à atividade dos psicólogos, tinha atitudes bastan­
te dúbias em relação aos pacientes. Uma das mais acintosas era a que fazia
com que uma paciente sofresse mastectomia e tomasse consciência da remo­
ção cirúrgica do seio apenas e tão-somente quando terminada a cirurgia.
Essa atitude tinha respaldo no corpo clínico, que a justificava afirmando que
r\ dllldl·'" ,{,{•ltullfl,�o I/IIIIIH/nto hol/ll/il/,n'jllll/11 ,, /Jot<'it'lllr.l 1//d.r/rt'lrm/l:.o�,/.o I 9
- - - ---

a paciente não teria condições psicológicas para receber essa informação e


que o sofrimento, apesar do forte impacto provocado pela consciência da au­
sência de um ou até mesmo dos dois seios, era mais bem vivenciado quan­
do tudo já tivesse terminado em termos cirúrgicos. _

Durante três anos, e com escalonamento sucessivo dos alunos, tentou­


se, inutilmente, a reflexão sobre essa e outras atitudes. Os médicos embasa­
vam essas atitudes em justificativas absolutas e cuja asserção não permitia
rebate aos estagiários, ainda inexperientes na atividade hospitalar.
Depois de algumas reflexões, decidiu-se pela implantação no setor de
um trabalho que tivesse à frente não mais estagiários e sim profissionais ex­
perientes. Essa tentativa visava acima de tudo a solidificação do Setor de Psi­
cologia que, apesar do apoio recebido pela instituição e dos esforços dos alu­
nos, carecia dessa atitude. Assim, determinou-se que as psicólogas Marli
Rosani Meleti e Maria José A. Bergamasco assumissem o setor.
Um dos médicos responsáveis pela instituição prontamente louvou a
iniciativa observando, inclusive, que sentia perspectivas bastante promis­
soras de desenvolvimento no setor, mas que igualmente percebia a falta de
"maturidade profissional" (sic) nos profissionais que até então lá haviam
atuado. Também mencionou a necessidade de se fazer, além das discussões
que envolviam os atendimentos de casos, seminários teóricos visando um
aprofundamento nas discussões que abrangessem a temática.
E o trabalho, em sua nova estruturação, iniciou-se permeado pelas ex­
periências de anos anteriores e pela convicção de que um longo trajeto teria de
ser trilhado para que se obtivessem os êxitos previstos em sua reestruturação.
As mudanças foram se verificando e, desde o início, podia-se perceber
uma nova atitude das equipes médica e paramédica diante da atuação dos psi­
cólogos. A própria experiência profissional dos psicólogos, acumulada a partir
de atividades em outras instituições, dava às suas colocações uma asserção e
cQD..vicção que certamente faltavam aos colegas estudantes. E os médicos pas­
.
saram a discutir sistematicamente a conduta a ser adotada diante de determi­
nados pacientes, e, no decorrer do trabalho, passaram a escutar as psicólogas
sobre.a atitude de se discutir previamente a extração dos seios com a paciente.
Foram discutidos com a equipe médica os resultados, ainda precários,
obtidos dentro do Setor de Psicologia e, diante desses resultados, concluiu­
se que o momento de intervenção psicológica - quando a paciente já ha-
10 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

J
via sido submetida à cirurgia, e sentia no âmago de seu ser as agruras da
mastectomia - não era o mais adequado. As psicólogas lidavam com o re­
sultado, a mastectomia, prejudicadas pelo agravante de a cirurgia ter sido
feita à revelia da pa,ciente.
De início, tentou-se traçar um perfil das mulheres atendidas no Servi­
ço de Oncologia. E percebeu-se que a maioria eram mulheres cuja idade va­
riava entre 2 5 anos e 70 anos de idade. Diante dessa diversificação etária,
estavam representadas mulheres atuantes em diversos níveis profissionais
I

(incluindo-se as donas de casa), sexuais e acadêmicos. A maioria é casada e


tem sobre si a responsabilidade de cuidar de maridos, filhos e da própria in­
fra-estrutura doméstica. Essas mulheres, como é tradição no mundo ociden­
tal, têm no seio um símbolo não só de feminilidade e maternidade, como
também de sexualidade. O seio é o próprio símbolo da mulher; existe in­
clusive quem afirme que a diferença entre o homem e a mulher não é o pê­
nis e sim os seios. E depois de muitas polêmicas, celeumas e cantilenas, os
médicos decidiram, de início experimentalmente para verificação dos resul­
tados, e post�riormente de forma convicta pelo êxito dos resultados obti­
dos, adotar a atitude de se discutir com as pacientes a remoção cirúrgica dos
seios, bem como sobre outras deliberações que igualmente envolvessem
suas vidas.
Diante desses fatos, optou-se pelo início da intervenção psicológica
quando da primeira consulta médica. Nesse momento poderia ser discutida
com a paciente sua percepção acerca daquilo que envolve sua existência, bem
, como as implicações do nódulo ou "caroço" em seu seio e a própria mitifica­
ção do câncer, que o torna inquestionável, e o reveste do medo de se estar atin­
gida por uma doença incurável. Essas pacientes, que de forma geral são enca­
minhadas por profissionais de outras instituições, já chegam ao Serviço de
Oncologia trazendo todas as preocupações inerentes ao surgimento do nódu­
lo no seio, bem como à mitificação em torno da possibilidade de ser uma por­
tadora de câncer. Nesse estado emocional, as pacientes comparecem para a pri­
meira consulta médica em um local onde existem inúmeras indicações de que
se trata de um serviço de câncer. A paciente depara, ainda na sala de espera,
com �utras pacientes que comentam sobre a mastectomia, a vida antes e de­
pois da mastectomia e que trocam entre si informações sobre sua condição de
mutiladas. Isso tudo sem levar em conta as inúmeras placas existentes no ser-
,,
11

vi�o que indicam os setores de radioterapia, quimioterapia e outros trataml'n­


tos amplamente divulgados como sendo tratamentos específicos de câncer.
Diante disso, surge um questionamento que as psicólogas demoraram muito
para entender e clarificar: como os médicos podiam iludir as pacientes dizen­
do que elas não possuíam nada grave e que a cirurgia a que iriam se submeter
seria apenas para exames rotineiros? Questão simples de ser analisada e veri­
ficada: os próprios médicos não estavam preparados para lidar com a mitifi­
cação do câncer. E se eles, como médicos e principais responsáveis por "cui­
dar" da paciente, não enfrentavam o câncer de modo livre e verdadeiro, como
esperar que a paciente e seus familiares não tivessem diante da doença todo
um conjunto de atitudes permeadas pelo medo e pela incerteza?
Nesse contexto, e acompanhada por todas essas contr��ições, é que a in­
tervenção das psicólogas ocorre. Diante .do fato de as pacientes na sua quase
totalidade se apresentarem sem as condições mínimas de estabilidade emocio­
nal, a entrevista psicológica inicial tem características catárticas que dão uma
conotação de bálsamo à própria consulta médica. E se a consulta psicológica
adquire essas características tão específicas, tal fato deve-se também à pecu­
liaridade de que a paciente já traz consigo horas de preocupação e reflexos de
noites maldormidas estampados no rosto. Também traz o espectro da morte
junto de si. Câncer e morte, a nova realidade com a qual se depara sem sequer
questionar e saber a extensão da real e verdadeira problemática da doença.
Na primeira consulta médica no Setor de Oncologia, quando são rea­
lizados os exames físicos e clínicos, delibera-se também sobre a necessidade
de exames laboratoriais, e uma nova consulta é marcada quase que automa­
ticamente. Diante d � confirmação do diagnóstico, ou seja, quando os exa­
mes confirmam a presença do câncer, essa paciente está inserida no serviço.
Essa inserção implica falar que tudo que lhe diga respeito vai ser discutido
previamente e que toda a conduta médico-terapêutica, incluindo-se cirur­
gia, tratamento medicamentoso, quimioterápico, radioterápico etc., será
realizada apenas e tão-somente quando houver anuência da paciente. Asim­
plicações do tratamento são minuciosamente detalhadas à paciente; a deci­
são final quanto ao procedimento a ser adotado é deliberada, tendo essa pa­
ciente poder decisório no serviço. 3

3. Na parte final deste capítulo, intitulada "Alguns Casos Clínicos", são mostrados atendimen­
tos nos quais fica claro o poder decisório da paciente, inclusive sobre a própria cirurgia.
12 I T�ND!:NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

As conseqüências da inserção dessa paciente nas deliberações do servi­


�o são inúmeras, e de alguma forma remetem à humanização da instituição
hospitalar. Essa paciente é alguém que está em desequilíbrio, tanto em ní­
veis físicos como emocionais; o desequilíbrio físico se dá em decorrência da
própria doença - da dor e até mesmo da má formação que o tumor impu­
ta ao seio - e em níveis emocionais o desequilíbrio advém do medo do es­

pectro da morte presente no diagnóstico do câncer, além da ameaça à con­


d i ção de mulher que, como já foi visto anteriormente, está presente numa
possível remoção cirúrgica do seio. Existe também a esperança de que o nó­
d ulo seja benigno, o que faz com que a paciente misture temor e medo com
uma esperança que, se não chega a ser alvissareira, ao menos acalenta esses
corações trazendo alívio diante da aspereza do câncer. Essa paciente, no en­
tanto, não está sozinha nesse momento de desespero e dor. A família é par­
te inerente e indissolúvel de sua vida, e a partir dessa premissa incluiu-se a
abordagem junto aos familiares como etapa igualmente importante do tra­
balho. A família também recebe orientação sobre a problemática da pacien-
.
te, além de ser ô sustentáculo de sua angústia e dQr. A abordagem frente aos
bmiliares é bastante delicada, porque ao contrário da atitude médica que
lega à paciente falta de condições emocionais para receber o impacto do
diagnóstico do câncer, e que no entanto elege os familiares como sendo
aqueles que poderão trazer alívio ao paciente em suas agruras existenciais,
temos como postura profissional o princípio de que a família está tão aba­
lada emocionalmente quanto o próprio paciente. E se o paciente não apre­
S'enta condições emocionais de receber o impacto do diagnóstico do câncer,
a família igualmente não possui essa condição.
Essa atitude médica é outra das tantas que nos mostram o quanto es­
ses profissionais estão despreparados emocionalmente para lidar com o cân­
cer. Negam a informação ao paciente e, no entanto, legam ao marido, fi­
lho, esposa etc. a condição de ser o sustentáculo de tudo o que implica a
palavra câncer.)
O atendimento médico e a intervenção psicológica no pré-operatório
ob.jetiva, num primeiro momento, clarificar a paciente acerca do processo
pelo q ual irá passar, além do esclarecimento em relação à própria doença.
Posteriormente, procu.ra-se, a partir de um conhecimento mais amiúde des­
sas pessoas, entendê-las e tratá-las da melhor maneira possível diante de sua
11

própria realidade. Qs atendimentos psicológicos vão se sucedendo no âmbi­


. pte seja internada e submetida à cirurgia,
to ambulatorial, até que a pacie
iniciando-se então o atendimento pós-operatório.
Durante essa etapa, o atendimento psicológico é feito junto ao leito na
enfermaria, o que tem diferentes conotações do atendimento realizado ante­
riormente no ambulatório, onde existia um ambiente isolado e com privaci­
dade semelhante ao próprio ambiente de consultório clínico. Na enfermaria,
ao contrário, o atendimento é realizado com interrupções freqüentes, seja da
própria enfermagem, que constantemente adentra o ambiente para verifica­
ção das condições vitais da paciente� seja das companheiras de internação.
Nessa fase, procura-se discutir com a paciente sua nova condição, com
a preocupação de não estigmatizá-la, nem alijá-la de participação social pe­
lo fato de não mais possuir o seio. Não negamos, por outro lado, as marcas
e mutilações deixadas pela cirurgia, ao contrário, adotamos como atitude le­
var essa paciente ao�encontro de outras possibilidades existenciais, demo­
vendo-a da idéia de que a partir da remoção cirúrgica, a vida, em sua fra­
grância tênue e eloqüente, se exauriu.
É diante dessa realidade que o trabalho é norteado, sempre levando-se
em conta a realidade da paciente e as condições emocionais que envolvem
esse momento tão delicado de sua existência.

ALGUNS CASOS CLÍNICOS

A. M. - Uma Vida e o Câncer

A. M. era uma mulher de 50 anos. Tinha três filhas, e quando compareceu


à consulta médica veio. acompanhada de uma delas. Essa filha trouxe consi­
go um bilhete que encaminhou ao médico antes que ele examinasse e deli­
berasse algo em relação à mãe. No bilhete, dizia que a mãe não suportaria o
fato de ser portadora de câncer e que diante de tal diagnóstico ela temia pe­
lo suicídio da mãe. Após o exame médico, essa paciente foi encaminhada à
entrevista psicológica, na qual se apreendeu tratar-se de uma alcoólatra que,
em uma ocasião em que estava embriagada, manifestou desejo de se matar
caso necessitasse amputar o seio. A remoção cirúrgica do seio acabaria com
a esperança que possuía de reconquistar o marido. Também ficou bastante
14 I Ti.NIJ�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

t·v idente que a qualidade de vida dessa paciente era insatisfatória, podendo
mt'smo ser definida como péssima. Segundo dizia, nada lhe trazia alento ou

l'sperança na vida. Seu sentido de vida tinha como tênue propulsão a espe­
rança de reconquistar o marido.
Após esse contato inicial, houve.uma discussão conjunta da equipe mé­
dica com as psicólogas, na qual ficou deddido que a cirurgia seria protela­
da para que a paciente pudesse receber "ajuda" a partir de algumas sessões
psicológicas. Depois de várias sessões, o temor inicial manifestado pela filha
f(>i confirmado, e a qualidade de vida da paciente foi percebida ainda mais
t·urva do que havia sido apreendida inicialmente. (Quando nos referimos à
qualidade de vida da paciente, estamos fazendo tal conceituação a partir de
seu depoimento e do que pode significar para ela os parâmetros desse enqua­

dramento. Mesmo que possamos ter posicionamentos diferentes daqueles


apresentados pela paciente, prevalece sua determinação diante de possíveis
divergências apresentadas. Como catalizadores nesse processo de crescimen­
to, muitas vezes r:nostramos outras alternativas à paciente, mas a decisão fi­

nal e a própria conceituação do que seja considerado bom ou ruim em ter­


mos de qualidade de vida é decidido pelo significado desses fatos em face da

conceituação da paciente.)
Diante desses fatos, a equipe médica e as psicólogas discutiram exaus­
·
tivamente qual era a melhor conduta a ser adotada. Decidiu-se, finalmen­
te, pela extração simples do nódulo, quando o indicado, ante a gravidade
do tumor, seria a remoção cirúrgica do seio. Tecnicamente, essa conduta
médica seria criticada por outros profissionais, que enfatizariam a necessi­
dade premente da remoção cirúrgica do seio. No entanto, levando-'se em
conta o desejo da paciente de continuar com o seio - o risco das conse­
qüências da não extração do seio foi assumido pela paciente de formaJivre
c· abrangente -, a qualidade de vida dessa mulher foi preservada, de mo­

do que b próprio sentido da vida, anteriormente inócuo e sem perspectivas,


transformou-se numa chama capaz até . de enfrentar o câncer de outra ma­
neira. E se os pássaros cantam pela madrugada rompendo a aurora do tem-
. po e do e.spaço, encantando o próprio desencanto, essa paciente decantará a
humanização do atendimento médico e psicológico que não apenas lhe res­
titui o sentido da vida como também tornou suportável a dor e a angústia
humana diante do câncer.
1\ .1111.11,/o do/lllttilo)!,o 1111, ollll•,\lfl l1111f'ildldl' /1111/fl d /'•" Íl'lllt•r IIMtlnlfllllhdd,ll I 15
- ---�---�� 1 �"�--���--•c��----�-�Y"•=��--

M. R. M. - Uma Gravidez Diante do Câncer

M. R. M. era uma mulher de 45 anos e se encontrava em sua quinta gravi­


ê.!ez. Estava por volta do terceiro mês de gestação quando procurou o Serviço
de Oncologia. Em virtude do estado avançado da doença, M. R. M . , num pri­
meiro estágio de tratamento, teria de submeter-se à radioterapia, e num se­
gundo momento, à remoção cirúrgica do seio. Diante do quadro apresenta­
do, seria necessário provocar um aborto, uma vez que a radiação seria fatal ao
bebê. E por mais que se tentasse elaborar outras condutas terapêuticas, o ca­
so exigia de forma drástica, além da radioterapia e da cirurgia, o aborto. A
equipe médica, então, após sucessivas discussões do caso com as psicólogas,
optou por protelar a cirurgia e o tratamento propriamente dito para que, a
partir da intervenção psicológica, outros dados fossem arrolados e se espe­
lhasse uma visão mais ampla da paciente e de suas condições emocionais.
Nesse processo de discussão, os profissionais relutavam em aceitar outra al­
ternativa que não o aborto, pois, além de mais eficaz, poderia contribuir de
maneira significativa no resultado do tratamento.
Após algumas sessões psicológicas, ficou evidente a importância da­
quela gestação para a paciente. Segundo dizia, ela não poderia de forma al­
guma aceitar a idéia do aborto, pois havia feito um, em uma ocasião em que
sua relação matrimonial estava totalmente deteriorada. Nessa ocasião, o ar­
rependimento corroeu-lhe a alma e somente após muitas preces é que "Deus
me ouviu e tive então o meu quarto filho, que é a menina mais linda e in­
teligente que podia ter. Era a concretização do perdão de Deus" (sic). Dizia
ainda que, se fizesse um novo aborto, não mais teria o perdão divino. "Deus
me perdoou uma vez, mas talvez não me perdoe novamente" (sic). Quando
foi apresentado o risco que tanto ela quanto o bebê corriam e a necessidade
premente de se realizar o tratamento inicialmente prescrito, ela foi taxati­
va: "Se Jesus deu sua vida para nos salvar e .se Deus entregou seu filho para
que todos tivéssemos vida, por que eu não posso morrer para que meu filho
tenha vida? Prefiro morrer a matar meu filho." (sic).
A opção dela era clara, embora deixasse todos estarrecidos por sua cora­
gem e por seu desprendimento pela vida. Depois de várias discussões sobre
o caso, a equipe resolveu ver a possibilidade de tratar a paciente sem a reali­
zação do aborto. Os profissionais da radiação tentaram fazer uma projeção do
16 I TENDINC.IM tM PsiCOLOGIA Hosi•ITALAR

quanto seria possível usar de radiação sem pre juízo para o bebê. E algumas
perguntas ficavam sem resposta a todos os envolvidos em sua terapêutica: co­
mo ela poderia fazer uma opção dessas? E que diferença faria pa�a J� ter ou
não essa criança, uma vez que o câncer a dominava inteiramente?
Desnecessário dizer que essas dúvidas eram questionamentos que fa­
zíamos a partir do nosso referencial de pessoas saudáveis e que não têm o
câncer como espectro em sua existência. Após novas discussões, decidiu-se
pela realização da cirurgia sem o processo de radiação.
Foi apresentada à paciente a conduta que seria adotada em seu caso, o
que implicaria que no sétimo mês de gravidez o parto seria induzido, pois
nessa ocasião o bebê já estaria maduro e seria possível iniciar-se o tratamen­
to radioterápico. A conduta foi aceita plenamente pela paciente, que agrade­
ceu de todas as formas o respeito que estava sendo dado a sua própria vida ao
se preservar a vida de seu bebê. E assim foi. No sétimo mês nasceu um bebê
forte e saudável. E todos os profissionais envolvidos nesse atendimento se
emocionaram e perceberam de forma verdadeira a importância da humani­
zação do atendimento hospitalar. A dor d'alma da paciente foi respeitada e
seu dilema considerado em toda a sua extensão. Essa conduta certamente se­
ria criticada por aqueles que vêem a paciente apenas como um sintoma, e no
cílso do seio C:om câncer, um órgão que precisaria ser removido cirurgicamen­
te a qualquer custo. No entanto, para aqueles que sabem que por trás do sin­
toma existe uma pessoa e que nessa pessoa existe um coração que vibra em
ânsia clamando vida e respeito à sua dignidade existencial, esse caso é uma
luz acerca do verdadeiro sentido do atendimento, no qual o paciente é res­
peitado acima de tudo e é considerad.Q uma pessoa. Os médicos responsáveis
pelo atendimento de M. R. M. entusiasmaram-se com a performance do ca­
so e viram que, a partir de uma discussão amiúde da problemática da pacien­
te, a Medicina e a Psicologia cumpriram um de seus ideais mais nobres, o de
legar ao Pfl.Ciente sua condição de pessoa, na verdadeira amplitude do termo.

R. A. S. - A Dor Diante da Própria Dor

R. A: S. era uma mulher com idade aproximada de 60 anos. Ela compare­


cia periodicamente ao serviço para exames de rotina. R. A. S. já havia sofri­
do remoção cirúrgica dos dois seios.
17

Nessas consultas, queixava-se de fórtes dores por todo o corpo. Como


não se verificou nenhum comprometimento físico que pudesse justificar tais
dores, a paciente foi encaminhada ao setor de psicologia para que seu caso
pudesse ser explicitado. Depois de várias sessões psicológicas, ficou eviden­
te que R. A. S. era uma pessoa extremamente solitária, pois era viúva, e não
tinha ninguém além de um filho a quem via periodicamente. No entanto,
suas queixas eram apenas em relação às dores que sentia pelo corpo, quase
não manifestando outros fatos de sua existência.
O caso, ao ser apresentado para discussão aos profissionais do Serviço
de Oncologia, logo foi considerado um possível processo de sornatização.
Essas dores seriam decorrentes de seu estado de vida. Levantou-se inclusive
a hipótese de que se a paciente tivesse alguma motivação para viver plena­
mente outras possibilidades, deixaria de sentir a intensidade dessas dores.
As discussões tornaram-se acaloradas e até discorreu-se sobre a "psicossomá­
üca" como um novo ramo da ciência para explicar a origem dessas e de ou­
tras dores que muitos pacientes apresentam e que não encontram escora no
exame médico-clínico. Depois de muita controvérsia, decidiu-se pelo enca­
minhamento da paciente para a realização de "mapeamento ósseo", para a
verificação de sua condição física. Após a realização dos exames, a constata­
ção: a paciente apresentava metásrase. Suas dores eram decorrentes de cân�
cer ósseo, e ela apresentava inclusive algumas vértebras e ossos já deteriora­
dos pelo câncer. As explicações até então brilhantes que consideravam suas
dores um processo de somatização ruíram diante da realidade nua e crua dos

fatos. Sua degeneração estava em seu mais completo desenvolvimento, en­


quanto os profissionais jogavam sobre ela possíveis teorizações, discussões
meramente acadêmicas que nada tinham de real diante do fato em si.
Esse fato ilustra a nocessidade de se discutir o caso, e não se discorrer
sobre digressões acadêmicas que, ao distanciar dos fatos a ótica de análise,
comprometem a própria eficácia da terapêutica médica. A discussão nova­
mente se mostrou importante, e o caso, ao ser analisado minuciosamente,
permitiu que se atuasse sobre ele munindo-se do instrumental necessário.
18 I T�NU[NCIAS !M P�ICOLOGIA HOSPITALAR

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. Existencialismo e Psicoterapia. São Paulo: Traço� ditora,


1 984.
!

A Psicologia no Hospital. São Paulo: Pioneira Thomson


Learning, 200 3 .
SAGA DO HOSPITAL_,

VALDEMAR AUGUSTO ANGERAM I - CAMON

( . . . ) E o hospital virou uma empresa rentável.


Altamente rentável. Como todas as grandes empresas.
E o objetivo maior do hospital deixou de ser o paciente.
O lucro, dentro do verdadeiro espírito do capitalismo
selvagem, tornou-se a razão de tudo. Inclusive de delicadas cirurgias.
E o paciente foi coisificado. E, de seus sintomas, extraíram-se
grandes fortunas.

( . . . ) E a vida que palpita nas manhãs primaveris agoniza nas paredes e

nos corredores sombrios da empresa hospitalar.


E o hospital partiu em busca da humanização.
Solidão, vazio, lágrimas, sufoco e desespero d'alma.
A agonia da morre e o sofrimento da dor.
E o paciente gritou pelo fim da coisificação.

E o amor, amor que ainda insiste em existir apesar do


capitalismo, volta aos hospitais nessa busca de humanização.
E a dor, dor que nas entranhas da alma torna-se o vôo
isolado do condor, torna-se vida e cor.

( . . . ) E o sonho, sonho que traz a esperança em forma de


ilusão, espera o dia em que o "capital" deixará o hospital.
E nesse dia os doentes serão tratados como seres humanos.
E haverá, no hospital, lugar e respeito a todos que acreditam
no amor e na humanização do paciente . . .

* NA: Esta poesia foi publicada anteriormente no livro Psicologia Hospitalar. A Atuação do Psi­
cólogo no Contexto Hospitalar. São Paulo: Traço Editora, 1984.
E LEMENTOS
INSTITUCIONAIS BÁS ICOS
PARA A IMPLANTAÇÃO
D O SERVIÇO DE
PSICOLOGI A NO HOSPI TAL1

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem a intenção de mostrar alguns elementos institucio­


nais indispensáveis para a estruturação do serviço de psicologia no
contexto hospitalar. Foram reunidos pontos comuns de outras reali­
dades institucionais visando tornar a análise do hospital abrangente.
Trata-se de um artigo cuja pretensão inicial era ser academica­
mente didático, mas que apresenta em seu bojo a real complexida­
de da estruturação do trabalho do psicólogo no hospital.

1 . Este trabalho foi publicado anteriormente no livro A Psicologia no Hospital. São Pau­
lo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

21
22 I TENllrNCIA5 tM PSICOLOGIA HOSPITALAR

ELEMENTOS INSTITUCIONAIS

A análise institucional do hospital será dividida em duas grandes part�s: a)


flstrutura estática e b) Estrutura dinâmica.

Estrutura estática

A estrutura estática de uma instituição é a sua estrutura física, ou seja, tu­


do aquilo que de alguma forma é estático em uma análise institucional. Fa­
rão parte deste item o número de andares do prédio hospitalar, o número de
clínicas, enfermarias, ambulatórios e assim por diante. A estrutura estática
deverá detalhar as unidades de funcionamento do hospital para que a tota­
lil:lade de sua abrangência possa dar um aspecto amplo de sua estruturação.
Para uma melhor compreensão de nossa análise, tomaremos um hospital que
será chamado aleatoriamente de Hospital da Paz. Sua estrutura estática se­
ria assim demonstrada:

Hospital da Paz
Endereço: Rua da Paz, n: 00.
Trata-se de um hospital constituído por um prédio de cinco andares.

Térreo
No térreo existe uma recepção onde é prestada informação ao público sobre o funcio­
namento do hospital. Existe também um ambulatório onde funciona a unidade de
pronto-socorro com atendimentos a casos gerais de emergência médica e cirúrgica. Nes­
te andarfunciona a parte burocrática do hospital: departamento pessoal, tesottraria,
contabilidade, administração e diretoria. Ainda no térreo, anexo ao prédio princi­
pal do hospital, funcionam os serviços de lavanderia, cozinha, raio X, embasamen­
to, unidade de oxigênio, almoxarifado e setor de manutenção.

1º Andar
Neste andar funCionam a clínica de ortopedia na ala A e a clínica de traumatismo
na ala B. O número de vagas existentes é de 1 5 leitos para cada enfermaria. Existe
ainda um serviço de enfermagem para cada ala, além de uma separação física e de
serviços -- orientação médica e enfermagem - entre as clínicas.
21

2u andar
Neste andar funcionam a dínica de cirurgia vascular na ala A e a clínica de obs­
tetrícia na ala B. O número de vagas existentes é de 1 O leitos para a clínica de ci­
rurgia vascular e de 20 leitos para a clínica de obstetrícia. Existe um serviço médi­
co e de enfermagem para cada ala com orientação e supervisão distintas.

32 Andar
Neste andar funcionam a clínica de pediatria na ala A e a clínica buco-maxilo-fa­
cial na ala B. O número de vagas existentes é de 2q leitos para a pediatria e de 1O
leitos para a clínica buco-maxilo-facial. Assim como nas outras clínicas, os serviços
de enfermagem e médico são distintos para cada uma das clínicas.

42 Andar
Neste andar funciona o centro cirúrgico na ala A e a unidade de terapia intemiva
UTI na ala B. O número de vagas é de 1 O pacientes na unidade, e o centro cirúrgi­
co tem capacidade física para cinco cirurgias simultâneas. Também existe divisão en­
tre o atendimento médico e a enfermagem.

52 Andar
Neste andar funciona a clínica de transplantes renais e hemodiálise. O posto de en­
fermagem existente no andar atende a totalidade do setor. A coordenação médica tam­
bém é centralizada.

O croqui, embora ilustre com clareza a descrição da estrutura estática,


é elemento dispensável na análise institucional. A descrição dos elementos
pertencentes ao espaço físico deve ser pormenorizada de modo a subsidiar a
análise da estrutura dinâmica, por si complexa.

Estrutura dinâmica

A estrutura dinâmica de uma instituição ésua estrutura de funcionamento,


a dinâmica das relações interpessoais. Dessa forma, é por meio da análise da
estrutura dinâmica que os aspectos inerentes ao relacionamento dos profis­
sionais que atuam na instituição tornam-se claros e precisos.
24 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

Toda e qualquer transformação do contexto instituciolllal não pode ser


realizada sem uma análise criteriosa da estrutura dinâmica. Assim, é na es­
trutura dinâmica que devem ser concentrados os esforços para que aanálise
institucional não se perca em mera digressão teórica.
No contexto hospitalar, a análise da estrutura dinâmica deve ser feita
tomando-se cada unidade hospitalar separadamente. Dessa forma, faremos
uma análise para a clínica de ortopedia, outra para a pediattria, outra para o
pronto-socorro e assim sucessivamente.
Tomaremos novamente o nosso hospital, o Hospital da Paz, e analisa­
remos a estrutura dinâmica da clínica de ortopedia. Teremos então a seguin­
te estrutura dinâmica:

HOSPITAL DA PAZ

Clínica de Ortopedia

A) TIPO DE HOSPITAL

Trata-se de hospital público no qual também é exercida a prática acadêmica pelos se­
guintes profissionais: médicos, enfermeiros, assistentes sociais e nutricionistas.

�onsiderações gerais: ao ser definido o tipo de hospital, estamos definin­


.
do a própria estrutura da instituição de acordo com seus objetivos. Este item
pode também ser acrescido de um breve histórico do hospital, incluindo-se a
data do início das atividades, os princípios que norteiam seu funcionamento
e o tipo de sociedade estabelecido em sua fundação. Evidentementé que a clí­
nica objeto de análise funciona em consonância com a estrutura maior da ins­
tituição. Dessa maneira, o detalhamento desses elementos será sem dúvida de
muita valia para uma real compreensão da dinâmica da própria clínica.

B) VÍNCULO :PA INSTITUIÇÃO COM A COMUNIDADE

O atendimento do Hospital da Paz destina-se a beneficiários do SUS e a pacientes


que não tenham recursos materiais.
Considerações gerais: o vínculo da instituição com a comunidade de al­
guma forma define a clientela atendida. Ao delimitarmos a clientela, esta-
21

mos não apenas definindo o tipo de população atendida pelo hospital romo
também instrumentalizando a forma de atuação de um serviço de psicolo­
gia. Torna-se evidente que, a partir do tipo de clientela atendida pelo hos­
pital, estaremos refletindo sobre a real abrangência dos instrumentos de psi­
cologia junto a essa população. Um direcionamento dos métodos e atitudes
do psicólogo farão com que o embasamento teórico de seu trabalho no hos­
pital vá ao encontro dos anseios e expectativas de sua prática.
Neste item podem ainda ser acrescidos possíveis vínculos do hospital
com a comunidade que transcendam o atendimento ao paciente. Assim, po­
deremos encontrar casos de instituições hospitalares que possuem vínculos
com a comunidade que implicam diversas práticas, como promoção de ba­
zares beneficentes, quermesses etc. (Embora essas práticas tenham como jus­
tificativa angariar fundos para a própria manutenção do hospital, ainda assim
é importante observar que se trata de vínculo distinto daqueles propostos
pela instituição hospitalar como um todo.)

C) VÍNCULO DOS MÉDICOS COM A INSTITUIÇÃO

O vínculo dos médicos com a instituição se estabelece de várias maneiras, a saber:


• Internos: 5º e 6º anistas de medicina. O estágio desses alunos é realizado num
período médio de seis meses na ortopedia.
• Residentes: médicosformados e que estão se especializando na área de ortopedia.
• Preceptores: médicos que já concluíram o período de residência e que são res­
ponsáveis pela supervisão do atendimento dos internos e residentes.
• Assistentes: médicos que já atuaram como preceptores e que atuam na coorde­
napio junto ao responsável pela clínica.
• Responsável pela clínica: médico responsável pelos serviços gerais da clínica.

Considerações gerais: ao analisarmos o vínculo dos médicos com a ins­


tituição, estamos visualizando um detalhe bastante complexo do relacio­
namento interpessoal do hospital. Esses profissionais, com o poder de que
são revestidos no seio hospitalar, são o sustentáculo de toda a estruturação
do setor. Dessa maneira, não podemos pensar na sedimentação de um ser­
viço de psicologia e simplesmente ignorarmos a relação médica entre mé­
dicos e instituição. O papel do médico na instituição hospitalar, por mais
que seja questionado, mostra aspectos que exigem uma análise detalhada
28 I TENDENCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

para que não se incorra em erro de percepção danoso na estruturação do ser­


viço de psicologia.
Em nosso hospital, o Hospital da Paz, criamos uma estrutuàí. �dêmica
de serviços médicos, o que de alguma forma determina um modelo de funcio­
namento bastante distinto daqueles apresentados pelas instituições particula­
res, nas quais o relacionamento com os médicos é meramente empregatício.
O lucro no verdadeiro sentido do termo é o objetivo maior na maio­
ria dos hospitais particulares, num contraponto com os objetivos de um
hospital público e acadêmico, que visa um atendimento de qualidade à po­
pulação desprovida de recursos materiais. Embora esse aspecto do atendi­
mento público, j untamente com os objetivos de pesquisa acadêmica, na
prática seja mero reducionismo teórico, o aspecto do lucro determina um
atendimento ainda mais desumano na maioria dos hospitais particulares.
Isso excluindo-se naturalmente os serviços prestados por hospitais particu­
lares à camada privilegiada da população, que pelo atendimento paga
quantias exorbitantes.
O lamentável estado de saúde em que se encontra grande parte da po­
pulação mostra que a maioria dos médicos que trabalha em hospitais públi­
cos tem como principal objetivo a ascensão acadêmica, em detrimento da
qualidade dos serviços prestados à população2•
Nos hospitais particulares, por outro lado, os salários e gratificações re­
cebidos pelos profissionais médicos quase sempre estão aquém das reais ne­
cessidades de uma remuneração profissional digna. E isso pode desmotivar
os médicos em relação aos serviços prestados à unidade hospitalar e, conse­
qüentemente, ao paciente3•

2. É sabido que a prática acadêmica no contexto hospitalar, na maioria das vezes, é permeada por
lutas incessantes de poder. Até mesmo os pacientes são envolvidos nessa disputa irascível, da mes­
ma forma que a própria estruturação do hospital implica verdadeiro desarvoramento diante des­
ses atritos que visam única e exclusivamente a escalada vertiginosa em busca do poder atribuído
pelos títulos acadêmicos. Ainda assim, lamentavelmente é no meio acadêmico que os incautos
depositam as esperanças de que a saúde possa encontrar escora diante das atrocidades governa­
meneais cometidas contra a população. E à medida que a saúde reflete a precariedade das condi­
ções de vida da população de maneira drástica e incontestável, o hospital se torna palco de lutas
cujo acírramento nos remete a conflitos ideológicos escamoteados sob o manto da ciência.
3. Não queremos com essas colocações afirmar que a classe médica presta atendimento de bai­
xa qualidade em função dos maus salários recebidos; ao contrário, desejamos enfatizar aspectos
:Z7

()) VfNCUT.O EMPREGATÍCIO DOS PROFISSIONAIS DE


SAÚDil COM A INSTITUIÇÃO

O vínculo empregatício dos profissionais de saúde com a instituição se dá por meio de


concursos públicos e nomeações governamentais.
Considerações gerais: da mesma forma que a análise do vínculo médi­
co-instituição é de vital importância, o vínculo empregatício dos funcioná­
rios com o hospital merece o mesmo tratamento. Os profissionais de saúde
realizam os esforços necessários para o restabelecimento físico do paciente.
Dessa forma, de nada nos adiantará um esboço detalhado do corpo médico
se igualmente não tivermos claras as mudanças das relações interpessoais da
equipe de saúde como um todo.
Embora existam concursos abertos à população especializada para re­
gulamentar a prática profissional dos chamados órgãos públicos, é conheci­
do o número de pessoas contratadas por meio de apadrinhamentos e concha­
vos políticos. Esses fatos irão determinar característica? específicas de
funcionamento da instituição, levando esses profissionais, na maioria das ve­
zes, a um tipo de atuação na qual a qualidade não é fator prioritário, visto
que sua contratação não ocorreu por mérito no desempenho da função.
Ao analisarmos este item, verificamos não apenas o funcionamento de
uma unidade hospitalar em um de seus aspectos mais importantes em ter­
mos de relações interpessoais, como também a disponibilidade horária pa­
ra O· esboço de trabalhos que envolvam a multidisciplinaridade dos profis­
sionais pertencentes a uma determinada unidade hospitalar.

E) INTERAÇÃO DA EQUIPE MÉDICA COM OS DEMAIS


PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Na clínica de ortopedia do Hospital da Paz existe um processo de interação da equi­


pe médica com os demais profissionais de saúde que pode ser considerado satisfatório.
Existem espaços destinados a reuniões semanais nas quais são apresentados alguns

inerentes a pontos emocionais de conduta humana. A própria mobilização dos médicos em bus­
ca de salários dignos traz no bojo de suas reivindicações a necessidade de uma prestação de ser­
viços de melhor qualidade à população. Assim, estamos mostrando uma faceta das ocorrências
da prestação de serviços nas instituições hospitalares particulares sem contudo adentrarmos às
questões da qualificação profissional do médico.
:Z8 I TtNO!NCIAS EM PSICOLOGIA H OSPITALAR

cctso.r dfnicos para discussão multidisciplinar. Existe também uma intensa troca de
informações entre a equipe médica e os demais profissionais de saúde. Os prontuários
hoJpitalares são analisados conjuntamente e até mesmo as prescrições são discutidas
de forma detalhada no plano multidisciplinar.

Considerações gerais: a interação da equipe médica com os demais pro­


fissionais de saúde mostra as possibilidades da inserção do serviço de psico­
logia na unidade hospitalar analisada. É evidente que a aceitação do psicólo­
go será maior num setor no qual exista uma equipe multidisciplinar que se
reúna periodicamente para a discussão de casos e onde, de alguma forma, se
valorize o conjunto de aspectos emocionais do paciente. A realidade que
criamos para este item no Hospital da Paz deixa claro que um espaço hospi­
talar com discussão de casos clínicos no plano multidisciplinar é uma idea­
lização que irá exigir um esforço muito grande para tornar-se real. Na me­
dida em que já conferimos ao Hospital da Paz um caráter acadêmico de
reflexão e de pesquisa, uma discussão de caso e uma avaliação de condutas
sobre o diagnóstico apresentado serão mera seqüência normativa.
A discussão de caso envolvendo a totalidade dos profissionais é um pas­
so muito grande e importante em termos de evolução multidisciplinar;
atingir o paciente de forma global, sem fragmentar a patologia, seja em ter­
mos físicos ou emocionais, é um dos objetivos pelos quais o psicólogo deve
lutar no contexto hospitalar.

F) MULTIDISCIPLINARIDADE DO SETOR
A multidisciplinaridade do setorpode ser considerada unitária em seu objetivo comum:
o paciente. Os diversos profissionais que atuam no setor se harmonizam nos aspectos que
envolvem o direcionamento do tratamento necessário ao restabelecimento do paciente.

. Considerações gerais: os aspectos da multidisciplinaridade de uma de­


terminada unidade hospitalar revelam a atuação do setor junto ao paciente.
Esse item poderá ser detalhado com dados contendo a atuação de cada um
dos profissionais envolvidos no setor, bem como os pontos de tangencia­
mento de suas práticas. O conhecimento da atuação de cada profissional é
condição indispensável para a implantação eficaz de um serviço de psicolo-
I Zl

gia; é impr�scindível que o psicólogo conheça as atl'ibuic,:ões do assistente


social, do nutricionista, do fisioterapeuta etc. É a partir desse conhecimen­
to que o serviço de psicologia poderá inserir-se no contexto hospitalar, indo

ao encontro dos objetivos institucionais, sem o perigo de perda da unidade


multidisciplinar. O hospital é um espaço que se abre para o psicólogo em
nuanças bastante complexas, fato que irá exigir desse profissional uma cons­
tante revisão de seus propósitos para que sua atuação não se perca isolada­
mente dentro desse contexto.

G) TRAJETÓRIA HOSPITALAR DO PACIENTE


A trajetória hospitalar do paciente se dápor meio de encaminhamentos realizados pe­
lo pronto-socorro ou ainda através de diagnósticos realizados fora do hospital. Uma
vez hospitalizado, o paciente é encaminhado para o setor específico de ortopedia, on­
de, a partir das intervenções necessárias - cirurgias, remoções, infiltrações etc. -
são delimitados os itens de sua permanência no setor.

Considerações gerais: a trajetória hospitalar do paciente é um dos itens


mais importantes na análise dinâmica. É a partir dela que o psicólogo po­
derá dimensionar o tipo de trabalho a ser desenvolvido. Se a intenção do psi­
cólogo é atuar no pré e no pós-operatório, ou ainda em níveis ambulatoriais
e de enfermaria, é por meio da análise da trajetória hospitalar que o momen­
to de intervenção será determinado e solidificado. Também é através dela
,
que a própria configuração do serviço de psicologia encontra sedimentação
em termos reais. Angerami ( 1 984a) diz que o paciente, ao ser admitido no
hospital, tem delineada pela equipe médica a chamada trajetória hospitalar,
que, de uma forma geral, consiste no diagnóstico, no prognóstico e até mes­
mo nas expectativas dessa equipe em relação a esse paciente. As variações
dessa trajetória irão influenciar o comportamento da equipe, havendo sem­
pre a possibilidade do surgimento de inúmeras contradições na interação
equipe-paciente (ibidem).
No caso específico da clínica de ortopedia do Hospital da Paz, fica evi­
dente que os encaminhamentos são realizados sem complicações extra-hos­
pitalares, uma vez que os casos de ortopedia, salvo raras exceções, são diag­
nosticados com absoluta precisão. Nas unidades hospitalares onde os
diagnósticos de cirurgias e os tratamentos específicos são mais complexos,
30 I TENO�NCIAJ � M PSICOLOGIA HOSPITALAR

exigindo inúmeros exames clínicos e laboratoriais, o conhecimento da tra­


jetória hospitalar do paciente poderá, inclusive, configurar o real sofrimen­
to provocado pela própria hospitalização dessa pessoa. Sebastiani (Angera­
mi, 1 984b) afirma que a hospitalização traz para o paciente um momento
de cisão de seu cotidiano, fato que irá exigir uma série de mudanças e trará
problemas para sua autonomia e o transcurso normal de sua vida. A hospi­
talização implica uma quebra de domínio sobre si próprio, na medida em
que a pessoa passa de uma situação de agente para uma situação de pacien­
te, tanto no sentido psicológico quanto orgânico.
Chiattone (ibidem), enfatizando a importância do conhecimento da
trajetória hospitalar do paciente, com sua prática como psicóloga de uma
clínica pediátrica, declara: cada enfermaria possui particularidades que de­
vem ser consideradas com cuidado. Assim, uma enfermaria pediátrica com
muitos leitos de ortopedia necessitará de uma atuação diferente de uma en­
fermaria geral, que mantém internadas crianças com pneumonia, diarréia,
bronquites etc. Isso quer dizer que é imprescindível que se estabeleçam,
atentamente, os objetivos do trabalho psicológico. Nenhuma atuação deve
ser realizada sem um objetivo específico. Os elementos de ação devem estar
sempre muito bem alinhavados para que não se percam no emaranhado de
condutas, dietas, medicamentos etc. De início, deve-se fazer um levanta­
mento da rotina da enfermaria, com horários , critérios e condutas da equi­
pe. Depois, pode-se esquematizar um plano de atividades para as crianças.
Esse plano deve seguir sempre um critério flexível, que possa ser moldado
de acordo com os períodos e fases da enfermarias (ibidem).
E assim é: de um trabalho estruturado adequadamente sobre as varia­
ções da trajetória hospitalar do paciente dependerá, em grande parte, o êxi­
to do psicólogo no hospital.4

4. Não queremos com essas colocações minimizar a importância dos outros itens da análise pa­
ra a estruturação do serviço de psicologia no hospital. Enfatizamos a importância da trajetória
hospitalar do paciente na medida em que é neste ponto que se concentram os esforços da equi­
pe de saúde como um todo. Daí a necessidade de o psicólogo ter claros os limites dessa abran­
gênCia na estruturação de seu trabalho.
11

H) ·npos DE PATOLOGIAS ATENDIDAS NO SliTOR

São atendidos casos de fraturas ósseas, luxações, ferimentos contundentes, traumatis­


mos, politraumatismos e casos de cirurgias ósseas.

Considerações gerais: o item que envolve as patologias atendidas pela clí­


nica analisada irá determinar os aspectos de abrangência da intervenção psico­
lógica. No caso específico de uma clínica de ortopedia, serão atendidos muitos
casos de politraumatismos provocados por acidentes diversos, desde os auto­
mobilísticos até aqueles decorrentes de grandes catástrofes (enchentes, desmo­
ronamentos, quedas de barreiras etc.). Nesses casos, na maioria das vezes, a pes­
soa vitimada, quando recupera a consciência, tem, além das próprias seqüelas
físicas, a dor provocada pela perda de algum ente querido no mesmo acidente.
Claro está que, nesses casos, além da dor física e das possíveis seqüelas orgâni­
cas muitas vezes irreversíveis, o psicólogo terá que trabalhar com a dor emo­
cional provocada por essas perdas. A importância de se circundar as possíveis
patologias atendidas pela clínica reside no fato de o psicólogo se conscientizar
da necessidade de aquisição de noções médicas básicas dessas patologias.
Tais noções permitirão ao psicólogo posicionar-se adequadamente
diante das reações físicas e emocionais do paciente, evitando-se assim psico­
logismos inadequados e errôneos.
Temos como verdadeiro o fato de que é praticamente impossível ini­
ciar um trabalho psicológico numa unidade hospitalar sem conhecer as
principais sintomatologias das parologias a serem atendidas. Não se trata de
assumir o papel do médico, mas de compreender os elementos teóricos in­
dispensáveis para um bom desempenho profissional.
Buscamos no hospital um espaço para o psicólogo, e para isso devemos
nos instrumentalizar. A consciência de nossas limitações e a necessidade de
se partir em busca de novos elementos teóricos serão o alicerce maior dessa
atuação.

J) CRITÉRIOS DE HOSPITALIZAÇÃO

Os critérios de hospitalização são determinados a partir da avaliação do corpo médi­


co sobre a necessidade de um tratamento a ser realizado dentro do hospital ou então
de uma eventual cirurgia.
32 I TFND�NCII\S EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

Considerações gerais: o conhecimento dos critérios de hospitalização


poderão auxiliar o psicólogo na estruturação de seu trabalho uma vez que po­
derá identificar a urgência e a gravidade do estado clínico do paciente . As­
sim, um paciente ao ser hospitalizado foi avaliado sob determinados cri­
térios que prescreveram uma hospitalização. Tais fatores por si já implicam
a aceitação por parte do psicólogo dessas condições, bem como uma refle­
xão sobre o quadro clínico do paciente. As condições emocionais do pa­
ciente serão avaliadas a partir de critérios previamente estabelecidos, e que
também levarão em conta a avaliação a que o paciente foi submetido pe­
la equipe médica.

J) CRITÉRIOS DE ALTA HOSPITALAR


Os critérios de alta hospitalar obedecem a normas médicas que implicam a total re­
cuperação física e emocional do paciente. Existem casos de pacientes que, embora te­
nham recebido alta hospitalar, necessitam de retornos periódicos à instituição para
controles ambulatoriais de atendimento e de tratamento.

Considerações gerais: os critérios de alta hospitalar determinam o tem­


po médio de hospitalização do paciente. A partir desse aspecto, o psicólogo
terá condições de estabelecer uma estratégia de atendimento que leve em
conta o período de hospitalização. Até mesmo o atendimento feito em ní­
veis am bulatoriais precisa ser direcionado a partir dos possíveis critérios de
alta hospitalar. Um real dimensionamento desses fatores poderá determinar
inclusive o tipo de trabalho a ser desenvolvido quando o paciente receber al­
ta e necessitar retornar à instituição hospitalar em busca de cuidados com­
plementares. Em termos ideais, a alta hospitalar deveria considerar não ape­
nas a condição física do paciente como também suas condições emocionais.
Mas isso seguramente é uma conquista que dependerá exclusivamente do
psicólogo para ser efetivada.

K) CRITÉRIOS DE VISITA
As visi-tas da clínica de ortopedia do Hospital da Paz seguem estes critérios:
• Visita médica: éfeita diariamente no período da manhã, quando os respon­

sáveis pelo paciente o examinam para avaliar suas condições vitais. Após es-
/! /t'lllt'l//111 11/.1/l/111 /111/ol/.1 l�ll h w /••11� oi /111/•l,!llloilo/11 .lo 11'1'1 '1''11 .Ir /l.l!tlllfl/1,/ol 1111 /1111/•ll•d I JJ
--- -- - - - · -· - - - ----··· --- - - -�--- - - - - ---- -·- -�-- -

sa visita éfeita a prescrição medicamentosa e outras determinações necessárias


para o restabelecimento das condições de saúde do paciente.
• Visita familiar: éfeita diariamente no período compreendido entre 15 horas
e 1 7 horas. Nesse horário é permitido ao paciente receber seus familiares li­
vremente. Fora desse período as visitas são permitidas apenas com autoriza­
ção médica, e visam atender os casos de familiares que não podem comparecer
no horário previamente estabelecido.

Considerações gerais: os horários de visita são importantes na estrutu­


ração do serviço de psicologia na medida em que podem determinar os pe­
ríodos em que o paciente recebe tanto a visita médica como a dos familia­
res. O fato de a visita médica ser feita na parte da manhã determina que as
principais rotinas do atendimento hospitalar ocorram nesse período. Assim,
toda e qualquer discussão ou levantamento de dados a ser realizado junto à
equipe médica deve ser direcionada levando-se em conta os períodos em que
as principais atividades acontecem. É importante observar que os trabalhos
que envolvam os familiares devem ser feitos em função dos horários permi­
tidos para as visitas. Seria totalmente inadequado, por exemplo, convocar­
se a família para um atendimento no período da manhã quando o horário de
visitas é marcado para o período da tarde. O atendimento à família deve obe­
decer a critérios bastante precisos e que levem em conta não apenas os estu­
dos existentes sobre a família como também aqueles que nos remetem à fa­
mília no contexto hospitalar.
A família no hospital possui características bastantes diversas de outras
realidades institucionais; no hospital a família vive uma ansiedade que en­
volve o restabelecimento físico do paciente, fato que de forma genérica faz
com que toda e qualquer abordagem psicológica leve necessariamente esses
aspectos em consideração.
No hospital existe a morte como espectro maior do tratamento. E a
perspectiva de que o paciente possa ficar em definitivo longe do seio fami­
liar - seja pela morte, pela invalidez ou por longos períodos de hospitali­
zação - faz com que os membros da família sofram com intensidade o pro­
cesso de hospitalização.
Tomemos como exemplo uma gestante e sua família. A gestante apre­
senta todas as sintomatologias físicas de uma gravidez: crescimento do fe­
to, possíveis reações de náusea e a transformação do organismo, que se pre-
J4 I TrNO�NCIAS EM PSICOI.OGIA H OSPITALAR

para para acomodar a criança. Essa gestante não engravida s9'zinha. Toda a
família igualmente engravida.
1\_ .
Se por um lado a paciente apresenta a sintomatologia da gravidez, por
outro a família apresenta os sinais emocionais dessa gravidez. Assim, é a mãe
da parturiente que prepara o enxoval do nenê tricotando sem cessar os no­
vos modelos de agasalhos; é o pai da criança que, de posse de um copo de
cristal, tenta ouvir o coração do nenê; é a tia da criança que coloca a mão na
barriga da futura mamãe para sentir os movimentos da criança.
A família inteira engravida e se prepara para receber a criança. E to­
dos ansiosamente aguardam seu nascimento. A mãe apresenta as sintoma­
tologias de uma gravidez e a família, os sinais emocionais que caracterizam
esse tipo de espera. Se por algum motivo essa criança, ao nascer, vier a fa­
lecer, a mãe não sofrerá isoladamente essa perda. Toda a família se desarvo­
rará diante desse episódio que se abaterá sobre todos como uma verdadei­
ra tragédia.
Da mesma forma, na instituição hospitalar, temos um quadro em que
o paciente hospitalizado sofre a sintomatologia de determinada patologia e
a família sofre emocionalmente as conseqüências desse tratamento. Existe
uma fusão dos sentimentos, e a dor vivida pelo paciente é a mesma dor vi­
vida pela família.
A abordagem psicológica junto à família não pode negar essa fusão, com o
risco de provocar seqüelas emocionais ainda mais profundas que aquelas provo­
cadas pela própria hospitalização. Chiattone (Angerami, 1 984b) refletindo so­
bre a intervenção psicológica junto à família do paciente hospitalizado, observa
que, quando uma criança adoece, a família também se sente doente, algumas
vezes, inclusive, culpando-se pelo fato. A doença é um fator de desajustamento
do grupo familiar. Então torna-se imprescindível um acompanhamento psico­
lógico dessa família. A princípio, ela deve ser conscientizada sobre os aspectos
da doença em si e sobre a necessidade real da hospitalização.
E na medida em que a família e o paciente se harmonizam no sofrimen­
to emocional provocado pela hospitalização, toda e qualquer intervenção
psicológica não pode deixar de abordar tais aspectos, sob o risco de incorrer
em erro conceitual.5

5. Nesse sentido, cremos errada a atitude médica de negar informação ao paciente sobre seus
próprios sintomas e acreditar que a família tem melhores condições emocionais para receber as
Jl

L) VÍNCULO MÉDICO-PAClllNTil

O vínatlo médico-paciente é satisfatório. Existe na equipe médica uma preocujJaf"ãO con.r­


tante com esse relacionamento, o que determina uma reflexão contínua sobre as atitudes
adotadas pelo corpo médico em relação ao paciente e seu processo de hospitalização.

Considerações gerais: o relacionamento médico-paciente é de vital im­


portância dentro da unidade hospitalar. O trabalho do psicóÍogo pode, in­
clusive, voltar-se para o equilíbrio das atitudes que envolvem esse relacio­
namento. De nada adiantará um trabalho realizado de forma excelente pelo
psicólogo junto ao paciente se a relação médico-paciente for deteriorada.
O médico, em todas as instâncias, traz sobre sua figura as expectativas
de cura; o paciente se apóia na figura médica como um peregrino que, se­
dento, avista ao longe um pote d'água; é na figura médica que são deposi­
tadas todas as esperanças do restabelecimento vital do paciente.
Os atritos decorrentes dessas expectativas por si só determinam um
acirramento nesse relacionamento; uma constante reflexão sobre as atitudes
a serem adotadas diante da expectativa do paciente em relação ao papel do
médico na instituição seguramente será de grande valia no estabelecimen­
to do equilíbrio das relações interpessoais no contexto hospitalar. Dessa ma­
neira, é inegável a contribuição do psicólogo, na medida em que pode de­
codificar a linguagem desse relacionamento. É através da intervenção do
psicólogo que os conflitos existentes na relação médico-paciente podem tor­
nar-se transparentes.
O psicólogo, por outro lado, deve ter claro que, na estruturação do ser­
viço de psicologia no hospital, os aspectos que envolvem a relação médico­
paciente devem ser priorizados de modo a se obter a total abrangência do
trabalho institucional. Na medida em que um dos principais objetivos do

informações. Essa prática, comum no meio médico, reflete a falta de atitude criteriosa sobre as
condições emocionais do paciente. Se um dado paciente, por exemplo, não possui condições
emocionais para receber o impacto de uma informação sobre o diagnóstico de um possível cân­
cer, nada pode nos assegurar que os familiares possuam tal condição. Essa atitude médica reve­
la, em última instância, uma postura na qual o profissional se recusa a enfrentar as condições
emocionais do paciente diante do diagnóstico. Torna-se assim mais cômodo deixar para os fa­
miliares essa responsabilidade, em que pese, na maioria das vezes, a fusão dos sentimentos emo­
cionais sobre o diagnóstico.
J& I TP.NDt:NOAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

;
trabalho do psicólogo é a transformação das relações arerpessoais deterio­
radas, ela acabará atingindo os próprios aspectos inst�:ucionais.

M) VÍNCULO PACIENTE-HOSPITAL

O vínculo dos pacientes com o hospital se dá através do SUS ou por via direta - ca­
sos de pessoas que não tenham recursos financeiros.

Considerações gerais: a humanização do hospital é um dos principais


objetivos a serem alcançados pelo psicólogo no espaço hospitalar. A insti­
tuição hospitalar, de maneira geral, pelo próprio caráter de sua especificida­
de, é considerada extremamente aversiva pela maioria dos pacientes. Este
item merece consideração, pois apresenta determinantes que dificultam o
processo de hospitalização. Uma compreensão desses aspectos poderá ser
útil ao psicólogo na estruturação de seu trabalho, na medida em que pode
detectar indícios de atrito no processo de hospitalização.

N) VÍNCULO PACIENTE-EQUIPE DE SAÚDE

Esse vínculo ocorre em um nível satisfatório de relacionamento. A equipe de saúde co­


mo um todo trata o paciente com a maior cortesia e respeito. E, acima de tudo, em to­
tal harmonia com os preceitos básicos de saúde.

Considerações gerais: é indispensável que a equipe de saúde concentre


esforços no sentido de humanizar as condições do paciente durante o pro­
cesso de hospitalização. o vínculo do paciente com a equipe de saúde apre­
senta especificidades que não podem ser excluídas na estruturação do servi­
ço de psicologia no hospital. No caso de uma clínica de ortopedia, por
exemplo, é inegável a importância da atuação da equipe como um todo pa­
ra o restabelecimento do paciente. O papel do fisioterapeuta na recuperação
dos movimentos e funções do paciente supera, inclusive, outros aspectos
igualmente importantes no tratamento. E da mesma forma que a atuação
do fisioteràpeuta é importante, o assistente social, a nutricionista, o tera­
peuta ocupacional e outros profissionais que eventualmente atuem no setor
devem agir em perfeita harmonia com os princípios da clínica e, por assim
dizer, com os próprios objetivos de recuperação do paciente.
17

O desconhecimento, por parte do psicólogo, dos limites de atuação dos


outros profissionais pode comprometer a abrangência do trabalho e frag­
mentar a totalidade do setor. O relacionamento do paciente com a equipe
de saúde deve ser permeado por uma compreensão de que os profissionais
'
que atuam no setor estão comprometidos com um objetivo comum: o res­
tabelecimento físico do paciente. O desconhecimento dos limites de atua­
ção de cada profissional pode gerar no paciente uma incerteza muito gran­
de sobre esse processo de restabelecimento.
O paciente, ao ser hospitalizado, passa a fazer parte de modo indisso­
lúvel do contexto hospitalar, sendo cuidado pela totalidade dos profissionais
do setor. Um relacionamento precário entre o paciente e a equipe de saúde
pode infligir-lhe sofrimentos que transcendem a própria enfermidade. É pa­
pel do psicólogo atuar para que esse relacionamento ocorra de maneira sa­
tisfatória, intervindo de modo a levar esses profissionais a uma constante re­
flexão sobre as atitudes a serem adotadas para que o setor funcione num
ponto ideal de harmonia.

0) VÍNCULO DA CLÍNICA DE ORTOPEDIA COM OS DEMAIS SETORES


DO HOSPITAL

Esse vínculo visa complementar o tratamento específico da clínica. Existe um relacio­


namento bastante estreito entre a clínica de ortopedia e os setores de raio X, labora­
tório e pronto-socorro. O vínculo com esses setores se processa a partir da necessidade
de exames complementares do tratamento específico de ortopedia. O pedido desses exa­
mes, bem como a possível locomoção de pacientes entre os diversos setores do hospital,
ocorre por meio de prescrição médica.

Considerações gerais: o relacionamento de uma clínica com outros se­


tores do hospital determina um dos aspectos mais importantes no tocante à
situação emocional do paciente. Um domínio do relacionamento do setor
específico de atuação do psicólogo com outros setores do hospital pode de­
terminar uma abrangência em seu trabalho sobre possíveis estados de ansie­
dade e depressão provocados no paciente em virtude desses deslocamentos.
No caso de uma clínica de ortopedia, a consciência por parte do paciente de
que possíveis transferências são rotina em seu tratamento representa alívio
nos aspectos que envolvem sua hospitalização. Até mesmo o fato de exames
]8 I nNlJ�NtiAS �M PSICOLOGIA H OSPITALAR

periódicos serem realizados com pleno e total conhecimento do paciente irá


facilitar o processo de recuperação. De outra forma, o desconhecimento por
parte do paciente da rotina hospitalar poderá gerar ansiedade e sofrimento,
facilmente evitáveis pelo trabalho de conscientização dessa rotina.

P) VÍNCULO DA CLÍNICA DE ORTOPEDIA COM SETORES


NÃO PERTENCENTES AO HOSPITAL

A clínica de ortopedia do Hospital da Paz não mantém vínculo com setores não per­
tencentes ao hospital, uma vez que os serviços necessários ao restabelecimento do pa­
ciente estão disponíveis na própria instituição.

Considerações gerais: assim como o item anterior, o conhecimento da


rotina hospitalar é atenuante do sofrimento provocado pela hospitalização.
Em determinados setores hospitalares existe inclusive a remoção do pacien­
te em busca de exames e tratamentos complementares. Desnecessário dis­
correr sobre a ansiedade e o sofrimento que isso poderá gerar a um pacien­
te que não conheça a necessidade dessa transferência. Nesse sentido, estamos
diante de um dos sofismas mais sérios do contexto hospitalar: o esclareci­
mento para o paciente de todas as etapas de seu tratamento6•
Na medida em que o psicólogo aborda essa questão de forma clara e
aguda, é necessário que ele próprio tenha uma atitude responsável para po­
der refletir seus valores antes de questionar as atitudes de outro profissio­
nal . É necessário que o psicólogo faça uma distinção bastante clara entre um
trabalho estruturado com consciência e clareza e um idealismo desestrutu­
rado até mesmo em termos teóricos.

Q) EXPECTATIVAS E PERSPECTIVAS DE DESENVOLVIMENTO DO


SERVIÇO DE PSICOLOGIA NO HOSPITAL

As expectativas da equipe de saúde sobre o serviço de psicologia são bastante positi­


vas e abrangem a possibilidade de proporcionar ao paciente um sustentáculo emocio-

6. Mostramos no item K - Critérios de Visita o erro médico de não esclarecer o paciente sobre
seu verdadeiro diagnóstico. Nesse sentido, a desinformação sobre os aspectos que envolvem a
hospitalização se enquadra igualmente nesse erro de atitude médica.
••

na/ �/icaz. A.r perspectivas de dexermolvimertto do .l'ert1ip1 xão grandes na medida etll
que o trabalho será estruturado em perfeita harmonia com todos os profissionais in­
tegrantes da clínica de ortopedia do Hospital da Paz.

Considerações gerais: o conhecimento das expectativas do setor de psi­


cologia é importante porque determina parâmetros ao serviço, e uma refle­
xão constante se abrirá como possibilidade no desenvolvimento do serviço
de psicologia no hospital.
Uma condição que o psicólogo precisa ter muito clara em sua atuação
no hospital é o fato de que o paciente hospitalizado, ao contrário do pacien­
te atendido nos limites de um consultório, faz parte de um contexto insti­
tucional com objetivos específicos. Dessa maneira, o paciente deve ser abor­
dado levando-se em conta que a harmonia com os demais profissionais de
saúde que igualmente atuam nos hospital deve ser preservada.
Os parâmetros determinados pelas perspectivas de desenvolvimento do
serviço de psicologia pode�ão dar ao psicólogo instrumentos de efetivação
,
dos objetivos de seu trabalho. De nada adiantará um trabalho considerado
excelente pelos profissionais de psicologia se ele, em sua essência, não atin­
gir os objetivos institucionais a que se propôs; o trabalho institucional, an­
tes de qualquer outra conceituação, necessita de parâmetros de conformida­
de e unidade com aspectos totalizantes que transcendem a prática de um
profissional isoladamente. Não estamos, com essas observações, propondo
que o psicólogo abandone os instrumentos clínicos que norteiam sua práti­
ca; ao contrário, queremos tornar claro que ele deve sair de uma atitude iso­
lada para ir ao encontro do espaço institucional, sem contudo abandonar
suas características profissionais.

PLANO DE ESTRUTURAÇÃO DO SERVIÇO DE


PSICOLOGIA NA U NIDADE HOSPITALAR

Uma vez realizada a análise institucional, teremos então condições para a


elaboração de um plano de estruturação do serviço de psicologia na unida­
de hospitalar. Em seguida, passaremos a descrever a estruturação do serviço
de psicologia na clínica de ortopedia do Hospital da Paz.
40 I TtND! NCIAS tM PSICOLOGIA H OSPITALAR

Plano de estruturação do serviço de psicologia na clínica


de ortopedia do Hospital da Paz

Esse serviço atuará em quatro níveis principais:

I -junto ao paciente;
li - junto à família,
III - junto à equipe de saúde;
IV - em situações específicas.

I - Atuação junto ao paciente


A atuação junto ao paciente seráfeita no momento de sua internação na clínica de
ortopedia. O serviço de psicologia, tendo conhecimento dos inúmeros casos encaminha­
dos pelo pronto-socorro do hospital, localiza a internação na clínica específica como
sendo o momento idealpara se efetuar a intervenção psicológica. Os atendimentos, res­
peitando-se a peculiaridade de cada caso, poderão ser realizados nos níveis pré, peri
e pós-operatório. Assim, o paciente será abordado de acordo com sua patologia e suas
condições emocionais.
O atendimento será realizado na enfermaria, podendo ainda ser utilizada uma
sala apropriada, a critério da coordenação da clínica. Os pacientes serão atendidos
nos períodos de internação respeitando os critérios médicos de hospitalização.
O paciente será acompanhado em termos psicológicos no seu processo de reabili­
tação física e posterior reintegração ao núcleo familiar. Os atendimentos serão reali­
zados em conjunto com os demais profissionais do setor, visando a reabilitação total
do paciente. As condições emocionais serão analisadas tendo-se comoparâmetro as con­
dições de restabelecimento físico do paciente.
O setor de psicologia também prestará esclarecimentos aos demais profissionais
sobre possíveis atitudes a serem adotadas junto ao pacíente, tendo como determinante
suas condições emocionais. O paciente terá no serviço de psicologia o atendimento ne­
cessário para seu restabelecimento físico e emocional.
Considerações gerais: o item de atuação junto ao paciente poderá ain­
da comer aspectos das possíveis implicações emocionais de determinadas
patologias. Assim, por exemplo, se o plano de atuação do serviço de psico­
logia envolver uma clínica de oncologia ginecológica, as condições emocio-
.:!
/!/������lo1 11111'!.!'' /l•llrl/1 ""'�"'' fr'"; ,, /lllf•l.ml.tld" do ..,,.,.;,, ,/� fuJmlrl/1,/tl "!' limf•llo�l I 41
__

nais da paciente mastectomizada merecerão um cuidado específico; seu


sofrimento certamente difere do sofrimento de pacientes portadores de ou­
tras patologias. Evidentemente, as seqüelas emocionais provocadas pela re­
moção cirúrgica dos seios são determinantes de sofrimento muito superior
ao provocado pelo processo de hospitalização em si. Ao estruturarmos um
plano de atuação de um serviço de psicologia, é condição prioritária que os
aspectos específicos da sintomatologia abordada sejam considerados em sua
totalidade.
Numa clínica de ortopedia, por outro lado, as remoções cirúrgicas de
determinados membros, embora apresentem condições semelhantes aos
processos gerais de mutilação, devem ser analisadas levando-se em conta
todas as particularidades do paciente. Dessa forma, a perda do movimen­
to da mão para um desenhista terá repercussões emocionais bem mais acen­
tuadas e contundentes. E o que dizer da remoção cirúrgica do membro in­
ferior de um atleta? Ou ainda de rraumatismos irreversíveis provocados em
amigos e parentes em decorrência de acidente automobilístico em que o
paciente era o responsável pela condução do veículo ? Inegavelmente, esses
exemplos ilustram a delicadeza de uma intervenção psicológica que possa
prover esses pacientes com a condição emocional mínima necessária para
o enfrentamento dessas circunstâncias. O paciente nesses casos terá sofri­
mentos emocionais que poderão agravar sensivelmente sua própria condi­
ção física.
No caso de o psicólogo se utilizar de instrumentos como testes, anam­
neses e outros, tais subsídios também poderão constar do item q�e envolve
sua atuação junto ao paciente hospitalizado. O instrumental de atuação do
psicólogo poderá ser detalhado para que os demais profissionais da equipe
de saúde tenham uma noção do trabalho a ser desenvolvido pelo serviço de
psicologia. No entanto, esse detalhamento é totalmente dispensável, sendo
necessária somente a descrição da forma como se procederá o atendimento
no setor.

11 - Atuação junto à família


A atuação junto à família será realizada visando-se a total reintegração do pacien­
te ao núcleo familiar. Esse atendimento será coordenado de maneira a não sobrecar-
42 I TeND�NCIAS �M PsiCOLOGIA HosPITALAR

regar os horários dos familiares nem cercear o período de visita ao paciente. A inter­
venção junto à família visará também o esclarecimento das condições necessárias ao
restabelecimento físico e emocional do paciente. Serão abordadas questões sobre a pa­
tologia do paciente e a interação familiar a partir da hospitalização.
Serão observados os preceitos vigentes no setor, bem como a conduta adotada pe­
los demais profissionais da equipe de saúde. Serão elencados para o atendimento aque­
les familiares que o próprio paciente considere importantes e que, de alguma forma,
mostrem-se presentes no processo de hospitalização.

Considerações gerais: o item de atendimento aos familiares deve espe­


cificar os objetivos do atendimento de modo a tornar clara a própria estru­
turação do trabalho. Os familiares, como foi visto anteriormente, desempe­
nham importância fundamental no restabelecimento do paciente. E um
trabalho bem desenvolvido e estruturado nesse sentido será, inegavelmen­
te, de grande utilidade para promover o alívio necessário ao processo de hos­
pitalização. A família, ao ser englobada no atendimento hospitalar, recebe­
rá condições e sustentáculos emocionais para que o paciente encontre alívio
ao sofrimento provocado pelo afastamento do núcleo familiar. Paciente-fa­
mília é um binômio indivisível, e como tal deve ser abordado no contexto
hospitalar, com o risco de perder-se um aspecto muito importante na inter­
venção do psicólogo: as implicações emocionais que um processo de hospi­
talização provoca no núcleo familiar.

11/ - Atuação junto à equipe de saúde


A atuação do psicólogo junto à equipe de saúde se dará nos seguintes níveis:
• Discussão de casos: o psicólogo participará das reuniões semanais mantidas

pela equipe de saúde provendo os aspectos emocionais dos casos apresentados e


enriquecendo as discussões com subsídios que permitam uma visão globalizan­
te do paciente. Também poderão ser apresentados pareceres ou diagnósticos psi­
cológicos de determinados pacientes quando solicitados pela equipe de saúde.
• Discussão de atitudes: o psicólogo poderá atuar no sentido de orientar discus­

sões que envolvam as atitudes da relação médico-paciente, bem como aspectos


inerentes ao processo de hospitalização e que englobem os cuidados dispensa­
dos pela equipe de saúde para o restabelecimento do paciente.
41

• G'rttj)(JS de estudo: o psicólogo j}()derá orientar possíveis grupos de estudo qlie


visem uma melhor compreensão das condições físicas e emocionais do paciente.
O grupo de estudo poderá versar sobre o processo de hospitalização e, dessa ma­
neira, contribuir para que a equipe de saúde adquira condições ideais para
o desempenho de suas funções.
• Controle burocrático: o serviço de psicologia fornecerá quinzenalmente relatos
de suas atividades à coordenação do setor. Também será feito fichamento dos
casos atendidos, de modo a facilitar o desenvolvimento do setor. Periodicamen­
te, em prazo a ser determinádo, o serviço de psicologia, por intermédio de seus
responsáveis, terá reuniões com os responsáveis pelo setor para que o trabalho
possa ser avaliado e reestruturado quando se fizer necessário.

Considerações gerais: o item de relação do psicólogo com os demais pro­


fissionais da equipe de saúde deve abranger a totalidade das possibilidades
dessa interação. O plano inicial, no entanto, não exclui possíveis vertentes
que surjam no decorrer do trabalho. Assim, o psicólogo deve estar sempre
atento para outras intervenções que possam ocorrer durante o desenvolvi­
mento de suas atividades. Grupos operativos com médicos e equipe de en­
fermagem, assistência psicológica a determinado profissional que se deses­
truture durante o atendimento etc. são apenas algumas das possibilidades de
atuação do psicólogo no decorrer de seu trabalho. É importante ressaltar que
outras possibilidades de atuação do psicólogo somente se efetivarão se ele,
como profissional, estiver atento a sua própria condição de catalisador dos
processos emocionais surgidos dentro da realidade institucional.
Ao psicólogo cabe a responsabilidade da conquista do hospital como
campo de sua atuação profissional. E essa perspectiva apenas se tornará real
quando sua reflexão o levar ao encontro de parâmetros que o conduzam a
uma atuação permeada pela multidisciplinaridade institucional.

IV - Atuação em situações específicas


O atendimento em situações específicas se dará nos seguintes níveis:
• internação: o atendimento será realizado na ocasião da internação visando
dar ao paciente sustentáculo emocional para o impacto inicial provocado pe­
la hospitalização.
44 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

• Pré, peri e pós-operatório: após o momento inicial de internação e da realiza­


ção do diagnóstico específico, será realizado um trabalho junto ao paciente ob­
jetivando seu atendimento em todos os momentos que envolvam sua hospitali­
zação e conseqüente restabelecimento. Vm trabalho que observe os aspectos do
pré, do peri e do pós-operatório visa propiciar ao paciente condições emocionais
adequadas para o enfrentamento do processo de hospitalização.
• Exames complementares: nos casos de exames complementares ao tratamento

- radiografias, exames clínicos e outros -, será realizado um acompanha­


mento ao paciente para auxiliá-lo emocionalmente nos diversos momentos do
processo de hospitalização.
• Alta hospitalar: no momento da alta hospitalar, o trabalho psicológico po­

derá apresentar nuanças de determinação no sentido de concretizar satisfato­


riamente o processo de hospitalização vivido pelo paciente.
• Retornos complementares: será realizado um trabalho junto ao paciente quando
for necessário seu retorno à instituição hospitalar em busca de tratamento com­
plementar ao seu processo de hospitalização. A intervenção psicológica nesse mo­
mento é importante para assegurar que o restabelecimento do paciente se concreti­
ze de maneira efetiva segundo os princípios que norteiam a equipe de saúde.

·Considerações gerais: este item deve abordar os aspectos da hospitali­


zação nos vários níveis da rotina hospitalar.
A importância da separação dos vários momentos da rotina hospitalar
reside no fato de caracterizar as situações de intervenção do psicólogo, bem
como sua inserção nos determinantes que envolvem o atendimento realiza­
do junto ao paciente. Existe ainda a importância de se dimensionar a am­
plitude do trabalho do psicólogo conjuntamente com os demais profissio­
nais de saúde que atuam na unidade hospitalar objeto de análise.
A rotina hospitalar deve ser considerada numa totalidade com o psicó­
logo, buscando os pontos de sua abrangência. O hospital, com sua multi­
plicidade de serviços, deve ser analisado de maneira a não se perder o deta­
lhamento desses atendimentos. O psicólogo poderá ainda, juntamente com
outros profissionais, atuar na estrutura institucional no sentido de transfor­
má-la segundo as necessidades constatadas.
4!1

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos perceber que a atuação do psicólogo no contexto hospitalar é reves­


tida de muitas dificuldades e obstáculos a serem suplantados. No entanto,
uma análise criteriosa da instituição hospitalar dará condições para que o psi­
cólogo possa se instrumentalizar adequadamente e, dessa forma, desenvolver
uma atividade coroada de êxito. O espaço hosp italar está aberto para receber
o psicólogo em suas nuanças e determinações. O fato de apresentarmos as di­
ficuldades de uma análise institucional com as barreiras que surgem ao lon­
go desse percurso mostra que um conhecimento apriorístico das condições
hospitalares poderá ser um índice seguro de uma atuação eficaz.
O fato de se fixarem objetivos precisos de atuação fornecerá ao psicó­
logo elementos de reflexão que certamente o conduzirão ao estabelecimen­
to dos parâmetros ideais para a implantação do serviço _de psicologia na uni-
dade hospitalar. 1
Muito se tem discutido sobre as reais perspectivas de desenvolvimen­
to do psicólogo no hospital. As dificuldades, os erros, os acertos, tudo en­
fim é arrolado nessas discussões. Contudo, no plano real, a performance de
atuação do psicólogo dependerá de sua própria capacidade no estabeleci­
mento de atitudes que se harmonizem com a realidade institucional.

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. Existencialismo e Psicoterapia. São Paulo: Traço Editora,


1 984.
------ . Psicologia Hospitalar. A Atuação do Psicólogo no Contexto
Hospitalar. São Paulo: Traço Editora, 1 984.
C A P ÍT U LO 4

S uic íDIO INFANTIL:


O DESESPERO HUMANO
NA REALIDADE HOSPITALAR1

1 - I NTRODUÇÃO

Este trabalho é fruto de nossa atividade junto a pacientes vítimas da


tentativa de suicídio ao longo dos últimos anos. O impacto emocional
diante da constatação de que crianças estão sendo atiradas às raias do
desespero é simplesmente desalentador. Desalentador diante da própria
desesperança de uma sociedade na qual o direito à vida seja preservado
e respeitado na condição de que os sonhos e ilusões se mantenham vi­
vos. Vivemos numa sociedade em que os farrapos humanos se confun-

1. Este trabalho foi publicado anteriormente no livro A Psicologia no Hospital. São Pau­
lo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

47
48 I TeND!NCIM I M PSICOLOGIA H oSPITALAR

dem com o lixo. Em gue o absurdo é normal. E na gual a violência nada mais
é do gue o sangue e o escarro das vítimas dessa situação caótica. E assim é: crian­
ças buscando o suicídio como condição de alívio aos sofrimentos existenciais;
insolitamente, um sintoma da própria destrutividade da sociedade.
Buscamos a humanização do hospital. E a reflexão sobre o suicídio in­
fantil remete-nos à consciência de nossa participação numa luta sem venci­
dos ou vencedores. A condição humana nos escancara a dor d'alma ao mes­
mo tempo em gue o hospital se abre para gue a psicologia hospitalar atue
na minimização desse sofrimento.
Este trabalho não tem a força de uma denúncia. É uma simples tentati­
va de descrever a atuação junto aos pacientes vítimas da tentativa de suicídio.

1 1 - DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES

O Centro de Psicoterapia Existencial mantém plantonistas junto aos pron­


to-socorros dos principais hospitais da cidade de São Paulo, prestando aten­
dimento ao paciente vítima de tentativa de suicídio tão logo ele dê entrada
no hospital. Assim gue mostre condições clínicas de atendimento, dá-se iní­
cio ao acompanhamento psicológico por ym dos plantonistas. A condição
clínica implica uma recuperação das funções básicas relacionadas, portanto,
aos meios utilizados para a tentativa de suicídio; por exemplo, na ingestão
de comprimidos, só há condições de atendimento após a lavagem gástrica.
No caso da utilização de arma de fogo, as condições de atendimento, mui­
tas vezes, são determinadas a partir de fatores como eventuais cirurgias. O
objetivo inicial do primeiro atendimento psicológico é o estabelecimento
de um sustentáculo emocional para gue o paciente possa, em seguida, des­
cobrir novas possibilidades e alternativas para sua vida. 2
Nesse primeiro atendimento também é delineada a deliberação do en­
caminhamento do caso ª...1.lJ.Da ajuda posterior. Os pacientes são encaminha-

2. Nesse primeiro atendimento, não se tem a pretensão nem a intenção de uma abordagem pro­
funda no tocante aos problemas existenciais do paciente. Sabemos que nesse primeiro contato
acenamos como uma luz de esperança no turvo de suas possibilidades. Muitas vezes, inclusive,
somos uma ilusão tangenciada pela fé perceptiva desse paciente em desespero; uma proposta de
atendimento mais abrangente não pode ficar restrita às limitações físicas impostas pelo atendi­
mento realizado no hospital e mais especificamente, na maioria das vezes, nos corredores som­
brios de um pronto-socorro.
.\'11/, 1.1/o 111/�HIII. " ''"�'/'"'" 1<11111.11111 1111 l'tM /1,/,�,1, lwtfl/1.1/,,· I 41
-�---------·-· ···- · - · · · ·-·

dos seg u ndo os preceitos da entidade, além de considerar-se a pt·r u l i nridu­


de do casó. Se o paciente for urna empregada doméstica, por exem plo, dt•
nada adiantará seu encaminhamento a um processo psicoterápico isolada­
mente. Não se trata simplesmente de negar-se a necessidade de se submt'­
ter a esse processo; ao contrário, sempre se tem por pressuposto que, para
buscar o suicídio corno alternativa para os devaneios e sofrimentos existen­
ciais, esse alguém padece emocionalmente em níveis sequer suportáveis. No
entanto, a empregada doméstica, na maioria das vezes, quando tenta o su i ­
cídio tem sobre s i o peso d e u m desemprego recente.
Dessa forma, percebe-se que o encaminhamento a um processo psico­
terápico não terá efeito positivo se, concomitantemente, não houver urna
entidade que venha prover-lhe as necessidades econômicas básicas e de mo­
radia. Portanto, terá a ajuda da Associação das Empregadas Domésticas e a
alternativa de um tratamento psicoterápico.
Já nos casos em que são detectados determinantes emocionais na tenta­
tiva de suicídio, há o encaminhamento imediato ao processo psicoterápico.
O Centro de Psicoterapia Existencial mantém uma rede de ajuda psicoterá- ·
pica às pessoas que são dirigidas aos núcleos de atendimento pelos planto­
nistas, segundo a localidade (bairro) conveniente a cada paciente. Algumas
vezes há o encaminhamento para grupos de bairro, visando-se, dessa forma,
uma interação social, pois em muitos casos ocorre um isolamento.
Então, de nada adiantará o encaminhamento ao processo psicoterápico
se não se der urna base social sólida para um trabalhador, como no caso da
empregada doméstica, que tenta o suicídio por estar desempregado e sem
perspectivas de vida. Nos casos em que o desemprego atua como determi­
nante, os encaminhamentos são feitos para comunidades de base, núcleos de
pascoral operária, núcleos de partidos políticos e, mais recentemente, à As­
sociação Paulista de Solidariedade ao Desemprego.
Após muitos anos de prática no atendimento de tais pacientes, o pres­
suposto de evitar-se o aniquilamento provocado pelo isolamento social é um
antídoto concreto e eficaz na prevenção da reincidência da tentativa de sui­
cídio. Nossa experiência nos permite supor que, ao sair do isolamento so­
. cial, o paciente irá ao encontro de outras pessoas com problemas semelhan-
tes, e dessa forma irá adquirir condições favoráveis para refletir sobre suas
dificuldades mais prementes. Se levarmos em conta que muitas vítimas de
tentativa de suicídio apresentam indícios de problemas socioeconômicos e
50 I TENO�NCIAS EM PSICOLOGIA H OSPITALAR

psicológicos de amplitude crítica em função do contexto social em que o


País tem-se estruturado, pndemos concluir que o agrupamento dessas pes­
soas j.unio_a_associa.çõ.es Oll entidades reivindicatórias tem p.restado .grande
auxílio nos tratamentos psicoterápicos. O envolvimento em torno de obje­
tivos comuns contra situações opressoras poderá criar condições promisso­
ras para a luta pela dignidade existencial, e até mesmo para uma transfor­
mação social mais ampla.
Além dessas atividades, existe uma preocupação muito grande em di­
vulgar e mesmo denunciar à opinião pública as condições de inúmeras pes­
soas atiradas ao desespero e ao suicídio diante das conjunturas política, econô­
mica e social do país. Não são raras as entrevistas e depoimentos aos órgãos
da grande imprensa para a divulgação dos dados obtidos por meio de nos­
sas atividades. A vexação, por exemplo, de tantas pessoas que buscam o sui­
cídio como solução ao desemprego é um dado que não pode ficar restrito
apenas aos prontuários da entidade.
Outro objetivo do Centro é a elaboração de modelos práticos para os
atendimentos psicológico e psicoterápico sedimentados em setores defini­
dos da realidade brasileira.
Há um grupo de trabalho que dá assistência ás vítimas de tentativa de
suicídio e outro que atua em setores hospitalares com pacientes portadores
de doenças crônicas e pacientes terminais.3
Em resumo, a atuação do Centro de Psicoterapia Existencial em rela­
ção à temática do suicídio pode ser definida em quatro níveis principais:

1. Trabalho psicológico e psicoterápico.


2 . Orientação aos familiares dos pacientes e de pessoas que se suicidaram.
3 . Divulgação de fatores sociais, políticos e econômicos concernentes
ao desespero individual que merecem a atenção da opinião pública
e das autoridades competentes.
4. Reflexão e estudo sistematizado da temática do suicídio.

3. Nossa atuação com pacientes terminais foi pioneira no País. Além de algumas publicações que
fizemos sobre a temática, existem registros dessa atuação tanto nos órgãos de imprensa como na
literatura especializada.
lt

111 - O SUicfDIO NA REALIDADE HOSPITALAR

A primeira dificuldade que surge quando se estrutura um se rviço dc.' psico­


logia no pronto-socorro do hospital geral para o atendimento de vftimas dt•
tentativa de suicídio, na maioria das vezes, é a indiferença dos profissionais
da saúde diante do sofrimento emocional do paciente. A tentativa de suid­
dio é vista como uma agressão aos princípios da vida. O sofrimento emocio­
nal existente por trás do ato da tentativa de suicídio não é considerado t.'m
sua essência.
Os profissionais de saúde que atuam num pronto-socorro aprendem,
em sua formação acadêmica, normas e técnicas para lidar com sintomas, cu­
rativos, cirurgias etc. Mas não refletem, durante essa formação, sobre umu

questão complexa e bastante emaranhada: a morte. No entanto, quando ini­


ciam suas atividades profissionais, deparam com ela constantemente, e mui­
tas vezes com pacientes que procuram a morte como alternativa aos sofri­
mentos existenciais. Lidar com essas situações torna-se extremamente difícil
na medida em gue a atitude do paciente afronta o princípio de suas práti­
cas profissionais: a preservação da vida.
Eis o depoimento de uma paciente por nós atendida:

Tentei morrer. Não sei se a dose de remédios gue tomei não foi sufi­
ciente. A verdade é que comecei a passar muito mal. Tive vômitos e
muita dor de cabeça. Daí, levaram-me ao pronto-socorro, então perce­
bi o que significava buscar a solução de nossos problemas através da
morte. Os médicos me desprezavam, as enfermeiras pareciam interessa­
das na provocação de dor. Até as atendentes vinham me olhar como se
fosse algum animal raro em exposição no zoológico. Pude então perce­
ber de forma clara o que significa o ato de suicídio: uma busca da mor­
te onde não se quer morrer, e sim livrar-se desse mundo egoísta. que
enlouquece e tortura. E quando não conseguimos atingir nossos propó­
sitos, a sociedade, através de seus representantes- médicos, enfermei­
ros, policiais etc. - nos imputam todos os tipos de prevaricação".
(Angerami, 2002).

Após longos anos coordenando serviços de psicologia nos pronto-socor­


ros dos principais hospitais da cidade de São Paulo, podemos afirmar sem
!12 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

margem de erro que a nossa atividade é considerada bem-sucedida quando,


a l ém de atender o paciente, conseguimos sensibilizar a equipe de saúde pa­
ra os aspectos emocionais do suicídio.

A atitude insensível desses profissionais ganha dimensões ainda mais


drásticas nos casos que envolvem a tentativa de suicídio na infância. .
Na quase totalidade dos casos, atribui-se o ato a um possível acidente
doméstico. Mesmo o depoimento do paciente manifestando o. desejo de
morrer para colocar fim à própria vida não modifica a conceituação de que
o gesto é coisa de criança e não um ato destrutivo. Também é comum desprezar

o depoimento dos pais, considerando-o irrelevante ou até mesmo exagera­

do diante daquilo que é considerado um ato trivial, um mero acidente do­


méstico. Muitas vezes, esses profissionais insistem no fato de que a profilaxia
para tais casos consiste unicamente no afastamento do alcance das crianças
de medicamentos e substâncias corrosivas.
A realidade de um pronto-socorro apresenta atendimento aos mais di­
versos casos: ferimentos, espancamentos, atropelamentos etc. A tentativa de
suicídio é apenas mais uma das muitas facetas da violência que atinge o hos-
'-- · '
pital. O médico trata o organismo enfermo. A dor d'alma não é considera-
da. E o mergulho de desespero em que o paciente se encontra atirado não é
tido como verdadeiro. Assim, o primeiro passo para a efetivação de um tra­
balho abrangente de psicologia no pronto-socorro junto ao paciente vítima
de tentativa de suicídio é aquele que nos remete a uma reflexão sobre o sig­
nificado do suicídio na condição huii)aQª.
O suicídio infantil mostra a necessidade de um posicionamento har­
monioso dos profissionais da saúde para que o sofrimento humano seja com­
preendido em sua verdadeira essência. E embora essa realidade mostre nú­
meros alarmantes, ainda estamos longe da adoção de um conjunto de
atitudes que possa apreender esse sofrimento de modo claro e efetivo. Na
medida em que o paciente vítima da tentativa de suicídio é considerado al­
guém portador de determinadas psicopatologias, as crianças que enveredam
por esse caminho trazem sobre si a possibilidade de um estigma irreversí­
vel, se não houver uma compreensão humana e existencial desse gesto.
Segundo Garfunkel (apud Lippi, 1 976), o suicídio entre crianças supe­
ra, em ocorrência, tumores, hipertensão, leucemias e outras doenças letais
como causa de morte, de acordo com estatísticas norte-americanas.
SI

Alguns w6ricos afirmam que o suicida é um ser condenado à morte por


uma sociedade destrutiva e que executa a sentença com as próprias mãos.
Nesse sentido, o suicídio infantil irá ter como verdugos um número muito
grande de responsáveis que, inclusive, transcendem os limites familiares. E
levando-se em conta que correntes progressistas da psicologia afirmam que
a criança, na maioria das vezes, configura-se como o "paciente identificável"
de uma estrutura familiar doentia, o suicídio infantil mostra, então, facetas
da destrutividade da família e da própria sociedade.
Vimos anteriormente que nosso trabalho junto à vítima de tentativa de
suicídio ocorre tão logo o paciente mostre condições clínicas de atendimento.
Nos casos específicos de crianças, antes mesmo que o paciente apresente tais
condições, na quase totalidade dos casos, a família se apresenta desarvorada em
busca de algum esclarecimento das possíveis razões desse ato. O desespero das
famílias torna verdadeira a afirmação de que o suicídio é sempre revestido de
muita violência. Mesmo naquelas formas em que o ato é fulminante e a prin­
cípio sem qualquer sinal aparente de dor física, ainda assim a violência é emi­
nente, transcendendo toda e qualquer conceituação.
O suicídio é um fenômeno que, ao se manifestar, não atinge apenas a
vítima, mas seus familiares e amigos próximos. Ou seja, sua ocorrência atin­
ge a todos que direta ou indiretamente convivem com a vítima. A culpa"'ri­
ginária é infindável, e seus contornos, imprevisíveis. No entanto, o suicídio
e outras manifestações sociais- a loucura, os assassinatos, os crimes sociais,
as doenças contagiosas e outros - não mobilizam as sociedades contempo­
râneas no sentido de combatê-las, mas sua ocorrência questiona diretamen-
, te a própria estrutura social.
Dessa forma, o atendimento realizado junto aos familiares da criança
implica um trabalho cuja dimensão inicial é o suporte emocional para a cul­
pa apresentada. "O que fizemos de errado? Onde falhamos?" "Será que ela
não ama sua família?" Esses e outros questionamentos caem sobre o psicó­
logo no meio de um turbilhão de desespero e dor.
A família deve ser ouvida e orientada no sentido de aceitar e compreen­
der essa criança para que seu sofrimento não seja agravado por punições e
sançqes totalmente inadequadas nesse momento difícil.
O psicólogo deve estar aberto para um atendimento que possa abarcar
o sofrimento desses familiares, sem contudo se revestir de uma postura de
54 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

crítica a possíveis falhas no relacionamento familiar, eventualmente detec­


tadas no pronto-socorro. O atendimento hospitalar deve levar em conta que
o ato do suicídio expõe essa família a uma vulnerabilidade sequer tangen­
ciada pela razão. A catarse, fator importante nos processos psicoterápicos,
nesse contexto adquire a condição de bálsamo cicatrizante das chagas exis­
tenciais. Todos se fundem num sofrimento único e, por assim dizer, esco­
ram na própria dor a indignação diante da precariedade da condição huma­
na. As cenas de dor da família são tão desesperadoras que sua retratação num
texto acadêmico se perde. Médicos, enfermeiras, assistente sociais, psicólo­
gos, todos ficam perplexos diante dessa realidade, na qual a vjolência do sui­
cídio mostra um lado de destrutividade que as reflexões teóricas não podem
conceber.
A criança, por outro lado, deve ser aceita em sua manifestação de dor e
não ser simplesmente desprezada em suas razões. Como o atendimento é rea­
lizado dentro dos limites impostos pelas condições de um pronto-socorro,
torna-se evidente que o psicólogo deve facilitar o depoimento da criança em­
pregando os recursos disponíveis para tal. A atividade lúdica, utilizada nos
atendimentos realizados com crianças, tanto no plano institucional como no ·
consultório, perde sua força em virtude das condições hostis de um pronto­
socorro. Havendo um prolongamen� da hospitalização, poderá então ser
efetivado um atendimento no qual os recursos lúdicos sejam utilizados. Nes­
ses casos, necessariamente a criança.será atendida ou na pediatria ou em al­
guma clínica específica. Dessa forma, o atendimento poderá ser realizado
utilizando-se outros recursos, que incluem desde o material lúdico até pos­
síveis testes psicológicos. Cabe ao psicólogo a estruturação de um trabalho
cujo instrumental leve em conta as diversas nuanças da trajetória hospitalar
da criança vítima de tentativa de suicídio. Dessa maneira, solidificar-se uma
estrutura de trabalho que atende às necessidades emocionais desse paciente,
pequena vítima em agonia diante dos desatinos da existência.
Um aspecto muito importante da conduta do psicólogo no trabalho
j unto ao paciente vítima de tentativa de suicídio, dissemos anteriormente,
é a estruturação de um trabalho multidisciplinar. A reflexão sobre aspec­
tos inerentes ao suicídio e a sua significação na existência humana são fa­
tores primordiais na adoção de atitudes que possam abarcar a problemática
do paciente de modo abrangente. Uma compreensão dos aspectos globais
!I !I

do paciente scrá parâmetro para o êxito do trabalho realizado. É' necessária


não apenas uma visão clínica na qual apenas o médico, a enfermeira e even­
tualmente o psicólogo opinem, mas também uma visão social, incluindo­
se os aspectos da própria dificuldade socioeconômica e familiar desse pa­
ciente. A inserção desses aspectos globalizantes na análise do caso elucidará
os diversos fatores que contribuíram para levar o paciente ao desespero da
tentativa de suicídio, e assim ajudará a determinar o tratamento mais efi­
caz em seu processo de recuperação. Isoladamente, o psicólogo poderá de­
tectar possíveis condições emocionais que tenham contribuído para um ato
desesperado como a tentativa de suicídio, mas é ne.ce_s.sário qu_e_o_u.tms_as­
__

pectos sejam analisados para que o diagnóstico não se perca em mero redu­
cionismo teórico.
O trabalho com crianças vítimas de tentativa de suicídio exige do psi­
cólogo uma reflexão sobre seu desempenho, para se buscar uma prática clí­
nica que vá ao encontro das reais necessidades do paciente. A psicologia hos­
pitalar no Brasil, em que pesem os esforços dos pioneiros da área, apenas
tartamudeia as primeiras palavras. A temática do suicídio infantil faz com
que ela se apequene diante do qesespero contido no sofrimento desses pa­
cientes. Esse seguramente é um dos maiores desafios que o psicólogo enfren­
ta na realidade hospitalar.

IV - OS NÚMEROS ALARMANTES DO DESESPERO

Nesta parte do trabalho, mostraremos os dados obtidos por Lucci e colabora­


dores (1984), e os do Centro de Psicoterapia Existencial.
Os dados contidos no trabalho "Tentativa de Suicídio na Infância"
(ibidem) foram obtidos pelo levantamento das fichas de ocorrência do Ser­
viço de Controle de Intoxicações de São Paulo. A caracterização da circuns­
tância como tentativa de suicídio é feita pela expressão verbal da criança
do desejo de morrer ou por informações da mãe e/ou familiar. Em caso de
dúvida, a circunstância é assinalada no item "outros". Foi realizado um le­
vantamento das fichas de ocorrência e do atendimento telefônico e hospi­
talar nos períodos de janeiro a dezembro de1983 e de janeiro a outubro de
1984. Dessas fichas, foram selecionadas as de crianças de idade entre 7 e
12 a:nos.
se I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HoSPITALAR

Os números do trabalho de Lucci (gráficos 1 e 2) são mostrados nas p<1-


ginas seguintes.
Os dados do Centro de Psicoterapia Existencial (Tabela 3 e Gráfico 4),
também mostrados nas páginas seguintes, embora não apresentem o núme­
ro exato dos casos situados na faixa etária localizada entre cinco e dez anos
de idade, revelam preocupante incidência de tentativas de suicídio na infân­
cia - casos de crianças com idade média de dez anos que estão enveredan­
do pelos caminhos da tentativa de suicídio.
Podemos ainda, na difícil compreensão dos determinantes do suicídio,
observar que, segundo dados do IBGE, os homens, apesar de tentarem o sui­
cídio em menor escala, são os que mais concretizam o ato do suicídio. Mes­
mo nos quadros de tentativa de suicídio, são os homens que mais se utili­
zam de métodos considerados eficazes (arma branca, arma de fogo, quedas
de grandes alturas etc.).
Segundo estatísticas, temos a estimativa de que mais de mil pessoas ti­
ram a vida por dia em todo o mundo, e que mais de 10 mil tentam fazê-lo
- quase uma tentativa de suicídio por minuto. O pior nesse quadro alar­
mante é que as perspectivas são de que esses números aumentem ainda mais.
Existe um grande número de tentativas de suicídio que são escondidas ou
falseadas nos prontuários hospita�res, devido principalmente à omissão sp­
cial do suicídio. É praticamente impossível detectar o número exato de ten­
tativas de suicídio que ocorrem diariamente, seja em razão de o paciente for­
necer dados falsos de identificação, seja atribuindo. uma causalidade
acidental ao ato da tentativa de suicídio.
Muitos suicídios, ao se concretizar, tornam difícil sua real apuração.
Assim, por exemplo, um suicídio realizado por desastre automobilístico irá
para as estatísticas não como tentativa de suicídio, mas sim como evento li­
gado aos acidentes automobilísticos: falha mecânica, imperícia do motoris­
ta, excesso de velocidade etc.
17

Gráfko I
H ISTOGRAMA DA PORCENTAGEM (%) DE .CASOS EM JllJ NÇÃO DO TIPO Dli
AGENTE TÓXICO E FAIXA ETÁRIA (SCI - 1983) NO AT. HOSPITALAR

% DE CASOS

100
0 M - MEDICAMENTOS
• DS - DOMISSANITÁRIOS
24 DIID p - PESllCIDAS
!§ PQ - PRODUTOS QU[MICOS
·IIJ Pl - PLANTAS
20 § O - OUTROS
� D - DESCONHECIDO
18
• NF - NÃO FORNECIDOS
16
14
12
10
8

6
4
2
o

0-2 3-6 7-12


FAIXAS ETÁRIAS
CANOS>

V - ALGUNS CASOS CLÍNICOS

Relataremos alguns casos clínicos para que a problemática da tentativa de


suicídio na infância seja dimensionada em toda a sua amplitude. Esses ca­
sos pertencem aos prontuários do Centro de Psicoterapia Existencial.
58 I TENDêNCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

Gráfico 2
ATENDIMENTO HOSPITALAR DE JANEIRO A JUNH0/84
CIRCUNSTÂNCIA X SEXO X FAIXA ETÁRIA

N° DE PACIENTES

D 0-2 ANOS
130 GIJ 3-6 ANOS
IIDD 7-12 ANOS
120 [] MASCUU NO
1 10 0 FEMININO
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
.Q -'----"----'---'---_._-'--.L._-__.,UUU
AC CIRCUNST. AC TER OUTROS NÃO FORNEC
(76,06%) (6,95%) (1,55%) (6,95%) (8,49%)

CASO 1
Identificação
Nome: M. C. B.
Idade: 9 anos
Cor: branca
Sexo: feminino
Naturalidade: São Paulo
Tipo de tentativa: ingestão excessiva de comprimidos

Relato do Caso
M. C. B. disse que seus pais e irmãos trabalham fora. Por esse motivo é obri­
gada a ficar em casa cuidando do irmão mais novo e das atividades do lar. A
paciente relata que precisa tomar comprimidos diariamente para evitar des­
maios. Conta ainda que sua mãe a espanca diaria':Ilente sem o menor motivo.
.\'Hh lil/11 llf/14�11/o u ,,,.,.,,, ., lrHIIM/1:�. '�'' ''!''�'·'�'df lrmt•llrll�l' I 11

O pai quase sempre está embriagado t• nada htz para imped ir os t•s pnlKnmon•
tos. Tomou os comprimidos (os mesmos que tomava diariamentt·) após sot'rtr
uma violenta surra da mãe. M. C. B. conta que não quer continuar vivendo,
pois está cansada de "tanta surra" (sic). Diz ainda que gostaria de viver wmo
outras crianças, que "brincam e não precisam cuidar da casa". (si c).

Gráfico 3
CENTRO DE PSICOTERAPIA EXISTENCIAL
Dados relacionados a tentativas de suicídio nos anos de 1982, 1983 e 1984.

Sexo
1 982 % 1 983 % 1 984 %
nº de casos nº de casos nº de casos

homens 123 (20) 177 (22 ,04) 157 ( 1 8,40)


mulheres 492 (80) 626 (77 ,95) 696 (8 1 ,5 9)

TOTAL 615 (100) 803 ( 1 00) 853 ( 1 00)

Meios Utilizados
1 982 % 1 983 % 1 984 %
nº de casos nº de casos nº de casos

ingestão de comprimidos 485 (78,86) 618 (76,96) 684 (80,18)


ingestão de veneno 86 ( 1 3,98) 98 ( 1 2,20) 82 (9,61)
ingestão de água sanitária 14 (2,92) 19 (2,36) 23 (2,69)
ingestão de inseticida 12 ( 1 ,95) 17 (2 , 1 1 ) 14 ( 1 ,64)
ingestão de soda cáustica 9 ( 1 ,46) 17 (2,1 1 ) 18 (2, 1 1)
ingestão de comprimidos
com outras substâncias 3 (0,48) 15 ( 1 ,86) 12 ( 1 ,40)
ferimento no pulso 2 (0,32) 3 (0,37) 8 (0,93)
uso de arma branca 3 (0,48) 4 (0,49) 9 ( 1 ,05)
uso de arma de fogo (0, 1 6) 12 ( 1 ,49) 3 (0,3 5 )

TOTAL 615 ( 1 00) 803 ( 1 00) 853 ( 1 00)

Faixa Etária
1 982 % 1 983 % 1 983 %
nº de casos nº de casos na de casos

10 a 20 anos 287 (46,60) 361 (44,95) 387 (45,30)


21 a 3 0 anos 215 (34,95) 288 (35 ,86) 301 ( 3 5 ,28)
31 a 40 anos 67 ( 1 0,89) 103 ( 1 2,82) 109 ( 1 2 ,77)
4 1 a 5 0 anos 34 (5,52) 47 ( 5 ,85) 48 (5 ,62)
5 1 a 60 anos 8 ( 1 , 30) 3 (0, 3 5 )
6 1 a 70 anos 4 (0,65) 4 (0,49) 5 (0,58)

TOTAL 615 ( 1 00) 803 ( 1 00) 853 ( 1 00)


10 I TeND!NCIAS EM PSICOI.UOIA HOSPITALAR

0 MULHERES
850 11 HOMENS
800
750
-
700
650
600
550
500 r-

450
400
350
300
250
200
150
100
50
o I I
1982 I 1983 1984

CAS0 2
Identificação
Nome: R. S. L.
Idade: 1 O anos
Cor: branca
Sexo: masculino
Naturalidade: São Paulo
Tipo de tentativa: ingestão excessiva de comprimidos

Relato do caso
R. S. L. conta que tomou os comprimidos (analgésicos) para não ser surrado pe­
lo pai em virtude de reprovação escolar. Narra ainda que o pai é muito violen­
to e o espanca por razões insignificantes. Diante das ameaças do pai de que o
"mataria" (sic) se ele fosse reprovado na escola, preferiu tomar um dose exces­
siva de analgésicos a ter que enfrentar a ira do pai diante do fracasso escolar.
.,

CAS03

Identificação
Nome: V. S. B.
Idade: 11 anos
Cor: negra
Sexo: masculino
Naturalidade: São Paulo
Tipo de tentativa: ingestão excessiva de comprimidos

Relato do caso
V. S. B. conta que tentou se matar em razão de ter sido estuprado pelos co­
legas de rua. Não suportando a humilhação de que seria vítima diante dós
colegas, foi até uma farmácia próxima e comprou uma grande quantidade
de analgésicos, que ingeriu na porta da própria farmácia. V. S. B. diz que
não possui familiares e que sua casa é a rua. Conta ainda que foi socorrido
por um homem que passou pelo local e percebeu que ele não estava se sen­
tindo bem. Relata também que não quer mais viver, pois não suporta o ti­
po de vida que leva, permeada por inúmeras prisões e violência policial. O
estupro, segundo narra, foi o estopim que acabou com todas as esperanças
de uma vida diferente.

CAS04

Identificação
Nome: M. R. M.
Idade: 8 anos
Cor: branca
Sexo: feminino
Naturalidade: São Paulo
Tipo de tentativa: ingestão excessiva de comprimidos

Relato do caso
M. R. M. foi violentada pelo próprio pai, que inclusive a ameaçou de mor­
te caso contasse o ocorrido a alguém. M. R. M. diz que não quer mais con-
12 I TrNOtNCIAS !M PSICOLOGIA HOSPITALAR

t i n uar vivendo, tendo que se submeter aos desejos do pai. Conta que sua
m ãe é uma pessoa muito boa, mas que nada pode fazer com relação à vio­
lência do pai. Sente-se totalmente desamparada no mundo, não tendo a
quem recorrer diante de tanto sofrimento.

VI - CONSI DERAÇÕES COMPLEMENTARES

A temática do suicídio na infância exige dos profissionais da saúde uma re­


flexão sistematizada sobre as razões de uma violência que atinge um teor ex­
tremado de destrutividade. Muitas vezes, falamos e escrevemos sobre a
questão do suicídio, mas os casos que envolvem crianças buscando a morte
como alívio aos sofrimentos existenciais são por demais insólitos para que
se possa acreditar que sejam verdadeiros.

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. Suicídio. Fragmentos de Psicoterapia Existencial. São


Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.
------ . Crise, Trabalho e Saúde Mental no Brasil. São Paulo: Traço
Editora, 1 986.
CAMUS, A. Le Methe de Sisyphe. Paris: Ed. Gallimard, 1 9 5 2 .
LIPPI, ]. R . S. e t al. "Ameaça e Tentativa d e Suicídio na Infância". In: Fo­
lha Médica, setembro de 1 976, v. 7 3 , n2 3 .
LUCCI, M. L. R . S. e t al. "Tentativa de Suicídio na Infância". Trabalho apre­
sentado no I Congresso Brasileiro de Terapia Intensiva. São Paulo, novem­
bro de 1 984.
.,

NA TERRA COMO NO HOSPITAL*

VALDEMAR AUGUSTO ANGERAMI- CAMON

"Pai Nosso que estais nos céus... "


Nova crise no SUS.
Hospitais ameaçam paralisação geral.
Um raio de sol embala as manhãs alegres ...
Crise de fornecimento:
faltam desde remédios...
até bolsas de sangue.

"Santificado seja o vosso nome... "


Medicina é a arte de
manter acesa
a chama da vida.
Médicos reivindicam
melhores condições
de atendimento à população...
A saúde é um direito de todos.

"Venha a nós o vosso reino.. . "


Brasil entre os países
que apresentam os maiores
índices cte paralisia infantil.
Governo importa leite
com alto teor de radioatividade.
Agrava-se o problema da falta de remédios.
A saúde não pode ser um privilégios de poucos.

* NA: Esta poesia foi publicada anteriormente no livro A Psicologia no Hospital. São Paulo: Pio­
neira Thomson Learning, 2003.
14 I TeNDêNCIAS EM PSICOLOGIA HosPITALAII

"Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu . "


. .

Planejamento familiar,
a nova preocupação governamental.

E a saúde da população?
A crise hospitalar
é conseqüência de uma política governamental irresponsável.
Os fatos ocorrem,
são inalteráveis.

"O pão nosso de cada dia nos dai hoje . ". .

Inanição entre as principais "causae mortis"


nos casos de mortalidade infantil.
A eutanásia é discutida nos diversos segmentos da sociedade.
E o direito à vida?
Médicos ameaçam greve geral.
A SAÚDE É UM DIREITO DE TODOS.

"Perdoai as nossas· dívidas assim como perdoamos os nossos devedores. . . "


Os lucros hospitalares crescem. Crescem. Crescem . . .
na mesma proporção
que a miséria que se espraia no país.\.
SEGURO SAÚDE, a nova modalidade empresarial.
A falta de medicamentos provoca
as primeiras vítimas.
A greve no setor de saúde é parcial. . .

"Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal " . . .

A humanitação do hospital é um sonho.


Sonho, ilusão, digressão filosófica.
A verdade dos fatos: não existe saúde no Brasil. . .

"Vosso é o reino e poder e a glória para sempre. Amém. "


Amém. Amém. Amém.
A vida é um sonho.
O hospital, a realidade.
A miséria é um farrapo. Nada mais.
Amém.
• •� •
.
-.;,;
•• •, :. i

C A PI T U L O · s

Ü PSICÓlOGO
NO HOSPI TAL1

I NTRODUÇÃO

A intenção deste trabalho é levantar alguns pontos de reflexão so­


bre o significado da psicologia no hospital e a atuação do psicólo­
go nesse contexto. A evidência que me ocorre inicialmente é que,
apesar dos inúmeros trabalhos e artigos que hoje norteiam a práti­
ca do psicólogo no hospital, ainda assim é notório o fato de que ape­
nas tartamudeamos as primeiras palavras nesse contexto. A própria
dinâmica da existência parece encontrar no contexto hospitalar um

1. Este trabalho foi publicado anteriormente no livro Psicologia Hospitalar. Teoria e


Prática. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

65
18 I T!ND!NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

novo parâmetro dando-lhe uma dimensão na qual questões que envolvem


a doença, a morte e a própria perspectiva existencial apresentam um as­
pecto peculiar.
A psicologia, ao ser inserida no hospital, reviu seus próprios postula­
dos, adquirindo conceitos e questionamentos na busca da compreensão da
existência humana. Assim, por exemplo, não mais é possível pensar-se num
curso de graduação de psicologia no qual questões como morte, saúde pú­
bl-ica, hospitalização e outras temáticas, que a princípio eram pertinentes
apenas à psicologia hospitalar, não tenham prioridade, ou então não sejam
exigidas como necessárias para a formação do psicólogo. O atual quadro da
formação do psicólogo difere do que declaramos no Capítulo 1 , em texto
de 1 984. Praticamente prevendo uma mudança nesse quadro, o mesmo
texto coloca que apenas recentemente a prática institucional mereceu preo­
cupação dos responsáveis pelos programas acadêmicos em psicologia. É
dentro dessa nova perspectiva que se abre ao psicólogo no contexto hospi­
talar que iremos tecer nossas reflexões na busca qe um melhor dimensio­
namento dessa prática. Graças a sua fé inquebrantável, o psicólogo adquire
cada vez com mais nitidez um espaço no hospital a partir de sua compreen­
são da condição humana: Iremos caminhar por trilhas e caminhos que nos
conduzirão a novos horizontes profissionais.

A DESPERSONALIZAÇÃO DO PACIENTE

O paciente, ao ser hospitalizado, sofre um processo de total desp.ersonaliza­


ção. Deixa de ter seu próprio nome e passa a ser um número de leito, ou en­
tão alguém portador de uma determinada patologia. O estigma de doente
- paciente até mesmo no sentido de sua própria passividade frente aos no­
vos fatos e perspectivas existenciais - irá criar a necessidade premente de
uma total reformulação, até mesmo de seus valores e conceitos de homem,
mundo e relação interpessoal em suas formas conhecidas. Deixa de ter sig­
nificado próprio e passa a significar os diagnósticos realizados sobre sua pa­
tologia. Berscheid e Walster ( 1 973) afirmam que
() jl.l'in1/oj�o 1111 ho.rjlltrtl I 17

fundamentalmente, quando dizemos que sabemos qual a atitude de


uma pessoa, queremos dizer que temos alguns dados, a partir do com­
portamento passado da pessoa, que nos p_ermitem predizer seu compor­
tamento em determinadas situações .

Tal afirmação, utiliza�a para embasar muitos princípios teóricos em


psicologia, perde sua força e autenticidade ao ser confrontada com o com­
portamento de uma determinada pessoa numa situação de hospitalização.
Embora sem querer ' negar que seu passado irá influir não apenas em sua
conduta como até mesmo em sua recuperação física, ainda assim não erra­
mos ao afirmar que a situação de hospitalização será algo único enquanto
vivência, não havendo a possibilidade de 'previsão anterior à sua própria
oç:orrência. Goffman ( 1 97 8) declara que o estigma é um sinal, J.l..O:LSig no
utilizado pela _s_oóedade para discriminar os indivíduos portadores de de­
termi nadas características. E o simples fato de se tornar "hospitalizado" faz
com que a pessoa adquira os signos que irão enquadrá-lo numa nova carac­
terística existencial, e até mesmo seus vínculos interpessoais passarão a
existir a partir desse novo signo. Seu espaço vital não é mais algo que de­
pende de seu processo de escolha. Seus hábitos anteriores terão de se trans­
formar frente à realidade da hospitalização e da doença. Se essa doença for
algo que o envolva apenas temporariamente, haverá a possibilidade de uma
nova c_eestruturação existencial quando do restabelecimento orgânico; ao
contrário, as doenças crônicas implicam necessariamente uma total reestru­
turação vital. Sebastiani ( 1 984) diz que

a pessoa deixa de ser o José ou a Ana, e passa a ser o " 2 1 A" ou o "poli­
traumatizado do leito 4", ou ainda "a fratura de bacia do 6° andar" . E,
aprofundando ainda mais tais afirmações, diz que "essa característica,
que infelizmente notamos em grande parte das rotinas hospitalares, tem
contribuído muito para ausentar a pessoa de seu processo de tratamen­
to__e_xarcebando o papel de paciente".

A despersonalização do paciente deriva ainda da fragmentação ocorri­


da a_partir dos diagnósticos cada vez mais específicos que, além de abordar
a pessoa em sua amplitude existencial, fazem com que apenas um determi­
nado sintoma exista naquela vida, ainda que circunstancialmente assistamos
68 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

cada vez mais ao surgimento de novas especialidades que reduzem todo o


espaço vital de uma determinada pessoa a um mero determinismo das im­
plicações de certos diagnósticos, que trazem em seu bojo, além de signos,
estigmas e preconceitos, toda uma carga de abordagem e confrontos teóri­
co-práticos que fazem da pessoa portadora de determinadas patologias al­
guém que, além da própria patologia, irá necessitar de cuidados comple­
mentares para livrar-se de tais estigmas e signos. A especialização clínica,
na maioria das vezes, ao aprofundar e segmentar o diagnóstico, deixa de le­
var em conta até mesmo as implicações dessa patologia em outros órgãos e
membros desse doente, que, embora possam não apresentar sinais evidentes
de deterioração e comprometimento orgânico, estarão sujeitos a um sem­
número de alterações.
A hospitalização passa a ser determinante de muitas situações conside­
radas invasivas e abusivas na medida em que não se respeitam os limites e
imposições da pessoa hospitalizada. Embora esteja vivendo um processo de
despersonalização, ainda assim determinadas práticas são consideradas ain­
da mais agressivas pela maneira como são conduzidas dentro do âmbito hos­
pitalar. Assim, será visto como algo invasivo a enfermeira que acorda o pa­
ciente para aplicar injeção, ou a atendente que interrompe uma determinada
atividade para servir refeições. Tudo passa a ser invasivo. Tudo passa a ser
algo abusivo diante de sua necessidade de aceitação desse processo. Até mes­
mo a presença do psicólogo, se não seguir alguns cuidados e respeitar a pró­
pria deliberação do doente, será mais um dos estímulos aversivós e invasi­
vos existentes no contexto hospitalar. E , em vez de propiciar alívio no
momento da hospitalização, estará contribuindo também para o aumento
de vetores que tornam o processo de hospitalização algo extremamente pe­
noso e difícil de ser vivido. O hospital, o processo de hospitalização e o tra­
tamento que visa o restabelecimento, salvo os casos de doenças crônicas e
degenerativas, não fazem parte dos projetos existenciais da maioria das pes­
soas. Nesse sentido, toda e qualquer invasão no espaço vital é algo aversivo
que, além do caráter abusivo, apresenta ainda componentes de dor e desa­
lento. E até mesmo evidencia que muitas hospitalizações prejudicam o ree­
quilíbrio orgânico devido ao processo de despersonalização do doente, que,
ao sentir sua desqualificação existencial, pode concomitamente abandonar
seu processo interior de cura orgânica e até mesmo emocional. Ao trabalhar
..

no sentido de estancar os processos de despersonalização no âmbito hospi­


talar, o psicólogo estará ajudando na humanização do hospital, pois segura­
mente esse processo é um dos maiores aniquiladores da dignidade ex.isten­
cial da pessoa hospitalizada. Um trabalho de reflexão que envolva toda a
equipe de saúde é uma das necessidades mais prementes para fazer com que
o hospital perca seu caráter meramente curativo para transformar-se numa
instituição que trabalhe, além da reabilitação orgânica, o restabelecimento
da dignidade humana.

PSICOTERAPIA E PSICOLOGIA HOSPITALAR

A psicologia hospitalar, assim como a psicoterapia, tem seu instrumental


teórico de atuação calcado na área clínica2• Apesar dessa convergência, há
pontos de divergência que mostram os limites de atuação do psicólogo no
contexto hospitalar, bem como questões que tornam totalmente inadequa­
da a intenção de muitos profissionais da área de tentar definir a atuação no
contexto hospitalar como sendo prática psicoterápica, ainda que realizada
no contexto institucional. Em seguida, descrevemos alguns desses pontos.

Objetivos da psicoterapia

A psicoterapia, independentemente de sua orientação teórica, tem como


principais objetivos levar o paciente ao autoconhecimento, ao autocrescimento e
à cura de determinados sintomas. O enfeixamento desses objetivos, ou de al­
guns deles isoladamente, .desde que leve esse paciente a um processo pleno
de hbettação existencial, é, por assim dizer, o ideal que norteia o processo
psicoterápico. A psicoterapia tem como característica principal o faro de ser
um processo no qual a procura e a determinação de seu início se dá por meio
de uma mobilização do paciente. Assim, um paciente, ao ser encaminhado

2. Existem muitos profissionais da área que defendem que a psicologia hospitalar, mesmo tendo

como referencial os princípios da área clínica, seja considerada uma nova ramificação da psicolo­
gia. Assim, além da clássica divisão em Clínica, Educacional e Organizacional, haveria uma quar­
ta ramificação: a psicologia hospitalar. Embora essa seja uma questão que envolve bastante celeu­
ma quando de seu aprofundamento, evidencia-se também a necessidade de uma nova ótica sobre
a psicologia hospitalar, seja pelo seu crescimento, seja ainda pela sua diversidade teórica.
70 I TINDANCIAS IM PSICOLOGIA HoSPITALAR

a u m processo psicoterápico, muitas vezes leva um período de tempo bas­


tante longo para ir da fase de encaminhamento à procura propriamente di­
ta desse processo. Chessick ( 1 97 1 ) afirma que a psicoterapia falha quando
não existe uma afinidade precisa entre aquilo que busca o paciente em sua
psicoterapia e aquilo que o psicoterapeuta tem condições de oferecer-lhe. A
falta de definições precisas dos objetivos do processo também poderá deter­
minar implicações que seguramente irão emperrá-lo, além de arrastá-lo ao
longo do tempo de maneira indevida.
Ao decidir pela psicoterapia, o paciente já realizou um processo inicial
e introspectivo para reconhecer a necessidade desse tratamento e suas impli­

cações em sua vida. Isso tudo, evidentemente, além da inserção de suas ne­
cessidades nos objetivos da psicoterapia.

O SETTING TERAPÊUTICO

Ao procurar pela psicoterapia, o paciente será então enquadrado dentro do


chamado setting terapêutico. Assim, as n<;>rmas e diretrizes do processo se­
rão colocadas de maneira bastante claras e precisas pelo psicoterapeuta, for­
malizando-se as nuanças sobre as quais se norteará esse processo. Detalhes
como horário de duração de cada sessão, reposições de sessões, prazo de avi­
so para faltas etc. são esboçados e o processo se desenvolve então em perfei­
ta consonância com esses preceitos. Até mesmo alguma eventual resis­
tência inicial do paciente em procurar a psicoterapia, bem com outras
implicações, será resolvida num processo cujo cohtratd é estabelecido em
acordo com as duas partes envolvidas. Embora seja notório o número de ca­
sos encaminhados à psicoterapia que por alguma forma de resistência de­
moraram muito para buscar tal processo, ainda assim é conveniente
estabelecer que, pelo fato de o paciente estar totalmente fragilizado e ne­
cessitando desse tipo de tratamento, essa busca se dará única e tão-somen­
te quando esse paciente romper suas amarras emocionais. E ainda que sur­
jam outras dificuldades e resistências ao longo do processo, a resistência
inicial ao tratamento é transposta pelo simples fato de o paciente procurar
a psicoterapia.
A psicoterapia tem ainda uma outra característica bastante peculiar: a
de ser um processo no qual o psicoterapeuta tem no paciente alguém que
O jl.rkdlol/,rl Htl l�t"f'it.tl I 71

caminha sob sua responsabilidade, mas que de uma forma simples tem nes­
se vínculo seu objetivo em si. Assim, uJRpsicoterapeuta não precisará pres­
tar conta de seu paciente a nenhuma entidade, salvo naturalmente os casos
nos s;j!lais o atendimento é vinculado a algum processo de supervisão. O pro­
cesso em si é conduzido pelo psicoterapeuta com anuência do paciente, e,
no caso de algum impedimento, a relação se resolve apenas e tão-somente
pelas partes envolvidas nesse processo. O setting terapêutico impõe ainda
uma privacidade ao relacionamento que torna toda e qualquer interferência
externa ao processo plausível de ser analisada e enquadrada nos parâmetros
desse relacionamento.
Chessick (ibidem) afirma que o psicoterapeuta descende diretamente
do cof1fessor religioso ou do médico de família, profissionais que, além de
cuidar dos males do organismo, escutavam as angústias e dificuldades do
paciente. O psicoterapeuta também apresenta em sua linhagem resquícios
do curandeiro das antigas formações tribais, encarregados de trazer bem-es­
tar e alívio aos membros de sua comunidade. A proteção sentida pelo pa­
ciente nos limites do setting terapêutico mostra ainda que essa origem não é
apenas perpetuada, como também apresenta requintes de evolução quanto
aos aspectos envolvidos nesse processo. Há mesmo um quê de samaritanis­
mo presente no processo psicoterápico, resíduo dessas marcas que o psico­
terapeuta traz de sua origem e desenvolvimento. A emoção presente na ati­
vidade psicoterápica é outro fator que faz com que nenhuma outra forma de
relacionamento possa ser comparada com sua performance. Nesse sentido,
temos também a declaração de muitos especialistas de que a psicoterapia é
o su_stentáculo do homem contemporâneo em meio a tantas formas de bus­
ca de alívio e crescimento emocional.
Ainda no chamado setting terapêutico, vamos encontrar a peculiarida­
de de que a maioria dos processos jamais tem suas sessões interrompidas,
seja por solicitações externas, seja ainda por outras variáveis decorrentes,
muitas vezes, do próprio processo em si. Assim, é praticamente impossí­
vel , por exemplo, que um psicoterapeuta interrompa uma sessão estancan­
do o choro de angústia do paciente para simplesmente atender uma liga­
ção telefônica. Ou ainda que uma sessão seja igualmente interrompida para
que o psicoterapeuta possa recepcionar algum amigo que eventualmente vá
visitá-lo. O setting terapêutico, dessa forma, resguarda a sessão para que to-
72 I T!NOINCIAS !M PSICOLOGIA H oSPITALAR

Jo o material catalisado naqueles momentos seja apreendido e elaborado


de maneira plena e absoluta. Tais características fazem, inclusive, com que
seja muito difícil avaliar um processo psicoterápico que não seja fundamen­
tado nesses moldes.

A REALIDADE INSTITUCIONAL

Uma das primeiras dificuldades surgidas quando se pensa na atividade do


psicólogo na realidade hospitalar é sua inserção na realidade institucional.
Ainda que hoje em dia seja notório o número de cursos de graduação em psi­
cologia que têm dedicado grande espaço para o contexto institucional em seus
programas de formação, estamos distantes daquilo que seria o ideal em termos
de sedimentação teórico-prática. Na medida que o hospital surge como uma
realidade institucional com características bastante peculiares, embora re­
produzindo as condições de outras realidades institucionais, tem uma am­
plitude sequer imaginável numa análise que não tenha um real comprome­
timento com sua verdadeira dimensão.3 Também é inegável que, a partir das
reflexões realizadas principalmente pelos profissionais da Argentina sobre a
realidade institucional, esse aspecto ganhou uma corporeidade bastante pre­
cisa e importante na esfera contemporânea da psicologia. Assim, o termo
"análise institucional" deixou de ser uma mera citação abstrata de alguns
textos para tornar-se realidade, ao menos de discussão teórica, para um sem­
número de acadêmicos que passa�am a interessar-se pela temática. É fato
que a realidade hospitalar apresenta condições que irão exigir do psicólogo
algo além da discussão meramente teórico-acadêmica. Valores éticos e ideo­
lógicos surgirão ao longo do caminho. Para ilustrar essa afirmação, cito o
grande número de crianças que padecem nos hospitais de São Paulo de in­
suficiência hepática causada por inanição. Deparar com crianças vitimadas
pela fome em plena cidade de São Paulo é algo que nenhum acadêmico ima-

3. Escrevemos um trabalho intitulado "Elementos Institucionais Básicos para a Implantação do


Serviço de Psicologia no Hospital" (In: A Psicologia no Hospital. São Paulo: Pioneira Thomson
Learning, 2003). E surpreendentemente percebermos, a partir de sua adoção em vários cursos e
seminários realizados sobre realidade institucional, não apenas a precariedade de publicações a res­
peito, mas principalmente a maneira como esse trabalho passou a ser como um verdadeiro para­
digma a tantos que procuravam pela implantação de um serviço de psícologia no hospital geral.
() p.rlrdi,_H Hfl '""'"'''' I 71

gina quando idealiza efetivamente uma atividade no hospital. E que dizer


dos casos de crianças atacadas por ratazanas enquanto dormem, numa evi­
dência da precariedade e da falta de condições mínimas de dignidade exis­
tencial e habitacional vividas por essa população, para a qual a falta de sa­
neamento básico é tão abismal que conceituá-lo de absurdo nada mais é do
que se aproximar da verdadeira realidade. Sendo assim, o contexto hospita­
lar dista de forma significativa da idealização feita nas lides acadêmicas. As­
siste-se, nesse contexto, à condição desumana a que a população, já bastan­
te cansada de sofrer todas as formas possíveis de injustiças sociais, tem de se
submeter em busca de um tratamento adequado. Os doentes são obrigados
a aceitar como normais todas as formas de agressão com as quais deparam
em busca de saúde. E os profissionais que atuam na área de saúde assistem
desolados e conformados a esse estado de coisas. Tornam-se praticamente
utópicas outras formas de atendimento que não essas que impiedosamente
são impostas à população.
O psicólogo está inserido nesse contexto de forma tão emaranhada
quanto outros profissionais atuantes na área da saúde, e, muitas vezes, sem
uma real consciência dessa realidade.

A PSICOLOGIA HOSPITALAR - OBJETIVOS E PARÂMETROS

A psicologia hospitalar tem como objetivo principal a minimização do sofrimen­


to provocado pela hospitalização. Se outros objetivos forem alcançados a partir da:
atuação do psicólogo junto ao paciente hospitalizado - inerentes aos objeti­
vos da própria psicoterapia acima citados -, trata-se de simples acréscimo ao
processo em si. O psicólogo precisa ter muito claro que sua atuação no con­
texto hospitalar não é psicoterápica dentro dos moldes do chamado setting te-
�- .
rapêutico. Para minimizar o sofrimento provocado pela hospitalização, é ne-
cessário abranger não apenas a hospitalização em si - em termos específicos
da patologia que eventualmente tenhà originado a hospitalização -, mas
principalmente as seqüelas emocionais dessa hospitalização. Tomemos como
exemplo, arbitrariamente, uma criança Cle três anos de idade que nunca tenha
vivido longe do seio familiar. Num dado momento, simplesmente a coloca.­
mos em uma escola maternal durante apenas um período do dia. Essa crian­
ça, ainda que a escola seja um ambiente em princípio agradável e repleto de
74 I T!NOêNCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

outras crianças, entrará em um processo de pânico e desestruturação emocio­


nal ao se perceber longe da proteção familiar. E são tantos os casos desse tipo
que a maioria das escolas possui o chamado período de adaptação, no qual um
dos representantes do núcleo familiar se faz presente na escola para acudir a
criança nos momentos agudos de dificuldade. Isso tudo num ambiente agra­
dável, no qual muitas vezes a criança irá deparar com estimulações e recrea­
ções sequer imagináveis em seu universo simbólico. O que dizer então de uma
criança que num determinado momento se vê hospitalizada4 sem a presença
dos familiares em um ambiente na maioria das vezes hostil? Certamente essa
criança entrará em um nível de sofrimento emocional e muitas vezes físico em
decorrência dessa hospitalização. Sofrimento físico que transcende até mesmo
a patologia inicial, e que se origina no processo de hospitalização.
A minimização do sofrimento provocado pela hospitalização implica­
rá um leque bastante amplo de opções de atuação no qual todas as variáveis
deverão ser consideradas para que o atendimento seja coroado de êxito) Uma
mulher mastectomizada, um outro exemplo, enfrentará no processo de ex­
tirpação do tumor, na maioria das vezes, a extração dos seios, com todas as
implicações de tal ato. O processo de hospitalização deve ser entendido não
apenas como um mero processo de institucionalização hospitalar, mas, prin­
cipalmente, como um conjunto de fatos que decorrem desse processo e suas
implicações na vida do paciente. Não podemos assim, num simples deter­
minismo, aceitar que o problema da mulher mastectomizada se inicia e se
encerra com a hospitalização. Evidentemente, muitos casos abordados pelo
psicólogo no hospital irão exigir, após o processo de hospitalização, encami­
nhamentos específicos para processos de psicoterapia, tal a complexidade, o
emaranhado de seqüelas e o comprometimento emocional. Embora muitas
vezes seja bastante tênue a separação que delimita tais aspectos, ainda assim
é muito importante o clareamento desse posicionamento para que o proces­
so em si não se perca em mera e vã digressão teórica.
A psicologia hospitalar, por outro lado, contrariamente ao processo psi­
coterápico, não possui setting terapêutico tão definido e preciso. Nos aten-

4. Embora seja alentador o fato de que hoje muiros hospitais pediátricos adotam a presença da
mãe ou de algum outro familiar durante o processo de hospitalização da criança, ainda assim a
maioria dos hospitais não apresenta sequer uma maior flexibilização até mesmo quanto ao horá­
rio de visitas.
() pskdlr1�11 1111 lm,tfiiJ,i/ I 75

dimentos realizados em enfermarias, o psicólogo, muitas vezes, é interrom­


pido pelo pessoal de base do hospital, seja para aplicação de injeções ou pres­
crição medicamentosa numa determinada faixa horária, seja para limpeza e
assepsia hospitalar. O atendimento, dessa forma, terá que ser efetuado le­
vando-se em conta todas essas variáveis, além de aspectos mais delicados,
que discutiremos a seguir.
Descrevemos, no trecho inerente ao setting terapêutico, a mobilização
do paciente rumo ao processo psicoterápico: a necessidade de uma reflexão
e de. uma posterior constatação da necessidade de se submeter a esse proces­
so. No hospital, ao contrário do paciente que procura pela psicoterapia após
romper eventuais barreiras emocionais, a pessoa hospitalizada será aborda­
da pelo psicólogo em seu próprio leito. Em muitos casos, esse paciente se­
quer tem claro qual o papel do psicólogo naquele momento de sua hospita-
lização e até mesmo de vida5• ,
Dessa forma, é muito importante que o psicólogo tenha bem claros os
limites de sua atuação, para não se tornar ele também mais um dos elemen­
tos abusivamente invasivos que agridem o processo de hospitalização e que
permeiam largamente a instituição hospitalar. Ainda que o paciente em seu
processo de hospitalização esteja muito necessitado da intervenção - e se­
guramente muitos dos pacientes encaminhados ao processo de psicoterapia
também necessitam de tratamento, mas preservam o direito de rejeitar tal
encaminhamento -, sua opção de receber ou não esse tipo de intervenção
deve ser soberana e deve deliberar a prática do psicólogo. Balizar sua neces­
sidade de intervir em determinado paciente e a própria necessidade desse
paciente de receber tal intervenção é delimitação imprescindível para que
sua atuação caminhe dentro dos princípios que incidem no real respeito à
condição humana.

5. Nesse sentido, é muito importante que o psicólogo seja inserido na equipe de profissionais de
saúde que atuam num determinado contexto hospitalar. Tal i nserção determinará que sua abor­
dagem seja fruto de encaminhamento realizado por outros profissionais junco a esse paciente, com
sua anuência, para que, acima de qualquer outro preceitO, seu arbítrio de querer ou não essa abor­
dagem seja respeitado. Esse é um aspecto importante a ser observado, pois determina muitas ve­
zes até mesmo o �xito da abordagem do psicólogo. Ainda que o paciente necessite de maneira
premente da intervenção psicológica, seu arbítrio deve ser considerado, para que a condição hu­
mana seja respeitada em um de seus preceitOs fundamentais.
76 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

De outra parte, é também muito importante observar-se o fato de que,


ao atuar numa instituição, o psicólogo, ao contrário da prática isolada de
consultório, tem que ter bastante claros os limites institucionais de sua atua­
ção. Na instituição, o atendimento deverá ser norteado a partir dos princí­
pios institucionais.6 Esse aspecto é por assim dizer um dos determinantes
que mais contribuem para que muitos trabalhos não sejam coroados de êxi­
to na instituição hospitalar. Ribeiro ( 1 983) diz que o doente internado é,
em síntese, o doente sobre o qual a ciência médica exacerba seu positivismo
e pode afirmar a transposição da linha demarcatória da normalidade. Sua pa­
tologia reconhecida e classificada precisa ser tratada. Ao contrário do pacien­
te do consultório, que mantém seu direito de opção em aceitar ou não o tra­
tamento e em desobedecer a prescrição, o doente acamado perde tudo. Sua
vontade é aplacada; seus desejos coibidos; sua intimidade, invadida; seu tra­
balho, proscrito; seu mundo de relações, rompido. Ele deixa de ser sujeito.
É apenas um objeto da prática médico-hospitalar; é suspensa sua individua­
lidade, e transformado em mais um caso a ser contabilizado (ibidem).
Esse aspecto inerente à institucionalização do paciente enfeixa um di­
mensionamento de abrangência de intervenção do psicólogo rump à huma­
nização do hospital em seus aspectos mais profundos e verdadeiros. A psi­
cologia hospitalar não pode igualmente perder o parâmetro do significado
de adoecer em nossa sociedade, eminentemente marcado pelo aspecto prag­
mático de produção mercantilista. Nas palavras de Pitta ( 1990),

o adoecer nesta sociedade é, conseqüentemente, deixar de produzir e, por­


tanto, de ser; é vergonhoso, logo, deve ser ocultado e excluído, até porque
dificulta que outros, familiares e amigos, também produzam. O hospital
perfaz esse papel, recuperando quando possível e devolvendo sempre, com
ou sem culpa, o doente à sua situação anterior. Se um acidente de percur­
so acontece, administra o evento desmoralizador, deixando que o mito da
continuidade da produção transcorra silenciosa e discretamente.

6. No caso de divergência dos princípios e preceitos da instituição na qual o psicólogo desenvol­


ve sua atuação, poderá haver um trabalho de direcionamento de transformação desses princípios.
A transformação da realidade institucional, muitas vezes, pode ser determinante de uma refor­
mulação rumo à própria humanização da instituição. O que não pode ocorrer é, diante da discor­
dância, negar os princípios institucionais e tenrar a efetivação de um trabalho sem se levar em
conra tais especificidades.
O Jlllrfii�M'' "" lw.lfJJ/,,1 I 77

A intervenção do psicólogo nesse sentido não pode prescindir de tais


questionamentos, com o risco de tornar-se algo desprovido da profundida­
de necessária para abraçar a verdadeira essência do sofrimento do paciente
hospitalizado. E a própria direção contemporânea de desospitalização do pa­
ciente tem no psicólogo um de seus grandes aliados na medida em que po­
derá depender desse profissional uma avaliação mais precisa sobre as condi­
ções emocionais desse paciente. Não se pode, no entanto, perder o parâmetro
de que a psicologia deve se aliar a outras forças transformadoras para não se
incorrer em atuações meramente ilusionistas.
Nas palavras de Ribeiro ( 1 983),

( ... ) há, no entanto, vários fatores que favorecem a desospitalização, além


daqueles apontados séculos atrás. O intervencionismo e a onipotência
da medicina são olhados com maiores reservas. Cada vez mais é contes­
tada, por doentes, familiares, instituições seguradoras e pelo Estado, a
abusiva utilização dos recursos tecnológicos hospitalares. Novos conhe­
cimentos nas áreas da fisioterapia, da propedêutica e da terapêutica vêm
permitindo diagnósticos e tratamentos que tornam prescindível a inter­
venção ou a encurtam.

A .psicologia hospitalar não pode se colocar dentro do hospital como


força isolada, solitária, sem contar com outros determinantes para atingir
s.e_u preceitos básicos. A humanização do hospital necessariamente passa por
transformações da instituição hospitalar como um todo, e evidentemente
pela própria transformação social. O psicólogo não pode ser um profissional
que despreze tais variáveis, com o risco de tornar-se alijado do processo de
transformação social.
Ou ainda, o que é pior, ficar restrito a teorizações que atomizam e iso­
lam o paciente de conceituações e conflitos sociais mais amplos. O hospital,
assim como outras instituições, reproduz as contradições sociais, e toda e
qualquer intervenção institucional não pode prescindir de tais princípios.
O psicólogo se reveste de um instrumental muito poderoso no proces­
so de humanização do hospital na medida em que faz análise das relações in­
terpessoais. A própria contribuição da psicologia para clarear determinadas
manifestações de somatização é, igualmente, decisiva para fazer com que seu
lugar na equipe de saúde da instituição hospitalar esteja assegurado. As so-
78 I T!NOêNCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

matiza�·ões cada vez mais são aceitas no bojo das intervenções médicas, e a
i ntervenção do psicólogo nesse sentido é determinante de uma nova perfor­
mance na própria relação médico-paciente. É notória também a evidência
mda vez maior de que muitas patologias têm seu quadro clínico agravado a
parti r de complicações emocionais do paciente. Intervir nisso é outra carac­
terística que faz da psicologia uma força motriz até mesmo no diagnóstico
e compreensão de patologias para as quais a própria medicina não tem uma
explicação absoluta. Assim, não se pode negar, por exemplo, a importância
das variáveis emocionais num quadro diagnosticado de câncer ou de algu­
ma cardiopatia. Como também é inegável a presença de determinantes emo­
cionais quando abordadas patologias não diagnosticadas com precisão, até
mesmo pela falta de sintomas específicos e variados. Podemos incluir nesse
rol os casos nos quais o paciente se queixa ora de cefaléia, ora de náuseas, ora
de comiseração estomacal etc. Ou ainda os casos em que o paciente apresen­
ta diversos sintomas concomitantes a diversas patologias, sem no entanto
apresentar tais patologias. Os exames clínicos nesses casos não conseguem
fazer um diagnóstico preciso e absoluto, pois a própria alternância de sinto­
mas do paciente é algo apenas diagnosticado quando se tenta compreender,
além dos sintomas, a dor d'alma que acomete tais pacientes.
Nesse sentido, é interessante o�servar que o avanço da medicina, com
todo o seu aparato tecnológico, não consegue prescindir do psicólogo pela
sua condição de escuta das manifestações d'alma humana, manifestações es­
sas imperceptíveis à própria tecnologia moderna.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Se é verdade que o psicólogO conseguiu alçar vôo rumo a um projeto dig­


nificante de psicologia hospitalar, é igualmente real que um longo cami­
nho ainda resta a ser trilhado. E trilhá-lo irá exigir do psicólogo uma per­
formance cada vez mais ampla no sentido de abarcar as necessidades da
hospitalização e dos profissionais igualmente envolvidos nas entranhas
hospitalares. A psicologia hospitalar é uma realidade que, embora ainda
necessite de burilamento, aperfeiçoamento e muitas buscas, será, certa­
mente, a mais rica das variantes da psicologia. Será, ainda, a mais criativa
das manifestações clínicas dentro não só da realidade hospitalar como tam-
I) {llial/o�-:o 1111 hmpil.d I 78

bém das l i des acadêmicas que, ao assumirem-na, assumirão igualmente um


compromisso com o futuro de toda uma geração de profissionais. Psicolo­
gia hospitalar, um sonho tornado realidade a partir da necessidade de hu­
manização do hospital.

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. Psicologia Hospitalar. A Atuação do Psicólogo no Con­


texto Hospitalar. São Paulo: Traço Editora, 1 984.
BERSCHEID, E. e WALSTER, E . H. Atração lnterpessoal. São Paulo: Blu­
cher, 1 97 3 .

CHESSICK, D . R . Why Psychotherapists Fail. Nova York: Science House,


1 97 1 .
GOFFMAN, E . Estigma. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1 978.
PITTA, A . Hospital, Dor e Morte como Ofício. São Paulo: Hucitec, 1 990.
RIBEIRO, H . P. O Hospital: História e Crise. São Paulo: Cortez, 1 98 3 .
SEBASTIANI, W. R . Atendimento Psicológico e Ortopedia. I n : ANGE­
RAMI, V. A. (org.) Psicologia Hospitalar. A Atuação do Psicólogo no Con­
texto Hospitalar. São Paulo: Traço Editora, 1 984.
p ACIENTES TERMINAIS:
UM BREVE ESBOÇ01

I NTRODUÇÃO

Este trabalho foi publicado em meu primeiro livro (Angerami,


1 984a). A medida que aquele livro esgotou e carecia de atuali­
zação, curvei-me à insistência de muitos colegas, que reiteradas
vezes pediram por uma nova edição desse capítulo em publicação
específica de psicologia hospitalar. E assim, depois de recusar no­
vas publicações em diversas revistas e anais especializados, ei-lo
reescrito e mantido em sua estrutura básica, fator imprescindível

1. Este trabalho foi publicado anteriormente no livro Psicologia Hospitalar. Teoria e Prá­
tica. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

81
12 I nNiltNUM �M P\IWI ( llliA Hn'II'I IAI-M

para q u e a essência não fósse alterada, isso sempre: sr� u udo 11 c'1t Íl'a d<:sscs
coll'gas.
Este trabalho é apenas uma tentativa de relato sobre uma problemáti­
ca específica, o paciente terminal, o definhamento corpóreo e suas implica­
ções. Não houve a intenção de criticar os postulados existentes, nem tam­
pouco compará-los, assumi-los ou refutá-los; houve simplesmente uma
tentativa de questionar a problemática do definhamento corpóreo.
Assim, tentou-se a elaboração de um trabalho no qual as principais
proposições e celeumas existentes no seio das discussões teóricas sobre a pro­
blemática do paciente terminal foram arroladas. Resta ainda, por outro la­
do, a certeza de que muitos dados poderiam ser aprofundados e explorados.
Igualmente, outros foram omitidos por não terem sido considerados impor­
tantes ou até mesmo necessários para a elaboração deste trabalho.
Seguramente, muito resta a ser dito e explorado, mas o importante é o
questionamento e o despertar da consciência sobre coisas mitificadas, prin­
cipalmente pela omissão social e até mesmo acadêmica. É fato, porém, que
a partir do trabalho de colegas que se dedicam intermitentemente ao estu-

do da temática da morte2, esse quadro está em pleno processo de alteração,
havendo cada vez mais lugar para uma compreensão mais humana e digna
das questões que envolvem a morte.

A PROBLEMÁTICA SOCIAL DO PACIENTE TERMINAL3

A) A SociEDADE E o PACIENTE TERMINAL

Ao nos debruçar sobre a temática dos aspectos terapêuticos inerentes ao pa­


ciente terminal, deparamos inicialmente com as implicações existentes na
sociedade, bem como no contexto institucional hospitalar, que incidem so-

2. Nesse sentido, gostaria de registrar o trabalho pioneiro das colegas Regina D'Aquino e Wilma
C. Torres, e mais recentemente de Maria Julia Kovacs e Marisa Decat de Moura. E em que pese o
fato de que ao citá-las cometo enorme inj ustiça com outros tantos profissionais que igualmente
trabalham nessa mesma direção, o determinismo, o arrojo e o pioneirismo dessas profissionais fi­
xaram a temática da morte presente de maneira indissolúvel nas lides acadêmicas e hospitalares.
3. Em nosso trabalho, estamos fazendo referência ao paciente terminal portador de doença dege­
nerativa.
,.,, ,,,�, ,,,.111 /lltlh: Hlll lll'fll'fl ,. ,,, ,. I ••

bre ele. 'lbi'I'CS ( 1 983) afirma que a morte é, no século XX, o sujeito ausen­
te do discurso. Entretanto, nos últimos 50 anos, o silêncio começa a ser re­
movido das ciências humanas. Historiadores, antropólogos, biólogos, filó­
sofos, psicólogos, psiquiatras e psicanalistas iniciam com audácia uma luta
contra a morte interdita, denunciando as causas que levaram à negação da
morte e redescobrindo a importância do tema.
Numa sociedade em que a pessoa é espoliada e explorada mercantil­
roem�, a perda da capacidade produtiva fará com que o "desamparo social"
seja sentido com mais intensidade. A falta de perspectiva existencial é o pri­
meiro indício de desespero diante de situações nas quais a perda da capaci­
dade funcional torn��se eminente. O total abandono a que se encontram
entregues os inválidos de maneira geral leva o paciente terminal a desespe­
rar-se perante realidade que se lhe apresenta.
O quadro degenerativo faz de seu portador alguém socialmente alija­
do da competição aviltante existente em nosso meio social, alguém que irá
merecer sentimentos de complacência.
Dessa maneira, encontraremos pacientes portadores de doenças dege­
nerativas que, mesmo não se encontrando no aspecto terminal de suas vidas,
nem apresentando sinais visíveis de definhamento corpóreo ou de compro­
metimento em seu pragmatismo, não conseguem voltar às atividades ante­
riores ao surgimento da doença. O próprio hospital é conivente com essa dis­
criminação. Ribeiro ( 1 993) diz que o hospital acaba sendo uma oficina, e o
médico, seu principal mecânico. Cumpre a ele fazer com que a máquina ho­
mem retorne o mais depressa possível à circulação como mercadoria ambu­
lante. Interessa consertá-la, mas interessa menos evitar que se quebre. Ela
tem que ter, como qualquer máquina, um tempo útil, durante o qual pro­
duza mais e melhor; todavia, há outros homens-máquina sendo produzidos
e que precisam ser consumidos, e é bom, por isso, que ela se vá assim aos
poucos (ibidem).
A presença da doença degenerativa faz com que o paciente seja discri­
minado e até mesmo rejeitado nas situações mais diversas, que podem va-­
riar de situações familiares a situações nas quais se exercem atividades pro­
dutivas. O paciente portador de doença degenerativa, além da debilidade
orgânica inerente à própria doença, carrega o fardo de ser alguém "desacre­
ditado" socialmente, seja em termos de capacidade produtiva, seja em ter-
14 I TtiNUINCIAS �M PSICOLOGIA HOSPITALAR

mos da mitificação de que se reveste a problemática da doença. E a institui­


�i1o hospitalar surge no bojo das contradições sociais que exigem produção
mmo sinônimo do próprio restabelecimento orgânico. Saúde-produção é
u m binômio indivisível que insere o doente numa condição de significação

npc:nas e tão-somente a partir de sua condição produtiva. Ou ainda, nas pa­


lavras de Ribeiro ( 1 993):

O hospital, seja público ou privado, representa a emergência de interes­


ses submersos da produção industrial em saúde. O que aparece, todavia,
é o seu resultado mais brilhante e socialmente aceito - o cuidado com
o enfermo. Sem embargo, é bom que a recuperação aconteça, mas é me­
lancólico saber que outros tanto adoecidos dos mesmos males e de ou­
tros socialmente provocados e evitáveis, ocuparão os mesmos leitos, re­
petindo o suplício de Tântalo que acaba sendo a função do hospital.

Numa sociedade que escraviza o homem_ valorizando os meios de pro­


dução em detrimento da dignidade humana, a saúde passa a ser algo valo­
rizado apenas quando está em risco a capacidade funcional do indivíd11o. O
indivíduo, como ser biológico, é também um ser social, vivendo essa inte­
ração de maneira total e, conseqüentemente, sofrendo em níveis orgânicos
todas as contradições da problemática social, da qual faz parte inerente e in­
d issoluvelmente.
Ademais, existe toda uma tendênCia social de negação da morte como
fenômeno. Essa negação de forma constrita cerceia toda e qualquer tentati­
va de compreensão das implicações da morte no cotidiano das pessoas. Tor­
res ( 1 983) afirma que o moribundo só tem o status que lhe é conferido pelo
universo hospitalar, isto é, um status negativo, o de um homem que, por não
poder voltar à normalidade funcional, encontra-se à espera. O moribundo é
algo que incomoda. Uma vez que a própria morte é oculta, mascarada, esva­
ziada, e que sobre ela se fixa o conjunto de valores negativos da sociedade, a
agonia não pode ter status autônomo. Não pode ser valorizada. É preciso que
ela desapareça na patologia, submersa, perdida, irreconhecível (ibidem).
Também é no paciente terminal que toda a sorte de preconceitos, in­
dependentemente da patologia que possa acometê-lo, encontra-se enfeixa­
Ja e direcionada para atitudes que propulsionam muito mais a dor do tra-
85

tamento �m si para aspectos pertinentes a tais preconceitos. Assim, um pa­


ciente, ao ser rotulado como aidético, por exemplo, trará sobre si, além de
todo o sofrimento de sua debilidade orgânica, uma série de acusações sobre
a maneira distorcida que a sociedade concebe sua patologia. O mesmo ocor­
rerá com o paciente portador de câncer, ou ainda de qualquer outra doença
degenerativa. O preconceito faz com que toda e qualquer patologia assQÓa­
da diretamente com a idéia de morte �ejft considerada infectocontagiosa, e ·

seus portadores, pessoas que necessitam ser alijadas do convívio social.


O paciente terminal está afrontando todos os preceitos de negação da
IUQrte. É como se mostrasse a cada instante que a morte, embora negada de
forma veemente pela sociedade, é algo existente e inevitável. Kubler-Ross
(1975) diz que a morte é um tema evitado, ignorado por nossa sociedade
adOJ<'!.dora da juventude e orientada para o progresso. É quase como se a con­
siderássemos apenas mais uma enfermidade a ser debelada. O fato, porém,
é que a morte é inegável. Todos nós morreremos um dia; é apenas uma ques­
tão de tempo. A morte, na verdade, é tão parte da existência humana, do seu
crescimento e desenvolvimento, quanto o nascimento. É uma das poucas
coisas na vida de que temos certeza. Ela não é um inimigo a ser conquista- .
do nem uma prisão de onde devemos escapar. É uma parte integral de nos­
sas vidas que realça a existência humana. A morte estabelece umJimite em
nosso tempo de vida, e nos impele a fazer algo produtivo nesse espaço de
tempo, enquanto dispusermos dele.
A soma de toda a incongruência social, dos conflitos de valores, do es-'
teio da dignidade, faz com que o paciente terminal s.eja depositário de uma
série de incertezas que irão culminar tornando-o alguém vitimado não ape­
nas por uma determinada patologia, mas principalmente por toda uma in­
compreensão de sua real situação. Humanizar as condições de vida do pa­
ciente terminal é acima de tudo buscar uma congruência maior em todo o
seio da sociedade, harmonizando a vida e a morte de maneira indissolúvel.
Somente assim poderem�s assegurar aos nossos descendentes a condição de
uma morte e de uma vida dignas. A morte precisa ser vista como sendo um
processo rio qual a esperança se funde com uma perspectiva existencial sem
exclusão de qualquer uma das possibilidades da existência.
O.morrer é parte inerente da condição humana, e o apoio a alguém que
se encontra no leito morruário é, antes de tudo, o reconhecimento da nossa
11 I T!NO!NCIAI IM ��-�� OI m,t/1 HOSPITALAR

própria finitude, da nossa condição de seres mortais e, portanto, pussívei5


llas mesmas vivências e ocorrências do paciente terminal.4

B) 0 Stalf E O CONTEXTO HOSPITALAR DIANTE DO PACIENTE


TERMINAL

O paciente terminal é um ser humano vivendo um emaranhado de e,moções


que incluem ansiedade, luta pela sua dignidade e seu conforto, além de um
acentuado temor que se relaciona com seu tempo de vida, limitado, finito.
Mauksch (Kubler-Ross, 1 993) coloca que, na sociedade tecnológk-ª.moder­
na, morrer é algo que acontece no hospital. Mas os hospitais são instituições
eficientes e despersonalizadas, onde é muito difícil viver com dignidade ­
não há tempo nem lugar, dentro da rqti na, para conviver com as necessida­
,
des dos enfermos. Os hospitais são instituições comprometidas com o. pro­
cesso de cura, e os pacientes à beira da morte são uma ameaça a essa função
precípua. Os profissionais têm perspectivas e rotinas a cumprir: elas sim­
plesmente nada têm a ver com os doentes que estão para morrer. O morrer
é uma ameaça às funções desses profissionais e cria sentimentos deirhpro­
priedade, incompatíveis Gom suas funções definidas - de pessoas que ef�­
tivamente podem lidar com doenças. Não há lugar nas funções prescritas
desses profissionais para que se comportem como seres humanos no atendi­
mento a pacientes que se encontram à morte.
O paciente vive um momento do qual seus familiares e o staffhospita­
lar também fazem parte. Essa participação muito vai influir no estado do
paciente, determinando inclusive sua rejeição ou aceitação do tratamento, e
até mesmo da própria doença.

4. É como se houvesse uma necessidade premente de a morte deixar de ser temática merecedora
de atenção apenas de religiosos. É interessante observar nesse sentido que a maioria das faculda­
des de medicina e de psicologia sequer rem espaço em suas estruturações programáticas para a
discussão dessa remárica. Assim, esse profissional, ao deixar as lides acadêmicas e ingressar nu­
ma atividade específica na qual a morre surja como possibilidade real, rerá que adquirir as con­
dições necessárias para tal abordagem de maneira intuitiva, e muitas vezes sem condições emo­
cionais para raL É faro que a morre sempre é , uma. vivência única, pessoal e intransferível , e os
sentiménros diante de sua ocorrência são igualmente peculiares a cada indivíduo, mas a ausência
roral de uma discussão sistematizada sobre a morre e suas implicações na existência humana é,
no mínimo, um total acinte à formação acadêmica.
17

A intc:rução equipe-paciente também gira em torno de incessantes cc>n­


flitos entre a luta do paciente agonizante e a equipe do hospital, desejosa de
designar certos papéis ao paciente, que envolvem inclusive sua completa
despersonalização e isolamento. O paciente é marginalizado, passando a car­
regar o estigma de moribundo, de alguém desprovido de sentido existen­
cial. D.eixa-de.ser uma pessoa e passa a ser um leito a mais no hospital. Sua
exis
. _tência ganha significação na doença, e o todo o seu existencial passa a ·

ser apenas e tão-somente a doença e suas implicações5•


É evidente que as reações do paciente frente a essa despersonalização e
isolamento irão variar muito, dependendo de cada história, ficando difícil
para o sta.ffhospitalar lidar com essas diferenças. É consenso, inclusive, no
meio hospitalar que o.paciente considerado "adequado" é aquele que aceita
de modo inquestionável o tratamento e as normas impostas pela equipe hos­
pitalar. O paciente que se rebela contra o tratamento, e que muitas vezes,
inclusive, aceita a idéia da morte de maneira plena, traz sobre si toda a ira
da instituição hospitalar.
O .�:taff
. hospitalar acredita que, não oferecendo a cura ao paciente, não
poderá lhe oferecer nada mais. T�me que o paciente ou a família venham a
lhe._atribuir o fracasso. A-instituição hospitalar existe para curar, não admi­
tindo_nada que transcenda esses princípios. A medicina é definida como sen­
do a arte de manter acesa a chama da vida, tornando-se inadmissível aceitar
o contato com algo tão terrível e que ponha em risco esses princípios.
O sta/fhospitalar, revestido desses princípios, se vê então na responsa­
bilidade de cuidar do paciente e de sua doença de maneira infalível. O cui­
dar do paciente irá provocar tensão nesses profissionais, caso não tenham li­
dado ou elab_oJado seus sentimentos de_ onipotência, na maioria das vezes
·- - ,/

não manifestos, embora determinantes da maior parte dos procedimentos


assumidos por eles.
Quando isso ocorre, esse profissional tenta se proteger contra o risco da
falh� profissional- a morte. Assim, não será dada a menor importância pa­
ra aquilo que o paciente demonstra: medo, fantasias e ansiedades em rela­
ção ao seu tempo de vida. Esse_profissional vai reagir defensivamente aos
sentimentos presentes na relação, e à certeza latente de não poder salvar a

5. O conceito de despe-rsonalização é mais bem abordado no capítulo 5, "O Psicólogo no Hospital".


88 I feNDQNCIAS !M PSICOLOGIA HOSPITALAR

v i d a do
paciente. O cuidar do paciente constantemente, ou mesmo suu pr�­
sença, será um prenúncio da impotência desse profissional, o que, segura­
mente, pàderá provocar desejos nebulosos e pouco precisos de que o pacien­
te morra, findando assim a longa agonia desse relacionamento. Mauksch
(ibidem) afirma que o paciente hospitalizado também procura descobrir
quais são as recompensas e as punições para o comportamento no hospital.
Entretanto, é mais difícil para o paciente, porque as regras não são daras, as
definições variam e não existe comunidade informal de pacientes. Esse cli­
ma de dependência ante o pessoal da instituição esgota no paciente o senso
de individualidade e de valor humano. Em tal ambiente, é possível apresen­
tar um órgão para conserto, porém é muito mais difícil encarar o fato de que
se está morrendo.
Por outro lado, quando o paciente deseja morrer, não suportando mais
o sofrimento físico, esse profissional inconformado intensifica o tratamen­
to e se irrita quando o paciente se recusa a alguma mudança terapêutica,
pois essa recusa significa, de maneira muito clara, que o paciente está ma­
nifestando o desejo de rendição, o que em última instância significa o "alí­
vio da morte". Kubler-Ross ( 197 5) diz que esses pacientes representam um
fracasso da instituição no seu papel de apoio à vida, e não há nada nesse sis­
tema que supra a carência do espírito humano quando o corpo necessita de
cuidados.
De outra forma, ao assumir o papel de esclarecedor, informando o pa­
ciente sobre o que realmente está acontecendo, não no sentido de dar-lhe o
diagnóstico da doença, mas esclarecendo dados sobre a internação hospitalar,
bem como o estigma que envolve esses aspectos, o profissional deixa de ver
no paciente uma enfermidade que está pondo em risco sua competência.
Muitas vezes o paciente em sofrimento desalentador está necessitando
de apoio existencial, palavra, conforto, enfim, quer se sentir uma pessoa com
significação existencial própria. Em alguns casos, essa necessidade se sobre­
põe inclusive à necessidade da terapêutica medicamentosa.
É necessário que cada profissional envolvido nessa problemática tome
consciência de sua atuação diante desse tipo de paciente, pois de nada adian­
tará uma real sensibilidade entre a comunidade da verdadeira e desoladora
problemática da doença degenerativa, se no ambiente hospitalar esse pa­
ciente continuar a sofrer toda a intensidade da rejeição social de que se re-
veste a problemática6• A temática Ja morte precisa ser incluída no referen­
ci_�__das questões existenciais. Nas palavras de Kubler-Ross ( 1 97 5), morrer
é parte integral da vida, tão natural e previsível quanto nascer. Mas enquan­
to o nascimento é motivo de comemoração, a morte transforma-se num ter­
rível e inexprimível assunto, a ser evitado de todas as maneiras na socieda­
de moderna. Talvez porque ela nos relembre nossa vulnerabilidade humana,
apesar de todos os avanços tecnológicos. Podemos retardá-la, mas não pode­
mos escapar dela (ibidem),

ALGUNS DADOS RELACIONADOS À VIVÊNCIA


JUNTO AO PACIENTE TERMI NAL

O psicólogo habituado a trabalhar aspectos e esquemas corporais certamen­


te domina o limiar da verbalização, tendo como cerne de sua atuação o ex­
pressionismo gestual, capaz de exprimir toda e qualquer espécie de senti­
mentos. Por outro lado, ao enfatizarmos a comunicação não-verbal, estamos
abertos, numa dimensão muito mais intensa, aos mais variados sentimen- '
tos que, na maioria das vezes, não são passíveis de verbalização. Muitos sen­
timentos são inefáveis, e, portanto, comunicados somente pelo expressionis-
,
mo corporal.
Na relação terapêutica com o paciente terminal, o contato e a dimen­
são do expressionismo corporal existem não apenas como opção de atuação,
mas também como alternativa diante do definhamento corpóreo progressi­
vo do paciente, que muitas vezes o impede de manifestar-se verbalmente.
Dessa maneira, vamos encontrar alguns pacientes que, em certos momen­
tos, devido ao definhamento corpóreo em que se encontram, além da dor e
do torpor provocados pelo tratamento medicamentoso a que são submeti­
dos, não.conseguem expressar-se de outra forma que não por meio do afªgar
de mãos, ou então da comunicação estabelecida pelo olhar. O olhar angu.s­
tiado e suplicante de um. paciente terminal possui a imensidão da dor e do
des.e spero .presentes na existência humana. Mesmo em situações nas quais o

6. É importante ressaltar que, ao se fazer alusão à comunidade como abrangência de toda uma re­
flexão sobre a realidade do paciente terminal, estamos nos referindo à totalidade do teci �
social,
_
aí incluindo-se desde os segmentos mais distantes da problemática até aqueles que diretamente
lidam com a temática.
10 I T!NO�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

paciente consegue se expressar verbalmente, o relato sempre vem acompa­


nhado de um forte expressionismo corporal. Como ilustração, temos o caso
de N. G. L. , casado, 36 anos, num estado bastante avançado de definhamen­
to corpóreo. N. G. L., após se referir a situações de sua vida, relata:

Era preferível morrer a ter que viver de forma tão degradante, absurda. As
pessoas não me olham, minha mulher repete a cada instante que eu estou
podre e que precisa tratar da documentação do inventário. Até meus fi­
lhos, que são a razão do meu viver, agora me evitam; eu acho que, além
de tudo, ainda devem sentir vergonha do estado do pai .. É horrível, seria
.

melhor morrer e acabar logo com isso tudo. Eu não agüento mais (sic).

Em seguida, chora um choro convulsivo, totalmente incontrolado. Ao


se manifestar nesse comovente depoimento, N .G.L. mostra gestos de deses­
pero, apertando as mãos de tal forma que parece querer destruí-las. Conco­
mitantemente, leva as mãos até o rosto, procurando esconder-se, parecendo
evitar todo e qualquer contato, lembrando por seus gestos a rejeição dos fi­
lhos e da mulher.
Por outro lado, a vivência com o paciente terminal tem sempre presen­
te o espectro da morte, ainda que o paciente não manifeste verbalmente es­
sa presença. O próprio definhamento corpóreo é um indício rnarc�nte e ver­
dadeiro da morte eminentemente presente na relação, o que, por si só,
estabelece urna vibração energética no sentido físico do termo, e que trans­
cende o limiar da razão e, portanto, da não-razão, e que caracterizará a pró­
pria relação.
Existem casos em que a relação tem início na internação do paciente
no hospital, quando ele ainda não apresenta sinais visíveis de comprometi­
mento orgânico. Nesses casos, é possível perceber todo o processo corpóreo,
suas implicações e suas conseqüências. Existe durante esse processo a certe­
za de que toda relação que termina leva consigo um pedaço muito grande
da vida das pessoas envolvidas. Assim, e levando-se em conta que a relação
certamente irá terminar com a morte de urna das pessoas envolvidas na re­
lação, a proximidade da morte é sentida de uma, forma mu� to intensa, como
se fosse algo que deixasse um leve aroma no espaço e que fosse perceptível
aproas na vivência do envolvimento dessa relação; algo indescritível pela ra-
/1.11 Ml/�1 M'/111/lrl/ 1 .' 11111 111'�1 '11 " '"'I" I 11

zão. O exaurir da morte traz à tona o processo, bem como todas as f·i1scs fW·
las quais o processo se desenvolveu, mostrando a irreversibilitlatle do tt·m­
po e do espaço nas coisas que se deixaram por fazer, ou que foram prctcl'i­
das ou postergadas para um outro momento. As razões do existir e a próp1·iu
razão sofrem constantes revisões, transcendendo muitas vezes o limiar c.lu
· existência.
· O olhafi, dentre as formas de expressão dos se_r::tt imentos, é, seguramen­
te, a mais abrangente em termos de dimensionamento absoluto, ainda <.) Ue
tenha em si a presença da própria subjetividade humana. Um olhar de dor
tem a_condição de mostrar o sofrimento de.uma maneira que as palavras não
_I:Lodem. Um olhar de desejo desnuda muito além de qualquer outra forma
de insinuação. Um olhar meigo transmite uma doçura perceptível e inegá­
�el. Um olhar de ódio fulmina mais que o punhal mais cortante.
A vivência com o paciente terminal traz muito.presente o olhar, seja
talvez por ser o mais puro dos- expressionismos, seja ainda por conseguir
transmitir os verdadeiros sentimentos dos momentos desesperadores . Dian­
te dessa manifestação do olhar, é como se outras formas de expressão perdes­
sem o sentido e até mesmo sua condição na essência humana. Exemplo des­
sa citação é o caso de M. C. C, de 64 anos, comprometida por uma metástase
óssea que a deixava totalmente transtornada, não apenas pela dor, como pe­
la condição de imobilidade. Depois de vários atendimentos, e devido ao seu
definhamento progressivo, M. C. C. praticamente não se expressava verbal­
mente. Assim, o atendimento era totalmente direcionado para outra forma .
'

de expressão. Durante esse período, tão logo a cumprimentava em seu lei-


to, colocava minha mão direita sobre a sua mão esquerda, gesto que fazia
com que M. C. C. respondesse imediatamente, colocando sua mão direita
sobre a minha. E assim ficávamos algum tempo: suas mãos alcochoando mi­
nha mão direita e o olhar transmitindo todo o desespero de quem tentava
de todas as maneiras continuar vivendo ou ainda libertar-se daquela situa­
ção de sofrimento. Em nosso último encontro, estava novamente com mi­
nha mão direita entre suas mãos quando percebi um brilho em seu olhar, até
então desconhecido. Olhei fixamente para esse olhar tentando decifrar o sig­
nificado daquele estranho brilho. E assim passaram-se alguns segundos, ins­
tante eterno d'alma. Em seguida, coloquei minha mão esquerda junto àque­
las mãos. E então percebi: M . C. C. havia morri do naquele momento. Minha
92 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

mão esquerda constatou que a vibração energética das outras mãos se mis­
turavam com o ardor da morte. Aquele brilho estranho em seu olhar era o
bJilho da morte. M. C. C. morreu segurando minha mão, tentando agarrar­
se à vidà. Mostrou no brilho do olhar as luzes da morte. Tentou em vão su­
plicar por mais alguns instantes de vida. Morreu e seu olhar transmitiu to­
da a imensidão do momento.
A relação com o paciente terminal tem que ser entendida e abordada de
forma própria, considerando as implicações inerentes ao fato de o atendimen­
to_ser realizado ao lado do leito, junto à "cama mo.rtuária" do paciente, ou se­
ja, no lugar onde o paciente se vê definhando, oride sofre a intensidade da_dor
causada pela doença. Temos ainda outras variáveis que incidem sobre o pa­
ciente, como o cuidado medicamentoso, a dor progressiva que aniquila toda
e qualquer resistência orgânica, e as implicações emocionais do definhamen­
to corpóreo. A relação deve ainda ser entendida como específica à realidade
na qual se encontra inserida, não podendo ser transportada para outros parâ­
metros que não aqueles que determinam essa ,forma de atuação.
A vivência com o paciente terminal exige que o terapeuta tenha muito
claros determinados questionamentos e valores em relação à morte e ao ato
de morrer, o que não significa dizer que esse profissional tenha de ser total­
mente insensível à morte. Guardadas as devidas proporções, seria como exi­
gir que um ginecologista não tenha sensibilidade frente à genitália femini­
na, ou então exigir que a existência humana em contato direto com a morte
não chore um choro profundo e doloroso, diante de coisas que se vão e dei­
xam de existir na forma e na essência humana. A existência humana é única
e fin ita, e como tal deve ser vivenciada e sentida. A dimensã« do infinito e
do irreal torna-se muitas vezes inatingível ante os aspectOs absurdamente
reais trazidos pelo sofrimento do definhamento corpóreo.
Por outro lado, nos casos em que o paciente manifesta o desejo de mor­
rer, iremos encontrar nuanças tão específicas que a expressão se mistura às
contradições inerentes ao processo em si.
É muito difícil, em termos gerais, aceitar a idéia de que precisamos mor­
rer, da mesma forma que em outros momentos necessitamos dormir, repou­
sar. Nesse caso, o profissional se aflige com a idéia de não poder competir
com a corrida invencível do tempo, tendo como fracasso tangível a impossi­
bilidade de cura do paciente, pois, de uma forma geral, possui o sentimento
/1,/o 11'111•1 M'lll/1/ol/1.' 11111 l•l'lll'fl Ptlll�d I IJ

de não estar efetivando os princípios da ml'd icina que envolvt:m a pl·t·scrvu­


ção__da_yi.da.. Como ilustração, cito o caso de E A. L., 16 anos, também llt'O·
metido de metástase óssea. Nossos encontros iniciais se deram é.J llundo
F. A. L. ainda estava hospitalizado em São Paulo. Após várias tentativas dt•
tratamento - incluindo desde cirurgias previamente marcadas e posterior­
mente desmarcadas devido à especificidade do caso até tratamento medica­
mentoso e radioterápico -, era possível perceber que F. A. L. não tinha mais
disposição para continuar resistindo às intempéries da doença. Ele negligen­
ciava todas as alternativas de tratamento que dependiam de sua colaboração.
Mostrava-se exaurido de tanto sofrimento, fosse pela doença em si, fosse ain­
da pela dor que o consumia. E apesar de todos os esforços da equipe de saú­
de em demovê-lo dessa atitude, os resultados eram praticamente nulos.
Seu definhamento era perceptível e aumentava com a mesma intensi­
dade que a dor que o dominava. Sua maior reivindicação passou a ser voltar
para Ma_üana, sua cidade, e ali permanecer junto de sua família. Queria des­
canso, trégua de todo aquele apara.i:o tecnológico que apenas trazia descon­
forto e que efetivamente não aliv-üwa a dor e o sofrimento que exper.imen­
tav�. A equipe de saúde como um todo mostrava-se indignada diante do
de.s.ejo de F. A. L., praticamente considerado em uníssono como sendo ab­
surdo. Representava o desprezo pelos avanços da medicina e uma totaLfn­
trega ao descanso da morte. Sua tenra idade deixava a todos muito mais per­
plexos, como se a aceitação da morte fosse pertinente aos mais velhos.
Muitas reuniões e discussões de caso entre a equipe apenas demonstravam
com uma clareza cada vez mais nítida que F. A. L. recusava-se a continuar
cercado de todo aquele aparaxo sem ter a proximidade da família. F. A. L.
recusava-se a continuar aquele colorário de sofrimentos e mostrava-se indig­
nado diante da recusa da equipe de saúde em aceitar seu desejo. Nossos con­
tatos estreitaram-se, e 1s�rviam cada vez com mais intensidade para que ele
mostrasse o quanto desejava obter o direito de morrer junto de seus fami­
liares, "naquele pedacinho de interior de Minas Gerais" (sic). Era difícil pa­
ra ele aceitar qualquer contraponto que não fosse sua transferência para jun­
to da família. Argumentava, inclusive, sobre as dificuldades da mãe em
visitá-lo, tanto pela distância como pelo custo financeiro de tais viagens.
F. A. L. tocava violão antes da hospitalização, e esse detalhe fez com que nos­
so relacionamento se estreitasse ainda mais, devido também à minha inten-
i4 I Tt:NO�NtiAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

sa ligação com a música. Vários de nossos encontros foram permeados upr­


nas pela música. Ele a contar o quanto queria ter estudado música de ma­
neira mais profunda, eu a contar dos tempos em que minha atividade prin­
cipal era a de musicista envolvido em concertos e recitais. Estabelecemos
um vínculo muito forte; além da compreensão de seu desejo de morrer, tí­
nhamos também a música como ponto de união e afinidade.
A equipe de saúde, depois de muitas discussões, finalmente resolveu
liberar F. A. L. para que ele voltasse para junto de seus familiares em Ma­
riana. Foram tomadas todas as providências - desde ambulância para loco­
moção até detalhamento dos cuidados para que a prescrição medicamento­
sa fosse seguida - para que F. A. L. pudesse então voltar para o seu canto,
cercado dos cuidados mínimos necessários para sua nova fase de vida. Após
essa decisão, era impressionante o sentimento de fracasso estampado na fa­
ce. de todos os membros da equipe de saúde. Em cada narrativa, em cada ges­
to, em cada explicação, enfim, em qualquer detalhadamento em que o caso
era exposto, a primeira coisa que se evidenciava era a sensação de fracasso
pela deliberação de F. A. L.
No último encontro que tivemos em São Paulo, F. A. L. chorou muito
ao relatar a alegria de poder voltar para o seu canto. Nessa ocasião, disse a
ele que em algumas semanas estaria em Our9 Preto, cidade próxima à dele,
para realizar um trabalho junto com um grupo de colegas de Belo Horizon­
te. Disse ainda que na terceira noite de minha estada naquela cidade estaria
realizando um recital de música para o grupo, além de alguns convidados.
F. A. L. entusiasmou-se de imediato e perguntou se ele também poderia as­
sistir a esse recital. Diante da minha anuência, ele ficou muito feliz e exul­
tante, chamando-me a atenção o cuidado que teve para situar-se espacial­
mente em relação ao lugar onde faríamos o nosso retiro profissional. Embora
fosse um lugar de difícil acesso, situado nas cercanias de Ouro Preto, foi-lhe
fácil o entendimento, tanto pelo interesse demonstrado como pelo conheci­
mento que tinha da região.
Despedimo-nos, e a primeira sensação que me invadiu era que aquele
encontro talvez fosse o último. A dor da despedida estrangulava no peito,
esquecendo todas as circunstâncias que determinavam o seu afastamento.
Na seqüência, fui para Ouro Preto, como estava previsto. Na noite do
recital, noite fria com o luar envolvendo a cidade de forma magistral, en-
/'"' )""''' f�l'llli!Mh: NNI ''" ''"' ,,_,/mro I 11

quanto conversava com alguns amigos nos m i nutos que precediam o início
da música, fui avisado de que havia um grupo de pessoas querendo me di­
rigir a palavra. Quando fui ao encontro desse grupo, deparei com F. A. L. e
seus familiares. Uma cena emocionante: os familiares providenciaram uma
cadeira de rodas para transportá-lo, pois mesmo sendo pequena a distância
entre as duas cidades, seu estado de saúde inspirava bastante cuidado. Mas
lá estava ele, envolvido num cobertor de lã xadrez, como que a mostrar que,
apesar de todas as dificuldades, estava para me ver e ouvir. Não houve co­
mo conter as lágrimas, era muito prazeroso vê-lo novamente. Em seguida,
ele se acomodou na sala onde se realizou o recital, e ali permaneceu até o
fim, ora aplaudindo, ora sorrindo, ora compenetrando-se na profunda in­
trospecção da música. Terminada a audição, F. A. L. agradeceu de modo co­
movente pela "alegria e paz" (sic). E pediu-me para que fosse visitá-lo em
sua casa antes de retornar para São Paulo. E assim, na tarde do dia seguin­
te, estávamos novamente juntos, a�ora em sua casa. Ele pediu então para
que eu tocasse uma peça de que havia gostado muito. Incontáveis vezes re­
peti aquela peça. Num dado momento, ele disse que aquela música era ma­
ravilhosa, repousante, ideal como acalanto para "dormir e até mesmo mor­
rei em paz" (sic). Era dilacerante ouvir aquele depoimento de busca de alívio
na morte, sensação que se tornava ainda mais cáustica diante da constatação
de que o depoente, embora adolescente na idade, ainda mantinha no cora­
ção a pureza e a inocência de uma criança. Era mais uma vez a presença da
dificuldade de aceitação do_ "alívio...da ffiQrJ:e�' , era a constatação de que acei­
tar seu desejo de morrer era algo i nconcebível, mesmo para pessoas que teo­
ricamente até concordavam com tal posicionamento. Mas ele era bastante
determinado, e ressaltava após cada execução que aquela música era acalan­
to para se morrer em paz. No início da noite voltei para Ouro Preto, depois
de uma comovente despedida. Após o jantar, fiquei isolado do grupo de co­
legas, que se divertia muito a festejar a última noite que estaríamos reuni­
dos naquele espaço. Suas algazarras e alegrias demonstravam que naquele
momento nada mais queriam da vida. Eu, no entanto, estava isolado, sen­
tado na varanda. Naquela noite fria, olhava o céu estrelado com o luar es­
tampando a delicadeza da natureza em esplendor. Naquela noite não conse­
gui dormir com tranqüilidade. Uma turbulência i nterior muito grande
prejudicou-me o sono. A im.a.gem da F. A. L. era presença constante no meu
H I TtNUtNtiA\ .M PIIC.:OI.OCiiA HOSPITALAR

i m ag in;irio. No i n ício da manhã, com os primeiros raios de sol colorindo u

mad rugada, fui para Belo Horizonte, onde apanharia o avião que me traria
para São Paulo. No aeroporto, uma força imperiosa me fez ligar para ter no­
tícias de F. A. L. O familiar que me atendeu ao telefone, aos prantos, narrou
que naquela noite ele dormiu como fazia habitualmente, mas havia amanhe­
cido morto. Havia morrido em paz, talvez ainda sob o som daquela sua me­
lodia. Custo a crer que esse caso seja real. Tenho a sensação de que se trata
de uma criação da minha alma num momento de psicotização com a pró­
pria realidade. A .m im parece, muitas vezes, impossível ter vivido esse en­
redo de fatos e acontecimentos. O que me traz ainda um pouco para a rea­
lidade é poder executar essa peça musical e lembrar de F. A. L. definindo-a
como acalanto para se morrer em paz.
O sentimento de abandono que experimentamos quando morre um pa­
ciente que atendemos é desolador. Somado ao fato de estarmos alquebrados
com a dor da perda em si, temos ainda uma família que aguarda ansiosa por
alguma forma de conforto e amparo. E a sensação que muitas vezes me in­
vade é a de que o paciente, após a morte, é qllem passa a cuidar de nós com
as coisas deixadas e ensinadas durante o período de convivência.
O contato com o paciente terminal questiona, de maneira profunda e
crucial, muitos valores! da essência humana. Tudo passa a ser questionado
p_or outra ótica, e m �itas coisas tidas como verdadeiras e absolutas passam
a ser consideradas sem importância, sendo que outros fenômenos tidos co­
mo muito_pouco significativos tornam-se verdadeiramente significativos,
ocupando de forma globalizante o sentido existencial de tal modo que trans­
formam-se na essência e no sentido da própria vida. O mais significativo
nessa vivência é a constatação de que o paciente terminal nos ensina uma
nova forma de vida, uma nova maneira de encarar as vicissitudes que per­
meiam a existência, uma forma de vivência mais autêntica em que os valo­
res decididamente importantes são preservados em detrimento de aspectos
meramente aparentes, que, na maioria das vezes, permeiam as relações in­
terpessoais.
A vida ganha novo significado ao se perceber a amplitude da impor­
tância de cada segundo, de cada encontro, do sol rompendo a neblina "numa
manhã de outono, da florada do ipê-roxo e da suinã no inverno, da emoção
do amor contida num beij o e num afagar de mãos.
17

É como se tivéssemos que cQtlviver estreitamente com a morte para res­


significar a própria vida, para ressignificar cada detalhe da existência. A
morte torna-se um processo vital, determinante de um encontro com a ple­
nitude, com a transcedência do amor e do transbordar da paixão de simples­
mente viver. Simplesmente sorrir diante do encantamento, sorrir diante do
belq\. De simplesmente chorar quando a emoção assim o determinar; chorar
diante da dor ou ainda diante de situações de alegria. De simplesmente sa­
ber que a vida é uma emoção contínua e que transborda prazer de forma in­
termitente.
É necessário um novo sentimento de ardor para se sorver o deleite de
paz propiciado por essa nova maneira de apreensão da realidade, por essa no­
va maneira de vivência, na qual o sorriso de uma criança é mais importan­
te que o amealhar de fortunas, na qual uma noite de tranqüilidade estrei­
tando nos braços um corpo querido e amado tem significado incalculável e
imensurável, na qual a doçura de uma noite de verão é a concretização da
existência. E na qual o brilho de u� ·doce e meigo olhar é a razão de toda a
eternidade.

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. Existencialismo e Psicoterapia. São Paulo: Traço Editora,


1984.
A Psicologia no Hospital. São Paulo: Pioneira T homson
Learning, 2003.

RIBEIRO, H. P. O Hospital: História e Crise. São Paulo: Cortez, 1993.

TORRES, C. W., GUEDES, G.W. e TORRES C. R. A Psicologia e a Morte.


Rio de J aneiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1983.
98 I TEND!NCIAS IM P\lwl OGIA HosPITALA"

ACORDES DE UM RÉQUIEM*

VALDEMAR AUGUSTO ANGERAMI - CAMON

Caminho. . .
os corredores são sombrios, frios. . .
sem vida, sem cor, sem calor. . .
os corredores são longos, estreitados com a dor. . .
são longos mas não o suficiente para acolher todos os pacientes. . .
os gemidos são ensurdecedores, amedrontadores como o silvo da serpente. . .
são gemidos de desespero, de dor, de sofrimento. É o uivo dos umbrais. . .
Lá de fora ecoam sirenes de ambulâncias, de viaturas policiais. . .
sirenes de desespero, sirenes de esperança, sirenes apressadas, angustiadas.
Lá de fora brotam cores de harmonia, de luz, de amor. . .
cores trazidas pela esperança nesse momento de dor.
A saúde também agoniza junto com o paciente, exaurida. . .
as necessidades do paciente não podem ser supridas. . .
faltam condições mínimas de atendimento, de ungfiento. . .
faltam médicos, profissionais burocráticos, enfermeiros. . .
falta tudo; e na falta de todos padece o doente.
A doença no Brasil é vexatória. . .
a doença torna-se constrangedora, predatória. . .
a doença faz do paciente uma vítima; vítima da falta de condições do sistema de saúde.

Observo. . .
vejo a saúde padecendo juntamente com um amontoado enorme de doentes. . .
assisto à saúde enraizando-se como um privilégio de poucos. . .
vejo a luz da esperança carreada apenas pelas cores da utopia. . .
a saúde não existe. . . existe apenas uma maneira paliativa de assistência para alguns
poucos doentes em seu desatino. . .
O lixo hospitalar mistura-se aos escombros da dignidade humana. . .
Saúde é dejeto que não pode ser reciclável.
Saúde é bem precioso apenas nas empresas hospitalares.

* N. A.: Esta poesia foi publicada anteriormente no livro Psicologia Hospitalar. Teoria e Prática.
São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.
Quando proporcionam lu,·ros. Grandes lucro.\' .
. .

A mercantilização da saúde exclui aqueles que jáforam anteriormente excluídos.


Exclui aqueles que jáperderam a dignidade por um nada no mundo.

Lamento. . .
observo o ritual lento e aterrorizante de todos os envolvidos na saúde. . .
um ritual macabro feito de desalento e que piora a cada momento. . .
E observo a tentativa tênue de transformação dessa realidade
por um punhado de idealizadores. . .
Espectadores dessa vergonha intitulada sistema de saúde. . .
vergonha nacional tida como prioritária em qualquer planejamento social. . .
A realidade, a triste realidade é o escarro d'Cl podridão social na dor do doente.
A vergonhosa situação dessa realidade é a constatação odienta de que não existe
nenhum sistema de saúde no Brasil. . .
CAPÍTU LO 7

P S ICOLO G IA HO S P I TALAR:
O P ION E I RI S MO
E AS P IO N E I RAS

Figueira, h á muito que t e vejo esquecer


quase inteiramente a floração, precipitando
� fruto prematuro, incompreendido, teu
puro segredo. Como o canal de uma fonte,
teus ramos sinuosos impelem para a luz
a seiva adormecida, abandonando-a,
ainda sonolenta, ao seu doce destino:
como o deus em cisne transformado .
. . . Nós porém que nos detemos,
gloriosos de florir, somos traídos antes de entrar
nas profundezas do tardo fruto derradeiro.
Poucos são impelidos pelo atuar com tal fervor,
até arder na plenitude do próprio coração,
quando o fascínio de florescer - suave brisa noturna ­
roça-lhes a j uventude da boca ou toca-lhes as pálpebras.

Rainer Maria Rilke

101
102 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

"Curitiba, abril de 1 99 1 . Madrugada após o término do IV E ncontro Na­


cional de Psicólogos da Á rea Hospitalar. Reunidos em torno de uma mesu
de discussão sobre os rumos da psicologia hospitalar no Brasil. Presentes
Matilde de Neder, Claves A. Amorim - integrante da comissão organiza­
dora do evento e um dos mais brilhantes psicólogos da área hospitalar -,
Marisa e eu.
Os assuntos fervilhavam em vários dimensionamentos, questionamen­
tos e polêmicas. Muita discussão e risos. O Claves, mostrando um ar sur­
preendentemente faceiro e zombeteiro, referia-se às "histórias de Matilde" ,
narrando situações inusitadas vividas intensamente pelos dois.
Num dado momento, o mesmo Claves zombeteiro adquire uma
expressão envolta em seriedade, e com o olhar brilhante aborda a importân­
cia de a Matilde produzir algo sobre a trajetória profissional e, principal­
mente, sobre a sua trajetória dentro da psicologia hospitalar. Ficamos atô­
nitos com essas colocações pois, na verdade, não existia na literatura nada
sobre os caminhos dessa guerreira. E imediatamente me ocorre a idéia de
escrever sobre a psicologia hospitalar e suas principais expoentes: Matilde
N eder e Bellkiss Wilma Romano Lamosa.
E assim é, dedos intrépidos na máquina de escrever, música de Mozart
ao fundo, textos e papéis espalhados sobre a mesa, eis-me escrevendo sobre
uma das minhas maiores paixões: "a psicologia hospitalar".

Falar de psicologia hospitalar é falar de Matilde Neder e Bellkiss


Wilma Romano Lamosa.
Falar de Matilde Neder e Bellkiss Wilma Romano Lamosa, sem demé­
rito a tantos profissionais que arduamente militam na área, é evocar os ru­
mos da psicologia hospitalar.
Este livro foi escrito a partir desta constatação. Surgiu da necessidade
de resgatar um pouco da história da psicologia hospitalar no Brasil, como
da necessidade do estabelecimento dos parâmetros de sua origem. E da defi­
nição dos limites, da expansão e do pioneirismo dessa atividade por meio do
registro dos passos de suas principais pioneiras.
Não é um trabalho acadêmico revestido com o rigor científico por grá­
ficos, números e estatísticas, nem um trabalho feito com a razão - deter­
minantes de monografias em que o principal teor é a concepção estética. Co-
101

mo não é também um artigo para ser publicado em revistas <.:ientHlcas 111111

quais a rigidez temática e a sobriedade escamoteiam a pulsação da próprin


vida.
É um estudo apaixonante e apaixonado na crença das pequenas coisas,
ainda que sejam as mais pequenas entre as menores. É um trabalho no qual
parte da trajetória dessas guerreiras é descrita com o pulsar da alma e do
coração, e os ensinamentos que elas nos legaram são passados de forma tri­
vial, com a simplicidade de quem teve o privilégio de, ao longo desses anos,
escutar e partilhar de seus ensinamentos e presença.
É um tributo. Um reconhecimento público e uma homenagem ao pio­
neirismo. Uma elegia d'alma pelo amor com que elas sempre nos acolheram.
É um beijo de ternura pela mão amiga nos momentos de tormenta. É
a retribuição de �m carinho ternamente recebido. E que certamente será o
amor e a paixão nestas letras, linhas e páginas.
Matilde Neder, orientadora de teses de doutoramento e dissertações
acadêmicas de mestrado, presença obrigatória em todos os congressos nacio­
nais e internacionais nos quais o �ssunto é terapia familiar ou psicologia hos­
pitalar, ou ainda tantas outras temáticas que domina como poucos, dispen-
. sa maiores comdntários, assim como Bellkiss Wilma Romano Lamosa,
figura imprescindível em todos os eventos acadêmicos e congressos em que
são discutidos a psicologia hospitalar e temas de psicologia aplicados à área
médica. Iremos passear pela Marilde Neder e pela Bellkiss Wilma Romano
Lamosa que poucos conhecem - profissionais que não gostam de falar do
próprio pioneirismo, que se recusam a escrever contando suas trajetórias
profissionais por considerá-las simplistas.
E assim como a primeira Lua depois da Lua de março sempre traz a Pás­
coa - com a esperança de renovação e de um mundo melhor -, este tra­
ba�o será renovação de que partilhar de seus ensinamentos é algo maior do
que a mera transmissão do saber. É o reconhecimento de um carinho terno
e precioso.
104 I TbNOfNtiA� rM P\lcOLOCIIA HosPITALAIIt

PSICOLOGIA HOSPITALAR.
PASSADO, PRESENTE E PERSPECTIVAS

6 árvores da vida, quando aringireis o inverno?


Ignoramos a unidade. Não somos lúcidos como as aves
migradoras. Precipitados ou vagarosos
nos impomos repentinamente aos ventos
e tornamos a cair num lago indiferente,
Conhecemos igualmente o florescer e o murchar.
No entanto, em alguma parte, vagueiam leões ainda,
Alheios ao desamparo enquanto vivem seu esplendor.

Rainer Maria Rilke

Discorreremos a seguir sobre as principais datas da psicologia hospita­


lar no Brasil, que marcam seu início e evolução.

1 954. Matilde Neder dá início à psicologia hospitalar no Brasil desen­


volvendo uma atividade na então Clínica Ortopédica e Traumatológica da
USP1, hoje Instituto de Ortopedia e Traumacologia do Hospital das Clíni­
cas da Faculdade de Medicina da USP. Ela foi convidada pelo responsável do
setor, Dr. Eurico de Toledo Carvalho, para acompanhar psicologicamente os
pacientes submetidos à cirurgia de coluna. O trabalho consistia em prepa­
rar esses pacientes para a intervenção cirúrgica, bem como para a recupera­
ção pós-cirúrgica.
Matilde N eder, ao ser convidada para esse trabalho, procurou fazer uma
adaptação técnica de seu instrumental teórico, aclopando-o à realidade ins­
titucional. Nessa ocasião, Matilde candidatava-se a uma vaga na Sociedade
Brasileira de Psicanálise, e, segundo suas próprias palavras, o trabalho hos­
pitalar surgiu como um desafio, por ser uma prática que na ocasião parecia
se distanciar de maneira abrupta dos modelos teóricos de atendimento que
abraçava.

1 . Essa atividade de Matilde Neder não consta da maioria das citações da psicologia hospitalar
no Brasil. Grande parte dessas publicações cita como início sua atividade no então Instituto Na­
cional de Reabilitação da USP, hoje Divisão de Reabilitação do Hospital das Clínicas da USP,
em 195 7 . Tal erro induz essas publicações a distorcer a verdadeira cronologia da psicologia hos­
pitalar no Brasil.
105

Houve então a criação de modelos teóricos que visavam agilizar esses


atendimentos no sentido de torná-los adequados à realidade institucional.
Foi a preconização da psicoterapia breve numa prática sistematizada longe
dos textos que refletiriam essa temática anos depois. A prática determinava
os procedimentos a serem adotados, que em função de sua base psicanalíti­
ca con�ergiam para a estruturação de atividades sobre psicoterapia breve. 2

1957. Matilde Neder se transfere para o então Instituto Nacional de


Reabilitação da USP, hoje divisão de Reabilitação do Hospital das Clínicas
da USP. P ara um melhor dimensionamento dessa atividade, vejamos a pró­
pria Matilde numa conferência realizada em28 de novembro de 1959, por
ocasião do 1ºSeminário do Instituto de Reabilitação da Faculdade de Medi­
cina da USP, e publicada nos anais do evento.3

Psicologia em Reabilitação

Como ponto de partida para a abordagem do nosso tema, vamos


começar por esta questão: a da necessidade da psicologia na reabilitação.
Existe mesmo essa necessiçlade? Se ela existe, onde está? E por que ela
é necessária? Sabemos que uma necessidade tem que ser sentida, e per­
cebemos tal ocorrência na reabilitação, porque a psicologia foi chama­
da para atuar na equipe deste Instituto. E ela foi chamada, justa e exa­
tamente, porque este Centro de Reabilitação tem um programa de ação

2. O fato de Matilde Neder não registrar na literatura essa atividade faz com que não figure tam­
bém como uma das precursoras da prática da psicoterapia breve. Seguramente, se houvesse um
registro sistematizado dessa atividade, seu nome também figuraria no rol dos criadores da psi­
coterapia breve. Nesse sentido, creio que seria bastante interessante para a própria história da psi­
cologia no Brasil que esse fato pudesse ser mais aprofundado para que até mesmo a sedimenta­
ção de inúmeros trabalhos institucionais possa ser fundamentada na reflexão dessas atividades.
3. Decidi colocar essa conferência na íntegra, pois, além de ser registro da psicologia hospita­
lar, é marca da trajetória da própria psicologia no Brasil. Em seus detalhes, vamos encontrar os
primeiros alicerces do reconhecimento da psicologia como profissão, seus fundamentos e deta­
lhes que a diferenciam de outras práticas. É igualmente interessante observar o detalhamento
das atribuições que eram conferidas à prática do psicólogo e o esteio necessário para seu reco­
nhecimento social. Sem sombra de dúvida, ao transcrever essa conferência na íntegra, estamos
promovendo uma reconstiruição histórica da própria trilha percorridà pela psicologia para seu
reconhecimento como ciência, profissão e categorização
101 I T!NO�NCIAS IM PIIUll l luiA HosPITALAR

que não pode prescindir da psicologia. Tal programa baseia-se funda­


mentalmente na concepção de reabilitação aqui reinante. Vou tentar
apresentar aqui, da forma mais sintética que encontrar, que já é bem
longa, o que entendo por reabilitação. Em primeiro lugar, quero obser­
var que falamos sempre, aqui, em reabilitação total. Sem querer, afir­
mamos sempre esse ponto, reabilitação total, como se pudesse existir
uma reabilitação que não fosse total; melhor seria que, quando ela as­
sim não fosse, falássemos então em reabilitação parcial 'e deixássemos a
expressão para o seu verdadeiro conceito de reabilitação total. Vamos ao
conceito prometido. Entendemos que a reabilitação é a ação coordena­
da e contínua de uma equipe de técnicos competentes j unto à pessoa
portadora de deficiência física ou mental, com o fim de auxiliá-la a rea­
lizar suas potencialidades e objetivos física, social, psíquica e profissio­
nalmente, de modo a alcançar um melhor controle sobre si mesma e so­
bre seu ambiente, enfrentando a realidade da vida. Apresentaremos
vários pontos essenciais que gostaríamos de discutir com os senhores,
na medida do possível. Já está bem claro o apelo que faz a reabilitação
à psicologia para o desempenho dessa finalidade.
O psicólogo do Instituto, exercendo suas funções, encontra alguns
problemas, dos quais podemos destacar primeiramente: quem é esse
indivíduo portador da deficiência física? Note-se que não falamos "inca­
pacitado". Usualmente o deficiente físico é chamado de incapacitado. É
um termo já consagrado, usado com liberdade. Pessoalmente, tenho um
certo escrúpulo em usar essa expressão, porque entendo que uma pessoa
não é incapacitada, mas que está incapacitada para esta ou aquela fun­
ção. Ninguém realmente esclarecido chamaria alguém de incapacitado
porque determinadas funções estão prejudicadas. Usaríamos, de prefe­
rência, a expressão "deficiência", e assim mesmo não chamaríamos uma
pessoa de deficiente, muito embora essa expressão seja usada com certa
freqüência. É mais objetivo dizer que a pessoa é "portadora" de uma
deficiência física; aliás essa expressão já foi discutida em seminários
anteriores sobre a "Criança Excepcional" (principalmente no ano de
1 95 2 , em Belo Horizonte) e sempre se optou por essa expressão "porta­
dor de deficiência física". Voltemos ao nosso ponto: quem é esse indiví­
duo portador de deficiência física? É uma pessoa humana. Parece que já
se diz tudo quando se diz pessoa humana, mas vou repetir aqui uma das
descrições há pouco utilizadas pela Dra. Luiza com tanta firmeza: "Ela
é uma pessoa que é um todo, e reage como um todo. Esse ser humano
107

se caracteriza e se diferencia por sua personalidade que é um todo, inte­


graçlo e funcional". Comentemos esta expressão: funcional. É verdade
que, para nosso trabalho de reabilitação, interessa-nos conhecer a natu­
reza dos móveis da conduta do cliente, encarando essa questão do pon­
to de vista estrutural. É certo, também, que nos interessam seus meca­
nismos, para sabermos como ele está reagindo e como ele faz
engrenarem entre si os elementos' que possui. Mas interessa-nos, prin­
cipalmente, saber por que ele precisou usar de tais mecanismos, o que
há com ele, quais as razões, as causas de seu comportamento e reações.
É esse ponto de vista, funcional por excelência e altamente dinâmico,
nossa base de maior auxílio, já que, pelo esnido dos porquês, pudemos
não só alcançar os fatos psicológicos como também verificar como se
instalam os processos de adaptação e conduta, e, principalmente
permitimos utilizar tal conhecimento para aplicações práticas de gran­
de valia para a reabilitação do cliente. É bom não perder de vista que
seu comportamento atende a motivos anteri<bres, que exigem satisfação
por parte da pessoa. E assim, conhecendo as razões do comportamento
do cliente, a equipe melhor atuará junto a ele e, conhecendo-se melhor,
o cliente poderá participar melhor do seu programa de reabilitação. Pas­
sando para um segundo ponto, já que falávamos da pessoa humana, do
todo que é, comentemos também esta outra expressão que usamos com
referência a ela: integrado. Dizemos assim porque, por mais que se tente
apurar, isoladamente, 'determinados traços de personalidade por meio
de testes, provas ou técnicas especiais, verificamos sempre que tais tra­
ços não estão isolados, mas inter-relacionados, entrosados, formando um
todo; existem, assim, dependência e associação entre os traços; associa­
tivamente, aos pontos básicos da personalidade, problemas do indiví­
duo. Então, além dos mecanismos de que se utiliza, interessa-nos conhe­
cer, principalmente, o que levou o indivíduo a reacionar ou a atuar desta
ou daquela forma. Interessa-nos conhecer suas aspirações, seus desâni­
mos, suas frustrações e ambivalências. Precisamos ainda considerar, ago­
ra que aqui falamos em traços, em características da pessoa, que esses
traços são devidos a dois fatores: o fator físico ou biológico, de um lado,
e o fator social de outro, sendo a personalidade a resultante da interação
desses dois fatores. O fator biológico e o social interagem, portanto, de
tal forma que se tem como resultado um todo distinto, característico,
próprio de cada pessoa: a personalidade. Mas até que ponto nós pode­
mos responsabilizar o fator biológico pelo modo de ser de uma pessoa?
108 I TeNu&NctAI IM P\lwtm.IA HosPITALAI\

E até que ponto essa responsabilidade pode ser atribuída ao fator socialf
Bem, podemos dizer que há casos em que o fator biológico predomina
na sua contribuição, e há casos em que a predominância é do fator so­
cial; mas podemos dizer com segurança que, apesar das pesquisas já fei­
tas, não foi possível determinar com objetividade até que ponto o fator
biológico é responsável pelas características de personalidade, e até que
ponto o fator social, devido à interação existente entre ambos e à inte­
gração da personalidade. Para nós, psicólogos, interessa, sim, saber a
predominância da influência de um ou de outro fator, mas interessa-nos
principalmente conhecer a resultante da interação desses fatores. Mas
não é essa a posição de muitas pessoas, que ora supervalorizam o fator so­
cial, ora o biológico, sendo comum dizer-se ou pensar-se que o fator bioló­
gico é exclusivamente responsável pela personalidade, ou, de oútra for­
ma, o responsável seria o fator social. Reconheça-se a importância de
ambos os fatores, mas daí a dizer - agora entramos no problema de
deficiente físico - que uma deficiência física é responsável pelas carac­
terísticas de personalidade do indivíduo, é um passo muito ousado, que
eu não expressaria. Porque, se as pesquisas nesse sentido não são sufi­
cientes para afirmar o contrário, e nem poderiam ser, porque as deficiên­
cias físicas interferem, atuam sobre a personalidade, existem, ao contrá­
rio, estudos feitos em grupos que nos dão elementos para pensar,
justamente, que a deficiência física, embora tenha sua contribuição nas
variações da personalidade, não se lhe pode dar a força que se pretende.
Gostaríamos que os senhores acompanhassem a leitura de algumas con­
clusões que o Dr. Rusk - que os senhores tiveram oportunidade de
conhecer aqui, na sessão inaugural deste Seminário - nos apresenta no
boletim "Psychological Aspects of Physical Disability", Rusk e Taylor,
p. 1-7, Washington D.C. Office ofVocacional Rehabilitation, 1 9 5 3 , no
capítulo "Team Approach in · Rehabilitation and the Psychologist's
Role". O Dr. Rusk transfere para esse seu artigo as conclusões de
Clonick, Barker e Wright, que peço licença para ler:

1 . "As pessoas fisicamente deficientes, mais freqüentemente que as


pessoas fisicamente normais, apresentam comportamento comu­
mente denominado 'desajustamento'. Entretanto, em quase todos
os estudos, 3 5 % a 4 5 % dos indivíduos deficientes são relatados co­
mo sendo tão bem ou mais bem ajustados que a média de pessoas
não deficientes.
101

2. Os tipos de desajustamento apresentados pelas pessoas tlsicamente

deficientes não são peculiares a elas: são similares àqueles apresen­


tados pelas pessoas não deficientes. Entretanto, há algumas provas
de que o comportamento por retraimento, timidez e autoconsciên­
cia é mais freqüente entre essas pessoas, apesar de que o tipo opos­
to de comportamento não é, de forma alguma, pouco freqüente.
3. Não há provas de um relacionamento entre o tipo de deficiência
física e o tipo de ajustamento; dentro de uma larga variedade de
deficiências físicas, os comportamentos apresentados não diferem.
Entretanto, é possível que deficiências que requerem um modo de
vida especial ou um tratamento especial durante longo período de
tempo dêem origem a ajustamentos especiais por parte do cliente.
4. É provavelmente verdade que as pessoas cuja deficiência física vem
de longa data têm mais probabilidade de apresentar desajusta­
mentos que aqueles cuja deficiência é mais recente".

Ponderam ainda Rusk e os autores mencionados que se há uma varia­


ção tão grande entre os indivíduos fisicamente deficientes, quanto às ati­
tudes emocionais para com as suas deficiências, é evidente que tais ati­
tudes são dinâmicas e podem ser alteradas. O grau de mudança potencial
da atitude e a relativa facilidade ou dificuldade com que uma mudança
pode se dar varia naturalmente com o indivíduo, e depende de uma com­
plexidade de fatores dos quais a deficiência é apenas um. É aqui, referem
ainda, que o psicólogo, como membro da equipe de reabilitação, arca
com uma responsabilidade maior, pois ele é o único que tem a formação,
o treino e a experiência para poder pesar e avaliar esses vários fatores, tra­
duzindo-os para seus colegas de equipe em termos terapêuticos. O suces­
so ou o fracasso de todo o esforço da equipe e da contribuição individual
em cada serViço pode estar diretamente relacionado ao esforço ou à habi­
lidade do psicólogo. Quanto a esta última informação, vamos acrescen­
tar, aqui, que ela se estende a qualquer outro membro da equipe. Se um
assistente social não funcionar bem, ou o orientador profissional, ou o
Ferapeuta ocupacional, ou qualquer outro membro da equipe, também o
resultado final, o conjunto, será prejudicado. É como se fosse um mem­
bro doente, que precisa ser curado, seja por sua melhoria, evolução, cor­
reção, seja pela sua retirada da equipe. Já mencionamos aqui a posição do
psicólogo. Vamos ao segundo problema: quem é o psicólogo? Como tra­
balha o psicólogo? O Dr. Rusk diz aqui, e já mencionamos há pouco, que
nO i' TbNOP.NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

o psicólogo é o único membro da equipe . . . Acrescentamos: em sua espe­

cialidade, pois são freqüentes os momentos em que, para determinação


de certos fatores, por exemplo, o da importância da deficiência física na
existência de determinado problema, é freqüente e é lógico que atuem
conjuntamente o médico, o assistente social e o psicólogo, cada um na
sua especialidade. O médico, para o contribuinte biológico, o assistente
social, para o contribuinte sociológico, o psicólogo para o resultado da
interação desses dois fatores.

Neste trecho de sua conferência Matilde Neder traça aquilo que seria
o perfil do psicólogo para o trabalho institucional. E em que pese o fato des­
ta conferência ter sido realizada em 1 95 9 , seu espaço é atual e coincide com
os traçados mais recentes daquilo que seriam as características necessárias
para um psicólogo que deseja enveredar pelos caminhos institucionais da
realidade hospitalar. Eis a continuidade de sua conferência:

Bem, vamos ver então quem é o psicólogo, não o deste Instituto ou de


determinada clínica psicológica, mas falaremos do psicólogo em geral,
onde quer que ele trabalhe, fazendo por vezes transposições para este Ins­
tituto. Precisamos pensar que o psicólogo é um técnico e que tem que
ser um técnico especializado. E adiantamos que a sua formação tem que ser
esmerada, como a de qualquer outro profissional, naturalmente, mas
principalmente esmerada porque já está se formando aqui, na nossa
sociedade, uma facilidade imensa para a improvisação de psicólogos. O
nosso psicólogo, do Instituto de Reabilitação ou de qualquer outro ins­
tituto, tem que ter uma formação especializada de nível universitário.
Não se deve prescindir disso, de forma alguma. Porque é na universida­
de que o psicólogo recebe a formação básica psicológica e das ciências
afins; aprende a tomar contato com as provas psicológicas; aprende, pe­
lo manuseio dessas provas e dessas técnicas, que essas mesmas provas às
vezes não valem nada, se não interpretadas dentro de suas limitações e da
concepção do todo, que é a personalidade; aprende que essas provas mui­
tas vezes são um auxiliar precioso; aprende a respeitar os outros técnicos
da equipe, isto é, aprende a trabalhar com os demais técnicos e a ver até
onde vai sua atribuição e até onde deve deixá-la para outros colaborado­
res, aproveitando os resultados de seu trabalho. Temos em nossas univer­
sidades, na Universidade Católica ou na Unjversidade de São Paulo , cur-
111

sos b<ísicos de Psicologia, nas secções de Pedagogia, de Filosofia, e agora


de Psicologia, e cursos de pós-graduação,4 em Psicologia, Psicologia Edu­
cacional e Psicologia Clínica, já que o psicólogo se especializa principal­
mente nos cursos de pós-graduação. Então lá se vão de 6 a 8 anos de espe­
cialização em Psicologia, já não se podendo falar em improvisação de
psicólogos; ainda esses anos são, de um certo modo, poucos, para o que
se espera do psicólogo, e admitimos que a prática e a experiência venham
completar-lhe a formação.

Neste ponto da conferência, é interessante notar a ênfase dada para a


importância da formação desse profissional. A necessidade de uma reavalia­
ção emocional, dos próprios limites pessoais, e, principalmente, da abran­
gê,ncia que sua atuação irá atingir. Esse aspecto é, sem dúvida alguma, um
dos pontos mais polêmicos no campo da psicologia hospitalar. Os aspectos
teóricos, filosóficos e emocionais necessários para a formação do psicólogo
que irá atuar na área hospitalar são dados que merecem uma reflexão contí­
nua de seu esmero e direcionamento.
Ao falarmos na formação profissional do psicólogo da área hospitalar,
estamos, seguramente, esbarrando num outro ponto bastante crônico da for­
mação acadêmica do psicólogo, que é a falta de subsídios teóricos para uma
prática dentro do contexto institucional. A formaç ão acadêmica é bastante
restrita para sedimentar a prática que envolve a realidade institucional. E
apesar das inúmeras tentativas nos mais diversos cursos acadêmicos, o que
ainda se assiste é um total distanciamento desses ensinamentos da realida­
de institucional com a qual o psicólogo irá deparar: A formação acadêmica
do psicólogo é falha em relação aos subsídios teóricos que possam embasá­
lo na prática institucional. Essa formação acadêmica, sedimentada em ou­
tros modelos de atuação, não o provê com o instrumental teórico necessário

4. Na ocasião em que essa conferência foi proferida, os cursos de psicologia, assim como a profis­
são de psicólogo, não haviam sido regulamentados como ocorre hoje. Assim, é possível entender­
se o apelo de Matilde Neder no sentido de que os possíveis interessados em atuar como psicólo­
gos procurassem cursos universitários para a aquisição dos subsídios teóricos necessários para um
desempenho profissional qualificado. Esse apelo, no entanto, apesar da regulamentação dos cur­
sos e da profissão de psicologia, é atual na medida em que os diversos cursos de formação de psi­
cólogos espalhados pelo País, na verdade são antes verdadeiras fábricas de diplomas sem o menor
compromisso com a dimensão humana e profissional dessa prática.
112 I TfNDeNCIAS EM PSICOLO<JIA HOSPITALAR

para uma atuação nessa realidade. Torna-se então abismático o hiato t] llt'
s e para o esboço teórico de sua formação profissional e de sua atuação prát i ­
ca. Apenas recentemente a prática institucional mereceu preocupação dos
rl'sponsáveis pelos programas acadêmicos em psicologia. E, na quase ma io­
ria das vezes, essa prática institucional, apesar de ser uma alternativa mos­
I rada ao psicólogo pela dimensão do estrangulamento do mercado profissio­
nal, ainda assim se mostra precária em sua estruturação como vertente
optativa5 (Angerami, l 984).
Após essa breve reflexão, voltemos', então, à conferência de Matilde
Neder:

Mas essa formação só se efetiva quando certas condições são satisfei­


tas. Nós dissemos que, às vezes, o psicólogo ou o estudante de psicolo­
gia é aconselhado a mudar de profissão, principalmente o estudante de
psicologia. Por quê? Porque é importante também conhecer o tipo de
personalidade do psicólogo. Interessa saber como ele é, que problemas
tem, se está com problemas de ajustamento; se estiver, ele precisa se
conhecer melhor, assim como seus problemas, dificuldades e tendências
a projeções. Deverá ter a assistência de outro psicólogo, que inclusive
supervisionará seu trabalho, além de auxiliá-lo na conscientização de
seus processos inconscientes, a fim de que alcance um melhor equilí­
brio. Não vamos pensar que o psicólogo deve ser perfeito, mas é impor­
tante que ele saiba de seus pontos fracos, para acudir-se no momento
preciso, e para que não comece a projetar seus problemas em clientes e
colegas, isto é, não comece a atribuir aos outros qualidades que são suas,
pensamentos que são seus, dúvidas, angústias, ansiedades suas, e tam­
bém não se deixe envolver por situações problemáticas que se estabele­
çam. É muito comum, nas instituições, que um cliente tente envolver
os técnicos dentro de sua problemática em meio aos seus conflitos. E
quantos deles não conseguem ! Quantos técnicos, permitam-me a

5. O Instituto Sedes Sapientiae é uma instituição que se notabilizou por uma postura crítica fren­
te aos arbítrios e em defesa dos direitos humanos. Na capa do seu livreto de cursos está escrito
que os cursos do Instiruto Sedes Sapientiae constiruem-se em cursos livres, portanto não sujeitos
à regulamentação do MEC. No entanto, conquistou uma seriedade e respeito que poucas insti­
tuições no Brasil têm; conquistou o respeito acadêmico e científico de toda a comunidade pela
notoriedade de seus cursos e pela qualificação das pessoas que os ministram.
/1t/111/"111" lu�t/111./l,n·: 11 /llmll/r·/1 11111 � ''" /'lomlrtit I 111
··--- -�--�·

expressão, não "vão na onda" tio d icntt:! E então, se o psicólogo não esti­
ver preparado, se não se conhecer devidamente, estará fracassando na sua
finalidade.
I. Vamos dizer algo sobre o que se espera que o psicólogo faça, aqui no
Instituto de Reabilitação. Constituem algumas de suas principais atri­
buições: a) determinação e conhecimento das condições intelectuais e da
personalidade, interesses, aptidões, habilidades específicas do cliente, a
fim de que a equipe conheça suas habilidades, potencialidades e limita­
ções, e esteja a par de possíveis problemas emocionais e de ajustamen­
to, além de suas possibilidades reativas; b) colaboração com todos os
membros da equipe; c) assistência psicológica ao cliente em processo de
reabilitação; d) contato com a família do cliente, esclarecendo-a sobre
as condições do mesmo; e) pesquisas psicológicas, tendo em vista o cam­
po da reabilitação; f) treinamento de outros psicólogos, no campo da
reabilitação; g) instrução e assistência psicológicas, em aulas e acompa­
nhamentos de estágio, a alunos de cursos especiais, promovidos pelo Ins­
tituto (terapia ocupacional, fisioterapia, prótese ou outros).

No trecho a seguir, Matilde Neder irá abordar as atribuições do psicó­


logo no tocante à aplicação de testes. Essa prática, na ocasião da conferên­
cia, era uma das que primeiro identificava o psicólogo. E apesar dos anos
que nos separam da data dessa conferência, é possível observarmos que ain­
da hoje muitos profissionais de psicologia fazem de suas atividades uma
mera e simples aplicação de bateria de testes. No contexto hospitalar, esse
aspecto fica ainda mais delicado na medida em que o paciente hospitaliza­
do será avaliado sem apresentar as condições mínimas necessárias para a ava­
liação. Pessoalmente, nada tenho contra o instrumental representado pelas
baterias de testes, apenas considero que esse tipo de prática deveria merecer
um maior cuidado para que essa atividade não se perca num mero reducio­
nismo de transposição de materiais inerentes à prática de consultório para
uma realidade institucional. O teste deve servir como instrumental de apoio
ao psicólogo em sua avaliação, e nunca como instrumento para o qual todas
as demais atividades irão convergir.
O uso de testes na instituição hospitalar deve ser resguardado, inclusi­
ve, sobre o determinismo e a relatividade de seus resultados. Essa situação
é agravada, como dissemos anteriormente, pela própria enfermidade que
11i1 I TeND�NCIAS !M P"r.oLmHA HosPITALAR

acomete o paciente hospitalizado. O psicólogo não necessita abrir mão de seu


instrumental , de suas crenças e convicções para o desenvolvimento de u ma
prática na realidade institucional. Apenas não deve, na tentativa de adapta­
ção de seu instrumental para essa realidade, perder os parâmetros que dão
consistência aos resultados obtidos.
Na seqüência, a continuação da conferência de Matilde Neder:

É comum pensar-se que a função do psicólogo é aplicar testes. Não


é. A aplicação de testes é uma das atribuições do psicólogo. Uma, e nem
sempre a mais importante. Se o psicólogo não souber, e não puder ver,
observar, de nada adiantará aplicar a mais completa bateria de testes. O
teste em si pouco vale se não se souber explorá-lo em todo o seu alcan­
ce e dentro de suas limitações. Mas, de fato, uma das atribuições do psi­
cólogo é a aplicação de testes, ou, melhor dizendo, de provas psicológi­
cas, já que, muitas vezes, são utilizadas certas provas como as "técnicas
projetivas", os questionários e outras, que não podem ser chamadas de
testes, porque têm uma designação específica; mas não vamos entrar
nesse problema, iríamos longe demais. Podemos dizer, entretanto, que
a aplicação de testes é importante, desde que o psicólogo saiba tirar das
provas os elementos necessários. para a melhor compreensão do cliente
e para uma melhor atuação junto a ele. Como foi dito, o psicólogo deste
Instituto submete o cliente a provas de conhecimento do nível intelec­
tual, da personalidade, dos interesses, das aptidões e para conhecimen­
to de certas habilidades específicas, mas tudo isso sempre na decorrên­
cia das exigências de cada caso e das necessidades do cliente. Então os
senhores poderiam perguntar-me: quer dizer que, conforme a necessi­
dade, o psicólogo aplica uma prova de nível intelectual, ou estuda a per­
sonalidade? Não. Mas digamos que há um certo entrosamento entre as
próprias provas psicológicas e as suas finalidades, como há também um
entrosamento entre as características das pessoas como um todo. Não
raro estudando a produção intelectual, conseguimos bons dados sobre o
tipo de personalidade do cliente e, estudando a personalidade, obtemos
informações corretas sobre sua atividade intelectual. Jamais a equipe de
reabilitação pede ao psicólogo que estude apenas o nível intelectual do
cliente, ou apenas seus interesses profissionais; a equipe pede uma ava­
liação psicológica do cliente e indica, se houver interesse, o aspecto
específico de cujos dados são mais necessitados. É essa a necessidade a
11!1

que me refiro. Competirá, então, ao psicólogo escolher as provas e veri­


ficar os dados médico-sociais, muitas vezes acrescidos dos dados dos
Serviços de Orientação Profissional, das atividades da vida diária e da
fisioterapia, conforme o caso. O importante é saber qual é o problema,
no que o cliente é deficiente, qual sua dinâmica familiar, sua situação
econômica, cultural e social. Ainda para conhecermos as necessidades
imediatas do cliente e, em função delas, escolhermos as provas para seu
estudo, é muito importante conhecer em que ponto surgiram dificul­
dades para o bom desenvolvimento do processo de reabilitação. Natu­
ralmente, ao examinar o cliente, o psicólogo não irá estudar o nível inte­
lectual apenas e apresentar seus resultados à equipe. Também não irá
aplicar apenas provas de interesse e de aptidão. Porque ele não faz isso?
Porque nós dissemos, já várias vezes, que o indivíduo é um todo, e co­
mo um todo tem que ser respeitado. Não adiantará nada estudarmos o
nível intelectual de nosso cliente, isoladamente, com a pretensão de
que, com base nesse conhecimento apenas, a equipe poderá melhor atuar
junto a ele. De forma alguma. Porque a capacidade intelectual de uma
pessoa não é independente de seu todo; ela está relacionada a caracterís­
ticas de personalidade, da mesma maneira que estão seus interesses e
aptidões. Assim é que, de forma até freqüente, as provas psicológicas
exigem interpretação clínica. Muitas vezes uma assim chamada simples
prova de nível intelectual, por exemplo, exige uma interpretação clíni­
ca, devendo o psicólogo estar preparado para tal. Ainda exemplificando
nesse campo, digamos que um cliente revelou possuir um Q.I. pouco
abaixo dos padrões de normalidade. Guardamos essa informação, dado
o objetivo da capacidade de produção intelectual do cliente, pelo menos
naquele momento. Mas o psicólogo continua com suas observações,
apoio, estimulação e indução, além da avaliação de personalidade e da
consideração devida às condições físicas, sociais e culturais. Pois não raro
o baixo nível econômico e cultural e a quase nula solicitação do mundo
exterior, somados a problemas emocionais, podem contribuir para que
se tenha uma falsa idéia de sua potencialidade, podendo comprometer
o cliente, que sofrerá redução na sua produtividade. Livre de suas inibi­
ções, conflitos ou outras interferências, o mais provável é que a pessoa
possa mostrar o seu verdadeiro e real Q.I. Não quer dizer, absolutamen­
te, que o Q.l. pode ser assim aumentado, ou que houve progresso de Q.I.
O certo, porém, é reconhecermos que inicialmente a pessoa não se mos­
trou em toda a sua potencialidade, não se mostrou tal qual era, e só de-
118 I TtNDE NCJAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

pois, livre das interferências, pudemos conhecê-la realmente em sua inte­


lectualidade. Em outros casos, porém, convém notar que as várias inter­
ferências não são suficientes para prejudicar a produtividade intelectual
e, em outros, com ou sem problemas emocionl!-is sérios, tal produção é
realmente baixa. Cabe ao psicólogo fazer as devidas diferenciações. O que
se diz em relação ao Q.I. estende-se aos estudos dos interesses. Falando
do fator econômico, encontramos muitas vezes pessoas tão pobres, tão
míseras, que sua necessidade básica primordial é encontrar o que comer,
o que vestir e onde dormir, e tais motivos e interesses sobrepujam quais­
quer outros; daí não manifestarem tais pessoas o discernimento necessá­
rio para reagir bem a uma prova de interesses.

Ao fazer tais colocações sobre as implicações socioeconômicas desses


pacientes, Matilde Neder, na verdade, antecipa uma das discussões atuais
sobre a verdadeira abrangência da psicologia e de seu instrumental. É ine­
gável o avanço da psicologià na direção daquela camada da população des­
provida de recursos culturais e materiais. A própria psicologia hospitalar é
exemplo dessa conquista. No entanto, ainda assistimos a um distanciamen­
to da psicologia em relação a essas pessoas. Esse, inclusive, é um dos fatores
que dificultam a atuação do psicólogo no contexto institucional. Lidar com
uma população carente econômica e culturalmente é bastante complicado
na medida em que a maioria das teorias que abarcam a compreensão do tom­
portamento humano é estruturada �m realidades bem diferentes da brasi­
leira. E o que talvez agrave ainda mais esse quadro é o fato de essa discus­
são estar ausente quando do estudo dessas teorias.
A realidade hospitalar, por outro lado, traz um outro complicador, que
é o fato de seus aspectos institucionais distarem de maneira gritante da
idealização daquilo que deveria ser uma instituição que atende aspectos vi­
tais e de saúde da população. É como se o quadro caótico mostrado pelos
hospitais mostrasse a própria crueldade da vida dessas pessoas. Se o aten­
dimento médico-hospitalar chegou a esse ponto de estrangulamento, é
facilmeme imaginável em que condições se encontram outras necessidades
da população, como saneamento, educação, transporte etc. Na realidade, a
busca da humanização do hospital nos leva ao encontro da humanização da
própria sociedade.
117

Voltemos a Matilde Neder:

De um modo geral, submetê-los a tais provas, enquanto nessas con­


dições, seria improdutivo, desnecessário e uma perda de tempo. Ainda
no que se refere aos interesses, as interferências emocionais podem estar
presentes, o que é realmente importante conhecer. Quantas vezes, por
exemplo, não encontramos pessoas que se dirigiram a determinado
campo profissional porque problemas infantis assim o ditaram? Quan­
tas vezes alguém não procura o exército porque necessita de uma auto­
ridade materna, a pátria, para dirigir seus passos? Há casos em que é
aconselhável mesmo que essas pessoas não sigam os ditames desses
impulsos infantis, mas em outros casos não seria prejudicial. E como
saber se aquela escolha deveria ser mesmo aprovada, ou se deveria ser
feito outro encaminhamento ao indivíduo? Para tanto, o psicólogo estu­
da conjuntamente as reações do cliente, pelas entrevistas e pelas provas,
buscando conhecer seu nível intelectual, interesses e aptidões, sempre
ao lado do estudo da personalidade, para que se conheçam também suas
características, problemas emocionais e capacidade reativa dentro da
dinâmica de cada caso.
Que provas psicológicas nós usamos no Instituto? Não vamos rela­
cionar ou apresentar aos senhores as provas que possuímos: em primei­
ro lugar, porque isso não seria talvez muito interessante e, em segundo
lugar, porque, havendo psicólogos presentes, e eu já vi que há, esses po­
dem procurar-nos em nossa sala, onde estaremos às ordens para mostrá­
las e comentá-las, conforme seja de seu interesse. Os senhores psicólo­
gos sabem perfeitamente da inconveniência de apresentar provas
psicológicas para divulgação, mesmo que haja um relativo interesse
científico pelo fato; ainda com referência a testes, queremos mencionar
a dificuldade existente em nosso meio, já que são poucas as provas afe­
ridas de que dispomos, o que nos obriga ainda mais a recorrer à capaci­
dade compensatória decorrente da boa formação do psicólogo.

No trecho seguinte de sua conferência, Matilde Neder abordará aspec­


tos multidisciplinares na dinâmica hospitalar. É interessante notar que esse
ponto converge para as discussões atuais de como deve ser o relacionamen­
to dentro da instituição hospitalar. E a maneira didática como ela apresen­
ta essa questão faz com que possamos refletir sobre as vertentes atuais da
1 1 8 I T�NDP.NCtAs eM Pstull ootA HosPtTALAI'I

m u ltid isciplinaridade. E na verdade o que é colocado, em sua explanação, {:


u ma proposta de interdisciplinaridade, uma interação verdadeira entre os
d i versos profissionais atuantes no contexto hospitalar.
Novamente, Matilde Neder:

Passemos a falar agora sobre o relacionamento do psicólogo com os


diferentes membros da equipe. Citaremos primeiramente o médico e o
assistente social, que atuam justamente junto dos fatores que contri­
buem para a formação da personalidade: o biológico e o social.
Com o médico: o psicólogo precisa de informações sobre a situação físi­
ca do cliente, da qual, aliás, ele já toma conhecimento antes do seu pri­
meiro contato com ele. Muitas e muitas vezes o cliente exagera seu esta­
do de deficiência, por reações emocionais e comportamento inadequados,
apresentando uma também exagerada "tomada de consciência" de si
mesmo e de seu problema físico. Sentimos, muitas vezes, que o cliente
precisa de uma explicação, ou de uma abordagem bem objetiva sobre o
seu estado de saúde. Recorremos então ao médico, que vai conversar com
o cliente e lhe diz, com sua autoridade de médico, e naturalmente com
uma forma própria de fazê-lo, qual a situação real. Outras vezes o inte­
resse do cliente parece concentrar-se exclusivamente na reabilitação físi­
ca, numa larga expectativa de melhora antes de aceitar-se como é e dese­
jar a reabilitação total. Nesses e noutros casos tem o psicólogo a
oportunidade de atuar de forma. mais estreita com o médico, além do
relacionamento comum e usual.
Com o assistente social: os senhores, que tiveram ainda há pouco a
oportunidade de ouvir a apresentação da assistente social do Instituto,
D. Luiza Banducci , convirão que ficou objetivamente apresentada aqui
a situação do assistente social, fazendo seu serviço social, e que é fácil
ver qual o entrosamento da função do psicólogo com a desse técnico.
Mas podemos dizer rapidamente que o serviço social permite ao psicó­
logo o conhecimento dos condicionamentos familiares e dos grupos em
que vive o cliente, permitindo-nos perceber como tais fatores atuam
sobre ele.
Com a terapia ocupacional: as atividades desse serviço constituem auxi­
liar precioso ao bom desenvolvimento do processo de reabilitação, e seu
relacionamento com o serviço de psicologia se dá em função das neces­
sidades psicológicas do cliente, o que é esclarecido ao técnico em tera-
I 111

pia ocupacional. As atividades desse servic,;o, ao permitir descargas emo­


cionais, permitem também uma diminuição das tensões do cliente, das
opressões, aliviando-o; fazem com que ele se sinta mais seguro, aumen­
tando sua autovalorização, não raro ganhando a sensação de que é útil,
de que tem valor, de que é uma pessoa que merece a consideração das
demais. O psicólogo presta também ao técnico em terapia ocupacional
informações psicológicas sobre as condições e possibilidades de traba­
lho do cliente, já que este será também observado por ele em suas rea­
lizações práticas, tendo em vista a orientação profissional. Em relação às
atividades da vida diária, esperamos que o psicólogo possa dar ao técni­
co desse serviço elementos para um melhor atendimento do comporta­
mento e da necessidade do cliente, esperando também que o técnico em
atividade da vida diária possa, com mais facilidade, conseguir seu obje­
tivo, qual seja, o da independência cada vez maior do cliente dentro de
suas limitações.
Com o fisioterapeuta: por entendimentos com o serviço de fisiotera­
pia, além de certos cuidados psicológicos que são dados ao cliente, são
também dados outros cuidados fisioterápicos, como exercícios ginásti­
cas, jogos e atividades de relaxamento, sendo resolvidos muitos proble­
mas de tensão exagerada e de necessidade de descargas emocionais.
Com o técnico em locomoção: também com o técnico em locomoção é
mantido um relacionamento através de informações, de ambas as par­
tes, sendo que, com o conhecimento das características, necessidades,
dificuldades, problemas e possibilidades do clknte em questão, o téc­
nico tem maiores possibilidades de sucesso rápido com o cliente; não
raro, durante o processo de aprendizagem da locomoção é solicitada a
ação do psicólogo para um acompanhamento do caso, dadas as interfe­
rências emocionais que perturbam o andamento da independentização.
Trata-se muitas vezes de tensão exagerada, de medo de ser abandonado
pelo técnico, sempre expressivos de outros medos e experiências afeti­
vas, tantas vezes inconscientes e reprimidas.
Com o orientador profissional: poderíamos dizer que, no Instituto de
Reabilitação, é o orientador profissional quem mais solicita os trabalhos
do psicólogo. Realmente, para seus trabalhos de orientação e aconselha­
mento, e, posteriormente, de colocação profissional, ele precisa de dados
psicológicos, e nós procuramos satisfazê-lo em tais necessidades. O psi­
cólogo aplica provas de nível intelectual, incluindo personalidade, inte­
resses, aptidões e habilidades específicas, e acrescenta o seu parecer pes-
120 I TtNUtNUAS �M P�ltlli.O\.iiA HOSPITALA"

soai, com recomendações que são discutidas com a equipe e, m ai s parti·


cularmente, com o orientador profissional, que utiliza essas informaçõt•s
para o exercício de sua função. A maneira de utilizar essas informações é
determinada pelo orientador profissional. Pretendo, entre parênteses, dar
resposta a uma questão ontem proposta por um seminarista num dos
intervalos. A pergunta foi dirigida a uma orientadora, que se encontrava
em minha companhia, e referia-se aos testes por ela usados. A orientado­
ra profissional, muito acertadamente, respondeu que os testes do Insti­
tuto de Reabilitação não são aplicados pelo orientador profissional, mas
sim pelo psicólogo, a este competindo a aplicação de provas de interesse
profissional e de aptidões, ao lado de provaS de personalidade e de nível
intelectual, enquanto ao orientador profissional compete orientar; acres­
centou que o seminarista poderia ter hoje outros esclarecimentos. Dize­
mos que se é o psicólogo que aplica todas aquelas provas, é porque é ele
o técnico especializado para tal, podendo, com sua compreensão clínica
psicológica, evitar mais facilmente o risco de que a escolha da profissão
seja feita em função das interferências emocionais, podendo alcançar to­
da a extensão dessa interferência. Temos ainda o relacionamento do psi­
cólogo da equipe com a administração. O psicólogo respeita as disposi­
ções administrativas, acatando-lhe as determinações, enquanto a
administração, também cumprindo suas obrigações, é responsável tanto
pela seleção de técnicos quanto por zelar sempre pelo melhor condicio­
namento das situações de trabalho pessoal, material e social.

No trecho a seguir, Matilde Neder irá discorrer sobre a importância do


relacionamento com profissionais de outras entidades, que de alguma for­
ma participam do tratamento recebido pelo cliente. Esse aspecto é bastan­
te importante, pois muitas vezes a seqüência do tratamento a ser recebido
pelo cliente implica o atendimento de outros profissionais de outras entida­
des. Não havendo um bom entrosamento, há o risco de perda de continui­
dade e até mesmo do desmoronamento das escoras que possam ter sido efe­
tivadas na estruturação inicial do atendimento psicológico. Além disso, na
medida em que são necessários vários encaminhamentos a outras unidades,
a abrangência do trabalho emocional somente será completa se essas mudan­
ças forem consideradas e trabalhadas em todos os seus aspectos.
Concluindo a conferência de Matilde Neder:
l'•'' "'"l'.'" hmpi!.il.tr: 11 /'IIIH'/''1111111 " ,, . /•lllllr'll'•" I 121
• <>· ---- ··

O psicólogo da equipe relaciona-se também com técnicos de outras


instituições, de outros serviços de psicologia, e podemos citar, entre ou­
tros, o Senai, o Instituto de Psicologia
"'
da Pontifícia Universidade Católi-
ca, o Serviço de Psicologia da Faculdade de Filosofia da Universidade de
São Paulo, a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, além de, através
do médico coordenador da equipe, relacionar-se com a Clínica
Psiquiátrica do Hospital das Clínicas. Consideremos, por exemplo, que
o Instituto de Reabilitação não recebe doentes, quer físicos ou mentais.
Assim, quando candidatos com problemas psiquiátricos, embora não
doentes mentais, são enviados ao Instituto, o relatório de encaminha­
mento, que sempre é preenchido por um médico, dessa vez o será neces­
sariamente por um médico psiquiatra, do qual se espera a assistência psi­
quiátrica do caso durante a evolução do processo de reabilitação. Da
mesma maneira, sempre que necessário, são feitas consultas à clínica,
embora o caso possa provir de encaminhamento diverso. Casos há, entre­
tanto, que necessitam primeiramente ser tratados psiquiatricamente, fo­
ra do Instituto, na clínica de psiquiatria do Hospital das Clínicas ou em
clínicas particulares, para só depois poderem de fato beneficiar-se do tra­
balho de reabilitação. No Instituto, cuidamos daqueles que, embora ten­
ham problemas emocionais, conseguem estabelecer um bom contato
com a realidade, de modo que a equipe possa trabalhar com ele, levan­
do-o a participar do seu próprio processo de reabilitação. Essa assistên­
cia psicológica que damos ao cliente pode ser traduzida como a terapêu­
tica psicológica. O psicólogo busca dar apoio e esclarecimento ao cliente
sobre suas condições emocionais e, na medida do possível, levá-lo a uma
conscientização dos seus problemas, apoiando-o em sua crescente valori­
zação e aceitação, para que ele possa enfrentar melhor sua realidade. Pro­
cedemos sempre com o máximo cuidado, sem grande aprofundamento,
já que o cliente fica aqui um curto espaço de tempo; se o cliente chega a
precisar de cuidados mais extensos e profundos, ele é encaminhado para
instituições especializadas ou para psicoterapeutas particulares.
O psicólogo também se relaciona com a família do cliente, dando­
lhe orientação psicopedagógica.
Finalizando, diremos que ao psicólogo compete também pesquisar
dentro do campo da reabilitação, e a ele compete dirigir e supervisionar
o trabalho de estagiários a seu serviço, exigindo deles condições básicas,
como já disse, relativas à sua formação e personalidade, além da boa qua­
lidade de trabalho dentro do Instituto. Colocamo-nos sempre, sem
1 22 I Tt!NDeNct�s IM ,.\lwt t n ,tA H osPtTALAft

dúvida, à disposição de quantos psicólogos queiram especializar-se no


campo da reabilitação. E para isso estamos aqui, ao seu dispor, poi s este
Instituto é um centro-piloto de demonstração.

O trabalho de Matilde Neder no Instituto Nacional de Reabilitação da


USP teve grande repercussão, a ponto de figurar não só na história da Psi­
cologia Hospitalar, mas na própria história da Psicologia no Brasil. Anote­
se ainda o fato de essa atividade estar registrada no Department ofEconomic
and Social Affairs da ONU na publicação Basir Servires and Equipmentfor Re­
habilitation Centres - Part V - Psyrhologiral Servires in the Rehabilitation of
the Disabled, ONU, Nova York, 1 967 . Também existe registro dessa ativi­
dade nos anais do I Congresso Brasileiro de Medicina Física e Reabilitação,
que foi realizado em São Paulo, em dezembro de 1 96 1 .

1 974 - Bellkiss Wilma Romano Lamosa é convidada para a organiza­


ção e implantação do Serviço de Psicologia do Instituto do Coração do Hos­
pital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Bellkiss recebeu esse
convite após anos de atividades em diversas unidades do Hospital das Clíni­
cas da USP. Ao assumir essa responsabilidade nessa data, Bellkiss estava na
realidade sedimentando uma atividade que, j untamente com o Instituto do
Coração como um todo, abriria as portas à população apenas em 1 977.
Numa simples tentativa de ilustração dessa trajetória, cito trecho de
sua dissertação de mestrado (Lamosa, 1 98 1 ):

Quando viemos para o Instituto do Coração a fim de organizar o


Serviço de Psicologia, os cardiologistas tinham algumas perguntas co­
mo "Qual o papel do stress nas doenças cardiovasculares? Existem méto­
dos psicológicos para estudos epidemiológicos? Existe uma personali­
dade coronária? Existem predisposições psicológicas à coronariopatia?"
A essas perguntas, com o passar do tempo e com a convivência entre psi­
cólogos e cardiologistas, foram anexadas outras, agora com o acréscimo
das dúvidas de toda a equipe multiprofissional. E alguns trabalhos
foram desenvolvidos em torno dessas questões.

Em outra publicação (Lamosa, 1 990) de sua autoria, Bellkiss mostra a


sedimentação teórico-prática de sua atividade:
121

O Elo Entre a Cardiologia e a Psicologia

A literatura é historicamente abundante sobre os aspectos fisiológi­


cos dos estados emocionais �gudos (como raiva, ansiedade, excitação
sexual etc.) que envolvem o sistema cardiovascular e cujas manifesta­
ções são facilmente identificáveis (aceleração perceptÍvel de ritmo, ele­
vação da tensão arterial, parada cardíaca etc.), quadros estes descritos
desde a Antiguidade.
(...) Essas ligações psiquismo/coração persistiram (e algumas ainda
são absolutamente atuais), permearam e orientaram a maioria das pes­
quisas que se sucederam. Mas a natureza precisa dessa ligação ainda per­
manece indefinida. A constatação de que as doenças cardiovasculares são
a principal causa mortis nos países desenvolvidos (e que aumenta.ín pro­
gressivamente em importância nos países em desenvolvimento) tem
conduzido as pesquisas a buscar essa ligação. (...) Desde 1978, vinha
sendo cogitada e discutida a viabilização de um estudo internacional so­
bre a identificação, quantificação e qualificação de problemas psicoló­
gicos e neurológicos observados após cirurgia cardíaca.

E referindo-se a um dos autores responsáveis pelo impulso da ligação


entre psicologia e cardiologia, Bellkiss coloca:

(...) para cada tipo de afecção psicossomática, deveria existir um per­


fil de personalidade que poderia ser deduzido estaticamente. A ele tam­
bém é atribuído o mérito de ter descrito um perfil específico do coro­
nariano, que posteriormente conduziu um grande número de autores a
buscar uma precisão sobre essa descrição comportamental.

Em outro trecho de seu trabalho, Bellkiss ilustra a maneira como é


realizado o enfeixamento das atividades da psicologia junto ao paciente car­
diopata:

(...) Não se pode deixar de mencionar os avanços tecnológicos tam­


bém como propulsores para o fortalecimento do elo entre psicologia e
cardiologia. O primeiro desses avanços que merece ser lembrado é o da
cirurgia cardíaca. Numerosas publicações foram direcionadas para os
diferentes tipos de intervalos cirúrgicos.
124 I T�NP�NCIAS tM PsiCOLOGIA HosPITALA�

Esses pequenos trechos ilustram, ainda que precariamente, algumas das


pi lastras de sustentação de sua atividade e seu pioneirismo no binômio psi­
cologia - cardiologia. Ou ainda em outro trabalho quando afirma que

A constatação freqüente da existência de problemas psíquicos aclo­


pados ao processo de transplante cardíaco indica, por si só, a necessida­
de de acompanhamento psicológico e da presença desse profissional na
equ1pe.

1 976 - A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo oferece aos


alunos de graduação em psicologia o curso Atuação do Psicólogo em Hos­
pital, sob responsabilidade de Bellkiss Wilma Romano Lamosa. Esse foi o
primeiro curso de psicologia hospitalar dentro de um programa de gradua­
ção em psicologia. Esse curso foi oferecido aos alunos de psicologia da PUC
até 1 980, quando então Bellkiss deixou suas atividades acadêmico-didáti­
cas naquela universidade. Foi a semeadura de muitos outros cursos que pos­
teriormente pontearam em várias faculdades pelos mais diversos cantos
deste País.

1 979 - Regina D'Aquino cria, por meio do Instituto Transpessoal,


em Brasília, um trabalho integrado com a família e a equipe médica junto
ao paciente terminal. Pela sistematização da atividade e pela repercussão em
si da atividade, é um dos grandes marcos de atuação diante da morte e suas
implicações.

1 979 - Wilma C. Torres inicia, como coordenadora, o Programa de


Estudos e Pesquisas em Tanatologia no Instituto Superior de Estudos e
Pesquisas Psicossociais da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de ] aneiro. Es­
sa atividade enfeixando discussões sobre questões inerentes à morte é um
marco rumo a um novo dimensionamento de embasamento do psicólogo no
contexto hospitalar.

1 981 - O Instituto Sedes Sapientiae de São Paulo oferece aos alunos


graduados em psicologia o curso de especialização em psicologia hospita­
lar, sob minha responsabilidade. Esse foi o primeiro curso de especializa­
ção em psicologia hospitalar. É um verdadeiro marco e ponto de referência
a todos que tentam seguir as trilhas da psicologia hospitalar. O curso é ofe-
125

recido até esta data, com a participação de inúmeros colegas que acorrem
vindos dos mais distantes cantos e cidades do País, Até mesmo o horário
de suas atividades é programackl visando facilitar o acesso de pessoas de
outros estados, que, num esforço hercúleo, passam noites e madrugadas
num ônibus-leito, assistindo e participando das atividades para retornar
aos seus locais de origem em seguida. Ressalte-se ainda o fato, determina­
do até mesmo pela importância do Instituto Sedes Sapientiae, de esse cur­
so ser referendado obrigatoriamente por tantos profissionais que lá reali­
zaram sua formação e que arduamente militam na área da psicologia
hospitalar.
Nessa ocasião, também foi criado o Departamento de Psicologia Hos­
pitalar do Instituto Sedes Sapientiae que, igualmente sob minha responsa­
bilidade, passou a organizar não só os cursos de especialização como outras
atividades, incluindo-se aí os cursos de expansão universitária, simpósios e
publicações especializadas, além da organização de movimentos reivindica­
tórios visando sempre aos interesses da categoria.

1982- Marli Rosani Meleti normatiza, após anos de atividades, o Se­


tor de Psicologia do Serviço de Oncologia Ginecológica da Real e Bene­
mérita Sociedade Portuguesa de Beneficência. Esse trabalho é um marco na
psicologia hospitalar pela mudança de procedimento médico diante da pos­
sibilidade de mastectomia devido à presença de câncer. Essa atividade é nar­
rada em detalhes no capítulo "A Atuação do Psicólogo no Contexto Hospi­
talar junto a Pacientes Mastectomizadas" (Angerami, 1984).

1982- Heloisa Benevides Carvalho Chiattone, atuando no Serviço de


Pediatria do Hospital Brigadeiro-SP, implanta o Setor de Psicologia que,
indo ao encontro dos preceitos do serviço, de humanização do atendimento
da criança hospitalizada, normatiza o Projeto Mãe-Participante. Esse proje­
to, pioneiro no Brasil, possibilita às mães participar da hospitaJização dos
filhos, acompanhando os processos pré e pós-cirúrgico6, permanecendo hos­
pedadas no próprio hospital durante o processo de internação dos filhos.

6. Esse trabalho é descrito em detalhes no capúulo "A Criança e a Hospitalização", de Chiattone,


H. B. C., in: A Psicologia no Hospital, de Angerami, V. A. (org.). São Paulo: Traço, 1988.
ue I TtNOeNCIAl IM p"' lll llloiA HosPITALAR

1 983 - É realizado em São Paulo o I Encontro Nacional Psicólo­


de
gos da Área Hospitalar, promovido pelo Serviço de Psicologia do Hospital
das Clínicas da USP, sob a responsabilidade geral de Bellkiss Wilma Ro­
mano Lamosa. Foi o primeiro evento de âmbito nacional a reunir os diver­
sos psicólogos que atuavam de maneira dispersa pelos mais distantes pon­
tos do País. Foi, segundo palavras da própria Bellkiss, uma tentativa de
reunir tantos colegas espalhados em práticas isoladas para tentar um entre­
laçamento de esforços buscando dar à psicologia hospitalar concretude e
consistência prático-teórica. A importância desse evento reside no fato prin­
cipal de ser um marco no encontro das diversas forças de psicologia hospi­
talar que isoladamente não tinham como enfrentar as dificuldades ineren­
tes à própria atividade. Houve união, concentração de esforços e, acima de
tudo, a localização das atividades que estavam fora do raio de ação da nos­
sa visão em São Paulo. Passou-se a conhecer, de maneira detalhada, traba­
lhos e esforços que, anteriormente espalhados, passaram a ter pontos de
encontro e de referência.
Para uma melhor abrangência da importância desse evento e da traje­
tória de Bellkiss Wilma Romano Lamosa, transcreverei sua conferência na
abertura desse encontro:

Atuação do Psicólogo em Cardiologia

O coração tem um simbolismo sociocultural muito próprio: desde a


relação da palavra "coração" corno abrigo dos sentimentos humanos, até
respostas fisiológicas típicas do sistema cardiovascular decorrentes de
estados emocionais, tão freqüentes no nosso dia-a-dia. Ao lado disso, o
coração é supervalorizado corno "máquina que abriga a vida".
Quais os sentimentos que um paciente tem, então, a respeito de um
"coração doente" ? Qual a vivência que o sujeito tem da cirurgia cardía­
ca e da internação? O que significa para o doente, para sua família e para
a comunidade viver com urna prótese?
Mesmo se bem orientado pelo médico, o paciente tem um conceito
baseado em suas imaginações. Essas fantasias formam-se impulsionadas
pelo sentimento de medo e pela consciência da morte, acrescidos no pós-
127

operatório da sensação (ou até de vivência) de que foi aberto, morreu tem­
porariamente e foi unido novamente. A imagem corporal do paciente sofre
modificações, e no pós-operatório surgem sensações de restabelecimento
ou de rejuvenescimento. Então, surge uma mescla de euforia e depressão.
A primeira decorre de ter tido contato com a morte e de ter sobrevivido,
e a última deve-se ao fato de que da morte não se pode escapar.

No trecho seguinte, Bellkiss faz uma análise das condições gerais do


cardiopata. Nesse sentido, é bastante interessante observar-se que, ao defi­
nir as características gerais de um tipo de patologia, estamos instrumenta­
lizando até mesmo nossa forma de atuação. O conhecimento dessas caracte­
rísticas nos dá uma abrangência geral de sua totalidade e faz com que não
nos percamos em meros psicologismos. Analisar-se as características gerais
de uma dada patologia é, antes, uma tentativa de compreensão até mesmo
dos determinantes emocionais do paciente. Muitos trabalhos da área hospi­
talar simplesmente se perdem por desprezar essa abrangência, tornando-se
distantes da própria realidade do hospital e do doente.
Voltemos então a Bellkiss:

Assim, de um modo geral, o meio em que está inserido o cardiopata


é um complexo composto de elementos psicológicos, culturais, huma­
nos, sociais e físicos.
De modo geral e didático, o psicólogo hospitalar atua junto ao seu
paciente (adulto ou criança) enquanto o considera:

• pessoa em si (seus problemas, angústias, temores, limitações, dese­


jos, frustrações)
• pessoa em relação com diferentes grupos:
- multiprofissional;
-familiar;
-comunidade.
• pessoa em situação hospitalar (ambulatório ou internação)
Vamos, então, transportar esse esquema para as situações específicas
da cardiologia e comentar esses tópicos:
1 28 I nNI>rNCIM IM P�IUll l l(oiA HOSPITALAR

L. Paciente como pessoa em si

Quem é o paciente cardíaco?

a. A criança cardíaca é uma criança geralmente limitada do ponto de


vista físico. Mas ela é autolimitada, isto é, sabe, conhece seu corpo e
até quanto pode solicitá-lo. Cansa-se muito facilmente, É uma crian­
ça menor que as outras e de menor peso. As vezes, tem que inter­
romper os estudos para hospitalizar-se; tem freqüentes visitas ao
médico.

Com essas informações, já poderemos esboçar o quadro psicológico


dessa criança. Sabemos que conhecer o mundo, .introjetá-lo, implica
manipulá-lo. Implica estar constantemente em ação no mundo, poder
correr, experimentar, mexer, observar. Essa criança normalmente é mais
parada que as outras. Seu quociente de· inteligência, na maior parte dos
casos, fica levemente prejudicado. E quanto mais cianótica a criança,
mais limitada, mais rebaixado seu quociente. Mas não só pela anoxia,
mas pela .impossibilidade de vivenciar o mundo. Tanto é verdade que a
cirurgia melhora o rendimento nos testes, aproximando-o do normal
para a idade.
Sendo uma criança menor e mais franzina, seu esquema corporal é
mais constrito. Ela se vê frágil, submissa.
Tudo isso se reflete profundamente no seu rendimento escolar, alia­
do às constantes interrupções no decorrer do ano letivo para hospitali­
zações e outros procedimentos.

b. O adulto cardíaco é uma pessoa ansiosa. A primeira fonte pode ser


a própria condição cardíaca e seus sintomas. O advento da dis­
pnéia, palpitação, tonteira ou dor precordial é, naturalmente, o
bastante para provocar ansiedade. Em alguns pacientes, essa
ansiedade pode ser branda e diminuir com o tempo; em outros
pode ir se agravando.

A segunda fonte de ansiedade é a ameaça inerente ao diagnóstico da


cardiopatia. Enquanto o diagnóstico de qualquer doença pode gerar ansie­
dade devido ao dano afetivo ou ameaçador das funções do corpo, a revela-
/11/t �tlt•)JI.t hwjt/t,t/,,·: r1 fthtll,/l'lt/1111 � "' /''""''"'" I 121

ção da doença cardíaca é particularmente ameaçadora. Devido ao fato de


o coração ser universalmente considerado o órgão central indispensável
para a manutenção de vida, ele se torna prontamente o objeto simbólico
tanto do medo consciente como do medo inconsciente. Tais medos são
amplamente reforçados pelo folclore, pela vasta literatura popular e pelas
convenções simbólicas da linguagem diária. Para vários pacientes, o diag­
nóstico de cardiopatia ativa o medo da morte catastrófica, inesperada,
súbita. Embora, na realidade, possa não haver perigo de morte presente a
partir de sua doença cardíaca, vários pacientes tendem a perceber esse
perigo e a aumentá-lo desproporcionalmente.
A terceira fonte de ansiedade se origina da percepção pelo paciente
cardíaco de uma limitada capacidade física e de seu medo de que ela se­
ja progressiva. A tarefa de adaptação psicológica pode impor um peso que
alguns pacientes são incapazes de carregar sozinhos. O indivíduo neces­
sita de auxílio e, às vezes, precisa rearranjar seus padrões de vida levando
em conta sua limitações físicas e ao mesmo tempo tirando melhor pro­
veito de suas capacidades residuais.
Quão bem pode o paciente satisfazer os desafios psicológicos da doen­
ça cardíaca dependerá de vários fatores. Entre os mais importantes es­
tão: a gravidade da doença, a resistência da personalidade do paciente,
as reações de seus amigos e parentes e, particularmente, de seu médico.
O peso psicológico da doença cardíaca pode, em alguns casos, agra­
var um problema preexistente. Para alguns pacientes, a presença da car-
'
diopatia pode oferecer um refúgio contra o crescimento vocacional, ou
uma oportunidade para fuga "aceitável" de conflitos emocionais mais
sérios. Quando se descobre uma doença cardíaca no paciente jovem que
não resolveu ainda os problemas centrados na sexualidade e na indepen­
dência, uma vida de invalidez crônica pode proporcionar um modo con­
veniente de evitar uma confrontação com os problemas de crescimento
emocional e de desenvolvimento. Com pacientes jovens especificamen­
te, a importância de respostas emocionais saudáveis por parte dos pais
não pode ser submetida.
Em alguns casos, o aparecimento da doença cardíaca pode servir co­
mo um modo de precipitar o desenvolvimento de dificuldades psíqui­
cas em pacientes cujas personalidades eram anteriormente integradas
de modo satisfatório.
1 30 I TtNOe NCIAS EM PSICOLOGIA HosPITALAII

2. Paâentes em Relação com Diferentes Grupos

a. Grupo Multiprofissional

A atuação do psicólogo neste top1Co tem aspecto informativo. Ele


informa aos outros profissionais da área de saúde sobre as condições psi­
cológicas em que se encontra o paciente e suas reações, incluindo o cor­
po de enfermagem, médicos, fisioterapeutas, enfim, todos os que lidam
com o paciente. Ao informar como melhor obter a colaboração do pacien­
te e como aproveitar o tempo de hospitalização para o crescimento do
doente, estaremos formando pessoas, isto é, estaremos participando da
formação do pessoal no sentido de aumentar sua sensibilidade, sua per­
cepção e sua empatia com o doente, bem como ampliando o campo de
atuação dos outros profissionais, mostrando-lhes suas potencialidades.

b. Grupo Familiar

A família é o microcosmo do paciente. Para a criança, a atitude dos


pais é mais importante. Eles dificilmente admitem a malformação car­
díaca de sua criança e podem ter sentimentos de culpa, de punição ou
de incapacidade. São naturalmente hiperansiosos, e na crença da perda
súbita desenvolvem uma superproteção.
Para os adultos, um evento isquêmico de instalação súbita gera uma
quebra maciça do balanço psicodinâmico da família, mas pode também
proporcionar uma oportunidade incomensurável para aumentar o cres­
cimento de todos os membros da família.
O acompanhamento formal da família abre espaço para a resolução
de medos e más interpretações, e permite a redefinição de papéis den­
tro da família.

c. Comunidade

A comunidade é fundamental para o tratamento global do paciente.


É ela que receberá de volta o paciente e dará os subsídios para sua reabi­
litação.
Que os pacientes cardíacos, principalmente os coronarianos, podem
e devem retomar as condições normais ou quase normais de vida é a base
da reabilitação. Muito da capacidade de reabilitação é tarefa do hospi­
tal com a comunidade.
111

Esse contexto educacional é freqUentemente necessário ao retornar ao


lar; mesmo se o paciente assimilou o material cognitivo, mudanças nos
hábitos e no estilo de vida devem ser revistas, avaliadas e finalmente
incorporadas no próprio sistema de valores do paciente, desenvolvendo
assim uma mudança comportamental efetiva (sic).
Os programas educacionais têm então a finalidade de diminuir os
sentimentos de dependência do paciente, para ajudar a restituir sua au­
to-estima, aumentar sua confiança nos empreendimentos futuros e
habilitá-lo a lidar com os problemas da doença.

Essa conferência sem dúvida alguma nos dá parâmetros bastante claros


sobre o entendimento global do paciente cardiopata e de como deve ser a
condução do trabalho psicológico. Ilustra não apenas o resultado de anos de
trabalho e reflexão, mas também os alicerces sobre os quais a fundamenta­
ção do trabalho de Bellkiss se acha escorada.
Poderíamos, inclusive, alterando os aspectos de cardiologia, extrapo­
lar, a partir deste capítulo, a atuação do psicólogo em várias outras patolo­
gias, tal a abrangência de suas sistematizações.
Voltemos, então, às datas que fizeram a psicologia hospitalar no Brasil.

1983 -É lançado, dando início à série Caderno Prohasa- Progra­


ma de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistema
de Saúde da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, a brochura "Atua­
ção do Psicólogo em Área Hospitalar", organizado por Bellkiss Wilma
Romano Lamosa. Essa publicação determina o próprio reconhecimento
do trabalho desenvolvido pelo psicólogo dentro do contexto hospitalar.
Além de iniciar uma série composta por inúmeros temas, constitui um
grande avanço da área pela sistematização e reflexão da atividade em si.

1984 -Julho - É criado o Departamento de Psicologia da So­


ciedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, sob responsabilidade de
Bellkiss Wima Romano Lamosa. A partir daí, os Congressos Paulistas
de Cardiologia passam a ter Simpósios de Psicologia em Cardiologia.
Esse fato é um marco na história da psicologia hospitalar e determina a
conquista de um espaço bastante importante para o real redimensiona­
mento da atividade.
112

I <JH4- Outubro- É lançado o livro PJicologia 1/u.ljli/,i/,n: 1\ 1\llltl­


('rto clr1 f>Jicrflogu no Contexto HoJjJitalar, Angerami, V. A. (org.), São Paulo:
Trm,:o, 19H4. A partir dessa publicação, a psicologia hospitalar adqui­
n· cont<.>rnos e formas específicas de reprodução, questionamentos e
propagação das atividades realizadas. O livro passa a ser adotado em
inúmeras faculdades e universidades, uma performance das mais pro­
missoras, com o trabalho do psicólogo no hospital sendo difundido em
um raio de ação somente atingível pela publicação em forma de livro.

1984- Outubro- É reàlizado em São Paulo o I Simpósio de Psi­


cologia Hospitalar, promovido pelo Departamento de Psicologia Hos­
pitalar do Instituto Sedes Sapienriae, pelo Sindicato dos Psicólogos no
Estado de São Paulo e pelo Centro. de Psicoterapia Existencial, sob res­
ponsabilidade geral de Marli Rosani Meleti. Esse evento tem grande
participação em nível nacional e dá continuidade ao movimento de
agregação de esforços no sentido de se dar à psicologia hospitalar espa­
ço para questionamentos e polemizações.

1985- Outubro-É realizado em São Paulo o II Encontro Nacional


de Psicólogos da Área Hospitalar, promovido pelo Serviço de Psicologia
do Hospital das Clínicas da USP, e sob responsabilidade geral de Bellkiss
Wilma Romano Lamosa. Esse evento dá seqüência à movimentação dos
psicólogos da área hospitalar no sentido de buscar definições quanto aos
rumos da categoria. Foi igualmente determinante de soma de esforços e
de construções e alicerces teóricos para o estribamento de nossas práticas
hospitalares.

1986- Outubro- É realizado em São Paulo o II Simpósio de Psi­


cologia Hospitalar, promovido pelo Departamento de Psicologia
Hospitalar do Instituto Sedes Sapientiae, pelo Sindicato dos Psicólo­
gos no Estado de São Paulo e pelo Centro de Psicoterapia Existencial,
sob responsabilidade geral de Marli Rosani Meleti. Tem igualmente
grande participação nacional e realimenra os ·ideais dos psicólogos da
área hospitalar.

1987 -Março- É criada a Divisão de Psicologia do Insti.tuto Cen­


tral do Hospital das Clínicas da USP, sob responsabilidade de Matilde
Neder. A partir de então, os diversos trabalhos de psicologia nas várias
/111o u/u11/,1 /.ul/'1/oi/,,·; 11 /1/tillr)l'/111111 r ol.l /1/flllrll'o ll I 1 11
--· ------·-- .

unidades do Instituto Central do Hospital das Clínicas passam a fa:tt·r


parte dessa divisão e ganham a uniformidade e os entrosamentos neces.
sários para a própria difusão de seus esboços e corpos teóricos.

1 987 - Maio - É re<�.lizado o III Simpósio de Psicologia-Hospita­


lar, promovido pelo Departamento de Psicologia Hospitalar do Insti­
tuto Sedes Sapientiae e pelo Centro de Psicoterapia Existencial, sob res­
ponsabilidade de Marli Rosani Meleti. Repete-se o êxito dos eventos
anteriores e torna-se vitrine de exposição de muit�s atividades realiza­
das no hospital pelos profissionais de psicologia.

1 988 -Março - É lançado o l ivro A Psicologia no Hospital, de


Angerami, V. A. (org.), São Paulo: Traço, 1988. Esse livro soma-se ao
anteriormente lançado e faz da prática do psicólogo no hospital uma ati­
vidade que adquire posições e contornos precisos e nítidos na conquis­
ta desse espaço.

1 988 - Abril - É realizado em Olinda o UI Encontro Nacional de


Psicólogos da Área Hospitalar/ promovido pelo Centro de Psicologia
Hospitalar e Domiciliar, sob responsabilidade geral de Marisa Sá
Leitão." Assim como nos encontros anteriores, renova-se a esperança da
concretude da psicologia hospitalar tornar-se verdadeira. A participação
no evento atinge âmbito nacional e todos se rejubilam com a profundi­
dade alcançada pelo evento.

1 988 - Abril - É defendida no Departamento de Psicologia Clíni­


ca da Pontifícia Universidade Católica a tese de doutorado "O Psicólo­
go Clínico em Hospitais no Brasil. Uma Contribuição para o Desen­
volvimento da Profissão" , de autoria de Bellkiss Wilma Romano
Lamosa. Trata-se da primeira tese de doutorado abordando a realidade

7 . O local de realização desse evento foi o Centro de Convenções de Recife/Olinda, exatamente


na divisa entre as duas cidades . .ÜJ? tamos por referir-nos a Olinda como· cidade sede do evento
pelo fato de que nossas atividades se realizavam nesse local. Essas atividades se estendiam noite
adentro após os trabalhos do evento.
8. Quero registrar a atividade de Marisa Sá Leitão em Recife estendendo a prática e a teoria da
psicologia hospitalar por todo o Nordeste. Seu trabalho foi tão envolvente e significativo nessa
região que não há como se referir à psicologia hospitalar no B rasil sem destacar sua atividade
pioneira.

. "
1 14 I Tr,NO!NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAI't

da psicologia hospitalar no Brasil. Bellkiss, com essa tese, dá à psicolo­


gia hospitalar o reconhecimento da comunidade acadêmica e científica.

1 988 - Outubro - É realizado em São Paulo o IV Simpósio de Psi­


cologia Hospitalar, promovido pelo Departamento de Psicologia Hos­
pitalar do Instituto Sedes Sapientiae e pelo Centro de Psicoterapia Exis­
tencial, sob responsabilidade de Marli Rosani Meleti. Repete os
sucessos anteriores e a psicologia hospitalar ganha nova contribuição
para a continuidade de suas lutas, anseios e ideais.

1 989 - Wilma C. Torres cria na Universidade Federal do Rio de


Janeiro o Núcleo de Estudo e Pesquisa em Tanatologia, transferindo
suas atividades da Fundação Getúlio Vargas, onde até então as exercia,
para essa universidade.

1 990 - É lançado o livro Psicologia Aplicada à Cardiologia, Lamosa,


B. W R. (org.), São Paulo: Fundo Editorial BYK, 1 990. Primeira
publicação reunindo trabalhos realizados pela psicologia no contexto da
cardiologia lançada em forma de livro. Sem dúvida alguma representa
um marco nessa trajetória, tornando público o registro de uma ativida­
de antes restrita apenas à divulgação em congressos, simpósios e publi­
cações específicas.

1 99 1 - Abril - É realizado em Curitiba o IV Encontro Nacional


de Psicólogos da Área Hospitalar, promovido pelo Departamento de
Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe, sob responsabilidade de
Tateana Forte. Repete-se a afluência nacional dos eventos anteriores. E
novamente é possível estabelecer-se esforços na continuação da luta
pela real divulgação da Psicologia Hospitalar afora os nossos próprios
limites.

1 991 - Junho - É lançado em São Paulo o número 1 da Revista de


Psicologia Hospitalar, publicação da Capsi - Coordenadoria das Ativi­
dades dos Psicólogos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medi­
cina da USP. Essa publicação teve responsabilidade geral de Matilde
Neder, e sua importância reside na divulgação das atividades da CAPSI,
sem dúvida alguma uma das mais importantes no País. A proposta edi­
torial prevê o lançamento de um novo número a cada semestre.
111

1991 - Agosto - É lançada tm Hdo Horizonte a revista Episte­


mossomática, publicação do Departamento de Psicologia e Psicanálise do
Hospital Mater Dei, sob coordenação de Marisa Decàt de Moura. Essa
publicação supre uma lacuna muito importante na divulgação de traba­
lhos e atividades do psicólogo no contexto li.ospitalar naquela região. É
também um marco na sistematização de atividades da psicologia hos­
pitalar. A proposta editorial prevê o lançamento de um novo exemplar
a cada semestre.

1992 - Outubro - É realizado em São Paulo o I Congresso


Brasileiro de Psicologia Hospitalar, promovido pelo Departamento de
Psicologia Hospitalar do Instituto Sedes Sapientiae, pelo Serviço de Psi­
cologia Hospitalar da Santa Casa de São Paulo e pelo Centro de Psi­
coterapia Existencial. Esse evento teve coordenação geral de Heloisa
Benevides Carvalho Chiattone e de Valdemar Augusto Angerami -
Camon. O número de participantes e a qualidade dos trabalhos apresen­
tados demonstram a força e a intensidade da psicologia hospitalar nos
mais diversos cantos do País. Evidencia de maneira clara e precisa o
vigor das conquistas da psicologia hospitalar nas mais diversas abran­
gências da realidade institucional.

1993- Agosto- É realizado na Pousada do Rio Quente o V En­


contro Nacional da Área Hospitalar, promovido pelo Hospital Santa
Generosa, sob responsabilidade geral de Magda M. de Moura. Nova­
mente repete-se a afluência nacional de eventos anteriores. E a psicolo­
gia hospitalar ganha mais penetração e abrangência.

1994- Maio- É lançado o livro A Prática da Psicologia nos Hospi­


tais, de Lamosa B. W. R. (org.), São Paulo, Pioneira, 1994. Novamente
uma publicação na qual Bellkiss mostra de maneira precisa a atuação do
psicólogo na realidade hospitalar.

1994 - Agosto - É lançado o livro Psicologia Hospitalar, Teoria e


Prática, Angerami, V. A. (org.), São Paulo, Pioneira, 1994. Outra publi­
cação na qual a descrição das atividades apresentadas, mais uma vez, dá
sinais da importância e da presença decisiva do psicólogo no hospital.

1994 - Outubro - É realizado em São Paulo o 11 Congresso


Brasileiro de Psicologia Hospitalar, promovido pelo Departamento de
UI I ltNll�NliM �M P�ICOLOC:tiA HOSPITALAft

Psicol ogia Hospitalar do Instituto Sedes Sapientiae e pelo Centro dl·


Psicoterapia Existencial. Esse evento teve a coordenação geral de
Valdemar Augusto Angerami - Camon. Outro encontro no qual cen­
tenas de psicólogos das mais diferentes regiões do País compareceram
buscando e trazendo subsídios para o fortalecimento da psicologia no
contexto hospitalar. Esse congresso teve como presidente de honra
Matilde Neder, uma homenagem que, somada a outras tantas dedica­
tórias, evidencia a gratidão devida a seu pioneirismo e a seu brilhan­
tismo teórico.

1 995 - Agosto - É realizado em João Pessoa o VI Encontro Na­


cional de Psicólogos da Área Hospitalar, sob responsabilidade de Edézia
Maria de Almeida Gomes.9 Foi mais um marco da renovação de ener­
gias e da esperança de ver a psicologia hospitalar inserida no hospital de
forma marcante e definitiva. Novos horizontes se descortinam a partir
desse encontro com a convergência de tantos colegas dos mais diversos
cantos do País, entrelaçados num ideal de lutas e realizações.

1 996 - Maio - É realizado em Belo Horizonte o III Congresso


Brasileiro de Psicologia Hospitalar, promovido pela Clínica de Psicolo­
gia/Psicanálise do Hospital Mater Dei - BH e pelo Centro de Psicote­
rapia Existencial e Psicologia Hospitalar do Instituto Sedes Sapientiae ­
SP. Com coordenação geral de Marisa Decat de Moura e de Valdemar Au­
gusto Angerami - Camon, foi mais um evento no qual a psicologia hos­
pitalar foi discutida, com mais um espaço conquistado pelos psicólogos
da área em sua trajetória de desbravamento institucional.

As perspectivas da psicologia hospitalar são bastante promissoras e


alentadoras. Promissoras porque determinam própria trajetória de suas con­
quistas e realizações. Alentadoras por tratar-se de uma prática que se iniciou

9. Quero evidenciar o trabalho de Edézia Maria de Almeida Gomes na coordenação do VI En­


contro Nacional dos Psicólogos da Área Hospitalar, no qual foi necessária muita determinação
para que o evento fosse realmence um enconcro de psicólogos da área hospiralar e não meramen­
te um encontro ponceado por profissionais estudiosos de temáticas da saúde e sem atuação efeti­
va na área hospitalar. Graças a sua determinação, esse enconcro deu continuidade à tradição do
Nordeste na vanguarda da psicologia hospitalar e, juntamente com Marisa Sá Leitão, ganha noto­
riedade e destaque nessa caminhada de lutas.
137

sem um determinismo que pudesse unificá-la a partir de pressupostos, dire­


trizes e construtos, mas que cresceu além de seus próprios limites.
Ganhou espaço nas universidades, nas publicações, nos eventos cientí­
ficos. Ganhou reconhecimento da comunidade científica. Ganhou notorie­
dade junto a outras profissões.
Ajudou e ajuda na humanização da prática dos profissionais da saúde
dentro do contexto hospitalar. É determinante da própria mudança da pos­
tura médica diante das patologias, na qual os aspectos emocionais passaram
a ser considerados no quadro geral do paciente.
Inovou na maneira de compreender o contexto de realidade institucio­
nal mostrado no hospital. Sedimentou a compreensão do quadro de resta­
belecimento cirúrgico do paciente hospitalizado, estabelecendo a dimensão
de seus medos, angústias e fantasias.
A psicologia hospitalar é coadjuvante da própria realização hospitalar.
É a crença de que a humanização da abordagem hospitalar é possível e real.
É a vertente que faz com que o grito de dor do paciente seja escutado e com­
preendido em toda a sua extensão.
O surgimento cada vez maior de cursos acadêmicos que abordam a rea­
lidade da psicologia hospitalar, ainda que muitas vezes ela seja apenas mos­
trada, faz com que seja possível antever-se um futuro no qual as sedimenta­
ções curriculares dos cursos de psicologia serão repensadas e discutidas sob
novo prisma .
O fato de a psicologia hospitalar ser igualmente presença obrigatória e
indispensável em simpósios e congressos que abordam a Psicologia Clínica
e Social de maneira abrangente e generalizada é fator de alento. Dos mais
diversos cantos do País surgem vozes que ecoam a performance da psicolo­
gia hospitalar.
Assiste-se a uma grande articulação de forças em toda parte. É cada vez
maior a quantidade de profissionais que passam a dedicar-se à prática hos­
pitalar. O número de acadêmicos que igualmente vai em busca de subsídios
e de informações sobre o trabalho do psicólogo no hospital impõe uma no­
va ordem de fatos e valores. Um grande afunilamento de ideais e propósi­
tos ocorre em cada busca e encontro.
É a partir da psicologia hospitalar que a própria psicologia redefine
conceitos teóricos na tentativa de compreender a somatização, suas impli-
1 J8 I TEND�NCIAS EM PIICOIUt.IA HOSPITALA�

ca�·ões, ocorrências e conseqüências. Também é a partir da psicologia hospi­


t alar que a conceituação de saúde passa a ser redefinida na realidade insti­
t ucional em suas nuanças e aspectos mais profundos.
A partir da psicologia hospitalar, o psicólogo se descobre como instru­
mento de alívio de uma das facetas mais sofridas da realidade humana: a
morte.
É ainda na psicologia hospitalar que é possível descobrir, de modo con­
creto, um dos preceitos máximos da psicologia, que é o da cura pela pala­
vra. A palavra cura o sofrimento emocional e espiritual, bem como a dor
provocada pelo sofrimento físico.
É na psicologia hospitalar que nossas teorizações sobre a cof}duta
h umana encontram escora e tornam-se verdadeiras na constatação do �ofri­
mento legado ao homem por um sem-número de patologias que são, em
última instância, resultado de somatizações derivadas de distúrbios emo­
ctonats.
A psicologia hospitalar é o arauto que anuncia uma nova revisão na pró­
pria prática clínica. É o determinante de novos modelos teóricos de atendi­
mento. É o questionamento da prática clínica numa atuação determinada pela
própria realidade da conceituação de saúde e até mesmo de normalidade.
É confronto do academicismo exageradamente teórico com a dimensão
da concretitude da realidade que se mostra e se transforma nessa própria
extensão. A psicologia hospitalar transforma tanto a realidade institucional
como a realidade interior do próprio psicólogo.
A psicologia hospitalar é a alternativa surgida da busca e da idealiza­
ção do alcance do raio de ação da prática clínica. É o aumento da abrangên­
cia da própria psicologia para uma ação mais ampla e social. É a prática clí­
nica instrumentalizando a prática social e institucional.
É o instrumento clínico sendo redimensionado na prática institucional,
ampliando seus próprios limites e horizontes. É também o entrelaçamento
de teorias que, distantes entre si, reconstroem um novo esboço teórico.
A psicologia hospitalar é o renovar da esperança de que a dor seja
entendida de uma forma mais humana. E de que os profissionais da saúde
possam aprender a escutar a angústia, o sofrimento, a ansiedade, o medo
etc., presentes em cada manifestação física de dor e sofrimento, e até mes­
mo nas alterações físicas determinadas em níveis orgânicos a partir do sofri-
l'.l imloJ.!,irl llfl.ljlilt/lttr: 11 /'11111�11'/ 111111 P olt /lirlllrlrdl I 1 11

menta emocional. É o renovar do coração que vibra em ânsia antes e após


cada cirurgia. É o renovar da família que sofre junto do paciente sua dor,
medo e angústia. O esclarecimento dos sentimentos do profissional da saúde
que s b envolve com a dor do paciente e que igualmente sofre em níveis orga­
nísmicos a dor desse envolvimento.
A psicologia hospitalar passa a ocupar um lugar na instituição hospit�­
lar de decisão, sendo parte do tratamento instituído e oferecido ao paciente.
É por meio da psicologia hospitalar que ocorre a intervenção sobre o
reflexo da desarmonização da pessoa e o surgimento das doenças, sejam elas
de origem orgânica ou emocional.
É igualmente por sua ótica que o órgão enfermo é inserido no ser tota­
litário. E se existe todo um movimento na filosofia, na psicologia, na psiquia­
tria e nas ciências humanas em geral para abandonar a visão dualista mente­
corpo, é na psicologia hospitalar que iremos encontrar o enfeixamento de
compreensão do homem como um todo.
Dentre as conquistas específicas da psicologia hospitalar, é inegável o
espaço ocupado pela profissão, uma atividade pioneira que resgatou e dig­
nificou a importância social e clínica do psicólogo.
Muito ainda resta a ser conquistado.
Teremos, sem sombra de dúvida, muita luta para ser enfrentada. Muitos
sonhos necessitaremos renovar. Decepções inúmeras ainda serão colhidas.
Muitas frustrações teremos que aceitar. Como também ainda iremos
receber inúmeras homenagens acadêmicas que nos acalentarão o sonho.
Muitos encontros, simpósios e congressos ainda acontecerão para unir
todos que se encontram dispersos ao longo do caminho. E a psicologia hos­
pitalar continuará a tecer a congruência de seus ideais redimensionando seus
parâmetros e limites. Mas acima de tudo continuará a conquistar espaço nu­
ma evolução e transformação contínuas . . .
Essa é a psicologia hospitalar que sonhamos e desejamos concretizar. E
na verdade a única certeza que temos é a de que um longo e árduo caminho
nos espera.
140 I TtNO�Nc.IAS ÊM PSICOLOGIA HOSPITALAI'I

CONSI DERAÇÕES COM PLEM ENTARES


Chegamos.
Depois dessas montanhas
você encontrará outros vales,
planícies e mais montanhas . . .
Esse é o caminho.
Não há findar, nem repousar.

Este trabalho está incompleto. Faltou citar as centenas de profissionais


que arduamente constroem, com seu trabalho diário, a história da psicolo­
� i a hospitalar no Brasil. Também faltou mostrar o quanto aprendemos com
o paciente hospitalizado, suas dores, medos, fantasias etc.
Faltou enumerar os diversos profissionais de saúde que igualmente
contribuem para o nosso crescimento e aperfeiçoamento, seja pelas críticas,
seja pelos elogios.
Outra coisa que também faltou foi a dedicação de muitos outros -
acadêmicos, professores, alunos, amigos, colegas - que pacientemente
toleram nossas dúvidas, erros, omissões e questionamentos.
A verdadeira história da psicologia hospitalar não pode prescindir des­
ses personagens que, embora anônimos, são os verdadeiros heróis desses
acontecimentos . . .

APÊNDICE

Quando da publicação da primeira edição deste livro, recebemos inúmeras


manifestações favoráveis de apoio pela sistematização das datas que fizeram
a história da psicologia hospitalar no Brasil . Vários colegas manifestaram
apoio tanto às nossas conquistas como aos esforços e lutas que ainda nos
l'spreitam ao longo do caminho.
Nesse sentido, reproduzo trecho de uma carta enviada por Bellkiss
Wilma Romano Lamosa, não apenas pela sua importância na área, mas prin­
cipalmente por ser precursora e uma das homenageadas no capítulo. Eis o
seu depoimento:
/ ' 1 1, 11/11,�1.1 lw.1j>it<1ldr: o f>lr>IIVII'W/111 ,, . 1.1 j>iom•ir.1.1 I 141

Meu amigo Camon,


( . . . ) Gostaria de cumprimentá-lo:
1 º - pela empreitada, parto doloroso;
2º - pela qualidade e cuidados, que me pareceram existir de sobra;
3º - pela gentileza e sobretudo pelo carinho com que você se lembrou
de mim - a começar pela dedicatória.

Camon, fiquei feliz de ter sido lembrada, de observar que você teve cui­
dados com datas, de manter essa fidelidade à história. E, mais ainda, queria
te cumprimentar por ter sido tão capaz e ter percebido esse filão que habi­
tualmente é esquecido e relegado a planos inferiores, que é o contar e per­
petuar a história. Mas me lembro do Prof. Petho Sandor, que mostrou que
os temas em psicologia eram pensados e resgatados a partir de cartas entre
Freud e seus amigos, e era superimportante entender o contexto histórico
para só então compreender os ensinamentos.
Em você resta um pouco disso.
Um beijo pela lembrança, um abraço pela correção no relato dos fatos
e aplausos em pé pela iniciativa.

Obrigado por mim e pela classe profissional.

Bellkiss Wilma Romano Lamosa


Agosto/92
,
142 I TEND�N CIAS EM PsiCOLOGIA HOSPITALAR

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. (org.). Psicologia Hospitalar. A Atuação do Psicólogo no


Contexto Hospitalar. São Paulo: Traço, 1 984.

A Psicologia no Hospital. São Paulo: Pioneira Thomson


Learning, 2003.
CHIATTONE, H . B. C. "A Criança e a Hospitalização". In: Angerami, V.
A. (org.) A Psicologia no Hospital. São Paulo: Traço, 1 988.

LAMOSA, B. W. R. "A Enfermidade Coronariana Segundo o Coronariopa­


ta". Dissertação de Mestrado. São Paulo: PUC, 1 98 1 .

------ . "A Atuação do Psicólogo no Contexto Hospitalar" . In:


Caderno Prohasa - Programa de Estudos Avançados em Administração Hos­
pitalar e de Sistema de Saúde da Fundação Getúlio Vargas. São Paulo, 1 983.

------ . "O Psicólogo Clínico em Hospitais no Brasil. Uma Con­


tribuição para o Desenvolvimento da Profissão". Tese de Doutorado. São
Paulo: PUC, 1 98 7 .

------ . "Aspectos Históricos". In: Lamosa, B. W. R. Psicologia


Aplicada à Cardiologia (org.). São Paulo: Fundo Editorial BYK, 1 990.
------ . "Aspectos Psicológicos no Processo de Transplante Cardía­
co". In: Lamosa, B . W. R. (org.). Psicologia Aplicada à Cardiologia. São Paulo:
Fundo Editorial BYK, 1 990.

MELETI, M. R. "A Atuação do Psicólogo no Contexto Hospitalar Junto a


Pacientes Mastectomizadas". In: Psicologia Hospitalar. A Atuação do Psicó­
logo no Contexto Hospitalar. Angerami, V. A. (org.). São Paulo: Pioneira
Thomson Learning, 2003.

NEDER, M. "Psicologia em Reabilitação". Anais do I Seminário do Instituto


de Reabilitação da Faculdade de Medicina da USP. São Paulo, 1 959.
------ . "Psicologia na Reabilitação". Anais do I Congresso Brasileiro
de Medicina Física e Reabilitação. São Paulo, 1 96 1 .
------ . Psychological Servires in Rehabilitation in Basic Servires and
Equipmentfor Rehabilitation Centers. Nova York: United Nations, 1 967.
I MPLANTAÇÃO DO S E RVI Ç O
D E ATE N D I ME NTO
AO S CAS O S DE U RG Ê N C IA
E S U I C Í D I O NA C I DAD E
D E SÃO PAU LO*

Não se pode arrancar uma flor sem perturbar uma estrela.

Francis Thompson

INTRODUÇÃO

A intenção aqui é mostrar os diversos caminhos que o trabalho de


implantação do Serviço de Atendimento aos Casos de Urgência e
Suicídio na cidade de São Paulo percorreu e ainda percorre. Também
é intenção uma reflexão sobre a abrangência do atendimento psicoló­
gico nessa realidade e sua inserção numa atividade multidisciplinar.

* Este trabalho foi anteriormente publicado no livro O Doente, a Psicologia e o Hospital.


São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

1 43
144 I TtNLJrNuAS I�M PslcoLoc.IA Ht>sPilAI.AII

E s te t rabalho é fruto de nossa atividade diária com o sofrimento do


dt•st•s pera n çado. E na crença de que algum alívio poderá ser encontrado
n u m tmbalho no qual o respeito à dignidade humana é preservado.
lJ m trabalho que narra nossas lutas, conquistas e percalços. Mas que
1 ambém mostra o quanto avançamos nessa conquista de implantação de ati­

v idades que abranjam o respeito à condição humana.


Este trabalho está sujeito a mudanças e reflexões contínuas pela pró­
p l'ia dinâmica dos fenômenos que abarca. Trata da realidade de São Paulo.
A nossa São Paulo tão combalida e tão despedaçada diante de tantos desati­
nos e problemas das mais diversas naturezas, mas que encontra grande esco­
ra nas tentativas de humanização de seu sistema de saúde.

A idéia desse relato surgiu do simples fato de sistematizar uma refle­


xão para que outros profissionais pudessem, a partir de nossas experiências,
implantar outros tantos serviços nos mais diversos cantos, ou até mesmo
refletir sobre práticas e atividades realizadas. E também para documentar
urna atividade inédita em sua estruturação e sedimentação inserindo na lite­
ratura suas nuanças e performances.
É um trabalho que, por melhor que seja sua descrição, sempre estará
aquém das dificuldades encontradas e que estão sendo superadas e revistas
a cada etapa do caminho.
É um determinante dos modelos teóricos que criamos e sedimentamos
em nossa prática diária. É a revisão dos nossos próprios limites.

DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES

A administração da sra. Luiza Erundina de Souza assumiu o governo da cida­


de em janeiro de 1 989. E o fez com a idéia de humanizar o sistema de saúde,
implantando diversas pilastras básicas para o atendimento necessário a uma
população que, na quase totalidade das vezes, não tinha suas reivindicações
atendidas.
Muitas mudanças foram implantadas e o atendimento de saúde pf!ssou
a ser exigido por conselhos populares que determinavam as prioridades de
atendimento da população.
Dentro desse espírito norteador, a Assessoria de Saúde Mental da Secre­
taria Municipal de Saúde de São Paulo, na figura do Dr. Nacile Daud Jr. ,
indicou-me, após verificação ampla das necessidades de atendimento do
145

município, consultor para o Serviço de Atendimento aos Casos de Urgência


e Suicídio.
Passamos a atuar implementando esse serviço nas unidades que neces­
sitavam dessa abordagem.
A própria delimitação das atividades foi sendo expandida para atender
às solicitações que nos chegavam e que, de maneira geral, abriam o leque de
opções da abrangência inicial. Em seguida, passaremos à descrição dessas
atividades.

ATUAÇÃO JUNTO Ã COMPANHIA DO METROPOLITANO


DE SÃO PAULO- METRÔ

A companhia do Metropolitano de São Paulo, por meio do Departamento


de Controle Centralizado, procurou a Secretaria de Saúde. de São Paulo para
efetivar a implantação de um Serviço de Atendimento aos Casos de Suicí­
dio, devido ao grande número de usuários do Metrô que tentam o suicídio
no interior de suas estações.
Apesar de a Companhia do Metropolitano de São Paulo- Metrô não
estar nos planos iniciais de nosso projeto, optou-se por trabalhar naquela
entidade uma vez que sua solicitação era baseada na ocorrência de um núme­
ro bastante grande de casos. 1 Era uma situação inusitada, que envolvia fun­
cionários, usuários e todos que direta ou indiretamente participavam do ato
da tebtativa de suicídio. Assim, iniciamos um trabalho que passou por
diversas etapas, descritas em seguida.

A - Estratégia de Atuação. Levantamento de Dados

Inicialmente, foram realizadas algumas reuniões na sede da Compa­


nhia do Metropolitano de São Paulo para detectar-se a real dimensão da pro­
blemática a ser atendida. Foram então apresentados pelos representantes da
Companhia do Metropolitano de São Paulo os números aproximados de ten­
tativas de suicídio ocorridas no interior de suas estações.

1. Deixamos de apresentar os números absolutos de tentativas de suicídio ocorridas nas depen­


dências do Metrô em função de uma normatização da empresa que proíbe a divulgação desses
números ao público em geral. Assim, em respeito aos profissionais do Metrô e a possíveis impli­
cações legais, deixamos de apresentar esses dados.
141 I TRNU�NUM rM P\IWIOCIIA Hosl'l fAI AII

Consta tou -se ainda q ut� a maioria desses casos ern com posta de pessoas
que se a t i ravam na frente do trem tão logo ele surgia na esta<;ão. Uma gran­
de d i fi c u ld ade verificada no atendimento à vítima era a necessidade premen­
l l' de I iberação da via férrea após o acidente. Essa liberação necessita de mui­
ta rapidez, uma vez que a interdição mais longa da via férrea acarreta danos
incalculáveis aos usuários do Metrô.2
Também foi detectada a existência de inúmeras outras tentativas de
su icídio cuja ocorrência diferia da anterior; tratava-se de pessoas que busca­
vam o interior das estações e tentavam o suicídio das mais diferentes for­
mas. Em alguns casos, o suicídio era consumado. Como exemplo, citamos o
caso de uma mulher de cerca de vinte anos de idade que se trancou no
banheiro de uma estação e lá se enforcou. O caso foi descoberto por uma faxi­
neira quando limpava os banheiros, ao ver o sangue que corria por debaixo
da porta. 3
Ainda foram apresentados casos nos quais as pessoas buscavam as esta­
ções do Metrô para tentativas de suicídio por serem lugares nos quais a pos­
sibilidade de socorro era iminente.

B - Sedimentação Teórico-Prática

Posteriormente ao levantamento de dados, deliberou-se por uma refle­


xão teórico-prática intensiva sobre a tentativa de suicídio para que a temá­
tica pudesse ser mais bem dimensionada pelas pessoas que atuariam nessa
atividade. Participaram, então, os responsáveis pelo Departamento de Con­
trole Centralizado da Companhia do Metropolitano de São Paulo, profissio­
nais responsáveis pela formação dos funcionários que atendiam e socorriam

2. A guisa de simples observação, basta imaginar o transtorno que seria a via férrea interditada
cerca de quinze minutos no período das 1 8 horas. Indiscutivelmente, haveria aglomerações, com
a inevitável geração de tumultos e outros atos imprevisíveis. Assim, se a necessidade de desobs­
trução da pista pode parecer algo desumano à primeira vista, revela uma preocupação de evitar­
se uma cadeia imensurável de acidentes das mais diversas naturezas.
3. No livro Solidão. A Ausência do Outro (São Paulo, Ed. Pioneira, 1990), a procura por lugares
públicos para o ato da tentativa de suicídio ou do suicídio propriamente dito, quando além da
possibilidade de ajuda, se deve à existência da presença do outro, que muitas vezes fez-se ausen­
te da vida dessa pessoa.
147

os usuários por ocasião dos acidentes c profissionais du suCICie li�udo11 u Se­


cretaria de Saúde de São Paulo.
Houve uma sensibilização sobre a extensão do ato da tentutivu de sui­
cídio, seu significado, sua abrangência e o desespero contido em Gtdu A(t'Sto:1
Durante essa preparação teórica, também foram elencados a lguns esco­
lhidos pelos elementos do metrô para discussão de procedimentos e atitudes.
As discussões visaram também restabelecer uma nova norma de atitu­
des a serem adotadas diante dos casos que envolvessem esses func ionál'ios e
as vítimas da tentativa de suicídio. Algo facilmente observável er a o fato de
que, à medida que se aprofundavam nas discussões de casos, também se apri­
moravam na adoção de novas atitudes a serem assumidas diante dos casos de
tentativas de suicídio.
O suicídio, assim, passava a ser compreendido de maneira mais abran­
gente e livre de conceitos constritos que sempre traziam atrás de si formas
parciais num julgo tendencioso e que muitas vezes era até mesmo despro­
vido de razão.
O simples fato de o suicídio ganhar nova compreensão e dimensão era,
por si, sustentáculo para que o trabalho se solidificasse em sua própria con­
cretude. A experiência mostrada pelos representantes do Metrô era aprovei­
tada para direcionar a reflexão a parâmetros conhecidos. Teorizava-se sobre
uma realidade conhecida, que era a ocorrência da tentativa de suicídio nas
estações do Metrô. Havia, então, a premência de viabilizar uma prática a
partir de uma vivência na qual o cotidiano apresentava inúmeras ocorrên­
cias com os mais variados enredamentos. A reflexão teórica embasava deter­
minadas atitudes e fundamentava certos posicionamentos, mas em momen­
to algum anulava o conhecimento adquirido em anos de prática diuturna
tanto pelos representantes do Metrô como pelos profissionais da saúde.5

4. A própria irascibilidade presente na unidade hospitalar quando do surgimento dos casos de


tentativa de suicídio também estava presente nos profissionais que representavam o Metrô. As­
sim, julgamentos morais, éticos e até mesmo religiosos encontrados na prática dos profissio­
nais de saúde que atendem esses pacientes também estavam presentes no discurso dos profis­
sionais do Metrô. E da mesma forma que na unidade hospitalar, a sensibilização para uma nova
compreensão do ato da tentativa de suicídio mostrou-se uma condição indispensável para a
estruturação de um serviço que atendesse a esse tipo de problemática.
5. Esse aspecto do trabalho institucional é bastante importante e merecedor de uma reflexão
pormenorizada. Em toda implantação de trabalho institucional, qualquer que seja a instituição
148 I TtNuaNtiM nM PtlwlllniA Hmf'ITALM

Nossa preocupação em não acachapar a vivência desses elemen tos c:om


u m sem-número de teorias fazia com que o grupo se fortalecesse e adquiris­
st• a textura e a solidez emocional necessárias para um bom desempen r o da

a t ividade proposta. A cada encontro, crescia a certeza de que o passo seguin­


te, que envolveria atitudes e procedimentos a serem adotados diante dos ca­

sos atendidos nas dependências do Metrô, teria um grupo coeso e fortaleci­


do em suas bases e estruturas.

C - 6rgão de Atuação

Ficou decidido, então, que os casos de tentativas de suicídio na via fér­


rea seriam atendidos pelos funcionários do Metrô, que já teriam procedi­
mentos a serem adotados.
Quando o caso exigisse hospitalização imediata, seria acionado o De­
partamento de Controle Centralizado, que enviaria uma ambulância ao lo­
cal para transportar a vítima a uma unidade hospitalar da Secretaria de
Suúde de São Paulo. Delimitou-se inicialmente o encaminhamento para
apenas duas unidades hospitalares, cujos elementos participaram do grupo
d l'sde sua formação até a implantação propriamente dita do trabalho. Dessa
maneira, estaria assegurado que os casos de tentativas de suicídio ocorridos
nas dependências do Metrô seriam acompanhados desde o atendimento ini­
c i al até a alta hospitalar pelo grupo como um todo. Assim, seria possível o
estabelecimento de discussões sobre procedimentos, atitudes adotadas e até
mesmo uma reflexão sobre os determinantes daquela dada ocorrência.

objeto de análise e intervenção, é importante que tanto a realidade institucional como a vivên­
cia dos elementos pertencentes à instituição sejam respeitadas e preservadas. A transformação, se
necessária, deve ocorrer após um processo de maturação que possa abranger todos os envolvidos
no processo indistintamente. Impor transformações institucionais desrespeitando-se limites e
parâmetros institucionais é, na realidade, desrespeitar as próprias circunstâncias pelas quais esses
l imites e parâmetros se estabeleceram. A intervenção institucional, muitas vezes, determina
mudanças estruturais em suas bases, mas, ainda assim, a realidade institucional deve ser consi­
derada em sua amplitude e até mesmo no determinismo de sua ocorrência. Mudanças estruturais
pedem aspectos multiformes de transformação dos elementos institucionais, mas nunca o total
assolapamento da realidade institucional pura e simplesmente. Esses aspectos justificam, inclu­
sive, o fato de muitas análises e transformações institucionais se tornarem redundantes e fadadas
ao fracasso.
lllljll�tlil•ll•'" ,/o Wl't'if'O d� <�lvlldilllt'lllo dOJ casos de llr/1,81/âtl � .rtliddio tl<l dd,ltll .Ir .\',lo /1,111/o I 141
� - -··- ----

Por outro lado, quando o caso não necessitasse de atendimento hospi­


talar, igualmente o Departamento de Controle Centralizado sería acionado
e determinaria um elemento que se deslocaria e efetuaria o atendimento a
essa vítima no próprio Metrô. A deliberação e conseqüente encaminhamen­
to seriam definidos a partir da peculíaridade de cada caso. Assim, por exem­
plo, para uma pessoa que apresentasse sinais evidentes de distúrbios psi­
quiátricos, e que por conseqüêncía desses distúrbios tivesse atentado contra
a própria vida, sería feito encaminhamento a uma unidade hospitalar que
atendesse esse típo de ocorrência. De outra parte, nas situações nas quais as
pessoas se encontrassem desesperadas, e no desespero ficassem hesitantes até
mesmo com relação à tentatíva de suicídio,6 a deliberação seria o encami­
nhamento dessa pessoa a um dos inúmeros serviços de atendimento existen­
tes na rede hospitalar ou na própria cidade.
Assim, o serviço foi estruturado ainda com a proposta de supervisão so­
bre os atendimentos realízados. A estrutura foi solidamente embasada,
embora aberta a tantas mudanças quantas se fizerem necessárias para o êxi­
to e a abrangêncía do trabalho. Trata-se de uma inicíativa inédita que tem
como objetivo oferecer um atendimento eficaz e capaz de trazer um pouco
de alívio a essa desesperança representada pelo ato da tentativa de suicídio. 7
Essa foi a estrutura inicialmente montada, o que não significa dizer que se­
ja definitiva nem mesmo estática.

6. Esse aspecto é bastante delicado, pois não há como definir com precisão o que vem a ser uma
atitude suspeita e que evidencie um eventual titubeio diante de uma possível tentativa de sui­
cídio anteriormente assumida. Como simples ilustração, cito o caso de um rapaz que se mostra­
va muito ansioso diante da aproximação do trem, chegando a exceder os limites da faixa de segu­
rança, que determina os limites onde os passageiros devem permanecer até a parada definitiva
do trem. Depois da passagem de vários trens e da mesma atitude carregada de ansiedade, os fun­
cionários do Metrô intervieram para evitar um possível acidente mais sério. O rapaz contou, en­
tão, que sua ansiedade não era derivada de nenhum titubeio sobre uma possível tentativa de sui­
cídio, e, sim, pelo encontro que havia marcado com sua namorada naquela estação. A cada trem
que se aproximava, ele mostrava-se ansioso aguardando a chegada do veículo para verificar se
sua namorada finalmente havia chegado.
7. Outro aspecto bastante importante na questão da tentativa de suicídio nas estações do Metrô
diz respeito aos condutores do trem. Após cada ato envolvendo tentativa de suicídio existe uma
situação de grande abalo emocional desses funcionários, havendo, inclusive, por parte do Depar­
tamento de Controle Centralizado, uma preocupação em atender esse tipo de ocorrência entre seus
funcionários. O Sindicato dos Metroviários procurou a Secretaria de Saúde de São Paulo para saber
da possibilidade de um trabalho de recuperação emocional desses funcionários. Até o momento,
esse projeto ainda não havia sido concretizado, estando apenas idealizado.
1 50 I TBNDe NCIAI IM P\11 111 OU IA H OSPITALAII

ATUAÇÃO JUNTO AO SERVIÇO FUNERÁRIO DO MUNicfPIO DE


SÃO PAULO

Ass i m como a Companhia do Metropolitano de São Paulo - Metrô, o


St·l·viço Funerário do Município de São Paulo também não fazia parte do
nosso planejamento inicial de atendimento aos casos de tentativa de suicí­
d i o e urgência. Mas, assim como a situação anterior, apresentava-se como
prioridade diante da gravidade da especificidade. Eis os fatos.
O Serviço Funerário do Município de São Paulo, por meio do Setor de
Recursos Humanos, procurou a Secretaria de Saúde de São Paulo visando
desenvolver uma atividade com os funcionários do setor. E uma das princi­
pais questões apresentadas foi o alto índice de alcoolismo presente entre eles.
( ) índice era tão alarmante que praticamente abrangia a totalidade dos fun­
c ionários. Igualmente, iniciamos um trabalho que passou por diversas eta­
pas e procedimentos.

A - Estratégia de Atuação. Levantamento de Dados

Inicialmente, foram levantados os dados de alcoolismo presentes entre


esses funcionários e a dramaticidade de sua ocorrência, visto que o início
desse processo, na quase totalidade das vezes, estava associado à própria ati­
vidade em si. Um dos membros do Setor de Recursos Humanos do Serviço
Funerário do Município de São Paulo apresentou também a possibilidade
da existência de distúrbios de personalidade dos funcionários, derivados
principalmente da escolha profissional. Outro aspecto salientado foi o gran­
de número de pessoas que praticamente só conseguia trabalhar sob o efeito
de grande teor alcoólico.
Foi então deliberado que fossem feitas entrevistas com os funcionários
para que se pudesse avaliar a real dimensão do sofrimento provocado pelo
contato direto com os apetrechos mortuários inerentes à própria atividade,
e seu conseqüente alívio pela ingestão excessiva de bebidas alcoólicas. Nos­
so grupo de trabalho, nesse momento, além dos membros do Setor de Re­
cursos Humanos do Serviço Funerário do Município de São Paulo, contava
com a participação de dois profissionais da Secretaria de Saúde de São Paulo,
com vasta vivência na questão do alcoolismo. De posse dos dados obtidos
por meio de entrevistas, passamos a estruturar nossa base de atuação.
lmplo�N/.Iplo ,/o u·I'I'Jrll dr ol/c'llclillll'l/lo o�w ct/JIIJ de !lrgêrtâa e suicídio na âdatle de São Paulo I 1 51
·--· ·-

B - Sedimentação Teórico-Prática

O resultado das entrevistas mostrou, então, que a morte era uma cons­
tante no depoimento dos funcionários, e que a permanência nessa atividade
decorria única e exclusivamente da total falta de perspectiva profissional
alternativa. Os funcionários dessa entidade, desde os que trabalhavam na
marcenaria até propriamente os coveiros e motoristas das viaturas, apresen­
tavam sinais contraditórios diante da própria mortalidade. Na marcenaria,
levantou-se também a hipótese de que o confronto direto com a morte, por
meio da construção de caixões mortuários, trazia uma angústia e um sofri­
mento somente atenuados com a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas.
Deliberou-se, inicialmente, um aprofundamento da temática da morte
com os integrantes do Setor de Recursos Humanos para que eles pudessem
desenvolver um trabalho de esteio emocional com os funcionários. Foram
programados encontros sistematizados que sedimentariam este apoio emo­
cional sobre o qual todo o trabalho seria estruturado.
Logo nos primeiros encontros, a questão anteriormente levantada sobre
a possível existência de distúrbios de personalidade derivados da própria
escolha profissional aflorou de maneira bastante contundente, e o grupo co­
mo um todo chegou a uma compreensão mais abrangente da questão. Con­
cluiu-se, então, que não se poderia falar em distúrbio de personalidade pela
escolha profissional, porque, na verdade, a profissão representava uma falta
de alternativa profissional , e não uma opção de atividade escolhida dentro de
um amplo leque de possibilidades. Essa constatação baseava-se no fato de
que, a cada novo edital de concurso para o preenchimento de vagas de fun­
cionários da entidade, surgiam muitos candidatos ao cargo com qualificações
profissionais diversas, distantes da colocação pleiteada; na maioria das vezes,
procuravam atividades para refazer-se de uma longa estiagem ao sabor do
desemprego. Nesse sentido, o grupo constatou que, se havia alguma patolo..,
gia na escolha desses cargos por parte desses funcionários, ela era decorrente,
em última instância, de uma patologia social mais ampla, que obriga pessoas
a atividades totalmente distantes de sua real possibilidade existencial. Pode­
se falar em algum possível distúrbio de personalidade, mas com muita cau­
tela e apurado estudo dessa personalidade, quando é feita a escolha por uma
dessas atividades dentro de um rol maior de escolha profissional.
1 52 I nNr>!NCIAS IM P\lt DI { )lJIA HOSPITALA"

O alcoolismo surgia, então, como uma maneira de o funcionário se pt·t·­


servar do sofrimento provocado pelo contato direto e iminente com a morte.
A questão delimitava-se, então, na escolha do alcoolismo, uma forma Jeli­
bc:rada de destrutividade, uma maneira lenta e gradual de aniquilar-se com
toda a dignidade existencial. Havia, inclusive, depoimentos que afirmavam
que o alcoolismo era a forma procurada não só para atenuar a dramaticida­
de daquela atividade, como também para pôr fim com mais rapidez à for­
ma de vida que eles levavam. Também existiam depoimentos que afirma­
vam que o alcoolismo era a única maneira encontrada para tornar "aquele
inferno suportável" (sic). Outros usavam o álcool como instrumento para
tornar a atividade digna e até mesmo humana.
Os depoimentos, em maior ou menor escala, mostravam que o alcoolis­
mo era praticamente inerente à própria atividade do serviço funerário. Era co­
mo se fosse uma das ferramentas necessárias para o enfrentamento do trabalho.
Outro fator que chamou bastante atenção e que estava presente na quase tota­
lidade das entrevistas era sobre o início da ingestão de bebidas alcoólicas.
A maioria dos depoimentos mostrava que a maior parte dos funcioná­
rios desenvolvia suas atividades nos limites da própria suportabilidade até a
ocorrência de uma morte dentro do seio familiar. A partir desse acontecimen­
to, o confronto com a morte apresentava sinais trágicos que sempre evoca­
vam aquela morte familiar. Assim, um funcionário da marcenaria, por exem­
plo, depois de perder um filho de () anos de idade, ao construir caixões para
crianças sempre tinha em mente que estava construindo o caixão do próprio
filho, e isso por si era insuportável. Esses funcionários, então, a partir dessa
morte familiar, passavam a tratar os apetrechos mortuários parte daquele
funeral familiar. Tais situações faziam com que esses funcionários recorres­
sem à bebida como forma de suportar esse tipo de confronto.
A constatação do sofrimento presente nas entrevistas fez com que o
grupo revisse a própria conceituação de morte e do ato de morrer. E assumiu
como premissa a condição de ter claras tais questões para discutir e debater
com determinados questionamentos interiorizados e resolvidos em relação
aos conceitos de vida e morte.
Uma outra questão mostrava-se bastante clara e aturdia com veemên­
cia as atividades do grupo: o argumento que j ustificava a ingestão excessi­
va de bebidas era calcado em bases bastante sólidas para ser rebatida com
, ..

simples argumentos. Questões simplistas seguramente perderiam seu c:ixo


na medida em que o sofrimento apresentado nessas atividades mortuárius
era facilmente compreensível, e os lenitivos procurados -os únicos dispo·
níveis à camada da população desprovida de recursos materiais- eram eH­
cazes e buscados com a clareza da intenção destrutiva. Não havia a intenção
da interpretação da ingestão excessiva de bebidas alcoólicas como instru­
mento de destruição como se faz nas lides acadêmicas. Os depoimentos eram
claros e precisos: o álcool era procurado com o fim específico de destruição
e abreviamento do sofrimento. Podemos considerar essa busca como algo
ensandecido, mas seus objetivos e limitações eram claros e precisos. Ques­
tionar, polemizar, discutir, espraiar a discussão sobre a destrutividade do ál­
cool era totalmente desnecessário diante do nível de consciência apresenta­
do. A primeira questão levantada era como atuar nesse tipo de problema
uma vez que a destrutividade se justificava e se sedimentava por si.
Após a sistematização dessas constatações, deliberou-se que, inicial­
mente, seria necessário um trabalho bastante intenso de burilamento desses
profissionais do Setor de Recursos Humanos, no sentido de fortalecê-los
emocionalmente para atuar junto aos demais funcionários do Serviço Fu­
nerário. Decidiu-se, então, pelo início de um trabalho no qual a questão da
morte e do ato de morrer fosse discutida de modo amplo e profundo: o sig­
nificado da morte para cada um e como esse conceito de alguma forma reper­
cutia dentro da atividade numa instituição que lidava diretamente com o
ritual da morte.
Desde o início do grupo ficou evidente que muitas dificuldades surgidas
diante das questões trazidas pelos funcionários na relação alcoolismo-morte
derivavam de questões mal elaboradas, e, portanto, sem resolução com rela­
ção à morte. Houve inclusive elementos que resolveram abdicar da participa­
ção no grupo argumentando que, apesar de trabalhar no Serviço Funerário, a
questão da morte era algo com o que não pretendiam lidar naquele momen­
to de suas vidas. Era como se fosse possível negar a morte com todas as impli­
cações da própria vida, ou então negar o fato de se trabalhar numa unidade na
qual os apetrechos mortuários estavam em cada canto, e em cada detalhe.8

8. Esse aspecto era bastante significativo em sua ocorrência, pois o grupo reunia-se n uma sala
perten cente ao setor de carpintaria e oficinas mecânicas do Serviço Funerário. Dessa maneira,
1 54 I TENDe NelAS F.M PSIWI moiA HosPITALA"

A própria dificuldade inicial do grupo de se estruturar como tal cru evi­


d ê ncia da dificuldade da abordagem dessa temática. Foram necessários mui­
t os encontros e desencontros para que o grupo pudesse ser enfeixado em

determinantes claros e precisos sobre seus reais objetivos, para que seus
principais objetivos não se perdessem ao longo do caminho.
O grupo se estruturou e caminhou, apesar de dificuldades surgidas na
d i nâmica das relações interpessoais dentro do próprio grupo. Esses entraves
i mpediram o grupo de continuar seu desenvolvimento inicial, sendo neces­
sária a resolução desses problemas para que a proposta inicial fosse restabe­
lccida e tivesse solução de continuidade.
Após um momento inicial de atividades introspectivas sobre a morte
c o ato de morrer, determinou-se que os elementos do Setor de Recursos Hu­

manos teriam supervisão contínua e intermitente sobre sua atuação e inter­


venção junto aos demais funcionários do Serviço Funerário. Até mesmo as
posturas a serem adotadas diante da tentativa de abordagem de elementos
estranhos ao Serviço Funerário foram discutidas e alinhadas.9
Essas discussões fizeram com que o grupo pudesse encontrar um eixo so­
bre o qual seria sedimentado todo o enfeixamento de atitudes assimiladas e
adotadas como determinantes de um objetivo previamente estabelecido, e que
necessitaria de uma constante reflexão e revisão de seus ponteamentos básicos.
Recentemente, foi criado o Projeto de Atenção Integral à Saúde do Tra­
balhador do Serviço Funerário, elaborado por elementos do Serviço Fu•
nerário, e da Secretaria da Saúde de São Paulo. A intenção e o objetivo desse
projeto é lidar com questões de alcoolismo e morte de trabalhadores do

um simples olhar para o pátio através das janelas trazia a extensão do significado desses apetre­
chos monuários. Nas oficinas, encontravam-se as peruas que transportavam os caixões para os
cemitérios, com cruzes, aparatos especiais para caixões etc. Num outro repeme existia também
a movimentação dos caixões que estavam sendo confeccionados de um setor para outro demro
do espaço da carpintaria. Caixões dos mais diferentes tamanhos e modelos sendo levados e orna­
mentados para transporte de "futuros clientes". Negar-se à discussão sobre a morte nesse con­
texto mais do que uma mera e simples negação era acima de tudo a recusa da simples aceitação
desse tipo de atividade.
9. Por razões estranhas ao nosso conhecimento e percepção, os funcionários do Serviço Funerário,
principalmente os coveiros, são alvo das mais diferentes abordagens e especulações. Assim, ire­
mos encontrar elementos interessados na coleta de dados inerentes à realidade de suas vidas para
a elaboração de dissertações acadêmicas, até grupos religiosos interessados nos aspectos místicos
de suas vidas.
lr��!'/,mi.t1,1tl ,/o .l'<'l't'lfii J� atmdim�nlo t/11.1' <'<1.1'11.1' dv IIII!,BIIria e .l'lliddio lltl rh/,,,1, ,/p ,\,/o /', mio I 1 !1!1
�-- - · ·- - - · ··- . .

Serviço Funerário, propiciando uma retaguarda mais efetiva aos casos de aci­
dentes de trabalho, doenças ocupacionais10 e sua condição de saúde como um
todo.
A idéia dessa implantação visando um atendimento globalizante que
abordasse questões físicas, sociais e as relacionadas às atividades do Serviço Fu­
nerário é o desaguar natural das reflexões sistematizadas e realizadas até então.
A partir dessa implantação, as unidades básicas de saúde passariam a servir de
referência para as unidades do Serviço Funerário, abarcando o encaminhamen­
to desses trabalhadores e provendo-lhes o atendimento necessário.11
É uma atividade promissora e que se encontra numa caminhada cuja
fluidez nos faz acreditar em resultados bem alentadores já num futuro
próximo.
O caminho foi iniciado. Sua trajetória é longa e espinhosa.
Resta cuidar para que o alento inicial não se perca diante das dificul­
dades que certamente surgirão . . 12 .

ATEN DI MENTO AOS CASOS DE VIOLÊNCIA


CONTRA A MULHER E A CRIANÇA

A Secretaria de Saúde de São Paulo criou um serviço de atendimento para


os casos de violência contra a mulher e a criança.
Inicialmente foram elencadas algumas unidades hospitalares para a
implantação desse tipo de atendimento. A escolha se deu a partir do núme-

10. Nesse rol, vamos encontrar principalmente casos de dermatite no setor de carpintaria e casos
de saturnismo - contaminação pelo chumbo e que provoca perda de pêlos do corpo, alteração
do sistema nervoso central etc. -, e naturalmente os casos já citados anteriormente de alcoolis­
mo, que se alastram por todos os setores do Serviço Funerário.
1 1 . Não poderia deixar de registrar nessa atividade a presença das psicólogas Valéria Maria Fer­
ranti Baptista e Maria da Glória Calado, que, além de uma performance profissional admirável,
arduamente lutam para que essas atividades j unto ao Serviço Funerário não se percam em mera
e vã digressão teórico-filosófica.
1 2 . Até o momento, a tramitação legal para a implantação do Projeto de Atenção Integral à Saúde
do Trabalhador do Serviço Funerário encontra-se em fase bastante adiantada, buscando-se os pro­
vimentos necessários para sua efetivação. Essa abordagem globalizante de saúde, seguramente,
servirá de base e modelo para um sem-número de outras atividades que igualmente necessitam
de abordagem semelhante.
1 !18 I TI NDFNCII\S EM PSICOLOGIA HOSPITALA�

ro d e ocorrências desses casos nas regiões onde essas unidadt•s hos p i ta l a l't•s
estavam localizadas. 13
Os profissionais da saúde pertencentes às unidades hosp i talal'es e l enca­
das foram comunicados sobre o início dessas atividades, sendo que a opção
para atuar com essa problemática foi mera escolha individual. 1'1
A partir da decisão desses profissionais de atuar com essa problemática,
iniciaram-se os passos que sedimentariam a estruturação dessa atividade.

A - Estratégia de Atuação. Levantamento de Dados

O grupo de profissionais da saúde que optou por atuar no serviço foi


inicialmente submetido a um processo de sensibilização no qual questões
inerentes a essa atividade foram discutidas e polemizadas. A sensibilização
enfocou aspectos socioemocionais, sendo que as partes especificamente téc­
nicas, como abordagem psicológica, médico-terapêutica, serviço social
etc . , foram sendo estruturadas a partir dos fatos surgidos ao longo do pró­
prio trabalho. 15

1 3 . A idéia é expandir esse tipo de atendimento para todas as regiões atendidas pela Secretaria
de Saúde de São Paulo. Os erros e acertos obtidos nessas unidades nas quais o trabalho se ini­
ciou estão sendo objeto de estudo sistematizado para que o serviço possa ser expandido de mo­
do a atingir um número cada vez maior de pacientes espalhados pelos mais diversos cantos da
cidade.
1 4 . O fato de os profissionais optarem por trabalhar com essa problemática fez com que o
grupo já se in iciasse bastante fortalecido, pois a opção implicava, inicialmente, a tentativa de
modificação de uma realidade nua e crua que era a ocorrência e o atendimento dos inúmeros
casos de violência cometidos contra a mulher e a criança. Alguns mobilizados por questões
ideológicas, outros por questões humanitárias , outros ainda por interesse de aprofundamen­
to ou mesmo um melhor conhecimento da temática, mas todos unidos na questão de que se­
ria necessária grande mobilização para atenuar-se os efeitos físicos e emocionais nesses pacien­
tes.
1 5 . Tal fato não derivou de uma falta de planejamento anterior, mas, ao contrário, foi uma decisão
calcada no fato de que se estava diante de uma prática que teria que determinar procedimentos e
atitudes. Atitudes apriorísticas sem o contato direto com essa nova realidade certamente induzi­
ram a erros maiores e até mesmo inconseqüentes. Ao contrário, a estruturação de atitudes a par­
tir do conhecimento determinado pela própria realidade é indício de uma probabilidade maior
de acerto terapêutico.
157

B- Sedimentação Teórico-Prática

O passo seguinte foi a estruturação de um programa semanal de super�


visão, para que os atendimentos pudessem ser discutidos. E, a partir disso,
estruturar-se determinados procedimentos e atitudes.
A primeira temática que emergiu com muito vigor nos diversos gru­
pos de supervisão foi a questão da violência. Havia um sentimento muito
grande de indignação diante do escancaramento e do acinte da violência.
Esse inconformismo evidenciava que casos como estupro, espancamento,
seviciamento etc. eram por demais aviltantes. Isso apesar da grande incidên­
cia e freqüência com que ocorriam.
Convergiram as discussões para um maior aprofundamento sobre o sig­
nificado da violência e sua repercussão na vida profissional e emocional de
cada um.
A grande dificuldade inicial era a aceitação pura e simples de que vivía­
mos numa sociedade altamente destrutiva e que, a partir disso, tinha se ins­
titucionalizado a violência de modo normatizado e totalitário.
Houve, então, durante esse processo, uma incursão sobre os caminhos a
partir dos quais a violência se manifesta no cotidiano. Foi mostrado que estu­
pros, crimes ocorridos a partir de simples colisões no trânsito, assaltos, homi­
cídios, brigas em estádios de futebol etc. estavam de tal forma normatizados
e introjetados no íntimo das pessoas, que sequer provocavam alguma reação.
Exceção feita, naturalmente, aos casos em que havia pessoas envolvidas emo­
cional ou familiarmente em tais ocorrências. E que não tinham nem mesmo
espaço nos meios de comunicação, tal era a freqüência de sua ocorrência.
Essas reflexões apresentavam um teor de indignação que era apontado
como elemento dificultador no processo de atendimento das vítimas que
davam entrada nas unidades hospitalares. Tal indignação se apresentava de
maneira multiforme, no sentido de que a abrangência do conceito de vio­
lência tornava-se presente em aspectos inerentes à própria atividade profis­
sional. Era como se, de repente, a partir da constatação da instirucionaliza­
ção da violência, uma série de gestos triviais presentes no cotidiano, nas
situações mais simples e despretensiosas, estivessem revestidos dessa mes­
ma violência. Eram, por assim dizer, apenas uma das muitas faces por meio
das quais a violência se apresentava.
1 !58 I T�NO�NCJAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAII

E a primeira constatação dessas reflexões emergiu praticamente no


mesmo momento nos diversos grupos supervisionados: os casos atendidos
nos hospitais nada mais eram do que o excesso dessa violência há muito legi­
timada em todos os níveis sociais. Assim, uma criança atendida no hospital
v i timada pela violência era na verdade apenas acometida pelo excesso de
u ma violência normatizada pela sociedade. Bater no filho com o intuito de
educá-lo e até mesmo como corretivo de determinados comportamentos e
condutas sociais é algo aceito em todas as camadas sociais. No entanto, es­
sa violência perfeitamente legitimada se excede, e provoca situações nas
quais os pais ou responsáveis pela criança superam as raias da irascibilidade
e causam lesões e seqüelas físicas muitas vezes irreversíveis. Os casos de
mulheres estupradas, espancadas e seviciadas sexualmente, muitas vezes pe­
lo próprio marido, refletem o direito do abuso sexual do homem sobre a
mulher, que assim é praticamente legitimado em todos os níveis de sua
ocorrência. No hospital, apenas assiste-se ao excesso, em seus níveis mais
abusivos e invasivos. Assim, a violência nada mais é que algo perfeitamen­
te assimilado como sendo direito do algoz sobre a vítima. 16
Se o algoz tem o direito de atacar sua vítima de maneira ensandecida,
que o direciona a atos de total falta de escrúpulos, fica evidente que o hos­
pital nada mais é do que o próprio desaguadouro dessa violência.
Questões morais envolvendo sexualidade foram outra temática muito
presente nos grupos, pois o estupro acima de tudo representava o total des­
respeito aos valores ético-morais das vítimas. Também foram questionadas

1 6 . Como simples ilustração, vale o registro das normas legislativas e j udiciais de alguns países
nos quais a punição para os casos de estupro é agravada se o ato for cometido sem o uso de pre­
servativos, fato que implicaria até mesmo a aquisição de doenças venéreas, mormenre na atuali­
dade a Aids. Dessa forma, parte-se do pressuposto de que o estupro é algo previamente planeja­
do de forma distante e racional, permitindo, inclusive, a determinação do uso de preservativos.
Ou ainda, segundo trabalho apresenrado no Seminário Internacional "Maltrato Institucional ­
Adoção e a Dignidade Humana da Criança", realizado em São Paulo, em dezembro de 1 990,
quando foi observado que, na Alemanha, cerca de 80% das mulheres estupradas ainda sofrem no­
va tentativa de estupro por parte dos profissionais de saúde que cuidam do seu atendimento. Ou
ainda nas palavras do Sr. Paulo Salim Maluf, durante a campanha eleitoral quando apresentava
seu programa de ação contra a violência: "Estuprar pode, não pode é matar" (sic). O estupro está
legitimado a partir de sua própria ocorrência, sendo que na realidade buscamos o estancamento
de sua ocorrência e não sua normatização pura e simples.
, ..

as atitudes a serem adotadas diante dos casos nos quais a vítima, além do
estupro, ainda tinha que se submeter aos trâmites para, no futuro, se neces•
sário, ter direito ao aborto dentro de parâmetros legais. 17
A equipe médica, assumindo a discussão desses aspectos emocionais, e
na tentativa de evitar o desgaste provocado pela imposição das vias legais,
adotou a prescrição do uso de uma medicação hormonal combinando a pre•
sença de estrógeno e progestogênio, que apresenta o efeito de impedir a
implantação do ovo no endométrio. Essa combinação medicamentosa tem
efeitos com grande margem de acerto e não apresentava, na literatura con­
cernente, contradições ou efeitos colaterais negativos. A grande dificuldade
da adoção dessa atitude derivava do fato de que nem sempre a vítima pro�
curava pelo atendimento no período de abrangência da medicação. 18
Houve muita polêmica na equipe médica sobre a adoção desse tipo de
atitude. E questões das mais diversas naturezas, como aspectos éticos, filo•
sóficos, morais etc. afloraram de maneira intensa e profunda, mostrando que
muitos aspectos não estavam devidamente interiorizados para sedimentar
uma prática que envolvia temática tão polêmica e difusa. Ficava então evi­
denciado que uma coisa era decidir por um trabalho no qual seriam atendi­
das vítimas desumanizadas num processo de muita violência, e outra era a
realização de uma prática que envolvia a discussão sobre temas tão polêmi­
cos como aborto e sexualidade. Era necessário, então, que a mulher fosse

17. O trâmite legal implica a realização de exame de corpo de delito, que será instrumento com­
probatório da violência física e sexual, numa possível e futura solicitação de aborto. Isso natural­
mente além da ocorrência policial registrada numa Delegacia de Polícia. E em que pese a exis­
tência de inúmeras delegacias da mulher, essas mulheres vitimadas pela violência social ainda
encontram um longo e tortuoso caminho a ser percorrido no resgate de sua dignidade.
18. Esse aspecto mostrou-se, sem dúvida alguma, um fator de muita polêmica e discussão, geran­
do observações nas quais o argumento nem sempre se baseava na própria razão, mas muito mais
em colocações passionais. Era como se estivesse em pauta a discussão mera e simples da libera­
ção do aborto, e não de atitudes a serem adotadas diante de uma pessoa vitimada por abusos se­
xuais e que, em conseqüência desses abusos, ainda poderia engravidar e até mesmo parir sem o
menor amparo social. Isso tudo sem nos esquecermos do fato de que muitas vezes essas vítimas
são menores violentadas, em grande número de casos, pelo pai ou padrasto, ou ainda algum ou­
tro familiar. Como ilustração, cito o caso de uma adolescente de 14 anos de idade que havia si­
do estuprada pelo próprio pai, numa família na qual sua irmã mais velha já tinha dado à luz um
filho desse mesmo pai. Tratava-se de uma violência tão soberbamente institucionalizada e nor­
matizada que discutir sobre a necessidade ou não desse aborto era algo distante dos fatos e da
própria realidade.
180 I TEND� NCIAS EM PSICOI-O(oiA H OSPITALA"

mm preendida de uma forma muito mais ampla, além de uma simples gen i ­
t â l ia. A posição da mulher como ser humano merecedor de respeito e con­
sidt·ração era algo impensável nesse quadro. E o mais surpreendente é que
t•s sa i magem era de difícil assimilação até mesmo pelas mulheres pertenceo­
! l'S ao quadro de profissionais da saúde que atendiam mulheres vitimadas;
também elas tinham essa conceituação sectária e reducionista da mulher.
( :omo então esperar um atendimento globalizante se o próprio atendente
t i n ha uma visão fragmentada e distorcida da realidade?19
A partir dessa discrepância de conceitos e fatos não houve como conse­
_L:uir uma atitude uniforme dos profissionais médicos, havendo alguns que
passariam a prescrever a chamada pílula do dia seguinte, enquanto outros
Sl'l) uer aceitaram tal posicionamento. 20
Uma atenuante para a resistência desses profissionais a uma postura
menos tendenciosa com relação ao aborto é a reflexão sobre o número de
abortos clandestinos ocorridos no BrasiP 1 e que, além das seqüelas físicas
i rreversíveis, muitas vezes provocam um grande número de óbitos.
Se ainda não foi possível conseguir uma atitude uniforme sobre essa
questão, por outro lado o avanço sobre a humanização dos atendimentos rea­
l izados com essas mulheres é indiscutivelmente promissor.

I '). Essa reflexão me traz a recordação de um evento de que participei e que mostra claramente
esse preconceito opressor da mulher contra a própria mulher. Estava sendo homenageado numa
universidade num dos muitos cantos desse País; quando a diretora dessa instituição, num trecho
de seu discurso, afirmou ser uma honra a minha presença naquela autarquia, mostrà'nd� acima
de tudo a superioridade intelectual do homem sobre a mulher. O fato no qual ela escorava esse
argumento sequer foi mostrado. Apenas se enfatizou que ali estava presente um homem que era
homenageado e que se destacava em um universo eminentemente feminino. Diante de discursos
assim, tão agressivos à condição feminina, as mulheres sequer precisam se defender dos abusos
masculinos. Ou ainda nas palavras de Paulo Freire, o maior opressor é aquele que um dia foi opri­
mido. Freire, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1 970.
20. No entanto, é importante ressaltar que mesmo entre os profissionais que se recusavam a dis­
cutir questões envolvendo a prescrição da pílula do dia seguinte, houve grande transformação no
sentido de entender-se o aborto de uma maneira que não aquela que engloba conceitos religio­
sos, filosóficos, éticos, morais etc. Talvez a própria situação de preconceito que envolve a questão
do aborto faça com que essa temática dificilmente seja compreendida de uma forma mais livre e
plena. Nesse sentido, não posso deixar de lembrar uma citação presente nas bandeiras que lutam
pela legalização do aborto que diz que se o homem engravidasse, o aborto já estaria legalizado.
2 1 . Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde, o número de abortos realizados no
Brasil é de cerca de três milhões de casos anuais.
/111Jr/,llll·il.lo do .l<'l'l'iCII dto tllellclimell/11 <111.1' <'r/JII.r t!v 111'):,<:1/âtl e .flliddi11 IM t:id,ldt tl1 ,\',#11 l'r111lo
- -
I 111

No tocante a crianças, a questão mostrou-se bastante alvissareira quan­


to aos procedimentos adotados, até mesmo acerca de posturas assumidas
diante dos trâmites legais sobre as atrocidades cometidas contra crianças. O
consenso nesse sentido foi praticamente absoluto, não havendo divergências
significativas que mereçam registro.
O atendimento às crianças acometidas pela violência, se por um lado
não aborda questões tão polêmicas em um nível moraP como o aborto, por
outro atinge nossas raízes emocionais em seus níveis mais profundos. As­
sim, não há como não sentir asco diante do escarro da condição humana
cometido contra crianças que, desprotegidas pela própria vida, são violen­
tamente castigadas pelas mãos dos adultos. (Falamos em asco mas segura­
mente nesse rol de indignação podemos incluir sentimentos de revolta e
indignação, e consideramos tais atos como grotescos e estapafúrdios.) Adul­
tos que açoitam a própria dignidade humana ao cometer todo tipo de atro­
cidade contra seres tão indefesos.
Seguramente não há como adotar-se uma atitude marcada pelo distan­
ciamento profissional quando à nossa frente encontra-se uma criança violen­
tamente espancada pelos pais, e que em conseqüência apresenta um quadro
altamente comprometedor de politraumatismó. Ou uma criança que apre­
senta sinais contundentes de queimaduras provocadas pela mãe por ferro elé­
trico. Ou ainda uma criança seviciada sexualmente pelo próprio pai.23
Este trabalho prossegue apresentando nuanças tão surpreendentes
que cada detalhe em cada passo do caminho mostra sinais claros de que
iniciamos uma trajetória na qual mesmo a realidade duvida de sua própria
concretude. 24

22. Estou me referindo evidentemente àqueles casos nos quais a violência praticada contra a
criança não envolve questões sexuais.
23. Evidentemente que nos casos de crianças estupradas, não importando se pelo próprio pai ou
por estranhos, as questões anteriormente levantadas que envolvem a temática do aborto estarão
presentes com muito mais intensidade e vigor. E com o agravante de tratar-se de criança, caso
em que toda questão pertinente à violência contra a condição humana tem suas cores tingidas em
tons muito mais forres e contundentes. É o próprio retrato sem retoques da degradação humana
em seus aspectos mais aviltantes.
24. Para um aprofundamento teórico dessa temática da violência, sugiro a leitura de um traba­
lho anteriormente publicado que se intitula Crise, Trabalho e Saúck Mental no Brasil. São Paulo:
Traço, 1 986, Angerami, V. A . , org.
112 I TDN08NCIA5 !M P5tCOLOGIA HOSPITALA"

ATEN DIMENTO AOS CASOS DE TENTATIVA DE


SUiciDIO NOS PRONTOS-SOCORROS DE SÃO PAULO

A pt·sar de ser prioridade inicial de nosso projeto, a implantação do serviço


de 'aten<.limento aos casos de tentativa de suicídio nos prontos-socorros de
São Paulo2j acabou sendo mesclada a outras atividades anteriormente des­
ni tas. O programa, acabou sendo a mola mestra de toda a nossa determina­
\ão nessa abordagem de mudanças de atitudes padronizada dos prontos­
socorros, nos quais o suicídio é rechaçado das discussões a partir de um
j u lgamento moral existente sobre a temática.
Imbuídos desses princípios, sistematizou-se uma normatização de pro­
ce<.limentos necessários à implantação do serviço de atendimentos aos casos
de tentativas de suicía io dentro dessa realidade hospitalar.

A - Estratégia de Atuação. Levantamento de Dados

A primeira dificuldade surgida nessa questão foi a mudança de postu­


26
ra e de procedimentos sobre a questão do suicídio.

A sensibilização dos profissionais da saúde diante da temática do sui­


cídio é mister para que o paciente seja compreendido de uma forma mais
ampla, humana e digna. E assim como foi descrito anteriormente no traba­
lho com a Companhia do Metropolitano de São Paulo - Metrô, uma pro­
funda revisão dos conceitos de suicídio é considerada condição indispensá­
vel para se pensar na estruturação de·atividades que envolvem essa temática.

2 5 . Obviamente os prontos-socorros objetos de nossa intervenção são aqueles abrangidos pela


rede da Secretaria de Saúde de São Paulo.
26. Anteriormente, quando éramos responsáveis pelos casos de tentativa de suicídio atendidos
no Pronto:Socorro do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
LJSP, percebeu-se que um dos aspectos mais surpreendentes era a repressão moral que os profis­
sionais da saúde impunham sobre esses pacientes. Os dados de tentativa de suicídio já naquela
ocasião mostravam que a grande incidência era de pessoas s ituadas na faixa etária entre 10 e 20
anos de idade, pertencentes ao sexo feminino, e que tentavam o suicídio pela i ngestão excessiva
de comprimidos. Assim, quando dava entrada naquele pronto-socorro uma paciente que apre­
sentava tais características, a atitude médica era praticamente uniforme e conceituava essa pacien­
te como um simples caso de chantagem emocional, havendo inclusive a efetivação de rotulações
muitas vezes pejorativas. Chegamos a ouvir da parte médica que se tratava de simples caso de
'
vadiagem. Como se (, paciente, com seu gesto, estivesse não apenas atentando contra a própria
vida, mas também, e principalmente, atentando contra a eficácia desses profissionais.
111

B -Sedimentação Teórico-Prática

A sedimentação teórico-prática sobre a questão do suicídio deve dire­


cionar a ótica dos profissionais da saúde para o fato de :que o suicídio, ao con­
trário do que afirmam alguns sofismas, não é ato de coragem, nem tampou­
co de covardia. Trata-se de um ato de desespero que sempre, mesmo quando
a morte é fulminante e a princípio sem sinais evidentes de dor física, é reves­
tido de muita violência.27
Abordaremos as questões inerentes ao suicídio tornando explícito que
não será possível a implantação de um atendimento eficaz se não houver o desa­
pego de conceitos que possam prejudicar o desenvolvimento da atividade.
A medicina é considerada a arte de manter acesa a chama da vida. E to­
dos aqueles que direta ou indiretamente atentam contra a própria vida, estão,
muitas vezes, na visão dos profissionais da saúde, atentando igualmente con­
tra o princípio norteador da medicina. A dificuldade surgida nesse sentido
agrava-se com o fato de tais profissionais não terem durante sua formação aca­
dêmica um espaço no qual a questão da morte seja sequer abordada ou pole­
mizada. Vai-se para o pronto-socorro sem nunca ter polemizado sobre ques­
tões inerentes à morte, e depara-se com pacientes que atentam contra a
própria vida buscando a morte como alternativa aos sofrimentos existenciais.
Resultado: o paciente vítima da tentativa de suicídio é alguém que, na visão
médica, está ferindo a dignidade profissional de tantos quantos estejam de
plantão num pronto-socorro para acudir os casos nos quais a medicina não
precisa de conceitos éticos e filosóficos para prover o respectivo atendimento.
Essa questão é bastante delicada, pois soma os aspectos ético-morais
que envolvem o suicídio àqueles que revestem a medicina da condição de
infalibilidade. 28

27. A questão do suicídio em suas várias nuanças abordamos no livro Suicídio. Fragmentos de Psi­
coterapia Existencial. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. É indicado, portanto, para
quem quiser uma melhor compreensão e aprofundamento dessa temática.
28. Nesse sentido, é importante salientar que, mesmo nos casos em que a medicina se depara com
doenças até então tidas como irreversíveis, a postura profissional da equipe médica, na maioria
das vezes, reveste-se de conceitos de fracasso diante da iminência da m�rce. É como se individual­
mente todos fosses responsabilizados pelo fato de a medicina ainda não conseguir superar deter­
minadas doenças. Ou como se seus pares, que se dedicam a pesquisas e buscas de soluções para a
cura de determinadas doenças, não conseguindo êxito nesse intento, estivessem tornando a prá­
tica médica como um todo passível de uma falha e inoperância inaceitáveis.
114 I TkND!NCIAS !M PSICOLOGIA HOSPITALAII

O suicídio escancara tais faros de maneira irreversível e torna os argu­


m e n tos em mera e vã digressão filosófica.

É muito importante que, juntamente com a preparação técnico-opera­


cional dos profissionais da saúde que irão lidar com os casos de tentativas de
su icídio, seja feito um trabalho bastante profundo que embase emocional­
mente a superação desses limites. Limites que, embora não sejam estanques,
tendem a tornar os atendimentos algo retilíneo na superação desses desati­
nos. E o que é pior, em detrimento da eficácia do atendimento à vítima.

C - Órgão de Atuação

A primeira providência para a implantação do Serviço de Atendimen­


to aos Casos de Urgência e Suicídio foi a criação de um curso abordando a

temática do suicídio destinado aos profissionais da saúde pertencentes aos


quadros da Secretaria Municipal da Saúde.
Esse curso, além dos profissionais da Secretaria Municipal de Saúde de
São Paulo, também foi muito procurado por pessoas de outras entidades que
igualmente atuam com a questão do suicídio. Assim, tivemos a participa­
ção do Centro de Valorização da Vida - CVV, do Porta Aberta, da Com­
panhia do Metropolitano de São Paulo - Metrô e outras.
Além de marcar o início das atividades, o curso foi um marco na pró­
pria Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, na medida em que, pela
primeira vez, as portas foram abertas para que entidades . pertencentes à
comunidade pudessem sedimentar teoricamente suas práticas dentro da
temática do suicídio.
Após o curso, foi possível sedimentar e estruturar o atendimento às
vítimas da tentativa de suicídio, pois, ainda que de maneira genérica, os pro­
fissionais da saúde estavam sensibilizados para o início das atividades. As­
sim, estruturou-se o modelo de atendimento descrito a seguir.
Tão logo o paciente mostre condições clínicas de atendimento, dá-se
início ao acompanhamento psicológico por um psicólogo ou psiquiatra. A
condição clínica implica uma recuperação das funções básicas relacionadas,
portanto, aos, meios utilizados para a tentativa de suicídio. Exemplifican­
do, na ingestão de comprimidos só há condições de atendimento após a
lavagem gástrica. No caso da utilização de arma de fogo para a tentativa de
115

suicídio, as condições de atendimento, muitas vezes, são determinadas a


partir de fatores como eventuais cirurgias. O objetivo inicial do primeiro
atendimento psicológico é o estabelecimento de um sustentáculo emocio­
nal para que o paciente possa, em seguida, descobrir novas possibilidades .
e alternativas para sua vida. 29
Nesse primeiro atendimento, também delibera-se o encaminhamento
do caso a uma ajuda posterior. Os pacientes são encaminhados segundo os
preceitos do serviço, além de considerar-se a peculiaridade do caso.
Não existe nessa proposta inicial de atendimento a pretensão de esgo­
tamento das possibilidades emocionais de atendimento.30 Apenas visa suprir
esse paciente das condições ideais para que, posteriormente, possa ser efeti­
vado um trabalho de maior profundidade sobre os conflitos emocionais que
o levaram ao desespero.
Existe uma preocupação de integrar todos os profissionais da saúde que
atuam no pronto-socorro, no sentido de dar à atividade a consistência e soli­
dez necessárias para que o trabalho cumpra os objetivos inicialmente traçados.
Igualmente, iniciamos nesse campo uma trajetória cercada de muita
controvérsia e discussão, mas que a partir das reflexões efetivadas em breve
atingirá sua condição de plenitude.

29. Em um primeiro atendimento, não se tem a pretensão nem a intenção de uma abordagem
profunda no tocante aos problemas existenciais do paciente. Sabemos que nesse primeiro con­
tato, acenamos como uma luz de esperança no turvo de suas possibilidades. Muitas vezes, somos
uma ilusão tangenciada pela fé perceptiva desse paciente em desespero, pois uma proposta de
atendimento mais abrangente não pode ficar restrita às limitações impostas pelo atendimento
realizado no hospital e, mais especificamente, na maioria das vezes, nos corredores sombrios de
um pronto-socorro.
30. Evidentemente, falamos de casos nos quais a pessoa tem consciência dos próprios acos. Quan­
do existe a presença de patologias que implicam a total falta de consciência, a obnubilação psí­
quica determina então um tratamento medicamentoso que dista dessa proposta de atendimento.
111 I T!ND!NCIAS EM PSICOLOGIA H OSPITALAft

CONSIDERAÇÕES COMPLEM ENTARES

A vida é uma linda e suave ilusão . . .

Viva intensa e plenamente . . .

O resto simplesmente acontece . . .


segundo a segundo,

a eternidade do tempo e do infinito . . .

Ao analisar este texto, deparo-me com o fato de estar escrevendo algo


que pode estar muito distante da nossa prática. Essa sensação sempre me aco­
mete quando relato sobre essas atividades. É como se o fato de vir a público
fizesse com que se mostrasse apenas o lado das atividades que está "dando
certo" . Assim seriam omitidos percalços, dificuldades, atropelos, enfim, tu­
do que seria danoso ou até mesmo desastroso ser relatado. Na verdade, ain­
da que a descrição possa tangenciar a idealização daquilo que concebemos e
realizamos, mesmo assim, esses aspectos não deixam de me levar a esse tipo
de consideração.
Preocupa-me muito o fato de estar transmitindo modelos teóricos de
atuação que serão reproduzidos. E que, talvez, necessitem de maturação
milenar para atingir a concretude das descrições.
Recentemente, recebi um trabalho acadêmico realizado sobre o meu
livro Suicídio (ibidem). E imediatamente fiquei indagando sobre a dimen­
são dessa realidade. Pessoas produzindo trabalhos sobre reflexões e dados
discorridos a partir de uma prática intensa sem sombra de discussão, mas
passível de mudança e revisão.
De outra parte, no entanto, não tenho dúvidas de que se essas ativida­
des necessitam revisão e mudanças, pois são determinadas a partir de refle­
xões efetivas sobre o desenvolvimento de sua ocorrência. E não do revisionis­
mo meramente acadêmico realizado a partir de publicações teórico-práticas
de outros contextos e países.
A responsabilidade de estar ajudando na criação e na elaboração da
bibliografia sobre a psicologia no Brasil, nesses momentos, é praticamente
insustentáveL Tenho a impressão de que seria mais fácil teorizar sobre deter­
minadas temáticas à luz de certos pressupostos teóricos e até mesmo dou­
trinários do que refletir teoricamente sobre uma atividade estribada numa
1&7

realidade institucional totalmente adversa. Sinto-me assim como um gati­


nho que se atira de encontro a um novelo de lã para brincar, e se assusta com
o desenrolar dos fios.
Enfrentamos o grande desafio de mostrar nossa prática por meio da
publicação de livros31 e do relato em conferências, simpósios e congressos
com o coração aberto e a certeza de que, mais do que expô-la a críticas, esta­
mos antes abrindo a percepção de tantos quantos possam com ela deparar­
se. E estamos mostrando que é possível a construção de uma psicologia esco­
rada em nossa própria realidade.
Somos os construtores de uma nova ordem teórica. De uma nova fun­
damentação educacional. E, mais do que tudo, da transmissão de uma nova
concepção de realidade institucional; da sistematização de que é possível,
ainda que esteja a nos exigir esforços incalculáveis, a implantação de diver­
sas atividades em contextos nos quais anteriormente sequer seria possível
supor tal investida.
Uma coisa corriqueira em minha vida atualmente é ser procurado por
alunos de graduação em psicologia para entrevistas e coleta de dados para
a realização de trabalhos acadêmicos. Esses alunos, na maioria das vezes,
são oriundos de cursos de psicologia que possuem matérias nas quais a rea­
lidade brasileira, ainda que tangencialmente, é mostrada, questionada e
refletida.
Esses alunos, então, são encaminhados por seus professores para procu­
rar os profissionais que realizam as atividades, depois relatadas e discutidas
em sala de aula.
Ao defrontar-me com esses grupos de alunos, o que mais me surpreen­
de é constatar a incredulidade que apresentam diante da proximidade não
apenas do trabalho em si,32 como também do estabelecimento de contato
com o autor do texto estudado curricularmente. E a imagem passada, quase

31. A palavra escrita tem um peso muito maior do que a palavra transmitida por meio de con­
ferências, mesas-redondas, simpósios, congressos etc. Através dos textos escritos, a palavra regis­
trada não sofre a distorção da palavra transm,tida numa conferência, por exemplo. Ou ainda,
usando de uma alusão de sabedoria popular, a palavra eterna é a palavra escrita. Daí a importân•
cia de um livro, de uma publicação científica num contraponto com palavras que se perdem nu­
ma conferência.
32. Isso tudo sem considerarmos o choque provocado pela verificação da distância abismal entre
a realidade presenciada e a realidade relatada nos trabalhos acadêmicos.
168 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALA�

sem exceção, é que a concretização desses encontros é impossível. ·1·1 Isso


devido principalmente ao fato de que a maioria dos textos estudados aca­
demicamente são de outras realidades, de autores inatingíveis até mesmo
por correspondência.
Esses fatos j ustificam a documentação de nossas atividades pelas publi­
cações que realizamos.
Ser presença obrigatória em seminários, simpósios e congressos é mera
seqüência casuística de nossas atividades.
O mais importante é o registro teórico-prático de nossos trabalhos para
que a própria sedimentação curricular dos cursos de psicologia no BrasiP4
tenha suas bases estruturadas em nossa realidade, sobre empreitadas possí­
veis de ser efetivadas e sobre teorizações resultantes de uma prática em que
a sedimentação filosófica se baseia na fusão de esboços teóricos com uma ati­
vidade que traz em seu bojo a concretitude de nossa própria realidade.
Embora muitos de nossos trabalhos ainda se mostrem simples sonhos,
ilusões, nossas conquistas há muito tornaram-se concretas. E ainda que este­
jamos acreditando na própria força da ilusão, não importa.
Grandes realizações nasceram a partir de simples sonhos. E, por outro
lado, para um sonho se tornar realidade, é necessário que anteriormente te­
nha sido sonhada.
Estas palavras, mais do que uma simples justificativa, são a própria sus­
tentação filosófica que embala nossa utopia de que ainda viveremos uma
sociedade mais justa, digna e humana. Ou ainda de que é possível a cons­
trução de uma outra realidade de saúde. E de que teremos uma psicologia
humana e verdadeira, tão real quanto a suavidade de uma canção entoada
pelo vento nas manhãs azuis de outuno . . .

3 3 . Para ilustrar esse aspecto, cito o fato de que a maioria desses encontros necessita de um perío­
do grande de aquecimento. Esses alunos sentem-se tão ansiosos e incrédulos que chegam, inclu­
sive, a perder-se no rumo inicial da entrevista e da coleta de dados. É como se, pelo fato de escre­
vermos os livros que estudam, não nos acreditassem humanos, reais.
34. Deixamos de enfatizar com destaque a adoção de nossos livros nos concursos públicos que
envolvem contratação de profissionais de saúde, realizados ao longo do Brasil, por tratar-se sim­
plesmente de mera derivação e seqüência da importância recebida nos meios e lides acadêmicos.
189

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. Psicologia Hospitalar. A Atuação do Psicólogo no Con­


texto Hospitalar. São Paulo: Traço, 1984.

------ . Suicídio. Uma alternativa à vida. São Paulo: Pioneira


Thomson Learning, 2003.

------ . Crise, Trabalho e Saúde Mental no Brasil. São Paulo: Traço,


1986.

A Psicologia no Hospital. São Paulo: Pioneira Thomson


Learning, 2003.

-- Solidão. A Ausência do Outro. São Paulo: Pioneira, 1990.


----.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.


1 70 I TeNoeNCIAS ftM PSICOI OOIA 1-fOSPITALAII

ESTAMOS NO OUTONO ... *

VALDEMAR AUGUSTO ANGERAMI - CAMON


l J ma brisa suave embala as manhãs azuis.
Novos surtos de doenças assolam o País . . .
dengue, cólera, leptospirose, Chagas, Aids
t' outras tantas mais.

A psicologia hospitalar busca espaço


nos hospitais, na vida, no amor e na dor.
Estamos no outono . . .
O amor insiste, persiste e encanta a vida.
O hospital é o sonho do desespero,
do sofrimento e da luz.
E existe mais vida nos moribundos
que na própria vida. . .
Estamos no outono . . .
n a véspera do inverno.
E de nada adiantaria viver tantos outros outonos,
stm a dimensão deste outono.
A saúde agoniza. Os hospitais padecem . . .

A vida pede renascimento e libertação.


Estamos no outono . . .
E essa consciência nos liberta
do incômodo de nossa finitude.
Somos a nossa própria introspecção.
Estamos no outono . . .
E sabê-lo finito, finito
transformar este infinito na dimensão
de que o nosso último dia de vida sempre é hoje ...
E que é necessário vivê-lo plenamente.
Estamos no outono . . .
E um doce sorriso, um afagar de mãos,

* N . A . : Esta poesia foi publicada anteriormente no livro O Doente, a Psicologia e o Hospital.


São Paulo: Pioneira Thomson Le �rning, 2003 .
llli/lltlllltlf<io do .fG"''VÍfli de atendimento aos casos de urxênda e .l'!liddio "'' âtl,ttlt ,/p .\'.111 f',utlo I 1 71

uma luz de libertação no leito mortuário


é o próprio sentido da esperança . . .
Da psicologia hospitalar, d a saúde, do amor.

Estamos no outono . . .
O outono traz a florada da quaresmeira e da paineira . . .
O outono por s i s ó é lindo.
CA PÍTU L O 9

A ÉTI CA D IANT E
D O S CAS O S D E S U I C Í D I 01

I NTRODUÇÃO

Falar em ética nos casos de tentativa de suicídio e mesmo dos casos


de suicídio requer isenção de postulados teóricos e filosóficos que,
seguramente, estamos longe de atingir ou mesmo dimensionar. Fa­
lar em suicídio é tocar no cerne de questionamentos que abrangem
questões muito mais amplas do que um ato isolado que, em princí­
pio, envolve apenas uma pessoa e seus familiares mais próximos. Fa­
lar em suicídio é falar na destrutividade que de alguma forma atin-

1. Este trabalho foi publicado anteriormente no livro A Ética na Saúde. São Paulo: Pio­
neira Thomson Learning, 2003.

1 73
1 74 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HoWITAI.M

ge a todos indistintamente e que escolhe suas vítimas apenas para pontual'


a extensão desse aspecto destrutivo. Guillon e Bonniee ( 1 984) ensinam que

muitos suicídios são assassinatos, crimes sociais, e em todos os outros a res­


ponsabilidade do sistema social está comprometida. Ainda assim, dizemos
pouca coisa. A sociedade mata, adoece as pessoas e as deixa loucas. Nem por
isso se cogita lutar contra a doença ou a loucura (ibidem). De fato, podemos
n>nstatar que muitas pessoas despojadas de dignidade existencial em suas
vidas se matam, e a primeira questão que surge é se devemos dissuadi-las
d i sso. Em nome de que proposta de felicidade devemos fazê-lo?
De outra parte, o eco da esquerda proclama que, se devemos morrer
porque somos vítimas da injustiça ou da miséria, é melhor, antes disso, nos
unirmos a um dos grupos que lutam precisamente contra a miséria e a in­
justiça. Nesse tipo de proposta só falta dizer que no paraíso esquerdista, sem
mais injustiças e miséria, teremos o direito de escolher até mesmo a manei­
ra como queremos morrer, isso evidentemente alguns segundos antes de sua
ocorrência. Se é válido que empenhemos nossa vida diante de causas sociais
mais justas e, por assim dizer, mais amplas, a grande questão que se coloca
no bojo das discussões envolvendo a problemática do suicídio é qual a dife­
rença entre o sacrifício de uma vida em prol de causas grandiosas e o sacri­
fício dessa mesma vida diante de incertezas e até mesmo do aniquilamento
existencial?
O suicídio nada mais é do que a constatação derradeira de que é o fato
de_ não poder viver que leva a pessoa a procurar a morte. É a constatação de
que um projeto social falhou na pessoa do suicida, um projeto social que não
pode ser balizado na dimensão da dor e do sofrimento daquela vítima. Um
pr_uj_eto que faliu e ruiu diante dos escombros da dignidade humana afeta­
da circunstancialmente pela dor e pelo desespero.
Inicialmente, havia pensado em me deter em alguns casos, como já ha­
via feito anteriormente (Angerami, 1 995), mas optei por uma reflexão mais
ampla e que envolvesse aspectos teóricos e filosóficos da temática do. suicí­
__

dio. Ainda assim, exemplificarei algumas asserções com a inclusão de casos


ilustrativos, mas sem a análise minuciosa e pormenorizada de outros traba­
lhos. Procurei centrar minhas digressões teóricas sobre as realidades insti­
tucionais nas quais desenvolvi, ao longo desses últimos anos, uma intensa
atividade com pacientes vítimas de tentativa de suicídio e a casos de suicí-
A r!tka dia nu tlo.r t'n.IHI .Ir• 111idd/o I 175

dia. Assim, enfoquei uma reflexão sobre a realidade dos casos atendidos nas
unidades de prontos-socorros hospitalares, incluindo aí uma derivação jun­
to aos casos de tentativas de suicídio nas unidades do metrô e finalmente na
realidade dos atendimentos realizados em consultórios. Certamente, é um
trabalho incompleto, pois a própria temática que enfeixa as determinantes
do suicídio é tão ampla que é impossível abarcá-la, seja neste simples cap!·
tulo, seja ainda no mais extenso tratado filosófico sobre o suicídio. Sempre
hav.erá um caso que exigirá complementação teórica, filosófica ou até mes­
mo exigirá explicações neurológicas, sociais, endêmicas etc. A imensidão
das questões envolvendo o suicídio faz com que até mesmo o legislador se
mostre inquieto e de alguma maneira tente influir em sua ocorrência. Sus­
peitando que....u
.aQ eles que a sociedade adulta amordaça quisessem lançar um
gr.WLpor meio de seu derradeiro gesto, foi proibida a divulgação do suicí­
dio de menores. Em 1978, uma advertência do ministro da justiça da Fran­
ça cita a lei de imprensa em que figura, desde 1955, a interdição de publi­
car qualquer texto ou ilustração envolvendo o suicídio de menores em livro,
na imprensa, no rádio, no cinema ou de qualquer outra maneira. Trata-se de
evitar que se faça, em torno desses dramas, uma publicidade que suscite no­
vos atos de desespero (Guillon e Bonnice, 1984). Dessa maneira, podemos
perceber que o contágio, ou melhor, a contaminação, é a explicação natural
que os adultos encontram para o comportamento dos adolescentes que os
choca (ibidem). Assim, toda e qualquer transgressão do adolescente às nor­
mas sociais sempre e invariavelmente será "influência" ou "cópia do com­
portamento dos outros".
Num momento em que assistimos a um crescimento vertiginoso de to­
das as formas de violência, o suicídio será apenas mais um dos elementos de
destrutividade existentes no seio social e que faz incontáveis vítimas.
Um simples correr d'olhos pelos textos mais antigos sobre suicídio
mostra que a preocupação com sua ocorrência talvez fosse maior, pois não
existiam tantas outras variáveis que pudessem tentar explicá-lo e até mes­
mo dimensionar parâmetros para a sua real compreensão.
A realidade atual mostra o suicídio _s_e complementando com outras
__

formas de destruição social; mostra que o suicídio, por mais dramático que
seja em termos de destrutividade familiar, não é a única nem a mais cáusti­
ca das tantas derivações que a destroem. Podemos citar, apenas num breve
171 I TrNOINCIM IM PSICOLOGIA HOSPITALAII

mnrruponto, o número imenso de famílias atiradas na miséria, vitimadas


pt'lu questão cada vez mais crônica do desemprego, ou até mesmo os casos
de doenças letais como câncer, Aids, malária etc.
O suicídio surge como uma das formas mais cruéis de destruição por
envolver questionamentos que não encontram guarita nas explicações cien­
t íficas, acadêmicas e mesmo religiosas. É um profundo mistério que desafia
todos os estudiosos no sentido de se tentar elucidá-lo na vã e insustentável
nença de compreendê-lo.
Pesquisa-se muito sobre o suicídio, mas as conclusões praticamente são
as mesmas das afirmações de Durkhein ( 1 969) do final do século passado. É
como se tivéssemos ficado um século inteiro a pesquisar, confrontar e ana­
lisar para depois concluir que tanto as afirmações meramente explanatórias
como os dados cruzados em pesquisas realizadas com todo o rigor científi­
co chegassem a vagas e desencontradas variáveis sobre a sua ocorrência. O
que é ainda pior, d�moramos quase um século para aceitar o que Durkhein
afirmou no final do século passado, ao enfeixar o suicídio como uma ocor­
rência individual que _estava diretamente vinculada a outras ocorrências so­
ciais. Tartamudeamos, crescemos, caminhamos e depois concluímos que
quase n!:l.da. podemos afirmar sobre o suicídio que não esteja embasado em
mera digressão teórica. Ou seja, se você aceitar e acreditar em determinada
teorização, ela tudo explica, mas se, ao contrário, faltar a chamada crença
dogmática na teorização, ela nada explica. Temos várias teorias explicando
as mais diversas causas para a ocorrência do suicídio, mas tais explicações
podem ser convincentes apenas no campo da digressão teórica. Nada mais.
Uma real abrangência desafia os teóricos e estudiosos da temática.
Por outro lado, falar de éticà� temática tão controversa quanto o suicí­
dio, é tergiversar buscando as- primeiras palavras para tentar balbuciar fra­
ses que dêem significado às nossas buscas, mas que certamente tocarão ape­
nas tangencialmente a essência do suicídio em sua profundidade e
enraizamento social. Se não é possível uma afirmação absoluta de questões
envolvendo ética, igualmente .não temos valores absolutos para a definição
de suicídio. Então, nossa tarefa é uma árdua e longa tentativa que, certa­
mente, servirá de contribuição, mas nunca de conclusão de tais temáticas.
A étka diante dos t<l.fli.i' d1 JNJdtiiH I t77

UMA BREVE DIGRESSÃO TEMÁTICA

Uma das primeiras questões para se tentar compreender a temática do sui­


cídio é a busca da especificidade de cada caso. Devemos abandonar as teo­
rias que generalizam sua compreensão e universalizam suas explicações a
partir de um determinado caso. Foucault ( 1 989) coloca que assistimos, há
dez ou quinze anos, a uma imensa e proliferante criticabilidade das coisas,
das instituições, das práticas, dos discursos; uma espécie de friabilidade ge­
ral dos solos, mesmo dos mais familiares, dos mais sólidos, dos mais próxi­
mos de nós, de nosso corpo, de nossos gestos cotidianos. Mas j unto com es­
sa friabilidade e essa surpreendente eficácia das críticas descontínuas,
particulares e locais, e mesmo devido a elas, se descobre nos fatos algo que
de início não estava previsto, aquilo que se poderia chamar de efeito inibi­
dor próprio às teorias totalitárias, globais (ibidem). Se por um lado Foucault
estriba toda a sua base filosófica num rechaço total às chamadas teorias to­
talitárias, incluindo-se o marxismo e a psicanálise, ele vai ao encontro de ou­
tro filósofo igualmente francês - Deleuze - que afirma ainda mais dras­
ticamente que toda generalização é burra (Deleuze, 1 996). E ao partirmos
da premissa de rechaçar igualmente toda e qualquer generalização teórica,
a questão envolvendo ética e suicídio fica ainda mais complexa, uma vez que
os postulados que determinam seus aspectos de teorização e compreensão,
na quase totalidade das vezes, derivam de generalizações e abstrações a par­
tir da ocorrência de um número limitado de casos.
Aspectos envolvendo a discussão sobre as ocorrências do suicídio ain­
da apresentam o agravante de mudar de acordo com as mudanças sociais, e,
por assim dizer, com a ótica do investigador. Kalina e Kovadloff ( 1 983) afir­
mam que atualmente o suicídio não deixou de ser entendido como um ato
pessoal, como ação do indivíduo. Contudo, é cada vez maior a evidência de
que sua significação ultrapassa aqueles que o protagonizam para envolver a
comunidade na qual acontece. Em cada sujeito que se mata, fracassa uma
proposta comunitária. Saímos assim de uma análise individual dos casos de
suicídio para minimamente abordarmos a comunidade e a família como ex­
pressão pormenorizada de alternativas e condutas sociais. Transcendemos os
limites meramente teóricos que centram no sujeito a tentativa de com­
preensão de seu ato para alcançarmos o tecido social no qual a ocorrência do
1 78 I TEND�NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAR

suicídio se mistura a outras formas de violência e se torna parte de um to­


do social destrutivo.
Vivemos numa sociedade delirantemente suicida, que aniquila os seus
cidadãos das formas mais violentas. Seja no assalto que ceifa a vida do jovem
adolescente em troca de um tênis importado, seja na violência das torcidas
uniformizadas, seja na violência mitificada em velocidade nas ruas e estradas,
seja ainda no simples quietismo diante de tantas formas impiedosamente
aniquiladoras. A destruição social faz com que as vítimas dessa degeneração
transformada em violência nada mais sejam do que simples vítimas de uma
sociedade suicida que aniquila suas próprias células.
Falamos em ética na saúde, buscamos ética em nossos relacionamentos
interpessoais, mas não conseguimos sequer definir quais os aspectos que de­
vem envolver a normatização da própria convivência social em meio a uma
sociedade tão delirante e tão destrutiva.
Falamos em dignidade e não conseguimos perceber a dor do outro dian­
te de situações de desespero. Exemplo disso são os movimentos surgidos no
Rio de Janeiro e posteriormente em São Paulo, e batizados, respectivamen­
te, de Reage Rio e Reage São Paulo. Pela própria definição de seus nomes,
esses movimentos indicam que se trata de uma reação a alguma agressão so­
frida pelos componentes desses grupos. Mais do que isso, trata-se, na verda­
de, de uma reação à violência - quantificada por um número crescente e ver­
tiginoso de assaltos acompanhados de seqüestro e assassinato -, mas a
violência inicial que vitimou a grande desigualdade social que originou a
violência secundária sequer é tocada e trazida à luz das discussões. Pede-se o
fim da violência, dos assaltos, mas não se questiona se esses assaltos não es­
tão ligados à necessidade de sobrevivência de um sem-número de pessoas
que, simplesmente, estão excluídas das condições sociais em termos de dig­
nidade e até mesmo das condições mínimas de sobrevivência.
A ética desses movimentos é: "Parem com essa violência - de assaltos,
estupros, assassinatos - contra os nossos iguais, apenas para nossos iguais".
Outras formas de violência - falta de moradia, educação, saúde, transporte
etc. - continuarão a ser cometidas, mas elas não importam na verdadeira es­
sência dos fatos, pois a única forma de violência que importa é a que atinge
os elementos desses movimentos de reação. Essa ética encontra respaldo em
toda a parcela da população atingida por esses desatinos, mas não incorpora
A üica diante dos casos de s11idtllo I t 71

a possibilidade de que essa violência seja uma reaçãoi COntra outras formas de

violência. Que essa violência cometida contra a classe média nada mais é do
que uma tentativa de suicídio na qual o suicida é tanto o agressor como o
agredido, vitimados ambos por uma sociedade suicida. Uma sociedade que
não reconhece seus elementos como cidadãos, não lhes oferecendo o mínimo
necessário de dignidade e cidadania; que atira seus elementos à miséria ao
mesmo tempo em que contempla toda a sorte de injustiças sociais sem cur­
var-se ao clamor de dor dos mais atingidos pelo desespero.
Esse contraponto de ética que normatiza como violência apenas o que
atinge os seus postulantes não tem como abarcar diferenças, pois as matizes
de seus questionamentos são, na verdade, os interesses de seus criadores. Da
mesma forma, outros construtos de ética vão balizar como adequadas formas
de normatização da convivência com aspectos que envolvam apenas questões
tangenciais observadas pela ótica de seus idealizadores. E que certamente ex­
cluem aspectos e fatores que possam envolver construtos filosóficos que es­
capem à sua compreensão. Assim, a ética que envolve a temática do suicídio
é, antes de mais nada, um conjunto que visa normatizar os aspectOs observá­
veis desse tipo de ocorrência, mas que não tem como abranger a própria sub­
jetividade presente intrinsecamente em cada caso. Estabelecem-se normas de
enquadramento e sistematização de aspectos tanto descritivos como mera­
mente reflexivos, mas sempre a partir daquilo que se pode apreender na ob­
servação simplista do fenômeno. E no caso de suicídio, a complexidade de
seus emaranhados faz com que resista a esse tipo de verificação e abordagem.
É fácil o estabelecimento de uma condenação moral a atos considerados
inadequados, e que de alguma maneira ferem a ordem social, da mesma for­
ma que é fácil a condenação quando um gesto já apresenta em seu bojo toda
uma condenação social. Um ato de estupro acompanhado de assassinato co­
metido contra uma criança é um exemplo cuja condenação é consenso em to­
dos os tecidos e segmentos sociais. Não há como tolerar esse tipo de acinte
cometido contra a integridade física de uma criança, e até mesmo discussões
envolvendo possíveis aspectos patológicos do agressor se perdem diante da
atrocidade maior que é o próprio ato em si. O atenuante de aspectos de com­
prometimento emocional do agressor apenas servem para enquadrá-lo nou­
tra forma de condenação, transcendendo apenas os limites morais e estarre­
cedores do ato em si. É sabido, por exemplo, que os estupradores, ao serem
110 I TnNil�.NCIM ftM P�ICOLOGIA HOSI>ITALM

presos, são igualmente estuprados nas celas, sendo submetidos a todos os ti­
pos de sevícias sexuais e morais. Trata-se apenas de mais uma das inúmeras
condenações a que são submetidos esses agressores, não importando outros
questionamentos sobre as determinantes de seu ato, pois a condenação é to­
tal e absoluta.
De outra parte, questionar os determinantes da violência e enfeixá-los
num aspecto mais amplo é apontar o enfeixamentos das contradições ocorri­
das no seio social. É trazer à tona os aspectos transcendentes da condição hu­
mana naquilo que o homem apresenta de mais peculiar, que é o fato de ser
predador da própria espécie. É trazer à tona os aspectos mais cruéis do ho­
mem, e que mostram que a dor e o desespero do outro não importam na ra­
zão e na essência direta dos fatos. O que irá importar, na realidade, é a preo­
cupação consigo mesmo e com a própria sobrevivência. Esse centralismo e,
por assim dizer, esse distanciamento do outro faz com que o homem fique ca­
da vez mais insensível à violência que atinge o outro. A violência passa a ser
preocupante somente quando o atinge em seus limites familiares. Do contrá­
rio, é apenas mais uma das inúmeras ocorrências sociais que cercam sua vida.
O suicídio é uma das mais extremas manifestações da própria violên­
cia. É um ato sempre revestido de muita violência até mesmo nos casos em
que a morte é fulminante e não apresenta sinais de dor física. É uma violên­
cia cometida contra si mesmo e contra o outro. O suicida se eterniza no ou­
tro. Traz, além da morte e das implicações inerentes ao morrer, a condição

de levar o outro a um sem-número de questionamentos infindáveis. E o sui­


cídio como manifestação da violência irá exigir que tipo de ética? Que tipo
de ética poderá ser erigida para um paradoxo no qual a violência exige mais
violência? (Angerami, 1 995 . )
Ainda assim é necessário um aprofuhdamento nas discussões que en­
volvem a formulação de um construto de ética que possa ao menos determi­
nar posturas mínimas de convivência e de estreitamento para o atendimen­
to dos casos de suicídio. Esses aspectos serão discutidos no próximo tópico
deste trabalho.

O SUICÍDIO E ALGUMAS DE S UAS IMPLICAÇÕES

Antes de qualquer outro balizamento que se queira realizar, o suicídio, fun­


damentalmente, estará ligado a questões que envolvem a morte e a aspectos
A ética diante dos casos de suicídio I 181

que abrangem igualmente temas ligados à violência. É, por assim dizer, uma
somatória de fatores interligando a morte em uma de suas facetas mais vio­
lentas. Seus determinantes exercem um fascínio sobre as pessoas, seja pelos
aspectos que envolvem seu esboço, seja pelo mistério de sua compreensão,
seja ainda pelo simples estardalhaço de emoções que as pessoas buscam com
tamanha avidez. Analisar um caso de suicídio é, antes de tudo, analisar um
caso que envolve um dos mais instigantes e desconhecidos enfeixamentos da
condição humana. É debruçar-se sobre fatos procurando compreender um
fenômeno que talvez nem apresente condições para ser compreendido. É de­
bruçar-se sobre fatos e procurar nesses fatos o alcance da própria dimensão
da consciência para abarcar em uma digressão filosófica aspectos obscuros
da vida humana. O suicídio apresenta uma combinação de fatores que exi­
ge do observador muita atenção, para que se tenha claro um paradigma pre­
ciso sobre suas implicações no seio familiar e social de sua ocorrência. Cito
como exemplo um caso ocorrido anos atrás, e que teve cobertura jornalísti­
ca do telejornal Aqui Agora.
A reportagem do jornal tomou conhecimento, pelo rádio de uma de
suas viaturàs, de um chamado do Corpo de Bombeiros para o atendimento
de uma mulher que estava prestes a se atirar do alto de um prédio no cen­
tro comercial da cidade de São Paulo. Dessa maneira, a reportagem chegou
ao local praticamente ao mesmo tempo em que a viatura do Corpo de Bom­
beiros, e passou então a gravar os desdobramentos desse caso. Detalhes co­
mo os oficiais do Corpo de Bombeiros tentando persuadir a vítima a aban­
donar seu intento, minúcias do sofrimento estampado na face da yítima,
bem como a platéia que, ávida de emoção, gritava para que a mulher pulas­
se e contemplasse a todos com o inusitado daquele espetáculo, tudo, enfim,
foi documentado, registrado e exibido no horário nobre. Em virtude dos al­
tos índices de audiência obtidos, esse episódio foi repetido numerosas vezes
ao longo da semana.
Se é verdade que o objetivo principal de um órgão televisivo é buscar fa­
tos que gerem audiência, certamente deveria ser também o de veicular as de­
terminantes envolvidas nesses fatos. O simples espetáculo de uma mulher se
jogando do alto de um edifício, além de macabro, serviu apenas para alcan­
çar pontos de audiência televisiva e jamais para discutir o nível de desespero
envolvido num ato dessa magnitude. O comportamento no mínimo bizarro
1 82 I T!NOINC:IAI IM P\ICOLOGIA HÇlSPITALAft

das pessoas que presenciavam a cena, gritando para que a mulher se jogasse,
foi igualmente um espetáculo, e igualmente não mereceu nenhum comentá­
rio. A total falta de solidariedade, tanto dessa platéia quanto de muitas pes­
soas envolvidas no simples registro jornalístico, é também merecedora de
inúmeras interrogações. A própria tentativa de explicação para tal comporta­
mento certamente se perderá em digressões teóricas, pois o verdadeiro teor de
tais condutas está longe de ser abarcado num construto teórico e até mesmo
filosófico. Não há como exi�ir um nível de compreensão para um fenômeno
no qual o espetáculo da morte de uma mulher desesperada pudesse provocar
tanto prazer, prazer pormenorizado nos detalhamentos do próprio fenômeno.
A primeira evidência da dificuldade de se pontuar algum nível de com­
preensão é o fato de que o suicídio dessa mulher era evidência primeira de
uma situação de desespero e de total descontrole emocional, e, dessa manei­
ra, não poderia provocar um prazer tão exacerbado naquelas pessoas. "Não
poderia" é a expressão correta, pois de fato situações que impliquem morte
e destruição de outras pessoas exercem um fascínio muito grande sobre as
pessoas. Basta observar uma luta de boxe: quando um dos lutadores está
massacrando seu oponente, praticamente destruindo-o fisicamente, levan­
do-o a nocaute - à falta de consciência -, a platéia delira de satisfação e
prazer pelo espetáculo exibido. A morte ou seqüela física muitas vezes irre­
versível de um dos oponentes é mero detalhe que não é considerado no pra­
zer obtido na seqüência de golpes que culmina com o nocaute. Da mesma
forma, uma simples observação nas chamadas dos programas esportivos da
televisão dá um panorama da dimensão desse fascínio pela destruição. As­
sim, são mostradas cenas automobilísticas nos quais carros batem, incen­
deiam-se, capotam etc . , nos quais futebolistas são derrubados, jóqueis ati­
rados ao chão pelos cavalos e assim por diante. Ou seja, são evidenciadas
situações nas quais o destaque é a destruição ou algo que se assemelhe.
Ao lado do sofrimento envolto no ato do suicídio e, por assim dizer, de
outras formas de violência, sempre há um nível subjacente de inconformis­
mo com os aspectos da própria condição humana. O suicídio da mulher que
se jogou diante das câmeras de televisão não é considerado senão em seu as­
pecto de sensacionalismo. É também esse aspecto sensacionalista que justi­
fica a própria gravação ao vivo com chamadas anunciando com estardalha­
ço tal fato. A possível dor ou mesmo o comprometimento emocional dessa
A ltkrt tlhml• ,/,.,, , , ,,w, dt utldrl/11 I 111

mulher é fator que não pode ser considerado na análise dos quesitos que jus­
tificam a transmissão televisiva. Tampouco os familiares da vítima, sua dor
e mesmo o constrangimento de ter um ente exposto de maneira tão aviltan­
te diante de toda a comunidade a que eles próprios pertencem.
Se o aspecto que envolve uma cobertura jornalística é sua repercussão,
certamente questões que envolvem aspectos emocionais não podem ser con­
sideradas no mesmo bojo. É como se questões emocionais não mais tivessem
espaço diante do sensacionalismo de uma notícia ou mesmo de um fato iso­
lado que tem o poder de causar polêmica. Desatinos e dores emocionais n�o
podem ser balizados com a mesma cri ticidade com que se pontuam razões nas
'
quais a emoção não tem espaço nem que seja para mera digressão teórica.
Discutir os efeitos do suicídio e suas implicações é articular determi ­
nadas pontuações teóricas e filosóficas e nunca articular propriamente de­
terminantes do envolvimento dessas nuanças na configuração do fenômeno.
O suicídio, quando visto pela ótica que baliza determinadas práticas
profissionais e mesmo sociais, sempre é conside�ado apenas sob o aspecto de
ato que envolve a morte numa configuração de violência extremada, que pó­
de também envolver outras pessoas, seja nos casos de indução ou de possí­
veis tentativas de homicídio escamoteadas numa tentativa de suicídio. Bus­
ca-se uma separação entre o que é um ato de suicídio propriamente dito e
uma variante de uma tentativa de suicídio envolvida em persuasão ou mes­
mo no agravamento de situações nas quais ela seja exposta a um completo
desarvoro e desatino emocional.
Busca-se uma forma de compreensão do suicídio. Evocam-se razões hu­
manitárias, jurídicas, médicas, filosóficas e outras para tentar, de uma ma­
neira bastante abrangente, explicar e dar contornos ao real significado do
suicídio na condição humana. E uma grande questão se coloca: é possível
compreender um fenômeno que, mesmo sendo ato isolado e individual de
uma determinada pessoa, envolve ao mesmo tempo questões tão polêmicas
e que transcendem as mais variadas áreas do conhecimento?
Há ainda outra questão, para a qual não se encontra resposta: o que é
exatamente o suicídio na esfera do sofrimento e do desespero humano? Res­
ponder apenas com as definições etimológicas e até mesmo com conceitua­
ções teóricas e filosóficas é apenas tergiversar sobre a questão, sem alcançar
a plenitude da extensão desse fenômeno.
184 I TeNDINCIAI •M P\lt ULOGIA HosPITALA"

E mesmo as questões envolvendo aspectos da configuração médico-psi­


quiátrica, que durante muito tempo foram as determinantes da configura­
ção explicativa do ato do suicídio, buscam uma forma de explicação que cer­
tamente servirá apen�s para satisfazer a necessidade humana de explicar os
fenômenos que de algum modo fazem parte de sua vida. Explica-se toda a
configuração do universo, ainda que de maneira dogmática, da mesma for­
ma que também explicam-se todas as formas de conduta humana; a ques­
tão dogmática evocada para embasar tais explicações é mero detalhe; o im­
portante na essência dos fatos é explicar os fenômenos, ainda que tais
explicações não se sustentem de outra forma que não na fé dogmática.
A própria maneira como a explicação do fenômeno do suicídio trans­
forma-se ao longo do tempo é evidência da maneira irracional como o ho­
mem procura explicações para satisfazer sua necessidade de compreensão da
condição humana.
Explica-se, teoriza-se, tenta-se buscar maneiras de compreensão para
dar contornos a um ato que está constantemente a desafiar todas as formas
de balizamento que são feitos sobre a sua natureza. E à medida que se bus­
ca a compreensão, mais distante dos fatos é o resultado obtido.
O suicídio abrange questões de toda ordem, e seus aspectos envolvem
um contexto cuja inextricabilidade remonta a questionamentos nos quais até
mesmo questões místicas são buscadas para balizar sua ocorrência, e de algu­
ma forma determinar sua abrangência, em que pese o seu raio de ação não ser
passível de domínio da compreensão humana.
A contribuição da Igreja para a incriminação do suicídio, a partir do
século V, apesar de brutal e tardia, é cheia de zelo. Podemos inicialmen­
te, com todo direito, suspeitar que a Igreja primitiva incitava ao suicídio
por exaltação ao martírio, que valia como entrada grátis para o reino dos
céus. São Pedro, fundador da seita, não tinha deliberadamente procurado
a morte, assim como o seu divino patrão? "Ninguém me tira a vida, eu a
tiro de mim mesmo" , diz Cristo n� Evangelho de São João ( 1 0 : 1 8) . É ne­
cessária uma volta ao próprio interior desse questionamento para então di­
mensionar a razão de tais determinantes. É preciso esperar o século IV pa­
ra que Santo Agostinho resolva mostrar que o suicídio é "uma perversão
detestável e demoníaca" , e que o "não matarás" bíblico se aplica também
a si próprio.
A tftit'tl diant, dw M.w .l' tlt .rNkldla I 111

É nas religiões que a sociedade se escuda para tentar evitar que seus
membros busquem o suicídio como alternativa para situações desesperado­
ras. É nas religiões que os fiéis encontrarão toda a sorte de argumentos e
questionamentos sobre as sanções exercidas sobre aqueles que decidem pe­
la própria morte de maneira arbitrária. A vida, segundo a totalidade das re­
ligiões, é dom divino e somente a Deus cabe a decisão de abreviá-la ou até
mesmo alterá-la segundo os seus desígnios. Ao homem cabe apenas cum­
prir sua sina humana e aceitar o seu sofrimento sem poder recorrer à morte.
O suicídio esbarra na própria legitimidade de escolha da pessoa dian­
te de situações de sofrimento extremo. De alguma forma é tolerável nos ca­
sos de enfermidades crônicas e irreversíveis. Aceita-se que uma pessoa que
tenha diagnóstico de câncer ou Aids ponha fim ao seu próprio sofrimento
pelo suicídio. Mas não se tolera o suicídio nos casos de sofrimento .emocio­
nal É como se o suicídio fosse passível de tolerância e até mesmo de aceitaç.ão
apenas naquelas doenças em que o sofrimento é visível . E o que é o suicídio
senão uma escolha pessoal que tenta estancar algum nível de sofrimento, se-:
ja emocional ou físico? E se é uma escolha dentre outr\15 tantas pertinentes
à própria condição humana, seu nível de variáveis é determinante de ques­
tionamentos quase sempre transcendentais que quase nunca consideram as
razões eminentemente humanas.
Basta observar a maneira como questionamentos envolvendo suicídio
esbarram na questão de se prolongar vidas à custa simplesmente de recur­
sos técnológicos, sem levar em conta a própria dignidade dessa vida. E aí as
questões relativas à réutaO.ásiàl se tornam emergentes, sem, contudo, um
aprofundamento.
Falamos em dignidade de vida, plenitude e outros tantos termos que
servem para definir situações prazerosas, sem, contudo, avali�r o que real­
mente enquadramos nessas conceituações.
E se não conseguimos abranger adequadamente o que seja uma vida
plena,. digna etc . , conceituamos suicídio de forma absoluta. Mesmo assim
deixamos de lado as formas de destruição que não são aparentes, e que se es­
condem muitas vezes em situações nas quais a mera decorrência da destrui­
ção desaparece diante da evidência de determinadas circunstâncias.
Nesse sentido, podemos arrolar os casos de alcoolismo, que, embora se­
ja uma das maneiras de milhares de pessoas deliberadamente se destruírem,
111 I TINO!NCIAS EM PSICOLOGIA HOSPITALAI'I

ainda assim não encontra espaço nos programas de saúde governamental, nem
em programas preventivos, nem mesmo em termos de tratamento aos pacien­
tes que já se encontram em estado crônico e muitas vezes em franca degene­
mção física e emocionaL E tendo como agravante que o quadro de alcoolismo
carrega consigo não apenas um sofrimento isolado e individual, mas toda a de­
sestruturação familiar. Mesmo diante de números alarmantes que mostram
que o álcool mata 2 5 vezes mais do que todas as outras drogas legalizadas e
proibidas juntas, ainda assim não se vê, com exceção de alguns meros ensaios
acadêmicos, um programa efetivo que possa enquadrar o álcool como uma das
maneiras de autodestruição colocadas à disposição da população. Polemiza-se
sobre a legitimação da eutanásia, mas não se encontra uma linha sequer sobre
a maneira como o álcool é colocado à disposição de tantos quantos queiram . se
destruir por sua ingestão. Nem sobre o preço de um litro de aguardente de
cana comparado com o preço de um litro de leite. Em que níveis o governo
subsidia a produção de bebidas alcoólicas em detrimento de outros subsídios
que certamente beneficiariam um sem-número de pessoas que não possuem
condições de se alimentar de forma satisfatória?
A diferença, talvez, entre o consumo de álcool e as maneiras tecnoló­
RÍcas encontradas nos hospitais para se colocar fim a vidas vegetativas é a
simples constatação de que o alcoólatra faz uso de sua deliberação sem ques­
t ionar o teor de sua destrutividade. Destrói a si mesmo, destrói seu círculo
familiar, seu rol de amizades, mas co.t:n a complacência social que permite a
ingestão de álcool como uma forma de alienar-se da própria realidade dos
fatos sociais que enfeixam sua vida.
É na dimensão da destrutividade que o álcool provoca que iremos en­
contrar também o dimensionamento da irascibilidade social diante de mé­
todos que nãp aqueles legitimados na esfera das conveniências sociais.
A destruição por doses homeopáticas de álcool é permitida, mas não o
ato fulminante de um tiro ou mesmo de outros atos destrutivos que impli­
quem mera fração de segundos. A ingestão contínua de álcool não levará nin­
guém a questionar as razões determinantes desse teor de destrutividade, ao
passo que nos atos fulminantes a busca de razões é imediata e provoca celeu­
mas de toda natureza que, muitas vezes, esbarram em questionamentos in­
desejáveis, seja do ponto de vista familiar, seja do ponto de vista das próprias
estruturas sociais.
A étira diafllu dos rasos d1 .1'11/dtlio I 1 87

Em outras palavras, permite-se algumas formas de suicídio legitiman­


d�seus. instrumentos e métodos, ao mesmorempo em que se condena to­
talmente outras formas de autodestruição. Tolera-se igualmente o suicídio
de pessoas que estejam diagnosticadas com doenças irreversíveis usando-se
o argumento falso de que essa pessoa iria mesmo morrer e, portanto, apenas
antecipou sua morte. A um possível habitante de Marte, esse argumento po­
deria implicar que aquele portador de determinada doença irá morrer pelo
fato de possuir tal enfermidade, e que nós outros somos imortais. Portanto,
aqueles pacientes podem encurtar seu processo de dor, pois estão com a mor­
te rondando seu espaço vital, coisa que não ocorre para quem não tem ne­
nhum diagnóstico de enfermidade irreversível. A morte existe apenas para
os possuidores dessas enfermidades, e não acomete o restante das pessoas.
Percebe-se, assim, que esse jogo de argumentos é tão falso e irreal que não
cabe argumento contrário. Agimos como imortais e não toleramos a busca
da destruição, a não ser nos casos em que a morte já se faça presente. E a to­
lerância existe apenas nos casos .em que o sofrimento é visível e palpável, não
se aceitando em hipótese alguma nos casos de sofrimento emocional, por
maior que seja a extensão da dor e da desestruturação até mesmo física que
possa provocar.
Talvez o grande questionamento que de fato devesse cercar os casos de
suicídio fosse em que grupo enquadrar as pessoas que recorrem à autodes­
truição. Em que grupo arrolar o nível de tolerância e de que maneira dire­
cionar o modo como o próprio balizamento da destrutividade é permeado?
Ou, ainda, que valores, sejam eles morais, éticos, filosóficos etc . , devem nor­
tear a discussão, e que casos devem ser considerados como suicídio? Além
disso, a que casos nos referimos para falar em abreviação tolerável e legíti­
ma de sofrimento?
Nessa seqüência de digressões sobre a tolerância da destrutividade, em
que níveis de questionamento devemos ainda considerar os casos de destruição
esportiva? Como enquadrar uma luta de boxe, cujo objetivo é a destrui­
ção do oponente? Ou então uma corrida automobilística, na qual o risco emi­
nente da morte fascina a todos os admiradores desse tipo de espetáculo? Ou
então a prática de esportes como alpinismo, balonismo, pára-quedismo etc.,
em que a morte é simples e natural decorrência de qualquer deslize circuns­
tancial? Certamente, se fôssemos arrolar todas as maneiras de destrutividade
111 I TINOINCIAI IM PSICOLOGIA HOSPITALAII

toleradas socialmente, teríamos um apêndice que talvez superasse o número


de páginas deste capítulo.
A determinante então que se coloca é: que condições são necessárias pa­
ra que uma prática destrutiva seja socialmente aceita ao mesmo tempo em que

outras são completamente execradas? Mesmo as principais religiões em que o


suicídio é condenado de forma absoluta sempre apresentam casos de imolação
c muitas vezes de busca deliberada de morte dos principais líderes.

Busca-se compreensão para um ato ao mesmo tempo em que se tolera


desdobramentos desse ato das maneiras mais disformes possíveis. Alterna­
se destruição com a prática esportiva; alterna-se busca de dignidade com a
destruição social ao mesmo tempo em que não se aceita a busca de condi­
ções mais favoráveis de dignidade humana.
E se o suicídio é um ato de destruição pessoal, certamente a indiferen­
ça diante de tantas atrocidades sociais também o é.
A grande barreira a ser transposta nas discussões envolvendo a temática
suicídio é que nos remete à compreensão do sujeito e de sua dor. Deve-se exi­
gir de todos os envolvidos em seu atendimento uma performance que ao mes­
mo tempo que abranja os aspectos teóricos e filosóficos do ato em si, contem­
ple também a dor e o desespero de todos os envolvidos. Os familiares, amigos,
colegas de trabalho, testemunhas oculares do fato, culminando com o rol de
pessoas envolvidas nos primeiros socorros e no atendimento propriamente di­
to, todos enfim estarão envolvidos numa aura na qual o desespero será o fio
condutor de todas as manifestações emocionais e até mesmo físicas.
Em termos legais, o Código Penal Brasileiro2 reza o seguinte acerca do
suicídio:

INDUZIMENTO, INSTIGAÇÃO A SUICÍDIO


Art. 1 22 - Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe au­
xílio para que o faça:
Pena: Reclusão de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclu­
são, de um a três anos, se da tentativa de suicídio resulte lesão corporal de
natureza grave.

2. Nos aspectos jurídicos desse trabalho foi assessorado pela advogada Maria de Fátima Macha­
do, a quem agradeço e renovo os entalhamentos de carinho, estima e paixão: pela mulher, pela
pessoa e pela profissional que ela é.
A étit'el dian/c tlm fd.l'tJ.I' t/, .rNklílio I 181

Aumento da pena
Parágrafo único. A pena é duplicada:
I - se o crime é praticado por motivos egoísticos;
II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a ca­
pacidade de resistência.

Delmanto ( 1 99 1 ) detalha esses tópicos visando uma melhor compreen·


são da seguinte forma:

PARTICIPAÇÃO EM SUICÍDIO:
Noção: Embora o suicídio não seja ilícito penal, a lei pune o comporta-
mento de quem induz, instiga ou auxilia outrem a suicidar-se.
Objeto jurídico: A preservação da vida humana.
Sujeito ativo: Qualquer pessoa.
Sujeito passivo: Qualquer pessoa (desde que tenha discernimento, ou o
crime poderá ser homicídio).
Tipo objetivo: A participação pode ser física ou moral. Três são as formas
previstas: induzir (incitar), instigar (estimular idéia já existente) e auxiliar
(ajudar materialmente); ainda que o agente pratique mais de uma ação, o
crime será único (tipo alternativo). Não pode haver auxílio por omissão. O
crime só é punido quando há morte da vítima ou esta sofre lesão corporal
grave.
Tipo subjetivo: Dolo (vontade livre e consciente de praticar a conduta
prevista) e o elemento subjetivo do tipo (conduta séria, no sentido de que a
vítima, efetivamente, venha a se matar). Na doutrina tradicional, é o "dolo
específico". Geralmente é o dolo direto, mas, para alguns, também em sua
forma eventual. Inexiste participação por culpa.
Consumação: Com a morte da vítima ou ocorrência de lesão corporal
grave (crime material).
Confronto: Poderá haver homicídio se a vítima for forçada a suicidar-se,
ou não tem resistência alguma.
Classificação: Crime comum quanto ao sujeito, doloso (com elemento
subjetivo do tipo), alternativo quanto à conduta, comissivo, instantâneo,
material e de dano (lesão efetiva).
1 10 I T!NDINC:IAI IM PliC:OLOGIA HOSI"ITALAII

Pena: Reclusão de dois a seis anos.


Ação penal: Pública incondicionada, cabendo ao júri o julgamento.

FIGURAS QUALIFICADAS (parágrafo único)


Motivo egoístico: É a vantagem pessoal. Trata-se de motivo de agir, cons­
tituindo elemento subjetivo do tipo.
Se a vítima é menor: Entretanto, precisa ter certo entendimento (vide no­
ta sujeito passivo).
Vítima com capacidade de resistência diminuída por qualquer causa: Exem­
plos: doente, embriagada etc.
Pena: A do caput duplicada (ibidem).
De outra parte, Noronha ( 1 99 1 ) tem o seguinte comentário:

Não é crime a pessoa matar-se (morte física), mas é crime um indi­


víduo auxiliá-lo; não é deliro uma pessoa prostituir-se (morte moral),
porém é crime um indivíduo favorecê-lo.

Razões de sobejo existem para incriminar a indução, instigação ou au­


xílio ao suicídio. Do mesmo modo que na eutanásia, o auxiliador viola a lei
de respeito à vida humana e infringe interesse da vida comunitária, de na­
tureza moral, religiosa e demográfica. O direito vê no suicídio um fato imo­
ral e socialmente danoso, o qual cessa de ser penalmente indiferente quan­
do a causá-lo concorre, junto com a atividade do sujeito principal, uma
outra força individual estranha. Esse concurso de energia destinada a pro­
duzir um dano moral e social, como o suicídio, constitui exatamente a rela­
ção entre pessoas que determina a intervenção preventiva repressiva do di­
reito contra o terceiro estranho, do qual exclusivamente provém o elemento
que faz sair do fato individual da esfera íntima do suicida. Consigne-se, tam­
bém, que a piedade que sempre cerca o suicida não se compreenderia no au­
xílio, quase invariavelmente inspirado em interesses inconfessáveis. De
qualquer modo, como escreve Maggiore "a consciência ético-jurídica não
admite que um terceiro se levante como juiz de direito de outrem à vida e
se torne cúmplice ou auxiliador de sua morte". E ainda em termos jurídi­
cos, temos a colocação de Mirabete ( 1 985) que declara que
A ética diante dos caso.r de .ruiddir1 I 1ft

o suicídio é a eliminação direta da própria vida, é a deliberada destruição


da própria vida. Por razões que não se prendem à impossibilidade de pu­
nição do suicídio e à política criminal, não se incrimina a prática de
punição do suicídio. Como a pena não pode passar da pessoa do delin­
qüente (art. 1 5 3, § 1 3 , da CF), seria impossível sua aplicação ao suÍcida.
Ademais, a cominação da pena não serviria de prevenção, porque quem
quer morrer não se importa com a ameaça de sanção, seja ela qual for. Mes­
mo quanto à tentativa, o Estado renuncia à punição, por motivos políti­
cos e de ordem ética, de piedade, de caridade humana, que o impede de
agravar com a pena a amargura de quem já se lançou em busca da morte.

De outra parte, a controvérsia envolvendo os profissionais da área de


saúde engloba as determinantes do ato em si, além de considerações de que
foi simplesmente um ato de "chantagem emocional" , ou até mesmo de acei­
tação, como vimos anteriormente, diante dos casos de pessoas portadoras de
enfermidades irreversíveis.
Em minha prática profissional, durante alguns anos coordenei atendi­
mento às vítimas de tentativa de suicídio nos prontos-socorros de alguns dos
principais hospitais da cidade de São Paulo, e pude observar o jugo moral
determinado não pelo Código Penal, mas simplesmente a partir de valores
pessoais do ato em si. Típico dessa situação era o momento em que dava en.::
trada no pronto-socorro em busca de atendimento alguma adolescente3 vi­
timada pela ingestão de comprimidos. O comportamento "padrão" da
maioria dos profissionais envolvidos na atividade do pronto-socorro era o de
taxar aquele ato como sendo mera "veadagem". Veadagem? Um neologis­
·
mo criado dentro ou fora das lides hospitalares, não importa, mas que era
usado por profissionais que por meio desse termo mostravam claramente o
desprezo e, por assim dizer, o seu despreparo diante desses casos. É como se
fosse tolerável a tentativa de suicídio apenas por instrumentos ou meios
mais contundentes.
É como se num dado momento o ato da tentativa de suicídio fosse sim­
plesmente reduzido a uma avaliação a partir dos meios utilizados. A dor e as

3. É na faixa etária situada entre quinze e vinte anos de idade que se encontra a maior i ncidência
dos casos de tentativas de suicídio. Nesse quadro encontramos a predominância de mulheres ­
cerca de 90% da totalidade dos casos - que tentam o suicídio pela ingestão de comprimidos.
112 I TINDINCIAS !M PSICOLOGIA HoSPITALAft

i m pl icações emocionais do ato na vida do paciente não só eram desconside­


rados, como nem faziam parte de um eventual roteiro de anamnésia dessas
i nsti tuições. Não era considerado o que fazia uma _detfJ:IJlinada pessoa recor­
rt'r à própria destrutividade - uma simples ingestão de comprimidos inci­
de seqüencialmente numa lavagem gástrica extremamente dolorosa. O gri­
to de desespero do paciente não é considerado, simplesmente desprezam-se

as Jeterminantes que circundam a vida desse paciente em tal teor de deses­


pero diante de situações emocionalmente insustentáveis. Nesse sentido, bas­
ta recordar que uma das principais obras da literatura mundial sobre o sui­
cídio chama-se The Cry for Help (Farberaw e Schneidman, 1 96 1 ), no qual os
autores, acima de qualquer tentativa de conceituação da destrutividade, evo­
cam o pedido de ajuda presente em cada ato. E de fato esse jugo moral pre­
sente nos profissionais de saúde em suas práticas hospitalares apenas reflete
uma faceta da condenação presente nos demais segmentos da sociedade.
Dessa maneira, de forma quase explícita, a sociedade como um todo es­
pera de seus membros determinadas condutas até mesmo diante daqueles
que buscam a morte. Esse profissional se faz porta-voz de todo o jugo mo­
ra l da sociedade diante daqueles que enveredam pelos caminhos do suicídio.
Podemos afirmar que até mesmo os instrumentos utilizados nos atos de sui­
cídio são determinados a partir do prisma social.
Assim, é perfeitamente natural que uma jovem adolescente busque a
destruição pela ingestão de comprimjdos ou então pelo corte nos pulsos pro­
vocados por algum instrumento contundente. De outra parte, executivos
que tenham perdido o patrimônio amealhado ao longo de anos e não supor­
tem tal impacto certamente deverão buscar a morte utilizando-se de arma
db fogo, de arma branca eficaz. Jamais será permitido que cortem. os pulsos
ou que cometam a "veadagem" de tomar comprimidos. Se assim procede­

rem, além do jugo moral presente no ato em si - a .eterna celeuma sobre o


s uicídio ser um ato de covardia ou de coragem - haverá ainda outras ma­
nifestações pejorativas sobre a sua pessoa. Um homem que corta os pulsos,
por exemplo, será considerado um maricas que simplesmente está queren­
do ser alvo de· atenção. Ou, como se diz popularmente, homem que é ho­
mem tem de mostrar macheza até na hora de morrer. Ao homem, morte cer­
cada de muito estardalhaço - tiro na boca, no coração, corte da jugular,
q ueda de grandes alturas, enforcamento, fogo no próprio corpo etc . ; à mu-
A ética diante dos casos de suicídio I 1 93

lher, maneiras mais pífias. Até mesmo na morte, a conceituação social pre­
dominante de que o homem não pode expor suas emoções - idéia presen­
te desde a tenra idade de que choro é coisa de menina -- é determinante na
conduta a ser adotada. Evidentemente que até mesmo uma incursão nos
meandros psíquicos em busca das razões que levaram uma determinada pes­
soa a escolher um determinado instrumento de destruição esbarrará nessas
conceituações sociais, que se tornam individuais ao serem assimiladas de
modo subjetivo pela pessoa ao longo de sua vida.
É como se respondêssemos de modo afirmativo às determinantes so­
ciais até mesmo quando queremos colocar fim à própria vida e, por assim
dizer, ao social presente em nós mesmos. É como se o homem tentasse rom­
pet com aquilo que fizeram dele, mas simplesmente faz aquilo que dele é
esperado.4
O suicídio, assim como outras manifestações de rebeldia, nada m<tis é
do..que uma resposta esperada diante de situações extremas de opressão emo­
cional. Dessa maneira, é esperado que um jovem de classe média, por exem­
plo, busque a tentativa de suicídio diante de situações desesperadoras, ou
ainda que enverede pelo caminho das drogas ou por caminhos alternativos
- arrolando-se aí desde as buscas místicas em lugares sagrados e a procura
de formas de vida naturalistas, até práticas profissionais mais contestadoras
(como mera citação, há situações nas quais se nega uma profissão acadêmi­
ca para atuar no comércio de petiscos numa praia ou em algum ponto cul­
tural de uma cidade), e a adoção de atitudes consumistas pelos quais rotu­
la-se de playboy alguém que apenas corrói o patrimônio familiar etc.
Jamais, de maneira alguma, aceita-se que alguém insatisfeito com as
normas e padrões sociais rompa com tudo e simplesmente vá se tornar um
gari de limpeza, ou então, que vá viver embaixo de algum viaduto ao lado
de mendigos de rua. 5

4. É de Sartre a afirmação "o essencial não é aquilo que se fez ao homem, mas aquilo que ele fez
daquilo que fizeram dele".
5. Cito no livro Suicídio: Fragmentos de Psicoterapia Existencial o caso de uma pessoa que era
maítre de um grande restaurante francês na cidade de São Paulo e que acabou se tornando um
"homem de rua", passando a viver com outros mendigos e convivendo com toda sorte de pro­
blemas. O inconformismo de alguns relatos de leitores da referida obra reside na simples re- ·

jeição ao fato de alguém abandonar tudo e todos e simplesmente ir viver nas ruas . Certamente,
1 14 I TnND8NCIAS !M PSICOLOGIA HOSPITALAft

O homem que se mata faz dele aquilo que dele é esperado. Ele termi­
IHl da maneira como a sociedade, em suas teias de violência, determina.
Cu mpre um ritual de violência não apenas colocando fim à sua própria vi­
da, mas respondendo de maneira afirmativa aos apelos e clamores sociais.
Na impossibilidade de um enfeixamento das atitudes dos profissionais
da saúde e de todos os envolvidos nos casos de suicídio e de tentativa de sui­
cídio que pudesse configurar-se como um código de ética humana, pratica­
mente nada temos a oferecer.6
Em determinados casos, nem mesmo piedade.
Piedade. Uma forma caridosa de compreensão . . .
Uma forma piedosa de aceitação . . .

BIBLIOGRAFIA

ANGERAMI, V. A. Histórias Psi: A Ó tica Existencial em Psicoterapia. São


Paulo: Pioneira Thomson Learning, ,1 995 .
------- . Suicídio: Fragmentos de Psicoterapia Existencial. São Pau­
lo: Pioneira Thomson Learning, 1 997 .

se essa pessoa tivesse adentrado para uma das tantas comunidades místicas que se espraiam pe­
lo País em busca das verdades de suas doutrinas, causaria alguma estranheza e mesmo desapon­
tamento na maioria das pessoas, mas não o choque que a situação de "homem de rua" e, por as­
sim dizer, a situação de mendicância, provoca.
ó. Até mesmo os códigos de ética do Conselho Regional de Psicologia e do Conselho Regional
de Medicina são dúbios na maneira como determinam os procedimentos profissionais diante dos
casos de suicídio e de tentativa de suicídio. Outro aspecto bastante polêmico diz respeito às cláu­
sulas contratuais das apólices de seguros de vida e dos chamados seguros-saúde. Em ambos os ca­
sos existem cláusulas específicas e bastante claras excluindo de qualquer indenização nos casos de
morte, invalidez temporária ou definitiva e mesmo de atendimento médico-hospitalar os casos
configurados como suicídio ou tentativa de suicídio. E ainda que as condições dos atendimentos
médico-hospitalares dos seguros-saúde estejam sofrendo uma ampla revisão para abranger o aten­
tlimento de algumas doenças crônicas que até então eram excluídas de suas coberturas de atendi­
mento - incluindo-se aí Aids, câncer etc. -, ainda assim o atendimento aos casos de tentativa
de suicídio não sofre a menor reivindicação da saúde. Embora exista roda uma movimentação do
Poder Legislativo para criar alteração na legislação vigente para fazer com que os planos de saú­
de cubram a totalidade das enfermidades, ainda assim, efetivamente, têm-se apenas perspectivas
que, embora promissoras, são apenas perspectivas.
Aética diante dos ,·,tso.r de .111ide/io I 1 lt!l

ANGERAMI, V. A. O Doente, a Psicologia e o'tlospital. São Paulo: Pioneira


Thomson Learning, 1 992.
DELEUZE, G. Deleuze - O que É um Disp:útivo. Publicação do Centro
de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae, numa tradução de textos organi­
zada por Laura F. Almeida Sampaio, 1 996.

DELMANTO, C. Código Penal Comentado. Rio de Janeiro: Renovar, 1 99 1 .


DURKHEIN, E . Le Suicide - É tude de Sociologie. Paris: Press Universi­
dad de France, 1 969.

FARBEROW, N. L. e SCHNEIDMAN, E. S.The Cry for Help. Nova York:


McGraw Hill, 1 96 1 .

FOUCAULT, M . Microfísica do Poder. Rio dejaneiro: Graal, 1 989.


GUILLON, C. e BONNICE , Y L. Suicídio: :Modo de Usar. São Paulo: EMW
Editores, 1 984.
KALINA, E . e KOVADLOFF, S. As Cerimôn�r da Destruição. Rio de Janei­
ro: Francisco Alves, 1 98 3 .

MIRABETE, J. F. Manual de Direito Penal. Sio Paulo: Atlas, 1 98 5 .


NORONHA, E . M . Direito Penal. v. 2/32 . São Paulo: Saraiva, 1 99 1 .

Você também pode gostar