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DOSSIÊ

REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA DO CAPITAL


NO CAMPO, NO SÉCULO XXI, E OS DESAFIOS
PARA O TRABALHO *

ANTONIO THOMAZ JÚNIOR**

1 Apresentação *** social que (re)definem o metabolismo do


capital e as mutações no universo do trabalho.
As novas territorialidades que
estão sendo engendradas pelo O aprendizado fundado nos diversos
metabolismo do capital e que assuntos sobre a temática do trabalho tem
repercutem no processo social como um todo, como parâmetro teórico-metodológico,
especialmente para a esfera organizativa do apreender o trabalho por meio da “leitura”
trabalho, é o que nos ocupa. Isto é, geográfica, sob duplo nível de existência. De
compreender aspectos importantes do processo um lado o metabolismo da relação homem x
natureza e, de outro no âmbito da regulação
* Este texto contém os resultados parciais do Projeto espacial, mas por dentro da dinâmica territorial
“Território Minado: Metabolismo Societário do Capital dos processos espaciais imanentes que se
e os Desafios para a Organização do Trabalho”, sob materializam nas configurações geográficas1.
nossa responsabilidade e financiado pelo CNPq, nas
alíneas PQ/2B, e Universal.
** Professor dos Cursos de Graduação e de Pós-

Graduação em Geografia da FCT/UNES/Presidente 1 Pudemos desenvolver esse assunto em “Por uma


Prudente; pesquisador 2B/PQ/CNPq; coordenador do Geografia do Trabalho”, ver: Thomaz Júnior, 2002; e
Grupo de Pesquisa “Centro de Estudos de Geografia “O Mundo do Trabalho e as Transformações
do Trabalho (CEGeT) < www.prudente.unesp.br/ceget >. E- Territoriais – Os Limites da ‘Leitura’ Geográfica”, ver:
mail: thomazjrgeo@prudente.unesp.brm.br Thomaz Júnior, 2003a.

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Assim, o movimento contínuo de regramento sindical3, nas lutas por melhores


territorialização, desterritorialização e salários, pelo cumprimento dos acordos
reterritorialização do trabalho é a expressão coletivos de trabalho, pela Reforma Agrária,
concreta das formas geográficas que revelam o requer que reconheçamos que as mesmas não
conteúdo do metabolismo do capital e sua dialogam entre si. Isto é, se expressam somente
expressão nos lugares. no patamar das fronteiras previamente
É através desse movimento dialético e das delimitadas pelas formas de externalização do
mediações teóricas requeridas, que faremos do trabalho: assalariados, sem-terras, camponeses,
trabalho um tema permanente para a etc.
Geografia, ou para a Geografia do trabalho, um É importante que possamos, por meio das
campo de investigação centralmente focado pesquisas, demonstrar ser possível
para o entendimento da estrutura de poder e do compreender tanto as formas de existência
controle social exercidos pelo capital sobre a fragmentada do trabalho (por exemplo, as
sociedade e, em particular sobre o trabalho. O corporações sindicais), quanto,
que entendemos por Geografia do trabalho2 é conseqüentemente, as cisões nas vias de
que não se trata de constituirmos mais um comunicação
recorte disciplinar, ou uma nova corrente na É por dentro da entre elas, como
Geografia. forma de
dinâmica da luta apontarmos o
É por dentro da dinâmica da luta de classes
que nos propomos apreender os de classes que nos da
restabelecimento
“leitura”
desdobramentos da reestruturação produtiva
do capital no campo sobre o trabalho, propomos orgânica do
trabalho, questão
particularmente, os limites que obstaculizam a
“leitura” orgânica do trabalho para além da
apreender os central para as
fragmentação territorial, que restringe o desdobramentos nossas pesquisas.
Há uma
universo da classe trabalhadora aos rígidos
limites do estranhamento das corporações da reestruturação complexa trama
de relações que
sindicais e associativas. Ou seja, o exercício do
poder do capital se estende para todo o tecido
produtiva do requer, para ser
social, impactando, portanto, não somente as capital no campo entendida,
consideremos a
que
relações específicas à atividade laborativa, mas
todas as esferas do ser que trabalha, sobre o trabalho plasticidade
ultrapassando o momento da produção, existente entre as
ganhando a dimensão da reprodução da vida, a diferentes formas de externalização do
subjetividade da classe trabalhadora, as formas trabalho, ou os efeitos do não entendimento da
de organização política. plasticidade rompida.
No entanto, devemos apelar sempre para o
mundo do trabalho real e não para os limites da
2. Introdução academia ou ao seu horizonte institucional, pois
Compreender o trabalho, no campo, no na qualidade de intelectual orgânico, temos que
Brasil, para além da fragmentação corporativa e direcionar nossas críticas ao metabolismo do
territorial, referenciada nas “determinações” do capital. Esse assunto ganha mais clareza com o
desenrolar das investigações e das nossas ações
junto aos pesquisadores das demais áreas do
2Refletimos sobre esse assunto em diversos textos da
conhecimento, do nosso convívio profissional.
nossa produção. Ver: Thomaz Jr., 2002c, 2003a, 2003b,
2004a. 3 Cf. THOMAZ JÚNIOR, 2002.

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Isto porque a realidade é uma totalidade redefine constante e contraditoriamente o


concreta, um complexo de complexos, como processo social e o espaço geográfico.
nos lembra Lukács, e o que recortamos para Assim, a Geografia do trabalho deve
estudar, por exemplo o trabalho, como sendo chamar para si a tarefa de apreender o mundo
Geografia do trabalho, Economia do trabalho, do trabalho através do espaço geográfico,
Sociologia do trabalho, são abstrações, são entendido, pois, como uma das características
construções disciplinares. do fenômeno, e da rede de relações
Sabendo, pois, que tudo isso expressa uma categoriais/teóricas/escalares, ou seja, a
ordenação e sendo o espaço a categoria da paisagem, o território e o lugar de existência
ordem e a territorialidade sua materialidade, nos dos fenômenos, num vai e vem de múltiplas
colocamos a entender o significado das determinações.
localizações por dentro do metabolismo do
capital, que afeta e divide a vida dentro e fora
do trabalho. Ou seja, tanto no âmbito da 3. Processo Social e Trabalho
produção (do trabalho) quanto da reprodução A já longa luta dos trabalhadores que tem
(da morada, do convívio social), o capital nos campos sua inserção para o trabalho e/ou a
influencia decisivamente a práxis social dos morada, ao colocar em questão o poder e o
trabalhadores, marcada historicamente pela controle exercidos pelos proprietários de terra,
fragmentação do trabalho da totalidade social. latifundiários, capitalistas e o Estado, seja por
meio das ocupações de terra, de
prédios públicos, caminhadas, atos
públicos, greves, paradeiros, etc.,
estão acrescentando ao aprendizado
da luta de resistência e à qualificação
da consciência de classe, novos
elementos para a classe trabalhadora.
De modo geral, o capital amplia
e acentua, neste começo de milênio,
seu arco de efetivação enquanto
relação social, não mais restrita ao
mundo fabril e nos impõe que
consideremos um espalhamento de
realizações da
A esse respeito, pensamos que é no expropriação/dominação/apropriaç
interior do processo de auto-realização da ão do trabalho. Concentrando-nos, por ora, na
humanidade através do trabalho, ao longo dos amplitude e na complexidade da questão do
tempos, que podemos reconhecer o conteúdo trabalho sob o capitalismo, especialmente com
do metabolismo social do capital, que faz com amparo nas recentes pesquisas, podemos
que sociedade e natureza e as mediações que admitir que a sociabilidade contemporânea,
governam essa relação dialética sejam “lidas” muito mais fetichizada do que em períodos
pela Geografia como base fundante da anteriores, reafirma a lógica destrutiva do sistema
compreensão da polissemia do trabalho no produtor de mercadorias4 ancoradas, pois, na
mundo atual. Ora mais ênfase à relação vigência do trabalho estranhado.
homem–meio, ora à organização espacial, a
tecitura da sociedade vai sendo construída,
sendo que o trabalho enquanto ato teleológico 4 Cf. MÉSZÁROS, 2002.

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Assim, é imprescindível lembrarmos das contradições que perpassam o universo do


articulações entre o mundo acadêmico e o trabalho no Brasil, pretextando somar forças ao
mundo do trabalho, e suas diversas sentimento crítico anti-capital.
externalizações, especialmente o Fórum Social A práxis que acreditamos ser o
Mundial (FSM), nas três edições realizadas no procedimento mais correto para apreendermos
Brasil5. Somos partidários, de que se trata de essa complexa trama de relações e de
um campo de discussões de importância vital mediações, também é o recurso para
para a reflexão/construção de referenciais para compreendermos as mutações internamente
o conjunto dos trabalhadores do planeta, ligadas ao universo do trabalho. Mais do que
considerando um arco amplo e complexo de isso, está em questão captarmos as formas
entidades ideologicamente afinadas à correntes geográficas de externalização do trabalho, por
marcadamente de esquerda. meio de um movimento duplo, a um só tempo:
No entanto, a plasticidade existente entre as diferentes
poderíamos somar forças ao externalizações do trabalho (assalariados,
destacar o FSM
(Fórum Social
sentimento crítico camponeses, sem-terras, seringueiros,
informais, desempregados, etc.), e as
Mundial) como anti-capital capilaridades entre as esferas da convivência em
aglutinador de uma sociedade (social, política, econômica, cultural,
possível etc)6.
Internacional Camponesa, tendo em vista a Então, de um lado, as externalizações do
representatividade das organizações trabalho (proletário urbano e/ou rural,
camponesas que, em torno da Via Campesina, camponês, arrendatário, posseiro, sem terra,
constroem vínculos e legitimidade mundial desempregado), e por outro lado do capital
enraizados em referenciais emancipatórios, (grande proprietários de terra, latifundiários,
apesar de descolados do chamamento mais capitalistas), e ainda o Estado (representado
geral em torno da classe trabalhadora. pelos ministérios, secretarias, órgãos de
Até do ponto de vista simbólico isso de inteligência e de fomento, etc.), têm-se os
maneira geral, tem significado especial para os elementos centrais e conceitualmente
trabalhadores, mas sobretudo, porque esse estruturantes das diferentes formas geográficas.
poderá ser um flanco por onde emergirão Assim, o trabalho diante delas, quando
discussões a respeito da plasticidade do territorializado numa determinada condição (ex:
trabalho, ou seja, poderemos apreender as camponês), desterritorializado e assumindo
diferentes formas de trabalho a que o outra identificação (ex: diarista e trabalho
trabalhador tem se submetido para vencer os eventual), quando reterritorializa sua identidade
revezes da reestruturação produtiva do capital, em outro momento e sob outras condições
da terceirização, da intensificação da (ocupações de terras públicas ou improdutivas),
precarização, do desemprego, etc., a fim de expressa, pois, estágios distintos da luta de
focar a noção de (des)pertencimento de classe. classe, e níveis diferenciados de consciência de
Essa é uma nova janela que se abre para nós classe.
pesquisadores, como forma de, efetivamente, Dessa forma, estaríamos colocando em
nos colocarmos presentes diante das questão a fluidez com que assalariados,
subproletarizados, camponeses, posseiros,
5 A irradiação dos pressupostos desse evento se autônomos, refazem constante e intensamente
reproduz em diversos locais do planeta, inclusive no o desenho societal da classe trabalhadora, no
Brasil, recentemente em Belo Horizonte, no Equador,
na Nicarágua, sendo que a 4a versão do Fórum foi
realizado na Índia, em janeiro de 2004. 6 Cf. THOMAZ JR., 2004a.

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campo, no Brasil, extrapolando os rígidos posições políticas afinadas, historicamente, com


limites entre o que é ser num dia, numa safra, o campesinato, particularmente com a postura
numa temporada, cortador de cana; colhedor anticapital e a negação à ruptura dos valores
de algodão; servente de pedreiro na construção culturais da família.
civil; metalúrgico e em outros tempos, A própria formação do campesinato
temporada, ser ocupante de terra, segurança, brasileiro, nos exige atenção para reflexões
motorista, catador de papel e papelão, camelô, teoricamente orientadas para a compreensão de
etc. sua especificidade geográfica. Marcado pela
Podemos ponderar, também, tendo por intensa mobilidade espacial e pelo acesso a terra
base nossas investigações e os trabalhos que historicamente bloqueado, o campesinato, no
são portadores dos nossos pensamentos, que a Brasil, fez com que sua luta para entrar na terra,
Luta pela Terra não se restringe ao universo da seu desejo de enraizamento, tenha sido o
existência camponesa7. Esse mesmo trabalho, registro de sua diferenciação em relação ao
expressão das clivagens oriundas da divisão campesinato de origem feudal, portanto,
técnica/territorial é, então, a chave, para parcelar do tipo europeu.
recolocarmos em questão o controle social Dessa forma, a noção de classe social não
exercido pelo capital e pelo Estado, os modelos se resume à sua dimensão dada somente pela
de organização social vigentes e os paradigmas objetividade, mas nos remete a um amplo
organizativos dos trabalhadores, esses espectro de subjetividade, sinalizado pelas
fortemente fundados nos pressupostos dos esferas da política, da ideologia, pelo universo
setores dominantes. reflexivo, ou como
Com isso, queremos afirmar que nossa a Luta pela nos dizia Marx, pela
compreensão de classe trabalhadora é mais atividade humana sensível,
ampla. Portanto, não se restringe somente aos Terra não se e tudo isso são
trabalhadores proletários (urbanos e rurais) ou
subproletarizados, no limite, mas a um
restringe ao desafios de grande
importância e
conjunto de expressões do trabalho que inclui universo da significado para a
os trabalhadores avulsos, temporários, diaristas, busca do sentido de
seringueiros, pescadores, camponeses com existência pertencimento e da
pouca terra e que lutam por terra, etc., e que
enriquecem e pluralizam a noção do sujeito
camponesa consciência de classe,
conseqüentemente
social que trabalha. para a luta emancipatória da classe
A esse respeito, é importante ponderar trabalhadora.
que, enxergar o camponês no Brasil significa Isso vale, internamente, aos segmentos
compreender que há uma crescente fluidez de mais afeitos às “imposições” do regramento
mundos e de relações no universo do trabalho. corporativo-sindical, e para aqueles que
E não somente entendê-lo como par siamês da entendem que a Luta pela Terra e por melhores
franja social que engorda com a exclusão, como condições para produzir no campo são
exemplarmente alardeado pela grande imprensa assuntos previamente delimitados e restritos
e os intelectuais de plantão do planalto, mas aos interesses corporativos dos trabalhadores
que além de ganhar em quantidade com a do campo. Mas vale também, externamente,
complexificação, e com a heterogeinização do aos segmentos dos trabalhadores que estão
trabalho, sobretudo por meio da consolidação inseridos nas atividades urbanas, que são
das hordas de desempregados, marca também entendidos como distantes do universo societal
que compreende o campo.
7Desenvolvemos essa idéia em diversos textos. Ver:
Thomaz Jr., 2002c, 2003a, 2003b, 2004a.

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Assim, as demandas por melhores salários, O argumento utilizado tanto para defender
condições de trabalho, Luta pela Terra e quanto para atacar a existência dos sindicatos
política agrícola, comparecem em horizontes dos trabalhadores rurais (STR)10, pode ilustrar
distintos e diametralmente opostos. Isso essas barreiras à compreensão da plasticidade
repercute na própria constituição e estruturação interna ao trabalho. Se para alguns o fato de
das entidades de representação dos representar assalariados e pequenos
trabalhadores inseridos na lavra rural, como proprietários é argumento para mostrar
também na dificuldade de interlocução com os ineficiência, esse mesmo aspecto é entendido
demais segmentos de trabalhadores urbanos. como destaque da força integrada dos trabalhadores
Portanto, o do campo11.
movimento sindical o viver e o Diante disso, o referencial que adotamos
e operário
defender melhores
ao trabalhar estão nos permite visualizar o desenho societal dos
trabalhadores sem terra no Brasil, como
salários, redução da separados nas produto de uma complexa trama de relações
jornada, que envolve uma gama de trabalhadores e de
participação nos práticas de luta e movimentos sociais que se dedicam à luta de
lucros e nos
resultados, etc., e
de vida, ou resistência, de ocupação da terra e pela
Reforma Agrária, tais como: posseiros;
os movimentos ainda, há um atingidos por barragens; pequenos produtores
sociais populares, desarticulados da estrutura oficial dos
particularmente as hiato entre a Sindicatos dos Trabalhadores Rurais (STR’s);
frações envolvidas
com as temáticas
vida dentro e fora Sindicato dos Empregados rurais (SER’s);
Sindicato dos Trabalhadoras da Agricultura
da Luta pela Terra do trabalho familiar (SINTRAF’s); seringueiros; índios;
e pela Reforma pescadores artesanais; Movimento Nacional das
Agrária, da moradia, da educação, do gênero, Mulheres trabalhadoras Rurais (MNMTR), hoje
etc., não vinculam essas esferas da luta com o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC);
referencial da luta mais geral dos trabalhadores. Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA);
Assim, cada reivindicação tem sua esfera de Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
identificação fragmentada, territorial, (MST); Movimento dos Trabalhadores Sem
corporativa e socialmente, etc8. Terra (MTST); Movimento de Libertação dos
Dessa forma, o trabalhador não associa o Sem Terra (MLST); Movimento de Luta pela
sindicato com a luta por uma escola de Terra (MLT); etc.
qualidade no seu bairro, tampouco questiona as A dupla dimensão dos nossos estudos a
relações de trabalho na associação de bairro. respeito das diferentes formas de manifestação
Isto é, o viver e o trabalhar estão separados nas do trabalho no campo, tanto no âmbito da
práticas de luta e de vida, ou ainda, há um hiato materialidade metabólica, quanto da regulação
entre a vida dentro e fora do trabalho9. social/espacial (do controle do capital), nos têm
possibilitado compreender algumas facetas das
contradições do mundo do trabalho.
A título de exemplo, poderíamos abordar
8 Pudemos desenvolver essa questão em Thomaz Júnior,
as fragmentações que ocorrem internamente ao
2001 e 2003a.
9 Essa questão foi investigada de forma muito profunda

por Fernanda Keiko Ikuta, na sua dissertação de 10 Esse assunto foi investigado e abordado por nós na

mestrado “A Questão da Moradia para Além de Quatro tese de doutorado. Mais detalhes ver: Thomaz Jr., 2002.
Paredes“, sob nossa orientação e defendida em junho de 11 Expressão utilizada por dirigente da FETAESP, em

2003. entrevista realizada em janeiro de 2003.

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trabalho, produto das dissensões internas à Trabalhadores nas Indústrias Químicas do


FETAESP (Federação dos Trabalhadores Estado de São Paulo e da FERAESP, com o
Rurais do Estado de São Paulo). A seqüência propósito de sinalizar um campo de discussão
que inicia em 1989 com a criação da marcado pelo desejo de juntar os interesses dos
FERAESP (Federação dos Trabalhadores trabalhadores da canavicultura, em São Paulo,
Rurais do Estado de ao Paulo)12 é reforçada mas formulações ainda restritas ao produto
com a entrada em cena da FAF (Federação da principal (no caso do álcool)14. Na mesma
Agricultura Familiar) e dos SINTRAF’s direção do que já se sinaliza em Pernambuco
(Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura através da FETAPE (Federação dos
Familiar), em 2000, no âmbito da CUT, e ainda Trabalhadores na Agricultura do Estado de
as discussões que embasaram as tentativas de Pernambuco); no Acre nucleada pelas
criação da FERCANA13 (Federação dos lideranças dos STR’s; as cooperativas
Empregados Rurais no Setor Canavieiro do vinculadas às Reservas Extrativistas, no Acre,
Estado de São Paulo) e da FERULCASP no âmbito da CUT; a Federação dos
(Federação dos Empregados Rurais da Lavoura Trabalhadores Rurais do Centro-Oeste,
Canavieira do Estado de São Paulo), em 2001. contendo os pequenos proprietários familiares
Esse processo de e assalariados.
fragmentação, marcado por
dissensões políticas,
ideológicas, e também de
cariz pessoal, internamente
ao movimento sindical,
reflete tão-somente a
magnitude das fissuras
existentes, que não
começam e nem tampouco
terminam nos limites das
filiações dos sindicatos às
centrais sindicais.
Sem contar que
comparecem em cena outras
movimentações que partem
da Federação dos
Iniciativa das mais nobres, não é, pois,
12 Esse assunto foi objeto da nossa tese de doutorado. acompanhada de discussão e de trabalho
Ver: Thomaz Jr., 2002b. político nas bases sindicais, historicamente
13 A impugnação da FERCANA em primeira instância
fragmentadas em diversas atividades e
motivou seus articuladores a propugnarem pela criação identificadas pelas corporações sindicais.
do Sintagro (Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas
Portanto, a perspectiva de junção dos
Agrícolas, Agroindustriais e Agropecuárias). No entanto,
depois de seguidas rodadas de negociações a FERAESP trabalhadores, encimada na concepção de ramo,
atraiu para o seu arco político os quadros da ex-
FERCANA/Sintagro’s, particularmente seu expoente 14 As primeiras reuniões e as discussões acumuladas, até
maior, Mauro Alves Silva, sob o argumento de que “essa o momento, pelos dirigentes dessas duas corporações
foi a melhor maneira de neutralizar essas ações políticas, sindicais apontam também para a formulação da cadeia
e fazer valer a idéia do Sintagro para o seu campo produtiva agroalimentar e financeira, que incluiria
político de intervenção”. Ou seja, juntar os setores mais amplos do que somente o álcool ou até o
trabalhadores da agroindústria numa única entidade açúcar.
sindical.

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aliás, apontamento ainda desconhecido para os As investigações direcionadas para


trabalhadores brasileiros, poderá se consumar apreendermos os desdobramentos territoriais
como referência. No entanto, somente o da reestruturação produtiva do capital no
transcorrer histórico nos revelará isso. campo, têm nos indicado o conteúdo das ações
A idéia em torno da qual está nucleada a do capital e do Estado, e os desdobramentos
junção dos trabalhadores envolvidos na para o trabalho e para a classe trabalhadora:
agroindústria canavieira, em São Paulo e intensificações da mecanização, política de
também em Pernambuco, não insere na pauta a desenvolvimento rural em detrimento de
questão da unificação orgânica dos Reforma Agrária, novas formas de gestão e
trabalhadores, tampouco formulações que controle do trabalho pelo capital, políticas
contenham enunciados críticos em relação ao públicas para a agricultura, novas formas de
processo oposto de fragmentação. contratação e de pagamento.

Nesse processo de disputas políticas que Esses níveis de determinação e as relações


registra as fissuras internas e os desejos de sociais que mediatizam o desenvolvimento das
junção de segmentos de trabalhadores, também forças produtivas materiais e o processo
comparece em cena, especialmente no início metabólico do capital, nos permitem apreender
dos anos 1990, a Luta pela Terra que, não se que a identificação que o trabalho, já
restringe somente à seara do MST e dos demais fragmentado corporativamente (em profissões
movimentos de Luta pela Terra, mas de identificadas15 com as dimensões da divisão
algumas entidades sindicais diretamente ligadas técnica), tem com o território, é referenciada
à organização dos trabalhadores assalariados, nos limites das determinações impostas pelo
especialmente à cana-de-açúcar, como é o caso regramento jurídico-
de alguns SER’s ligados a FERAESP, da novas formas político .
16

FETAPE, em Pernambuco, FETAGRI, no


Mato Grosso do Sul.
de gestão e As
alcançadas
conquistas
pelos
controle do trabalhadores no
(limitado) texto
4. Reestruturação Produtiva e trabalho pelo constitucional de 1988
Reorganização Territorial do Trabalho
capital estão seriamente
abaladas por conta das
A tentativa de compreender os significados
e a magnitude do processo que fundamenta a iniciativas de desregulamentar aspectos
reorganização territorial do trabalho no campo importantes do contrato de trabalho, como o
poderá nos fornecer pistas sobre o conteúdo desnecessário registro em carteira, em nome do
polissêmico do trabalho e, conseqüentemente, barateamento do custo do trabalho, escudado
para compreendermos seus sentidos no campo, pela campanha nacional “Custo Brasil”, em
diante das redefinições expressas pela nome da garantia de emprego, sendo que a
contradição cidade-campo. Também nos põe segunda metade da década de 90 foi um dos
cuidadosos em relação às mediações e aos
desdobramentos para as entidades de
organização dos trabalhadores, sejam no
âmbito sindical, associativo, etc., sendo que os 15 Como prescreve a Consolidação das Leis do Trabalho
aspectos limitantes que impedem a “leitura” do (CLT). Mais detalhes, ver: Thomaz Júnior, A., 2000.
16 No projeto de tese de doutorado, concluído e, 1996,
trabalho para além das fragmentações e junções
pudemos nos dedicar a essa questão, quando estudamos
(corporativas) e territoriais fundadas no especificamente a relação capital x trabalho na
metabolismo societal do capital, nos coloca agroindústria canavieira em São Paulo e os
frente a frente com a estrutura social mais geral. desdobramentos para o movimento sindical. Mais
detalhes, ver: Thomaz Jr., 2002a.

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piores momentos para os trabalhadores situação agravada a partir dos efeitos da recente
brasileiros e para os tais empregos17. crise que abate sobre os trabalhadores), e
Vale notar que, desde então, esse desenho outros. Como afirma Alves (2000: 83): “O
histórico demarca claramente a transmutação cerne essencial e determinante da crise do
do embate operário. Isto é, da dimensão salarial sindicalismo moderno no limiar do século XXI
ganha rapidamente a dimensão da contestação é a instauração do complexo de reestruturação
do regime militar e produtiva do capital”.
autoritário de controle estamos No caso brasileiro, especialmente, as novas
social, inclusive com formas de gestão do trabalho na produção, ao
potencialidades para diante de um capturar a subjetividade operária como
alavancar um salto
para a organização dos
processo elemento central da lógica do capital, debilita o
ideário fundado nas estratégias de classe (ainda
trabalhadores como histórico que que de cariz corporativo), fomentando posturas
classe antagônica ao sindicais neocorporativas e propositivas19,
capital, nos moldes da contradiz de prevalecendo os interesses por empresas, por
“revolução pacífica”, setores, e também fragiliza consideravelmente a
de Gramsci, o que forma radical capacidade de negociação e organização dos
ficou conhecido como
novo sindicalismo. Da
o período do sindicatos. Podemos dizer que o capital não
somente está roubando a subjetividade operária
fase combativa para a ressurgimento (ou o saber operário)20, mas também sua alma,
fase hegemonizada sua capacidade de indignação21.
pelo do movimento Certamente, estamos diante de um
neocorporativismo e
pelo ideário da
sindical e processo histórico que contradiz de forma
radical o período do ressurgimento do
concertação social, operário no movimento sindical e operário no Brasil, no
apesar de haver alguns
cuidados para precisar Brasil início dos anos 198022. O amálgama de
posições conciliadoras hegemoniza a
essa fronteira, pouco sociabilidade presente no universo sindical
mais de mais 15 anos demarcam mudanças brasileiro, repercutindo no cenário eleitoral,
significativas do ponto de vista político, plasmando interesses outrora radicalmente
ideológico e organizativo da classe trabalhadora divergentes, mas com sintonia fina na busca do
no Brasil, já no século XXI. resultado do pleito. É ao que se assiste diante
Os efeitos desses ajustes no metabolismo das alianças que se processam entre o Partido
do capital estão intensificando a debilitação dos Trabalhadores e os demais partidos
estrutural do poder dos sindicatos, associações, conservadores e liberais e, por via de
cooperativas e, em conseqüência, o acúmulo de conseqüência, entre a CUT e a Força Sindical.
forças dos trabalhadores assalariados, Os ataques demolidores às organizações
temporários, camponeses e demais segmentos e políticas dos trabalhadores são um desejo do
organizações. Esta é, como tudo indica, uma capital e dos setores dominantes que se renova
das principais causas da crise do sindicalismo constante e fortemente nos dias de hoje. Em
nos países centrais a partir dos anos 1990 plena vigência da mundialização do capital
(EUA, Japão e Europa Ocidental)18 e também
em países como o Brasil, a Argentina (com a
19 Cf. SANTOS, 2001; ALVES, 2000; ARAÚJO, 2002.
20 Sobre essa questão ver: Antunes, 1995 e 1999, e
17Cf. DIEESE, 2002. Alves, 2000.
18 Cf. ALVES, 2000; SANTOS (2001); MOREIRA 21 Cf. THOMAZ JR., 2003b.

(2001). 22 Cf. ALVES, 1999.

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(mundialização das operações do capital), ou de novos padrões organizacionais e


como propõe Chesnais (1999), financeirização do tecnológicos compatíveis.
capital, que os mais duros golpes aos O alastramento das técnicas importadas do
trabalhadores e a todas as agremiações, Japão e adaptadas consoante os desígnios do
instituições e relações sociais que manifestavam comando das empresas, tais como: CCQ’s,
obstáculos à lógica da valorização do capital. (Círculos de controle de Qualidade)
Em tempos de globalização, outros kanban/just-in-time, kaizen, TQC (Total Quality
códigos e arranjos espaciais se apresentam para Control), foram se adequando às novas
ser decifrados, especialmente quando tecnologias microeletrônicas na produção,
consideramos que o capital em seu processo de repercutindo tanto do ponto de vista da
desenvolvimento histórico cria um mundo à concorrência capitalista, quanto - e é o que nos
sua imagem e semelhança, ou seja, sua interessa - na nova subordinação forma-
mundialização vai caracterizar a nova etapa de intelectual do trabalho do savoir faire à lógica do
internacionalização capitalista, sendo, pois, capital, que o fordismo desprezava, e às
identificada também como um “processo instâncias de organização política, que
civilizatório humano-genérico, um processo vivenciaram os desdobramentos da
sócio-histórico, contraditório e avassalador, de administração
instauração de uma nova economia e sociedade entender a participativa ou de
modernas” (ALVES, 2001, p. 28). parceria, o sindicalismo
Isto é, as características espaciais desse
dinâmica de participação.
processo é o que vai nos permitir entender a territorial da À escala universal,
dinâmica territorial da relação capital-trabalho e o toyotismo passa a
as demais formas de expressão da luta de relação mesclar-se às
classes. Poderíamos até ponderar sobre um novo
universo das confrontações e das diferenças
capital- objetivações nacionais,
ou seja, com outras
radicadas no processo social23 contra a lógica trabalho e as formas de
destrutiva do capital e particularmente a racionalização do
tradução disso em ações concretas e conteúdos demais trabalho, ou como se
tático-estratégicos específicos. formas de identifica como restrito,
como parte de um
Como sabemos, é a partir dos anos 1980
que no Brasil se manifestaram os primeiros expressão da processo contraditório
de continuidade-
impulsos do processo de reestruturação
produtiva, mas é no princípio da década
luta de classes descontinuidade com o
seguinte que atingiram nova amplitude e taylorismo-fordismo,
profundidade, momento em que as inovações porém, procurando manter as novas
técnicas e organizacionais assumem um caráter necessidades da acumulação capitalista. Isto é, à
mais sistêmico em todo o circuito produtivo base da manutenção dos ganhos de
dos diversos setores econômicos. No entanto, produtividade do trabalho para incrementar a
guardaram traço de semelhança em relação à acumulação do capital, o referencial
busca da competitividade do capital e à adoção produtivista que vigorou durante o século XX é
mantido.
Nesse percurso, como já vimos, quanto
23 Não é o caso de tecer afirmações, mas de atentarmos
para as reflexões que Soja (1996), nos indica em “Third mais aumentam a competitividade e a
Space”, no que se refere à diferenças enquanto concorrência intercapitalista, mais desastrosas e
significado de poder que subjuga o território, o trabalho. cruéis são as conseqüências para o trabalho,
Sugerimos consultar o capítulo “Exploring the Spaces para a classe trabalhadora.
that Difference Makes: Notes on the Margin”.

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 18 Novembro 2004


DOSSIÊ

Por si só essa referência que regula a subcontratado, “terceirizado”; informal; 4)


produção mercantil no capitalismo é o principal verifica-se, também, que todas essas formas que
fundamento ou a essencialidade destrutiva da redimensionam a heterogeinização do trabalho
lógica do capital, o que se acentua em grande têm, na crescente incorporação do trabalho
medida no feminino no
capitalismo interior da classe
contemporâneo trabalhadora,
, o que levou expressão, em
Mészáros especial, quando
(2002) a se pensa em
desenvolver a termos da
tese da taxa de expansão do
utilização trabalho
decrescente do precarizado,
valor de uso “terceirizado”,
das coisas. subcontratado,
É part-time, etc.; 5)
importante intensificação da
destacar que a superexploração
taxa do trabalho,
decrescente de utilização gera uma cultura do através da extensão da jornada; 6) a exclusão de
desperdício, que por sua vez é uma das trabalhadores jovens e “velhos” (acima de 45
principais contradições que o capital encontra anos), do mercado de trabalho; 7) a expansão
para sua realização. À medida que se torna do patamar de trabalho infantil, em especial nas
necessário para o sistema sócio-metabólico do atividades agrárias e extrativas.
capital a elevação contínua do consumo para Os efeitos desse processo se fazem sentir
realização da valorização crescente do capital, de forma expressiva, de um lado, nas relações
estão dadas as condições para aumentar a informais de trabalho, que não são simples
capacidade de autodestruição. Essa tendência depositárias de força-de-trabalho que atua
da taxa de utilização decrescente é um dos autonomamente24. Ao contrário, essa
elementos centrais da reestruturação produtiva, autonomia cede ao comando do capital que faz
e tem atuado eficazmente para ampliar a com que seu circuito se realize dentro dos
sobrevida do sistema do capital, postergando o marcos do circuito capitalista de produção,
colapso do consumo necessário ao capital. diretamente ligado e subordinado ao setor
Vale notar que o caráter mais sistêmico da formal.
reestruturação produtiva repercute diretamente
sobre o trabalho, produzindo, pois, resultados 5. Sentidos e Significados da
diferentes para o conjunto dos países. Mas o Reestruturação Produtiva no Campo
estigma de subordinado e dependente enquadra
o Brasil numa condição subalterna. Em linhas É nessa linha de ação que o Estado
gerais, poderíamos apontar: 1) a brasileiro, amparado pelo pacto de classes que
desproletarização do trabalho industrial fabril, lhe dá sustentação política, protagoniza
típico do fordismo; 2) a ampliação do políticas em concordância aos interesses do
assalariamento no setor de serviços; 3) o capital, e as coloca em prática a fim de exercer
incremento das inúmeras formas de o controle social. Então, ao mesmo tempo em
subproletarização, decorrentes do trabalho
parcial, temporário, domiciliar, precário, 24 Cf. MALAGUTTI, 2001.

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 19 Novembro 2004


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que direciona a ofensiva destrutiva do capital heterogeneização, a subproletarização do


para as reformas na legislação trabalhista, trabalho. Sob o impacto da flexibilização e dos
também atua para frear o poder de mobilização efeitos das derivações do talylorismo-fordismo
e confrontação dos trabalhadores envolvidos na para o toyotismo ou formas combinadas, bem
Luta pela Terra e pela Reforma Agrária. como outras formas de organização do
Vale destacar também a agravante processo de trabalho, o que Beynon (1998)
representada por alguns assuntos que povoam denomina de operários hifenizados26, as marcas
o momento histórico desse início de século da precarização são ainda, mais expressivas.
Importa afirmar que por
XXI, no Brasil, mais propriamente a partir do
governo Lula. A conjuntura atual desperta
o metabolismo conta disso há um
preocupações para os trabalhadores brasileiros do capital e aumento da classe-que-
vive-do-trabalho em
de maneira geral, tendo em vista os assuntos
que comparecem em cena no âmbito do Fórum sua lei do bases intensamente
precarizadas.
Nacional do Trabalho25, e das reformas
trabalhista e sindical, e previdenciária, que
valor É possível adiantar
rondam o Congresso Nacional. necessitam que o que deve ser
considerado é que o
Nesse mesmo contexto podemos
apreender ainda o imobilismo dos partidos
cada vez metabolismo do capital
políticos progressistas (PT, PC do B e PSB) e a menos do e sua lei do valor
necessitam cada vez
CUT, em relação aos temas centrais para os
trabalhadores, particularmente, a Reforma trabalho menos do trabalho
estável e cada vez mais
Agrária, a viabilização de assentamentos e a
política de emprego no campo, pois evidenciam
estável e cada das diversificadas
formas de trabalho
os vínculos, os interesses e os nexos que vez mais das parcial, terceirizado,
soldam as alianças políticas de sustentação do
governo, já que são, por exemplo, em torno do diversificadas part-time,
subproletarizado,
superavit primário, do acordo com o FMI, às
reformas, etc. formas de precarizado em suas
diversas formulações.
Assim, precarizado e complexificado, o trabalho Nesse aspecto,
mundo do trabalho expõe um cenário
polêmico. Muito se fala do fim do trabalho,
parcial quando associamos o
todavia é o emprego que está moribundo. Ou desemprego
seja, com a diminuição do operariado industrial (inicialmente movido pela substituição
tradicional, temos ao mesmo tempo a crescente de trabalho não qualificado pelo
desproletarização do trabalho manual, a qualificado), ao processo metabólico do capital,
no momento atual, diante da tendência da
“modernização” capitalista, o que se constata é
25 O texto provisório já acertado entre os coordenadores que esse fenômeno se generaliza por toda a
do FNT e as três principais centrais sindicais (CUT, FS sociedade.
e CGT), contém três elementos centrais: prevê o fim do
imposto sindical, o reconhecimento jurídico das centrais Seria o mesmo que dizermos que a
sindicais, e criação do Conselho Nacional de Relações sociedade contemporânea é movida
de Trabalho de caráter triparite. Diante da reforma
predominantemente pela lógica do capital, pelo
ministerial, não estão previstas mudanças radicais ao
texto original. Aproveitamos para indicar o texto sistema produtor de mercadorias e que o
“Unicidade Sindical: Uma Questão Tática para os
Trabalhadores”, de autoria do professor Ariovaldo 26 São aqueles que se enquadram em trabalho-parcial,

Oliveira Santos. Revista Pegada, Presidente Prudente, trabalho-precário, trabalho-por-tempo, trabalho-por-


v.4, n.2, 2003. hora.

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 20 Novembro 2004


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trabalho abstrato cumpre o papel decisivo na Nesse sentido, há avanços já revelados em


criação de valores de troca. Então, quando se “Território em Transe...”, que nos autorizam
fala em crise do trabalho, está se falando da indagar: como desconsiderarmos para a
crise do trabalho abstrato. Sabemos, pois, que explicação da luta dos trabalhadores
no universo da sociabilidade produtora de assalariados no campo e dos conflitos sociais
mercadorias, o valor de uso das coisas é em torno da Luta pela Terra no Brasil, os
minimizado, reduzido e subsumido ao seu valor elementos condicionantes do edifício social
de troca. como um todo28?
Faz-se necessário qualificar a afirmação Ainda que esse processo esteja sendo
genérica de que há uma crise no trabalho ou ampliado com os desdobramentos da
uma crise na sociedade do trabalho. Ou seja, reestruturação produtiva do capital, a questão
temos que esclarecer se se trata de uma crise da agrária no Brasil tem na estrutura fundiária ou
sociedade do trabalho abstrato ou se estamos mais precisamente, na concentração da
diante de uma crise do trabalho também em sua propriedade da terra, o resultado das
dimensão concreta, enquanto elemento central desigualdades geradas pelo sistema metabólico
do intercâmbio social entre os homens e a do capital e um dos principais entraves para o
natureza. alavancamento da Luta pela Terra por parte dos
Em síntese, o trabalho, em todas as suas movimentos sociais e também para a Reforma
dimensões é, pois, a base fundante do Agrária.
autodesenvolvimento da vida material e O cadastro do INCRA (Instituto Nacional
espiritual, sendo que de Colonização e Reforma Agrária) para 2003,
circunscrito à sua forma há uma crise revela que 70.000 imóveis (1,6% do total),
concreta garantiria a ocupam quase a metade (43,5%) da área
realização de uma vida no trabalho cadastrada ou 183.000.000 de ha, sendo que
cheia de sentidos,
emancipada para o ser
ou uma crise quanto ao uso da terra e sua função social,
apenas 30% da área dos imóveis foi como
social que trabalha. na sociedade produtiva. No entanto, em relação ao total da
área agricultável ou 850 milhões de ha, apenas
Diante disso, não do trabalho 50 milhões de ha estão ocupados pela
podemos concordar
com a tese do fim do trabalho ou da perda de agricultura; 120 milhões de ha destinados às
sua centralidade27, tampouco com o fim da reservas indígenas; 110 milhões de ha com
revolução do trabalho. Isso, pois, enquanto áreas de preservação, sendo que se estima que
perdurarem a sociedade capitalista e os há de 100 a 200 milhões de ha de terras não
elementos constitutivos da estrutura societária cadastradas ou devolutas. Portanto, a
do capital, seria praticamente impossível magnitude da quantidade de terras que
imaginar a eliminação da classe trabalhadora. poderiam ser destinadas para a reforma Agrária
não deve ser desprezada, tampouco justificar
políticas compensatórias em lugar de projetos
consolidados e específicos para tal fim.
27Os autores que mais se destacam como defensores da O cuidadoso e instigante estudo de
tese do descentramento, são dentre outros: Gorz (1986), Oliveira (2000)29, também nos mostra,
que exprime sua posição em adeus ao proletariado;
Habermas (1984), em “Crítica a Razão
Comunicacional”; Offe (1986), que defende a idéia da 28 Esse assunto foi abordado por nós em “Desenho

perda da centralidade do trabalho; Robert Kurz (1993), Societal dos Sem Terra no Brasil”. Ver: Thomaz Jr.,
que polemiza com a idéia do fim do trabalho, mas 2001.
mantendo posicionamento crítico de grande 29 Referimo-nos ao texto “Barbárie e Modernidade: O

profundidade à sociedade do capital. Agronegócio e as Transformações no Campo”.

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 21 Novembro 2004


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amparado nos dados do Censo Agropecuário setores hegemônicos, ao contrário das


de 1995/96 (IBGE), que são as pequenas pequenas, que sempre se vinculam à produção,
unidades de produção que produzem a maioria daí sua participação destacada no agronegócio.
dos produtos agropecuários30. (OLIVEIRA, 2004).
Enquanto as pequenas representam 94,0% Essa realidade todavia, deve ser
do número e 29,2% da área, se compreendida considerando: a) as mediações
responsabilizam, considerando as lavouras que garantem o
temporárias: por 38,0% do rebanho bovino; processo de
71,5% da produção do leite; 79,3% de ovos de mesmo diante reprodução do
galinha; 55,0% do algodão herbáceo; 78,5% do
feijão; 92,0% da mandioca; 54,4% do milho em
da superioridade capital; b)
intensificação da
a

grão; 34,4% da soja em grão; 20,0% da cana-de- das pequenas mecanização do


açúcar, sendo, pois, esse o único caso em que processo de
as grandes unidades (33,1%) superam as unidades, os trabalho e toda
pequenas, com as médias representando 47,0%,
assim como no caso do arroz em casca (42,7%),
latifúndios ordem e dimensão
do controle social
na soja em grão (43,7%); e na silvicultura31 à “escondem” a (formas recriadas
base de 65,3%, que revelam a
Para os produtos oriundos das lavouras
terra expropriação, a
permanentes, as marcas em favor das pequenas subordinação do
unidades de produção também são expressivas: trabalho); c) a apropriação da renda da terra
76,0% do algodão arbóreo; 85,4% da banana; pelo capital; d) a execução e extinção das
70,4 do café em côco. Tudo isso reflete na políticas públicas, etc.
superioridade das pequenas unidades de Por esse viés podemos identificar as
produção (56,8%) no valor da produção contradições que revestem e redefinem o
(animal e vegetal), e também nas commodities agronegócio no Brasil, e que mistificam a
(laranja, café e cacau), enquanto as médias existência de um campo moderno e um campo
detêm 29,6% e as grandes 13,6%. Em relação atrasado. A esse respeito, o marketing reforça os
ao pessoal empregado, essas grandezas se números que engrandecem o significado
repetem, pois de um total de 18.000.000 de mercantil e econômico do agronegócio (como
trabalhadores, as pequenas unidades sinônimo da supremacia da produção para o
representam 87,3% e as grandes apenas 2,5%. mercado mundial), especialmente quando isso
É importante enfatizar que mesmo diante tem a ver com os setores que se
da superioridade das pequenas unidades, os responsabilizam pelas 123.000.000 de toneladas
latifúndios “escondem” a terra improdutiva, de grãos produzidas em 2003, com superávit na
sabendo-se que, historicamente, o papel da balança comercial (US$24,8 bilhões), com
grande propriedade no Brasil é de servir como destaque para as exportações do complexo soja
reserva patrimonial de valor para as elites e (US$7,8 bilhões)32, carnes (US$4,8 bilhões),
açúcar (US$2,1 bilhões), madeira e suas obras
(US$2,0 bilhões), suco de laranja e fumo
Cadernos do XII Encontro Nacional do MST. São (US$1,0 bilhão), etc.
Paulo: MST, 2004.
30 Considerando-se, pois, a classificação dos estratos de
Mais ainda, esse quadro que elucida o
área da Reforma Agrária, ou seja: menos de 200 hectares aporte produtivo da agropecuária e que mostra
(pequenas); de 2001 a menos de 2000 hectares (médias); a superioridade da pequena unidade produtiva,
e com mais de 2000 hectares (grandes).
31 Considerando-se carvão vegetal (67,8%), madeiras em 32Essa denominação indica o conjunto das atividades
tora (55,1%) e madeira para papel, (73,1%). do processamento da soja.

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 22 Novembro 2004


DOSSIÊ

não pode ser entendido desconectado do mais originais e específicos da lavra agrícola no
processo social e, portanto, das referências e rural. Isso redefine constante e intensamente a
objetivos que guiam o maniqueísmo em torno relação cidade-campo para o trabalho.
do campo que se modernizou, porque se Em torno disso há compreensão de que
industrializou/urbanizou, e do campo que se esse novo rural ou rurbano33 sugere que o campo
mantém preso à subsistência e, portanto, fora acabou e que as atividades em tempo parcial e a
do modelo de desenvolvimento. pluriatividade passam a reger as relações de
trabalho nele. Todavia, a esse respeito,
compartilhamos compreensão com
Carvalho filho (2001), quando assevera
que a grande maioria dos trabalhadores
rurais (com pouca terra ou acesso
precário a ela, vive essencialmente das
atividades agrícolas, complementando
renda com outras atividades, o que via
de regra sempre fez parte do conjunto
das suas atividades.
Assim, mais do que qualquer outro
momento da história, a questão agrária
se identifica e contém elementos centrais
da questão do trabalho, com os assuntos
urbanos, etc.
Apesar desse assunto merecer
atenção especial, nos nossos textos34
temos defendido a idéia de que o campo
deve ser entendido por dentro das
contradições que demarcam a
diferencialidade tecnológica, os conflitos
em torno da posse da terra, a relação
capital x trabalho, e as diferentes
inserções dos agentes produtores no
circuito mercantil, que identificam os
objetivos, as expectativas e os retornos
desejados, das crescentes somas de
produtos de origem agropecuária que o
Esse assunto também produz dividendos país importa para garantir o abastecimento
para a idéia de que a modernidade no campo interno, por exemplo, o arroz (US$180 milhões
permite que alguns acreditem que o campo em 2003), o milho e o leite.
acabou em vista da
urbanização/industrialização crescente, o que 33 Denominação que demarca no debate intelectual,
não mais faculta falar-se em rural, ou ainda que acadêmico e trabalhista a formulação do professor José
não é mais exclusivamente agrário. Ou seja, o Graziano da Silva, em respeito da perda de importância
setor modernizado e compreendido como das atividades agrícolas propriamente ditas no rural, no
extensão da indústria, e o atrasado como Brasil. Mais detalhes consultar o livro de José Graziano
da Silva “O Novo rural Brasileiro”. Campinas: Editora da
facilmente descartável, ou no limite cumpridor Unicamp, 1999; e também o site: www.unicamp.br/rurbano
de papéis sociais híbridos, mesclados e não 34 Referimo-nos, particularmente a dois textos de nossa

autoria: 1) Thomaz Jr., 2001, e 2003b.

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 23 Novembro 2004


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Esse quadro nos mostra o conteúdo das as principais marcas que ainda garantem a
contradições vinculadas historicamente na vigência do Projeto Novo Mundo Rural.
opção latifundista do período colonial, que foi Essa tomada de posição para o
capaz de resolver os interesses divergentes delineamento da questão agrária se expressa,
entre latifundiários, capitalistas e o próprio concretamente, nos mais alarmantes atos de
Estado. Enquanto em diversos países barbárie praticados pelo capital, pelos
capitalistas, optou-se pela reforma agrária e por latifundiários, e pelos órgãos repressivos do
leis severas contra a concentração da terra, no Estado, sobretudo com os assassinatos de
Brasil, ao contrário, essa opção se distancia no trabalhadores e
horizonte, pois a propriedade e a posse da terra lideranças, bem
não têm vínculo exclusivo com a produção, Ficam como a parcialidade
mesmo sob a vigência de governos democráticos,
ainda mais em época de governo popular. secundarizadas da justiça em favor
do latifúndio.
Nesse sentido, as mudanças de orientação, e mesmo Enfatizando a
que passaram a ser implementadas na década de
90, por parte do capital, do Estado e dos desconsideradas participação
sociedade civil na
da
setores hegemônicos (burguesia agrária,
latifundiários), com a participação decisiva do
as questões gestão dos
programas de
Banco Mundial35, deixam rastros de destruição. sociais desenvolvimento, os
Na rabeira dessas mudanças de enfoque, a
maioria das conquistas dos trabalhadores são
emergentes no protagonistas desse
projeto atraem a
eliminadas e/ou modificadas/fragilizadas, tais campo opinião pública e os
como: o PROCERA (Programa de Crédito trabalhadores para a
Especial para a Reforma Agrária), substituído tese de que a saída para a construção de um
pelo PRONAF (Programa Nacional de consenso entre todos os grupos sociais deve
Fortalecimento da Agricultura Familiar), em viabilizar o desenvolvimento socioeconômico
1996 e hoje completamente esvaziado e harmônico e favorável para todos.
deturpado; o projeto LUMIAR é simplesmente Então, a idéia do desenvolvimento rural36
abolido depois de ter alcançado resultados (local) seguido dos adjetivos humano, solidário,
importantes na assistência técnica; e o sustentável, etc., forja os elementos que vão
PRONERA (Programa Nacional de Educação soldar os interesses centrais da sociedade
na Reforma Agrária), duramente fragilizado. produtora de mercadorias, na qual subjaz a
A estratégia de minimização do conflito lógica da rentabilidade, da concorrência e do
em torno da posse da terra no meio rural, tanto controle social pelo capital.
em relação à prática das ações, quanto dos Ficam secundarizadas e mesmo
documentos norteadores da política fundiária e desconsideradas as questões sociais emergentes
agrária do Estado, tem como único objetivo a no campo, que se ligam à concentração da
construção de um consenso social amplo. O terra, de renda e de capital, pois a questão
Banco da Terra, a Bolsa de Arrendamento são
36Esse assunto foi cuidadosamente estudado por Jorge
35 Já em 1993 o Banco Mundial, por meio do Relatório Montenegro Gómez, na sua dissertação de mestrado
11738-BR, de 27 de maio, momento em que anunciava “Políticas Públicas de Desenvolvimento rural e o
o encerramento de algumas linhas de financiamentos, Projeto de reforma Agrária do MST no Noroeste do
apontava também para a necessidade de o Estado Paraná“, desenvolvida junto ao Programa de Pós-
mudar radicalmente sua postura diante da agricultura, Graduação em Geografia da Universidade Estadual de
pois os cenários apontavam para a retirada total ou para Maringá, sob nossa orientação, e defendida em abril de
intervenções mínimas ou pontuais. 2002.

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 24 Novembro 2004


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agrária não mais possui um caráter estrutural, Nesse sentido, a repressão e a violência
como defende Martins (2001), ou não apresenta que engordam as fatídicas estatísticas das
impasses ao desenvolvimento do capital. torturas, dos assassinatos, dos
Assim, se a questão agrária foi resolvida desaparecimentos de camponeses e lideranças
pelo capital e para o capital, a ponto da sindicais no campo, bem como o
estrutura agrária não conter elementos que comprometimento da maioria do poder
constituíssem obstáculos ao desenvolvimento judiciário com os imperativos do capital e do
do capitalismo, não se estaria mais diante dos latifúndio, não fizeram desaparecer o
antagonismos de envolvimento e a luta dos trabalhadores,
classe. De forma muito sintonizada com o desejo do acesso à terra, à
contundente Germer a questão Reforma Agrária, às melhores condições de
trabalho, ao cumprimento dos direitos
(2002) critica Martins
(2001), por entender
agrária foi trabalhistas, às denúncias de trabalho escravo,
que a discussão sobre a resolvida pelo etc.
questão agrária deve Então, se a agricultura capitalista,
priorizar o capital e para referenciada no modelo da modernidade e dos
entendimento
dinâmica das relações
da o capital requisitos do agronegócio, se expressa tanto na
grandiosidade das supersafras, como também
entre as classes sociais, retrata o suporte dos mais elevados coeficientes
sendo, pois, esse, um dos elementos centrais e de concentração da terra e de riquezas do
não o que identifica sua proposta, como algo planeta, não é de se espantar a crueza da
exclusivamente vinculado à “leitura” da questão barbárie imperante. A título de exemplo,
agrária para o capital ou à classe burguesa. É poderíamos destacar o desemprego no campo,
importante notar que esse antagonismo de que já se compara aos elevados níveis urbanos,
classe, supostamente superado pela (colocar virgula antes e acrescentar sendo que
consolidação do capitalismo, não é substituído só em 2003 foram encerrados
pela harmonia entre as classes sociais, aproximadamente 2.500.000 postos de
tampouco pela dissolução das mesmas, mas sim trabalho, como também, os conflitos no
por novos antagonismos de classe. campo que crescem ano a ano, saltando de 880
Daí, por exemplo, a banalização da em 2001, para 925 em 2002, e até agosto de
Reforma Agrária, a ponto de ser esquecida das 2003, 536. Sem contar as mortes, ou mais
prioridades de governo e das políticas públicas, propriamente assassinatos, como demonstram
tal como assistimos em relação à demora e à os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT),
desmobilização em torno da publicização do que ascenderam de 29 casos em 2001, para 43
Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), em 2002, e até agosto de 2003 mais de 30
sua aceitação no âmbito do governo e trabalhadores haviam sido eliminados
aprovação no Congresso Nacional. Sem contar fisicamente num país que se denomina
o distanciamento que o governo mantém dos democrático e de todos.
movimentos sociais envolvidos, historicamente, Outra forma importante de expressão da
na Luta pela Terra e pela Reforma Agrária no dominação de classe, em relação a Luta pela
Brasil, em todo o processo preparatório do Terra, está a cargo dos meios de
PNRA37. comunicação38. A esse respeito as pesquisas

37 Esse assunto foi abordado por nós em “Jogo de Cena 38 Esse assunto está sendo investigado pela mestranda

e Poder de Classe no Brasil do Século XXI: O Território Sônia Maria Ribeiro de Souza, que desenvolve o Projeto
Minado para o Trabalho”. Revista Pegada, Presidente de Pesquisa “Discursos em confornto no território da
Prudente, v. 3, n.1, jun., 2003b. Luta pela Terra no Pontal do Paranapanema: MST e

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 25 Novembro 2004


DOSSIÊ

têm nos mostrado alguns aspectos em relação Para tanto, têm sido uma constante os
aos mecanismos ideológicos da construção da exercícios a fim de estabelecermos as
linguagem da imprensa, intrínsecos às mediações teóricas para viabilizarmos a práxis
ocupações de terra e as diferentes dimensões das pesquisas no âmbito da Geografia do
do conflito social manifestas territorialmente trabalho42. Em vista disso, já nos está sendo
no Pontal do Paranapanema. possível, com o andamento das investigações,
Nesse particular, a adequação da linguagem desvendar os
processos
ao juridicismo, o que nos revela o refletir a (estruturais e locais)
comprometimento da imprensa39 com a
formulação da imagem do MST como fora da dialética da que criam e
reproduzem a
lei, ilegal, ilegítimo. Isso, pois, ao mesmo tempo
em que constrói uma imagem da justiça como
produção e ideologia
hegemônica de
instituição acima do bem e do mal, conferindo- reprodução de gênero, assim como
lhe o verniz da imparcialidade e neutralidade,
também reforça as estruturas de poder40. relações sociais as práticas de
resistência presentes
Essas relações de poder também podem de gênero no território da Luta
ser visualizadas quando dirigimos nossas pela Terra, no
atenções para refletir a dialética da produção e presentes na caminho da
reprodução de relações sociais de gênero
presentes na dinâmica territorial da Luta pela dinâmica transformação
superação
e
das
Terra, particularmente os acampamentos e
assentamentos, enquanto formas concretas da
territorial da contradições sociais.

organização espacial do MST no Pontal do Luta pela Terra Mas quando


nos propomos focar
Paranapanema.
a questão agrária no
Por dentro das relações de poder, e sendo Brasil por dentro do conflito social, estamos
o gênero uma das expressões, as diferenças preocupados em desenvolver metodologias
entre homens e mulheres construídas social e
historicamente, rebatem diretamente nas
formas geográficas, e está nos possibilitando Pontal do Paranapanema”, tese de doutorado
compreender os desdobramentos da recentemente concluída de autoria de Maria Franco
García, e “A Participação da Mulher na Luta pela Terra:
interlocução entre gênero, classe e território41.
Uma Questão de Classe e/ou Gênero”, desenvolvido
pela mestranda Renata Cristiane Valenciano, ambas
imprenssa”, junto ao Programa de Pós-Graduação em vinculadas ao Programa de Pós-Graduação em
Geografia, da FCT/UNESP/P. Prudente, sob nossa Geografia da FCT/UNESP/P. Prudente e sob nossa
orientação. orientação.
39 Especificamente o Jornal O Imparcial, sendo, que o 42 A esse respeito, indicamos dois textos em co-autoria

Jornal Folha de São Paulo também foi incorporado ao com Maria Franco García: 1) “Trabalhadoras Rurais e
universo a ser pesquisado. Luta pela Terra: Interlocução entre Gênero, Trabalho e
40 A esse respeito, gostaríamos de indicar dois textos em Território”. In: Revista Eletrônica Geocritica, v. 6,
co-autoria com Sônia Maria Ribeiro de Souza: 1) “O n.119, 2002. Disponível em: www.ub.es/geocrit/c4-frtho.htm
Discurso Jornalístico e o MST: O Fato e a Também foi publicado na Revista Terra Livre, São
Interpretação”. Revista Ciência Geográfica, Bauru, ano 8, Paulo, n.19, ano 18, v.2, jul. dez., 2002. 2) “Gênero e
v.1, n.22, mai. ago., p. 37-48, 2002; 2) “Imprensa, Território da Luta pela Terra na Era do Fim do
Construção dos Sentidos e ‘Leitura’ do Território de Emprego”. Revista Abalar, Santiago de Compostela, n.0,
Luta pela Terra no Pontal do Paranapanema”. Revista primavera de 2003. Atendemos solicitação dos editores
Universidade e Sociedade, Brasília, ano 13, n.30, jun., p.177- da Revista Desenvolvimento Econômico e também
181, 2003. permitimos sua publicação por se tratar de periódico
41 Há dois projetos nesse sentido: 1) “Luta pela Terra com inserção em outro público. Salvador: Unifacs, 2003.
sob o Enfoque de Gênero: os Lugares da Diferença no

Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 26 Novembro 2004


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capazes de indicarem as pistas para o GARCIA-RAMÓN, Maria D. Regional


entendimento de uma realidade plural, diversa e welafere policies and women's agricultural
contraditoriamente redesenhada. Isto é, labour in Southern Spain. In: GARCIA-
pretendemos entender de forma imbricada, as RAMÓN, Maria Dolors; MONK, Janice
formas geográficas que nos indicam os (1996), (eds.) Women of the European Union:
sentidos, os significados e o conteúdo daquilo the politics of work and daily life. Londres:
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Pegada ‹ vol. 5 ‹ nos 1 e 2 29 Novembro 2004


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OUTRAS
PEGADAS

Apresentação
Desenho Societal dos Sem-Terra no Brasil (uma contribuição à "leitura"
geográfica do trabalho)
Antonio Thomaz Junior
O Engendramento da Crise do Capital nas Redefinições do Mundo do Trabalho e na
Reconfiguração Territorial
Marcelo Dornelis Carvalhal
A Luta pela Moradia e o Mundo do Trabalho: unificando o "caracol e sua
concha"
Fernanda Keiko Ikuta
A "Questão de Desenvolvimento" nas Reformulações da Política Agrária
Brasileira: reflexões iniciais
Jorge Montenegro Gómez
A Questão do Gênero na Encruzilhada Sindical
Terezinha Brumatti Carvalhal
O Discurso Jornalístico: as marcas da representação de classe
Sônia Maria Ribeiro de Souza
Reestruturação Produtiva e Precarização das Relações de Trabalho
Marcelino Andrade Gonçalves
Processo de Luta Pela Terra e seus Desdobramentos no Município de Teodoro
Sampaio
Renata Cristiane Valenciano
As Metamorfoses do Mundo do Trabalho na Agroindústria Canavieira Paulista
(algumas reflexões)
Ana Maria Soares de Oliveira
O Movimento Social de Luta pela Terra e Reforma Agrária no Pontal do
Paranapanema
Edvaldo Carlos de Lima
O Trabalho Pluriativo em Presidente Prudente
Sandro Mauro Guirro
Trabalho e Natureza: um discurso a favor da alienação
Fábio Henrique de Campos
A Atividade Canavieira na Brasil: reflexão iniciais
José Roberto Azevedo
Gênero e Jornada de Trabalho em Assentamentos R rais

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