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BERT HELLINGER

a paz começa na alma


as constelações familiares a serviço da reconciliação

Tradução
Tarcisia Múcia Lobo Ribeiro

Revisão
Tsuyuko Jinno-Spelter

1ª Edição - 2006
Título do original alemão:
Der Friede beginnt in den Seelen
Das Familien-Stellen im Dienst der Versöhnung
1a. edição, 2003
ISBN 3-89670-411-7
Carl-Auer-Sisteme Verlag
Fleidelberg - Deutschland
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1a Edição - julho 2006
ISBN 85-98540-10-2
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EDITORA ATMAN Ltda.
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dezembro de 2004.
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H477e Hellinger, Bert.
A paz começa na alma / Bert Hellinger; tradução de Tarcísia Múcia Lobo Ribeiro.
- Patos de Minas: Atman, 2006.
p.216.
ISBN 85-98540-10-2
1. Paz, aspectos sociais. 2. Reconciliação, aspectos religiosos. I. Título.
CDD: 327.172
Pedidos:
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Paz significa:
- que aquilo que estava em oposição se reencontra
- que aquilo que antes se excluía, se reconhece mutuamente
- que aquilo que antes se combatia, se feria e até mesmo queria se destruir,
faz luto em conjunto pelas vítimas de ambos os lados e pelo sofrimento que
causaram um ao outro.
Nas constelações Familiares, o trabalho de reconciliação começa na alma de
cada indivíduo e na família. Se a reconciliação tiver êxito nesse âmbito, ela
também se expandirá para grupos maiores.
A paz profunda e permanente é ausente de intenções. Quando se obtém
êxito, tomamos como um presente.

Bert Hellinger

Bert Hellinger, nascido na Alemanha em 1925, formou-se em teologia e em


pedagogia e trabalhou 16 anos como membro de uma ordem missionária
católica entre os Zulus na África do Sul.
Através de uma formação e experiência em campos variados, como
Psicanálise, Terapia Primai, Análise Transacional, Hipnoterapia e Terapia
Familiar, desenvolveu um método original de constelações sistêmicas,
largamente difundido em todos os continentes.
Seus livros, traduzidos em muitas línguas, incluem reprodução de
workshops, ensaios teóricos, pensamentos, poemas e contos breves; em
contextos de genuína e forte espiritualidade.

Que condições anímicas devem ser criadas para que possa haver a
reconciliação?
No presente livro, Bert Hellinger encontra respostas para tais perguntas em
exemplos de diferentes povos e países que estiveram em conflito, tais como
Grécia e Turquia, Rússia e Alemanha. Mas, além disso, trata também da paz
entre as religiões, por exemplo, Cristianismo e o Islamismo, da paz entre
vencidos e vencedores durante a conquista da América ou entre senhores e
escravos, no Brasil e nos Estados Unidos.
Frequentemente, os conflitos originários jazem em um passado remoto, mas
continuam atuando na alma dos descendentes até hoje. Com a ajuda das
Constelações Familiares consegue-se colocar os envolvidos daquela época
uns perante os outros. Quando se olharem como seres humanos da mesma
espécie, com os mesmos direitos e a mesma dignidade, quando perceberem
o que fizeram aos outros e o que sofreram por meio deles, quando
começarem a sentir o luto pelo que se perdeu, a reconciliação e a paz serão
possíveis.
Um livro muitíssimo atual e de grande ajuda.
Bert Hellinger
Sumário

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 9
GREGOS E ALEMÃES ............................................................................................. 12
Considerações preliminares ....................................................................................... 12
MOVIMENTOS EM DIREÇÃO À PAZ — CAMINHOS PARA A RECONCILIAÇÃO 12
RELATO SOBRE O MASSACRE DE SOLDADOS ALEMÃES SOBRE OS
HABITANTES DE KALAVRYTA ............................................................................. 17
A RECONCILIAÇÃO COMEÇA COM AS VÍTIMAS ................................................ 18
CONSIDERAÇÕES POSTERIORES .......................................................................... 23
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS ................................................................... 23
Perdoar e Esquecer .................................................................................................... 23
ARMÊNIOS E TURCOS — CRISTIANISMO E ISLAMISMO .................................... 25
Considerações preliminares ....................................................................................... 25
O EMARANHAMENTO ............................................................................................ 26
O QUE UNE NOVAMENTE OS SEPARADOS .......................................................... 27
Considerações preliminares ....................................................................................... 27
O INDIVÍDUO E O SEU GRUPO .............................................................................. 32
A LIBERTAÇÃO ...................................................................................................... 32
MEDITAÇÃO: AS VÍTIMAS DOS CRISTÃOS — AS VÍTIMAS DOS MUÇULMANOS
................................................................................................................................. 34
GREGOS E TURCOS ................................................................................................ 35
A RÚSSIA E A ALEMANHA .................................................................................... 35
Considerações preliminares ....................................................................................... 35
A DOR...................................................................................................................... 36
CONFERÊNCIA EM MOSCOU ................................................................................. 42
Considerações preliminares ....................................................................................... 42
O QUE SEPARA E O QUE RECONCILIA ................................................................. 42
PSICOTERAPIA CIENTÍFICA E FENOMENOLÓGICA ............................................ 42
“SOU UMA RUSSA” ................................................................................................ 43
DOIS TIPOS DE SABER ........................................................................................... 44
A PAZ NA FAMÍLIA ................................................................................................ 48
PAZ ENTRE OS POVOS ........................................................................................... 49
ISRAELENSES E PALESTINOS ............................................................................... 49
RUSSOS E ALEMÃES .............................................................................................. 50
O JAPÃO E OS ESTADOS UNIDOS ......................................................................... 51
Considerações preliminares ....................................................................................... 51
HIROSHIMA ............................................................................................................ 52
Mais tarde ................................................................................................................. 56
O QUE AINDA DEVE ANTECEDER À RECONCILIAÇÃO ENTRE JAPÃO E
ESTADOS UNIDOS .................................................................................................. 56
RECONCILIAÇÃO NA ALMA ................................................................................. 60
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS ................................................................... 69
Ordens da ajuda ......................................................................................................... 69
O SOFRIMENTO DAS MULHERES CHINESAS ....................................................... 71
Considerações preliminares ....................................................................................... 71
“VOCÊ É PEQUENA DEMAIS PARA ISSO” ............................................................ 71
A DUPLA TRANSFERÊNCIA ................................................................................... 73
“SORRIA PARA MIM COM CARINHO, POR FAVOR” ............................................ 75
MEDITAÇÃO ........................................................................................................... 76
AS BASES DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES .................................................... 76
A Harmonia com os pais ............................................................................................ 77
O individual peculiar ................................................................................................. 78
A devoção ................................................................................................................. 78
A harmonia ............................................................................................................... 78
A reconciliação ......................................................................................................... 78
Agressores e vítimas .................................................................................................. 79
A consciência coletiva ............................................................................................... 80
Novos caminhos ........................................................................................................ 80
Confiar na alma ......................................................................................................... 81
A ESPANHA E O NOVO MUNDO ............................................................................ 82
Considerações preliminares ....................................................................................... 82
OS CONQUISTADORES E SUAS VÍTIMAS ............................................................. 82
A alma ...................................................................................................................... 87
Exemplo: perdido e (re)encontrado ............................................................................ 89
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS ................................................................... 94
Compreensão através da harmonia.............................................................................. 94
O INCAS .................................................................................................................. 95
Considerações preliminares ....................................................................................... 95
MACHU PICCHU ..................................................................................................... 95
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS ................................................................... 98
Os mortos ................................................................................................................. 98
A GUERRA CIVIL NA COLÔMBIA ......................................................................... 98
Considerações preliminares ....................................................................................... 98
A CULPA ................................................................................................................. 99
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS ................................................................. 102
A paz ...................................................................................................................... 102
A VIOLÊNCIA NA REPÚBLICA DOMINICANA Considerações preliminares ......... 103
OS MERCADORES DE ESCRAVOS ....................................................................... 103
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS ................................................................. 107
A concordância ....................................................................................................... 107
ESCRAVOS NO BRASIL ........................................................................................ 108
Considerações preliminares ..................................................................................... 108
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS ................................................................. 114
Vivos e mortos ........................................................................................................ 114
AMÉRICA E ÁFRICA ............................................................................................. 115
Considerações preliminares ..................................................................................... 115
O LUTO ................................................................................................................. 115
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS ................................................................. 121
O saber que leva à reconciliação .............................................................................. 121
ISRAEL, OS PALESTINOS, O LÍBANO, A ALEMANHA ....................................... 123
Considerações preliminares ..................................................................................... 123
A GRANDE ALMA ................................................................................................. 133
CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 134
Sexta-feira da paixão ............................................................................................... 134
O CÉU NA TERRA ................................................................................................. 136
INTRODUÇÃO
Paz significa:
- que aquilo que estava em oposição se reencontra
- que aquilo que antes se excluía, se reconhece mutuamente
- que aquilo que antes se combatia, se feria e até mesmo queria se destruir,
faz luto em conjunto pelas vítimas de ambos os lados e pelos sofrimentos
que causaram um ao outro.
Qual o efeito da paz? Os que haviam se colocado como superiores em
relação a outros, considerando-os inferiores ou inimigos, reconhecem os
outros como seus iguais. Reconhecem mutuamente o que têm de especial,
tomam dos outros e dão aos outros.
A paz entre eles expande seus limites pessoais e lhes possibilita, no âmbito
dos seus limites, a multiplicidade e a peculiaridade de cada um e lhes
permite uma ação conjunta.
Esta paz começa dentro da própria alma. O que anteriormente havíamos
rejeitado, reprimido e lamentado dentro de nós mesmos pode ocupar seu
devido lugar com direitos iguais aos daqueles que antes já havíamos
aceitado. Será reconhecido, até mesmo amado, em seu significado, em suas
consequências e naquilo que contribuiu para o nosso crescimento.
Isso exige de nós que nos despeçamos do ideal de inocência que não exige
nem confia, que prefere sofrer a agir, que prefere permanecer criança ao
invés de crescer.
Esta paz tem continuidade no seio da família. Muitas famílias querem
permanecer inocentes, colocando, por exemplo, as aparências em primeiro
plano, escondendo, reprimindo e até excluindo tudo aquilo que poderia
colocar em perigo o seu ideal de inocência. Assim tornam-se culpadas, para
permanecerem inocentes. Essas famílias excluem alguns de seus membros,
envergonham-se deles e reprimem seus pensamentos sobre eles, porque seu
difícil destino lhes causa medo e sua lembrança lhes dói. Com isso, uma tal
família definha e se isola.
Paz no seio das famílias não é o mais simples, o mais confortável. Quem
quiser a paz e quem servir à paz expõe-se também ao difícil, ao dolorido, à
culpa. Dá dentro da sua alma um lugar a todos os membros da família,
mesmo que sejam diferentes do que a família deseja ou queira admitir.
Expõe-se ao desafio e também à discussão que, no final, conduz a
reconhecer e amar o outro como igual, com a mesma validade.
Como podemos promover a paz do seio da família para outros círculos?
Inicialmente, talvez isso seja possível somente em pequenos círculos, por
exemplo, entre vizinhos ou no local de trabalho e, posteriormente, lá onde
tenhamos maiores responsabilidades, por exemplo, em uma organização ou
na política.
Só podemos trazer a paz aqui se respeitarmos a dignidade de todos os
participantes e o que é especial neles: o que eles são, e, o que fazem e o que
contribuíram para o todo. Isso exige também que respeitemos sua culpa e
não os libertemos de sua responsabilidade pelas consequências da sua culpa
— pois isso também faz parte da sua dignidade.
A paz não evita os conflitos. No conflito é que os participantes mostram o
que é importante para eles e em que ponto se sentem ameaçados. No conflito
é que tentam se afirmar, até que tenham que admitir onde e até que ponto os
outros lhes impõem limites. Só então é que o equilíbrio e a troca se tornam
possíveis entre eles. Isso permite que todos cresçam e se enriqueçam à luz
do que é diferente no outro. Nesse sentido, o conflito é uma condição prévia
e uma preparação para a paz.
A paz nunca é completa. A paz eterna, como é sonhada por muitos, seria
estagnação. Contudo, a paz contribui para o encerramento: aquilo que antes
havia esgotado as forças no conflito, afasta-se com satisfação. Temos,
porém que permitir que o conflito se retire, senão ele será revivido após sua
dissolução. E o que faz com que o conflito seja revivido? A lembrança! Por
isso, o que passou tem que poder ser passado.
Principalmente os grupos ameaçam a paz. Nós nos tornamos cegos para o
indivíduo, para aquilo que é próprio de cada um, se não nos encontrarmos
mais de indivíduo para indivíduo, se nos vemos em primeira linha como
parte do nosso grupo e, ao outro, como parte do grupo dele. Enquanto
membros de um grupo, deixamo-nos facilmente distanciar de nós mesmos
— sem pensar — e nos dissolvemos no coletivo.
A questão que agora se coloca é: como se pode promover a paz entre os
grupos? Frente às forças coletivas, os indivíduos tornam-se impotentes,
mesmo permanecendo prudentes. Que possibilidades lhes restam? Têm que
esperar o momento certo, até que o motivo conflitante se esgote. Contudo,
eles podem preparar o caminho para a paz nos pequenos círculos mais
restritos. Isso exige deles, nesse meio tempo, que aguentem o conflito e até
que concordem com ele como algo inevitável.
O presente livro documenta, através de exemplos extraídos dos dois últimos
anos, o que prepara a paz na alma.
Por um lado, trata da paz entre os povos: por exemplo, entre gregos e
alemães no contexto da Segunda Guerra Mundial; da paz entre armênios e
turcos após o massacre de turcos sobre armênios; da paz entre a Rússia e a
Alemanha, entre o Japão e os Estados Unidos e entre Israel e os países
vizinhos.
Este livro trata também da reconciliação entre as religiões, por exemplo,
entre o Cristianismo e o Islamismo, da reconciliação entre os conquista dores
e os subjugados na América do Sul, da reconciliação na Guerra Civil da
Colômbia e da reconciliação entre senhores e escravos no Brasil e nos
Estados Unidos.
Frequentemente, apesar de a origem desses conflitos residir em um passado
remoto, continuam tendo efeito nas almas dos descendentes. Com a ajuda
das constelações familiares consegue-se, através de representantes, colocar
os participantes originais do conflito uns perante os outros. Talvez então
eles se olhem pela primeira vez nos olhos, vendo-se como seres humanos
em pé de igualdade, com os mesmos direitos e a mesma dignidade e
entendam o que fizeram um ao outro e o que cada um sofreu com isso; talvez
comecem conjuntamente a sentir pesar pelo que se perdeu, reconciliando -se
e encontrando a paz.
Só então seus descendentes podem reconciliar-se também com os outros,
honrando as vítimas e, em sua memória, reparar o mal causado, à medida
em que isso ainda possa ser possível. Só então, finalmente, poderão deixar
o passado atrás de si, agindo construtivamente no presente.
Com as constelações familiares, o trabalho da reconciliação se inicia na
própria alma e no seio da própria família. Conseguindo-se aí a reconciliação,
esta se propaga a grupos maiores. Daí permanecermos modestos nas
constelações familiares, conscientes dos nossos limites. A paz profunda e
permanente escapa à intenção. Nós a sentimos como um presente, onde ela
ocorre.

Bert Hellinger - Janeiro de 2003


GREGOS E ALEMÃES

Considerações preliminares
Em setembro de 2002, fiz uma conferência no Instituto Goethe de Atenas
sobre o tema “Movimentos em direção à paz-— caminhos para a
reconciliação.”
Ao final da conferência, uma grega contou como soldados alemães
destruíram sua cidade natal, ao fim da Segunda Guerra Mundial. Todos os
homens e adolescentes acima de 14 anos foram separados de suas famílias.
As mulheres e as crianças foram trancadas em uma escola, que foi então
incendiada. Todos os homens foram mortos, entre eles o pai e o irmão dessa
mulher. As mulheres e crianças foram salvas, porque um soldado alemão
arrombou a porta da escola pelo lado de fora. Mais tarde, esse soldado
também foi morto.
A mulher contou também que, antes disso, soldados gregos daquela pequena
cidade haviam assaltado uma patrulha alemã, matando muitos soldados e
fazendo outros tantos prisioneiros, que foram conduzidos pela cidade e
humilhados pelos habitantes.
Como a reconciliação pode obter êxito, a propósito desse relato, foi trazido
à luz em uma constelação de uma forma que tocou profundamente todos os
presentes.

MOVIMENTOS EM DIREÇÃO À PAZ — CAMINHOS PARA A


RECONCILIAÇÃO
H ELLINGER Recebi hoje a incumbência de falar sobre um tema especial:
“Movimentos em direção à paz — caminhos para a reconciliação”. Como
vou fazer esta conferência no exato dia em que, há um ano atrás, foram feitos
os ataques ao World Trade Center, é natural que resultem referências e
correlações com o momento atual.
Vou começar com o bem simples: o que leva à paz e à reconciliação dentro
da própria alma? O desenvolvimento humano, o crescimento só são
possíveis quando incluímos algo que antes havíamos excluído. Contudo,
ocorre um conflito, antes que possamos incluir o que havíamos excluído.
Somente após o conflito vêm a reconciliação e a paz. Heráclito, um ve lho
amigo meu, expressou o mesmo em uma frase, que em grego se diz: Panton
pater polemos. A guerra é o pai de todas as coisas. Isso quer dizer: a guerra
é também o pai da paz. Sem a guerra, não há paz.
Quais são os efeitos disso na alma? Freud, o fundador da Psicoterapia
moderna, observou que o indivíduo só pode crescer se integrar algo que ele
excluiu de sua alma. Rejeitamos muito de nós mesmos, apesar de sentirmos
que faz parte de nós. Por exemplo, uma culpa pessoal.
Como ocorre essa exclusão de uma parte tão importante de nós mesmos?
Isso está ligado à consciência. Somente através da consciência podemos
diferenciar o bom e o mau, nesse sentido, mas, o que a consciência classifica
de bom, é realmente bom? Gostaria de apresentar um exemplo simples.
Quando alguém diz: “Tenho que seguir minha consciência”, o que essa
pessoa faz? Geralmente, magoa outra pessoa. Já ouviram falar de alguém
que tenha feito algo de bom e que tenha dito que havia seguido sua
consciência? Somente quando alguém procura, com a ajuda da consciência,
uma justificativa para magoar outrem é que toma por base a sua consciência.
Devemos ser bastante cuidadosos nesse terreno.
Observei que a consciência tem principalmente uma função: unir-nos à
nossa família e ao nosso grupo. Daí termos a consciência tranquila, quando
nos comportamos de maneira a nos sentirmos seguros: nós podemos fazer
parte. Quando infringimos as regras da família ou do grupo, temos a
consciência pesada, sentimo-nos culpados.
O que significa realmente sentir-se culpado, nesse contexto? Sentimos que
colocamos em perigo ou até mesmo que perdemos o direito à pertinência.
Portanto, a consciência vela para que façamos todo o necessário para
pertencer à família, proibindo tudo o que poderia dela nos afastar. Ao
mesmo tempo, a consciência nos separa de todos os que são diferentes.
Dizemos então: “Nós é que estamos certos, minha família é que é a certa,
minha religião é a certa, minha raça é a certa, minha cultura é a certa, eu sou
melhor e, o que é ainda pior: eu fui escolhido.” Projetamos em Deus a nossa
diferenciação entre o que é bom e certo e o que é ruim e errado. Dizemos,
então, quando nos comportamos assim, que podemos pertencer a nossa
família e, portanto, também a Deus. Então, somos escolhidos por ele.
Estamos dizendo que ele se comporta exatamente como nós. Quando nos
comportamos da maneira que nos dizem que Deus quer, temos então o
direito de pertencer, seja à família ou ao grupo. Quando nos comportamos
de modo diferente, somos postos de lado. Céu e inferno são criações da
nossa consciência, que transferimos a Deus.
Quando descobrimos algo em nós que não está de acordo com as regras da
nossa família, embora seja talvez algo de bom, passamos a rejeitar esse algo.
Com isso, tornamo-nos inocentes, por um lado e, por outro, tornamo-nos
estreitos. Inocentes não podem crescer, permanecem estagnados,
permanecem crianças, permanecem presos às correntes da sua consciência.
Quando aceitamos o que nossa consciência rejeita, apesar de ser algo bom,
ou seja, a nossa sombra, como algo válido e bom, por exemplo, quando
concordamos com a sexualidade dentro da religião cristã, assim como a
sexualidade é, sentimo-nos culpados. Quando integramos nosso lado-
sombra, tornamo-nos pessoas de horizontes mais amplos, tornamo-nos mais
humanos, mais tolerantes, maiores. Com isso, porém, perdemos nossa
inocência.
Descrevi isso através de uma imagem. Sentando-se em algum lugar, alguém
olha para frente. De repente, essa pessoa se vê dentro de um círculo branco.
O círculo é pequeno e estreito, a pessoa mal pode se mexer ali dentro e, em
volta do círculo, flameja uma negra chama de sombras. A pessoa olha para
a chama, desvia o olhar; olha de novo para a chama, desvia o olhar. Após
três dias, o círculo se abre. A gigantesca chama negra salta para dentro do
círculo. O círculo fica grande e, finalmente, a pessoa pode se estender, mas
o círculo agora é cinza. Isto é crescimento para além dos limites da
inocência.
Ainda há um prosseguimento: rejeitamos e excluímos algo, também no seio
da nossa família. Por exemplo, muitos rejeitam seus pais ou um dos pais,
dizendo: “Sou melhor”, e o dizem realmente.
O que acontece na alma de tais pessoas? Isso pode ser observado dentro da
psicoterapia. Essas pessoas são, em primeiro lugar, limitadas e, em segundo
lugar, frequentemente depressivas. Aliás, depressão quer dizer que a pessoa
se sente vazia. Falta-lhe algo, ou seja, um dos pais. Quando coloca em sua
alma um dos pais que está faltando, torna-se rico.
Nos anos setenta, estive com um psicoterapeuta em Chicago, como
convidado. Esse terapeuta disse ter observado que todas as pessoas oscilam
em direção a um determinado sentimento básico, sentindo-se aí otimamente,
da melhor maneira possível. Tal sentimento básico pode ser negativo ou
positivo. Ele propôs então que cada um imaginasse uma escala de - 100 (cem
negativos), passando pelo zero até +100 (cem positivos). Assim, cada pessoa
pode verificar onde se encontra o seu sentimento básico dentro dessa escala.
Estará esse sentimento do lado negativo e quão profundo ele será? Ou estará
do lado positivo e em que altura? Se vocês olharem bem para as pessoas,
verão imediatamente em que ponto dessa escala se encontram. Com um
pouco de prática, isso pode ser percebido com bastante nitidez e exatidão.
Esse terapeuta disse não ser possível alterar esse sentimento básico nunca,
o sentimento sempre permanece o mesmo. Descobri como modificar esse
sentimento. Devo dizer-lhes como? Não vou dizê-lo. Prefiro fazer um
exercício com vocês. Com a ajuda desse exercício, talvez possam atingir até
75 pontos da escala. Devo fazer o exercício com vocês agora?
Tudo bem, então fechem os olhos e coloquem de lado os objetos que
estiverem em suas mãos. Acalmem-se e recolham-se ao seu centro.
Imaginem-se como crianças diante de seus pais. Olhem para cima, para os
seus pais, e vejam os pais deles atrás deles e, atrás deles, seus pais, atrás
deles outra vez os pais deles e assim por diante, através de muitas gerações,
até a origem da vida.
A vida flui através de todas essas gerações. Ninguém pode lhes acrescentar
ou tirar algo. Dessa maneira, de bem longe, a vida chega até nós através
desses pais. Não é importante como eles sejam. Na transmissão da vida,
todos os pais são perfeitos. Através de todas essas gerações eles fizeram isso
de maneira correta, ninguém foi melhor ou pior. Assim, a vida chega até nós
em sua completude através dessa mãe especial, através desse pai especial.
Agora, abram seu coração. Façam com que se torne grande e tomem a vida
vinda desses pais na alma e digam: “Obrigado, vocês são grandes, eu sou
pequeno. Vocês dão, eu tomo. Tomo tudo o que venha de vocês para mim.”
Então, talvez vocês se levantem, encostem-se em seus pais, tornando- se
grandes como eles e olhem para frente: para os seus próprios filhos, para os
seus próprios netos, para as várias gerações que ainda estão por vir. Vocês
se sentirão em harmonia com todos, através dos quais a vida chegou até
vocês e com todos aqueles cujas vidas fluem através de vocês. Desse modo,
todos vocês são iguais no fluir da vida.
Gostaria de acrescentar algo. Cada um que recebe a vida desses pais
especiais, recebe-a de uma determinada maneira, que sempre acrescenta
alguma coisa. Esses pais fazem parte de um grupo especial, de uma cultura
especial, de uma raça especial, de uma religião especial. Cada um de nós só
pode ter a vida se a toma junto com o que faz parte de sua família. Tomando
a vida desses pais, toma e pega também sua fé, sua língua, seu destino e tudo
aquilo que faz parte da vida deles. Concordando com a vida desses pais,
concorda também com eles.
Agora imaginem que há uma outra criança junto de vocês. Essa criança
também olha para os seus pais, seus antepassados, tomando a vida desses
pais, diz: “Vocês são grandes, eu sou pequeno.” Toma a vida, com tudo o
que faz parte desses pais, com sua fé, sua cultura, sua língua, sua religião.
No momento elementar da aceitação da vida, tudo o mais nos é indiferente.
Não podia ser de uma outra maneira diferente do que somos.
Quando mais tarde encontrarmos uma tal criança, por exemplo, quando um
israelita encontrar um palestino, ou um americano encontrar um Bin Laden,
o que seria adequado aqui? O que é o adequado para ambos os lados? O que
acontece, se reconhecermos que o outro é um ser humano igual a mim,
apesar de diferente? Se eu não olhar só para a minha família, para o meu
grupo, para a minha fé, para a minha língua, mas também para a família, o
grupo, a fé e a língua do outro e reconhecer que o outro, apesar de diferente,
é meu igual e semelhante e merece o mesmo reconhecimento? E se eu der
também ao outro um lugar no meu coração, assim como ele é e com tudo o
que faz parte dele? O que acontecerá?
Desisto da minha superioridade, da minha crença na minha superioridade e
dou um lugar de igual valor ao outro, no meu coração. Com isso, eu me
torno mais rico, mais humano, mas perco, de certa maneira, meu pertencer
exclusivo ao meu grupo, renuncio a parte da minha segurança — e cresço.
Dentro desse contexto, gostaria de citar algo de especial importância. Nas
constelações familiares, por exemplo, pode-se ver que tudo aquilo que eu
rejeito ganha força dentro de mim. Quanto mais rejeito determinada coisa,
mais me igualo a ela. A filha que rejeita a mãe, logo se toma igual a ela.
Isso é válido também quando se trata de agressores e vítimas: quando os
descendentes das vítimas sentem raiva dos agressores, tornam-se como eles.
Em sua postura e em seus sentimentos eles se tornam como os agressores.
Se vocês observarem o que acontece no Oriente Próximo, vocês poderão ver
isso em muitos, não só no sentimento de superioridade, mas também nas
ações concretas. Aqui podemos ver o que acontece, quando rejeitamos os
agressores.
Nesse sentido, gostaria de dizer algo sobre a situação da Alemanha.
Imaginem que os alemães dissessem: “Hitler é um de nós, um ser humano
como qualquer um de nós. Nós o aceitamos como um de nós — com empatia.
E não só ele, como todos os que o seguiram.” Se reconhecermos que cada
um deles, no fundo, seguiu a voz da sua consciência e que, seguindo sua
consciência, sentiram-se como vítimas e realizaram atos da maior crueldade
com a consciência em paz. Se, ao mesmo tempo, olharmos para todas as
vítimas deixadas pelo Terceiro Reich, por todos os seus mortos, e se
déssemos também a eles um lugar em nosso coração? Se ao final víssemos
os agressores e as vítimas como fazendo parte uns dos outros e sentíssemos,
junto com eles, o luto e a tristeza pelo que aconteceu? Então, toda a
superioridade e todo o medo se esvairiam.
O que se sucedería na alma dos alemães se conseguissem isso? Como seriam
então para outros povos? Que força seria então liberada? É este o caminho
real da reconciliação.
RELATO SOBRE O MASSACRE DE SOLDADOS ALEMÃES SOBRE
OS HABITANTES DE KALAVRYTA
D IMITRIS STAVROPOULOS A Sra. Koutsouki e sua filha Maria são de
Kalavryta, uma cidade do interior, nas montanhas de Acaia no Peloponeso,
cidade destruída pelos alemães durante sua ocupação na Segunda Guerra
Mundial.
S RA . K OUTSOUKI Eram 13 de dezembro de 1943. Eu tinha oito anos de idade
e mais seis irmãos: dois irmãos e quatro irmãs, um deles com 17 anos. Os
outros estavam com minha mãe em um salão da Escola Primária de
Kalavryta, onde havíamos nos reunido para uma conferência. Lá, os
soldados alemães separaram as mulheres dos homens em diferentes salões.
Os jovens que tinham mais de 14 anos foram colocados junto dos home ns.
Desde esse dia, não os vimos mais.
Havia um grande tumulto e grande inquietação no salão onde estavam as
mulheres e as crianças menores. Todos esperavam ver ou ouvir algo, mas só
se ouvia o choro das crianças menores e dos bebês, os gritos e gemidos da s
mulheres, quando chegou uma informação, trazida por uma mulher de uma
outra região, que entrou no salão.
Após um longo tempo — estava nublado e o sol estava vermelho — vimos
que as casas tinham queimado. Depois de certo tempo, começamos a gritar:
“Vamos morrer queimadas!”
Os soldados começaram a espalhar pólvora no porão da escola, para que
todos morrêssemos queimados ali. Só vou contar o que eu mesma presenciei,
porque não podia enxergar dentro do salão onde os homens estavam
trancados. Só mais tarde ficamos sabendo o que aconteceu nesse salão.
Depois de muito choro e muitos gritos — nesse meio tempo passávamos
fome e sede — foi levada uma mulher ao salão onde estávamos presas.
Minha mãe perguntou-lhe como ela tinha chegado lá, pois aquela mulher era
uma camponesa vinda de outra região. A mulher disse: “Tomaram-me tudo.”
Disse ainda a minha mãe que ela não deveria chorar, pois coisas muito piores
ainda iriam acontecer conosco; que não tinha mais nenhum parente, todos
haviam sido assassinados. Aí minha mãe começou a chorar muito alto e a
arrancar os cabelos. Carregava no colo sua filha mais nova, de um ano e
meio.
Depois de algum tempo, as nuvens de fumaça ficaram mais espessas. Não
sabíamos quem estava junto ao portão, do lado de fora, se era um alemão,
um austríaco ou um italiano. Nunca ficamos sabendo, pois ele foi
assassinado mais tarde; arrombou o portão da escola com sua arma, ao ouvir
nossos gritos. Todos nós nos precipitamos para fora, as mães segurando seus
filhos mais novos nos colos e os outros ao seu redor. Elas sabiam que tinham
perdido todos os outros parentes, os filhos e os maridos.
H ELLINGER Quantos da sua família foram mortos e quem?
S RA . K OUTSOUKI Meu irmão de 17 anos, meu pai, dois irmãos do meu pai,
três meninas da mesma família, no total 40 pessoas.
H ELLINGER ao grupo É muito comovente, o que ela está dizendo. Talvez
devêssemos ficar sabendo também dos acontecimentos que antecederam
essa tragédia.
S R 3 K OUTSOUKI Três meses antes, um grupo de soldados alemães saiu a pé
de uma cidade afastada de lá, querendo manter patrulhas na região
montanhosa. Os partisanos (guerrilheiros da resistência) estavam alojados
nas montanhas e nós os apoiávamos. Nossa opinião era a de que era certo
oferecer resistência e concordávamos com as ações deles.
Em um determinado local, cercaram a pequena patrulha alemã. Três deles
morreram e oitenta foram feitos prisioneiros, havendo feridos entre eles.
Os partisanos levaram os prisioneiros para Kalavryta, conduziram- nos pela
praça da cidade e incitaram as crianças a zombarem deles. Os feridos foram
tratados em um hospital ambulante. Após essa derrota, o comandante alemão
quis vingar-se dessa cidade, tendo então ordenado aquela punição.

A RECONCILIAÇÃO COMEÇA COM AS VÍTIMAS


H ELLINGER para o grupo Acabamos de ouvir os fatos. A questão é: o que
pode levar, nesse caso, à paz e à reconciliação? Por esse motivo vou começar
com aqueles que estavam mais dispostos a uma reconciliação. São as vítimas
de ambos os lados. Por isso, vou pegar três representantes para os alemães
assassinados e cinco representantes para os homens gregos assassinados
dessa cidade.
Hellinger escolhe os representantes e coloca-os uns em frente aos outros.
Figura 1
†A1 Primeiro alemão morto
†A2 Segundo alemão morto
†A3 Terceiro alemão morto
†Gl Primeiro grego morto
†G2 Segundo grego morto etc.
H ELLINGER para os representantes Olhem-se nos olhos e prestem atenção
ao que ocorre no corpo e na alma, cedendo a esses sentimentos e sensações.
Após um curto espaço de tempo, o quarto grego coloca sua mão sobre o
ombro do quinto grego, encostando a cabeça em seu ombro. Eles então se
abraçam.
O primeiro alemão dá uns passos para frente, em direção ao primeiro
grego. Então, o segundo alemão também dá um passo para frente, depois
de ter balançado em um pé e o outro, continua balançando e quase cai.
Após algum tempo, os dois gregos soltam-se do abraço e olham outra vez
para os alemães. O segundo alemão dá mais um passo em frente, continua
se balançando e olhando para o chão.
O terceiro alemão anda um pouco para trás. O quarto e o quinto gregos
também dão um passo para trás.
Depois de algum tempo, Hellinger escolhe três mulheres como
representantes das mães dos alemães mortos, colocando-as atrás deles.
Figura 2

M†Al Mãe do primeiro alemão morto etc.


Bem lentamente, as mães saem de trás dos seus filhos, dirigindo-se a eles,
colocando-lhes as mãos nos ombros, e a mãe do terceiro alemão morto
começa a tremer violentamente.
Figura 3
Decorrido algum tempo, Hellinger escolhe cinco representantes para as
mães dos gregos mortos, colocando-as atrás deles.
Figura 4

M†G1 Mãe do primeiro grego morto etc.


A mãe do quinto grego morto abraça-o por detrás, colocando sua cabeça
no ombro dele.
A mãe do segundo alemão morto coloca-se a seu lado e o conduz lentamente
para a frente. Ele continua curvado, olhando para o chão. A mãe do
primeiro alemão morto anda para a frente, acenando ao seu filho para que
a acompanhe, mas ele permanece em seu lugar.
Depois de pouco tempo, a mãe do segundo alemão morto chega perto dos
gregos, junto com seu filho. O quarto grego morto volta-se para ele e o
abraça. O alemão continua curvado, olhando para o chão.
O quinto grego morto volta-se para sua mãe, e eles se abraçam.
Figura 5
Nesse momento, a mãe do terceiro alemão morto o conduz lentamente para
frente. O primeiro alemão morto também dá um passo em frente.
O primeiro grego morto é empurrado por sua mãe para frente, para junto
do alemão. Ela se solta dele, e ele vai sozinho até junto do primeiro alemão
morto, que também caminha em sua direção. Ambos se olham nos olhos,
estendendo-se mutuamente as mãos.
Decorrido algum tempo, o primeiro grego morto dirige-se à mãe do
primeiro alemão morto. Ela vai até ele e eles se abraçam.
Figura 6

Nesse momento, o terceiro alemão morto caminha com sua mãe também até
os gregos. Ele e os cinco gregos mortos e suas mães dão-se as mãos,
colocam os braços uns nos ombros dos outros e se olham. Em seguida,
abraçam-se efusivamente.
A mãe do terceiro grego morto solta-se dele, dirigindo-se para fora do
grupo. A mãe do primeiro alemão morto vai até ela, ajoelha-se atrás e toca
suas mãos, que ela mantinha atrás das costas. Contudo, ela afasta as mãos
dela, sacudindo-se.
Então, todos caminham na direção uns dos outros, olhando-se nos olhos. Só
a mãe do terceiro grego morto é que fica de fora.
Figura 7

H ELLINGER para os representantes Vou parar aqui, mas fiquem assim como
estão.
para o grupo Imaginem: o que acontece nas almas daqueles que
conseguiram fazer esse movimento? E o que significa para os mortos terem
conseguido esse movimento? Nós pudemos ver aqui como isso é difícil e o
tempo que requer.
Olhem agora para aquela mulher que se retirou do grupo. Ela está mostrando
o que ocorre no coração de muitos dos descendentes ou das mães das
vítimas. Elas se negam à reconciliação.
Agora imaginem: o que se passa em sua alma? O que se passa na alma dos
seus filhos? Podemos ver aqui como a maldade e agressividade se propagam.
Retorno aqui à questão da consciência. Cada uma dessas vítimas talvez
tenha sido também um agressor, era um agressor em seu coração, desejando
a morte do outro. Cada um deles o foi com a consciência tranquila, a serviço
do seu grupo. Aqui, nos movimentos da alma, os indivíduos ultrapassam os
limites das suas consciências, dando aos outros, donos de uma outra
consciência, um lugar em seu coração, tornando-se verdadeiramente
humanos.
Vocês puderam presenciar como a alma, em suas profundezas, se movimenta
em direção à reconciliação. Aqui não foram dados comandos aos
representantes. Esses movimentos surgiram de uma camada mais profunda
da alma, maior e mais abrangente do que a consciência. Aqui, diante da
alma, todos os seres humanos são iguais. Onde esses movimentos puderam
se mostrar, algo que antes era impossível, tornou-se possível. O passado
pode ser considerado acabado e isso significa paz. Então, todos são livres
para seguirem em frente, e os mortos do passado oferecem-lhes suporte e
força, permanecendo atrás deles.1

CONSIDERAÇÕES POSTERIORES
D IMITRIS S TAVROPOULOS Há algumas semanas atrás, estive em Kalavryta
visitando o monumento pelas vítimas, erguido no local da execução da
população masculina. Sob uma cruz de pedra, em imensos murais de granito,
encontram-se gravados os nomes dos executados, (cerca de 1.100 pessoas);
os das crianças entre 14 e 18 anos foram gravados em um outro mural à
parte.
Em um outro mural encontram-se os nomes dos sobreviventes (cerca de 30
pessoas). Eles sobreviveram até ao tiro de misericórdia. De início, estranhei
que seus nomes se encontrassem ao lado do nome dos mortos, pensando que
isso pudesse ser uma carga para eles. Depois, pensei que, de uma estranha e
rara maneira, essas pessoas sabem que estão unidas àqueles mortos. Isso me
trouxe paz interior.
Acima desse local e na igreja ali erguida está escrito em grandes letras:
“Nunca mais deve haver guerra, paz para todos os seres”. Todo o conjunto
foi concebido como um monumento em prol da paz.

CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS

Perdoar e Esquecer
O perdão que reunifica é oculto e silencioso. Ele não é expresso em
palavras, mas sim exercitado. No fundo, nada mais é do que tolerância. O
perdão
desconsidera um erro, uma injustiça, uma culpa, esquecendo-os. Dessa
maneira, o erro, a injustiça e a culpa não trazem consequências nefastas para
o relacionamento, muito pelo contrário. Através da silenciosa tolerância, o
relacionamento torna-se mais profundo. Cresce a confiança mútua,
principalmente da parte daquele que experimentou a tolerância. Isso permite
que ele também desconsidere erros, injustiças e culpas de outros, quando
chegar a sua vez.
É bem diferente quando alguém diz a uma pessoa: “Eu te perdoo.” Dizendo
tais palavras, declara o outro culpado, colocando-se acima dele,
humilhando-o. Esse perdão expresso em palavras anula a igualdade entre as
pessoas, colocando em perigo a relação, ao invés de salvá-la.
O que fazer, se o outro nos pede perdão? Quando esse pedido vem da dor

1 Esta conferência e a constelação estão documentadas no vídeo: Bert Hellinger: Como a reconciliação obtém êxito. Alemão
/Grego.
de nos ter ferido ou entristecido, esse pedido facilita o esquecimento do erro,
da injustiça ou da culpa, mais ainda se nós também nos tivermos tornado
devedores dessa pessoa, à nossa maneira. Então, talvez possamos nos
permitir a ambos um novo começo, sem voltar ao que passou. Esta é uma
maneira muito humana de perdão, onde ambos permanecem igualados e, ao
mesmo tempo, humildes.
Existem situações nas quais a tolerância mesma se proíbe, porque a culpa
é tão grande que só pode ser reconhecida pelo culpado e sofrida pela vítima.
Um caso extremo desse tipo de culpa é o assassinato, pois não há
possibilidade de reparação. Nesse caso, o culpado tem que assumir sua culpa
e suas consequências, sem esperar por perdão. As vítimas não devem ter a
arrogância de perdoá-lo, como se isso lhes fosse permitido ou como se
pudessem fazê-lo.
O que acontece na alma de tal culpado, se pedir ou esperar pelo perdão de
tal culpa? Perde de vista as vítimas a quem ele causou um mal de maneira
irreparável, não podendo mais sentir luto por elas. Ao invés disso, procura
fugir das consequências da sua culpa, colocando esse fardo e a
responsabilidade por ele no ombro de outros. Talvez fique até bravo, como
se lhe devessem o perdão. Com isso, perde sua dignidade e sua grandeza, e
quem o perdoa tira-lhe essa dignidade e grandeza, tirando-lhe
principalmente a força que lhe fluiria através do reconhecimento da sua
culpa e das suas consequências. Aquele que conseguir extrair dessa força
algo de especial para si mesmo, beneficiando outros seres humanos,
reconquista sua dignidade e, de certa maneira, seu lugar certo entre outros
seres humanos.
O que acontece na alma daqueles que concedem o perdão a tal culpado?
Eles também perdem de vista as vítimas, não podendo mais sentir luto por
elas ou sofrer juntamente com elas. O mais importante é que se colocam
acima dos culpados, tornando-os miseráveis e pequenos, chegam até a irritar
o culpado, porque não o levam a sério e nem ao seu ato. Então, esse perdão
alimenta o mal e lhe dá forças, ao invés de colocar-lhe um fim.
Mas o mais importante é que, com tal perdão, uma pessoa tem a arrogância
de ser superior a um poder maior ao qual, tanto agressores quanto vítimas,
estão entregues e ao qual está a serviço cada um, à sua maneira. Quem quer
perdoar, nesses casos, recusa-se a honrar esse poder maior, colocando-se em
pé de igualdade com ele, talvez até acima.
Quando ambos, agressores e vítimas, reconhecem a impossibilidade de
escaparem às consequências desse ato, porque ambos atingem limites
intransponíveis para eles, têm que reconhecer sua impotência, curvando-se
ao seu destino. Isso irá uni-los de uma maneira profunda e humana,
aplainando-lhes o caminho para a reconciliação, diante desse destino.
Como comportar-se de modo humano frente a agressores e vítimas? A
resposta humilde a essa pergunta é a misericórdia. Ela é um movimento e
comportamento do coração, de ser humano para com ser humano, mas
também do ser humano para com os animais, para com toda criatura. Temos
esse sentimento diante do sofrimento e da culpa sem saída, quando
procuramos aliviá-las através da ferramenta da misericórdia, mesmo
sabendo que esse sofrimento e essa culpa no mais profundo permanecem
indeléveis.
Como podemos nos tornar misericordiosos? Quando tomamos consciência
da nossa necessidade da misericórdia e tolerância alheias em relação a nós
mesmos, diante da própria miséria, da própria culpa, da própria situação sem
saída. Por isso os misericordiosos dividem com os culpados e com os
sofredores a sua impotência, mas não se orientam por meio dessa impotência
e também não perdoam: permanecem humildes e embaixo. Essa misericórdia
é silenciosa.
Com isso, acabei dizendo também algo sobre o amor que reconcilia. Trata -
se de um amor especial, além daquele amor que ainda quer alguma coisa.
Amor, aqui nesse contexto, significa: reconhecer que, diante de algo maior,
todos são iguais a mim. Humildade significa a mesma coisa. Perdoar e
esquecer, também.

ARMÊNIOS E TURCOS — CRISTIANISMO E ISLAMISMO

Considerações preliminares
Em setembro de 2002, durante um curso em Istambul, trabalhei com uma
cliente que parecia estar confusa. Ficou claro que ela estava sendo
conduzida tanto pela energia de agressores quanto pela de vítimas, e que
ela não conseguia conciliar essas duas energias dentro dela. Por isso,
empreendi, em caráter experimental, uma constelação com uma
representante para um agressor e uma representante para uma vítima em
sua família, para verse tal suposição se confirmava.
No decorrer dessa constelação, surgiram evidências de que era necessário
acrescentar alguns armênios como vítimas. A representante dos agressores
sentia uma forte agressão por eles, querendo até acertá-los na barriga, mas
deitou-se ao seu lado. Pedi à cliente que também se deitasse ao lado deles,
mas todos, os agressores, a cliente e as vítimas, evitavam o contato en tre
si.
O EMARANHAMENTO
H ELLINGER após concluir essa constelação Não sabemos o que aconteceu
de fato nessa família, mas pudemos ver os efeitos posteriores no presente: a
energia assassina.
Vou contar-lhes um exemplo, para que vocês tenham uma ideia do que pode
ocorrer. Há algumas semanas atrás, estava ministrando um curso para casais
em Washington. Uma mulher compareceu ao curso sem o seu marido, queria
trabalhar sozinha. Perguntei a ela: “Você merece seu marido e ele a merece?
Você respeita seu marido?” Aí, então, ela sorriu. Podia-se ver que ela não o
respeitava. Eu disse a ela: “Não é de admirar que ele não tenha querido vir,
se você não o respeita.”
Escolhi então um homem para representar seu marido, colocando-o em
frente a ela. O homem começou a gaguejar de medo. Perguntei a ela: “Já
pensou em matá-lo?” Ela disse: “Sim.” Sua filha de 17 anos também estava
presente, mas eu não sabia disso. Mais tarde, fiquei sabendo que sua filha já
havia cometido uma tentativa de suicídio.
Então, procedi como de costume. Posicionei suas três filhas diante do pai e
pedi que ela dissesse às filhas: “Entrego vocês ao seu pai e me recolho
agora.”
Depois disso, disse à mulher que, quando alguém tem tal impulso assassino
como ela, é porque deve ter acontecido algo de especial na família de
origem, mas ela não conseguia se lembrar de nada. Depois de uma hora,
procurou-me novamente e disse que havia lhe ocorrido algo. O pai dela era
um alto oficial militar e era responsável pela proteção das instalações onde
havia sido construída a primeira bomba atômica, tendo também se envolvido
mais tarde com o Vietnã. Como que por acaso, ela deixou escapar também
um comentário — pois eu nada sabia dela: “Eu me pergunto por que me
casei com um japonês.”
Então constelei: o pai dela, ela, um pouco à frente dele e, em frente a eles,
as vítimas vietnamitas. Ela e o pai viraram-lhes as costas.
Constelei então a bomba atômica. A mulher posicionou-se ao lado da bomba
atômica, sentindo-se muito bem ali. Estava identificada com a bomba
atômica. Naquele casamento, prosseguia a guerra entre os Estados Unidos e
o Japão, na forma de guerra conjugal. Ela tinha perante o marido a energia
da bomba atômica.
Encontramos uma bela solução, depois de algum tempo, e ela ficou muito
aliviada.
Trata-se aqui de um exemplo de como alguém pode estar exposto a energias
que nada têm a ver com a própria pessoa e como, frequentemente, estamos
entregues a destinos alheios.

O QUE UNE NOVAMENTE OS SEPARADOS

Considerações preliminares
Algum tempo depois, a cliente contou que talvez um antepassado estivesse
envolvido no massacre feito aos armênios, e que um tio dela aprovava tal
ato até hoje.
H ELLINGER Gostaria de retomar o tema anterior mais uma vez e fazer uma
constelação bem ousada. É importante que os representantes por mi m
escolhidos prestem atenção, com exatidão, aos seus sentimentos e só
cheguem até o ponto onde o sentimento seja nítido, prestem atenção aos
movimentos da alma. Quem entrar em contato com ela, não olha em volta,
também não cruza as mãos, não olha nem para mim nem para outra pessoa.
Está centrado em si mesmo. Só então a realidade se mostra.
Hellinger escolhe cinco representantes para os armênios assassinados e
então cinco representantes para os turcos, entre eles também a cliente ,
colocando ambos os grupos de frente um para o outro.
Figura 1

Al Primeiro armênio assassinado


T1 Primeiro turco etc.
Decorrido algum tempo, Hellinger escolhe um representante para o
Cristianismo e coloca-o atrás dos armênios, escolhe um representante
para o Islamismo, coloca-o atrás dos turcos.
Figura 2
C Cristianismo
I Islamismo
O terceiro armênio assassinado cai no chão e deita-se sobre o seu lado
esquerdo. Após um curto espaço de tempo, o quarto armênio assassinado
dá um passo em frente e, em seguida, dá mais um. O quinto turco põe a mão
esquerda sobre a barriga.
O quarto armênio assassinado aproxima-se mais dos turcos. O primeiro
armênio assassinado, uma mulher, cruza primeiramente os braços diante
do peito, ajoelha-se em seguida, sentando-se sobre os calcanhares. O
segundo armênio assassinado, também uma mulher, respira profundamente
e cambaleia. A cliente, a primeira dos turcos, deu um passo em frente. Leva
a mão ao pescoço, respira profundamente e olha para o chão. O segundo
turco, uma mulher, também deu um passo em frente.
Nesse meio tempo, a primeira mulher armênia assassinada tinha se
levantado do chão. Agora, o quinto turco dá mais um passo em frente.
Então, a segunda mulher armênia assassinada movimenta-se, cambaleando
em direção à primeira turca, à cliente, estendendo-lhe os braços,
desamparada e como que sentindo muito medo.
Figura 3

Após curto espaço de tempo, a segunda armênia assassinada ousa tocar a


primeira turca e deitar sua cabeça no ombro dela. Ela a abraça, mas essa
turca hesita, deixando primeiramente os braços caídos, colocando-os em
seguida ao redor da mulher armênia, que cobre o rosto, soluçando.
A segunda turca vai até ao terceiro armênio assassinado, deitado no chão,
olha para ele estendido, colocando-se então ao lado da primeira mulher
armênia, que se deita outra vez no chão, colocando as mãos sobre o rosto.
Então, o quarto turco vai até ao quarto armênio e ambos se abraçam.
Figura 4

A segunda turca coloca-se do lado esquerdo da primeira armênia, que


segura sua mão e se levanta. Então, ambas se amparam.
O quinto turco afasta-se novamente. O quarto turco e o quarto armênio
desfazem seu abraço e dirigem-se para o quinto turco. O quarto turco faz
um gesto convidativo. O quinto turco afasta-se ainda mais, mantendo a mão
sobre a barriga.
Figura 5

O quarto turco aproxima-se com o quarto armênio do quinto armênio, que


não havia feito nenhum movimento até aquele momento, e abraça-o. Ele, o
quarto turco faz um movimento com a mão, convidando-o (o quinto
armênio) a aproximar-se dos turcos, mas ele ainda hesita.
Nesse ínterim, a primeira armênia e a segunda turca tinham se aproximado
da primeira turca e da segunda armênia, que ainda estavam abraçadas,
ficando então ao lado delas.
Nesse meio tempo, o representante do Islamismo havia-se sentado no chão,
ao lado do terceiro turco. Durante todo esse tempo, o terceiro turco havia
mantido os braços cruzados diante do peito e quase não havia feito
movimento algum.
Figura 6

Nesse momento, Hellinger escolhe um representante para o filho do quinto


turco e coloca-o ao lado do seu pai.
Figura 7

F Filho do quinto turco


O quinto turco está bastante agitado, sacode as mãos diante do rosto.
Ambos, ele e seu filho, soluçam violentamente. O filho ampara e consola o
pai. Então ambos se abaixam e se ajoelham. O quarto turco aproxima-se
deles e os abraça. Mais tarde, o quinto turco deita-se também no chão.
O quarto turco convida, com um gesto, o quinto e o quarto armênios, que
se aproximam e se ajoelham diante deles.
Figura 8
Então, o representante do Cristianismo aproxima-se do representante do
Islamismo e se ajoelha diante dele. O terceiro turco também se ajoelha junto
aos outros homens.
A segunda armênia aproxima-se, junto com a primeira turca, do terceiro
armênio, que está deitado no chão. Ambas choram.
Figura 9

A segunda turca aproxima-se agora do terceiro armênio, ajoelha-se ao seu


lado, virando-o de costas. Então, o Cristianismo segura a mão do Islamismo
e o leva até esse morto. O Islamismo continua de cabeça baixa.
A segunda armênia e a primeira turca abraçam-se novamente, mas se
afastam do armênio deitado no chão.
O Cristianismo e o Islamismo ajoelham-se junto ao morto, ambos o tocam,
o Islamismo envolve o Cristianismo com um braço. A segunda turca também
toca no morto. O Cristianismo acaricia suavemente a cabeça do armênio
morto, deitado no chão. A primeira armênia ajoelha-se junto a eles.
Figura 10
H ELLINGER Agora, vou deixar como está.
para os representantes Agradeço a todos vocês.
para o grupo Nada deve ser acrescentado a isso, mas gostaria de dizer
algumas palavras a respeito.

O INDIVÍDUO E O SEU GRUPO


Enquanto estivermos vinculados a uma coletividade, por exemplo, os
armênios de um lado, os turcos, de outro, ou cristãos e muçulmanos, nós os
enxergaremos como membros do outro grupo e não como indivíduos. Então,
uma coletividade fica frente à outra, ficando ambas cegas para com o
indivíduo. Estarão presos na alma grupai. Quando conseguimos enxergar o
indivíduo, o encontro de um ser humano com o outro se torna possível, o
que ficou claro aqui. Só então se pode olhar para as vítimas e por elas se
condoer, não há mais armênios e turcos, nem cristãos ou muçulmanos:
existem apenas seres humanos.

A LIBERTAÇÃO
H ELLINGER para a cliente Ainda existe alguma coisa não solucionada. Não
foi solucionada em você. Vou fazer mais uma coisa, algo bem simples.
Hellinger faz com que as representantes da segunda armênia e da segunda
turca se posicionem lado a lado.
H ELLINGER para a primeira representante Você representa agora os
armênios, os cristãos e as vítimas.
para a segunda representante Você representa os turcos, os muçulmanos e
os agressores.
Figura 11
†A2 Armênios, cristãos, vítimas
T2 Turcos, muçulmanos, agressores
H ELLINGER para as representantes Agora, olhem-se bem nos olhos.
A representante dos armênios começa a chorar, olha para o chão, depois
brevemente para a representante dos turcos, desviando novamente o olhar.
A representante dos turcos olha constantemente para a armênia, não desvia
o olhar. A representante da armênia luta durante muito tempo consigo
mesma. Coloca-se em frente à turca, mas ainda sem olhar diretamente para
ela.
H ELLINGER para o grupo Onde está a agressão aqui? Está na vítima. Ela se
recusa à reconciliação
Após curto espaço de tempo, a armênia fica mais tranquila. Hellinger leva -
a suavemente para diante da turca.
Figura 12

Decorrido pouco tempo, a armênia sorri para a turca, mas recomeça a


chorar e a fechar os olhos. Então elas encostam as frontes uma na outra. A
armênia continua chorando.
H ELLINGER Este choro é uma forma de agressão.
Agora as duas se dão as mãos e olham-se nos olhos. Elas sorriem uma para
a outra e se posicionam lado a lado. Ficam de mãos dadas.
Hellinger então leva a cliente até essas duas representantes e faz com que
ela apoie as costas em ambas. Cada uma das representantes coloca uma
mão no ombro da cliente.
Figura 13

Cl Cliente (anteriormente a primeira turca)


H ELLINGER para a cliente Feche os olhos. Deixe agora a energia dos
agressores e a energia das vítimas fluírem juntas para a sua alma, até que
elas se tornem uma unidade.
A cliente respira fundo e segura o pescoço com as mãos. Coloca -as então
no estômago e expira alto. Depois de pouco tempo ela se acalma, pega as
mãos das duas sobre os seus ombros e segura-as com firmeza.
H ELLINGER Respire fundo. Deixe ambas fluírem conjuntamente dentro de
você.
A cliente respira fundo e ri.
H ELLINGER Pode rir tranquilamente. Isto é libertação. Continue a respirar
fundo.
H ELLINGER depois de uns instantes Agora vire-se e tome as duas nos braços.
Figura 14

As três se abraçam intimamente. Então se dão as mãos e sorriem umas para


as outras.
H ELLINGER para a cliente Agora você não precisa mais ter medo de ficar
esquizofrênica.
Hellinger a pega breve nos braços, então a solta.
H ELLINGER para a cliente E agora? Esqueça!

MEDITAÇÃO: AS VÍTIMAS DOS CRISTÃOS — AS VÍTIMAS DOS


MUÇULMANOS
H ELLINGER para o grupo Fechem os olhos. Deixem de lado seus objetos.
Vou fazer uma meditação com vocês agora. Concentrem-se em seu centro e
venham comigo ao reino dos mortos.
Nós olhamos para as vítimas, para as vítimas dos cristãos como aqui em
Constantinopla e, mais tarde, em Jerusalém, durante as Cruzadas, e para as
vítimas dos turcos e dos muçulmanos, por exemplo, olhamos para os
armênios e os gregos. No reino dos mortos todos jazem juntos, as vítimas
de um grupo e as vítimas do outro grupo.
Ao lado delas jazem agressores de um lado e agressores de outro. Não se
pode mais diferenciá-los das vítimas. Todos estão mortos.
Imaginemos que todos eles se levantem, um exército gigantesco, e que se
voltem para o horizonte. Lá, ainda meio oculta, resplandece uma luz. Todos
eles juntos se curvam diante dessa luz longínqua e oculta, e nós nos
curvamos junto com eles.
Então nos retiramos lentamente, deixando-os nessa profunda reverência.
Talvez eles se deitem no chão, estendendo-se em direção a essa luz, e assim
permaneçam. Enquanto nos retiramos e ainda os vemos a distância, eles se
dissolvem em algo maior, além do humano — em algo eternamente
inesquecível.
Voltamos ao nosso centro, abrimos os olhos para a luz, deixamos os mortos
para trás e olhamos para a vida.2
Extraído de um curso ministrado em Atenas, em setembro de 2002
GREGOS E TURCOS 3
Nos últimos anos, uma coisa ficou clara para mim. Se em uma família
houver assassinos, responsáveis pela morte de outros ou que, de modo
velado, tiverem aprovado ou concordado com a morte de outros, eles
pertencem às vítimas. Precisamos deixá-los partir para se juntar às vítimas.
Se eles não o fizerem, um dos filhos fará isso por eles, mais tarde.
Inversamente, havendo vítimas em uma família, seus agressores fazem parte
do sistema. Quando, portanto, os descendentes das vítimas se elevam acima
dos agressores, censurando-os, combatendo-os, um outro membro se torna
agressor, apresentando energia de agressor. Em muitas famílias de judeus
encontra-se um descendente com energia de agressor e, naturalmente,
encontra-se algo semelhante também em outros contextos. Portanto, os
agressores devem ser integrados ao sistema. Só assim a paz poderá reinar.
Se uma família tiver agressores e vítimas, há alguém que se identifica com
ambos simultaneamente. Essa pessoa torna-se frequentemente
esquizofrênica. Só quando vítimas e agressores forem aceitos na família e
lhes for permitido se reencontrarem é que cessa a identificação com um ou
o outro, trazendo a cura da esquizofrenia.
Passo a apresentar um exemplo extraído da Grécia. A ira que muitos gregos
têm pelos turcos é a mesma que os agressores turcos tinham pelos gregos,
quando os expulsaram. É a mesma ira. A raiva pelos turcos torna os gregos
idênticos aos turcos da época.

A RÚSSIA E A ALEMANHA
Considerações preliminares
Uma russa de ascendência alemã, havendo emigrado para a Alemanha, não
sabia se pertencia à Alemanha ou à Rússia. A constelação que se segue,
realizada durante o Congresso Internacional de Constelações Sistêmicas

2Esta constelação está documentada no vídeo: Bert Hellinger: A paz. O que une novamente os separados. Alemão/turco.
3Extraído de um curso ministrado em Atenas, em setembro de 2002.
em Würzburg, em maio de 2001, traz à luz o fato de ela se sentir mais como
pertencente à Rússia. Ao mesmo tempo, essa constelação mostra também
que tipos de conflitos pode acarretar, quando um país anfitrião não é
respeitado.
Como tema propriamente dito da constelação, evidencia-se o quanto de
respeito e arrependimento deve haver de antemão da parte dos alemães,
para que ocorra a reconciliação entre russos e alemães.

A DOR
HELLINGER para a cliente O que há com você?
CLIENTE Gostaria de resolver um conflito, que há muito tempo me
atormenta. Sou russa-alemã, nascida no Cazaquistão e estou na Alemanha
há nove anos. O conflito é o seguinte: no Cazaquistão, na minha pátria, onde
nasci, estava muito claro que eu era alemã e era tratada como tal. Agora que
estou aqui, isso não está mais tão claro para mim.
HELLINGER O seu pai é de ascendência alemã?
CLIENTE Sim.
HELLINGER E sua mãe?
CLIENTE Também.
HELLINGER E seus avós?
CLIENTE Também são de ascendência alemã, de ambos os lados. Queria
dizer ainda que minha família foi muito perseguida. Meu avô por par te de
pai morreu em um campo de trabalhos forçados para alemães na Rússia. Os
pais da minha mãe só retomaram ao lar após cinco anos de trabalhos em tais
campos, separados. Durante todo esse tempo, não tiveram notícias um do
outro. Nessa época, minha mãe tinha três anos.
HELLINGER Acho que é o suficiente para trabalharmos.
para a cliente Vou começar com os seus avós.
A cliente escolhe representantes para seus avós, e Hellinger os coloca como
casais, um ao lado do outro.
Figura 1
†PP Pai do pai, falecido em um campo de trabalhos forçados
MP Mãe do pai
PM Pai da mãe
MM Mãe da mãe
HELLINGER para a cliente Agora vamos colocar também alguém para a
Rússia.
depois que a cliente escolheu uma mulher como representante da Rússia
Esta é a Mãe Rússia.
Hellinger posiciona a representante da Rússia em frente aos avós.
Figura 2

R Rússia
A Rússia e os avós permanecem por muito tempo um em frente ao outro,
olhando-se. O pai do pai abraça a mulher com um dos braços. Ela encosta
a cabeça nele. Então, Hellinger escolhe três representantes para soldados
alemães, acrescentando-os à constelação.
Figura 3
SA1 Primeiro soldado alemão
SA2 Segundo soldado alemão
SA3 Terceiro soldado alemão
Os pais do pai abraçam-se com força. A Rússia olha para os soldados
alemães e começa a tremer. Os pais do pai também olham, como que
paralisados, para os soldados alemães. Decorrido algum tempo, desfazem
o abraço. A Rússia curva-se para a frente, olhando para o chão e depois
para os soldados alemães de novo. Em seguida, a representante da Rússia
dobra-se sobre os joelhos, senta-se sobre os calcanhares, olha novamente
para os soldados alemães e começa a soluçar violentamente. Curva -se,
enquanto continua a olhar para os soldados alemães.
A mãe da mãe caminha lentamente em direção à Rússia. Quando está
próxima a ela, a Rússia cai de lado no chão, continuando com o olhar
dirigido aos soldados alemães.
Figura 4

A mãe da mãe para, olha para os soldados alemães e, vagarosamente, volta


ao seu lugar.
A Rússia estende a mão para o terceiro soldado alemão, que continua
olhando para o chão. A representante arrasta-se para mais perto dele,
ergue-se parcialmente e olha-o. O soldado curva-se lentamente, dobrando
as pernas e se ajoelha. Quando ameaça cair, a Rússia envolve -o com um
braço, sustentando-o. Ele reclina a cabeça sobre o peito dela.
Figura 5
A Rússia olha para os outros soldados alemães. O segundo soldado alemão
também vai até ela, fica atrás, coloca uma de suas mãos sobre sua cabeça
e a outra sobre o próprio coração.
O terceiro soldado alemão afunda lentamente no chão. A Rússia continua
voltada em sua direção.
Figura 6

O segundo soldado alemão respira fundo, como se não estivesse suportando


a dor. Desvia-se dali, afastando-se e dirigindo-se o mais possível para a
margem do palco, como se dali quisesse fugir.
Figura 7

O primeiro soldado alemão aproxima-se também, colocando-se entre a


Rússia e os avós da cliente, com as costas no chão. A Rússia aproxima -se
dele, mas olhando para o segundo soldado alemão, que havia tentado se
afastar.
Hellinger vai até ele, toma-o pela mão e leva-o até diante da Rússia.
Figura 8
O segundo soldado alemão vai para diante da Rússia, arrastando -se de
joelhos, e senta-se sobre os calcanhares. A Rússia, também de joelhos,
escorrega para mais próximo dele. O terceiro soldado alemão soergue-se e
senta-se ao lado do segundo soldado alemão. Ele quer estender uma das
mãos para a Rússia, mas não ousa e recolhe-se novamente. Ambos os
soldados alemães curvam-se profundamente diante da Rússia, até ao chão,
e o segundo soldado alemão continua mantendo um dos braços ao redor do
terceiro.
A representante da Rússia levanta-se e olha para os avós, que curvam a
cabeça diante dela, principalmente o pai da mãe, que se curva todo. Então
a Rússia se volta novamente para os dois soldados ajoelhados diante dela.
Figura 9

Hellinger coloca a cliente dentro da constelação, em frente à Rússia.


Figura 10
Cl Cliente
HELLINGER para a cliente Olhe para a Rússia, olhe. Diga-lhe: “Agora sou
uma russa.”
CLIENTE sacudindo a cabeça Não consigo fazer isso.
HELLINGER Tente, não tem tanta importância assim.
Ela reluta muito, então diz, muito comovida:
CLIENTE Agora sou uma russa.
HELLINGER para o pai da cliente Como você se sentiu, quando ela disse
essas palavras?
PAI DO PAI† Minha alma se expandiu.
HELLINGER para a mãe do pai da cliente E você?
MÃE DO PAI Também me senti mais leve.
PAI DO PAI† E orgulhoso.
MÃE DO PAI Posso deixá-la ir agora, com muito prazer. Senão, é violência
demais.
PAI DO PAI† Liberado.
HELLINGER para o pai da mãe E com você?
PAI DA MÃE Não temos o direito de estar lá.
MÃE DA MAE Acabei de pensar: “Tomara que ela consiga dizer as
palavras.” Para mim, isso é muito comovente. Lá é meu lugar.
A Rússia coloca-se então de frente para a cliente, caminhando
vagarosamente, passo a passo, em sua direção. Esta última ainda se fecha,
cruzando as mãos em frente ao ventre. Quer dirigir-se para fora dali, coloca
uma das mãos sobre a boca e olha para o chão. Dobrando os joelhos, curva-
se profundamente.
Figura 11

A Rússia inclina-se lentamente, em direção à cliente, passa as mãos nas


suas costas, tomando-a em seguida nos braços. A cliente soluça alto.
HELLINGER após algum tempo Como você está agora?
CLIENTE Estou completamente irritada. Ela me dá consolo, mas não está
certo.
HELLINGER Vou interromper aqui.
para o grupo Algo importante expressou-se aqui. Minorias têm que se
submeter ao país que as acolheu e seguir as regras. Todo o resto atua de
maneira negativa. Aqui a humildade é que cura. Ok, isso é tudo. 4

CONFERÊNCIA EM MOSCOU

Considerações preliminares
Em setembro de 2001, na véspera de um curso sobre Constelações
Familiares, fui convidado a dar uma palestra no Instituto de Psicologia da
Universidade de Moscou, para a qual vieram estudantes e professores e
também muitos outros convidados. A afluência foi tamanha que muitos
tiveram que se sentar no chão e outros que permanecer em pé.

O QUE SEPARA E O QUE RECONCILIA


HELLINGER Sinto-me muito honrado em poder dirigir a palavra a todos os
presentes, neste Instituto tão conhecido e devo dizer que aceitei o convite
com muito prazer. Refleti sobre o que deveria falar em primeiro lugar e
pensei que o melhor seria discorrer sobre o que separa e o que reconcilia, o
que reconcilia aquilo que se considera oposto.

PSICOTERAPIA CIENTÍFICA E FENOMENOLÓGICA


Primeiramente, gostaria de dizer alguma coisa sobre a Psicoterapia
Científica e a Psicoterapia Fenomenológica. A Psicoterapia Científica tem
muitos representantes, por exemplo, a Terapia Comportamental é uma
Psicoterapia Científica. Pawlov foi um dos pioneiros da Terapia
comportamental. Em São Petersburgo, foi-me permitido discursar no
Instituto onde ele lecionou.
O que significa, porém, Psicoterapia Científica? Ela acredita que a alma
possa ser tratada como outros fenômenos da natureza, que se pode, portanto,
descobrir como as pessoas reagem e influenciá-las em suas reações. Por isso
é que na Psicoterapia Científica o terapeuta ou o psicólogo se torna ativo,

4 Esta constelação está documentada no vídeo: “Bert Hellinger: Movimentos em direção à paz. Movements
Towards Peace. Alemão/Inglês.
para ajudar as pessoas a se modificarem, por meio de metodologias
científicas. Imagina-se poder repetir o tratamento de maneira semelhante ou
até da mesma maneira.
A Psicoterapia Fenomenológica opõe-se a esta abordagem, em muitos
aspectos. O que significa fenomenológica aqui? Significa que o terapeuta se
expõe a uma multiplicidade de fenômenos, sem diferenciá-los. Ele se expõe
sem nenhuma intenção, por exemplo, sem a intenção de curar. Aguarda até
que o essencial lhe seja mostrado, a partir dos fenômenos. Também não teme
o que se mostra.
Vou dar um exemplo. De vez em quando, um cliente procura um terapeuta
e fica evidente que ele não vai mais viver muito tempo. Então alguns
terapeutas têm medo de lhe dizer isso.
Um homem veio a um curso e me disse que tinha câncer. Podia-se ver que
não viveria mais por muito tempo. Perguntei-lhe o que queria de mim, e ele
me disse que ainda gostaria de esclarecer algo interiormente com sua mãe,
algo que lhe havia causado dor na infância. Eu disse a ele: “Para que isso
agora? Você não vai viver mais muito tempo.” Pedi-lhe então que fechasse
os olhos — ele estava sentado ao meu lado — e lhe disse: “Imagine que a
morte esteja agora bem à sua frente e curve -se levemente diante dela,
fazendo-lhe uma reverência.” Podia-se ver que ele lutava consigo mesmo
interiormente. Então as lágrimas correram-lhe pelas faces, e ele se curvou
ligeiramente. Deixei-o entregue aos movimentos da sua própria alma, sem
fazer nenhuma interferência. Decorridos mais ou menos dez minutos, ele
abriu os olhos. Perguntei: “Como você está agora?” Ele disse: “Estou mais
calmo.”
Isto é Terapia Fenomenológica. Não interfiro de fora. Permito à sua alma
expor-se à realidade assim como ela é. É a realidade que atua, quando ela
surge e é olhada.

“SOU UMA RUSSA”


No método fenomenológico, nós nos expomos à situação, tal como ela é,
sem julgamentos prévios e sem nos apoiarmos em uma determinada teoria.
O essencial reluz a partir da própria situação. Às vezes é só uma palavra, e
essa palavra modifica tudo.
Vou dar um exemplo que é adequado a esta situação aqui. Há alguns meses,
demonstrei durante um dia inteiro a constelação de sistemas e a constelação
familiar, no Congresso Internacional de Würzburg. Uma cliente disse ser do
Cazaquistão e que já morava na Alemanha há mais tempo. Perguntei-lhe
então: “O que aconteceu na sua família de origem?” Ela disse que seus
antepassados eram da Alemanha, mas que haviam emigrado para a Rússia.
Um dos dois avôs havia falecido em um campo de trabalhos forçados, e os
outros avós também haviam padecido muito.
Primeiro, Constelei seus avós, colocando diante deles uma representante da
Rússia. Depois, três representantes dos soldados alemães, ao lado da Rússia.
A representante da Rússia — era uma representante da Mãe Rússia — estava
muito comovida e cheia de dor. Um dos representantes dos soldados alemães
apresentava uma postura ereta e não se mexeu. Contudo, aos poucos, foi
tomado de grande dor e se curvou profundamente diante da representante da
Rússia, que o tomou nos braços.
Nesse momento, Coloquei a cliente entre eles, pedindo-lhe que dissesse uma
única frase. Era uma frase fenomenológica. Ninguém chegaria a tal frase
através do raciocínio. Fiz com que ela dissesse para a Rússia: “Eu sou uma
russa.” Primeiro a cliente se recusou, mas então disse a frase: “Sou uma
russa.” Nesse mesmo instante, seus avós sentiram-se melhor.
Por que esta frase era importante? Muitos alemães, emigrados há muito
tempo para a Rússia, haviam-se recusado a reconhecer a Rússia que os havia
acolhido, como nova pátria e a agradecer por tudo que dela haviam recebido.
Quando aquela senhora disse a frase: “Sou uma russa”, algo mudou em sua
alma. Hoje de manhã a terapeuta desta cliente me procurou — ela está aqui,
porque quer frequentar o meu seminário — e me contou qual o efeito
causado por essa frase na vida dessa cliente. Ela era violinista, tocava desde
os cinco anos de idade, tendo tido formação de solista. Contudo, desde sua
ida para a Alemanha, não conseguia mais tocar violino. Algumas semanas
após a constelação, começou a tocar novamente, tendo recuperado
rapidamente o tempo perdido, a ponto de ser aprovada em todas as provas,
conseguindo o diploma. A alma russa havia retornado a ela.
Aplausos estrondosos por parte do público
Portanto, isto é psicoterapia fenomenológica. A frase acima não poderia vir
de qualquer teoria. Contudo, como me expus à situação, essa frase me
ocorreu, foi suficiente.
Há algum tempo, escrevi uma história, na qual comparo o caminho entre o
conhecimento científico e o fenomenológico. A história se chama:

DOIS TIPOS DE SABER


Um erudito perguntou a um sábio
como algo único se unem em um todo
e como o saber sobre as muitas partes
se diferencia do saber sobre a plenitude.
O sábio respondeu:
“O disperso se une em um todo,
quando encontra um centro
e atua concentrado.
Pois somente através de um centro, o muito torna-se
essencial e efetivo,
e sua plenitude se mostra a nós em simplicidade,
quase como pouco,
como força serena até o próximo ponto
que permanece embaixo
e próximo ao que o carrega.

Para vivenciar a plenitude


ou transmiti-la,
não preciso
saber,
dizer,
ter,
fazer
tudo em detalhe.

Quem quer chegar até a cidade,


Passa pela sua única porta.
Quem bate uma só vez num sino
faz repercutir com um único som também vários outros.
Quem colhe a maçã madura,
não precisa fundamentar sua origem.
Segura-a nas mãos e a consome.

O erudito objetou: quem quer a verdade


deveria saber também todos os detalhes.

Mas o sábio retrucou:


Só se sabe muito a respeito de velhas verdades.
A verdade, que nos impulsiona à frente,
é ousada
e nova.
Pois ela encobre seu fim
do mesmo modo que a semente oculta a árvore.
Portanto, quem hesita em agir,
porque quer saber mais
do que lhe permite o próximo passo,
perde, o que é eficaz.
Ele troca a moeda
pela mercadoria,
e transforma em lenha
as árvores.

O erudito era de opinião


que isso só poderia ser parte da resposta,
e pediu-lhe
um pouco mais.

Mas o sábio recusou,


Pois plenitude, no início, é como um barril cheio de mosto:
doce e turvo.
E precisa de fermentação e tempo suficiente
Até ficar claro.

Quem, então, ao invés, de só experimentar, beber,


Começa a cambalear embriagado.

Isso é tudo sobre a diferença entre Terapia Científica e Terapia


Fenomenológica.
A CONSCIÊNCIA
Ao longo de seis anos de trabalhos com Terapia Fenomenológica, descobri
como a consciência humana atua. Muito difundida é a opinião de muitos de
que quando alguém segue sua consciência, faz algo de bom. Muitos até
acham que a voz da consciência é a voz de Deus que nos diz o que devemos
fazer, mas vi que isso não é verdade.
Quando nos lembramos dos acontecimentos das últimas semanas, pode- se
ver que todas as pessoas que cometeram o atentado contra o World Trade
Center de Nova York seguiram sua consciência. Elas eram consci enciosas e
fiéis a seu grupo e daí terem achado justo levarem à morte, junto consigo,
muitas pessoas inocentes. Sua consciência justificou isso. Vocês também
podem observar no dia a dia o seguinte: quando alguém diz a uma pessoa
que vai seguir sua consciência, normalmente vai fazer à outra pessoa algo
que lhe causa dor. A consciência não nos diz o que é bom ou ruim, de um
modo geral. Só nos diz isso dentro de um determinado contexto, mas, qual
é o contexto?
Pode-se comparar a consciência com o sentido do equilíbrio. O sentido do
equilíbrio é instintivo. Com sua ajuda, podemos ficar sabendo de algo. Com
sua ajuda, podemos constatar imediatamente se vamos cair ou permanecer
de pé. Quando perdemos o equilíbrio, temos uma sensação desagradável,
comparável à sensação de consciência pesada. Essa sensação é tão
desagradável e tão carregada de medo que modificamos imediatamente
nosso comportamento, para recuperarmos o equilíbrio. Após recuperarmos
o equilíbrio, sentimo-nos bem. Essa sensação é comparável à consciência
tranquila. Portanto, o sentido do equilíbrio nos guia de modo semelhante à
consciência, por meio de sensações agradáveis e desagradáveis.
A consciência é nosso senso de equilíbrio social. Quando fazemos algo na
família que ameace a pertinência a ela, temos uma consciência pesada. Essa
sensação é tão desagradável que modificamos nosso comportamento, para
que possamos voltar a pertencer a ela. Quando temos segurança de fazer
parte, temos uma consciência tranquila.
Podemos observar tal comportamento também nos cães, para me basear
novamente em Pawlov. Um cão sabe que pode perder sua pertinência:
quando faz algo errado, coloca o rabo entre as pernas e sai de cena.
AS DIFERENTES CONSCIÊNCIAS
Qual é a função dessa consciência? Sua principal função é nos unir à nossa
família e, de modo semelhante, unir-nos também a outros grupos. Sempre
sabemos exatamente o que fazer dentro de um grupo, para pertencermos a
ele. Com a ajuda da consciência, podemos constatar se nos é permitido fazer
parte dele ou não. Por isso, a consciência varia de grupo para grupo Dentro
da família, temos uma consciência diferente da que temos na profissão, na
igreja ou no bar. Em cada um desses grupos sabemos o que temos de fazer
para sermos parte dele.
Vemos também que a consciência difere de pessoa para pessoa, porque todos
procedem de famílias diferentes. Por exemplo, em uma família cristã, seus
membros têm uma consciência diferente daquela dos membros de uma
família muçulmana. Nas diferentes camadas sociais, a consciência também
é diferente. No meio acadêmico, a consciência é diferente daquela do meio
dos trabalhadores. Se um trabalhador se comportasse frente a outro
trabalhador como se fosse um acadêmico, seria excluído. Se um acadêmico
se comportasse como um trabalhador frente a outro acadêmico, também
seria excluído. Portanto, a consciência é relativa.
O fato de a consciência nos unir a um grupo tem um duplo efeito. Como ela
nos une a um grupo, ela nos separa de outros grupos. Vou apresentar um
exemplo simples a esse respeito.

A PAZ NA FAMÍLIA
Um homem e uma mulher se apaixonam e, como se amam muito, casam-se.
Nisso, ambos têm que reconhecer uma coisa. O homem tem que reconhecer
que precisa da mulher, e a mulher tem que reconhecer que precisa do
homem. Ambos têm que reconhecer que a um falta aquilo que o outro tem,
e que podem dar algo ao outro, que é o que eles têm e falta no outro. Quando
reconhecem isso, realiza-se uma troca entre eles, mas só se o homem
respeita a mulher como sendo diferente dele — diferente em quase todos os
aspectos — e se a mulher reconhece que o homem é diferente dela —
diferente em quase todos os aspectos — e se eles, reconhecendo isso
reciprocamente, estão abertos para aquilo que o outro lhe dá e prontos a dar
ao outro o que lhe falta. Esta é a base de um bom relacionamento de casal.
Quando os homens conversam com outros homens, frequentemente
costumam falar como se fossem melhores que as mulheres. Observa-se o
mesmo também com elas: quando estão entre si e conversam, falam com
frequência como se fossem melhores do que os homens. Quando um desses
homens se aproxima da sua mulher ou uma dessas mulheres se aproxima do
seu marido, o que será do seu relacionamento de casal? Se o homem se
comporta como se não necessitasse da mulher e lhe fosse superior, e quando
a mulher se comporta como se não precisasse dele e lhe fosse superior, então
o amor entre eles Praticamente já terminou. Portanto, ambos precisam
reconhecer que o outro, apesar de diferente, é seu igual e tem o mesmo valor.
Isto é humilde, mas é a base para um bom relacionamento de casal.
Mais difícil fica, ainda, quando o homem olha para a família da mulher e a
mulher olha para a família do marido. Muito frequentemente o homem diz:
“Minha família é melhor” e a mulher diz: “Minha família é melhor.” Ambos
dizem isso com a consciência tranquila, pois estão unidos às respectivas
famílias através da consciência. O que acontece quando ambos dizem isso?
O amor padece
Mais tarde, eles têm filhos. Trata-se então de como os filhos serão educados.
Talvez então o homem diga: “Os filhos têm que ser educados de acordo com
os costumes da minha família.” E a mulher diz: “Eles devem ser educados
como na minha.” Como ficam os filhos? Ficam mal.
O que deveria acontecer aqui? O homem deve reconhecer que a família da
mulher, apesar de diferente, tem o mesmo valor da sua. E a mulher tem que
reconhecer que a família do marido, embora seja diferente da sua, também
tem o mesmo valor. Se ambos procedem de culturas ou de religiões
diferentes, devem reconhecer que a cultura ou a religião do outro, embora
diversa, tem o mesmo valor da sua.
Mas eles não conseguem isso sem ficarem com a consciência pesada. Se
forem ouvir a voz da sua consciência, então têm medo: se reconhecerem
isso, perdem a pertinência da família. O progresso e a paz na família só
acontecerão se ambos deixarem sua boa consciência para trás, se ambos
estiverem prontos a se sentirem culpados. Quem não conseguir se sentir
culpado, nesse sentido, permanecerá para sempre uma criança.

PAZ ENTRE OS POVOS


Também entre os diferentes povos, por exemplo, entre os russos e os
alemães, a paz só se concretizará se ambos reconhecerem que cada um,
apesar de diferente, tem o mesmo valor. Só assim haverá paz entre eles.
Enquanto se disser “Nós, russos” ou “Nós, alemães”, as pessoas não serão
olhadas individualmente, só serão vistas como membros do seu grupo. E
como se está unido ao próprio grupo através da consciência, cada um sente -
se superior ao outro, dentro do próprio grupo. Isto separa ambos os grupos.
Vou explicar através de um exemplo o que isso significa, na prática.

ISRAELENSES E PALESTINOS
Nesse Congresso de Constelações Sistêmicas em Würzburg, estavam
também um professor de Israel e um dos territórios ocupados. Ambos
haviam fundado um Instituto da Paz para o Oriente Próximo. Através desse
trabalho, eles tentam aproximar israelenses de palestinos, para promover a
reconciliação e paz. Um caminho para tal objetivo consiste de um relatório
de um grupo ao outro sobre sua visão de um determinado acontecimento,
por exemplo, o fato de os palestinos terem tido que deixar Israel. Nesse
Congresso, relataram esse fato, também sobre o medo de muitos israelenses
de que os palestinos, logo que se lhes permita o retorno, exijam-lhes a
devolução do que lhes foi tomado. Durante um workshop me pediram para
demonstrar com o meu método como se poderia encontrar uma solução.
Escolhi cinco representantes para os palestinos, e só judeus, para que eles
pudessem sentir a situação dos palestinos. Em frente a eles, Coloquei cinco
representantes para os israelenses. Então não fiz mais nada.
Nas constelações familiares — e isto é um exemplo de constelações
familiares — os representantes, após curto espaço de tempo, sentem-se
exatamente como as pessoas que estão representando, sem que saibam
qualquer coisa sobre elas. Por isso, faço poucas intervenções ou quase
nenhuma. Logo que eles sentem algo, alguma coisa acontece
espontaneamente entre eles. Entre os representantes dos palestinos havia
uma mulher que olhava para o chão. Depois de longa experiência, sei que
isso significa que ela está olhando para uma pessoa morta. Daí eu Coloquei
um homem deitado entre os dois grupos, como representante do morto, mas
não estava claro se ele estava representando um palestino ou um israelense.
A mulher ajoelhou próxima a esse homem, chorando por ele como uma mã e
chora por um filho. Uma mulher entre os israelenses queria ir para junto dos
palestinos, mas estes não a aceitaram, desviando o olhar. Bem devagar —
talvez isso tenha durado dez ou quinze minutos — os representantes dos
palestinos afundaram-se no chão, todos demonstrando tristeza e luto.
Um representante dos israelenses caiu repentinamente para trás, ficando
deitado de costas e soluçando alto. Entre os israelenses surgiu também um
profundo luto. Ficou claro que ambos os grupos tinham grandes experiências
com sofrimento, os israelenses com muitos dos seus ancestrais que haviam
morrido na Segunda Guerra Mundial, e os palestinos com tudo o que têm
sofrido desde então.
Interrompi a constelação e todos os participantes puderam relatar o que eles
tinham vivenciado. Foi impressionante ver que nenhum dos palestinos tinha
qualquer reivindicação a fazer aos israelenses, a única era que queriam ser
vistos, queriam que se visse o que tinham sofrido. De repente, os israelenses
viram o sofrimento dos palestinos e os palestinos, o sofrimento dos
israelenses. Puderam olhar-se nos olhos, de ser humano para ser humano.
Ficou claro que, de pessoa para pessoa, seus problemas poderiam ser
resolvidos de uma maneira tal que permitisse a ambos os grupos um novo
começo.
Então, o que aconteceu aqui? Ambos os lados puderam extrapolar os limites
da consciência de grupo. De repente, encontraram-se como seres humanos,
não mais como palestinos ou israelenses. Dessa maneira, tudo é possível.

RUSSOS E ALEMÃES
Vou dar mais um exemplo. Em Berlim, tivemos há pouco tempo um
seminário com 900 participantes e uma cliente contou que seu pai havia
cometido suicídio. No aniversário da morte do seu amigo, cuja mulher ele
havia desposado após seu falecimento, subiu em um parapeito e, ao tentar
se equilibrar, sofreu uma queda. Essa mulher era a mãe da cliente.
Primeiramente, Coloquei apenas o pai dessa cliente. Ele olhava sempre para
o mesmo lado e para mim ficou claro que olhava para o seu amigo falecido.
Portanto, Coloquei um representante para esse amigo, no lugar para onde
ele olhava, e este se deitou imediatamente no chão. Perguntei à cliente o que
ambos haviam feito anteriormente, e a cliente respondeu que ambos tinham
sido oficiais na Segunda Guerra Mundial, na Rússia.
Então, Coloquei em frente a eles seis representantes para soldados russos e,
em frente aos soldados russos, do outro lado, seis representantes de soldados
alemães. Alguns caíram imediatamente ao chão, como se tivessem levado
um tiro, um outro levou a mão ao ombro, como se tivesse sido atingido ali.
Então, um dos representantes dos soldados russos dirigiu-se lentamente ao
pai dessa cliente. Mediram-se com olhares — era como num duelo.
Decorrido algum tempo, o oficial alemão caiu no chão e o outro se afastou.
Nesse ponto, interrompi a constelação e perguntei aos representantes de
ambos os lados o que eles haviam vivenciado. O oficial russo disse: “Eu
venci. Eu sabia que tinha que investir tudo, para vencê-lo. Mas olhando
agora para trás, eu me pergunto: ‘Para quê? O que a vitória nos trouxe de
bom, afinal?” Entre os soldados de ambos os lados percebia-se um respeito
mútuo, viram que tinham sido fiéis às suas pátrias. Através dessa fidelidade
estavam distanciados de sentimentos humanos para com os outros. Contudo,
quando se olharam, puderam respeitar-se mutuamente.
O sofrimento comum de ambos os lados, o reconhecimento desse sofrimento
levaram ambos os lados a sentirem dor e luto em comum por aquilo que as
pessoas de um lado e de outro tinham sofrido, os amigos e os inimigos. Isso
os havia reconciliado.

O JAPÃO E OS ESTADOS UNIDOS

Considerações preliminares
No decorrer de um curso em Kyoto, em outubro de 2001, uma jovem pediu
minha ajuda: ela tinha medo de visitar sua família, porque se achava
perigosa. Constatou-se que estava identificada com a bomba atômica que
havia matado seu avô em Hiroshima. Quando pôde dar a seu avô um lugar
em seu coração, sentiu-se bastante aliviada. Obviamente, as vítimas da
bomba atômica no Japão são lembradas por muitos, mas são poucos os que
de fato ficam de luto por elas. Contudo, somente apôs os próprios japoneses
ficarem de luto pelas vítimas da bomba atômica é que os Estados Unidos
também poderão fazer o mesmo. Só o luto em comum por esses mortos é que
poderá reconciliar essas duas nações. Antes disso, os japoneses também têm
que olhar para as vítimas da guerra que fizeram e sentir pesar por elas. Só
depois disso é que também os Estados Unidos poderão olhar para as vítimas
da guerra, que fizeram no Japão, e sentir pesar por elas, em conjunto com
os japoneses.
HIROSHIMA
Primeiramente, Hellinger olha durante muito tempo para a cliente que
havia se sentado a seu lado. Ela está bastante intranquila, enxuga
frequentemente as lágrimas.
HELLINGER após decorrido algum tempo De que se trata? Qual é o seu
problema?
CLIENTE Tenho receio de visitar minha família. Não há um motivo
aparente para poder dizer do que tenho medo. Sinto que sou perigosa para
eles e vou lhes trazer infelicidade.
HELLINGER para o grupo Deduziria, do que ela acabou de dizer, que algo
de importante aconteceu na família e que ela está identificada com uma outra
pessoa.
Dirigindo-se a Chethna Kobayashi, organizadora desse curso Você tem
informações sobre o que aconteceu na família dela?
CHETHNA O avô faleceu durante o ataque com a bomba atômica a
Hiroshima.
HELLINGER para a cliente Aconteceu mais alguma coisa?
CLIENTE O avô que faleceu durante esse ataque é o pai do meu pai.
HELLINGER Onde estava o seu pai, quando o pai dele morreu?
CLIENTE Meu pai ainda não havia regressado da guerra, e assim pôde
escapar do ataque.
Hellinger escolhe um representante para o avô, colocando à sua frente um
representante para a bomba atômica.
Figura 01

†Av Avô, falecido durante o ataque com a bomba atômica em


Hiroshima
Ba Bomba atômica
O avô cambaleia e quase cai de costas. Dá alguns passos para trás. Após
alguns instantes, Hellinger posiciona a cliente ao lado da bomba atômica.
Figura 02
Cl Cliente
O avô continua a cambalear e dá então um passo em frente. A cliente se
retrai, posiciona-se atrás da bomba atômica. O avô aproxima-se um pouco
mais, ajoelha-se em frente à bomba atômica, caindo, então, de lado, no
chão.
Durante todo esse tempo, a bomba atômica permanece imóvel. A cliente
chora.
Figura 03

HELLINGER dirige-se à bomba atômica, depois de algum tempo Siga seus


movimentos.
Após certo tempo, a bomba atômica ajoelha-se, sentando-se sobre os
calcanhares. A cliente afasta-se bastante, então, a bomba atômica inclina
levemente a cabeça.
HELLINGER para a bomba atômica Siga seus movimentos.
A bomba atômica curva-se profundamente.
HELLINGER depois de certo tempo, dirigindo-se à bomba atômica Você
tem que olhar para as vítimas.
Decorrido algum tempo, a bomba atômica endireita-se e coloca uma das
mãos diante dos olhos.
HELLINGER para a cliente Siga você também seus movimentos.
A cliente caminha lentamente em direção ao avô, ajoelhando-se diante dele.
Nesse momento, a bomba atômica olha também para o avô morto. A cliente
desliza um pouco para trás, deitando-se ao lado do avô.
Figura 04

Hellinger pede então à bomba atômica que se deite também ao lado do avô.
Pede à cliente para se levantar, conduzindo-a para o lado.
Figura 05
HELLINGER para a bomba atômica Como você está se sentindo aqui?
BOMBA ATÔMICA Sinto-me como se flutuasse.
HELLINGER para o avô E você?
AVÔ Gostaria de ir-me embora, contudo não posso. Algo não foi concluído.
Hellinger vira a cabeça da bomba atômica para o lado e pede-lhe que olhe
para o avô. Diz ao avô para olhar para a bomba atômica, também. Ambos
se olham demoradamente.
HELLINGER Vou deixar. Como você está agora?
CLIENTE Quando ambos estavam deitados lado a lado, senti-me tranquila,
mas quando se olharam, mal pude respirar.
HELLINGER Vou deixar assim.
para os representantes Agradeço a todos vocês.
a Chethna Foi uma constelação estranha.
para a cliente Com quem você estava identificada?
CLIENTE Com o avô.
HELLINGER Com a bomba atômica.
De início, a cliente parece um pouco desconcertada. Então, tem um lampejo
de compreensão. Sorri embaraçada, cobrindo o rosto com a mão direita.
CLIENTE após curto espaço de tempo, ainda sorrindo, embaraçada. Não
estou entendendo.
HELLINGER Você está entendendo perfeitamente. Podemos ver isso no seu
rosto.
Sorriem um para o outro.
CLIENTE É este então o motivo de eu ter vindo até aqui, por estar
identificada com a bomba.
HELLINGER É.
para o grupo Por isso ela se achava perigosa para a família.
A cliente concorda e chora.
Hellinger chama outra vez o representante do avô e posiciona a cliente
diante dele. Ela olha para ele e chora. Cobre então o rosto com a mão.
Figura 06

HELLINGER Vá até ele e olhe-o.


Ela caminha lentamente até ele e coloca a cabeça no seu peito. O avô coloca
os braços em volta dela, de mansinho. Acaricia sua cabeça. Durante todo
esse tempo, ela soluça alto, deixando os braços caídos ao longo do corpo.
Somente depois de algum tempo, ela ousa colocar também os braços em
volta dele, permanecendo assim durante um longo tempo. Depois, afasta -se
dele.
HELLINGER após decorrido algum tempo, vendo que ela continuava a
soluçar Agora você pode ousar ir para casa.
Ela concorda, acenando com a cabeça, apesar de continuar chorando. O
avô faz um carinho rápido em suas faces. Ela então se ajoelha diante dele
e se curva profundamente. Permanece assim durante muito tempo.
HELLINGER quando ela se levanta e olha para o avô Diga-lhe: “Você tem
um lugar no meu coração.”
CLIENTE Você tem um lugar no meu coração
O avô balança a cabeça concordando, respira profundamente.
HELLINGER Você está vendo como os mortos ficam aliviados, quando lhes
damos um lugar no nosso coração?
Ela balança a cabeça, concordando.
HELLINGER Ok. Foi isso, então.
para o grupo Eu me pergunto se os japoneses realmente deram às vítimas
da bomba atômica um lugar em seu coração. Causa um medo grande demais
olhar para todas elas, para cada uma e sentir luto real por elas. Só recordar-
se delas é pouco demais. Tem-se que sentir luto real. Se os japoneses
conseguirem isso, talvez então os americanos possam fazê-lo, também,
então estes dois povos poderão reconciliar-se.
para a cliente Como você se sente agora?
CLIENTE Sinto que estou enxergando com clareza.
HELLINGER E agora você vai para casa?
CLIENTE Sim, obrigada.
Mais tarde

O QUE AINDA DEVE ANTECEDER À RECONCILIAÇÃO ENTRE


JAPÃO E ESTADOS UNIDOS
PARTICIPANTE É possível resolver problemas políticos dessa maneira,
também? Visto a constelação alcançar somente uma pessoa e uma família
individualmente, quantas vezes algo assim terá que ser repetido, até que
cause efeito na vida pública, para que tensões entre povos possam ser
eliminadas?
HELLINGER Tenho consciência de que não tenho poder para influenciar a
política por meio do trabalho com as constelações ou resolver questões
políticas. Trabalho somente com indivíduos, por exemplo, trabalhei aqui
apenas com uma cliente e seu avô. Queria encontrar uma solução só para
ela. De vez em quando, surgem questões e problemas políticos em uma
constelação também, mas sempre ligados a pessoas, enquanto indivíduos.
Então, pode-se ver no âmbito de uma constelação o que é necessário e útil
também entre os povos, mas somente no nível da alma e não no nível da
ação política.
Contudo, se de muitas constelações resultaram soluções para essas questões,
elas talvez pudessem também, a longo prazo, influenciar a ação política,
mas, esta não é minha intenção imediata.
Muitas coisas permaneceram obscuras, nesta constelação. Não dei
prosseguimento a elas. No primeiro plano, tratava-se aqui de agressores e
vítimas. O avô era uma vítima, e a bomba, um agressor. Eles se comportaram
da maneira típica, como agressor e vítima. A vítima cai ao chão e o agressor
olha para ela e se movimenta em sua direção.
Contudo, algo diferente se revelou aqui repentinamente. O avô era um
representante dos japoneses, e a bomba tornou-se representante dos Estados
Unidos. Com isso, houve um deslocamento na imagem. Aqui, não eram
somente uma vítima e um agressor que estavam deitados lado a lado. De
repente, havia dois agressores, pois o Japão também era um, não só frente
aos Estados Unidos, mas também frente a vários outros povos. Daí não se
poder aqui observar tudo sob a perspectiva de agressores e vítimas.
Podemos retomar essa constelação e ampliá-la quanto a esse aspecto.
Hellinger pede aos representantes do avô e da bomba atômica que venham
para frente e os coloca um ao lado do outro e, desta vez, como
representantes do Japão e dos Estados Unidos e, em frente a eles, posiciona
quatros representantes das vítimas do Japão e quatro representantes das
vítimas dos Estados Unidos, principalmente as vítimas da bomba atômica
de Hiroshima e Nagasaki.
Figura 07

J Japão
EUA Estados Unidos da América
VJ1 Primeira vítima do Japão e sucessivamente
VA1 Primeira vítima dos EEUU e assim sucessivamente
Decorrido algum tempo, o representante do Japão coloca sua mão esquerda
sobre seu abdômen. A terceira vítima dos japoneses cambaleia fortemente,
caindo ao chão, depois de algum tempo. O representante do Japão está
muito comovido, cambaleia como se estivesse sentindo fortes dores,
ajoelhando-se em seguida. Inclina-se profundamente e cai de lado no chão.
A terceira vítima dos Estados Unidos inclina-se profundamente para frente,
chora e cai. A primeira e a segunda vítima dos Estados Unidos também
caem no chão. A quarta vítima americana agacha-se.
O representante dos Estados Unidos permanece imóvel durante muito
tempo. Coloca, então, sua mão diante do peito e se ajoelha. Inclina-se para
frente, apoiando-se sobre as mãos, depois um pouco mais para frente,
mantendo sua mão esquerda junto à têmpora.
Figura 08

Hellinger pede então para os representantes do Japão e dos Estados Unidos


se levantarem e os coloca uns em frente aos outros.
Figura 09
Hellinger coloca-os mais próximos de suas vítimas e pede-lhes que se
olhem.
Figura 10

Passado algum tempo, Hellinger coloca-os lado a lado diante das vítimas e
pede-lhes que façam uma reverência conjunta diante delas.
Figura 11

Depois de feita a reverência, Hellinger posiciona-os novamente um perante


o outro.
Figura 12

HELLINGER para o representante dos Estados Unidos Como você está


agora? EEUU Estou com dores no peito e com dor de cabeça.
JAPÃO Quando fiz a reverência, achei que poderia aliviar um pouco da
minha carga. Estou com dor de estômago.
HELLINGER Olhem-se agora.
Os representantes do Japão e dos Estados Unidos olham um para o outro.
Hellinger posiciona as vítimas do Japão em semicírculo, atrás do Japão e
as vítimas dos Estados Unidos em semicírculo, atrás dos Estados Unidos.
Figura 13

Após alguns instantes, Hellinger pede a todas as vítimas que formem


conjuntamente um círculo em torno do Japão e dos Estados Unidos, dando -
se as mãos.
Figura 14

O Japão e os Estados Unidos permanecem em pé diante um do outro, sem


se mexerem, durante um longo tempo. Depois, o representante do Japão
dirige- se com pequenos passos até os Estados Unidos. Quando já estava
bem próximo a ele, o representante dos Estados Unidos estende -lhe a mão
e ambos se abraçam. Permanecem abraçados durante muito tempo.
Figura 15

HELLINGER após decorridos alguns instantes Deixo assim agora.


para o representante do Japão Como foi com você?
JAPÃO Quis me aproximar mais dos Estados Unidos mas, ao mesmo tempo,
hesitei, mas quando me aproximei e o abracei, aliviei-me de uma carga. As
dores no peito e na barriga desapareceram.
EEUU Desejei muito que ele se aproximasse de mim, mas não pude, de
minha parte, fazer nada. Tive que esperar até ele se movimentar. Agora me
sinto envolto em clareza e renovado.
HELLINGER para os representantes Agradeço a todos vocês.
para o grupo Isso foi uma constelação política. Ela mostra o que ocorre nas
profundezas das almas. A aproximação entre o Japão e os Estados Unidos
só foi possível quando as vítimas se aproximaram umas das outras, tomando -
se as mãos. Para as vítimas, é irrelevante quem as matou.
Também foi apropriado que o representante dos Estados Unidos tenha
esperado. O primeiro passo tinha que ser dado pelo Japão, isso estava
bastante claro. O representante do Japão e o dos Estados Unidos
comportaram-se com autenticidade. Revelou-se também que não se deve
procurar uma solução rápida, dentro de uma constelação. Os representantes
seguem o movimento interno, assim como o sentem, não indo além.
para a cliente. Isto também foi de relevância para você. Ok. 5

RECONCILIAÇÃO NA ALMA
Entrevista de Hans-Joachim Reinecke com Bert Hellinger sobre os
atentados ao World Trade Center e ao Pentágono, aos 11 de setembro de
2000 e sobre suas consequências.
REINECKE Ultimamente, seu trabalho tem se concentrado nos temas do
equilíbrio e da reconciliação. Nele, você tem sempre se referido à relevância
do encontro sério e pacífico entre indivíduos, não só no âmbito de
acontecimentos familiares, mas principalmente na solução de conflitos
nacionais ou ideológicos. Com certeza existem acontecimentos exteriores
que influenciam fortemente as possibilidades de tais encontros.
Perguntaram- lhe, por ocasião de uma entrevista no final de agosto, se a
modificação de grandes dogmas e conflitos latentes pode ser revertida para
o bem, talvez em nível internacional, também através de catástrofes. Quero
dizer, as reações no mundo inteiro mostram que os ataques terroristas de 11
de setembro e suas consequências podem ser considerados, com toda a
razão, como uma catástrofe tal que movimenta o mundo inteiro.
Quais são as chances e as esperanças que resultam daí para uma convivência
pacífica entre os povos e indivíduos do nosso mundo? Tal questão seria
permitida, face aos milhares de vítimas, tanto do atentado quanto dos
acontecimentos subsequentes?
HELLINGER Ouvindo isso, vejo que estou sendo conduzido para um
terreno no qual tenho que me pronunciar sobre grandes acontecimentos que

5 Esta constelação está documentada no vídeo: Bert Hellinger: Hiroshima. Inglês/Japonês, 85 minutos. Pode
ser adquirido junto a Movements of the Soul Vídeo Productions. Contato: Harald Hohnen, Uhlandstr.161, D-
10719 Berlim.
vão além do meu horizonte. Por isso, vou abordar este problema de uma
outra maneira, passo a passo, começando pelo essencial.
A reconciliação começa na própria alma. Quem a consegue, pode ter
influência sobre outros contextos maiores, partindo daí. Na própria alma, a
reconciliação começa com os pais. Parece estranho, mas podemos observar
que muitos tentam se separar dos pais, como se pudessem fazê-lo, pois dessa
maneira não teriam que reconhecer que tudo que temos de essencial temos
deles, sem que possamos acrescentar algo a isso. Na alma essa reconciliação
pode acontecer, por exemplo, assim: faz-se uma reverência diante dos pais,
imaginando que, por sua vez, os pais deles estejam atrás deles e que, atrás
deles, os seus pais, e assim por diante. Olha-se então para essas mil gerações
e para a vida fluindo, através delas, até nos alcançar. Ela flui através dessas
gerações, imaculada, ilimitada, mantendo sempre sua plenitude,
independentemente de como tenha sido ou como seja cada um que a recebe
e passa à frente. Quem olha assim para os seus pais pode e precisa se curvar
perante eles Simultaneamente, quando nos curvamos perante nossos pais,
curvamo-nos também perante o mistério da vida. Então, nossa concordância
com a vida, como a recebemos dos nossos pais, torna-se um ato religioso
profundo, torna-se o próprio ato religioso.
Quem conseguir isto verá e reconhecerá que toda pessoa, qualquer que seja
sua cultura de origem, religião, raça ou língua terá que realizar o mesmo
para encontrar seus pais, a vida e a si mesmo. Apesar de todos consumarem
e terem que consumar este mesmo ato, o resultado será diferente, porque
eles procedem de diferentes grupos, diferentes religiões, diferentes nações
e de diferentes culturas. Neste ato religioso todos estão unidos uns aos
outros e iguais uns aos outros. No resultado, são diferentes e estão
separados.
Na alma, o caminho para a reconciliação continua com um próximo passo.
Tenho que reconhecer que qualquer outra pessoa é igual a mim em sua
essência, igual na concordância que lhe é exigida, em relação a vida que é
comum a todos ou aos pais especiais de cada um. Tenho que reconhecer que,
nessa realização básica, não existem diferenças nem possibilidade de
escolha, e que é de natureza secundária o que resulta das condições especiais
de raça, destino e cultura dos diferentes grupos e povos. Só então estou
pronto e capaz de ir de encontro a outras pessoas, de igual para igual, embora
elas sejam diferentes de mim em muitos aspectos.
Portanto, este seria o caminho através do qual eu me torno interiormente
capaz de ter um real encontro com outra pessoa que é diferente, respeitando-
a e reconhecendo-a como tendo o mesmo valor.
REINECKE A ligação com a possível função especial das catástrofes ainda
não ficou inteiramente clara para mim. Os acontecimentos de 11 de setembro
podem contribuir para acelerar esse processo da reconciliação?
HELLINGER A conclusão do que acabei de dizer seria a de ver esses assim
chamados terroristas como pessoas ligadas a seu sistema, assim como nós
experimentamos em nós essa ligação, em relação ao nosso sistema.
Reconhecer que são religiosos à sua maneira, dentro daquilo que fazem,
profundamente religiosos, mesmo que suas ações estejam voltadas contra
nós. Por isso são conscienciosos, à sua maneira.
REINECKE Religiosos em um sentido muito mais profundo do que aquele
que transparece nos testemunhos dos que cometeram os atentados?
HELLINGER Sim, e minha próxima conclusão é: quando ambos sabem que
se encontram inevitavelmente ligados ao sistema a que pertencem, então são
religiosos naquilo que almejam. Portanto, aqueles que são contra esses
terroristas e querem combatê-los, e aqueles que estão por detrás dos
terroristas, apoiando sua luta, ambos são religiosos à sua maneira. Para
aprofundar mais ainda e chegar-se a uma compreensão bem no fundo da
alma no que abre caminho para uma reconciliação, temos que nos despedir
da nossa costumeira diferenciação entre bom e mau, temos que nos despedir
de uma imagem de Deus, imagem que Lhe cobra tomar partido dos interesses
do nosso próprio grupo, vendo-O simultaneamente como inimigo do grupo
contrário, que achamos que devemos combater. Então precisaríamos
reconhecer que ambos, tanto uns quanto os outros, apesar de serem
aparentemente opostos e quererem e fazerem coisas totalmente contrárias
são dirigidos por um poder maior, acima de ambos, diante do qual deveriam
se curvar, por serem apenas ferramentas para atingirem determinados
objetivos. Só com esta compreensão e com esta postura é que se pode
colocar diante de tal catástrofe e de tal maneira que, a longo prazo, sirva à
paz e ao progresso. Então teremos as vítimas e seus familiares em nosso
campo de visão, podemos sentir luto por elas, junto com elas, sentir seu
sofrimento com empatia e, ao mesmo tempo, podemos ver esses atacantes
também como vítimas que se viram envolvidos em outra coisa que, a partir
da sua perspectiva, deveria também conseguir algo de bom, mas que
lançaram mão de meios que levaram muitos inocentes à morte. Quando se
vê e se reconhece isso, desaparece nossa diferenciação entre bom e mau.
Quando se permite que esse acontecimento atue em nós dessa forma vê -se
que, por pior que isto seja, causa em muitas almas, como um todo, uma
mudança para melhor. Ele leva, por exemplo, a um maior cuidado no trato
com os outros a uma modéstia maior, leva ao reconhecimento de que
dependemos de muitos outros, cujas justas reivindicações talvez não
tenhamos levado, antes, em consideração. Nesse sentido, esse
acontecimento tenha talvez um efeito de alcance mundial, um efeito
especial.
Sob o meu ponto de vista, tal efeito nunca parte de um indivíduo. Ele só
pode ser atribuído a uma força maior que tudo conduz, inclusive esse
acontecimento, e que apenas usa os indivíduos como instrumento - alguns
como vítimas e outros como agressores.
REINECKE Amais pesquisas de opinião em países da Europa Ocidental
levam a supor que uma parte cada vez maior da população é contra o
bombardeio ininterrupto do Afeganistão. Críticos veem nisso uma opinião
míope que esquece, pensando em interesses próprios, aquilo que ontem
parecia tão importante, assim que a ameaça direta desaparece. Essa crítica é
justa?
HELLINGER Digo apenas que, no fundo da alma, somos todos seres
humanos e que lastimamos tanto as vítimas de um lado quanto as do outro.
Enquanto seres humanos, sentimo-nos unidos a ambos. Isto é um sentimento
humano. Aliás, é também a condição para a reconciliação. Nesse sentido,
considero-o um movimento importante. Ele causa um efeito amortecedor
naqueles que acreditam que conseguirão um efeito positivo ou algo de bom
com afirmações e táticas arrogantes, do tipo: “Vamos vencê-los e exterminá-
los”. Com isso são lembrados dos seus limites. Nesse sentido, esse
sentimento contrário tem efeito curador sobre a alma. Ao mesmo tempo,
tem-se que ver que também os outros devem ser mantidos dentro dos seus
limites. Para muitos, é difícil reconhecer que, frequentemente, só a
impotência promove a paz.
REINECKE Em uma sequência toda de constelações, você deixou que
nações inteiras fossem representadas por meio de representantes individuais,
sempre que era apropriado ao cliente. No decorrer delas foi trazido
frequentemente à luz o quanto nações profundamente inimigas têm
premência de uma reconciliação. Não é de supor que existe a tentação de
querer resolver conflitos nacionais e até mesmo a crise internacional do
terrorismo através da Constelação Familiar, tão efetiva no nível individual?
HELLINGER Do meu ponto de vista isso seria arrogante, caso se tentasse
fazer. O que acontece nas constelações em que também nações são
representadas? Nações são representadas por mim somente no contexto de
um indivíduo, por exemplo, com alguém cujos pais são provenientes de
diferentes nações, religiões ou culturas. Quando desse fato resultam
problemas, constelam-se então para os indivíduos também as diferentes
nações ou religiões dos pais. O objetivo é sempre reconciliar, na alma
daqueles que constelam, aquilo que estava em oposição, fazendo com que
possam aceitar ambos, reconhecendo-se com suas respectivas diferenças,
reconciliando-se com eles em um nível mais elevado.
Algumas pessoas imaginam que tal experiência e tal imagem poderiam
causar um efeito benéfico também na alma daqueles que carregam grande
responsabilidade política, mas seria ir muito longe, se quiséssemos daí
derivar ação política. Processos políticos são complexos demais e dependem
de muitas outras circunstâncias, por exemplo, da votação da população ou
de grandes parcelas da população. Por isso, apenas após tal processo ter
acontecido em muitas almas é que uma certa pressão política poderia ser
feita, pressão essa que possibilitaria uma ação política nessa direção. Não
consigo imaginar isso sem que antes tenha ocorrido algo nesse sentido.
REINECKE A constelação familiar pode, pelo menos, contribuir para uma
compreensão melhor dos grandes conflitos? Em caso afirmativo, quem seria
capaz de ouvir? Tenho em mente, por exemplo, todas as reações negativas
que surgiriam na Alemanha e em outros lugares a um debate sobre um
possível envolvimento entre o presidente americano George W. Bush e seu
grande oponente Osama bin Laden.
HELLINGER Que os extremos se tocam é uma observação antiga e bastante
conhecida. Ambos estão convictos de estarem servindo ao bem, nesse
sentido, já existe uma ligação entre eles. Mas se os dois olham só para si
mesmos, há pouca ajuda no sentido de uma solução.
Fiz uma constelação nos Estados Unidos, dizendo de passagem. Quando ali
trabalhei com pacientes com câncer, sugiram caminhos que mostraram como
vítimas e agressores podem e devem se reconciliar, para que algo possa ter
fim. Depois disso, falei: “Vamos constelar o 11 de setembro.” Colocamos
duas pessoas frente a frente. Não estava claro quem elas eram. Na minha
alma, uma era o Presidente Bush ou a América e a outra era Bin Laden ou o
seu grupo, mas não disse nada.
O representante da América olhava para o chão, o que nas constelações
significa que ele estava olhando para uma pessoa morta. Por isso, Coloquei
um homem deitado entre os dois, representando o morto ou os mortos. O
representante da América caiu lentamente ao chão, voltando-se para este
morto. De vez em quando, olhava também para o representante dos
terroristas que, primeiramente, olhava para um ponto distante e longínquo.
Então, este também dobrou os joelhos, estendendo a mão para o
representante da América, na altura da cabeça do morto. Portanto, em face
das vítimas, ambos puderam encontrar um caminho para a reconciliação.
Frente às vítimas e isso aqui, neste contexto, significa também frente às
vítimas dos dois os lados, ambos podem recobrar a razão. Isso é algo que eu
vi em muitas constelações, em muitos países.
Só quando se lastima conjuntamente o acontecido, sem lançar culpas, s em
censuras para com o outro lado; quando se lastima em conjunto por aquilo
que se sofreu e também sobre o que se fez ao outro e, ao fazer isso, ter em
vista as vítimas de ambos os lados, só então o caminho fica livre para a
compreensão e para a reconciliação mútua.
REINECKE Isso me parece bem evidente e por isso pergunto, mais uma vez:
esse trabalho não mereceria uma grande divulgação na mídia? Vivemos na
era dos meios de comunicação em massa. Uma transmissão de uma
constelação na televisão não seria um meio de ajuda ideal à crise atual e aos
seus participantes, uma maneira de mostrar a muitas pessoas, de modo
rápido, um caminho para a paz e a reconciliação e, em primeiro lugar, aos
políticos responsáveis por decisões importantes?
HELLINGER Sim, seria ótimo, mas uma tal constelação pressupõe um
ambiente e uma prontidão interior para se abrir a movimentos mais
profundos da alma. Tão logo uma tal constelação e uma tal experiência
sejam usadas como meio de propaganda ou como modo de influenciar um
grande grupo, entram em jogo interesses pessoais, uma expectativa pessoal
pelo poder, mesmo que de maneira velada, e isso destrói imediatamente
qualquer efeito no âmago da alma. Isso se tornaria um espetáculo que seria
rejeitado e com razão.
Essa compreensão e tal experiência devem surgir e crescer lentamente no
interior de pequenos grupos. Só depois que muitas almas tiverem sido
tocadas é que pode ser espalhada. No grupo onde decorreu a constelação
descrita anteriormente, os participantes eram americanos. Foi muito toc ante,
algo de bom aconteceu em suas almas, mas não acho justificável derivar daí
um agir político, querer influenciar a política ou exercer pressão sobre ela.
REINECKE O Afeganistão fica longe, mas muitos muçulmanos que moram
na Alemanha e na Europa estão próximos de nós, mesmo que muitas vezes
só no sentido geográfico. Justamente devido ao medo dos assim chamados
“adormecidos” é que se mostra no momento como a verdadeira integração
de estrangeiros imigrados pode ser difícil, às vezes, até mesmo entre pessoas
tolerantes e de modo mais ou menos evidente. Muito já foi dito sobre as
causas conhecidas da xenofobia como, por exemplo, medo ou parco
conhecimento sobre a cultura estrangeira. Que obstáculos para uma
convivência pacífica podem ser reconhecidos, através de uma visão
sistêmica, e o que os concidadãos estrangeiros podem fazer, eles mesmos,
justamente agora, para viverem em paz nos países que os acolheram?
HELLINGER Os próprios estrangeiros podem fazer muito pouco, de livre
iniciativa. Eles são a minoria. Primeiramente, é necessário que a maioria se
abra a eles, reconhecendo sua peculiaridade e também sua religião
específica e o que a ela está ligado, e quando se conversa com eles: “O que
podemos empreender em conjunto para que os preconceitos sejam
eliminados?” Então, ambas as partes podem se mostrar e abrir-se uma à
outra. Isto elimina preconceitos. Durante tais diálogos, pode-se falar sobre
o medo justificado que muitos carregam, aqui no país, de que grupos
extremistas se alojem entre eles. Então, os estrangeiros conseguiriam
entender melhor esses temores, e os grupos extremistas teriam menos
chances do que têm agora, nesses círculos. Os que são reconhecidos
poderiam sentir empatia com a maioria e se afastariam dos grupos
extremistas.
REINECKE Parece que os acontecimentos de 11 de setembro comoveram
mais as pessoas na Europa e na Alemanha do que uma série de outras
catástrofes propagadas pela televisão, de que tivemos conhecimento nos
últimos tempos. O Chanceler alemão Schröder posicionou-se, logo após o
atentado, de maneira nítida e inesperada a favor de um apoio enérgico e
efetivo aos Estados Unidos, com apoio militar, também. Na realidade, não
se deveria esperar que essa “solidariedade sem fronteiras” se estendesse a
todas as vítimas de quaisquer catástrofes em qualquer parte do mundo? Seria
possível explicar o quanto a população alemã também foi vítima, com um
tipo de consciência familiar, por exemplo, dos Estados Unidos e da Europa?
O que é que desta vez parece nos ligar especialmente às vítimas?
HELLINGER Há muitas raízes comuns, naturalmente, mas talvez seja
suficiente ressaltar, a essa altura, o fato de nos lembrarmos do quanto temos
a agradecer à América e às tropas americanas. Conseguimos nos manter fora
de muitos conflitos porque os americanos se expuseram. Quando, de
repente, os Estados Unidos se encontram em um aperto, essa prontidão para
ajudar surge de um sentimento de gratidão pelos americanos, pelo que
fizeram pela Alemanha. Nesse contexto penso, por exemplo, no bloqueio a
Berlim e no que eles frequentemente fizeram quando nós não fizemos nada.
Nesse sentido, considero essa solidariedade adequada e boa.
Ao mesmo tempo, deve-se considerar que nós, enquanto sentimos pena das
vítimas de Nova York, perdemos de vista os milhões de vítimas que foram
incineradas em nossas cidades e que ainda não sentimos pesar por elas de
forma adequada, talvez por nos termos tornado culpados em muitas outras
coisas. Poderíamos, por isso, usar o 11 de setembro como motivo para
honrá-las e sentir verdadeiro luto por elas.
Isso talvez trouxesse alguma ajuda, também, para os americanos, britânicos
ou a outros que, através dos bombardeios, levaram tantas pessoas à morte,
de maneira desumana e desnecessária. Eles então poderiam começar a olhar
esses mortos nos olhos e sentir, juntamente conosco, luto por eles. Isso nos
uniria mais profundamente ainda do que se sentirmos pesar somente e
unilateralmente pelas vítimas do atentado de 11 de setembro.
REINECKE Atualmente você viaja pelo mundo todo, apresentando seu
trabalho em muitos países. Nos seus workshops internacionais, logo após o
11 de setembro, você sentiu a influência dos atentados e de suas
consequências e, em caso afirmativo, como esses acontecimentos tiveram
expressão em constelações e em pessoas que delas participaram?
HELLINGER Na Rússia, no Japão ou em Taiwan não houve influência
alguma disso nas constelações. Na América, houve certa influência, por
exemplo, na constelação a que já me referi.
Posso citar um outro exemplo nesse contexto que torna nítido, em uma outra
esfera, o que já disse antes:
No Japão, trabalhei com uma mulher cujo avô havia falecido em Hiroshima,
naquele ataque com a bomba atômica. Pedi para constelar um representante
para o avô, um representante para a bomba atômica e a própria cliente. A
cliente não se dirigiu ao avô, colocou-se ao lado da bomba atômica,
escondendo-se em seguida atrás dela. Ficou claro que estava identificada
com os atacantes ou que o impacto do que havia acontecido teve tamanha
influência que ela queria se esconder atrás dele.
É também bastante evidente que, no Japão, os americanos são tidos em alta
conta, em toda a parte. Todo europeu que anda por lá é tratado por
“americano”. Por exemplo, passamos por um jardim da infância, e as
crianças todas gritaram: “Americanos!”
Pois bem, a bomba atômica permaneceu muito tempo imóvel, durante a
constelação. O avô afundou no chão e, muito lentamente, a bomba atômica
se virou para ele, permanecendo imóvel. A cliente dirigiu-se muito
hesitantemente até o avô, após algum tempo e conseguiu ajoelhar-se diante
dele e sentir luto por ele. Nessa altura interrompemos a constelação,
retomando-a depois de uma pausa.
Nessa constelação, havia ficado claro que a bomba atômica era a América e
que o avô era o Japão, mas este não era somente vítima, era também agressor
Havia assaltado muitos povos e, nesse contexto, devemos considerar
também o ataque a Pearl Harbor.
Portanto, constelei mais uma vez o representante para a bomba atômica,
desta vez como representante dos Estados Unidos e o representante do avô,
como representante do Japão, colocando então as vítimas de ambos os lados
diante deles, as vítimas dos japoneses e as dos americanos. Decorrido algum
tempo, as vítimas formaram um círculo em tomo de ambos, dando-se as
mãos e mantendo-se de mãos dadas. Então, o Japão e os Estados Unidos
ficaram frente a frente no centro do círculo formado pelas vítimas. O
representante dos Estados Unidos permaneceu imóvel. Muito lentamente, o
representante do Japão dirigiu-se aos Estados Unidos. Quando já estava bem
próximo, o representante dos Estados Unidos estendeu-lhe a mão. Isso foi
muito impressionante, porque a realidade histórica foi nitidamente copiada.
A América foi atacada primeiramente, por isso, o Japão tinha que dar o
primeiro passo em direção a ela. Só então a América podia estender a mão.
Para os japoneses que estavam presentes isso foi muito comovente,
causando em sua alma uma profunda compreensão, também em relação à
própria culpa. Puderam então adaptar a infelicidade de Hiroshima e
Nagasaki a um contexto maior, podendo ver as vítimas de Hiroshima e
Nagasaki junto com as vítimas dos ataques japoneses.
REINECKE Acredito que este exemplo possa ser transferido à situação
atual.
Por último, uma pergunta importante para muitas pessoas: existe, no
momento presente, para aqueles que não querem se contentar com
sentimentos de impotência diante do horror e de medo desamparado, a
possibilidade de fazer alguma coisa? Devem ser feitas doações, passeatas,
prestar qualquer tipo de ajuda, as pessoas podem empreender alguma coisa,
seja como indivíduos ou como grupos ou será atrevimento querer ter
influência sobre o decorrer dos acontecimentos? Será que ainda é permitido
rir, comemorar, seguir com seus negócios?
HELLINGER Isso é permitido, obviamente. Caso contrário, você se coloca
contra a vida. Vida e morte fazem parte um do outro.
Nós, que não dispomos de poder algum, não podemos intervir no decorrer
dos acontecimentos, mas podemos fazer alguma coisa por aqueles inocentes
que hoje sofrem as consequências de brigas, como os fugitivos no
Afeganistão, para quem podemos fazer doações. Dessa maneira pode-se
demonstrar solidariedade para com aqueles que se tornaram vítimas, sem
que tenham tido culpa. Para mim, este seria um caminho simples e sem
rodeios de fazer algo de bom e de preparar o caminho para a reconciliação.
Talvez eu possa relatar aqui um exercício meditativo que fiz com um
pequeno grupo em Estocolmo, quando as pessoas na Europa queriam
lembrar-se, em conjunto, mas também em silêncio, das vítimas do 11 de
setembro. Aqui está o exercício na íntegra:
Contaram-me que hoje, às 12 horas, serão feitos em toda a Europa três
minutos de silêncio em memória das vítimas do 11 de setembro. Quero me
conectar a eles e a vocês, mas não só através do silêncio, gostaria de refletir
com vocês, com o pensamento voltado para essas vítimas, sobre outra coisa.
Fechem agora os olhos. Imaginem que estão indo comigo para o reino dos
mortos. Lá, nós olhamos para esses mortos, tanto para as vítimas como para
seus assassinos, olhamos para ambos. Lá, jazem muito próximos uns dos
outros. Talvez se virem uns para os outros, olhando-se de pessoa para
pessoa. As vítimas olham para seus assassinos, os assassinos olham para
suas vítimas, até reconhecerem que os outros são seres humanos como eles.
Os assassinos abrem seus corações para suas vítimas e as vítimas, para seus
assassinos. Então eles se viram, olham para um ponto distante até a linha do
horizonte e se curvam. Repentinamente tomam consciência de que estão nas
mãos de forças maiores do que eles, vítimas e agressores. Ambos
reconhecem: estavam a serviço de algo maior, do qual dependem totalmente,
além de suas intenções, temores ou suas esperanças e planos.
Podemos também imaginar o que aconteceria se também os sobreviventes,
as famílias das vítimas e dos agressores, se voltassem para essa linha do
horizonte e se curvassem diante de um mistério oculto, entregando-se a ele,
confiando totalmente, e se nós também nos curvássemos diante desse algo
maior.
Se nós nos entregarmos a esse outro, até entrarmos em harmonia com ele,
podemos deixar mais facilmente para trás todos os pensamentos de vingança
e também a censura, nos tornaríamos capazes de servir à paz e à
reconciliação.

CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS
Ordens da ajuda* 6
Aquietem-se e dirijam-se ao seu próprio centro e se abram para coisas novas.
Gostaria de dizer algo sobre distúrbios psíquicos. Como eles surgem? Como
é que alguém chega à Psicoterapia? Usualmente, porque está separado de
alguém. Logo que alguém é separado de seus pais ou de um dos pais, perde
força e energia. Fica enfraquecido e desenvolve sintomas.
A solução é muito simples. Estabelece-se de novo a ligação com a pessoa
de quem se está separado. Como isso é possível? Que condições essenciais

6 Extraído de um curso para pacientes psicóticos em Palma de Mallorca, Novembro de 2002.


o ajudante tem que ter, para que isso seja bem sucedido? A primeira é a de
que esse ajudante esteja ligado com seus pais e com seus antepassados, com
o seu destino, com a sua culpa e com a sua morte.
Podemos fazer isso agora na forma de um pequeno exercício. Fechem os
olhos e sintam seus pais dentro de vocês, em seus corpos. Não existe nada
em nós que não tenha vindo dos nossos pais, no início Nós somos os nossos
pais. Assim, nós nos alargamos interiormente, até sentirmos nossos pais
dentro de nós como um todo e, mais exatamente, assim como realmente são
e foram, sem o mínimo desejo de que eles deveriam ter sido diferentes. Da
mesma forma, sintam dentro de vocês os seus avós e os seus bisavós, todos
que tenham feito parte da família e, por exemplo, também aqueles que
tenham falecido prematuramente. Todos podem ser sentidos presentemente
no próprio corpo. Dessa forma concordamos com todos e nós mesmos, em
nossos corpos. Nós nos aconchegamos a eles da mesma maneira, deixando
que nos envolvam, tornando-nos um com eles. Durante esse movimento,
experienciamos o nosso próprio destino especial dos nossos pais, dos nossos
antepassados, mas também daquilo que nós mesmos fizemos, da nossa culpa
e concordamos com esse destino “Sim, este é o meu destino e eu concordo
com ele.”
Então, emerge da alma algo que se acrescenta a isso, pois, passando por
nossos pais e antepassados, atingimos a união com algo maior, que nos toma
e a eles a seu serviço. Desse algo maior emerge uma determinação, uma
tarefa para cada um e daí também a força de nos expormos a ela.
Concordando dessa maneira, tornamo-nos livres, sem sermos desviados por
desejos no primeiro plano. Estamos plenos desse algo maior.
Então, olhamos talvez para um cliente que vem até nós e precisa de aj uda.
Quando olhamos para ele, sentimos também os seus pais, como eles são ou
eram, e nós os aceitamos, com respeito e amor. Olhamos para seus avós e
bisavós, todos são seus antepassados, todos, também os que faleceram
prematuramente. Nele, todos se tornam presentes para nós e fazemos
reverência a eles. Pedimos a sua assistência, então, não somos nós que
começamos a cuidar dele. Seus antepassados nos apoiam e, além deles,
também esse algo maior do qual todos fazemos parte. Percebemos talvez sua
determinação, sua tarefa e seu destino e concordamos com ele.
Então, sentimos o quanto estamos unidos a ele e, ao mesmo tempo,
separados. Tornamo-nos cuidadosos, para que o que quer que façamos esteja
em harmonia com toda a sua família, com seu destino, talvez também c om
sua morte.
Mais uma coisa: quando alguém está com raiva dos pais, censura-os, queixa-
se deles, talvez os despreze, se eu estiver em harmonia com seus pais e seus
antepassados, eu me recuso a ajudá-lo. Ele está perdido. Quando este
primeiro passo não dá certo, ele está perdido. O que irá ajudá-lo? Se eu
abandoná-lo, em harmonia com ele, ao seu destino. Talvez, então, aconteça
a virada que ajuda.
Imaginem o que aconteceria se vocês tomassem o lugar dos seus pais e
tentassem ajudá-lo e, ao mesmo tempo, fossem contra os pais, não tivessem
sua bênção nem a bênção do seu destino? Permanecer em harmonia, aqui,
exige grandeza.
Mais outra coisa. Muitos distúrbios surgem porque alguém na família não
pode ser criança, porque a partir de um emaranhamento algo lhe é i mposto,
algo que torna impossível uma conexão com os pais, por exemplo, se tiver
que expiar uma culpa, repetir destinos que não lhe pertencem. Então
podemos ajudar, procurando até encontrar, indo atrás daquilo que é a ordem
certa, que o libertará dessa carga, possibilitando-lhe ser criança e, enquanto
criança, tomar o que lhe é dado de presente.

O SOFRIMENTO DAS MULHERES CHINESAS

Considerações preliminares
Durante um curso em Taiwan, em outubro de 2001, podia-se notar com que
frequência os participantes eram assaltados por sentimentos violentos.
Ficou claro que esses sentimentos não eram somente pessoais, mas que
neles se expressava uma dor coletiva, o choro e o pesar reprimidos de
muitas gerações de pessoas maltratadas na China, especialmente mulheres
e mães.
Esta constelação documenta um exemplo disso. Ao mesmo tempo, aponta
caminhos que restituem a honra às vítimas e libertam seus descendentes dos
emaranhamentos e dos sofrimentos.

“VOCÊ É PEQUENA DEMAIS PARA ISSO”


HELLINGER para uma cliente O que é que incomoda você?
CLIENTE Meu pai e eu brigamos constantemente. Eu gostaria muito de
melhorar meu relacionamento com ele.
HELLINGER É ele que briga com você ou é você quem briga com ele?
CLIENTE Quando conversamos, eu me sinto ferida por ele muito
rapidamente e fico, então, morta de raiva.
HELLINGER Há mais alguém que também se sente ferida?
CLIENTE Às vezes, minha irmã também.
HELLINGER Quem mais?
CLIENTE Minha mãe e meus avós. Acho o comportamento dele para com
elas impossível e também a maneira de ele conversar com elas.
Hellinger escolhe representantes para o pai e a mãe da cliente. Coloca -os
lado a lado, colocando então a cliente de frente para o pai.
Figura 1

P Pai
M Mãe
F Filha(=cliente)
Após curto tempo, Hellinger coloca a mãe atrás da filha.
Figura 2

Hellinger para a cliente Diga a seu pai “Estou vingando todas as mulheres
deste mundo.”
CLIENTE Estou vingando todas as mulheres deste mundo.
Para Hellinger Quer que eu repita?
HELLINGER Por favor.
CLIENTE Estou vingando todas as mulheres deste mundo.
A representante da mãe, atrás dela, faz caretas e começa a rir alto. A cliente
também começa a rir. Hellinger coloca-a de lado e gira-a de maneira que
ela possa olhar para a mãe.
Figura 3

HELLINGER para a mãe “Você é pequena demais para isso”.


MÃE Você é pequena demais para isso.
A mãe e a cliente riem, o público ri junto com elas.
HELLINGER para a cliente Você está entendendo?
Ela concorda com a cabeça.

A DUPLA TRANSFERÊNCIA
HELLINGER para o grupo Quero esclarecer o que aconteceu aqui. A
maneira como ela se expressou sobre o seu conflito com o pai dá a entender
que estamos lidando aqui com uma dupla transferência.
O que acontece em uma dupla transferência? Quando, por exemplo, existiu
uma mulher em uma família que tenha sofrido grande injustiça por parte do
marido, e se ela tiver suportado isso, sem ficar furiosa e sem se vingar, nesse
caso a raiva foi só reprimida. A raiva vai aparecer mais tarde em um outro
membro da família. Uma ou várias gerações mais tarde, talvez uma moça
assuma a raiva reprimida dessa mulher. Essa é a transferência de sujeito,
daquela mulher para a moça.
Essa raiva é expressa pela moça, mas não frente à pessoa que cometeu a
injustiça com a mulher, mas frente a uma outra pessoa, completamente
inocente.
para a cliente Por exemplo, de você para com seu pai. Essa é a transferência
de objeto, de outro homem para seu pai. Isso faz sentido para você?
CLIENTE Não consigo me conformar com a maneira como meu pai trata
minha mãe.
HELLINGER para o grupo Ela ainda está presa na transferência dupla. Ela
se sentirá ferida pelo pai, independentemente do que ele lhe disser. Não
reage ao que ele diz, mas a outra coisa. Tem os sentimentos de uma outra
mulher e os expressa, independente da situação concreta. Isso se assemelha
a um boxe das sombras* 7. Só as sombras lutam boxe, não as pessoas reais.
A cliente ri. Hellinger coloca-a então diante do seu pai.
Figura 4

HELLINGER para a cliente Diga ao seu pai “Por favor, olhe para mim
como sua filha”.
CLIENTE Por favor, olhe para mim como sua filha.
HELLINGER “Sou apenas uma criança".

7 Xiang Xing Quan - arte marcial chinesa antiga onde os lutadores buscam imitar os movimentos de outros,
também chamado de boxe das sombras ou boxe imitativo (N.R.)
CLIENTE Sou apenas uma criança.
HELLINGER Faça agora uma reverência a ele.
Ela curva-se profundamente. O pai coloca a mão sobre a cabeça dela e a
acaricia.
HELLINGER quando ela se apruma Vá até ele.
Ela dá um passo em direção a ele.
Figura 5

HELLINGER Diga-lhe “Querido papai”.


CLIENTE Querido papai.
HELLINGER “Agora vou ser só criança.”
CLIENTE Agora vou ser só uma criança.
De repente, ela arremessa os braços para o alto, fecha os punhos e os
mantém fechados diante do peito.
Hellinger coloca a mãe ao lado do pai e afasta a cliente um pouco mais
para trás.
Figura 6

HELLINGER para a mãe Diga a ela “Fique fora disso”


MÃE Fique fora disso
HELLINGER “O que acontece entre seu pai e mim não é da sua conta!”
MÃE O que acontece entre seu pai e mim não é da sua conta!
A cliente começa a resfolegar, mantém a mão diante da boca, irrompendo
então em um soluçar ruidoso. Agacha-se e grita, como se sentisse fortes
dores, não conseguindo se conter.
HELLINGER para a mãe Diga a ela mais uma vez “Somos seus pais.”
MÃE Somos seus pais.
HELLINGER “O que acontece entre nós não é da sua conta!”
MÃE O que acontece entre nós não é da sua conta!
HELLINGER “Você é pequena demais para isso”
MÃE Você é pequena demais para isso.
A cliente não consegue se acalmar continua soluçando alto.
HELLINGER para a cliente Agora, levante-se.
depois de ela se levantar Olhe agora para os seus pais. Respire normalmente.
Ela continua não conseguindo se acalmar.
HELLINGER Agora, afaste-se lentamente.
Hellinger a conduz alguns passos para trás. Então, ele a vira de costas para
os pais.
Figura 7

A cliente ainda não consegue se acalmar. Respira fundo e soluça alto.


HELLINGER Mantenha os olhos abertos. Respire com a boca aberta.
Respire normalmente.
A cliente continua respirando pesadamente.
HELLINGER para o grupo Tenho uma imagem estranha. Nesse curso, nós
já vivenciamos com frequência a explosão de sentimentos profundos. Fora
isso, ainda não tinha visto algo assim. Minha imagem é a de que temos a ver
aqui com o sofrimento do povo chinês, principalmente com o sofrimento das
mulheres chinesas, há muitas gerações. Esse sofrimento irrompe aqui nessas
mulheres. Contudo, isso não ajuda ninguém, nem àquelas que sofreram e
nem a estas que tardiamente o expressam.
para a cliente Agora, venha cá.
Hellinger posiciona a cliente de frente para o público.
Figura 8

“SORRIA PARA MIM COM CARINHO, POR FAVOR”


HELLINGER para a cliente Imagine que você esteja olhando para todas as
mulheres que sofreram dessa maneira. Olhe para elas. Mantenha os olhos
abertos e faça reverência a elas, com profundo respeito.
Decorridos alguns instantes, a cliente curva-se profundamente,
permanecendo muito tempo nessa reverência. Então ela se levanta, espera
um pouco e então curva-se mais uma vez, profundamente. Permanece assim
durante um curto tempo, erguendo-se, então, outra vez.
HELLINGER Diga a essas mulheres “Por favor, sorriam carinhosamente
para mim.”
CLIENTE Por favor, sorriam carinhosamente para mim.
Depois de curto espaço de tempo, a cliente começa a sorrir. Apruma -se e
estende os braços.
HELLINGER Mantenha os olhos abertos e olhe para elas. Sim, exatamente
assim.
Após alguns instantes, abaixa os braços e coloca ambas as mãos diante do
peito. Ela respira fundo e chora baixinho.
HELLINGER depois de alguns instantes Está bem assim?
Ela concorda com a cabeça e volta ao seu lugar.

MEDITAÇÃO
HELLINGER após alguns instantes, para o grupo Vou fazer uma meditação
com vocês.
Fechem os olhos. — Como ela fez anteriormente, olhem agora para as
milhões de pessoas que sofreram e faleceram — Olhem para elas no Reino
dos Mortos. Ali jazem os milhões que padeceram e que foram desprezados.
— Olhem também para aquelas pessoas que lhes fizeram isso, os agressores.
— Eles também estão mortos. As vítimas estão mortas, os agressores
também. — No Reino dos Mortos todos se olham, veem o que sofreram,
veem o que fizeram a outros. — E elas começam a chorar — Finalmente
elas choram.
Então todos se erguem e se voltam em direção ao leste, ao horizonte. Lá,
surge uma luz branca. Eles se inclinam diante dessa luz branca, com
devoção. Juntamente com eles, vocês também se inclinam diante dessa luz
branca. Então, recolham-se lentamente, deixando aquelas pessoas nessa
reverência até que desapareçam na distância. Então se virem, voltando ao
reino dos vivos — e olhem para frente.
AS BASES DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES8
Por um lado, as constelações familiares são um método e, por outro lado,

8 Conferência proferida durante o Congresso Internacional de Constelações Familiares em Toledo, dezembro de 2001.
esse método tem na base importantes compreensões. A compreensão mais
importante que está por trás das Constelações Familiares é que toda terapia
só pode dar certo se alguém estiver em harmonia com os próprios pais.
Quando essa harmonia deu certo, no reconhecimento dos próprios pais e no
tomar a vida deles com todo amor, o indivíduo está preparado para tudo o
que vier ao seu encontro na vida. Essa é a ordem mais importante do amor.

A Harmonia com os pais


Por isso, quando alguém quiser ajudar outra pessoa por meio da constelação
familiar, isso só pode ser feito se a pessoa que quer ajudar tiver conseguido
alcançar a harmonia com os próprios pais e — isso é muito importante — se
conseguir a harmonia com os pais dos seus clientes. Quem não puder colocar
em seu coração os pais dos clientes, com todo o respeito que eles merecem,
não conseguirá atingir a alma do cliente. Portanto, é duplamente necessário
estar reconciliado com os pais, com os próprios pais e com os pais daqueles
com quem trabalhamos.
Talvez eu faça um pequeno exercício com vocês, no qual realizamos passo
a passo, em nossa própria alma, o que significa estar em harmonia com os
pais.
Se vocês quiserem, podem fechar os olhos e se centrarem. Imaginem que
estejam diante dos seus pais, olhando para eles. Talvez até se ajoelhem
diante deles, olhem nos seus olhos e digam “Obrigado.” Então, olhem para
aquilo pelo qual vocês agradecem realmente, vocês agradecem aquilo que
não pertence aos pais. Agradecem pela vida que eles deram a vocês, a vida
que os pais receberam dos pais deles e que só flui através deles, até chegar
a vocês. Dessa maneira, os pais estão em uma longa fileira. Atrás deles estão
os pais deles, atrás deles, os pais dos seus pais e assim por diante, através
de centenas e milhares de gerações, até se perder de vista na distância e só
possamos pressentir de onde vem a vida. Ela flui em toda a sua plenitude
através de todas essas gerações. Ninguém que a recebeu e passou adiante
pôde acrescentar ou retirar algo. Qualquer que tenha sido a maneira de ser
dos indivíduos, boa ou má, ela não influenciou a vida. A vida chega até nós
em toda a sua plenitude.
A vida não para em nós. Ela continua a fluir para os próprios filhos, os netos,
os bisnetos e as muitas gerações que ainda estão por vir. Assim, nós també m
estamos nessa fileira dos que receberam e passaram adiante a vida. Não é de
nenhuma relevância a nossa maneira de ser, boa ou má, especialmente
dotado ou menos dotado, pobre ou rico. No tomar e passar a vida em frente
nós somos todos iguais, uns aos outros.
O individual peculiar
Contudo, todos deixam um rastro, algo de peculiar influencia tanto o que
recebemos quanto o que passamos em frente. Destinos, por exemplo,
doenças, algumas vezes sucesso e fracasso. Desse modo, a vida que
recebemos é mais definida, ganhando talvez plenitude e força especiais,
apresentando-nos desafios especiais. Portanto, nós também a recebemos de
uma maneira especial.

A devoção
Como lidar com isso, agora? Nós nos curvamos perante a vida, como ela
chega até nós, com tudo o que dela faz parte e tomando-a assim em nosso
coração e em nossa alma, e curvando-nos perante aquilo que tudo conduz,
sabemos e ficamos sabendo o que é doação e devoção. Dessa maneira, tomar
a vida como ela é torna-se uma realização religiosa, torna-se o próprio ato
religioso, um ato de plena humildade. Quando permitimos que isso ganhe
espaço dentro de nós, sentimos a força especial.
Depois de termos absorvido isso em nós, talvez olhemos para outros com
quem lidamos, principalmente para os que vêm até nós e pedem a juda.
Colocando-nos ao lado deles, olhamos junto com eles para seus pais, avós e
bisavós, para as gerações atrás deles e nos curvamos com eles diante dos
seus pais e do destino especial que lhes está marcado pelas suas vidas. Isso
também é um ato religioso. Nesta harmonia com o próprio destino e o de
outros sentimos até que ponto podemos e nos é permitido ir, quando
constelamos com alguém a sua família.

A harmonia
Quando passamos por este exercício e nos abrimos a ele, sabemos o que quer
dizer não ter intenções e nem medo, neste trabalho. Estamos em harmonia
com forças maiores que ultrapassam, em muito, nossas noções, nosso estudo
superior e tudo o que aprendemos. Em harmonia com a vida, nesse sentido
mais vasto, podemos esperar, junto a um cliente, até que essas forças se
tornem atuantes nele. Só o apoiamos até o ponto em que é necessário e só
até onde nos é permitido. Com essa postura básica estamos capacitados para
trabalhar com as constelações familiares a serviço da reconciliação.

A reconciliação
O que é essencial nas constelações familiares? Elas reúnem o que estava em
oposição. Quando alguém estava excluído de uma família, por exemplo, por
ser considerado mau, porque é deficiente, ou porque nos esquecemos dele,
então há algo perturbado nessa família. Nas constelações familiares, o que
estava excluído volta a fazer parte da família, para a família. Dessa maneira,
completa-se algo incompleto, então, a paz volta a reinar.

Agressores e vítimas
Isso se torna especialmente nítido quando lidamos com vítimas e agressores
em uma família. Quando existem vítimas em uma família, os agressores são
excluídos e quando há agressores em uma família, as vítimas são esquecidas.
Surge, então, um desnorteamento nessa família. Isso tem a ver com uma
consciência coletiva que atua por trás daquilo que consideramos importante
e que não tolera que qualquer pessoa seja excluída. Isso tem ficado cada vez
mais claro para mim, nos últimos tempos.
Vou dar um exemplo. Há poucas semanas, estava em Israel e apresentei as
constelações familiares para estudantes e professores da Universidade Ben
Gurion. Só queria demonstrar brevemente o efeito que causa quando se
constelam pessoas, e pedi a uma mulher para constelar só o pai, a mãe e ela
mesma, e ela fez isso. Lá estavam, então, o pai, um pouco afastada dele a
mãe e a própria mulher, mais afastada, de costas para os outros. O pai olhava
para o chão. De repente vimos que nessa família havia acontecido algo de
especial. Perguntei e a mulher respondeu que muitos membros da família
haviam falecido no holocausto.
Que o pai olhava para o chão, significava que ele estava olhando para os
mortos. Que a representante da mulher estava de costas, significava que ela
queria partir, talvez até morrer. Assim, uma simples demonstração tornou -
se uma constelação, que trouxe à luz fatos essenciais. Neste contexto, é
importante saber que nas constelações essenciais quase sempre se trata de
vida e morte. Permanecendo-se só na superfície não se atinge a real
profundidade.
Constelamos então representantes para as vítimas, mas elas não foram
olhadas pelos sobreviventes. Encontra-se isso frequentemente em tais
famílias. Os sobreviventes e seus descendentes têm medo de olhar para as
vítimas. Constelei, então, mais dois representantes para os agressores. O
estranho foi que ao final veio a bênção dos agressores para essa cliente,
assim ela pode e tem permissão para permanecer na vida.
Pudemos ver aqui que a bênção vem daqueles que são os mais excluídos.
Por isso, no prosseguimento do exercício, o ajudante tem que tomar també m
o agressor em seu coração, exatamente como todos os outros, também os
pais e os avós dos agressores. Também tem que ver os agressores em um
grande contexto. Só assim ele pode contribuir para a reconciliação.
A consciência coletiva
Vou retomar agora o tema da consciência coletiva inconsciente. Essa
consciência coletiva vela para que ninguém permaneça excluído, para que
também em uma família de vítimas os agressores não sejam excluídos e, em
uma família de agressores, as vítimas não sejam excluídas.
Essa consciência coletiva inconsciente impõe também uma outra ordem que
exige que os que vêm antes tenham precedência frente aos que vêm depois,
que os pais, portanto, tenham precedência frente aos filhos, e que o
primogênito tenha precedência frente ao segundo filho e assim por diante.
Mas sob a influência da nossa consciência pessoal, essa ordem é
frequentemente transgredida. Por exemplo, quando um filho quer expiar a
culpa dos seus pais, ele se sobrepõe a eles. Isso é castigado pela consciência
coletiva inconsciente. Toda a tentativa empreendida nessa direção está
condenada ao fracasso. Além disso, o próprio filho se pune pela infração
dessa ordem, sob a influência da consciência coletiva inconsciente.
Nesse contexto, chamo a atenção para algo importante. O ajudante também
é alguém que veio depois. Muitos ajudantes sobrepõem-se aos pais dos
clientes, achando que podem fazer mais do que eles. Com isso, estão
intervindo nos assuntos dos que vieram primeiro e dessa maneira, a terapia
fracassa. Aqui também é válido que o terapeuta deve manter-se o mais
reservado possível, para que possa fazer, em harmonia com a consciência
coletiva inconsciente, apenas o que essa consciência lhe permitir.

Novos caminhos
Nos últimos tempos, as constelações familiares desenvolveram-se em uma
determinada direção. Das compreensões que acabei de citar resultou que é
melhor manter-se mais reservado do que empreender algo. Então, o cliente
entra em contato com forças oriundas da sua família e da sua alma, que lhe
mostram soluções, às quais não temos acesso, quando seguimos somente
nossas reflexões e nossas experiências.
Vou dar um exemplo. No Japão, uma mulher disse que não queria ir para
casa, porque sua mãe a rejeitava. Constelamos então uma representante para
ela e uma para a sua mãe, em frente a ela. De repente, o rosto da
representante da cliente apresentou uma expressão quase assassina. Eu disse
a ela para dizer à sua mãe “Quero matar você”. É ousado propor algo assim,
mas era o que estava escrito em seu rosto. A representante hesitou.
Diante disso, Coloquei a própria cliente naquela posição e mandei que
dissesse à mãe “Quero matar você.” Ela disse isso com toda a agressão.
Perguntei a ela “A frase está correta?” Ela disse “Não inteiramente, mas
quero que ela morra”. Ora, isso é quase a mesma coisa.
Pela minha experiência, eu sei que quem sente algo assim na alma não
consegue viver. Uma pessoa assim às vezes se suicida, mas não fiz nada. Vi
que, aqui, eu não podia continuar, isso não competia a mim. Daí, interrompi
a constelação. Depois eu a esqueci. Esquecer um cliente é a máxima reserva.
Com isso, constrói-se um campo onde se toma do cliente qualquer
possibilidade de desviar-se. Ele não pode desviar-se em direção ao ajudante,
pois este não se encontra nesse campo. Assim, o cliente é comp letamente
lançado de volta para a sua própria alma.
No dia seguinte, pouco antes do final do seminário, ela pediu a palavra e me
perguntou se eu trabalharia de novo com ela. Estava completamente fora de
si. Constelei então uma fileira de antepassados, primeiro a mãe, atrás dela,
a avó da cliente, atrás, a bisavó, depois, a tataravó, oito gerações e, na frente
de todas, a própria cliente. Esta olhou para sua mãe, contudo, da mãe não
fluía amor a ela. Então, virei a mãe para a própria mãe e, da mesma maneira,
não fluiu nada. Espontaneamente, a avó da cliente virou-se para sua própria
mãe, e assim sucessivamente, até a última. Esta, a oitava, tinha cerrado os
pulsos, cheia de ódio e olhava para o chão. Nas constelações familiares,
olhar para o chão significa olhar para os mortos. Pela sua maneira de se
comportar, ficou claro que se tratava de um homicídio. Coloquei então um
homem deitado de costas em frente a essa oitava mulher, na fileira dos
antepassados. Nesse exato momento, a cliente foi até ao chão, arrasto u-se
até esse morto, soluçou alto e o abraçou. Depois disso, a mãe desse morto
pôde igualmente virar-se para ele. Um crime continuava atuando aqui,
através de oito gerações. Então, mandei o morto levantar-se, colocando-o ao
lado da sua mãe. Nesse exato momento a filha dela pôde virar-se para a
própria filha e o amor fluiu. Essa filha também se virou e o amor fluiu. E
assim continuou, até a mãe da cliente. A cliente havia se colocado de frente
para a mãe, se ajoelhado e, engatinhando até ela, abraçou- lhe as pernas,
soluçou alto, olhou para ela e disse “Querida mamãe.”
Estas são as outras dimensões das constelações familiares. Esta constelação
só pôde dar certo porque os representantes seguiram completamente os
movimentos da alma e, assim, algo que fica além dos nossos planejamentos
e das nossas concepções pôde acontecer.

Confiar na alma
Esses movimentos vão mais longe ainda. Sobre isso, um outro exemplo.
Uma vez, no Japão, um cliente sentou-se ao meu lado e eu não fiz nada com
ele. Apenas me uni interiormente a uma força maior e a deixei atuar. Então,
ele passou por um processo, sem que tenha havido nenhuma influência da
minha parte. Deve ter durado quinze minutos e aparentemente nada
aconteceu. Contudo, o grupo todo estava muito concentrado e manteve a
concentração. Decorrido esse longo tempo, o cliente abriu os olhos,
cumprimentou-me com um gesto de cabeça e foi para o seu lugar.
Isto também é constelação familiar? Claro que é! São constelações
familiares invisíveis. Elas se desenrolam interiormente e não nec essitam de
representação externa. Isso também mostra como as constelações familiares
se desenvolveram.
Mas tudo começa do começo, de que eu falei no início.

A ESPANHA E O NOVO MUNDO

Considerações preliminares
Em novembro de 2002, uma mãe compareceu com seu filho psicótico ao
curso para Pacientes Psicóticos, em Palma de Mallorca. Durante a
constelação, mostrou-se que o pai do paciente olhava para muitos mortos e
que era atraído por eles, e que o filho queria aproximar-se dos mortos com
ele ou no lugar dele.
Em seguida, foi constelada uma fileira de antepassados, para se descobrir
em qual geração havia vítimas falecidas, pois em casos de psicoses pode -
se ver com frequência que o paciente se encontra identificado
simultaneamente com um agressor e com uma vítima, e que isso tem suas
raízes há muitas gerações passadas. Por isso, foram posicionados nove
homens. Cada um deles representava uma geração, começando com o pai
do paciente, prosseguindo com a geração do avô, seguindo com a do bi savô
e assim por diante. Quando os representantes se concentram, pode-se ver,
depois de algum tempo, em qual das gerações o acontecimento decisivo teve
lugar.
Nessa constelação de antepassados, foi mostrado que esse acontecimento
devia estender-se até a época da conquista do Novo Mundo, de modo que,
nesta constelação, veio à luz como esses acontecimentos atuavam ainda, até
o momento presente, em muitas almas. Este relato começa aqui com a
constelação dos antepassados.

OS CONQUISTADORES E SUAS VÍTIMAS


HELLINGER para o grupo Gostaria de experimentar e, ao mesmo tempo,
demonstrar algo.
Hellinger escolhe outra vez o pai do cliente e outros oito homens,
colocando- os um atrás do outro.
Figura 1

P Pai
Av Avô
Bv Bisavô
A4 Quarto antepassado
A5 Quinto antepassado
A6 Sexto antepassado
A7 Sétimo antepassado
A8 Oitavo antepassado
A9 Nono antepassado
F Filho (=cliente)
HELLINGER para o grupo Agora, isto é uma fileira de antepassados. Estas
são as gerações do pai, do avô, do bisavô etc.
Hellinger coloca o filho, o paciente psicótico, também.
HELLINGER para o grupo Em casos de psicose, com muita frequência algo
remonta a muitas gerações passadas. Com uma fileira de antepassados como
esta, pode-se constatar em qual das gerações ocorreu o acontecimento que
continua atuando até o presente.
para os representantes Vocês todos agora estão centrados. Quando sentirem
que algo começa a se movimentar, cedam a este movimento.
para o filho Nós vamos olhar para isso.
O pai vira-se um pouco para a direita e olha para o chão. O quarto
antepassado empurra os homens à sua frente, um pouco para diante. O
quinto e o sexto o seguem nesse movimento. O pai virou-se, olhando para
as gerações atrás dele. O sexto antepassado olha um pouquinho para trás e
se encosta nos outros à sua frente, que agora ficaram apertados uns aos
outros. Do quarto ao sexto antepassados, todos encostaram a cabeça nas
costas do precedente.
Assim, abre-se uma lacuna entre o sexto e o sétimo antepassados.
Figura 02

O oitavo antepassado colocou suas mãos sobre os ombros do sétimo, à sua


frente. O sexto olha ocasionalmente para trás. Os antepassados, do quarto
ao sexto, parecem estar muito aflitos, estão em pé, mas curvados, olhando
para o chão.
Hellinger coloca agora um representante para as vítimas falecidas, deitado
entre o sexto e o oitavo antepassados. Nesse mesmo instante, o pai se vira
e apoia-se no seu pai. Os antepassados atrás dele, até o quinto, empurram-
se para frente, como se quisessem fugir do que estava atrás deles.
O sexto antepassado afasta-se para o lado e olha para o morto. O oitavo
também olha para o morto, enquanto o sétimo vira a cabeça para a
esquerda, como se não quisesse olhar para lã.
Figura 03

V1 Primeira vítima
O sétimo antepassado vira-se mais ainda para a esquerda. Hellinger
escolhe um outro representante para uma vítima e coloca-o no lugar, para
onde o sétimo antepassado olhava.
Figura 04

V2 Segunda vítima
O quarto e o quinto antepassados se empurram para mais longe dos mortos.
Hellinger os vira um pouco, para que tenham que olhar para eles. O bisavô
também olha para os mortos. O filho aproxima-se.
Figura 05

O oitavo antepassado segura o ombro do sétimo. Este, contudo, rebela-se


contra esse gesto e cruza os braços diante do peito. A primeira vítima
estende sua mão esquerda para o alto. Como reação, o oitavo vira o sétimo,
de modo que ele tenha que olhar para essa direção. Então, a vítima se vira
para o lado e toca com sua mão os pés do sétimo antepassado. O quinto se
agachou, nesse ínterim.
O sétimo antepassado começa a soluçar alto, mas continua mantendo os
braços cruzados diante do peito. Ele se apoia no oitavo e tem que ser
sustentado, para não cair no chão.
Hellinger conduz agora o filho até seu pai. Primeiro eles se segur am pelos
braços e então se abraçam firme e intimamente.
Figura 06

A primeira vítima se aproxima mais do sétimo antepassado. Este soluça


mais fortemente. Juntamente com o oitavo antepassado, ele se abaixa até a
primeira vítima. Após certo tempo, o oitavo puxa a primeira vítima para
junto de si. Ele e o sétimo antepassado, que ainda soluça, acariciam a
vítima, acolhendo-a. O nono aproxima-se desse grupo, mas então se desvia.
O avô e o bisavô abraçam por trás, bem apertado, o pai e o filho. Eles
formam agora um grupo próprio, como se quisessem com isso não ter nada
a ver com as gerações à sua frente. Os antepassados, do quarto ao sexto,
juntam-se a este grupo.
Depois de pouco tempo, eles formam um círculo ao redor do filho e o
abraçam com força.
Figura 07

HELLINGER decorridos alguns instantes Estava claro que, quando o


primeiro morto foi colocado, o pai pôde virar-se. Portanto, o que havia
acontecido antes (o fato de, na constelação anterior a esta, ele ter olhado
para muitos mortos) tem a ver com algo acontecido há muitas gerações atrás.
E quem eles estão abraçando lá? Um morto. Pois o filho representa os mortos
das gerações passadas.
para o grupo Fechem agora os olhos. Tenho uma imagem estranha. O que
vemos aqui talvez seja uma consequência do que os espanhóis fizeram a
outros, aos mouros, por exemplo. Aqui em Mallorca foram mortos todos os
mouros, e depois no Novo Mundo.
Agora podemos dar a todos eles um lugar no nosso coração — a todos, à
custa de quem a Espanha se enriqueceu. — E olhar com amor para eles, para
todos eles. Olhar também para agressores e permitir-lhes interiormente que
se cheguem às suas vítimas, olhem-nas, deitando-se junto a elas. — E todos
os mortos e as vítimas se erguem como um poderoso exército e dizem: “Nós
ainda estamos aqui.” — E a cruz clara se torna escura.
Nesse meio tempo, o sétimo antepassado deitou-se ao lado do morto,
abraçando-o.
Figura 08

HELLINGER para os representantes Isso foi tudo. Agradeço a todos vocês.


para o filho, o cliente-. Como você está?
FILHO Mais tranquilo
HELLINGER Eles fizeram muito por você. Qual é o seu caminho?
FILHO Para frente.
HELLINGER Para os homens. Ok?
O filho balança a cabeça, concordando.
CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS
A alma 9
A alma é uma força que une o que está separado, conduzindo-o para uma
determinada direção. Por exemplo, o trabalho conjunto dos nossos órgãos
só é possível porque existe uma força que os une e governa. Assim,

9 Extraído de um Curso para Pacientes Psicóticos em Palma de Mallorca, novembro de 2002


vivenciamos a alma dentro de nós mesmos.
Ao mesmo tempo, a alma une os membros de uma família e os conduz a uma
determinada direção. Isso também é alma, alma expandida. Essa alma não
tolera que qualquer coisa fique excluída. Aqui também os movimentos da
alma querem unir algo que está separado. A alma maior, essa alma familiar,
conduz os representantes em uma constelação familiar. Eles são possuídos
por ela, por assim dizer, e se movimentam em uma direção, em cujo final
esse mesmo movimento une o que estava separado.
Algumas vezes, podemos imaginar o que seria decisivo àquilo que une e
sabemos, através de determinadas experiências, o que pode ou talvez deva
ser a solução, ao final. Muitas dessas soluções estão descritas no meu livro
Ordens do amor. Essas ordens se mostram na constelação familiar e, em
muitas famílias, contribuíram para que o que estava separado se unisse
novamente. Quando se trata de coisas graves e de destinos especiais, os
movimentos da alma tomam frequentemente uma direção diferente daquela
que esperávamos e talvez desejássemos, por exemplo, conduzindo às vezes
à morte, de modo a que a morte pareça inevitável. Contudo, se confiarmos
nesse movimento, sem nele intervirmos, sem a ele nos opormos, então esse
movimento às vezes dá uma virada inesperada, de modo a mostrar uma
solução que não podíamos prever e que extrapola, em muito, aquilo que
podemos desejar. No final, talvez reconheçamos que estávamos unidos a
algo maior, diante do qual nosso pensamento e nossos desejos fracassam.
Quando vemos o que se passa nesse movimento, gostaríamos às vezes de
entendê-lo melhor, e suspeito que é o que muitos de vocês pensam, o que eu
compreenderia, mas não diria a vocês. Pois eu também não sei.
Simplesmente olho e vejo o efeito que tem.
No fim de um tal movimento está a seriedade. Aqui toda a brincadeira
termina e leva a uma concentração interior especial, não somente junto aos
representantes e clientes, mas também em todos que ali se encontram e
realizam esse movimento em suas almas. A partir dessa concentração e dessa
seriedade pode-se deduzir que o que se passou tem significado, mesmo que
não o compreendamos.
Nas constelações familiares, como é do conhecimento de muitos, chegamos
com muita frequência só até aos avós, talvez aos bisavós. Dentro de ssas
gerações recebemos uma imagem nítida da pessoa com quem alguém está
emaranhado. Algumas vezes, contudo, os emaranhamentos se estendem a
gerações muito anteriores. Em algumas constelações pode-se ver que,
passando por muitas gerações anteriores, algo de decisivo aconteceu, que
não se pode mais compreender, mas que nos influencia no tempo presente.
Em psicoses, os pacientes são frequentemente influenciados por um passado
que jaz muito atrás. Também com os índios da América, tanto na do Norte
quanto na do Sul, pode-se ver que ainda são intensamente influenciados pelo
que aconteceu há séculos atrás, sem que se possa fixar o que tenha sido.
Até onde pude ver, até o momento presente, é sempre a mesma coisa que
causa esse efeito, que influencia tão intensamente destinos de gerações
posteriores. Trata-se sempre de um ou vários homicídios.
Então o que acontece com alguém que matou outra pessoa? Ele perde sua
alma, então, essa alma é procurada. Quando o assassino não a encontra, as
gerações posteriores procuram essa alma. E onde está ela? Na vítima. Lá, na
vítima, pode-se buscá-la de volta. Por isso, o olhar sobre as vítimas e o pesar
em relação ao seu destino, com profunda empatia, são necessários, quando
procuramos por essas grandes soluções que levam à paz. Dessa maneira,
acolhemos essas vítimas em nossa alma. Assim acolhemos também a alma
perdida dos agressores e só assim o que passou pode, de fato, ficar no
passado.
Exemplo: perdido e (re)encontrado10
HELLINGER para uma cliente De que se trata?
CLIENTE Meu filho de vinte anos apresenta um conjunto de sintomas que
vão de obsessões à esquizofrenia.
HELLINGER Onde está a alma perdida? Em quem? Onde ela tem morada?
CLIENTE Eu não sei. Ruídos o incomodam muito.
HELLINGER Sei onde ela está. Eu o sei, partindo do que você nos narrou
anteriormente. Pelo menos sei onde podemos procurá-la. Em quem?
CLIENTE No meu pai, nessa velha história da família do pai, da qual não
sabemos muito.
HELLINGER Você me disse isso antes, já sei disso. Está bem, vou
apresentá-la. Confio aqui nos movimentos da alma.
Hellinger escolhe um representante para o filho e o coloca em frente a uma
mulher.
Figura 01

F Filho

10 Extraído de um curso para pacientes psicóticos em Palma de Mallorca, Novembro de 2002


M Mulher (não foi dito quem ela está representando)
Ambos olham-se durante muito tempo. Depois disso, o filho agita
nervosamente os dedos.
Hellinger escolhe um representante para o pai do filho e o coloca em frente
da mulher.
Figura 02

P Pai
O filho fica mais calmo e olha para o chão. A mulher dá alguns passos em
direção ao homem, estendendo-lhe as mãos. O homem levanta os ombros,
aproxima-se vagarosamente da mulher, fazendo movimentos compulsivos
com os lábios. Quando a mulher toca suas mãos, ele levanta os ombros mais
ainda, curva-se para frente, coloca a cabeça no ombro esquerdo da mulher.
Com o braço esquerdo, ela puxa a cabeça dele, abaixando-a na sua direção,
enquanto ele deixa os braços caídos. Então, ele levanta os ombros mais
ainda, deixa os braços caírem pesadamente sobre os ombros da mulher,
puxa-a para si com violência, luta com ela de tal forma que ela fica com
medo e tenta se libertar.
HELLINGER Pare!
O representante do pai solta a mulher, ela se liberta.
Figura 03

HELLINGER para o grupo Esta mulher é a primeira mulher do pai.


Disseram que ele se separou porque ela queria suicidar-se. Contudo, o que
aconteceu realmente aqui? A constelação mostra: ele é que queria matá -la.
O representante do pai está muito comovido. Respira pesadamente e c hora.
O filho levanta os ombros, mantém as mãos diante da barriga e movimenta
energicamente os dedos, olhando para o chão.
HELLINGER para o grupo O filho tem pensamentos compulsivos e está de
cama há três anos. Isso o protege de se tornar um assassino.
O representante do pai aproxima-se lentamente da mulher, outra vez. Vê-se
que ele mal pode conter seus impulsos agressivos.
HELLINGER Pare!
HELLINGER para o grupo Não podemos continuar aqui, pois ele está
emaranhado. Portanto, devemos olhar o que aconteceu na sua família, que o
leva a ter esses impulsos. Por isso, vou colocar uma fileira masculina com
um representante para cada geração, como já fiz ontem. Hellinger escolhe
oito representantes para os antepassados e os posiciona atrás do pai,
colocando o filho à parte.
Figura 04

Av Avô
Bv Bisavô
A4 Quarto antepassado
A5 Quinto antepassado etc.
O pai curva-se e coloca a cabeça junto ao peito da sua primeira mulher, os
braços ao seu redor e os dela, ao redor dele. O sexto antepassado ameaça
cair para trás, o sétimo olha para o chão. O oitavo antepassado inclina-se
lentamente para a direita e olha para o chão.
Hellinger escolhe uma representante para uma vítima e a deita, no campo
de visão deste antepassado.
Figura 05

V Vítima
Hellinger deita o filho ao lado da vítima, que tenta segurar a mão dele.
HELLINGER para o filho Como está se sentindo?
FILHO Continuo me sentindo intranquilo.
HELLINGER decorrido algum tempo, ao oitavo antepassado, que já se
encontrava profundamente inclinado para a direita Deite-se ao lado deles.
Ele se deita ao lado da vítima. O quarto, o quinto, o sexto e o sétimo
antepassados olham para ele e para a vítima no chão. O nono vira-se,
olhando em outra direção. O pai aproxima-se cada vez mais do chão.
Figura 06

Quando o oitavo antepassado se deita ao lado da vítima, ela se afasta dele.


HELLINGER para o grupo A vítima segura a mão do filho e é empurrada
pelo homem ao seu lado.
para o filho Olhe para ela.
O filho e a vítima se olham, enquanto permanecem deitados um ao lado do
outro.
HELLINGER para o pai Olhe você também para lá.
O pai e também a maioria dos antepassados olham para a vítima.
Figura 07

O oitavo antepassado vira-se outra vez para os outros. O filho e a vítima


abraçam-se com sentimento. Ele acaricia as faces dela.
HELLINGER para o grupo Agora ele está encontrando a alma.
O sexto antepassado ajoelha-se ao lado do oitavo deitado no chão, acaricia-
o, abraça-o e deita-se ao seu lado. O nono antepassado vira-se outra vez.
O sétimo se coloca atrás do sexto.
Figura 08

O pai agora aproxima-se do chão e se ajoelha. A mulher deita-se ao seu


lado. Logo em seguida, o pai também se deita ao seu lado. O avô e o bisavô
viram- se para eles.
Figura 09

HELLINGER para o filho Como você se sente agora?


FILHO Estou em paz.
HELLINGER para a vítima E você?
VÍTIMA Eu também. Estou bem calmo.
HELLINGER para o pai Como você está?
PAI Estou muito próximo dela.
HELLINGER Acho que posso deixar como está.
para os representantes Muito obrigado.
Hellinger e a mãe do filho olham-se longamente.
HELLINGER Todos têm um lugar no meu coração.
A mãe não diz nada e olha para o vazio.
HELLINGER para a mãe Não diga nada ao filho. Confie na alma e coloque
você, também, todos eles no seu coração. Ok?
A mãe concorda com um gesto de cabeça.
HELLINGER para o grupo Quando olhamos agora para este filho e para o
que ele carrega, olhamos, talvez, para seus irmãos. Onde está o amor mais
profundo? E onde está a grandeza? 11

CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS
Compreensão através da harmonia12
Como é possível trabalhar do jeito que mostrei aqui para vocês? Sou
vidente? Não. Um representante é um vidente, quando sente de repente o
que está acontecendo lá. Ele apenas está conectado, eu também estou
conectado. Exponho-me, mas com responsabilidade. O representante não
tem responsabilidade alguma, apenas mostra o que se passa nele, enquanto
eu, como ajudante, devo ter em mente um todo maior e com o sentimento.
De maneira semelhante à do representante, abstraio-me dos meus próprios
sentimentos, dos meus próprios pensamentos, assim como da minha própria
intenção. Deixo-me conduzir e, de fato, sem temor. Esta é a base aqui. Às
vezes digo frases que podem levar a pensar: Como é que pode! Muitos de
vocês sentiram as mesmas frases, mas não tiveram coragem de dizê-las.
Quando se está em harmonia, até a maior ousadia é certa. Pode-se ver isso
no efeito.
Portanto, expondo-se a isso, entra-se em harmonia com o sistema maior. De
modo semelhante ao que acontece com os representantes, sendo que pode
demorar um pouco até que sintam qual é o movimento necessário, assim
ocorre também com o ajudante. O representante não sabe para onde o
movimento o leva. Eu também não sei. Somente após algum tempo é que
sinto: por exemplo, o próximo passo é que devo acrescentar uma pessoa.
Sinto também se deve ser um homem ou uma mulher. Desse modo, confio
nesse movimento, então o trabalho é condensado sem qualquer
complemento. Depois disso, eu me recolho novamente. A alma do cliente
continua a trabalhar sem mim.
Pode-se penetrar nessa postura. Os que foram escolhidos várias vezes como

11 O curso para pacientes psicóticos de Palma de Mallorca, novembro de 2002, está documentado no vídeo: Bert Hellinger:
A reconciliação do que está separado. Um curso para pacientes psicóticos em Palma de Mallorca. Alemão/Espanhol.
12 Extraído do curso para pacientes psicóticos em Palma de Mallorca, novembro de 2002.
representantes conseguem mais facilmente, já sabem o quanto podem
confiar nesse movimento. Depois de algum tempo é como andar cegamente
para a frente, no escuro, contudo, encontra-se exatamente o que é certo.
Nesse trabalho, o ajudante não é perfeito, naturalmente. Algumas vezes
acontecem erros, mas isso não é tão importante porque se equilibra no
movimento maior. É muito difícil e é necessário um grande esforço para
tirar a alma do seu caminho.
O ajudante sente se ainda está em harmonia, permanecendo tranquilo.
Enquanto ele permanecer tranquilo, está tudo bem. Logo que ele ou o grupo
ficar intranquilo não se acertou o alvo. Então, só há um remédio.
Interromper imediatamente.

O INCAS

Considerações preliminares
Durante um curso em Washington, em agosto de 2002, uma índia peruana,
que sabia que fazia parte dos Incas, veio até mim. Convidou-me a ir ao Peru
para me mostrar a cidade inca de Machu Picchu. Para ela, este lugar tinha
significado.
Quando trabalhei com ela, de repente o antigo reino inca e seus
antepassados perdidos se tornaram presentes.

MACHU PICCHU
CLIENTE Estou voltando agora ao Peru, após 22 anos.
HELLINGER Espere um pouco.
para o grupo Ela modificou-se repentinamente, entrando num sentimento
infantil. Enquanto permanecer neste sentimento, não posso trabalhar com
ela nesse grupo de aprendizagem, a não ser que me envolva em uma terapia
com ela. A questão é: do que se trata agora, no seu caso? Que idade ela tem,
neste sentimento? Pode-se ver em seu rosto a idade que tem, neste
sentimento.
para a cliente Entre novamente nesse sentimento, para que possamos
observá-lo.
depois que o rosto da cliente havia se modificado mais uma vez Ela agora
se encontra em uma situação totalmente diferente. Agora tem o rosto de uma
mulher muito velha. Está identificada com outra pessoa.
para a cliente Como você é, quando você mostra seu rosto verdadeiro?
Existe um truque para levar alguém a mostrar seu rosto verdadeiro. Você
quer que eu mostre? Então, sente-se ao meu lado.
depois de ela ter-se sentado ao lado dele Qual é a cor dos meus olhos? Você
consegue ver?
Ambos se olham.
HELLINGER para o grupo Ela ainda não está olhando direito. Vocês
conseguem ver isso? Ela está em outro lugar.
HELLINGER para a cliente Qual é a cor dos meus olhos?
CLIENTE Castanho como avelãs.
HELLINGER Castanhos cor de avelãs? Ninguém até hoje me tinha dito que
tenho olhos cor de avelã.
Ecoam risos no grupo. A cliente ri um pouco.
HELLINGER para o grupo Vocês viram o rosto dela? Este é o seu
verdadeiro
rosto. Pudemos entrevê-lo por alguns instantes.
para a cliente Qual é a verdadeira cor dos meus olhos?
CLIENTE Depende de para onde você está olhando e da luz. Algumas vezes
são azulados, outras, acastanhados.
para o grupo Então, sou um camaleão?
Outra vez ecoam risos no grupo. A cliente também ri.
HELLINGER ao grupo Vocês observaram o rosto dela agora? Foi de novo
o seu verdadeiro rosto. Os outros são identificações.
para a cliente Você fica bonita quando podemos ver seu verdadeiro rosto.
Ela ri.
HELLINGER Tudo bem, foi somente um pequeno exercício e uma
experiência de aprendizagem para todos.
para o grupo Para se ter determinados sentimentos, principalmente quando
se trata de sentimentos tristes ou infantis, não se pode olhar. Esses
sentimentos são nutridos por uma imagem interior. Para se conservar esta
imagem, tem-se que fechar os olhos ou olhar para outro lugar. Se vocês
olharem bem para ela vão ver que ela está em outro lugar. Só é possível
manter tais sentimentos quando não se olha exatamente para o que se tem à
frente.
após alguns instantes Ela parece uma velha deusa inca. No seu rosto, vemos
o sofrimento de todo um povo.
Ela está muito comovida.
HELLINGER outra vez após alguns instantes Vá para Machu Picchu. Vá
para lá.
Ela sorri levemente.
HELLINGER Vá para lá.
No rosto dela delineou-se uma dor profunda.
HELLINGER Vá para lá. Vou acompanhar você.
Ela cobre rapidamente o rosto com as mãos e chora. Então cobre o rosto
mais demoradamente, enquanto chora.
HELLINGER após certo tempo Olhe atentamente para todos e diga-lhes:
“Ainda não acabou.”
CLIENTE Ainda não acabou.
HELLINGER “Vocês ainda estão presentes.”
CLIENTE Vocês ainda estão presentes.
HELLINGER Dentro de mim, vocês ainda estão aqui.
Ela cobre o rosto com as mãos, respira profundamente e chora. Então,
depois de uma longa luta interior:
CLIENTE Dentro de mim, vocês ainda estão aqui.
Ela soluça e cobre novamente o rosto com as mãos.
HELLINGER Olhe para todos. Eu lhe dou todo o tempo necessário.
Novamente ela cobre o rosto com as mãos e soluça. Então, do fundo do seu
peito ecoa um forte grito queixoso.
HELLINGER Deixe sair como é. Dê espaço ao luto e à queixa.
Por várias vezes esse grito queixoso se rompe para fora. Depois, ela se
acalma um pouco.
HELLINGER Levante-se.
Ela se levanta, cruza primeiro as mãos diante do ventre, soltando -as em
seguida, cerra os punhos e respira com dificuldade. Ela gostaria de fazer
alguma coisa com esses punhos cerrados, mas não sabe o quê.
HELLINGER Mantenha os olhos abertos.
Ela se endireita, erguendo-se um pouco mais e cerra novamente as mãos
diante do rosto. Deixa caírem as mãos, solta os punhos cerrados e acalma -
se.
HELLINGER decorridos alguns instantes Diga a eles: “Vocês não estão
perdidos.”
Ela aguarda, sacode primeiro negativamente a cabeça, mas acaba dizendo:
CLIENTE Vocês não estão perdidos.
HELLINGER Olhe para eles.
CLIENTE Vocês não estão perdidos.
após alguns instantes, ela repete Vocês não estão perdidos.
HELLINGER depois de alguns instantes Agora ela mostra a força dos
antepassados.
Ela começa a ficar radiante e ri.
HELLINGER Ok. Bom.
Ela está radiante, ri e se senta.
HELLINGER para o grupo Ela não é linda?
CLIENTE Obrigada.

CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS
Os mortos 13
Descobri algo sobre os mortos. Não sei até que ponto isto está correto, mas
pode-se sentir na própria alma o efeito que causa, quando damos espaço a
isso.
Quais são os mortos que estão bem? Quais completaram a morte e têm paz
eterna? Aqueles a quem permitimos que sejam esquecidos.
Também podemos imaginar como seria conosco, quando morremos e somos
lembrados e quando morremos e somos esquecidos. Onde está a
completude?
Depois de algum tempo, todos os mortos devem ter o direito de serem
esquecidos. Algumas vezes, ainda existe algo contrário a isso. Devemos
respeitá-los, talvez agradecer-lhes e talvez sentir luto por eles. Então, estão
livres de nós e nós deles.

A GUERRA CIVIL NA COLÔMBIA

Considerações preliminares
Durante os trabalhos do Congresso Internacional de Toledo, em dezembro
de 2001, uma cliente disse que seu pai havia fundado um movimento de
guerrilhas. Durante a constelação, que decorreu totalmente sem palavras,
mostrou-se quão profundamente essas guerrilhas estavam dominadas por

13 Extraído do Curso para Pacientes Psicóticos em Palma de Mallorca, dezembro de 2002.


medo dentro da sua alma e desesperançadas. Ao final, só restou o luto para
elas, para o país e para a cliente.

A CULPA
HELLINGER para uma cliente De que se trata, no seu caso?
CLIENTE Meu pai fundou na Colômbia um movimento de guerrilhas. Toda
a minha vida me senti constantemente ameaçada.
Hellinger escolhe cinco homens para os guerrilheiros e os coloca um ao
lado do outro.
Figura 01

G1 Primeiro guerrilheiro
G2 Segundo guerrilheiro e assim por diante.
HELLINGER para o grupo Estes são representantes dos guerrilheiros, mas
não vou dizer quem é o pai.
O segundo guerrilheiro reclina-se para trás e ameaça cair. Respira com
dificuldade. O primeiro olha para ele.
O terceiro guerrilheiro vira a cabeça o tempo todo, para a direita e para a
esquerda. O quarto olha para o chão. O quinto olha fixamente em frente.
Hellinger escolhe uma representante para a Colômbia e coloca-a de frente
para os guerrilheiros.
Figura 02

C Colômbia
O terceiro guerrilheiro aproxima-se lentamente da Colômbia. Obviamente
ele representa o pai da cliente. O segundo afasta-se um pouco. O primeiro
também se afasta e vira-se em direção ao segundo. Ambos oscilam, como se
fossem cair a qualquer momento. Então, o segundo guerrilheiro encosta -se
no primeiro, com os braços caídos, e este o segura.
Nesse meio tempo, Hellinger já havia colocado também a cliente na
constelação. Ela vai até a Colômbia e ambas se abraçam intimamente.
Figura 03

Cl Cliente
A Colômbia segura a cliente como uma mãe segura um filho. Permanecem
muito tempo nesse abraço. Então, a Colômbia vira a cliente, abraçando -a
por trás. Ambas choram e respiram com dificuldade. De vez em quando, a
Colômbia lança um breve olhar para os guerrilheiros. Depois de algum
tempo, a cliente cai ao chão e puxa a Colômbia consigo. Ambas sentam-se.
A cliente soluça alto.
O terceiro guerrilheiro continua olhando sempre para trás, para os outros
guerrilheiros. Parece que eles estão muito mal. Então, volta-se totalmente
para eles. O quarto guerrilheiro vai até ele e ambos se abraçam. O quinto
estende, suplicante, as mãos, em direção ao terceiro guerrilheiro. O
primeiro segura o segundo por trás.
Figura 04

O terceiro guerrilheiro vira-se, junto com o quarto, para a Colômbia, que


continua sentada no chão com a cliente. Então a representante da Colômbia
se vira para os guerrilheiros, segurando ainda a cliente, que continua a
soluçar alto, no seu peito.
O segundo guerrilheiro cai de joelhos, olha para o chão e curva -se
profundamente. O quinto continua em pé, com as mãos estendidas.
Figura 05

O quinto guerrilheiro deixa as mãos caírem e olha para o chão. Nesse


momento, o terceiro coloca a cabeça sobre os ombros do quarto e começa
a chorar.
A Colômbia nina a cliente. Ambas continuam sentadas no chão. Aí então a
cliente se acalma e olha, juntamente com a Colômbia, para o pai, o terceiro
guerrilheiro.
Figura 06

HELLINGER Vou deixar assim.


para o grupo Refleti sobre qual seria o grande ideal de todos esses
movimentos. Ali existe, em algum lugar, uma esperança e, se olharmos com
mais exatidão, ela é um túmulo. É lá que está o que resta ao plano humano.
O que vimos aqui permanece dentro da alma. Vemos o que se passa na alma
dos indivíduos. Não sabemos a serviço de quem estão os assassinos. Eles
são marionetes, movidas por algo maior, mas parecem muito orgulhosos
disso. Isso faz parte da máscara.
Tivemos algumas percepções do que ali ocorre. Se permitirmos que atuem
dentro de nós, isso nos faz modestos.
Tive certa vez uma imagem sobre esses idealistas e sobre aqueles que fogem
do seu ideal.
Aqueles que conseguem se opor aos movimentos idealistas compor- tam-se
como uma vaca atrás de uma cerca de arame farpado. Enquanto houver o
que comer, ela fica longe da cerca. Então, ela busca uma lacuna. Embora
não sejam heróis, eles sobrevivem. 14

CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS
A paz 15
Há pouco tempo, estive em Israel. Fiz então uma pequena excursão ao Lago
de Genezaré, onde há 2000 anos peregrinava um homem de Nazaré, que
discorreu sobre as oito bem-aventuranças. Reinava uma paz maravilhosa
nesse lugar. Podia-se perceber que era um lugar especial.
Lá, recordei-me do que Jesus disse sobre o que traz bem-aventurança. Uma
delas era: "Bem-aventurados os pacíficos e aqueles que trazem a paz. Eles
se chamam filhos de Deus.” E disse ainda: “Amem vossos inimigos. Façam
o bem àqueles que vos odeiam.”
Às vezes, existe uma grande inimizade e um grande ódio no seio do
relacionamento mais íntimo. Por quê? Porque no seio de um relacionamento
muito íntimo é que se pode ser ferido mais profundamente, mas não tanto
porque um faça algo ao outro, a ferida mais profunda é que ele não realize
uma esperança sonhada. Bem-aventurados são os que amam seus inimigos,
os que fazem o bem àqueles que os odeiam.
Atinge-se então um plano mais elevado. Jesus descreve-o assim: “Meu Pai
Celestial faz o sol brilhar sobre justos e injustos e faz chover sobre bons e
maus da mesma maneira.”. Quem alcança este amor, brilha como o sol sobre
todos, do jeito que são, apesar de serem diferentes, como o homem e a
mulher, por exemplo. E deixa a chuva cair, o que traz bênçãos sobre cada
um, do jeito que é. Refleti sobre isso junto ao lago de Genezaré.
Então, procurei entender: o que se passa na alma, qual é o processo que ao
final possibilita este amor? E quanto a este tema, ocorreu-me uma frase:
“Amar é: eu reconheço que todos, do jeito que são, são iguais a mim, perante
algo maior.” Isto é amor. Sobre esta base, tudo pode se desenvolver.

14 Esta constelação está documentada no vídeo: Bert Hellinger: As bases e os novos caminhos das Constelações Familiares.
Alemão/Espanhol, 115 minutos. À venda em: Movements of the Soul Video Productions. Contato: Harald Hohnen,
Uhlandstr. 161, D- 10179, Berlim.
15Extaído de uma conferência por ocasião do Congresso Internacional de Toledo, dezembro de 2001.
E o que é humildade? A mesma coisa: “Eu reconheço que todos, por mais
diferentes que possam ser, são iguais a mim perante algo maior.” Humildade
quer dizer reconhecer que se é apenas uma pequena parte de uma grande
variedade, e que a completude só será atingida quando todas as diferenças
puderem estar em igualdade, tendo o mesmo valor, uma ao lado da outra.
E quando tiver havido feridas? “Perdoar e esquecer são a mesma coisa: Eu
reconheço que todos, por mais diferentes que possam ser, igualam-se a mim
perante algo maior.”
Podemos fazer aqui um pequeno exercício para nos introduzirmos neste
amor. Imaginem que vocês se dirijam a cada uma das pessoas que tenham
ofendido ou magoado vocês na vida e dizem a cada uma delas: “Sou como
você.” A cada uma dessas pessoas, individualmente: “Sou como você.”
Depois, vocês imaginam estar diante das pessoas a quem ofenderam ou
magoaram, de um jeito ou de outro, e dizem então a cada uma delas: “Sou
como você. Você é como eu.”
O que sentimos ao final de tal exercício? Pode-se resumir em uma palavra:
Paz.
A VIOLÊNCIA NA REPÚBLICA DOMINICANA
Considerações preliminares
A cliente, sobrinha de um conhecido defensor dos direitos civis, que era
negro, relatou durante o Congresso Internacional em Toledo, em dezembro
de 2001, a violência na sua família, e que seu pai havia sido assassinado
por motivos políticos. Quando foram constelados representantes dos
caçadores e dos mercadores de escravos e esses se curvaram diante dos
descendentes das suas vítimas, pôde-se ver como isso atuava no presente e
como levava ao fim da violência e à reconciliação.

OS MERCADORES DE ESCRAVOS
Hellinger olha demoradamente para a cliente. Ela fecha os olhos e começa
a chorar. Olha então para Hellinger e respira fundo. Ele coloca o braço em
torno dela e puxa-a para si. Ela coloca a cabeça no seu peito e soluça.
HELLINGER após uns instantes O que aconteceu?
CLIENTE soluçando fortemente Meu pai morreu quando eu tinha seis anos.
Não consigo me lembrar de nada. Ele tinha uma relação muito violenta com
minha mãe. Quando ela estava grávida de mim, bateu nela e quebrou-lhe um
braço. Então, meu pai desapareceu e foi assassinado por motivos pol íticos.
HELLINGER Onde?
CLIENTE Na República Dominicana.
Hellinger escolhe um representante para o pai, outro para o seu assassino
e mais um para uma vítima do pai.
Figura 01

†P Pai, assassinado por motivos políticos.


A Assassino do pai
†V Vítima do pai
A vítima olha longo tempo para o assassino do pai. Este também olha para
ela. O pai mexe nervosamente com as mãos.
HELLINGER após alguns instantes, para o grupo Quando vocês veem isso,
quem é o assassino aqui? Em quem está a agressão?
A vítima olha para o pai e começa a tremer. Hellinger pede para a vítima
deitar-se de costas no chão, entre o pai e o seu assassino.
Figura 02

O pai olha para a vítima e respira fundo. O assassino do pai também olha
para a vítima. Depois de certo espaço de tempo, o pai ajoelha-se junto à
sua vítima e lhe segura a mão. Então Hellinger faz com que ele se deite ao
lado da vítima.
Figura 03

Depois de alguns instantes, Hellinger pede ao assassino que se deite ao lado


do pai.
Figura 04

Hellinger escolhe um representante para a mãe da cliente e posiciona -a


diante dos homens deitados no chão. Em seguida, coloca a própria cliente
na constelação, ao lado da sua mãe.
Figura 05

M Mãe
F Filha (=cliente)
A mãe dirige-se lentamente para afilha, e se afasta novamente dela. A filha
quer segurá-la e puxa suas roupas. Esta se inclina para ela, chorando alto.
A mãe puxa a gola da blusa, como se estivesse muito apertada, vira-se mais
ainda, em círculo, depois se volta para a filha e a abraça. Ambas
cambaleiam muito fortemente. Permanecem assim por longo tempo. Então,
a filha irrompe em altos soluços e não consegue se acalmar.
Figura 06

Mãe e filha caem ao chão. A mãe segura a filha nos braços, que continua
soluçando alto. O pai, deitado no chão, enxuga repetidamente as lágrimas.
Depois de algum tempo, Hellinger escolhe três homens como representantes
dos caçadores e dos mercadores de escravos, posicionando-os na
constelação.
Figura 07

ME1 Primeiro mercador de escravos etc.


A filha geme baixinho. A mãe continua segurando-a nos braços.
O segundo mercador de escravos olha para o chão, dá um passo para trás,
vira e sai. O primeiro afunda no chão, ajoelha-se e se inclina
profundamente, até atingir o chão. Então deita-se de costas. O terceiro
mercador de escravos permanece em pé, sem se movimentar.
Hellinger conduz a filha até o terceiro mercador de escravos.
Figura 08
Após alguns instantes, o terceiro mercador de escravos coloca sua mão
direita no coração e dá um passo para trás. Então ele inclina a cabeça,
levanta- a outra vez e se ajoelha. A filha chora alto e ajoelha-se também.
Ela toca na sua cabeça e ele olha para cima. Ambos se olham. O segundo
mercador de escravos, nesse meio tempo, havia se virado completamente.
Figura 09

Hellinger leva então a filha embora, para que ela possa deixar tudo isso para
trás. Ela soluça alto e abre os braços.
HELLINGER Abra os olhos.
Ela deixa os braços caírem, respira com dificuldade e se acalma. Hellinger
leva-a para mais longe dali.
Figura 10

HELLINGER Deixe os olhos abertos e olhe para as pessoas à sua frente.


Respire profundamente. Assim, exatamente. Olhe tranquilamente para
todos.
Ela se vira para o público e olha tranquilamente para todos. Vira-se então
para Hellinger e o abraça.
HELLINGER Ok?
Ela concorda com a cabeça
para os representantes Muito obrigado a todos vocês.
para o grupo Se assassinos se tornam humanos, as vítimas também podem
se tornar humanas.
para a cliente Ok, tudo de bom para você.
para o grupo Numa constelação familiar, ficamos facilmente tentados a
olhar para o que está em primeiro plano como, por exemplo nesse caso, para
a mãe e o pai e então para o pai e seu assassino, mas essa violência se
estende, em um país como a República Dominicana, para muito além no
passado. Nós pudemos ver como as coisas se encaixam, quando se olha para
elas. Se a ordem for levada, de certa maneira, a algo que ficou muito atrás
no passado, então talvez a violência cesse no presente e talvez a sua
contrapartida, a sensação de ser vítima.

CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS
A concordância 16
A concordância completa vem do coração, sem nenhuma restrição. Podemos
sentir dentro de nós qual o efeito causado na alma, se concordarmos com
tudo, do jeito que é. Se, por exemplo, aceitarmos nossos pais, do jeito como
eles são; se concordarmos com nossos antepassados, do jeito como eram e
se também concordarmos com seu destino, do jeito que ele foi. Na
profundeza da alma, podemos sentir como entramos em harmonia com eles
e como nos unimos intimamente, se concordamos com o seu destino, não
importando como tenha sido.
Essa concordância inclui-se também nas circunstâncias especiais da nossa
vida. Que tenhamos nascido nessa família especial, que tem essa fé especial,
essa tradição especial, tome-nos a seu serviço de uma maneira especial,
ofereça-nos com isso possibilidades especiais, desafiando-nos de modo
especial e, ao mesmo tempo, impondo-nos limites.
Quando olharmos também para o que deu errado em nossa vida,
concordamos com isso, do jeito como aconteceu. Podemos sentir que efeito
curador tem, em nossa alma, quando concordamos sem arrependimento e
também se concordarmos com a nossa culpa e suas consequências.
Quando vivemos em um país onde há violência, guerra civil ou alto índice
de criminalidade, podemos também concordar com essa situação, como ela
é, e sentimos o efeito dessa concordância em nossa alma. Podemos sentir
quão maior se torna o espaço para ação pensada e quanto mais força fica à
nossa disposição do que se só lamentarmos a situação e procurarmos por
culpados.

16 Extraído de um curso em Tel Aviv, setembro de 2002.


Quando somos chamados a ajudar aos que procuram ajuda e os assistimos,
ganhamos força quando concordamos com eles do jeito que são, quando
concordamos com seus pais, seu destino, sua culpa, seu sofrimento e até sua
morte, quando ela está à porta. Não oferecemos resistência, mas
concordamos e entramos em harmonia com ela. Então nos unimos a forças
maiores, que se estendem além de nós, com a grande alma, que a abrange e
a nós e conduz. Em harmonia com essa alma, podemos ajudar de uma forma
diferente, sem nos deixarmos dominar pelo sofrimento dos outros. Dessa
concordância ganhamos força, sem nos desgastarmos. Permanecemos
calmos e estamos em paz conosco e com eles.

ESCRAVOS NO BRASIL

Considerações preliminares
Durante um curso em São Paulo, em agosto de 2001, uma mulher procurou
ajuda para um irmão psicótico. Quando mencionou que seu bisavô tinha
tido muitos escravos e tinha enriquecido com isso, foi de se supor que o
irmão estava identificado tanto com os escravos quanto com o bisavô, ou
seja, que ele tinha que representar ambos. Na constelação, ele demonstrou
a mais profunda empatia para com os escravos.
Ao mesmo tempo, a constelação confirmou como a injustiça, por um lado, e
o sofrimento, por outro, continuam atuando por várias gerações, e como os
descendentes encontram paz quando se olha e se reconhece a culpa e o
sofrimento das gerações anteriores e como se consegue a reconciliação
entre os verdadeiros agressores e as vítimas.
“ATRAVÉS DE VOCÊS NOS TORNAMOS RICOS”
HELLINGER para uma mulher De que se trata?
CLIENTE Tenho um irmão psicótico, que também usa drogas. Sou a quarta
filha de uma família de sete, sendo que minha mãe ficou grávida oito vezes.
HELLINGER Você disse todo o necessário em duas frases. Posso começar
a trabalhar imediatamente. Vamos constelar: o seu pai, a sua mãe e o seu
irmão psicótico.
A cliente escolhe os representantes e os posiciona relacionados uns com os
outros.
Figura 1
P Pai
M Mãe
F Filho,psicótico
HELLINGER para a cliente O que aconteceu na família da sua mãe?
CLIENTE Meu avô se matou.
HELLINGER Como?
CLIENTE Com um tiro no peito.
HELLINGER Qual foi o motivo?
CLIENTE O que sei a respeito é: ele teve um relacionamento extraconjugal
e minha avó ficou muito triste. Minha bisavó tinha uma filha e o filho desta
filha também se matou. A outra filha da minha bisavó também faleceu muito
cedo. Tudo que sei é que meu bisavô era muito rico e tinha muitos escravos.
HELLINGER para o grupo O que é decisivo no que ela disse? Onde está a
força maior?
CLIENTE Com os escravos.
HELLINGER Exatamente, com os escravos. Vamos colocar agora seis
escravos.
A cliente escolhe dois representantes masculinos e quatro femininos para
os escravos. Hellinger os posiciona em frente ao filho. Em seguida, escolhe
mais um representante para o pai da mãe, que havia se matado, colocando -
o na constelação.
Figura 02

Es 1 Primeiro escravo
Es 2 Segundo escravo e assim por diante
†PM Pai da mãe, suicidou-se.
Após alguns instantes, Hellinger coloca o pai da mãe e seu filho ao lado
dos escravos.
Figura 03

HELLINGER para o pai da mãe Como se sente aí, melhor ou pior?


PAI DA MÃE† Melhor.
HELLINGER para o filho Como você está se sentindo?
FILHO Melhor. Faço parte disso.
Hellinger pergunta aos representantes e às representantes dos escravos
como se sentem.
PRIMEIRO ESCRAVO, UM HOMEM Sinto uma pressão metálica no lado
esquerdo da cabeça. Quando o pai da mãe e o filho foram colocados do outro
lado, a pressão desapareceu.
SEGUNDO ESCRAVO, UMA MULHER Sinto uma pressão no peito e o
olhar preso à esquerda. Não consigo olhar para o que está à minha direita.
TERCEIRO ESCRAVO, UMA MULHER Sinto medo, mas gosto de estar
aqui. QUARTO ESCRAVO, UMA MULHER Não consigo levantar o olhar
e me sinto isolada.
QUINTO ESCRAVO, UMA MULHER Primeiro me senti mal, em relação
ao filho. Agora sinto-me melhor. Quando ele se colocou ao nosso lado, senti
alívio. SEXTO ESCRAVO, UM HOMEM Meus braços estão muito pesados
e sinto um grande peso nas costas.
HELLINGER para a mãe Como você está se sentindo?
MÃE Estou tremendo e sinto-me abandonada.
HELLINGER Pegue o filho pela mão e vá com ele até onde estão os escravos
e, junto com ele, faça uma reverência a cada um dos escravos.
HELLINGER para o pai E você, fique apenas olhando.
Figura 04
A mãe se coloca com o filho diante do primeiro escravo, e ambos curvam
levemente a cabeça.
HELLINGER Com tão pouco, não é possível, não vai ser tão barato.
Eles se curvam novamente, desta vez mais profundamente.
HELLINGER para a cliente Por tão pouco eles não vão sair daqui.
Então a mãe se ajoelha no chão e o filho a acompanha. Em seguida, curvam-
se profundamente.
HELLINGER Exatamente assim é que deve ser.
Depois de eles se levantarem Olhem bem dentro dos olhos dele.
HELLINGER para a mãe Diga-lhe: “Através de vocês nos tornamos ricos”.
MÃE Através de vocês nos tornamos ricos.
HELLINGER para o primeiro escravo Como fica para você?
PRIMEIRO ESCRAVO Eu aceito.
HELLINGER para mãe e filho Dirijam-se ao próximo escravo e ajam de
acordo com o sentimento interior, da maneira que seja a certa para vocês.
Ambos se ajoelham diante do próximo escravo, uma mulher, curvando-se
profundamente. A mãe logo se levanta de novo, o filho quer ficar mais tempo
fazendo a reverência.
HELLINGER para o grupo O filho tem maior respeito pelos escravos do
que a mãe. Ela ainda está muito dura. Ele tem empatia.
Para o filho Levante-se, vá até ela.
O filho levanta-se e se dirige até essa escrava, que lhe estende as mãos.
Eles se dão as mãos e olham-se durante muito tempo nos olhos. A escrava
está muito comovida. A mãe permanece ajoelhada no chão. Nesse ínterim,
Hellinger escolhe um representante para o bisavô que tinha escravos,
integrando-o à constelação.
Figura 05
Bv Bisavô que tinha escravos
HELLINGER para esta escrava Como você está agora?
SEGUNDO ESCRAVO, UMA MULHER Primeiro, estava muito triste.
Agora estou aliviada.
HELLINGER para o filho E com você?
FILHO Gostaria muito de pedir à escrava que nos perdoe.
HELLINGER Siga seus sentimentos.
O filho vai até essa escrava. Ambos se abraçam, permanecendo assim por
um longo tempo.
HELLINGER após alguns instantes, depois que se separam do abraço e
dirigindo-se ao grupo Ele agora está melhor.
para o filho Vá até o próximo escravo.
HELLINGER para a terceira escrava Olhe para ele.
Ela e o filho se olham. Então, o filho se aproxima mais, ajoelha-se diante
dela e curva-se, fazendo uma reverência profunda. Depois de algum tempo,
levanta o olhar para ela. Permanecem assim durante muito tempo. A quarta
escrava se inclina para frente e soluça alto. A terceira coloca o braço em
volta dela, apoiando-a.
HELLINGER para o filho Vá até ela.
O filho coloca-se diante da quarta escrava que continua soluçando, sendo
agora apoiada também pela quinta.
Figura 06

Hellinger pede para o filho se afastar, coloca o bisavô diante dos escravos
e diz para eles formarem um círculo fechado ao seu redor.
Figura 07

Os escravos dão-se os braços por trás, formando um círculo fechado ao


redor do bisavô. A terceira escrava treme violentamente.
HELLINGER dirigindo-se ao bisavô, após alguns instantes Olhe para todos
eles.
O bisavô se vira para cada um dos escravos, dentro desse círculo, olhando
para ele ou para ela. Então, Hellinger coloca o filho ao lado do pai, pedindo
a este que coloque o braço a sua volta.
Figura 08

HELLINGER dirigindo-se ao filho, após alguns instantes Como você se


sente agora?
FILHO Estou tranquilo.
HELLINGER Como se sente o pai agora?
PAI Sinto orgulho por ele.
HELLINGER para a cliente, após alguns instantes Você vai contar para o
seu irmão?
CLIENTE Vou. Isto se repete também na família do meu pai.
HELLINGER Você viu a imagem.
CLIENTE Obrigada.
Ela estende as mãos para Hellinger, sacudindo-as comovidamente.
HELLINGER Ok. Muito bem.
Decorrido algum tempo, Hellinger pede para abrir o círculo.
HELLINGER para o bisavô E como foi no seu caso?
BISAVÔ No início, eu estava muito duro. Então me abrandei e entrei em
contato com eles.
HELLINGER Acho que vou deixar assim agora.
para os representantes Muito obrigado a todos vocês.
para o grupo Nessa constelação, pudemos ver que a mãe não conseguiu ter
o mesmo respeito para com os escravos quanto o filho. Por isso eu o separei
da mãe, fazendo com que prosseguisse sozinho e ele então agiu de maneira
maravilhosa, deixando tudo fluir do seu interior. Mostrava o movimento em
direção à reconciliação, e tratava-se de um psicótico. Tinha a mais profunda
empatia. Por ter podido mostrar esta empatia, iniciou-se aqui uma
reconciliação. Quando o bisavô olhou para os escravos que formavam um
círculo ao seu redor, ele sentiu a dor deles e se abrandou, mas só quando os
olhou e se deixou olhar por eles. Aí ele se tornou um ser humano entre seres
humanos.
Agora, imaginem mais uma vez o que se passou aqui e o que significa para
muitos, aqui no Brasil, que tenha havido escravos e o que fizeram com eles.
- E que antes havia os índios e o que fizeram aos índios - E que isso não
acabou, mas continua atuando nas almas, mas que existe a possibilidad e de
reconciliação, se o sofrimento dos escravos e dos índios for respeitado e se
lhes mostrarmos a empatia que merecem.

CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS
Vivos e mortos 17
Os mortos não estão mortos, no sentido de que tudo termina com a morte.
Eles continuam atuando. O que a eles foi feito também continua atuando,
até que isso seja reconhecido e até que os culpados se igualem a eles, na
morte. Quando isso é negado, inocentes serão atingidos nas gerações
posteriores, sem que saibam o motivo.
Inversamente, quando alguém se toma culpado e reconhece essa culpa, por
exemplo, se alguém matou uma pessoa e reconhece essa culpa, aí então as
gerações posteriores não serão influenciadas tão fortemente. Contudo, o
sistema só se acalma quando os agressores jazem ao lado das suas vítimas.
O passado não passou. Ele atua dentro do presente, e de múltiplas maneiras.
Se ainda existe algo que tenha que ser colocado em ordem, então é
necessário, no presente, olhar para trás, para o que aconteceu antes. Precisa

17 Extraído de um curso em São Paulo, em abril de 2001


ser colocado em ordem no passado e só então os vivos estarão livres.
De modo inverso, quando constelamos aqui o que não foi resolvido no
passado e o solucionamos, fazendo-o com respeito diante dos mortos, isso
causa efeito retroativo sobre eles, que então podem encontrar paz mais
facilmente. Por isso, este trabalho não serve somente aos vivos, mas também
aos mortos.

AMÉRICA E ÁFRICA

Considerações preliminares
Durante um curso no Instituto Omega, ao norte de Nova Iorque, em julho
de 2001, um participante citou o fato de seus antepassados terem tido
escravos, e de seu bisavô ter matado um negro, não sendo condenado por
este crime porque o júri estava de partido tomado. Na constelação que
seguiu inteiramente o movimento da alma, o bisavô, antes orgulhoso e
agressivo, sucumbiu, soluçava se arrastando em direção ao morto, segurou
sua mão e chorou.
Um representante dos Estados Unidos ajoelhou-se diante do homem morto
e dos outros escravos, fazendo uma profunda reverência, enquanto uma
representante da África abraçava os escravos, chorando com eles.

O LUTO
HELLINGER Quem gostaria de trabalhar comigo agora? Existe alguém aqui
que tenha algo sério a tratar?
para um participante De que se trata, no seu caso?
PARTICIPANTE Tenho problemas. O primeiro é que eu quero assumir mais
responsabilidades como marido e pai, e o Segundo é que eu quero saber o
que me impede de levar minhas tarefas a cabo.
HELLINGER E como posso ajudar?
PARTICIPANTE Você é quem decide se quer empreender algum trabalho
comigo.
HELLINGER Ontem você disse alguma coisa sobre escravos. Existe alguma
coisa a ser resolvida nesse âmbito?
PARTICIPANTE Talvez. Meu bisavô matou um negro, mas não foi
condenado, provavelmente porque o processo tenha sido conduzido de modo
a favorecê-lo.
HELLINGER Esse negro era escravo?
PARTICIPANTE Eu não sei se isso aconteceu antes ou depois da Guerra
Civil, mas minha família tinha escravos. Pessoalmente sinto-me muito
ligado aos escravos e tenho sentimentos paternais em relação a eles.
HELLINGER Às vezes, os mercadores de escravos também tinham
sentimentos paternais em relação a eles. Com tais sentimentos paternais, as
pessoas se elevam acima dos outros. Tem-se então pouco respeito por eles.
PARTICIPANTE Da maneira como você coloca, não posso concordar.
Sentimentos paternais são sentimentos de afeição e amor.
HELLINGER Pode ser, não quero discutir isso. Contudo, eu lhe apontei algo
importante.
PARTICIPANTE Assim, eu concordo.
HELLINGER No seu caso, talvez tenhamos que levar algo a cabo.
para o grupo Antes, gostaria de dizer algo sobre finalizar alguma coisa.
Vocês sabem por que muitas pessoas têm medo de terminar algo? Elas têm
medo de ter que morrer quando terminam um trabalho e têm a esperança de
viver mais tempo, quando deixam um trabalho inacabado.
novamente ao participante Provavelmente, com você é diferente.
PARTICIPANTE Não tenho tanta certeza.
Hellinger escolhe agora um representante para o bisavô e o posiciona.
Figura 01

Bv Bisavô
Passados alguns instantes, Hellinger escolhe quatro representantes para os
escravos e os posiciona em frente ao bisavô. No chão, ele coloca, então, um
representante para o homem morto pelo bisavô, entre os escravos e o
próprio bisavô.
Figura 02

El Primeiro escravo
E2 Segundo escravo e assim por diante
†H Homem morto, talvez um escravo
O bisavô se ergue e cerra os punhos, como se quisesse bater em alguém.
Seu rosto está crispado, demonstra arrogância e agressividade. Deixa as
mãos caírem e ergue-se mais ainda. Olha então para Hellinger e quer dizer
algo.
HELLINGER Não olhe para mim. Também não diga nada. Siga seu
movimento.
Hellinger escolhe uma mulher como representante da África e a coloca em
frente do bisavô.
Figura 03

A África
O bisavô levanta as mãos, fazendo um gesto de defesa contra a África.
Cobre o rosto com a sua mão direita, como se não quisesse olhar para ela,
continuando a fazer gestos de defesa com a outra mão.
Nesse ínterim, o primeiro e o quarto escravos posicionaram-se perto da
África. Os outros escravos também se voltaram para a África.
Figura 04

O bisavô ainda continua com sua postura de defesa, como se quisesse se


esconder atrás das mãos. Sacode então a cabeça, fazendo movimentos com
as mãos, como se quisesse enxotar a África e os escravos. Torce o rosto,
como se estivesse reprimindo um grito.
HELLINGER Se você quiser gritar, grite. Grite alto.
O bisavô solta um grito alto, cerrando os punhos. Ele mantém outra vez as
mãos diante do rosto em defensiva, vira a cabeça e grita alto. Luta contra
si mesmo, segura o rosto com as mãos e grita alto mais uma vez. Então,
vira-se de costas, olha brevemente para trás e dá alguns passos para frente,
afastando-se.
Figura 05

Após alguns instantes, Hellinger acrescenta um representante dos Estados


Unidos à constelação.
Figura 06

EUA Estados Unidos da América


O bisavô vira o tronco e a cabeça na direção da América. Decorrido algum
tempo, a América vai até o bisavô, mas vira-lhe as costas.
Figura 07
O bisavô fica nervoso, grita, como se soltasse uma grande dor. Ele dá mais
alguns passos, afastando-se ainda mais, escorrega para o chão e senta-se
sobre os calcanhares. Depois de algum tempo, cai completamente, para a
esquerda.
Enquanto isso, o primeiro escravo havia se colocado ao lado do terceiro.
Figura 08

O bisavô geme e se revira no chão. Passados alguns instantes, arrasta -se


em direção ao homem assassinado. Antes de alcançá-lo inteiramente, ele se
detém e bate com a mão no chão. Coloca a cabeça sobre o braço direito,
revira-se algumas vezes e fica deitado. O morto virou a cabeça em sua
direção. Permanecem longo tempo assim.
Figura 09

Hellinger coloca agora o representante dos Estados Unidos em frente do


bisavô e do morto.
Figura 10
O segundo escravo aproxima-se do morto e coloca-se em frente ao
representante dos Estados Unidos.
Figura 11

HELLINGER para o representante dos Estados Unidos Siga seu


movimento.
Passado algum tempo, o representante dos Estados Unidos se ajoelha,
aguarda uns instantes e se curva profundamente até ao chão. Permanece
assim até o fim da constelação.
O terceiro e o primeiro escravos colocam-se ao lado do segundo. O quarto
escravo já havia se colocado ao lado da África.
Figura 12

O homem morto havia estendido, nesse meio tempo, a mão para o bisavô.
Este a segura com firmeza. O bisavô coloca a cabeça no chão e chora.
O terceiro escravo se ajoelha perto do morto. O primeiro ajoelha-se ao lado
do terceiro, coloca-lhe a mão sobre as costas e soluça. O segundo escravo
havia cerrado os punhos. Permanecem longo tempo assim.
HELLINGER decorridos alguns instantes A representante da África deve
seguir seu movimento.
A África aproxima-se lentamente dos escravos. Coloca-se atrás deles e
abraça o segundo e o primeiro escravo. O segundo encosta a cabeça nela e
chora. O quarto ajoelha-se.
Figura 13

HELLINGER depois de alguns instantes Acho que posso deixar como está.
para os representantes Agradeço a todos vocês.
Depois que eles se levantaram, Hellinger pede aos representantes do bisavô
e do homem assassinado por ele para se aproximarem e pede-lhes que se
abracem. Eles se abraçam intimamente, durante muito tempo.
HELLINGER depois de alguns instantes Acho que posso deixar como está.
para o grupo Pudemos ver aqui como os movimentos da alma levam à
reconciliação. A reconciliação se torna possível quando ambas as partes
sentem pesar juntas, — simplesmente sentir pesar. Então podem deixar o
passado para trás e olhar juntas para frente, para o futuro.

CONSIDERAÇÕES INTERMEDIÁRIAS
O saber que leva à reconciliação18
Gostaria de dizer algumas palavras sobre a postura básica que possibilita
este trabalho em prol da reconciliação. Certa vez resumi tal postura em um
título: “Compreensão através da renúncia.” O que isto quer dizer?
Quando alguém constela sua família, eu nunca sei como vai prosseguir. Isso
permanece não transparente para mim. Portanto, não posso proceder de
acordo com um plano e também não posso contar com experiências

18 Extraído de um curso em São Paulo, em abril de 2001.


anteriores. Eu me exponho aos acontecimentos, do modo como eles surgem,
sem querer algo definido. Portanto, não tenho nenhuma intenção. E —
principalmente — não tenho receio algum. Isto é o mais importante.
Quando tenho medo, o que pode acontecer? Ou: o que diriam os meus
colegas, se eu fizesse isto ou aquilo? — Minha percepção fica perturbada.
Não olho mais para o que está diante de mim. Olho para outras pessoas, que
coloco acima de mim e me torno criança, perante eles. Então, não tenho
clareza na minha mente. A condição para haver clareza é a de que se deixe
o medo para trás.
Em seus livros sobre o xamã D. Juan, Carlos Castañeda relata como ele o
interrogou sobre os inimigos do saber. D. Juan disse: o primeiro inimigo do
saber é o medo. Quem tiver superado este inimigo, consegue clareza. Antes
disso, não há clareza.
Quem atingir a clareza, depois de ter superado o medo, não a poderá perder
nunca mais. Contudo, a clareza é o seu próximo inimigo: logo que ele
confiar nela, lhe será negado mais saber, e ele se tornará um daqueles que
ficaram parados com aquilo que reconheceram: não fazem progressos.
Quem se expõe ao novo, ao desconhecido, sem entender, supera a clareza.
Quem superou a antiga clareza, dessa maneira, adquire poder, contudo, o
poder é o seu próximo inimigo.
Vou esclarecer com um exemplo o que quer dizer “o poder é o seu próximo
inimigo”. Uma mulher, uma conhecida diretora de cinema, que tinha
trabalhado com Bertolucci e tinha muito conhecimento sobre o Tibet e
muitos gurus, veio me visitar. Quando estávamos conversando, tive uma
súbita compreensão. Eu disse: “Todo mestre que tem discípulos é corrupto.”
Primeiro, fiquei assustado, mas depois me lembrei do que Don Juan havia
dito sobre o inimigo do saber e então compreendi: quem tem discípulos tem
poder, embora não tenha superado o poder. Quem superou o poder sabe que
é igual a todas as pessoas. Por isso, ele também não pode dar aulas como
alguém que sabe mais. Se se mantiver no diálogo de igual para igual, até um
principiante pode lhe dizer algo importante.
Na Bíblia, esta renúncia ao poder é descrita através de uma grandiosa
imagem. “Esta é a aliança que firmarei com a Casa de Israel, depois daqueles
dias, diz o Senhor. No seu íntimo, lhes imprimirei as minhas leis, também
no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.
Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão,
dizendo: conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor
até ao maior deles, diz o Senhor.” (Jeremias 31, 33-34)
Quem superar também este inimigo, o poder, encontra seu próximo inimigo,
a necessidade de paz. Ele gostaria de se aposentar e não segue mais o
movimento da alma, que aspira sempre a prosseguir. Sobre este inimig o,
Don Juan diz: Não se pode superá-lo completamente, mas quando se chegou
tão longe, conseguiu-se um pouco de conhecimento essencial e, para esse
pouco de conhecimento, tudo valeu a pena.
Vou voltar agora à prática. Quando alguém se entrega a uma situação, sem
intenção e sem medo — e também sem amor, isto é muito importante —
então não se olha para ela com exatidão, mas só vagamente. A pessoa se
entrega ao todo, aguarda e então a compreensão surge do escuro, no próximo
passo, como um raio. Quando se segue essa compreensão, ocorre sempre um
grande efeito. Ou surge exatamente a palavra que deve ser dita, a frase
curadora. Às vezes, a frase parece louca, mas se ela for dita, apesar disso,
atinge a alma, tendo sempre um grande efeito.
Portanto, no trabalho a serviço da reconciliação, esta postura básica é
sempre a de que tudo depende, pois toda constelação é nova, não se pode
contar com o que foi reconhecido anteriormente. O ajudante sabe que ele
depende do que lhe é mostrado pelo movimento da alma. Por isso,
permanece humilde, pois não pode atribuir o resultado a si mesmo. O
resultado é um presente dado por algo maior. Eu o chamo de grande alma.

ISRAEL, OS PALESTINOS, O LÍBANO, A ALEMANHA

Considerações preliminares
No início do Congresso Internacional de Constelações Familiares em
Würzburg, em 2001, passei um dia inteiro no palco, diante de um grande
público, conduzindo constelações, durante as quais mostrei o que impede a
paz nas mais diferentes situações. Um libanês, originariamente um
palestino em Israel, e que posteriormente havia emigrado para a Alemanha,
procurava uma solução para seu conflito de lealdade, querendo saber a que
país pertencia, afinal. Daí resultou uma constelação na qual vieram à luz
as relações entre esses países, da maneira como ele as vivenciava em sua
alma. Ao mesmo tempo, essa constelação mostrou o que prepara os
caminhos para a reconciliação nesses países.
“PRECISO DE AJUDA”
HELLINGER para o grupo Aqui ao meu lado está sentado um cliente que é
proveniente do Líbano. Vou iniciar os trabalhos com ele.
para este cliente De que se trata?
CLIENTE Da guerra. Desde que abri os olhos pela primeira vez, só vejo
guerra e violência. Nasci em Haifa. Quando tinha dois anos, mudamos da
Palestina para o Líbano. Isso foi em 1948. Quando chegamos ao Líbano e
fui para a escola, senti-me palestino. Só bem mais tarde, quando fui para a
Alemanha, tive que me identificar como libanês.
Meu pai havia perdido seu pai quando tinha dois anos; ele havia sido
recrutado pelo Reino Otomano e não voltou mais. Durante a guerra civil do
Líbano, eu estava na Alemanha.
HELLINGER Vou parar por aqui. Vou começar com algo simples,
constelando os países, portanto, um representante para Israel, um para os
palestinos, um para o Líbano, um para o Reino Otomano e mais alguém,
para representar você.
O cliente escolhe os representantes, colocando-os em relação um ao outro.
Figura 01

Cl cliente
I Israel
P Palestinos
L Líbano
RO Reino Otomano.
HELLINGER para o grupo Não vou dizer nada agora, vou entregar os
representantes ao movimento que surgir por si só.
O representante do cliente coloca-se atrás do representante dos palestinos.
Então este se dirige lentamente para a representante do Líbano e se coloca
ao lado dela.
Figura 02

A representante do Líbano aproxima-se lentamente do de Israel e coloca-


lhe a mão sobre o ombro. Israel fica o tempo olhando para o chão.
Figura 03

O Reino Otomano e o representante do cliente afastam-se um pouco de


Israel. Então, o representante do cliente vira-se e olha para fora.
Figura 04

O representante dos palestinos também se afasta um pouco. Israel olha para


a representante do Líbano e esta olha gentilmente para Israel. Então, Israel
olha novamente para o chão e curva-se para frente.
HELLINGER para o cliente Está faltando um país, você precisa colocá-lo
na constelação. É a Alemanha.
O cliente escolhe um representante para a Alemanha e o acrescenta à
constelação. Enquanto isso, o Líbano se afasta. O representante do cliente
olha para a Alemanha.
Figura 05

A Alemanha
Israel curva-se cada vez mais fundo, até o chão, onde se deita do lado
esquerdo, com o olhar voltado em direção oposta à das outras pessoas. A
Alemanha também se abaixa mais, agacha-se, mas não completamente e
apoia as mãos nos joelhos. O Reino Otomano afasta-se ainda mais e também
o representante do cliente. O Líbano também se afasta um pouco mais.
Figura 06

HELLINGER para o grupo Vou fazer minha primeira intervenção.


Hellinger vai até o representante de Israel e pede-lhe para olhar para a
outra direção. Ele levanta a cabeça e olha ao redor. A Alemanha balança
muito.
HELLINGER Há uma direção para onde Israel nunca olha. Ela nunca olha
para o Líbano e nem para os palestinos.
Israel olha para a Alemanha, agora está deitada de costas, deixa a cabeça
cair outra vez no chão. A Alemanha ajoelha-se e olha para o chão. O Líbano
e os palestinos afastaram-se mais ainda.
Figura 07

A Alemanha arrasta-se de joelhos, aproximando-se de Israel. Ambos se


olham com intensidade. A Alemanha quer estender a mão para Israel, mas
sempre a recolhe de volta. Então, a Alemanha estende a mão para frente e
inclina a cabeça até o chão. Passados alguns instantes, ela se levanta,
recolhe a mão outra vez e olha ao redor, procurando ajuda. Estende
novamente a mão para Israel, encolhe-a novamente e bate no chão,
desamparada. Então, inclina-se de novo profundamente, com as mãos
estendidas para frente.
Nesse meio tempo, Israel colocou o braço de lado, aproximando-se um
pouco da Alemanha. A Alemanha toca hesitantemente a mão de Israel, mas
recolhe-a novamente, inclina-se até o chão e bate outra vez
desamparadamente as mãos no chão. Tenta de novo tocar a mão de Israel,
mas de novo a retira.
Quando enfim a toca, o representante de Israel se sobressalta, grita de dor
e se deita curvado do lado direito, em direção à Alemanha.
Israel soluça alto. A Alemanha tenta tocá-lo, mas continua recolhendo a
mão. Então, toca Israel no joelho, escorrega para bem perto, envolve a
cabeça de Israel e encosta sua cabeça na cabeça dela, soluça mais ainda,
com gritos de dor. A Alemanha segura Israel com firmeza e esta se acalma
muito lentamente.
Figura 09

A Alemanha se levanta, olha em volta, acena e diz: “Preciso de ajuda.


Preciso de ajuda aqui.” Aponta para Israel e diz: “Precisamos de ajuda.
Por favor, por favor, por favor.”
Uma mulher que estava entre o público sobe ao palco, curva-se sobre Israel,
segura-o com força, respira com dificuldade e chora. Uma segunda mulher
também sobe ao palco e se ajoelha ao lado da primeira.
Figura 10

A Alemanha continua acenando para os participantes. Aponta para a


representante do Líbano e os representantes dos palestinos, do Reino
Otomano e do cliente e diz: “Preciso da ajuda deles.”
Então, Hellinger manda embora as duas mulheres que haviam subido ao
palco.
HELLINGER para o grupo Não devemos permitir tantas intervenções de
fora. Aqui aparece a situação de Israel e da Alemanha, tal como ela é. Confio
nessa imagem.
Enquanto isso, a representante do Líbano havia se ajoelhado ao lado de
Israel.
Figura 11

A Alemanha tenta tocar suavemente em Israel, outra vez, mas não tem
coragem. Israel agora está calmo.
HELLINGER depois de instantes Aqui se mostra que ninguém de fora pode
intervir no conflito entre Israel e Alemanha, e mostra-se com nitidez: antes
que haja uma solução aqui, dificilmente encontrar-se-ão soluções para os
outros conflitos.
A Alemanha continua a procurar a aproximação com Israel. Olham-se
intensamente nos olhos. Passado algum tempo, Israel ergue-se um pouco.
Ambos se tocam na fronte e assim permanecem por longo tempo. Então se
olham.
Israel agora se levanta, estende as mãos para a Alemanha e a puxa para
junto de si. Ambos mantêm um intenso contato visual. O Líbano havia se
afastado um pouco.
Figura 12

Após curto espaço de tempo, a Alemanha toca com a mão direita sua
têmpora e, com a mesma mão, toca em seguida a têmpora de Israel. Então
este se afasta da Alemanha e, junto com ela, olha para os representantes
dos palestinos, do Reino Otomano e do cliente.
Depois disso, o representante do cliente coloca-se ao lado do representante
dos palestinos, que olha para o chão.
Figura 13
A representante do Líbano aproxima-se lentamente do representante de
Israel. Ele se curva profundamente, ajoelha-se e se curva até o chão. A
representante do Líbano ajoelha-se ao seu lado, coloca a mão sobre sua
omoplata e olha para o representante dos palestinos e para o representante
do cliente.
O representante dos palestinos posiciona-se atrás do representante do
cliente e coloca as mãos sobre os seus ombros.
Figura 14

Israel está muito comovido e chora. Então se levanta e estende a mão para
o Líbano. Ambos olham-se intensamente. Depois de curto tempo, soltam as
mãos. Israel olha para o chão, sacode a cabeça e faz um movimento de
desamparo com a mão. O Líbano se afasta um pouco.
Figura 15

O Líbano vai para junto do representante dos palestinos e coloca-se ao seu


lado. O representante do cliente se aproxima de Israel, que havia se erguido
inteiramente. Então, o representante dos palestinos se coloca em frente de
Israel. O representante do cliente afastou-se novamente e virou-se de costas
para o grupo.
Figura 16
O representante dos palestinos colocou a mão sobre o coração, mas deixa-
a cair novamente. Israel aproxima-se um pouco dele, virando em seguida
para o lado esquerdo. O Líbano vai para trás do representante dos
palestinos e o toca. O representante dos palestinos cai no chão, co mo se
tivesse desistido. O Líbano afasta-se um pouco.
Nesse meio tempo, o representante do cliente havia se virado novamente.
Figura 17

Israel continua indeciso, olha ao redor, procurando ajuda.


HELLINGER para o grupo Estamos vendo agora em Israel o mesmo
desamparo que vimos anteriormente na Alemanha.
Israel mexe as mãos desamparadamente, olha para o chão, vira de novo
para a esquerda, mexe com as mãos desamparadamente e sacode a cabeça.
O Líbano, nesse meio tempo, havia se colocado ao lado do Reino Otoma no.
HELLINGER Agora, Israel podia dizer também: “Preciso de ajuda.”
De repente, Israel se vira, salta do palco e se agacha no chão.
Figura 18

O representante do cliente e o dos palestinos chegam até a beira do palco


e olham para baixo. Israel tenta se esconder e anda de joelhos entre os
participantes do congresso.
HELLINGER para o grupo Vou intervir de novo.
para o representante de Israel Você tem que voltar. Este é um movimento
de fuga. Não adianta. Você tem que subir no palco de novo.
O representante de Israel volta ao palco, mexe novamente as mãos em
desamparo e gira em círculos. A Alemanha vai até ele, vira-o de frente para
o representante do cliente e o apoia por trás.
Figura 19

A Alemanha empurra Israel devagar para a frente, então, ele continua


andando sozinho. O Líbano e o Reino Otomano vão para o lado oposto, de
modo que Israel possa vê-los. O representante dos palestinos vai para trás
do representante do cliente, que agora vai até Israel. Ele abraça Israel e
soluça. Ficam assim por muito tempo.
Figura 20

O representante dos palestinos apoia o representante do cliente por trás. O


representante do cliente e o de Israel colocam-se um ao lado do outro, ficam
abraçados e olham para a Alemanha. O representante dos palestinos e a
representante do Líbano também ficam juntos, mas um pouco afastados.
Agora, todos se olham. O representante do cliente se posiciona entre o
Líbano e o Reino Otomano.
Lsrael coloca-se ao lado do representante dos palestinos e a Alemanha se
afasta um pouco.
Figura 21
HELLINGER depois de alguns instantes Acho que podemos deixar assim.
para os representantes Vou lhes perguntar o que aconteceu dentro de vocês.
ISRAEL Desde o início, eu não conseguia seguir uma direção. Então, a
Alemanha atraiu toda a minha atenção. Não vi mais nada, não sabia mais
quem era quem. Para mim, todos eram rostos estranhos. Não pude me
aproximar de ninguém nem entrar em contato com nenhum deles. De vez em
quando, sentia que estava lutando, resignando, atacando e me retirando. Não
encontrava uma saída. Queria sair de lá, por isso, saltei do palco.
Então, a Alemanha me fortaleceu a retaguarda e me apoiou. Aos poucos,
pude reconhecer os rostos estranhos e senti-los. Depois, a Alemanha tornou-
se uma estranha para mim, quando estava de frente para ela. Perdi o medo
dos estranhos. Vi que há medo, por trás desses estranhos. Senti isso quando
me aproximei deles e aí, pude me perfilar entre os estranhos.
REPRESENTANTE DOS PALESTINOS O tempo todo tive uma posição
muito fraca, e minhas pernas estavam trêmulas. O sentimento predominante
era o de estar à procura de aliados, quaisquer que fossem, mas nenhum me
deu segurança. Muito forte era o medo de Israel, quando se aproximou de
mim. Quando saltou do palco, veio-me o pensamento de que ali também
poderia haver algo como medo ou sentimento de solidão e ficou mais fácil
de ver, quando meu filho se aproximou de Israel.
LÍBANO Senti a necessidade, desde o início, de procurar uma ligação para
com os outros países que estavam lá. Primeiramente, havia uma grande
ligação com Israel, havia ali um certo calor, mas Israel tinha que se abaixar.
Então, fui até ele. Quando nosso contato aconteceu, fomos para baixo.
Percebi que tinha que sair dali. Em meus movimentos, sentia-me muito
ligado à Palestina. No final, foi importante para mim que o Reino Otomano
se aproximasse. Agora, aqui está bom para mim.
REPRESENTANTE DO CLIENTE No final, pensei que ia enlouquecer. Foi
demais para mim. Aconteceu uma grande mudança, quando Israel deixou o
palco. Senti então empatia com Israel. Antes, só tinha sentido ódio. Depois
disso, pude sentir: “Estou me sentindo como Israel: é demais.” Senti -me
ligado e brando.
De repente, subiu-me outra vez um ódio sinistro e dessa vez para com a
Alemanha. Ela é culpada. Nós dois somos vítimas da Alemanha: em
primeiro lugar, Israel é vítima da Alemanha e, depois, eu sou vítima de
Israel. A Alemanha é a verdadeira culpada. Aí eu percebi que não era só
isso. Sentia-me louco. Vi que outros também eram culpados.
O Reino Otomano ao meu lado era como meu avô. Aí, então, pude ficar um
pouco menor e não precisava pensar tanto.
O REINO OTOMANO Eu era muito velho, muito orgulhoso, muito forte.
Fiquei fraco, quando Israel e a Alemanha ficaram um nos braços do outro.
Aí, minhas pernas começaram a tremer.
A ALEMANHA Para mim, de imediato, só Israel significava algo. Queria
manter-me firme, mas não deu mais. Ceder era muito difícil para mim.
Queria manter-me firme. Então, senti esse desamparo, como se eu não
tivesse o direito de aproximar-me de Israel, de ir até ele. Senti uma grande
necessidade de olhá-lo nos olhos, durante muito tempo. O tempo para isso
foi muito breve. Então, surgiu algo como: os seus olhos são os meus olhos.
Tive então uma grande necessidade de carinho e de proteger Israel. Foi
somente um pequeno início, mas ainda está dentro do meu corpo. Ainda está
trêmulo.
Bem no final, pensei e senti: “Sei como é se sentir culpado e para Israel
talvez ainda haja uma possibilidade de solução.” Assim, apoiei um pouco
essa solução, mas sabia que só podia fazer um pouquinho. Quem sou eu,
para poder intermediar algo assim.
No que diz respeito ao cliente, estou pronta a ser uma pátria provisória para
ele, mas não é um sentimento muito forte. Sinto-me mais tranquilo, quando
o vejo ao lado do Líbano.
HELLINGER para os representantes Obrigado a todos vocês.

A GRANDE ALMA
HELLINGER para o grupo O que vimos aqui mostrou o que acontece
quando se deixa os representantes centrados e entregues aos seus próprios
movimentos. Estes movimentos trouxeram à luz algo que extrapola a
constelação familiar. Para mim, são movimentos da grande alma. A grande
alma se destaca através de algo especial. Na profundidade, esses
movimentos se dirigem à reconciliação.
Como vocês viram, é necessário muito tempo e muito fôlego, até que algo
assim possa se desenvolver. Não se pode intervir precipitadamente. Por isso,
não se pode daqui concluir quais seriam as medidas políticas que levariam
à reconciliação. Para nós, é suficiente saber: Se confiarmos nas forças mais
profundas, talvez essas forças encontrem, depois de longo tempo, os
caminhos para a solução.
Aqui se mostrou também que nos tornamos ligados a alguém quando
reconhecemos que somos culpados. Agressores ou culpados vão se entender
melhor quando ninguém mais se achar inocente e superior. O vínculo entre
iguais dá certo, quando nos despedimos da diferenciação entre bom e mau. 19

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sexta-feira da paixão 20
Hoje é Sexta-Feira da Paixão. Para os cristãos, é um dia especial. É um dia
bom? É um dia ruim? O que aconteceu nesse dia? Jesus foi crucificado em
Jerusalém, um acontecimento comum.
Sabemos pouco sobre Jesus, como Ele realmente era. Nos Evangelhos
existem diferentes camadas. Em algumas, Ele ainda aparece como era: um
ser humano que tinha consciência dos seus limites, da sua dependência de
Deus e que algumas vezes não conseguia o que queria. Portanto, no fundo,
um ser humano como nós. Era assim que ele se via.
O que aconteceu, então? Quando estava dependurado no cruz, gritou em voz
alta: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Nesse momento, era
totalmente humano, um ser humano que tinha atingido o seu limite e que
teve que vivenciar que Deus permanece inatingível para nós. Essa foi a sua
grandeza, viver e se expor a isto.
Contudo, o que fizeram com este Jesus? Para os Apóstolos, que viram tudo
e ouviram aquele grito, foi uma ideia insuportável ver que ele tinha sido
abandonado por Deus. A este grande Deus, que permanece misterioso, eles
não conseguiam se expor. Daí, pregaram que havia ressuscitado e que está
sentado à direita de Deus como Seu Filho e que virá, para julgar vivos e
mortos.
O que aconteceu, então? Do verdadeiro Jesus, pouco se falou. De repente,
ele não era mais importante. Paulo quase não citava Jesus em suas epístolas
não tinha importância para ele, mesmo suas epístolas sendo os escritos mais
antigos do Novo Testamento. Os Evangelhos surgiram bem mais tarde, trinta
a cinquenta anos depois. Foram escritos a partir da crença de que Jesus havia
ressuscitado. Com isso, o verdadeiro Jesus foi empurrado para segundo
plano.
O Jesus ressuscitado é, no fundo, um Jesus assustador, comparado ao Jesus
verdadeiro de quem ainda sabemos alguma coisa. Basta pegar o Apocalipse
de João e ler como Deus e o Jesus ressuscitado estão ali descritos. Ele vem
em um cavalo branco e, diante da cidade, exprime a fúria de Deus, o sangue
flui até as rédeas dos cavalos, por muitas milhas. Isto não é terrível? Deus
será assim, e Jesus estará sentado à sua direita, quando se fala somente em

19 Esta constelação está documentada no vídeo: Bert Hellinger: Movements Towards Peace. Alemão/Inglês.
20 Extraído de um curso em Buenos Aires, abril de 2001
sangue e em sentenças punitivas? E, ao mesmo tempo, este Deus é anunciado
como um Deus de Amor?
Neste contexto, surge algo ainda pior, o ódio dos cristãos pelos judeus. No
Evangelho de Mateus acrescenta-se uma passagem, nitidamente com má
intenção, de que todo o povo gritava: que seu sangue caia sobre nós e nossos
filhos. Aí se inicia a via crucis: o caminho do sofrimento dos judeus, sob o
jugo dos cristãos.
Quanta coisa os judeus tiveram que sofrer por parte dos cristãos: o mesmo
que Jesus. Quando se lê e se ouve isto, o que se diz sobre Jesus, é exatamente
o mesmo que fizeram com ele. Os judeus se comportaram da maneira como
Jesus é descrito: como um cordeiro, que é levado para o abate, eles não
abriram a boca. Este é o fato que mais se sobressai quanto ao holocausto, a
maneira como foram conduzidos, centenas de milhares, e não se
defenderam.
E o que, nos judeus, se sobressai para nós? O Judaísmo é uma imagem
especial na alma, pois o que os cristãos fizeram aos judeus e a maneira como
os trataram seguem uma determinada imagem interior. Quem os judeus
representam, na nossa alma? O ser humano, o homem Jesus, quem não
queremos mais admitir. Através da ressurreição foi feita uma grande
injustiça a Jesus. A Ele não é mais permitido se mostrar como ser humano,
como nós. Temos que negá-lo, porque senão precisamos nos expor ao Deus
que abandonou Jesus e que permanece inacessível para nós. Por isso,
combatemos nos judeus o lado sombrio do Cristianismo.
O dia de hoje talvez seja uma possibilidade de se refletir sobre a maneira de
permitirmos que se faça justiça, tanto ao ser humano Jesus quanto aos
judeus.
Ontem, vimos aqui em uma constelação o que acontece quando um assassino
olha sua vítima nos olhos, como ambos se encontram de repente no
sofrimento compartilhado e encontram a paz na morte. Crio aqui uma
imagem. Como seria se imaginássemos que Jesus encontrasse, no Reino dos
Mortos, Judas, os Altos Sacerdotes que o condenaram e Pilatos, encontrasse
a todos que o pregaram na cruz? Eles se olham nos olhos, tornam-se seres
humanos, choram sobre o que aconteceu e assim encontram a paz. Quando
temos essa imagem dentro de nós, então podemos olhar os judeus nos olhos,
de ser humano para ser humano e podemos chorar com eles o que lhes foi
feito durante toda a Idade Média, em muitos países cristãos, por exemplo,
na Espanha, também na Rússia e, principalmente, nos últimos tempos na
Alemanha. Então o dia de hoje seria um dia de reconciliação e de paz.
O CÉU NA TERRA 21
Este trabalho de harmonia com algo maior poderia ser designado como
espiritual ou até como religioso. Sou bastante cuidadoso quanto a isso, muito
cuidadoso. Este trabalho é profundamente humano. Traz à luz o fato de
ninguém estar sozinho e estamos todos ligados a algo diferente.
Há pouco tempo, refleti sobre o céu. Existe algo como o céu, muitos
acreditam nele. Talvez seja possível vivenciá-lo, de uma maneira humana.
O anseio que sentimos pelo céu talvez tenha seu objetivo aqui na terra.
O que acontece quando nos abrimos ao anseio pelo céu? Ouvimos ao longe,
bem distante, ficamos ouvindo atentamente o que a distância diz, para ver
se percebemos algo. Nesse ouvir a distância estamos concentrados.
Percebemos algo — sem palavras e olhamos, talvez, não para o que está
perto, para a distância, e nos expomos a algo que está distante, longe.
Não enxergamos exatamente e contudo estamos abertos para algo maior,
nesse ver e ouvir. Saímos de nós mesmos e entramos em harmonia com esse
algo maior, oculto. Existe uma palavra para esse algo maior, na qual tudo
isso é sentido em plenitude: a palavra é o nada. Quero explicar isso um
pouco.
Tudo que existe está cercado pelo não-ser. O ser é limitado — frente a quê?
Ao não-ser. O não-ser é infinito. Comparado ao ser, é infinito.
Expormo-nos ao não-ser faz-nos parecidos com o não-ser, quer dizer, faz-
nos expandidos e, de certa maneira, infinitos. Expor-se ao não-ser, ouvindo
e olhando para a distância e incluindo o todo nos sentimentos, aproximando-
se do não-ser - isso preenche. Nesse movimento, vivenciamos o céu.
Se então várias pessoas fizerem essa experiência simultaneamente, unem -se
umas às outras nessa experiência e essa experiência deixa de ser isol ada,
une muitos em uma só postura. Então, todos se tornam ligados ao céu e uns
com os outros. Por isso, atingimos esse céu quando nos movimentamos na
presença de todos os seres humanos.
Existe a ideia da modificação na presença de Deus, em alguns movimentos
religiosos e espirituais. Vocês podem imaginar ou sentir o efeito que isso
causa na alma? Para comparar, imaginem que caminham da mesma maneira
na presença dos seres humanos, com o mesmo movimento, o de ouvir ao
longe, olhar ao longe, sentir ao longe. O que está próximo ao divino, se isso
existe? O que está mais próximo do céu?

21 Extraído de um curso em Roma, em maio de 2002.