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Análise do filme documentário “Lixo Extraordinário”

1 – Introdução

O filme anglo-brasileiro “Lixo Extraordinário” (2010) documenta o contato do artista Vik Muniz,
que cria obras a partir do lixo, com catadores do aterro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias-
RJ. Ao fim da obra tanto as visões de mundo dos catadores e do artista são transformadas, o que
afeta o estilo de vida e as atitudes de todos os envolvidos.

Através do relato dessa história, vários aspectos da vida social brasileira são trazidos à tona, com
destaque ao estilo de vida de diferentes classes, à visão que cada uma possui da outra e aos valores
pessoais que elas cultivam. Na reta final do documentário também outro ponto importante é
levantado: o poder de mudança que o contato com a arte e com novas experiências de vida são
capazes de trazer a vários indivíduos. Mas, será que essa mudança é possível para todos?

O objetivo deste trabalho é responder essa última questão e analisar os fatos sociais trazidos ao
holofote pelo filme, recorrendo principalmente à metodologia de Max Weber, mas também trazendo
formulações de Émile Durkheim e observações do campo da economia do trabalho para
complementarem aspectos específicos do nosso trabalho analítico.

2 – Classes, prestígio e lixo

O sociólogo e economista Max Weber formulou uma definição do conceito de classes que afirma
que o determinante da posição de cada classe é a sua posição de mercado, constituída por elementos
como a “posse de bens, nível educacional e o grau de habilidade técnica” (Brym, 2006).

No documentário “Lixo Extraordinário” a maior evidência da diferença das posições de mercado


aparece justamente nos itens que as famílias descartam, que refletem por sua vez os produtos que os
membros das famílias tipicamente consomem. Há inclusive contrastes enormes nos padrões de
descarte devido a diferenças de renda: pessoas da classe média e alta geram lixo baseado no
consumo de produtos eletrônicos, bebidas caras, livros, etc.; já quem é das classes mais baixas
descartam produtos mais básico, como embalagens de comida, bebidas baratas, roupas velhas, etc.

Tipicamente no Brasil essas diferenças de renda refletem diferenças de ocupação, que por sua vez
refletem diferenças no grau de instrução. Somente cerca de 20% da população brasileira possui
ensino superior (dados PNAD 2019), o que, por uma questão de oferta e demanda, eleva muito os
salários desse grupo em relação a quem possuí somente a formação básica – em média quem possui
ensino superior recebe rendimentos 200% maiores que aqueles só com ensino fundamental. Não
obstante, cerca de 38% dos membros da “classe A” brasileira (de renda familiar acima de R$ 11
mil) possuem ensino superior e 87% possuem ensino médio completo. O brasileiro típico, por sua
vez, não chega nem a completar o ensino médio e pertencem às classes C e D, com renda familiar
entre R$ 1255 e R$ 8640.

Este último perfil é justamente o dos catadores de lixo que o documentário apresenta, inclusive com
os rendimentos deles estando mais próximos do limite inferior da classe D. Essa profissão, contudo,
possuí uma nuance que não está presente em outras profissões que requerem baixo nível técnico e
remuneram em proporções parecidas: o baixo prestígio social, o que tornam-nos, na definição
weberiana, um grupo social separado. Alguns diálogos e situações do filme mostram isso: uma
personagem (Magna) esconde da família que ela é catadora, e quando ela revela, a família distancia-
se dela; pessoas de outras profissões normalmente demonstram incômodo com o cheiro dos
catadores e não conversam com eles; outra personagem (Ísis) não consegue manter relacionamentos
estáveis. Os catadores tentam como podem mostrar como esse estigma é “burro”, reafirmam sempre
que possuem uma profissão digna, que, pelo menos, eles possuem uma ocupação, diferente de
muitas “madames” da classe A, e que os rendimentos dele são honestos.

De forma interessante, os catadores aplicam um estigma similar ao exercido sobre eles com as
prostitutas. Para eles, essa categoria é muito mais “indigna” e não recebe honestamente os seus
rendimentos. Sem julgar o mérito desse enquadramento do trabalho das profissionais do sexo, fica
muito claro que, apesar de tudo, os catadores ainda julgam a dignidade como um importante valor e
possuem a visão de mundo que, por mais que o trabalho no aterro seja insalubre, pelo menos eles
estão gerando algum retorno à sociedade e não estão vendendo a sua integridade moral.

A questão dos valores morais aparece novamente em diversos diálogos aonde eles fazem um
julgamento negativo da estilo de vida das pessoas mais ricas (algo que eles tem contato tanto no
aterro quanto em situações cotidianas). Para eles, os ricos são esbanjadores, arrogantes,
desperdiçam itens valiosos e possuem falhas de integridade (como em alguns não trabalharem,
passarem mais tempo no lazer do que produzindo ou ganharem dinheiro “inescrupulosamente”). Ao
mesmo tempo que é um julgamento forte, em parte ela é formada por conceitos herdados da
convivência social e também pelo choque que é ver os itens que os mais ricos jogam fora. Para eles
é como se as classes mais altas vivessem em outro mundo, um que os catadores não entendem
completamente como funciona e aonde uma conduta social diferente é exigida.

Entretanto, a maneira que os catadores enxergam a sociedade e a própria condição muda


significativamente com o contato com Vik Muniz e seu processo artístico. Eles sentem que não
querem mais voltar ao aterro, que as condições de vida e trabalho deles eram insatisfatórias lá e que
há um mundo melhor possível. Por que o contato com a arte de Vik gerou tão radical mudança?
Aliás, se o trabalho era tão ruim assim por que eles aceitaram essa ocupação por anos a fio e
entraram em estado de negação sempre repetindo que eram felizes? Para responder estes
questionamentos, será necessário fazer um diálogo entre os conceitos de Max Weber com o de
outros autores.

3 – Desintegração, conduta social e ascensão

As histórias pessoais dos catadores possuem um aspecto comum: todos eram de “classe média
baixa” (classe C) e passaram por tragédias pessoais que os fizeram cair na pirâmide social. Ísis, por
exemplo, foi abandonada pelo marido e teve a filha tomada de seus cuidados, isso a fez começar a
consumir muito mais bebidas alcoólicas e perder o emprego, tendo que recorrer ao trabalho no
aterro para obter alguma renda. Esse roteiro de uma forte tragédia gerando abalos no modo de vida
da pessoa é bastante similar com o comportamento de alguns suicidas estudados por Durkheim,
obviamente com a exceção dos catadores não terem se suicidado, porém eles se viram subitamente
desintegrados do seu próprio meio social e tiveram de encontrar outra comunidade para construir a
própria vida. De certa forma, é como se eles tivessem trocado o suicídio por uma perda de prestígio
social ao aceitarem trabalhar como catadores, o que acaba excluindo-os da convivência com os
grupos a quais pertenciam e fazendo-os perder seus estilos de vida anterior.

Esse paradigma muda com a chegada de Vik e a participação dos catadores no processo de criação
de obras de arte, todas elas feitas a partir do lixo dos aterros. Ísis, novamente, é a primeira a
manifestar o que todos começam a sentir: ela não quer mais voltar ao aterro e trabalharia na galeria
de Vik até mesmo por muito menos do que ganha coletando lixo. Mesmo que na galeria ela ainda
tenha de manejar dejetos, a natureza das ações dela é diferente, ela não está só coletando itens em
pilhas gigantes de lixo, agora ela está realizando um processo criativo, que gera satisfação para ela.

Tião Santos passa por mudanças de visão ainda maiores. O impacto do processo de manufatura da
arte e o contato com uma nova realidade ao viajar para Londres, na Inglaterra, o faz adquirir uma
nova percepção quanto à natureza da arte, o poder que os catadores possuem de gerar valor e a
posição precária deste grupo na hierarquia social. Já Magna, apesar de reconhecer a precariedade do
seu trabalho, começa a não ter vergonha de si mesma e revela a sua profissão para a sua família.
Outros catadores passam por mudanças menores, mas, ainda assim, perceptíveis a ponto de
parceiros de trabalho de Vik contestarem se não estariam a fazer um desfavor a eles ao expandir
tanto os horizontes deles. O filme mostra que eles não poderiam estar mais errados.

As mudanças de perspectivas fazem com que os trabalhadores do aterro mudam também as suas
condutas sociais. Aonde antes havia resignação, agora há uma motivação para buscar uma condição
melhor de vida e até casos de pessoas que começam querer realizar mudanças no seu meio social.
Este é o caso de Tião, que se torna líder da associação de catadores e parte do movimento
internacional pela reciclagem e pela integração dos catadores a novos processos de reciclagem.
Outros trabalhadores fizeram movimentos mais tímidos, porém que ainda assim trouxeram uma
melhoria no padrão de vida. Magna começa a trabalhar em uma farmácia e por menos horas que
antes, tendo até mesmo tempo para ficar com o seu filho. Por sua vez, Ísis buscou qualificar-se em
um curso técnico de secretária e casou-se novamente. Para aqueles que continuaram como
catadores, o dinheiro adquirido com as pinturas auxiliou a criar um centro de reciclagem em Jardim
Gramacho, melhorando as condições de trabalho de todos, e também financiou a construção de uma
biblioteca, aumentando o acesso deste grupo social a informação, cultura e educação.

Dessa forma, a partir da história dos catadores de Gramacho (e também pela própria história de Vik,
que ascendeu socialmente por conta de sua arte), é possível argumentar que mudanças de conduta
social são capazes de gerar mudanças na vida de um grupo social. Mas, retomando a pergunta
realizada na introdução, isso é realmente verdade? A mudança social pode ser alcançada dessa
forma por um grande grupo de pessoas?

Teóricos estruturalistas e institucionalistas argumentariam que a ascensão social individual apesar


de ser viável, não possui portas tão abertas assim. Grandes mudanças dependem de mudanças na
legislação e nas instituições, sejam elas instituições de estado ou de mercado, buscando torná-las
mais pluralistas e capazes de fornecer meios para os indivíduos ascenderem (Acemoglu e Robinson,
2012). Por sua vez, Durkheim afirma que os avanços materiais generalizados na sociedade só são
possíveis com o aumento da divisão do trabalho em todos os níveis sociais.

Uma entrevista de Tião dos Santos (fornecida em março de 2017, disponível em


https://www.blogdolixo.com.br/entrevistas/a-dura-realidade-dos-que-perderam-seu-sustento-com-o-
fim-do-lixao/ ), fornece tração para a interpretação estruturalista e institucionalista. Com o
fechamento do lixão de Gramacho muitos catadores perderam emprego e se viram ainda mais
excluídos socialmente. Tal evento ocorreu por um motivo: o poder público brasileiro não criou uma
nova cadeia produtiva de processamento dos dejetos capaz de integrar essas pessoas – uma
combinação tanto de instituições excludentes e incapazes de realizar a modernização produtiva.

Referências

1. BRYM, Robert. Sociologia: sua bússola para um novo mundo. 1. ed. São Paulo: Cengage
Learning, 2006.

2. GIDDENS, Anthony. Capitalismo e moderna teoria social. 6. ed. Lisboa: Ed. Presença, 2006.

3. ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James. Por que as nações fracassam. 1. ed. Rio de Janeiro:
Editora Campus, 2012.